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Os adultos que não amam as crianças:

considerações ferenczianas

Luiza Moura
Seminários Winnicott-Poa
luiza.moura@terra.com.br
051.981825677

Resumo: Este artigo apresenta algumas aproximações entre o pensamento de Ferenczi e Winnicott,
partindo de suas conhecidas preocupações acerca da “falha ambiental” como “traumatogênese” que pode
conduzir a reações de submissão da criança. Este olhar atento sobre a submissão conduziu ambos aos seus
importantes conceitos acerca da “identificação com o agressor” e “falso self”. Estes autores, ao
recolocarem no centro de suas teorias o reconhecimento do trauma real, inevitavelmente, apresentam-nos
uma visão de desenvolvimento onde a capacidade de se adaptar do adulto, a possibilidade de se identificar
empaticamente com o seu bebê, ou seja, a capacidade de amar se torna fundamental para a sobrevivência
e integridade desta criança.

As aproximações entre as contribuições de Ferenczi e Winnicott passam,


reconhecidamente, pela retomada do valor do fator traumatogênico na etiologia dos
quadros graves. Mas não podemos nos distanciar da questão de que autores que
propõem, como eles propuseram, a retomada e o desenvolvimento do conceito de
trauma real, são autores que sustentam suas contribuições na valorização da capacidade
de acolhimento do ambiente que irá receber o pequeno bebê.
Então, a aproximação central e primeira entre Ferenczi e Winnicott se dá nas
suas teorias do desenvolvimento. Em 1913, Ferenczi escreve o “desenvolvimento do
sentido de realidade e seus estágios”. Texto em que ele nos conta a caminhada de um
bebê em direção ao contato com a realidade; percorrendo um continuum em que a
pequena criança se distancia do que Ferenczi chama de onipotência natural
(intrauterina) e passa pela onipotência alucinatória (ilusória). Esta fase de onipotência
alucinatória só existirá se for sustentada por adultos que “intuitivamente” percebam a
necessidade e tenham a capacidade de organizar o mundo de forma que este se
aproxime, ao máximo, do ambiente intrauterino.
Sendo o bebê devidamente acolhido, este continuum terá em um extremo a
onipotência natural e, no outro, o desenvolvimento das capacidades simbólicas.
Ao expor estas ideias originais sobre o desenvolvimento, Ferenczi não faz
referência ao desenvolvimento psicossexual, “princípio do prazer” ou “teoria da libido”.
Quando, a partir de 1927, Ferenczi inicia seus escritos que hoje são conhecidos
como terceira fase de sua obra, ele integra a sua teoria do desenvolvimento, de 1913, a
uma retomada do conceito de trauma real, o qual fora negligenciado pela psicanálise.
Winnicott e Ferenczi, autores que valorizam os cuidados efetivos dos adultos
dirigidos à criança, compartilham o pensamento de que a incapacidade dos adultos de se
adaptar, e se tornar um cuidador, colocará a criança frente a exigências para as quais ela
está despreparada.
Este fracasso do cuidado vai capturar a criança, retirando-a precocemente de seu
estado de apercepção e a lançando no mundo das percepções. Se o adulto é incapaz de
se adaptar às necessidades do bebê, o bebê, então, se adaptará. Em nome de sua própria
sobrevivência, a criança vai lutar ativamente pela sobrevivência do adulto.
O adulto incapaz é tirânico, independentemente se ele for deprimido, esquizoide,
ausente, instável, extremamente frágil... o certo é que, diante de um pequeno bebê, sua
incapacidade o faz ruidoso e grandioso. O adulto que fracassa é ameaçadoramente pleno
de poderes e a criança estará inevitavelmente submetida a seus sinais, as suas
necessidades e seus desejos.
O tema da submissão é fundamental nas reflexões de Winnicott e Ferenczi.
Acompanhou os autores por muito tempo até desaguar nas suas importantes
contribuições: “Distorção de ego em termos de falso e verdadeiro self” , de 1960,
