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Otra Economía, 10(19):208-217, julio-diciembre 2016

Unisinos - doi: 10.4013/otra.2016.1019.07

Fábricas e máquinas recuperadas: experiências


de adequação sociotécnica no Brasil e na Argentina

Recovered factories and machines: Experiences of


sociotechnical adaptation in Brazil and Argentina

Rafael de Brito Dias1


rafael.dias@fca.unicamp.br

Rafael de Almeida Martarello¹


martarellorafael@gmail.com

Resumo. No mundo contemporâneo, a tecnologia é Abstract. In the contemporary world technology is


geralmente considerada um elemento fundamental usually considered as a crucial element of social re-
para a formação das relações sociais. Para diversos lationships. It is also recognized by several authors
autores, ela é reconhecida também como instrumen- as a political tool through which power relation-
to político, por meio do qual as relações de poder ships may be preserved or transformed. This study
são preservadas e transformadas. O presente estudo draws elements from this tradition and seeks to
situa-se nessa tradição e tem como objeto de análise analyze some processes that are capable of chang-
alguns dos processos por meio dos quais se modi- ing the structure of the property of the means of
ficam as estruturas de propriedade dos meios de production, as well as the results of these changes,
produção, bem como os resultados dessas mudan- in the context of the Solidarity Economy. Based on
ças, no âmbito da Economia Solidária. Por meio de a review of the literature and on a set of interviews
revisão bibliográfica, entrevistas e visitas (realizadas and visits (in 2014 and 2015) to two recovered fac-
em 2014 e 2015), foram estudadas duas fábricas re- tories (Flaskô in Brazil and CAFLA in Argentina)
cuperadas, uma no Brasil(Flaskô) e outra na Argen- we sought to identify processes of technological
tina (CAFLA), para averiguar a existência de proces- modifications and management changes devised by
sos de modificações, realizadas pelos trabalhadores, workers, associated to strategies of “sociotechnical
na tecnologia e na gestão dessas duas fábricas, as- adaptation”. We observed the existence of several
sociados a estratégias de “adequação sociotécnica”. examples of technological redesign aimed at mak-
Observamos a existência de vários exemplos de re- ing production more adherent to the principles of
projetamento tecnológico com a finalidade de tornar self-management, cooperativism and solidarity
a forma de produzir mais aderente aos princípios da economy. The research has shown that relevant ex-
autogestão, do cooperativismo e da Economia Soli- periments in terms of sociotechnical adaptation are
dária. A pesquisa mostrou que experiências relevan- being conducted in Latin America. It has also pro-
tes em termos de adequação sociotécnica em fábri- vided evidence that technological innovation may
cas recuperadas têm sido desenvolvidas na América also find fertile ground to sprout in productive en-
Latina. Permitiu, ademais, a verificação da existên- vironments outside of the traditional ones, associ-
cia de inovações tecnológicas em arranjos produti- ated with standard capitalist firms.
vos que fogem do padrão tipicamente associado ao
modelo de empresas capitalistas.

Palavras-chave: fábricas recuperadas, economia so- Keywords: recovered factories, solidarity economy,
lidária, adequação sociotécnica. sociotechnical adaptation.

1
Universidade Estadual de Campinas. Rua Pedro Zaccaria, 1300, 13484-350, Limeira, SP, Brasil.

Este é um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), sendo
permitidas reprodução, adaptação e distribuição desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
Rafael de Brito Dias, Rafael de Almeida Martarello

