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R e v i s t a de I d é i a s E d i t a d a pe l o G a b i n e t e do S e n a d o r L ú c i o A l c â n t a r a

Ano 4 - No 4 - Dezembro de 1999

Globalização e Soberania
Síntese 1
2 Síntese
Sumário
5
Introdução

7
Globalização e Cultura
Lúcio Alcântara

11
As Matrizes Históricas da Globalização
Marco Antônio Villa

17
O Sistema de Estados-Nação Frente
aos Processos Econômicos Globais
Alcides Costa Vaz

23
Globalização e Mercado: Uma Nova Realidade
Ladislau Dowbor

31
A Globalização e os Novos Desafios à Democracia
Celeste Cordeiro

37
A Reforma do Estado no Contexto da Globalização
Cláudia Costin

43
O Meio Ambiente na Globalização
Marina Silva

Síntese 3
4 Síntese
Introdução
Muito se tem discutido sobre alterações re-
o
Ano 4 - N 4 - Dezembro de 1999
centes na dinâmica das relações políticas e

econômicas internacionais que são, em conjunto,

identificados com um novo modelo de articulação


Coordenação Editorial genericamente denominado de Globalização.
Ricardo Alcântara
A revista Síntese, sempre fiel ao seu propó-

Editor Executivo sito de contemplar percepções diversificadas sobre


Sandra Ibiapina
um mesmo tema a cada edição, tem neste seu quarto

lançamento a Globalização posta em foco por cien-


Secretaria-Geral
Celso Machado tistas sociais, parlamentares e uma ministra de

Estado do Governo brasileiro.


Diagramação
Roberto Barros Observado por alguns como um fenômeno

que repercute a partir das transformações radicais


Ilustrações
Sérgio Lima na cultura produtiva e das tecnologias emergentes, a

globalização é vista por outros apenas como mais

uma etapa no processo de dominação das nações mais

prósperas sobre aquelas ainda em fase de desenvol-

Edição semestral do gabinete do Senador Alcântara vimento e dependência.


Senado Federal - Anexo II
Ala Senador Teotônio Vilela, Gab. 7 A Globalização, como tudo que, já sendo His-
70165-900 - Brasília - DF
Telefones (61)311-2302 ou 311-2304 - Fax (61)323-5372 tória, é ainda recente, se desenvolve em meio a anta-
Homepage: www.senado.gov.br
web/senador lucalc/lucalc.htm
gonismos, desperta receios e entusiasmo, ora como

uma verticalização das crises, ora insinuando-se

como mais um alento redentor, mas, como enredo

Distribuição Gratuita
da coletividade humana, certamente contraditória e

movida por interesses de grandeza objetiva.

Síntese 5
6 Síntese
Globalização e Cultura

Lúcio Alcântara

Às vésperas do novo milênio, é oportuno cerrou precipitadamente as portas para uma discussão
revisitar conceitos e noções que ainda integram, e conti- estrutural sobre os problemas do modo de produção
nuarão a integrar, a agenda ideológica e econômica dos capitalista.
governos que, hoje, regem o destino das nações. Assim, a globalização se projeta como um po-
No caso do Brasil, cabe também a nós, que deroso escudo ideológico sobre a estrutura econômica
detemos mandatos parlamentares, a iniciativa de propor ocidental, a partir do qual o sistema capitalista pode,
reflexões sobre o fenômeno da globalização e seus des- com mais naturalidade, se reproduzir e se estender para
dobramentos no processo de desenvolvimento do País. uma nova fase de seu desenvolvimento.
A globalização muito mais consiste num pro- Além disso, cabe ressaltar que, historicamen-
cesso ideológico de reprodução das práticas concen- te, cada nova transição em seu movimento tem-se tra-
tradoras de capital, do que num mero processo duzido num processo inexorável de concentração de ri-
econômico e financeiro de abertura de mercados. É, quezas e disseminação de pobreza no mundo.
portanto, fundamentalmente um fenômeno político. Essa situação tem suscitado sombrias inquie-
Embora a integração brasileira, no circuito dos tações na intelligentsia brasileira. Celso Furtado, que
mercados mundializados, tenha sido inevitável e bastan- há pouco tempo publicou O Capitalismo Global, define
te salutar no início da década, uma visão mais distancia- globalização como o ingresso do capitalismo numa nova
da sobre nossa curta trajetória nestes mercados nos su- etapa no processo de produção.
gere interpretações menos apaixonadas e mais realistas Para ele, tudo pode ser resumido numa brusca
do fenômeno. elevação das taxas de juros internacionais, associada a
Hoje, há algo sobre o qual os cientistas sociais uma intensa drenagem de capitais para os EUA, median-
e pensadores brasileiros decididamente concordam: a te a imposição de uma nova ordem econômica e
globalização tem, a rigor, agravado velhas contradições tecnológica, que tem enormemente facilitado o controle
sociais e engendrado outras novas, em todos os níveis, do fluxo de capital, tecnologia e comunicação mundo afora.
nos quatro cantos do mundo. Já numa perspectiva histórica, Octavio Ianni
A euforia original em torno da globalização se identifica ao longo do século XX diversas fases em que
exaure rapidamente, cedendo lugar a um panorama apre- se verifica uma progressiva reorientação e redução da
ciativo menos ilusório e mais crítico: a ideologia de um capacidade decisória dos governos nacionais.
mundo global inaugurou, nos anos 90, nova mentalidade Seja qual for o nome que se confira ao fenô-
sobre os rumos das economias nacionais, de outro, mas meno, se detectará, indiscutivelmente, crise aguda no Es-

Síntese 7
tado-Nação e, portanto, crise na soberania nacional por desenvolvimento tecnológico nos países emergentes e,
conta do excesso de injunções exercidas por entidades portanto, inviabilizam o desenvolvimento, provocando
internacionais não somente sobre a economia, mas tam- desemprego em massa.
bém sobre a saúde, meio ambiente, educação, trans- O que se observa com isto é a queda do
porte e habitação. nível de emprego, na proporção em que caem os
Como conseqüência, as forças sociais internas salários. O desfecho do processo culmina nas inces-
se enfraquecem, com um descompasso crescente entre santes e vultosas transferências de lucros para as
problemas concretos e diretrizes adotadas pelos gover- matrizes transnacionais. Sem dúvida, a noção de livre
nos. Isso impõe a concomitante reforma do Estado por comércio e concorrência parece, subliminarmente,
intermédio da desregulamentação da economia, abertu- encerrar o projeto de acentuação da periferização das
ra de mercados, privatização das estatais, reforma dos economias do Terceiro Mundo.
sistemas de previdência social, saúde e educação. Os preços dos produtos manufaturados expor-
Em nome dessas mudanças, pequenas faixas tados pelos países em desenvolvimento cresceram 12%
populacionais se viram mais integradas a determinados em termos nominais em dólares nos anos 80, ao passo
grupos sociais transnacionais em Paris, Tóquio e Nova que durante o mesmo decênio os preços das manufaturas
Iorque, em detrimento de milhares de outras que se viram exportadas pelos países industrializados aumentaram 35%.
abruptamente desconectadas de cidadania e de meios Durante a primeira metade dos anos 90, o qua-
de sobrevivência. dro se alterou ainda para pior, agravando em muito as

A globalização muito mais consiste num processo ideológico de reprodu-


ção das práticas concentradoras de capital, do que num mero processo
econômico e financeiro de abertura de mercados.

Para Adriano Benayon, a pergunta se resume discrepâncias no volume das exportações entre o centro
a um só ponto: por que as condições sociais e e a periferia. Nessas circunstâncias, se temos em conta
econômicas não param de se deteriorar em proporção que nossa economia dificilmente pode recuperar seu
inversa ao colosso das dívidas e à alienação do dinamismo, apoiando-se basicamente nas relações exter-
patrimônio público, apesar da abundância de recursos nas, cabe indagar se não terá sido um erro abandonar a
naturais e humanos? estratégia de construção do mercado interno como “mo-
Sem hesitação, o autor julga que o desmonte tor de crescimento”.
do Estado e sua crescente fraqueza justificam a situação Não é à toa, portanto, que o Brasil, apesar de
atual de impotência e fragilidade experienciadas por na- ter tomado todas as medidas recomendadas no manual
ções inteiras, com suas “pseudo-elites” subordinadas aos liberal do neoclassicismo, atravessa hoje uma séria crise
centros. econômico-financeira, que deve muito de suas causas
Com o advento da globalização, as periferias ao atrelamento praticamente incondicional de nossa po-
nacionais vão sendo destruídas, enquanto imaginam que lítica de governo aos bons e maus ventos que sopram
as pretensas reformas lhes darão um estado mais efici- do mercado financeiro internacional.
ente, com a redução de sua esfera de atuação. Tudo acontece como se, de súbito, a socieda-
Globalização denotaria, portanto, imposição de brasileira tomasse consciência de que, ao se envolver
autodestrutiva aos países de menor poder industrial, de nas teias de um transnacionalismo desabridamente
forma que sua inferioridade seja não só mantida, mas consumista, se alienara profundamente de seus compro-
acentuada mediante a confiscação desmedida de direi- missos elementares com o patrimônio da Nação e com
tos à “propriedade intelectual e industrial”, bem como a a justiça social.
reserva de mercado destes países para as empresas Por conta disso, o Governo brasileiro se deba-
transnacionais. te num dramático dilema ideológico, na essência do qual
Dessa forma, os direitos excessivos, e mal atri- se sobressai a certeza de que globalização nem sempre é
buídos, sobre a propriedade industrial inviabilizam o sinônimo de passaporte para o Primeiro Mundo.

8 Síntese
Pelo contrário, a experiência nos demonstra significado da cidadania, como se o consumismo fosse
que, por detrás de um discurso falsamente iluminista e o mais imediato, objetivo e evidente exercício de
democrático, as vozes transnacionais escondem a de- cidadania.
terminação de acentuar o hiato das diferenças nacionais Confiscam do Estado o poder de registro civil e
e sociais de renda, bem como a submissão dos mercados elegem o cartão de crédito como documento de identida-
periféricos ao controle dos oligopólios centrais. de, credibilidade e cidadania. Por último, tentam
Os revezes provocados pelo efeito da desterritorializar a política, transformando em realidade
globalização não se limitam à esfera econômica. A virtual e banal tudo que lhe diz respeito num mundo
contrapartida da preeminência da internacionalização é o eminentemente sistêmico.
afrouxamento dos vínculos de solidariedade histórica, que A estrutura internacional de poder evolui para
unem, no quadro de certas nacionalidades, populações assumir a forma de grandes blocos de nações-sedes de
marcadas por acentuadas disparidades culturais e de nível empresas transnacionais que dispõem de rico acervo de
de renda. conhecimento e de pessoal capacitado.
As forças predominantes na sociedade civil, Então, como ainda esperar do Brasil a reivin-
segundo Celso Furtado, possuem escassas possibilida- dicação de um estado nacional livre e soberano? Como
des de influenciar as diretrizes governamentais. Estão em poderemos preservar a identidade cultural e unidade
causa, portanto, as condições de construção e realiza- política brasileira em um mundo dominado por grupos
ção da hegemonia, seja das classes e grupos sociais transnacionais que fundam seu poder no controle da
subalternos, seja de outros, e de novos arranjos com- tecnologia, da informação e do capital financeiro?
preendendo subalternos e dominantes que desafiem as Num horizonte de curto prazo, a era da
diretrizes do bloco neoliberal. globalização terá de produzir, no Brasil, significados para
Nesse contexto, convém destacar o papel ide- além de desemprego crônico, desaceleração da capaci-
ológico exercido pela indústria cultural no processo de dade produtiva, extremo endividamento interno e externo,
“naturalização” da globalização, na medida em que re- e desmonte da estrutura industrial e agropecuária do País.
força a dependência cultural via doutrinação política e Em outras palavras, globalização somente po-
incentivo consumista e estereotipam-se padrões de di- derá adquirir sentido positivo se, e somente se, vier acom-
ferenciação social, étnica e cultural mediante estilos panhada de um projeto de desenvolvimento que atenda
hierarquizados de consumo. às necessidades locais de consumo e produção, bem como
Para Octavio Ianni, a mídia, como forma do- corresponda às expectativas regionais de progresso e
minante de autocontrole das massas, distorce o prosperidade coletiva.

Síntese 9
10 Síntese
As matrizes históricas
da globalização

Marco Antônio Villa

Em seu último livro, o historiador Eric cidade de Veneza, principalmente, estabelecera diversos
Hobsbawn escreveu que a “destruição do passado – ou acordos com os mercadores muçulmanos, que traziam
melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa ex- os produtos orientais até os portos de Alexandria, Acre
periência pessoal à das gerações passadas – é um dos e Trípoli, de onde eram transportadas em navios
fenômenos mais característicos e lúgubres do final do venezianos até a Europa. Este comércio acabou pro-
século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa porcionando altos lucros aos comerciantes italianos, des-
espécie de presente contínuo, sem qualquer relação or- pertando o interesse de outros mercadores da Europa,
gânica com o passado público da época em que vivem. como os da península Ibérica, rota de passagem para as
Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que mercadorias que chegavam ao norte da Europa, princi-
outros esquecem, se tornam mais importantes que nun- palmente no século XIV, devido às dificuldades do co-
ca no fim do segundo milênio” 1. Seguindo a assertiva mércio terrestre em razão da Guerra dos Cem Anos.
de Hobsbawn, farei neste breve artigo um conciso pai- O monopólio exercido pelas cidades italia-
nel histórico do processo de construção da história mun- nas acabou obrigando os portugueses a atuarem somente
dial a partir do século XV. como intermediários na comercialização dos produtos
Durante a Baixa Idade Média (séculos XI orientais. Impedidos de adquirir diretamente das fontes
ao XV), a Europa ocidental passou por profundas trans- produtoras as mercadorias orientais, acabaram sujeitan-
formações. A partir do final do século XII e ao longo do-se a pagar altos preços por elas, reduzindo-lhes a
do século seguinte, aumentou a exploração econômica margem de lucro. A saída estava em encontrar uma rota
dos camponeses por parte dos senhores feudais, cujos direta para o Oriente – genericamente chamado “Índi-
hábitos de consumo se tornaram cada vez mais refina- as” – através do oceano Atlântico. Além disso, a neces-
dos e caros: trocavam-se carne, leite e queijo de ovelhas sidade de ouro e prata para a cunhagem de moedas,
e cabras por mercadorias como o lúpulo, especiarias, essenciais ao comércio, forçava os europeus a buscar
pescados, mel, arroz, figos e passas. As roupas e ador- novas jazidas ou pontos de troca de metais preciosos,
nos eram cada vez mais sofisticados e caros. Essas mu- esgotados na Europa. Ao mesmo tempo, principalmente
danças favoreceram, sobretudo, as cidades italianas, que, a partir de 1450, a retomada do crescimento da popu-
desde a Primeira Cruzada (1096-1097), tiveram o Me- lação européia e o surgimento de novas técnicas agrícolas
diterrâneo paulatinamente aberto à navegação, pois até e manufatureiras fizeram crescer a demanda por produ-
então, como escreveu Ibn Khaldun, nenhuma tábua boi- tos e matérias-primas no Velho Continente. A Coroa
ava no Mediterrâneo sem que os árabes afundassem. A espanhola acabou financiando a expedição de Cristovão

