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ENTRE O QUE É VIVIDO

E O QUE É SENTIDO:
EXPRESSÕES DA
INTOLERÂNCIA
RELIGIOSA E ESPAÇO
PÚBLICO BRASILEIRO
Juliana Cintia Lima e Silva1

Resumo: Este artigo visa discutir as peculiaridades do


secularismo brasileiro através da análise dos dados qualitativos do
Relatório sobre Violência e Intolerância Religiosa no Brasil (2011-
2015). A argumentação aqui desenvolvida parte da premissa que
laicidade, intolerância religiosa, liberdade religiosa, entre outros,
não são categorias a priori, mas sim categorias nativas, imersas
em contextos de formação político-ideológicas onde os indivíduos
materializamo que chamamos de esfera pública.

Palavras-chaves: esfera pública; intolerância religiosa; laicidade;


religião

_________________________________________________________

1
Mestra em Antropologia (PPGA/UFPE), consultora do RIVIR – Relatório sobre Violência e
Intolerância Religiosa no Brasil (2011-2015) e Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em
Educação, Raça, Gênero e Sexualidades – GEPERGES – Audre Lorde.
Entre o que é vivido e o que é sentido

Introdução

A modernização no Brasil não desencadeou um processo de recolhimento da


religião à esfera privada. O que podemos observar ao longo de seu
desenvolvimento é um deslocamento do religioso no interior da esfera pública
que diz mais sobre a formatação de novos arranjos e formas de inserção através
do estabelecimento de outras bases para a relação com o Estado do que uma
guinada rumo à dimensão das vivências individuais e circunscritas ao âmbito
das relações domésticas. Neste interim o que permanece inalterado é o lugar
privilegiado de determinados cultos nesta nova conformação do espaço público,
conforme destacado por Paula Montero (2012, p.172):

[...] é possível afirmar que o secularismo, enquanto doutrina


política do Estado, não implicou necessariamente na separação
entre as instituições religiosas e as instituições governamentais.
Ele colocou em jogo, ao contrário, uma dupla mutação na qual,
por um lado, as demandas religiosas se representam nos fóruns
decisórios e, por outro, agentes religiosos são chamados a
colaborar na execução de políticas públicas.

As características peculiares do secularismo brasileiro são o cerne das


discussões que sedimentam este trabalho. Por meio do conteúdo das entrevistas
realizadas para a construção do “RIVIR – Relatório sobre Intolerância e
Violência Religiosa no Brasil (2011-2015): resultados preliminares” (FONSECA
& ADAD, 2016), se fez uma abordagem acerca de como a esfera pública vem se
moldando, a partir das estratégias que os diferentes agentes religiosos vêm
desenvolvendo, a fim de estabelecer possibilidades de diálogo, de negociações,
de inserção ou de reivindicação por reconhecimento de suas demandas sob a
ótica do respeito a liberdade de culto ou aos direitos humanos.

Antes de adentrar propriamente no escopo da discussão delineada acima, vale


ressaltar a importância do referido relatório enquanto pontapé inicial da
construção de um panorama acerca do fenômeno religioso tal como ele tem se
apresentado contemporaneamente no país. Este material é fruto do trabalho de
uma equipe competente e comprometida que, sob a coordenação de Alexandre
Brasil Fonseca e Clara Jane Adad, ousou fazer um levantamento de dados sobre
pontos sensíveis da questão religiosa no país, a saber a intolerância e violência
por motivação religiosa.

Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017


Entre o que é vivido e o que é sentido

A metodologia empregada na coleta de dados para construção do RIVIR


abrangeu três frentes de pesquisa, a saber: bibliográfica, documental e
descritiva. No que compreende a pesquisa descritiva optou-se por utilizar como
estratégia de coleta entrevistas semiestruturadas a fim de obter dados
qualitativos pertinentes ao objeto do relatório. Foram selecionados casos
emblemáticos, a partir de outras fontes de dados da pesquisa como, por
exemplo, matérias jornalísticas.

Partindo destas fontes, foram selecionadas pessoas que se envolveram com


casos de violência ou intolerância religiosa para serem entrevistadas a fim de
obter uma qualidade maior das informações. Segue abaixo a listagem das
entrevistas nas quais nos baseamos para a construção das reflexões presentes
neste artigo2:

Nome Confissão Religiosa Estado


Caio Affonso Umbanda SP
Geraldo Baptista (Ras Rastafarianismo SP
Geraldinho)
Marlene Silvana Rastafarianismo SP
Martim 3
Pastor Jorge Linhares Pentecostal MG
Marcos Adelino Candomblé MG
Ferreira (Tata
Arabomi)
Katia Coelho Marinho Candomblé RJ
Sacerdote OgSperle Wicca RJ
Babalorixá Antunes Candomblé PB
Caldas
Ivanildo Fernandes Espírita PB
Araújo
Frei Hermano José Católica PB
Cürten
Pastor Adhayr Cruz Metodista ES
Alberto Jorge Candomblé AM
(VòdúnsiHèHòsòvi)
A.C.O.P (advogada) Sem Religião RS

2
Dentre as 20 entrevistas realizadas no projeto que deu origem ao RIVIR selecionamos 17 para compor o
arcabouço analítico do presente texto. Os critérios que nos levaram à utilização deste conjunto de entrevistas
para as finalidades deste artigo foram: qualidade do registro, aplicação do mesmo roteiro de entrevistas,
diversidade de filiações religiosas e de local de origem.