Introdução tencial que o tema tenha atraído a atenção de


muitos pesquisadores latino-americanos, os
O fenômeno de recuperação de empresas quais, gradualmente, têm contribuído para a
por trabalhadores (ERT) é entendido como conformação de uma agenda de pesquisa rele-
“um processo social e econômico que pressu- vante e aderente ao contexto social, econômico
põe a existência de uma empresa capitalista e político da região.
anterior cuja falência ou inviabilidade econô- No âmbito dessa discussão, a compreensão
mica resultou na luta dos trabalhadores por acerca do papel da tecnologia nas estratégias
autogeri-la” (Henriques et al., 2013, p. 27). para a viabilização das fábricas recuperadas
Como resposta ao problema da quebra de em- constitui um aspecto absolutamente relevante,
presas (processo resultante da própria dinâmi- contudo ainda relativamente pouco explora-
ca concorrencial capitalista), a recuperação de do. Este artigo pretende oferecer contribuições
fábricas pelos trabalhadores tem se mostrado a esse debate, a partir de um esforço de revisão
uma alternativa atrativa. bibliográfica e de pesquisa de base empírica,
As primeiras experiências associadas às realizada em duas fábricas recuperadas, uma
fábricas recuperadas enquanto forma de re- brasileira (Flaskô) e uma argentina (CAFLA).
sistência da classe trabalhadora remontam ao No sentido de executar essa estratégia me-
século XIX (Faria et al., 2008), com experiências todológica, realizamos visitas às duas fábricas,
na Comuna de Paris, quando operários conver- no contexto das quais foi possível observar
teram fábricas abandonadas pelos proprietá- práticas e comportamentos dos trabalhadores,
rios em cooperativas. Desde então, em momen- bem como as condições técnicas e materiais
tos de crise sistêmica, nos quais se intensifica a que constituem esses espaços (apoiando-nos
falência de empresas, a recuperação de fábricas em procedimentos de caráter etnográfico, ape-
pelos trabalhadores tem sido notada. sar de não termos permanecido no campo por
Contudo, mais do que uma solução tran- períodos longos). O que motivou essa preo-
sitória para um problema pontual, esse fenô- cupação em buscar evidências empíricas que
meno deve ser entendido como um espaço de pudessem subsidiar nossas reflexões ao longo
resistência, no qual alternativas à tradicional da pesquisa foi a percepção de que é necessá-
estrutura de propriedade dos meios de pro- rio avançar na compreensão da relação entre
dução têm sido buscadas. O modelo conven- a tecnologia e os processos de organização do
cional de organização da produção é marcado trabalho e da gestão, especificamente em em-
pela hierarquia vertical, no qual a figura do preendimentos econômicos solidários. Não
chefe ou do patrão representa a autoridade à se trata, assim, de um mero esforço de buscar
qual os trabalhadores estão subordinados. Há validar pressupostos teóricos através de evi-
intensa especialização de tarefas, resultando, dências empíricas, mas de uma preocupação
inclusive, em uma distinção entre quem plane- em fazer avançar as ideias a partir dos dados
ja e decide e quem apenas executa tarefas. Esse obtidos por meio do contato com a realidade,
padrão, no contexto das fábricas recuperadas, em consonância com os esforços empreendi-
frequentemente dá lugar a uma organiza- dos nesse sentido por um conjunto de traba-
ção associativa de trabalhadores que buscam lhos inseridos no campo dos Estudos Sociais
manter uma gestão horizontal, incorporando da Ciência e da Tecnologia na América Latina
e ressignificando funções antigas e criando (Thomas, 2010). É também deste campo, por
outras novas. Estas características permitem o meio de um esforço de revisão bibliográfica,
desenvolvimento autônomo de cada unidade que extraímos os elementos analítico-concei-
produtiva, propiciando a criação de múltiplas tuais que ofereceram substrato aos argumen-
maneiras de organizar o processo de produção tos que aqui apresentamos. Apoiamo-nos, ain-
e gestão da fábrica. da, em trabalhos que se inserem no campo da
Evidentemente, há muitos problemas e Economia Solidária (Singer, 2008; Schiochet,
constrangimentos na forma como efetiva- 2012) e que abordam temas como fábricas re-
mente esses processos se estruturam. Mas há cuperadas, autogestão e cooperativismo (Nas-
também potencial nas experiências de recupe- cimento, 2004; Novaes, 2007; Faria et al., 2008).
ração de fábricas, que fornecem importantes De modo a avançar nessas reflexões, parti-
lições para que pensemos em estratégias viá- mos da ideia de que a configuração de formas
veis de superação das formas tradicionais de de controle criadas pela tecnologia na esfera
organização das unidades produtivas. Talvez da produção opera no sentido de afirmar a re-
seja em decorrência da percepção desse po- lação de exploração sobre a qual o capitalismo

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foi erigido. Essa visão remete às abordagens do projeto “Fábricas Recuperadas na América
políticas do aparato tecnológico e nos convida Latina: estudo comparado entre Brasil e Ar-
a refletir sobre a tecnologia como um conjunto gentina”, desenvolvido com apoio do CNPq.
de “arranjos físicos com propósitos políticos Através dos resultados obtidos nesta pesqui-
explícitos ou implícitos” (Winner, 1980, p. 124). sa, buscamos, ao longo das páginas seguintes,
Tal reflexão é necessária, no sentido de fa- refletir sobre a discussão a respeito da AST e
zer que funcionem, a partir de uma perspecti- suas implicações. Posteriormente, mostramos
va tecnológica, experimentos de superação da algumas das evidências de realização de AST
forma capitalista de produção. Algumas expe- identificadas nas fábricas visitadas. Ao final
riências no socialismo, como mostra Novaes do artigo, recuperamos os principais pontos
(2012), não foram além da simples apropriação da argumentação e concluímos que, sim, há
da tecnologia capitalista por meio da tomada potencial inovador nas fábricas recuperadas
de comando das fábricas. Como aponta o au- latino-americanas – e este pode (e, de fato,
tor, a “expropriação dos expropriadores deixa deve) ser alinhado a projetos de desenvolvi-
em pé a estrutura do capital” (Novaes, 2012, mento que passam pela Economia Solidária.
p. 42). Nesse sentido, estratégias efetivas de
transformação necessariamente envolveriam o A adequação sociotécnica como
“controle global do processo de trabalho pe-
ferramenta de transformação das
los produtores associados, e não simplesmen-
te a questão de como subverter os direitos de formas de produção
propriedade estabelecidos” (Mészáros, 2002 in
Novaes, 2012, p. 42). A tecnologia, como mencionamos acima,
Desta maneira, deve haver atenção especial não é um elemento neutro na determinação
com a tecnologia para que seja possível alcan- das relações sociais. No âmbito da produção,
çar, como argumenta Mészáros (2002), a “er- em particular, ela se constitui não apenas como
radicação do capital como modo de controle reflexo, mas também como baluarte da subor-
totalizante do próprio sociometabolismo re- dinação do trabalho ao capital, como mostram
produtivo, e não simplesmente o deslocamen- Dias e Novaes (2010).
to do capitalista da condição historicamente Nas palavras dos autores,
específica de ‘personificação do capital’” (Més-
záros, 2002 in Novaes, 2012, p. 42). Afinal, não é plausível afirmar que a tecnologia capitalis-
ta convencional reforça a dualidade capitalista,
se trata apenas de uma transição de proprie-
submetendo trabalhadores a detentores dos meios
dade e controle das forças produtivas, mas de de produção e países subdesenvolvidos a países
sua radical reestruturação. desenvolvidos, perpetuando e ampliando as as-
Nesse sentido, como proposta de trans- simetrias de poder dentro das relações sociais e
formação produtiva (e, por extensão, social) políticas. Nesse sentido, a TC [tecnologia con-
a partir da tecnologia, Dagnino et al. (2010) vencional] pode ser vista como um elemento que
propõem a ideia de adequação sociotécnica provoca a gradual erosão da democracia (Dias e
(AST). Trata-se de um conceito que remete a Novaes, 2010, p. 144).
um processo de redesenho da tecnologia, com
diferentes graus de complexidade, com a fi- Como alternativa a esse padrão tecnológi-
nalidade de torná-la mais aderente às formas co – e, portanto, aos problemas a ele associados
de organização da produção e da gestão pelos – vislumbra-se a tecnologia social (TS), conceito
trabalhadores no contexto da autogestão e da que tem servido para tratar o conjunto das res-
Economia Solidária. Trata-se de um “processo postas técnicas a diferentes formas de exclusão
inverso ao da construção, em que um artefa- e de opressão, inclusive no ambiente produtivo.
to tecnológico ou uma tecnologia sofreria um Para Dagnino (2011), a tecnologia social se-
processo de adequação aos interesses de gru- ria fruto da ação de coletivos de produtores,
pos sociais relevantes distintos daqueles que o em um contexto no qual a propriedade dos
originaram” (Novaes, 2005, p. 8). Um proces- meios de produção seria coletiva e a produ-
so, portanto, que deve ser explorado em maior ção ocorreria em arranjos associativos, coope-
profundidade no âmbito das pesquisas inseri- rativos e autogestionários. Mais do que uma
das no campo da Economia Solidária, dadas acepção ideal do conceito, trata-se do reconhe-
suas possibilidades teóricas e políticas. cimento de que a tecnologia social poderia,
Motivados por essa percepção, empenha- na prática, servir como elemento indutor da
mo-nos nesta pesquisa, inserida no contexto transição do atual padrão de produção para

