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CATECISMO

DE

PERSEVERANCA

.

X.

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.X .

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CATECISMO
DE

PBRSBVBRANCA ou
EXPOSIÇÃO HISTORICA, DOGlHTICA, MORU, LITURGICA, APOLOGETICA, PHILOSOPHICA ESOCIAL

DA RELIGIÃO,
DESDE A ORIGEM DO MUNDO ATÉ NOSSOS DIAS

~oti ~~t. J. Ça..uu-tc,


PKOTO~ATA.RIO APOSTOLICO, DOUTOR EH TRl'l0L8(.;IA.' Ylf.l.&RIO f.:RR.t.L DB ll~IRl!õ'

MOl"TAlIB&l"J E AQIJILA' CAV.t.LLGIRO D.\. ORDEM DE i!i· !ULVE8THE' lllF.MRRO


N&. .t.C.t.DEBl.t. D.t. Rl!LIGliO CATHOLICA D.E ROM&, ETC.

Jesus Ghristus heri, h.odié, ipst et


in saecula. Hebr. XIII. 8.
Jesus Ghristo era hontem, e ii
hoje : o mesmo tambem será por
todos os seculos.
Deus Gharitas est. :1. Joan. IV. 8.
Deus é a caridade.

TOMO X.
TRADUZIDO DA S.• EDIÇÃO
POR

ANTONIO MOREIRA BELLO .

PORTO
LIVRARIA DE VIUVA MORE.

1868.

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PORTO - TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA,


4 - Largo do Correio - 6.

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CATECISMO
DE

OUARTA PARTE.

TRIGESIMA·PRIMEIRA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

Tre11 myste1•io8. - Sabedoria da lei da puriOcação. - Humil·


dade e obediencia de HaI•ia.-Exemplo para aN mãe• cbris·
tâ!i1. - CeremoniaG após o parlo. -Apresentação. -Dumil·
dade e dedi«~ação do menino Jesmt. - sacrifício de Haria.
-Encontro do santo -vell10 Simeão.-suas predicções.-seu
cautico de morte.- Origem da Ce81ta da Porifi~ação.-Sabe·
doria da Egreja. - DisposiçõeH para a .resta.

Desde o Natal até á Purificação, detem-nos a Egreja em adoração


ante o Menino de Bethlem. Quer que nos compenetremos profundamente
das lições que elle nos dá : porque o seu presepio é um eloquente pal-
pito, do alto do qual nos instrue. Quarenta dias depois da natividade do
Salvador, nos convoca ella solemnemente; mas já não é no estabulo que
offerece o Deus Menino ás nossas adorações. O templo de Jerusalem vae
receber, pela primeira vez, uma victima digna do Deus que n'elle se
adora. Partamos para a cidade santa, que Maria nos precede, levando
seu Filho nos braços: o ancião que pisa com ella o pó do caminho, é
S. José, virtuoso descendente da real linhagem de David.
A 2 de fevereiro, tres mysterios se apresentam ás nossas medita-
ções : a purificação da santissima Virgem, a apresentação de Jesus no
templo, e o encontro dos santos velhos Anna e Simeão.

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1. PURIFICAÇÃO. - Filho d'om pae cr1mmoso, é o homem macn-


lado desde o instante da sua conceição: o parto d'um ente maculado faz
contrahir á mãe uma especie de macula. Dogma profundo e terrivel,
fonte d'humildade, pureza e santo temor para os paes, cuja recordação
quiz Deus que se perpetuasse de geração em geração. E eis que este
Deus tres vezes santo, dictando as suas Jeis a Moysés, lhe disse : o:Falla
«aos fi1hos d'Israel e diz-lhes: Se uma mulher der á Juz um filho, ficará
«impura por espaço de quarenta dias; não tocará em nada que seja san-
«to, nem entrará no lagar santo em quanto se não completem os dias
cda sua purificação. Se cparir uma filha, estará impura por espaço de
coitenta dias. Quando os dias da sua purificação estiverem completos
«para um rapaz ou para uma rapariga, levará á entrada do tabernaculo
aum cordeiro d'um anno e o filho d'uma pomba ou rola (.f ). »
O Sacerdote offerecia o cordeiro em bo1ocausto para reconhecer o
supremo domínio de Deus e dar-lhe graças pelo feliz parto da mãe. A
pomba on ro]a era offerecida pelo peccado. Depois d'este duplo sacrifi-
cio, estava purificada a mulher da sua impureza legal e restabelecida nos
seus primitivos direitos. O Senhor, continuando a fallar a Moysés, ac-
crescentou: aSe a mulher não tiver meios para comprar um cordeiro,
e apresentará duas rolas ou duas pombinhas, uma para o holocausto, outra
«pelo peccado, e o Sacerdote orará por ella, e ficará assim purificada (2). »
Maria, a quem o seu divino parto ainda tornára mais pura e virgem,
estava por certo exempla da ceremonia da purificação. Todavia subjei-
tou-se a ella, e, atendo-se á letra da lei, se apresentou no templo qua-
renta dias depois do nascimento do Salvador. Discípula de seu Filho,
que occultava a sua divindade sob as enfermidades da infancia, quiz Ma-
ria occultar a sua augusta qualidade de Mãe de 1Deus, havendo-se no ex-
terior como as outras mulheres. O espirito de Jesus e Maria existe em
nós (3)? Apressa-se o orgulhoso a publicar os seus merecimentos, e mui-
tas vezes se attribue alguns de que carece; somos assim nós? O humil-
de, contente com os olhares de Deus, faz da obscuridade as suas deli-
cias ; somos assim nós?

· (1) Levit., XII:


(2) Levit ., XII.
(3) Sicut Cbristus, licet non esset legi obnoxius, voluit tamen ci rcumcisio-
nem, et alia legis onera subire ad demonstrandum bumilitatis et obedientim exem·
plum, et ut approbaret legem, et ut calumnire occasionem J udreis tollerct ; propter
easdem rationes oluit et matrem suam im plere legis observantias, quibus tamen
non erat obnoxia. D. Th., p. III, q . .XXXVII.

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Maria, sendo pobre e mãe d'um filho que, segundo as proQbecias,
devia nascer e viver pobre, se apresentou no templo com duas rolas,
como exigia a lei. A filha de David. a mãe do Messias, não pôde apre-
sentar senão a offrenda dos pobres ! Oh 1 quando vejo desprezar a po-
breza, irrito-me e indigno-me. Na miseria ha muitas \'ezes tanta nobreza 1
quem vos diz que, sob um vestido mui humilde, não está o filho d'um
rei? que sob um veu usado não está uma rainha? Talvez que algum rico
orgulhoso de Jerasalem olhasse com desdem o casal que não levava ao
templo senão as duas pombas do pobre; talvez que sob o atrio, junto do
altar dos sacrificios, .dispntasse a preferencia a José e Maria o homem de
manlo de purpura e de sandalias doiradas !.. . E comtudo, estnpido fa-
vorito da céga fortuna, aquelle homem que leva as dnas pombas, é des-
cendente dos teus antigos reisf aquella mulher tarn timida, tam formosa
e tam humilde, é uma filha de David 1 aquelle menin& .. é o Senhor do
mundo f Se elle quizesse, com a mãosinha, deitaria por terra as colom-
nas dos teus palacios, despedaçaria os cedros das tuas collinas, e faria
desapparecer as messes dos teus campos (t). Aqoella offrenda, tam mo-
desta como te parece, é mil vezes mais agradavel que as tuas. O co-
ração que a apresenta, é o coração mais perfeito, e o coração é o que ·
Deus considera como a alma dos sacrificios. Não o esqueçamos nós
mesmos, e uma charidade viva e sincera dê valor ás nossas mais peque-
nas obras.
A purificação de Maria, tal é pois o primeiro mysterio que apre-
. senta ás nossas meditações a festa de 2 de fevereiro.
Posto que os ritos judaicos estejam abrogados desde a promulgação
do Evangelho, prevaleceu o costume entre as mães christãs, a primeira
vez que s·ahem, de imitarem o exemplo da SS. Virgem, que voluntaria-
mente se submettêra a uma lei que não lhe dizia respeito. Vão á egreja
receber a benção do Sacerdote e manifestar a Deus o seu reconhecimen-
to. Porém as mães christãs não vão á egreja com a intenção que se pro-
punham as mulheres judias ao irem ao templo; vão sim para pagarem ao
Senhor um justo tributo de louvores e acções de graças. Eis como se ex-
prime o Papa lnnocencio III a este respeito:
cSe as mulheres desejam entrar na egreja immediatamente depois
«do parto, nã~ peccam entrando, e não se deve impedir-lh'o; mas se,
ccom respeito, preferem afastar-se d'ella por algum tempo, não crêmos

(1) Qua_dro poet. das festas, p. 92.

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«que ~deva censurar a sua devoção (t).» Não só a Egreja não censura
a sua devoção, mas até a anima. Certas diocéses fixaram um numero de
dias depois dos quaes se dá a benção após o parto ; é dever confor-
mar-se. Nos togares onde nem o costumé nem estatnto algum decidiram
sobre este artigo, a mãe christã cumpre este dever logo que póde sahir
de casa, sem correr risco algum. Com effeilo, é mui justo que a sua
primeira visita seja á egreja.
Alli, deve primeiro dar graças ao Senhor pelo seu feliz successo, e
rogar-lhe que lance a sua benção tanto sobre ella como sobre seu filho.
Deve depois pedir-lhe os auxilias de que carece para crear na virtude o
filho que deu á luz, e tomar uma firme resolução de preservar-lhe a alma
do peccado. ·Ah 1 de que serviria ter sido mãe, se o fructo das suas en-
tranhas devesse cahir em poder do demonio, e ser depois condemnado
aos supplicios do inferno? Consagre pois seu filho ao Senhor t o seu sa-
crificio não póde deixar de ser acceite se entrar nas disposições em que
estava a SS. Virgem no dia da sua purificação.
Nada mais proprio para inspirar-lh'as que as orações da Egreja na
ceremonia após o parto. A mãe christã que vae receber a benção depois
do parto, delem-se á porta do templo; alli se conserva de joelhos, com
uma véla accêsa na mão, para manifestar a sua indignidade de apparecer
ante Deus, e o seu ardente desejo de participar das suas misericordias.
O Sacerdote, revestido de sobrepelliz e estola branca, approxima-se d'ella
e recita o Psalmo XXIII: A terra pertence ao Senhor, etc. Este bello
cantico não póde ser mais apropriado á circumstancia. Rediz á mãe
christã as virtudes que lhe grangearão a ella e a seu filho a felicidade
de habitar a santa montanha de Sião. Recorda-lhe o dominio absoluto do
Senhor sobre tudo quanto ex!sle, e por conseguinte o reconhecimento e
a submissão sem limites que lhe são devidas. Depois de ter dado á mu-
lher todas estas grandes lições, lhe apresenta o Sacerdote a extremidade
da estola, e lhe diz: «Entra no templo de Deus, e adora o Filho da bem-
«aventurada Virgem Maria, que te deu a fecundidade.»
O Sacerdote apresenta á mnlhyr a extremidade da estola: qual é o
sentido d'esta ceremonia ? A estola é o emblema do poder sacerdotal ;
o Sacerdote, ao apresentai-a á mulher, lhe diz com linguagem muda :
'. Em nome de Deus cujo lagar occupo, sê purificada das maculas que
tenhas podido contrahir; o Senhor te permitte que entres no seu tem-

(1) Cap. unic. de Pm·if. post partum.

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pio, e acceita a homenagem de reconhecimento que vens apreseaaar-lhe.
Chegando a mãe christ.ã ao pé do altar, diz-lhe o Sacerdote que o
Seuhor é quem cria as familias; que deve pôr n'elle toda a sua confiança
para desempenhar a difficil tarefa da educação de seu filho, e chama so-
bre a cabeça da nova Eva todas as bençãos do alto. Conheceis circum·
stancia em que a mulher careça mais d'ellas? Não está encarregada, ella,
fragil creatura, de formar um cidadão util para a sociedade temporal,
um filho para a Egreja, um irmão para Jesus Christo, e um santo para
o Ceo ? Não é no regaço da mãe que se decidem o futuro do homem,
a paz das familias e a felicidade do mundo?
Compenetrados de todos estes graves pensamentos, travam o Sa·
cerdote e a mãe christã, ao pé do altar, na presença do Deus dos anjos,
um d'esses dialogas inimitaveis que não se encontram senão no nosso
culto catholico. Diz o Sacerdote á mulher : Não desanimes: o nosso soc·
corro está no nome do Senhor. Pela bôcca do acolyto, responde a mãe:
Que fez o ceo e a terra.
O Sacerdote. Senhor, salvae a vossa serva.
A mãe. Vós sabeis, ó meu Deus f que ella espera em vós.
O Sacerdote. Enviae-lhe o vosso auxilio do alto do vosso santuario.
A mãe. Do alto da santa Sião, protegei-a.
O Sacerdote. O inimigo nada possa contra ella.
A mãe. E o filho da iniquidade não consiga prejudicai-a.
O Sacerdote. Senhor, escutae a minha oração.
A mãe. E o meu grito eleve-se a vós.
O Sacerdote. Oremos. Deus eterno e todo-poderoso, que, pelo fe-
liz parto da Virgem Maria, con\'ertestes em alegria as crueis dôres das
mães, olhae com bondade a vossa serva, e dae, pela intercessão d'essa
augusta Rainha, áquella que hoje vem ao vosso templo dar-vos solemnes
acções de graças, o chegar com seu filho á beatitude eterna. Por Nosso
Senhor Jesus Christo, etc.
A mãe. Assim seja.
O Sacerdote dirige-lhe algumas palavras de edificação para conso-
lidar os sentimentos de reconhecimento e piedade que a levam ao pé dos
altares, e excitai-a a consagrar ao Senhor a sua vida e a de seu filho;
ou palavras de consolação, se, como Rachel, ella chora seu filho já cei-
fado pela morte: então dá-lhe animo, .lembrando-lhe a felicidade que tem
de ser mãe d'um anjo.
Ha acaso mãe christã, mãe que comprehenda os seus deveres e a

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sua digaidade, que possa dispensar-se d'esta bella ceremonia? Ah ! dis-


pensem-se aquellas que não teem nem acções de graças que dar ao Se-
nhor pela ctmservação dos seus dias e dos de seu filho, nem conselhos,
nem consolações que sollicitar para a educação do ente immortal que o
Ceo lhes confiou r
Termina o Sacerdote lançando sobre ella agua benta, para a tornar
mais pura, mais fiel aos seus deveres e mais digna dos beneficios do Se-
nhor.
II. APRESENTAÇÃ0.-0 segundo mysterio que a Egreja honra a 2 de
fevereiro, é a apresentação do menino Jesus no templo. Lembrae-vos de
que o anjo exterminador, que matara todos os primogenitos dos egypcios,
poupára os dos hebreus. Em memoria d' este acontecimento, e para mos-
trar o seu supremo dominio sobre todas as creaturas, dictára Deus a Moy-
sés a lei seguinte: «Consagrar-me-ás todos os primogenitos dos homens
ce dos animaes, pois me pertencem. Quando um dia teu filho te inter-
urogar e disser: Que significa isto ? lhe responderás: O Senhor nos ti-
«rou do Egypto, da casa da escravidão, pela força do seu braço; pois es-
«tando P~araó endurecido e não querendo deixar-nos partir, o Senhor
cmatou no Egypto todo~ os primogenitos, desde os primogenitos dos
chomens até aos primogenitos dos brutos. E' por isso que eu immolo ao
«Senhor todos os machos primogenitos dos brutos, e resgato todos os
«primogenitos de meus filhos (l).»
Resgatavam os filbos primogenitos mediante uma quantia modica,
isto é, cinco siclos d'ouro. Maria levou pois seu Filho ao templo, a fim
de offerecêl-o ao Senhor pela mão do Sacerdote. Deu depois os cinco
siclos para o resgatar, e o recebeu nos braços como um deposito confiado
á sua sollicitude, até ao momento em que o Padre eterno o pedisse, para
consummar a obra da Redempção do genero humano.
E' fóra de duvida que o menino Jesus não estava comprebendido
na lei; pois, diz S. Hilario, se o filbo d'um rei e o herdeiro da sua co-
rôa está exemplo d'escravidão, com quanto maior razão estava Jesus Chris-
to, que era o Redemptor dos nossos corpos e das nossas almas, dispen-
sado de resgatar-se a si proprio (2)? Mas este divino Salvador queria
dar-nos um exemplo d'humildade, obediencia e piedade. Queria renovar
no Templo, d'um modo publico, a oblação que já tinha feito a seu Pae,

(1) Exod., XIII.


(2) ln Math., XVII, 11, p. 696.

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desde o momento da sua incarnação. N'esse dia~ acceitou Jesus solemne-
mente a cruz, os supplicios, a corôa d'espinhos, a canna d'ignominia, o
manto d'irrisão, o fel, o vinagre e a morte. Pela sua parte, o Padre
eterno recebeu um sacrificio capaz de desarmar a sua ira irritada pelos
nossos crimes e de arrancar as nossas almas áquelle fogo devorador que
nunca se apagará (t ).
Queremos entrar no espirito d'este mysterio ? e poderiamas não o
querer? D'ao pé do altar, como do fundo do seu presepio e do alto da
sua cruz, não nos diz o Salvador: Eu, dei-vos o exemplo para que vós
façaes como eu fiz (2)? 0.ffereçamo'-nos pois a Deus n'este dia com a
grande victima do mundo ; offereçamos os nossos dois obolos, o nosso
corpo e a nossa alma. Pobríssimo como é, o nosso sacrificio, unido ao
do divino Mediador. não será rejeitado. Unicamente tenhamos cuidado
em nos não tornarmos reus de rapina no holocausto, isto é, em não re-
servarmos parte das nossas affeições para o peccado e para as creaturas.
Vejamos agora; sejamos francos : temo'-nos alguma vez offerecido
a Deus sem reserva, inteiramente? Meu coração, a quem pertences tu
hoje, a esta hora, n'este momento em que leio estas linhas ? Pobre co-
ração! talvez hajas servido alternativamente de victima a todos os deuses
estrangeiros. Para ti talvez até agora tudo tenha sido deus, excepto o
mesmo Deus. Está decidido, pertencerás a Deus só, d'ora em diante e
para ... sempre, não é assim? Nada temas, serás bem recebido: o teu
Deus não olha para o que foste, mas sim para o que és e para o que
queres ser. •
O divino Infante, nosso modelo em tudo, quiz ser apresentado no
t templo pela mão de sua santa Mãe. Roguemos tambem a Maria que se
encarregue do cuidado de apresentar-nos a Deus; ella é o canal das gra-
ças. Que coisa mais propria para excitar em nós inteira confiança na sua
poderosa mediação? E, pergunto-vos, que poderia Deus recusar a Maria
n'este dia em que elJa lhe faz o sacrificio mais heroico de que é possível
conceber-se idêa.
Que vão dizer a uma mãe : Eis uma cidade que vae perecer ; para
salvai-a é necessario uma victima. Pede-se-vos vosso filho muito amado,
unico objecto da vossa ternura; será insuJtado, ferido, macerado, condem-
nado e morto n'uma cruz : consentis? Chamo por testimunhas todas as

(1) Butler, 2 de fevereiro.


(2) I Joan., XIII, 15.

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CATECISMO

mães; não ha nem uma que não proferisse morrer em logar de seu filho,
nem uma que não rejeitasse com toda a energia da sua ternura similhante
proposição. E comtudo Maria, a doce Maria, a mais terna mãe do mais
amado dos filhos, acceita o pedido do Padre eterno ; çonsente : eis abi o
sacrificio qne ella faz hoje. E crêdcs que o Deus justo e bom que recom-
pensou tão heroicamente o sacrificio figurativo d' Abrahão será duro para
Maria; que poderá cerrar-lhe os ouvidos e o coração quando ella se apre-
sentar para pedir-lhe alguma coisa em nosso favor? Impiedade é pensai-o,
blasphemia dizei-o.
III. ENCONTRO DOS SANTOS VELHOS. - o terceiro mysterio cuja me-
moria nos recorda o dia 2 de fevereiro, é o encontro que houve, no tem-
. pio, do velho Simeão e da prophetisa Arma com Jesus e seus paes. Maria
havia feito o seu sacrificio. Havia dito a Deus: Offereço-vos vosso Filho,
que é tambem meu filho. Ia descer os degraus do templo e retomar o
caminho de Nazaretb, quando veio ao seu encontro um velho. Simeão o
justo, que esperava, que chamava com todos os seus votos o Redemptor
d'Israel; Simeão, a quem Deus tinha promettido não o tirar do mundo
antes de tP.r-lhe mostrado o Desejado das nações, tomou nos braços o
divino Infante, abençoou-o, e, entregando-o a sua divina Mãe, entoou este
bailo cantico: «Agora, Senhor, podeis despedir o vosso servo. Morrerei
«em paz segundo a vossa palavra, porque os meus olhos viram o Salva-
«dor; sim, este Salvador que vós preparastes ante a face de todas as na-
«Ções, para ser a sua luz e a gloria d'Israel vosso povo (t ). »
Dizei-nos, Maria, quaes foram os sentimentos do vosso maternal co-
ração ao ouvirdes as bençãos e as magnificas prophecias do santo velho?
Terna mãe, as vossas alegrias serão de breve duração. Escutae mais, que
Simeão ainda não terminou : «Este menino vei0 para ser a salvação e a
o:ruina de muitos em Israel; será como um signal que excitará muitas
acontradicções; e a vossa alma, ó Maria t será traspassada por uma es-
o:pada de dôr, para que os pensamentos que restam ainda encerrados na
«alma de muitos sejam revelados (2) . E que pensamentos? Sabei-o-eis
>)

um dia, terna Mãe, no jardim das Oliveiras, em Jerusalem, na via dolo-


rosa, e no Calvaria.
Maria, cheia de resignação, recebêra nos braços seu divino Flho, e
ai retirar-se ; mas eis que uma santa mulher veio proclamar por sua vez

(1) Lucas, II, 29.


(2) Ibib.

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as grandezas de Jesus. Havia então em Jerusalem uma prophetisa cha-
mada Anna, filha de Phanuel, e que era adiantada em edade e viuva ha-
via muito, não tendo vivido senão sete annos com seu marido. Esta ver-
dadeira israelita passava a vida no Templo, orando e jejuando, e fazendo
boas obras: o espírito de Deus existia n'ella. Quando ouviu o cantico de
Simeão, tambem começou a louvar o Senhor e a fallar de Jesus a todos
aquelles que esperavam a salvação e redempçãod 'Israel.
Felizes velhos f ambicionamos a vossa sorte : encontrastes o Salvador
do mundo; vistel-o, e proclamastes os seus louvores. Queremos gozar a
mesma felicidade~ Vamos ao templo, guiados pelo ~spirito de Deus; lá
encontraremos Jesus e Maria. Ser-nos-á dado gozar a sua presença e con-
versação, e depois fallaremos d'elles a todas as almas fieis que esperam
gemendo a salvação d'lsrael, a consolação das suas tribulações e a gloria
da Religião.
IV. OmGEM DA FESTA. -A festa da Purificação chama-se vulgar-
mente Candelaria, por causa das tochas que n'ella se accendem. O es-
tabelecimento d'esta festa e da ceremonia das tochas accêsas é uma nova
prova da sabedoria da Egreja. No mez de fevereiro, celebrava Roma pa-
gan as festas chamadas Lupercales, em honra de Pan, deus dos pastores,
cujo culto fôra trazido á Italia por Evandro. Este príncipe havia-lhe con-
sagrado a celebre caverna chamada Lupercal, situada na fralda do monte
Palatino, na qual Romulo e Remo, segundo as fabulas classicas, foram
amamentados pela loba, e onde se acha hoje a egreja de Santa Maria do
Livramento.
Pela manhã cêdo, os sacerdotes de Pan, chamados Luperci, iam ao
templo do deus, onde immolavam um cão e cabras brancas ; depois, des-
pojando-se das vestes e armando~se de correias de pelle de cabra, co-
meçavam a correr a cidade como loucos e davam em todos aquelles que
encontravam no caminho, principalmente nas mulheres, que procuravam
anciosamente esta felicidade. Esta ceremonia tinha por objecto, diziam, a
purificação da cidade. D'ahi' mesmo veio, ao mez de fevereiro, o nome
de februarius; pois februa significava, entre os romanos, sacrificios de
purificação. Taes eram as festas d'aquella Roma, tão orgulhosa da sua
civilisação.
Existiam ainda vestígios mui patentes d'ella no fim do quinto seculo·
Até foi só no começo do seculo seguinte, em 5t 2, que o infame sacerdo-
cio do deus Pan foi completamente abolido pelo imperador Anastacio. Já
em 496J havia feito o Papa Gelasio o que d'elle dependia para destruir

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as mui criminosas ceremonias das Lupercaes (t). Com este objecto, es..
tabeleceu a festa da Purificação da SS. Virgem, oppondo as~im uma pu·
rificação real e expiações verdadeiramente santas ás expiações impuras
dos pagãos (2). De Roma passou alguns annos depois a Constantinopla,
onde foi celebrada com pompa e fervor extraordinarios para se alcançar a
cessação da espantosa peste que arrebatava n'aquella cidade até cinco mil
pessoas por dia (3). Todavia varios monumentos estabelecem que a festa
da Purificação era já conhecida em certo numero d'egrejas particulares, de
fórma que a sua primitiva instituição se perde na escuridão dos tempos (4).
Quanto á proci são d'este dia, que se faz com tochas accesas, cu~­
pre collocar-lhe a origem para lá do sexto seculo. Foi .estabelecida para
oppor uma ceremonia edificante e verdadeiramente util a uma ceremonia
pagã cheia de superstições e desordens: fallo da que os romanos desi-
gnavam com o nome de festa~ amburbaes (n). Estas ridiculas festas, que
se faziam de cinco em cinco annos, consistiam em percorrer as ruas e
praças de Roma com archotes accesos. Os romanos, tendo submettido ao
seu imperio todas as nações da terra, lhes haviam imposto um tributo
que se pagava de cinco em cinco annos, depois do recenseamento quin-
quennal. Chegado o dinheiro ao cofres da republica, consagrava-se o
mez de fevereiro a percorrer toda a cidade com archotes em honra dos
deuses infernaes, aos quaes se julgavam devedores da conquista do mundo.
Os Summos Pontifices destruiram esta festa com outra festa. A 2 de
fevereiro o povo e o clero formavam uma magnifica procissão em que bri· .
lhavam milhares de tochas, em que milhares de vozes celebravam pelas
ruas da cidade eterna os louvores do verdadeiro Vencedor do mundo e
de sua augusta Mãe; d'esse Deus do Calvario, que dera a Roma, em lo·
gar do imperio da força, o imperio mais glorioso, mais extenso e mais
poderoso da fé ; e a população inteira, partindo da egreja de S. Adrião,
se dirigia a S. Maria Maior, onde se fazia homenagem de tantas victorias ·
a Maria e Jesus seu filho (1).

(1) Baron., an. 4!"-16.


(2) Baron., Not. ad Martyrol., 2 febr.
(3) Procop., de Bell. persic., l. II.
(4) Vide Bencd. XIV, p. 442, n. 13.
(5) Ambire urbem. . l'
(1) Quam lustrandi consnetudinem congrue et religiose .ch;i~tiana. muta.v1t ~·e~-
gio; cum eodem mense, hoc est hodierna die, in bonore S. Gemtr1c1e et pe~peture. vug!-
nis Marire non solum clerus, sed omnis plebs Ecclesiarum l,oc~ cum cer1s et. d1vers1i;
bymnis lustrantibus circumeant. S. Ildefon., Vil Secul. Script., t. XII; Bibl. PP.,
P· 589.

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DE PERSEVERANÇA.

Todas as luzes que se accendem durante a procissão ou durante a


missa, e qae brilham á tarde nos nossos templos, são tambem uma remi-
niscencia d'estas palavras do cantico de Simeão: E.~te rnenino será a luz
d' Israel. Então cada fiel, tendo sua tocha accesa, recorda as disposições
de fé viva o ardente charidade com qae se deve ir ao encontro do Cor-
deiro divino. Tocante symbolo que póde subministrar a todos um bello
assampto de meditação. Temos alguma vez pensado seriamente n'isso?
Se nos fosse necessario responder immediatamente, não nos veriamas for-
çados a dizer: Não? Mas amanhã, não é verdade que teremos direito de
dizer: Sim?
V. DISPOSIÇÕES PARA A FESTA. - Se queremos celebrar utilmente a
festa d'este dia, compenetremo'-nos bem dos tres mysterios que ella nos
offerece. Admiremos, peçamos e sobretnto forcejemos por imitar a pro-
funda humildade da SS. Virgem. Esta virtude, base e guarda de todas
as outras, seja o objecto constante das nossas meditações e orações, hoje
principalmente que o mundo perece pelo orgulho e pelo espírito d'inde-
pendencia. Contemplemos o zêlo generoso e desvelado do menino Jesãs.
Roguemos·lhe- qne o accenda no nosso coração; gemamos por termos
tão pouco, hoje principalmente em que temos tantas occasiões e tantos
motivos de o exercermos. Finalmente, associemo'-nos com jubilo á felici-
dade d'Anna e de Simeão; aprendamos, pelo seu exemplo, a pôr Deus e·
a sua graça acima de tudo, e suppliquemos-lhe que nos desgoste de tudo
quanto não é Elle.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor f graças vos dou por haverdes in-
spirado â vossa Egreja o estabelecer a festa da Purificação; fazei com que
imitemos os bellos exemplos de humildade e obediencia que n'ella nos
dão JesuS' e Maria.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim ":lesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de purificar cuidadosarnente as minhas intenções indo para a egreja.

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f6 CATECISMO

TRIGESIMA·SEGUNDA LIÇÃO.

OChrislianismo tornado sensivel.

Hysterio• da santa infaneia.-Sabedorla da E;reja.-llyste·


rio• da wida publica de Nosso Senhor.-Obria;ação de imi-
tar a .leso• penUeu1e. - Respo!!!ita á• objecções do mundo.
- Neces•idade 5eral da lei da abstiuencia. - Preparação
para a Quaresma.-Septua5el!jima, sexagesima e Quinqua-
se11ima. - Oraçéie111 das quarenta horas. -Quarta f'etra de
Cinza. -Penitencia publica. - Qua1ro ordens de peniten-
tes.

1. MYSTERIOS DA SANTA INFANCIA. -Assim como a primavera se-


mêa a terra de .tlôres, assim tambem derrama a Egreja sobre a triste e
fria estação do imerno santas festas que são flôres na vida do povo cbris-
tão. Vêde que successão de alegres dias: Natal, os santos Innocentes, o
primeiro do anno, e os Reis (t). O mundo tambem tem suas festas du-
rante. a estação dos gêlos: os festins, as danças, os theatros, os ruido-
sos prazeres succedem-se para os seus adoradores. Fontes de dissipação
e muitíssimas vezes d'immoralidade, as festas do mundo são exclusivas,
o pobre não tem parte n'ellas. Não acontece assim com as festas chris-
tãs. Todos os filhos da grande familia são convidados para ellas. A fe-
licidade que cada qual n'ellas encontra regula-se não pela sciencia, pelas
dignidades ou pelas riquezas, mas sim pela pureza do coração: ainda sob
este ponto de vista, não ha nada mais social. São-n'o lambem porque
teem por objecto fazer o homem mais feliz fazendo-o melhor: não ha vir-
tude que não lhe preguem, não ha sentimento honroso que lhe não des-
pertem no coração, não ha lição saudavel que lhe não dêem.
Assim, durante o Advento, a Egreja tomou alternativamente a voz

(1) Quadro poetico elas festas, P• 78.

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DE PÉRSEVERANÇA. 17
1
d Isaias e de João Baptista, para despertar no coração do homem o sen-
timento da esperança. Rei decahido, exilado e proscripto, um só bem te
resta, diz ella ao genero humano; esse bem é a esperança. Espera pois,
suspira, suspira mais, eis que vem o teu Libertador. E essa quéda, e
essa redempção, e as qualidades do Redemptor, e os meios de aprovei-
tar a redempção, não é isso toda a historia da humanidade? Conheceis
mais alta lição de pbilosophia, ou melhor meio de orientar o homem no
caminho tenebroso da vida terrestre? -
No dia de Natal, vem a Egreja dizer-nos pela voz dos seus mil si-
nos, e pelos seus alegres canticos, e pelas suas pomposas ceremonias :
Depois d'uma longa espectativa, chegou o Messias, nasceu-nos um me-
nino, foi-nos dado um filbo; e os corações se expandem, e a ternura, e
a piedade compassiva, e dôces Jagrimas, e uma santa confiança, e todos
os sentimentos que se podem experimentar a respeito d'um menino que
nasce por amor de nós, no meio d'uma noite de inverno, n'uma hnmida
gruta, aberta ao gelido sopro de aquilão, movem o rico, consolam o po-
bre, estreitam os vínculos de fraternidade entre os homens, e fazem pra-
ticar innumeraveis virtudes.
Mas a Egreja não esqueceu as palavras do divino Mestre dizendo:
11Em verdade, em verdade vos declaro que se não vos tornardes simi-
«lhantes a creancinhas, nunca entrareis no reino do Ceo (t)., Para for-
mar nos Christãos o caracter, os sentimentos e as virtudes d'esta divina
infancia, apresenta ás nossas meditações, por espaço de quarenta dias, o
Filho de Deus nos pannos do seu berço, e n'isto se mostra a Egreja a
amiga mais ilJustrada da humanidade.
Dizei-me, d'onde veem as fraudes, as dissimulações, a hypocrisia, o
egoismo, o espirito d'incredulidade e d'insubordinação, todos esses vícios
hediondos que envenenam tantas existencias e que poem o mundo a dois
dêdos da sua ruína, senão de que o admiravel caracter da infancia evan-
gelica desappareceu quasi inteiramente"? Honra e reconhecimento á Re-
ligião que se esforça, apresentando-nos por modêlo um Menino-Deus,
por nos chamar a virtudes cuja prática seguraria no mesmo instante a
felicidade dos indivíduos, das familias e da sociedade.
II. MvsTERIOs DA. vmA PUBLICA DE Nosso SENHOR. - Depois de nos
ter feito meditar a primeira pagina da vida do menino Jesus, passa a
Egreja á segunda. O Salvador cresceu em edade, sciencia e sabedoria

(1) Math., XVIII.

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f8 CATECISMO
ante Deus e ante os homens. Nós tambem devemos crescer em todas
estas coisas, e seguir o nosso modêlo na soa nova carreira. Aqui se abre
ante nós a historia das dôres do Homem-Deus.
Expiador dos nossos crimes, apparece bumilbando-se nas margens
do Jordão e recebendo de João Baptista o baptismo da penitencia, jejuando
no deserto, exposto aos humilhantes ataques do espirito tentador, e em
fim sabindo do seu retiro para semear o triplicado beneficio dos seus
exemplos, da sua doutrina e dos seus milagres, entre os pobres da Ga-
lilêa, da Samaria e da Judêa. Criminosos, devemos como elle expiar,
isto é, homilbar-nos, jejuar, gemer e orar. E a Egreja quer, na sua ma-
ternal ternura, que cada um de nós copie esta segunda pagina da vida
do divino modêlo: a nossa salvação eterna, a nossa propria felicidade
temporal depende d'isso. Eil-a pois que publica a renovação do jejum
solemne: vae começar a Quaresma. Creatura, deve o homem homena-
gem ao Creador ; creatnra criminosa, deve o homem expiação.
III. NECESSIDADE DA ABSTI ENCIA.-Aqui o mundo, qu~ nada com-
prehende da condição do homem n'esta terra de passagem, espanta-se:
O vosso culto, nos diz, é um culto de abstinencia e privação, e não póde
deixar de aggravar os males da nossa natureza e formar os homens para
a escravidão.
O Catho1icismo é um culto d'abstinencia e privação 1 Sim, sem du-
vida, porque é um exercício contínuo de virtude, e -porque a virtude não
se adquire sem custo e sem combate. Abri os fastos da historia; per-
correi a viua de todos os grandes homens dos seculos precedentes, e
vêde se ba um só digno d' este nome qlle não tenha comprado um pouco
de fama com grandes sacrificios 1 vêde o que produzia tam varonis cora-
gens: não era a austeridade da vida, a abstinencia, as privações, o es-
pírito de sacrificio le\'ado até ao heroismo? Todas estas coisas não teem
por tanto nada em si que não seja muito conforme com uma natureza
s11biamente ordenada.
Mas quanto a Religião realça a prática e aformosêa o dever d'essas
coisas 1 Longe de, para o Christã-0, ser, como crêdes, tam penoso mul-
tiplicar os seus sacrificios a fim de praticar a fé, a idêa tranquillisadora
de obedecer a seu Pae celeste cujo terno olhar está fito n'elle, e exerci-
tar-se na sua presença no habito de vencer-se a si proprio, lbe torna
suave e facil o preceito das abstinencias. Desde então não procura n'elJe
mais que um meio de provar a Deus o seu amor e o seu filial temor.
Este sentimento cheio de delicadeza, mas desconhecido aos filhos do se-

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DE PERSEVERANÇA.

culo, nos faz offerecer com alegria ao Auctor da natureza uma fraca parte
dos dons que recebemos diariamente da sua suprema bondade. Só os
corações amantes e sensíveis é que podem comprehender as delicias uni-
das a tal obediencia.
O mundo diz tambem : Talvez que Deus não mande essas priva-
ções, e se nos deu bens, é para que usemos d'elles com moderação to-
dos os dias da nossa vida.
E por que razão, peço-vos m'o digaes, havia de ser Deus estranho
a este culto de dedicação? Se nos deu bens, é para usarmos d'elles á
maneira dos brutos, sem reconhecimento nem amor? Porém, entes fra-
cos e limitados, como podemos pagar a nossa divida, senão com uma
contínua homenagem dos bens de que somos devedores á sua liberalida-
de? Todos os povos da terra se nos anticiparam n'esta confissão diaria
da sua submissão e dependencia. Herdeiros, posto que infleis, das tra-
. dições primitivas, conservaram esta parte do culto publico até nas tre·
vas do paganismo; e, como não ha povo sem religião, não ba religião
sem o culto das abstinencias: testimunho unanime do genero humano a
favor d'esta parte dos nossos ritos que, sem tornar mais santa a obser-
vancia, confirma todavia a prática d'elles corno essencial ao culto publico
e dictada pelo mesmo espírito a todas as consciencias. Quanto é pois
falsa essa sabedoria do mundo que quizera supprirnir da Religião simi-
lhante testirnunho, e levar os homens a gozar todos os bens como se
Deus não existisse no universo 1
Estes bens, dizeis, foram-nos dados para usarmos d'elles com mo-
deração todos os dias da nossa vida.
Mas, para usarmos d'elles assim, crêdes que baste querêl-o? A fru-
galidade e a temperança snppoem um exercicio contínuo de privação.
Quem não sabe abster-se algumas vezes dos prazeres mais legitimos, não
saberá deter-se onde começam os gozos culposos. A virtude alimenta-se
de sacrificios. Cada abstinencia, cada privação que ella prescreve, é um
novÓ penhor que espera da nossa fidelidade e do nosso amor. E' um
novo vinculo com que quer prender-nos ás suas santas leis; pois tal é a
natureza do coração humano, que primeiro sacrificio nos dispõe para se-
gundo, e a final nada nos custa, quando temos que conservar, com a
inestimavel recordação d'uma virtude experimentada, a estima de nós mes-
mos e -0 fructo d'uma longa constancia. Assim, o lavrador acaba por apai-
xonar-se pelo campo que rega com os seus suores, e o militar pela guerra
que lhe custa o sangue e os membros. Homens, quem quer qae sejaes,

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20 CATECISMO

não sereis dignos da virtude senão quando vos apaixonardes d'amor por
ella : e o amor não calcula.
As privações e a abstinencia são pois a indispensavel condição da
virtude. Mas o homem é tam pouco disposto a contrariar as suas incli-
nações, que se deixa ir ao grado dos seus desejos, como o navio des-
mastreado que levam as correntes e que vae despedaçar-se d' encontro
aos escolhos. A Egreja, que nos conhece bem e que nos ama como ama
uma mãe a seus filhos, suppriu a leviandade do nosso espírito. Poz uma
barreira sagrada ao pendor do nosso coração. As suas leis sobre o jejum
e as privações são a defensa da virtude do homem e da ventura da so-
ciedade.
Mas não é só debaixo d'este ponto de vista que cumpre encarai-as.
A Egreja cravou o seu olhar esclarecido pela fé na profundeza da natu-
reza humana. O homem é criminoso. Desde então a necessidade em que
estamos todos, reis ou subditos, ricos ou pobres, de satisfazer pelas nos-.
sas offensas. Não pertence senão aos sophislas faltar aos seus discipulos
como a entes impeccaveis, e excluir da sua moral ludo quanto se refere
ao homem peccador e penitente.
A verdadeira Religião devia estabelecer em outros princípios a re-
gra eterna dos costumes. Toda a culpa exige uma pena, todo o crime
um castigo, ou é necessario apagar da intelligencia humana toda a idêa
de justiça. Ora, o Catholico que se reconhece culpado, - e que homem
na terra póde dizer-se innocente ? - castiga-se a si mesmo pelas suas
culpas com a subtracção ou diminuição dos mesmos bens de que abu-
sou. Parece-lhe justo e razoavel reparar assim os seus excessos com as
suas austeridades, e reconquistar o imperio das paixões acostuma11do-se
a habitos contrarias áquelles que lh'o fizeram perder.
Dizei, depois d'isto, se vêdes alguma coisa na penitencia christã, na
Quaresma catholica assim explicada, que a razão mais esclarecida não
recommende ao homem, resolvido a romper com o vicio! Não ha philo-
sopho que não se visse obrigado a dar o mesmo conselho áquelle dos seus
discipulos que quizesse emendar-se dos desvarios da sua vida. Seria facil
provar que a moral u'Epicuro chegava ahi: pela privação é que condu-
zia o voluptuoso ao prazer (1). Assim tributar a Deus urna legitima home-
nagem e restituir á alma o imperio dos sentidos, fortalecer os habitos vir·
tuosos, expiai· o peccado e p1·eservar as nossas cabeças criminosas dos

(1) Vide Jauffret., Do culto catholico, p. 204.

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DE PERSEVERANÇA. 21

flagellos da justiça divina, tal é o objecto geral do jejum e das priva-


ções.
IV. PREPARAÇÃO PARA A QUARESMA. - Para nos preparar para o
cumprimento solemne da grande lei da penitencia, nos convida a Egreja
á meditação tres semanas antes do principio da Quaresma. Os tres do-
mingos que a precedem teem o nome de Septuagesima, Sexagesima e Quin-
quagesima. São assim chamados porque o primeiro d'estes domingos é o
septimo antes do da Paixão, e os outros dois, o sexto e o quinto, assim
como o primeiro domingo de Quaresma tem o nome de Quadragesima,
porque é o quarto antes da Paixão (t). Estes domingos e as semanas que
os seguem são uma preparação para a Quaresma. A Egreja quer fazer-nos
preceder, com os seus officios e com a compuncção do coração, as prá-
ticas da penitencia corporal, e fazer-nos entrar nos sentimentos que de·
vem acompanhar o jejum da santa quarentena.
Durante este tempo ostenta a augusta esposa do Homem-Deus o seu
caracter magnifico de catholicidade. Todos os tempos me pertencem, nos
diz nos seus officios, e todos os justos são meus filhos. E as tres semanas que
precedem a Quaresma são consagradas a honrar os escolhidos doi; tem-
pos antigos : Adão e os justos que precederam o diluvio, Abrahão e os
Patriarcbas até Moysés, e finalmente os Propbetas que viveram sob a an-
tiga alliança. Ahi encontra a Egreja o grande motivo e a razão fundamen·
tal da penitencia que vae seguir-se. .
D'este modo, no officio da noite, nos traça a historia da queda e
desgraça do homem causada pelo peccado de nossos primeiros paes. Na
Missa, quer que nos consideremos como victimas dedicadas á morte, e
que nos lembremos dos nossos proprios peccados, para que, estando con-
vencidos da necessidade da penitencia, nos achemos inteiramente dispos-
tos a abraç.al-a no tempo que foi prescripto. Com o mesmo objecto sup-
prime, desde este dia alé á Paschoa, todos os canticos d'alegria, a Alle-
luia, o Te-Deum e a Gloria in excelsis, e lhes substitue cantos lugubres
e orações adaptadas ao tempo da affiicção.
V. Oi.:.AçõEs DAS QUARENTA HORAS. - Mas em quanto a Egreja nos
dispõe para a santa tristeza da penitencia, cumpre o mundo a terrível
prophecia do Salvador. O mundo se regosijará, dizia aos seus discipulos,
e vós estareis na tristeza (2); mas desgraçados de vós que rides (3) e que
(1) Rupert, 1. IV, Div. OjJic., e. III e IV.
(2) Joan., XVI, 20.
(3) Lucas, VI, 25.

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22 CATECISMO
vos entregaes a vossos criminosos prazeres. Ora, para fazer contrapezo aos
numerosos crimes que então se commettem, eis as orações solemnes das
quarenta horas. Comprehendem tres dias: o domingo da Quinquagesima,
a segunda e terça feira até á Quarta-feira de Cinza. A sua instituição remonta
ao decimo-sexto secuto. Deve-se ao P. José, capuchinho, que a estabele-
ceu primeiro em Milão, pelo anno de tã34., no momento exacto em que o
protestantismo fazia tão crueis ultrajes a Nosso Senhor no Sacramento do
seu amor. Foi admiravel o zêlo dos milanezes n'esta tocante devoção. Se
não se fizessem regulamentos, a cidade teria ficado cada anno exhausta
de cêra, azeite e estofos preciosos para adorno das egrejas. De Milão,
passou a piedosa instituição a Roma, onde foi acolhida com o mesmo fer-
vor pelo povo, e enriquecida com indulgencias pelos Summos Pontífices
Pio IV, Clemente VIII e Paulo VI, que depois a propagaram por toda a
Egreja catholica (1).
As orações das quarenta horas, acompanhadas de prédicas, da ex-
posição do SS. Sacramento, e d'outros exercicios de piedade, servem t. 0
para aplacar a ira de Deus irritado pelas desordens d'esses maus dias; 2. 0
para desviar dos tbeatros, das devassidões, das loucuras e das impieda-
des, aquelles que o exemplo e a torrente do costume, podessem arrastar;
3. 0 para excitar a piedade compassiva dos fieis para com Nosso Senhor,
apresentando á sua meditação as quarentas horas que decorreram desde
a sua condemnação á morte até á soa resurreição; e 4. 0 finalmente para
preparar-nos para a penitencia da Quaresma (2).
O estabelecimento das quarentas horas não faz senão recordar os
piedosos usos da antiguidade. Com effeito, desde o quinto secolo, havia
a Egréja estabelecido uma Missa com ladainhas solemnes e jejuns, em
opposição aos abominaveis excessos das Calendas de janeiro e dos outros
restos do paganismo que ainda subsistem entre nós, desde os Reis até á
Quàresma. Mais tarde, os tres dias que precediam a quarta feira de Cinza,
chamaram-se Introito, porque, sendo destinados á applicação da peniten-
cia publica, ia a gente confessar-se para se preparar para uma acção tão
santa. Quando, por um esfriamento do fervor antigo, estes dias tiveram o
profaníssimo nome de Carnaval, estabeleceu a Egreja as quarenta horas
para expiar as desordens d'esses dias de crime e loucura.
VI. QUARTA-FEIRA DE CINZA. - Quando pois estão concluidas todas

{l) }.,erraris, art. Eucharist., n. 67, 71.


-(2) Thiers, E:xposir;. do SS. Sacramento, 1. IV, e. XVll e XVIII.

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DE PERSEVERANÇA. 23
as preparações para o grande jejum, abre a Egreja a santa quarentena
com graves e lugubres ceremonias. Na quarta-feira de Cinza, apparece o
ministro sagrado no Jogar santo, revestido d'uma capa preta. O côro põe-
sa de joelhos, e todos juntos recitam os sete Psalmos tam bem chamados
Penitenciaes. E' este o logar de explicarmos a origem e o sentido das
ceremonias d'este dia memoravel.
Todo o peccado deve ser punido n'este mundo ou no outro: n'este
mundo pelo homem penitente, ou no outro por um Deus vingàdor. Con-
vencidos d'esta verdade, de que quanto menos nós nos pouparmos, mais
Deus nos poupará, os primeiros Christãos, os santos penitentes de todos os
seculos se impunham generosamente rudes expiações. A Egreja entrou
nas suas vistas. Foi escolhido o primeiro dia de Quaresma para pôr em
penitencia publica aquelles que deviam ser recebidos á reconciliação, isto
é, á communhão dos fieis na festa da Paschoa.
Os penitentes começavam por confessar-se. Apresentavam-se depois
na egreja descalços e com vestes de lacto. Chegados diante do Bispo, ca-
bisbaixos, com os olhos cheios de Iagrimas, n'uma palavra, com todas as
demonstrações de sincero arrependimento, pediam humildemente para se.;.
rem admiltidos á penitencia e absolvição. O Bispo, movido pelas suas sup.;.
plicas e Jagrimas, os vestia d'um cilicio ou d'um sacco, lhes lançava cinza
na cabeça, os borrifava d'agua benta, e recitava em voz alta os sete Psal-
mos Penitenciaes por elles, com todo o clero prostrado por terra.
Terminadas as orações, levantavam-se os Bispos e os Sacerdotes e
impunham as mãos aos penitentes para ratificarem a sua dedicação á. pe•
nitencia. Então lhes dirigia o Pontifice uma pathetica exhortação, que ter-
minava annunciando-lhes que, assim como Deus expulsou Adão do Pa-
raiso por causa do seu peccado, do mesmo modo el1e ia expulsai-os da
egreja por algum tempo, convidando-os porém a cobrar animo e a espe-
rar na misericordia divina. Começava a procissão. Os penitentes iam n'ellà
descalços e com o seu lugubre apparato. Cbegàdos á porta da egi'eja,- o
Bispo os punha fóra com o conto da cruz. Não deviam tornar a entrar
senão em Quinta-feira Santa, dia da sua absolvição. Durante esta cere.;.
monia, tão propria para fazer derramar lagrimas, cantava o clero as pa-
lavras que Deus dirigira ao homem expulsando-o do Paraiso terrestre :
Comerás o teu pão com o suor do teu rostd ; lembra-te de que és prJ e ao
pó lias de voltar (t).

(1) Bona, Rer. liturg., I. II, n. 7, 16.



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CATECISMO

Estas lugubres formalidades não eram ao principio senão para os


grandes peccadores cujas culpas tinham causado escandalo ; mas, ao de-
pois, aquelles dos fieis que tinham mais piedade, quizeram tomar parte
n'aquellas humilhações publicas, para manterem o espírito de penitencia
que os animava. Algumas tornaram-se geraes a toda a Egreja, principal-
mente a de deitar cinza na cabeça. Não é, como se vê, um costume su-
persticioso. 1bas sim uma piedosa ceremonia praticada pela Egreja desde
os primeiros seculos do Cbristianismo, auctorisada pelo exemplo e recom-
mendada pelas palavras dos Patriarchas e Prophetas ('1 ).
Ainda mais, não ha emblema mais energico do abatimento do ho-
mem, da sua profunda miseria e da consagração interior das nossas al-
mas aos exercicios da penitencia. Com que humildade) com que com-
puncção, com que sobresalto não devemos approximar-nos d'esse minis-
tro sagrado que, da parte de Deus, vae marcar a nossa fronte, bem joven
talvez, com o sêllo da morte, e gravar n'ella com cinza a irrevogavel sen-
tença que nos condemna ! Encontrae, vós que fazeis de babeis, discursa-
dores de todas as estofas, uma ceremonia mais propria para fazer entrar o ho·
roem em si, para o fazer desviar d'essa vida de dissipação, d'iniquidade,
d'ambição e d'egoisrno, de que vós sois alternativamente testimunhas e
vietimas. Em vez de lançardes sobre as nossas santas práticas uma irri-
são sacrilega, o mais sagrado dos vossos dernres, como christãos e como
cidadãos, seria auctorisal-as com os vossos respeitos e exemplos.
Qaanto a nós, filhos doceis da Egreja catholica, penetremos bem no
espirito da ceremonia da Cinza, e deixemos compenetrar-se a nossa alma
dos sentimentos q~1e ella deve inspirar. Que nos diz? Rei decahido, apren-
de a conhecer a grandeza do peccado; pensa na ~orle. Não te poupes na
prática da mortificação ; abre o coração á mais viva compuncção. Consa-
gra ás lagrimas e á oração o tempo que a Providencia tem por bem con-
ceder-te para te reconciliares com o Ceo e reconquistares o leu tbrono :
Lembra-te, homem, de que és p6 e ao pó has de voltar.
Sobre a fronte é que se faz o signal da cruz com a cinza, para nos
ensinar a não nos envergonharmos de fazer penitencia em publico, por
amor e á imitação de Nosso Senhor, o justo por excellencia e o grande
penitente do mundo. Os Sacerdotes recebem a cinza sobre a cabeça, com
receio de que, pondo-a sobre a fronte, caia durante a Missa no corpo.-

(1) God., Festas mov., t. I, p, 360; Mich., II; Judith, III; Esther, II ; La·
menta!(. Jerem. 1 IV ; Jonas, III, etc.

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DE PERSEVERANÇA.

ral ou no altar, e tambem para lhes ensinar que, superiores aos outros
pela grandeza da sua dignidade, lhes são similhantes pela fragilidade da
sua nalareza, que a morte não respeitará.
A' voz severa da Egreja se juntam os maternaes accentos d'aquella
que nos gerou em Jesus Christo. Meus filhos, nos diz, eis o dia da sal-
vação, eis o tempo favoravel. Com que fervor não deveis entrar este anno
no santo caminho da penitencia! para muitos será esta a derradeira vez.
Se amaes a vossa alma, apressae-vos a unir os vossos soffrimentos, os vos-
sos jejuns e as vossas orações, aos do divino Redemptor. Morrei para o ve-
lho bomem, a fim de serdes transformados em homem novo. Trabalbae em
destruir em vós o imperio dos sentidos e do peccado, em conquistar a li-
berdade da vossa alma, regalando a vossa vontade pelo verdadeiro espirita
do divino Mestre, e praticando todas as virtudes de que elle é perfeito
modelo, particularmente a humildade, a doçura, a charidade, a miseri-
cordia e o espírito d'oração.
E depois as nossas proprias dividas não são as unicas que nos fazem
da penitencia um dever instante. Os peccados de nossos irmãos, o triste
estado de pessoas talvez bem queridas ao nosso coração, e os castigos de
que estão ameaçadas, augmentam as nossas obrigações pessoaes. Não
deve cada um de nós estar penetrado de compaixão á vista das desor-
• dens do mundo, chorar, suspirar, e humilhar-se considerando as pre-
varicações d'um corpo de · que é membro e que tem a Jesus Cbristo
por chefe? Estas lagrimas e estes suspiros são um dever inseparavel da
Quaresma, e fazem parte das orações e dos officios da Egreja durante
este santo tempo.
Quantos peccadores foram arrancados da via da perdição ! quantas
calamidades foram afastadas pelas orações e jejuns da Egreja t O horro-
roso augmento da impiedade e da irreligião, os progressos do vicio, o
esquecimento das maximas do Evangelho, e as do mundo que tomaram
o 19gar d' ellas, que motivo de gemidos e de penitencia para uma alma
christã ! Mas, ai ! tal é a fraqueza da nossa fé, que não comprehendemos
senão vagamente o poder das lagrimas e da oração sobre o coração de
Deus, e a rigorosa satisfação que lhe devemos pelos nossos peccados.
Queremos rectificar os nossos juizos? Meditemos o exemplo dos ninivitas.
Meditemos sobretudo o proceder da Egreja na imposição da penitencia
publica. Os Santos a isso nos empenham; é hoje o dia de relermos essa
historia mais eloquente que todos os discursos. .
VII. PENITENCIA PUBLICA. - Quando pois estava em uso a penitencia

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26 CATECISMO

publica, e esteve-o durante perto de mil annos, eis o espeetaculo que of-
ferecia a Egreja catholica (t). Em torno do logar sagrado, e nas casas

(1) A imposição da penitencia publiCJ\ era ordinariamente precedida. da c0n-


fissão pu~lica. E' sabido que, durante os primeiros seculos, havia duas especies de
confissões: a. confissão publica e a confissão auricular ou secreta. Na confissão pu-
blica, accusavam-se não só os peccados publicos, mas até, em certos casos, os pecca-
dos mais secretos. Fazia-se na presença do Bispo e dos Sacerdotes que compunham
com elle o benado da Egreja; ás vezes até tinha logar diante de todo o povo. E~
consequeneia d'esta confissão é que se impunha a penitencia publica. A Egreja to-
mava M mais liahias precauções para que esta confissao publica dos peccados oc·
cultos não causasse prejuízo algum aos que a faziam. Assim não se obrigavam os
homicidas, nem os ladrões a accllsar-se publicamente dos seus crimes. Nem sequer
se fazia, ao menos ordinariamente, a declaração publica dos crimes secretos senão
por conselho do Sacerdote a quem se haviam já dito em particular.
Uma pr~va authentica da disciplina de que fallamos se acha n'uma celebre pas-
sagem d'Origenes. Depois de ter feito o elogio e mostrado a utilidade da confia·
são, ajunta e8te - Padr~ : ((Não nos resta sern+o. considerar attentam ente e vêr qual
1

deve ser o confidente dos vossos peccados. Experimentae antes o medico a quem de-
veis descobrir a causa do vosso mal ; que saiba ser fraco com os fracos, e chorar com
os que choram ... e, se vos der alguns conselhos, segui-os exactamente. Se julgar que
o vosso mal é de tal natureza que precisa de ser descoberto e tractado na presença
de toda a Egreja, tanto para edifi,ca1· os outros como pa1·a alcançar a vós mesmo uma
cura certa, segui o parecer do vosso sa.bio medico.• (Orig., Homil. II in Psal . XXXVII.)
Este texto d'Origenes, ao qual seria facil ajuntar muitos outros, prova que a confis-
são auricular estava já em u~o no segundo seculo, e que subsistia conj~nctamente
com a confissão publica. Encontramol-a egualmente tres seculos depois. 8. Leão, tendo
subido ao pulpito de S. Pedro, disse que alguns confessores constrnngia.m os peniten-
tes a. accusar·se publicamente dns suas culpas eecretas. Para moderar este zêlo im-
prudente, escreveu o illustre Pontifice aos Bispos da Campania uma. carta que data
do meado do quinto seculo. 11Mando, lhes diz, que se reprima de todos os modos a
presumpção de cert~ pessoas que, contra a regra apostolica e contJ;a todo o direito,
exigem dos fieis que escrevam em libellos, e que recitem publicamente todas as es·
peoies de peccados, pois que é sufficiente descobrir só ao Sacerdote, por meio de con-
fissão secreta, os peccados de que qualquer se sente reo. Pois, ainda. que a fé d'a-
quelles que, por temor de Deus, querem soffrer a confissão publica das suas culpas,
parece louvavel, comtudo os peccados de todos não sã.o taes que os que pedem a pe-
nitencia nã.9 t,enba.m nada que temer, torn~odQ·OS puhlicos. Rejeite-se pois este ma~
costum.e, com receio que muitos sejam desviados de se servirem do remedio da peni·
teneia, quer pela vergonha, quer pelo temor de publicarem ante os seus inimigos_
acções que podessem ser feridas pelas leis civis. Basta uma confissão feita primeiro
a Deus, e depois ao Sacerdote, que intercede pelos peccados do penitente.» (Ad Episc.
Camp. epist. CXXXVI.)
Estas duas passagens, e muitas outras que poderíamos citar (Tertull., do Prenit.;
lren., l. 1, c. IX; Hreres., XLIII; Cypr., De lapsis; Basil., ep. ad Amphiloch.,
XXXIV ~ Orig., contr. Gela., 1. III; Pacian ., Parren. ad Prenitentes, etc .), manifes-
tam claramente a disciplina da primitiva Egreja relativamente á confissão.
Se desejava um peccador entrar em graça. com Deus, dirigia-se ao Bispo ou ao
Sacerdote, e fazia-lhe humilde e sincera confissao de todo o mal de que tinha que
arguir-se. Seguo,do a narração que acabava d'ouvir, o director pesava na mente os
conselhos que tinha. que dar, e o procedimento que tinha que prescrever. Se, entre
os peccados, os havia graves e notorios, mandava confessai-os em voz alt.a para re-
parar o escandalo. Se, nas culpas secretas, se achava alguma cuja publicação, sem
prejudicar a terceiro, redundasse em vantagem de todos e até mesmo d'um s6, era pres-
cripta. Se o director tinha: que curar uma alma altiva e desdenhosa, depois de ter

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DE PERSEVERANÇA.. i7
particulares, via-se multidão de Christãos d'um e outro sexo, talvez muito
menos culpados que nós, vestidos de fatos pobres, com os olhos afoga-
dos em lagrimas, jejuando, orando e partindo o coração de seus irmãos
com as lugubres demonstrações da mais viva compuncção. Os penitentes
dividem-se em quatro classes: os chorosos, os ouvintes, os prostrados e
os consistentes (1).
Os chorosos conservavam-se junto da porta da egreja da parte de
fóra, supplicando aos fieis, á proporção que iam entrando, que orassem
por elles. Iam para alli á hora dos officios, cobertos d'um sacco, com.cinza
na cabeça e o cabello em desordem, a fim de desarmarem, por mero «festa
humilhação, a ira de Deus e obterem a intercessão de seus irmãos. Por
isso a Egreja, nos seus officios da Quaresma, orava sempre pelos peni-
tentes : este tocante costume ainda subsiste. A fim de augmentarem a sua
mortificação, os penitentes da primeira classe estavam muitas vezes ao ar
livre, mas era-lbes permittido a~rigarem-se debaixo do portico. .
Os ouvintes compunham a segunda classe de penitentes. Eram assim
chamados, porque, tendo passado com fervor o tempo prescriplo para o pri-
meiro grau de penitencia, podiam entrar na egreja e aproveitar-se das in-
strucções ; mas eram obrigados, como os cathecumenos, a sahir antes do
offerlorio.
ensaiado inutilmente remedios mais suaves, acabava por obrigal-a á humilhante mor-
tificação de se accusar em publico, a fim de abater d'este modo um orgulho até en-
tão indomavel ; mas se a segurança ou reputação das pessoas se visse compromet-
tida por uma declaração publica, um sabio ministro se absteria cuidadoSllmente de
a ord.enar, e a propria Egreja tinha attendido a isso com as suas prohibições. A
carta de S. Leão supracitada é d'isto uma prova incontestavel.
Assim é que a fiel Esposa de Jesus Christo, a terna Mãe dos Christãos, sabia
conciliar os interesses do Ceo com os da terra, a honra e segurança dos particulares
com o seu progresso na virtude, a severidade dos princípios com a indulgencia para
com as pessoas. As'sim é que ella sabia reparar o escaudalo sem nunca o fazer nas-
cer, fazer redundar a confusão dos peccadores em proveito da sua salvação, e tirar
do proprio mal a edificação de todos os seus filhos. 8ob esta bella e admiravel disci-
plina, tudo se passa com decencia, tudo caminha com ordem e com justeza. A con-
fissão sacramental, institnida por Jesus Christo, é sempre a primeira; a confissão pu-
blica, estabelecida pela Egreja, vem algumas vezes atraz d'ella e nunca senão de-
pois d'ella; uma, sempre indispensavel, regula a que não é mais que auxiliar. A pri-
meira, de creaçã.o divina, tem subsistido, e subsistirá em todos os tempos ; a segunda,
d'origem ecclesiastica, depois de ter durado alguns seculos, foi extincta pela mesma
auctoridade canonica que a havia instituído. (Discussão ami_qavel, t. II, p. 167.) Ora
a sabedoria da Egreja não brilha menos na abolição da confissão publica que no seu
estabelecimento. Diminuindo o fervor dos Chri tãos, esta Mae vigilante receou que a
obrigação de se confessarem publicamente afastasse os penitentes da confissão sa-
cramental, necessaria á salvação, e foi supprimida a confissão publica. Desde o fim
do quarto seculo, tinha cessado de estar em vigor nas Egrejas gregas; conservou-se
algum tempo mais na Egreja latina.
(1) Flentes 1 audientes, prostrati, consistentes.

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CATECISMO
I

Os prostrados, terceira classe dos penitentes, tinham permissão de


estar na egreja em quanto se diziam por elles certas orações ; mas eram
obrigados a estar prostrados ou de joelhos; d'onde o seu nome. Os Sa-
cerdotes e os Bispos lhes impunham as mãos fazendo por elles orações,
e no momento do offertorio lhes~ordenava o diacono que se retirassem.
Os consistentes eram a quarta classe dos penitentes.· Era-lhes per~
mittido estar em pé e unir-se ás orações dos fieis ; mas -0ão podiam fazer
as offrendas ordinarias neín -commungar ante o publico.
A condição, por mais elevada que fosse, não dispensava ninguem do
rigor da ·disciplina. O exemplo do. ünperador Theodosió é uma prova d'isto.:
Fabiola, uma das mais ~Ilustres damas de Roma, nos subministra outra~
Tendo-se separado de seu marido, passou a segundas nupcias, o que era
permittido pelas leis do imperio ; mas tão depressa conheceu que o seu pro-
cedimento era contrario ao Evangelho, renunciou a esta segunda alliança.
Para expiar a sua culpa, submetteu-se a todo o rigor da penitencia canonica,
á vista de Roma inteira, á porta da basílica de Latrão, e a cumpriu com um
fervor e uma compuncção cuja narração ainda arranca lagrimas (t).
Além das penosas práticas de que acabamos -de fallar, jejuar todos
os dias ou mui frequentemente a pão e agua, orar longo tempo com o
rosto prostrado por terra, distribuir copiosas esmolas, e abster-se não
só de todos os divertimentos, senão tambem de todas as conversações
inuteis, taes eram os principaes exercícios da penitencia publica. Quanto
tempo duravam estas rigorosas provas? Dois annos para o roubo, sete
annos para a fornicação, onze annos para o perjurio, quinze para o adul-
terio, vinte para o homicídio, e toda a vida para a apostasia. ·
E quem impunha similhantes expiações a estes primeiros christãos,
a maior parte dos quaes, nascidos no paganismo e vivendo desde a sua
conversão no meio dos pagãos, se achavam tam expostos, que as suas
qoédas nos parecem merecer antes indulgencia que severidade? Quem
os tractava d' esta sorte? A sua terna mãe, a Egreja, esposa do Espírito

(1) Hieron., Epist. ad Accanum, de epitaph. Fabiol., p. 657.


Ainda existe entre nós um costume que prova a fidelidade com que nossos paes
se submettiam aos rigores da penitencia e do jejum durante a Quaresma. Este cos:
tume, quem o acreditaria? é o de pass·ear o boi gordo. Outr'ora toda a gente obser-
vava rigorosamente a abstinencia quadragesimal. Um só carniceiro, em cada cidade,
tinha permissão de vender carne para os doentes. Este privilegio era concedido áquelle
que, no juizo dos peritos nomeados para esse effeito, mostrava a mais bella cabeça
de gado. Uma vez pronunciado o juizo, o carniceiro, como para dar a sua morada,
paseeava. o boi coroado pelas ruas da cidade. D'onde o costume que ainda subsiste
entre n6s, posto que a maioria não conheça a origem nem o sentido d'elle.