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Entre o que é vivido e o que é sentido

Pai André EmiOlorum Candomblé RS


Di Oyó
Bernardo Pablo Adventista DF
Sukiennik
Mãe Elza de Iemanjá Candomblé PE
Tiago Nagô Candomblé – Jurema PE
Fonte: Relatório sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil (2011-2015):
resultados preliminares (2016).

A realização destas entrevistas se deu pela valorização da apreensão do


fenômeno da violência e intolerância religiosa a partir de uma lógica abrangente
que reconhece a complexidade das questões sociais, o que demanda
aproximações ao fenômeno estudado a partir de diferentes abordagens
metodológicas e conceituais.

A abordagem que fazemos destes conteúdos se apresenta como uma das


possibilidades de aproximação ao fenômeno em questão, não esgotando o leque
de possibilidades que o relatório oportuniza aos estudiosos que se interessam
pelo tema. O que se apresenta nas páginas que se seguem é um produto em
4
forma de ensaio que reflete algumas incursões ao universo significativo nos
quais as falas dos entrevistados se inscrevem. Trata-se do estabelecimento de
um diálogo com estes conteúdos discursivos com o objetivo de construir
percursos teóricos, a partir das agências que representam, e indicar
possibilidades de reflexão acadêmica partindo de uma abordagem
antropológica.

Vale ressaltar que as análises que subsidiam a argumentação neste ensaio


partem da premissa de que os conceitos de “laicidade”, “intolerância religiosa”,
“liberdade religiosa”, entre outros que serão alvo de nossa atenção não são
categorias “a priori” ou “fatos sociológicos”, mas são categorias nativas imersas
em contextos de formação de arenas político-ideológicas onde os indivíduos
constroem argumentações e atuam de acordo com valores e sansões sociais
dando materialidade ao que podemos chamar de “esfera pública” ou “espaço
público” em oposição à dimensão da “esfera privada”. Tal posicionamento
decorre da compreensão de que “[...] o ‘religioso’ e a ‘sociedade’ se constroem
mutuamente e que o espaço público constitui um campo privilegiado para
observar as suas interações” (BIRMAN, 2003, p.13).

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Entre o que é vivido e o que é sentido

1. Políticas do sentido: estratégias de disputa de significados em busca


da legitimidade no espaço público

Optamos por abordar os contextos de formação das arenas político-ideológicas a


partir da noção de controvérsia3 assumindo, deste modo, uma opção analítica
que considera os confrontos e discordâncias dos atores religiosos como parte
constitutiva do processo de democratização brasileiro (MONTERO, 2015, p.7).
Ao assumirmos essa posição pretendemos, mais precisamente, refletir à luz dos
elementos discursivos que as entrevistas nos oferecem com a finalidade de
entender os processos de disputa, que são o substrato destas falas, como “ações
coletivas que conduzem à transformação social” (MONTERO, 2015, p.15).

Seguimos o interesse de Montero (2015) quando opta por este caminho no


intuito de compreender “[...] a formação e a configuração recente do espaço
público na sociedade brasileira e o relevante papel dos agenciamentos religiosos
nessa construção”. Observando os dados das entrevistas concordamos com a
opinião da referida autora ao considerar que a dissenção e a crítica vêm se
tornando, de modo cada vez mais intenso, a estratégia de intervenção dos
religiosos na sua relação entre si e concomitantemente com o Estado.
5
É oportuno salientar que a noção de controvérsia está sendo utilizada aqui com
duas finalidades: primeiro, como instrumento de aproximação ao conjunto de
dados das entrevistas, possibilitando que se façam recortes e que se possa
reuni-los num processo de categorização e análise; e, segundo, como um
instrumento heurístico que nos permitiu observar como estas falas dialogam
com um contexto envolvente onde se pode compreender o que está em disputa e
como estas diferentes formas discursivas interagem conformando o espaço
público brasileiro e sua forma particular de secularismo.

Acreditamos que essa configuração particular do secularismo brasileiro emerge


de uma dinâmica que associa atores, textos, instituições e acontecimentos
(MONTERO, 2015, p. 17-18). A noção de controvérsia permite que abordemos
tais aspectos partindo de uma “incerteza compartilhada”, ou seja, uma série de
“situações nas quais os atores estão de acordo de que discordam entre si”
(MONTERO, 2012, p.178).É a partir das fissuras criadas pelas disputas em torno
do significado dos termos a partir do qual os debates se estabelecem que se

3
Optamos por utilizar a noção de controvérsia em concordância com o uso feito por Montero (2012). Entenda-se,
portanto, que esta noção não está sendo usada aqui no sentido corriqueiro de “polêmica”, “divergência”, etc;
trata-se de compreender como determinado conjunto de fatos reunidos em um debate público operam um
processo de tradução, de sentimentos e noções religiosas, que transforma aspectos da linguagem ordinária em
problemas sociais.

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pode compreender as diferentes estratégias dos atores e suas diversificadas


formas de vivenciar e expressar suas experiências num contexto público.