Síntese 11
Colombo, que tentava pelo Ocidente uma via para o nhias de comércio, privilegiadas pelos governos euro-
Oriente, resultando, em 1492, na descoberta da América. peus com o monopólio de produtos, a instalação de ins-
Já os portugueses optaram por costear a África ao longo tituições financeiras como bancos e bolsas de valores, a
do século XV e atingiram a Índia em 1498. Por outro criação das letras e câmbio, dos títulos, entre outros ele-
lado, os europeus do norte tentaram, sem sucesso, um mentos do mundo financeiro. A ampliação dos merca-
caminho para o Oriente através do que hoje chamamos dos e do dinheiro disponível para novos investimentos,
de América do Norte 2. Segundo André Gunder Frank, sobretudo em função das trocas com a África e a Ásia,
“a nova rota oceânica para as especiarias orientais (...), impulsionou o crescimento das manufaturas e intensifi-
bem como as outras no Atlântico e por toda a parte, cou as atividades agrícolas européias. O aumento dos
formavam a base daquilo que viria a ser determinante nos lucros advindos do comércio possibilitou nova fonte de
vários séculos seguintes: a supremacia naval, tanto do recursos e de fortalecimento político do Estado na Eu-
ponto de vista militar quanto comercial” 3. ropa. Por fim, surgiram novas idéias e doutrinas – inclu-
A expansão marítimo-comercial européia sive religiosas – nas quais a burguesia encontrou a justi-
acabou redesenhando o mundo, integrando os continen- ficativa ou a valorização do enriquecimento e do lucro,
tes de forma jamais sonhada. Vale lembrar o caso dos em oposição às restrições impostas pela Igreja Católica.
holandeses que, no século XVII, invadiram o Nordeste O acúmulo de dinheiro como forma de valorizar o indi-
brasileiro para controlar a produção de açúcar, ocupa- víduo veio opor-se a honra e à nobreza do sangue –
ram Angola garantindo o fornecimento de escravos para princípios típicos da moral aristocrática. Nesse mundo

Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente con-


tínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que
vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem,
se tornam mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.

o Brasil, colhiam especiarias nas Molucas e controlavam emergente, a burguesia aparecia como uma classe social
a venda de especiarias e do açúcar na Europa. Por isso, que se afirmara pelos bens adquiridos, e não exatamente
os estudiosos costumam afirmar que, a partir da expansão pelo que ela representava em termos de títulos
marítimo-comercial européia, a história passou a ser nobiliárquicos ou cargos públicos.
mundial – ou seja – tornou-se impraticável analisar o No último quartel do século XVIII, com
movimento da economia, das idéias, dos conflitos entre as o advento da Revolução Industrial, as relações
nações, desconsiderando-se essas interligações cada vez econômicas entre os diversos continentes acabaram
mais intensas das diversas regiões do globo terrestre 4. se intensificando ainda mais. O comércio não foi só
Outra mudança radical – também pela primeira vez – foi o de mercadorias entre a Europa Ocidental – onde teve
deslocamento do centro econômico, que do Mediterrâneo início as principais transformações econômicas do
passou para o Atlântico. O eixo mediterrânico continuou período, especialmente a Inglaterra – e os outros
ativo, mas inferior em volume, valor e variedade das continentes. Basta recordar que o desenvolvimento
transações em relação ao comércio transatlântico. As da Revolução Industrial também esteve ligado ao
cidades mercantis italianas perderam o monopólio de tráfico de escravos, controlado pela Inglaterra durante
comércio com o Oriente para Lisboa – transformada, nos o século XVIII. Milhões de africanos foram levados
primeiros anos do século XVI – no principal centro à força para o continente americano, especialmente
revendedor de especiarias 5. Logo em seguida, com o para o sul dos Estados Unidos, as Antilhas e o Brasil:
afluxo do ouro e da prata extraídos na América, a cidade foi a maior diáspora da História. Em Liverpool, a cada
espanhola de Sevilha assumiu a condição de pólo ano eram construídas dezenas de barcos utilizados no
comercial da Europa. tráfico. Eric Williams escreveu um cuidadoso estudo
As atividades comerciais experimentaram sobre as relações entre a escravidão e o capitalismo
uma expansão jamais vista. Com elas vieram as compa- nascente. Para ele, o “crescimento de Manchester

12 Síntese
esteve intimamente associado ao crescimento de com a participação de duas potências já no final do século:
Liverpool, sua saída para o mar e para o mercado os Estados Unidos – após a guerra Hispano-Americana,
mundial. O capital acumulado por Liverpool, no tráfico e o Japão – já na era Meiji. No caso europeu, até 1914,
de escravos, escoou-se para o interior e fecundou as a maior parte das divergências entre as potências estará
energias de Manchester; os artigos de Manchester localizada na partilha colonial. A Europa, especialmente
destinados à África eram transportados nos navios Inglaterra, França, Alemanha (que se unifica após o
negreiros de Liverpool”6. término da guerra Franco-Prussiana), Bélgica e Itália
A importância do comércio de escravos era (com a unificação concluída em 1860) , procuraram na
tão grande que, no final do século XVIII, um terço das Ásia e África fontes de matérias-primas, áreas para a
exportações de tecidos ingleses destinava-se à costa da produção de alimentos e mercados consumidores para
África e 50% iam para os Estados Unidos, principal- suas indústrias. Deve-se destacar também a necessidade
mente para os estados do sul, onde predominava o tra- de encontrar regiões para aplicações de capitais
balho escravo. Em 1850, as plantações do sul dos Esta- excedentes nos países industrializados. Além desses
dos Unidos forneceram 80% do algodão importado pe- fatores, havia ainda interesses políticos, culturais e
las indústrias inglesas. Especialmente para o tráfico de religiosos motivando a expansão imperialista. A posse
escravos, a Inglaterra produzia em grande quantidade de colônias conferia às nações riqueza e prestígio políti-
correntes e cadeados para aprisionar negros na África e co. Quanto mais numerosas fossem as possessões, mai-
nos navios negreiros, além de armas de fogo 7. or o poder de pressão do país nas negociações diplo-
No século XIX, o processo de mundiali- máticas, maior o espaço para o desenvolvimento do ca-
zação da economia cresceu em ritmo nunca visto. Con- pital em cada país. As igrejas cristãs enviaram missioná-
comitante a segunda Revolução Industrial, a Europa rios à Ásia e África para “civilizar” e evangelizar os cha-
iniciou a partilha da África e da Ásia, contando também mados “povos primitivos”. Na Europa, havia um senti-

Síntese 13
mento disseminado de superioridade cultural e racial em flito na Ásia ou África sempre acabava arrastando as
relação aos povos da África e Ásia – nos Estados Uni- super-potências para campos opostos. O custo para
dos e Japão este sentimento acabou se materializando os continentes submetidos a expansão mundial européia
no século XX. Assim, a expansão imperialista, em vez desde o século XV foi muito alto, especialmente para
de revelar sua face exploradora e opressora em relação a África. Os mais de cem anos de exploração
aos povos desses continentes, apresentava-se como um sistemática pelos países capitalistas centrais – sem
esforço dos europeus para retirá-los da barbárie e esquecer o tráfico de escravos, organizado desde o
integrá-los à civilização, numa apologia dos feitos século XVI – destruíram a organização socioeconômica
imperialistas, destacando o caráter pedagógico da tradicional e agravaram as divergências étnicas entre
dominação. os povos africanos. Os novos países mantiveram as
Na partilha do bolo colonial, a maior e mais fronteiras do período colonial, traçadas de forma arbi-
rica fatia ficou com a Inglaterra. Na África, dominava o trária, sem respeitar a tradição africana – nunca é demais
Egito, Sudão, África Oriental Britânica, Rodésia, lembrar que o conceito de estado nacional é produto
Bechuanalândia, Colônia do Cabo (África do Sul), da história européia. Tribos foram divididas, grupos
Nigéria, Costa do Ouro, Gâmbia e Serra Leoa; na Ásia, étnicos rivais acabaram permanecendo em um mesmo
os ingleses ficaram com a Índia e outras áreas menores; país – o que acabou gerando guerras civis, golpes de
e na Oceania apossaram-se da Austrália e da Nova estado e massacres de minorias nacionais.
Zelândia. O império colonial inglês era tão vasto que, Contraditoriamente, a pluralidade étnica e
em 1905, reunia 350 milhões de habitantes, enquanto lingüística levou os novos países a adotar a língua do
no Reino Unido esse número mal passava dos 40 milhões. conquistador europeu como meio de garantir a unidade

A ampliação dos mercados e do dinheiro disponível para novos investi-


mentos, sobretudo em função das trocas com a África e a Ásia, impulsionou o
crescimento das manufaturas e intensificou as atividades agrícolas européias.

Das colônias britânicas, a mais importante era a Índia, nacional. Na maioria dos países, regimes ditatoriais ins-
que representou um grande mercado consumidor para talaram-se no poder e, quando eram derrubados em guer-
suas mercadorias: só em tecidos de algodão, nas últimas ras civis, eram substituídos por uma nova ditadura. Esse
décadas do século XIX, o mercado indiano consumia quadro político permanece até hoje.
quase metade da produção inglesa. A abertura do canal No final do século XX, os dilemas da
de Suez, ligando o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho, globalização colocam-se sob novas bases. Em nenhum
permitiu ampliar o comércio com a Índia e transformou outro momento da história da humanidade as relações
o Egito e os territórios vizinhos em área de grande entre os países estiveram tão interligadas e dependen-
importância estratégica para os ingleses. Outras potên- tes. Em recente artigo, Celso Furtado, nosso maior eco-
cias européias também acabaram construindo grandes nomista, alertou para o fato de que a “globalização é
impérios, como especialmente a França, a Alemanha, vista atualmente como um imperativo histórico que
Itália, Bélgica, além das antigas colônias mantidas com condiciona a evolução de todas as economias. Mas não
muita dificuldade por Portugal e Espanha. O Japão no devemos perder de vista a diferença a que já nos referi-
final do século iniciara sua expansão em direção ao ter- mos entre globalização em nível dos sistemas produti-
ritório continental da Ásia , mais especialmente na China vos e a globalização virtual dos fluxos financeiros e
e Coréia, enquanto os Estados Unidos, após a vitória na monetários. A primeira globalização é problema antigo,
guerra de 1898 contra a Espanha, ocupara Cuba, Porto decorrente da evolução tecnológica, enquanto a segunda
Rico, Filipinas e as ilhas de Guam. ocorre principalmente em torno dos centros de poder
O edifício colonial acabou ruindo após o que se estruturam no mundo desenvolvido, tendo como
final da Segunda Guerra Mundial, numa conjuntura pólos os Estados Unidos, a Europa e o Japão”. A per-
marcada pela polarização ideológica entre os Estados gunta final de Furtado certamente é a de muitos brasilei-
Unidos e a União Soviética. Tanto na Ásia como na Áfri- ros: se “o Estado nacional é o instrumento privilegiado
ca, a descolonização acabou transformando-se em mo- para enfrentar problemas estruturais, cabe indagar como
mentos de sérias crises em plena Guerra Fria: um con- compatibilizá-lo com o processo de globalização”8.

14 Síntese
Marco Antônio Villa é professor de História da Universidade Federal de São Carlos(SP), Doutor em História Social
e autor de diversos livros.

1
Hobsbawn, Eric. Era dos Extremos – o breve século XX (1914-1991). São Paulo. Companhia das Letras. 1997. p.12.
2
Segundo C. R. Boxer, a dinastia Ming, na China, chegou a iniciar um processo de expansão marítima em direção ao Ocidente através do oceano Índico
mas acabou desistindo. As “razões para o abandono desta política aventureira não são muito claras, mas os ataques constantes dos piratas japoneses na
costa oriental e a permamente ameaça dos mongóis e manchus nômades na fronteira norte da China podem ter muito que ver com o fato” (C. R.
Boxer. O Império Colonial Português. Lisboa. Edições 70. 1977).
3
Gunder Frank, André. Acumulação Mundial, 1492-1789. Rio de Janeiro. Zahar. 1977. pp.69-70.
4
Recorda Karl Marx que as “descobertas de ouro e prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no
interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os
acontecimentos que maracam os albores da era da produção capitalista” (Karl Marx. O Capital. Livro Primeiro. Volume II. Rio de Janeiro. Zahar.
1975. p.864).
5
De acordo com Peter Burke, a “perda de Chipre, em 1570, foi um golpe no comércio (veneziano); assim como a presença, no Mediterrâneo e no
Adriático, de navios ingleses e holandeses que combinavam comércio e pirataria, aproximadamente de 1580 em diante; e também a aparição dos
piratas bárbaros e dos uscocos, que operavam a partir de bases na costa da Dalmácia” (Peter Burke. Veneza e Amesterdã. Um estudo das elites
do século XVII. São Paulo. Brasiliense. 1991. p. 153).
6
Williams, Eric. Capitalismo e Escravidão. Rio de Janeiro. Pallas. 1975 .p. 75.
7
Para a acumulação de capital na Inglaterra o Brasil colonial acabou tendo um importante papel. Como escreveu H. E. S. Fisher, entre “1770 e
1770, o comércio anglo-português contribuiu de maneira nada insignificante, para o desenvolvimento da economia inglesa, especialmente nos
primeiros anos do século (...). Sem o crescimento desse comércio, sem a expansão da produção de ouro no Brasil, da qual tantas coisas dependeram,
o progresso comercial, financeiro e industrial da Inglaterra teria sido muito mais lento(...). Embora o crescimento do comércio externo não tenha
precipitado diretamente à Revolução Industrial, sua contribuição foi, todavia, notável” (Fisher, H. E. S.. “Anglo-Portuguese Trade. 1700-1770”, in
W. E. Minchington, org. The Growth of English Overseas Trade in the Seventeenth and Einghteenth Centuries. Londres. Methuen.
1971. pp. 139-139.
8
“A reconstrução do Brasil, por Celso Furtado”. In: Folha de S.Paulo. 13 de junho de 1999. p.2-6.