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outro, que se aproximaria daquele idealizado ção sociotécnica encontrada com certa
pela Economia Solidária. Nessa direção, reco- frequência em empreendimentos soli-
nhecemos, como Dias (2013, p. 179), que a tec- dários;
nologia social deve ser pensada como “a base (ii) Apropriação: envolve a ampliação do co-
material e cognitiva de uma sociedade mais nhecimento do trabalhador acerca dos
justa, solidária, democrática e ambientalmente aspectos produtivos e gerenciais no am-
sustentável, em consonância com os princípios biente de trabalho, porém sem modifi-
da autogestão, do cooperativismo e do desen- cação da tecnologia;
volvimento local”. (iii) Revitalização ou repotenciamento das
Essa visão se apoia na noção de que tec- máquinas e equipamentos: pressupõe a
nologia e sociedade são dimensões indisso- realização de intervenções tecnológi-
ciáveis. As mesmas dinâmicas que operam cas orientadas a expandir a vida útil e
no sentido de permitir que a tecnologia con- garantir o adequado funcionamento de
vencional sustente as relações de produção máquinas e equipamentos;
tipicamente capitalistas poderiam levar à (iv) Ajuste do processo de trabalho: refere-se
superação dessas relações, com o apoio da a mudanças na forma de organização
tecnologia social, por meio de processos de do processo de trabalho em direção à
Adequação Sociotécnica (AST). propriedade coletiva dos meios de pro-
A adequação sociotécnica seria, assim, um dução, às hierarquias horizontais e ao
caminho pelo qual as características constituti- controle autogestionário;
vas da tecnologia convencional poderiam ser (v) Alternativas tecnológicas: relacionada à
modificadas, de modo a viabilizar a gênese da busca e adoção de soluções tecnológicas
tecnologia social e, assim, engendrar a base existentes que sejam mais adequadas às
material e cognitiva que permitiria o avanço demandas e necessidades dos empreen-
da Economia Solidária, da autogestão e do dimentos solidários;
cooperativismo. Trata-se de uma estratégia (vi) Incorporação de conhecimento científico-tec-
que poderia, nesse sentido, viabilizar a tran- nológico existente: representa o esforço de
sição para um padrão tecnológico adaptado a absorção de conhecimentos já existentes
empreendimentos autogestionários (inclusive e sua ressignificação no sentido de po-
de pequeno porte), sustentáveis do ponto de tencializar novos processos produtivos,
vista ambiental, econômico e político, não ex- aderentes às demandas e necessidades
cludentes e no âmbito dos quais o potencial dos empreendimentos solidários, resul-
criativo do produtor direto possa ser realizado tando em inovações incrementais;
por meio do trabalho. (vii) Incorporação de conhecimento científi-
A transição da tecnologia convencional co-tecnológico novo: trata-se da forma
para a tecnologia social, segundo Dagnino et mais complexa de adequação sociotéc-
al. (2010, p. 100-101), dar-se-ia pela aplicação nica. Envolve pesquisas orientadas a
de “critérios suplementares aos técnicos-e- explorar as fronteiras do conhecimen-
conômicos usuais a processos de produção to, de modo a gerar novos saberes e
e circulação de bens e serviços em circuitos inovações radicais que possam contri-
não-formais”. Ou seja, passaria pelo reproje- buir para a efetiva transformação dos
tamento da tecnologia de modo a contemplar processos produtivos e da gestão dos
critérios para além dos usuais (efetividade, efi- empreendimentos solidários.
ciência, produtividade, etc.), de modo a resga-
tar o trabalhador enquanto sujeito fundamen- Essas modalidades de adequação sociotéc-
tal da produção. nica, apresentadas em maior detalhe por Dag-
O processo de adequação sociotécnica pres- nino et al. (2010), podem ser compreendidas
supõe, dessa maneira, a construção de outra como marcos de uma narrativa que retrata a
postura frente à tecnologia, que passaria por transição de um padrão apoiado na tecnologia
sete modalidades distintas, num gradiente de convencional por outro, baseado na tecnologia
crescente complexidade, conforme proposto social. Não representam, necessariamente, fa-
por Dagnino et al. (2010): ses ou etapas sucessivas, mas podem ser enten-
(i) U
 so: manutenção do emprego de tecno- didas como uma tipologia útil para interpretar
logia convencional, mas com mudanças mudanças associadas à tecnologia no contex-
na forma como se reparte o excedente to dos empreendimentos solidários. Partindo
gerado na produção. Forma de adequa- de semelhante percepção, alguns autores têm