Optar por esse caminho nos permite ver a partir e através das entrevistas que
analisamos. Nos dá condições de ir além e colocar em perspectiva os diferentes
argumentos acionados pelos indivíduos buscando entende-los dentro de um
campo de disputas por legitimidade e reconhecimento. Ao observar os dados das
entrevistas do RIVIR, estamos diante de um debate sobre a constituição da
esfera pública brasileira onde se disputa o significado de conceitos como
“laicidade”, “liberdade religiosa”, “Estado”, “democracia” entre outros.

O que os interlocutores buscam ao acionar tais conceitos é produzir um efeito


de legitimidade de suas demandas e pontos de vista que possam se projetar
publicamente e influenciar o debate público. É através dos processos de
construção de consensos e generalizações acerca destes conteúdos e seus
efeitos práticos que as potencialidades e limitações de noções como a de
“laicidade”, entre outras, podem ser observadas:

“[...] a religião, seja ela qual for, remete à busca da paz, do amor e
6 da conexão com Deus. Então, a pessoa está exercendo seu direito
de fé e pessoas de fé diferente invadem seu espaço e violentam
seu direito” (Marlene Silvana Martim – Fiel da Primeira Niubingui
Etíope Copta de Sião do Brasil Igreja Rastafari).
“A violência que a gente sente com relação a intolerância religiosa
ela é muito grande porque ela é uma violação de direitos, ela viola
o direito de expressão da nossa fé que a própria constituição
determina e fere também a Carta Magna dos Direitos Humanos. E
nenhuma religião deve se sobrepor a outro ainda mais em um
Estado que se diz laico” (Tata Arabomi - Fundador e Dirigente do
Terreiro de Candomblé Bakise Banto Kasanje Nação Angola
Congo).
“Onde primeiramente o neopentecostalismo vem trazendo uma
perspectiva de teologia da prosperidade, e que diante da crise
econômica internacional, é preciso achar um bode expiatório para
esse processo. Então, é o demônio, é o diabo entre nós. Voltam-se
contra a Igreja Católica, mas ela é poderosa, ela tem força, então
é uma briga um pouco mais difícil, mas que acontece, tanto é que
temos aí, só no ano passado, em um espaço de um mês oito igrejas
grandes atacadas em Minas Gerais, depredação de imagens
sacras, até do patrimônio artístico nacional. Mas o bode expiatório
fica sendo o quê? Fica sendo os pretos, a religião dos pretos,
porque ela não tem a estrutura organizacional, ela não tem o

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status político, ela não tem o status econômico que as outras


religiões têm” (Alberto Jorge Rodrigues da Silva -
VòdunsiHèHòsòvi)

Pode-se dizer, portanto, que “traçar generalizações é uma das principais


atividades dos atores sociais que querem fazer valer seus argumentos em
determinado debate público” (BORTOLETO, 2015, p.138). Como é possível
observar nos trechos destacados acima, os indivíduos buscam estabelecer
fronteiras e consensos, em um jogo de aproximação e distanciamento onde se
reconhece o legítimo direito à crença ao mesmo tempo em que se identifica
fronteiras entre a liberdade de culto e a prática de intolerância religiosa. A
partir do reconhecimento destes pontos de conciliação e demarcação de limites
simbólicos os indivíduos circunscrevem e classificam o que pode ser considerado
“intolerância religiosa” enriquecendo suas análises ao relacioná-la com a
“violação do direito” e, mais especificamente, a “violação dos direitos humanos”.

Deste modo, observa-se que a afirmação da legitimidade da crença de cada um,


passa pelo reconhecimento do direito, nos planos individual e coletivo, à
liberdade religiosa, através do acionamento de dispositivos legais, como a
“Constituição” ou a “Carta Magna dos Direitos Humanos”, que funciona 7
inclusive como estratégia de legitimação da fala. Por outro lado, quando o
indivíduo parte de uma argumentação acerca da correlação de forças entre
osdiferentes atores religiosos na esfera pública, evidencia o quanto a liberdade
religiosa é vivenciada de modo desigual.

Tal desigualdade é expressa, na fala do Alberto Jorge Rodrigues da Silva,


através da condição de “bode expiatório” a qual as religiões de matriz africana
são submetidas em função de não possuírem estrutura organizacional, status
político e status econômico que lhes dote de capacidade de reação frente as
investidas de seus frequentes opositores. Estas afirmações corroboram o
entendimento de que há determinadas expressões da religião que possuem uma
formatação que é tacitamente referendada no espaço público, em oposição a
outras que não se conformam a este modelo cristalizado no cenário social e que
em consequência disso não gozam do mesmo status e reconhecimento por parte
do Estado e da sociedade. Estas expressões não-hegemônicas da religião se
tornam, portanto, sujeitas a uma condição desfavorável no que se refere ao
exercício de sua liberdade de crença.

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2. Tensionamento da esfera pública: agenciamentos, disputas e


consensos

Acreditamos que os dissensos que se inserem no espaço público e o constituem


enquanto arena de expressão da pluralidade e diversidade social se
materializam através de disputas em torno de ordens de grandeza onde
diferentes atores buscam fazer valer as suas noções de justiça, democracia ou
bem comum. Partindo deste pressuposto compreendemos que há formas
distintas de organizar e hierarquizar as grandezas comunicadas através de
termos como “intolerância religiosa”, “liberdade religiosa” e “liberdade de
expressão” (BORTOLETO, 2015, p.157).