Síntese 15
16 Síntese
O Sistema de Estados-Nação
frente aos Processos
Econômicos Globais

Alcides Costa Vaz

O fenômeno da globalização vem suscitando, internacionais, em suas dimensões praxiológica e


entre os responsáveis pela formulação e implementação teórica. Associadas, em uma leitura tradicional, à
de políticas nas esferas pública e privada e no meio aca- interação entre estados soberanos em permanente
dêmico, intenso questionamento sobre sua natureza e disputa de poder, configurando um ambiente
alcance, seus riscos e oportunidades e sobre as estraté- essencialmente anárquico onde o ordenamento
gias que devam orientá-los em face de condicionamen- possível reflete a estrutura e a hierarquia do poder, as
tos internos e externos em grande parte redefinidos ou relações internacionais estariam, com o processo de
mesmo inteiramente transformados. A abundante lite- globalização, sendo redefinidas em sue cerne1 .
ratura sobre o tema e sua discussão nos mais diferentes Nessa acepção, a interação entre os estados
meios retratam não apenas a diversidade de leituras so- estaria, gradualmente, deixando de ser o seu locus
bre o significado e os impactos da globalização em cada principal de definição das relações internacionais,
espaço político e âmbito da atividade humana. Atestam diante do surgimento de um diversificado conjunto de
também a dificuldade de, nesse contexto, se tratar atores não-estatais (empresas transnacionais,
eficazmente as contradições e tensões sócio-políticas que organismos não-governamentais, corporações
se acentuam ou que decorrem diretamente das reformas financeiras e outros) capazes de operar transna-
e adaptações dos instrumentos de estado e em distintos cionalmente e movidos por interesses freqüentemente
âmbitos de política pública, e que assinalam a persistên- distintos dos estados, mas que representam para estes,
cia, em vários segmentos sociais, de valores e de prefe- interlocutores e parceiros cada vez mais importantes
rências políticas e socioeconômicas distintas das que ori- em vários campos. O mais amplo espectro de atores e
entam e impulsionam o processo de globalização. a multiplicidade de temas que integram a agenda
internacional, vem requerendo maior capacidade de
negociação de parte dos estados e exigido da diplo-
1. A visão tradicional das relações macia, enquanto instrumento de política externa,
internacionais em face da globalização crescentes níveis de especialização em temas e áreas
de grande complexidade.
Essas mesmas tensões e dificuldades, refletidas Um aspecto a se destacar, nesse sentido, é a
nas agendas políticas (muito embora nem sempre a elas vinculação de temas, em distintas instâncias de negocia-
explicitamente incorporadas), expressam-se, natu- ção que os tornam altamente politizados, como o caso
ralmente e com não menos vigor, no plano das relações do enlace de questões comerciais com aquelas de or-

Síntese 17
dem ambiental ou de direitos humanos e sociais, o que gias de desenvolvimento econômico e social nacional-
requer, de parte dos governos, sob maiores pressões, a mente centradas. De todo modo, a soberania, atributo
interagir mais intensamente com um grande número de distintivo dos estados em relação aos demais atores in-
atores políticos para a formação de posições e para de- ternacionais, estaria sendo erodida e fadada a transmutar-
fesa de seus interesses em foros de negociação interna- se ou reduzir-se a um conjunto de prerrogativas indecli-
cional. Com isso, a própria diplomacia parece estar in- náveis, porém exercidas em âmbitos cada vez mais
corporando um sentido diferente daquele que a consa- restritos. Se aceitas essas premissas, a globalização afi-
gra como instrumento de natureza pacífica para a con- gura-se como uma etapa radicalmente distinta na evolu-
dução das relações interestatais. Outros interlocutores ção das relações internacionais, à medida que desloca
se apresentam, de modo que fala-se hoje da diplomacia os estados de sua condição de principais protagonistas,
entre estados, destes com empresas e mesmo, das em- redefinindo seus atributos e alterando sensivelmente o
presas entre si 2. ambiente em que estes atuam.
Portanto, se considerada essa acepção tra- Do ponto de vista teórico, e não sem um certo
dicional das relações internacionais, é válido afirmar- paroxismo, essa visão encontra eco em duas vertentes
se que a globalização representa uma transformação de pensamento muito distintas: o liberalismo e próprio
essencial do próprio ambiente das relações interna- globalismo em sua perspectiva marxista5 . Ambos
cionais que induz uma profunda mudança da própria propugnam a supremacia dos fatores econômicos sobre
natureza das relações internacionais, à medida que os políticos, identificando na prevalência das forças de
estas deixam de estar centradas na interação entre mercado, em escala e alcance historicamente inéditos

Para muitos, toda essa vertente inovadora da globalização coloca em


cheque a estrutura tradicional dos estados com seus atributos e prerrogativas.

os estados e que o poder torna-se mais difuso, na evolução do sistema capitalista mundial, o traço
assumindo novas expressões e incorporando uma mais marcante da economia política internacional con-
sentido muito mais relacional em que fatores temporânea.
intangíveis, como capacidade de mobilização de
recursos, de gerar, absorver e aplicar conhecimento, 2. A expansão do sistema de estados
de manter coesão e de responsividade, afiguram-se nacionais e a globalização como dimensões
como de grande relevância frente a outras bases
tangíveis de poder, como território, população,
das relações internacionais contemporâneas
recursos econômicos, capacidade militar etc. No entanto, ambas leituras, não tomam em
Para muitos, toda essa vertente inovadora da conta que a evolução do sistema internacional, parti-
globalização coloca em cheque a estrutura tradicional cularmente no século XX, é marcada, dentre outros
dos estados com seus atributos e prerrogativas. Em um aspectos, por dois processos estruturais da maior im-
extremo, muitos prevêem o eventual desaparecimento portância e que culminam com a prevalência em escala
do estado em favor de novos arranjos definidos em global de sistemas cujas lógicas e funcionamento se
torno de processos relacionados à expansão e dariam, aparentemente, em sentidos contraditórios: o
eficiência da produção e distribuição econômica e da primeiro refere-se ao vertiginoso crescimento do número
alocação de investimentos em bases regionais3 , ou de estados nacionais, como resultado do processo de
da promoção de estágios avançados de integração descolonização e da fragmentação ou desmembramento
econômica e política em bases supranacionais4 . de outros estados 6. No presente, mais de duas
Para outros, e segundo uma visão menos centenas de estados soberanos integram o sistema
apocalíptica no que se refere à existência dos estados, a internacional, conferindo-lhe alcance global em sentido
globalização acarreta uma redução das opções e da mar- quase que absoluto. O segundo refere-se a um sistema
gem de ação dos governos sobretudo no tocante às po- de relações econômicas (a própria globalização) em
líticas macroeconômicas, e com desdobramentos de igual seus substratos comercial, financeiro e produtivo, e que,
sentido nos demais domínios de política pública, redu- em que pese o próprio termo, talvez seja “menos global”
zindo as possibilidades de condução exitosa de estraté- que o sistema de estados nacionais, se tomado em conta

18 Síntese
o grande contingente de países e de segmentos sociais restrições quanto a suas prerrogativas básicas, organi-
inteiramente alijados de seu alcance e de seus benefícios. zação e funcionamento.
Portanto, em tal perspectiva estrutural, as re- Por conseguinte, são possíveis duas hipóteses
lações internacionais seriam caracterizadas, na atualidade, ou interpretações alternativas sobre a coexistência de
pela coexistência de dois grandes sistemas de articula- um sistema interestatal em crescimento e a globalização
ção em nível global, um fundamentalmente centrado nos econômica. A primeira propugnaria tratar-se de pro-
estados-nação e outro assentado em mecanismos e pro- cessos que evoluíram concomitantemente, sem, no en-
cessos econômicos (produtivos, comerciais e financei- tanto, existir algum vínculo ou relação de funcionalidade
ros) orientados pelo mercado e instrumentalizados por entre eles; em outras palavras, a globalização, como
inovações tecnológicas nos campos da informação, co- etapa mais recente da evolução histórica do sistema ca-
municação, produção e transportes7 . pitalista9 , não teria relação direta com a trajetória dos
Muitas das atuais questões e conflitos sobre estados-nação e com a evolução recente das relações
as quais se debruçam os estudiosos e os formuladores internacionais no plano interestatal. A segunda seria a
de política, além de outros, relacionam-se às contra- de que, mais que mera sincronia temporal, a expansão
dições envolvendo, no plano internacional, as nor- do sistema interestatal e o processo de globalização pos-
mativas, os interesses e objetivos e mecanismos que suem alguns elementos sinérgicos e que lhes confere um
orientam o funcionamento das relações interes-tatais, sentido de funcionalidade recíproca. A primeira hipóte-
de um lado, e aqueles pertinentes às relações econômicas, se é claramente insustentável, pois implicaria admitir a
de outro 8. Porém, parece-nos pouco realista aceitar não inexistência, em última instância, relações entre as es-
ter havido, e seguir existindo, um sentido de funcio- truturas e os processos políticos e aqueles de natureza
nalidade recíproca entre ambos sistemas e que permita econômica; a segunda, apesar de instigante, necessita
uma compreensão mais precisa tanto do fato de terem maior aprofundamento, pois alguns aspectos a tornam
eles evoluído concomitante, como de terem chegado à problemática. Há de se tomar em conta, por exemplo,
culminância de suas respectivas expressões, com que diferentemente da expansão da economia mundial
alcance global, em um mesmo contexto histórico.
Nesse sentido, a globalização, no tocante às
relações internacionais, deve ser entendida não apenas
com referência aos processos econômicos, que, com
o fracasso histórico do socialismo, passaram a ser ori-
entados pela lógica capitalista de forma praticamente
inconteste. Deve remeter também à expansão do sis-
tema de estados nacionais e aos diferentes marcos
regulatórios que acompanham essa expansão e que estão
consubstanciados, em grande parte, em inúmeros regi-
mes internacionais essenciais para o funcionamento da
própria economia global, como o sistema multilateral de
comércio da OMC e o conjunto de normas e expectati-
vas que orientam o sistema financeiro internacional.

3. Hipóteses sobre a globalização


bifurcada
Ao construir uma visão integrada, não se está
necessariamente ignorando as respectivas vicissitudes e
contradições mútuas de ambas esferas ( a política e a
econômica), mas reestabelecendo, para fins de análise e
discussão, importantes elementos definidores e operativos
das relações internacionais contemporâneas. Em síntese,
a globalização não suprime a dimensão interestatal das
relações internacionais como sustentam seus mais
aguerridos ideólogos (ditos globalistas), ainda que
imponha aos estados drásticas transformações e

Síntese 19
e da globalização dos processos produtivo, comercial crucial para a estabilidade e expansão dos processos
e financeiro, que estão centrados no poder e dina- econômicos em nível global.
mismo de um reduzido número de economias que
conformam o núcleo do sistema capitalista, a expansão Conclusão: a síntese em um sentido
do sistema interestatal ocorre em áreas consideradas civilizatório
periféricas (América Latina, África e Ásia nas pri-
meiras ondas de descolonização e Europa Central e Quando analisada desde a perspectiva das re-
Oriental a partir da segunda metade da década de lações internacionais, a globalização não deve ser
80) e ainda não plenamente integradas ao processo desvinculada de outras transformações de natureza es-
de globalização. Além disso, essa expansão não pode trutural que marcam a evolução do sistema internacio-
ser adequadamente explicada apenas em razão de nal contemporâneo. Deve, portanto, ser compreendida
necessidades do próprio sistema capitalista, mas à luz de suas relações com outros condicionamentos e
também pelo esgotamento de modelos políticos e processos políticos e em perspectiva histórica, o que
econômicos e pela dificuldade, incontornável em muitos permite uma compreensão mais ampla sobre sua arti-
casos, de manutenção de um mínimo de coesão política culação com o sistema de estados-nação que também
e social em vários estados, tal como ocorrido na se “globalizou”, constituindo, ambos, elementos
Europa Central e na ex-União Soviética. centrais do atual panorama das relações internacionais
Essas objeções, não parecem, no entanto, e componentes de um mesmo sentido civilizatório em
justificar o abandono da hipótese de existência de nossos dias.

O mais amplo espectro de atores e a multiplicidade de temas que integram


a agenda internacional vêm requerendo maior capacidade de negociação de parte
dos estados e exigido da diplomacia, enquanto instrumento de política externa,
crescentes níveis de especialização em temas e áreas de grande complexidade.

vínculos entre ambos processos. Isso porque, por Como todo impulso civilizatório, ambas dimen-
outro lado, há evidentes elementos de aproximação: as sões revestem-se de um caráter universalista inerentemente
desigualdades econômicas refletidas e reforçadas pelo instável, na medida em que forja-se a partir de forças con-
processo de globalização traduzem-se em assimetrias traditórias de aglutinação e fragmentação, mas aparente-
quanto à capacidade econômica (e por extensão, política mente inelutável. Assim como não há ainda uma forma
e militar) entre os estados, e que define uma hierarquia alternativa de organização política funcionalmente capaz de
de poder no sistema internacional. Além disso, e como suplantar os estados, também não há alternativas viáveis de
já mencionado, a crescente interdependência econômica organização econômica fora do sistema capitalista global.
no quadro da globalização requer a existência de marcos Para a maior parte dos estados, que seguem à margem da
regulatórios negociados multilateralmente pelos estados globalização econômica, não se trata, portanto, de deline-
em instâncias de alcance global ou regional, e são ar opções frente à mesma, mas de enfrentar seus parado-
incorporados, instrumentalizados e implementados xos, em um quadro de permanente contradição sobre a
nacionalmente, independentemente de considerações qual assim se expressou Immanuel Wallerstein: “o
quanto ao status de poder ou expressão econômica no universalismo é um ‘presente’ dos poderosos aos débeis e
plano externo. Mais importante, a construção de que confronta a esses últimos com um vínculo paradoxal:
estruturas políticas e econômicas que acompanham o recusar o presente é perder; aceitar o presente é perder. A
surgimento e a consolidação dos estados, e que são única reação plausível dos débeis é nem aceitá-lo, nem
necessárias à promoção de seus interesses externamente, recusá-lo, ou aceitá-lo ao mesmo tempo em que o recusam;
envolve um leque restrito de escolhas que são hoje em outras palavras, o ziguezagueante caminho empreendido
consonantes com a expansão das forças de mercado. pelos débeis tanto no terreno cultural como político, de apa-
Finalmente, a dinâmica das relações interestatais, em rência irracional e que caracteriza a maior parte do século
seu sentido cooperativo é cada vez mais, um elemento XIX e especialmente o século XX”10.