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Fábricas e máquinas recuperadas: experiências de adequação sociotécnica no Brasil e na Argentina

empregado essas formulações na compreen- enfrentados) pelos trabalhadores por meio de


são da dimensão sociotécnica de experiências intensa mobilização.
das mais diversas, inseridas no contexto da A Flaskô, que até o ano de 2014 possuía
Economia Solidária (Gutierrez e Zanin, 2013; 62 trabalhadores, obteve diversas conquistas,
Gavino, 2014) e da agroecologia (Neder, 2015), segundo Mandl (2012), tais como avanço na
por exemplo. constituição de uma consciência de classe en-
É justamente buscando contribuir para esse tre os operários, menor alienação e mudanças
debate que procedemos à investigação das in- nas relações de trabalho sob a lógica do bem-
tervenções tecnológicas conduzidas por tra- -estar coletivo, diminuição dos acidentes de
balhadores na Flaskô e na CAFLA, de modo a trabalho e diminuição na jornada de trabalho
verificar se estão ocorrendo processos de ade- para 30 horas sem redução salarial.
quação sociotécnica em fábricas recuperadas Dado o escopo do presente trabalho – e a
na América Latina. Os resultados dessa pes- existência de bibliografia que o antecede e que
quisa são apresentados nas páginas seguintes. é aqui referenciada – não aprofundaremos na
exposição dessa trajetória. No entanto, julga-
Adequação sociotécnica na Flaskô mos ser pertinente destacar que a experiência
autogestionária da Flaskô ao longo de sua tra-
Situada em Sumaré (SP), a Flaskô foi fun- jetória como fábrica recuperada possibilitou
dada em 1977, originalmente como parte da que buscasse novas formas de relação com seu
Companhia Hansen Industrial S.A. e dedican- entorno, conferindo uma nova dimensão a seu
do-se à produção de embalagens industriais papel social.
plásticas de grandes volumes para a indústria Nessa direção, observou-se, desde 2003,
alimentícia, petroquímica e farmacêutica, che- um aprofundamento das relações entre a
gando a contar com cerca de 600 funcionários Flaskô e a comunidade, por meio de projetos
na década de 1980 (Verago, 2011). como a Fábrica de Cultura e Esporte, espaço
A abrupta abertura comercial implementa- organizado pela Flaskô e destinado à realiza-
da nos anos 1990representou um duro golpe ção de diversas atividades abertas à comuni-
à empresa, que já atravessava um período de dade, tais como exibição de filmes, realização
dificuldades, como a redução da massa de ca- de oficinas profissionalizantes e artísticas,
pital causada pelo desmembramento do Gru- organização de festivais culturais e promo-
po Hansen em 1992, conforme mostra Raslan ção de educação para jovens e adultos e de
(2007). Em decorrência do quadro de pressões atividades esportivas. Por meio de iniciativas
econômicas, greves tornaram-se mais frequen- como essas, a Flaskô tem se tornado referên-
tes a partir de 1997. Finalmente, a insustenta- cia importante no âmbito da Vila Operária e
bilidade da situação financeira da empresa fez Popular, bairro construído próximo à fábrica
com que a Flaskô abrisse processo de falência e onde atualmente vivem mais de 550 famí-
em 2003. Em decorrência dessa situação, os lias (Camargo, 2015).
trabalhadores da fábrica empreenderam uma Em relação à organização do trabalho, a
greve buscando garantir o pagamento de salá- Flaskô tem se empenhado em suprimir a di-
rios e a regularização de direitos devidos, além visão de tarefas por gênero, por meio da alter-
do resguardo de seus empregos (Raslan, 2007). nância dos operários no uso das máquinas. As
Essa greve representou um marco impor- funções são distribuídas de acordo com a ex-
tante no âmbito do movimento de Fábricas periência prévia dos trabalhadores, geralmen-
Ocupadas no Brasil e deu visibilidade à luta te decorrentes de cursos de formação técnica.
na Flaskô, que se tornou uma espécie de sím- A produção, atualmente, resulta em perda
bolo de resistência – e de alternativa – ao fe- zero de matéria-prima, ou seja, com aproveita-
chamento de empresas falidas. A trajetória mento de todo o material básico utilizado na
da Flaskô, desde então, caracterizou-se pelo produção. O principal produto fabricado pela
enfrentamento de entraves judiciais, econô- Fábrica Ocupada Flaskô, e pelo processo de
micos, políticos, culturais e tecnológicos, bem produção com máquinas recuperadas, são as
como pela constituição de um modelo diferen- bombonas plásticas.
ciado de relações de trabalho e de autogestão. As alterações de layout da fábrica, promo-
A história dos primeiros anos da recuperação vidas pelos trabalhadores, realizaram-se atra-
da empresa, relatada com riqueza de detalhes vés da mudança de posicionamento de má-
por Raslan (2007), foi marcada por muitos de- quinas, mudança do espaço em que ficavam
safios, que foram superados (ou, ao menos, as máquinas, mudança do local de estoque,