Dito de outro modo, as diferentes denominações religiosas apresentam arranjos


diferenciados e atribuem significados e graus de importância distintos aos
termos que organizam publicamente o debate em torno da relação entre Estado
e religião, bem como a possibilidade de convivência entre os diferentes credos.
Partindo do entendimento de que a laicidade é um processo político
desenvolvido a partir do Estado, com o objetivo de delimitar seu afastamento em
relação às religiões,concordamos com Miranda (2010) quando afirma que não
basta que se proclame esta condição de laicidade. A definição formal de que o
Estado é laico não assegura o fim de conflitos com o campo religioso podendo,
8 inclusive, representar a explicitação de novas disputas tendo em vista que os
cidadãos que fazem parte de algum grupo confessional tendem a defender seus
valores e interesses a partir da inserção no espaço público.

O cerne das controvérsias que surgem em torno desses léxicos se refere a


disputa pela ascensão do ponto de vista de um determinado grupo ao status
socialmente hegemônico. O que constitui estes embates em torno de alguns
contextos de crise é a busca da conformação do seu ponto de vista, numa
perspectiva generalizante, de modo que mobilize a opinião pública em torno das
suas demandas. Católicos e protestantes têm um aguçado interesse em
disseminar entre seus agentes um habitus ajustado às exigências de inserção em
uma cultura pública, o que favorece estes agentes ao enunciarem seus
posicionamentos. Contudo, não desprezamos o fato de que o lugar privilegiado
que as expressões do cristianismo ocupam na sociedade decorre muito mais de
uma herança do seu status hegemônico histórico do que remonta às origens do
processo de colonização que deu origem ao país (MONTERO, 2012).

Partindo deste ponto de vista acerca das dinâmicas de atuação dos diferentes
atores religiosos no espaço públicoe sua busca por redefinir o seu status
social,em oposição à ou apesar da hegemonia católica neste cenário,podemos

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Entre o que é vivido e o que é sentido

compreender como se dão os debates em torno do uso do termo “intolerância”


tal como apresentado por Mãe Elza no seguinte trecho de sua entrevista:

Ao ser questionada sobre porque não gosta de utilizar o termo


intolerância religiosa Mãe Elza responde: Não, porque na verdade
é o seguinte o termo intolerância né vem daquela coisa de que eu
não tolero você né. E pra nós essa questão de você me tolerar é
insuportável né. Eu não quero que você me suporte. Eu não quero
que você me tolere. Eu quero que você me respeite né. Então
quando eu digo não a intolerância entendeu eu reforço essa
questão de que você... Eu não quero que você me tolere,
entendeu. Então não é esse o nosso sentimento. O sentimento é de
que a gente precisa estar porque temos direito a estar né. Esse
Estado é um estado laico, precisa exercer essa laicidade, coisa
que não é exercida né. O racismo institucional ele é enxergado por
alguns governantes né. Tá aí pra ser combatido. (Mãe Elza de
Iemanjá – Ialorixá)

É tendo como referência o espaço público e as diferentes articulações de 9


interesses, alianças, dissidências, disputas e embates que o constituem, que as
falas dos entrevistados se articulam em torno de valores produzindo
posicionamentos acerca do lugar do religioso. A partir da ambivalência, que se
refere a sua atuação numa perspectiva cívica, enquanto ator da esfera pública, e
a sua regulação numa perspectiva democrática, através do reconhecimento e
interação (positiva ou negativa) com a pluralidade religiosa que é possível
entender como se organizam de modo diferenciado as ordens de grandeza
acionadas no debate público. Em torno dessas noções os atores constroem seu
arcabouço teórico e sua estratégia argumentativa tal como está posto no trecho
destacado acima.

Mãe Elza rejeita o termo “intolerância” em favor da positivação do termo


“respeito”, levando em consideração a valorização de uma atitude respeitosa
entre os diferentes credos como sendo o formato desejável de relação. Tal
posicionamento colide frontalmente com as possibilidades que o contexto
brasileiro apresenta, tendo em vista a presença neopentecostal neste cenário. O
respeito à diversidade é a tônica de um discurso que se posiciona na perspectiva
da busca por uma relação mais equânime entre os diferentes credos. Entretanto
ele não tem o poder de construir tréguas e consensos, por mínimos que sejam,
com grupos que se constituem a partir de uma lógica de apropriação, negação e
confrontação de determinado conjunto de crenças identificadas com o

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politeísmo, celebração da natureza e culto aos ancestrais acaba-se por ter a


“disputa como forma específica da própria configuração da laicidade”
(MONTERO, 2015, p.23

Neste sentido, concordamos com Bortoleto (2015) ao ressaltar que a


“intolerância” une, uma vez que é mais eficaz em produzir generalizações entre
os diferentes atores sociais. Ninguém deseja ser taxado de intolerante e a
tolerância é um marco em torno do qual podemos, a um só tempo, preservar o
direito de existência de posicionamentos tão antagônicos quanto o do
neopentecostalismo e das religiões de matriz africana.

Conforme destaca Mariano (2015, p.120), a tolerância se baseia no dever moral


de respeito à liberdade uma vez que leva ao reconhecimento do direito de todo
indivíduo a crer de acordo com sua consciência. Deste modo ela não pressupõe
necessariamente a renúncia à própria verdade.