20 Síntese
Alcides Costa Vaz é doutorado em Sociologia (USP) e Mestre em Relações Internacionais (UnB). Professor do Departamento de
Relações Internacionais e Coordenador do Núcleo de Estudos do Mercosul da Universidade de Brasília.

1
Essas são as premissas básicas do pensamento realista. Ver Hans Morgenthau, “Politics Among Nations: A Struggle for Power and Peace”, New
York: Knopf, 1985, 5 a ed. rev; Kenneth Waltz, “Theory of International Politcs”, Mass: Addisson-Wesley, 1979.
2
Ver a respeito, Susan Strange, State Diplomacy, Firm Diplomacy, State-Firm Diplomacy, Oxford: Oxford University Press.
3
Ver, por exemplo o argumento de Kenich Omae em “O fim do Estado Nação: A Ascensão das Economias Regionais”. São Paulo, Ed. Campus,
1996.
4
Este seria o sentido natural dos esquemas de integração econômica em níveis mais profundos, segundo os teóricos funcionalistas.
5
Sobre o globalismo, ver Viotti & Kaupi, International Relations Theory, McMillan, 1987.
6
Ver Eric Hobsbawn, “A Era dos Extremos: O Breve Século XX”, São Paulo: Cia. Das Letras, 1994, pp.198-222 e 421-487.
7
Sobre a tese da bifurcação do sistema internacional, ver James Rosenau, Turbulence in World Politics.
8
Segundo Luciano Tomassini, a busca de maior igualdade de oportunidades, de democracia e de mercado representam objetivos contraditórios e
históricamente antagônicos. Cf. Luciano Tomassini, La Inserción de América Latina en el Proceso de Globalización”, in Globalização na América
Latina: Integração Solidária, Brasília: FUNAG, 1997, p. 19.
9
Giovanni Arrighi, Ö longo Século XX, São Paulo: Ed. Unesp, 1994, p. 309.
10
Immanuel Wallerstein , “El futuro de la civilización capitalista”, Barcelona: Icaria Editorial, 1997, p. 22.

Síntese 21
22 Síntese
Globalização e mercado:
uma nova realidade1
“É esta associação de aumento de
lucros com investimento estagnado,
desemprego crescente e salários em
queda que constitui a verdadeira
causa de preocupação” – Unctad 1

“As nossas recomendações eram


boas, mas foram mal aplicadas” –
Michel Camdessus, FMI2

Ladislau Dowbor
Março 1999

Ladislau Dowbor

O prêmio Nobel de 1998 não foi para especia- de atividades socialmente úteis. De tudo se fala, do cas-
listas em mecanismos econômicos de curto prazo e sino global, da bola da vez, do colchão de reservas.
especuladores financeiros, mas para Amartya Sen, um Embalados no jargão da moda, acabamos esquecendo
especialista em problemas dramáticos do subdesenvol- o que deveria ser afinal a principal função da interme-
vimento como a fome. A reviravolta é significativa, pois diação financeira, a de agregar poupanças individuais para
mostra o fim da grande festa liberal de comemoração permitir investimento produtivo, gerando bens, serviços,
da derrota do modelo soviético, e a volta aos problemas emprego e renda.
estruturais que o capitalismo realmente existente enfrenta O essencial, para nós, é que o ciclo de reprodu-
neste fim de milênio. ção social exige não só a produção, mas também a dis-
Somente os mal-informados acharam que tinha algo tribuição para que haja consumidores, e os empregos
a comemorar. Nunca as pessoas estiveram tão inseguras para que haja massa salarial e um mínimo de estabilida-
como hoje frente ao nosso futuro comum. E um mínimo de de social e política. Isto por sua vez implica o financia-
realismo nos leva à consideração seguinte: como foi possível mento dos produtores, viabilizando os investimentos e
que, enquanto a bolha especulativa mundial funcionava, as transformações estruturais de médio e longo prazo, a
achássemos a miséria no mundo uma coisa normal, um chamada construção da economia.
defeito temporário de um sistema no conjunto positivo? O pano de fundo da problemática que discuti-
Foi preciso a bolha estourar para despertarmos? mos, portanto, é o fato de termos um sistema capitalista
O que é uma economia que não responde às nossas que representa um bom instrumento de organização da
necessidades essenciais? É significativo Ignacio Ramonet produção, mas não sabe distribuir, organiza muito pre-
escrever, na primeira página do Le Monde cariamente a absorção produtiva dos recursos humanos,
Diplomatique: “O que fazer frente à crise atual? Em e desvia para atividades especulativas a já precária pou-
primeiro lugar, desarmar, em escala internacional, os pança da população.
mercados financeiros. A amplitude da crise atual deve Estas três grandes deficiências do sistema liberal,
abrir os olhos de todos os que acreditaram que a pilota- nos planos da distribuição, do emprego e da alocação
gem da economia mundial deveria ser abandonada tão- de recursos, viram-se dramaticamente agravadas nos úl-
somente ao mercado”1. timos anos.
Já incorporamos esta mentalidade de que a eco- No plano da distribuição, o liberalismo havia
nomia é um jogo de sinuca, e não a organização sistêmica gerado, com Keynes, um subsistema social-democrata.

Síntese 23
Frente aos dramas do desemprego e subconsumo dos os especuladores fundiários, ao acumularem terras im-
anos 30, Keynes mostrou que frentes de trabalho e apoio produtivas, contribuem diretamente para os dramas do
financeiro aos desempregados, gerando uma massa sa- desemprego. Hoje o Brasil cultiva uma pequena parcela
larial e maior capacidade de compra, dinamizariam o dos mais de 150 milhões de hectares de solo agrícola
mercado, provocando uma recuperação da conjuntura disponível, enquanto 80% da população do País se con-
capitalista via demanda. Em outros termos, Keynes centra nas cidades, onde a base de emprego não só não
demonstrou aos ricos que a miséria é ruim para os ricos, se expande, como se contrái.
e não apenas para os pobres. A social-democracia não Em termos de alocação de recursos, as
apelava, em termos econômicos, para a generosidade tendências recentes, com a globalização financeira,
do capitalista, e sim para a dimensão macroeconômica tornaram a situação particularmente dramática, à medida
dos seus interesses objetivos. Boa parte do sucesso da que tiram recursos da área dos investimentos produtivos
sua filantropia teórica deve-se seguramente a este fato. e os transferem para a especulação financeira. Esta
No entanto, o sistema proposto supunha uma tendência atinge diretamente o coração da legitimidade
forte capacidade de Estado, que cobraria impostos das do sistema capitalista. De forma mais ou menos explícita,
empresas para financiar a redistribuição e a dinamização todos nós nos queixamos das injustiças geradas pelo
econômica. Hoje, com a globalização, qualquer reforço capitalismo, mas de certa forma as aceitamos à medida
de impostos leva as empresas a emigrar para regiões que a riqueza do capitalista tendia a se transformar em
onde se produz mais barato. Em outros termos, a investimento produtivo, empregos e produto. A injustiça
economia se globalizou, enquanto os instrumentos de social passava assim a ser o mal inevitável de um processo
política econômica, essenciais para uma política em última instância positivo. O que é novo, é que com a
keynesiana, continuam sendo nacionais, e portanto de expansão dos sistemas de especulação financeira,

Hoje, com a globalização, qualquer reforço de impostos leva as empresas


a emigrar para regiões onde se produz mais barato.

efetividade cada vez mais limitada. Como não há governo segundo a Unctad, “a crescente concentração da renda
mundial, que possa retomar o mecanismo já no nível nacional nas mãos de poucos não tem sido acompanhada
planetário, regrediram as políticas de redistribuição, e por uma elevação de investimentos e crescimento mais
voltamos a um capitalismo selvagem próximo do antigo rápido. Nos países do Norte, os lucros estão em níveis
liberalismo: o neo-liberalismo. A longo prazo, o primeiro nunca vistos desde 1960, mas de forma geral eles agora
a morrer foi o próprio Keynes. geram muito menos investimento e emprego do que
anteriormente”.
No plano do emprego, as transformações recen-
tes são igualmente profundas, à medida que a revolução Em conseqüência, o principal desafio seria como
tecnológica gera uma redução absoluta do nível de “transformar os lucros crescentes em investimento em
emprego. Estima-se hoje que, na média, um crescimento um ritmo suficiente para sustentar um contrato social pelo
de 5% ao ano seria necessário para manter o emprego no qual desigualdades iniciais poderiam se ver justificadas,
nível existente. O crescimento mundial, no entanto, e com o tempo reduzidas, pelo aumento de renda e de
reduziu-se de cerca de 4% ao ano nos anos 70, para nível de vida da massa população que resultaria” 2. Nesta
cerca de 3% nos anos 80, e 2% nos anos 90, segundo o lógica, que constitui já não uma exceção mas uma
relatório da Unctad 1997. A simultânea redução do ritmo tendência regular das últimas décadas, consistindo em
do crescimento econômico e da capacidade de geração lucros crescentes de um lado, e investimentos, salários e
de emprego das unidades produtivas leva a uma situação emprego decrescentes do outro, o sistema simplesmen-
dramática que envolve bilhões de pessoas no planeta. te não se sustenta. “O que está em jogo, escreve Martin
Fator insuficientemente mencionado, a dramáti- Wolf no Financial Times, é a legitimidade da economia
ca urbanização dos últimos anos tirou as populações dos capitalista mundial”3. O Financial Times…
campos, onde sempre há um mínimo de alternativas de O nosso problema aqui não é simplesmente ata-
atividade, e as jogou nas periferias das cidades. Assim, car ou defender o sistema. O que realmente nos interes-

24 Síntese
sa, é entender porque o liberalismo, ou a versão atualizada
neoliberal, não conseguem mudar os rumos. Não
podemos esquecer que foi o trágico desprezo do capi-
talismo pela miséria, desemprego e exclusão social que
criaram as bases para a proposta da expropriação
generalizada dos capitalistas, e para os regimes comu-
nistas. E os excessos do comunismo não nos devem dei-
xar esquecer os excessos do capitalismo que lhe deram
lugar, e que hoje voltam com a força toda.

Um elemento interessante e que não temos le-


vado suficientemente em conta, é a redução do espaço
dos mecanismos de mercado. Não há dúvida que com
a luta pela sobrevivência econômica mundial que hoje
vivemos, a competição se tornou feroz. Mas uma exa-
cerbação da competição não significa que se trata de
mecanismos de concorrência de mercado. Hoje 35%
do comércio mundial se dá entre filiais e matrizes das
mesmas empresas, segundo preços acertados de
forma administrativa, onde o mercado tem muito
pouco a ver. Os espaços econômicos globalizados
são controlados por grupos muito reduzidos. No caso
dos Estados Unidos, de longe a maior potência na
área da economia global, as 25 maiores empresas
controlam 51% da totalidade dos investimentos
externos diretos do país. Se contarmos as 100 maiores,
o nível de controle sobe para 88%4. Entre os jumbos
da economia global, o que prevalece não é a
concorrência de mercado, são os acertos interem-
presariais (interfirm agreements), que segundo a
Unctad atingiram 4.600 em 1995, triplicando em pou-
cos anos.

Não há nada de muito misterioso nisto. Herman


Daly resumiu o problema de forma simples ao dizer que
“competition is self-eliminating”: “A competição é o
que mantém os lucros em nível normal, e os recursos
alocados de forma apropriada. Mas a competição en-
volve ganhar e perder, e ambos têm a tendência a serem
cumulativos. Os ganhadores do ano passado encontra-
rão maior facilidade para serem os ganhadores deste
ano. Os ganhadores tendem a crescer, e os perdedores
a desaparecer. Com o tempo muitas firmas se tornam
poucas firmas, a competição sofre erosão, e o poder de
monopólio aumenta”5.

O que é realmente este novo capitalismo de


mega-empresas onde o mecanismo de mercado é cada
vez mais anêmico? E o que há de mercado na fortuna
pessoal de 60 bilhões de dólares de Bill Gates? Não
há opção de mercado alguma da minha parte quando
utilizo o microsoft-word, pois sou forçado a utilizar o

Síntese 25
programa que os outros usam, o programa dominante, Com o mesmo argumento, há pouco tempo, se colocava
sob pena de não me comunicar. Os dólares iniciais de a mulher no fogão e no tanque, para ser a rainha.
Bill Gates resultaram sem dúvida de criatividade e Até um tempo atrás, considerávamos os meios
iniciativa, inclusive a de se lançar contra o gigante IBM, de comunicação como passivos em termos de mecanis-
mas os 60 bilhões hoje se renovam mediante uma mos econômicos: refletiam a realidade, ou sobre ela cir-
cobrança de pedágio que tem origem na sua posição culavam informação. Hoje os instrumentos de domina-
dominante e nas suas empresas de advocacia, e não ção cultural se tornaram centrais na própria reprodução
em novas contribuições tecnológicas. do modelo econômico. Quando compramos um Cebion
A posição dominante hoje se constrói, no caso das por 8 reais, pagando pela caixinha, pelas borbulhas co-
mega-empresas mundiais, por meio de impressionantes loridas e pela imagem dezenas de vezes a mais do que
esforços de alavancagem financeira, da articulação de apoios custam os miligramas de ácido ascórbico (vitamina C)
de políticos, de recurso a grandes empresas de serviços que o produto contém, houve uma inversão profunda de
jurídicos – é a guerra júridica com a Apple que permitiu a todo o sistema. É a imagem que pagamos, ou, como
Gates copiar o que hoje é o Windows, e não a concorrência estas empresas o definem, pagamos os “intangíveis”. A
de mercado – , e de gigantescas campanhas de mídia. Nike, explicando como um tênis cuja produção física
É importante rever hoje, na linha destes novos custou menos de 10 dólares é vendido a 100 dólares,
mecanismos, o que há por trás desta impressionante sim- responde candidamente: nós não vendemos tênis, ven-
plificação da realidade que é o conceito de “forças do demos emoções7. O principal elemento gerador de lu-
mercado”. Esta expressão nos dá a impressão de que cro já não é o produto, mas o feito de dominação cultu-
haveria um mecanismo impessoal e objetivo, uma lei a ral conseguido junto ao consumidor.