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DE PERSEVERANÇA. 29
Santo, que, dirigida pelos seus conselhos e cheia do seu amor, se mos-
tra em tudo tam compassiva e tam dôce J E comtudo esses christãos não
tinham outro Deus differente do nosso que servir, outro paraíso qne al-
cançar, e outro inferno que temer. O' enormidade do peccado ! ó santi-
dade do christão ! ó necessidade da penitencia !
Assim a recitação dos psalmos penitenciaes e a procissão que co-
meça o officio da quarta feira de Cinza nos recordam a ceremonia pela
qual se impunha a penitencia publica. Esta preciosa recordação nos diz
com que sentimentos devemos assistir a ella.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos dou por terdes esta-
belecido o jej am da Quaresma para purificar a minha consciencia, forta-
lecer a minha virtude e tornar-me digno de approximar-me da vossa sa-
grada Meza; fazei com que eu jejue christãmente. '
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a miiµ mesmo por ·amor de Deus; e, em prova d'este amor,
juntarei ao jejum a oração e a esmola.

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30 CATECISMO

TRIGESIMA·TERCEIRA LIÇÃO.

Ochrislianismo tornado sensivel.

vantagem 8ocial da Quare•ma.-Vantagem part•cular para


o corpo e para a alma. - Harmonia com a e111•.ação da pri-
mavera. - Instituição da Quare11ma.-Submi1H11ão de nos-
11os paes a e11ta ;;1·ande lei. - Sabedoria da E;;reJa na wa-
riedade dos alimentos, na edade prescripta, e no que
prohlbe durante a Quaresma. - Etreitos do jejum. - Li-
turgia da Quaresma.- Primeira dominga. - Dh1pen11a11
b1·aodões. - segunda domioga. - Terceira domlnga. -
- Quar&a[dominga.

1. VANTAGEM SOCIAL DA QUARESMA. - Expiarmos o peccado, demo-


lirmos, por conseguinte, cada um. pelo que nos respeita, essa montanha
de iniquidades que chama noite e dia sobre as nossas cabeças os flagel-
los de Deus, tal é o grande objecto do jejum e da penitencia. Na falta de
qualquer outra, esta consideração faz da Quaresma· catholica uma neces-
sidade social mais instante que nunca nos dias deploraveis em que vive-
mos. Olhae em torno de vós. Vêde Deus, Pae dos homens e das socie-
dades, tornado tam estranho no meio de seus proprios filhos, como o era
no meio dos pagãos o Deus desconhecido que adorava Alhenas ; não só
repellido dos seus como outr'ora em Bethlem, senão trahido como no
jardim das Oliveiras, escarnecido, tractado qual rei de theatro como em
Jerusalem, e ainda todos os dias crucificado de novo como no Calvaria ;
a Egreja, sua esposa e nossa mãe, mãe dos povos modernos, na affiicção
e nas lagrimas ; a sociedade hedionda de crimes e escandalos : o suicí-
dio, a immoralidade, o cynismo em todas as classes; a divisão nas fami-

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DE PERSEVERANÇA. 3t
lias, o desprêso da santidade conjugal, o odio entre os irmãos, a ausen ..
eia da fé, o mundo em fim devorado até ás entranhas por uma indiffe..
rença monstruosa que conturba o zêlo mais apostolico, e que afogaria até
a esperança, se a esperança não fosse immortal.
Eis ao que chegamos. Que meio ha, rogo-vos m'o digaes, para con-
jurar as tempestades que tantos crimes teem amontoado no borisonte?
Sempre presumpçosa, porque é acanhada e falsa, a sabedoria mundana
propõe cada dia novos meios. Vota successivamente a sociedade á habi-
lidade dos diplomatas, ao valor dos soldados, á astucia, á força, á indus-
tria, que sei eu? Inuteis esforços f pois está escripto: l'ãos, cégos, im-
potentes são todos os homens em quem não está a sciencia de Deus (i ). O
unico meio de nos salvarmos, povos e individuos, é fazermos paz com
o Ceo~ é restituirmos Deus á sociedade, á familia, ao coração do homem.
Ora, o primeiro passo a dar para isso, notae-o bem, é a conversão e a
penitencia. Convertei-vos a mim, e estaes salvos (2). A penitencia, sim,
tal é, repetimos, a grande necessidade da nossa epocha. A Quaresma
catholica, destinada a conduzir-nos a ella, é pois eminentemente social.
II. VANTAGt::M :PARTICULAR PARA o CORPO E PARA A ALMA. - Como a
alma influe sobre o corpo, assim a Quaresma, curando o homem moral,
deve proporcionar necessariamente o bem-estar do homem physico. Nas
suas orações, canta a propria Egreja esta nova vantagem do jejum (3);
e babeis medicos tee{Il consignado a saudavel influencia da Quaresma so-
bre a saude. Não estava abaixo da dignidade da Egreja catholica, nem
era estranho ao espirita de charidade que sempre a dirigiu, o attender
á saude do corpo ao instituir a Quaresma; porque como a temperança
e a sobriedade são os melhores sustentaculos da saude, do mesmo modo
a abstinencia e o jejnm são muitas vezes o meio mais seguro para a res-
tabelecer: a experiencia apoia esta observação. Por meio de jejuns con-
tínuos é que tantos antigos Padres do deserto conservaram saude vigo-
rosa e constante além do termo ordinario da existencia, e viveram mais
de um secolo nos paizes quentes, onde a duração da vida é geralmente
mais breve que nos climas temperados.
S. Paulo, primeiro ermita, viveu cento e treze annos; S. Antão,
cento e cinco ; S. Arsenio, cento e vinte; S. João Silenciaria, cento e

(1) Sap., XIII, 1.


(2) Isaia..s, XLV, 22.
(3) Jejunium quod animabus corporibusque curandis salubritur institutum
est. Ojf. sabb. ant. Dom. I Quadrag.

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3i CATECISMO

quatro; S. Theodosio abbade, cento e cinco ; os dois santos Macarios, S.


Paphnucio, S. Sabas e S. João do Egypto, quasi um seculo. A sciencia
medica explica estes factos admiraveis. Affirma que a temperança é mãe
da saude, e que evita todas as molestias que são effeito de mãs diges-
tões ; que torna os accidentes exteriores menos perigosos ; que allivia e
mitiga os males incuraveis ; que acalma as paixões e conserva a inteireza
dos sentidos; que mantém a força do espirita e a viveza da memoria, e
finalmente que é o fundamento da virtude, como observa Cassiano. To·
dos os Santos que se elevaram á perfeição evangelica, por ahi come-
çaram.
A prática d'ella é a principio penosa, porque é necessario vencer a
resistencia do habito contrario; mas quando uma vez se triumphou d'el-
le; aquella se torna um manancial de prazeres puros, independentemente
das incalculaveis vantagens que proporciona. Com ella, raras vezes se
tem precisão de medico. Preserva de todas as molestias que provém de
enchimento ; subministra o meio mais simples e seguro de desembaraçar
a natureza e de lhe dar actividade. Ordinariamente uma dieta de dois
dias produz o effeito d'um purgante com muito menos inconvenientes e
incerteza.
Grande numero de religiosos levaram nos seus conventos vida so-
bria e regalar, e attingiram extrema velhice sem as receitas da medi-
cina, nem as drogas da pharmacia; tendo por principio, quando se acha-
vam indispostos, comer de dieta dois ou tres dias ; o que ordinariamente
bastava para restabelecer a ordem. Assim, a sciencia mais esclarecida e
a experiencia de todos os seculos attestam que o jejum é o melhor re-
media contra a maior parte das molestias, o mais seguro guarda da sau-
de, e o meio mais simples e facil de prolongar a vida (t).

(1) Vide particularmente os auctores que escreveram sobre a dieta, taes como
Junker, Arbnthnot, Hecquet, L~m~rry e Lony. (Tractado ~os Alimentos.):-- Cons~­
derando, no ponto de vista h~giemco, as boas. obras pre ~neta~ pela ~greJa, expri-
me-se assim um celebre medico dos nossos dias: cO cbnst1amsmo nao se contenta
de nos vêr observar os seus preceitos só pelo receio das penas da outra vida; exige
que o movel de todas as nossas acções seja o a~or de Deus e ~o pr~ximo. em Deus:
lei d'amor, cujo cumprimento ennobrece. o coraçao, esclarece a mtel.hgenc1a, e torna
o homem verdadeiramente livre regula isando todas as suas necessidades.
c1Além dos sacramentos, que purificam a alma, ao mesmo tempo que diminuem
08 soffrimentos do corpo a Religião prescreve o uso ruario da oração como uma po-
derosa muralha contra ~s contínuos ataques das paixões. Com effeito, não ha meio
mais proprio para dissipar estes perigosos inimigos do nosso socego, que esta fre-
quente communicação do homem com o seu Creador. .
rrAos sacramentos e á. ora.vão, junta a Religião tambem o jejum e a abstmen·

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DE PERSEVERANÇA. 33

Comprehende-se sem difficuldade que a Quaresma catholica deve


principalmente operar os mais saudaveis effeitos, se se attender á epocha
em que está collocada: é a primavera. Ora, a primavera é a estação
mais favoravel para reparar as desordens da saude, occasionadas, quer
pelos trabalhos abrasadores do estio, quer pelas intemperies do inverno.
Os humores estão lambem em movimento: tudo quanto vegeta soffre
uma especie de fermentação. As hervas frescas fornecem suecos mais
saudaveis que em qualqüer outra estação ; e o melhor remedio, ou o pri-
meiro preservativo contra a maior parte das molestias, é sem contradic-
ção a abstinencia e a escolha d' alimentos vegetaes.
Qnalquer que tenha meditado na prof1;mda sabedoria da Egreja ca-
tholica, ba de admittir sem custo que o cuidado da nossa sande corpo-
ral influiu, como motivo secundario, para a instituição da Quaresma.
Sempre sabia e sempre boa, a Esposa do Homem-Deus, n'este ponto da
sua disciplina, suavisou as suas prescripções segundo as edades e os cli-
mas. Hoje que os temperamentos parecem debilitados, mostra-se cheia
d'indulgencia e concede á nossa fraqueza suavisações que é justo ter-lbe
em conta, mostrando-nos reconhecidos á sua bondade e fieis ás pequenas
privações que prescreve.
Que mais direi ? A instituição da Quaresma na primavera nos offe-
rece uma das mais bellas harmonias da creação. Em quanto tudo se
commove na natureza, e um trabalho de vegetação e renovação se opera
em todas as partes do mundo physico, para produzir, no mez de maio,
a resurreição de todas as creatura~ entorpecidas durante o inverno, quer
a Egreja que um trabalho analogo se opére no mundo espiritual. A santa
quarentena é um tempo em que elia mergulha todos os seus "filhos no
banho sagrado da penitencia, para que n'elle encontrem ou a vida da
graça ou novo vigor. Ao cabo da carreira mostra-Jhes ao longe uma meza

eia, meios bygienicos proprios para amortecer a violencia das paixões ; e, na sua
profunda sabedoria, os prescreve mais longos e mais severos justamente na epocha
do anuo em que toda a natureza está a ponto de entrar em fermentação. Se o rigor
da estação, a miseria, uma constituição enfraquecida pela edade, pela doença ou
pelo trabalho, se oppoem a que se siga o preceito, a Egreja di pensa d'elle facilmente;
mas quer que cada qua] o supra por meio d'uma esmola proporcionada aos seus te·
res. Assim é que combatendo dois vicios, infelizmente tam communs, a intemperança
e a avareza, ella enfraquece os transportes do amor e a impetuosidade da ira, ao
mesmo tempo que derrama o superfino do rico nas mãos do pobre. Admiravel in-
stituição, que faz expirar nos labios do indigente a blasphemia contra a Providen-
cia, e transforma em bençãos os furores que lhe teria inspirado a im•eja ! As insti·
tuições humanas deram jámais provas de tanta sollicitude, prudencia e charidade?»
(M. Descuret, Medicina das Paixões.)

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CATECISMO

esplendida a que todós são convidados. Alli é servido pela mão dos an-
jos o pão da immortalidade, o vinbo que refrigera, que purifica o san-
gue do homem e faz germinar a virgindade. E a grande familia sabe do
banquete divino renovada, forte em virtudes, brilhante de juventude, e
disposta a seguir com passo agil o seu divino modêlo na estrada do
Ceo.
Dizei agora, homens habituados a reflectir, se a Quaresma catbolica,
com a confissão e a communhão, não resolve o melhor possível o grande
problema cuja solução atormenta o mundo actual, a saber: qual é o me-
lhor meio de regenerar os povos, de os tornar moraes, desapegados e
submissos; e aos reis justos, rectos e dedicados? Uma nação que sahisse
inteira da Quaresma catholicamente passada, não seria propria para todas
as virtudes: similhante á aguia real que, vestida de nova plumagem, póde
sem receio pairar até ás mais altas regiões (1)? Depois de tudo isto se
vos resta no coração logar para algum sentimento, deixae entrar n'elle a
mais verdadeira compaixão para com os homens que não comprehendem,
que censuram ou que desprezam a Quaresma catholica.
Mais rectos que os nossos ímpios, não poderam os protestantes abs-
ter. se de tributar-lhe homenagem.
«Notei, diz um d'elles (trata-se d'ltalia), qne, apezar dos progressos
do vicio, o povo de todas as classes se continha singularmente durante
a Quaresma. Já não se ou ~·iam, como antes, nem ·blasphemias, nem con-
versas livres. O fausto, os enfeites, e os sumptuosos banquetes, haviam
dado Jogar á modestia, á austeridade, e ao exterior da penitencia; sermões
edificantes todas as tardes, abundantes peditorios a favor dos pobres, uma
apparencia geral de compuncção e emenda.
«Confesso que na Italia é que eu melhor aprendi a apreciar a uti-
lidade da Quaresma, e a fazer justiça aos motivos que a fizeram instituir.
Não posso partilhar a opinião d'aquelles que pensam qae, devendo os
homens em todos os tempos levar uma vida conforme aos principias da
fé, é uma superstiç.ão o reservar uma porção do anno para uma devoção
maior que de costume. Quando se reflecte na difficuldade de conter con-
stantemente os homens nos limites do dever, não se tarda a reconhecer
como é importante fixar no :rnno um tempo de duração razoavel, para· os
obrigar a entrarem em si e a fazerem serias reflexões sobre o seu pro-

(1) Vide novos particulares sobre este importante ponto no l. IV do Catecismo,


lição LV.

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DE PERSEVERANÇA. 35
cedimento : para que o pe~cado não lance mui profnndas raizes e o ha-
bito do vicio se não torne mui difficil de destra ir (1 ). »
III. INSTITUIÇÃO DA QUARESMA. - D'estas considerações geraes, pas ..
semos á instituição da Quaresma e ao modo de a santificar. A Quaresma
ou o jejum de quarenta dias, immediatamente antes da festa da Pascboa,
é, sob muitos aspectos, o que os Christãos teem mais. santo e mais ve-
neravel pela sua antiguidade, pela sua universalidade e pelo numero das
vantagens espirituaes que d'ahi resultam. A palavra Quaresma é uma
contracção manifesta da palavra latina quadragesima, pela qual a litur-
gia designa a santa quarentena.
Este jejum de quarenta dias é uma imitação do de Nosso Senhor,
posto que não se observe na epocha em que o Evangelho põe o jejum
dominical Nosso Senhor começou o seu logo depois do baptismo, e este
ultimo acontecimento realisou-se nos primeiros dias de janeiro. Mas a
Egreja quiz collocar este jejum de quarenta dias no tempo que precede
a festa da Paschoa, a fim de nos preparar, por meio d'uma longa prá·
tica da mortificação, para celebrarmos dignamente o glorioso anniversa-
rio da resurreição de Jesus Christo (2).
A Quaresma é d'instituição apostolica; assim que os fieis de todos
os seculos tiveram como dever sagrado o observai-a (3). Não ha conti-
nente, diz S. Basilio, nem ilha, nem cidade, nem nação, nem canto de
terra, por mais afastado que esteja, onde não seja proclamado o jejum qua-
dragesimal. Exercitos inteiros, os viajantes, os marinheiros, os commer-
ciantes, longe da patria, o ouvem promulgar por todas as partes e se fe-
licitam. Ninguem se creia pois exempto de jejuar. Os anjos tomam nota
d'aquelles que observam a lei. Tende cuidado de que o vosso anjo in-
screva o vosso nome no seu canbenho, e não abandoneis o estandarte da
vossa Religião ...
(1) Sir Edwin Sanda, Eu1·opce Speculum.
(2) Racional liturgico. Quanto ás razões mysteriosas da Quaresma, S. Thomaz
explica-as a sim: Ratio autem numeri, quantum ad quadrage imale jejuoium, est
triplex secundum Gregorium. (Homil. XVI in E vang.) Primo quidem, quia virtus
Decalogi per libros quatuor sancti Evangelii impletur : denarius enim quater ductus
in qnadragena.rium surgit. Vel, quia in hoc mortali corpore ex quatuor elementis
subsistimus, per cujus voluptates prooceptis dominicis contrahimus, qu::e per Decalo-
gum sunt accepta. Unde dignum est ut eamdem carnem q~ater decies affügamus.
Vel, quia, sicut in lege offerri jubebantur decimoo rerum, ita offen-e, contendimus
Deo decimas dierum : dum enim per trecentos et sexaginta et sex dies &unus dicitur,
nos autem per triginta et sex dies affligimus (qui sunt jejunabiles in sex septimanis
quadragesimre) quasi anni nostii de~ima.s Deo damus. D. Th., 11, II, 9, 147, art. 5.
(3) Hier., 1. Ili, De jejun. quadrag., e. VII, p. 405; Leo, ln senn. IV, V e
IX, de Quadrag. ; Petr. Chrysol, Serm. XI e LXVI, etc., etc.

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36 CATECISMO

«Agora é que Nosso Senhor dá ao demonio um combate geral com


as forças reunidas de todo o seu exercito, formado dos habitantes do mundo
inteiro. Felizes aquelles qne se mostrarem dignos de tal chefe pela sua
coragem L.. Agora, reis e principes, clero e leigos, nobres e homens
do vulgo, ricos e pobres, não fazem mais que um quando se tracta do
jejum. Não seria vergonhoso considerar demasiadamente pesado um jugo
que toda a Egreja supporta com alegria (1) I»
Os Cbristãos dos primeiros seculos não comiam outra coisa, nos dias
de jejum, senão hervas, raizes e legumes, ou frncta com pão e agua.
Alguns accrescentavam um pouco de peixe sem tempero. Tudo quanto
comiam era d'uma especie tão commum e tão barata, que d'abi resultava
uma grande economia nas despezas da meza, e esta economia era, se-
gundo o conselbo dos Santos Padres, convertida em esmolas. Não comiam
senão uma vez ao dia, pela tarde. S. Fructuoso, Bispo de Tarragona, indo
para o martyrio, recusou uma bebida que lhe offereciam para o fortale-
cer, dizendo que ainda não eram horas de romper o jejum: era uma
sexta feira ás dez horas da manhã (2).
No sexto seculo, a lei da abstinencia recebeu alguma suavisação.
Permittiu-se um pouco de vinho aos que tinham o estomago fraco (3).
No septimo seculo, foram permittidos os lacticínios nos paizes septen-
trionaes, onde a estação não está suffici_entemente adiantada para forne-
cer durante a Quaresma as hervas necessarias. l\lais tarde, a Egreja, sem-
pre boa como mãe, mitigou ainda mais a sua disciplina. Em Ingla-
terra e França, foi tolerado o uso da manteiga, na falta d'azeite. Com-
tudo muitas pessoas piedosas não queriam aproveitar-se d'esta indulgen-
cia, e não se concedeu esta permissão senão com a condição de substi-
tuir esta parte da penitencia por esmolas ou outras boas obras.
IV. FIDELIDADE EM OBSERVAL-A. - A este proposito, é bom recordar-
mos alguns factos que provam a religiosa submissão com que nossos
paes observavam as prescripções da Egreja. No anno de 546, o trigo,
vinho e azeite faltavam em Constantinopla, e o povo achava-se reduzido
a grande penuria. O imperador Jnstiniano, posto que religiosissimo obser-
vador do jejum, conhecendo o espírito da Egreja, não poz difficuldade

(1) Homil. de jejun., p. 11, e Bernardo. Serm. VII de Quad1·ag., p. 4; id.,


Serm. III.
(2) Act., S. Fruct. ,
(3) 8. Bened., Reg., e. XL. Vide bellissimos desenvolvimentos na Biblioth. ve-
tus Serm. et. Homil. priscor. Eccl. Patr., 4 vol. in-fol., t. I.

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DE PERSEVERANÇA. 37
em mandar abrir os açougues na primeira semana da Quaresma, e pôr
á venda carne em todos os mercados. Mas o povo antes quiz soffrer todos
os rigores da fome que aproveitar-se d'esta indulgencia. Ninguem quiz
comprar carne, ninguem a comeu (l ).
Esta submissão religiosa atravessou os seculos. Uma das torres da
cathedral de Ruão tem conservado até hoje o nome de Torre de manteiga,
porque foi construida com o producto de piedosas contribuições, dadas
pelos habitantes, em fórma de compensação pela licença de comer man-
teiga durante a Quaresma, 1icença que o Arcebispo alcançára do Papa
Innocencio VIII, em t 489, para a sua diocese (2). Bourges e algumas
outras cidades teem tambem magnificas torres provenientes da mesma
origem. Confessemos que a Egreja não fazia muito mau uso das quantias
produzidas pela dispensa de alguns pontos da sua disciplina.
Para gloria da diocese de Nevers, é justo citar o facto seguinte. No
seculo passado, a raridade dos legumes determinou monsenhor Tinseau,
Bispo de Nevers, a permittir o uso da carne durante a Quaresma. Nin-
guem quiz aproveitar-se da permissão: até houve representações e res-
peitosas queixas. Todavia o povo soffria. Para remover todos os escrupu-
los, o Francisco de Sales do Nivernez deu em sua casa um grande jantar
que fez servir de carne. Só o exemplo do santo Bispo pôde socegar as
cousciencias e determinar nossos piedosos antepassados a aproveitarem-se
da permissão. Como os tempos estão mudados f
E' bom notar a pr.1funda sabedoria da Egreja nas modificações que,
segundo os climas e os seculos, tem feito á sua disciplina relativamente
ao jejum. A sua intenção principal foi supprimir tudo quanto é objecto
de luxo e delicadeza nos alimentos, e depois acommodar.se ao g'rau de
fervor de seus filhos. ·Assim, até ao sexto seculo, prohibe o vinho. Os
barbaras tinham arrancado quasi todas as vinhas: o vinho era raro e caro,
e podia passar por objecto de luxo. A Egreja supprime o uso d'elle du-
rante a Quaresma. Porém as vinhas tornam-se a plantar; o vinho torna-se
a bebida do rico e do artista. A Egreja começa por tolerai-o e acaba por
, permittil-o; o grau de boa vontade de seus filhos pedia além d'isso esta
condescendencia.
Depois, vêdel-a prohibir em alguns paizes o que auctorisa em outros.
O azeite e certos fructos são permittidos nos paizes quentes onde se acham
"
(1) Anast. Biblioth., Hist. Eccl.
(2) Memorias de Trévoux, an. 1741, p. 780.
3

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38 CATECISMO

em abundancia; os lacticinios são prohibidos: é o contrario nas regiões do


norte. Da mesma sorte tambem, nas dioceses visinbas do mar, é. permit-
tido o peixe. N'outras partes é prohibido, porque é raro e póde passar
por objecto de luxo e affectação. Tal é a generosidade por meio da qnal
se deve julgar o procedimento da Egreja. A variedade que boje se observa
no dispositivo das pastoraes da Quaresma, longe de parecer extra,·agante
ao homem i)lustrado, é por tanto uma prova de sollicitude e profundo
conhecimento do coração humano.
V. PRÁTICA no JEJUM. - O que não tem variado, é a obrigação de
fazer penitencia durante a Quaresma. Para a manter, exige a Egreja, na
falta da rigorosa abstinencia d'outr'ora, esmolas e orações. Aqui está
ainda materia d'elogio e não de censura. Quanto ao espírito do jejum,
tampouco tem mudado. Pela bôcca de S. Jeronymo, censura a Religião
ainda aquelles que, n'um dia de jejum, cobrem a meza de iguarias apu-
, , radas. 1Que vantagem, diz este Santo Padre, pretendeis tirar da absti-
nencia_, se ao mesmo tempo escolherdes os fructos mais raros e delica-
dos? Pondes em contribuição o que podem fornecer á sensualidade os
mais ricos cerrados: é isso mortificar-se? Pão commum, eis o que basta
quando se jejua (!).>
O espirito da Religião e a disciplina de cada Egreja são as regras
que se devem seguir na prática do jejum. Hoje permitte-se uma ligeira
collação, cuja origem é esta. Em 817, os benedictinos reunidos em capi-
tulo geral, em Aquisgram, deram, para a sua ordem, um decreto assim
concebido: 1Se o exigir a necessidade, depois de rudes trabalhos, e no
dia em que se celebra o officio dos defunctos, os religiosos poderão beber,
ainda mesmo na Quaresma, entre as comidas e as Completas (2).»
Quando se reuniam antes da hora das Co~pletas, faziam-lhes alguma
leitura piedosa ou alguma exbortação, o que se chamava entre elles c<m-
ferencia, em latim collatio. O vinbo e a agua, abençoados pelo superior,
eram distribuídos em copos a cada assistente, depois da leitura, e ás ve-
zes durante a mesma leitura. D'onde o nome de collação, litteralmente
conferencia, dado a esta ligeira refeição (3). Tendo sido esta prática adop-
tada pelos leigos e tolerada pelos superiores ecclesiasticos, tornou-se
uma leve suavisação ao preceito.
Quanto á obrigação eeclesiastica do jejum, estende-se a todos os fieis
(1) Epist. III, IV, ad Nepot., t. IV, p. 364.
(2) Conventos Aquisgran., t. XII; Cone., t. VII, lõ.08.
(3) Tbomassino, Tratado do Jejum.

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DE PERSEVERANÇA. 39
que teem vinte e um annos completos, a não ser que graves razões os
dispensem. Aqui ainda devemos admirar a sabia sollicitude da Egreja.
Nos seculos de fervor toda a gente jejuava, até mesmo as creanças; mas
a prática da lei variava conforme a edade e_o temperamento. No seculo
de S. Thomaz, agitou-se a questão de saber em que edade precisamente
podia o jejum conciliar-se sem inconveniente com o crescimento e o tem·
pcramento. Depois de maduro exame, fixou o Doutor angelico a edade
do jejum aos vinte e um annos completos, isto é, depois do terceiro sep-
tenario. A sua opinião, fundada nas profundas investigações da medi·
cina, prevaleceu. O uso adquiriu força de lei e serve hoje de regra na
Egreja ( t).
VI. DISPENSA no JEJUM. - São consideradas como razões graves e
sufficientes para dispensar do jejum: a incapacidade physica, qual a dos
doentes; o esgotamento causado por grandes trabalhos; a vista de maior
bem, como velar um doente. prégar, etc. Para se pôr a consciencia em
segurança, é necessario dirigir-se aos pastores da Egreja; é bom aj,untar
algumas vezes o conselho d'um medico piedoso e esclarecido. Um leve des·
arranjo, um pequeno incommodo, uma simples indisposição, não são suffi·
cientes para dispensar do jejum: a dieta, pela contrario, é muitas vezes o
melhor remedio n'esses casos.
Sob o titulo de trabalhos fatigantes e capazes de esgotar as forças,
não se devem comprehender os dos barbeiros, alfaiates, joalheiros, es-
criptores, compositores d'imprensa, etc. O regime dos pobres lavradores
é, segundo a observação de Collet, um jejum perpetuo. Outro tanto se
deve dizer de todos aquelles a quem a miseria não permitte fazer cada
dia o que se póde chamar um banquete. Os que não podem jejuar de-
vem suppril-o por obras de penitencia, por esmolas mais abundantes, por
mais longas orações, e por maior resignação nos soffrimentos.
Para ser verdadeiramente util, deve o jejum ser acompanhado da
esmola e da oração, da renuncia ao peccado e ás occasiões de commet-
têl-o. E' pois necessario ser assíduo nos exercícios de piedade e nas in-
(1) ln pueris maxime est evidens causa non jejunandi: tum propter debilita-
tem naturre, ex qua provenit quod indigent frequenti cibo, et non multo simul as-
sumpto; tum etiam quia indigent multo nutrimento propter necessitatem augmenti,
quod fit de residuo alimenti. Et ideo quamdiu sunt in statu augmenti quod est ut in
pluribus usque ad finem. tertii septennii, non tenentur ad ecclesiastica jejunia obser-
vanda. Conveniens tamen est ut etiam in hoc tempore se ad jejunium exerceant.
Quandoque tamen, magna tribulatione imminente, in eignum pc:enitentire arctioris
etiam pueris jejunia indicantm·: sicut etiam de jumentis legitur Jonre, III, 7: Ho-
mines et jumenta non gustent quidq_uam, nec aquam bibant. D. Tb., II, II, q. 147~ art. 4.
*
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40 CATECISMO

strucções; preparar-se, por meio d'uma meditação séria sobre si mesmo,


para uma boa confissão; e finalmente, fazer jejuar todos os nossos senti-
dos que foram outros t~ntos instrumentos de peccado. Aqui ainda um
novo motivo para admirar-se a profunda sabedoria da Egreja.
Elia sabe muito bem que o jejum não é sufficiente para fazer entrar .
o homem em si e operar a sua renovação interior. Assim que tem cui-
dado de prohibir-lhe durante a santa quarentena tudo o que póde leval-o -
á dissipação. Os espectaculos de todas as especies são strictamente inter-
dictos durante a Quaresma pelos Santos Padres, pelos concilias (1), e até
pelos imperadores, que estenderam a prohibição aos domingos ou dias
festivos do resto do anno (2). O exercício da caça, os processos e os plei-
tos eram similbantemente defendidos. A suspensão das armas entrava
egualmente nas obrigações do tempo de penitencia.
D'est'arte, nossos paes tomavam verdadeiramente a Quaresma a se-
rio. Então ob$ervava-se profundo silencio no mundo. Não se ouvia mais que
a grande voz da Egreja que chamava seus filhos á penitencia ou que im-
plorava para elles a misericordia divina. A sociedade inteira, desde o rei
assentado no throno até ao intimo de seus subditos, tomava a face de Ni-
nive penitente. E' de admirar que a Quaresma produzisse uma renova-
ção total?
VII. EFFEITOS no JEJUM. - Meu Deus, meu Deus, quando tornare-
mos a vêr o bello espectacnlo que apresenta\ a outr'ora a sociedade, isto
é, as nossas cidades e aldêas christãs durante a santa quarentena? crDo
mesmo modo, diz S. Cbrysostomo fallando no meio da immensa cidade
d' Antiocbia, que um campo d'oode se acabam de arrancar as más bervas
está mais apto para produzir os fructos que d'elle se esperam, assim tam-
bem as austeridades da Quaresma reanimam a tranqoillidade da alma e
a dispo·em para a prática de todas as virtudes. Não ba bnlba, não ba tu-
multo durante este santo tempo. Não se vê nem venda de viandas, nem
afan de cozinheiros em pro\ocar a intemperança. A cidade tomou o as-
pecto d'uma casta matrona, d'uma sobria e grave mãe de familia.
«Quando vol o os olhos para a trao mutação que tudo soffreu em
taro poucas horas, não posso deixar de admirar a força e o poder do je-
jum. Purifica o coração e transforma o ·e pirito do magistrado e do ho-
mem privado, do rico e do pobre, do grego e do barbaro, d'aquelle que

(1) Chrys., Hornil. VI, de Prenit.; .Act. Eccl. Mcdiol., part. III.
(~) Photius, Nomocan., tit. VII, e. I.

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DE PERSEVERANÇA.

cinge o diadema e do escravo que lhe obedece. Já não noto differença


entre a mesa do homem opulento e a do homem reduzido á mais triste
miseria. Em todas as partes alimento simples, frugal, sem luxo, e sem
ostentação ; e, o que é mais de admirar, vão com mais prazer para uma
mesa assim servida, do qµe iam antes para a que estava coberta dos man-
jares mais preciosos e dos mais raros vinhos (t ). »
VIII. LITURGIA DA QUARESMA. - Se a santa quarentena já não pro-
duz estes saudaveis effeitos, não se deve lançar a culpa á Egreja. As suas
ordens não são menos formaes, as suas exhortações menos instantes, e
a sua liturgia menos instructiva. Desde a quarta feira de Cinza, envol-
vida em vestes de lucto, se abysma inteiramente no espírito da peniten-
cia. Adeus cantos d'alegria, e ornamentos de vivas e risonhas côres. Os
olhos e os ouvidos não são feridos senão de sons lugubres e imagens de
tristeza. Os accentos dos Prophetas que, do fundo da sua solidão ou do
meio de Jerusalem, chamavam Israel á penitencia, resoam por todas as
partes. Mas eis outro modêlo e um penitente mais illustre, para o qual
a divina Mãe attrahe os olhos de seus filhos: este penitente é o Filho de
Deus.
O Evangelho da primeira dominga de Quaresma nol-o mostra en-
trando no deserto, condemnando-se a um jejum de quarenta dias, luc-
tando contra os ataques do demonio e bradando-nos a todos : Dei-vos o
exemplo, para que f açaes como eu fiz (2). Retirae-vos á solidão, sepa-
rae-vos das vans distracções do mundo, jejuae, e combatei contra as tres
concupiscencias: o amor dos prazeres, o amor das riquezas e o amor das
honras ; pela fé é que sereis vencedores. Oh 1 quam bem nos conhece a
Egreja, quando, para começarmos a Quaresma, nos chama á solidão 1
Com effeito, no bulicio, no movimento, e nas agitações da socieda-
de, ha pouco logar para os pensamentos graves e sérios; as inspirações
que elevam a alma não veem da praça publica. O Salvador está no de-
serto. Era possivel escolher um evangelho mais apropriado ás circum-
stancias? De tarde, a vesperas, canta-se em tom triste e plangente o bello
hymno de S. Gregorio : Audi, benigne Conditor.
«Escutae, misericordioso Creador, as orações acompanhadas de la-
grimas que nós derramamos durante este jejum sagrado de quarenta
dias.

(1) Homil. XV in Gen.


(2) Joan., XIII, 15.

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CATECISMO

dnfallivel Escrutador dos corações, vós conheceis a nossa fraqueza;


concedei a graça do perdão áquelles que voltam a vós.
«Ternos peccado muito; mas poupae aquelles que vos confessam as
suas culpas; para gloria do vosso nome, curae aquelles que estão enfermos.
«Fazei com que enfraqueçamos de tal sorte a carne pelo jejum ex-
terior, que o espírito, tornado sobrio, se abstenha de todo o peccado.
«Fazei, ó bemaventurada Trindade, ó divina Unidade, com que os
jejuns que \'OS consagramos sejam uteis aos vossos servos. Assim seja.
Amen.»
Na primeira dominga de Quaresma, o mais tardar, é que se devem
pedir as dispensas auctorisadas pela pastoral do Bispo, se se julga que
se não póde observar a lei em toda a sua plenitude. Ao lado dos rigores
da penitencia, estabeleceu dispensas a Religião, boa e terna qual mãe.
Quando ella manda, é necessario obedecer; esta submissão é quanto ha
mais agradavel a Deus. Pedir para não jejuar, para não comer de peixe
toda a Quare~ma, é um acto d'obediencia. E' já separar-se do prazer da
fazer a propria vontade; é reconhecer a auctoridade da Egreja, e con·
fessar-se seu vassallo. Quando, nos espiritos e nos corações, ha uma ne-
cessidade infrene de independencia e liberdade, é preciso saber ter em
conta o mais pequeno acto de submissão. N'nm paiz fertil, passa-se ao
lado dos mais viridantes prados sem parar-se a contemplal-os, e no de·
I
serto extasia-se a gente ante urna moita d'herva; porque esta diz: Ha
aqui ainda um pouco de frescura, e nem tudo está morto (t). Ministros
d"um Deus de bondade, os Sacerdotes nunca recusam as dispensas áquel-
les que vão sollicital-as.
Desde o sexto seculo, a primeira dominga de Quaresma chama-se a
dominga uos Bmndões. D'onde vem esta singular denominação? Bran-
dão quer dizer tocha. Ora, na primeira dorninga de Quaresma, os jovens,
principalmente aquelles que se tinham dirertido em demasia durante o
Carnaval, iam apresentar-se na egreja, com a tocha ou vela na mão, como
para darem satisfação publica e pedirem para se purificar recebendo a
penitencia que lbes era imposta pelos Pastores, por toda a Quaresma até
á Quinta-feira Santa (2). Seculos de fé 1 seculos felizes f Se nossos paes
commettiam faltas, ao menos sabiam reparai-as.
O pensamento do juizo final, o poder da oração no exemplo da Cba-

(1) Quadro poetico das festas, p. 106.


(2) Gloss., t. I, p. 610; Labb. Chron, an. 1622.

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DE PERSEVERANÇA.

nanea, e a efficacia da penitencia na parabola do paraly-tico, são succes-


sivamente offerecidos ã meditação dos fieis, nos evangelhos da primeira
semana. Vêde com qne arte infinita gradua a Egreja as suas instrucções
e conduz os nossos corações a uma sincera penitencia l
Na segunda dominga da Quaresma lê-se á Missa a historia da trans·
figuração de Nosso Senhor no Thabor. Similhante a uma mãe que, para
excitar o filhinho a passar um ponto difficil, lhe apresenta uma recom-
pe.nsa, a Egreja, para animar-nos na prática da penitencia, se apressa a
mostrar-nos a gloria que d'ella será fructo. Se soffrerdes com Jesus Chris-
to, sereis coroados com elle: eis o que ella diz Jogo á entrada na car·
reira da mortificação. Quam bem conhece essa mãe o coração de seus
filhos!
Depois de ter-nos proposto os dois grandes moveis de todas as nos-
sas acções, o temor e a esperança, o juízo final e o ceo, tem a Egreja
direito de fazer ouvir severas ameaç.as aos que permanecem insensíveis
na sua impenitencia. Fal-o no evangelho da segunda feira da segunda se-
mana de Quaresma. Nos dias seguintes, põe-nos de sobre-aviso contra o
exemplo dos maus christãos que recusam converter-se durante este santo
tempo; depois recorda-nos, na parabola de Lazaro e do mau rico, a
obrigação da esmola ; depois a desgraça d'aquelles que rejeitam a Jesus
Christo ; depois a infinita bondaue de Deus para com os peccadores, na
divina parabola do Filho prodigo. Não ha nem uma fibra do nosso cora-
ção que ella não agite.
Na terceira dominga, nos dá a Egreja uma instrucção não menos
importante lembrando-nos que o acto essencial da penitencia, é uma boa
confissão. O evangelho âa terceira doming_a tem por objecto fazer-nos
evitar o perigo infelizmente mui commum de não termos sinceridade na
confissão das nossas culpas. Representa-nos, sob a figura do possesso
surdo-mudo, o triste estado do peccador cuja bôcca não se descerra para
a oração e confissão, e cujos ouvidos não se abrem para a verdade.
A perfeita alvura que recebe a nossa alma no banho saudavel, figu-
rada pela cura de Naaman, o poder dos Sacerdotes de atar e desatar as
consciencias, a infinita bondade do Salvador para com as almas mais aban- ,
danadas, no evangelho da Samaritana e da mulher adultera: eis o as-
sumpto dos evangelhos d'esta terceira semana. Conheceis coisa ·mais pro-
pria para fazer descer aos corações culpados a confiança, tam necessaria
ao homem amedrontado com o pensamento do seu juiz e coberto da ver-
gonha das suas iniquidades?

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CA.TECISMO

A quarta dominga nos faz dar mais um passo para o termo aonde
a Egreja nos quer conduzir. E que termo é esse ? São as bôdas do Cor-
deiro. Quer esta terna mãe reunir todos os seus filhos em redor da meza
do pa_e de familia. Nada se omittiu para revestil-os da tunica nupcial. Hoje
abre aos seus olhos a sala do festim, e lhes mostra o pão angelico e o
\'inho virginal que os esperam. O evangelho da quarta dominga recorda
a communllão, na historia da multiplicação dos pães. Povos fieis, nos diz
a Egreja, que seguis o Salvador á solidão e ao recolhimento, que esque-
ceis todos os negocios da vida para escutardes a sua divina palavra, não
temaes, que elle terá cuidado em vós ; não vos deixará cahir em desfalle-
cimento. Eil-o que vae, para vos alimentar, mulliplicar o pão que dá a
immortalidade, o pão que desceu do Ceo.
Toda a semana é assignalada pela narração dos milagres· mais bri-
lhantes e palpaveis do Filho de Deus. Os vendedores expulsos do Templo,
a faria da Synagoga suspensa ao grado do Homem-Deus, o cego de nas-
cença curado, e o filho da viuva de Naim e Lazaro resuscitados : eis os
milagres com que a Egreja tem cuidado de confirmar o maior de todos,
o da Eucbaristia. Devemos todos participar d'elle, é pois necessario ani-
mar a nossa fé ; e podia havêr-se melhor para o conseguir ? Sigamos passo
a passo esta mãe tão esclarecida, meditemos attentamente está serie de
instrucções tão bem dirigidas, e o nosso coração se encherá de todas
as disposições requeridas para nos aproveitarmos da Quaresma e da Com-
munhão paschal.
A quarta dominga da Quaresma chama-se vulgarmente Lretare, ale-
grae-vos, da primeira palavra do Introito da Missa. Parece que a Egreja,
no resto do officio, quiz escolher os pontos da Escriplura Sagrada mais
proprios para excitar em seus filhos uma alegria espiritual, e para con-
solai-os dos males d'esta vida. Boa mãe, entrernêa a alegria com a dôr, e
apresenta um allivio áquelles que passaram animosamente o meio da santa
e penosa carreira.
Até havia permittido, nos seculos mais felizes, certos regosijos ex-
ternos, dignos em tudo da santidade christã; mas a gente ruim apode-
rou-se d'essas alegrias innocentes, que não eram destinadas para ella; e,
manchando tudo quanto toca, não conservou da festa do meado da Qua-
resma senão o que póde lisongear os sentidos. Ella que não jejua, teve a
insolencia de escolher esses dias de descanço, depois do trabalho da pe-
nitencia, para n'elles dar bailes e festins criminosos, ou quando menos
,. inconvenientes.

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DE PERSEVERANÇA.
I

ORAÇÃO.
,

O' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por terdes mul-
tiplicado os meios de me fazer entrar em mim durante o santo tempo da
Quaresma; fazei com que os aproveite.
Tomo a _resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de assistir com piedade ás instrucções da Quaresma.

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CATECISMO

TRIGESIMA·QUARTA LIÇÃO.

Ochrislianismo tornado sensivel.

Dominso e •emana da Paixão. - Festa da ~ompatsão. - se-


mana Manta. - Seu• differentes nome11.
-Piedade de nosso• pae•.

1. DOMINGO E SEMANA DA PAIXÃO. -A Egreja, que nos havia levado


ao deserto com o Filho de Deus, nos chama hoje á via dolorosa que este
divino Salvador vae percorrer, desde o jardim das Oliveiras até ao Cal-
vado. Eis que chegam o domingo da Paixão e os preparativos do enterro
do Homem-Deus. A Egreja está em lagrimas: tudo annuncia o lucto pu-
blico. Supprime na Missa o cantico Judica. como faz nas Missas de de-
functos. Não ha Gloria Patri, nem nos responsorios, nem no invitatorio
do Officio, nem na Missa. Um crepe roixo cobre a cruz, as estatuas e os
paineis. Os ministros sagrados não vestem senão ornamentos lugubres,
imagens da dôr e prégadores da penitencia.
· Na Missa do domingo da Paixão, a santa esposa do Homem-Deus
sobe com sua familia atribulada ao topo do Calvaria. Lá, na epistola, nos
descreve S. Paulo a morte da grande Victima do genero humano, e nos
diz que só o seu sacrificio era capaz de expiar o peccado; pois os sacri-
ficios antigos não eram mais que a figura do da cruz. No Evangelho, re-
corda-se-nos a perfeita innocencia e a divindade da Victima, e o crime
dos judeus obstinados, que, não obstante a evidencia dos milagres e a
santidade da doutrina do Salvador, formam o iniquo projecto de o im-
molar.
Mostrando em todo o seu brilho a sua divindade aos judeus conju-
rados, lhes dá Jesus uma grande prova do seu amor; pois lhes apresenta
o mais poderoso motivo para lhe não pôrem mãos sacrilegas. Diz-lhe o
que o propheta Jeremias dizia a seus paes: «Eis que vou estar nas vossas
«mãos, fazei de mim o que quizerdes. Comtudo, sabei que, se me ma-

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DE PERSEVERANÇA. i7
atardes, derramareis sangue innocente contra ''ÓS, contra Jerusalem e seus
«habitantes; porque eu sou verdadeiramente o enviado de Deus (t). »
Estas graves palavras que o Salvador dizia aos judeus ha mil e oito-.
centos annos, as diz ainda cada anno, no começo do te.mpo paschal, a
todos aquelles que se dispoem a recebêl-o : Eis que vou pôr-me á vossa
disposição. Quando estiver no vosso coração, fareis de mim o que qui-
zerdes. Comtudo, sabei que~ se me crucificardes de novo, derramareis
sangue innocente contra vós; porque eu sou verdadeiramente o Filbo de
Deus. Oh! quam propria é esta adverlencia para fazer-nos entrar em nós,
a fim de nos experimentarmos seriamente, como quer o apostolo S. Paulo,
para que não vamos á meza sagrada comer e beber a nossa condemnação !
O Evangelho da Missa nos diz assaz que a Paixão, o Cah·ario e a
Cruz vão ser o pensamento fixo da Egreja. Assim que, quando tudo no
templo santo annuncia o lacto, os Sacerdotes cantam, a vesperas, n'um
tom lento e solemne, o bymno de S. Fulgencio: Vexilla Regi'.s prodeunt.
«Eis o estandarte do grande Rei;
«Eis o mysterio da Cruz que radia;
«Eis o mysterio que nos mostra um Deus pregado n'uma cruz,
«Um Deus pregado por amor de nós n'um cadafalw infame 1
«Vêde, do lado do Salvador, o sangue que corre.
uCorre misturado com agua pa1·a apagar os nossos crimes.
«Agora estã"o cumpridas as palavras de David.
o:Propheta, havia dicto ás nações:
«Por meio do madeiro é que Deus ba de reinar.
«Arvor~ que o Rei dos reis ensopou com o seu sangue;
«Arxore resplandecente e bella !
«Arvore privilegiada, tu foste escolhida entre todas as outras;
«E tocaste os sagrados memb"ros do Santo dos Santos.
«Oh 1 quam felizes são os teus braços 1
«Produziram o resgate do mundo.
«E nos teus ramos, como n'uma balança, é que foi pesado o corpo
divino, e arrebatou a prêsa do inferno.
e:Salve ! ó Cruz, nossa unica esperança!
«O' Cruz! n'estes dias· da Paixão,
«Augmenta a piedade nos corações dos justos;
«Alcança o perdão dos culpados.»

(1) Jerem., XXVI.

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48 CATECISMO

Estas derradeiras palavras são muitas vezes repetidas nos santos dias
que vão seguir-se, e o mesmo succederá com todas aquellas que podem
fazer nascer no coração dos Christãos sentimentos de verdadeira com-
p~ncção. Deix~mo'-nos levar pelas impressões da fé; e, ao sangue de
nosso Pae immolando-se por nós, juntemos ao menos as nossas Jagri-
mas.
Na segunda feira, nos mostra o Evangelbo o Salvador muito menos
occupado dos tormentos que lhe preparam, que da salvação dos seus ini-
migos, chamando-os, supplicando-lhes que se convertam com estas in-
stantes palavras : Se alguern tem s~de, venha a mim. Eu estou ainda com-
vosco por algum tempo. Em breve vou para Aquelle que me enviou.
Então me procurareis e não me encontrareis (i).
Na terça e quarta feira, vêmos no Evangelho, por um lado, as más
tenções dos judeus manifestando-se cada vez mais; por outro, o Homem-
Deus, sempre tranquillo, suspendendo á sua vontade o furor dos seus
inimigos, e continuando as suas tocantes exhortações até ao momento
marcado para o poder das trevas.
O Evangelho da quinta feira nos patentêa toda a paternal misericor-
dia que ha no coração do Salvador. E' a historia da peccadora penitente
que, depois de ter banhado com suas lagrimas os pés do divino Redemp-
tor, mereceu ouvir estas palavras: Muitos peccados lhe serão perdoados,
porque amou muito (2). O' Jerusalem l se tu quizesses, algumas lagri-
mas de arrependimento seriam sufficientes para alcançares o teu perdão:
eis o que dizia o Salvador aos judeus por meio d'aquelle milagre de mi-
sericordia. Tam certo é que o nosso Deus é vagaroso em castigar, e que
não castiga senão com pezar e depois de ter esgotado todos os meios de
corrigir os peccadores endurecidos: e a este Salvador tam bom é que os
judeus querem fazer morrer como um scelerado !
Sim, assim é; e o Evangelho do dia seguinte vae contar-nos as de-
liberações, as disputas, e os votos d'aquelle horrivel conselho em que se
decidiu a morte do Homem-Deus.
Se o coração de Jesus soffria com tanta perversidade. havia outro
coração que sentia tambem as mais vivas dôres, o qual era o de Maria.
E para mover mais segura, mais profundamente seus filhos, a Egreja nos
faz honrar na sexta feira a paixão da dôce Virgem. Sim, quer que te-

(1) Joan., VII, 37.


(2) Lucas, VII, 47.

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DE PERSEVERANÇA. 49
nhamos compa1xao d'aquella mãe atribulada, e atribulada por cansa de
nós. Quer que dêmos à sua dôr a consolação unica que ella póde, que
ella quer receber, uma amarga dôr dos nossos peccados, uma dôr como
a que sente o filho bem creado vendo chorar sua mãe.
II. FESTA DA COMPAIXÃO. - A festa da Compaixão, destinada a hon-
rar as dôres de Maria, a quem a Egreja chama a Rainba dos martyres,
foi prescripla em t 4.23, no concilio de Colonia, para reparar as blaspbe-
mias e os ultrajes dos hussitas contra esta bemaventurada Mãe de Deus.
Porém a origem d'esta festa parece remontar muito mais atraz. Uma an-
tiga tradição, espalhada no Oriente, diz que, no dia da Paixão, quando
toda a cidade de Jerusalem estava em tumulto, a SS. Virgem, separada
um ·instante de seu divino Filho, o encontrou quando subia ao Cal vario.
A vista d'este Filho muito amado, coberto de sangue e feridas, coroado
de espinhos e carregado com o instrumento do supplicio, fez tal impres-
são em Maria, que desfalleceu.
Quando se pensa na ternura da melhor das mães pelo melhor dos
filhos, quando se pensa principalmente que o Salvador, Deus como era,
cahiu em agonia no horto de Gethsemani, a ponto que um anjo houve de
soccorrêl-o; quando, digo, se pensa em tudo isto, comprehende-se sem
custo o desfallecimento de Maria, o qual nada offerece incompatível com
o seu animo heroico (t). Todavia, esta circumstancia não auctorisa os
pintores a representarem-nos a SS. Virgem desfallecida ao pé da Cruz.
Não; a Mãe de Jesus .que havia dito: Vamos, ei8 aquell~ que deve ven-
der-me, estava em pé no Calvaria.
Mas é licito representai-a com o coração traspassado por sete espa-
das, symbolo das sete grandes dôres que sentiu durante a vida. Estas
dôres são : a prophecia de Simeão, a degolação dos Innocentes, a perda
do Menino Jesus no Templo, o levamento da Cruz, a crucificação, o
descimeoto da Cruz e o enterro. Os sete fundadores da ordem dos ser-
vos de JJfaria se dividiram para meditar as sete dôres de Maria, e de·
ram origem a esta devoção e ás pinturas que a exprimem.
Em memoria do espasmo da SS. Virgem, celebrava-se a festa cha·
mada em França do Espasmo ou do Desmaio. Era solemnissima e es-
tava mui diffundida no decimo-quinto seculo. Em Jerusalem, no mesmo
sitio em que succedêra o accidente, edificára-se uma egreja de que já não

(1) Vide a discussão de Benedicto XIV, De festo dolor. B. Virg., p. 460, n.


51 6 e 7.

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50 CATECISMO

se viam senão minas no seculo decimo-sexto. E' isto uma prova da an-
tiguidade da tradição de que acabamos de fali ar. Filhos da grande fami-
lia catholica, eis nosso pae e nossa mãe, Jesus e Maria, abysmados n'um
mar d'amarguras: este espectaculo não dirá nada aos nossos corações?
por amor de nós, por causa de nós é que elles soffrem aquellas dôres a
nenhuma outra similhantes. Dizei-me_, póde a Egreja despertar-nos, du-
rante a Quaresma, uma recordação mais capaz de desprender o nosso
coração do peccado ( t)?
No sabbado, seguinte dia da Compaixão, o Evangelho nos apresenta.
o Salvador ceando em casa de Lazaro a quem acabava de resuscitar;
Maria, irmã d' este, derramando um perfume de grande preço nos ~ pés
do ·Homem-Deus, e as ternas pala\'ras com que o divino Mestre prepara
os seus discípulos para a mais cruel de todas as separações.
Fallando da acção de Maria, havia Nosso Senhor annunciado que se-
ria conhecida e celebrada por todo o universo. Em Roma, um tocante
costume perpetuou por muito tempo a recordação d'ella. No sabbado an-
tes dos Ramos, ia o Soberano Pontifice á egreja de S. Pedro; e lá dis-
tribuia esmolas de todas as especies aos pobres e aos estrangeiros que
alli iam em grande numero. O Viga ~io de Jesus Christo ia depois levar
os mesmos beneficias aos necessitados e aos enfermos dos differentes
bairros, que não podiam lá ir ou que não se atreviam a apparecer
alli.
Jonlo do sitio destinado a estas distribuições, havia uma pequena
corrente d'agua, chamada a Forrna sabbatina, onde o Summo Ponlifice
lavava os pés aos pobres a quem dava esmolas. Era, como dissemos, em
memoria da acção de Maria, irmã de Lazaro; era lambem para diminui~
as ceremonias da Quinta-feira Santa, entre as quaes o lava-pés occupava
um lugar distincto (2).
Ili. SEMA~A SANTA. - Eis-nos pois chegados ao começo da grande
semàna. Como fez bem a Egreja em conduzir-nos atravez das graves li-
ções, dos grandes exemplos, do silencio, do recolhimento e das austeri-
dades da penitencia, ao sagrado caminho do Ca.lvario f Sem .a penitencia
da Quaresma, sem as lagrimas que derramamos, sem as privações a que
nos submettemos, sem a branca tunica da innoceocia que nos deu o ar-

(1) Durante a Quaresma toda, e especialmente no dia da Compaixão, é que


convém recitar com particular attenção o bymno das dôres de Maria, o inimitavel
Stabat, composto pelo grande Papa Innocencio III. Vide Bened. XIV, p. 460, n. 5.
(2) Bened. XIV, De dom. Palm. , p. 80, n. 24.

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DE PERSE\'ERANÇA. 5{

rependimento, como ousariamos subir ao Golgotha para vêrmos morrer


um Deus? Mas se choramos do fundo do coração, se nos immergimos
no banho do sangue reparador, estamos taro puros como os anjos, _e,
como elles, poderemos cercar a Cruz (-1).
A semana que começa no domingo de Ramos e que acaba no Sab-
bado Santo, tem diflerentes nomes. Chama-se-lhe primeiro Semana mor.
Ha duas semanas mores no decurso do anno : a primeira, em que Deus
creou o universo e cada dia da qual íoi assignalado por um milagre de
poder; a segunda, em que Deus reparou e tornou a crear em certo modo
a sua obra, a purificou, e a restituiu á sua santidade primitiva peto san-
gue e morte de seu Filho. E esta segunda semana, cada dia da qual foi
assignalado por um milagre d'amor, é incomparavelmente maior que a
outra.
«Chamamos-lhe Mor, diz S. Chrysostomo, não porque tenha mais
dias que as outras semanas, ou porque os dias tenham mais horas, mas
sim por causa do numero e da grandeza dos mysterios que n'ella se ce-
lebram; porque n'estes dias é que foi destruída a tyrannia do demonio,
que foi desarmada a morte, que o peccado e a maldição foram apaga-
dos, e que o Ceo foi aberto e tornado accessivel ao homem, que por
esse modo veio a ser egual aos anjos. O jejum e as vigilias são tambem
mais longos, e os officios mais multiplicados (2). »
Cbama-se-lhe lambem semana Trabalhosa, por causa dos trabalhos
e soffrimentos do Salvador; semana de Indulgencia. porque n'ella se re-
cebiam os penitentes á absolvição e depois á communhão dos fieis; se-
mana de Xerophagia, isto é, em que só se comiam coisas sêceas sern pre-
paro algum, como praticava toda a gente durante os seis dias d'esta se-
mana; finalmente semana Santa, por causa da santidade das coisas que
n'ella se realisam e ·aas disposições com que devemos assistir a ellas. E
este nome, que vale um livro inteiro, prevaleceu geralmente. Mostremos
pelas nossas obras que comprehendemos a sua extensão, e, para isso,
lembremo'-nos dos exemplos de nossos paes.
IV. PIEDADE DE Nossos PAEs.-Outr'ora, todos os dias d'esta semana
maior e da semana seguinte eram outros tantos dias de festa. O trabalho
manual, o negocio, e a continuação dos processos, eram prohibidos. Os
imperadores romanos confirmaram nos seus decretos este bello regula-

(1) Quatro poet ., p. 112.


(2) Homil. XXX, in Gen.

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52 CATECISl\10

mento da Egreja (1). S. Chrysostomo tinha na mente estas disposições


imperiaes quando dizia ao povo de Antiochia: «Não são unicamente os
pastores da Egreja e os prégadores que recommendam aos fieis que hon-
rem e santifiquem esta semana: os imperadores o ordenam tambem a toda
a ~terra, mandando suspender as causas e os processos criminaes e parar
todos os negocios civis e seculares, para que estes dias santos sejam
exemplos de perturbações, de disputas, do embaraço dos processos e de
qualquer outro tumulto capaz de impedir que se empreguem com des-
canço e tranquillidade na piedade, nos exercicios da Religião e no bem
espiritual das almas (2). » -
A Semana Santa era tarnbem um tempo de indulgencia e de remis-
são. Os priacipes christãos, quer em reconhecimento das graças que Deus
concede aos homens pelos merecimentos da morte de Nosso Senhor, quer
pelo desejo de imitarem em certo modo a sua bondade, conformavam a
sua politica com a da Egreja, que reconciliava n'este tempo os penitentes
publicos. Abriam as prisões, pagavam as dividas dos devedores e os pu-
nham em liberdade. «0 imperador Tbeodosio, diz ainda S. Chrysostomo,
enviava cartas de remissão ás cidades para soltar os prêsos e dar a vida
aos criminosos nos dias que precedem as grandes festas da Paschoa (3). »
A clemencia dos imperadores regulava-se pela prudencia. Não se
soltavam senão os prêsos cujo contacto e liberdade não podiam ser peri-
gosos nem aos outros nem á sociedade. Os successores d'aquelle grande
principe obraram do mesmo modo. Não contentes em escrever aos seus
officiaes, fizeram leis para renovar estas especies de graças todo's os annos. -
Cumpre ouvir a este respeito o grande S. Leão.
cxüs imperadores romanos, diz, por um effeito da sua piedade e por
um costume antigo, abaixam a sua magestade e suspendem todo o seu
poder em bonra da Paixão e Resurreição de Jesus Christo. Suavisam a
severidade das suas leis, e mandam soltar aquelles que são reos de di-
versos crimes, para que, n'estes dias em que o mundo é sa1vo pela mi-
sericordia de Deus, possam representar-nos a sua bondade infinita, e imi-
tai-o em certo modo por meio d' este rasgo da sua clemencia (4). »
E o santo Papa, tirando as consequencias religiosas d'este admiravel
procedimento, ajunta incontinenti: «E' mui justo que os povos cbristãos

(1) Cod. Tbeod., 1. II, tit. VIII, leg. 2.


(2) Gothofr., Not. in Cod. Theod., p. 114.
(3) Homil. XL, in Maj. hebd.
(4) Serm. XXXIX, de Quadrag., p. 210.

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DE PERSEVE~ÇA.

imitem tambem os seus principes, e que estes grandes exemplos os le-


vem a usar entre si de indulgencia n'este santo tempo; porque as leis ·
domesticas não devem ser mais inhumanas que as publicas. ,E' preciso
pois que todos se perdoem reciprocamente, que se remittam as o:ffensas
e as dividas, que se reconciliem e que renunciem a todo e qualquer re-
sentimento, se quizerem ter parte nas graças que mereceu Jesus Christo
pela sua Paixão, e celebrar dignamente a festa da Paschoa (t ). »
Diz-nos S. Agostinho que este tocante costume estava estabelecido no
seu tempo na Africa. N'um sermão que pronunciou no domingo de Qua~
simodo, exhorta os fieis a continuarem, durante todo o resto do anno, a·
cessação das demandas, das questões e das inimizades, e a conservarem O·
espírito de paz e socego que lhes fôra prescripto durante as ferias da Se-
mana Santa e as da Paschoa (2).
A França, outr'ora tam piedosa, adoptára e conservára religiosamente
o tocante costume de soltar os prêsos. No seculo passado ainda elle sub-
sistia. Na terça-feira da Paixão, ultimo dia das audiencias, o parlamento
de Paris se transportava ás prisões do paJacio. Interrogavam os prêsos
e davam a liberdade a grande parte d'aquelles cuja causa era favoravel,
ou que não eram criminosos no primeiro grau. O mesmo succedia nos
dias que precediam a vigilia de Natal e a do Pentecostes (3).
Que vos parece? A Semana Santa, assim celebrada, não devia ter
grande influencia nos costumes publicos? Não é certo que a Religião, que
parece não ter por objecto senão a felicidade da outra vida, é maravilho-
samente habil para proporcionar-nos a ventara d'esta? Porqae ha de ella
ser tam pouco conhecida e tam pouco amada? Os males de que somos
victimas, não são sufficientes para nos abrirem os olhos? A voz da expe-
riencia será sempre como a do velho que se despreza'!
Quanto a nós, esta solemnidade que a Egreja observa na ultima se-
mana da Quaresma, recorde-nos a obrigação de augmentarmos em fervor.
Aquelle que é tam fraco que falte a isto, é indigno do nome de cbristão.
Terminar como devemos o santo tempo da Quaresma, é o verdadeiro meio
de colhermos os copiosos fructos da penitencia que nos foi prescripta e
dos mysterios sagrados cuja memoria celebra a Egreja.

(1) Ibid.
(2) Serm. XIX, p. 229.
(3) Thomassino, das Feitas, I. III, e. XI.

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CATECISMO

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos dou por todos os meios
de salvação que nos daes durante a Semana Santa; fazei com que entre-
mos .bem no espirito da Egreja, para que esta semana seja verdadeira-
mente santa para nós.
Tomo a resolucão de amar a Deos sobre todas as coisas, e ao proximo
como a mim mesmo pelo amor de Deus; e, em prova d'este amor, farei
alguma mortificação particular cada dia da Semana Santa.

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DE PERSEVERANÇA. 55

TRIGESIMA·QUINTA LIÇÃO.

O christianismo tornado sensivel.

Dominao de Ramos.-Sen• dift'erenteil nome•.-Proet••ão.


- Origem do canto «Gloria, Iau11,1 ete. - B.i•111a, Paixão. ~
Quarta-leira Santa. - omcio da11 Tre-vatii. - Quinta-feira
8anta.-E11pirito e divisão do omcto.-A.bl!IOlwlt;íio do• pe-
nitentetL-Ml•sa, benção do• •anto• oleo•. -Tum.alo. -
De•poJo do• auare• .- LaTa-pé•.

1. DOMINGO DE BAMos. - Até agora temos seguido o Homem-Deus


approximando-se insensivelmente de Jerusalem, onde em breve devia
derramar o seu sangue pela salvação do mundo. Cinco dias antes da sua
morte tinha chegado à villa de Bethania, pouco distante da capital. La-
zaro e suas irmãs haviam tido a felicidade de lbe darem hospitalidade.
Pela manhã pôz-se a caminho para Jerusalem, montado n'um jumentinho
seguido da jumenta (t). Esta circumstancia, tam pequena na apparencia,
não escapára ao olhar penetrante dos Prophetas. Entrando assim na ci..
dade, á maneira dos antigos juízes ou guias d'Israel, mostrava o Salvador
que era verdadeiramente o Rei pacifico, o Filho de David, o Enviado de
Deus annunciado pelos oraculos. O povo não se enganou.
Logo que se soube a sua chegada, uma multidão innumeravel sahiu
ao encontro d'elle, com ramos d'oliveira na mão e fazendo retumbar os
ares com estás acclamações : Hosanna ao Filho de David! Bemdito seja
aquelle que vem em nome do Senhor! Estas palavras, assim como os ra-

(1) Credibile est Christum Dominum aaino perpetuo insedisse, et asinam va·
casse. Quamobrem Ecclesia, in quadain ex: orationibus quas adhibet in distributione
et processione palmarum, ait: Omnipotens sempiterne Deu.11, qvi Dominum Noltrum
Jeswm Ohmiwm mper pullum <UintB sedere fecúti. Bened. XIV, p. 70, n. 6.
*
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56 CATECISMO

mos lançados no caminho do Salvador, eram duas provas de que os ju-


deus o consideravam como o Messias (t). Todo o povo acompanhou Jesus
até ao templo, onde elle fez á multidão um admiravel discurso, durante
o qual uma voz, forte como a do trovão, se fez ouvir do Ceo e manifestou
com estrondo a sua divindade. Era como que a derradeira advertencia
que Deus dava aos j odeus, para impedir que ensopassem as mãos no san-
gue do Justo e cahissem no medonho abysmo a que os impellia a synagoga.
Durante o seu triumpho, o Salvador, que conhecia o endurecimento
da ingrata Jerusalem, foi movido á compaixão. «Ao vêr a cidade, nos diz
o Evangelho, chorou por ella. Se ao menos hoje, dizia suspirando, tu
soubesses aproveitar-te da minha visita, se quizesses fazer a paz com o
Ceo; mas não, todas estas coisas estão occultas a teus olhos (2) h E ar-
dentes lagrimas sulcavam as faces do Homem-Deus. Terno Pae, chora
porque se ha de vêr obrigado a castigar.
II. PRoc1ssÃo.-No domingo de Ramos, honra a Egreja esta entrada
triumpbante do Salvador em Jerusalem. Antes da Missa, benzem-se as
palmas e começa-se ·a procissão. Os ramos que n'ella se levam são de pal-
meira, oliveira, salgueiro, buxo e outras arvores mais estimadas no paiz
em que a gente se acha. Alguns lbes juntam flôres, conforme a estação
as póde subministrar. D'onde os difierentes nomes de domingo de Ramos,
domingo das Palmas e Paschoa florida (3). A procissão que se faz antes
da Missa é da mais remota antiguidade no Oriente. Crê-se que teve prin-
cipio na Palestina, d'onde se espalhou em breve por todas as regiões.
N'aquelles tempos remotos chamava-se-lhe Procissão das Palmas. Pelo
sexto ou septimo seculo é que passou á Egreja Jatina. Todavia, fez-se an-
teriormente a esta epocha na Egreja de Roma; depois transmittiu-se ás
outras Egrejas (4).
Esta procissão é uma representação commemorativa da entrada trium-
phante de Nosso Senhor na cidade de Jerusalem. Canta-se n'ella a pas-
sagem de S. l\1atheus, que narra esta gloriosa entrada. Depois do canto

(1) Animadvertendum est probe, turbas iisdem gaudii signis Christum Do-
minum excepisse, quibus tabernaculorum festum celebrare consueverant, quibus .••
venturi Messire contineri prresagium arbitrabantur. Bened. XIV, p. 73, n. 12.
(2) Lucas, XIX, 41.
(3) Poucas peeeoas sabem que a este nome de Pascha floridum, Paschoa florida,
é que deve o seu um vasto paiz da America. Os hespanhoes deram o nome de Flo-
rida a esta grande região da America, visinba do Mexico, porque a descobriram no
dia de Paschoa florida ou de Ramos do anno de 1513. Garcil. de la Vega, Ducob.
da Florida.
(4) Bened. XIV, p. 78, n. 20.