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mudança do local de setores – o comercial Abaixo, apresentamos, de forma sintética, os


tornou-se próximo à produção e a produção processos de AST observados na Flaskô:
mais próxima ao estoque. Com isso, ao dimi- (i) Uso: após a ocupação, os trabalhadores
nuir as distâncias entre máquinas, houve um dividiram equitativamente o resultado
ganho de eficiência no processo de transporte financeiro obtido com as vendas, socia-
entre as estações de trabalho, além de facilitar lizando as retiradas, em oposição ao mo-
o escoamento da produção para os clientes delo tradicional anterior, no qual parte da
da fábrica. Como resultado da aproximação receita era convertida em lucro e salários.
dos setores, houve uma ampliação do contato (ii) Apropriação: desde 2003, a Flaskô ado-
pessoal e profissional entre trabalhadores de tou a propriedade coletiva dos meios
diferentes setores, além do aperfeiçoamento de produção, agora sob controle dos
do controle da produção por demanda pu- operários. Houve também uma sociali-
xada. A fábrica recentemente trabalha com zação e ampliação do conhecimento dos
redução de estoques, o que possibilita que trabalhadores acerca dos processos de
problemas de qualidade do produto sejam gestão e produção.
identificados com alto grau de precisão, além (iii) Revitalização ou repotenciamento das má-
de propiciar maior atenção ao gerenciamento quinas e equipamentos: houve a recu-
dos canais de distribuição. peração de uma máquina sopradora
Com a finalidade de melhor compreender a pelos trabalhadores, nos parâmetros
percepção dos trabalhadores perante a tecno- descritos por Dagnino et al. (2010).
logia (em especial, do papel político que essa A intervenção sobre a máquina, reali-
desempenha no ambiente produtivo) e enten- zada por vários trabalhadores, envol-
der a razão pela qual foi feita a reestruturação veu a trocado painel de comando, de
das máquinas na fábrica, realizamos visitas à alguns pistões e, por fim, a revitaliza-
Flaskô e entrevistas envolvendo trabalhadoras ção da parte hidráulica. O novo painel
e trabalhadores. As entrevistas, realizadas a instalado (painel por posição) foi cons-
partir de roteiros semiestruturados, cobriram truído pelos próprios operários, utili-
uma amostra de 16% dos trabalhadores da zando material disponível na fábrica, e
fábrica. Nessas ocasiões, discutimos questões substituiu o modelo anterior, elétrico.
que evidenciaram percepções e posicionamen- (iv) Ajuste do processo de trabalho: no contex-
tos relacionados à neutralidade da tecnologia, to da Flaskô, foram observados ajus-
à política por trás da organização de processos tes relacionados ao controle operário
e às mudanças que foram realizadas nas má- da produção, tais como a formação de
quinas e equipamentos durante a experiência um Conselho de Fábrica para o estabe-
autogestionária da fábrica. lecimento de diretrizes de gestão, no
Com base nas respostas, foi possível veri- âmbito do qual as decisões se dão de
ficar que não existe uma preocupação coletiva forma horizontal, bem como a criação
sobre a neutralidade do aparato tecnológico. de um setor de mobilização, imprescin-
Poucos trabalhadores disseram já ter refle- dível para uma Fábrica Ocupada, que
tido sobre o assunto, e a maioria manifestou tem sido bastante ativo. Tais mudanças
a percepção de que o maquinário é isento de têm contribuído para a manutenção e
valores. A maior preocupação por parte deles aprofundamento de formas de controle
reside na obsolescência do maquinário utiliza- autogestionário da produção.
do atualmente. (v) Alternativas tecnológicas: a última moda-
Partindo de constatações durante as visi- lidade de adequação sociotécnica que
tas e das respostas obtidas nas entrevistas, a identificamos na Flaskô. Aqui, destaca-se
respeito de intervenções realizadas pelos tra- primeiramente o projeto de um molde
balhadores sobre o maquinário, os processos para tampa autotravante, desenvolvida
de trabalho e as formas de gestão implemen- pelos trabalhadores, e uma modificação
tadas na fábrica, identificamos que processos incremental em uma das máquinas (IPE
de adequação sociotécnica foram conduzi- 250). As modificações empreendidas na
dos em cinco de suas modalidades. Apenas IPE 250 colocaram um novo sistema de
aquelas mais complexas (incorporação de alimentação na máquina, inserindo um
conhecimento científico-tecnológico existen- componente mecânico em substituição
te e incorporação de conhecimento científi- ao abastecimento manual. Houve troca
co-tecnológico novo) não foram constatadas. do padrão de fuso utilizado e do motor

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Fábricas e máquinas recuperadas: experiências de adequação sociotécnica no Brasil e na Argentina

