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SOCIOLOGIA – 3° ANO/ CONVÊNIO A formação do Estado

moderno
Prof. João Santiago Lisboa

Travessa: Cônego Leitão, 2200. Centro. Castanhal – Contato: (91) 3711-4854 –ACESSE: www.leitevestibulares.com1
A FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO aprender a não ser sempre bom, a ser ou não ser bom
“conforme a necessidade”. O príncipe deve conservar o seu
O Estado moderno surgiu da desintegração do mundo feudal reino – esse é o objetivo -, e para que se chegue a ele é
e das relações políticas até então dominantes na Europa. No necessário usar de quaisquer artifícios, ou seja, “os fins
período medieval, o poder estava nas mãos dos senhores justificam os meios”.
feudais, que mantinham o controle sobre a maior parte das
terras e sobre toda a sociedade. Estado Absolutista

Esse tipo de dominação foi pouco a pouco sendo minado O Estado Absolutista, organizado sob os moldes
pelas monárquicos, tem como característica mais evidente a
revoltas sociais dos camponeses, pela recusa ao pagamento concentração de todos os poderes na mão do rei – criação,
de impostos feudais e pelo crescimento das cidades e do execução e julgamento das leis. Além disso, um governo
comércio, que apressaram a desagregação dos feudos. absolutista controlava as atividades econômicas (com a
Paralelamente, a partir do século XVI, ocorreu um processo criação de impostos, por exemplo), as funções
de centralização e concentração: administrativas e as Forças Armadas. A nobreza e o clero
foram gradativamente perdendo poder diante da ascensão
• das Forças Armadas e do monopólio da violência; das burguesias nacionais, classe que naquele momento
• da estrutura jurídica, isto é, dos juízes e dos tribunais em histórico desempenhou papel revolucionário ao ajudar a
várias instâncias; acabar com os regimes feudais. 
• da cobrança de impostos — um signo do poder e, ao
mesmo tempo, o meio de assegurar a manutenção das Surgido no contexto da expansão do mercantilismo, o
Forças Armadas, da burocracia e do corpo jurídico; Estado absolutista foi implantado primeiro em Portugal, no
• de um corpo burocrático para administrar o patrimônio final do século XIV, com a Revolução de Avis. Adotado
público, como as estradas, os portos, o sistema educacional, depois em vários lugares da Europa, teve seu ponto alto na
a saúde, o transporte, as comunicações e outros tantos França, no reinado de Luís XIV (1638-1715). A concentração
setores. de poderes no Estado absolutista é bem expressa pela frase
atribuída a esse rei: “O Estado sou eu!” (L'etatcest moi!).
A centralização e a concentração desses poderes e
instituições caracterizam o Estado moderno, que assumiu Assumindo o controle das atividades econômicas, o Estado
diferentes formas até hoje. intervinha nas concessões dos monopólios, fixava preços e
tarifas, administrava a moeda e os metais preciosos. O
Para entendermos melhor sobre estes importantes conceitos acúmulo desses “bens” era a expressão máxima da riqueza
da política, é necessário, antes de tudo, compreender o que de um país. O Estado absolutista assumia também a
são os chamados Estados modernos. Uma vez que estes responsabilidade de centralizar e praticar a justiça e de
representam o modelo específico de organização do cuidar do contingente militar, criando exércitos profissionais.
exercício do poder da maioria das sociedades atuais. Para financiar essas atividades, foram criados os impostos
gerais.
O surgimento do Estado moderno, bem como as
características que o determinam, opõe-se ao sistema O absolutismo colocou frente a frente os interesses dos
feudal que era vigente na Europa até o século XVIII. As estamentos feudais dominantes (a nobreza e o clero) e os
lutas políticas ocorridas neste século foram determinantes da burguesia, a classe em ascensão naquela época. Tais
para a sua formação. E, a partir, sobretudo, da Revolução interesses eram referentes à justiça, à administração do
Francesa ocorrida em 1789 é que se verifica a separação patrimônio público e à administração econômica.
entre a esfera política e a esfera religiosa – determinantes
para sua consolidação. O Estado liberal