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DE PERSEVERANÇA. 57
dos responsorios e das antifonas mais apropriadas á circumstaneia, para;.
se á porta da egreja, que se acha fechada : isto não é sem mysterio. A
Egreja, elevando-se de repente a altos pensamentos, quiz representar-nos,
na expressiva linguagem das suas ceremonias, o estado do genero hu-
mano antes da entrada de Jesus Christo na Jerusalem celeste. As portas
d'ella estavam fechadas aos 'homens; porém os anjos lá habitavam.
E eis que os cantores, ou os meninos de côro, os meninos, imagens
dos anjos na terra, penetram na egreja, figura do Ceo, e cantam com
suas puras vozes o cantico eterno : Gloria, laus et honor : Honra, louvor
e gloria a vós, Christo, Rei redemptor. Os fieis, que estão fóra, repre-
sentantes dos homens desterrados do Ceo, repetem o cantico dos anjos:
Honra, gloria e louvor, etc. Então o celebrante;· imagem de Jesus Christo,
bate á porta com o conto da cruz, pois a cruz é a chave que abriu o Ceo.
Logo se abre a porta com o canto do responsorio triamphal : «Quando o
Senhor entrava na cidade santa, os filhos d-0s hebreus, prophetas da resur-
reição para a vida, cantavam; com palmas na mão: Hosanoa nas alturas
dos ceos.»
Em França, antes das nossas perturbações revolucionarias, a procis-
são sahia das cidádes muradas, e a uma porta fechada da cidade é que
se effectuava o ceremonial que se faz boje á da egreja. A representação
era muito mais expressiva e ajustava-se muito mais perfeitamente com
estas pala.vras que dizia·o celebrante: Attollite portas, etc. Principes, abri
as vossas portas. Portas, levantae-vos (t). Estas palavras referem-se á
trasladação da Arca Santa de casa de Obededom para Sião. Para se com-
prehender o seu verdadeiro sentido litteral, deve-se recordar que as por-
tas de Jerasalem eram feitas como as das cidades fortes, em fórma de
grade, que se abaixava ou levantava d'um modo perpendicular (t).
Com o Sacerdote, isto é, com o Salvador, entram na egreja os fieis
que o acompanham e que reuniu no caminho da vida. N'outro tempo,
quando o Sacerdote havia transposto o umbral sagrado, os meninos do
cõro e os que estavam na egreja abaixavam os ramos para fazerem ho-
menagem 'ªº glorioso vencedor do demonio e da morte. Hoje cantá-se
ainda uma antífona que recorda a entrada triumphante dos escolhidos. no
ceo depois do juizo final.
A fim de tornarem mais sensivel este mysterio, praticavam certas

(1) Psal. XXIII.


(2) Racional liturgico. .·

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68 CATECISMO

Egrejas uma magnifica ceremonia. Antes da procissão, preparava-se no


meio do Santuario uma credencia ricamente decorada, onde se collocava
o livro dos Evangelhos, como para representar Nosso Senhor. Todo o
clero se reunia em volta para servir ao seu triumpbo. Distribuidos os ra-
mos e prompta a procissão para partir, dois Diaconos pegavam no livro
dos Evangelhos, o punham sobre um soberbo andor, e o levavam aos
hombros. como se levam os santos relicarios. Iam cercados de multidão
de cirios, no meio do fumo do incenso, precedidos do clero, e seguidos de
todo o povo, com ramos na mão. A isto se juntavam as cruzes, as ban-
deiras, os gniões das confrarias, e tudo quanto podia augmentar a pompa
d'esta representação da entrada triumphante do Filho de Deus. A pro-
cissão acabava da mesma maneira que hoje (t).
Na occasião em que ella pára á porta da egreja, é que se canta o ,
Gloria, laus, etc. A origem d'este cantico é tão interessante, que nos le-
varão a bem o dai-a a conhecer. Havendo sido Teodolpho, Bispo d'Or-
leans, Pontifica illustre pelo talento e virtude, accusado de conspirador,
Luiz o Clemente o mandou prender e encarcerar em Angers. Durante o
captiveiro, compoz elle o famoso bymno Gloria, laus, que contém setenta
e oito versas. No dia de Ramos, achando-se Luiz o Clemente em Angers,
passou por diante da prisão do Bispo. Este pôz-se á janella, e, atravez dos
ferros, cantou o seu alegre cantico. O imperador ficou tão encantado, que
restituiu a liberdade ao auctor e o restabeleceu na sua cathedral (2).
· Taes são em poucas palavras as ceremonias particulares do domingo
de Ramos. Agora, sublimes genios que achaes qne dizer aos santos usos
da Egreja catholica, conheceis alguma coisa mais propria para recordar
o interessante facto da entrada triumpbante de Jesus Christo em Jerusa-
lem? Mãos á obra, vejamos; achae um meio melhor de fallar aos senti-
dos, á imaginação ~ ao espirita do povo, de o captivar e de fazer nascer
n'elle sentimentos de fé e piedade l E quando digo o povo, entendo todos
os homens, sem vos exceptuar, grandes philosophos; pois, como os vos·
sos similhantes, tendes sentidos. e aos vossos sentidos é que é necessario
dirigir--se para chegar seguramente ao vosso coração. Não sois anjos, o
vosso proceder o prova. O prodigioso imperio, a especie de fascinação
que exercem sobre vós as coisas sensiveis, o oiro, a purpura, os ricos
moveis, os trajos bordados, as creaturas ás vezes mais vis, estão abi para

(1) Alcuin., De div. Ojfic., p. 45.


(2) Durand., Rational. Div. Offec., l. VI, e. LXVII.

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DE PERSEVERANÇA. ti9
depor que sois povo como os vossos similhantes, e frequentemente muito
mais.
Quanto a nós, Cbristãos, dois sentimentos nos devem encher o co-
ração durante a procissão dos Ramos : .a alegria, vendo o triumpho do
Salvador, e pensando na nossa recompensa fatura quando entrarmos com
elle na Jerusalem celeste ; e a tristeza, lembrando-nos que aquelles mes-
mos judeus, cujas acclamações enchem os ares, farão cinco dias depois re-
tumbar as rnas de Jerusalem com gritos de morte, e os eccos do Calvario
com blasphemias e injurias contra aquelle a quem hoje recebem como o
Filho de David. Ah f quantos judeus ha entre os Christãos ! Não sejamos
d'esse numero. Nós devemos lambem levar os ramos bentos para nos-
sas casas, conserval-os com grande respeito, servir-nos d'elles para asper-
gir d'agua benta a nossa cama antes de nos entregarmos ao somno, e
considerai-os, segundo a instrucção da Egreja, como preservativos contra
os males espirituaes e corporaes.
Todo o officio do domingo de Ramos é consagrado a honrar o Sal-
vador. Por isso é que se canta a Paixão na Missa. A fim de tornar-nos
mais sensível este terrível acontecimento, faz a Egreja ouvir tres vozes :
voz do historiador que conta o facto, e é o Diacono; voz dos judeus e
do peccador que accusa o seu Deus, e que pede a sua morte, e é o Sub-
Diacono; e voz da augusta Victima, que conserva no meio dos seus al-
gozes um socego cheio de dignidade e toda a doçura d'um cordeiro, e é
o Presbytero. Crê-se assistir ao lugubre drama : e não sei que sentimen-
tos de terror, indignação, piedade e admiração, vos passam alternativa-
mente pelo coração. Experimenta-se então o que em vão se buscaria n'uma
simples leitura da Paixão. O' Egreja catholica J quam bem conheces a
natureza do homem (t) !
III. TREVAS. - Na segunda, terça e quarta feira santa, continúa a
Egreja a recordar-nos os diversos acontecimentos que precederam a Pai-
xão do Salvador; alfim, na quarta feira á tarde começa o officio das Tre-
vas. Compõe-se das Matinas e Laudes do dia seguinte, que se cantam na
vespera por antecipação. Deu-se a esta parte do officio o nome de Tre-
vas, porque, para o fim, todas as luzes se apagam, tanto para exprimir
a profunda tristeza da Egreja, como pan representar as trevas de que
se cobriu toda a natureza quando morreu Nosso Senhor. O apagar das

(1) Palestrina. ajuntou quarta voz, a do povo. Vide a este respeito as Tru
Romas, Domingo de Ramos.

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80 CATECISMO

luzes recorda tamb) ~1 um facto historico da nossa bella antiguidade


christã. O officio que fazemos á tarde fazia-se de noite, e durava até pela
manhã. A' proporção que se avisinhava o dia, iam-se apagando successi-
vamente as vélas que não eram necessarias.
Estas vélas eram e ainda são cirios collocados n'um candelabro
triangular, á esquerda do altar. São ordinariamente em numero de quin-
ze, sete de cada lado e um no meio. Os cirios de cada lado apagam-se
successivamente no fim de cada psalmo, e começando pelo mais baixo
do lado do Evangelho; depois do outro Jado, e assim alternativamente até
que não reste mais que o do meio, que se deixa arder. São de cêra
amarella, como prescreve uma antiga ordem romana, porque a .Egreja
não emprega outros nas exequias e no grande lucto.
O que está collocado no meio do candelabro triangular é ordinaria-
. mente de cêra branca, porque representa Jesus Christo. Ao ultimo ver-
~iculo do Benedictus, desce-se e esconde-se atraz do altar em quanto se
recitam o psalmo Miserere e as orações; depois torna-se a trazer. Esta
ceremonia figura-nos a morte e resurreição do Salvador. Os outros qua-
torze cirios representam os onze Apostolas e as tres Marias. Apagam-se
para nos recordar a fuga d'uns e o silencio dos outros durante a Paixão
(t). '
Este numero de cirios e este modo de os dispôr e apagar ·gradual-
mente remontam além do septimo seculo (2). Qual deve ser a nossa ve-
neração para com uma ceremonia que tantos olhos piedosos teem con-
templado! Oxalá ella excite em nós os mesmos sentimentos que excitou
em nossos paes ! Digamos de passagem que os ritos usados pela Egre.ja,
principalmente ~as grandes festas, são todos de remota antiguidade.
Todo o officio das Trevas tem o cunho da mais profunda dôr. Invi-
tatorio, hymnos, Gloria Patri, e bençãos, tudo se supprime. Só n'elle
se ouvem quatro vozes: a de David, que chora na sua harpa as affrontas
e a morte do seu Senhor e filho; a de Jeremias, que, egualando as lamen-
tações ás dôres, canta as ruínas de Jerusalem e os tormentos da augusta
Victima; a da Egreja, cujos ternos accentos chamam seus filhos á peni-
tencia : Jerusalem, Jerusalem, converte-te ao Senhor teu. Deus ; e final-
mente, a das santas mulheres que tinham seguido a Jesus desde a Gali-
lêa, e que choravam atraz d'elle subindo ao Calvaria. As suas lagrimas,

(1) Durando, 1. VI, e. LXXII.


(2J Mabilloo, Musreum ital., t. II, p. 22.

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DE PERSEVERANÇA. 61
e os seus gritos, e a sua triste viagem nos são representados pelos dois
acolytos que cantam, de joelhos e caminhando, aquelles Kyrie eleison,
entremeados de responsorios e suspiros.
Não ha chefe e pastor para presidir ao officio d'estes tres dias;
pois está escripto : Eu ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão
dispersas (1). Por todas as partes tristeza e lucto. Os sinos não se dei-
xam ouvir. O officio é seguido d'um ruido confuso, lngubre recordação
do andar e da quéda por terra da cohorte que, armada de paus e guiada
por Judas, foi, de noite, prender o divino Salvador ao jardim das Olivei-
ras (2). A matraca, de que se faz uso nos mosteiros e em certas egrejas
para chamar o povo ao officio nos ultimos dias da Semana Santa, n'Os
transporta aos tempos antigos em que se serviam de taboinhas para an-
nunciar as assemblêas sagradas.
Por este meio parece dizer-nos a Egreja : Se tal é a minha fideli-
dade em conservar usos na apparencia pouco importantes, qual pensaes
que seja a minha exactidão em guardar o deposito das verdades santas
que me está confiado? Podeis descançar com confiança na minha solli-
ci tude. Nada temaes, meus filhos, que eu não dissiparei o patrimonio de
vosso pae. Tal é o oflicio da quarta feira.
IV. QUINTA-FEIRA SANTA. -A Quinta-feira Santa é consagrada a
honrar a instituição da augusta Eucbaristia. A Egreja nos mostra, d'um
lado, o Filho de Deus procurando, no fundo dos thesouros do seu amor,
um penhor novo, incompai'avel, eterno, da sua ternura para com os ho-
mens; e, d'outro lado, os homens occupados em pensamentos de morte,
supplicios e affrontas contra aquelle amavel Salvador. N'esse dia quize-
ra-se possuir muitos corações. Um só não' é sufficiente para os sentimen-
tos oppostos que inspira o contraste de que fallamos; e este contraste,
toma a Egreja a peito fortalecei-o. Com effeito, o officio da manhã res-
pira alegria e jubilo, e o da tarde a mais negra tristeza. O primeiro di-
(1) Math., :X:XVI, 31. •
(2) Docuimus per hos dies intermitti campanorum sonum, et ligna quredam
adbibere fragoris in modum obstrepentia, ut extet memoria illius consuetudinis con-
vocandi per illorom lignorum strepitum primis Ecclesire seculis fideles ad divina
officia; in veteribus ritualibus pr.rescribi ut campanre per hos dies sileant, qure cum
Christi prredicatores significent, ideo earum sonum intermitti, quod apostoli Chris-
tum in maximfa cruciatibus Passionis, arrepta fuga deseruerint. (Bened. XIV, p.
125, n. 48.) -Ao contarmos a sua vida, notamos a particularidade de que deu gra-
ças depois da comida, hymno dicto, pelo que S. Chrysostomo apostropba assim aquel-
les que faltam á oração antes e depois da comida: «Audiaut omnes qui quasi porei
cum jam comederint, eversa calcibus mensa temulenti consurgunt, cum agere gra-
tias debeant, et in bymnum a mensa devenire., Homil. in Math., 83.

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6! CATECISMO

vide-se em quatro partes: à absolvição dos penitentes, a Missa com a


benção dos santos oleos, o despojo dos altares, e finalmente o manda-
tum ou lava-pés.
O Bispo, chegado á egreja, reveste-se dos seus ornamentos, colloca-
se no meio do côro, e alli, acompanhado de dois Presbyteros, recita de
joelhos os Sete Psalmos Penitenciaes. Seguem-se orações e versiculos pe-
los quaes se pede para os penitentes a remissão das suas culpas. O Bispo
termina por uma tocante oração em que roga ao Senhor que torne a abrir
as portas do redil ás ovelhas penitentes, para que o Salvador não seja
privado do fructo do seu sangue, e almas resgatadas por tam alto preço
não sejam victimas eternas do demonio. Então volvendo-se para o fundo
da egreja, outr'ora lagar dos penitentes, os absolve o Pontifice em nome
de Jesus ChriSto, morto na cruz para os livrar dos Jaços do peccado.
Esta bella e santa ceremonia é um vestígio da nossa veneranda antigui-
dade.
Nos dias da penitencia publica, eram os penitentes, como vimos,
publicamente expulsos da egreja na Quarta-feira de Cinza. Na manbã de
Quinta-feira mór, aquelles filhos prodigos se achavam á porta do templo,
cobertos do seu cilicio e com cinza na cabeça. Iam alli buscai-os, con-
duziam-n' os á egreia com ceremonia, e os apresentavam aos ministros
sagrados. Todos se prostravam, e o Bispo fazia por elles uma breve
oração. Então o Diacono, fallando pelos penitentes que permaneciam
prostrados e que não se exprimiam senão por suspiros, gemidos e lagri-
mas, representava ao Bispo que era chegado o tempo da misericordia.
Recorda\·a-lhe os mysterios que se renovavam n'aquelles santos dias,
para o fazer lembrar-se de que Deus não quer a morte do peccador que
volta a Elle por meio d'uma confissão sincera, e que se tractava de li-
bertar uns mortos a quem Jesus Cbristo se dignára devolver a vida. Sa-
tisfeito com as disposições dos penitentes, lhes fazia o Bispo ~ma curta
homilia e pronunciava sobre elles a formula de reconciliação. Acabada a
ceremonia, os novos reconciliados tomavam logu entre os fieis, ouviam
Missa e participavam com elles dos santos Mysterios ; pois era costume,
e este costume llurou muitos seculos, commungarem todos os fieis na Quin-
ta-feira Santa. Honra áqnelles se mostram fieis a elle (t) !
Terminada a absolvição, começa a Missa. Na Epistola, recorda S.
Paulo aos christãos as disposições para a Eucharistia, e no Evangelho,

(1) Thomass., Fest., I. II, e. XIII.

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DE Pll\SEVIRANÇA. 63
nos descreve S. João o amor immenso e a indizivel humildade do Filho
de Deus : mostra-nol-o prostrado ante os seus Apostolos e lavando-lhes
os pés. Humildade e charidade, taes são as duas grandes lições que nos
dá e as duas disposições essenciae~ para a Communhão. Durante a Missa
effectua-se, desde o septimo seculo, a magnifica ceremonia da benção dos
santos oleos, que, na essencia, remonta aos tempos apostolicos (t). Em
balde se buscaria alg11res coisa mais solemne e instructiva (2).
O Bispo officiante vae assentar-se diante d~uma mesa posta no meio
do ~antuario. Os Diaconos e Sub-Diaconos trazem grandes urnas que col-
locam em frente do Pontifice. Estas urnas estão cheias dos oleos que vão
ser santificados e bentos. Oleos santos destinados ás creanças que nas-
cem e aos enfermos que morrem, aos Sacerdotes que se dedicam a Deus
e aos reis que se sagram e corôam ; oleos santos que correm sobre nós,
assim á nossa entrada na vida, como á sabida do mundo; santo chrisma
no baptismo e na confirmação ; extrema uncção na morte.
Todas as vezes que assisti á benção dos santos oleos, estive viva-
mente preoGcupado vendo o Bispo orar por elles para lhes fazer descer
o Espírito de Deus. Perguntava a mim mesmo: Qual de nós será o pr-i-
meiro ungido com aquelle oleo ? Será um irmão? um amigo? serei eu
proprio? Oh 1 quando esses pensamentos se insinuam no vosso espirito,
parecem-vos as ceremonias da Egreja duplicadamente santas; que os pen-
samentos graves são irmãos dos pensamentos saudaveis (3).
Na benção do santo chrisma, deve ser o Bispo acolytado por doze
Presbyteros, todos pastores, se fôr passivei, para melhor representarem
os doze Apostolos; e por sete Diaconos com outros tantos Sub-Diaconos,
a fim de ·recordar o tempo em que o collegio dos ministros sagrados se
compunha de doze Presbyteros, sete Diaconos e outros tantos Minoris·
tas, para a administração da diocese e para o serviço do Bispo e do povo.
O Pontifice e os Presbyteros saudam successivamente o santo cbrisma
e os santos oleos, depois da sua sagração, dizendo: Salve, santo chrisma,
etc. Quer a saudação se dirija ao Espirita Santo, santificador de todas as
creaturas, quer não se deva vêr n'ella mais que uma simples demonstra-
ção de respeito ás coisas santificadas, não ha ahi nada que não seja rasoa-
(1) Benedicimus autem et aquam Baptismatis et oleum unctionis, imo ipsum
etiam qui Baptismum accipit. Ex quibus scriptis ? Nonne a tacita secretaque tradi-
tione? (S. Basil., lib. de Spirit. sanct., e. XXVII:; id., Bened. XIV, p. 134, n. 61.)
· (2) Cumpre lêr a narração circumstanciada d'ella no PontificaJ. Tudo inte-
ressa : a letra, o canto e as ceremonias. Vide tambem Durand., 1. VII, e. LXXIV.
(3) Quadro poetico àa8 futas, p. 135.

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CATECISMO

vel. E' uma linguagem figurada que pinta muito melhor o sentimento do
que o poderia fazer a linguagem simples e natural. Veneravel por si mes-
ma, é-o ainda mais esta ceremonia pela sua remota antiguidade. Já se faz
menção d'ella no Sacramentario de S. Gregorio Magno.
V. ALTARES n 'ESTAÇÃO. ~Depois de se dizerem todas as orações so-
bre os santos oleos, torna o Bispo a subir ao altar, e a bostia que consa-
grou para o dia seguinte é levada debaixo do pallio e com grande pompa
para a capella do tumulo. Este tamulo, adornado com todo o cuidado
possivel, é como que o sepulcro em que repousa o nosso divino Redemp-
tor, e os fieis o yisitam a fim de honrarem o Filho de Deus que se
subjeitou á morte para os remir.
A visita das estações não deve sei· um passeio; deve ser grave e si-
lenciosa. A piedade e não sei que dôce e religiosa melancolia devem res-
pirar em t9do o vosso continente. Quando chegamos ao pé d'um altar
do Sacramento, é necessario que o vosso coração se derrame ante o Sal-
vador. E' o caso de dizer-lhe: Meu Deus! graças vos dou por haverdes
instituido para mim a sagrada Eucharistia, e por me terdes· admittido a
ella tantas vezes. -Rendo-vos tambem as minhas acções de graças por to-
dos os favores que me tendes concedido n'esta egreja em que me acho,
e a todos os fieis que aqui teem vindo orar desde que está edificada.
Peço-vos perdão pelas ingratidões de que tendes sido objecto no . vosso
augusto sacramento, e pelas irreverencias de que eu e os outros nos te-
mos tornado réos n'esta egreja.
Dissemos que entre as hostias consagradas ha uma que se reserva
para a commnnhão do Sacerdote no dia seguinte; pois na Sexta-feira
Santa não se diz Missa. O Sacerdote contenta-se em recitar a ultima parte
das orações, sem consagração. Chama-se a isto .Missa dos Presantifica-
dos, isto é, Missa em que se consome a hostia consagrada na vespera.
Remonta ao berço do Cbristianismo. Abstendo-se de celebrar o sacrificio
do altar no dia de Sexta-feira Santa, quiz a Egreja manifestar o seu lucto
e attrahir toda a attenção de seus filhos para o sacrificio do Calvario.
Depois da Missa, descobrem-se os altares e despojam-se dos seus
ornamentos: ficam n'este estado até ao Sabbado Santo á tarde. Vêde pri-
meiro, em todas estas tristes ceremonias, a profunda aftlicção da Egreja ;
vêde tambem o despojo do Filuo de Deus na cruz, pois o altar foi em to-
dos os tempos ·ª figura de Nosso Senhor; depois o abatimento da sua glo-
ria, e depois a laceração do véo do templo. Deixae-vos levar pelo espi..:
rito da fé, e esta ceremonia vos dirá mais que um Jivro inteiro.

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DE PERSEVERANÇA. 65
Tambem se lavam os altares com vinho e agua. E' primeiro por uma
razão de limpeza. Depois quiz-se representar que o corpo de Jesus thris-
to, verdadeiro altar do mundo, foi, na cruz, banhado de sangue e agua.
Para melhor denotar este mysterio, é acompanhada a lavagem da recita-
ção d'um psalmo penitencial ou d'uma oração analoga á Paixão (1).
VI. LAVA-PÉS. - O magnifico officio da Quinta-feira Santa termina
pelo lava-pés. Está escripto que na occasião de instituir a sagrada Eu-
cbaristia, se abateu o Salvador até Javar os pés dos seus Discipulos, e que
depois lhes disse: «Chamaes-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque
o sou. Se, pois, eu qne sou vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, de-
veis tambem lavai-os uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façaes
como eu fiz (2). »
Docil á voz do divino Mestre, tomou a Egreja este mandamento de
praticar a humildade nos serviços mais baixos, por uma lição que era ne-
cessario observar á letra. Os primeiros Christãos a praticaram a princi-
pio não só para renovarem com uma simples ceremonia a memoria do
que havia feito o Salvador, senão tambem para exercerem um acto de
charidade. D'onde, entre elles, o costume universal e sagrado de lavar
os pés aos hospedes.
No correr dos tempos, quando as pessoas do mundo deixaram de la-
var os pés aos seus hospedes, a Egreja, que não queria que se perdesse
um costume tam instructivo e piedoso, fez d'elle uma prática regular, des-
tinada a perpetuar de geração em geração a acção de Nosso Senhor.
Quiz que os seus principaes ministros lavassem os pés ao clero que repre-
senta os Apostolos, ou aos pobres, como a sujeitos proprios para exer-
cer a humildade que o Salvador recommendou por aque11e acto d'abati-
mento.
E eis que ha muitos seculos, cada anno, na Quinta-feira Santa, o
mundo vê quanlo ha maior e màis augusto, os Papas, Bispos, imperado-
res, reis e rainhas, humildemente prostrados diante d'alguns pobres, lavan-
do-lhes os pés, beijando-os com respeito e tendo-se por muito honrados
em seguir as pisadas do Homem-Deus. Se um velllo romano voltasse á
terra e fosse testimunha de simillrnnte espectaculo, que admiração seria
a suar Elle que não via nos pobres senão entes despresiveis, que diria
se visse os monarchas aos pés d'elJes? Esta simples ceremonia nos diz

(1} Durand., 1. VI, e. LXXVI.


(2) Joan., XIII, 13; Bened. XIV, p. 126, n. 49. ·

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66. CATECISMO

que entre nós e os pagãos, entre as nossas ideas e as suas, pôz o Chris·
tianismo o infinito.
Aceremonia do lava-pés chama-se vulgarmente o mandado ou manda-
tum. Vem-lhe este nome, quer do Mandamento que o Salvador deu aos
seus Discípulos de fazerem entre si o que elle acabava de fazer a seu' res-
peito, quer da antifona Mandatum novum do vobis : Dou-vos um novo
Mandamento, que se repete entre os versiculos do psalmo que se canta
durante a ceremonia. N'esta antifona está outro mandamento muito mais
importante que o lava-pés, e é aquelJe que o Salvador deu aos seus Dis-
cipulos de se amarem uns aos outros como elle os havia amado ; pre-
ceito distinctivo da Religião cbristã e que nos toca a todos.
E' preciso pois, principalmente na Quinta-feira Santa, perguntarmos
a nós mesmos com toda a boa fé d'um homem que não quer illudir-se :
Amo meus irmãos como me Jesus Christo amou ? Se o nosso coração
hesitasse em responder, que digo f se manifestasse algum odio, alguma
antipathia voluntaria, como ousaríamos approximar-nos d'aquelle que
disse: «Se, quando vindes offerecer o vosso presente ao altar, vos lem-
bra que vosso irmão tem alguma coisa contra vós, deixae o vosso pre-
sente diante do altar, e ide reconciliar-vos com vosso irmão, e depois
vireis fazer-me a vossa offrenda (t). »
Tal é o officio da manhã da Quinta-feira mór; n'elle respiram amor
e alegria. O officio da tarde, chamado Trevas como o da vespera, com·
põe-se das mesmas partes e nos torna a abysmar na tristeza e no lucto.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por terdes in-
stituido a sagrada Eucbaristia ; e peço-vos perdão por me ter preparado
para ella com tão pouco cuidado.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de fazer todos os mezes reparação a Nosso Senhor no SS. Sacramento.

(1) Math., V, 23 e 24. ·

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DE PERSEVERANÇA. 67

TRIGESIMA·SEXTA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

Sexta-f'etra Santa. - ObJeéto do otl'lcio d'e•te dia. - Sexta-f'ei-


ra llaota em .iero11alem. - DlYisão do otl'leio. - Doa11 Il·
çfie• da Escriptora e Paixão. - Retrato de Nos•o Se11bor
(nota). - Oraçõe• •oiemne• ou •aeerdotaes. - Adoração da
~ros. - Util exereteto para a 1arde. - Sete Palavra• do
8alwador.

1. SEXTA-FEmA SANTA. - Sexta-feira Santa r A estas palavras, aper-


ta-se o coração christão, um estremecimento de terror vos percorre todos
os membros, e a vossa imaginação assombrada vos transporta a pezar
vosso ao cume do Calvario. Lá vem uma plebe. digo mal, um povo, pois
havia alli magistrados, sacerdotes, velhos de cabellos brancos, assJm como
pobres, creaoças e mulheres. Toda esta multidão tumultuosa trep'a a mon-
tanha, empurra-se, aperta-se, para estar mais perto do cadafalso e para
melhor gozar as angustias da viet.ima. Eis a propria victima que sobe com
passos lentos, pois está exhausta de sangue e enfraquecida pelos tormen-
tos. Dois seelerados caminham a seu lado, levando aos hombros o ins-
trumento do proprio supplicio. Esses são criminosos ; o Justo reconhe-
cei-o-eis pelo rigor particular que desenvolvem contra elle : a cabeça está
coroada d'espinhos, e o rosto coberto de sangue e de infames escarros;
é objecto dos sarcasmos da multidão.
E comtudo, é aquelle Jesus que viveu fazendo bem r E entre aquel ·
le~ espectadores ávidos do seu supplicio, ba muitos que experimentaram
a soa potente bondade: a um, talvez, resuscitou o pae, a mãe ou irmã;
a outro curou o creado, ou o amigo ; a todos prodigalisou os tbesouros
da sua divina sabedoria. E' aquelle Jesus que entrava, ha cinco dias,

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68 .CATECISMO

triumphante em Jerusalem. Ao encontro d'elle tinha ido aquella mesma mul-


tidão, e os eccos do monte das Oliveiras retumbavam com estas exclama-
ções: «Gloria ao filho de David! Bemdicto seja aquelle que vem em nome
do Senhor 1» E hoje esta multidão uiva, grita, vocifera, e pede o seu san·
gue e a sua morte 1!1
Que succedeu? Deixou Jesus de ser o que era ha cinco dias? Não;
porém o povo é sempre povo ; e mudou como o canniço ao grado do
vento. Entretanto a \'ÍClima chega ao logar da execução. Eil-a estendida,
pregada, e levantada na cruz. O pO\'.O ri, o escriba encolhe os hombros,
e o soldado joga. Maria, pois Maria, mãe de Jesus, estava alli, Maria
chora, abysmada n'um mar de dôr.
Eis ahi o que se passava ba dezoito secnlos sobre um pequeno
monte proximo de Jemsalem. O objecto de tantos ultrajes, a victima de
tantas dôres, era o Verbo eterno, o Creador dos mundos, o Filho unico
de Deus; e crucificaram-n'o Ili E crêdes que a ·Egreja catholica não fez
bem em perpetuar, por meio d'um dia de Iucto solemne, a recordação
do maior dos malefi.cios 1 Desenganae-vos, esquecendo os crimes não é
que se expiam. E além d'isso não convém prevenil-os? Para esse fim
que melhor meio que inspirar horror a elles por via d'uma expiação au-
thentica, perpetuada de edade em edade? E' isso, acreditae-o, um grande
serviço prestado ã sociedade.
Assim que, desde que se consummou o attentado do Calvario, a
Egreja, em prantos, celebra cada anno a Sexta-feira Santa em todos os
pontos do mundo catholico. Em particular quiz, á custa de todos os sa-
crificios, celebrai-a no mesmo monte onde foi commettido o crime. Quiz
que, em todos os seculos, lagrimas christãs banhassem a terra que,
em tal dia, bebeu o sangue do Salvador. Escutae o que ainda se passa
no Golgotba em Sexta-feira Santa ; e, na historia do presente, lêde a do
passado.
ci:Era em 1832. O officio da manhã foi feito com as ceremonias mais
commoventes pelos reverendos Padres Eranciscanos, e assisti a elle. Ao
jantar, toda a communidade, com o Padre guardião ã frente, comeu de
joelbf.)S; não serviram senão pão, agua e algumas folhas de salada.
«A's tres horas e meia, foram os Padres para o officio das Trevas
como nos dois dias precedentes. Era a ultima vez que eu devia ouvir em
Jerusalem a voz do propheta d' Anatoth, e esta idêa me tornou ainda mais
sensíveis a viveza e ternura das suas queixas. Tendes podido algumas ve-
zes observar quanto mais viva é a impressão que fazém as palavras e os

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DE PERSEVERANÇA. 69
votos d'aquelles a quem amamos, quando é chegada a hora da separação,
quando sobretudo temos a intima convicção de que não nos tornaremos
mais a vêr, de que é pela ultima vez. Então mais que nunca se aperta o
coração, se exhalam os suspiros, e se afogam os olbos em lagrimas. E'
uma especie de soffrimento pouco differente d~aquelle que produz o rom-
pimento dos vinculos que a morte vem despedaçar. Taes, e ainda mais
penosas, eram as minhas angustias, quando Jeremias me fez ouvir estas
palavras tam perfeitamente em harmonia com o doloroso mysterio da
Sexta-feira Santa e com os pensamentos que me gyravam na alma :
cA alegria do nosso coração extinguiu-se ; os nossos concertos con-
verteram-se em cantos de dó ;
a.A corôa cahiu-nos da cabeça; desgraçados de nós, porque pecca-
mos !
a.Por isso o nosso coração se entristeceu, e os nossos olhos se con-
turbaram;
«Por causa da desolação do monte Sião, correm alli hoje as raposas!
([Senhor, vós existis eternamente! o vosso throno vive de geração
em geração.
«Esqnecer-nos-eis para sempre? abandonar-nos-eis por toda a exten-
são dos dias?
«Convertei-nos a vós, Senhor, e seremos convertidos; renovae os
nossos dias como no principio, etc.»
«A fim de gravarem mais profllndamente nos animos a memoria da
Paixão e morte do Salvador, e excitarem mais fortemente nos corações
os sentimentos de compuncção, reconhecimento e amor que ellas devem
produzir,· fazem os Padres, na Sexta-feira Santa de cada anno, uma ce-
remonia intejramente conforme ao genio dos Orientaes, e da qual não se
encontram exemplos senão nas missões d' Asia, que provavelmente a to-
maram do que se pratica na Palestina.
«Por meio d'uma figura em relêvo, de grossura e altura naturaes, cuja
cabeça e membros são flexíveis, e se prestam aos diversos movimentos que
querem imprimir-lhes, representam a crucifixão, o descimento da cruz e
o enterro de Jesus Christo, de maneira que se tornem sensíveis e frisan-
tes todas as circumstancias principaes d'elles. Esta ceremonia, a um tem-
po tocante e terrível, effectuou-se ao declinar do dia, no meio d'uma mul-
tidão immensa d'homens, mulheres e creanças, attrahidos, uns por uma
sincera piedade, e outros por uma curiosidade completamente profana.
«Os Padres da Ter:ra Santa, reunidos na capella da SS. Virgem,
õ

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70 CATECISMO

sahiram d'ella pelas seis horas, tendo á frente aquelle d'entre elles que,
escoltado por jovens arabes do mosteiro, levava o grande crucifixo. Os
religiosos e os fieis, caminhando lentamente em duas linhas, com uma to-
cha na mão, recitavam, em tom agudo e plangente, ora o Miserere, ora
o Stabat.
«A procissão parou primeiro no altar da Divisão dos Vestidos,
depois no do Improperio, para alli ouvir algumas palavras simples, mas
cheias d'uncção, que lhe dirigiu um Padre hespanhol ácerca das dolorosas
scenas da Paixão, recordadas por estes dois sítios. Depois continuou o
seu caminho sem interrupção para o cume do Golgotha. Alli, o ~eligioso
que levava o crucifixo o depôz respeitosamente ao pé do altar, e o Padre
hespanhol, voltando ao seu discurso, proseguiu, na presença da multidão
enternecida e banhada em lagrimas, a lamentavel narração dos soffri-
mentos e das ignominias do Salvador, até ao momento em qu~ foi pre-
gado na cruz.
cN'este instante cessou de faltar, e tendo sido a imagem de Jesus
pregada com cravos no madeiro, este crucifixo foi levantado e posto no .
mesmo sitio onde tinha sido cravada a verdadeira cruz em que se con-
summou a salv~ão do genero humano. Então o bom Padre, com voz
interrompida e quasi abafada pelos gemidos, descreveu as ultimas pala-
vras e os ultimas momentos da augusta Victima immolando-se n'aquelle
Jogar para expiar os nossos peccados e nos reconciliar com seu PAE. Mas
tornava-se cada vez mais difficil ouvil-o. A multidão, já violentamente
agitada pelo que precedera, não estava attenta senão para o que via, e as
palavras mal chegavam a ella no meio dos gritos, soluços, suspiros e la-
grimas.
«Depois d'um quarto d'hora concedido á dôr para lhe dar tempo de
alliviar-se exbalando-se, um dos Padres, munido d'umas tenazes e d'um
martello, subiu á altura da cruz, tirou a corôa de espinhos, e, em quanto
os irmãos sustentavam o corpo por meio de faxas brancas passadas em
torno dos braços, aquelle arrancou os cravos das mãos e dos pés, e logo
a effigie de Cbristo foi descida pouco mais ou menos do mesmo modo
que fôra descido o proprio Christo. O celebrante e successivamente todos
os religiosos se approximaram em silencio, se prostraram e beijaram com
respeito a corôa e os cravos que foram immediatamente apresentados á
veneração da multidão.
«Em breve a procissão se pôz de novo em andamento na mesma or-
dem que seguira para subir ao Calvario. A corôa e os cravos eram le-

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DE PERSEVERANÇA. 71
vados n'uma salva de prata por um religioso, e a effigie por outros quatro,
do mesmo modo que se leva um defuncto para a sepultura. Pararam na
pedra da Uncção, para imitarem n'aquelle sitio a piedosa acção de José
d' Arimathea, de Nicodemo e das santas mulheres. Tinham-se preparado
todas as coisas necessarias; a pedra estava coberta d'um panno branco
finissimo, e nos cantos estavam os vasos de perfumes. O corpo, envolvido
n'um sudario, foi alli depositado, com a cabeça encostada n'uma almofada.
O celebrante o borrifou de essencia, fez arder alguns aromas, e, depois
de ter orado alguns instantes em silencio, expõz, n'uma breve exhortação,
o motivo d'esta estação. D'alli, retomaram o caminho da egreja: a santa
effigie foi posta no marmore do santo Sepulcro, e outro discurso pôz fim
á ceremonia (t).»
Em todos os outros pontos da christandade, não é a Sexta-feira
Santa honrada menos religiosamente. Por espaço de muitos seculos guar-
dou-se como o domingo. Reduplicavam-se, prolongavam-se as vigilias, as
mortificações, as leituras santas e as orações feitas nos outros dias do anno.
Passava-se toda a noite a gemer na assemblêa dos fieis, conforme o cos-
tume vindo dos Apostolos ou dos seus primeiros discipulos (2). Ninguem
era exempto da vigilia e do jejum extraordinario, excepto as creanças de
menos de sete annos. Ainda hoje, sem embargo da tibieza da fé, não ha
nem uma familia cbristã em que os filhos não tenham como um prazer
e dever o jejuar na Sexta-feira Santa.
II. ÜFFICIO. __:._E' da mais remota antiguidade o officio d'este dia (3).
Para bem se comprebender e para se seguir com piedade, cumpre saber
que se divide em tres partes :
Compõe-se a primeira d'uma lição da Escriptura Sagrada, seguida de
um tracto entremeado de versículos analogos á circumstancia, e da pai-
xão. A Egreja tomou a peito conservar no officio d'este dia toda a nossa
formosa antiguidade, que n'elle respira a cada palavra, a cada ceremonia.
Assim, começa o oficio por uma lição, porque n'outro tempo começavam
todas as Missas por lições ou leituras dos livros santos. A lição de Sexta-
feira Santa não tem titulo, porque Jesus Christo, que é o nosso chefe, a
luz que nos allumia, assim como o titulo allumia o livro e a lição, nos
foi arrebatado (4.).

(1) Peregrinação a Jeruaalem, pelo P. de Geramb., t. II.


(2) Euseb., Hist., 1. II, e. XVII.
(3) Leo, t . II, p. 77.
(4) Durand., Rational., 1. VI, De die parasceve.
*

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CATECISMO

Moysés descreve 'ª ceremonia do cordeiro paschal, immolado e co-


mido eom pães sem fermento e alfaces amargas pelo povo de Deus pres-
tes a sahir do Egypto, com a tunica levantada, os pés calçados, o bordão
na mão ,e a toda a pressa, porque devia ser a Pascboa, quer dizer, apas-
sagem do Senhor; O cordeiro pascbal era a figura do Messias, e esta li-
ção que nos transporta a tres mil e quinhentos annos d~antiguidade, re-
corda-nos que o Cbristo era o mesmo que é hoje, a fé e a esperança do
genero humano, e que a Egreja catholica abrange todos os tempos (t).
Não foi sem motivo ,que a Egreja escolheu esta lição em Moysés.
Quiz mostrar-nos que a ,Lei dá testimunho ao seu divino Esposo, e que
elle é realmente o objecto dos oraculos e suspiros de todo o mundo aµ-
tigo (2).
Depois da prophecia, canta-se a paixão de Nosso Senhor segundo S.
João. Como já dissemos, este canto de remota antiguidade é dialogado.
Os j adeus, Pilatos, Herodes, os Apostolas e o proprio Jesus faliam e se
alternam. A estas palavras: Tendo abaixado a cabeça, exhalou o espirito,
cessam os cantos, ha grande silencio na egreja, e não se ouve mais que
o movimento dos fieis que se prostram e beijam a terra que o ·.Salvador
ensopou com o seu sangue.

· (1) Eis aqui, tal qual nol,o ·conservou a antiguidade, o retrato de Nosso Se-
nhor: Tinha o rosto formosissimo e cheio de vida. A estatura era acima da mediana.
O cabello era um tanto louro, poucCY espesso e levemente annelado.; os sobr'olhoe
eram pretos e levemente arqueados. Dos olhos vivos e côr d' azeitona. sabia uma gra-
ça admiravel. Tinha o nariz comprido, a barba loura e de mediano comprim,nto; o
cabello bastante comprido, porque a navalha nunca lhe passou pela cabeça, nem a
mão de homem algum, excepto a da Mãe durante a sua tenra infancia. TinhR. o pes-
coço um pouco inclinado, de maneira que o seu porte nao era demasiado direito nem
demasiado tezo. A tez era levemente doirada, o rosto nem redondo nem bicudo, mas
similhante ao de sua Mãe, e um pouco alongado e suavemente córado. A gravidade,
prudencia, doçura e serenidade, brilhavam .n'elJe pasmosamente. N'uma palavra,
parecia-se muito com sua santa e divina Mãe. - Egregio is vividoque vulto fuit.
Corporis statura ad palmos prorsus septem. Cresariem habuit subflavam et non ad-
modum densam, leniter quodammodo ad crispos declinantem: supercilia nigra, non
perinde inflexa. E:x oculis subflavescentibus mirifica prominebat gratia. Acres ii erant
et nasus longior. Barbre capillus flavos, nec admodum demissus. Capitis porro capil-
los tulit prolixiores. Novacula enim in caput ej11s non ascendit, nequc manus aliqua
hominis, prreterquam. matris in tenera. duntaxat reta.te ejus. Collum fuit sensim de-
clive, ita. ut non arduo et extento niminm corporis statu esset. Porro tritici referres
colorem ; non rotundam aut acutam habuit faciem ; sed qualis matris ejus erat, paul-
lum deorsum versus vergentem ac modice rubicundam: gravitatem atque prudentiam
cum lenitate conjunctam, placabilitatemque iracundire expertem prre se ferentem.
Persimilis denique per omnia fuit diyime et immaculatre sure Genitrici. (Niceph. Cal-
lixt., l. I, e. XL.) Vide, ácerca das provas da authenticidade d'este retrato, 8andini,
Hist. Famil. Sacr., e. XVII, p. 287 e seg.
(2) Durando., l. VI, De die parascere.

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DE PERSEVERANÇA. 13
~ompõe-se a segunda parte do officio das orações solemnes·ou sa-
cerdotaes, qne não se recitam publicamente senão na Sexta-feira Santa ;
são antiquissimas. S. Leão diz-nos que no seu tempo se recitavam em to-
das as partes onde havia penetrado a lei christã (t); cria·as de institoição
apostolica. Estas orações são em numero de dez. O Sacerdote no altar,
dobrando o joelho e estendendo os braços a cada oração, ora : f. º por
toda a terra e pela Santa Egreja; 2. 0 pelo nosso santo Padre o Papa; 3. 0
pelo Bispo da diocese; 4. 0 por todos os ministros sagrados e por todos
os fieis; 5. 0 pelo rei; 6.º pelos catbecumenos; 7.º pela cura de todos os·
males temporaes e espiritaaes; 8. 0 pelos herejes e scismaticos; 9. 0 pelos
judeus, e t0. 0 pelos· pagãos e idolatras.
A fim de patentear o seu horror aos apostatas voluntarios, e para
distioguil-os dos filhos que vivem no seu seio e gozam das vantagens da
sua communbão, probibe a Egreja aos seus ministros que façam menção
d' estas especies de pessoas nas orações publicas; porém exempta o offi·
cio da Sexta-feira Santa, porque n'este dia morreu Jesus Cbristo por
todos os homens. Oh r sim, a Sexta-feira Santa é o dia do grande per-
dão. A fim de dar o exemplo a nós todos que somos seus filhos, sus-
pende a Eg.reja, nossa mãe, as suas santas e sabias prescripções, e Je-
sus, nosso pae, nos convida do alto da sua cruz a repetir com elle a favor
dos que nos teem feito mal : Pae, perdoae•lhes, porque não sabem o que
fazem (2).
Entre cada uma das orações, diz o officiante : Flectamos genua, Do-
bremos os joelhos. O diacono responde: Levate, levantae-vos. Mas na ora-
ção pelos judeus que mataram o Filho de Deus, não dobra o joelho o
Sacerdote. Ahi se manifesta um grande horrror ao povo deicida.
A terceira parte do officio da Sexta-feira Santa é a Adoração da Cruz
(3). Terminadas que são as orações sacerdotaes, tira o celebrante a casula,
vae para o lado da Epistola, recebe a cruz velada da mão do diacono,
descobre-a um pouco e começa a antífona : Ecce lignum Crucis. Eis o
madeiro da Cruz. Responde o côro: Venite, adoremus: Vinde, adoremos.
Toda a assemblêa se prostra. Depois de outras duas elevações, é a Cruz
levada para diante do altar, o Presbytero, descalço, adora-a· e beija-a, e
todo o povo o imita. Durante a adoração, dois cantores postos no meio

(1) Leo, Epist., t. II, p. 77.


(2) Lucas, XXIII, 34,
(ll) E' inutil lembrar que os Catholicos não adoram a cruz, mas sim o Deus
morto na cruz.

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CATECISMO

do côro cantam as palavras que exprimem o ineffavel amor de que es-


tava animado Jesus ao subir ao logar do supplicio. Estas palavras chamam-
se improperio, o que quer dizer aqui ternas exprobrações que o coração
de Jesus dirigia aos judeus que o levavam a morrer.
Eil-as:
«0' meu povo t que te fiz eu? em que te contristei? ó meu povo!
responde-me.
«Porque te tirei da terra do Egypto, preparaste uma cruz ao teu
Salvador!»
Confundida por tanta malicia d'uma parte, e tanta bondade da outra,
a Egreja, enternecida, oppressa pela sua dôr, deixa escapar, como um pro-
fundo suspiro, este acto de adoração e amor·: O' Deus santo 1santo, pode-
roso 1 santo, immortal ! tende compaixão de ·nós!»
Cantam-se estas palavras em grego e latim, e a Egreja nos patentêa
a sua catholicidade. _Quer que todos os povos e todas as línguas adorem,
e amem com ella. Parece tambem que não tem por sufficiente uma lin-
gua para exprimir a sua dôr e clamar para Deus (i ).
Continuavam os cantores : ,por,que eu te dirigi durante quarenta an-
nos no deserto, e te alimentei do manná, e te introduzi n'uma terra fe-
cunda, preparaste uma cruz ao teu Salvador!»
Responde o côro: «O' Ueus santo! santo, poderoso t santo, immortal !
tende compaixão de nós !,
Os eant.Or~: •Que mais podia eu fazer por ti do que fiz? Não foste
a vinha que plantei, e guardei debaixo da minha protecção ~ e tu não me
déste senão fructos amargos, e quando tive sede déste-me de beber vina-
gre, e traspassaste o lado do teu Salvador !,
Responde o côro: 4Q' Deus santo 1santo, poderoso t santo, immor-
tal ! tende compaixão de nós 1,
N'esta parte do officio tudo é imagem, tudo falla aos sentidos; n'elle
persiste como um delirio, e, n'essas angustias, estas palavras tão simples

(1) Segundo Benedicto XIV, a.Ilude tambem a um facto relatado no Menolo-


gio dos gregos. Alli se diz que, no imperio de Theodosio, um tremor de terra poz Cons-
tantinopla a dois dêdos da ruina ; que o imperador e o Patriarcha se prostraram pe-
dindo misericordia e repetindo Kyrie, eleiaon, que um menino foi levantado aos ares,
que cahiu bradando ao povo que ca.ntasse o trisagio seguinte: Sanctus Deus, Sanc-
tus fortis, Sanctu,s et immortaUs, e que depois morreu. Esta oração tornou-se mui or-
dinaria na Egreja do Oriente. A Egreja latina adaptou-a. - Ea vero hac die prre-
sertim utitur la.tine, ut propriam suam linguam adbibeat. Grrece vero etiam, ut al-
ludet illi divinre voei, quam puerwn illum diximus Constantinopoli ediclisse. P. 251,
n.136.

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DE PERSEVERANÇA. 75
que se repetem muitas vezes : Meu povo, que te fiz eu'! commoveriam co-
rações de bronze.
No meio d'estes suspiros e de todo este apparato commovedor é que
os reis, os Pontifices, os Cardeaes, os Arcebispos, os Bispos, os anciãos
do santuario, os meninos de côro, os fieis, os ricos e os pobres, vão ado-
rar o lenho redemptor. Parece vêrem-se os filbos atribulados d'um pae
que acaba de morrer, admittidos no quarto mortuario, onde o chefe da
familia estã exposto n'um leito funebre, e beijando com respeitosa dôr os
seus veneraveis restos. Junto do crucifixo está uma bandeja de cobre onde
depositam as suas esmolas o rico e o pobre; pois não é n'um dia de dõr
que podem ser esquecidos os pobres (t ).
Indo aaorar a cruz, como eximir-nos do pensamento de que segui-
mos a via dolorosa banhada do sangue do Salvador? Abramos os ouvidos
do coração a estas ternas exprobrações que se dirigem muito mais aos
Cbristãos que aos judeus, e cada um de nós tome a sua parte d'ellas:
Meu povo, que te fiz eu? em que te contristei? Responde-me. Alma chrislã,
1
minha filha, minha muito amada, eu livrei-te do captiveiro, alimentei-te
do manná, e tu preparaste uma cruz ao teu Salvador! ! ! Guardei-te sob
a minha protecção como as meninas dos meus olhos, que mais devia fa-
zer por ti? e tu preparaste uma cruz ao teu Salvador ! ! !
E teremos dôr e amor no coração, e lagrimas nos olhos, e, se po·
dermos faltar, ternas palavras nos labios; e voltaremos do Calvario como
o centurião, batendo no peito, detestando as nossas ingratidões e resol-
vidos antes a morrer que a contristar mais um Pae tão bom.
Aeabada a adoração, vão-se buscar e trazem-se em lugubre silencio
as sagradas Especies: o Presbytero communga, e depois psalmodiam-se
as Vesperas em tom grave e lugubre, e está terminado o officio da ma-
nhã.
III. SETE PALAVRAS DO SALVADOR. - Pelas tres horas da tarde, não
se deve deixar de ir adorar a Jesus moribundo. Em certos paizes, diri-
ge-se o povo ás egrejas n'aquelle momento solemne. Cada qual ora, cada
qual pede perdão por si e por seus irmãos, e quando o relogio bate tres
horas, vereis toda a multidão, silenciosa e enternecida, prostrar-se e bei-
jar o pavimento dQ templo. Então um util exercício é meditar as sete pa-
lavras de Jesus na cruz. Vamos explicai-as em poucas phrases e mostrar

(1) Quadro poetico, p. 150. Vide, sobre todas as ceremonias da Semana Santa,
as Tres Romas.

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76 CATECISMO

que estas sete palavras são o testamento do Salvador e o resumo de toda


a Religião, e por conseguinte a base de todos os nossos deveres e a ga-
rantia da nossa felicidade no tempo e na eternidade.
t. º Pae, perdoae-lhes, porque não sabem o que fazem. Jesus está na
cruz, o crime dos judeus é evidente. Comtudo ora por elles, sem distinc-
ção. Desculpa-os pela sua ignorancia da extensão do crime de que são
reus. Assim, faz o que nos prescreveu no E\'angelho : Orae por aquelles
que vos perseguem ; amae os vossos inimigos. U perdão das injurias, o
amor dos inimigos, base da sociedade, porque é a base do direito publico
e privado: tal é o primeiro artigo do testamento de nosso Pae.
2. 0 Estarás hoje comigo no Paraiso. - Em quanto todos o insultam,
negam ou abandonam, ouve Jesus um dos ladrões dirigir-lbê uma pala-
vra de fé e confiança. Isto basta. Jesus concede-lhe o perdão d'uma vida
inteira d'iniquidades e promette-lhe que no mesmo dia estará com elle na
mansão das almas bemaventuradas. Tudo quanto se tem dicto da infinita
misericordia de Deus empallidece ante esta promessa. A infinita miseri-
cordia de Deus para com o peccador arrependido, a inteira confiança do
peccador arrependido na misericordia de Deus; base da ordem moral : tal
é o segundo artigo do testamento rle nosso Pae.
3. º Mulher, eis ahi teu filho ; eis ahi tua mãe. Jesus vae morrer,
mas sua santa Mãe ainda o occupa. Confia-a ao discipulo querido. Con-
sola-a dizendo-lhe que terá outro filho em logar do que vae perder; e,
para estimular S. João a ter cuidado em Maria, lhe diz que ella o amará
qual mãe. A ternura constante dos filhos para com seus paes, a ternura
não menos constante dos paes para com seus filhos, base da familia : tal
é o terceiro artigo do testamento de nosso Pae.
4. 0 Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? No jardim das
Oliveiras, submetteu-se o Salvador plenamente á vontade de seu Pae, e
soffreu tudo com a mansidão d'um cordeiro. Não se desmente n'aquella
occasião. Mostra unicamente a extensão da sua dôr, para que não duvi-
demos de que soffreu, para que saibamos quanto nos amou, e para que
conheçamos a quem devemos recorrer nas nossas affiicções .. D'este modo,
a resignação christã nos nossos soffrimentos, base da paz publica e pri-
vada, base de toda a virtude séria, e por conseguinte de todo o verda-
deiro merecimento para cada um de nós: tal é o quarto artigo do testa- ·
mento de nosso Pae.
5. º Tenho s~de. No momento de morrer para salvar os homens,
crava Nosso Senhor os divinos olhos no futuro. Vê uma multidão innu-

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DE PERSEVERANÇA. 77
meravel d'almas que não terão em conta nem os seus soffrimentos nem o
seu amor, e a esta perspectiva angustiosa exclama: Tenho sêde. Tenho
sêde d'ultrajes, sêde de soffrimentos. A cruz, se é necessario, até ao fim
do mundo para salvar mais algumas almas. D'este modo o zêlo das almas, .
base de todas as relações sociaes: tal é o quinto artigo do testamento de
nosso Pae.
6. 0 Tudo está consummado. Meu Pae está glorificado; o reinado
do demonio está acabado; se quizer, o homem está salvo. D'este modo, o
cuidado contínuo de cumprir em todas as coisas e segundo o nosso es-
tado a vontade de Deus, base da perfeição individual: tal é o sexto artigo
do testamento de nosso Pae.
7. 0 Meu Pae, nas tuas mãos entrego a minha alma. Vim por
amor de meu Pae, morro por amor de meu Pae, eis a minha ultima pa-
lavra, o segredo da minha vinda a este mundo, e da minha sabida. D'este
modo, a salvação da nossa alma: tal é o setimo e ultimo artigo do testa-
mento de nosso Pae.
Que rico assumpto de meditações não são estas sete pala\Tas (t)?
No officio da tarde, chamado Trevas, continúa o lucto. A voz lugu-

bre de Jeremias, os gemidos das santas mulheres, retumbam sob as abo-
badas do templo; então a Egreja é uma viuva que chora sobre o tumulo
de seu esposo.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor t graças vos dou por terdes entre-
gado á morte vosso Filho unico para me remir; não permittaes que eu
inutilise para mim o fructo da sua Paixão.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d' este amor,
hei de recitar todas as sextas-feiras, pelas tres horas, cinco Padre-nossos
e cinco Ave-Marias, em honra das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus
Christo.
(1) Vide a obra de Bellarmino, De septem Verbis, etc.; de S. Aft'onso de Li-
guorio, a Paixão segundo os quatro evangel., etc.

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78 CATECISMO

JRIGESIMA·SEPTIMA LIÇÃO.

Ochrislianismo tornado sensivel. ,

Sabbado Santo.-Objectô do officio.-Sna excellencia.-Di·


'Wisão do offido.-Benção do Fo1;0 nowo.-Benção do Cirto
pal!l(lbal.- Lições.- Benc;ão da Pia bapttsmal.- Hissa.-
Vespera•.

E' consagrado o Sabbado Santo a honrar o enterro do Salvador.


N'esse dia, até ao domingo pela manhã, epocba da resurreição, parece-se
a Egreja com uma esposa atribulada que vela junto do tumulo de seu es-
• poso. Os seus officios são mais longos, mas pelo meio da sua dôr trans-
parecem signaes d'alegria. Sente-se que tem fé no mysterio consolador
do dia seguinte.
Nos primeiros seculos, varias Egrejas haviam feito do Sabbado Santo
uma festa de preceito. Foi depoi's reduzida á classe das semi-festas (i) :
agora está qúasi em todas as partes entregue á devoção dos fieis. Não
obstante estas variações, a vespera de Paschoa foi sempre a primeira de
todas as vigilias em dignidade, como é a primeira pela antiguidade. Com
effeito, é a mais extensa de todas e a mais rica em ceremonias. Outr'ora
juntava immediatamente o officio da festa de Paschoa ao seu, pois come-
çava depois da hora de Nôa ou ao pôr do sol, e era continuada até ao
romper do dia de domingo, pelos fieis de todos os estados, pela maior
parte em jejum desde a sexta-feira, e alguns desde a quinta.
Nos mesmos Jogares onde eram mais breves as ceremonias, e onde
havia menos catbecumenos que baptisar, tinha-se cuidado de recommendar
que não acabassem os officios antes do canto do gallo, que era a hora de
offerecer o Sacrificio, de commungar e de quebrar depois o jejum da Qua-
resma. N'este caso, empregava-se o tempo que restava, entre as diversas
bençãos e a Missa, a lêr lições da Lei, Prophetas ou Psalmos, ou a dar
(1) Nas semi.festas, não m·a obrigatoria a cessação dos trabalhos servis senão
até ao meio dia.

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DE PERSEVERANÇA. 79
1
alguma instrucção ao povo. Este uso, que não cessou na Egreja latina
senão quando se começaram os officios d' esta vigilia á hora de Terça,
ainda subsiste entre os gregos. Passam ainda boje toda a noite na egreja,
a lêr a Escriptura ou a cantar até á hora do officio de Paschoa, que
começam immediatamente depois do nascer do sol, sem sahirem da
egreja (t).
O officio do Sabbado Santo compõe-se de seis partes ou ceremonias
principaes: t. 0 a beução do Fogo novo; 2. º a benção do Círio paschal;
3. 0 as lições; 4. 0 a benção da Pia baptismal; 5. 0 a Missa, e 6. 0 as Ves-
peras. A mais veneravel antiguidade respira em cada uma d'estas bellas
ceremonias; as mais tocantes recordações das Catacumbas, de Constanti-
nopla, de Nicêa, de Jerusalem, de todas aquellas grandes Egrejas, passam
successivamente diante dos nossos olhos. Oxalá as saudaveis impressões
que ellas são capazes de produzir se gravem profundamente nas nossas
almas f
t. º Benção do fogo sagrado. Era antigo costume, estabelecido desde
o quarto seculo na maior parte das Egrejas, abençoar todos os dias, pela
tarde, o fogo com que deviam accender as lampadas para o officio de
Vesperas (2). Antes se tirava o fogo da pedra para o abençoar, do que
se tomava no lar das casas. Este uso entra no grande pensamento da
Egreja de que, tendo sido viciadas todas as creaturas, não convém em-
pregal-as sem benção nas ceremonias do culto divino. Assim que, desde
os primeiros seculos, não se serviu do fogo profano ou vulgar nos sacri-
ficios 0 nas· orações publicas que demandavam luzes. Que pensaes d'is-
to? esta primeira ceremonia do Sabbado Santo não é profundamente in-
structiva? Não podeis explicai-a senão contando toda a historia do mundo
decahido e regenerado.
O costume de abençoar todas as tardes Fogo novo interrompia-se
durante os tres ultimos dias da Semana Santa, por causa do desarranjo
sobre-vindo á ordem dos officios. Tomaram pois a resolução de conser-
var fogo da vespera para o dia seguinte, conservando accêso o ultimo
dos cirios. Este uso, a principio commum aos tres dias, foi mais tarde
restringido ao Sabbado Santo, de sorte que a benção do Fogo novo se
tornou uma ceremonia propria d'este dia (3).

(1) Vide Thomassino, Celebraç. das festas, p. 339.


(2) E' por isso que nos antigos auctores este officio se chama lucernarium.
Mabill., Musre ilal., t. II, p. 101.
(3) Mena.rd, p. 91.

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80 CATECISMO

Começa hoje o officio, e faz-se com grande solemnidade d'orações ;


pois este fogo novo é para o Cbristão a imagem da Lei nova, lei de graça
e amor que vae nascer do tumulo de Christo, como o fogo antigo é a
imagem da Lei antiga, extiocta no sangue do Salvador. Quando pois o
clero chega ao côro, entôa as Ladainhas dos Santos. A Egreja quer que
seus filhos já coroados no ceo tomem parte na alegria de que encheu a
terra o apparecimento da Lei nova, e que rogando por seus irmãos d'este
mundo, lbes alcancem a graça de seguirem como elles os mandamentos
d'essa lei immaculada, e de chegarem à mesma felicidade (t). Em quanto
se canlam as Ladainhas, o Sacerdote abençôa o fogo novo : tal é a pri-
meira parte do officio do Sabbado Santo.
2. º Benção do Cirio paschal. O Cirio pascbal não era primitiva-
mente senão uma columna em que o Patriarcha d'Alexandria escrevia a
epocha da Paschoa e das festas moveis que se regulam por esta grande
solemnidade. Sendo Alexandria a cidade que possuia os melhores astro-
nomos, devia o Bispo éonsultal-os cada anno, e, segundo a sua decisão,
fixar ao Papa, e por meio d'elle a toda a Egreja, o primeiro domingo
depois do decimo-quarto dia da lua de março. Então escrevia-se em cê-
ra, e n'uma especie de columna feita d'esta materia é que o Patriarcha
d' Alexandria traçava o cathalogo das principaes festas do anno. O Papa
recebia este canon (2) com respeito, abençoava-o e enviava outros si-
milhantes ás demais Egrejas, que os acceitavam com as mesmas hon-
ras.
. Breve se fez d' este bordão de cêra uma tocha que serviu para allu-
miar durante a noite de Paschoa, e considerou-se ao mesmo tempo como
o emblema de Jesus resuscitado. O Papa Zozimo approvou este uso e o
estabeleceu geralmente ordenando a todas as Egrejas parochiaes que
. abençoassem no Sabbado Santo um Cirio pascbal (3).
Com o fogo sagrado se accende o Cirio paschal. Não é permittido
accendêl-o d'outro modo, nem lambem aos outros cirios destinados aos
officios e à Missa da vespera de Pascboa. Qualquer outro fogo é decla-
rado estranho e profano, similbante ao que irritou o Senhor contra
Nadab e Abiu, e que foi causa <la perda d'elles. A benção do Cirio
(1) Durand., l. VI, e. LXXX.
(2) E' sabido que a palavra canon quer dizer regra. Aquella columna era o
canon ou a regra segundo a qual se celebravam a Paschoa e as festas moveis que
d'ella dependem. ·
(3) Zozimus Papa decrevit cereum 8abbato Sancto Pascbre, per ecclesias be-
nedici (Sigebertua). An. 417.

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paschal remonta á mais alta antiguidade. Encontra·se já nas obras
de S. Ennodio, Bispo de Pavia, que vivia no começo do sexto seculo.
(t ).
Este Cirio mui alto colloca-se n'um candelabro no meio do santua-
rio, em frente do altar. Permanece accêso no ofiicio do Sabbado Santo,
na Missa e nas Vesperas, durante toda a semana de Paschoa; e depois
na Missa e nas Vesperas dos domingos e dias festivos até á Ascensão.
N'esse dia desapparece immediatamente depois do evangelho da Missa
cantada: n'esse momento, o Salvador, arrebatado á terra, torna a subir
aos ceos.
Todas estas circumstancias indicam bem a·mysteriosa significação do
Cirio pascha1. E' o primeiro symbolo da resurreição de Nosso Senhor,
que a Egreja propõe aos fieis no Sabbado Santo. Elle lbes recorda ao
mesmo tempo que o seu divino Redemptor é a luz do mundo. Assim
que nada mais magnifico, nada mais celebre na liturgia que a formula
empregada para o abençoar. Começa por estas palavras : Exsultet jam
Angelica turba, etc.
«Os Anjos do ceo, a milicia do alto se alegre e exulte <le jubilo, e
o som das trombetas annuncie os nossos sacrificios d'alegria !
«Esteja a terra na felicidade, e goze a gloriosa luz que lhe veio!
«E rós, nossa santa madre Egreja, alegrae-vos tambem; eis-vos ra-
diante da luz do _facho divino, do facho que allumia o mundo! ·
«O logar santo retumbe com os transportes da alegria dos povos f
as acclamações da terra subam ao ceo ! »
Tudo o mais respira o mesmo enthusiasmo. Esta benção é digna do
genio de S. Agostinho, a quem se attribue (2). Em vão se procurariam
em outra parte imagens mais graciosas e poeticas, palavras mais nobres
e canto mais bello. N'esta inimitavel benção se acham admlraveis pala-
vras: «O' peccado d' Adão verdadeiramente neces~ariol pois que o Cbrislo
o apagou com a sua morte. O' feliz culpa que nos mereceu tam grande
Redemptor ! » E' o Oiacono quem canta este bello annnncio da festa da
Paschoa; pois a benção do Çirio paschal foi sempre do mioisterio dos
Diaconos, até mesmo na presença do Bispo ou do Presbytero ofiliciante.
E' então o Diacono como um arauto do Ceo que vem annunciar á Egreja
a gloriosa resurreição de seu Esposo, o seu triumpho n'este mysterio, os

(1) Ennod., p. 453.