Portanto, a tolerância representa apenas uma concordância


provisória em face de um conflito iminente relacionado a
manifestações de situações de intolerância em contextos
10 anteriores, sem que, no entanto, isto represente uma alteração
das preferências subjetivas, mediante a conversão ou o
reconhecimento legítimo da diferença, a partir da compreensão da
alteridade. (MIRANDA, 2010, p.125)

Em momentos de crise, como quando ocorre alguma ocorrência que pode se


configurar enquanto “intolerância religiosa” estes acordos tênues tendem a ser
suspensos e há a retomada da disputa entre os diferentes grupos. Deste modo,
vale destacar que a tolerância nos permite evidenciar a tensão entre identidade
e diversidade, especialmente em contextos sociais marcados pela desigualdade,
como é o caso brasileiro (MIRANDA, 2010).

Quando conseguimos perceber que “apenas à luz de ‘campos problemáticos’ de


longa duração na história política brasileira é possível compreender os nexos
que agenciam os elementos das controvérsias em análise” (MONTERO, 2015,
p.19) é que se torna possível avançar em uma abordagem que abarca as
distintas narrativas expostas nas entrevistas dentro de um mesmo contexto
significativo. Mesmo reconhecendo que os diferentes atores em questão se
articulam dentro destes “campos problemáticos”, concordamos com Montero
(2015) quando afirma que o que eles dizem e fazem denota uma redefinição ou

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Entre o que é vivido e o que é sentido

rearranjo destas questões “clássicas”. Como podemos observar nas falas de Tata
Arabomi e Ivanildo Fernandes de Araújo quando provocados a pensar sobre o
significado da intolerância religiosa e suas motivações:

Acredito que a intolerância vem desde o início dos tempos, desde


que as religiões são diferentes, desde que existe a diversidade,
existe a intolerância entre cristões e mulçumanos e judeus. Isso
tem a idade da existência humana, mas a intolerância com a
matriz africana, ela está desde o início do tráfico negreiro, desde a
diáspora, desde a escravidão, desde quando os europeus tiveram
contato com as práticas africanas e acharam aquilo uma
barbaridade. (Tata Arabomi – Líder Religioso Candomblecista)
Geralmente acontecem essas situações com pessoas que se dizem
cristãs e fazem aquilo que não gostariam que fosse feito a elas
mesmas, por falta de conhecimento do evangelho, falta de
conhecimento do que seja a proposta do Cristo. Essa é a base de
todas as religiões: Não fazer ao outro aquilo que não gostaria que
fosse feito a você mesmo. Assim, parte em função do desrespeito,
da falta de conhecimento e da falta de prática do evangelho.
(Ivanildo Fernandes de Araújo – Colaborador da Associação
Municipal de Espiritismo de Campina Grande) 11

A exemplo da argumentação de Paula Montero (2015) na introdução ao livro


“Religiões e Controvérsias Públicas” não é nossa pretensão aqui simplesmente
destacar que os “valores religiosos” têm poder de influência sobre a vida pública
brasileira. Vale muito mais reconhecer as formas contemporâneas de percepção
do que é o justo ou injusto em diferentes situações e compreender como elas
estruturam o campo de ação das pessoas.A forma como estas argumentações
entram em cena em contextos públicos demonstra que não é mais possível
distinguir o “discurso religioso” em oposição ao “científico”, “jurídico”,
“mediático”, etc. A forma sob o qual se articula o “discurso público” depende
muito das condições de sua dramatização que, por sua vez, depende, em grande
medida, de onde ele é dito, sob que circunstâncias é acionado e a quem se
dirige.

As diferentes posições dos atores e a capacidade desigual dos diferentes grupos


de influenciar o debate público acerca dos contextos de produção do fenômeno
da intolerância religiosa se revelam enquanto aspectos chave na busca de uma
maior compreensão sobre as dinâmicas de intervenção da religião no contexto

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democrático brasileiro. Como apontado por Miranda (2010), as diversas práticas


de intolerância religiosa são apontadas como demonstrações de falta de respeito
às diferenças e às liberdades individuais que revelam como a ausência de
conhecimento e informação podem levar a atos de perseguição religiosa, cujo
alvo seria a coletividade.

O reconhecimento de que a inserção da religião na esfera pública brasileira se


dá pelo estabelecimento de controvérsias e disputas de significado dos termos
em que o debate político se desenvolve não é incompatível com o
reconhecimento da existência de alguns elementos consensuais em torno dos
quais se constituem bases mínimas necessárias à construção de estratégias de
combate à intolerância religiosa.

No que se refere a construção destas estratégias de combate à intolerância


religiosa, metade4 das pessoas entrevistadas aponta como principal solução a
implementação de ações educativas que se voltem para o reconhecimento da
diversidade enquanto elemento constitutivo da nossa sociedade. Estas
estratégias educativas, na opinião das pessoas entrevistadas, devem abordar a
equivalência entre o respeito às diferentes crenças e o respeito às liberdades
individuais.