hidráulico por um mais moderno, elé- manter vendas antecipadas pagas, fator que
trico e com inversor de frequência. Tam- em época de preços oscilantes e desvaloriza-
bém houve a instalação de um painel ção monetária gerou um significativo aumento
digital no lugar daquele anteriormente das dívidas da empresa.
utilizado, analógico. Como resultado, Os constrangimentos perduraram até 2006,
obteve-se um significativo incremento momento em que a fábrica entrou em pleno
na produtividade da máquina. processo de esvaziamento, além de não poder
mais honrar as contas com fornecedores, credo-
A partir das evidências encontradas, nota- res e dívidas fiscais. A situação dos trabalhado-
-se que os processos observados na Flaskô de- res também era crítica, em decorrência de atraso
notam mudanças significativas na tecnologia, de cinco meses no pagamento de salários, entre
na organização do trabalho e na gestão. Embo- dezembro de 2005 e abril de 2006. O agrava-
ra essas mudanças, na maioria dos casos, não mento dos problemas vivenciados pelos traba-
sejam reflexos de um esforço deliberado e pla- lhadores na CAF levou a uma mudança em sua
nejado de transição sociotécnica no contexto postura, culminando na decisão de lutar pela
da fábrica, constituem tentativas de modificar recuperação da fábrica após tomarem contato
aspectos fundamentais da condução dos pro- com outras experiências de fábricas recupera-
cessos de trabalho e de produção. das. O dia 1° de junho de 2006 é ainda hoje lem-
brado pelos trabalhadores como seu primeiro
Adequação sociotécnica na CAFLA dia de trabalho sob um arranjo autogestioná-
rio, em um empreendimento agora rebatizado
A Cooperativa de Trabalho CAFLA é um como Cooperativa de Trabalho CAFLA.
empreendimento do setor de plástico e meta- A cultura de solidariedade historicamente
lurgia localizada na cidade autônoma de Bue- construída no âmbito do movimento operário
nos Aires na Argentina. Nascida em 1971, com argentino foi importante para impulsionar a
a fundação da empresa de Sociedade Limitada recuperação da CAFLA. Em um primeiro mo-
CAF, iniciou suas atividades no setor metalúr- mento, o movimento de fábricas recuperadas
gico e, em 1986, incluiu a produção de acessó- colaborou garantindo a alimentação dos traba-
rios sanitários, mantida até hoje. lhadores, além de sanar, em um segundo mo-
A Cooperativa de Trabalho CAFLA conta mento, via empréstimo de outra cooperativa,
atualmente com 12 sócios e cinco empregados, dívidas relacionadas ao fornecimento de ener-
sendo quatro deles em contrato temporário e gia elétrica. Embora os trabalhadores estives-
um em regime fixo, que participou do processo sem com as máquinas e o galpão da empresa
de recuperação da fábrica, mas não quis tornar- falida, eles se encontravam sem capital de giro
-se sócio. Os sócios recebem o mesmo valor de para a compra de matéria-prima, situação que
retirada, ao passo que os empregados recebem também foi equacionada por empréstimos.
o indicado pela categoria. A bibliografia acadê- Garantidas as condições mínimas para re-
mica referente à CAFLA é escassa. Contudo, há tomar a produção, a CAFLA retomou suas ati-
relatórios que visam informar sobre o cenário vidades, inicialmente produzindo acessórios
de fábricas recuperadas argentinas, da qual a sanitários de menor custo e, posteriormente,
Cooperativa tem participado com a colaboração à medida que foi recuperando seu capital de
de dados e informações gerais (como o “Guía giro, incorporando insumos como bronze e co-
de Empresas Recuperadas y Autogestionadas bre, que permitiam a fabricação de produtos
por Sus Trabajadores”, publicado pelo Ministe- de maior valor agregado.
rio de Trabajo, Empleo y Seguridad Social da Após 30 meses de experiência autogestio-
Argentina). As informações que apresentamos nária, a CAFLA transferiu suas atividades pro-
nas próximas páginas são baseadas nesses do- dutivas para um novo galpão e promoveu um
cumentos, mas sobretudo nos dados coletados esforço de aquisição de máquinas, muitas das
durante as visitas realizadas à CAFLA e do diá- quais eram usadas e tiveram de ser restaura-
logo com alguns de seus trabalhadores. das e revitalizadas. Algumas das intervenções
Devido ao contexto de forte crise econô- que observamos enquanto experiências de
mica iniciado nos anos 1990 (e cujo auge na adequação sociotécnica remetem a esse mo-
Argentina se deu em 2001), muitas empresas mento na trajetória da cooperativa.
passaram por dificuldades. A CAF (que poste- O cenário atual observado na cooperativa
riormente daria origem à CAFLA) foi uma de- é bastante positivo, e a experiência autogestio-
las, intensamente prejudicada pelo hábito de nária da CAFLA parece ter sido bem-sucedida.

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Rafael de Brito Dias, Rafael de Almeida Martarello