(2) Bened. XIV, 292, n. 59.

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Si CATECISMO

brilhantes testimunhos da sua misericordia, e a ventura do homem re ..


conciliado com Deus pelo cumprimento da grande obra da Redemp-
ção.
Os cinco grãos d'incenso que elle crava no corpo do Cirio, em fórma
de cruz, são um emblema das cinco chagas de Nosso Senhor e dos aro-
mas que serviram para embalsamai-o (i). A oração que a Egreja em-
prega para os abençoar não deixa a este respeito duvida alguma. Mos-
tra-nos lambem a efficacia do Cirio bento, assim como de todas as ou-
tras coisas santificadas, para afastar o demonio, os flagellos e as doen-
ças. Eis ahi porque se tiravam do Círio pascbal bocados de cêra que se
distribuiam aos fieis depois da missa do domingo de Quasímodo. EJles
os queimavam em suas casas, nos seus campos, nas suas vinhas ou nos
seus prados, como preservativos contra o trovão, a saraiva, os ventos, os
maus animaes e os artificias do demonio. Em lagar d'estes bocados de
cêra, abençôa Roma, na manhã do Sabbado mór, cordeirinhos de cêra,
que distribue á Missa do domingo de Quasímodo, com a mesma intén-
ção (~).
Antes de tachar-se de simplicidade a fé de nossos avôs, seria neces-
sario provar ou que a Egreja não é infallivel, ou que nós nada temos que
temer, hoje principalmente, dos artificios do demonio, ou que Deus não
é o senhor da natureza, e que não lhe é dado conceder os seus favores
com aquella condição que lhe agrada. Quanto a nós, admiremos a infinita
bondade de nosso Pae celeste que teve por bem, n'estes fracos meios, dar
armas a seus filhos contra os seus inimigos, e fazer depender da nossa
confiança n'elle a nossa conservação e a do que nos é charo. D'aqui em
diante, quando virmos accender o Cirio paschal, cuidemos sériamente em
resuscitar com Nosso Senhor ; e quando, desde a Pascboa até á Ascen-
são, o virmos brilhar ante os nossos olhos, como a columna que guiava
Israel para a Terra promettida, perguntemos a nós proprios se caminha-
mos fielmente atraz do Salvador resuscitado, e se nos approximamos do
Ceo, verdadeira Terra promettida do Cbristão.
3. º As lições.. A terceira parte do officio do Sabbado Santo con-
tém as lições. Já vimos que, na antiguidade, não devia terminar o offi-
cio do dia de Pascboa, o mais cêdo, senão ao cantar do gallo, isto é, de·
pois da meia noite do dia de Pascboa. Nas egrejas onde havia poucos

(1) Durand., l. VI, e. LXXX.


(2) Menard, p. 98; Ennod., p. 73.

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DE PEMEVERANÇA. 83
cathecumenos que baptisar, empregava-se o tempo que restava desde as
bençãos do Fogo e do Cirio pascbal até á Missa em cantar lições da Sa-
grada Escriptura. Eram outras tantas instrucções que se davam aos fieis.
Para que todos tomassem interesse n'ellas, as cantavam nas duas línguas
então vulgares, o grego e o latim. Para tirar a monotonia e fallar suc-
cessivamente ao espirito e ao coração de seus filhos, estabelecêra a Egreja
que estas lições fossem entremeadas de canticos ou responsorios, e de
collectas proprias para excitar a piedade. O mesmo se observa ainda boje.
Todas as lições, em numero de doze, se referem ao baptismo, cuja grande
festa é o Sabbado Santo.
Podia a Egreja achar tempo mais conveniente que o que decorre
entre a morte e a resurre~ão do Salvador, para celebrar o baptismo dos
fieis ~ a resurreição dos filhos de Deus ? Não se tracta de representar o
passo que se lhes faz dar da morte do velho homem ou do peccado, se-
pultado no tumulo do Salvador, para a vida nova que nos proporciona o
segundo Adão pela graça do Baptismo ? Quando pois o Diacono acaba a
benção do Cirio paschal, depõe a dalmatica, e, tendo-se revestido da alva
e da estola, sobe á tribuna e canta a primeira lição : as outras são canta-
das por clerigos de ordem inferior. Como dissemos, ao grande mysterio
da nossa regeneração é que a Egreja teve intenção de applicar o sentido
d'estas doze lições, qoe se chamam prophecias. Não teem titulo em signal
de lucto~
E' a primeira tirada do Genesis, e versa sobre a creação do mundo,
principalmente sobre a do homem creado á imagem de Deus. Esta ima-
gem, apagada pelo peccado, é reparada no Baptismo da regeneração em
Jesus Christo, pelo merecimento da sua morte e resurreição.
E' a segunda a historia do diluvio, por meio do qual pereceram
todos os que não estavam na arca, figura da Egreja.
E' a terceira a historia do sacrificio d' Abrahão, em que se vê a sub-
missão d'Isaac, o qual, estando sob a mão de seu pae, cujo braço dirigia
o Senhor, representava um baptisado submettido áquelle que, impoodo-
lbe a mão e marcando-o com a uncção santa, o faz renunciar á sua pri-
meira vida nas aguas do Baptismo.
E' a quarta a historia da miraculosa passagem dos israelitas atra-
vez do mar Vermelho, que foi para elles Qm caminho de vida e salvação,
oomo é o Baptismo para o cathecumeno.
E' tomada a quinta do propbeta Isaías, por cuja bôcca o Senhor,
depois de ter mostrado em que consiste a herança que promette a seus

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84 CATECISMO

filhos adoptivos, convida a todo o mundo a abraçar a Religião cuja porta


é o Baptismo, a fim de ter parte n'essa herança.
E' a sexta-a prophecia de Barucb. O Propheta diz aos filhos d'Israel
que não foram levados captivos senão por terem abandonado o Senhor ;
e depois mostra-lhes o caminho para voltarem á vida e á 1iberdade. Eis o
genero humano feito escravo pelo peccado original, e restituido á liber-
dade pelo Baptismo.
E' tomada a septima do ponto de Ezequiel em que se tracta da re-
surreição geral dos homens, resurreicão que se opera mysteriosamente
no Baptismo.
E' a oitava o ponto d'Isaias em que se diz que sete mulheres toma-
rão o mesmo homem, a quem não pedirão senão a honra de usarem o
seu nome para se livrarem do opprobrio. Vêdes todas as nações correndo
ao Baptismo e tomando o nome de christãs, para se livrarem da vergo-
nha e dos horrores do paganismo?
Recorda a nona, tirada do Exodo, a passagem do Anjo extermina-
dor, que poupa aquelles cujas casas estavam tintas do sangue do cor-
deiro. Felizes os cathecumenos sobre os quaes, depois do Baptismo, não
tiver mais imperio o demonio !
A decima é o propheta Jonatbas que, lançado ás ondas, engulido
por um monstro marinho, sahe cheio de vida ao cabo de tres dias. E' o
homem que, prêso e devorado em certo modo pela serpente infernal,
lhe é arrancado das goelas pelo Baptismo.
E' tirada a undecima do ponto do Deuteronomio em que se diz que
Moysés escreveu o seu segundo cantico e o ensinou aos filhos d'Israel
pouco tempo antes de morrer: advertencia aos futuros baptisados, lem-
bra.nça dos seus compromissos.
E' a duodecima a historia dos tres jovens hebreus condemnados a
serem lançados na fornalha ardente por não terem querido adorar a esta-
tua do rei da Babylonia : protecção de Deus aos baptisados tornados seus
filhos.
Por esta escolha de lições, tam ·bem seguida, tam bem apropriada
á circumstancia d'aquellas noites brilhantes e solemnes em que um norn
povo ia passar pelas aguas regeneradoras, é facil de reconhecer a sabe-
doria divina que preside a todas as prescripções da Egreja catholica.
4. 0 A quarta parte do officio do Sabbado Santo é a benção da Pia
baptismal, isto· é, da agua que deve servir para o Baptismo dos cathecu-
menos. O uso de abençoar a agua do Baptismo remonta ao berço da

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!
J
DE PERSEVERANÇA. 85
Egreja. Vê-se a prova d'isso nos escriptos dos Santos Padres do quarto
e até do terceiro seculo (t ). Quando os cathecumenos h~viam passado
pelo ultimo exame, feito a tripie renuncia e recebido a uncçaQ do Bisp~
ia-se á pia baptismal para a abençoar. Toda a assemblêa dos eis, le-
vando vélas accêsas, caminhava em procissão, ao canto das Ladainhas que
se diziam a tres, cinco ou sete córos, conforme era numeroso o auditorio
(2) ; ou se repetiam a dois córos até tres, cinco e sete vezes. D'ahi é
que vieram os nomes de ternaria, quinaria e septenaria, dados a estas
Ladainhas. Voltando da pia baptismal, cantava-se a Ladainha ternaria que
se repetia tres vezes; diz-se ainda hoje.
Acabadas que são as prophecias, eis que todo o clero se põe em
· movimento para a pia baptismal cantando as Ladainhas. Chegado ao bap-
tisterio, o Presbytero abençôa a agua. Nada mais venerando pela sua an-
tiguidade; nada mais instructivo pela sua significação e mais efficaz pela .
sua virtude, que as orações e ceremonias sagradas que elle emprega.
Começa recordando, n'um magnifico prefacio, as maravilhas que Deus
operou pelas aguas ; depois mettendo a mão na taça do baptisterio, di-
vide as aguas em fórma de cruz, e pede a Deus que as encha da virtude
do Espirito Santo, e as fecunde pela sua graça. Depois as derrama para
as quatro partes do mundo, para denotar que toda terra deve por ellas
ser banhada ; quer dizer que, segundo a promessa de Nosso Senhor, o
Evangelho deve dar a volta do mundo e que todos os povos devem ser cha-
mados ao Baptismo. Sopra tres vezes sobre a agua, supplicando a Nosso
Senhor que a abençôe pela sua propria bôcca e a subtraia ao poder do
demonio.
· Immerge n'ella tres vezes o Cirio pascbal, para mostrar-nos que pe-
los merecimentos do Salvador, morto e resuscitado, cuja figura é aquelle
Cirio, é que ella ha de ter a virtude de preservar-nos os corpos e as al-
mas dos embustes do inimigo e de remittir os peccados veniaes, fazendo
nascer nos corações sentimentos de amor de Deus e de contrição. Deita
algumas gotas d'aquella cêra na agua que acaba de abençoar, para mos-
trar que ella fica unida á virtude de Jesus Christo ; e depois separa a agua
que deve ser reservada para o Baptismo. Quando esta na pia baptisma1,
mistura-lhe o santo chrisma. Recorda a graça que ha de produzir o Bap-
tismo n'aquelles que o receberem. cEsta agua, diz, por esta mistura seja

(1) Cyril., Catech., III; Cypr., ep. LXX ad Januar.


(2) Sacram. Gregor. et Ord. rom.
6

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86 CATECISMO

santificada e fecundada, e receba a virtude de remittir os peccados e de


regenerar as almas, para a vida eterna, em nome do Padre, etc.»
Outr'ora, depois da benção, ia o Presbytero espargir d'esta agua san·
tificada sobre os assistentes: o mesmo se faz ainda hoje. Todos os fieis
tinham depois, e teem ainda liberdade de tomarem d'esta agua e de a le·
varem para suas casas. Emprega-se como preservativo contra os acciden-
tes e perigos espirituaes e corporaes. E' vergonhoso não se encontrar
esta agua benta nas casas, e não saber onde se ha-de tomar quando se
tracta de administrar os enfermos. Terminada a benção, volta-se ao côro
cantando as Ladainhas. Era então que, na primitiva Egreja, se conduziam
em procissão, ao altar, os novos baptisados, revestidos das suas vestes
brancas, com uma vela accesa na mão, e acompanhados dos padrinhos é
madrinhas. No altar recebiam a sagrada Eucharistia e comiam o leite e o
mel da innocencia.
5. 0 A Missa. Começa a Missa Jogo que se volta ao côro. Não tem
Introito, porque todo o povo já entrou. Nos primeiros seculos, estava
elle na egreja desde a vespera. E' muito breve por causa da longnra dos
precedentes officios. A. Alleluia, supprimida desde o principio da Qua·
resma, reapparece em signal d' alegria; mas é seguida do tracto, canto
de tristeza, porque o grande mysterio da Resurreição ainda não está con-
summado.
6. 0 As Vesperas. Acontece o mesmo com as Vesperas. Um só psal·
·mo de dois versiculos as compõe ; mas quam bem escolhido é este psal·
mo 1 aO' nações todas da terra, exclama a Egreja, louvae o Senhor! po-
vos, Iouvae-o todos, porque a sua misericordia se manifestou sobre nós e
a verdade da sua promessa permanece eternamente ( f ). •
Pelas nações, entende o Propheta os gentios; pelos povos, os filhos
d'Israel, sociedades outr'ora separadas, mas unidas n'este grande dia em
Jesus Christo para não fazerem mais que uma só familia. Por isso o Pro-
, pheta, vendo no futuro este mysterio d'unidade, o Baptismo, em que ju-
deus e gentios, recebendo o mesmo espírito, se tornam filbos de Deus,
exclama em santo transporte : A sua misericordia se manifestou sobre
nós ; sim, sobre nós todos, sobre vós e sobre nós. Quam tocante é este
nós! Oxalá abrase os nossos corações d'essa charidade verdadeiramente
catholica de que é expressão 1
No Sabbado Santo sepultemo'-nos no tumulo com Nosso Senhor ;

(1) P1al. CXVI.

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DE PERSEVERANÇA. 81
deixemos Já o velho homem. Transportemo' -nos ás noites brilhantes e
solemnes da primitiva Egreja em que se conferia o Baptismo. Renove-
mos as nossas promessas. Purifiquemos a nossa tuoica baptismal com as
lagrimas d'uma sincera penitencia, a fim de podermos, no dia de Pas-
choa, entrar nas bôdas do Cordeiro.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor r graças vos dou por haverdes
morrido, e por terdes querido ser sepultado por amor de mim ; conce·
dei-me que me despoje do velho homem durante a Quaresma, a fim de
resuscitar para a vida da graça no dia de Pas.choa.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro·
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
perguntarei a mim proprio, no Sabbado Santo : Estou eu morto para o
velho homem?

*
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88 CATECISMO

TRIGESIMA·OITAVA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

Pa•choa.-Objee1o d'esta solemnldade.- Sabedoria da Esre·


Ja na epocba d'e•ta te•ta. - Sua exeellencia. - Sua har-
monia com a estac;ão. - DiTisão do omcio. - Proeis•ão an-
te• da .Hi•11a. - Hissa. - Vesperafl. - ProciHão. - Semana
de Pa•choa.

1. ÜBJECTO DA FJ<~STA DA PASCHOA. - Pascboa ! eis uma palavra que


tem atravessado mais de trinta seculos ; uma palavra que resoou nas fron-
teiras do antigo Egypto, nos areaes do Deserto, nos éccos do Sinai, nas
margens do Jordão, no templo de Salomão, nas catacumbas de Roma,
nas basílicas de Constantinopla e Nicêa, na cabana do selvagem da Ama-
rica, nas choupanas do negro da Africa central, nas planicies abrasadoras
da China e nas geladas montanhas da Tartaria: palavra immortal como o
acontecimento que exprime !
Paschoa ! eis uma solemnidade que, ha milhares d'annos, põe em
alegria o Oriente e o Occidente : é a festa do universo, é uma festa de
familia. D'onde vem que faz pulsar em consonancia tantos milhões de co-
rações? Perpetua um facto de interesse commum, immenso, eterno.
Quereis saber a origem d'esta solemnidade verdadeiramente catho-
lica? O povo de Deus gemia nos ferros de Pharaó, mas alfim soou a
hora do livramento. O Anjo do Senhor passa durante a noite e fere
com a morte todos os primogenitos das casas em que não vê o sangue
d'um cordeiro: aqui tudo é figura. Este cordeiro era o Cbristo; aquelle
P~araó era a antiga serpente, tyraana do genero humano desde a culpa
original ; aqaelle povo hebreu eram todos os povos. Eis ahi porque os
judeus celebraram com uma festa perpetua a recordação d'aquella passa-
gem do anjo e a immolação do cordeiro que os preservou do gladio. Eis
ahi porque agora, tendo a figura dado logar á realidade, celebra a Egreja

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DE PEBSEVBBANÇA. 89
catholica com·uma festa perpetua a immolação do verdadeiro Cordeiro, a
sua passagem da morte á vida, a derrota do demonio, e o livramento do
genero humano;·que foi o resultado d'isso.
Conheceis nos annaes dos povos acontecimento mais digno de me-
moria e mais capaz de encher de reconhecimento, entbusiasmo e amor
quem quer que tenha na cabeça um pensamento de fé, e no peito um
coração d'homem e de christão?
Paschoa quer dizer passagem : sabeis a razão d'isto. Apenas o Ho-
mem-Deus subiu a seu Pae, quando se apressaram os Apostolos a esta-
belecer uma festa solemne para celebrarem a sua Paschoa, isto é, a sua
gloriosa passagem da morte â vida. Vêmol-os dispôr as suas viagens,
apressar ou demorar as suas excursões evangelicas para celebrarem em
Jerusalem, no mesmo logar do acontecimento, esta solemnidade das so-
lemnidades. Celebrava-se do mesmo modo em todos os paizes converti-
dos ao Cbristianismo. A nossa festa da Paschoa é portanto d'instituição
apostolica; nunca ninguem suscitou a este respeito duvida alguma. Esta
nobre origem deve ser um novo titulo á nossa veneração.
II. EPOCHA n'ESTA FESTA. - Unanimes ácerca da celebração da so-
Jemnidade, não o foram .a principio as Egrejas primitivas ácerca do·dia
exacto em que se devia fixar; e desde o meado do segundo seculo, houve
grandes disputas a este respeito. Os Christãos do Occidente não queriam
fazer a festa senão no domingo depois do decimo-quarto dia da lua que
segue o equinoxio da primavera, a fim de não se encontrarem com os
judeus na celebração d'esta solemnidade. Os Christãos do Oriente, pelo
contrario, pretendiam que se devia celebrar a Paschoa no decimo-quarto
da lua depois do equinoxio. Lendo a historia das contestações que houve
por este motivo, os espiritos superficiaes teem tentações de tachar tudo
isto de questões pueris. Que tenham paciencia de nos escutarem um in-
stante, e verão que a Egreja catholica não se agita sem grandes motivos.
Ha pontos de disciplina de importancia secundaria, entre os quaes
se póde e deve até admittir variedade, conforme os seculos e os paizes.
Esta variedade realça a belleza da Egreja e a unidade da fé. Ha tambem
na disciplina pontos essenciaes, que devem permanecer immutaveis. Ora,
o tempo da Paschoa é um d'estes pontos importantes em que era neces-
saria a unidade.
Effectivamente, não se trata aqui d'um só dia ou d'uma só festa, mas
de todas as outras grandes festas que d'ella dependem e que comprehen-
dem uma boa parte do anno christão. O jejum da Quaresma, por exem-

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90 CATECISMO

plo, e o tempo do Pentecostes dependem absolutamente do dia de Paschoa.


Não era conveniente que a Egreja, espalhada por todos os pontos do
globo, estivesse ao mesmo tempo nos jejuns e nas lagrimas, e ao mesmo
tempo na alegria? Esta unidade, esta conspiração geral de todos os mem-
bros da grande familia catholica, não teem mais força do que esforços
isolados?
Em tanto que uns honrassem com suas lagrimas e penitencias a Pai-
xão do Filho de Deus, ''êr-se-iam outras celebrar a sua resurreição com
tôdas as demonstrações da alegria e do jubilo? Dizei-me, similhante es..
pectaculo seria supportavel? E depois, se a Egreja é uma, se deve amar
em todas as coisas a unidade, nobre sêllo da sua celeste origem, não de·
via amal-a e procurai-a com muito mais ardor na celebração do mysterio
que, tendo-nos unido todos a Deus, fez de todos os homens um só corpo
em Jesus Cbristo (t) ?
Comprehendo, dizeis, que todas as Egrejas do Oriente fossem una-
nimes na celebração da Paschoa ; mas que necessidade havia de que o
Oriente e o Occidente estivessem em harmonia? A vossa imaginação, pelo
que vejo, representa-vos um grande intervallo entre o Oriente e o Occi-
dente; e crêdes que esta distancia obvia a todos os inconvenientes ; mas
esqueceis que o Oriente e o Occidente não fazem mais que um corpo de
religião, uma só e mesma Egreja; esqueceis que ha sempre grande nu-
mero d'occidentaes no Oriente, e d' orientaes no Occidente; esqueceis que
nos paizes limitrophes do Oriente e Occidente não existe aquella distancia.
Comprehendei, então, que embaraço, que confusão, que estranha va-.
riedade, quando, na mesma provincia, na mesma cidade, uns choram a
morte do seu Salvador, e outros se regosijam; uns jejuam, e outros pro-
hibem o jejuar; uns estão cobertos de saccos e cilícios, e outros ornados
de vestidos de festa! Comprehendei que perigo resulta d'ahi para a tran-
quillidade publica 1 E' necessario conter na paz e concordia não só homens
illustrados e \'irtuosos que teem bastante cabedal de intelligencia e de
charidade para acceitarem, ou ao menos para soffrerem com paciencia
estas diversidades, mas tambem ho~ens ignorantes e carnaes, faceis em
escandalisar-se e irritar-se uns contra os outros.
Por todas estas razões, que, de certo, não parecerão leves senão ao
homem irreflectido, quasi todas as Egrejas se renderam ao sentir do Papa
Victor, esperando que o primeiro Concilio de Nicêa viesse fixar por meio

(1). Bom., VI, 4.

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DE PERSEVERANÇA. 91
d'um decreto irrevogavel a unidade do dia de Paschoa para todo o uni-
verso. Estendemo'-nos de proposito sobre este ponto da nossa historia,
a fim de mostrarmos, d'uma vez para todas, a profunda sabedoria da
Egreja, e a gravidade dos motivos que a fazem obrar, combater, appro-
var e decidir em todas as circumstancias (1).
III. SuA EXCELLENCIA. - «A festa da Paschoa, diz S. Gregorio, é a
solemnidade das solemnidades, porque nos arrebata da terra para trans-
portar-nos á eternidade, e para nol-a fazer gozar desde jã pela fé, espe-
rança e charidade (2). » Este dia inspira não sei que alegria indefinível que
não se experimenta nas outras festas. O homem ama apaixonadamente a ·
vida, e sente que foi immortal. Tudo o que consolida a sua fé na immor-
talidade, tudo o que lhe devolve os seus direitos ã vida, tudo o que des-
pedaça o aguilhão da morte, faz sobre elle uma impressão poderosa e ir-
resistivel. A festa da Pascboa que é o triumpho da vida sobre a morte;
a festa da Paschoa que nos mostra o homem resuscitado, e Jesus Christo
nosso chefe, despedaçandn para si e para nós o imperio da morte, excita
sempre o mais vivo jubilo, o mais intimo contentamento.
~ccrescentae que, n'esta festa, recebe o Christão pela communhão
o penhor sensivel da sua gloriosa immortalidade. Accrescentae tambem
que toda a natureza se põe em harmonia com a Religião, para repetir-lhe
este dogma consolador. Na primavera, isto é, no momento. em que tudo
renasce no mundo material, é que nós celebramos o mysterio da nossa
resurreição primeiro para a graça, e depois para a gloria. Na falta de
livro, todas as creaturas nos podem instruir; nem uma herva dos campos
deixa de dizer-nos: Haveis de resuscitar.
Haveis de resuscitar: eis o que a Egreja nos diz tambem pela voz
eloquente das suas ceremonias. Entremos no templo sagrado. Desappa-
receram todos os signaes de luto, e os altares estão adornados com ex-
traordinaria magnificencia; os ornamentos de alegres côres e de ricos bor-
dados reapparecem com os ministros sagrados, e todas as frontes estão
radiosas; todos os sinos estão em movimento, e os habitantes das cidades
chegam em multidão aos porticos das velhas cathedraes, como as popu-
lações dos campos ás simples egrejas das aldêas. O canto de alegria, a
Alleluia, esta paJavra da língua do Ceo cabida ã terra para os nossos dias
de festa, resôa por todas as partes, repete-se a cada instante, varia-se,

(1) Bened. XIV, p. 302, n. 7.


(2) Homil. XXII in Ev"ng.

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CATECISMO

modula-se em todos os tons; e quando a isto vem juntar-se um bello sol,


eximi-vos, .se podeis, dos sentimentos d'alegria, esperança e felicidade
que este grande dia tem por missão inspirar l
IV. ÜFFICIO. - Póde dividir-se o officio da Paschoa em quatro
partes : a Procissão da manhã, a Missa, as Vesperas e a Procissão da
tarde.
N'outro tempo, logo que começava a despontar a aurora do grande
dia, todos os fieis, homens e mulheres, creanças e velhos, ricos e pobres,
príncipes e povo, iam para a egreja. O sacerdote entoava o cantico da
Resurreição, depois beijava a imagem de Jesus Christo resuscitado, e
dava em seguida o osculo de dilecção ao mais consideravel da assemblêa,
que o communicava ao seguinte, e assim até ao ultimo dos homens. As
mulheres faziam o mesmo entre si. O que dava o osculo dizia: Christo
resuscitou; o que o recebia respondia: Verdadeiramente resuscitou. Da
egreja os abraços passavam ás ruas, aos campos, e ás casas: em todas as
partes onde a gente se encontrava, dava o osculo de dilecção, sem outra
distincção que a dos sexos.
Renovava-se isto por espaço de tres dias inteiros, da mesma maneira
e com as mesmas palavras. Abstende-vos de vêr ahi uma vã ceremonia:
nossos paes tomavam a serio a Religião. Escolhiam d'ordinario esta occa-
sião para se reconciliarem publicamente e tornarem a começar a vida de
paz e charidade que deve distinguir os filhos d'aquelle que disse: Reco-
nhecerão que vós sois meus discipulos, se vos amardes uns aos outros (f ).
Existe ainda este tocante costume na Polonia durante as festas da Pascboa.
Um polaco que encontra outro diz-lhe: Jesus Christo resuscitou; e o
outro responde-lhe: Sim, Jesus Christo resuscitou verdadeiramente; e
abraçam-se na rua. Entre nós reduz-se nos nossos dias ao osculo de paz
que dão entre si, antes da communhão, os ministros do altar.
Para perpetuarmos a memoria da resurreição do Salvador e do Bap-
tismo dos cathecumenos, ainda fazemos antes da Missa a procissão e a
aspersão da agua benta. Estas duas ceremonias renovam-se todos os do-
mingos, porque todos os domingos do anno são uma continuação da festa
da Paschoa (2).
Outr'ora fazia-se a procissão paschal com grande pompa e circum-
stancias inteiramente proprias para recordar a }ntenção que tivera a Egreja

(1) Durando, 1. VI, e. LXXXVI.


(2) Ruperto, 1. VII, e. XX, XXIV e XXV; Durando, 1. VI, e. LXXXVI.

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DE PERSEVERANÇA. 93
ao estabelecêl-a. Quizera representar os Apostolos e os discipulos indo
de Jerusalem á Galilêa, onde füssera Jesus ás santas mulheres que os
precederia; e eis que os pastores, á frente do rebanho, se punbam em
andamento para a ,estaç.ão da procissão, isto é, para o ponto onde ella pa-
rava e d'onde voltava á egreja. Na sincera lingua de nossos paes, cha-
mava-se a esta estação GaliltJa. Era um logar ricamente decorado,
como os altares no dia da festa do SS. Sacramento. Alli o côro, cercado
de todo o povo, procurava exceder-se por meio de cantos de jubilo. Toda
a assemblêa respondia com enthusiasmo frequentemente acompanhado de
lagrimas d'alegria. Das antifonas da Escriptura Sagrada, passava-se a
canticos de regosijo, dos quaes era o principal o famoso hymno Salve,
festa dies: Salve, dia festivo. Ebrios de santa alegria, voltavam todos os
fieis em boa ordem á egreja para assistirem ao augusto Sacrifi.cio.
D'um cabo ao outro da Missa do dia de Pascboa respira o jubilo.
Canta-se o hymno antigo, tam cheio de poesia, que, sob a simplicidade
da expressão, occulta pensamentos alternativamente ~sublimes e graciosos,
como todos os que inspira o Christianismo.
Victimm paschali laudes, etc.
«Povo, prostra-te, ~ adora a Victima paschal, adora o Cordeiro que
salva as ovelhas!
«Adora o Christo que reconcilia a terra com o Ceo !
«Ob ! que maravilhoso duello entre a vida e a morte!
«O Senhor da vida morre ; porém a morte será vencida, e o Cruci-
ficado recobrará a vida, como um vestido que lhe pertence e que não fi.
zera mais que depor!
«Que viste, Maria? diz-nos, que viste no caminho?
«Vi o sepulcro do Christo vivo; vi a gloria do Cbristo resuscita-
do ; vi os anjos, testimunbas celestes, com suas tunicas brilhantes de bran-
cura, mostrarem-me o tumulo vasio ; ouvi-os dizerem-me : Já não está
aqui.
«O Cbristo, minha esperança, resuscitou; precede-vos na Galilêa.
«Nós o sabemos, o Christo resuscitou verdadeiramente. Christo ven-
cedor, tem misericordia de nós !»
O Evangelho da Missa contém em poucas palavras a historia da re-
surreição e do apparecimento dos anjos ás santas mulheres: dois factos
que foram narrados por meu do na segunda parte do Catecismo (1).

(1) Lição XIV.

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9i CATECISMO

Posto que o officio do dia de Paschoa seja inteiramente consagrado à


festa da Resurreição, havia comtudo uma especie de suspensão para o dos
baptisados, cuja festa, começando no Sabbado Santo, só terminava depois
do sabbado seguinte. Ora, o officio dos baptisados começava por Ladainhas
cujas primeiras palavras são: Kyrie, eleison. etc. Tal é a razão por
que começavam as Vesperas do dia de Paschoa pelo Kyrie e não pelo
Deus in adjutorium (t ). Este antigo costume conservou-se por muito
tempo na diocese de Besançon.
Os dois psalmos de Vesperas Laudate, pueri e ln exitu, referem-se
egualmente ao officio dos baptisados, de fórma que, no dia de Paschoa,
parece que a Egreja, repartida entre a alegria da resurreição do seu di-
vino Esposo e a felicidade de ter visto augmentar por meio do Baptismo
o numero de seus filhos, não sabe a que attender : esposa e mãe, passa da
tumulo vasio de seu Esposo ao berço de seus filhos recem-nascidos; can-
ta, abençôa e agradece ; falia de seu Esposo ; recorda aos baptisados o
inestimavel favor que receberam, e diz-lhes a alegria que no seu coração
superabunda. Outr'ora, durante os sete dias da semana de Paschoa, le-
vavam-se os neopbytos, ornados das suas vestes brancas, ás fontes sa-
gradas.
Durante a procissão cantavam-se dois psalmos. Ao ir para a pia bap-
tismal, o Laudate, pueri: Meninos, louvae ao Senhor. Louvae-o indo vi-
sitar o sitio onde elle vos deu nascimento. Ao sahir do baptisterio, o ln
exitu Israel: Israel ao sahir do Egypto, etc. E' o bymno do grande li-
vramento, do qual o dos israelitas não era senão figura.' Que vos parece
d'isto ? A' vista de todo este povo de baptisados voltando á borda das
aguas sagradas onde recebeu a vida e nas quaes pereceu o poder de Sa-
tanaz, não YOS parece vêr os filbos d'Israel, depois da passagem do mar
Vermelho, voltarem á borda escarpada do abysmo, e, á lembrança da sua
miraculosa passagem e da ruina de Pharaó, entoarem com transporte o
bello cantico de l\foysés : Cantemos ao Senhor I porque manifestou glo-
riosamente o seu poder; derribou o cavallo e o cavalleiro: abysmou-os
nas ondas (2), etc.? .
V. D1sPos1çõEs PARA A FESTA. - Para se celebrarem dignamente as
festas da Paschoa, . é necessario entrar no espirito da Egreja e das cere-
monias sagradas. Uma viva fé no grande mysterio da Resurreicão e um

(1) Durando, 1. VI, e. LXXX.IX.


(2) Exod., XV.

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DE PERSEVERANÇA. 95

amor illimitado ao Salvador que quiz nascer, morrer e resuscitar por nós;
um grande desejo de resuscitarmos um dia gloriosos com elle, e final-
mente uma vontade sincera e perseverante de nos conservarmos na vida
da graça, onde entramos pela communhão pascbal, de sorte que se possa
dizer áquelles que d'ora em diante nos procurarem entre os peccadores
ou os tíbios, o que diziam os anjos ás santas mulheres fallando do Salva-
dor : Resuscitou, não está aqui ('l) : taes são os sentimentos e as resolu-
ções que devemos levar para a celebração d' este graflde dia. Desgraçados
de nós se não tomamos a serio tudo isto!
VI. SEMANA DE PAscHoA. - Outr' ora toda a Semana de Paschoa era
uma festa contínua, e era principalmente em favor dos neopbytos que se
observavam est~s sete dias. A Egreja queria fazer uma recepção solemne
aos seus novos filhos; queria tambem fortalecei-os por meio de auxílios
celestes contra os ataques que teriam que sustentar depois do baplisrno.
e Nosso Senhor, diz S. Chrysostomo, foi tentado depois do Baptisrno. Os
novos fieis não devem esperar melhor tactamento d'e~te inimigo jurado
da santidade e da justiça. Fortalecem-se por tanto por espaço de sete
dias (2). »
Até ao fim da semana traziam as vestiduras brancas, e não as dei-
xavam senão no domingo de Quasímodo, chamado por isso in albis de-
positis : Domingo em que se deixa o branco. Por toda esta semana, assim
como durante o tempo paschal e todos os domingos do anno, orava-se em
pé em memoria da resurreição do Salvador. No dia de Paschoa, não se
dizem senão tres psalmos e tres lições a Matinas, por causa da Iongura
dos outros officios, dos quaes não perdiam nem uma só palavra os pri-
meiros Christãos. O mesmo succede durante a oitava da festa, porque
era costume fazer-se todos os dias da semana o que se fazia no mesmo
dia da festa (3). A Egreja quer lambem recordar aos neophytos que rece-
beramJ no Baptismo, a fé, esperança e charidade, e fazer-lhes dar graças
ás tres augustas pessoas da SS. Trindade por lbes terem concedido aquel-
las virtudes, nobre herança dos filhos adoptivos, precioso germen de glo-
ria e immortalidade (4,).

(1) Math., XXVIII, 6.


(2) Homil. de Resurrect.
(3) Quia quidquid in E eclesia prima die, prresertim quod ad neophytos attinet,
fieri solebat, idem per reliquos hebdomadm dies factitabatur. Martenio, De antiq.
Eccles. discipl. in celebr. div . offic., e. X XV, n. 25.
(4) Durando, 1. VI, e. LXXXIX ; Thomass., Celebração das Festas, 1. II, e.
XVI.

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96 CATECISMO

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos dou por me terdes
dado na resurreição de vosso Filho o penhor da minha gloriosa resurrei-
ção no dia do juizo; fazei com que resuscitemos agora para a graça, a
fim de resuscitarmos um dia para a gloria.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo pelo amor de Deus; e, em prova d'este amor,
empregarei todos os meus cuidados na communhão paschal.

.l'

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DE PERSEVERANÇA. 97

TRIGESIMA·NONA LIÇÃO.

O cbristianismo tornado sensivel •

.&anunciação da SM. Virgem.-E:seellencla d'esta :te•ta.-Seu


ohJecto. - Influencia d'e•ta :te•ta. - Sua origem. - Senti·
mento8 que deye in11pirar-D08. - cA.ve, llarla.• -DeTo-;ão
a llarla. - Uma •ut1ea em Benaré•.

1. ExctLLENCIA E OBJE€TO DA FESTA. -A Annunciação da SS'. Vir-


gem, tal é a festa que a Egreja catholica celebra a 25 de março. Entre os
grandes acontecimentos cuja memoria consagra -a Religião, occupa este
sem contradição o primeiro logar. E' como que o primeiro annel d'essa
longa cadeia de maravilhas de que se compõe a redempção humana. O
Pentecostes, a Ascensão, a Paschoa e o Natal, suppoem a incarnação do
Verbo eterno, e a incarnação do Verbo eterno suppõe a annunciação de
Maria. Refere-se pois esta festa principalmente á SS. Virgem (t). Reco-
lhei os vossos pensamentos, e vêde quanto esta solemnidade deixa atraz
todas as festas das nações! Vêde principalmente quam admiravel é a Re-
ligião para elevar os pensamentos do homem : prende-os todos ao infi-
nito!
~a qualidade de ser omnipotente, póde Deus obrar independente.
mente. das suas creaturas; mas para dar ao homem, ainda mesmo de-
cabido, uma alta idêa da sua dignidade, associa-o Deus a si ordinaria-
(1) Optime advertet Suarez, si hree festivitas in se consideretur, ma~re eam
esse dignitatis inter solemnitates qure ad Cbristi bumanitatem pertinent... Sed quo-
niam non prius perfecte ilHus modi collatum est donum, quam B. Virgo peperit, inde
includit, natalis Cbristi diem festum prmciper ad Jesum, annuntiationem ad B. Vir-
ginem attinere, cui Ecclesia hujus diei officium ecclesiasticum dirigit. Bened. XIV,
de Fest., p. 444, n. 1.

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,

98 , CATECISMO

mente nas obras que produz no exterior. Associa Moysés á sua omnipo-
tencia para livrar os hebreus da escravidão do Egypto; encarrega-o de
publicar a sua lei e o estabelece medianeiro da alliança que faz com o
seu povo. Associa os Prophetas ás luzes da sua intelligencia infinita, para
revelar ao mundo o segredo do futuro e as suas supremas vontades. Mais
tarde, associou doze pescadores á missão divina de seu Filho para a con-
versão do universo. Hoje vae associar uma humilde Virgem ao cumpri-
mento do mais espantoso dos prodígios. Seu Filho, o Verbo eterno, re-
solveu revestir-se da nossa natureza. Elle que fez tudo, póde prescindir
da cooperação de toda e qualquer creatura; mas não, quer tomar um corpo
formado da substancia d'uma mulher.
Ora, tracta-se de annunciar a esta mulher privilegiada a escolha que
Deus fez d' ella para sua mãe. O Archanjo Gabriel é enviado como em-
baixador junto de Maria, para pedir-lhe o seu consentimento. Vêdes com
que respeito Deus nos tracta ! A festa da Annunciação tem por objecto
honrar a memoria d'esta embaixada, a mais importante e instructiva que
ainda houve. Com effeito, por quem é enviada esta embaixada? Pelo Rei
dos reis. Qnem é o embaixador? Um príncipe da côrte celeste. Aonde
é enviado? A uma pequena cidade de Galilêa, chamada Nazareth. A
quem é enviado? A quanto a terra tem visto, a quanto ba de vêr maior
e mais augusto. Então quem? Uma rainha, senhora do mundo? Não,
é uma Virgem de raça real, mas pobre e desconhecida, que tira da sua
inviola\'el pureza d'alma e de corpo, da sua perfeita dedicação a Deus,
um fulgor que não podem dar os mais brilhantes sceptros.
Razão humana, razão decahida, instrue-te 1 A escolha d'uma pobre
Virgem para o cumprimento do mais ineffavel dos mysterios é uma prova
sensível de que aos olhos de Deus as dignidades, e os tbesouros da ter-
ra, não são nada, e de que não ha outra verdadeira grandeza senão aquella
que vem da santidade. Comprebendes agora (i) ?
Vamos após o celeste embaixador, e vejamos de que modo se des-
empenha da mensagem. Chegado á presença de Maria, diz-lhe: Eu te
saudo, cheia de graça. Não era esta a primeira vez que appareciam an-
jos ás mulheres. Sara e Agar foram honradas com a sua visita; mas em
parte alguma vêmos as mostras de respeito que o anjo Gabriel dá a Ma·

(1) ccA crença d'uma Virgem, mãe de Deus, era geral nas nações da. antigui-
rdade.> Vide Harmonia da Egreja e da Synagoga, t. II, pelo snr. Drach. Por causa
de certas particularidades de costumes, esta douta obra deve ser lida com precau-
ção.

/'

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Dl PERSEVERANÇA. 99
ria. Eu te saudo, eh.eia de graça; como se houvesse dicto: Eu te saudo
como o mais digno objecto das complacencias do Altíssimo. Abrahão,
Isaac, Jacob, os Patriarchas, os Prophetas, e João Baptista, o maior dos
filhos dos homens, possuem a graça, mas com medida; quanto a ti, Ma-
, ria, tens a plenitude d'ella.
Accrescenta o embaixador : O Senhor é comtigo. Mas que dizeis,
santo archanjo? E não estava o Senhor com Moysés pelo seu poder, com
os Prophetas pela sua sabedoria, com David pela sua bondade, e com
todas as creaturas até pela sua immensidade ? As vossas segundas pala-
vras não enfraquecem as primeiras? De modo nenhum; daes a entender
que o Senhor está com Maria, não_só como com as creaturas, como com
David, Abrahão e os Prophetas ; não só como está com todos os justos
por aquella graça santificante que produz os filhos, ou com os escolhidos
por aquella protecção especial qae os conduz ao termo da felicidade;
mas está com Maria na realidade da pessoa adoravel do Verbo que vae
formar para si corpo da substancia d'essa Virgem, em cujo seio, como
n'uma nova arca d'alliança, deve repousar nove mezes com a sua divin-
dade e humanidade. Eis de que modo está o Senhor com Maria; agora
comprehendo que este novo elogio avulta o primeiro.
Continúa Gabriel: Bemdita és tu entre todas as mulheres. Mas que!
Adão~ Noé, Abrahão, Moysés, David, e os Prophetas, não foram bemdi-
tos? Sara, Rebecca, Rachel, Debora, e Anna, mãe de Samuel, não foram
bemditas? Sim, mas não como Maria. A benção d'elles era restricta;
foi commum a muitos, e tinha por objecto o cumprimento d'um designio
particular.
Mas a benção de Maria é a benção das bençãos, a plenitude de to-
das ·as outras, uma benção exclusiva e incommunicavel. E' bemdita en-
tre todas as mulheres porque é mãe e virgem juntamente, e porque Deus
se serviu d'ella de preferencia a todas as pessoas do seu sexo, para le-
vantar a maldição em que incorrêra o genero humano ; por isso todas
as nações a abençoarão por todo o sempre f
Que impressão fizeram em Maria aquellas palavras, as mais Iison-
geiras que ainda resoaram aos ouvidos d'uma mulher? Maria perturba-
se. Sim, perturba-se a virgem de Judá, porque sabe que os louvores são
o artificio ordinario da seducção. Perturba-se a nova Eva, porque se lem-
bra de que a primeira Eva se perdeu por uma lisonja. Eil-a pois que
guarda modesto silencio, e que pensa comsigo que póde significar aquella
saudação.

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fOO CATECISMO

Quantas almas innocentes se hão corrompido por não terem usado


d'esla precaução de Maria r D'aqui, virgens christãs, aprendei a descon-
fiar dos louvores, e a tapar os ouvidos á voz feiticeira dos lisongeiros.
Maria perturba-se, não só porque é pura, senão tambem porque é hu-
milde. As almas humildes não podem supportar os louvores. Conhecem-
se, e, conhecendo-se, desprezam-se e referem a Deus o estimavel que
n'ellas póde haver. Tal era Maria! E nós? ... ficamos perturbados, quando
ouvimos que nos elogiam ?
Percebe o Anjo as inquietações da humilde e casta Virgem, e apres-
sa-se a calmal-as. •Não temas nada, Maria, lhe diz, que a virtude do
10mnipotente te cobrirá com a sua sombra, e conceberás e darás á luz
cum Filho a quem porás o nome de Jesus. Será grande, será o Filho do
«Altíssimo; possuirá o throno de David, seu pae; e reinará eternamente
«sobre a casa de Jacob (1).])
D'est'arte Maria, sem deixar de ser virgem, será a mãe do seu Deus;
eis ahi o mysterio: consentirá n'elle? Ah f exclama S. Agostinho, con·
senti, Virgem santa, consenti, não retardeis a salvação do mundo (2).
Lembrae-vos de que não teremos um Salvador senão quando houverdes
dado o vosso consentimento. A humilde e dôce Maria inclina-se ante a
vontade de Deus ; vota-se, pois acceitando o titulo de Mãe de Deus,
acceitava o de Rainha dos martyres. «Eis aqui, diz, a serva do Senhor,
cfaça-se em mim segundo a tua palavra (3).])
No mesmo instante se consummou o mysterio d'amor promettido á
terra havia quarenta seculos. O Verbo de Deus incarna-se, isto é, toma
um corpo humano formado do mais puro sangue de Maria, e uma alma
humana, que apenas lhe é unida goza dos mais augustos privilegias, e co-
nhece o presente, o passado e o futuro. Deus tem um adorador digno
d'elle, e o mundo um medianeiro todo-poderoso. Dizei agora, é este um
acontecimento que mereça ser commemorado por uma festa solemne de
geração em geração?
II. INFLUENCIA.-Virgens, esposas, mães, mulheres, quem quer que
sejaes, vós principalmente é que deveis celebrar esta festa com um fer.vor
e reconhecimento cheios d'enthusiasmo. A elevação de Maria é a vossa
gloria. Lembrae-vos do qne ereis sob o paganismo, escravas humilhadas

(1) Lucas, I, 30.


(2) Hesponde jam, Virgo sacra, vitam quid tardas mundo? Agost., Serm.
XXI, de Temp.
(3) Lucas, I, 32.

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DE PERSEVERANÇA. tOI
e envilecidas? Sabeis o que sois ainda em toda a parte onde não vos
rehabilitou o Christianismo? Na India, victimas que se queimam; na
Africa, bestas de carga que se esmagam com trabalho; e em toda a parte
as mais desprezadas das creaturas. Mas quando, graças ao Christianismo,
o homem viu que Deus honrava a mulher, quando viu que de Maria fazia
sua Mãe e a Rainha dos Anjos, tambem elle respeitou a mulher.
Por sua vez, á mulher compete conservar o Jogar que lhe deu o
Cbristianismo. Quanto mais se mostrar similhante a Maria, mais conside-
rações, liberdade, poder até e felicidade grangeará. Assim que, não posso
fartar-me de admirar o instincto que leva as jovens á devoção a Maria.
Digo o instincto, porque talvez nem todas comprehendam de que impor-
lancia é para ellas o culto da Virgem immaculada.
Quando as vejo, ornadas dos seus vestidos brancos, cercar o altar
de Maria, tenho vontade de dizer-lhes estas palavras: Se conhecesseis o
dom de Deus (1) ! Se soubesse is quanto deveis a Maria, oh! com que ar-
dor vos uniríeis a ella, voaríeis pelas suas pisadas, e imitaríeis as suas
virtudes! A devoção a Maria, não o esqueçaes, é a vossa salvaguarda:
liberdade, honras, considerações e vida, tudo lhe deveis.
III. ORIGEM. - Não nos admiremos se, desde o principio do Chris-
tianismo, occupa o culto de Maria tam grande logar na piedade dos Cbris-
tãos, e principalmente das Christãs. Vêmol-o por toda a parfü associadq
ao do Salvador. Tem Jesus seus templos, e Maria tein os seus ; tem Je-
sus seus servos, e Maria tem os seus; ·tem Jesus suas festas, e Maria tem
as suas. A da Annunciação, celebrada ao principio em alguns logares,
desde os tempos apostolicos, se estabeleceu de terra em terra. Encon-
/
tra-se já n'um antigo martyrologio da Egreja occidental, attribuido a S.
Jeronymo (2).
O accordo successivo das Egrejas particulares formou a final um
consenso universal, e estabeleceu um uso que foi sanccionado pelo de-
cimo concilio de Toledo, celebrado em 656. Chama á Annunciação.~a festa
da Mãe de Deus por excellencia. Em 692, confirmou o concilio de Cons-
tantinopla esta festa pelo que toca ao Oriente. Já alli estava estabelecida,
sem que seja possível dizer desde que epocha. Foi fixada no dia 25 de
março, nove mezes, dia por dia, antes do nascimento do Salvador; pois,

(1) Joan., IV, 10.


(2) ln Galilrere civitate Nazareth annuntiatio sanctre Marim de Conceptione,
quando ah angelo est salutata. Bened. XIV, p. 466, n. 18.
7

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to2 CATECisr.ro

diz S. Agostinho, é antiga tradição adaptada pela Egreja que a incarnação


do Verbo se realisou a 25 de março (t).
IV. DISPOSIÇÃO PARA BEM SE CELEBRAR. - N'esse dia unamo'·nos para
felicitarmos a Maria, não só por ter sido escolhida para ser a Mãe de
Deus, senão tambem por ter correspondido fielmente á sua sublime vo·
cação. Tomemos tambem a resolução de correspondermos á nossa. Ro-
guemos a Maria que nos ajude a conhecêl-a; e para ouvirmos a voz de
Deus, imitemos o recolhimento d'esta augusta Virgem; amemos a sua
modeslia e piedade. Agradeçamos a Deus os favores de que foi óri·
gem para o genero humano e para nós em particular o mysterio da In-
carnação e da Annunciação. Mas principalmente, pensando na sublime
prerogativa de Maria, na suprema posição a que n'este dia Deus a eleva,
concebamos um nobre orgulho por termos tal mãe, e deixemos levar o
nosso coração pela confiança mais infantil n'aquella que nunca em vão se
invocou.
Digamos·lhe com um piedoso auclor: «Grande princeza, já me ha-
veis dado muito; mas o que me haveis dado é mui pouco, em compara·
ção do que podeis dar-me e eu pretendo obter. Todas as legislações dão
direito aos filhos a todos os bens da sua mãe; d'este direito é que eu
tambem pretendo valer-me. Contemos, vol-o rogo, e vejamos qual de nós
deve ao outro.
a:Oesde o momento em que fostes elevada á incomparavel dignidade
de Mãe de Deus, fostes posta de posse de todos os thesouros do Ceo,
para serdes senhora absoluta d'elles ; e quem póde conceber quam grande,
poderosa e rica ficastes então l .Mas, se assim é, deveis convir comigo em
que, por mais que deis a vossos filhos, resta-vos sempre muito mais que
dar; porque os vossos thesouros são minas inexhauriveis.
«Ora pois! esses thesouros, permitti que vol·o diga, são para vós
superfluos. Ainda mais, qualquer que seja a liberalidade com que os dis-
penseis a nós outros desgraçados, nem por isso ficaes menos rica. De-
veis até consentir que eu accrescente uma coisa, e é que elles não vos
foram confiados senão com a condição de dardes parte d'elles aos mise-
raveis que recorrem a vós. E depois, bem sabeis que Deus não vos ele·
vou tão alto senão para preparar em vós uma protectora cbaritativa a to-
dos os infelizes.

(1) Sicnt a me.joribue traditum suscipiene Ecclesire custodit auctoritas, octavo


Kalendas aprilis conceptus oreditur, De Trinit., 1. X, e. V.

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DE PERSEVERANÇA. to3
«Agora, pois, permitti-me, minha mãe, uma innocente liberdade.
Parece-me que vos redozi a ponto de não poderdes dizer-me que não.
Ou é forçoso que me acolhaes com ternura, por impio, sacrílego e mau
que seja ; ou é forçoso que vos opponhaes aos misericordiosos designios
d' esse Deus a quem deveis tantas obrigações, e que traiaes os deveres do
emprego que vos foi confiado. Que vos parece? tendes alguma coisa que re-
plicar? ou ha razões melhores que dar-vos? Louvo-me em vós, decidi
(t).»
As palavras do anjó Gabriel, que acima explicamos': Eu te saudo,
.M.aria, che1:a de graça, o Senhor é comtigo, bemdita és tit entre todas as
mulheres, compoem a primeira parte da Ave-Maria. As seguintes, pro-
nunciadas por S. Isabel quando recebeu a visita de sua prima, E bem-
dito é o fructo do teu ventre, formam a segunda. A Egreja, est'outra Ma-
ria, est'outra esposa do Espirita Santo, ha muitos seculos que acabou a
Saudação angelica, accrescentando as palavras tão conhecidas: Santa Ma·
ria, Mãe de Deus, etc. Eis por que occasião.
Em 431, reunira-se um concilio geral em Epheso para anathemati-
sar a heresia de Nestorio. No dia em que o concilio devia pronunciar
ácerca da maternidade divina de Maria, o povo, inquieto e agitado, inun-
dou as ruas e se apinhou em redor do magnifico templo que a piedade
dos habitantes do litoral do mar Icario tinha edificado sob a invocação da
Virgem. Era alli que duzentos Bispos examinavam as proposições de Nes·
torio, que se não atreveu a il-as defender, tão pouco se fiava na justica
da sua causa e na bondade dos seus argumentos. A multidão que estava
apinhada no atrio da basilica e nas ruas visinhas, guardava profundo si-
lencio. Lia-se a inquietação no rosto mobil d'aquelles gregos, cujas ex-
pressivas feições tão bem pintam as impressões da alma.
Apparece um Bispo, e annuncia á multidão muda e sobresaltada que
está lançado o anathema do concilio contra o innovador, e que se mantem
gloriosamente a Virgem Santíssima na sua augusta prerogativa de Mãe
de Deus. Então rompem de todas as partes transportes de jubilo. Os ephe-
sios e os estranhos que tinham acudido de todas as cidades da Asia, ro-
dêam os Padres do concilio, beijam-lhes as mãos e as vestes, e queimam,
pelas ruas que elles devem atravessar, pastilhas odoríferas. A cidade acha-
se espontaneamente illuminada : nunca houve alegria mais universal nem
mais verdadeira.

(1) Maria, estrella do mar, p. 61, 96.



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I

CATECIS.l\10

Crê-se que foi n'este concilio d'Epheso que S. Cyrillo, d'accordo com
a santa assemblêa a que presidia, reduziu á sua fórma actual a ultima
parte da Saudação angelica: Santa JUaria, Mãe de Deus, etc. (1)
Maria dá particular apreço á Saudação angelica, porque lhe recorda
a alegria que sentiu ao saber do anjo Gabriel que havia de ser a Mãe de
Deus. Devemos pois dirigir-lh'a muitas vezes. Aquelle que sauda a Maria
será lambem por ella saudado, e a saudação de Maria será sempre signal
d'algum favor. A Mãe de Deus nada póde recusar áquelle que vae a ella
com as palavras da Ave-Maria (2).
A prática da devoção da Ave-Maria consiste :
L º Em dizer todos os dias, ao levantar e ao deitar, tres Aves, com
o rosto por terra, ou ao menos de joelhos, accrescentando a cada Ave
esta curta oração: O' .llaria, pela vossa pura e imrnaculada Conceição,
purificae-me o coração e os sentidos! Pede-se depois a benção a Maria
como a uma mãe, como fazia S. Estanislau Kotska, pondo-nos d'um modo
especial sob a sua protecção, a fim de obtermos d'eJla que nos livre de
todo o peccado durante o dia e a noite. Será bom para isto termos uma
imagem da SS. Virgem ao pé do leito.
2. 0 Em recitar o Angelus pela manhã, ao meio dia e á tarde. Foi o
Papa Urbano II que, no concilio celebrado em Cfermont, em t 095, deci-
diu que todos os dias se tocasse o sino, pela manhã, ao meio dia e á tarde,
e que se dissesse de cada vez a Saudação angelica. O seu objecto prin-
cipal era attrahir a protecção de Maria para as Cruzadas. Passaram estas
guerras santas, mas a vida inteira da Egreja, a vida de cada Christão é
uma cruzada. Os motivos para se recitar a Angelus são por tanto immu-
taveis. Os Papas João XXII, Calixto III, Paulo III, Clemente X e Bene-
dicto XIII, recommendaram muito esta prática e lhe uniram grandes in-
dulgencias.
Outr'ora, ao primeiro som do sino, todos os fieis cabiam de joelhos
e recitavam a Angelus. Porque havia de ser hoje tal o enfraquecimento
da fé, que a maior parte dos Cbristãos se envergonhassem de saudar as-
sim sua Mãe ? Ao menos honra áquelles que permaneceram fieis a esta
piedosa prálica t Sim, honra a elles, porque um filho nunca se deshonra
honrando sua mãe. Honra a S. Carlos Borromeu, restaurador dos antigos
usos da piedade, que se não envergonhava, elle principe do mundo e
(1) Vide o que dissemos explicando a Ave-Maria, t. III, lição XXXI; Baron.,
anno 431.
(2) Si quis veniat ad Ma.trem Dotnini, dicens: Ave, Maria, nunquid poterit ei
gratiam denegare? Ricard., art. Virt. ·

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DE PERSEVERANÇA. f05
prmc1pe da Egreja, de descer da carruagem ou do cavallo, e de preen-
cher no meio da rua esta sant:i prática.
Durante o tempo paschal, em logar da Angelus recita-se a antífona
Regina Cmli ; e todo o anno, em memoria da resurreição de Nosso Se-
nhor, começando das Vesperas do sabbado até ao domingo á no.ite, diz-se
a Angelus de pé.
Dissemos que a e1evação de Maria era a g1oria e defensa da mu1her.
Para fazermos comprehender ás pessoas do sexo feminino o que seriam
. ainda, se Deus as não houvesse honrado em Maria, ''amos dizer o que
são onde o Christianismo não introduziu ·O culto protector da nova Eva.
Um só facto bastará.
V. I-IIsTORIA: Uma suttea em Benarés (t). - Resulta dos ultimos
relatorios feitos á camara dos communs d'Inglaterra, que ainda existe em
toda a sua força o horrivel costume de queimar as viuvas índias com o
corpo de seu marido. Durante os quatro ultimos annos que acabam de
correr, isto é, 1835, 1836, 1837 e '1838, não se contam menos de duas
mil seiscentas e dez mulheres que pereceram victimas d'esta atroz supers-
tição, nas Indias inglezas.
Em presença de similhantes factos, pergunta-se como é possível que,
n'um paiz subjeito ha um seculo ao dominio d'um povo civilisado, possam
tolerar-se tão abominaveis excessos? A resposta porém é facil. Os ingle-
zes, omnipotentes para subjeitarem nma população de sessenta milbões
d'almas, não o são para vencerem uma preoccupação religiosa. Não ha
para isso outras armas que as da persuasão; porém a heresia não sabe
persuadir. Não recebeu as palavras da vida, as pala\'ras que civilisam os
povos. Não foi a ella que se disse: Ide, ensinae a todas as nações. Assim
que chegará o fim do mundo, antes que o protestantismo anglicano con-
siga destruir a influencia que exercem os Bramines sobre os credulos in-
dios.
Estes druidas do Indostão, diz o doutor Gilchrist, sob uma apparen-
cia de doçura e humildade, occultam a ferocidade do tigre. A narração
do ultimo sacrificio d'esta especie, cujas circumstancias recebem novo grau
de interesse dos acontecimentos que d'elle resultaram, é extrahida do reJa-
torio de sir W. C. Mallet, residente da Companhia em Poona. D'elle to-
mamos os pormenores seguintes:

(1) Chamam suttea a uma mulher índia queimada viva na fogueira com oca-
daver de seu marido.

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406 CA.TJ<;CISMO

«A moça Poolesbay ·tinha esposado um homem distineto de Poona,


qae morreu ao cabo de cinco annos de casado. Logo que foi conhecido o
seu fallecimento, a viuva, de edade de dezoito annos, viu-se rodeada de
• Bramines que a induziram a conformar-se com o uso estabelecido, amea·
çando-a, no caso de recusar, com a infamia n'este mundo e com penas
eternas no outro.
«Em vão seu irmão, que lhe queria muito, e que, no commercio dos
europeus, aprendêra noções mais humanas, forcejava por-desvial-a d'um
supplicio tão terrivel. Inteiramente submissa á influencia dos Bramines e
subjugada pelos terrores supersticiosos que lhe agitavam o espírito, ella
consentiu em votar-se ás chammas. «Mais vale, dizia, arder umà hora que
«toda a eternidade. ,
cO sacrificio foi fixado para o dia seguinte, âs cinco horas da tarde.
Um cortejo immenso, composto de Bramines, dos guardas do governador
e de multidão de povo, se encaminhou para casa da suttea, que sabia
acompanhada de seus parentes. Era de estatura mediana, mas fórmas
elegantes, e feições nobres e expressivas lhe davam um ar de dignidade
que a solemnidade do acto ainda tornava mais notavet Os cabellos on-
deantes estavam ornados de flôres, e os olhos erguidos para o Ceo pare-
ciam perdidos na contemplação da eternidade.
«Atravessou a cidade semeando com profusão, pelo caminho, folhas
de goolod e betel. Ghegada ás bordas do Mooth, rio que corre perto da
cidade, alli fez as suas ultimas abluções e se assentou na margem. Um
guarda-sol, sustentado por cima da cabeça, a livrava dos ardores do sol,
ao mesmo tempo que uma das companheiras a refrescava agitando-lhe
um lenço de sêda diante do rosto. Estava cercada dos parentes, de algans
amigos e dos principaes Bramines, a quem distribuiu duas mil rupias e
as ricas joias de que e.stava adornada, conservando unicamente os orna-
mentos do costume, isto é, um annel mettido nas ventas e um bracelete
d'ouro em cada pulso. Feita a distribuição, pôz-se em altitude de oração
e invocação, com as mãos juntas e erguidas acima da cabeça, ao mesmo
tempo que, não longe d'alli, a coisa de cincoenta toezas de ~istancia, se
levantava a fogueira que a devia consumir.
cO apparato funerario compunha-se de quatro postes, de dez pés
d'altura, e cravados no chão de modo que formavam os angulos d'um
quadrado de nove pés de comprimento por seis de largura. Um tecto de
tabuões, carregado de quantas achas podia sustentar, estava seguro por
cordas ã extremidade superior dos postes. Por cima uma pilha de lenha,

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DE PERSIVEft.lNÇA. t07
coberta de palha e ramos sêccos d'um arbusto cheiroso, se elevava· ã ai..
tura de quatro pés. Tres dos lados do quadrado foram tapados com os
mesmos materiaes, porém o quarto deixára-se aberto para dar entrada á
victima. -
1

cTerminados estes preparativos, caminhou Poolesbay, seguida dos


seus amigos. Parou a alguns passos de distancia, renovou os seus actos
de devoção e retirou-se um pouco para o lado para dar logar ao corpo
do defuncto. Este, levado das bordas do rio onde havia sido deposita-
do; foi posto sobre a grade coro grande quantidade de rebuçados.. dô-
ces sêccos e um grande sacco de papel com serradura de pau sandalo.
Então a suttea deu tres voltas em roda da fogueira, e pondo-se em cima
d'uma pedra quadrada que se emprega sempre em similhante circum·
stancia, e na qual estava grosseiramente aberta a fórma de dois pés, re-
cebeu as ultimas despedidas dos seus amigos.
«Com ar carinhoso, passou a mão direita pel~ cabeça d'aquelles a
quem queria, e depois, inclinando o corpo, os abraçou com ternura e se
dirigiu para a fatal fogueira ... Parou um instante á entrada ... um só mo·
menta pareceu fazêl-a hesitar o amor á vida... Mas o fanatismo venceu.
Com passo firme e seguro, subiu os degraus, estende.u-se ao lado de seu
marido, e foi escondida á vista dos espectadores pela palba que amou. .
toaram para tapar a entrada, e á qual pozeram fogo.
cAlguns segundos depois, a desgraçada Poolesbay deu um grito
terrivel. Alcançada pelas cbammas, a dôr fez desmaiar aquella firmeza
facticia que até então a tinha sustentado. Despertan_do-se com toda a sua
força o sentimento da conservação, ella se arremessou contra a fragil bar..
reira já mais de meio consumida_, abriu passagem e correu para o lado
do rio, como refugio inaccessivel ao terrivel elemento que parecia perse-
. guil-a. Mas a desventurada não devia escapar ã sorte que lhe estava re·
sea·vada e que ella voluntariamente sollicitára.
crOs sacerdotes correram em perseguição de Poolesbay, e não tal'da-
ram a alcançal~a. Então se travou uma lucta horrorosa. Os Bramines pro·
curavam arrastai-a para a fogueira : el1a, ajudada por seu irmão; oppu. .
nba aos esforços d'elles a mais viva resistencia. Soltava lamentosos gri-
tos e implorava o soccorro da multidão, conservada em respeito pela
guarda do governador·; mas a sua voz foi coberta pelo som das trombe-
tas, que, a um signal dado .. retumbaram todas a um tempo.
«Exhausta pelos esforços, perdeu os sentidos, e n'este estado foi le-
vada de novo para a fogueira. N'aquelle momento todos os espectadores

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tos CATECISMO

d'aqaella seena tragica se reuniram para Jhe apressar o desenlace. Uns


cortaram a machado as cordas que seguravam o tablado superior, outros
levaram em tropel o goolod e -ramos sêccos a fim de alimentarem o
fogo, e milhares de mãos, armadas de archotes, accenderam a fogueira
por todos os lados. Durante este tempo, o irmão da victima havia sido
arrastado, proferindo, no seu desespêro, ameaças de vingança contra os
algozes de sua irmã.
«Algum tempo depois, o estrondo do canhão e o som da trombeta
annunciaram aos habitantes de Benarés a approximação d'uma grande so-
lemnidade religiosa. As ruas da cidade estavam juncadas de flôrés, e o
povo dirigia-se em tropel para o templo de Brama. A epocha da procis-
são de Jaggernaot tinha attrahido a Benarés não só todas as populações
dos arredores, senão tambem os numerosos fanaticos que, das extremi-
dades mais remotas do Indostão, haviam acudido para procurarem uma
morte santa e gloriosa á vista do seu ídolo.
«A' hora indicada abriram-se as portas do templo para dar passa-
gem ao cortejo.
«No meio dos esplendores d'uma pompa oriental, um carro enorme,
puxado por elefantes, com uma figura colossal de bronze, coberta de pe-
dras preciosas, caminhava escoltado por Bramines. Multidão de meninas
semeavam flôres na . passagem, e os sons retumbantes da trombeta, a
dança viva e volnptuosa dos bandos de bayadeiras que precediam o carro,
e os perfumes mais preciosos queimados em honra da divindade e que,
embalsamavam o ar com suas dôces emanações, tudo excitava a embria-
guez da multidãb. Soltava gritos freneticos e applaudia com transporte
a dedicação dos Fakirs. Brama r Brama r clamavam, e disputando uns aos
outros a gloria de morrerém pelo seu deus, se lançavam ao chão diante
do ídolo que os esmagava ao passar. Poolesbay r Poolesbay ! bradou de
repente a voz d'um ,mancebo que, sahindo do meio da multidão, correu
sobre um dos Bramines, o que tinha presidido ao sacrificio de sua irmã,
o agarrou nos braços e o precipitou debaixo das rodas ensanguentadas
do carro. ,
«A acção havia sido tam rapida, tam repentina, que teria sido im-
possivel evitai-a, e o criminoso teria facilidade para se escapar, se qui-
zesse aproveitar-se do pasmo geral ; mas não cuidava senão em gozar
plenamente a sua vingança. Permanecia no sitio contemplando com deli-
cia o corpo mutilado da soa victima. O povo, tornando em si do seu pri-
meiro espanto, cercou o mancebo. Preparava-se para fazêl-o em pedaços,

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DE PERSEVERANÇA. t09
para applacar a ira do seu idolo, quando os Bramines se interpozeram
entre elle e a plebe. Mandaram approximar-se alguns soldados da guarda
do governador, entregaram o prêso nas suas mãos, e a procissão voltou
logo ao templo.
ca Os Bramines, arrancando o irmão de Poolesbay á faria da multi-

dão, não haviam sido movidos nem pela commiseração, nem por um senti-
mento de justiça ; mas quizeram reservar para elles sós o castigo do cul-
pado. Era preciso que o rigor do supplicio fosse proporcionado á enor-
midade do crime, a fim de impressionar a imaginação dos povos, que,
tendo sido testemunhas d'um attentado inaudito nos fastos do lndostão,
deviam tremer de terror ao lembrarem-se da expiação do sacrilegio. Reu-
nindo-se o collegio dos Bramines, discutiu-se longamente sobre o genero
de castigo que deviam infligir ao irmão de suttea. Compulsaram-se os
mais velhos documentos. Evocaram-se todas as recordações, todas as tra-
dições, e finalmente se determinaram pelo suppJicio do muro.
<<Ü mancebo, depois que lhe raparam a cabeça, foi conduzido para
fóra da cidade, para o meio d'uma vasta planicie. Alli o fizeram estar em
pé, ao mesmo tempo que se construia em torno d'elle um muro que lhe
fechava todo o corpo, e se elevava ate á altura do pescoço, de sorte que
a cabeça descoberta recebia a prumo os raios d'nm sol abrasador. N'este
estado, deixaram-n'o prêsa das mais horriveis torturas, até que a morte
pôz termo aos seus soffrimentos. Ao cabo d'alguns dias, os abutres das
montanhas vieram despedaçar ás bicadas o craneo d'aquelle desventura-
do, lhe arrancaram os miolos e os olhos e devoraram todas as carnes
da cabeça. Quando foram vêr o monumento expiatorio, não encontraram
mais que alguns restos ensanguentados (1). >
Qoe horrível cadêa de crimes e atrocidades! Que horroroso tyranno
é o demonio ! como tracta o homem que é seu escravo 1 Religião cbristã,
bemdicta sejas, sempre, eternamente, bemdicta !