12

A intolerância é caso de educação, que deveria ser ensinado nas


escolas. Não sobre religião, mas como respeitar o livre arbítrio e
opção de cada cidadão(Caio Affonso – Líder Espiritual da Tenda
de Umbanda Ogum de Ronda Santa Bárbara Guerreira e Caboclo
Pena Vermelha).
A educação e a informação são o melhor caminho para se evitar a
violência e a intolerância, temos a Lei 10.639 que institui a
obrigatoriedade do ensino da história da África e indígena nas
escolas, que deve ser implementada e cumprida. Sabemos que
muitas escolas ainda se recusam a efetivá-la, porque são de uma
religião que não concorda e etc. Mas a gente acredita que a
educação e a informação é o melhor caminho (Tata Arabomi –
Líder Religioso Candomblecista).
Principalmente o esclarecimento. Se tivéssemos uma educação
que mostrasse a relação entre as diversas religiões e o que, de
fato, cada uma é e tem como propósito, linha de pensamento,
fundamentações filosóficas e científicas e com essas informações

4
No universo de 17 pessoas entrevistadas, oito apontam a educação como principal estratégia de combate à
intolerância. As outras nove destacam outras ações como, por exemplo, atuação mais rigorosa na punição dos
praticantes de intolerância, engajamento das lideranças religiosas no combate à intolerância entre outros.

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Entre o que é vivido e o que é sentido

divulgadas amplamente, principalmente nas disciplinas de religião


nas diversas escolas. (Ivanildo Fernandes de Araújo – Colaborador
da Associação Municipal de Espiritismo de Campina Grande)
Algumas igrejas fazem o seu percurso para combater isso, mas eu
acho que o caminho, quem tem que fazer mesmo isso é a
sociedade organizada, são os movimentos de direitos humanos, os
espaços públicos, são esses que têm que forçar uma mudança. As
faculdades, as universidades, as escolas públicas. Elas tem que
trazer nos seus currículos, constantemente, esses temas e esse
tema tá muito fraco ainda. Por exemplo, esses temas são
chamados transversais, assim como outros muito comuns hoje,
como a homofobia, a sexualidade... Eles não são devidamente
tratados pelas escolas públicas (Adhayr Cruz – Professor, Pastor e
Teólogo)

Esta tendência expressa nas falas das entrevistas revela uma crença dos atores
sociais no poder transformador de projetos de sociabilidade orientados para a
ênfase em práticas democráticas e cidadãs5.Estes projetos pressupõem
intervenções articuladas através de dois eixos: mobilização da sociedade civil,
através da construção de agenda pública que priorize a questão do
13
enfrentamento da intolerância religiosa; e ações governamentais voltadas à
regulamentação e implementação desta agenda de forma estrutural.

3. Intolerância Religiosa e espaço público brasileiro: religião,


modernidade e secularismo

Quando pensamos sobre as redefinições do campo religioso na


contemporaneidade, em contraposição às abordagens antropológicas sobre ele,
é possível identificar uma tendência, ainda não superada, de universalização do
fenômeno religioso, traduzida através de um esforço de leitura e decodificação
das cosmologias e universos simbólicos a partir deste pressuposto teórico e
metodológico. Esta característica da antropologia, segundo Montero (2012,
p.167):

5
A exemplo da lei 10.639, que foi citada em uma das falas, que visa a incorporação dos conteúdos referentes a
história e cultura afro-brasileira no currículo das escolas a partir do nível fundamental. Esta Lei foi alterada em
10 de março de 2008, pela Lei 11.645, que estabelece a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-
brasileira e indígena nos estabelecimentos públicos e privados de ensino fundamental.

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Entre o que é vivido e o que é sentido

[...] reaparece, no entanto, em formulações que sustentam que a


compreensão dos modos de pensar e de ser das culturas não
europeias passaria pela capacidade do antropólogo de acessar e
traduzir a experiência daquele Outro assumindo a posição
heurística própria àquele ponto de vista.

Esta perspectiva de viés fenomenológico tende a considerar a “experiência do


transcendente” como a essência da religião e revela o fascínio que a retórica da
experiência exerce desde o período moderno. Esta ênfase na experiência reforça
o caráter inacessível do religioso à observação objetiva e à possibilidade de
crítica científica. Como resultado deste processo temos a reificação ontológica
das visões de mundo que pensávamos apenas descrever e analisar (MONTERO,
2012).

O desafio teórico que está posto nos convida a pensar a categoria religião como
um produto histórico imerso no contexto de interação entre a modernização e a
secularização que provoca mudanças na retórica religiosa e em seu lugar de
influência no discurso público.Isto implica o reconhecimento do papel da
14
religião na definição das fronteiras entre o público e o privado e na própria
constituição da secularização.

[...] apesar de todas as previsões e injunções da literatura sobre a


secularização, hoje é preciso reconhecer que a Igreja Católica no
Brasil – ainda a mais influente instituição religiosa do país –
sempre atuou, material e simbolicamente, na formulação de uma
ideia de direitos (individuais, coletivos e culturais) e foi ator
importante na construção de um modelo de sociedade civil pelo
menos em três grandes momentos: do início da República até os
anos 1970 lutou contra as forças positivistas e anticlericais pela
definição dos atos civis e da liberdade religiosa; nas décadas de
1970 e 1980 colaborou na construção da ideia de direitos sociais;
nas décadas seguintes alinhou-se às lutas pelos direitos étnicos
(MONTERO, 2012, p.170).

O que fica registrado como desafio à reflexão é a compreensão acerca dos


processos de permanência e de imbricamento de categorias religiosas de longa

Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017


Entre o que é vivido e o que é sentido

duração – direito natural, comunidade, participação, justiça – com outras


tradições políticas a fim de constituir a nossa visão de sociedade democrática.