Ela não mantém dívidas com fornecedores e diferentes graus de complexidade. A seguir,
apresenta resultados que apontam para sua apresentamos a síntese das evidências encon-
autonomia e sustentabilidade econômica. O tradas na CAFLA:
tipo de processo de fabricação em massa da (i) Uso: Após a ocupação, mesmo que por
produção é feito de acordo com o sistema ma- um breve período de tempo, persistiu a
ke-to-stock (produção para estoque), que possibi- utilização das instalações e máquinas do
lita maior controle e planejamento em função antigo proprietário, mas com mudanças
de sazonalidades e tendências da demanda. na forma de distribuição das retiradas
Possui o controle da produção por demanda entre os trabalhadores;
empurrada, onde as peças são encaminhadas (ii) Apropriação: Simultaneamente à mudan-
para as próximas estações independentemente ça apresentada na categoria anterior, os
da necessidade. Já o armazenamento da ma- operários deram início à articulação dos
téria-prima e dos produtos finais não requer processos que culminaram na formação
cuidados especiais, o que possibilitou que a da cooperativa.
cooperativa organizasse um eficiente setor (iii) Revitalização ou repotenciamento das ma-
unificado de armazenamento e despacho, o quinas e equipamentos: Algumas das
que acelera os dois processos, além de permitir máquinas que foram adquiridas após
um uso mais racional do espaço. a constituição da cooperativa, como as
Outra iniciativa interessante observada du- injetoras, estavam desgastadas e, por
rante a visita à CAFLA é a organização de um isso, tiveram que ser revitalizadas.
layout funcional do fluxo produtivo, no qual (iv) Ajuste do processo de trabalho: Após a cons-
o maquinário é organizado e agrupado de tituição da cooperativa, a realização de
acordo com sua função na produção e as peças assembleias tornou-se o meio para a to-
são movimentadas pela fábrica, passando por mada de decisões de caráter econômico,
diferentes máquinas e garantindo um melhor administrativo e operacional na CAFLA.
aproveitamento da capacidade instalada, além O aprofundamento autogestionário pode
de maior flexibilidade e controle sobre a pro- ser visualizado através da socialização
dução (Black, 1998). do poder gerencial, a ampliação do con-
Durante a visita, foi realizado um conjunto de trole operário a partir da coletivização
entrevistas, junto a sete dos 12 sócios da CAFLA, dos meios de produção e a ampliação do
baseadas em um roteiro semiestruturado, conhecimento de todo o processo produ-
adaptado a partir daquele utilizado nas visitas tivo e de suas finalidades.
à Flaskô. De maneira geral, foi possível averi- (v) Alternativas tecnológicas: Para aperfei-
guar que, para os trabalhadores, os aparatos çoar o processo de produção, foi criada
tecnológicos podem expressar princípios ideo- uma guilhotina para o corte de man-
lógicos ou vontades políticas desde sua criação gueiras para o flexível trançado. Para o
até sua incorporação no processo de produção desenvolvimento dessa ferramenta, fo-
ao alienar o trabalhador da atividade produti- ram alterados elementos, acrescentan-
va. Estes aparatos também podem ser usados do fatores como o movimento do corte
para algum tipo de exclusão, mas cabe ao ope- ser pneumatizado, ajuste aos diferentes
rador pensar em sua real funcionalidade. diâmetros do flexível e a introdução de
Para uma minoria dos trabalhadores com os uma régua para dimensionar o compri-
quais dialogamos (dois dos sete entrevistados), mento da mangueira, que propiciaram
não há relação entre as máquinas e a política. ganhos de eficiência em sua operação.
Para esses, máquinas são apenas máquinas e (vi) Incorporação de conhecimento científi-
não se pode imputar a elas uma função política co-tecnológico existente: No âmbito da
ou ideológica. Para esse grupo, as máquinas são CAFLA, foram verificados alguns pro-
ferramentas criadas para melhorar o processo cedimentos que se encaixam nesta ca-
de trabalho, e é seu usuário (o trabalhador) que tegoria de adequação sociotécnica. Tais
define o uso que se faz dela. Ou seja, esses tra- modificações ocorreram em três equi-
balhadores pareceram concordar com a tese da pamentos, a saber, no balancim, no for-
neutralidade da tecnologia. no e na desempenadora.
A despeito dessa posição, notamos que fo-
ram feitas alterações importantes no proces- O balancim é uma máquina a partir da qual
so produtivo realizado pelos trabalhadores, se produz o arame de cobre para parafusos.
aproximando-se de experiências de AST de Para este processo é necessário desamassar,

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Fábricas e máquinas recuperadas: experiências de adequação sociotécnica no Brasil e na Argentina

medir e cortar a matéria-prima. A modificação dialética com o processo de desenvolvimento


realizada consistiu em embutir alguns meca- histórico da sociedade. Essa incontestável rele-
nismos para um sistema de autoabastecimento vância da tecnologia no contexto da produção
da máquina e em incorporar uma nova matriz remete à Revolução Industrial, mas adquire
feita para cortar a matéria-prima com maior novos contornos e implicações nas décadas
velocidade. mais recentes. E adquire, no contexto das ex-
O forno gerou modificações sobretudo em periências associadas à autogestão e ao coope-
termos de segurança aos trabalhadores. Antes rativismo, um novo significado.
do processo de recuperação da fábrica, muitas Tendo consciência do seu papelativo no
vezes os trabalhadores tinham que segurar as processo de transformação do mundo pela
peças na mão e usar o maçarico para maleá-la. sua forma de organização societária e pelos
O forno criado foi feito em um formato e ta- instrumentos de trabalho, os indivíduos co-
manho adaptado às especificidades das ins- meçaram a planejar o fim almejado de suas
talações da CAFLA, sem que houvesse um ações. Grupos até então marginalizados eco-
comprometimento de sua capacidade em res- nomicamente e excluídos politicamente co-
ponder às necessidades produtivas da fábrica. meçaram, fortalecidos pela abordagem da
Os materiais usados no processo de constru- AST, a tecer um papel relevante na decisão
ção (que tomou quase quatro meses) foram de sua forma de organização e na alteração
quase que em sua totalidade retirados e apro- tecnológica, como nas experiências que en-
veitados de outras máquinas, equipamentos e volvem fábricas recuperadas.
de um caminhão. As fábricas recuperadas por seus trabalha-
A desempenadora é uma máquina cons- dores apresentam um grande potencial ino-
truída para desamassar e moldar os canos de vador, embora sejam muitas vezes ignoradas
cobre que irão ser usados para fabricação de pelos estudos sobre inovações tecnológicas.
flexíveis. Antes da realização das alterações As evidências que encontramos nas visitas à
pelos trabalhadores, o operador desempe- Flaskô e à CAFLA mostram que há importan-
nava manualmente o cano até que assumisse tes iniciativas em curso na América Latina no
as características desejadas. A nova máquina sentido da condução de processos de adequa-
tem seus mecanismos ligados por uma correia ção sociotécnica, cujo grau de complexidade
a um motor que, quando acionado, automati- não é, de forma alguma, desprezível.
camente desempena o cano colocado entre os Tanto no caso brasileiro quanto no caso
mecanismos. A máquina conta com um siste- argentino, observamos a realização de inter-
ma de segurança de frenagem, que permite venções técnicas que configuram exemplos
que o operador interrompa o processo caso de AST. A partir dos resultados das entrevis-
haja algum risco de dano físico. tas, apuramos que há uma forte consciência
A descrição desses processos mostra que, de classe e vínculos de solidariedade entre os
assim como aquilo que verificamos no caso da trabalhadores, certamente reforçados pelas
Flaskô, observamos que na CAFLA tem havi- experiências autogestionárias conduzidas por
do um empenho no sentido de provocar mo- ambos os empreendimentos. Entretanto, essas
dificações nas formas de tomada de decisão e condições não se mostraram suficientes para
de distribuição das retiradas na cooperativa. induzir a uma ampla contestação do signifi-
Notamos também que foram conduzidas in- cado político por trás do desenho das máqui-
tervenções com o objetivo de gerar modifica- nas e dos processos, o que significa que não
ções nas máquinas e equipamentos, nas quais há uma adesão à tese da não neutralidade da
foram protagonistas os próprios operários da tecnologia por parte dos trabalhadores.
cooperativa. Dessa forma, podemos afirmar Essas evidências reforçam a percepção de
que, tanto na Faskô como na CAFLA, ocorre- que as modificações no maquinário, nos proces-
ram experiências de adequação sociotécnica sos produtivos e na organização dos empreen-
que ilustram o potencial inovador que existe dimentos têm ocorrido de forma reativa e difu-
no âmbito dos empreendimentos da Economia sa. Tais intervenções não são concebidas como
Solidária na América Latina. operações relevantes inseridas em uma estraté-
gia maior de transição sociotécnica, ou seja, não
Considerações finais são ações que buscam, deliberadamente, alterar
as características da tecnologia de modo a tor-
O avanço dos aparatos técnicos e das téc- ná-la mais aderente a um projeto de transfor-
nicas se apresentaem uma essencial relação mação das estruturas produtivas. São respostas