(1) Vide, para outras particularidades, Historia da sociedade domestica, t. I,


e t. IV do Catecismo. ·

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HO CATECISMO

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor f graças vos dou de todo o meu
coração por terdes escolhido a SS. Virgem para mãe de vosso Filho; con-
cedei~me que corresponda á minha vocação como a SS. Virgem corres-
pondeu á sua.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim .mesmo por amor de Deus; e, em prova d' este amor,
não deixarei de abençoar a hora, recitando a Ave Maria.

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DE PERSEVERANÇA. HI

QUADRAGESIMA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

PráticalJ de devoção· para com Daria.- Sabedoria da Er:reja.


-Jlez •le Haria.-Contra1·ia do Et1capularlo.-Rosario.

1. 1
RAZÃO GERAL DAS PRÁTICAS DE DEVOCÃO

PARA COM MARIA. - E'
uma lucta a vida terrena. Isto é verdade com relação ao homem, com
relação á sociedade, e sobretudo com relação á Egreja, que é a sociedade
por excellencia. N'esta guerra, começada no Paraíso terrestre para só
acabar nos umbraes da Jerusaleµi celeste, véla Deus pela Egreja sua es·
posa e pelo hoµiem seu filho querido. A Providencia tem cuidado de
proporcionar os auxílios á violencia dos ataques, de fórma que a victoria
fique sempre á Religião, isto é, á verdade e á virtude. Têmol-a visto em
cada seculo oppondo á heresia o defensor da verdade, ao escandalo a vic-
tima expiatoria e o modêlo das virtudes atacadas, n'uma palavra, appli·
cando a cada mal um remedio proporcionado. Quando estes meios ordi..
narios não são sufficientes, ella propria intervem por meio d'uma acção
directa e soberaná que prepara á verdade novos triumphos.
Mas acima de todos os remedios está um que se applica a todos os ma-
les. Acima de todos os defensores da verdade e da virtude, está um em
quem a força eguala a bondade, e que, sempre prestes para combater,
ganha infallivelmente a victoria: é Maria; Maria que esmagou a cabeça
da antiga serpente ; Maria que triumphou de todas as heresias e de todos
os escandalos. Assim é que a Egreja tem variado infinitamente os meios
de invocar a Maria e de obter a sua ajuda.
Nos dias do seu nascimento, compõe a Saudação angelica. Mais tar-
de, institua ordens religiosas encarregadas de obter, por meio d~orações

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Hi CATECISMO

de dia e de noite, os favores e a protecção d'aquella que nunca se invo-


cou em vão. Em outros seculos nascem as devoções tam celebres e Lam
diffundidas do Rosario e do Escapulario.
Seria um nunca acabar, se se qujzessem referir todas as provas d'esta
verdade : que, nas suas affiicções e nos seus perigos, a Egreja pôz sem-
pre a sua principal esperança em Maria. Não é porque as suas necessida-
des são hoje mais imperiosas e os seus perigos mais ameaçadores que a
Egreja, ao mesmo passo que conserva as suas antigas devoções, institue
e approva novos meios de attrahir a si os misericordiosos olhares da om-
nipotente Rainha do Ceo? Quando a victoria deve ser vivamente disputa-
da, faz uso o general de todos os seus recursos, e emprega todos os seus
batalhões. ·
II. MEz DE MARIA. - Entre as práticas reservadas para os seus ul-
timas tempos, deve-se collocar em primeira plana o Mez de :Maria. A
devoção do Mez de Maria teve origem em ltalia, pelo fim do seculo pas-
sado. Algumas almas piedosas, affiictas pelas desordens que voltavam mais
numerosas e mais graves com a amavel estação da primavera, foram in-
spiradas pal'a alcançarem o perdão e deterem o curso d'ellas. Volveram os
olhos para a Virgem das virgens. Em. quanto os partidarios do mundo
iam ás suas villas, então embalsamadas por todos os perfumes e por to-
das as flôres do mez de maio, buscar culposos prazeres, aquellas castas
pombas, aquellas queixosas rolas suspiravam ante o altar de Maria ineffa ·
veis supplicas. Foi este, dizemol-o sem receio, um dos mais patheticos
contrastes e uma das mais bellas harmonias do mundo religioso.
Oh! sim, é mui jnsto e mui arrebatador o pensamento de consagrar
á mais pura das virgens o mez de maio, o mez das tlôres, o mez mais
formoso do anno, aquelle por conseguinte que seduz mais vivamente o
nosso coração para os prazeres dos sentidos. Sim, é sabio o ter opposto
a um mal terrível e renascente cada anno, um remedia admiravel e que
tambem se repete cada anno.
Que comprehendem dos segredos de Deus aqnelles que, com a le-
viandade da ignorancia, desdenham e criticam estas sandaveis devoções?
Não sabem que a existencia do mundo moral, assim como a do mundo
physico, descança no equilibrio das forças oppostas? Não sabem que a
expiação é que põe na balança da divina justiça o contrapezo do crime,
e que quanto mais grave é o crime, mais perfeita deve ser a expiação ?
Quanto a nós, a quem são conhecidas estas leis, filhos da Egreja ca-
tholica, entremos no espírito de nossa mãe, e para que o mez de maio .

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DE PERSEVERANÇA. H3
não seja para nós um mez como qualquer outro, verifiquemos em toda a
sua extensão a significação d'este titulo : Mez de Ma.ria.
Qual é, perguntaes, o sentido d'estas palavras: Mez de Maria? -
E eu pergunto-vos qual é o sentido d'estas: Dia do Senhor, pelas quaes
designaes o Domingo? Respondeis : Dia do Senhor quer dizer dia que
pertence ao Senhor ; dia que deve ser inteiramente consagrado ao culto
do Senhor; dia em que esquecemos a creatura, o tempo e os seus nego-
cios, para só nos occuparmos do Creador~ da alma e da eternidade; dia
em que o Senhor se compraz particularmente em escutar as nossas ora-
ções, e dia finalmente das suas grandes audiencias e dos seus grandes fa-
vores.
Do mesmo modo, JJ;Jez de Maria quer dizer, na lingua da piedade,
mez que pertence a Maria, mez das suas grandes audiencias e dos seus
grandes favores, mez do qual todas as horas devem consagrar-se ao culto
d'esta amavel Mãe, a dar-llrn os parabens pela sua felicidade, a meditar
no seu poder e na sua bondade, a implorar a sua protecção e a praticar
as suas virtudes. E' pois necessario, para não nos tornarmos reos de la-
trocínio para com MariaJ consagrarmos-lhe durante este bello mez todos
os movimentos do nosso coração, todos os nossos pensamentos, todas as
nossas palavras, todas as nossas intenções, e todi:ls as nossas obras. Como
lbe consagraremos todas estas coisas? Otferecendo-lh'as, fazendo-as para
ella, por ella, com ella e como ella.
Mez de Maria 1 Ah l por quem somos nTio façamos mentir este bello
nome. Este mez dos perfumes e das flôres não seja o mez das immun-
dicias e das obras mortaes. Não seja o mez da vaidade, da dissipação,
da tibieza, do peccado, mas sim o mez de Maria: estas palavras dizem
tudo. l>esde o primeiro dia até ao ultimo, cada um de nós pergunte e
repita a si proprio: Se Maria estivesse hoje em meu logar, como obra-
ria? qual seria a modestia dos seus olhares, a affabilidade das suas ma-
neiras, a doçura das suas palavras, a promptidão da sua obediencia, a
charidade das suas conversações, o recolhimento da sua oração, a pureza
das suas intenções, e a santidade do seu proceder?
Ha n'estas simples perguntas um thesouro occulto de luzes, de for-
ças, e de santas inspirações. A alma que sabe aproveitar-se d'elle, acha-
se em breve transformada quasi sem o perceber.
A Egreja, attenta a fomentar todas as sabias práticas da piedade, se
deu pressa em enriquecer com indulgencias a devoção do l\lez de Maria.
Pelo seu rescripto de 21 de março de i815, concede o Papa Pio VII, de
'

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CATECIS&IO

santa memoria, aos que fazem o mez de Maria trezentos dias d'indulgen-
cias por cada dia do mez, e indulgencia plenaria por aquelle em que com-
mungarem (t).
III. SANTO EscAPULARIO. - O Mez de Maria não é senão uma mani-
festação particular da devoção de que todos os seculos christãos fizeram
profissão para com a augusta Mãe de Deus. Antes d'esta nova instituição,
existiam em sua honra muitas outras práticas e associações. Uma das mais
antigas, assim como uma das mais celebres, é a confraria do Escapulario.
Foi inspirada e revelada pela propria Virgem Santíssima ao beato Simão
Stock, sexto geral da ordem dos Carmelitas, no principio do terceiro seculo.
O beato Simão, oriundo da illustre familia dos barões de Stock, em
Inglaterra, nasceu em H 6~, no condado de Kent, no castello d'Hestford,
do qual era seu pae governador. Illustre pelo nascimento! não tardou Si-
mão a sêl-o ainda mais pela piedade. Apenas chegou á ~dade de doze an-
nos se retirou para uma vasta floresta, onde não teve outra guarida
que o ôco d'um velho carvalho, cuja cavidade lhe offerecen asylo. Fez
d'elle um santuario em que ergueu um oratorio ornado d'um crucifixo,
d'uma imagem de Maria e d'um psalterio de David. Alli, aquelle santo jo-
ven exerceu todas as austeridades dos antigos solitarios. A agua da ro-
cha era a sua bebida, e hervas e raizes o seu sustento.
Havia vinte annos que Simão levava a vida d'um recluso, quando
dois senhores inglezes, voltando da Terra Santa, trouxeram comsigo do
Egypto alguns religiosos Carmelitas ou do Monte Carmelo. Penetrado
desde a infancia da mais sincera devoção para com a SS. Virgem, ficou
o bealo Simão extremamente tocado com a piedade dos novos religiosos
para com a augusta Rainha do Ceo, e retirou-se para o meio d'elles an-
tes do fim do anno de t 2t 2. Tendo professado na ordem dos Carmeli-
tas, partiu para o Oriente e permaneceu seis annos na Palestina. Regres-
sando á Europa, foi nomeado geral da sua ordem, que, sob a sua direc-
ção, fez immensos progressos no Occidente. Por convite que lhe fizeram
de passar a França, embarcou para Bordeus, onde morreu a t 6 de ju-
lho, de edade de sessenta annos. Enterraram-n'o na catbedral, e breve
foi honrado entre os Santos.
Este veneravel religioso, que tivera desde a infancia uma confiança
verdadeiramente filial em Maria, estava um dia em or.ação quando lhe
appareceu a Rainha do Ceo, cercada de multidão de espiritos celestes,
,,
(1) Tractado das IndUlg., por Mona. Bouvier, Bispo do Mans .

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DE PERSEVERANÇA. H5
tendo na mão o escapulario da ordem do Carmo. Entregou-lh'o dizendo-
lhe estas palavras: «Recebe, meu querido filho, este escapulario da tua
ordem, como o signal distinctivo da minha confraria e a demonstração ·
do privilegio que eu obtive para ti e para 08 filhos do Carmo. Aquelle
que morrer piedosamente revestido do escapulario, será preservado dos
fogos eternos; é um signal de salvação, uma defensa nos perigos, e o pe-
nhor d'uma paz e d'uma protecção especial a'té ao fim dos seculos (t). •
Posto que magnifica, não era esta primeira promessa mais que parte
do qne tinha pedido o beato Simão. Para o satisfazer plenamente, Jbe
fez a SS. Virgem segunda promessa a favor dos religiosos Carmelitas e
dos confrades do Escapulario. A fim de melhor a comprovar, appareceu
ao Papa João XXII, e lhe disse, segundo o mesQlo teor da bulia: <João,
vigario de meu Filho, ás minhas sollicitações junto de meu Filho é que
tu deves a alta dignidade a que foste elevado. Assim como te subtrabi
aos embustes dos teus adversarias, espero de ti uma ampla e favoravel
confirmação da santa ordem dos Carmelitas, que sempre me foi singli-
larmente dedicada. Se, entre os religiosos ou confrades que deixarem o
seculo presente, se acharem alguns ·cujos peccados houverem merecido
a entrada no Purgatorio, eu descerei, como sua terna mãe, ao meio
d'elles, ao Purgatorio, no sabbado seguinte á sua morte, livrarei aquelles
que lá encontrar e os conduzirei á montanha santa, á feliz morada da
vida eterna (2). »
A este respeito se offerecem quatro questões: t. :i. As apparições são
possiveis? 2. ª Qual é o sentido das ~uas promessas da SS. Virgem? 3. ª
A SS. Virgem podia fazêl-as? li.ª Fêl-as?
t. ª As apparições são possíveis? Não só para o Catholico, senão
tambem para o boruem de são juizo, está cabalmente resoh ida esta ques-
1

tão. Abri a historia do Velho e do Novo Testamento, e lá encontrareis


a prova irrecusavel de que são possiveis as apparições. Um anjo appa-
rece a Abrahão para o chamar ao paiz de Cbanaan. O proprio Senhor
lhe apparece para annunciar-lhe o nascimento d'um filho e revelar-lhe a
destruição das cinco cidades infames. Um anjo apparece a Josué imme-
diatamente antes da tomada de Jericbó. Gedaão, Manné, pae de Sansão,
Samuet Tobias, Daniel e Judas Macbabeu, recebêram pelos mensageiros
celestes as ordens do Ceo.
No Novo Testamento, o archanjo Gabriel apparece á SS. Virgem,
(1) Manual do Escap., pelo snr. de Sambucy, p. 28.
(2) Manual do Escap., pelo snr. de Sambucy, p. 29.

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H6 CATECISMO

para annunciar-lhe o mysterio da Incarnação. Um anjo adverte a José que


vá para o Egypto. Um anjo apparece a S. Pedro e o livra da prisão. Seria
um nunca acabar se se quizessem referir todas as apparições angelicas
de que se falla na Escriptura Sagrada. Ora, a Escriptura Sagrada, é pre-
ciso que se saiba, é o livro mais certo que existe; aquelle cuja authen-
ticidade descança no testimunho de duas grandes sociedades, inimigas
uma da outra, no testimunho de todas as nações civilisadas, e no testi-
munho de alguns milhões de martyres.
E depois Deus não póde revelar-se á sua creatura? não póde para
isso escolher o interprete que lbe apraz? onde está o homem que tem
direito de dizer-lhe: Vós não podeis isto? O seu poder está acaso res-
tringido aos estreitos 1imites da nossa intelligencia? não póde senão o que
nós comprehendemos? Mas se Deus pôde permittir que os anjos appare-
cessem aos homens, pergunto porque não havia de conceder o mesmo
poder á Rainha dos anjos? Que Maria possa apparecer a seus filhos e
communicar-lbes as vontades do Ceo, é uma verdade confirmada pela fé
e pela razão, qne admittirão todos os homens, excepto os que a não
te em.
2.ª Qual é o sentido das duas promessas da SS. Virgem? Esta di-
vina Mãe promette, em primeiro logar, salvar das penas do inferno aqoel-
Jes que morrerem piedosamente revestidos do Escapula rio (t). Isto quer
dizer que em qualquer estado que morra um confrade do Escapulario,
não deixará de ser salvo, ainda que morresse no estaclo de peccado mor-
tal, com tanto sómente que morra com o Escapulario? Esta interpreta- -
ção seria repugnante.
Por uma parte, está no estylo da Escriptura Sagrada o attribuir fre-
quentemente a salvação a uma coisa que effectivamente conduz a ella, e
comtudo qoe não é sufficiente se se omittem outras coisas. Assim, o apos-
tolo S. Paulo attribue alternativamente a salvação á fé e á esperança ;
Tobias, à esmola (2). Por outra parte, a bulla de João XXII, em qne se
acha a promessa, não diz que baste trazer o santo escapulario para evi-

(1) Hoc erit tibi, et cunctis Carmelitis privilegium; in hoc moriens reternum
non patietur iucendium. 'Fbeophil. Reynaud, t. VII. ·
(2) Arbitramur enim hominem justificari per fidem. Rom., III, 28. - Spe
enim sal vi facti sumus. Id., e. VIII, 24 , - Eleemosyna. a morte liberat. Tob ., XII,
9. - Srepeoumero Scriptura divina tribuit vim justificandi, aut etiam salvandi di-
versis rebus, non quod solre ilhe justificare aut salvare possint, sed quod illre vim
suam habeant ad justificationem aut salutem, et ad eum finem perducant, si tamen
cretera non desint. Bellarm., Cont?·ov., t. IV, lib. II, de Pceiiit, e. ·VII.

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DE PERSEVERANÇA.

tar o inferno, sem praticar alguma boa obra : diz inteiramente o contra-
rio (1 ).
O sentido d'esta promessa é pois que a SS. Virgem obterá aos con-
frades moribundos a graça de não serem surprehendidos pela morte em
estado de peccado morta] ; ainda que fosse preciso em muitas occasiões,
por uma protecção milagrosa, desviar funestos accidentes, para os pre-
servar da morte, ou prolongar a vida aos enfermos, e proporcionar-lhes
um momento favoravel de conversão e salvação. Eis ahi o sentido nato·
ral e o unico legitimo da primeira promessa de Maria.
Para obtermos o cumprimento d'ella, é necessario juntar aos deveres
dos confrades os deveres ainda mais essenciaes do Cbristão : evitar o pec-
cado e não se expôr a ser surprehendido pela morte na inimisade de
Deus. Por estes signaes, reconhece-se um verdadeiro servo de Maria.
Promette a SS. Virgem, em segundo logar, que irã livrar do Purga·
torio os confrades do Escapulario, no sabbado seguinte á sua morte (2).
Nada ha aqui que repugne. Primeiramente, Deus póde tornar as penas
do Porgatorio mais activas, e compensar a sua curta duração pelo seu
rigor. Depois os paes nas suas familias, e os reis nos seus estados reser-
vam certos dias para concederem os seus favores. À propria Egreja fixa
um dia para conceder indulgencia plenaria, isto é, remissão das penas
temporaes devidas aos nossos peccados: porque não o havia de poder
fazer a SS. Virgem ?
3. ª A SS. Vfrgem podia fazer esta promessa? Todo o catholico res-
ponde: Sim, podia. Podia, porque Maria é omnipotente e boníssima (3).
Aquelle que reflectir nos direitos da melhor das mães e no poder que ella
deve exercer sobre o melhor dos filhos, responderá lambem: Sim., Ma-
ria podia-o fazer. Nada lhe falta para isso, diz S. Bernardo, nem o poder
nem a vontade. Além d'isso esta promessa, explicada no seu verdadeiro
sentido, não tem nada que não seja mui orthodoxo. Honra a Jesus Cbristo
revelando-nos a sua bondade para com Maria ; e honra a Maria mostran-
do-nos a sua cbaridade para com os homens.
4. ª Maria fez esta promessa ? Duas grandes vozes respondem : Sim,

(1) Fratres, conservando verbum istud in cordibus vestris, satagite electio-


nem vestl'am certam facere per hona opera. et nunquam deficere. Apud Bened., XIV,
p. 447, n. 8.
(2) Ego Mater gloriosa descendam sabbato post eorum mortem, et quos in-
venero in Purgatorio, liberabo, et eos in montem sa.nctum viüe reternre reducam.
Bull. Joan. XXIl, apud Bened. XIV, n. 7.
(3) Omnipotentia. supplex.
8

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HB CATECISMO

Maria fez esta promessa. A primeira d'estas duas vozes é a da Egreja.


Que não fizeram os Soberanos Pontifices para não deixarem nos espiri-
tos duvida aJguma sobre a verdade d'estas promessas? Consultado sobre
·a primeira, que diz respeito ás chammas do inferno, declara João XXII
na primeira bulia, dada expressamente em 1316, têl-a examinado aos
pés do santuario e têl-a encontrado mui verdadeira.
Em quanto á segunda, que se refere ás penas do Purgatorio, affirma
que foi pessoalmente a elle que a SS. Virgem, n'uma apparição, fez essa
promessa. Para melhor attestar a coisa, publica segunda bulia em f 322,
em que renova a primeira. Desde este Pontifica contam-se vinte e dois
Papas, seus successores, que se declararam selemnemente, no mesmo
sentido, a respeito da confraria do santo Escapu1ario.
Finalmente, celebra-se uma festa annual, em virtude dos decretos
dos Summos Pontífices, em toda a extensão da Egreja catholica, para per-
petuar a memoria d'estas gloriosas promessas, e glorificar a Nossa Se-
nhora do Monte Carmelo ou do santo Escapulario (t ). Conheceis, ainda
humanamente fallando, uma auctoridade mais grave?
A segunda voz de que fallamos é a do proprio Deus. Nunca Deus
auctorisa o erro e a mentira com milagres; até repugna à sua santidade
que o possa fazer. Ora, de todas as práticas piedosas que teem sido in-
spiradas para honrar a Maria, não ha nenhuma qoe haja sido mais visivel-
mente auctorisada por Deus com brilhantes milagres. Seriam necessarios
volumes para se referirem todos : Hmitar-nos-emos a um só (2). Eis um
facto authentico que foi comprovado juridicamente e com tanto cuidado,
que crêmos dever transcrever o proprio extracto da acta que se la-
vrou.
«A t9 d'agosto de 1667, no campo de .Brugelette, na presença do
snr. Maximiliano de Sausse, conde de Mastaing, do reverendo padre José,
prior dos Carmelitas de Bragelette, do padre Barnabé de S. Paulo, sub-

(1) Bened. XIV, p. 479. Um dos mais sabios Papas que tem ainda. tido a
Egreja, Benedicto XIV, sustenta e estabelece nas suas immortaes obras a verdade
da apparição da 88. Virgem ao B. Simão. De Canonis Sanct., t. IV, part. II, p. 74;
e no seu tractado de Festis, exprime-se assim :-Visionem quidem veram credimus,
veramque habendam ab omnibus arbitramur. P. 446, n. 8 ; e, pelo que toca á au-
thenticidade da bulla, id., p. 478, n. 9 e 10.
(2) Quanto aos outros, vide o Manual do Escapulario, pelo snr. de Sambucy, p.
100 e seg. Esta excellente obra nos subministrou a maior parte das particularidades
que aqui damos ácerca do Escapulario. - Cum denique, beata. Virgine intercedente,
plura Deus miracula. ediderit in eorum utilitatem, qui huic devoto cultui su:nt ad-
dicti, diz Benedicto XIV, p. 479.

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DE PERSEVERANÇA. H9
prior, do padre Renato de S. Thereza, do padre Thomaz de S. Pedro, etc.,
compareceram Vicente Matbeus, chamado no sen nome de guerra Maison-
Dieu, gendarme do senhor Delfim, e Nicolau Pierrot, chamado La Plaine,
corneta dos gendarmes, os quaes depozeram que, tendo tido questão, o
dito Vicente Matheus disparou ao dito Nicolau Pierrot um tiro de pistola,
a dez pés de distancia pouco mais ou menos; mas por felicidade, tendo
a bala encontrado o escapulario, não recebeu senão uma leve contusão
que appareceu aos olhos dos assistentes e testimunbas, posto que a dita
bala tivesse traspassado o casaco e a camisa e se encontrasse achatada um
terço, no meio do es.lomago e a tres boas pollegadas do vão das cosª
tellas.
«Luiz Amelot, gendarme da dita companhia, natural d'Auxerre, viu
dar o tiro ; João Cadot, senhor d'Orgeneuvilles. da mesma companhia,
tambem foi testemunha e via o escapulario pendente e collado á eontu-
. são. O cirurgião encontrou a bala na camisa. O snr. Brojart, quartelªmes-
tre, e o snr. de Lestre, brigadas, são testimunbas; o snr. Visancourt é
tambem testimunba e viu disparar o tiro ; os senhores capellães do conde
de Broglie e do marquez de Fervaques viram a contusão e o boraco da
· bala no casaco e na camisa. •
«Ora, os ditos Vicente Matheus e Nicolau Pierrot, depois de se terem
perdoado um ao outro, e abraçado conto verdadeiros christãos~ depoze-
ram o facto sob juramento, assim como todos os assistentes que viram
a contnsão, a bala achatada e os boracos do casaco e da camisa, lou-
vando a Deus e á· boa Virgem por terem feito apparecer um milagre tão
visivel da sua protecção por meio do seu escapnlario.
«Aos 20 d'agosto de f67õ.
«Assignado o oonde~ de Mastaing, Matheus chamado Maison-Dieu, Ni-
colau Pierrot, Luiz Amelot, J. Cadot, senhor d'Orgeneuvilles, Brojart, de
Lestre, J. de Visancourt, A. Héliaud, P. Capellão, A. Viomart, capellão
da cavalleria ligeira da rainha.
ccFr. E. Antonio du Pain, guardião dos Recoletas de Château-Vi-
lain, diz ser mui verdadeiro o que fica referido.»
Veem depois os attestados assignados pelos officiàes e coronel do
regimento; e por fim o do cirurgião assim concebido : e Eu abaito assigª
nado, cirurgião mór da guarda do senhor Delfim, indo para curar Ni-
colau Pierrot, corneta, na persuasão de que devia estar ferido, encontrei-
lbe a bala na camisa, depois de ter furado o casaco e a camisa do dito
corneta, e não lhe vi senão uma leve contusão : o que não póde suCGe·

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CATECISMO

der sem milagre, visto como era no meio do estomago. Assignado Nuet
(t.).• Este facto e mil outros provam que Deus auctorisou com brilhan·
tes milagres assim as apparjções, como as promessas da SS. Virgem, e
a devoção do Escapulario (2).
Para obter o primeiro privilegio do Santo Escapulario, isto é, a graça
d'uma boa morte, e para participar da indulgencia da confraria, dos me-
recimentos da _ordem do Carmo e da protecção da SS. Virgem, é preciso
ser membro da confraria do santo Escapulario. Para isto duas condições se
devem effectuar : i. º receber o escapulario bento da mão d'um Sacerdote,
munido dos poderes necessarios para o dar, e que vos inscreva no livro
d' uma confraria do Carmo, canonicamente erecta ; 2. º trazer este santo
escapulario ao pescoço, de noite e de dia, de sande ou com doença, na
vida e na morte (3).
Eis ahi as uaicas obrigações necessarias e communs a todos os confra-
des. A Egreja não lbes impõe orações nem abstinencias, nem jejuns extraor-
dinarios: basta-lhes serem Cbristãos, isto é, juntarem ao titulo de servos
de Maria as virtudes que distinguem os verdadeiros servos de seu Filho.
Para gozar o segundo privilegio, isto é, o prompto livramento do Pur-
gatorio, é preciso tambem, para todos os confrades, observar a ca~idade
propria do seu estado: a castidade virginal no estado de celibato; a fidelidade
conjugal no estado de matrimonio; e a continencia no estado de viuvez.
Além d'isto, para os que sabem lêr: recitar todos os dias o officio
canonico da Egreja ou o pequeno officio da SS. Virgem (.í) segundo o
Romano. No caso de grave impedimento, não se está a isso obrigado;
mas o conselho da Egreja é que se peça a decisão ao confessor, a fim de
obter d'elle uma certa commutação. O confessor póde, por exemplo.. fa-
zer consistir esta commutação na recitação diaria Üa Ave, maris Stella, da
Magnificat e da Salve, Regina, que fazem parte do officio dos Carmelitas.

(1) Manual do Escapul., p. 105 e seg.


(2) Além dos grandes privilegies de que fallamos, consideravel numero de ri-
cas indulgencias estão unidas á devoção do Escapulario, tanto tiveram a peito os
Soberanos Pontifiees favorecer esta devoção.: Eis aqui algumas : indulgencia plena-
naria, 1.0 no dia da recepção; 2. 0 no dia da festa de Nossa Senhora do Carmo, a 16
de julho; 3. 0 um domingo cada mez, e no artigo da morte. Para ganhar estas indul-
gencias, é preciso orar segundo as intenções do Summo Pontifice; póde-se, para isso,
recitar cinco Padre-nossos e cinco Ave-Marias. (Manual do Escapulario, p. 197.)
(3) E' prohibido trazer-se o escapulario cosido em bolsa ou nos vestidos.
(4) As pessoas que são obrigadas a. recitar o officio da Egreja por causa ou
por dever de beneficio ou d'estado, de voto ou de penitencia. imposta, satisfazem á
devoção do Escapulario ao mesmo tempo, sem serem obrigadas a recital-o segunda
vez.

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DE PERSEVERANÇA. f2f.
Para os que não sabem Ur : sapprir o pequeno officio, f. 0 não fal-
tando a nenhum dos jejuns prescriptos pela Egreja; 2. ºcomendo de peixe
á quarta feira, além da sexta e sabbado, excepto no dia de Nat.al, se ca-
bir n'um d' esses dias. Quando ba impedimento grave, não obriga a absti-
nencia; mas aqui lambem é bom fazei-a commutar pelo conressor, se-
gundo o desejo da Santa Sé (i).

(1) O Sacerdote, 9.ue tem poder para dar o Escapulario, não tem por esse facto
o de commutar as obrigações. • A Congregação das indulgencias declarou: 1. que 0

é necessario pedir e ter um poder especial para commutar as obrigações comimuta-


veis do santo Escapulario; 2.• que, quanto ao passado, o Santo Padre ratifica todo
quanto os Sacerdotes francezes, munidos do poder de dar e abençoar o santo Esca-
pulario, houverem feito, commutando de boa fé as obrigações d'aquelles a quem re-
vestiram d'este santo habito.
•Beatissime Pater, Ludovicus de Sambucy, canonicus parisiensis et vicarius ge-
neralis San-Briocensis, Sanctitatis Vestrai orator humillimus, suppliciter expostulat
responsum a.d dubia gravis momenti. ln Gallia, nullus adest conventus hominum
ordinis Carmeli, et apparent rari hujus religionis patres: tres tantum noti adsunt
in parte meridionali vastissimi regni. Iode molestissima exorta est controversia, quai
magoam animis perturbatiouem affert paucis abhinc mensibus.
• Usque adhuc omnes persuasum habuerant sacerdotem, cui Sanctitas Vestra
dederat benedicenti et fidelibus parva Scapularia imponendi facultatem, eo ipao in-
cluaam obtii;misse facultatem commutandi unicuique aliqnas hujus confraternitatis
obligationes commutabiles vice confessarii Carmelitani omnino deficientis, quidam
nnnc negant et huic opinioni palam obsistunt et adversantur ; quapropter a Petcr-
nitatc Vestra qureritur: '
•1.• An Sacerdos, qui obtinet, ut supra, facultatem benedicendi ac imponendi
Scapularia, babcat eo ipso facultatem commutandi obligationes commntabiles confra-
trum, quando opus est, scilicet curo recursus ad alterum sit impossibilis, ut hoc modo
fideles non priventur;
u2.• Si nro sacerdotes Gallire, falsre innixi suppositionis, commutaverunt, abs-
que facultatibus opportunis, obligationes confratrum, supplices nunc adeunt S. V.,
ut dignetur sanare, ut dicitur, in radice, omnes commutationes, et unicuique imper-
tiri facultatem specialem commutandi, si opus sit, obllgationes confratrum Scapula-
ris. Et Deus, etc.•
Sacra Congregatio indulgentüs sacrisque reliquiis prreposita ad pr:efata dubia
respondit:
«l.° Ad primum (negative); vigore enim obtentm facultatis benedicendi ac im-
ponendi Scapularia non sequitur quod sacerdos ea quoque gaudeat potestate commu·
tandi obligationes injunctas, nisi expresse enantietur in rescripto concessionis pro
benedictione ac impositione Scapularium; at vero in una Bisuntina sub die 12 au-
gusti 184-0, ab bac S. Congregatione responsum fuit : •Accedente gravi impedimento,
•non teneri Confratres ueque ad jejunia, neque ad recitationem horarum canonicarum
• aut oflicii B. M. V. nequo ad abstinentiam diebus mercurii et sabbati. Consulendi
•tamen fideles, hoc in casu se subjiciant judicio docti ct prudentis confessarü pro
caliqua commutatione impetranda.a
•2.0 Ad secundum, jam provisum fuit in primo: et quatenus opus ait, sanctis·
simus Dominus noster Gregorius papa XVI, sanabit quemcumque defectum huc ua-
que incursum circa obligationum commutationem ; dummodo tamen sacerdotes hona
geaserint fide. ln quarum fidem, etc.
cDatum Romre ex secretaria ejusdem S. Congregationum, die 22junii 1842.
c8ig11atum: C. card. ÜASTBACANll, prrefectus i
•A. Canonicua PBD1z1VYLL1, subatitutus. •

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........

CATECISMO

Taes são as obrigações da confraria do Escapulario. Se não ha de-


voção mais facil, não a ha mais respeitavel nem mais vantajosa.
Comparae-a a todas as associações humanas, em que até os homens
mais altivos ambicionam ser admittidos. Todas as vossas ordens de caval-
leria, todas as vossas Legiões d'bonra, por mais respeitaveis que sejam,
não me apresentam senão um homem como fundador, como vantagem
· senão o porte d'armas d'um soldado, algumas distincções sem resultado,
e quando muito algumas moedas no fim do anno. Succede mui differen-
temente com a confraria do Escapulario: sob qualquer aspecto que a en·
care, acbo-a infinitamente respeitavel e vantajosa.
Respeitavel pela soa origem. E' a mais bella, a mais amavel e a
mais poderosa Rainha, é Maria a auctora d'ella.
Respeitavel pela sua antiguidade. Ha perto de setecentos annos que
ella existe a despeito das contradicções e dos transtornos.
Respeita,·el pelos membros que a compoem. E' aos milhares que se
devem contar os Soberanos Pontifices, os Cardeaes, os Patriarchas, os
Bispos, os Sacerdotes, os imperadores e as imperatrizes, os reis e as
rainhas, os nobres cavalleiros, os sabios e os santos illustres que fazem
parte d'ella; desde S. Luiz, que recebeu o escapulario no Monte Carmelo,
até Luiz XIV, que não passa por espirita fraco, e que, em presença da
côrte mais brilhante da Europa, recebeu as insignias de Maria, na flôr da
edade, não ha homem verdadeiramente recommendavel que não tenha
querido partilhar a mesma gloria. E' no seio d'este augusto senado que
entramos tomando a gloriosa e santa libré do Carmo.
Respeitavel pelo duplo testimunho que lhe teem rendido e que não
cessam de render-lhe as duas mais respeitaveis auctoridades que podem
existir: a auctoridade de Deus que faltou por meio dos seus milagres, e
a auctoridade da Egreja que fallou por meio dos seus Pontifices.
Vantajosa pelo duplo privilegio d'uma boa morte e do livramento do
Purgatorio. Homens mortaes, entes d'um dia, que caminhaes para uma
terrível eternidade, comparae, comparae a felicidade de fazer com segu-
rança esta grande viagem, com as vantagens das associações humanas, e
dizei de que lado está a superioridade. Direis que não crêdes? Em ver-
dade, causaes dó 1 Que boas razões tendes para não crêr? por ventura,
tendes vós sós mais conhecimentos, mais genio que essa multidão de
grandes homens cujos nomes adornam os fastos do Carmo? Não crêdes !
e que vos é necessario para crêrdes, depois que as duas maiores aucto-
ridades, Dens e a Egreja, fallaram? Deixae-nos com a vossa supposta in-

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DE PERSEVERANÇA.. t23
credulidade. Ha muito que sabiamos que ella era o inevitavel sêllo da
mediocridade; e, se o houvessemos ignorado, vós nol-o terieis ensinado.
Vantajosa pelas innumeras indulgencias que a enriquecem. Seria
tida por vantajosa a associação humana que désse aos seus membros exi-
lados o direito de voltarem á patria; aos seus membros prêsos o direito
á liberdade; aos seus membros insol vaveis o poder de pagarem as suas
dividas: tal é, n'uma ordem superior, a confraria do Carmo.
Vantajosa pela participação que lhes dá nas boas obras d'uma das
ordens mais santas da Egreja e de ~odos os confrades. Conheceis a ordem
do Carmo, composta dos religiosos e das religiosas Carmelitas, ordem
sublime em dedicação e virtudes, que tem atravessado tantos seculos?
Tendes alguma vez volvido os olhos para o claustro d' estas Carmelitas,
d'estes anjos da terra, que os anjos do Ceo contemplam alternativamente
recolhidas no santuario ou applicadas ao trabalho de mãos; vestidas do
seu limpo borel, deitadas n'um leito que faria estremecer a vossa delica-
deza; taro santas, muitas vezes no mundo filhas queridas de opulentas
casas, e algumas vezes filhas de reis? Que de thesouros de graças ellas
accumulam cada dia e a cada hora! Pois bem; esses thesouros parti-
lbael-os com ellas.
Tendes visto o religioso Carmelita, alternativamente Sacerdote santo,
fazendo descer sobre o altar a Victima, fobte de todas as graças; humilde
cenobita, prostrado na sua cella, orando e mortificando-se pelo mundo;
zeloso missionario, levando a todas as partes do mundo o facho do Evan-
gelho e regando com os seus suores e com o seu sangue a terra que
acaba de conquistar para Jesus Cbristo? Contae, se podeis, os seus me-
recimentos e os dos seus milhares d'irmãos ha sete seculos ! Pois bem;
merecimentos de toda a éspecie, martyrios, missas, vigilias, jejuns, la-
grimas, orações, macerações, trabalbos, sacrificios, vós participaes de tudo,
se fordes recebidos na confraria do Escapulario.
Que mais direi? Erguei os olhos para essa brilhante nuvem de con-
frades do Carmo: Papas, Bispos, Pastores, religiosos, imperadores, reis,
principes, grandes e pequenos, ricos e pobres, a flôr da Egreja ba sete
seculos. Calculae as suas boas obras, e, se trazeis as insígnias do Carmo,
dizei comvosco: Eu tenho parte em todos estes bens. Mais uma vez, co-
nheceis associação mais respeitavel e mais vantajosa?
Homens que ambicionaes a gloria de trazer as condecorações dos
reis, tracta-se aqui de trazer as insígnias da mais grande e mais amavel
Princeza do universo. E hesitaes ! e córaes ! Ide, ide, almas acanhadas,

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12~ CATECISMO

a vós pertencem os chocalhos das vossas distincções humanas. Quanto a


nós os Christãos, homens de coração nobre, de espirito elevado, a nós
tocam condecorações mais formosas, librés mais honrosas: filhos de Ma-
ria, a nós tocam as librés de nossa augusta Mãe! Uma virtude experimen-
tada nos combates da fé nos torne dignos da honra de as vestirmos!
Todas as vezes que o nosso escapulario nos vier ferir a vista, digamos
a nós mesmos: De quem é esta imagem: Cujus est imago hmc? E ao
lembrarmo'-nos de Maria, tomemos sentimentos dignos de nossa Mãe, a
exemplo do sabio Boleslau IV, rei da Polonia. Este príncipe trazia de
noite e de dia ao pescoço o retrato de seu pae, como testimunbo do seu
proceder e guia das suas acções. Se era preciso proferir uma sentença,
se se tractava d'algum negocio importante para a sua corôa ou para a sua
gloria, olhava primeiro fixarhente a imagem de seu pae, e lhe dizia estas
admira veis palavras: «Meu pae, nunca permittaes que eu traia o vosso
sangue, nem consintaes que a miflha lingua pronuncie alguma palavra, ou
que a minha mão faça alguma acção indigna do vosso nome e da alta po-
sição em que me collocastes."
Do mesmo modo, á vista do vosso escapulario e da imagem de Ma-
ria que lhe estã junta, exclamae: O' minha Mãe! não permittaes que eu
faça nunca coisa que seja ind~gna do vosso nome, ou qu~ possa deshon-
rar o titulo da vossa adopção. ·
IV. SANTO RosARIO.- Resta-nos fallar d'outra devoção em honra de
Maria, quasi tam antiga como a precedente e não menos auctorisada, não
menos diffundida e não menos util. Acabamos de nomear a confraria do
santo Rosario. No cotneço do decimo-terceiro seeulo, prégava S. Domin-
gos contra os albigenses, formidaveis berejes que assolavam o meiodia da
França. Esforçava-se em reconduzir ã verdade as ovelhas errantes, e em
reter no redil as que estavam a ponto de se transviar. O resultado não
correspondia ao ardor do seu zêlo. Então é que Maria, essa que trium-
pbou de todas as heresias, lhe appareceu e lhe disse que estabelecesse a
devoção do santo Rosario. Com esta condição, prometteu-lbe uma abun-
dante colheita (J ).
Consiste a devoção do Rosario em recitar quinze vezes a oração do-
(1) Ex quo tempore pius hic orandi,modus mirabiliter per S. Dominicum pro-
mulgari, augerique crepit, quem ejusdem institutorem auctoremque fuisse s~mmi
P?ntifices apostolicis litteris affirmarunt. Sunt antem Leo X, S. Pius V, Greg. XIII,
181xtus V, Alexand. VII, Innocent. Xf, Clem. XI, etc. Bened. XIV, p. 523, n. 3. -
Quanto ao uso do rosario, é muito anterior a S. Domingos ; já se encontra entre os
solitarios dos primeiros tempos da. Egreja. ld., id., p. 524, n. 8.

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DE PERSEVERANÇA. t25
minical, e cento e cincoenta vezes a Saudação angelica, ao todo tres rosa-
rios. Tem por objecto honrar os quinze principaes mysterios do Salvador
e de sua santa Mãe. Estes quinze mysterios dividem-se em tres classes:
os mysterios gozosos, os mysterios dolorosos e os mysterios gloriosos.
Recitando o primeiro rosario, honram-se os cinco mysterios gozosos, a
saber: a Annunciação da SS. Virgem, a Visitação, o Nascimento do Sal-
vador, a Apresentação de Jesus no Templo, e o Encontro de Jesus no
Templo.
Recitando o segundo rosario, honram-se os mysterios dolorosos, a
saber: a Agonia do Salvador no horto das Oliveiras, a Flagellação, a
Coroação d'espinhos, o Levamento da Cruz, e a Crucifixão.
Recitando o terceiro rosario, honram-se os mysterios gloriosos, a
saber: a Resurreição de Nosso Senhor, a Ascensão, a Descida do Espí-
rito Santo, a Morte da SS. Virgem, e a sua Coroação no Ceo. E' pre-
ciso em cada dezena meditar o mysterio que a ella se refere.
Foi o que fez S. Domingos : ensinou aos povos a meditar orando.
E não é admiravel o ter reunido ás duas mais bellas orações que póde
pronunciar a lingua humana, a Oração dominical e a Saudação angelica,
os mysterios mais augustos e mais proprios para tocar-nos o coração !
Foi em Tolosa, em i 208, que elle instituiu o Rosario, e começou a pré-
gal-o. Os resultados da prégação do Rosario foram tam rapidos, que ex-
cederam todas as esperanças e espantaram a propria Roma. Os povos
acudiam em multidão para se unirem á recitação do Rosario; apinha-
vam-se em torno da cadeira da verdade para ouvirem a explicação dos
mysterios; bejjavam o rosario, banbavam-n'o de lagrimas, e interrom-
piam com soluços a recitação d'elle.
Em breve as egrejas não podem conter a multidão. S. Domingos
vê-se obrigado a dirigir-se a todos os pontos, ás cidades e ,ás aldêas :
em toda a parte a sua palavra inspirada multiplica os prodígios. Em
pouco tempo o eloquente panegyrista do Rosario de Maria transformou
os corações com uma simples formula d'orações ; e todos os povos ce-
lebram com elle a santidade, a gloria e o poder da Mãe de Deus. O Ro-
sario, rapidamente propagado, conta brevemente, como o Escapulario,
entre os seu·s membros, Papas, reis, íllnstres capitães, tudo quanto o ge-
nio e a piedade catholica offerecem de mais grande ; e ricas indulgen-
cias lhe são unidas.
V. FESTA no RosAmo. - Em quanto á festa do santo Rosario, eis
aqui a sua origem. A 7 d'outubro de t57t, que era o primeiro domingo

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,.
t26 CATECISMO

do mez, alcançaram os Christãos sobre os turcos a celebre victoria de


Lepanto, que deu o golpe mortal ao poderio ottomano. Em memoria
d'este acontecimento, que salvou a Europa, quiz o Papa S. Pio V que
cada anno se déssem graças á SS. Virgem (t ), sob a denominação de
Santa Maria da Victoria.
Alguns annos depois, ordenou Gregorio XIII que uma festa solem-
ne, sob o titulo do santo Rosario, se celebrasse cada anno no primeiro
domingo d'outubro, porque a victoria havia sido alcançada no primeiro
domingo d'este mez, no momento em que os fieis recitavam o Rosario
com singular fervor pelo feliz exito da batalha. Clemente XI tornou uni-
versal o officio do Rosario, a fim de perpetuar a memoria da protecção
da SS. Virgem (2).
Hoje, mais que nunca, reclama o auxilio de Maria o estado da Egreja,
da sociedade e da familia. E' tempo, é mais que tempo de nos associar-
mos a todos aquelles que a invocam. Não podem, mais que o homem, ir
a familia e a sociedade para Deus senão por via de Maria ; nem o ho-
mem, nem a familia, nem a sociedade dedicadas a Maria perecerão. E'
isto o oraculo dos seculos, a voz da experiencia, o testimunho da fé :
que mais nos é preciso (3) ?

ORAÇÃO.

O' meu J)eus, que sois todo amor! graças vos dou por haverdes
multiplicado as práticas de devoção para com a SS. Virgem; é um po-
deroso meio de salvação, o qual vos peço o favor de bem aproveitar.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo comô a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de associar-me á confraria do Escapulario e do Rosario.

(1) Eodem die commemoratio S. Marire de Victoria, quam Pius V pontüex


maximus, ob insignem victoriam a Christianis bello na.vali, ejusdem Dei Genitricis
auxilio, hac ipsa die de Turcis reportatam quotannis, tieri instituit. Martyrol. Rom.,
1 oct.
(2) Vide Manual do Rosario, pelo snr. de Sambucy, p. 73; 13ened. XIV, p.
528, n. 17.
(3) E'-nos grato signalar aqui uma nova devoção a Maria. E' a archiconfra-
ria do immaculado Coração da SS. Vfrgem para a conversão dos peccadores. Foi
fundada em Paris, em 1836, pelo snr. Deegenettes, parocho de Nossa Senhora das
Victorias. Coisa milagrosa! já conta mais d'um milhão d'aesociados. A Domino fac-
tum est istud. Oh! não: a França, o reino de Maria, não perecerá.

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DE PERSEVERANÇA. U7

QUADRAGESIMA·PRIMEIRA LIÇÃO.

Ochrislianismo tornado sensivel.

ao1;açõe11.-Procissão.-Feixe da Paixão.-Sabedoria da E,;re-


ja. - Leis da natureza subjeitas á inftoencia da oração. -
Di11torla da!li Ro,;ações. -O que é necessa.rio fazer para as
santiOcar. -Procissão de s. llarcos.

l. Psoc1ssÃo DAS ROGAÇÕES. - Na primavera, õstenta a Egreja nos


nossos campos uma pompa cujas candidas bellezas estão em harmonia
com os costumes da aldêa: eis as Rogações. N'estes dias d'oração, sente
com jubilo o homem rustico abrir-se-lhe o coração ás influencias da Re-
ligião e a terra aos orvalhos do ceo. Feliz d'aquelle que apresentar uteis
messes e cujo coração humilde se inclinar sob as suas proprias virtudes,
como o colmo sob o grão de que está carregado 1 Os sinos da aldêa fa-
zem-se ouvir, e os camponezes deixam os seus trabalhos, o vinhateiro
desce da collina, o lavrador corre da planicie, e o lenheiro sabe da flo-
resta; as mães, fechando as cabanas, chegam com seus filhos, e as don-
zellas largam os fusos, as ovelhas e as fontes para assistirem á festa.
Reunem-se no cemiterio da freguezia sobre as sepulturas verdejan-
tes dos avôs. Breve se vê apparecer todo o clero destinado á ceremonia.
E' um velho pastor que não é conhecido senão pelo nome de abbade, e
este nome veneravel, no qual veio perder-se o seu indica menos o mi-
1

nistro do templo que o pae laborioso do rebanho. Sabe do seu retiro


edificado ao pé da morada dos mortos cujas cinzas vigia. Está estabele-
cido no seu presbyterio qual guarda avançada nas raias da vida, para re-
ceber os que entram e os que sahem d'este reino das dôres. Um poço,
alguns choupos, uma vide em torno da janella, e algumas pombas, com-
poem a herdade d'este rei dos sacrificios.
Entretanto o apostolo do Evangelho, revestido d'uma simples so-
brepelliz, ajunta as suas ovelhas diante da porta principal da egreja.

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t28 CATECISMO

Faz-lhes um discurso mui bello sem duvida, a julgar pelas lagrimas do


auditoria. Ouve-se-lhe repetir muitas vezes: Meus filhos, meus queridos
filhos, e é esse todo o segredo da eloquencia d'aquelle Chrysostomo cam~
1
pestre. ·
Depois da exhortação, começa a assemblêa a caminhar cantando :
«Sabireis com prazer e sereis recebidos com alegria: as collinas saltarão
e vos ouvirão com alegria.» «O estandarte dos Santos, antiga bandeira
dos tempos cavalleirosos, abre o caminho ao rebanho. que segue confun-
dido com o pastor. Entram em caminhos assombrados e profundamente
cortados pela roda dos carros rusticos; transpoem altas barreiras forma-
das d'um só tronco de carvalho; viajam ao longo <l'uma sebe d'espinhei-
ro, onde zune a abelha e assobiam os piscos e os melros. As arvores
estão cobertas das suas flôres ou ornadas de .nascente folhagem. Os bos-
ques, os valles, os ribeiros e as rochas, ouvem successivamente os hym-
nos dos lavradores. Admirados d'estes canticos, os habitadores dos cam-
pos partem dos trigos novos e param a alguma distancia a vêr passar a
pompa aldean (t ). »
A procissão faz ordinariamente duas estações em duas cruzes plan-
tadas nas campinas. Estes descanços empregam-se em invocar os Santos
e rogar-lhes que sejam junto de Deus nossos advogados e interpretes.
Cantam-se, indo para a primeira estação, os sete Psalmos Penitenciaes.
Muitas vezes temos abusado dos dons de Deus. Os fructos e as messes,
colhidos no anno antecedente, serviram talvez a muitos para offenderem
Aquelle que os havia feito crescer. Que melhor meio de obter outros
novos que o arrependimento sincero, o amor de Deus e a confiança na
sua misericordia ?
Todos estes sentimentos se esforça a Egreja por influil-os no cora-
ção dos fieis, pondo-lhes nos labios os canticos do rei penitente. «0' vós!
parece dizer-lhes, que supportaes o pêso do dia e do calor, quereis que
as vossas herdades sejam fecundadas pelos vossos suores ? regae-as pri-
meiro com as lagrimas do arrependimento.» E na primeira estação, to-
das as vozes se reunem para fazerem ouvir estas tocantes supplicas :
«Escutae, sim, escutae, Senhor, as nossas humildes orações. Santa Ma-
ria, orae por nós. Tende compaixão, nós vol-o rogamos, Senhor, tende
compaixão do vosso povo; vós, ó Christo ! o haveis remido com o vosso
sangue: não estejaes, pois, sempre irritado contra nós.»

(1) Chateaubriand, Rogações, t. III, p. 157.

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DE PERSEVERANÇA. 129

Indo para a segunda estação e voltando para a egreja, cantam-se as


ladainhas dos Santos. Do alto do seu tbrono, contemplam os felizes ha-
bitantes da celeste Jerusalem a seus irmãos no meio das suas penas e
dos seus trabalbos. Não esqueceram o que foram, viajantes e condemna-
dos como nós ao trabalho, e roga-se-lhes que alcancem para os campos
a fecundidade necessaria para a nossa existencia. O homem confessa
aqui a sua dependencia: «Eu planto e rego, diz, mas só Deus dá o cres-
cimento. li Eis ahi porque eleva para o Senhor mãos supplicantes, a fim
de obter, pela intercessão de todos os Santos e principalmente dos pa-
droeiros da freguezia, que derrame sobre a terra as suas bençãos, que
modere os ardore~ do sol, que dispense com medida a chuva e o orva-
lho, que dissipe as nuvens e que desvie as tempestades e a saraiva.
A procissão volta alfim á aldêa. Todo o povo se apinha no retinto
do templo rustico, onde o velho pastor celebra Missa, a fim de fecundar,
com o sangue de Jesus Christo, as orações, os trabalhos, os campos, as
vinhas e os prados. Offerecido o Sacrificio, cada qual volta ao seu traba-
lho: a Religião não quiz que o dia em que se pedem a Deus os bens da
terra, lhe fosse um dia de ociosidade. Com que esperança se enterra a
relba no sulco, depois de se ter implorado Aquelle qae dirige o sol e
guarda nos seus thesouros os ventos do sul e os te pi dos aguaceiros f
II. A PAIXÃO E o FEIXE DA PAIXÃO. - Mas um dia d'orações é mui
pouco; em todas as coisas, é a perseverança que obtem o bom resultado.
Ora, principalmente do mez de maio até ao mez de setembro é que as
colheitas estão expostas a numer03os perigos. Assim é que a Egreja,
attenta ás necessidades de seus filbos, os cbama todos os dias, durante
este longo intervallo, á oração, unico meio de conjnrar os flagellos que
ameaçam as suas esperanças. A datar da Invenção da Santa Cruz, a 3 de
maio, até ao dia da sua Exaltação, a 14. de setembro, recita o Sacerdote
todas as manhãs, antes da Missa, a Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo.
Que oração mais efficaz? Elia recorda e apresenta a Deus os soffrimentos
de seu Filho, e lhe roga, em virtude dos seus merecimentos, que abra a
mão e abençoe a terra.
Durante esta leitura/faz-se ouvir o som do sino, e o cultivador no
meio dos seus campos, e o vinhateiro do alto da sua collina, devem unir-se
ao Sacerdote para rogarem ao Senhor que cêda ás suas instancias e ve-
nha santificar e fecundar os trabalhos d' elles (f ). Ern reconhecimento das

(1) Espírito das Ceremonias, p. 215.

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!30 CATECISMO

suas orações, offerece-se ao Sacerdote o feixe da Paixão : ha coisa mais


bem achada~ Não é justo que o homem dê parte das suas colheitas áquelle
cujas orações conservaram a existencia ou augmentaram a riqueza d'ellas?
De mais, é menos ao Sacerdote que ao proprio Deus que se dirige este
testimunho de agradecimento; e não é sabido que a gratidão pelos benefi-
cios recebidos é o primeiro titulo para os receber novos (2) '!
III. INFLUENCIA DA ORAÇÃO SOBRE A NATUREZA. - Quando ouve fallar
de orações para afastar a saraiva e as trovoadas, ou para alcançar chuva
ou bom tempo, sorri-se o impio com desdem. Se, como eu, parece dizer
á Egreja catholica, vós houvesseis estudado as leis da natureza, saberíeis
que ellas são immutaveis, e que as orações d'esses pobres bomemzinhos
não podem ter influencia alguma sobre os phenomenos pbysicos. A elec-
tricidade, por ~xemplo, é necessaria ao mundo, ·como o fogo ou a luz, e
pois elle não póde passar sem a electricidade, como poderia passar sem
o trovão? Do mesmo modo, saberíeis que os physicos se leem certificado,
por uma serie de observações exactas, de que devem cahir em certo ter~
ritorio tantas pollegadas d'agua por anno. Se soubesseis tudo isto, como
ousarieis insultar a sciencia e fazer as vossas preces das Rogações?
Obrigado, senhor doutor, pela lição de physica que acabaes de dar-
nos. A·Egreja catholica fica-vos muito agradecida, pois, mais que ninguem,
crê na influencia da oração sobre os pbenomenos da natureza. Vêde po-
rém se a vossa sciencia é tam certa como pretendeis.
t. 0 Tenho primeiramente contra vós uma preoccapação mui forte,
e é que todos os povos teem orado. Sim, sempre e em toda a parte, vejo
supplicas, sacrificios e procissões, para afastar os flagellos que ameaçam
o mundo (1). Entre os hebreus, orava-se para apartar das messes as sa-
raivas e as trovoadas; entre os romanos, orava-se com o mesmo objecto;
o mesmo succede com todas as outras nações civilisadas ou barbaras, an-
tigas ou modernas; não negareis o facto, senhor doutor.
E' uma preoccupação, dizeis? - Se não me engano, quer isso dizer
que sabeis mais vós só que o universo inteiro. Mas rogo-vos me respon-

'
(1) A procissão de S. Marcos, que se faz na primavera, foi, como as Rogações,
estabelecida para chamar as bençãos do Ceo sobre os fructos da terra. ·
(2) A oração é omnipotente na terra, porque é omnipotente no Ceo, tal é a
crença de todo~ os povos manifestada pelo seu proceder constante. Deus, que guia
sem interrupção todos os movimentos da nat~reza, diz ao sol: rCa~inba!,, Josué ~iz
pelo contrario a este astro: cc Pára! » Josué trmmpha da ordem sah1da do throno im-
mortal, e, por effeito d'uma bondade incomprebensivel, a Divindade cede e obedece
á palavra de fé que sobe a. ella do coração do homem.

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DE PERSEVERANÇA.

daes quem sois, para dizer: Genero humano, to não passas d'om tolo?
E não sois vós uma fracção, e fracção minima, d' esse genero humano 'l
não é a --vossa razão para a sua sciencia o que é uma lampada sepulcral
para o sol? Se crêdes o' genero humano atacado e convicto de tolice;
quem sois, mais uma vez, vós, atomo imperceptivel, para pretenderdes
ter razão e dar-nos as vossas asserções por axiomas? Em quanto não me
tenbaes mostrado as vossas cartas d'infalJibilidade, antes quero enganar-
me com o genero humano, com a Egreja catholica, que ter razão com-
vosco; e, em que vos pese, continuarei a orar para pedir a Deus que me
livre ou preserve dos flagellos .temporaes.
2. º Dizeis-nos que o mundo precisa da electricidade, e que assim .
deve roncar o trovão tantas vezes por anno; que, cada anno, devem cahir
tantas pollegadas d'agua, porque a terra a necessita. -- D'esta vez, não
vos dirigirei agradecimento algum, porque o vosso bello systema de leis
invariaveis nos leva direitos ao fatalismo e faz do homem uma estatua.
Envileceis-me, e eu não reconheço em homem vivo, nem em systema al-
gum, o direito de elevar-me á dignidade d'uma machina.
O mundo para mim não é senão nm relogio, e eu uma das suas ro-
das. Acima das suas leis suppostas invariaveis, vejo um legislador. Tereis
tambem descoberto que ba leis sem legislador? Ora, a este legislador
todos os povos o saúdam com o nome de Pae optimo, magno, liberrimo,
e eu creio com todos os povos que se roga a Deus como se roga a um
soberano, como se roga a um pae, e que a oração tem o poder de alcan-
çar graças e de evitar males.
3. ° Fallaes-nos, senhor doutor, de certo numero de trovoadas e de
raios, e de certa quantidade d'agua, justamente devidos a cada territorio
no decurso d'um anno. - Não sei que estudos são os vossos sobre este
ponto; mas, para fallar-vos a verdade, a experiencia parece-me impossí-
vel, pelo menos com certeza ainda approximativa. Como quer que 5eja,
não póde tractar-se aqui senão d'um anno commum. Ora bem; a que
distancia colloeaes os dois termos do período? a dez annos, a cem, se
quiZerdes; mas, em boa logica, como podeis concluir, do que occorreu
em tam ·breve duração, que a mesma coisa devia e deve realisar-se inva-
riavelmente por todos os seculos? Dir-vos-ei que uma lei se conhece pela
permanencia dos effeitos. Ora, dez ou cem annos em milhares de seculos
não são sufficientes para a estabelecer.
Porém quero dar-vos bom jogo. Admitto que, cada anno, deva cahir
em cada territorio justamente a mesma quantidade d'agua: será isto lei

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._ .

132 CATECISl\IO

invariavel. A distribuição d'esta agua será, se me permittis a expressão,


a parte flexivel da lei. D'est'arte, vêdes que com as vossas leis invariaveis
nós poderemos muito bem ter ainda assim inundações e sêccas, chuvas
geraes para toda a gente, e chuvas excepcionaes para aquelles que sou-
beram pedil-as ('t ). Oraremos pois, não para que cresça a oliveira na
Siberia; mas sim para que a oliveira não gele nas campinas da Provença.
Oraremos, não para que diminua a quantidade d'agua necessaria cada anno,
mas sim para que essa agua caia nos tempos e nos sitios convenientes.
4. 0 Pela minha vez, se me permittis que vos dê uma lição ou antes
um conselho d'amigo, vos direi: Tomae sentido, senhor doutor, que estaes
em má companhia, e, acreditae-me, não é bom frequentar a canalha. Ora,
pondo de parte qualquer outro exame, a moralidade dos homens que sus-
tentam o vosso systerna é uma prevenção contra a sua verdade e princi-
palmente contra a sua bondade. Vossos mestres são esses mesmos phi·
losophos que buscam aviltar o bomem depois de se terem aviltado a si
proprios: a historia da sua vida e dos seus escriptos o prova. Não fallam
senão de leis invariaveis, e comprehendo-o; não se tracta para e11es se-
não de impedir que o homem ore, e o meio infallivel de o conseguir é
aquelle.
Ora~ impedir que o homem ore, é aniquilar a idêa d'um Deus sabio,
poderoso, livre e bom, que goYerna o mundo, e a idêa das relações que
nos unem a Elle como os filhos a seu pae: é aniquilar o vinculo religioso,
unico que ennobrece o homem; pois não ha religião sem oração. D'onde
vem, bem o sabemos, a ira d'esses descrentes, quando os prégadores ou
escriptores moralistas se lembraram de dizer-nos que os flagellos mate-
riaes creste mundo eram castigos divinos ('t). TodaYia os moralistas e os
prégadores leem razão. Os flagellos são destinados a castigar-nos; e so-
mos castigados, porque o merecemos. Podíamos sem duvida não o me-
recer, e até, depois de o termos merecido, podíamos alcançar o perdão.
Perguntae aos vossos mestres, senhor doutor, se teem alguma coisa
mais sensata que dizer-nos sobre este ponto. Esperando a sua resposta,
crêmos que é este ainda um dos casos assaz numerosos em que a philo-
sophia, depois de longos e penosos rodeios, vem emfim descarn;ar na
crença universal. Pelo que me toca, não perco a esperança de vêr che-
garem a ella em massa os philosophos e os physicos dos nossos dias; e
folgo de pensar, senhor doutor, que vós sereis d'esse numero.
(1) Plnviam voluntariam segregabis, Deus, hrereditati ture. Psal. LXVII.
(2) Vide Noites de 8. Petersburgo, t. I, 4.ª conversação.

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DE PERSEVERANÇA. !33
Quanto a nós, fieis, que temos a felicidade de viver tranquillos no
seio da verdade calholica, não nos resta senão reanimar a nossa fé na in-
fluencia da oração sobre as leis e phenomenos pbysico~ : vamos fazêl-o
estudando a historia das Rogações.
IV. ORIGEM DAS ROGAÇÕES. - A observancia das Rogações deve a
sua origem ás calamidades particulares da cidade de Vienna, no Delfina-
do. Havia mais de meio seculo que não se tinha passado anno nem mesmo
estação sem qne o Delfinado e a Saboia houvessem sido affiigidos por
algumas novas desgraças. Tantas calamidades succedendo-se umas ás ou-
tras, e juntando-se muitas vezes todas, haviam reduzido aquellas provin-
cias a uma desolação quasi universal. Os tremores de terra eram quasi
diarios, e os mais solidos edificios não podiam resistir a tam rudes aba-
los. Nunca os incendios tanto se haviam multiplicado. Viam-se os animaes
ferozes sahir dos bosques á luz do dia e vir até ao meio das praças e das
ruas, como para desafiarem os elementos reunidos.
O terror publico ia sempre crescendo, quando, na noite de Paschoa
do anno de 469, em quanto estava todo o povo reunido na priucipal
egreja com o seu Bispo, S. Mamerto, para a celebração das solemnida-
des, pegou fogo na casa da camara, magnifico edificio constroido n'uma
eminencia. Cada qual começou a recear pela sua habitação, quando se
viu com que furia augmentava o incendio. Todos os fieis sabiram da
egreja para provêrem á propria segurança. Foi abandonado o officio di-
vino, e o santo Bispo ficou só diante do altar.
Felizmente pê!ra a cidade de Vienna, S. Mamerto não cria nas leis
immutaveis da natureza. No ardor da sua fé e cbaridade, offerece a Deus
orações e lagrimas para aplacar a sua ira, e roga á sua divina bondade
que remedeie alfim tantos males, que impediam que o seu povo o ser-
visse com o amor e a fidelidade que lhe eram devidos. Mal rompe o dia
e todos ficam pasmados de vêrem cessar de repente aquelle grande incen-
dio. O jubilo produzido por aquelle maravilhoso acontecimento reconduz
todo o povoá egreja para contiµuar o officio. Depois .de ter concluído os
augustos mysterjos e dado graças a Deus por um favor tam visivel, diz
o santo Bispo ao seu rebanho que a oração e a penitencia eram o verdadeiro
remedio para os males que affiigiam a cidade e a provincia, e que, du-
rante o susto geral, elle tinha promettido a Deus Rogações com aquelle
objecto.
Eram Ladainhas, ou deprecações, que deviam consistir n'uma pro-
cissão solemne, acompanhada de jejuns e preces publicas. Todos applau-
9

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CATECISMO

diram o.piedoso pensamento do Pontifice, e por consenso geral do clero


e do povo, escolheram para cumprir a promessa os tres dias que prece-
dem a Ascensão. O santo Bispo marcou para estação, ou termõ da pri-
meira procissão·, uma egreja fóra da ci~de, mas que não era distante.
Todos os habitantes alli iam com grande devoção, com exterior penitente
e humilhad'o, juntando ao canto dos psalmos as suas lagrimas e gemidos.
S. Mamerto, vendo o zêlo do seu povo, levou mais longe o termo das
procissões seguintes.
A piedosa instituição produziu effeitos maravilhosos. Por uma to-
cante_ emulação .que, nos seculos de fé, não deixava de entrar nos exer-
cicios de devoção, não se limitou á cidade ou á diocese de Vienna. Os
Bispos das Gallias, considerando a sabedoria d'esta prática, crêram não
poderem fazer coisa melbor que conformar-se com ella. S. Cesario, Bispo
d' Arles, que presidiu ao concilio d'Agda, no anno de !J06, falia das Ro-
gações de S. Mamerto de maneira que faz crêr que estavam estabelecidas
no seu tempo nas provincias subjeitas aos visigodos. No começo do sexto
seculo foram recebidas no resto das Gallias que compunham os estados de
Clovis 1, rei de França. Desde esse tempo, nunca a observancia d'ellas se
interrompeu entre nós. Passou á Hespanha no septimo seculo, e a Roma
no .fim do oitavo, no pontificado de Leão III. Em França, eram verdadei-
ràs romarias, ou procissões de longo transito. Ao principio guarda\'am-se
o8 tres · dias das Rogações. Mais tarde esta obrigação restringiu-se á as-
sistencia ás procissões e á Missa.
V. MEio DE AS SANTIFICAR. - O jejum prescripto nos primeiros tem-
pos limita-se hoje á abstinencia (t). Observal-a é a primeira coisa que
se deve fazer para santificar as Rogações. Assistir ás procissões é a se-
gwnda. Estabelecidas para conservação dos nossos bens temporaes, re-
querem imperiosamente estas piedosas e edificantes ceremonias a pre-
sença de nós todos, ricos e pobres. Não é deploravel o vêrem-se apenas
algumas creanças e mulheres seguir o pastor, quando vae sollicitar para
todo o povo as bençãos do Ceo ?
Pois quê ! homens interesseiros que vos entregaes aos vossos traba ..
lhos quando a Egreja vos chama á oração, acaso e~queceis que não é
aquelle que planta, nem aquelle que rega, que é alguma coisa, mas sim
aquelle que dá o crescimento? Esqueceis que de nada vos serve o levan-
(1) Vide Historia das Festas cliristãs. -Em ·varias dioceses já nem existe a
abstinencis. Para evitarem mui numerosas prevaricações, julgaram os Bispos neces-
sario pedir dispensa ao Summo Pontifice. Tal é o progresso religioso da nosso. epocha!