Com o intuito de escapar das armadilhas do essencialismo ao voltarmos nosso


olhar para as questões correlatas à atuação religiosa na esfera pública é preciso
reconhecer as diversas formas das religiões conquistarem a possibilidade de
estarem presentes e serem ouvidas. Isto está diretamente correlacionado ao
modo como a questão da intolerância religiosa é experienciada e quais as
estratégias de reação reconhecidas e acionadas pelos atores diante desta
problemática.Ao observarmos alguns trechos das falas de pessoas entrevistadas
pela equipe do Rivir podemos nos aproximar dos efeitos da intolerância sobre as
práticas religiosas que são alvo constante deste tipo de violação:

Quem sofre violência e intolerância religiosa, num primeiro


momento, sente impotência e dor espiritual, pela compreensão de
que o Ser Humano está a milênios da real Luz divina. O martírio, a
prostração e a revolta chegam quando nos damos conta de que a
justiça não alcança os violentos e intolerantes, cuja a alma está
repleta de ódio, soberba, preconceito, ignorância, malícia,
realidade distorcida, impiedade. O fato é que necessitamos ainda
15
muito tempo para expurgar estes sentimentos entranhados em
nós (Ras Geraldinho – Fundador da Primeira Niubingui Etíope
Copta de Sião do Brasil).
O sentimento que nos é passado é de ódio, é de raiva, e tentam
nos aniquilar quererem nos excluir e nos humilhar, nos extinguir,
mas não consegue porque a nossa crença é milenar e no Brasil
secular. Nós temos origem, nós temos história. A nossa crença ela
é muito maior e nós acreditamos nisso. Nossos antepassados
chegaram ao Brasil escravizados, mas eles não nasceram
escravos. Nós fazemos parte de um povo com reis e rainhas,
mestres e mestras que viviam no continente africano (Tata
Arabomi–Líder Religioso Candomblecista).
Senti no início, medo, desespero... Assim que Kaylane foi
socorrida e voltei ao local meus sentimentos mudaram.
Sentimentos de revolta, justiça e indignação (Kátia Marinho – Avó
da menina Kaylane/Candomblecista).
Então quando as pessoas de terreiro começam a não denunciar.
Eu queria deixar isso registrado, não pense que é porque os casos
não acontecem. É o temor mesmo. É o temor de quem chega
armado na porta, é o temor do anonimato, porque são pessoas que
mesmo que elas se apresentem, mas elas são anônimas por muitas
vezes. Porque elas não tacam fogo na sua casa quando você está

Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017


Entre o que é vivido e o que é sentido

acordada, como aconteceu em Brasília. Ela toca quando o Pai de


Santo não está mais lá. Quando o sacerdote saiu da casa. E por
mais que a gente diga que não, o nosso povo tem medo mesmo da
briga, do confronto. Não busca esse confronto, não busca. Eu sei
que a gente precisa de fato entender que tem que partir pra, a
palavra não é o enfrentamento armado, é o enfrentamento
baseado numa lei né, o direito a ter sua crença, é constitucional
isso né. A nossa lei máxima diz isso (Mãe Elza de Iemanjá –
Ialorixá e integrante da Coordenadoria de Igualdade Racial do
Estado de Pernambuco).
Vários terreiros foram incendiados tanto aqui na região
metropolitana, como na zona da mata, agreste e, principalmente,
no sertão. Nada foi feito, nenhum desses terreiros foi
reconstruído. Ficou aquela gritaria pra lá, aquela confusão pra cá,
mas não foi, não houve reparação do dano da maneira como
deveria. [Quando perguntado sobre o sentimento diante da
intolerância religiosa]:Olhe, uns estão doentes, outros choram
muito, outros até já chegaram a pensar em deixar a religião. Ou
seja, é uma forma de extermínio perversa (Tiago Nagô –
Candomblecista e Juremeiro, Ativista dos direitos dos povos de
matriz africana e indígena).

16

As falas acima destacadas carregam em sua simbologia a busca pela legitimação


de suas práticas frente à contestação violenta representada pelas práticas
intolerantes que geram os sentimentos de “impotência”, “dor espiritual”,
“desespero”, “medo”, expressos pelos interlocutores. Como se pode observar
nas falas, os indivíduos articulam as práticas da intolerância religiosa com as
rupturas do tecido democrático brasileiro que revelam a desigualdade de
reconhecimento do direito à liberdade religiosa no que tange às religiões não-
cristãs, em especial as afro-brasileiras. Este desequilíbrio demonstra o quanto
acivis cristã continua a exercer uma influência poderosa na nossa sociedade. Ao
delimitar e classificar o ato intolerante, os indivíduos o fazem através de um
processo dialógico onde, ao mesmo tempo em que circunscrevem o intolerante,
projetam a si mesmos em sua legitimidade enquanto atores políticos, cidadãos e
religiosos, evocando os direitos que lhes são negados através do ataque à sua
crença. Este processo é evidenciado através das falas de Ras Geraldinho, ao
destacar que “a justiça não alcança os intolerantes”; Tata Arabomi, quando
sublinha os sentimentos de “ódio”, “raiva” e “aniquilação” que, na percepção
dele, motivam os intolerantes; do sentimento de impotência de Mãe Elza diante
da baixa capacidade de reação das vítimas de intolerância religiosa.