O pano de fundo da problemática que discutimos, portanto, é o fato de


termos um sistema capitalista que representa um bom instrumento de organização
da produção, mas não sabe distribuir

que todos estariam submetidos. Hoje as megaempresas Quanto vale uma empresa que não tem instala-
mundiais fazem a lei, as forças de mercado têm nome e ções significativas, nem fábricas, nem estoques, mas
endereço, e a mão se tornou perfeitamente visível. formou na cabeça das pessoas o sentimento de que
O novo papel da mídia e da comunicação em terão a altura e a potência de um Michael Jordan se
geral é exemplar. O norte-americano médio lê pro- calçarem o mesmo tênis? A empresa vale, nos dizem
vavelmente alguns poucos livros durante a sua vida, mas cada vez mais, o que as pessoas acham que vale. E
a avaliação é de que assiste a uma média de 150 mil vendem-se ações no valor correspondente. Formam-
mensagens publicitárias na televisão. Segundo o se assim fortunas em ações baseadas sobre valores
Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1998, imaginários. A posse de ações, por sua vez, nos confere
das Nações Unidas, “as estimativas mais conservadoras um status de rico, de bem sucedido. As pessoas
situam o investimento global em publicidade na casa de compram ações, que se valorizam. Enquanto vai
435 bilhões de dólares”6. Este bombardeamento ideo- entrando dinheiro novo de novos poupadores, o
lógico, naturalmente, pouco tem a ver com informação estoque de recursos aplicados aumenta, permitindo
útil sobre os produtos: trata-se de gerar a presença mental remuneração, o que aumenta as cotações e o volume
da marca, de criar atitudes consumistas e de assegurar a global do que chamamos curiosamente de papéis, que
formação de uma cultura centrada na aceitação passiva as pessoas vão acumulando como se fossem efeti-
do mundo tal como é, organizado por forças externas vamente riqueza.
que não dependem de nós, como realidade natural. Trata- Até onde pode ir este processo de levitação?
se de um mundo que não só domina, mas domina os Enquanto as trocas reais de bens e serviços estão situa-
instrumentos de informação que sobre ele temos. E das na faixa de 25 bilhões de dólares por dia, as trocas
aproveita este domínio para nos informar que não está especulativas atingem 1,5 trilhões, 60 vezes mais. A
nos manipulando, porque nós, o cliente, somos o rei. tecnologia transformou os papéis em sinais magnéticos,

26 Síntese
que se deslocam na velocidade da luz, e podem ser apli- volume de papéis à sua base em produtos. Porque não
cados instantaneamente em qualquer praça financeira deixar um grande comerciante de café da Tanzânia, por
do planeta. Em outros termos, quando os valores eram exemplo, vender o café que irá comprar no ano se-
representados por ouro, havia limites na relação entre guinte, na próxima safra, desde já, com um pequeno
a produção e a sua representação financeira, pois havia deságio? Passa-se assim a comercializar o que sequer
limites físicos de disponibilidade de ouro. Quando pas- ainda produzimos, e freqüentemente o que sequer ainda
samos para o dólar lastreado em dólar, havia o lastro foi plantado. Literalmente, passamos a trocar papéis
das disponibilidades de Fort Knox. Com a desvin- sobre bens que imaginamos que existirão no futuro,
culação do dólar relativamente ao seu lastro, em 1971, gerando a imensa gama dos chamados derivativos. Nas
ficou apenas o papel, e a confiança que o público reuniões do Senado americano, em setembro de 1998,
quisesse nele depositar. Hoje, nem o papel é necessário, com Alan Greenspan e Robert Rubin, respectivamente
e uma pessoa é rica pelos sinais magnéticos inscritos chefe do Banco Central norte-americano e diretor do
em diversas máquinas no planeta. tesouro, a cifra estimada de recursos aplicados só nos
Até há um certo tempo atrás, podíamos dizer derivativos era de 30 trilhões de dólares, mais do que
que estes sinais magnéticos tinham o lastro de um produto: a totalidade do PIB mundial.
o americano que tem dinheiro na conta sabe que há uma Evidentemente, não há limite, pois enquanto as
contrapartida em produto, o PIB americano, que este pessoas estiverem dispostas a acreditar que a produção
dinheiro poderá comprar. As grandes empresas de es- continuará a se expandir, e a confiar em papéis que
peculação financeira, os chamados investidores representam uma riqueza que ainda não produzimos,
institucionais, no entanto, acharam ridículo limitar o o sistema se mantém. A imagem que podemos utilizar

Síntese 27
é a seguinte: se em uma sala de conferências uma cliente irado agarrando o vendedor pelo colarinho,
pessoa vende, por cinqüenta centavos cada, vales para mostrando o vale, e exigindo o seu café. No caso do
tomar um cafezinho, podemos estimar que nem todos mercado financeiro mundial, um jovem especialista em
irão imediatamente trocar o seu vale por um café. Vendo finanças lhe explicará pacientemente que a cotação do
isto, o vendedor começa a emitir mais vales do que o seu vale mudou, e portanto não vale mais um cafezinho,
café disponível na casa, esperando que no futuro haverá devido à grave situação na Rússia, ou à teimosia do Banco
mais café. Seguramente, o sistema pode funcionar. E Central norte-americano de não baixar a taxa de juros e
se as pessoas acharem que vale a pena estocar no bolso assim por diante.
dezenas de vales para cafezinho, para uso futuro, o O fato das finanças funcionarem no espaço glo-
vendedor poderá passar a imprimir grandes volumes bal, enquanto os governos ainda estão limitados aos es-
de vales, despreocupando-se, já que está na alta paços nacionais, gera assim uma imensa área de perda de
finança, do ridículo cafezinho. O problema é que se governabilidade econômica em geral, e um deslocamento
alguns começarem a se interessar em tomar concre- geral dos lucros da produção para a intermediação8 .
tamente o café, e descobrirem que há muito mais vales Quando os mercados financeiros funcionavam,
do que café disponível, haverá uma corrida para ver os investidores eram milhões de pequenos poupadores
quem consegue trocar o seu vale pelo produto concreto que estudavam com cuidado os balanços, e premiavam
antes que o valor do vale despenque. Nas bolsa, quan- com as suas poupanças as empresas mais bem geridas.
do o valor do vale despenca mais de 10%, suspende- Hoje, trata-se de mega-investidores institucionais, que
se temporariamente o cafezinho. podem ser fundos de pensões, equipados com os com-
No vale está escrito “vale um café”. O vendedor putadores e softwares mais avançados, que aplicam
sabe que quanto mais aumenta a diferença entre o nú- modelos matemáticos complexos, buscando minimizar
mero de cafés disponíveis e o número de vales emitidos, os riscos e maximizar os ganhos. Os volumes movimen-
mais a operação se torna arriscada. No entanto, como tados por estes especuladores são gigantescos, e po-
vê que há outros vendedores de vales que continuam dem provocar corridas pontuais mortais para deter-

A simultânea redução do ritmo do crescimento econômico e da capacida-


de de geração de emprego das unidades produtivas leva a uma situação dra-
mática que envolve bilhões de pessoas no planeta.

vendendo, e que o público ainda não esticou a sua cre- minados países. Na prática, se alguns grandes espe-
dulidade até o limite máximo, oferecerá mais papéis, culadores decidirem retirar bruscamente as suas
pois de qualquer maneira o mercado se expandirá in- aplicações de um determinado mercado, não há
dependentemente dele. E se expande porque não há reservas que resistam. Compare-se os magros 50
limites, não há mecanismo regulador. bilhões de dólares de reservas de um grande País como
Enquanto o mecanismo era nacional, havia au- o Brasil (outubro 1998), com os fluxos especulativos
toridades monetárias, um banco central, instituições in- internacionais de 1,5 trilhão de dólares por dia.
teressadas na estabilidade do sisistema. Havia limites. Como ficam as alternativas brasileiras frente
Hoje, o sistema é mundial, mas os instrumentos regu- a isto? São desoladamente simples. Se baixar a taxa
ladores continuam sendo nacionais. O resultado de juros, os capitais externos, como diz o Josias,
prático é que não há limites. Não há governo mundial, fazem beicinho e vão embora, gerando uma quebra
não há autoridade monetária mundial. Quando James finan-ceira, levando o nosso preciso colchãozinho. O
Tobin, prêmio Nobel de economia, propôs que as que vai embora, é preciso dizê-lo, é o dinheiro, porque
transações especulativas internacionais pagassem um as pessoas que aplicam este dinheiro e o levam para
imposto, a idéia foi considerada muito interessante e fora representam, em grande parte, especuladores
louvável por todos os governos, mas ninguém se bem brasileiros.
interessou pela sua aplicação. Não há autoridade A manutenção dos juros altos, por sua vez,
mundial. Os grandes especuladores encontraram um obriga o governo a desviar para o pagamento de juros
fenomenal espaço onde podem brincar com as o que poderia estar investindo no desenvolvimento
poupanças concretas das populações. No exemplo social e econômico do País. Com isto reduz-se a
do cafezinho visto acima, ainda podemos imaginar um atividade econômica no País, o que por sua vez reduz

28 Síntese
a base tributária, o que aumenta o déficit, o que aumenta poderia até se ver estimulado a se renovar em termos
a dívida sobre a qual se calcula o juro. Emir Sader de gestão e de tecnologia, e eventualmente se defender,
resume bem a situação: “Fixando assim taxas de juros ou até se reconverter de maneira produtiva. Mas o
que permitem atrair o capital externo, o Governo fixou financiamento da reconversão se torna proibitivo com esta
igualmente taxas mortíferas das quais será a vítima no taxa de juros. O empresário produtivo fica observando, e
momento de reembolsar as suas próprias dívidas. Tal é se sente cada vez mais desorientado: se a direita está no
a engrenagem perversa na qual, em nome da poder, se estamos fazendo tudo de acordo com os dogmas,
estabilidade monetária, o Governo Cardoso se trancou se cumprimos todas as exigências internacionais, como é
a si mesmo”9 . que as coisas não andam? Já não basta votar à direita? O
O setor privado é diretamente afetado. Aliás, não setor produtivo, não o do pedágio econômico, está
deveria ser mais chamado de setor privado, conceito hoje gradualmente entendendo que a festa está se dando às suas
demasiado abrangente. É profundamente diferente, em custas também 10.
termos dos seus interesses econômicos, o especulador A recessão no setor produtivo privado significa
financeiro que tem tudo a ganhar com a ciranda, e o menos capacidade de pagar impostos, o que aumenta o
produtor, que precisa de juros baixos para poder investir déficit público, o que por sua vez agrava o endividamento
e enfrentar a concorrência. e assim por diante. Em outros termos, se baixar a taxa de
O produtor brasileiro viu nesta década a drástica juros, o bicho pega; se ficar no nível que está, o bicho
redução de tarifas aduaneiras, formando a chamada aber- come. Pessimismo? Trata-se, antes disso, de uma perda
tura econômica. Simultaneamente, visando assegurar a geral de governabilidade econômica. Aceitamos a
âncora cambial do real, manteve-se uma sobreva- globalização como positiva, com a visão de abertura de
lorização impressionante da moeda, o que significa que mercados, de ampliação do comércio. O que tivemos, foi
quem importa paga o dólar barato, o que torna mais uma explosão das atividades especulativas, e o desvio
difícil ainda o produtor enfrentar a concorrência das atividades financeiras para o espaço mundial, sem que
internacional. Com esta dupla abertura, o produtor exista governo mundial.

Ladislau Dowbor, 58, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor
titular da PUC de São Paulo e da Universidade Metodista de São Paulo, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É
autor de “A Reprodução Social”, editora Vozes 1998, e de numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social. Foi
Secretário de Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo. Fone: (011) 3872-9877; FAX: (011) 3871-2911; E-mail
ladislau@ppbr.com ; home page http://ppbr.com/ld

1
- Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique, Octobre 1998.
2
- Unctad, op. cit. p. 11.
3
- Martin Wolf, Países ricos terão de jogar com as cartas da mesa, artigo do Financial Times transcrito na Gazeta Mercantil de 21 de setembro de
1998, p. A-16.
4
Unctad, World Investment Report 1997, New York, Geneva 1997, Overview p. 9.
5
Herman E. Daly and John B. Cobb Jr., For the Common good: redirecting the economy toward community, the environment and a sustainable
future - Beacon Press, Boston 1994, p. 49 - “Competition is what keeps profit at the normal level and resources properly allocated. But
competition involves winning and losing, both of which have a tendency to be cumulative. Last year’s winners find it easier to be this year’s
winners. Winners tend to grow and losers disappear. Over time many firms become few firms, competition is eroded, and monopoly power
increases. To the extent that competition is self eliminating, we must constantly reestablish it by trustbusting”.
6
- Human Development Report 1998 - Changing today’s consomption patterns for tomorrow’s human development - UNDP, New York 1998.
Overview p. 8.
7
Sobre este ponto, ver o excelente Quando as corporações regem o mundo, de David Korten, editado pela Futura/Siciliano em 1997.
8
A Peugeot, no primeiro semestre de 1998, teve lucros de 330 milhões de dólares, o que foi comemorado como façanha pelos 140 mil
trabalhadores que produziram bens concretos. Em período semelhante, no primeiro semestre de 1997, o City Bank realizava, com 350 operadores
de especulação com divisas, 552 milhões de dólares de lucro. O empresário tradicional, inovando nos processos produtivos, acreditando ainda na
destruição criativa de Schumpeter, ao ver para onde vão os lucros, se sente cada vez mais como o pateta da história. Dados publicados em Le Monde
Diplomatique, outubro 1998, com base no Financial Times.
9
- Emir Sader, Le pacte des élites brésiliennes, Le Monde Diplomatique, octobre 1998, p. 7; os dados básicos do círculo vicioso estão bem
apresentados no trabalho do Dieese de setembro 1998, A Conjuntura Econômica Recente: Crise Financeira e Vulnerabilidade do Real.
10
- Declaração de Horácio Lafer Piva, diretor da Fiesp, em 14 de outubro de 1998: “A indústria de forma geral está muito perplexa com o que anda
acontecendo” - Seminário do Setor Plástico do Grande ABC, Diadema.