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DE PERSEVERANÇA. f35
tardes-vos antes do dia, se o Senhor não edifiea a vossa easa? E vós,
homens indifferentes que, do umbral das vossas officinas e loj~, vêdes
passarem as nossas procissões, de braços cruzados, e talvez com o ,sor·
riso impio nos labios, acaso não tendes nada que temer ou que ·pedir?
mandaes os ventos e as tempestades, as saraivas e os incendios 'l Talvez
que Deus não tenha, nos seus tbesouros, com que punir os vossos ínsul..
tantes desprêsos ? Justo Ceo ~ a que cegueira, até mesmo a respeito dos
nossos interesses materiaes, não levam a indifferenca e a irreligião 1
. Em quanto a nós, Cbristãos, que conhecemos a influeQcia da oração,
tenhamos por dever o assistir ás procissões das Rogações com exactidão,
com modestia, com sentimentos de penitencia e compuncção, e pedindo
a Deus para fazermos um santo uso dos bens que sollicitamos da sua li-
beralidade.
VI. PRoc1ssÃo DE S. MAncos. - A Egreja de Roma, que recebêra
de nós as Rogações, Dos communicou por seu turno a Grande Ladainha,
.ou procissão de S. Marcos. No mez de novembro de 589, trasbordou o
Tibre com tanta faria que esteve a ponto de abysmar a cidade de Roma.
Ao retirar-se, deixou Dos campos uma infecção que causou uma violenta
peste. O Papa Pelagio II foi um dos primeiros arrebatados, e a sua morte
seguida d'uma desolação geral. S. Gregorio Magno, successor de Pela..
gio, comprehendeu que era necessario aplacar a cólera de Deus com ora-
ções extraordinarias, jejuns e lagrimas de penitencia. Exhortou o seu
povo a coatJjuval-o com uma mudança sincera de vida. Os piedosos ha-
bitantes da cidade eterna. responderam com sollicitude ao chamamento
do Pontífice.
A fim de dar alguma ordem ás assemblêas dos fieis, que deviam ir ·
em procissão para as preces publicas, dividiu Gregorio o clero, os reli-
giosos e o povo em sete corpos. D'onde o nÓme de Ladainha septifor-
me, dado á procissão de S. Marcos (t ). As preces publicas continuaram-
se por tres dias, e as procissões estavam em andamento desde as nove
horas da manhã. Todas as ruas e praças da cidade retuwbavam com o
Kyrie eleison : Senhor, tende piedade. No primeiro dia tinham•se visto
em menos d'uma hora oitenta pessoas feridas da peste cahir e morrer,
sem que tam triste espectaculo fosse capaz de desalel)tar S. Gregorio.
A fé do santo Papa alcançou em breve a sua recompensa ; ao.cabo dos
tres dias de procissão, cessou o flagello.

(1) Vide a este respeüio BaroDio, Ãnnal., an. 690, p. 4.



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436 CATECISMO

Ha muito que as tres procissões foram reduzidas a uma só, fixada em


25 -d' abril, dia de S. Marcos. No começo do nono seculo, estava geral-
mente estabelecida entre nós. Em Roma e em algumas dioceses de Fran-
ça, ainda hoje é de preceito a abstinencra (t ). As Rogações, a procissão
de S. Marcos, todas essas preces publicas nos fazem admirar a maternal
sollicitude da Egreja. Não só as necessidades espirituaes de seus filhos
tocam o coração d'esta boa mãe, senão lambem se enternece por todas
as necessidades temporaes e nada poupa para allivial-as. Como seu di-
1

vino Esposo, póde dizer, em toda a extensão d'estas bellas palavras, o


que nunca dirá nenhuma seita: Eu PASSEI FAZENDO BEM.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor r graças vos dou por terdes ve-
lado pelos nossos interesses temporaes ; fazei com que alcancemos, pelo
fervor das nossas orações, os bens necessarios á vida, e sobre tudo a
graça de usarmos d'elles para gloria vossa.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor d.e Deus; e, em prova d' este amor,
hei de assistir com piedade ás procissões das Rogações.

(1) Tractado das Festas mudavei8, t. II, p. 99.

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DE PERSEVERANÇA. t37

QUADRAGESIMA·SEGUNDA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

A11cen•ão. - ObJecto d'e•1a f'e•1a.-1'eee••tdade da .&•~en•ão


do Salvador.- Sua bl11torla.- Ye11tlsto11 do• pé• do 8alva-
dor. - Hotlvo• d'ale3rla no dia da A.8cen•ão. - o que •e
deve fazer para celebrar esta fe111a.- 8ua harmonia eom
a e•ta~ão.

1. AscENSÃO. - Vimos o Filho de Deus, descendo do Ceo, nascer,


viver e morrer para remir o homem, e reparar a sua obra envilecida
pela quéda original. Havia quarenta dias que o divino Reparador tinha
provado aos mais incredolos a sua resurreição. Para descançar dos sof-
frimentos da sua humanidade, poderia ter ficado menos tempo na terra;
mas não, o seu amor para comnosco o retinha longe dos anjos. Dir-se-ia
um real exilado cujo desterro estava levantado, mas que não queria re-
gressar immediatamente á terra natal, porque, durante o seu desterro, se \
tinha habituado a amar os homens com quem havia soffrido (1).
Se hoje se afasta, é ainda por amor. O nobre vencedor vae tomar
posse d<;> reino conquistado com o seu sangue, e pôr a humanidade no
throno da immortal gloria. Quereis ser testimunhas do cumprimento
d'este mysterio que corôa a obra da redempção? partamos para Jerusa-
lem.
Eis o Salvador cercado dos seus Discípulos. Está perto de Bethania,
villa edificada na encosta do monte das Oliveiras, a quinze estadios pouco
mais ou menos de Jerusalem, d'onde o Homem-Deus tinha partido para

(1) Quadro poetico, p. 220.

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138 CATECISMO

e.ffectuar a sua entrada triumphante na cidade deicida. Uma piedosa tra-


dição crê que fôra despedir-se dos seus queridos hospedeiros, Lazaro,
Martha e Maria, que habitavam em Bethania (1). Com elles, subiu aquella
montanha antes testimunba da sua agonia. Elia nos apparece no caminho
de Jerusalem a Jerichó; é a mais alta dos arredores da cidade de David;
as suas encostas estão cobertas de verdura, e o seu cume coroado de
vides e oliveiras.
Chegado á altura, pára o Filho de Deus e diz aos Discipulos dispos-
tos em circulo em torno d'Elle: «Todo o poder me foi dado no Ceo e
«na terra; ide pois em meu nome, por todo o mundo, prégar o Evan-
ccgelho a todas as creaturas. Ensinae a todas as nações, baptisando-as em
«nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Ensinae-lhes a observar
«tudo o que eu vos tenho recommendado. Eis que estou comvosco todos
cos dias até á consummação dos seculos (2) .:o
Ao mesmo tempo lhes abriu o espírito, para que entend~sem as Es-
cripturas e vissem que tudo o que havia sido annunciado do Cbristo pe-
los Prophetas, se tinha realisado na sua pessoa. ccTestimunhas de todas
«estas coisas, accrescentou, não as deveis esquecer. Eu vou enviar so-
«bre vós o dom de meu Pae que vos foi promettido; mas até então
dicae na cidade, esperando que tenhaes sido revestidos da força do alto
(3). » Para os consolar da sua partida e mostrar-lhes que o amor que lhes ti-
nha dictava todos os seus passos: C[E'-vos vantajoso, lhes diz, que eu me
«Vá; se me não fôr, não virá o espírito a \'ÓS (4).» Pois quê 1 meu Sal-
vador, a vossa presença sensível é um obstaculo ás communicações do
Espírito Santo'! As vossas palavras parecem indical-o; qual é a sua si-
gnificação?
No principio foi necessario desprender os Apostolas do amor das
coisas sensíveis, pelo amor da presença sensível do Filho de Deus na nos-
sa carne. Mas o Salvador não quiz prendêl-os por algum tempo á sua
pr'esença visível senão para os acostumar insensivelmente ao amor. da jus-
tiça, da verdade, da charidade, da humildade e de todas as outras virtu_-
des, das quaes lhes dava tantos admiraveis preceitos e tantos illustres
exemplos. O amor sensivel de Nosso Senhor é util, necessario até aos prin-
cipiantes. Seria em fim prejudicial aos que devem passar da infancia es-

(1) Cornel. a Lapid., in ultim. cap. Luc.


(2) Math., XXVIII, 19.
(3) Lucas, XXIV, 49.
(4) Joan., XVI, 7.

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DE PERSEVERANÇA.

piritual a uma edade e a um estado mais perfeitos, nos quaes devem amar a
Jesus Cbristo como Deus, como a vida eterna, como a justiça e a santi·
dade incorruptiveis. Eis ahi porque foi necessario que o divino Mestre su-
bisse ao Ceo, sem o quê não teriam podido os ApostoJos amal-o com um
amor puramente espiritual, nem teriam podido por consequencia receber ó
seu Santo Espirito ('l).
E' chegado o momento supremo; o Preceptor do genero humano vae
privar o mundo da sua presença visível ; a bôcca divina que instruiu o
universo vae cerrar-se. Era uma quinta feira, pela hora do meio dia, quadra·
gesimo dia depois da resurreição (2). OSalvador, lançando pela ultima vez os
olhos para sua Santa Mãe e para os seus Discipulos, estendeu a mão, aben·
çoou-os e foi arrebatado do meio d'elles. Assim como na sua resurreição
tinha sabido do sepulcro pelo seu proprio poder, assim tambem se elevou
na sua ascensão sem tér necessidade, como Elias, d'um carro de fogo,
nem dos anjos, nem de auxilio algum estranho. Uma nuvem luminosa,
symbolo da sua gloria, o envolveu, e este novo carro de triumpho o es-
condeu breve á vista dos seus amigos.
Como estivessem ainda attentos a contemplai-o, eis que dois anjos,
similbantes a dois formosos mancebos, lhes appareceram e disseram :
«Homens de Galilêa, porque estaes assim com os olhos fitos no Ceo?
1

«Esse mesmo Jes us que acaba de deixar-vos para elevar-se ao Ceo, des-
«Cerá um dia da mesma maneira que. o vistes subir (3).»
Os discípulos, tendo-o por tanto adorado, prostrando-se com o rosto
por terra, e tendo beijado o vestígio dos seus pés, voltaram cheios d'ale-
gria a Jerusalem, onde permanecerem com a SS. Virgem, esperando o
cumprimento da promessa que lhes havia feito o Senhor, e empregando
os dias de espera em louvar a Deus no templo. Tal foi a partida do Fi·
lho de Deus d'esta terra, que a sua potente mão havia creado no dia do
nascimento do mundo, e que havia regado com o seu sangue no dia da
redempção.
II. VEsrm1os Dos PÉS DE Nosso SENHOR. - Do ponto mais elevado
do monte das Oliveiras é que o Salvador subiu ao Ceo. Lá deixou os ves-
tigios dos seus divinos pés, impressos no sitio onde tocou a terra pela
ultima vez. Muitos seculos os leem visto, os teem beijado com respeito e
banhado com lagdmas d'arrependimento e amor. S. Jeronymo, Sulpicio
(1) Thomass., Celebração das festas.
(2) Constit. apost., 1. VI, e. XIX.
(3) Act., I, 11..

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uo CATECISMO

Severo, S. Paulino de Nola, S. Optato, são irrecusaveis testimunhas d'esse


facto milagroso (t ). A' sua auctoridade se junta a do grande Agostinho :
cVae-se á Judêa, diz o illustre Bispo d'Hippona, para adorar os vestígios
dos pés de Jesus Christo, que se vêem no sitio d'onde subiu ao Ceo (2).»
Durante o assedio de Jerasalem por Tito, esteve o exercito romano
muito tempo acampado no monte das Oliveiras, sem que, nem o movi-
mento dos soldados, nem as patas dos cavallos, nem os trabalhos do
acampamento, onde não se podia deixar de remexer a terra, podessem
apagar aquelles vestigios sagrados. Viam-se tão bem no tempo da impe-
ratriz Helena, mãe do grande Constantino, que quando esta piedosa prin-
ceza mandou edificar a basílica da Ascensão, no mesmo sitio do monte
d'onde se sabia que subira ao Ceo Nosso Senhor, quizeram calçar e co-
brir de marmore o vestigio dos pés, como o resto d'aquella magnifica
egreja, mas não poderam conseguil-o. Tudo o que alli se punha era re-
pellido por uma virtude invisível, e viram-se obrigados a deixar o sitio
descoberto no estado em que o tinham encontrado. Foi desde então um
dos grandes objectos de devoção para os Christãos, que, de todas as pro-
vincias do imperio e das nações estrangeiras, iam em multidão visitar os
santos logares.
S. Jeronymo refere com este motivo outro milagre de zrande esplendor.
«Quando qoizeram, diz o grande doutor, acabar o teclo da basilicà da As-
censão, foi impossivel fechar a aboqada que correspondia perpendicular-
mente ao sitio dos vestigios do Salvador. Viram-se obrigados a deixar li-
vre e descoberto o espaço pelo qual Elle tinha sido elevado da terra re- e
cebido na nuvem; o que permittía aos fieis o contemplarem o caminho que
seguira Jesus Christo para subir ao Ceo (3). »
A coisa achava·se ainda n'este estado pelo fim do septimo seculo,
quando um Bispo de França, chamado Arculpho, visitou os santos loga-
res (4.). Na edade media, foi o edificio destruído nas guerras dos sarra-
cenos. Finalmente, um viajante que chega da Palestina, o reverendo Pa-
dre de Géramb, exprime-se assim :
«No topo do monte das Oliveiras, acha-se uma mesqnita no sitio da
qual estava outr'ora uma egreja da maior magnificencia, edificada por S.
(1) Hier., t. III, p. 295; Sulp. Sev ., Hist. Sacr., 1. II, e. XLVIII; Paulin.,
Ep. XXX, ad Sever., e Optat., 1. VI, p. 55.
(2) Ibi sunt vestigia ejus, modo adorantur, ubi novissime stetit, unde ascendit
in crelum. S. Ag., Tract. XXXVII, in Joan., § 4; Bened. XIV, p. 332 1 n. 53.
(3) Hier., supra.
(4) .Adamnan., in Act. SS. Benedict., lib. de locit 8ancti1.

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DE PERSEVERANÇA. Ut
Helena no logar d'onde Jesus Christo subiu ao Ceo depois da Resurreição.
Esta mesquita, que ameaça ruina, está cercada de miseraveis casas habi-
tadas por turcos.
«No centro, n'uma especie de capella, vê-se o vestígio que impri-
miu na rocha o pé esquerdo do Salvador, no momento de deixar a terra
para se elevar aos Ceos. Assevera-se que os turcos subtrabiram o signal
do pé direito e o enterraram, para o transpo~tarem depois para a mes-
quita do templo. Quanto ao do pé esquerdo, existe de maneira que não
deixa duvida alguma, posto que esteja um tanto gasto pelos beijos sem
numero que os peregrinos, ha tantos seculos, não cessam de imprimir-
lhe, e talvez lambem por alguns piedosos furtos que uma severa vigilan-
cia nem sempre tem podido prevenir (1). ))
III. ENTRADA DE Nosso SENHOR NO CEo. - O Filho de Deus, que aca-
bava de deixar na rocha o signal dos seus pés, como um monumento
eterno da sua passagem por esta terra santificada pelo seu sangue, cami-
nbava rapidamente para a Jerusalem celeste. Mas que exercito invisível,
que carros de fogo ornam o seu triumpbo l E' acompanhado pelas almas
dos antigos Patriarchas, dos santos Prophetas e de to~os os homens vir-
tuosos a quem o Ceo estivera até alli cerrado, e que Elle elevava então
comsigo, levando captivo o proprio captiveiro. Todos aquelles captivos,
ora libertados, seguiam o seu Redemptor no triumpho cantando a sua
victoria. Jesus, tendo-os arrancado ao poder do ·demonio, os levava com-
sigo para o Ceo, como os tropheus da sua victoria, como ricos despojos
arrebatados ao inimigo, como o preço qo seu sangue adoravel, como o
ornamento e a gloria do seu triumpho. «Que grande, que brilhante pro-
cissão a que os Apostolas não eram ainda dignos de assistir 1» exclama
S. Bernardo (2).
De repente abrem-se as portas eternas. Quem dirá o pasmo dos an-
jos, quando viram a natureza humana, erguida acima d'elles e collocarla
á direita do mesmo Deus l quando viram Jesus Christo, que, como ho-
mem, fôra ignominiosamente julgado e morto na terra, agora reconhecido
como o Senhor de toda a creação_e o supremo Juiz dos homens 1
N'este dia, a Egreja da terra, unindo-se á Egreja do Ceo, faz brilhar
os seus jubilos para celebrar o triumpho de seu Esposo e do seu Chefe.
O officio da Ascensão respira a mais viva alegria; é acompanhado d'uma

(1) Peregrinação, t. I, p. 28'1 e seg.


•' (2) Se1·m. IJ, in Àscens., n. 8.

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CATECISMO

procissão particular. Foi estabelecida com o intuito de representar a ida


dos Apostolas de Jerusalem para Betbania e d'alli para o monte das Oli-
veiras para alli vêrem Nosso Senhor subir ao Ceo, e o seu regresso a Je-
rusalem para se prepararem, no retiro, para receberem o Espirito Santo.
Eis ahi porque não deve fazer-se senão depois de Terça, isto é, pelas
nove horas. Com effeito, foi áquella hora que o Salvador, acompanhado
dos seus Discipulos, subiu a santa montanha.
No dia da Ascensão, reportemo' -nos a todas as circumstancias d'esta
viagem. Façamos de conta que nós mesmos acompanhamos o Salvador, e
deixemos levar o nosso coração pelos sentimentos da fé. Sobretudo não
esqueçamos que dezoito seculos nos precedem na celebração d' esta festa
(f ). Venham-nos á memoria os exemplos, a piedade, as lagrimas pie-
dosas e os santos desejos de nossos paes, e, acreditae-me, esta festa,
esta procissão não serão para nós coisas indifferentes.
IV. MErns DE BEM CELEBRAR A FESTA DA AscENSÃ.o. - Entretanto este
mysterio, tam proprio para excitar o jubilo dos espíritos bemaventura-
dos, não deve ser um motivo de tristeza para nós que ficamos orphãos
na terra? «Que parte tenho eu n'estas solernnidades ?» exclama S. Ber-
nardo (2). Pois quê! Esqueceis, grande Santo, que todos os actos de
Nosso Senhor são dictados pelo seu amor? Eis os motivos da vossa alegria :
4. º Jesus Christo sobe ao Ceo para tomar posse da sua gloria e go-
zar o fructo dos seus soffrimentos. Para um filho bem nascido, póde ha-
ver motivo d'alegria maior que o vêr seu pae, triumphante dos seus ini-
migos, entrar de posse do descanço e da gloria que mereceu por longas
fadigas e numerosos combates; o vêl-o honrado, exaltado e bemdito por
toda a gente?
2.º Jesus Chrislo sobe ao Ceo para enviar-nos o Espirita consolador,
esse Espirito que devia regenerar o mundo como fecundou o chaos no
dia da creação. Se eu me não fôr, diz o Salvador, não descerá a vós o
Espirita (3). Se nosso Pae nos priva da sua presença sensive1, não é para
nos deixar orphãos, mas sim para encher os nossos corações dos precio-
sos dons do Espirito San~o. Oremos pois e suspi_remos, para que o di-
vino Consolador nos acbe dignos das suas inspirações. Peçamos-lhe que
nos allumie o· entendimento e nos purifique o coração. A serpente de

(1) S. Agostinho diz positivamente que a festa da Ascensão veio dos Aposto-
los. Epist. LIV.
(2) Serm. III, in .Ascens.
(3) Joan., XVI, 7.

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DE PERSEVERANÇA. ua
Moysés devorou todas as serpentes dos magicos ; da mesma sorte o Es-
pirito divino deve consumir todas as nossas inclinações e todos os nossos
appetites sensuaes. N'este grande dia, digamos ao Senhor por nós e pelo
mundo inteiro : Enviae o vosso Espirito, e tudo será creado, e renova-
_reis a face da terra (t ). Ella precisa-o muito rrt
3. 0 Jesus Christo sobe ao Ceo para nos abrir as portas d'elle!e para
Já nos preparar logares. A victoria do Salvador Jesus está completa.
Novo Adão, abre ao genero humano o Ceo fechado pela culpa do pri-
meiro Adão. Que nobre orgulho deve fazer-nos pulsar o coração 1 Tenho
um logar no Ceo. Sim, eu pobre creaturinha, eu lalvez coberto de farra-
pos, eu mendigo, eu humilde pastor, obscuro lavrador, eu debil creança,
eu desconhecido, talvez desprezado do mundo, tenho um Jogar no Ceo f
Demonio invejoso da felicidade de nossos primeiros paes, como es-
tás vencido 1 Olha, a nossa natureza estava condemnada ao opprobrio,
e de repente é exaltada, e são-lhe abertos os ceos; eramos indignos da
vida, e somos chamados á immortalidade. Em Jesus Christo, esta natu-
reza humana que tu empanáras occupa o primeiro Jogar no Ceo, e o que
foi objecto dos teus sacrilegos escarneos é adorado pelos anjos. Olha bem,
esta mesma natureza humana que a tua raiva perseguia, cuja ruina crias ter
consummado, está agora coroada no Ceo ; occupa o seu logar e o dos
teus anjos maldictos: está no Ceo, e tu estás no inferno. Applaude agora
o teu ciume e as tuas mentiras 1
Assim, em Jesus Christo nosso chefe, estamos hoje de posse do Ceo;
Elle subiu lá na qualidade de precursor. O precursor suppõe aJguem que
vae atraz ; e este alguem sois vós, sou eu, é todo o genero humano ;
porque Nosso Senhor morreu por todos os homens.
4. 0 Jesus Christo sobe ao Ceo para alli guardar os nossos lagares.
Não contente em ter-nos rasgado o caminho da Jerusalem celeste, de lhe
ter aberto as portas, de lá nos ter preparado logares, quer o Salvador
segurar-nos a posse d'ella. Que faz no Ceo? Advogado, defende inces-
santemente a nossa causa. «Meus filhinhos, dizia o Discipulo muito ama-
do, eu escrevo-vos estas coisas para que vós não pequeis ; mas se a1gnm
ha peccado, não desanime. Temos um advogado junto do Pae, que é Je-
sus Christo o justo, esse que derramou o seu sangue não só pelos nos-
sos peccados, mas tambem pelos do ·mundo inteiro (2) ...

(1) Psal. CIII.


(2) Joan., II, 1.

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CATJ<;CISMO

Pontifica eterno, reconcilia-nos com seu Pae apresentando-lhe os


estigmatas das suas feridas, que lbe ficaram nos pés e nas mãos adora-
veis ; depois, continuando na terra o sacrificio do seu corpo e sangue,
oppõe-se perpetuamente, como infallivel para-raios, aos raios da vingança
divina. Primogenito de seus irmãos, e seus irmãos somos nós, faz valer
em nosso favor os seus títulos sagrados á herança eterna. Deus, tem
direito a ella por natureza ; homem, tem direito a ella pelo seu sangue.
O Ceo é conquista sua, e para nós é que o conquistou.
v. HARMONIA n'ESTA FESTA COM A ESTAÇÃO. - Sigamos pois a aguia
sublime que se alça poje aos ceos; somos os seus filhinhos, e ella es-
tende as azas e nos convida a subirmos a ellas para nos levar comsigo. «Mas
lembremo'-nos, diz S. Agostinho, que o orgulho não sobe ao Ceo com o
Deus da humildade, nem a avareza com o Deus pobre, nem a molleza
com o Deus das dôres, nem a impureza com o Filho da Virgem, nem os
vícios com o Pae das virtudes.» Ergamos os corações! ergamos ! arran-
quemo' -nos ás affeições que nos envilecem, subamos, subamos mais; toda
a natureza nos convida; parece que tambem quer subir ao Ceo. Vêde,
no tempo da Ascensão, todas essas nuvens de passarinhos que, sahindo
dos ninhos, tentam o seu primeiro vôo para os ceos; vêde as plantas
que elevam as debeis hastes; vêde as arvores que erguem os ramos
.nascentes para o ceo. Ergamos, ergamos os corações ! nos brada toda a
natureza.
S. Agostinho vê ainda ontra harmonia entre a festa d'este dia e a
estação em que se celebra. «Auclor da natureza e da graça, quiz Deus,
diz este grande doutor, estabelecer alguma relação entre os mysterios de
seu Filho e as estações do anno. O Redemptor vem ao mundo quando
os dias são mais curtos e começam de novo a crescer, para nos dizer que
encontra o mundo em trevas e que lhe traz luz: morre e resuscita no
tempo da lua cheia do primeiro mez. Então esse astro, que, pelas suas
mudanças, é a ·figura das coisas perecedoiras, está inteiramente obs-
curecido na parte que olha o ceo, e não tem luz e belleza senão na
parte que olha a terra; sómente começa de novo a desviar-se da terra.
e a approximar-se do sol, por não ter dia e claridade senão do lado do
ceo.
«Este espectaculo está em perfeita harmonia com a morte e resur-
reição do Salvador, polas quaes volvemos para o sol de justiça toda a
propensão que tinhamos para a terra. O Filho de Deus subiu ao Ceo e
enviou o fogo divino do seu Espírito Santo pelo tempo em que o sol está

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1
DE PERSEVERANÇA. U5
no seu apogeu, isto é, na sua maior elevação e no seu maior afastamento
da terra : nova harmonia, que nos recorda que depois de ter-se elevado
da terra é que Jesus Christo espalhou sobre o mundo as mais vivas
chammas da sua charidade (1). »
Estas admiraveis relações, cuja realidaqe conhece inteiramente o es-
pirito habituado a reflectir, provam-se a todo o homem pela analogia das
leis divinas. Com effeito, pois o auctor da graça é tambem o auctor da
· natureza, não era conveniente qoe estabelecesse harmonia entre essas
duas grandes obras, para que as mudanças que occorrem na natureza,
assim como o espectaculo do universo, mui longe de distrahir-nos, nos
chamassem o espírito aos pensamentos da Religião?
Se se accrescentar a esta observação o que dissemos da historia do
genero humano, na qual Deus quiz lambem escrever a grandes traços a
verdade da Religião christã, concluir-se-á qne a natureza, a historia uni-
versal do generü' humano e a economia da Egreja são tres livros maravi-
lhosos entre os quaes existe magnifica harmonia; livros perfeitamente
simples e sublimes que se comprovam uns aos outros, e em que Deus
gravou em caracteres de fogo tudo o que é necessario para desprender
d'este mundo os nossos pensamentos e affeições, e para os elevar ao Ceo
com Jesus Cbristo (1).
VI. ÜRIGEM n'EsTA FESTA.-A festa da Ascensão remonta aos Apos-
tolos, e as primeiras edades da Egreja viram estabelecer-se a procissão
que ainda hoje se faz em memoria da viagem de Nosso Senhor e dos
Apostolas ao monte das Oliveiras, onde o divino Mestre abençoou os sens
discípulos, e deixou a terra na presença d'elles (2). Esta festa é o com-
plemento de todas as solemoidades de Nosso Senhor, e o feliz termo da
sua peregrinação na terra (3). Assim deve succeder com cada um de nós:
filbos de Deus, devemos voltar a Elle: tal é o ultimo fim da vida.

(1) Apud Thomass., l. II, n. 10. 1


(2) Id., ibid. n. 10 e 11.
(3) Illa autem qure non scripta, sed tradita custodimus, qme quidem toto ter-
rarum orbe servantur, dantur intelligi vel ab ipsis Apostolis, vel plenariis conciliis,
quorum est in Ecclesia saluber rima auctoritas, commendA.ta atque statuta, reti-
neri, sicut quod Domini Passio, Resurrectio et Ascensio in ccelum et adventus Spi-
ritus Sancti anniversaria solemnitate celebrantur, et si quid occunit, quod observa-
tur ab universa, quacumque se diffundit, Ecclesia. S. Ag., Epist. XLIV.
(4) Consummatio et adimpletio est reliquarum solernnitatum, et felix clausula
totius itinen1.ri Felici Dei. S. Bernard., Set·m. II de Ascens.

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U6 CATECISMO

. ORAÇÃO ..

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos dou por terdes subido
ao Ceo para me abrirdes a entrada e me preparardes logar; concedei-me
que vá reunir-me comvosco.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d' este amor,
olharei sempre o Ceo dizendo: Alli tenho urn logar que rne espera.

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DE PERSEVERANÇA. t47

QUADRAGESIMA·TERCEIRA LIÇÃO.

O christianismo tornado sensivel.

Pentecoste11.- 'Vigilia do Pentecmlites. - Grandeza da testa


do Pen1ecos1es. - Soa llistoria, e dift'erença ent.re a Lei
an1tr;a e a Lei no'7a .-Effeitos do Espiri1o Santo aos Apos-
tolo•: duplo milagre. - Eft'eUo que produz em. nós. - O
que cumpre fazermos para nos to1·narm.os dignos d'elle.

1. PENTECOSTEs.-0 habil architecto quer que se não chegue ao pa-


lacio senão atravessando longas ruas, e a mãe bem inspirada faz esperar
muito tempo a seu filho a recompensa qne deve coroar suas juvenis vir-
tudes. Do mesmo modo, quer a Egrej a que as suas grandes solemnidades
sejam precedidas de longas preparações. Ha n'isso grande conhecimento
do coração humano. O Advento prepara-nos para o Natal; a Quaresma,
para a Paschoa; o tempo paschal, para o Pentecostes. o:Nós preparamo'-
nos para a festa da Paschoa, diz Eusebio, por quarenta dias de jejum, e
dispomo'-nos para o Pentecostes por cincoenta dias de santa alegria (t ). »
Porque são estas alegrias? O mesmo historiador nol-o explica. a Na
Paschoa, diz, recebe-se o Baptismo; no Pentecostes, recebe-se o Espírito
Santo, que é a perfeição do Baptismo. A resurreição de Jesus Christo
fortaleceu os Apostolas; o Pentecostes é qne consummou a sua cbaridade
e os tornou invenciveis. N'este dia, foi dado o Espírito Santo com a ple-
nitude necessaria á Egreja para subjugar o universo. E' por isso que eu
considero o Pentecostes como a maior de todas as festas (2). » Os dez dias
que a precedem são consagrados, pelos Christãos piedosos, ao recolhi-

(1) De mt. Gonst., 1. IV, e. XLIV.


(2) lbid.

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mento e á oração. Encerram-se no Cenaculo com a SS. Virgem e com os


Apostolos para se disporem para receber o Espirito Santo na abl'.mdancia
dos seus dons.
II. Vrn1uA no PENTECOSTES. -Todavia estas preparações parece não
serem sufficientes á Egreja, tam grande é o desejo que tem de tornar-nos
dignos dos favores do seu divino Esposo. Estabeleceu para o Pentecostes
uma vigilia solemnissima, cujo officio tem muita relação com o da ves-
pera de Paschoa. A razão d'isto é facil de comprehender. N'estas doas
noites brilhantes e eternamente celebres é que se administrava aos catbe-
cumenos o sacramento da regeneração. Nos primeiros seculos, começava
o officio por doze lições, que tinham por objecto, como as do Sabbado
Santo, a ínstrncção dos cathecumenos. Hoje não se dizem senão seis.
Teem ainda relação com o Baptismo e com a lei da graça.
Na primeira recorda-se a promessa que Deus fez a Abrahão, para.
recompensar a sna obediencia e fé, de abençoar na sua raça todas as na-
ções da terra. Ora, no dia do Pentecostes é que esta promessa recebe o
seu perfeito cumprimento pela effusão do Espírito Santo que Nosso Se-
nhor, filho d' Abra hão segundo a carne, envia ao mundo.
A segunda relata a milagrosa passagem do mar Vermelho, figura da
passagem mais milagrosa pela qual o genero humano, regenerado nas
aguas do baptismo, escapa ao demonio e se acha collocado na estrada da
verdadeira terra promettida.
A terceira annuncia a entrada dos judeus no paiz, objecto de todos
os seus votos, e refere as derradeiras recommendações de Moysés ao seu
povo, se quizer gozar as prosperidades promettidas pelo Senhor á sua
fidelidade: as mesmas recommendações da parte da Egreja, as mesmas
certezas da parte do Espírito Santo aos novos israelitas collocados nas.
fronteiras da eterna patria.
A quarta fal1a do empenho das nações em fazer alliança com os ju-
deus, cuja felicidade ambicionavam : viva imagem do zêlo com que os
povos pagãos deviam correr ao baptisrno e formar esta vinha boa e fe-
cunda, da qual pede a Egreja a Deus que afaste sempre os espinhos do
peccado.
A quinta falia da falsa grandeza e da falsa prosperidade dos povos
infleis. Exhorta os judeus a tomarem o Senhor e a sna lei como sua ri-
quez:J. Lição da mai~ alta importancia para os chrístãos e principalmente
para os recem-baptisados.
A sexta pinta a celebre visão d'Ezechiel, e most~a-nos aquellas vas-

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DE PERSEVERANÇA. U9
tas campinas cobertas de ossadas humanas, e estas ossadas agitando-se,
reunindo-se, tornando a ·formar corpos d'homens, e estes homens revi-
vendo ao sopro do espirito: imagem frisante do genero humano ao nas-
cimento do Evangelho, e da vida nova que lhe communicou o Espirito
Santo.
Nada mais magnifico que estas lições, nada mais grande que as in-
strucções que encerram (t). Veem depois a procissão, a benção das pias
baptismaes, e a Missa sem Introito, como no Sabbado Santo. A vigília
do Pentecostes é acompanhada d'um jejum que já estava em uso no oi-
tavo seculo (2).
III. GRANDEZA DA FESTA. -Todas estas preparações para o Pente-
costes catholico nada teem de exaggeradas, se reflectirmos na excellencia
d'esta festa. E primeiramente, pela grandeza do seu objecto, dei.la muito
atraz todas as festas profanas. Depois leva a melhor ao Pentecostes judaico
quanto a lei da graça leva a melhor á lei do temor, e o cumprimento do
mysterio da nossa redempção aos typos e figuras que a annunciavam.
A terceira pessoa da augusta Trindade descendo aó universo para
o regenerar, como, no dia da creação, descêra ao chaos para o fecundar;
o divino Redemptor dando a ultima demão na grande obra que era ob-
jecto de todos os mysterios; um novo povo destinado a adorar a Deus
em espírito e verdade, desde a aurora até ao occaso; a face do mundo
renovada; o judaismo aniquilado; o paganismo ferido de morte; a al-
liança universal de Deus com os homens promettida havia quarenta secu-
los e em fim realisada: taes são as maravilhas e os motivos de louvor e
meditação comprehendidos na festa do Pentecostes.
E quereis que a Egreja catholica não exulte de alegria ao celebrai-a!
Mas é mister ser estupido como o indifferente para não sentir o coração
palpitar de reconhecimento e jubilo, á chegada d'este memoravel dia.
Pois quê! a festa do Pentecostes não é a festa da civilisação? Nações
christãs, respondei : de que epocha datam as luzes, os bons costumes,
as instituições, as idêas novas, que transformaram a face do universo, e
substituíram a lei de charidade ao direito brutal do mais forte, e vos fi-
zeram o que sois? Se affectaes, ingratas, de esquecêl-o, a Egreja catho-

(1) Durando, 1. VI, e. CCVI.


(2) Serm. LX, sub Ambros. nomine inter ambrosiana. - Nulhun antiquitus
inter Pascba et Pentecostem fuisse jejunium; sed coneequuta sunt tempora, cum
laudabilis invecta est jejunandi consuetudo in pervigilio Pentecostes. Bened. XIV,
p. 354, n. 38.

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mo CATECISMO

lica tem cuidado de vol-o repetir, como o repetiu ás gerações que vos
precedem, corno o ha de repetir ás gerações que vierem depois de vós.
Ha dezoito seculos que celebra a festa do Pentecostes, e vós deverieis,
ricos e pobres, reis e povos, uniMos a ella para festejar esse dia, como
festejaes o anniversario do vosso nascimento. O Cenaculo foi o vosso
berço. D'alli é que desceu essa superioridade intellectual e moral de que
sois tam orgulhosos. ·
IV. HISTORIA DA FESTA. -Recordemos agora as circumstancias no
meio das quaes se realisou este mysterio. Depois da ascensão do seu di-
vino Mestre, haviam os Apostolos voltado a Jerusalern, onde esperavam
o effeito da sua promessa. Estavam n'um cenaculo, isto é, n'um quarto
alto, separado do resto dos aposentos. ·Sendo chato o tecto dos edificios
na Palestina, o quarto mais alto era o maior, assim como o mais retira-
do: alli é que os judeus tinham os seus oratorios particulares (t).
Crê-se que os Apostolos estavam reunidos em casa de Maria, mãe
de João Marcos, aquelle fervoroso discipulo em que falia S. Lucas. Qual
quer que fosse o lagar da sua reunião, representavam a Egreja univer-
sal. Estavam na espectativa das promessas do seu divino Mestre, quando,
no decimo dia depois da sua ascensão, e quinquagesimo depois da soa
resurreição gloriosa, desceu sobre elles o Espirilo Santo. Era um do-
mingo, dia do Pentecostes dos judeus, para que a Lei nova fosse publi-
cada no mesmo dia em que a antiga, que devia ceder-lhe o lagar, fôra
dada no monte Sinai.
Mas vêde que differença f A antiga Lei havia sido promulgada no
meio dos trovões e relampagos, e ao som estridente das trombetas.
Ameaçava com a morte os infractores. Estava escripta em taboas de pe-
dra, e cançava pela multiplicidade dos mandamentos e das práticas a que
subjeitava um povo ignorante e grosseiro, que era necessario dobrar á
obediencia antes pelo temor que peló amor.
A nova Lei, pelo contrario, é uma lei não de terror, mas de graça,
destinada a ser escripta não na pedra, mas no coração dos homens. Obr?
do Espírito Santo, principio de consolação, doçura e amor, não podia ser
promulgada com o apparato atterrador e com as ameaças que tinham
acompanhado a publicação da lei mosaica. Bastante tempo havia Deus tido
escravos, e queria filhos.
(1) Dan., VI, 10. A imperatriz Helena mandou edificar uma magnifica egreja
no mesmo sitio em que o Espil'ito Santo descêra sobre elles. Quaresimus, 1. IV, Eluc.
Terrre Sanctre, e. V.

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DE PERSEVERANÇA. {51

No domingo, pois, dia de Pentecostes, pelas nove horas da manhã,


quando os discipulos estavam todos juntos, ouvem de subito um ruido
similhante ao d'um grande vento que vem do ceo, e que enche toda a
casa onde estão encerrados (t ). Este signal da chegada do Espirito Santo
é destinado a despertar-lhes a attenção : é cheio de mysterios. Aquelle
vento que vem do alto, nuncio das santas inspirações, é o sopro da graça
que nos su.stenta nas almas a ''ida espirjtual, como o ar atmospherico
nos sustenta a existencia pb-ysica. A sua vehemencia denota o poder da
graça sobre os corações para os transformar e vivificar. Se enche toda a
casa, é porque o Espirito Santo apresenta os seus dons aos homens de
todos os paizes, nos transforma em novos entes e penetra todas as nossas
faculdades.
A este primeiro prodígio succede outro. Eis que veem linguas de
fogo que se repartem e descançam sobre a cabeça de cada um dos mem,..
bros da venturosa assemblêa. E' o proprio Espírito Santo que gosta de
revestir formas externas, emblemas dos effeitos espantosos que produz
interiormente nas almas. Vejo-o, no baptismo do Salvador, apparecendo
sob a fórma d'uma pomba, para denotar a innocencia e abundancia das
obras santas que são fructo do Sacramento da regeneração. Hoje mani·
festa-se a sua presença sob a fórma de línguas de rogo, emblema el~
quente da unidade de crença e d'amor que ia fazer de todos os homens
um só povo de irmãos.
O foio allumia, eleva, transforma em si tudo quanto abrasa; similhan·
tes e.ffeitos são produzidos nas nossas almas pelo Espirito Santo. O fogo mos·
tra-se antes sob a fórma de linguas que de corações, para dar a entender quó
os dons do Espirito Santo são derram~dos sobre os Apostolos não só para que
amem a Deus, senão tambem para que o facam amar aos outros, communi-
cando-lbes pela palavra o fogo da sua charidade. Esta fórma annuncia tambem
o dom das línguas, que vae pôr os Apostolos em estado de communicarem
com as differentes nações, para lhes prégarem a doutrina do divino Mestre (i).

(1) .Act., II, 2, 3.


(2) Crê-se que no dia do Pentecostes, immediatamente depois do milagre da
descida do Espirito Santo, que, dando origem á Egreja, aboJia a synago~a, foi que
S. Pedro celebrou n primeira missa, para inaugurar solemnemente o Cbristianismo.
Verisimilior cardinalis Bonre setentia. est (R•r. Liturg., 1. I, c. V) qui dicit et exis-
timat ab Apostolis primm missre celebrationem usque ad Peutecostem cum divino
Sancti Spiritus baustu sunt repleti ; vetus enim viguit lex usque ad Penteeostem ;
nam nova lex: ante Pentecostem nondum satis pumulgata habebatur : quamobrem,
sacerdotio nondum transJato, non decebat novum sacrificium offerri, ut nos etiam
docuimus. lnstit., XXI ; Bened. XIV, p. 856, n. 42.

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t52 CATECISMO

Vêde aqui o Salvador reparando os ultimos resultados do peccado.


Os descendentes de Noé, tendo querido construir a torre de Babel, foram
dispersos pela confusão da linguagem. Castigo do orgulho, esta confusão
das linguas trouxe comsigo a confusão das idêas, o esquecimento das tra-
dições santas, e gerou odios e divisões contínuas entre os povos. O dom
das línguas, para a publicação do Evangelho, é o feliz presagio da pro-
xima reunião de todas as nações na unidade rle crença e d'amor, para
não formarem mais que uma grande familia publicando a gloria do Se-
nhor do oriente ao occidente (l ).
I. EFFEiros no EsPinrro SANTO. -- A descida do Espirita Santo ope-
rou immediatamente nos Apostolas um duplo milagre: milagre interior e
milagre exterior.
Milagre interior; todas as suas faculdades foram enriquecidas dos
dons de Deus. Esclarecido por uma luz divina, o seu entendimento pe-
netrou sem custo o sentido das antigas prophecias e dos livros sagrados,
bem como os mysterios da fé e todas as verdades reveladas. A magnifica
economia do Christianismo, o seu objecto, os seus meios, o seu fim, a
admiravel doçura do seu Mestre, o excesso do seu amor aos homens, a
profundeza dos conselhos de Deus e o seu poder sem limites nas diffe·
rentes dispensações da sua graça, tod.os esses abysmos impenetraveis ás
creaturas mais perfeitas deixaram de ser escuros para os Apostolas. Em
quanto ao seu coração, o amor divino o ·penetrou de tal modo, que des-
terrou d'elle tudo o que podia alli ter ficado impuro, e o encheu das mais
copiosas graças e das mais sublimes virtudes. Para dizer tudo n'uma pa-
lavra, o Espírito Santo transformou os Apostolos em homens novos.
A prova authenlica d'esta mudança interior é o milagre exterior do
seu proceder. Ouvis esses doze galileus, esses pescadores sem cultura e
sem Iettras, fallando e escreYendo com uma eloquencia, dignidade e pro-
fundeza que faz cahir o genio em admiração; citando em caso necessario
com justeza e applicando com perfeita sagacidade as passagens mais dif-
ficeis e escuras dos livros santos? Todo isto mostrava com evidencia aos
mais incredulos que elles não fallavam per si mesmos. O que o não mostrava
menos claramente, era o seu valor e o seu zelo pela gloria de Deus.
Singular espectaculo I Eis doze pescadores dos quaes o mais ousado,
ha alguns dias, negava tres vezes o seu mestre á voz d'uma creada; eil-os,
digo, que affrontam os magistrados, o~ reis, a terra inteira conjurada con-

(1) Psal. CXII.

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DE PERSEVERANÇA. !53
tra elles. «Vedes, diz S. Chrysostomo, com que intrepidez elles se par-
tam 1 Triumpham de todos os obstaculos, como o fogo da palha que en-
contra. Cidades inteiras se levantam contra elles; ligam-se nações para os
perderem; ameaçam-n'os guerras, feras, ferro e fogo. Vãos esforços; elles
não se commovem mais á vista de todos esses perigos do que se fossem
sonhos ou inimigos pintados. Não teem armas e fazem frente a legiões ar-
madas. Uns homens sem lettras ousam medir-se com multidão d'oradores,
sophistas e philosophos, e confundem-n'os. Paulo abate por si só o orgu-
lho da Academia, do Lyceu e do Porlico: os discipulos de Platão, Aris-
toteles e Zenon ficam mudos ante elle (i ). »
E para darem á face de todos os seculos um testimunho authentico
d'este duplo milagre realisado nos Apostolas, eis o judaismo e o paga-
nismo que cahem, e o Christianismo que se levanta sobre as suas ruinas.
Repetimos, do Pentecostes, sabei-o bem, é que data a revolução moral,
a mais espantosa cuja recordação póde conservar a historia. E este facto
está ahi sempre vivo, sempre fallando, consolando a fé d'uns, desespe-
rando a incredulidade d'outros, e prégando a todos o amor d'uma Reli-
gião que transformou a face do mundo.
Estas maravilhas, que operou o Espirita Santo no memoravel dia da
sua vinda, opera-as ainda hoje nas almas bem dispostas (2). Os dons exte-

(1) Homil. IV, in Àct.


(2) Eis uma prova d'isso. Um missionario que, durante estes ultimos annos,
evangelisou os presidios de França, contou o facto heroico que se vae lêr:
«Ha um homem, diz, cuja memoria se me imprimiu na alma d'um modo indelevcl,
um homem que ponho acima de todos os missionarias, acima de todos os religiosos,
e de todas as religiosas ; é um santo que venero, e este homem, este santo é um for-
çado.
«Uma tarde foi ter comigo ao confessionario, e, depois da confissão, fiz·lbe algumas
perguntas, como tinha muitas vezes costume de fazer áquelles desventurados. Toda-
via, d'esta vez, um motivo mais particular me levava a interrogar este. Tinha-me feito
impressão a serenidade espalhada nas suas feições. Não lhe dei a principio grande at·
tenção, por que já tinho tido occasião de observar a mesma coisa em varios d'aquel-
les infelizes. Comtudo, a precisão com que elle se exprimia, a rigorosa exactidão e o
laconismo das suas respostas, excitava-me cada vez mais a curiosidade.
• Hespondeu-me sem affectaçã.o, não dizendo uma palavra inutil, e nunca indo álem
do que eu lhe perguntava.. Assim é que só impellindo-o com ss minhas perguntas é
que consegui saber, em algumas palavras mui simples, a sua tocante historia.
• - Que edade tendes ?
e - Quarenta e cinco annos, meu padre.
« - Ha quanto tempo estaes aqui ?
e - Ha dez annos.
cc - Deveis ainda aqui estar muito tempo?
« - Toda a vida, meu padre.
« - Então qual é a causa da vossa pena?
« - O crime d'incendio.

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CATECISMO

riores nunca cessaram na Egreja ; unicamente são menos communs, por·


que já não são tão necessarios. Porém os dons interiores, dos quaes pre-
cisamos sempre, podemos sempre obtêl-os. Convida-nos a Egreja a pe-
dil-os sobretudo no dia do Pentecostes. E tem razão ; mais que nunca é
o Espirito Santo indispensavel ao mundo. E' por isso que, no officio d'este
grande dia, a terna mãe dos Christãos, a protectora da sociedade, a
Egreja catholiea, põe nos labios de seus filhos e canta com elles esta prosa
tão propria para attrahir o Espirito Santo aos corações :
Veni, sancte Spiritus, et emitte cmlitus lucis tuw radium.
Vinde, Espirito Santo, allumiae-nos sempre cada vez mais, e fazei
brilhar incessantemente aos nossos olbos os raios da vossa luz celeste.
Veni, Pater pauperum; veni, dator munerum; veni, lumen c~rdium.
Vinde, que sois o pae dos pobres. Ai ! nós somol-o, e dos bens da
vida futura. Por este titulo, somos duplicadamente dignos d'esta vida e
dos bens da vossa compaixão e das vossas liberalidades. Derramae-as
sobre nós com abundancia, ó vós que sois a luz dos corações e o distri-
buidor de todos os dons.
Consolator optime, dulcis hospes animre, dulce refrigerium.
Nós arrastamos uma vida miseravel nos trabalhos, na tristeza e nas
amarguras. Em vão procurariamos a nossa consolação entre os homens.
Não encontramos n'elles senão consoladores onerosos que aggravam nos-

« - Sem duvida, meu pobre amigo, haveis deplorado muito o terdes commettido
•essa fslta ?
« - Tenho offendido muito a Deus, meu padre; m&s não commetti esse crime.
1Todavia fui justamente condemnado; mas Deus é que me condemnou. >
«Esta resposta. excitou-me ainda mais vivamente" curiosidade, e tornei:
« - Maa então que quereis dizer, meu amigo? explicae-vos. •
1Então elle me respondeu:
•-Tenho oft'endido muito o bom Deus, meu padre; tenho sido mui culpado,
•mas nunca para com a sociedade. Depois de muitos desvarios, o bom Deus tocou-me
«O coração.
•Resolvi converter-me e reparar o passado ; mas, desde a minha conversão, res-
((tava-me uma inquietação, um peso enorme sobre o coração. Tinha offendido tanto o
1bom Deus! podia eu crer que Elle houl'esse esquecido tudo' E depoie eu na.da
«achava que fosse capaz de reparar aquellas desgraçadas iniquidades da minha mo-
acidade, e sentia uma necessidade immensa de repa.ração! N'cste tempo rebentou
•Um incendio perto da minha morada. Todas as suspeitas cahiram sobre mim; pren-
«deram-me e metteram-me em juizo. Durante o processo, e&tive muito mais socegado
a:do que nunca tinha estado; bem previa que seria condemnado, mae estava. disposto
.a tudo. Emfirn chegou o dia em que devia pronunciar-se a sentença. O jury sahiu
cda sala para ir deliberar sobre a minha sort.e, e, n'aquella occasião, pareceu-me ou-
«vir uma voz int.erior que me dizia : «Se eu te condemno, encarrego-me tambem d&
atua felicidade e de restituir-te a paz. • ((N'aquelle instante, senti effectivamente uma
apaz deliciosa. ·

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DE PEt\SEVERANÇA.

sos males ou que nos deixam na oppressão da dôr. Espirito consolador,


vós sois o melhor amigo, unico que offereceis um dôce retiro á alma
affiicta, unico que lhe proporcionaes um agradavel refrigerio.
ln labore reguies, in mstu temperies, in fietu solatium.
Encontramos em vós um tranquillo repouso depois dos nossos tra-
balhos, uma fresca sombra no calor do estio, um temperamento nos ar-
dores das nossas paixões ; vós enxugareis as lagrimas com que regamos
esta triste passagem da vida á eternidade.
O lux beatissima I reple cordis intima tuorum fideliµm.
O' luz agradavel e gostosa 1 vinde derramar ama dôce serenidade
nas almas que vos são fieis. Muitas vezes uma triste escuridão as rodêa,
enchei-as d' essa alegria que vos acompanha.
Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium.
Sem o vosso divino .auxilio, nós não temos nada, não podemos na-
da, não somos nada; tudo em nós é só fraqueza, miseria, enfermidade.
Lava quod est sordidum, riga quod est aridum, sana quqd est sau-
cium.
Purificae em nós tudo quanto encontrardes sordido e iniquo; regae
este coração arido e sêcco, e curae as chagas da minha alma applican-
do-lhes remedios efficazes e saudaveis .

• os jurados voltaram breve, trazendo o seu veredicto, que me declarav,a. con-


cvicto do crime de incendio com circumstancias attenuantes; era condemnado por
«toda a vida. Vi-me obrigado a conter-me paTa não derramar lagrimaa, que teriam
crde certo attribuido a qualquer outro motivo que não ao do sentimento de felici-
udade que eu experimentava. Conduziram-me so meu carcere, e alLi, cahindo sobre
<ca palha que me servia de leito, comecei a. derramar urna torrente de lagrimas tão
crdôces, que o homem mais voluptuoso teria sido feliz em comprará custa de todos
cos seus gozos a ventura de as derramar. Uma paz ineffavel me enchia toda a alma.
aNào me deixou todo o caminho que percorri para chegar ao presidio, e nunca me
((abandonou até agora.
ccDesde essa epocha, procuro cumprir todos os meus deveres, e obedecer a tudo
•e a todos. Não vejo nos que mandam, nem o commissario, nem os guardas, não vejo
«senão a Deus. Oro em toda a parte, trabalhando e remando ; oro sempre, e o tem-
«po 'passa tão depressa, que mal posso percebei-o; as horas correm como minutos.
•Ninguem me conhece; crêem-me condemnado justamente, e isso é verdade.
e Vós não me conhecereis tampouco, meu padre ; nio vos digo o meu•nome, nem
•o meu numero; sómente orae por mim, vol-o supplico, para que eu faça a vontade
cede Deus até ao fim.»
«Assim fallou aquelle homem. Não o tornei a vêr senão urna vez, uma tarde em
que veio, como os outros, para receber a absolvição. Depois em balde tenho procu-
rado encontrai-o; esquiva-se a todas as minhas indagações. Tem escapado egualmente
ás do snr. Capellão, a quem eu contára estes tocantei; pormenores. Voltei duas vezes
ao presidio, e foi sempre sem resultado que fiz tudo para torn::1r a. vêr aquelle ho-
mem; é invisivel para mim, porém sinto-me unido inteiramente a elle, e a sua memo-
ria ficou-me profundamente gravada na alma.•

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Flecte quod est rigidum, fove quod est frigidum, rege quod e$t de-
vium.
Dobrae este corrlção rebelde e indocil: triumphae das minhas resis-
tencias e obstinação ; tornae-o brando ás vossas inspirações persuasivas,
derretei este gêlo que o torna tam frio para os objectos que o deveriam
inflammar em amor. Ai! elle se perde nas vias da iniquidade; recondu-
zi-o ás veredas da justiça.
Da tuis fidelibus in te confidentibus sacrum septenarium~
Temos posto em vós toda a nossa confiança. Em quem a haviamos
de pôr ? Concedei a todos os vossos servos os sete preciosos dons que
trazeis do ceo: sabedoria, intelligencia, conselho, força, sciencia, piedade
e temor de Deus, e todas as graças de que temos tam urgente necessi-
dade.
Da virtutis meritum, da salutis exitum, da perenne gaudium.
Ornae-nos a alma de virtudes solidas e christãs, só as quaes são
meritorias aos vossos olhos; conduzi-nos ao termo feliz da salvação: a
essa gloria, a essa alegria, a essas delicias que nunca hão-de ter fim •
.Amen, assim seja. Amen (f ).
Não é necessario dizermos que a festa do Pentecostes remonta aos
Apostolas e que sempre se celebrou com a maior pompa. Accrescente-
mos unicamente que na edade media, nos seculos de fé viva, incompre-
hensivel para a nossa epocha de glacial indifferença, existia, para o dia
do Pentecostes, um uso ritual que tinha um tanto do drama sacro. No
momento em que o côro entoava a admiravel prosa que acabamos d'ex-
plicar, retumbava na egreja um ruido de trombetas, á imitação do vehe-
mente ruido de que se falia na narração de S. Lucas. Ao mesmo tempo
d9 alto da abobada do templo sabiam centelhas entremeadas com flôres
de todas as especies, mas principalmente com folhas de rosas vermelhas,
emblemas da alegria e diversidade das linguas, foliadas nas diversas na-
ções pelos Apostolas. Finalmente, algumas pombas soltas opportunamente
voejavam por toda a egreja, tocantes imagens d'esse espirito que é a força
e a doçura.
Imagine-se pois uma numerosa assemblêa de fieis reunidos n'uma
vasta nave, no momento em que, ao canto unanime da bella sequencia,
(1) Catéchisme de Coutw·ier, t. I. Crê· se geralmente o Papa Innocencio III,
faJlecido em 1216, auctor d'esta prosa. Outros dão essa honra ao B. Hermano Con-
tractus, frade de .Merzow, fallecido em 1054. Vide Benedicto XIV, de Festis, p. 355,
n. 41.

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DE PERSEVERANÇA. 157

se juntavam o som estridente das trombetas e uma chuva de flôres e de


fogo em centelhas, expirando por cima das cabeças, e o fremito do vôo
das pombas: então se comprehenderá que aquellas almas de ardente fé
se identificavam deliciosamente, recuando alguns seculos, com os disci-
pulos, os Apostolos, as santas mulheres e Maria, Mãe de Jesus, no ce-
nacolo de Jerusalem. Comprehende-se de que milagres de dedicação e
de sacrificio eram capazes almas assim agitadas e vivificadas 1
N'aquelle momento de santa exa1tação, o Christão do decimo-terceiro
seculo nada achava impossível ·ao seu amor. As cruzadas, as instituições
religiosas, as cathedraes gothicas, são eloquentes testimunhas da força e
constancia do amor divino que o enlevava. Não se póde exclamar aqui
com o piedoso Cardeal Bona : «E' ahi que se vê o amor ... aquelle que
«descendo do ceo á terra em fogos que lhe são proprios, arroja ao mesmo
«tempo seus pacificas raios (t) !D
VI. D1sPos1çÃo PARA o PENTECOSTES. -Terminemos com uma re-
flexão util ao regulamento do nosso proceder. Um desejo ardente de re-
cebermos o Espirita Santo e sobretudo o despego de toda e qualquer
affeição desregrada ás creaturas, são os dois meios essenciaes de o at-
trahirmos aos nossos corações. Vêde até onde esse divino Espirita leva
o ciume/ Certamente, nenhum affecto sensivel podia ser mais legitimo
e mais santo que o dos discípulos á presença corporea do seu divino
Mestre. Sem embargo esse affecto houve de ser em certo modo dester-
rado da alma d'elles, para que o Espírito Santo viesse apossar-se d'ella
e enchêl-a. Se eu vos não deixar, lhes dizia o Salvador, não virá a vós
o Paracleto (2).
Se pois é certo que o mui grande affecto dos Apostolos á presença
sensivel da humanidade de Nosso Senhor foi obstaculo á descida do Es-
pirito Santo a elles, quem será tam presumpçoso que se lisongeie de re-
ceber a vi5ita do divino Paracleto em quanto fôr escravo do corpo? Per-
suadir-se de que aqnella doçura celeste póde amalgamar-se com os pra-
zeres dos sentidos, que aquelle balsamo divino póde alli~r-se com o ve-
neno, as lnzes do Espírito Santo com as trevas do seculo, fôra estranho
erro. Que relação póde haver entre a verdade e a mentira, entre o fogo
da charidade e o gêlo das affeições mundanas ? Não, não, quanto mais
carnal se torna o homem, mais se afasta d'elle o espirit.o de Deus. Eis
(1) Scilicet hic amor est proprios effusus in ignes
Placido qui fulminat ictu?
(2) Joan., XVI, 8.

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158 CATECISMO

ahi porque o Christianismo se afasta hoje dos homens e dos povos; e


dizem: O Christianismo está gasto! Cégos, vós é que estaes gastos para
o Christianismo.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos dou por terdes en-
viado o Espírito Santo sobre os Apostolos, e por elles sobre toda a terra:
não permittaes que eu jámais contriste em mim esse divino Espirita.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
temerei muito resistir ás in~pirações da graça.

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DE PERSEVERANÇA. t59

QUADRAGESIMA·QUARTA LIÇÃO.

Ochrislianismo ,tornado sensivel.

Trindade. -Antiguidade e universalidade d'esta fes•a. -


Rehabilitação de todaN as coisa~ em. nome da S§. Trln-
dade. - Objecto final do culto catholico.- Jn111tl1uição da
:fe11ta particular da Trindade.- Dogm.a da S8. Trindade,
Nuas imagens llenslwehrJ.- lnOuencia d'e•te m.yste1·io.-
llodêlo dos no•sos devereM para com. Deu§, para com. o
pro:.;imo e para com nó" m.e8mos.

1. Fi:STA GERAL DA TRINDADE. - A Trindade! de todas as festas reli-


giosas, eis a mais antiga, posto que n'um sentido seja uma das mais no-
vas. Creando o mundo, edificou Deus para si um templo, e consagrou a
si uma festa formando o tempo; porque o Senhor fez toda~ as coisas
para si proprio (i ). A creatura não póde deixar de pertencer ao seu
Creador e de ser consagrada á sua gloria. Ora, Deus em tres pessoas é
que é o Credor de todos os seres e de todos os tempos. E' pois certo
que todas as religiões não poderam ter na realidade outro objecto que o
culto do Creador do universo, e por conseguinte do Deus em tres pessoas
que é esse Creador. A consagração do mundo e do tempo á gloria da
augusta Trindade fôra violada e profanada pelo paganismo. Restaurador
universal, veio Nosso Senhor á terra para reparar todos os resultados do
mal e restituir todas as coisas á sua instituição primitiva. E eis que por
elle foram as creaturas e o tempo consagrados de novo á gloria da au-
gusta Trindade.
t.º As creaturas intelligentes. Com effeito, o Verbo feito carne or-

(1) Prov., XVI, 4.

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t60 CATECISMO

denou que todas as nações fossem regeneradas em nome da Trindade :


lde, ensinae, baptisae todas as nações em nome do Padre, do Filho e do
Espirito Santo ( t ). Desde esse momento, não tem cessado a Egreja ca-
tholica de baptisar em nome dàs tres augustas pessoas. E quantas vezes,
desde o berço até á sepultura, ella faz sobre nós o adoravel signal da
Trindade l Se somos regenerados nas aguas do baptismo, é em nome da
adoravel Trindade. Se somos fortalecidos pela graça da Confirmação, é
lambem em nome da SS. Trindade. Se os nossos peccados nos são per-
doados no sacramento da penitencia, é egualmente em nome da adoravel
Trindade. Se o corpo e o sangue do Salvador nos são apresentados em
alimento, é com o signal da SS. Trindade.
Se o enfermo é fortalecido pelo oleo santo, se d Sacerdote é consa-
grado, e se os esposos são unidos, é sempre em nome da augusta Trin-
dade. Se recebemos as bençãos dos pastores e dos Pontífices, se come-
çamos os officios sagrados. se a Egreja dirige supplicas ao Altíssimo, é
sempre iuvocando as tres pessoas da adoravel Trindade. Se ella canta
canticos d'alegria, se suspira hymnos de tristeza, sempre os conclue glo- '
rificando o Pae, o Filho e o Espírito Santo. Isso. pelo que toca ás crea-
turas intelligentes.
2. 0 As creaturas privadas de razão. E' lambem em nome da Trin-
dade que se santificam todas as creaturas privadas de razão. D'um ao
outro ex tremo do universo catholico, vêdes o signal da cruz consagrar a
agua, o fogo, o ar, a terra, o sal, a pedra, a madeira., o ferro, o panno,
tudo quanto a Egreja quer purificar e tirar da massa commum. E' o sig-
nal da cruz que restitue todas estas coisas á sua santidade primitiva, e
que as desprende das malignas influencias do demonio, imprimindo-lhes
de novo o cunho da sua origem, o sêllo da augusta Trindade. Ah 1 que
profundos mysterios ha no signal da cruz, cujo frequente uso só conser-
vou a Egreja catholica 1 Ahi está toda a historia do mundo, a sua creação
em estado de santidade, a sua profanação pelo mal, e a sua rehabilitação
por Nosso Senhor e pela SS. Trindade. Isso pelo que toca ás creaturas
privadas de razão.
3.º O tempo. Pelo Baptismo, tornam-se os homens filhos, o seu
corpo templo, e o seu espirito sacerdote da Trindade, e a sua vida in-
teira é a festa d'ella. Ora, a successão de todas as vidas individuaes, for-
mando a vida do genero humano, compõe o tempo. Logo, pelo Baptis-

. (1) Math., XXVIII, 19,

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DE PERSEVERANÇA. rnt
mo do homem, se acha já o tempo, n'um sentido, consagrado á gloria da
SS. Trindade; porque todos os nossos pensamentos, palavras e acções de·
vem referir-se á gloria das tres augustas pessoas, e formar um bymno
contínuo em seu louvor.
Pertence-lhe n'um sentido ainda mais directo, pois á SS. Trindade é
que a Egreja catholica consagra todos os instantes da duração. Não ha
dias no anno, nem horas no dia, em que ella não dê testimunho, em to-
das as suas orações, á Trindade. Até prescreveu uma formula de home-
nagem chamada Doxologia, para honrar a todos os momentos e celebrar
distinctamente as adoraveis pessoas do Pae e do Filho e do Espírito -
~ .Santo : formula sagrada que termina de rigor os seus psalmos, respon-
sorios e hymnos.
Que diremos das suas festas? Vêde com que brilho as nossas solem-
nidades, cuja successão compõe a duração do tempo, demonstram a ver-
dade sublime de qae a SS. Trindade é o fim de todo o culto catholico.
Póde elle ter mais nobre objecto? Assim as festas dos Santos e da au-
gusta Maria referem-se a Jesus Christo, do qual são membros todos os
bemaventurados: com relação a Jesus Christo é que os honramos. Do
mesmo modo, com relação á divina Trindade é que adoramos ao proprio
Jesus Christo, que está essencialmente unido ou antes que é um em sub-
stancia com o Pae e o Espírito Santo. As pessoas divinas são insepara-
veis umas das outras, até mesmo nas nossas devoções e no nosso culto
(1).
Esclareçamos esta sublime doutrina com alguns exemplos. Se hon-
ramos o Filho de Deus incarnando no seio de Maria, vêmos logo o Pae
e o Espirita Santo concorrendo para a consummação d'este mysterio. Se
honramos a Jesus soffrendo, vêmos logo o Pae que o entrega á morte, e
o Espirito Santo que, como um fogo divino, consome esta victima inno-
cente (2). Se honramos a Jesus Christo resuscilando, vêmos o Pae que o
resuscita, e o Espirita Santo que o faz entrar n'uma vida nova (3). Se
honramos o Salvador subindo ao ceo, vêmas o Pae em cuja gloria elle
repousa, e o Espírito Santo a quem envia. Finalmente, se honramos a
Nosso Senhor encerrando-se e fazendo-se adorar na Eucharistia, vêmos
(1) Thomass., Festas, 1. II, e. XVIII. .
(2) Proprio Filio suo non pepercit: per Spiritum 8anctum semetipsum obtu-
lit immaculatum Deo. Hebr., IX, 14.
(3) Quem suscitavit a mortuis, qui prredestinatus est Filius Dei in virtute sua
secundum 8piritum sanctificationis ex i·esurrectione mortuorum Jesu Cbristi. Rom.,
I, 4.