Uma das principais características do Estado moderno é a O liberalismo emergiu no século XVIII como reação ao
centralização do poder e a racionalização da gestão do absolutismo, tendo como valores primordiais o
mesmo. A partir de um corpo qualificado de técnicos, opera individualismo, a liberdade e a propriedade privada. Ganhou
uma estrutura administrativa burocrática através de projeção como adversário da concentração do poder pelo
procedimentos preestabelecidos e idealmente impessoais. Estado, principalmente no que dizia respeito às atividades
Nesse sentido, esses processos visam evitar a pessoalidade econômicas, no contexto do chamado capitalismo
nas relações entre governantes e governados. concorrencial. Nessa fase do capitalismo, os resquícios
feudais foram sendo extintos, enquanto o capital industrial
O Poder e o Estado, enquanto instituições que exercem tais se implantava e o trabalho assalariado tornava-se
ações, começam a ser pensados por Thomas Hobbes no fundamental para o desenvolvimento da indústria.
século XVI. Em O Leviatã, Hobbes percebe a importância de
um soberano cuja função é constituir o próprio Estado e O Estado liberal apresentava-se como representante de toda
exercer poder sobre os indivíduos, que, por natureza, são a sociedade, tendo o papel de “guardião da ordem”: não lhe
essencialmente maus. Nascem maus, tendem à caberia intervir nas relações entre os indivíduos, mas manter
competitividade e à violência. Por isso a necessidade de um a segurança para que todos pudessem desenvolver
Estado forte centralizado na figura de um soberano, que é o livremente suas atividades. Com o Estado liberal,
próprio Estado (Teoria Absolutista) e que limita a ação estabeleceu-se a separação entre o público e o privado.
individual, garantindo a ordem. 
Politicamente, o Estado liberal se fundamenta na ideia de
Outro teórico do Estado do mesmo momento histórico foi soberania popular. A expressão mais clara dessa ideia se
Nicolau Maquiavel, que teve como alvo o Estado,  e tão encontra nas constituições liberais, como a do Brasil, na qual
somente o Estado. Ele concebe uma espécie de manual se lê, no artigo 1": “Todo o poder emana do povo, que o
onde teoriza sobre o poder nos principados, e as ações dos exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente,
príncipes no objetivo de manter a ordem. O príncipe deve nos termos
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desta Constituição”. Isso significa que, numa eleição, os
votantes se pronunciam elegendo os representantes da Contudo, apesar dos seus esforços, isso só ocorreria
vontade popular. O Parlamento é, assim, a instituição central quatrocentos anos mais tarde. Esse dado não é secundário
do Estado liberal. na obra de Maquiavel. Ele constitui o cerne motivacional de
suas investigações. Pelo fato de os Estados modernos se
De acordo com o pensamento liberal, o Estado não deve formarem no tempo de Maquiavel, mas não em sua terra
intervir nas atividades econômicas. A famosa fórmula natal, parece paradoxal afirmar que sua obra se confunde
laissez-faire, laissez-passer (“deixai fazer, deixai passar”) com o surgimento daqueles. Porém, isso fica esclarecido por
expressa bem a concepção de que as atividades econômicas duas razões. Primeiro, a ocupação de secretário-chanceler
não devem ser reguladas pelo Estado, mas por si mesmas, de Florença rendeu a Maquiavel viajar por praticamente toda
ou seja, pelo mercado— a mão invisível, de acordo com a Europa. As experiências que relata em “O Príncipe” são
Adam Smith (1723-1790). A plena liberdade para a baseadas – junto com a análise da história – nessas viagens.
produção e a circulação de mercadorias garantiria, conforme Segundo, e mais relevante, é o caráter cosmopolita dos
o pensamento liberal, o progresso das empresas e das humanistas italianos. Desse modo, o renascentista florentino
nações, contribuindo até para a paz mundial. estava consciente dos novos arranjos políticos de sua época.
Além da originalidade metodológica, a relação de sua obra
Essas concepções do pensamento liberal começaram a ruir com a fundação do Estado moderno, Maquiavel também
no final do século XIX e caíram definitivamente por terra estimula a polêmica entre as formas de governo. Repúblicas
com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Isso aconteceu ou Principados? Qual forma de governo o autor defendeu?
porque a intensa concorrência entre as empresas foi Esta é uma questão para a qual não há consenso.
provocando o desaparecimento das pequenas firmas, que
faliam ou eram compradas pelas maiores. A concentração Maquiavel não é idealista. É realista. Propõe estudar a
ficou tão grande e o capital na mão de tão poucos que a sociedade pela análise da verdade efetiva dos fatos
concorrência passou a ser entre países, e não mais só entre humanos, sem perder-se em vãs especulações. O objeto de
empresas. suas reflexões é a realidade política, pensada em termos de
prática humana concreta. Seu maior interesse é o fenômeno
A “guerra” de mercado chegou às vias de fato, ou seja, do poder formalizado na instituição do Estado, procurando
transformou-se numa guerra de verdade entre os países. As compreender como as organizações políticas se fundam, se
crises econômicas tornaram-se frequentes e a competição desenvolvem, persistem e decaem. Conclui, através do
entre as nações ficou ainda maior. A eclosão da Primeira estudo dos antigos que os homens são todos egoísta e
Guerra teve origem nessas disputas entre as nações ambiciosos, só recuando da prática do mal quando coagidos
europeias. pela força da lei. Os desejos e as paixões seriam os mesmos
em todas as cidades e em todos os povos. Quem observa os
WEBER E O EXERCÍCIO DO PODER DO ESTADO fatos do passado pode prever o futuro em qualquer
república e usar os métodos aplicados desde a Antiguidade
Para Weber, o Estado é uma manifestação histórica da ou, na ausência deles, imaginar novos, de acordo com a
Política. Por isso, é uma forma moderna de agrupamento semelhança entre as circunstâncias entre o passado e o
político que tem como característica o fato de deter o presente.
monopólio da violência e do constrangimento físico legítimo
sobre um determinado território. Virtu e fortuna em Maquiavel