Síntese 29
30 Síntese
A globalização
e os novos desafios à democracia

Celeste Cordeiro

A política social do Estado, definida teoricamen- dencia as complexidades e paradoxos da globalização,


te como forma de racionalizar a oferta de serviços bási- a qual tanto tende a apagar como a realçar diferenças
cos buscando articular interesses gerais, pode ser – na locais.
prática – marcada pelo personalismo e assistencialismo Descentralização
em relação às camadas mais pobres da população, e Embora tratem-se todos de processos muito
pode também ser um espaço de conflito sobre essa dis- recentes, já há um certo consenso de que tais experiên-
tribuição de bens, onde os diversos setores sociais tentam cias, principalmente de caráter municipal, permitem apon-
fazer valer seus direitos. tar a descentralização política como um mecanismo im-
Nesse debate, que se intensificou bastante nas portante para a democratização do Estado e da socie-
últimas décadas, principalmente entre os defensores de dade, assim como para o enfrentamento da exclusão so-
uma reforma do estado pela via democrática, descen- cial. Apesar de seus limites, elas contribuíram para gan-
tralização e municipalização foram bandeiras constantes, hos de transparência no setor governamental e para uma
a partir da compreensão de que a participação e o certa inversão de prioridades, com a inserção de
controle popular se efetivam de modo mais consistente interesses populares na agenda pública a partir da
quanto mais próxima a população está dos centros de interlocução com a sociedade.
decisão. Alguns autores também apontam para a
No Brasil, esses desafios são particularmente descentralização político-administrativa como uma pro-
difíceis, pois aqui os municípios nunca tiveram poder posta democrática que pode exatamente tentar funcio-
econômico, institucional ou normativo, já que o Estado nar como contrapartida ao cenário globalizante: “lute-
sempre esteve distante da sociedade civil. Exatamente mos para que o lado positivo da globalização, que é o
porque o município é a esfera de poder do Estado mais revigoramento das localidades, seja um espaço frutífero
próxima do cidadão, nunca interessou aos que contro- para colocarmos em campo as nossas propostas”, afir-
lam o poder no Brasil, em geral, que o poder local fosse mou Leal (1996:58).
real. Essa não é uma luta fácil. A mera descen-
Apesar desses óbices, são muitas e diversas tralização em virtude do esvaziamento do poder central,
as iniciativas na direção da democracia semidireta, em acuado pelos efeitos da globalização, arrisca reafirmar
quase todo o mundo. Essa variedade de canais abertos uma modernização excludente que pode mesmo implicar
à participação, resultantes de diferentes modelos de ges- na volta renovada dos caciquismos. Uma alocação
tão, constitui aspecto relevante na medida em que evi- privatista de recursos pode ser mantida, ainda que com

Síntese 31
maiores dificuldades, em um desenho descentralizado do Caribe – entre os quais o Brasil – a administração
de poder que não alcança os setores populares. O pública central ainda padece de ineficiência, desperdício
esgotamento dos modelos tradicionais de desenvolvi- e corrupção, mas, ressalta a ampla descentralização
mento deve ensejar propostas de mudanças do ponto ocorrida ao longo da última década trouxe repercussões
de vista democrático, e não apenas ditadas por preocu- positivas. E adverte: “O principal desafio que os países
pações economicistas com relação aos mercados. da região hoje enfrentam (...) é garantir que a
Políticas descentralizadoras que de fato impul- descentralização não dilua a responsabilidade nem
sionem mecanismos locais de gestão e participação na enfraqueça as funções do Governo – primariamente a
tomada de decisões, é uma resposta estratégica que a programação macroeconômica e sua fiscalização – que
sociedade precisa reforçar. Haddad sustenta que a par- precisam permanecer centralizadas” (id., ibid.: 4).
ticipação informal e indireta, complementando aquela Governos e comunidades, de diferentes modos
convencional e institucionalizada, é a forma mais inovativa e em ritmos diversos, têm ensaiado respostas às novas
e adequada “para se inserir o estilo de planejamento circunstâncias impostas por um mundo em acelerada
participativo no contexto do processo de mutação. A questão da pluralidade, advinda da urbani-
redemocratização de países que estejam procurando su- zação e da sofisticada diferenciação e complexificação
perar o descompasso entre esse processo, que se con- no interior de cada sociedade, é um dado crucial. Uma
solida com a reconquista das liberdades civis, e os me- ‘terceira via’ está sendo buscada, como modo de esta-
canismos (...) de concentração do poder de decisão na belecer novos fluxos entre Governo e sociedade.
formulação e no controle das ações governamentais, os Vejamos primeiramente como a sociedade
quais constituem uma das heranças do período autoritá- tem caminhado e que valores a tem guiado nesse
rio político” (Haddad, 1997:37).

O município é a esfera de poder do Estado mais próxima do cidadão,


nunca interessou aos que controlam o poder no Brasil, em geral, que o poder
local fosse real.

Como nota Jara, “colocar o Estado realmente percurso. Em seguida analisaremos comportamentos
na direção do desenvolvimento sustentável, requer, ao governamentais emergentes, com ênfase às crenças
mesmo tempo, uma reforma político-administrativa da que os têm mobilizado.
máquina estatal e um processo de educação que pro-
mova mudanças na cultura política tradicional. Não é Na direção de um associativismo plural
possível mudar esta cultura sem transferências reais de
recursos e poder decisório aos governos e comunidades Avritzer tenta circunscrever essa mudança na
locais” (1996:17). direção de um associativismo plural a partir da observa-
Descentralização e participação relacionam-se ção de quatro fenômenos, os quais têm a ver com a
portanto de diversas formas. Segundo Afonso&Lobo, substituição da funcionalidade pela territorialidade
“de nada vale avançar com a descentralização se os ca- como princípio de ação social (1996:17-19):
nais de participação da cidadania não estiverem • significativa redução da influência da vida
desobstruídos de forma tal que possam estimulá-la de sindical nas formas de ação coletiva e renovação de
maneira regular e duradoura” (1996:27). Quanto aos suas práticas;
objetivos relativamente à participação política e cidadã, • construção de solidariedades locais e da idéia
“tendem a se aproximar de um para outro país, como de comunidade, cujo robustecimento valoriza a partici-
legitimar governos ou políticas econômicas, aumentar o pação na gestão de políticas sociais, como educação,
controle social para tornar mais eficaz o gasto público saúde, habitação;
e/ou aprimorar a qualidade da despesa social básica” • pluralização das formas de ação coletiva,
(Afonso&Lobo,1996:19). estimulada pela ruptura da classe média com a idéia
Avaliando o impacto da descentralização de participação em algo que costumava ser definido
sobre a eficiência do setor público, recente trabalho como ‘setor popular;
de Schiavo-Campo (apud Afonso&Lobo,1996) • surgimento de um conjunto de associações
indica que em diversos países da América Latina e temáticas: direitos humanos, meio ambiente, gênero etc.

32 Síntese
Esse autor chama a atenção para que “não ciais, demonstrar sua capacidade propositiva e
se trata apenas do surgimento de um conjunto de mobilizadora” (id., ibid.).
novos atores no espaço público, mas trata-se também
de uma forma completamente distinta de ocupação Novos conceitos de governabilidade
do espaço público” (1996:19). Nesse movimento,
duas das características mais limitantes ao asso- De maneira sucinta, tentarei apresentar um qua-
ciativismo, predominantes no fim do século passado dro desses novos valores em ação na sociedade hoje,
e no período populista, são enfraquecidas. Rompe- que ganharam espaço dentro de muitos setores gover-
se com a “tendência à constituição de grupos cada namentais, e que impulsionem, por vezes implicitamen-
vez mais amplos, nos quais a representação de inte- te, muitas das alterações observadas nas relações Go-
resses e a constituição de solidariedade aparecem verno-sociedade. Nesse quadro, serão destacados os
imediatamente ligadas”(id., ibid.). Além disso, “a seguintes pontos:
participação política da classe média deixa de estar • redução e fortalecimento do Estado, simul-
vinculada à tentativa de mudança das regras do jogo taneamente, em respeito ao cidadão;
político e passa a constituir efetivamente uma forma • expansão do controle social sobre o Estado:
plural de ação” (id., ibid.:20). a reforma do Estado pela criação de uma esfera social-
É esse novo associativismo civil que tem re-
presentado a superação dos elementos de continuísmo
político presentes nas chamadas ‘transições para a de-
mocracia’ da América Latina, constituindo o dado novo
frente às características seculares de mandonismo polí-
tico que lutam por permanecer.
Desse modo, mudanças no próprio estilo de
organização da sociedade favorecem sua participação
como parceira de setores governamentais em políticas
públicas de variados perfis. O maniqueísmo ‘sociedade
boa-governo mau’, que dificultava qualquer aproxima-
ção entre ambos – sempre tomada como ‘cooptação’
– foi substituída por uma visão mais larga e complexa
de Estado, obtida por organizações que se libertaram
da tutela ideológica autoritária de grande parte dos
grupos de esquerda que mobilizaram setores populares
por muitos anos no Brasil e na América Latina em geral.
Não é o caso de nos aprofundarmos aqui na
análise da vasta literatura sobre as relações entre socie-
dade civil e sociedade política, mas cabe lembrar que o
Estado também pode desempenhar um papel importan-
te, colaborando na criação de estruturas de participação
social, conforme apontam inúmeros autores. Por ora,
gostaria de concordar, com Groth&Bullow, que “os
movimentos sociais têm um papel fundamental a cum-
prir, mas também o Estado” (1997:06): “Se, como criti-
ca Arbix (1996:337), ao tratar do fim da experiência
das câmaras setoriais, ‘o Estado continuar submetendo-
se aos ventos desreguladores da economia, sem com-
promisso com a negociação sistemática e recusando a
participação de interesses diversos na elaboração e
implementação de políticas públicas’, a possibilidade
de que o Estado rompa com sua tradição clientelista e
patrimonialista diminui consideravelmente. Cabe também
aos movimentos sociais ou às redes de movimentos so-

Síntese 33
pública, na constituição da qual os conselhos de partici- a hierarquia de decisões no Brasil significa rever o
pação social adquiram dimensão relevante; controle do uso dos recursos públicos, o que implica
• melhoria da ação governamental pela moti- controle local e estruturação da comunidade. Para este
vação comunitária: o papel estratégico da ação local im- autor, a redefinição do papel do Poder Público local como
plica em descentralização e municipalização. mobilizador dos agentes da sociedade civil local (privados
Esses valores estão presentes no que tem se e comunitários), é o caminho mais alvissareiro para a
convencionado chamar de “terceira via”, aquilo que es- construção de uma nova relação entre Estado e sociedade.
tudiosos como Pedro Demo chamam postura civil: a Segundo Jack Kemp (in Osborne&Gaebler,
diminuição do Estado, não para melhorar as condições 1994:75), se o Governo não pode obrigar as pessoas a
de exploração da mais-valia, mas para dar o devido es- se responsabilizarem pelo controle de suas escolas, ou
paço à sociedade civil. Socializar, não pelo Estado, mas postos de saúde ou bairros etc., pode, no entanto,
pela organização social. Aumentar a liberdade, não pela estruturar as coisas de modo a permitir que as pessoas
recriação anacrônica do mercado livre, mas pela insti- assumam tais responsabilidades se estiverem dispostas
tuição da cidadania (ver Demo:1988). a isso. Sua estratégia inclui passos concretos que os
É o caso de reduzir o Estado por respeito ao governos podem dar: a) remover os obstáculos existentes
cidadão, tendo em vista a expansão da participação e ao controle pela comunidade; b) encorajar as comuni-
do controle social sobre o Estado. A civilização do dades organizadas a controlar os serviços que lhes são
Estado. Aquilo que Tarso Genro (1996) denomina de prestados; c) promover estímulos em dinheiro, trei-
construção de uma esfera pública não estatal de namento e assistência técnica; d) transferir ao controle

O maniqueísmo ‘sociedade boa-governo mau’, que dificultava qualquer


aproximação entre ambos – sempre tomada como ‘cooptação’ – foi substituída
por uma visão mais larga e complexa de Estado, obtida por organizações que
se libertaram da tutela ideológica autoritária de grande parte dos grupos de
esquerda que mobilizaram setores populares por muitos anos no Brasil e na
América Latina em geral.

controle: criação de instituições – voltadas para a de organizações comunitárias os recursos necessários


produção e reprodução de políticas públicas – que têm para enfrentar os problemas.
um caráter indutivo e fiscalizador do Estado. Em favor da participação
Ação local Quatro vertentes do argumento em favor da
Quando se fala em participação (como o participação da sociedade civil em ações de desenvol-
processo histórico de autodeterminação, pressupondo vimento são sistematizadas por Bandeira (1997), em um
condições concretas de auto-sustentação) e controle do esforço interessante de síntese que vale a pena destacar
Estado, a ação local mostra-se como a ação política ao final deste artigo:
por excelência. Não que se perca a perspectiva global • O primeiro enfatiza a participação como meio
dos problemas a enfrentar: o Estado, enquanto agente de assegurar eficiência e sustentabilidade aos progra-
coordenador das políticas para o desenvolvimento, é mas, o que tem levado as principais instituições interna-
fundamental, mas sua capacidade – isolada da energia cionais de fomento ao desenvolvimento a recomendarem
das organizações populares – é insuficiente. o envolvimento direto dos segmentos interessados da
Comentando sobre o impacto da concentração comunidade nos programas que recebem seu apoio;
de renda no funcionamento do Estado, Ladislau Dowbor • O segundo argumento destaca a importância
(1994) mostra que a perda de governabilidade tem sido da participação para a ‘boa governância’, na medida
causada pela centralização do aparelho político-admi- em que assegura a transparência das ações do poder
nistrativo e pela hierarquia de decisões no Brasil. Rever público e combate a corrupção;

34 Síntese
• O terceiro encara a participação como ins- • O quarto, finalmente, ressalta o papel da par-
trumento para a acumulação de capital social, de que ticipação na formação e consolidação de identidades re-
fazem parte “os traços culturais característicos de uma gionais, por intermédio da construção de consensos
comunidade que contribuem para fazer com que seus básicos entre os atores sociais de uma região.
membros se tornem propensos a colaborar no sentido
da solução de problemas de interesse comum” (p.12);

Celeste Cordeiro é doutora em Sociologia e professora da Universidade Estadual do Ceará

BIBLIOGRAFIA CITADA
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BANDEIRA, Pedro – Novas formas de atuação no desenvolvimento regional participação social e políticas regionais, IPEA, Porto Alegre: 1997.

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OSBORNE, David & GAEBLER, Ted – Reiventando o Governo, MH Comunicação, Brasília: 1994.