(WINNICOTT,1990) e a “identificação com o agressor” apresentada em 1932, no texto
“Confusão de língua entre os adultos e a criança” (FERENCZI, 1992).
Muitos artigos de Winnicott vão apontando na direção do que ele viria a
denominar “falso self”, mas um é especialmente interessante neste sentido, “A
reparação em função da defesa materna organizada contra a depressão”, de 1948
(WINNICOTT, 1993). Neste texto, ele traça uma diferença entre culpa pessoal, a qual
pode levar a uma reparação genuína, e culpa (ou doença) da mãe internalizada pela
criança. Sendo esta uma “herança” mórbida que colocará em marcha a necessidade de
reparação compulsiva da culpa (ou doença) da mãe.
Neste mesmo artigo, Winnicott nos traz uma passagem muito emocionante e
ilustrativa. Conta o autor que, no início de sua carreira como pediatra, um menininho
chegou sozinho ao hospital e lhe disse: “Por favor, Doutor, minha mãe se queixa de uma
dor no meu estômago” (WINNICOTT, 1993, p. 198).
Em 1913, Ferenczi escreveu o “Adestramento de um cavalo selvagem”
(FERENCZI, v. II, 1992). Ele próprio assistiu a demonstração deste adestramento em
uma praça em Budapeste. O ferrador, diante de um incrível animal, oscilava entre
sussurros de palavras carinhosas e atitudes bruscas como puxar a brida e gritar com uma
voz aterrorizadora.
Ferenczi, neste artigo, usa as palavras de um jornalista que, com extrema
sensibilidade, assim noticiou o fato:
“Ao fim de um quarto de hora, Czicza termia com todos os seus membros
transpirava e seus olhos, até então cintilantes, embaçavam-se pouco a pouco, mas de
um modo bastante visível” (IDEM, p. 13).
No ano de 1915, o analista húngaro apresentou um texto intitulado “Anomalias
psicogênicas da fonação”, relatando dois casos de rapazes, um de 24 anos, outro de 17
anos. Ambos chegaram à primeira consulta acompanhados pelas mães. Apresentavam
queixas de impotência e fobias. Os dois tinham oscilações na voz, de barítono a
soprano, “tinham duas vozes”. Num dos casos, a mãe, extremamente perturbada com a
voz mais grave de seu filho, esbravejou: “Não suporto esta voz, você tem que perder o
hábito de falar neste tom!”. No outro caso, Ferenczi percebeu que sempre que o rapaz
queria agradar o analista, “punha-se a falar com sua voz feminina”. Finalizando o artigo,
o autor refere, que os rapazes ainda conservavam sua feminilidade e o registro vocal
correspondente, por “amor à mãe” (IDEM, p. 175, 176, 177, 178).
Ferenczi traz, neste texto, a questão do “diálogo dos inconscientes”, o que é
preciso complementar com a tendência à submissão e adaptação daqueles que ocupam o
lugar de maior dependência. Os jovens, na busca do “amor à mãe” (ou lutando pela
sobrevivência da mãe), ajustaram-se, inclusive, à reversão da dependência, atendendo
precisamente as necessidades e desejos das mães.
Em “A nudez como meio de intimidação”, de 1919, o autor inicia contando um
sonho de uma paciente: “sonhou um dia que estava com seu filho caçula e hesitava em
despir-se e lavar-se nua diante do garoto. ‘Se fizer isto - dizia-se ela – esta lembrança,
gravada de modo indelével na memória da criança, poderá prejudicá-la, até destruí-
la’. Logo após, alguma hesitação, decidiu-se, mesmo assim, despiu-se diante da
criança e lavou seu corpo nu com uma esponja” (IDEM, p. 369).
Segue, no mesmo texto, falando do relato de outro paciente:

[...] contou-me esta lembrança infantil que causara uma impressão


muito viva: sua mãe dissera-lhe que o irmão dela, quando era
pequeno, tinha sido um ‘filhinho da mamãe’; vivia sempre agarrado às
saias da mãe, só queria dormir com ela, etc. A mãe só conseguira fazê-
lo perder esse hábito pondo-se nua diante dele para intimidá-lo e
desviá-lo de sua pessoa. [...] Ainda hoje, meu paciente não pode falar
do tratamento infligido ao tio sem exprimir a mais viva indignação; e
suspeito que a mãe dele ter-lhe-á contado esta história com um
objetivo pedagógico (IDEM, p. 370, 371)