Weber afirma que o exercício político do poder através do A Virtù é uma figura utilizada para representar a liberdade, o
Estado é realizado na prática da violência. Essa violência a livre-arbítrio do governante em relação à imprevisibilidade e
que ele se refere é a dominação do homem sobre o homem. determinabilidade da história. Ele, o governante, tem a
O Estado, para exercer tal violência, no sentido de violar as capacidade, através da Virtù, de superar, controlar as
ações individuais, se apoia nas leis, na força militar e em ocasiões e acontecimento do seu governo; construir uma
uma administração racional. Estas leis, por exemplo, só estratégia capaz de conquistar a Fortuna, estratégia
funcionam na medida em que existe uma possibilidade do principalmente regrada pela flexibilidade política.
uso da força com a perspectiva de uma violação que
provocaria sanções (punições) sociais. Já a Fortuna refere-se às circunstâncias, as imprevisibilidade
dos acontecimentos e a determinação de parte da história. A
MAQUIAVEL E O PENSAMENTO POLÍTICO MODERNO Fortuna não deve ser evitada ou ignorada pelo príncipe, pois
é inevitável e sempre presente, mas deve ser conquistada
A virada do século XV para o XVI, no qual viveu Maquiavel, pelo mesmo. O príncipe não pode depender dela, contudo
foi marcada por diversas mudanças culturais, políticas e deve fazer da mesma sua aliada, controlá-la, não através de
econômicas na Europa. Entre elas, realçamos a que mais se uma força imoderada ou impensada, mas através da
confundiu com a obra do nosso autor: o Estado moderno. habilidade e flexibilidade política.
Esse século é lembrado ainda como período de expansão
europeia sobre os povos alhures. E, finalmente, a unificação
dos Estados, notadamente Portugal, Espanha, Inglaterra e
França.

Embora Florença, cidade natal de Maquiavel, tenha sido o


berço das principais manifestações renascentistas, não se
concretizou, na Itália dessa época, a unificação.
Seguramente, essa foi a maior decepção política do
secretário florentino, pois, em seus escritos, seja nos
“Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio” ou no
“Príncipe”, o autor não escondeu seu desejo de ver a Itália
unificada.
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