Síntese 35
36 Síntese
A reforma do Estado
no contexto da globalização

Cláudia Costin

As organizações do setor privado tiveram de


Introdução sofrer reestruturações para adaptarem-se às demandas
Um dos maiores desafios dos governos nos do novo cenário. Além do aumento no fluxo de capitais,
anos 90 é reformar suas estruturas administrativas para os mercados financeiros estão irremediavelmente entre-
fazerem frente às necessidades advindas da globalização laçados, como ficou atestado a partir da crise asiática
econômica e social. Para compreender a magnitude deste de 1997. A velocidade do mundo moderno deixou de
desafio, contudo, é importante refletir sobre o modelo estar associada à potência dos motores, para associar-
de Estado vigente até os anos 80. Que fatores levaram à se às linhas digitais, por meio das quais a troca de infor-
crise fiscal e à derrocada do padrão burocrático de mações e de mercadorias ocorre em tempo recorde.
gerenciamento do setor público nos anos 90? Desde o Vivemos num mundo simultaneamente real e virtual, onde
seu primeiro mandato, o Governo Fernando Henrique tudo se passa sem que tenhamos controle sobre a reali-
Cardoso está comprometido com o ajuste fiscal e vem dade.
promovendo um conjunto de reformas estruturais, com Mas, o que isso significa para o Estado? Os
o objetivo de retomar o desenvolvimento social e governos têm sido afetados tanto pelo impacto das no-
econômico. Dentre as reformas, abordarei a reforma vas tecnologias quanto pelos desafios geopolíticos e
administrativa, cujo projeto é a superação da adminis- macroeconômicos que marcaram os anos 80 e 90. O
tração burocrática e a implantação do modelo de gestão modelo de Estado interventor, que entre a década de 30
empreendedora, orientado para o cidadão e para a ge- e 70, no Brasil, foi protagonista do desenvolvimento
ração de resultados. econômico, entrou em colapso. O padrão de financia-
mento desse modelo e o gigantismo da máquina pública
Globalização e crise do Estado que o viabilizou produziram distorções que levaram a
A reinvenção do Estado Nacional faz parte da uma redução generalizada nas taxas de crescimento
agenda internacional neste final de século. A globalização, econômico, a uma elevação do desemprego e à ciranda
ao abolir fronteiras econômicas e socioculturais, aproxi- inflacionária. Todo este processo redundou na crise fis-
mou mercados e Estados. A revolução informacional cal dos anos 90 e na falência dos mecanismos da gestão
acirrou a competição, possibilitando uma velocidade na burocrática.
circulação de bens, serviços e informações sem prece- A crise do Estado brasileiro tem se manifesta-
dentes na História da humanidade. do em quatro dimensões. A primeira é a crise fiscal, cuja

Síntese 37
gênese foi determinada por fatores internos, especial- tor de bens e serviços e barateador do custo de produ-
mente o elevado grau de intervenção do Estado no mer- ção do capital vem sendo questionado. Ou seja, a
cado e o conseqüente endividamento das estatais, tendo desestatização é hoje uma realidade sem fronteiras, ca-
o seu apogeu nos anos 70; e por fatores externos, como bendo ao poder público discernir o que é passível de
a crise de liquidez internacional, o choque dos juros in- privatização e à sociedade realizar o controle social so-
ternacionais e do petróleo, nos anos 70 e início dos anos bre o processo. O Estado deixou de ter o papel de pro-
80. Estes fatores conjugados determinaram a crise fiscal dutor de bens e serviços (a serem ofertados pelo mer-
manifesta por meio da crise da dívida externa a partir de cado) e passa a enfatizar as funções de regulação dos
1982, da corrosão inflacionária das receitas públicas monopólios naturais e de defesa da concorrência. Isso
(efeito Tanzi), da grande expansão da dívida interna e não significa, porém, que a tese do Estado mínimo esteja
das despesas financeiras e de pessoal. correta. Ao contrário, o Estado deve ser forte na for-
A crise fiscal impôs a necessidade de uma forte mulação de políticas públicas que atendam a necessidade
contenção dos gastos públicos desde os anos 80. En- da população. Além disso, em nenhum país do mundo o
tretanto, essa contenção teve seu limite imposto pelo mo- gasto público como proporção do PIB caiu. Ou seja,
delo de gestão burocrático vigente no setor público. O esta tese não só é incorreta como inaplicável.
que o Governo e a sociedade perceberam, nos últimos A terceira dimensão da crise diz respeito ao
anos, é que a solução dos problemas do Estado não desafio de consolidação da democracia. Ao longo do
está em gastar mais, mas sim em gastar menos e melhor. regime autoritário, houve um aumento significativo das
Esta percepção foi aguçada com o fim da inflação que demandas sociais, represadas por mais de duas décadas.
trouxe a tona a verdade sobre os números. A sociedade Com o processo de redemocratização houve a liberação

Um dos maiores desafios dos governos nos anos 90 é reformar suas


estruturas administrativas para fazerem frente às necessidades advindas da
globalização econômica e social.

não está mais disposta a continuar arcando com elevados e o seu conseqüente crescimento. A explosão das
custos referentes a serviços de qualidade precária. A demandas sociais defrontou-se, entretanto, com a im-
palavra de ordem agora é qualidade do gasto público. possibilidade de atendimento dada a da crise fiscal do
A crise fiscal engendrou conseqüências positi- Estado. Some-se a isso a expectativa social irrealista de
vas, tais como o empenho da União, dos Estados e dos um Estado onipotente, exacerbada no regime autoritá-
Municípios no sentido de administrar com austeridade suas rio e reforçada pela tradição política populista. O resul-
folhas de pessoal. Encerrou-se a fase de congelamento tado foi um misto de revolta e frustração. De fato, o
de salários e de atraso no pagamento de fornecedores aprendizado da democracia é um caminho árduo e tor-
como mecanismos de equilíbrio das contas públicas. tuoso. Num regime totalitário é fácil reformar o Estado:
Convém registrar que essa mesma crise gerou fecha-se o Congresso Nacional, censura-se a imprensa,
ao longo dos anos 80 e início dos 90 um processo de suprimem-se as garantias individuais, anulam-se leis,
sucateamento da Administração Pública. Não houve, em impõem-se medidas arbitrárias. Já no regime democrá-
particular, a necessária modernização dos processos de tico, o atendimento das demandas sociais passa por re-
trabalho e a preocupação em corrigir distorções no per- formas que devem ser negociadas democraticamente
fil e na composição da força de trabalho, o que resultou com vários interlocutores. As resistências e as
em má distribuição de pessoal, com excessos em incompreensões são naturais, até porque as reformas
atividades operacionais e de suporte administrativo, e atingem interesses de grupos específicos. A cultura
carência de técnicos especializados na formulação, clientelista resiste às reformas pois ainda existem raízes
implementação e avaliação de políticas públicas. no Estado e na sociedade. A cultura burocrática também
A segunda dimensão da crise manifestou-se no resiste ao perceber que seu poder diminui no processo
esgotamento do modelo de intervenção do Estado na de reformas. É preciso, portanto, que os técnicos tenham
economia. Em todo o mundo, independentemente da humildade para perceber que os dirigentes e os
ideologia dos governantes, o modelo de Estado produ- parlamentares eleitos detêm um mandato para interpretar

38 Síntese
os anseios populares. Ou seja, no regime democrático, A superação da administração
a racionalidade técnica deve submeter-se à vontade burocrática
popular. A crença predominante segundo a qual a bu-
A quarta dimensão da crise do Estado abrange rocracia em função de seus rígidos controles combate o
a forma de gerenciamento do aparelho estatal. A clientelismo tem sido fortemente contestada. O excesso
deteriorização do desempenho do aparelho do Estado de normas e o rigor dos procedimentos não foram sufi-
nas duas últimas décadas deveu-se, principalmente, a cientes para combater práticas de corrupção. Acres-
três fatores: a) à crise fiscal, que impôs forte restrição centa-se a isso que, dada a inflexão do modelo, a gestão
orçamentária, reduzindo em muito a capacidade de in- burocrática mostra-se inadequada para responder com
vestimento; b) à grande expansão das demandas sociais, velocidade às exigências do desenvolvimento econômico
em decorrência do processo político de redemo- e social num mundo cada vez mais complexo e
cratização e do surgimento de novos grupos sociais e globalizado.
urbanos; c) ao esgotamento do modelo burocrático de O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do
gestão, que ficou defasado em relação aos padrões Estado, elaborado em 1995 por iniciativa do então Mi-
gerenciais do setor privado e em relação às novas (e nistério da Administração e Reforma do Estado –
antigas) demandas sociais. MARE, veio responder à necessidade de transforma-
O País sofre, ainda, da “síndrome da norma- ção da máquina pública com vista à sua adequação aos
tização excessiva”, que consiste em tentar resolver novos tempos. A alternativa conduz ao redesenho do
problemas culturais e de gestão mediante (exclusivamen- aparelho do Estado e à implantação de um novo modelo
te!) a edição de regras e normas. Entretanto, o aparato de gestão, a administração gerencial.
normativo, por si só, não tem sido eficaz para combater A reforma gerencial é essencialmente empre-
fraudes, além de, ao mesmo tempo, limitar a ação do gerente. endedora, descentralizante, calcada na melhoria dos pro-
Acrescenta-se a isso que, por força desse arcabouço cessos de trabalho, na redução de custos e na geração
institucional, o Estado compra mal, contrata mal, seleciona de resultados. É também inovadora do ponto de vista
mal seus servidores, oferece-lhes treinamento precário e da redefinição do relacionamento Estado/Sociedade,
possui arcaicos processos de trabalho. porque se guia pela preocupação com a transparência

Síntese 39
das informações e com o fomento de mecanismos de o regime de admissão de servidores; estabeleceram-se
controle social. Por isso é uma antítese da burocracia mecanismos para o controle de gastos e o equilíbrio das
tradicional, caracterizada pelo autoritarismo da contas públicas, tais como a redução de despesas com
racionalidade técnica, pelo excesso de normas, pela cargos de confiança e critérios para fixação de remune-
centralização hierárquica e pela cultura da superiorida- rações. Garantiram-se mecanismos para
de dos procedimentos em detrimento do compromisso profissionalização da função pública, bem como para a
com resultados. ampliação da autonomia de gestão, com fundamento nos
Distinguem-se três estágios na evolução his- princípios da transparência e do controle social.
tórica da Administração Pública brasileira: (i) o Em verdade, todas essas mudanças com
Patrimonialista, em que não havia propriamente uma relação ao modelo de gestão conduzem a uma ampla
consciência do que é o bem público, confundindo-se transformação da cultura organizacional no setor público.
público e privado, e onde dominavam o empreguismo, A mudança de valores imbutida no processo de
o nepotismo e o clientelismo; (ii) o Burocrático, reestruturação modifica a relação de tutela Estado/
surgido como uma antítese ao patrimonialismo, um Servidor, com reflexos positivos sobre a sociedade,
modelo altamente hierarquizado, baseado em normas beneficiária dos serviços estatais.
e procedimentos racionais rígidos, cuja ênfase é o É fundamental que haja um sistema de incenti-
controle dos processos; e (iii) finalmente, a vos à profissionalização do setor público. Os servidores
Administração Gerencial, emergente a partir de 1995 devem ser avaliados pelo seu desempenho profissional
com o objetivo de combater a rigidez do modelo e não apenas pelos aspectos de conduta estabelecidos
burocrático, flexibilizando procedimentos e no sistema de avaliação ainda vigente. A moralidade é

A simultânea redução do ritmo do crescimento econômico e da capacida-


de de geração de emprego das unidades produtivas leva a uma situação dra-
mática que envolve bilhões de pessoas no Planeta.

reorientando a administração para resultados, tendo sem dúvida imprescindível e faz parte dos princípios que
por foco o cidadão. Este modelo de administração regem a administração pública, juntamente com a legali-
associa-se à idéia de gestão empreendedora em que dade, publicidade, impessoalidade. Mas, a partir de ago-
o servidor público, agora profissionalizado, tem como ra, a eficiência se inclui entre estes princípios, sendo isto
referência de atuação metas a serem atingidas, rela- muito importante na transição para um modelo de admi-
cionadas à melhoria das condições de vida da nistração que prima por resultados. Esta mudança do
população. enfoque da avaliação centrada na conduta para a avalia-
É notório que a implantação do modelo ção centrada no desempenho corrige distorções
gerencial não implica que a administração brasileira te- comuns do tipo: servidores disciplinados, assíduos e
nha superado completamente os aspectos patrimonialistas de conduta irrepreensível, cujo rendimento no trabalho
e as amarras da tradicional burocracia. No caso desta é inexpressivo ou insuficiente. Este estado de coisas
última, sequer conseguimos instaurar uma burocracia tem um alto custo social e podemos até indagar-nos
racional, no sentido weberiano, em todas as áreas do sobre até que ponto não seria antiético para com a
governo. sociedade mantê-lo num contexto de escassez de
O que importa é que a reforma trouxe consigo recursos e de diminuição da capacidade do Estado de
um horizonte para a reconstrução do Estado nacional e responder às demandas sociais.
uma nova filosofia de funcionamento do setor público. Um outro mérito da reforma é que a capacitação
A Emenda Constitucional no 19 da Reforma Adminis- ocupou o centro do debate sobre a qualidade dos servi-
trativa removeu os obstáculos de ordem legal para que ços prestados à população. Deflagrou-se, então, uma po-
se efetivassem mudanças organizacionais significativas. lítica de capacitação e de concursos para seleção de qua-
Foram revisadas as regras da estabilidade e flexibilizado dros visando ao fortalecimento do núcleo técnico do Es-

40 Síntese
tado. Este foi um passo muito importante no sentido da do crescimento com exclusão. Por isso, devemos em-
reconstrução do Estado e da valorização dos servidores. preender esforços no sentido de administrar os recursos
Conclusão públicos com austeridade, visando equilibrar os gastos
À guisa de conclusão, ressalto que, ao contrá- do Governo e combater o déficit fiscal. Somente com o
rio do que os representantes do pensamento neoliberal ajuste das contas e com o aperfeiçoamento dos instru-
tentaram transformar em um quase consenso neste final mentos de gestão pública estaremos investindo no au-
de século, a globalização requer um Estado fortalecido mento da governança, ou seja, da capacidade do Estado
para enfrentar os desafios do mercado e as adversidades de implementar políticas públicas, e na promoção do
da concorrência internacional, para não falar dos riscos desenvolvimento econômico e social.