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{62 CATECISMO

n'elle uma victima que se não póde honrar senão unindo-se a ella, e immo-
lando-se com ella ao Pae, e ao Filho, e ao Espirita Santo.
E' necessario mais alguma coisa para nos fazer comprehender que
não ha festa na Religião cbristã que não seja verdadeiramente festa da
Trindade, pois que todas as outras não são senão meios para honrar a
SS. Trindade, e degraus para nos elevarmos a ella como ao verdadeiro e
unico termo de todo o nosso culto ?
II. FESTA PARTICULAR DA TRINDADE.-Assim que, quando se tratou de
estabelecer uma festa particular da SS. Trindade, para satisfazer a devoção
dos que a sollicitavam, grandes doutores e grandes Santos fizeram ouvir as
suas representações. Todas as festas do anno, diziam elles, não são senão
partes da festa geral e perpetua da Trindade: não é por tanto superfluo
instituir uma particular e subjeita á revolução annual das outras? Não é de
temer que uma festa particular leve ao esquecimento d'essa festa geral e
perpetua, que deve occupar incessantemente o animo e o coração dos
Christãos? Não é querer limitar o que não deve ter limites e reduzir o
proprio Deus á condição dos Santos, isto é, das suas proprias creaturas.
estabelecendo-lhe uma festa á parte? Não é ignorar qQe não ha festas,
nem templos, nem altares que não pertençam unicamente á SS. Trin-
dade?
Por todos estes motivos, a Egreja romana, obrando com a consum-
mada prudencia que a distingue, esteve muito tempo sem admittir a festa
particular da SS. Trindade. O Papa Alexandre II, que foi collocado na
Santa Sé em i06·f, escrevia: cr.A festa da Trindade é diversamente obser-
vada em differentes Egrejas; porém a Egreja romana não tem festa par-
ticular da Trindade, porque a honra todos os dias e a cada hora do dia,
contendo todos os seus officios os louvores e terminando pela gloria da
Trindade (1). »
Entretanto não censurando a Egreja da cidade eterna, mãe e mestra
de todas as outras, a festa particular da Trindade, as suas filhas que a
haviam adaptado continuaram a celebral·a. Crê-se que foi estabelecida no
nono seculo por alguns Bispos, que não a propozeram a principio senão
para darem novo alimento á piedade dos seus povos. Foi com este pen-
(1) Prroterea festivitas sanctissimm Trinitatis secundum consuetudines diver-
sarum regionum a quibusdam consuevit in octavis Pentecostes, ah aliis in domi-
nica prima ante Adventum Domini celebrari. Eccleeia 11iquidem Romana in usu non
babet, quod in aliquo tempore hujusmodi celebret specialiter festivitatem, cum sin-
gulis diebus gloria Patri et Fili o et Spiritui Sancto. et cootera similia dicantur ad
laudem pertinentia Trinitatis. Decretal. Quoniam Tit. de Feriis.

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DE PERSEVERANÇA. t63
sarnento que Estevão, Bispo de Liége, mandou compôr o officio d'ella
pelo anno de 920.
Algumas egrejas visinhas o acceitaram, e a festa da SS. Trindade es-
palhou-se de terra em terra, de sorte que o abbade Ruperto, que vivia
no começo do duodecimo seculo, falia d'ella como d'uma festa adoptada
no seu tempo, e emprega um livro inteiro para explicar o seu mysterio
( t). A celebração, deixada até então á devoção das Egrejas particulares,
foi fixada no domingo da oitava do Pentecostes : o facto estava quasi con-
summado no seculo decimo-terceiro (2). Escolheu-se de boa vontade este
domingo por duas razões.
Primeira, porque estava vago, isto é, não tinha officio. Com effeito,
a ordenação que se etfectuava no sabbado precedente, não começava se-
não depois do officio das Vesperas e durava muito pela noite adiante,
especialmente quando havia grande numero de clerigos para ordenar.
Muitas vezes até se prolongava a ordenação até ao romper do dia, para
que parecesse fazer-se no mesmo domingo, e para que o domingo po-
désse ter ·alguma especie de officio que impedisse que ficasse vago (3).
Mas como as pessoas piedosas pedissem um sacrificio para esse dia, col-
locou-se n'elle o officio da SS. Trindade. A segunda razão por que se
pôz no dia oitavario do Pentecostes, é para recordar aos fieis que a Trin-
dade é o fim e a consummação de todas as festas e dos proprios myste-
rios de Nosso Senhor (4.).
Finalmente a Egreja romana, vendo que a festa particular da SS.
Trindade não prejudicava a festa geral e perpetua das tres adoraveis pes-
soas, se decidiu a adoptal-a tambem ; mas foi só no decimo-quarto se-
culo, sob o pontificado de João XXII. Este Papa a fixou irrevogavelmente
no domingo depois do Pentecostes, e fez substituir o officio d'ella ao da
oitava, que desde então se terminou no sabbado das Temporas, a nôa. A
Egreja não assigna á festa particular da SS. Trindade senão uma posição
secundaria entre as festas do anno, sem duvida para não prejudicar a
festa geral, e para mostrar a impotencia em que estamos de celebrar di-
gnamente este augusto mysterio. Está tam elevado acima dos nossos pen-
samentos, que o capitulo geral de Cister, do anno de t230, ao mesmo
tempo que ordenava que a festa da Trindade fosse geral em todas as
(1) Lib. 11, Div. offic.
(2) Durand., Rational., 1. VI, e. LXXXVI.
(3) Mabill., Mus. ital., t. II, p. 103.
(4) Thomass., t. II, e. XVIII.

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t64 CATECISMO

suas casas, prohibiu que n'ella se prégasse por cansa da difficuldade da


materia (t).
III. INFLUENCIA DO .MYSTERIO DA ss. TRINDADE. - Sem embargo, por
mais incomprehensivel que o sopponhaes, não é o mysterio da SS. Trin -
dade contestavel nem esterjl para a regra dos costumes. Similbante a o
sol que a nossa vista não póde fitar, mas cuja luz nos deslumbra e cuja
existencia é visivel, o dogma da SS. Trindade nos offerece por todas as
partes eviàeotes provas da sua existencia. Sem fallarmos aqui da menção
que d'elle se faz tantas vezes na Escriptura Sagrada, nem das numerosas
figuras sob as quaes Deus o fez entrevêr aos antigos (2), vêmas em torno
de nós, e temos em nós mesmos imagens d' este mysterio.
O sol, por exemplo, vos offerece a luz, os raios e o calor: estas tres
coisas são distinctas, e comtudo são da mesma substancia e tam antigas
como o sol. Creado á similbança de Deus, lambem o homem tem gra-
,·ada em si a imagem da SS. Trindade~ A nossa alma possue tres facul-
dades distinctas: memoria. entendimento e vontade; estas tres faculda-
des pertencem todavia á mesma substancia e começaram com ella (3).
Dissemos lambem que o mysterio da SS. Trindade está longe de ser
esteril para o regulamento da nossa vida. O' homens 1 compreheudei
quanto vos ennobrece este dogma. Creados á imagem da augusta Trin-
dade, deveis formar-vos segundo o seu modêlo, o que é um dever sa-
grado para vós. Ora, vós acloraes uma Trindade cujo caracter essencial é
a santidade, e não ha santidade tam eminente que vós a não possaes at-
tingir pela graça do espirita santificador, amor substancial do Pae e do
Filho. Para adorardes dignamente a augusta Trindade, deveis por con-
seguinte, quanto é dado a fracos humanog, ser santos como ella.
Deus é santo em si mesmo, quer dizer que não ha n'elle nem pec-
cado, nem sombra de peccado ; sêde santos em vós mesmos. Deus é
santo nas suas creaturas, quer dizer que lhes imprime a todas o sêllo da
sua santidade e que não soffre em nenhuma o mal e o peccado; que o
persegue com zêlo incessante, alternativamente brando ou sevéro, mas
sempre paternal. Vós lambem, sêde santos nas vossas obras, santos nos
outros, quer evitando sempre escandalisal-os, quer esforçando-vos em
preservai-os ou livral-os do peccado. «Sêde santos, nos diz o Senhor,
(1) Sermonem in capitulo propter materire difficultatem fieri non oportet. ·
(2) Gen., I, 26; TII, 22 ; XI, 7 i XIX, 24 _; P sal. II, 11 ; CIX, 1 ; Hebr., XV,
e M. Drach, Harmon. da Egreja e da Synag., t. I.
(3) Vide, sobre as imagens da 88. Trindade nas creaturas, o magnifico trac-
tado de S . ..~gostinho, de Trinitate.

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DE PERSEVERANÇA. 465

porque eu sou santo (f ).» E n'outra parte: «Sêde perfeitos como vosso
Pae celeste é perfeito ; fazei bem a todo~ como elle mesmo o faz a todos,
fazendo nascer o seu sol sobre os bons e sobre os maus, e fazendo cabir
a chuva àssim sobre o campo <lo justo como sobre o do peccador (2).,
l\fodêlo de santidade, isto é, dos nossos deveres para com Deus,. é
lambem a augusta Trindade o modêlo da nossa charidade, isto é, dos
nossos deveres para com nossos irmãos. Devemos amar-nos uns aos ou- ,,
tros como se amam as tres divinas pessoas. E' o proprio Jesus Christo
quem nol·o ordena. Esta adoravel união foi o objecto dos ultimas votos
que elle dirigiu a seu Pae depois da instituição da sagrada Eacbaristia.
Pede que nós sejamos um entre nós, como elle é um com seu Pae.
Por esta união santa, fructo da graça, quer que se reconheça que
seu Pae o en\'iou á terra, e que se distingam aquelles que lhe pertencem.
e:Que sejam um, diz, para que saiba o mundo qoe fostes vós que me en-
viastes. Reconhecer-se-á que vós sois meus discipnlos se vos amardes
uns aos outros (3). » «Que exigis de nós, ó divino Mestre! exclama S.
Agostinho, se não é que sejamos perfeitamente unidos de coração e de
vontade ? Quereis que venhamos a ser por graça e por imitação o que as
tres pessoas divinas são pela necessidade da sua existencia, e que, como
tudo é cornmum entre ellas, a charidade do Christianismo nos despoje
de todo o interesse pessoal.))
Quem dirá a efficacia omnipotente do mysterio da SS. Trindade?
Graças a ella, viram-se no. meio da sociedade pagã, sociedade de odio e
egoísmo, os primeiros Christãos, discípulos fieis das tres augustas pes-
soas, não formar senão um coração e uma alma, e ouviram-se os pagãos
exclamar: «Vêde os Christãos como se amam, como estão promptos a
morrer uns pelos outros!» Se ainda correm algumas gôtas de sangue
cbristão nas nossas veias, imitemos nossos paes, sejamos unidos pela
charidade, tenhamos todos os mesmos sentimentos assim como não temos
senão uma só fé, um só baptismo, um só Pae (4.). Sejam communs pela
cbaridade os nossos corações e bens. E' assim que a santa sociedade que
temos com Deus e em Deus com nossos irmãos se aperfeiçoará na terra ,
em quanto se não consumma no Ceo.
Encontramos ainda na SS. Trindade o modêlo dos nossos deveres

(1) Levit., XI, 44.


(2) Math., V, 48.
(3) Joan., XVII, 21, 23.
(4) EphF:s., IV, 5.
H

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f66 CATECISMO

para com nós mesmos. Todos estes deveres teem por objecto restabelecer
em nós a ordem transtornada pelo peccado, subjeitando a carne ao espi-
rita e o espirito a Deus; por outras palavras, fazer r·eviver em nós a bar- .
monia e a santidade que caracterisam as tres augustas pessoas; e cada
um de nós deve dizer comsigo: 'Eu sou a imagem d'um Deus tres vezes
santo; que coisa mais nobre que eu! Que respeito devo ter a mim pro-
prio f que temor de envilecer em mim ou nos outros essa imagem au-
gusta! que zêlo em reparai-a, em aperreiçoal-a cada vez mais!• Sim, só
esta phrase: Eu sou a imagem de Deus, tem inspirado mais virtudes e
impedido mais acções baixas, que todas as bellas maximas dos pbilo-
sophos.
Vêde Francisco Xavier. Nada mais celebre que estas palavras que
elle repetia a cada instante: O sanctissima Trinitas I O' Santissima Trin-
dade I Por espaço de mais de dez annos resoaram nos eccos do Oriente
estas palavras mysteriosas que eram como que o grito de guerra do
S. Paulo dos tempos modernos. Para se excitar á lacta gigantesca que
havia emprebendido contra o paganismo indiano, considerava Francisco
Xavier a imagem augusta da SS. Trindade desfigurada em tantos milhões
de homens, e a sua bôcca proferia esta exclamação : O sanctissima Tri·
nita~ /
Então se apossava d'elle um fogo divino, levantava-se-lhe o peito, e
corriam-lhe lagrimas dos olhos scintillantes; e, com a rapidez do relam-
pago, se arrojava a mundos desconhecidos, e derribava os 'idolos, e se-
meava os prodigios. E sobre milhares de frontes fazia correr a agua re-
generadora e restabelecia a imagem desfigurada da SS. Trindade. Nem a
morte, nem a fome, nem a sêde, nem os bomens, nem o inferno, podiam
detel-o nem esfriar o seu zêlo em reparar a imagem alterada das tres
aagustas pessoas. O sanctissima Trinitas I
Que diremos dos sentimentos de gratidão que desperta a contem-
plação d' este grande mysterio? O Pae que nos creou, o Filho que nos
remiu, o Espirita Santo que nos santificou: conheceis coisa mais propria
para elevar as nossas affeições, purificai-as e dar dignidade a todo o
nosso proceder? Nações modernas, ao mysterio da augusta Trindade é
que deveis o não estardes curvadas aos pés dos idolos : se vos atreveis,
dizei que não lhe deveis nada.
IV. MEIOS DE BEM CELEBRAR A FESTA DA TRINDADE. - Quanto a nós,
Christãos, honremos a SS. Trindade com todas as homenagens de que
somos capazes; recitemos muitas vezes a bella oração: Gloria ao Pae, e

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DE PERSEVERANÇA. i67
ao Filho, e ao Espirita Santo, como era no principio, e agora e sempre,
e pelos seculos dos seculos. Assim seja (l). Reunirem-se tres pessoas- e
dizerem junta ou separadamente, cada dia, pela manhã, ao meio dia e á
noite, sete Glorias Patri, seguidas d'uma só Ave J.llaria~ em bonra da
SS. Trindade, é uma devoção auctorisada pela Egreja e em·iquecida com
grandes indulgencias, entre outras com uma indalgencia plenarfa. dois
domingos de cada mez (~). E' um bom meio de reparar as blasphemias
dos impios.
Celebremos com felicidade a festa particular que a Egreja consagrou
ás tres adoraveis pessoas ; mas lembremo'-nos de que a nossa-vida in-
teira deve ser uma festa continua em sua honra. Adoremos no silencio da
aniquilação este incomprebensivel mysterio. Imitemos pela nossa· chari-
dade e santidade as tres pessoas divinas, e penetremo' -nos de gratidão
pelos bens de que lhes somos devedores. Renovemos n'esse dia as pro-
messas do nosso baptismo. Excitemo'-nos ao zêlo pela nossa perfeicão e
pela santificação do proximo. E' assim que entraremos no espirita da
Egreja, que cumpriremos o dever (]'uma creatura para com o seu Crea-
dor, e que conservaremos e aperfeiçoaremos em nós a imagem augusta
da SS. Trindade.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor 1 graças vos dou por nos. ha•er-
des revelado o mysterio da SS. Trindade; penetrae-nos de reconhecimento
para com o Pae que nos creou, para com o Filho que nos remiu, e para
com o Espirita Santo que nos santificou.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas. e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
perguntarei muitas vezes a mim proprio : De quem sou eu imagem ?

(1) Esta oração é de tradição apostolica. Bened. XIV, p. 358, n. 6.


(2) Raccolta d'indulg., p. 5. Roma, 1841.

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168 CATECISMO

QUADRAGESIMA·QUINTA LIÇÃO.

O christianismo tornado sensivel.

Corpo de Deus. - Anti;-uidade, universalidade d'esta :testa.


- Logar que occupa no culto cat110Iico. -Instituição da
t"esta particular do ss. Sacramento. - B. Juliana. - "!llila-
gre de Bolsena. - Objecto d' esta Cesta. - omcio d' este dia.
- Procissão.-Di,.posic;ões com que se deve al!!lsist.ir a ena.
- Hila1;re de Fa-werney. f

1. ExcELLENCIA DA FESTA DO CORPO DE DEUS. - Póde-se dizer da festa


do SS. Sacramento que data do principio do mundo, como a festa da SS.
Trindade. Os Patriarcbas a celebraram offerecendo os seus sacrificios, fi-
gurativos da grande Vietima. Todos os povos tambem renovavam a me-
moria d'ella nos seus altares ensanguentados; pois da idêa ·primitivamente
revelada d'uma victima sem macula, capaz de expiar os crimes, é que
veio ao genero humano a idêa do sacrificio. Como, peço-vos m'o digaes,
poderia entrar no entendimento do homem o estranho pensamento de que
Deus podia ser aplacado com o sangue d'um animal? D'est'arte, todos os
sacrificios antigos eram figurativos do grande sacrificio do Calvario; pouco
importa que o conhecimento d'este profundo mysterio baja sido alterado
no paganismo : o facto nem por isso deixa de ser certo ('l ).
Mas principalmente desde a publicação do Evangelho é que a festa
da Eucharistia- se tornou continua na terra. Fieis á ordem que lhes havia
dado o divino Mestre de renovarem o sacrificio mysterioso da Ceia e de
a celebrarem -em memoria d'elle, fizeram os Apostolos a festa da Eucba-
ristia tão antiga e universal como a Egreja. A partir d'essa epocha, não
cessou um só instante de correr o sangue divino em todos os pontos do
globo.

(1) Vide M. de Maistre, Esclarecim. sobre os Sacrificios.

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DE PERSEVERANÇA. {69
Vêde aqui as admiraveis harmonias que existem entre as festas do
Pentecostes, da Trindade e da Eucharistia. No dia do Pentecostes, começa
a Egreja por celebrar o seu nascimento; vem depois a festa da SS. Trin- .,.
dade, da qual ella é filha e quer ser imagem. Proclama-o, pede-o, pro-
mette-o. Assim que, no domingo que coincide com a Trindade, sollicita
com ardor a primeira das virtudes christãs, a charidade, como o mostra o
evangelho d'este dia. Ante ella brilha a festa do Corpo de Deus, que é
o seu thesouro e a sua vida. Mas, como não basta haver nascido, e ler
um modêlo para seguir, nem ainda alimento em perspectiva, recorda, no .
domingo oitavario do SS. Sacramento, os obstaculos e as disposições para
a sagrada Eucbaristia.
Assim, a adoravel Trindade é o objecto essencial e primitivo de toda
a Religião e de todas as festas; e a augusta Eucharistia é o sacrificio per-
petuo e o culto mais santo que se presta á Trindade em todas as festas.
Por outras palavras, todo o anno é a festa da Trindade que se adora, e
da Eucharislia pela qual principalmente se adora.
E' de admirar á vista d'isto que se tardasse tanto em estabelecer dias
particulares para honrar estes dois grandes mysterios? Se a final a Egreja
o fez, não foi sua intenção excluir a Eucbaristia ou a Trindade das outras
festas, ou oppôr-se a estas festas perpetuas. Longe d'isso, quiz renovar
no animo dos povos estas duas verdades· fundamentaes: L ~ que as tres
divinas pessoas são o unico objecto que nós honramos e adoramos todo
o anno, não sendo honrado tudo o mais senão com relação a ellas; 2. ª que
a honra mais essencial que se tributa á Trindade em todas as festas, é o
sacrificio do corpo e sangue de Nosso Senhor. Assim Deus, termo do
culto calholico; Jesus Cbristo, mediador entre Deus e o homem, e ponti-
fice do culto catbolico: eis ahi toda a lilurgia, toda a Religião. Que coisa
a um tempo·mais sublime e mais simples! Onde encontrar uma fonte mais
fecunda de altos pensamentos, de nobres sentimentos, de generosas reso-
luções? O' meu Deus, quam dignos de lastima são aquelles que não co-
nhecem nem as bellezas nem as riquezas do Christianismo!
Outr'ora, a Quinta-feira Santa era a festa do SS. Sacramento, e ainda
boje o é; por isso nossos paes na fé commungavam todos na Quinta-feira
Santa; por isso ainda hoje é a Missa da Quinta-feira Santa acompanhada
de todas as ceremonias e de toda a pompa d'uma grande festa, bem que
a Egreja esteja então no lucto e nas lagrimas. Finalmente por isso não
se diz senão uma Missa, para representar mais vivamente a memoria da
ultima Ceia. Todos os Sacerdotes se reservam para commungar pela mão

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t70 CATECISMO

do celebrante, como os Apostolos commungaram pela mão de Nosso


Senhor.
II. INSTITUIÇÃO pA FESTA DO CORPO DE DEUS.- Era chegado o tempo
em que devia ajuntar-se nma pomposa festa á Quinta-feira Santa, para
honrar o augusto sacramento dos nossos altares. Aqui tambem, vêde
co-mo 'todas as instituições da Egreja estão em harmonia com as necessi-
dades da Religião e da sociedade 1 Era no decimo-terceiro seculo. Breve
iam encon1rar-se homens que ousariam atacar o mais amavel dos nossos
mysterios, aqueHe que é como o coração do Catholieismo e por conse-
guinte a pedra fudamental da sociedade. A's blasphemias e aos ultrajes
dos innovadores,, era necessario oppôr uma brilhante manifestação da fé
na presença real de Nosso Senhor entre os homens; ás suas sacrilegas ir-
risões, testimunbos authenticos de respeito e amor ; ás suas profanações
horríveis, uma expiação solemne. Wiclef, Z~inglio e Calvino, criminosos
inimigos do mysterio de amor, é contra \'ÓS e contra os vossos sectarios
que se estabelecerá a grande festa do SS. Sacramento!
Deus o quer. Mas a quem manifestará o seu designio? Aqui dete-
nhamo' -nos um instante a considerar a applicação d' esta lei divina, for-
mulada pelo grande Apostolo quando disse: Deus escolhe tudo quanto ha
mais fraco no mundo para operar as suas maravilhas ('I). A gloria de
tudo pertence a Deus. Deus é cioso de a possuir; não a cede a ninguem,
e eis porque se serve dos mais pequenos meios para operar grandes coi-
sas. A fraqueza do instrumento prova· o poder do obreiro, e força o ho-
mem a exclamar: Só a Deus toda a honra e gloria (2). Esta lei verifi-
ca-se não só na ordem religiosa, senão tambem em todas os outras. Não
é inutil, já que se offerece occasião, o provarmol-o com factos.
Percorrei a historia do mundo. Um povo inteiro geme sob a escra-
vidão de Pharaó; que instrumento escolherá Deus para o libertar? O ob-
scuro pastor de Madian, Moysés. Um gigante espantoso leva a conster-
nação ao exercito ·d'Israel ; quem vae derribai-o? O joven pastor de Be-
lem, David. Holophernes e Aman ameaçam exterminar a nação santa;
quem abaterá o orgulho d' estes homens soberbos? Duas tmmildes mulhe·
res, Judith e Esther. Tracta-se de fazer cahir o mundo pagão de joelhos
ante a cruz; quaes serão os instrumentos d'este prodigio' Doze pesca-
dores. S. Gregorio VII, S. Ignacio, S. Tbereza, S. Vicente de Paula,

(1) I Cor., I, 27.


(2) I Tim., I, 17.

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DE PERSEVERANÇA. nt
veem depois, como outros tantos monumentos collocados de distancia a
distancia no caminho dos seculos, que nos- dizem que a lei divina está
sempre em vigor : Deus escolhe quanto-ha mais fraco no mundo para
operar as suas marav'Uhas. Isto pelo que toca á ordem religiosa.
Na ordem social : tracta-se de unir os povos separados por vastos
mares, e de tornar possiveis e certas as viagens atravé~ d'oceanos sem
limite e sem via; que meio vae Deus empregar para operar este novo
prodigio? Um pouco d'iman e de ferro, a bussola. E' necessario deseo~
brir, ou antes adivinhar um mundo perdido no meio do oceano; quem
é chamado a esta gloria? Um pobre pescador das visinbanças de Genova,
Cbristovão Colombo. Na guerra, para operar os mais formidaveis effeitos,
que quer o Deus dos exercitas? Um pouco de salitre, a polvora. No
commercio, quer enriquecer provincias inteiras e fazer viver milhões de
homens? basta-lhe um bicho de sêda. Nas artes e na industria, para
operar incríveis maravilhas, que toma'! · um pouco de fumo, o vapor;
uma centelha, a electricidade.
E admiraes-vos de que siga o mesmo proceder na ordem sobrena-
tural? Ah f é ahi sobretudo que Elle deve fazer desapparecer o meio,
para que a sua mão omnipotente se mostre plenamente manifesta. N'uma
palavra, na ordem da graça e na da natareza, Deus é tudo, e quer que
o saibamos. Lição mui esquecida que nos diz a todos, reis e subditos,
ricos e pobres, sabios e ignorantes : Se quereis ser empregados em al-
guma coisa grande, sêde humildes.
Esta lei recebeu uma brilhante applicação no estabelecimento da
sagrada Eucbaristia. Como dissemos, era no decimo-terceiro seculo. N'a-
quelle tempo vivia, á sombra d'um humilde claustro, uma religiosa es-
quecida do mundo e de si propria. Foi sobre ella que o Todo-Poderoso
lançou os olhos para o cumprimento do.seu magnifico designio, como os
havia lançado sobre Maria para operar a incarnação.
Perto da cidade de Liége estava o convento das Hospitaleiras do
Monte Cornillon. Entre as castas pombas que o habitavam, achava-se
uma joven noviça, de edade de dezeseis annos, humilde rapariga nascida
na aldêa de Rétine em H93; chamava-se Juliana. Estando um dia em
oração este anjo da terra, o Esposo das almas puras, aquelle que· gosta
de communicar-se aos corações humildes, lbe fez conhecer que queria que
se instituisse uma festa solemne, para o honrar no sacramento do seu
amor. Ou por timidez, ou com receio d'illusão, a piedosa menina con~
servou ·perto de vinte aonos esta revelação no fundo do coração. Só se

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472 CATECISMO

esforçava por supprir com o augmento da sua devoção para com Jesus
no SS. Sacramento, o que a Egreja não tinha ainda feito.
Em ! 230, tendo sido eleita prioreza d<J mosteiro do Monte Cornil-
lon, sentiu-se mais vivamente estimulada a declarar-se. A primeira pes-
soa a quem se abriu foi um conego de S. Martinho de Liége, mui con-
siderado dos povos por causa da santidade da sua vida. Persuadiu-lhe
que commÜnicasse este projecto aos theologos e aos pastores da Egreja.
O conego desempenhou esta missão com muito zêlo, e obteve bom resul-
tado da maior parte d'aquelles a quem se dirigiu.
Interessou particularmente n'esta piedosa empreza o Bispo de Cam-
brai e o chanceller da Egreja de Paris, mas sobretudo o provincial dos
Jacobinos de Liége, que foi depois Cardeal e Arcediago de Liége, Bispo
de Vcrdun, Palriarcha de Jerusalem, e finalmente Papa com o nome de
Urbano IV. A bemaventurada Juliana. certa da approvaç~o de tantas pes-
soas eminentes pelo seu salJer e piedade, mandou compôr um officio do
SS. Sacramento, cuja idêa e plano deu ella mesma, e o fez approvar pe-
los principaes theologos do paiz.
Em 12~6, declarou o Bispo de Liége no seu synodo o estabeleci-
mento d'uma festa particular do SS. Sacramento, cuja celebração publica
e solemne ordenou em toda a sua diocese. Uma grave' molestia que lhe
sobreveio, impediu que désse a ultima demão a esta instituição, por meio
d'uma pastoral que estava prestes a publicar. Todavia, não morreu sem
ter a satisfação de vêr celebrar na sua presença o officio da nova festa.
Os conegos de S. Marlinho foram os primeiros que a solemnisaram na
cidade de Liége em ,124. 7. Porém as obras santas devem soffrer contra-
dicção. Permitte-o Deus, para que os instrumentos que emprega não at-
tribuam o bom resultado senão a mle. Não faltou este precioso cunho á
obra da bemaventurada Juliana. A perseguição de que foi objecto, junta
á morte do--Bispo de Liége, suspenderam a celebraçTio da nova festa.
N'estes entrementes, morreu a propria Juliana, e parecia que a sua
empreza devia morrer com ella. Era isso inevitaveJ, se não houvesse sido
mais que obra do homem. Porém em t 258, dois arrnos depois da morte
d'ella, uma reclusa da cidade de Liége, que fôra sua confidente, instou
fortemente o novo Bispo a trabalhar junto do Papa para fazer estabelecer
por toda a Egreja a festa do SS. Sacramento. tal qual se observava em
S. Martinho de Liége. A elevação d'Urbano IV ao supremo pontificado
foi considerada como uma coojunctura moi favoravel a esta empreza cojo
objeclo e meios havia antes approvado. Comtudo, seguindo o sabio cos-

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DE PERSEVERANÇA. t73
tume da Egreja romana, o Vigario de Jesus Christo tomava tempo para
examinar nm negocio d'esta importancia. As dilações succediam ás di-
lações, quando um brilhante milagre veio acabar com as hesitações do
Santo Padre e apressar o desenlace da negociação.
Urbano IV, acompanhado do Sacro Collegio, achava-se em Orvieto,
pequena cidade a distancia de umas vinte leguas de Roma, e visinha da
pequena cidade de Bolsena. N'esta, um Sacerdote, celebrando Missa na
egreja, que ainda existe, de S. Catharina, deixou cabir por descuido al-
gumas gôtas do precioso sangue no corporal. Para fazer desapparecer
os vestígios do accidente, -dobra e torna a dobrar o panno sagrado de
modo que estancasse o sangue adoravel. O corporal é depois tornado a
abrir; e vê-se que o sangue penetrou todas as dobras, e imprimiu em
todas as partes a figura da sagrada hostia perfeitamente desenhada, côr
de sangue. A noticia do acontecimento chega em algumas horas a Orvie-
to. Por ordem do Summo Pontífice, leva-se o milagroso panno áquella
cidade. Verifica-se o milagre, e o corporal. encerrado n'um relicario,
verdadeiro primor d'arte da edade media, guarda-se ainda hoje na ca-
thedral.
Entretanto o Santo Padre, lembrando-se das instancias que se lhe
fizeram para estabelecer a festa do SS. Sacramento, institue esta solem-
nidade,. e manda que seja celebrada com . todas as pompas das festas de
primeira ordem. Assignou-lhe a quinta feira depois da oitava do Pente-
costes, e isto por duas razões: f. ª era a primeira quinta feira livre dos
officios do tempo paschal; 2.ª convinha tomar o dia da semana em que
Nosso Senhor instituira a Eucharistia. Ignora-se o anno e o logar em que
.1
foi dada a bulia d'institoição. Sabe-se unicamente que o breve que Urbano
IV dirigiu á bemaventurada Eva, reclusa de S. Martinho de Liége, é de
ti d'agosto de i 264, ( f ).
III. ÜBJECTO DA Fli:STA. - Confundir a perfidia dos herejes, reparar
os ultrajes commettidos para com o Salvador, e testificar altamente a fé
catholica na sua presença real, taes são os principaes motivos d'institui-
ção expressos na bulia. «Sem duvida, accrescenta o Papa, a Quinta-feira
Santa é a verdadeira festa do SS. Sacramento; mas estando a Egreja
n'esse dia toda occupada em chorar a morte de seu Esposo, em reconci-
liar os penitentes, e em consagrar o santo chrisma, foi conveniente tomar
outro dia para que a Santa Egreja podésse manifestar toda a sua alegria

(1) Bened. XIV, p. 362, n. 6.

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CATECISMO

e supprir o qu'e não pôde realisar-se na Quinta-feira Santa. De mais, to-


das as solemnidades do anno são a solemnidade da Eucharistia; e esta
festa particular não foi instituída senão para supprir as faltas e a negli-
gencia de que o homem tenba podido tornar-se culpado na festa geral
(t).J>
IV. LITURGIA. - Uma vez estabelecida a festa do SS. Sacramento,
não se tratava senão de encontrar um cantor digno do mysterio d' amor;
a Providencia o bavia formado. N'aquelle tempo brilhava um dos mais
bellos genios qne teem apparecido na terra, o qual se chamava Thomaz
d' Aquino. Este grande homem, gloria do seu seculo, cognominado o
Doutor angelico, assim pela pureza da sua vida, como pela sublimidade
da sua doutrina, achando-se então em Orvieto, recebêra ordem d'Urbano
IV de compôr o officio do SS. Sacramento (2).
(1) Rainaldo, e. XXVI.
(2) Proprium ejusdem solemnitatis officium per B. Thomam de Aquino tunc
in ipsa Curia existentem compositum edidit. Bull. Sixti IV. Apnd Bened. XIV, p.
366, II. Vide o milagre com que foi favorecido S. 'I'homaz, depois de ter composto
o officio do 88. Sacramento, nas Tres Romas, t. II.- Eis a este respeito uma anec -
dota q_ue nos arguiríamos de omittir .
Quando Urbano IV decidiu o estabelecimento da festa do Corpo de Deus, quiz
que o officio d'ella fosse composto pelos homens mais sabios e piedosos. Chamou
junto de si os dois mais bellos genios do seculo : o angelico Tbomaz, e o serapbico
Boaventura. alrmãos, lhes disse, quero estabelecer, em toda a Egreja, a maior e
mais tocante solemnidade ; quero celebrar o Sacramento d'amor e de misericor-
dia. • Logo faz conhecer o seu plano aos dois frades e lhes ordena que ponham mãos
á obra; a humildade d'aquelles homens de Deus espanta-se da escolha do Pontífice;
resi tem, mas em vão. N 'uma epocha determinada, devem su bmetter o seu trabalho
áquelle que, melhor que qualquer outro, é capaz de o julgar.
No dia marcado por Urbano IV, se dirigem a elle Thomaz e Boaventura, com
a modestia no rosto e a desconfiança de si proprios no coração. 11:Começae, fr. Tho-
maz,11 disse o Papa.
O santo religioso leu primeiro as antifonas das diversas partes do officio, as
lições, e os responsorios; tudo era tirado da Escriptnra. Sagrada e maravilhosamente
escolhido. Urbano guarda silencio j Boaventura nao póde conter um gesto d'appro-
vação, logo reprimido pelo respeito.
Thomaz passa ao hymno da manhã. : Sacris ~olemniis; chega a esta admiravel
strophe:
Panis angelicus :fit panis hominum
Dat panis crelicus figuris terminam
O res mirabilis ! manducat Dominum
Pau per, servus et humilis.
Correm lagrimas dos olhos de Boaventura. Ouve-se-lhe debaixo do habito o
ranger d'um papel cujos fragmentos cahem ao chão.
No bymno de Laudes, que magestade no principio:
Verbum supernum prodiens
Nec Patris linquens dexteram,
Ad opus suum exiens,
Venit ad vi~ veaperam.

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DE PERSEVERANÇA. i7õ
O Santo pôz mãos á obra, e deixando-se levar pelas inspirações do
coração compôz o officio que se cantá ainda hoje: immortal primor d'arte,
em que disputam a palma a poesia, a piedade e a fé. Assim que é con-
siderado com justa razão como o mais regular e o mais bello de todos os
officios da Egreja, tanto pela energia e graça das expressões, que tradu-
zem successivamente os sentimentos da mais terna charidade e a mais
exacta doutrina de todo o mysterio eucharistico, quanto pela justa pro-
porção das partes e pela precisão das relações entre as figuras do Velbo
Testamento e a verdade do Novo.
Similhante ao grão de mostarda, a obra da bemaventurada Juliana
do Monte Cornillott se elevára successivamente da humilde cella d'um
mosteiro ao throno pontificio; devia ainda crescer •mais, porém com o
tempo e no meio das tempestades.
Tendo morrido Urbano IV a 2 d' outubro de t 26li, permittiu Deus
que nenhum dos seus successores immedialos apressasse a execução do
seu decreto. Por espaço de quarenta annos, houve poucas egrejas, além

Que de fé, que de suavidade n'esta stropbe:


O salutaris hostia
Qual creli pandis ostium,
Bella premunt hostilia,
Da robur, for auxilium ...

Qui vitaro sine termino


Nobis donet in patria.
O arroubamento de fr. Boaventura contém-se com grande custo ; outros boca-
dinhos de papel cabem ainda aos pés do santo monge.
A leitura da prosa parece attra.hir sobretudo a attençao d'Urbano. Sabio theo-
logo, acha uo Lauda Sion um tractado completo da mais alta e mais sublime theo-
logia sobre o mysterio do dia.
Thomaz acaba pelo Pange lingua, .cuja quarta e quinta strophe resumem o
sacramento da. Eucba.ristia. Ce sa de fallar, e escutam ainda. . . O Papa diz alfim :
«Agora vós, irmão Boaventura." O religioso lança-se aos pés do Pontífice e excla-
~a: «Santis imo Padre, quando eu escutava fr. Thomaz,. pareeis-me ouTir o Espi-
rito Santo. Só elle póde ter inspirado tam bellos pensamentos, revelados a meu ir-
~ão Thomaz por uma graça especial do Altissimo. Ousarei confessar·vol-o, Santis-
suno Padre? eu julgaria. commetter um sacrilegio ee houvesse deixado subsistir a
minha fraca obra ao lado de bellezas tam maravilhosas. Eis aqui, Santíssimo Pa-
dre, o que d'ella resta." E o monge mostrava ao Papa os bocados que cobriam o
chão.
O Pontifiee admirou tanto a modestia. de Boaventura como o genio de Thomaz.
Taes eram as grandes figuras d'essa edade media tantas vezes depreciada, taes os
santos d'essa divina Egreja que civilisou o mundo fazendo brilhar aos seus olhos a
verdadeira. luz. '
Eis ahi o que se passou no decimo-terceiro seculo. Perto de seiscentos annos
decorreram depois, e a obra admiraTel de S. Thomaz é ainda o ornamento do Bre-
viario romano. A perpetuidade só perteóce ás obras de Deua.

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{76 CATECISMO

da de Liege, em que se celebrasse a nova festa. Ficou assim descnidada


até ao tempo do concilio geral de Vienna, celebrado em t3H. Foi alli
que, para dar á festa do SS. Sacramento todo o brilho e toda a estabi-
lidade que merecia, confirmou o Papa Clemente V a bulia d'instituição
emanada d'Urbano IV. A augusta solemnidade foi acceita com smpenho
por todos os Padres do concilio, na presença dos reis de França, Ingla-
terra e Aragão. Tal é a historia da festa do Corpo de Deus: glorioso
triumpho estabelecido em reparação dos ultrajes feitos a Nosso Senhor
no mais augusto, assim como no mais amavel de todos os nossos myste-
rios (1).
V. PnocrssÃo. -- A parte mais brilhante dos officios do SS. Sacra-
mento, a qne mais contribue para distinguir esta festa de todas as outras,
é a procissão solemne. O Salvador é n'ella levado em triurnpho com
muito apparato e uma pompa magnifica. Esta procissão, estabelecida pelo
Papa Urbano IV, foi vivamente recommendada pelo santo ~concilio de
Trento (2). Tudo contribue para tornai-a solemne; parece que a natu-
reza inteira quiz tomar parte n'e lia. E' a occasião dos formosos dias, é
a estação das rosas e dos lyrios, é a epocha em que miluões de passa-
rinhos, ainua cobertos da pennugem da infancia, tentam o primeiro vôo
e o~ primeiros cantos. Nada mais gracioso que a procissão do SS. Sacra-
mento nas aldêas, onde os campos, as arvores e os prados em todo o
brilho do seu adorno reflectem as suas bellezas nos altares rusticos ;
nada mais magestoso nas cidades guerreiras, onde o estrondo do canhão
se junta aos hymnos sagrados; nada mais solemne nas cidades mariti-
mas, onde o Oceano parece imprimir-lhe alguma coisa do infinito.
VI. RASÃO E MODO DE ASSISTIR A ELLA. - Mas que devo fazer para
corresponder aos desejos do Deus que alli se leva em triumpho? Pri-
meiro, assistir á procissão. O homem honra-se sempre abatendo-se ante
Deus. E depois, o reconhecimento para com este Deus Salvador que se
digna de percorrer as nossas roas e praças publicas, derramando como
outr'ora beoeficios na sua passagem, não deve arrastar-me após de si, e,
(1) l::;obre a festa do SS. Sacramento, vide a Historia da festa do Corpo de
Deus, pelo P. Bertholet, e a do P. Fisen; S. Antonino, Summa; Thomass., 1. II,
e. XIX.
(2) Sess. XIII, e. V. - Esta procissão parece na~cida da gue se fe z para !e-
var de Bolsena a Orvicto o milagroso corporal. Attomtus Po~t1fex .ªd se. ab ep1s -
copo loci curo processione Urbemveterem (corporale) t ransfern volmt, et illud, so-
lemnitate instituta, iu Ecclesia Urbe etere accondidit. Probabilíssima est eorum
sententia qui e re ipsa putant, hanc processionem ~sse profect am. Bencd. XIV, P·
365, n. 10.

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DE PERSEVERANÇA. t77
por assim dizer, prender-me ao seu carro de triumpho? Homens sober-
bos, que desdenhaes caminh~r atraz do grande Rei, que julgáreis humi-
lhar-vos assistindo ás nossas procissões, vós nem sempre sois tam diffi-
ceis de contentar l Não é a vós que se vê, vis escravos, prêsos alterna-
tivamente ao carro da ambição e da volupia, seguir, com os pés pela la-
ma, a tortuosa rodeira que elle imprime no caminho ? Em verdade, as-
senta-vos bem o serdes altivos diante de Deus !
Eu hei de pois assistir á procissão. A presença do meu Deus me diz
com· que respeito e recolhimento devo alli portar-me. A sua bondade falia-
me ao coração e sollicita o meu reconhecimento. As flôres desfolhadas
no caminho, o incenso que se eleva em fumo para o ceo, e os sagrados
canticos que resoam nos ares, me convidam ao amor, ao espirita de de-
dicação, d'acção. de graças e de oração. E aquelles altares que hei de en-
contrar de distancia a distancia, fazendo admirar a infinita condescenden-
cia do Senhor dos mundos que tem por bem parar alli, me advertirão'
que o meu coração lambem deve ser um altar, onde as puras virtudes
devem exhalar os seus perfumes : deixarei pois obrar a minha fé, e isso
basta.
A multidão ruidosa, .dissipada, que se atropella na passagem do au-
gusto cortejo, será para mim mais um motivo de compuncção e fervor.
Direi, não como Thiago e João, filhos do trovão: Mestre, queres que
chamemos sobre as suas cabeças criminosas o fogo do ceo ('1)? Suspi-
rarei as ternas palavras do Cordeiro divino erguido na cruz: Pae, per-
dôa-lhes, porque não sabem o que fàzem (2).
Assim, filho fiel da grande familia catholica, não terei, como tantos
outros, córado por honrar e seguir meu Pae. Elle se lembrará d'isso
quando descer, juiz supremo dos vivos e dos mortos; e se o meu cora-
ção lhe permanecer addicto, farei parte d'aquella procissão solemne e
derradeira que se ha de elevar radiosa para os ceos, atraz de Jesus trium-
phante, em tanto que os orgulhosos desprezadores de Jesus humilhado
hão de descer envergonhados e confusos aos abysmos inflammados. Re-
conhecimento e compuncção, acção de graças e arrependimento sincero,
eis pois o que ha de occupar-me o espírito e o coração durante a pro-
cissão, todo o dia da festa e até ao fim da oitava.
Não poderiamas terminar melhor esta lição do que narrando um dos

(1) Lucas, IX, 54.


(2) Id. 1 XXIII, 34.

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f 78 CATECISMO

numerosos milagres, por meio dos quaes se ba dignado Nosso Senhor de


fortalecer a fé de seus filhos na realidade da sua presença no augusto
sacramento do altar.
VII. MILAGRE DE FAVERNEY. - No anno de mil seiscentos e oito,
n'aquelle desgraçado tempo em que a Egreja ainda gemia pelos sacrile-
gos attentados que os calvinistas, com as armas na mão, haviam commet·
tido em França por espaço de longos annos, na mesma pessoa de Nosso
Senhor, cuja presença real no SS. Sacramento do altar se recusavam a
reconhecer, prouve á bondade de Deus, para consolação dos fieis e con-
fusão dos herejes, fazer conhecer a verdade d'este augusto mysterio pelo
mais brilhante milagre.
Por motivo de certas indulgencias concedidas pelo nosso Santo Pa-
dre o Papa, os religiosos benedictinos de Faverney, viJla da diocese de
Besançon, costumavam, na vespera do Pentecostes, preparar na sua egreja
abbacial uma capella ornada de toalhas e outros pannos. Sobre o altar
elevava-se um tabernaculo em que estavam duas hostias consagradas, en-
cerradas n'uma custodia de prata. N'aquelle dia 25 de maio, tinha sido
exposto o SS. Sacramento. Tendo vindo a noite e havendo-se retirado
toda a gente, fecharam as portas da egreja. No altar da capella ficaram
duas tochas accêsas. As faúlas que d'ellas cahiram, como ha razão de
conjecturar, pegaram fogo ás guarnições.
Dentro em pouco espêsso fumo se espalha por todas as partes; quasi
todos os ornamentos da capella, toalhas, escadorios e tabernaculos, são
consumidos: não restam senão cinzas e brazas. Mas quem poderia ex·
pressar os sentimentos que experimentaram os religiosos quando no dia
seguinte se dirigiram á egreja t Penetrados de temor, ergueram os o1hos,
e por cima d'aquelle montão de cinzas inflammadás, vêem a custodia mi-
lagrosamente suspensa no meio da egreja.
Immediatamente se espalha a noticia do prodígio. Corre multidão de
pessoas de Faverney e d'outros logares circumvisinhos: a turba é immen·
sa. A custodia em que estão as duas sagradas hostias permanece sus-
pensa no ar. Na terça-feira, terceira festa do Pentecostes, differentes pa-
rocbos tinham ido com os seus freguezes celebrar a santa missa n'aquella
egreja: um d'elles a dizia no altar-mór. O augusto Sacrificio estava pres-
tes a consummar-se, quando o círio accêso diante do SS. Sacramento se
apagou de subito. Accendem-n'o, apaga-se; tornam a accendêl-o, apaga-
se de novo, e assim até tres vezes. Este acontecimento advertia os assis-
tentes para volverem os olhos para a custodia, a fim de que todos vissem

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DE PERSEVERANÇA. 179
o que ia succeder. Depois da primeira elevação, no momento em que o
Sacerdote depunha a sagrada hostia no altar, a custodia, que tinha per-
manecido suspensa no ar durante trinta e tres horas, desce insensivel-
mente e pousa sobre um corporal collocado ao lado do calix.
Quam admiravel é a vossa Providencia, ó meu Deus r Por meio d' este
milagre, queria ella preservar nossos paes dos erros dos calvinistas. Que-
ria confirmai-os cada vez mais na Religião catholica, fazendo-lhes conhecer,
por um dos mais admiraveis prodígios, a verdade de tudo o que nos é
ensinado ácerca da presença real de Nosso Senhor no SS. Sacramento,
ácerca da santa Missa e das indulgencias, outros tantos artigos da nossa
fé que os calvinistas rejeitam.
Na informação juridica que monsenhor de Rye, então Arcebispó de '
Besançon, mandou fazer a este respeito, recebeu o depoimento e a assig-
natura de cincoenta pessoas entre as mais respeitaveis das que tinham
sido testimunhas d'aquelle milagroso acontecimento. Cada anno,, ~ officio
de trinta d'outubro o apresenta á recordação e ao reconhecimento dos fieis
da diocese de Besançon. Quanto a nós que escrevemos estas lipbas, nunca se
nos apagará da memoria essa procissão solemne do seguinte dia do Pen-
tecostes, por meio da qual celebra a ·vma de Faverney annualmente a me-
moria do milagre. Nunca esqueceremos que, em 1827, eramos nós que
tinhamos a felicidade de levar nas nossas mãos ·a .hostia milagrosa e de
a offerecer ás adorações d'um povo immenso.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor r graças vos dou por terdes in-
stituído a festa do SS. Sacramento ; concedei-me que a celebre com toda
a piedade necessaria para vos indemnisar dos ultrajes de que sois objecto
no adoravel Sacramento dos vossos altares .
.Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de assistir á oração ·cada dia da Oitava do Corpo de Deus.

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f 80 CATECISMO

QUADRAGESIMA·SEXTA LIÇÃO.

Ocbristianismo tornado sensivel.

Fes\a do Sa,;rado Corac;ão. - Objecto, motivo. - Dift'eren~a


entre a de,roção no Sa"rado Co1•ação e a devoção no SS.
Sacramento. - Historia da :resta cio Sar;rado Coração. -
Sua harmonia com necessidades da E,;reja e da socieda-
de. - Contraria do Sar;rado Coração.

1. FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO. - Eis uma nova festa ainda mais to-
cante, se é possivel, que aquella cuja historia acabamos de traçar. A festa
do Sagrado Coração ! · a este nome, desperta-se toda quanta ternura ba
nas almas christãs. Qne é a festa do Sagrado Coração? qual é o seu ob-
jecto? qual é o seu motivo?
.f. º Que é a festa do Sagrado Coração? e eu pergunto : Que é a
festa da Natividade, da Resurreição e da Ascensão, senão festas de Nosso
Senhor, ás quaes dão occasião estes mysterios, e nas quaes se comme-
moram os grandes acontecimentos da vida do Redemptor? Que é lam-
bem a festa do SS. Sacramento, senão uma das festas de Nosso Senhor,
cujo motivo é a lembrança da instituição da Eucharistia? Que será pois
a festa do Sagrado Coração de Jesus? Nada mais que uma das festas
de Nosso Senhor, á qual dá occasião a sua immensa charidade para côm
os bomens, symbolisada ou representada pelo seu coração. A resposta a
esta primeira pergunta resolve tambem a segunda.
2.º Qual é o objecto d'esta festa? Cumpre saber que todas as festas
catbolicas teem por objecto e materia particular uma pessoa inte11ig.ente
corno a augusta Trindade, Jesus Christo Deus e homem, ou algum Santo.
Não é um mysterio, não é a recordação d'um beneficio, não é a religião

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DE PERSEVERANÇA. t81

d'um Santo que é o objecto material d'uma festa qualquer, todas essas
coisas não são senão as occasiões e os motivos d'ella. Assim, o objecto
material da festa do Sagrado Coração é o mesmo que em todas as festas
de Nosso Senhor, isto é, Nosso Senhor mesmo.
3. 0 Qual é o motivo d'esta festa? E' ao mesmo tempo a immensa .
charidade do Salvador para com os homens, e o seu Coração sagrado que
é o symbolo e a victima d'ella. Tal é o fim e a intenção da Egreja na in-
stituição d'esta solemnidade. Vê-se isso claramente pelos dois officios
que ella deu, um para o reino da Polonia, e outro para o de Portugal.
No primeiro, exprime-se assim: «Para que os fieis honrem com mais
devoção e fervor a charidade de Jesus Christo soffredor, sob o symbolo
do seu sagrado Coração, e colham d'elle os mais abundantes fructos,
permittiu Clemente XIII a varias egrejas, que o pediram, que celebras-
sem a festa d' este santíssimo Coração (J ). » A memoria e veneração da
charidade de Jesus Christo, sob o symbolo do seu sagrado Coração, eis
por tanto o motivo da concessão d'esta festa.
No segundo officio, approvado para o reino de Portugal e outros lo-
gares, propõe a Egreja um novo motivo. Está expresso no Invitatorio,
onde se diz: «O coração de Jesus, victima da charidade, vinde, ~dore­
mol-o (2).»
O coração de Nosso Senhor, victima da charidade, eis ahi pois outro
motivo da concessão d'esta festa, e não se póde duvidar de que aqui se
falle do coração verdadeiro e real de Jesus Christo. Concluamos pois
dizendo: A charidade do Salvador para com os homens e o seu coração
physico e real, que foi a victima d'eJla e que a representa como symbo-
lo, são o motivo d'esta nova festa do Homem-Deus.
Se se perguntasse porque esta festa se não chama festa de Jesus
Christo, mas sim festa do seu sagrado Coração, responderiàmos que, para
distinguir entre si as differentes festas de Nosso Senhor, se toma a de-
nominação d'ellas não no objecto, senão no motivo. Assim, dizemos a
festa da Natividade, da Epiphania e da Ascensão, porque o motivo é o
nascimento do Salvador, a adoração dos Magos e a volta de Jesus Christo
ao ceo, posto que Nosso Senhor seja sempre o objecto d'ellas.

(1) Quam chRritatem Christi patientis . .. ut fideles sub Sanctissimi Cordis


symbolo devotius et ferventius recolant ejusdemque fructus uber-ius percipiant, Cle-
mens XIII P. M. ejusdem 8anctissimi Cordis festum quibusdam pedentibus eccle-
siis celebrare permisit . Lect. 111, secundi noct .
(2) Cor J esu, charitatis victimam, venite, adoremos. Vide Muzarelli.
i2

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f 82 CATECISMO

Se se perguntasse ainàa porque se honra a charidade do Filho de


Deus para com os homens sob o symbolo do sea coração, e não sob
qualquer outro emblema, dariamos d'isso uma razão natura 1 e de senso
commum, á qual nenhum homem assisado póde recusar-se. E' com ef-
feito fóra de duvida que o coração de carne é a parte do corpo humano
que sente mais vivamente os effeitos das paixões da alma. Póde isto pro-
ceder de ser o coração a causa motora de todos os nossos fluidos. Ora,
parece natural que sejam mais sensiveis os movimentos no sitio onde
actRa a causa material e a origem do movimento vital. Como quer que
seja, as sensações, impressões e palpitações que experimenta o coração
de carne, em resultado do amor que reside na alma, são outras tantas
testimunhas irrefragaveis da correspondencia mutua entre o amor da alma
e o coração de carne ( 1).
D'ahi veio o uso universal entre os homens de tomar o coração pelo
amor. E este uso basêa-se na propria Escriptura Sagrada, onde se vê
que o amor infinito de Deus é algumas vezes expresso sob o symbolo do
coração humano. Diz Deus a Heli pela bôcca d'um Propheta: Eu susci-
tarei um Pontifice fiel -que obrará segundo o meu coração (2); por onde
se vê que o coração é posto no lugar e como symbolo da vontade ou do
amor de Deus. Os outros exemplos d'este modo de fatiar não são raros
nos livros santos.
Finalmente, se nos perguntarem que culto presta a Egreja catholica
ao coração de carne de Jesus Christo, responderemos que lhe presta um
culto de latria ou adoração. Com effeito, o coração de Nosso Senhor é
adoravel como o foi o seu corpo sagrado, por causa da união hyposta-
tica com a Di\'indade; pois é manifesto que o culto d'adoração, prestado
ao coração de carne de Jesus Christo, lhe é devido, justamente porque
é o coração de Jesus Christo, Deus e Homem, e porque no coração de
carne se honra a Nosso Senhor todo, sem separação nem divisão. «Eu
creio, continúa o sabio Muzarelli, que se póde exprimir em poucas pala-
vras a materia d'este culto, dizendo: Que o coração de carne de Jesus
CM-isto é adorado com um culto de latria em Jesus Christo, com Jesus
Christo, e por causa da excellencia de Jesus Christo (3).
Principalmente na festa de que fallamos é que se honra este adora-

·c1) Thom., Opusc. XXXVI, De motu cordis.


(2) I Reg., 35.
(3) Vide Devoção e culto do Sa!J1·ado Coração, por Muzarelli. Seguimos este
sabio theologo nas explicaçê>es que acabamos de dar.

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DE PERSEVERANÇA. ~83

vel coração, e isto nos leva a responder á ultima pergunta qne podem
dirigir-nos : Que differença ha entre a devoção no Sagrado Coracão de
Jesus e a devoção no SS. Sacramento? Jesus Christo é o objecto d'uma
e outra devoção. Na devoção no SS. Sacramento, o motivo é honrar a
carne sagrada de Jesus Christo unida com o Verbo, e verdadeiramente
digna por esta união da adoração dos anjos e dos homens-. Na devoção
no Sagrado Coração, o motivo essencial é honrar o coração de Jesus
Cbristo unido á divindade, sobretudo reconhecer esse amor em que elle
está abrasado para com os homens, e dar-lhe reparação pelo que soffreu
e pelo que tem por bem sotlrer ainda todos os dias d'esses mesmos ho·
mens, no seu sacramento d'amor, a invenção mais maravilhosa que sa-
hiu do seu divino coração (1). ·
II. ORIGEM n'EsTA FESTA. - Passemos agora á origem da festa do
Sagrado Coração e á sua harmonia com as necessidades da Egreja e da
sociedade. Se a Belgica teve a gloria de dotar o mundo catholico da festa
do SS. Sacramento, foi escolhida a França para dar-lhe a do Sagrado Co-
ração. Na Belgica, vejo uma santa menina a quem Deus se digna de com·
municar os seus desígnios. Em França, escolheu uma humilde virgem
para a fazer confidente dos segredos do seu divino coração. Assim, a
quatro seculos de distancia, vejo sempre realisar-se essa grande lei, em
virtude da qual Deus escolhe para operar as suas maravilhas quanto ha
mais fraco segundo o mundo (2).
No seculo decimo-septimo vivia no mosteiro da Visitação de Paray-le·
Monial, em Charolais, uma santa religiosa chamada .l\fafgarida Maria
Alacoque. Modêlo de honestidade, submissão e penitencia, estava este
anjo da terra em adoração ante o santo altar, quando o Deus das almas
puras se lhe fez ouvir, e, descobrindo-lhe o seu adoravel coração, lhe
disse: «Eis esse coração que amou tanto os homens que nada poqpou,
mas que chegou a esgotar-se-e consumir-se para testimunhar-lhes o seu
amor. Em reconhecimento, não recebo da maior parte dos homens se-
não ingratidões, pelos desprêsos, irreverencias, sacrilegios e friez~ que
teem para mim n'este sacramento. Mas o que ainda me é mais sensível,
são corações que me estão consagrados que me tractam assim : por isso
te peço que a primeira sexta-feita depois da oitava do SS. Sacramento
seja consagrada a celebrar uma festa particular para honrar o meu cora-
,
(1) Mez do Sagrado Coração, p. 51.
(2) I Cor., I, 27.

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f 84 CATECISMO

ção, dando-lhe satisfação por meio d'uma confissão, e commungando


n'esse dia para reparar os indignos tratamentos que recebeu durante o
tempo que esteve exposto sobre os altares (f).»
Ao mesmo tempo, o Salvador prometteu á sua humilde serva os the-
souros de graça mais copiosos em favor d'aquelles que se dedicassem ao
culto do seu sagrado Coração (2).
O sêllo das obras de Deus, quero dizer, a contradicção, foi breve
impresso na nova devoção. Apenas a veneravel Margarida Maria faltou da
revelação que tivera, tacharam-n'a de visionaria. Desprêsos, mofas, peni-
tencias até, nada se lhe poupou; mas nada pôde fazer-lhe retractar as
suas palavras. Como os Apostolas podia dizer: Não podemos deixar d~
dizer o que vimos e ouvimos (3).
Até então tudo se havia passado no interior do mosteiro: a tempes-
tade tornou-se muito mais violenta quando a revelação transpirou no pu-
blico. Mormente os jansenistas se desencadearam com inaudita violencia
contra a devoção proposta, e os pastores da Egreja estavam indecisos,
esperando que o Ceo se manifestasse com nova evidencia. Este momento
não vinha longe, porém a humilde serva de Deus não o viu. A i 7 d'oH-
tubro de 1690, desceu á sepultura, levando comsigo a corôa d'espinhos
com que o Salvador favorece as suas esposas queridas. Esta corôa foi
transformada no Ceo em corôa de gloria, e em breve a terra tambem
mudou de sentimentos e de linguagem, tanto ácerca da serva de Deus,
como ácerca da devoção no Sagrado Coração. '
O Ceo fez ouvir a sua grande voz, a voz do milagre. Em t 720 era

a Provença assolada por uma. furiosa peste. A cidade de Marselha foi a
primeira atacada d'esle flagello, que, em poucos mezes, levou a metade
dos habitantes d'aquella grande cidade. Monsenhor de Belzuncio de Cas-
telmoron, Bispo de Marselha, vendo a insufficiencia dos remedias huma-
nos, resolveu recorrer Áquelle que tem na mão as chaves da morte e
do inferno, e oppôr á ira de Deus os merecimentos do Sagrado Coração
de seu divino Filho.
Heroe da cbaridade, tens razão; procura no culto publico do Cora-
ção de Nosso Senhor remedio contra o mal que não o tem na terra, e a
tua esperança não será mallograda. O santo Bispo exhortou todos os

(1) Vida da B. Marg. Maria, por M. Languet, Arcebispo de Sens, 1. VI, n.


57.
(2) ld., 1. VI, n. 90 ; 1. VII, n. 93.
(3) Act., IV, 20.

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DE PERSEVERANÇA. 18õ
seus diocesanos a entrarem no espirito de que elle proprio estava ani-
mado. Mandou que a festa do Coração de Jesus fosse solemnisada d'alli
em diante na sexta.feira depois da oitava do Corpo de Deus, e que fosse
celebrada como uma das maiores festas do anno. Foi mais longe, pois
fez uma consagração solemne e publica de toda a sua diocese e de si
proprio ao Sagrado Coração de Jesus. A sua supplica foi attendida. Desde
aquelle dia, o mal, até então tam furioso, começou a diminuir conside-
ravelmente, e em pouco tempo cessou completamente. E' o que os ma·
gistrados d'aquella cidade reconheceram e consignaram n'um acto autben-
tico ; porém Deus reservava ao fervor do Pontifice e do seu povo uma
protecção ainda mais notavel.
Em t 722, no mez de maio, a peste, que se cria havia muito ex-
tincta, se ateou de novo na cidade e a lançou em extraordinaria conster-
nação. A morte, esse rei dos espantos, como diz a Escriptura, assentou
o seu throno no meio d'aquella vasta cidade, havia pouco tam brilhante
e risonha. Abandonada pelos que podiam fugir, breve apresentou Mar-
selha a imagem d'um campo de matança, cheio de mortos e moribundos.
Então reappareceram as dedicações sublimes que havemos de vêr renas-
cer em todas as calamidades publicas, em quanto o catholicismo conser-
var o seu imperio. Mons. de Belzuncio renovou tudo quanto havia feito
em Milão S. Carlos Borromeu. Alli lambem, uma sublime lucta, digna
dos olhares dos anjos e dos homens, entre a furia da doença e o zêlo da
charidade. Alli lambem, perigos affrontados, moribundos administrados,
e pobres soccurridos. A.Ili lambem, Sacerdotes perecendo aos centenares
junto dos pestiferos e exhalando o ultimo suspiro exhortando os outros
ã morte. Alli lambem, horriveis soffrimentos e ineffaveis con~olações.
Alli lambem, faltando a madeira para os caixões e quem levasse para os
cemiterios; mas não faltando os Sacerdotes em parte alguma para soccor-
rerem e consolarem.
Era de Marselha que escrevia Belzuncio: «Estou ainda, pela graça
de 'Deus, em pé no meio dos mortos e dos moribundos. Tudo ha sido
abatido ao meu lado, e, de todos os ministros do Senhor que me acom-
panharam, não resta mais que o meu capellão. Vi e senti durante oito
dias dnzentos mortos, apodrecendo ã roda da minha casa e debaixo das
minhas janellas. Vi-me obrigado a andar pelas ruas, todas sem excepção
ladeadas de cadaveres meios pôdres e comidos dos cães, e o meio cheio
de fato de pestiferos e de immundicias, a ponto de não saber onde pôr
·os pés. Com uma esponja ensopada em vinagre debaixo do nariz, com a

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f 86 CATECISMO

sutana arregaçada debaixo do braço e bem alta, era-me preciso atraves-


sar aquelles cadaveres infectos para distinguir entre elles, confessar e
consolar os moribundos lançados fóra de suas casas.
«Estou quasi sem confessores. Os Sacerdotes fizeram prodígios de
zêlo e de charidade e deram a ''ida por seus irmãos. Todos os Jesuitas
morreram, á excepção de tres ou quatro. Vieram alguns de muito longe
entregar-se á morte. Morreram trinta e tres Capuchinhos. O Padre de
La 'Fare, apezar da sua avançada edade, escapou, para que ao menos
um Padre de Santa Cruz podesse sobreviver aos outros. Houve vinte Re~
coletas e outros tantos Observantes mortos no serviço dos doentes ; di-
versos Carmelitas descalços, Mínimos, e alguns Carmelitas Maiores. Não
fallarei dos meus queridos ecclesiaslicos, que se sacrificaram. Conside-
ro-me como um general que perdeu a flôr das suas tropas.»
Duzentos e cincoenla Sacerdotes da diocese de Marselha ou das dio-
ceses visinhas tinham effecti vamente succumbido, e depois da doença,
todos os dias chegavam outros novos que invejavam a sorte dos primei-
ros ~
Quando o contagio pareceu estar na declinação, mandau Mons. de
Belzuncio erigir, em dia de Todos os Santos, um altar no meio do Cours.
Sabiu do seu paço episcopal descalço, com a corda ao pescoço, como S.
Carlos, e, precedido dos Sacerdotes e religiosos que tinham ficado, foi
ajoelhar-se diante do Deus que castiga e perdôa. Alli cantou : Parce,
Domine, parce popolo tuo ! orando com ardor pelo seu rebanho. Oh !
quem poderia bem dizer a commoçTio do santo Bispo e o enternecimento
do povo em similhante ceremonia! As supplicas continuaram, e a i5 de
novembro Mons. de Belzuncio deu a benção a toda a cidade do alto d'um
campanario, ao som dos sinos e do canhão que advertiam os habitantes
para se pôrem em oração. Este espectacolo magestoso espalhou entre o
povo um religioso temor.
Sem embargo de tanta cbaridade da parte dos pastores, e tantas la-
grimas e orações da parte dos fieis, o Ceo permanecia insensivel e o fla-
gello conLinuava os seus estragos : ao Coração de Jesus estava reservada
a gloria de fazêl-o desapparecer. Com effeito, este Sagrado Coração foi
pela segunda vez o feliz recurso do santo Prelado. Por sollicitação sua,
os magistrados em corpo fizeram voto de ir todos os annos, em nome
da cidade, á egreja da Visitação, no dia da festa do Sagrado Coração,
para alli honrarem este digno objecto do nosso amor, receberem a sa-
grada Communhão, offerecerem uma tocha de cêra branca do pêso de

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DE PERSEVERANÇA. f 87
quatro libras, ornada do escudo d'armas da cidade, e finalmente assisti-
rem á procissão geral que o Prelada se propunha estabelecer perpetua·
mente n'aquelle mesmo dia. Este voto foi pronunciado publicamente
diante do altar da egreja cathedral pelo principal dos magistrados muni·
cipaes, em nome de todos, no dia do Corpo de Deus, antes da procissão
do SS. Sacramento que o Bispo tinha nas mãos, estando os magistrados
ajoelhados diante d'eUe. Todo o povo se uniu a m;n voto cujo feliz soe·
cesso esperava com fé viva.
Foi escutado d'um modo que causou admiração bem como consola-
ção a toda a cidade. Desde aquelle dia, todos os doentes sararam, e nin-
guem foi atacado da peste. A desconfiança, que, n' estes funestos tlagel-
los, faz muitas vezes mais damno que o proprio fl~gello, cedeu o logar
a uma plena confiança, crendo-se os habitantes de Marselha seguros sob
a protecção do misericordioso Coração do Salvador. O mal desappareceu
a tal ponto que, seis semanas depois, o virtuoso Pontífice, n'uma pasto-
ral que publicou para excitar os seus diocesanos á gratidão, lhes dizia :
cGozamos actualmente uma saude tarn perfeita, que, o que é sem e.tem-
plo n'uma cidade taro vasta e povoada como é esta, e o que é prodi-
gioso, quasi que já não temos em Marselha, ba algum tempo, nem mor·
tos, nem doentes de qualquer especie de doenças que seja, e tam pouco
no territorio.>
Cheio de reconhecimento por esta segunda graça, que pareceu ainda
mais subita e milagrosa que a primeira, Monsenhor de Belzuncio se apres--
sou a cumprir a sua promessa, e estabeleceu perpetuamente uma pro-
cissão gera1 para a festa do Sagrado Coração de Jesus. todos estes fac·
tos são mencionados pelas pastoraes d· este Prelado e pelas actas de de·
liberações dos magistrados municipaes da cidade de Marselha.
A' voz do Ceo, em favor da devoção no Sagrado Coração,-se juntou
em breve a voz da Egreja catholica, seu ecco infallivel. Depois «1as infor-
mações do costume, e é sabido quam longas e severas são as informações
da Côrte de Roma, o Papa Clemente XIII approvou a feita e o ofticio do
Sagrado Coração para o reino da Polonia. Alguns annos depois, o reino
de Portugal solliciton e obteve o mesmo favor. Já os Bispos de França,
segundo uma deliberação tomada a este respeito na assemblêa do elero
de 1765, haviam adoptado quasi geralmente a devoção no Sagrado Cora:..
ção nas suas dioceses. Desde essa epocha, foi sempre crescendo até ao
pontificado de Pio VI.
Este grande Papa, de santa e gloriosa memoria, deu nova approva-

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f 88 CATECISMO

ção a esta saudavel devoção e condemnou os que ousavam combatêl-a ('1).