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Entre o que é vivido e o que é sentido

A força dacivis cristã determina uma persistente hierarquização das expressões


de fé e obriga as religiões afro-brasileiras a articular simbolicamente seus
discursos públicos a partir do modelo cristão. Isto leva os atores religiosos
destas denominações a buscar aliar suas demandas à defesa dos direitos
humanos e as pautas étnico-raciais6 na tentativa de acessar o debate público em
condições de confrontar práticas que sistematicamente produzem efeito de
exclusão e silenciamento de suas expressões de fé.

Considerações Finais

As reflexões desenvolvidas ao longo deste artigo figuraram enquanto uma


tentativa de aproximação do espaço público enquanto constituído de modo
discursivo através de fluxos que buscaram evidenciar que entre os diferentes
atores da cena pública há uma constante negociação sobre “quem pode dizer” e
“o que pode dizer”. A constituição deste lugar de enunciação é permeada,
constantemente, por um processo historicamente determinado pela produção de
legitimidade para falar e produção de legitimidade sobre o que pode ser dito
(MONTERO, 2012, p.177). 17

Esta abordagem se dirige a um esforço de compreensão acerca da intolerância


religiosa como inserida no contexto de produção de debates que constituem a
esfera pública e legitimam ou silenciam demandas dos diversos atores que a
constituem. Deste modo, chegamos ao entendimento de que o reconhecimento
da intolerância religiosa em sua materialidade e dinâmica pressupõe o
reconhecimento das vítimas (indivíduos e coletividades que têm seus direitos
violados) e dos agressores (indivíduos e coletividades que negam o direito à
diferença) em uma correlação epistêmica pelo direito de definir o fenômeno
religioso como mais ou menos inclusivo no que se refere às diferentes
expressões de fé.

Dito de outro modo, a constituição destas posicionalidades de “vítima” e


“agressor” comunicam as correlações de força dos diferentes grupos religiosos
no espaço público e evidencia, entre outras coisas, as desigualdades entre estes
diferentes atores, que são expressas pela capacidade de reação ao fenômeno da
intolerância em contraposição ao nível de efetividade das punições aos que
praticam esse tipo de violência.

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Não é à toa que entre os principais objetivos do Estatuto da Igualdade Racial estão a garantia do secularismo e a
luta contra a intolerância religiosa (MONTERO, 2012:176).

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Entre o que é vivido e o que é sentido

É importante, portanto, reconhecer que este processo se encontra eivado de


clivagens que estabelecem desigualdades de status social dos diferentes credos,
de aptidão para atuar e proferir discursos públicos capazes de fomentar
consensos e de influência junto às diferentes esferas ligadas ao Estado e à
sociedade civil organizada.

Por fim, cabe ressaltar que, ao abordar estas dinâmicas a partir da perspectiva
das controvérsias, compreende-se que os diferentes atores confrontam visões
que partem de múltiplos referenciais, nem sempre religiosamente
inspirados(direitos humanos, liberdades individuais, direito constitucional, etc.),
e que as disputas que constituem o espaço público articulam formas provisórias
de enunciação das demandas que seguem continuamente se reelaborando e
retroalimentando numa busca constante de construção de argumentos capazes
de mobilizar a opinião pública em torno de si.

Pensar o espaço público a partir de um olhar sobre a interação do campo


religioso, em toda sua diversidade e complexidade, com os demais atores sociais
e com o Estado nos ajuda a compreender os processos de constituição do nosso
processo de secularização, entendendo sua dinâmica a partir do que ele é
efetivamente. Isto significa libertar-se de um referencial weberiano, que domina
ainda hoje as abordagens sobre este fenômeno, buscando observá-lo naquilo que
18 ele efetivamente tem vindo a ser.

Referências Bibliográficas

BIRMAN, Patrícia. Imagens religiosas e projetos para o futuro. In: BIRMAN, Patrícia
(Org.). Religião e espaço público. São Paulo: Attar, 2003. p. 235-254.

FONSECA, Alexandre Brasil; ADAD,Clara Jane (Orgs.).Relatório sobre intolerância e


violência religiosa no Brasil (2011-2015): resultados preliminares. Brasília: Secretaria
Especial de Direitos Humanos, 2016.

BORTOLETO, Milton. "Não cultuarais imagens de escultura": alguns aspectos do debate


público acerca da tipificação jurídica da "intolerância religiosa" e da "liberdade
religiosa". In: MONTERO, Paula (Org.). Religiões e Controvérsias
Públicas: experiências, práticas sociais e discursos. São Paulo: Terceiro Nome, 2015.
Cap. 5. p. 127-162.

Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017


Entre o que é vivido e o que é sentido

MARIANO, Ricardo. Pentecostais em ação: A demonização dos cultos afro-brasileiros. In:


SILVA, Vagner Gonçalves da (Org.). Intolerância Religiosa: Impactos do
neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Edusp, 2015. Cap. 3.
p. 119-147.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de. Entre o privado e o público: considerações sobre a
(in)criminação da intolerância religiosa no Rio de Janeiro. Anuário
Antropológico, Brasília, v. 1, n. 2, p.125-152, 2010.

MONTERO, Paula. Controvérsias Religiosas e Esfera Pública: repensando as religiões


como discurso. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 1, n. 32, p.167-183, 2012.

MONTERO, Paula (Org.). Religiões e Controvérsias Públicas: experiências, práticas


sociais e discursos. São Paulo: Terceiro Nome, 2015.

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