Cláudia Costin é Doutora em Administração pela Fundação Getúlio Vargas.

Síntese 41
42 Síntese
O meio ambiente na
globalização

Marina Silva

Estamos a pouco mais de um ano do fim de territorial-nacional e um sistema de forças sociais de di-
um século que, nas suas últimas luzes, fica marcado como mensão transnacional.
o século da globalização, com múltiplos impactos e cru- Para Viola, esse quadro se manifesta em múlti-
zamentos substituindo as referências lineares que tínha- plas dimensões e tem na sua vertente ecológico-ambiental
mos até o desmonte da experiência do socialismo real, “o mais poderoso dos processos de globalização”.
no final dos anos 80. Esse fato político de enorme rele- “Uma vez atingida a percepção da globalização
vância não inaugura a globalização, mas foi o ponto de ambiental vemo-nos obrigados a passar do conceito
partida decisivo para a expressão de algumas das di- de sistema internacional (que se refere apenas a
mensões mais importantes desse processo. E, sobretu- realidades sociais) para o de sistema global, porque
do, para a tomada de consciência mundial sobre a este permite-nos distinguir e incluir as realidades
emergência de dinâmicas sociais, econômicas e culturais, sociais e naturais e orienta-nos na investigação
profundamente diferentes, exigindo dos atores sociais sistemática sobre seus modos de interação em escala
grandes movimentos de adaptação de suas estratégias planetária.”
ao fim dos alinhamentos de base ideológica bipolar rígida. De fato, a percepção global dada pela emer-
Eduardo Viola descreve a globalização como gência do tema Meio Ambiente é precursora da
um processo multidimensional caracterizado por dilui- globalização tal como a conhecemos hoje e conserva
ção dos limites nacional/internacional e redução das dis- uma certa independência, no sentido de que não é um
tâncias, mesmo entre realidades muito heterogêneas; subproduto dessa globalização, mas um nicho de signifi-
passagem de um sistema internacional centrado no Es- cados muitas vezes contraditórios, porém, plenos de
tado para outro multicêntrico, marcado por alta diversi- potencial questionador em face das manifestações mais
dade de forças e atores sociais interagindo; transna- avassaladoras do processo, como o são as dimensões
cionalização das agendas político-econômicas, dos financeira, mercadológica e o aprofundamento da ex-
atores sociais e dos espaços de negociação, mesmo no clusão social e da pobreza.
âmbito local remoto; erosão parcial do Estado nacional Um exemplo dessa posição diferenciada do
como centro regulador da vida social, com uma certa tema está no próprio fato de ter recolocado em discus-
fragmentação das sociedades nacionais; erosão parcial são o conceito e o sentido do processo de desenvolvi-
dos sistemas democráticos nacionais, pelo poder cres- mento, retomando valores abandonados ou subjugados
cente de indivíduos transnacionalizados e pela defasa- pela primazia absoluta dada, neste século, ao crescimento
gem entre um sistema de representação de base material. Embora não se possa afirmar que a tese do

Síntese 43
desenvolvimento sustentável, surgida na seara ator social global e nacional – as organizações não-
ambientalista, esteja realmente estruturada como uma governamentais – que é o agente dessa abertura nos
alternativa ao desenvolvimentismo predador e fóruns políticos e nos processos de tomada de decisão.
consumista, deve-se reconhecer que ela é hoje o guar- Emerge uma comunidade transnacional ligada por
da-chuva sob o qual se engendram soluções, idéias e objetivos e valores diferenciados, de base solidária e
avanços relevantes, além de ser um laboratório para cooperativa. O meio ambiente consolidou-se como
interações, parcerias e inovações institucionais de gran- referência quase obrigatória na maioria das atividades
de vitalidade e positividade no panorama geral, muitas humanas.
vezes assustador, da globalização econômico-financei- Na prática, a contrapartida desses ganhos está
ra. É inegável o compromisso, implícito no conceito na resistência dos poderes estabelecidos a abrir mão de
desenvolvimento sustentável, com a mudança progres- suas estratégias econômicas e de sua concepção mone-
siva para um modelo de sociedade justa e ambien- tarista de lucro. Essa resistência é visível na implemen-
talmente equilibrada. tação problemática e continuamente retardada dos
Desde os anos 60, Meio Ambiente tem co- documentos aprovados na Rio-92, a exemplo da Con-
locado em pauta questões vitais relacionadas ao fun- venção sobre Mudança do Clima e da Convenção de
cionamento do sistema internacional e de sua Diversidade Biológica. De qualquer forma é inegável a
geopolítica. Assim, por esta via, instalaram-se grande expansão do conhecimento sobre aquecimento
polêmicas essenciais, entre outras, sobre controle de global e diversidade biológica – ou biodiversidade – e
população, soberania do Estado nacional e limites das sua transformação em espaços políticos de negociação.

É inegável o compromisso, implícito no conceito desenvolvimento sus-


tentável, com a mudança progressiva para um modelo de sociedade justa e
ambientalmente equilibrada.

fronteiras políticas; perfil e volume do consumo nos A biodiversidade, embora não tenha atingido a priori-
países ricos; caducidade dos instrumentos de dade concedida ao tema das mudanças climáticas, já é
negociação internacional e de avaliação econômica; reconhecida como um campo estratégico para a huma-
e incapacidade do arcabouço jurídico internacional nidade, além de, com freqüência, provocar discussões
lidar com o direito das gerações futuras no presente. fundamentais sobre a ética relacionada à vida no Planeta.
Essas polêmicas mostram, hoje, resultados Talvez mais importante do que resultados pon-
conceituais e práticos significativos. A crise ambiental tuais seja a atuação da comunidade transnacional antes
entrou na esfera das relações globais como um elemento referida, em boa parte responsável pelo reposicionamento
novo e exigente, que impôs a busca de soluções inusita- da esfera local na realidade global – “pensar globalmen-
das, o que resultou na construção de formas de consen- te, agir localmente” é um dos grandes lemas do
so e de fóruns mais complexos, com a abertura de es- ambientalismo – por meio de redes entrecruzadas que
paço para a sociedade civil, evidenciando as contradições criaram metodologias não convencionais de procura de
entre as regras e os interesses vigentes da ordem mundial soluções objetivas, de troca de informações e de forma-
e o objetivo de manter a qualidade de vida para todos ção de lideranças, com o uso intensivo das possibilidades
ou, mesmo, de preservar a própria vida no Planeta. eletrônicas de comunicação. Indivíduos e comunidades
A Conferência da ONU sobre Meio Ambiente passaram a interagir com o espaço global, independente-
e Desenvolvimento, a Rio-92, é um marco dessa mu- mente das diversas instâncias de poder e de influência do
dança. Após a inédita visibilidade dada a um evento Estado nacional.
desse tipo, todas as demais negociações do final do Se na década de 90 houve o que se costuma
século sofreram algum tipo de interferência em seu chamar de uma “ressaca do ambientalismo”, em lugar
perfil, no rumo de uma abertura, que ainda passa por da extraordinária expansão e exposição que muitos al-
muitos meandros obscuros. Consolidou-se um novo mejavam no pós Rio-92, por outro lado começou a se

44 Síntese
formar uma teia, menos visível mas nem por isso menos entre Estados-Nações, grupos sociais, classes
impactante, de ações socioambientais em âmbito local. sociais, movimentos de opinião pública, funda-
Essa tendência, ainda pouco avaliada no seu mentalismos, correntes de pensamento. Esse é o
conjunto, é hoje um campo de grande vitalidade, inclu- contexto em que o paradigma clássico, ou tradici-
sive para a formação da cidadania e mudança dos pa- onal, de relações internacionais começa a ser
drões políticos, a partir da microescala, por meio do superado, ou subordinado pelo novo. Um
incentivo à participação na definição de interesses corresponde à dinâmica da sociedade nacional, do
coletivos e na defesa de direitos difusos, nos quais se Estado-Nação, em que sobressai o suposto da
enquadra o direito a um meio ambiente saudável. soberania. Outro corresponde à dinâmica da
Segundo Celso Furtado, tornado anacrônico sociedade global, compreendendo relações,
o paradigma que prioriza o Estado-Nação, “surgem processos e estruturas de dominação e apropriação
outros atores, outras elites, diferentes estruturas peculiares, implicando movimentos de integração
de poder, distintas polarizações de interesses, e antagonismo originais, possibilitando soberanias
novas condições de convergência e antagonismo e hegemonias desconhecidas.”

Síntese 45
No campo ambiental é nítida a formação dessa qualificação e a objetivação de que o conceito de
sociedade global. No Brasil, a Amazônia pode ser con- desenvolvimento sustentável é carente. Mais do que isso,
siderada um espaço por excelência que exemplifica es- podem explicitar como se internaliza, concretamente, no
sas novas dinâmicas, tanto em seus avanços quanto em Brasil, a realidade da globalização e como com ela
suas perversidades. Eterno desafio nacional de interagem as inúmeras e complexas dinâmicas de relações
equacionamento de um modelo de desenvolvimento com locais e nacionais.
eixo ambiental, a região impacta também o mundo, não A forma como se dá essa internalização é, na
apenas pelo significado ecológico mas também pelo seu verdade, um ponto extremamente sensível. É preciso
papel no imaginário universal, como referência de valo- entendê-la de maneira não meramente defensiva e saber
res imemoriais na relação Homem-Natureza. identificar os riscos e oportunidades advindos da
A mais recente fase de integração global da globalização. Há aí envolvida uma complexidade que
Amazônia, promovida nos dois últimos governos, é exigiria uma atuação institucional de fronteira, para sa-
fortemente baseada na exploração madeireira para ex- ber manejar tal situação, garantindo flexibilidade, mas
portação e, segundo demonstrou o relatório da também, o controle necessário para evitar um desmonte
Comissão Externa da Câmara dos Deputados dos referenciais culturais locais, o que teria conseqüên-
destinada a averiguar a aquisição de madeireiras, cias individuais e coletivas provavelmente desastrosas.
serrarias e extensas porções de terras brasileiras por Impõe-se também atualizar – e não abandonar
grupos asiáticos, é uma integração de alto risco porque – o conceito de nacionalismo para que seus conteúdos

Experiências bem sucedidas, como o Projeto RECA, e mesmo as “histó-


rias de vida” de comunidades que redescobrem o potencial do conhecimento
tradicional e de sua tecnologia de convivência com a natureza, podem fornecer
a qualificação e a objetivação de que o conceito de desenvolvimento sustentável
é carente.

não baseada num planejamento ambiental estratégico. de solidariedade grupal e cultural e de metas coletivas
“(Produz efeitos) semelhantes ao da antiga política fiquem claros num contexto de globalização, sem refletir
de integração nacional do regime militar, quais maniqueísmos e nem servir de pretexto para a defesa
sejam: altas taxas de desmatamento e queimadas; de interesses particularistas e anti-sociais. Pode-se cair
exploração florestal predatória; invasão e no enclausuramento de um nacionalismo desatualizado,
exploração ilegal de terras indígenas e unidades de que nega os fatos implícitos nas relações mundiais e tenta
conservação; poluição de rios etc”. construir soluções isoladas, num mundo claramente ba-
O relatório evidencia, também, que ao mesmo seado em articulações transnacionais e em dissolução
tempo em que leva adiante esse tipo de integração glo- de fronteiras.
bal, não sustentável, a política governamental deixa de Esse debate é essencial num mundo que vive,
promover aquela que seria a integração mais promisso- como diz Viola, a “revolução das capacidades individu-
ra, baseada no grande trunfo que o País e a região pos- ais” e, também, amplas possibilidades para se montar
suem, que é a rica biodiversidade amazônica. teias de solidariedade e afinidades legítimas fora do es-
Na Amazônia, o aproveitamento estratégico paço político e cultural tradicional de uma “nação”.
da biodiversidade é indissociável do papel das Um indivíduo ou uma comunidade com mobi-
experiências locais e do conhecimento gerado nas lidade nos sistemas extra-Estado, com acesso aos siste-
comunidades, que deveriam ser aprofundados e mas modernos de informações, não têm necessidade do
solidamente incorporados a um projeto de amparo de uma referência “nacional” nos moldes anteri-
desenvolvimento sustentável regional. Experiências bem ores. Ele se relaciona direto com o mundo e negocia
sucedidas, como o Projeto RECA, e mesmo as “histórias seus interesses acima das instituições tradicionais. Mas
de vida” de comunidades que redescobrem o potencial acontece que as tensões coletivas nacionais perma-
do conhecimento tradicional e de sua tecnologia de necem, e nessa discussão está o eixo em torno do
convivência com a natureza, podem fornecer a qual giram aspectos problemáticos da globalização, tais

46 Síntese
como as iniqüidades sociais que derivam da má distribuição área onde essa relação apareça de maneira mais didática,
de poder e de riquezas no mundo e que se fundam ainda no em todos os seus desdobramentos. No caso específico
poder hegemônico de nações sobre outras. dos recursos da biodiversidade, o que impede que seus
Por outro lado, a inserção do Brasil, como país benefícios sejam horizontalizados, que haja critérios para
detentor de megadiversidade, no processo global, não torná-los disponíveis a toda a humanidade, sobretudo
tem que necessariamente ser subordinada. Não está de- na forma de medicamentos e alimentos?
terminado, a priori, que dentro dessa realidade globa- Globalização, exatamente por todas as carac-
lizada determinados segmentos tenham que ser sempre
terísticas aqui citadas, também pode ser propícia à não
os detentores dos maiores benefícios das riquezas
subordinação, ainda que, na prática, tenha radicalizado
disponíveis no mundo ou que a concentração desses
a exclusão de grandes massas em todo o mundo e
benefícios deva se dar, por definição, numa determinada
área do planeta. potencializado alinhamentos subordinados. Está clara-
Trata-se, ao contrário, de uma relação com- mente pouco explorado o caminho da descoberta de
plexa, que requer negociação, criatividade, ousadia e o mecanismos e institucionalidades que favoreçam a eqüi-
uso dos recursos naturais e ambientais. Talvez seja a dade, a qualidade de vida e a democracia.

Marina Silva é licenciada em História pela Universidade Federal do Acre, 1985;


Senadora da República, representante do Estado do Acre, pelo Partido dos Trabalhadores – PT. Mandato de 1995 a 2002.

Síntese 47
SENADO FEDERAL
SECRETARIA ESPECIAL DE EDITORAÇÃO E PUBLICAÇÕES
Praça dos Três Poderes s/no – CEP 70168-970
Brasília – DF

48 Síntese