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Rafael de Brito Dias, Rafael de Almeida Martarello

interessantes a problemas cotidianos vivencia- mimetismo tecnológico: os labirintos das fábri-


dos pelos empreendimentos solidários. cas recuperadas. Revista Katálysis, 11(1):123-131.
Acreditamos que o potencial inovador das GAVINO, E. R. 2014. Produção autogestionária de
janelas e adequação sociotécnica. Caso: Marcenaria
fábricas recuperadas poderia ser explorado de
Coletiva de Mulheres, assentamento rural Piritu-
forma mais efetiva caso experiências como es- ba II, Itapeva-SP. São Paulo, SP. Dissertação de
sas se tornassem mais conhecidas por pesqui- Mestrado. Universidade de São Paulo, 144 p.
sadores e gestores envolvidos com a Economia GUTIERREZ, R.F.; ZANIN, M. 2013.A relação en-
Solidária, a política industrial e a política cien- tre tecnologias sociais e economia solidária:
tífica e tecnológica. Certamente vemos nelas um estudo de caso em uma cooperativa de ca-
iniciativas muito promissoras. tadores de resíduos. Revista Brasileira de Des-
envolvimento Regional, 1(1):129-148. https://doi.
Por fim, ainda que a adequação sociotécnica
org/10.7867/2317-5443.2013v1n1p129-148
(AST) incite a organização da produção de uma HENRIQUES, F.C.; SIGOLO, V.; RUFINO, S.;
maneira diferente, colaborando com a possibi- ARAÚJO, F.; NEPOMUCENO, V.; GIROTO, M.;
lidade do empoderamento dos trabalhadores PAULUCCI, M.A.; RODRIGUES, T.; ROCHA,
em um marco prático e conceitual importante, M.; FARIA, M.S. 2013. Empresas recuperadas por
ela não cria uma demarcação definitiva ou a trabalhadores no Brasil. Rio de Janeiro, Editora
construção real de um modo de produção al- Multifoco, 300 p.
MANDL, A.T. 2012.Uma década do movimento das
ternativo. Isto se deve justamente por ela se res-
Fábricas Ocupadas: Histórico, Balanços e Pers-
tringir ao isolamento das unidades produtivas, pectivas. Revista do CEMOP, 4:19-36.
além de não se inserir em todos os setores da MÉSZÁROS, I. 2002.Para além do Capital. Campinas,
dinâmica capitalista, ou seja, ela está mais co- Editora da Unicamp, 1.103 p.
nectada com a busca pela autogestão em uma NASCIMENTO, C. 2004. Autogestão e economia
unidade produtiva do que a uma lógica compe- solidária: outros valores. Cadernos da Cidade do
titiva. Assim, verificar seu desenvolvimento no Futuro, 1(2):14-28.
NEDER, R.T. 2015. A prática da adequação socio-
contexto de fábricas recuperadas é uma forma
técnica entre o campesinato: educação, ciência e
alternativa de compreender a própria evolução tecnologia social. Linhas Críticas, 21(45):357-381.
de empreendimentos relacionados a práticas da NOVAES, H.T. 2005. Notas sobre Fábricas Recupe-
Economia Solidária, da autogestão e do coope- radas na Argentina e Uruguai. In: Jornada de
rativismo. As mudanças promovidas no âmbito Jovens Pesquisadores Latino-Americanos em
tecnológico, afinal, devem ser entendidas como Ciência Tecnologia e Sociedade, II, Blumenau,
a materialização (e, simultaneamente, o motor) 2005. Anais... p. 1-51.
NOVAES, 2007. O fetiche da tecnologia: a experiência
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doi.org/10.7867/2317-5443.2013v1n2p173-189
FARIA, M.S.; DAGNINO, R.P.; NOVAES, H.T. 2008. Submetido: 10/07/2016
Do fetichismo da organização e da tecnologia ao Aceito: 22/09/2016

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