No segundo período de sua obra, em 1923, Ferenczi escreve “O sonho do bebê


sábio”. Apenas um parágrafo, o suficiente para criar um desassossego. Basicamente,
neste texto, ele se preocupa em fazer referência à frequência que pacientes trazem
sonhos em que pequenos bebês falam e demonstram conhecimentos de adultos.
No artigo “Confusão de língua entre os adultos e a criança – a linguagem da
ternura e da paixão”, de 1932, o autor traz o conceito de “autoplastia”, adaptação
catastrófica sofrida no interior da vítima, quando qualquer modificação na realidade
exterior se torna impossível. Apresenta também a ilustrativa imagem do “fruto bicado
que amadurece mais cedo” e, por fim, sua grande contribuição, “a identificação com o
agressor”.
Algumas características do processo colocado em marcha no íntimo da vítima
frente ao agressor são: paralisação frente à autoridade e poder daquele que lhe toma de
assalto; ataque à própria percepção, na tentativa de transformar realidade em vivência
onírica; incorporação da culpa do agressor e cisão interna, visando preservar uma
parcela inocente do ‘eu’. As reações, em nome da sobrevivência, conduzem a uma certa
absolvição do abusador, no sentido de preservação de um mínimo de confiança e
esperança no mundo circundante.
Em algumas anotações de Ferenczi encontradas depois de sua morte (1933) ele
novamente se refere a este processo de cisão do ‘eu’ em nome da sobrevivência. Faz
referência a uma parcela do ‘eu’ que se desprende e passa a desempenhar a função de
cuidador.
Esse anjo vê desde fora a criança que sofre, ou que foi morta (portanto
ele se esgueirou para fora da pessoa durante o processo de
fragmentação), percorre o mundo inteiro em busca de ajuda, imagina
coisas para a criança que nada pode salvar... Mas no momento de um
novo traumatismo, o santo protetor deve confessar sua própria
impotência e seus embustes bem intencionados à criança martirizada,
e nada mais resta, nessa altura, senão o suicídio, amenos que, no
derradeiro momento, se produza algo de favorável na própria
realidade. Essa coisa favorável a que nos referimos em face do
impulso suicida, é o fato de que nesse novo combate traumático o
paciente não estará inteiramente só. Talvez não lhe possamos oferecer
tudo o que lhe caberia em sua infância, mas só o fato de que possamos
vir em sua ajuda já proporciona o impulso para uma nova vida.
(FERENCZI, 1992, v.IV, p. 117)
Para Ferenczi, o adoecimento frente à catástrofe ambiental é um conjunto de
reações da criança (ou do adulto vitimizado) tentando preservar uma parte de si, para
que esta se mantenha protegida e inocente, na esperança de que algo “de favorável se
produza na própria realidade”. Ou seja, os sintomas são movimentos de sobreadaptação
para que o bebê, não amado e desamparado, possa forjar um autocuidado, ainda que
frágil e temporário...
Esta nova compreensão do processo de adoecimento, proposto por Ferenczi,
inevitavelmente, altera a nossa atitude de acolhimento frente ao paciente. Este
“cuidador” humilhado chega até nós, entrega-nos a criança e também se entrega, ainda
que parcialmente, aos nossos cuidados. Será esta então a “transferência” que se
estabelece na análise de pacientes graves? Me parece que sim. Uma parcela
dispensadora de zelo, ao reconhecer seu fracasso nos transfere a responsabilidade de
cuidado.
... e, nas palavras de Winnicott: “se nós sobrevivermos, a criança terá
oportunidade de crescer e vir a ser algo parecido com a pessoa que deveria ter sido se
um infausto colapso ambiental não tivesse acarretado o desastre” (WINNICOTT,
2012).

Referências Bibliográficas:

Ferenczi, S. (1992) Obras Completas. Rio de Janeiro, Martins Fontes.


Winnicott, D. (1993) Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro, Francisco Alves.
___________(1990) O ambiente e os processos de maturação.Porto Alegre, Artmed.
___________(2012) Privação e Delinquência. Rio de Janeiro, Martins Fontes.