A festa do Sagrado Coração foi fixada, segundo a revelação feita á vene-
ravel Margarida Maria, na sexta feira da oitava do SS. Sacramento. A fim
de lhe darem mais pompa, as egrejas de França a solemnisam no segun- ,
do domingo de julho.
III. PROPAGAÇÃO DA DEVOÇÃO NO SAGRADO CORAÇÃO. - A devoção no
Sagrado Coração tem-se propagado por todas as partes do mundo com
espantosa rapidez. Teem-se formado associações religiosas com o objecto
especial de honrar o Sagra<}o Coração do Salvador. Já uma d' estas congrega-
ções evangelisa os vastos arcbipelagos da Oceania; e outra, entre as mulhe-
res, participando do zêlo em que Jesus Christo inflamma os seus Aposto-
los, tem enviado differentes colonias á vasta diocese da Luisiana para coad-
juvarem, com respeito ás pessoas do seu sexo, os trabalhos dos missio-
narias que vão esclarecer com as luzes da fé o selvagem do Mississipi e
do Missuri. Não longe das margens d'este ultimo rio, ouve-se o joven ín-
dio cantar os louvores do divino Coração, que é ultrajado nas margens
do Sena.
Porque esta admiravel propagação, porque a revelação da devoção
no Sagrado Coração n'estes ultimas tempos? E' aqui que cumpre admirar
a Providencia que véla pela Egreja~ e a harmonia que Deus mantém en-
tre os desenvolvimentos da Religião e as necessidades do mundo. Ataca-
dos, negados e alterados por numerosas heresias, filhas do paganismo, os
dogmas da fé iam a ser objecto das sacrilegas zombarias da philosophia
do seculo passado. Deus, a alma, o ceo, a virtud.e, toda a religião, não
deviam ser para a maioria mais que um objecto de duvida ou Q.e des-
preso, mais que abstracções sem realidade, e sem influencia sobre a mo-
ral; n'uma palavra, o monstro da indifferença ia a surgir do meio do
sangue e das ruinas, e lançar o homem aos pés d'um idolo, d'um só ídolo:
o mNHErno ! ! ! E o coração do ho·mem, proprio para amar, ia a ser
entregue a indiziveis angustias, e a sociedade a convulsões incessante-
mente renascentes. .
N'este momento supremo é que Nosso Senhor mostra o seu divino
coração ao homem e á sociedade. Similhante a um pae que, depois de
ter esgotado todas quantas expressões de ternura póde subministrar a
linguagem, e todos quantos recursos encerra o amor paternal, para deter
na orla do precipício um filho querido, chama de repente este filho in-

(1) Vide a sua carta ao Bispo de l'istoia.

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DE PERSEVERANÇA. {89
· grato, e, descobrindo o peito, lhe diz: Vê f aqui está o meu coração; se
conheces outro que te ame com amor mais sincero, vae, dá-lhe o teu e
despedaça o de teu pae.
Assim faz o Salvador, pae dos homens e das sociedades modernas,
no momento em que vão precipitar-se na horrenda voragem da indiffe-
rença e impiedade. O' homens f parece dizer-lhes, esquecei tudo quanto
eu fiz por vós, o meu presepio, o meu desterro, o meu sangue e a mi-
nha cruz: mas pois que sois creados para amar, é-vos necessario um co-
ração, eis o meu; em troca, peço-vos o vosso. E' impossível que o vosso
coração não se dê a alguem, pois qne não póde viver sem amar, nem
amar sem se vender ou dar. Se o vosso coração deve vender-se, quem
melhor o póde comprar que aquelle que é a sua beatitude, o seu fim e
a sua eterna recompensa~ Se deve dar-se, quem melhor merece possuil-o
que aquelle que o creon? O mundo, a impiedade, a heresia, a indiffe-
rença e o dinheiro, pedem o vosso coração para o converterem n'um in-
ferno; eu peço-vol-o para fazer d'elle um paraíso já n'esta vida: esco-
lhei (t).
Em quanto fallava assim o Filho de Deus, o demonio incitava o zêlo
dos seus agentes, e organisavam-se na sombra sociedades para arrancar
ao Homem-Deus o coraçã<> do homem e da sociedade. Era chegada a
hora das trevas, e um espírito de vertigem, apoderando-se de grande
numero d'homens, arrastava para o abysmo os povos criminosos: porém,
n'esta lacta de morte, não será Deus vencido. Eis que o Coração sagrado .
reune em torno de si tudo quanto ha puro na terra, e sobem ao Ceo
votos e preces em nuvens d'agradavel cheiro. A justiça divina, é certo,
seguirá seu curso com respeito aos obstinados, mas será posto o contra-
pêso na balança, e a fé não perecerá.
IV. CoNFRARrA Do SAGRADO CORAÇÃO. - Com effeito, sob o pontifi-
cado de ·Pio VII, estabeleceu-se em Roma, centro da catholicidade, uma
associação forte e numerosa em honra do Sagrado Coração. Outras se
formaram egualrnente nas differentes dioceses da christandade; mas a de
Roma tornou-se o ponto central a que todas as outras vão rematar, se
não de facto, ao menos por intenção e desejo. Esta admiravel devoção,
que de Roma se diffunde por todos os lagares, até ás regiões mais re-
motas, e que por todas as partes se pratica com todos os exercícios pu-
blicas d'um culto que não teme a Juz, se acha opposta ao systema occulto,

(1) Nouet. Vide tambem os sermões de M. Legris-Duval. ·

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t90 CATECISMO

tenebroso, surdamente activo das sociedades secretas, anti-religiosas e


anti-sociaes.
A devoção no Sagrado Coração está em perfeita harmonia, não só
com as necessidades actuaes da Religião e da sociedade, senão tambem
com as grandes leis do mundo moral. Todos os seres descidos de Dêas
devem a EJle subir por intermedio do coração do homem, e o coração do
mesmo homem sobe por intermedio do Coração sagrado de Jesus. Assim
que a devoção n'este Sagrado Coração é o centro d'união a que todas as
outras vão ter e em que se perdem em certo modo, como os rios vão
lançar-se e confundiMe no Oceano. Todas as santas instituições, todas as
ordens religiosas unidas entre si por uma affeição pura no coração de
Jesus, reconhecem que, sob differentes nomes, é d'elle que sahiram como
d'uma fonte unica e commum, á qual devem todas voltar, ou antes que
nunca deixam, posto que d'ella derivem, como a luz não deixa o sol que
a gera e derrama (1 ).
E agora, pois que nos é necessario um coração, qual de nós recu-
sará escolher, que digo? acceitar"o de Jesus? pois elle nol-o offereee.
Que pede em troca? Uma só coisa, o nosso coração. E' demasiado? co-
ração por coração, de que lado está a vantagem 'l Apressemo' -nos pois a
entrar na associação do Sagrado CoraÇão de Jesus. Muitas graças e pou-
cas obrigações: eis as condições que se nos propoem.
Assim ha : t. 0 indulgencia plena ria na primeira sexta-feira ou no
primeiro domingo de cada mez; ~. 0 indulgencia plena ria no dia da festa
do Sagrado Coração ; 3. 0 indulgencia de sete annos e sete quarentenas
nos quatro domingos que precedem esta festa; 4.. º indulgencia de sessenta
dias 'por cada boa obra feita durante o dia; e 5. º indulgencia plenaria em
artigo de morte, com tanto que se invoque de coração, se não se póde
de bôcca, o santo nome de Jesus (2). Os assoeiados, segundo um res-
cripto de Pio VII, de jQ de março de t802, devem recitar devotamente,
todos os dias, um Padre-Nosso, uma Ave-Maria, o Credo, e a aspiração
seguinte ou qualquer outra que tenba o mesmo sentido :
A todo o instante do dia,
Coração do meu Jesus,
Ganhe em mim novo incremento
Do amor vosso o fogo e a luz!

(1) Vide Devoção prática no Sagrado Coração.


(2) Raccolta d'indmg., p. 210.

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DE PERSEVJi:l\A.NÇA. 191

Póde-se tambem, com grande utilidade, fazer o mez do Sagrado Co-


raçno, como se faz o mez de Maria ; é o mez de junho o que a piedade
catholica dedicou a esta bella e tocante devoção (1 ).

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor! graças vos don por haverdes
revelado ao mundo a devoção no Sagrado Coração de Jesus; concedei-
nos que correspondamos ao immenso amor em que esse divino Coração
está abrasado para comnosco.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de associar-me á devoção no sagrado Coração.

(1) Póde empregar-se para isso uma boa obrasinha intitulada: Mez do Sa-
grado Coração de Jesus.

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t92 CATECISMO

QU A DRAG ESI M A·SEP.TI MA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensiTel.

Vl•itação. - Sabedoria da E5reJ·a na eelebração da11 te111a•


da ss. Virsem. - Providenela de Deu• que •Ira o bem do
mat.-Orisem da t"el!!i'ª da Vi•i1ação.-Ltçõe11 que nolÍ dá a
88. Vir~em.-Al!!i•ompção.-Ortsem d'e••a le111a.-'I"radição.
-Triumpbo de Haria. - Soa bondade, .•eu p~der . no Ceo.-
Dieto de D. Berehmanl!il.-Dis&oria de s. E•&ani11lau Kot•ka.

1. V1srrAçAo. - Os povos conservam por meio de monumentos


os factos memoraveis da sua historia, e os filhos bem nascidos consa-
gram por meio de alegres festas as acções importantes de seus paes, ou
as circumstancias notaveis da sua vida. Admirar-nos-emos de que a
grande familia catholica haja perpetuado por meio de monumentos e fes-
tas os acontecimentos principaes da vida de seu pae e sua mãe, Jesus e
Maria ? Póde-se unicamente perguntar porque não datam as festas da SS.
Virgem dos primeiros seculos? Oh! abstende-vos de o crêr, não é isso
esquecimento da parte da Egreja. A viva cbamma da piedade mais terna
e filial para com Maria ardia no seu coração desde o dia do seu nasci-
mento, porém o tempo não lhe permittia manifestai-a. A delonga que,
a pezar seu, empregou na celebração publica das festas da Rainha do Ceo,
é uma nova prova da sabedoria divina que a caracterisa.
A Egreja, nascida entre os judeus, cresceu no meio dos pagãos. Em
quanto os seus primeiros discípulos, reunidos em pequeno numero em
torno d'um altar solitario, offereciam os seus corações ao só e unico
Deus, milhões d'bomens se prostravam ante milhares d'altares erguidos
a milhares de divindades extravagantes : para os pagãos tudo era deus,
excepto o proprio Deus. Qual era então, n'aquelles tristes seculos, a

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DE PERSEVERANÇA. t93
principal missão da Egreja? Era reconduzir os povos á unidade de Deus.
E eis porque se retrahia ácerca das honras ela SS. Virgem, a fim de não
dar occasião de lb'as prestarem excessivas, ou de renovarem ·sob outra
fórma a idolatria que era necessario abater. Os pagãos haviam adorado,
e adoravam ainda não sei quantas deusas, mães de falsos deuses. Não
era de temer que se passasse facilmente á adoração da Mãe do verda-
deiro Deus? Tal é o perigo contra que se tomavam precauções.
N'isto, coadjuvava a Egreja os mais ardentes votos da propria Ma·
ria, que desejava primeiro que tudo que só seu Filho fosse adorado em
espirita e verdade por toda a terra. Que digo ? O mesmo Deus parecia
auctorisar este proceder. Em tanto que coroava de gloria a morte e a
sepultura dos martyres, deixava n'uma especie de esquecimento a morte
e a sepultura de Maria, e as gloriosas circumstancias da sua vida divina.
Sempre fiel a si mesmo, e cheio de sollicitude pelo bem de seus filhos,
havia obrado da mesma sorle para com Moysés, cuja morte e sepultura
quiz que fossem desconhecidas e sem testimunbas, para que os israeli·
tas, sempre propensos á idolatria, não fizessem d'elle uma falsa divin·
dade (t).
Porém chegou o momento tam desejado em que a Egreja pôde ma·
nifestar sem constrangimento os transportes do seu amor a Maria. Aqui
tambem devemos admirar a sabedoria de Deus que tira o bem do mal,
e a gloria da Religião dos ataques dos seus inimigos. Por uma parte, atre-
vêra-se Nestorio a disputar a Maria a sua augusta qualidade de Mãe de
Deus; por outra parte, havia-se dissipado o perigo da idolatria pela coo·
solidação da Religião. A sabia discrição de que se tinha usado até en-
tão podia tornar-se perigosa, e a Egreja deu-se pressa em publicar as au-
gustas prerogativas de Maria, para as oppôr aos ultrajes que lhe faziam os
berejes. Edificaram-se templos sob a sua invocação, e instituiram-se fes-
tas em sua honra; mas lambem n'isto não obrou a Egreja senão gra·
dualmente, proporcionando todas as coisas ás necessidades dos tempos
e dos lagares.
II. OmGEl\I n'EsTA FESTA. - Assim é que nas grandes circumstan·
cias em que se tractava de reanimar a piedade dos povos ou de obter
do Ceo algum signalado favor, se viu estabelecer-se uma festa ou uma
devoção nova em honra da omnipotente e infinitamente boa Mãe de Deus.
A festa da Visitação, por_exemplo, era, é certo, celebrada na ordem de

(1) Vide Thomass., l. II, e. XX.

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194 CATECISMO

S. Francisco desde o meado do decimo-terceiro secnlo (t 263), e no Oriente


desde remota antiguidade; comtudo não se tornou universal senão no
pontificado d'Urbano VI. Este Papa, de gloriosa memoria, mandou so-
lemnisal-a com particular fervor, e preparar para ella até com um jejam,
a fim de alcançar pela intercessão de Maria a extincção do grande scisma
do Occidente que affiigia então a Egreja. Tendo morrido Urbano VI an-
tes de haver publicado as lettras de instituição, foi o seu successor Bo-
nifacio IX quem as publicou em f 389, transformando a obrigação do je-
jum n'um simples conselho. Finalmente, o concilio de Basilêa, em U.4t,
fixou a epocba d'ella no dia 2 de julho (t).
O objecto d'esta festa é honrar a Maria visitando sua prima Isabel,
e propôr-nos esta augusta Virgem como o modêlo da nossa charidade
para com o proximo. Dizei se o Summo Pontífice que a instituiu podia
achar exemplo mais bello e mais proprio para persuadir os dois partidos
então formados na Egreja a darem entre si o osculo de paz? Ora, esta
festa não perdeu nada da sua efficacia nem da sua opportunidade. Por
uma parte, a paz está talvez mais perturbada hoje que nunca; por outra
parte, é ella sempre egualmente propria para inspirar-nos cbaridade para
com nossos irmãos e para nos traçar as suas santas regras. Basta, para
d'isso nos convencermos, meditar na relação que nos faz o Evangelho da
visita da SS. Virgem a sua prima.
lll. EXEMPLOS DA SS. VrnGEM. - No mysterio da Annunciação, diz o
archanjo Gabriel a Maria que Isabel, sua prima, concebêra milagrosamen-
te, e que estava no sexto mez da gravidez. A SS. Virgem, por humilda-
de, occultou a surprehendente dignidade a que a elevava a incarnação do
Verbo no seu ventre; mas, transportada d'alegria e reconhecimento, quiz·
ir felicitar a mãe de João Baptista. Foi o Espirita Santo que lhe inspi-
rou esta resolução, para cumprimento dos seus desígnios sobre o Precur-
sor do Messias, que ainda não tinha nascido. Maria parti,u pois, e foi ao
paiz das montanhas, a uma cidade da tribit de Judá, e tendo entrado
em casa de Zacharias, saudou a Isabel (2).
A distancia de Nazareth, onde habitava Maria, á cidade d'Hebron,
onde se achava Isabel, não era menor de vinte a vinte e quatro leguas
(1) Ses. XLUI. Vide Spond. an. 1389, n. 1, et anno 1441, n. 3; Bened. XIV,
p. 470, n. 9.
(1) Lucas, I, 55. - Numquid forte dubiam adhuc et incredulam oraculo, re-
centiore voluit confirmare miraculo? absit. Sed ideo sterilis cognatm conceptus Vir-
gini nunciatur, ut d,um miraculum miraculo additur, gaudium gaudio cumuletur. S.
Bernardo, Homit., IV. Sup. missus.; id. B. Ambr., 1. II, in Luc.
,
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DE PERSEVERANÇA. 195

(-t ). Todavia a SS. Virgem não hesitou um instante em pôr-se a cami-


nho, e, posto que fraca e pouco habituada a supportar similbantes fadi-
gas, nada a pôde deter. Quem assim a apressa? E' o ardente-desejo de
ser util áquella santa familia, e de derramar n'ella a graça que leva com-
sigo. Filhos de Maria, que bello exemplo d'uma cbaridade prompta e
generosa nos dá aqui nossa Mãe r
Notemos que, faHando da partida de Maria para ir a Isabel, diz o
Evangelista que foi prompta e que ella se apressou na jornada, ao passo
qoe, qnanto ao regresso, não annuncia pressa e se contenta em dizer :
Maria esteve com ella cerca de tres mezes, e voltou a sua casa (2). «Que
outr9 rnoti\'O, pergunta S. Boaventura, poderia pois Jerar Maria a dar-se
tanta pressa em dirigir-se á familia de João Baptista, senão o de levar-
lhe a graça (3) ?»
Este desejo de ser util aos homens não abandonou a SS. Virgem
quando entrou no Ceo. Mui longe d'isso, ainda cresceu; pois agora Ma-
ria conhece melhor as nossas necessidades e compadece-se ainda mais
ternamente das nossas miserias. Deseja mais vivamente soccorrer-nos do
que nós mesmos desejamos ser soccorridos. «De sorte, continúa S. Boa-
ventura, que se julga offendida por aquelles que desprezam o recorrer
a ella, pois todo o desejo de Maria é derramar sobre todos os homens os
mesmos favores de que enche aquelles que a servem (!1-). :o
Esclarecida pelo Espírito Santo, conhecia Isabel o ineffavel myste-
rio da incarnação que Deus havia operado em Maria, posto que esta, por
humildade, não o quizesse descobrir. Transportada d'alegria e admira-
ção, exclamou a mãe do Precursor: Bemdita és tu entre todas as mu-
lheres, e bemdito é o fructo do teu ventre (5). Depois, volvendo os olhos
para si propria, accrescentou : E d'onde me vem esta felicidade que ve-
nha visitar-me a .Mãe do meu Senhor (6)? Exemplo da santa alegria e
do reconhecimento que devemos experimentar quando recebemos a visita
de nossos irmãos. Oh r quam altamente condemna o proceder d'Isabel os
desdens, as friezas, e as mentirosas civilidades f Condemnando-as, não
é talvei a nós que condemna ?
Isabel exprime o motivo da sua alegria : E eis que no momento em
(1) Baron., ..4.pparat. ad Annal. eccles., n. 77 e 78.
(2) Lucas, I, 56.
(3) Speet., e. LIV.
(4} In Prolog. Cant. B. V., e. I.
(5) Lucas, I, 57.
(6) Lucas, I, 58.

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t96 CATECISMO

que a tua saudação resoou aos meus ouvidos, o menino me estremeceu no


·ventre. Oh! quam feliz és por teres crido, pois has de v~r o cumprimento
de tudo qU11nto o Senhor te disse (1 ). Exemplo do que devemos louvar em
nossos irmãos: não as vantagens temporaes, não os dotes do corpo, não
os talentos, mas sim os dons de Deus, a virtude. João Baptista foi san-
tificado no seio de sua mãe. Teve por antecipação o uso da razão, e co-
nheceu, por uma luz sobrenatural, quem era aquelle que ia visitai-o. Este
conhecimento penetrou-o de tam viva alegria, que .estremeceu no ven-
tre d'Isabel. E quem foi a dispensadora d'este favor, e o instrumento
d'este primeiro milagre de Jesus, na ordem sobrenatural? Maria, sim,
Maria, que obteve mais tarde o primeiro milagre de seu Filho, na ocdem
da natureza.
O' Maria ! quam poderosa sois! mas sobretudo quam boa! Pois que
sois a dispensadora de todos os favores do Ceo na ordem da natureza e
na ordem da graça, sois a esperança de todos os homens e a minha em
particular. Graças sejam dadas a Deus, meu Salvador, que me fez co-
nhecer-vos, e que teve por bem ensinar-me ao mesmo tempo o meio de
chegar á graça e á salvação. Este meio sois vós mesma, augusta Mãe de
Deus! pois, bem o sei, aos merecimentos de Jesus e á vossa poderosa
intercessão é que eu devere1 a salvação.
O' minha Rainha, ó vós que tivestes tanto ardor em visitar a habi-
tação de S. ls;ibel, vinde tambem visitar a habitação da minha pobre al-
ma. Apressae-vos, pois sabeis melhor que eu quanto ella soffre, e quan-
tos males a inquietam; sabeis que é prêsa de mil movimentos desregra-
dos, de mil habitos ruins, e que a peste do peccado deixou n'ella funes-
tos vestígios que a devem conduzir á morte eterna; podeis enriquecêl-a,
ó vós thesoureira de Deus ! podeis cnral-a de todas as suas enfermidades.
Vinde pois visitar-me, em quanto estou n'esta terra; mas sobretudo na
hora da minha morte.
Mas se desejamos ser favorecidos com as bemaventoradas visitas da
Rainha do Ceo, vamos nós proprios visitai-a muitas vezes, dirigindo-lhe
as nossas orações, quer ao pé das suas imagens, quer n'uma egreja que
lhe seja consagrada. «Acreditae-me, diz S. Anselmo, muitas vezes mais
depressa encontraremos a graça dirigindo-nos a Maria qne dirigindo-nos
ao mesmo Jesus: não porqoe Jesus não seja a fonte de toda a graça,
mas é que recorrendo a sua Mãe ella rogará por nós, e os seus rogos

(1) Ibid. ' 59.

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DE PERSEVERANÇA. i97
terão sempre junto de seu Filho uma influencia muito maior que os nos-
sos (l). »
Não deixemos pois os pés d'esta divina Thesoureira das graças, e
repitamos-Jbe sempre com S. João Damasceno: «0' Mãe de Deus f abri-
nos a porta da misericordia, rogando incessantemente por nós; pois os
vossos rogos são a salvação dos homens, e a só coisa que temos que fa-
zer volvendo-nos para vós, é rogar-vos que peçaes por nós e que nos
alcanceis aquellas graças de que sabeis que temos mais necessidade.•
E' o que fez e o que nos ensina o irmão Reinaldo da ordem dos
Dominicos, como se póde vêr nas Chronicas d'estes (2). Este piedoso
servo de Maria estava doente, e implorava d'ella a sua cura. A Rainha
dos anjos Jhe appareceu acompanhada de S. Cecilia e .s. Catharina, e lhe
disse com infinita doçura: «Meu filho, que queres que eu faça por ti?-,,
Admirado d'esta pergunta, o religioso ficou embaraçado e não soube que
responder. Então uma das santas que acompanhavam a Virgem Jhe dis-
se: «Reinaldo, tu não sabes o que deves fazer: não peças nada, entre-
ga-te só a Maria, e ella te fará obter uma graça mais vantajosa que a que
tu terias escolhido.» O doente obedeceu, e foi curado.
Aos elogios que recebe d'lsabel, como responde a humilde Maria?
Envia toda a gloria áquelle que fez tam grandes coisas. «Minha alma,
diz a sua ~rima, glorifica o Senhor, porque se dignou~ de abaixar os olhos
para a humildade da sua serva (3), etc.• Exemplo do modo como nós
devemos receber os louvores.
Depois de tres mezes passados em casa d'Isabel, Maria toma o ca-
minho da sua humilde cidade. As precisões e a utilidade de seus paren-
tes regulam a duração da sua demora. Exemplo que condemna as inuti-
lidades das nossas conversações e as superfluas longuras das nossas visi-
tas.
O' Maria f graças vos dou pelo bello modêlo que hoje me offereceis.
Ensinaes-me a santificar uma das coisas mais importantes da vida, as
conversações e as visitas, que são a origem de tantos peccados para tam
grande numero de Chrjstãos. Quero, como vós, evitar todo o discurso
profano, vão e inutil; desterrarei das minhas conversações todàs essas

(1) Velocior est nonnunquam salus nostra, invocato nomine Marim, quam in-
vocato nomine Jesu. De excell. Virg., e. VI.
(2) Lib. I, e. V.
(3) Lucas, I, 62 . - Vide a explicação apologetica. do Cantico de Maria no
V. P. Canisius, De Maria V. Deipara, 1. IV, e. VII e VIII.
i3

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198 CATECISMO •
;
puerilidades que envilecem a alma, comprimem o espirito e dissipam o
coração.
IV. AssuMPÇÃO. - A festa da Visitação celebra-se a 2 de julho;
seis semanas d_epois, isto é, a t 5 d'agosto, vem a solemnidade da As-
sumpção. Eis o triumpho de Maria ; mas antes de o descrevermos, diga-
mos a origem d'esta bella solemnidade. O Evangelho nos diz que a SS.
Virgem foi confiada por Nosso Senhor ao discípulo querido, e a tradição
acc.rescenta que ella foi habitar com elle a cidade d'Epheso ; que era o
oraculo e a consolação dos Apostolos; que viveu, segundo a opinião mais
bem estabelecida, até á edade de setenta e dois annos, e que morreu em
Epbeso (t).
Instruída pelos Apostolos, creu sempre a Egreja que a augusta Mãe
de Deus fôra, immediatamente depois da sua morte, elevada ao Ceo em
corpo e alma, e que alli está assentada n'um throno só inferior ao throno
do proprio Deus. Sem ser artigo de fé, esta crença, expressa primeiro
obscuramente pelos Padres das primeiras edades, foi-se desenvolvendo
como differentes outras verdades, de sorte que reune boje as homena·
gens do Oriente e do Occidente (2).
A crença da Egreja funda-se, não só nos testimunhos que citamos,
e em mil outros ainda que se poderiam citar, senão tambem n'uma an-
tiga tradição mui espalhada no Oriente. Alguns dias antes de chamar a
si sua divina Mãe, diz essa tradição (3), o Senhor lhe enviou o archanjo
Gabriel. «Então, diz S. Jeronymo, se ouviu no sitio onde ella repousava
uma dôce harmonia, que foi para os santos Apostolos o signal de que
Maria ia deixai-os. N'aquelle momento supremo, redobrando em lagr~mas
e orações, ergueram as mãos para ella, e lhe disseram eom voz unanime:
O' vós, que sois nossa Mãe, deixaes-nos para subir ao Ceo. Derramae
(1) Bened. XIV, p. 493, 495. .
(2) Sanctissim.um corpus clarissimo prrestantissimoque tnmulo imponitur, an-
de triduo post in coolum attollitur... Sicuti sanctum incorruptumque iJlud cor~
pus 1 quod Deus ex ea personre sure copulaverat, tertia die e monumento surrexit,
sic etiam bane e tumulo abripi, matremque ad filium migrare par erat. S. Joan.
Damasc., Orat. II, de Dormit. Marice, n. 14.- Dominus susceptum Virginis corpus
sacratissimum in paradisum deferri jussit, ubi nunc, resumpta anima cum electis
ejus exultans, mternitatis bonis nullo occa uris fine perfruitur. S. Greg. Turon.,
Zib. de Miracul., e. IV.- Sententiam assumptionis Virginis in corpore et anima in
coolum non esse de fide; quia neque est ab Ecclesia definita, neque est testimonium
Scripturre, aut sufficiens traditio, qure iofallibilem faciat fidem; tamen summre te·
meritatis reus crederetur, qui tam piam religiosamque sententiam bodie impugna-
ret. Suarez, p. III, q. XXXVII, art. 4, disp. 25, sect. 1 J . - Bened. XIV, p. 491, n. 5.
(8) Cedreno, Oomp. Hist. Nicephoro, 1. II, e. XXI; Metaphrasto, de Dor-
mit. Mar.

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DE PERSEVERANÇA. 199
sobre nós a vossa benção, e não nos abandoneis; porque somos fracos e
mfelizes. Maria, volvendo para elles os olbos moribundos, lhes disse
como por ultimo adeus: Bemditos sejaes, meus filhos; eu nunca cessarei
de pensar em vós!» E em breve os Apostolos viram o Salvador, acom-
panhado dos seus anjos, vir receber a alma de sua divina Mãe.
Entretanto um dos Apostolos não podera assistir á morte de Maria
e receber a sua ultima benção, não chegando senão tres dias depois do
seu bemaventurado fallecimento. Penetrado de dôr e sentimento por ter
sido privado d'esta ventura, sopplicou ao sagrado Collegio que abris'se o
tumulo de Maria, para que podesse contemplal-a pela ultima vez. Abri-
ram-n'o, com effeito; mas, ó prodigio 1 o sepulcro estava vasio, e alguns
lyrios, symbolo de pureza e virgindade, haviam desabrochado onde esti-
vera deitado o seu casto corpo immaculado, corpo demasiado santo para
ficar na sepultura, e que os anjos e os archanjos, os serapbias e os che-
rubins, levaram nas suas azas, quando a voz de Deus o despertou do seu
curto som no (t).
Esta tradição tem inspirado muitos pintores, e os nossos grandes
· paineis d' egreja nºos mostram muitas vezes o Ceo todo povoado d'espi-
ritos celestes,_levando corôas e palmas á filha de David, que vae ser co-
rôada rainha dos ceos. A pedra do tumulo está tombada para o lado, e
vêem-se, entre as prégas da mortalha, as milagrosas flôres que desabro-
charam no fundo da sepultura (2).
N beata morte de Maria e a sua elevação ao Ceo em corpo e alma
era um acontecimento tam importante em si mesmo e tam glorioso para
a augusta Maria, que a Egreja não podia deixar de consagrar a memoria
d'elle por meio d'uma festa solemne. Com effeito, se a falta de monu-
mentos não nos permitte que mostremos a celebração d'esta festa desde
a edade dos Apostolos, a encontramos no .quarto seculo (3). O concilio
d'Epheso, segurando a Maria o seu glorioso titulo de mãe de Deus, deu
muita auctoridade ao culto que já lhe prestavam os fieis, e augmentou
por conseguinte a solemnidade da sua assumpção. Breve foi solemnisada
na Europa, no vasto imperio de Carlos Magno, e assim se tornou uma
festa catholica (4).
E' precedida d'um jejum e seguida d'uma oitava, o que mostra a

{1) Metaphrasto e Gregorio de Tours.


(2) Quadro poetico, p. 339.
(3) Bened. XIV, p. 505, n. 27 e 29.
(4) Cone. de Moguncia. em 813, can. III e VI.
*
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200 CATECISMO

grandeza d'esta solemnidade, que tem dois nomes differentes. Alguns


santos Padres lhe chamaram o somno ou descanço da bemaventurada
Virgem ; outros, mais commummente, a Assumpção de Nossa Senhora :
a Egreja adaptou ha muito esta ultima denominação. (1). Ora, esta pa-
lavra assumpção mostra muito bem a differença que existe entre a ma-
neira como a SS. Virgem subiu ao Ceo e aquella como subiu Nosso Se-
nhor. Subiu Nosso Senhor pela sua proprja virtude ; Maria, pela vjrtude
de seu Filho (2).
V. ENTRADA DE MARIA NO CEo. - Que penna poderia descrever a
entrada triumphante de Maria no Ceo? «Quando Jesus, diz um Santo
dos ultimos tempos, consummou pela sua morte a obra da redempção,
os anjos suspiravam pela sua volta ao Ceo, e Jhe repetiam incessante-
mente nos seus concertos estas palavras de David: Levantae-vos, Se-
nhor, parti para o vosso descanço, vós e a arca. da vossa santificação
(3).» A arca da vossa santificação, isto é, vossa divina Mãe, que vós san-
tificastes habitando n'ella. O Senhor quiz em fim responder aos desejos
dos habitantes da Jerusalem celeste, chamando a Maria para entre elles.
Mas se Elle julgára conveniente que a arca da antiga alliança fosse
introduzida com tanta pompa na cidade de David, que pompa não deveu
ostentar na entrada de sua Mãe na cidade divina? Não era sufficiente um
grupo d'anjos para formar-lhe a escolta; o proprio Rei dos anjos desceu
para a acompanhar com toda a côrte celestial. Eis pois o Filho do Eterno
que desce do Ceo para vir ao encontro de sua Mãe e que lhe dir1ge es-
tas dôces palavras : «Levantae-vos, apressae-vos, minha muito amada,
minha pomba, minha formosissima, porque o inverno passou e os seus
rigores desappareceram. Vinde do Libano, ó minha Mãe, vinde receber
a corôa que vos está destinada (4.). »
Maria deixa a terra ; mas, lembrando-se a quantos perigos e mise-
rias deixa expostos seus filhos, volve para elles olhares de compaixão e
d'amor, para lhes dizer que os não esquecerá nos esplendores da sua
gloria. Jesus lhe estende a mão, e Maria, atravessando com elle, ao ele-
var-se aos ares, as nuvens e as espheras celestes, chega ao umbral da

(1) Bened. XIV, p. 504, n. 23.


(2) Ascendit Salvator in coolum potestativre virtutis imperio, sicut Dominm1
et creator angelorum comitatus obsequio, non auxi1io fultus.~~Assumpta est Maria
in coolum, sed gratire sublevantis indicio, concitantibus et auxiliantibus angelis, quam
sublevabe.t gratia, non natura.. S. Petr. Damian., Ser. de Assumpt.
(3) Psal. CXXXI.
(4) Cantic., IV, 8.

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DE PERSEVERANÇA. 201
b.emaventurada mansão: abrem-se as portas eternas, e a Virgem de Judá
entra no Ceo do qual é rainha.
. Os Santos e os Espiritos celestiaes apenas a contemplaram, quando,
pasmados do seu fulgor e da sua formosura, exclamam com voz unani-
me: tQuem é esta que se eleva do deserto, tão brilhante de graças e vir-
tudes e qlle caminha encostada ao seu muito amado? Quem é aquella
que traz o mesmo Senhor no seu cortejo?• E unanimes acclamações res-
pondem: «E' a Mãe do nosso Rei, é a nossa Rainha, é a Santa das san-
tas, a muito amada de Deus, a pomba immaculada, a mais formosa das
creaturas. » E eis que todas as jerarchias dos ceos, os Anjos, os Archan-
jos, as Virtudes, os Potestades, os Principados, as Dominações, os Thro-
nos, os Cherubins, e os Seraphins, todas as ordens dos Santos, os Patriar-
chas, os Prophetas, os Martyres e as Virgens, d~poem-lhe aos pés as
suas corôas immortaes, proclamando os seus louvores.
Mas aquelles que correram a ella com mais ardor, foram nossos pri-
meiros paes, Adão e Eva. «Filha muito amada, lhe disseram, tu repa-
raste o mal que causára a nossa culpa ao genero humano, reconquistaste
ao mundo a graça que perdêra, e esmagaste a serpente que nos vencêra ;
tu é que nos salvaste, bemdita sejas por isso.» Em que termos deviam
saudal-a os auctores dos seus dias, S. Anna e S. Joaquim 1 E José, seu
esposo, que lingua humana poderia exprimir o jubilo com que viu a en·
trada tão gloriosa de sua esposa no Ceo 1
Faltam palavras para dizer com que amor, com que complacencia a -
acolheu a SS. Trindade: como o Pae recebeu n'ella sua filha muito amada;
o Filho, sua mãe; o Espirito Santo, sua esposa. O Pae chama-a a com-
partir o seu poder, o Filho a sua sabedoria, e o Espirito Santo o seu
amor. E as tres pessoas divinas lhe coroam a fronte radiosa d'um diade-
ma de doze estrellas mais brilhantes que os rubis e os diamantes, e, col-
locando-a no seu throno, ã direita de Jesus, a proclamam rainha do Ceo
e da terra, e mandam aos anjos e a todas as creaturas a reconheçam como
tal, a sirvam e lhe obedeçam em tudo (t).
VI. SuAs FUNCÇÕES. - E que faz Maria n'aquelle throno elevado?
Medianeira do genero humano com seu Filho e depois de seu Filho, in-
tercede por nós, advoga a nossa causa, tira ás mãos cheias dos the-
souros celestes, e distribue amplamente os perdões, as bençãos e as gra-
ças. Maria é rainha, porém rainha de clemencia e misericordia ; a sua

(1) Vide S. Liguori, Glorias de Maria, Assumpção"

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20! CATECISMO

bondade é illimitada, e o seu poder egaal á sua bondade (t) ; e. para


conceder-nos a sua protecção, que pede? Escutae um dos seus maiores
servos. O B. Bercbmans, cheio durante toda a vida dos mais signalados
faYores d' esta augusta Rainha, estava proximo a morrer. A communidade
reune-se em torno do seu leitot e o superior lhe ordena, em nome da
obedienciat diga a seus irmãos o que fez e o que é necessario fazer-se
-para merecer as brilhantes graças com que Matia o favoreceu. «0 que
pede Maria, responde o santo moribundo, é pouca coisa : A mais pequena
Jwmenagem, com tanto que seja perseverante (2).»
E' preciso mais para excitar nos nossos corações uma confiança in-
fantil ri' esta boa Mãe ? Dirijamo' -nos pois a ella em todas as nossas neces-
. sidades do corpo e da alma; roguemos-lhe sobretudo, pelos merecimen-
tos da sua bemaventur.ada morte, nos alcance um bom fim e faça com que
saiamos da vida, ou n'um sabbado, dia que lhe é consagrado, ou na oitava
d'alguma das suas festas, favor que ella tem alcançado a diversos dos seus
servos, e principalmente a S. Estanislau de Kotska, que morreu no mes-
mo dia da Assumpção.
VII. Eu:MPLO. - Este santo mancebo, que professára sempre por
Maria um affecto e uma devoção sincera, assistia, pelos princípios d'a-
gosto, a um sermão que prégava o Padre Canisius ante os noviços da
Companhia de Jesus. Exhortava-os a viverem sempre como se tocassem
no seu derradeiro dia e como se estivessem a ponto de apparecer diante
do tribunal divino. Acabado o sermão, disse Estanislau a um de seus ir-
mãos que sentia como que uma advertencia de Deus que lhe dizia que
aquelle mez seria o ultimo para elle. Ou effectivamente Deus lh'o houvesse
revelado, ou aquillo não fosse n'elle mais que um simples presentimento,
o successo justificou a predicção. Quatro dias depois, como fosse a S.
Maria Maior, disse a um P. da Sociedade, com quem conversava da
festa da Assumpção que se approximava, que lhe parecia que n'aquelle
dia devia haver, na celestial patria, como que um novo paraiso, por
causa da gloria da Mãe de Deus, coroada Rainha do Ceo e dos Anjos.
«E se é certo, accrescentou,. como creio firmemente, que a mesma so- '
lemnidade se renova todos os annos, eu espero assistir á primeira que
lá se celebrar.»
Ora, a· sorte déra a Estanislau por protector do mez S. Lourenço,

(1) Omnipotencia supplex.


(2) Quidquid minimum, dummodo sit constans.

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DE PtmSBVEl\ANÇA.

martyr, e diz ..se qoe eserevêra uma carta a Maria, soa mãe, para ob-
ter d'ella o favor de assistir á soa festa no paraiso. Em dia de S.
Lourenço commungou, e depois snpplieou ao Santo que apresentasse a
sua petição á Rainha dos Anjos e alcançasse d'ella que fosse deferida. Na
mesma tarde foi atacado de febre. Posto que fosse pouco violenta, nem
por isso deixou tle começar a persuadir-se de que fôra ouvida a sua sup..
plica e de que se approximava a hora da sua morte. Quando se mettia na
cama, ouviu-se-lhe repetir com visivel contentamento : e Não me levanta.. ·
rei mais.» Virou-se depois para o P. Aquaviva que estava presente : «Meu
padre, lhe' disse, eu creio que S. Lourenço me alcançou da SS. Virgem
· a graça d' assistir no Ceo á festa da sua assumpção. » Mas o padre não fez
caso algum d'estas palavras.
Chegou a vespera da festa. Ainda que a m·olestia continuasse a mos-
trar-se mui pouco grave, o Santo disse a um dos religiosos que na noite
seguinte já não existiria. «Ah ! meu irmão, respondeu este, seria mais
milagre o vêr-vos succumbir d'aqui até lá que o achardes-vos perfeita-
mente restabelecido.» Mas,· pelo meio dia, mudou de subito o estado do
enfermo; começou a sentir suores frios, e abandonaram-n'o as forças in-
teiramente : acudiu o superior. Estanislau pediu-lhe ordenasse que o es-
tendessem sobre a "terra núa, a fim de morrer como penitente.
Para o contentar, embrulbaram-n'o n'um cobertor e o esterfderam
effectivamente no chão. Alli, confessou..se e recebeu o sagrado Viatico no
meio 'das lagrimas de todos os que o rodeavam. Viu-se-lhe, quando en-
trou no quarto o SS. Sacramento, o rosto irradiar d' alegria celeste e tor-.
nar.se similbante ao d'om serapbim. Recebeu tambem a Extrema..unc-
ção, e, durante todo aquelle tempo, não fez outra coisa que orar, erguer
os o1hos ao Ceo, beijar e apertar ao coração uma imagem de Maria que
tinha nas mãos.
Tendo-lhe perguntado uni padre para que lhe servia o rosario que
tinha na mão, pois que não se achava em estado de o recitar: •Serva,
respondeu, para consolar-me, pois pertence a minha Mãe. - Breve vos
consolareis, tornou o padre, vendo e beijando humildemente as mãos da ·
propria Maria na morada dos bemaventurados. » Ao ouvir estas palavras,
iHflammou-se de novo o rosto do Santo, e levantou as mãos como para
manifestar o seu jubilo por se vêr em breve reunido com Maria. A di-
vina Mãe lhe appareeeu depois, como poderam perceber os assistentes,
e, poucos instantes depois, ao romper ..do dia t5 d'agosto," passou sem
dôr á paz dos bemav:enturados. Não cessou de apertar ao coração a ima-

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!04 CATECISMO

gem de Maria senão para ir beijar, no Ceo, os pés da sua augusta pa-
droeira.
VIII. MEIOS DE BEM SE CELEBRAR A Assu.MPÇAo. - E nós tambem, no
dia da Assnmpção, façamos brilhar a nossa alegria por termos no Ceo
uma mãe tam poderosa, tam boa e tam facil de contentar. Preparemo'-
nos para a sua festa por meio d'uma novena; tomemos a santa commu-
nhão como viatico, a fim de alcançarmos a graça d'uma boa morte. Para
. tornarmos completamente práticos os nossos sentimentos de devoção e
os nossos exercicios de piedade para com Maria, perguntemos-lhe mui
sériamente por que meios ella chegou a tal grau de honra e felicidade.
A dignidade de Mãe de Deus foi sem duvida uma coisa mui grande; com-
tudo não foi isso que Deus coroou em Maria. A sua fidelidade á graça,
tal foi a medida da sua gloria: tal será a medida da nossa. Filhos de
Maria, imitemos nossa Mãe, e tomemos hoje esta divisa : Fazer grande-
mente as pequenas coisas.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor l graças vos dou por me haver-
des outorgado em Maria uma mãe tam poderosa e tam boa ; concedei-me
que mereça a sua ternura pela constante fidelidade em imitar as suas vir-
tudes, a sua humildade, a sua pureza e o seu amor ao divino Filho.
Tomo a resoluç.ão de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
tomarei a SS. Virgem por minAa confidente.

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• DE PERSEVERANÇA. 20?)

QUADRAGESIMA·OITAVA LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel. .

Natividade da 88. VI reem .- Origem d'esta tes'ta.- Confiança


que Jnf!lipira. - Harla no berço. - Palavras de 8. Ambro-
810.- cHemorare,,. f'acto historico.-Festa do santo nome
de Haria. - A.pre11entac;ão, objecto d'e•ta f'esta. - Retrato
da ss. Virl'em.- Sua wida no templo.-Ori,;em. d'e8ta f'e111ta
. - Harla, virarem., esposa, mãe e viuva, typo da mulher
ehristã. - InOuencta do euUo da 88. Virgem.. - Batalha de
Lepanto.

1. On1GEM n'ESTA FESTA. - Se a Egreja catholica celebra com tanta


pompa e alegria a Assumpção de_Maria, como não havia de consagrar com
uma festa solemne o seu bemaventnrado nascimento? A 8 de setembro
convoca todos os fieis para o berço da divina menina. Segundo os cal-
culas mais exactos e as tradições mais respeitaveis, nasceu Maria em Na-
zareth, no reinado de Herodes, na occasião em que este impio príncipe
procurava aniquilar a real raça de David, a fim de impossibilitar o cum-
primento das prophecias que annunciavam que o Salvador do mundo
sahiria da familia de Jessé. Passava-se isto no vigesimo-segundo anno do
reinado d'Augusto, sob o consulado de Marco Druso Livio e Quinto Cal-
purnio Pisão; por conseguinte no anno de Roma 738.
O nascimento da SS. Virgem foi a 8 de setembro, como estabele-
cem as auctoridades que precedentemente citamos, e não é sem myste-
rio que foi escolhido este dia para dar ao mundo a nova Eva. Uma tra-
dição conservada entre os hebreus diz que a primeira Eva foi creada n'esse
dia. Portento de graça e belleza, a primeira mulher arrebatou o coração

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CATECISMO
' d'Adão ·e pôz o remate á sua felicidade. No mesmo dia a nova Eva, da
qual não era a primeira mais que figura, appareceu na terra, e pela sua
graça e formosura incomparavel apresf-mtou, se é licito dizêl-o, aos olhos
de Deus o espectaculo mais arrebatador que Elle ainda tinha contem-
plado (t).
Todavia, pelas razões expostas na lição precedente, e por outras
ainda tiradas da sabedoria da Egreja, que desenvolve com os seculos os
meios de reanimar a piedade de seus filhos, não apparece a festa da Na-
tividade, pelo menos com brilho, desde o principio do Christianismo. O
primeiro e mais antigo monumento que temos é o Sacramentaria de S.
Leão Magno e dos Papas seus predecessores, no qual se encontra, as- ·
sim como no Sacramentario de S. Gregoi'io, a festa da Natividade da SS.
Virgem com missa e orações proprias (2).
Antes do septimo seculo era geralmente celebrada na Egreja, e, an-
tes do fim do nono, era em França uma das mais solemnes (3). A cidade
d'Angers parece ter-se distinguido n'este caso pela sua piedade para com
Maria e pela pompa coin qué os seus habitantes festejavam a Natividade.
D'onde vem, segundo conjecturas bastante provaveis, que as províncias
visinhas chamem a esta festa a Angevina, como tirando a sua origem do
Anjú (4.). O Oriente rivalisou em breve em zêlo com o Occidente; e,
desde o meado do duodecimo seculo, alli vêmas a festa da Natividade ce-
lebrada com a mesma pompa que as maiores so1emnidades da Egreja (5).
Só o nome de natividade indica o objecto da nossa de"oção. Se fi-
lhos bem nascidos vêem voltar com impaciencia, e celebram com felici-
dade o dia do nascimento d'uma mãe querida, se se apressam á porfia a
offerecer-lhe votos e ramilhetes, pó de-se imaginar com que sentimentos
devem palpitar os corações dos filhos de Maria, no dia que lhes dá tal
mãe. Os paes celebram tambem com regosijo o nascimento e o dia anni-

(1) Idem ergo mensis, secundam nobis Evam mulierum omnium et puleher-
rimam et dignissimam non temere dedit, qure singulari sui conditoris beneficio sic
formata et exornata prodiit, ut si humano more loquendum sit hetitioribus quidem
oculis vivum in terris hominem nunquam aspexerit Deus, in quo post Christum nihil
maculre, et plus gratire verreque pulchritudinis et ainabilitatis deprehenderet. V.
P. Canisius, De Maria V. Deip., 1. I, e. XI, p. 75.
(2) Bened. XIV, p. 513, n. 7; Baron., not. ad Martyrol., 8 de setemb.
(3) Nullius igitur nativitas celebratur in mundo nisi Christi, et ejus {scilicet
B. Marire) atque B. J oannis, etc. S. Ildef. Biblioth. PP., t. XII, p. 566 ; Wal-
terius, episcop. Aurelian. CXVlII, de Ordinib.; Bened. XIV, p. 513, n. 8. ·
(4) Ainda hoje se chama, na Bretanha, á feira da Natividade a feira da An-
gevina.
(5) Baillet, Hist. da Nativ.

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DE PERSEVERANÇA, 207
versario do nascimento de seus filhos. Este costume, taro proprio para
conservar o espírito de familia, é tocante e Iouvavel. Todavia não parece
mais rasoavel chorar pelos filhos quando chegam ao valle das miserias,
pensando que nascem, não só sem razão e sem merecimento, senão tam-
, bem filhos de cólera, manchados do peccado, e destinados ãs dôres e á
morte?
Assim é que a Egreja catboJica, elevando-se toda a altura da fé acima
da ordem e dos sentimentos da natureza, celebra, não o nascimento, mas
sim a morte de seus filhos. Vêde a profunda exactidão da sua linguagem:
chama natividade ou nascimento á morte dos seus Santos ! Com effeito,
no dia do seu passamento é que os escolhidos deixam esta vida mortal
para nascerem para uma vida verdadeira, immortal e gloriosa. A esta
grande regra, não conhece a liturgia catbolica senão duas excepções ·:
S. João Baptista e a SS. Virgem. Celebra a festa do primeiro no dia em
t}ue veio ao mundo, porque veio santificado e confirmado em graça. Com
maior razão devia celebrar a natividade de Maria, d'Essa que appareceu
na terra cheia de graça e adornada _dos dons de Deus (t).
Exempla da lei do peccado original, e predestinada para a materni-
dade divina, é fóra de duvida que foi Maria a alma mais bella que sahiu
das mãos do Creador, como depois da incarnação foi a obra mais per-
feita e mais digna do Todo-Poderoso n'este mundo. «Por quanto, diz
S. Tbomaz, Deus proporciona as graças que concede aos homens ao
grau de dignidade que lhes destina. De sorte que, antes de ser Mãe de
Deus, recebeu Maria do alto todas as graças que deviam tornal-a digna
d' essa preeminente prerogativa (2). » E eis porque o archanjo Gabriel a
saudou com estas palavras: Tu és cheia de graça.
II. MEIOS DE BEM A CELEBRAR. - Nós tambem de\'emos saudai-a
cheia de graça. FHhos de Maria, rennamo'-nos hoje em torno do·seu ber-
ço, e dirijamos a nossa amavel Mãe as nossas orações e homenagens.
Tam joven como é, vê-nos e ouve-nos. Que confiança nos deve animar!
(1) S. Ag ., in Nativ. B. Joannis Bapt. -Dicuntur quidem sanctorum festi-
vitates natalitia, et merito; quomodo enim consuete nasci dicitnr, curo quis de utero
matris procedens in luccm egreditur; ita rectissime potest natus dici, qui a vincalis
carnis solutos ad lucem sublimatur retemam. Et inde mos obtinuit ecclesiasticus, ut
dies beatorum martyrum, sive confessorum Chr isti, quibus de seculo transierunt, na-
t ales vocitemus, eorumque solemnia non. funebria, sed natalia. dicamus . Raban
Maur . , de lnstit . Cleric . , e. XLIII.-Proptereapost celebritatemnativitatis J oan-
nis Baptistm sacratissimam et jncundam, quia sine peccatus natus est peL' sanctifi-
cationem, instituit Ecclesia nativitatem beatm et gloriosre semperque Virginis Ma-
rim celebriter fieri, admonita prius miraculo. Gerson. , Serm. de l:Vativ . B. Vir .
(2) Thom., q. XXVII, a. 5 ad 2 .

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208 CATECISMO

No dia da sua festa, póde uma mãe recusar coisa alguma a seus filhos?
Se somos culpados, ella pedirá perdão para nós. Se somos justos, nos
prodigalisará as demonstrações d'nma ternura particularíssima. Quere-
mos arrebatar-lbe o coração? Imitemos as suas virtudes. Creancinhas,
principalmente, vinde vêr esta santa menina, vosso modêlo e vossa mãe.
Elia ama, pede primeiro qne tudo os Jyrios e as rosas do pudor. E vós,
donzellas, que deveis tudo a Maria, ella vos convoca em torno do seu
berço, vos convoca para o espectaculo dos seus primeiros annos.
«Vinde, diz S. Ambrosio, e ponde ante os olhos a vida e a virgin-
dade de Maria ; será como um espelho em que vereis o modêlo da cas-
tidade e da virtude. Q primeiro motivo d'imitação é a nobreza do mes-
tre. Ora, quem mais nobre que a Mãe de Deus?... Elia era virgem de
corpo e d'espirito, e d'mna pureza incapaz de qualquer disfarce; era
humilde de coração, grave nas suas falias, e cordata nas suas resoluções.
Fallava pouco, e não dizia senão o que era necessario. Lia com assidui-•
dade os livros da lei, e punha a sua confiança, não em riquezas perece-
doiras, senão nas orações dos pobres. Sempre fervente, não queria se-
não a Deus por testimunha do que se passava no seu coração. Era a Elle
que referia tudo quanto fazia ou possuía.
((Longe de causar o minimo desgosto a quem quer que fosse, todos
sentiam a sua indole bemfazeja. Honrava os seus superiores, e não ti.
nha inveja aos seus eguaes ; evitava a vangloria, seguia a razão, e amava
com ardor a virtude. Os seus olhares eram cheios de doçura, e as suas
palavras repletas de affabilidade; todo o seu proceder tinha o cunho da
modestia. Nada se notava nas suas acções que não fosse decoroso; a sua
alegria nada tinha de leviana; a sua voz nada annunciava que viesse d'um
fundo d'amor-proprio.
«O seu exterior era tam bem regulado, que o aspecto do corpo era
a pintura da alma e um modêlo completo de· todas as virtudes. A sua
charidade para com os pobres não conhecia limites. Praticava longos je..
juns, e escolhia para alimento não o que lhe podia lisongear a sensua-
lidade, mas sim o que era sufficiente para sustentar a natureza. Consa-
grava aos exercicios da piedade os momentos destinados ao somno. Se
sabia, era só para ir ao templo, e sempre na companhia de seus paes (t ). »
E nós todos, Cbristãos, qualquer que seja a nossa edade ou condi-
ção, alegremo' -nos com Maria, menina, porque nasceu tam santa, taro

(1) I.lib. de 'Virgin.

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DE PERSEVERANÇA. 209
querida a Deus e cheia de tantas graças. Alegremo'-nos não só por causa
d'ella, senão lambem por nós mesmos; pois a graça que ella trouxe ao
vir ao mundo não é menos para nós que para ella. Temamos perder a
confiança e devoção em Maria, pois é o canal de todas as graças.
Quando Holophernes quiz apossar-se de Bethulia, começou por cor-
tar-lbe os aqaeductos. Quando o demonio quer entrar n'uma alma, busca
primeiro roubar-lhe a devoção em Maria, bem persuadido de que, inter-
ceptado o canal da graça, essa alma perderá em breve a luz, o temor de
Deus, e finalmente a salvação eterna. Assim que, qualquer que seja o es-
tado da nossa alma, quaesquer qae sejam o numero ou a enormidade
das nossas culpas, recorramos a Maria; refugio dos peccadores mais aban-
donados, ella nos estenderá mão charidosa, e nos salvará. Do fundo das
nossas miserias, façamos subir a ella esta supplica a que não sabe resis-
tir o seu coração: Lembrae-vos, Virgem piissima, etc. Memorare, o piis-
sima Virgo Maria, etc.
III. EXEMPLO. - E' necessario relatar esse facto tam celebrisado,
e que bastaria por si só, quando não tivessemas o testimunho de todos
os seculos, para fixar a nossa confiança em Maria nas nossas maiores ne-
cessidades, como a ancora fixa o navio no meio da~ tempestades? No
reinado de tuiz XIII, vivia em Paris um santo Sacerdote, chamado Ber-
nardo, ou o pobre Sac~rdote. Os seus bens tinha-os consagrado aos po-
bres, e a sua vida e a ternura do seu coração aos infelizes que a justiça
humana fere com a sua espada. Ora, succedeu que um criminoso, con-
demnado a ser rodado, não queria ouvir fallar em confissão. Levaram
esta noticia ao pobre Sacerdote, que immediatamente correu á prisão.
Introduzido no carcere, sauda o prêso, abraça-o, exhorta-o, sugge-
re-lhe sentimentos de confiança, e ameaça-o com a ifa de Deus; porém
nada lbe faz impressão. O criminoso nem sequer se digna de olhal-o e
parece surdo ao que se lhe diz. O confessor lhe roga que ao menos tenha
a bondade de recitar com elle uma oração mui breve á SS. Virgem, a qual
protestava nunca ter recitado sem alcançar o que pedia.
O prêso faz um gesto de desprêso, e recusa <lizêl-a. O P. Bernardo
não deixa de a recitar do principio ao fim. Mas, vendo que o peccador
obstinado nem sequer quizera descerrar os dentes, a sua charidade o exalta,
o seu zêlo o inspira, e levando á bôcca do endurecido um exemplar d'a-
quella oração que trazia sempre comsigo, se esforça por fazêl-a entrar,
dizendo: Já que a não queres dizer, has de com~l-a.
O criminoso, estorvado pelos ferros, e não podendo defender-se d'esta

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2i0 CATECISMO

importunidade, promette, ao menos para se livrar d'ella, recitar a ora-


ção. Bernardo põe-se de joelhos com elle, repete a oração (Memorare),
e apenas o prêso pronunciou as primeiras palavras se sentiu inteiramente \
mudado. Uma torrente de lagrimas lhe corria dos olhos; rogou ao santo
Sacerdote que lhe désse tempo de dispôr-se para a confissão; e como se
recordasse dos desvarios da sua vida na amargura do eoração, tanto o
tocou a enormidade dos seus crimes e a grandeza das misericordias di·
vinas, que na mesma occasião expirou de dôr.
Aprendendo pelo seu exemplo quanto a protecção d'aquella que a
Egreja chama o Refugio dos peccadores póde ser util aos que a pedem
com confiança~ lembremo'-nos só de que o respeito, o zêlo, a filial ter-
nura . para com nossa Mãe, e sobretudo a imitação das suas virtudes, é que
nos hão de tornar dignos dos seus favores.
No ultimo dia da oitava da Natividade celebra-se a festa do santo
Nome de Maria. Pelo seu decreto do anno de 1683, tornou o Papa In-
nocencio XI esta festa, até então particular á Hespanha, obrigatoria para
a Egreja universal. N'esta ordem, áliás tam grata para executar-se, cum-
pre vêr mais um te~timunho do reconhecimento da Egreja para com a
SS. Virgem. A Rainba das virgens mostrou-se sempre inimiga pessoal
do mahometismo, grosseira religião dos sentidos. No decimo-sexto seculo
havia-o afogado nas agnas de Lepanto ; mas, escapando em parte a este
vasto naufragio, o mahometismo ameaçava de novo a christandade.
Em t683, o gran'-vizir, á frente d'um formidavel exercito, foi pôr
cêrco a Vienna, um dos baluartes da Egreja. João Sobieski, á frente dos
seus polacos, corre em defensa da cidade sitiada. Na manhã da batalha
põe-se, assim como o seu exercito, sob a protecção da SS. Virgem. To-
das as tropas estão de joelhos, em tanto que Sobieski ajuda á missa no
convento dos Camaldnlos, orando todo o tempo com os braços estendidos
em fórma de cruz. Alli, diz com profunda verdade um guerreiro chris-
tão, é que o gran'-vizir foi derrotado. Ao sahir da Egreja, Sobieski
manda tocar a carregar. Os turcos, feridos de terror, deitam a rugir e
abandonam todo, até o grande estandarte de Mahomet, que o vencedor
enviou ao Summo Pontifice como homenagem a Maria.
Como dizer o respeito que merece o nome de Maria, a um tempo
tam poderos0 e tam bello ! Instruam-nos os seculos christãos. Primeira-
mente crê-se que o proprio Deus o revelou aos paes da SS. Virgem (t ).
(1) Die quo n~ta est (B. Virgo) impositum est ei nomen Maria. a parentibus
secundum angelicam i·evelationem. IS. Antonin., p. IV, t. XV, e. XIV.

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DE PERSEVERANÇA. 2H
Por espaço de muitos seculos foi prohibido ás mulheres, até mesmo de
sangue real, o tomarem o nome de Maria. Affonso VI, rei de Castella,
devendo esposar uma princeza mourisca a quem era necessario dar um
nome ao baptisal-a, prohibiu que lhe déssem o nome de Maria, posto que
a joven o desejasse vivamente.
No auto de casamento da duqueza Maria Luiza de Nevers com La-
dislau, rei da Polonia, estipula-se que a primeira deixaria o nome de Ma-
ria e só conservaria o de Luiza. Casimiro I, outro rei da Polonia, fez o
mesmo quando esposou Maria, filha do duque da Russia. D'onde veio o
costume, tanto tempo conservado na Polonia, de nenhuma mulher, de
qualquer condição que fosse, dever ter o nome de Maria. Estes exemplos
nos dizem que veneração devemos ter para com este augusto nome; assim
como a victoria de Sobieski, a confiança com que devemos pronunciai-o.
Digamos pois: O Maria, o nomen sub quo nemine desperandum (2).
IV. ÜBJECTO DA FESTA DA APRESENTAÇÃO. -Filhos de Maria, deixae
agora o seu berço; eil-a joven, mui joven ainda, que caminha para o tem-
plo de Jerusalem, aonde a chama a voz de Deus: voemos após ella, e ce-
lebremos a festa da Apresentação.
A Apresentação é a festa estabelecida pela Egreja para consagrar a
memoria d'um acto solemne que fez Maria ainda menina. Uma tradição
constante, cuja origem remonta aos primeiros dias do Cbristianismo, nos
diz que a augusta Virgem. de edade de cerca de tres annos, foi apresen-
tada no templo' de Jerusalem, onde se consagrou inteiramente ao Senhor
(3). Dotada da plenitude das suas faculdades, fez a Deus voto de vir-
gindade, e foi a primeira que ergueu este estandarte sagrado que depois
reuniu legiões de virgens. Era costume entre os judeus consagrar os fi-
lhos ao serviço do Templo e fazer educar as meninas á sombra tutelar
do santo edificio. Tendo sabido Maria que seus paes, fieis a este costume
sagrado, haviam promettido ao Senhor ao pedirem-lhe um filho offere-
cer-lh'o, teve por felicidade anticipar-se ao seu voto. Quiz ella propria
consagrar-se ao Senhor, e foi a primeira a pedir-lhes que fossem cumprir
a sua promessa. «Anna não hesitou, diz S. Gregorio de Nyssa, em ceder
ao desejo d'ella; conduziu-a ao Templo, e offereceu-a ao Deus d' Abrahão. »
Mas vejamos de que maneira fizeram Anna e Joaquim a Deus o sa-

(2) Bened. XIV, p. 519, n. 3.


(3) S. Gregorio de Nyasa, S. João Damasceno, 8. Germano de Constantino-
pla, S. André de Creta e S. Gregorio de Nicomedia, dizem que foi de edade de t1·es
annos. Vide Bened. XIV, p. 532, e Canisius, 1. I, e. XII.

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2!2 CATECISMO

crificio do que tinham mais charo no mundo. Partiram de Nazareth para


Jerusalem, levando alternativamente nos braços sua filha querida, ainda
mui joven para supportar as fadigas d'uma jornada de trinta leguas. Com
elles iam um pequeno numero de parentes; porém os anjos, diz S. Gre-
gorio de Nicomedia, lhes serviam de cortejo e acompanhavam em lropel
a joven e pura Virgem, que ia offerecer-se no altar do Senhor.
Quando a santa companhia chegou ao Templo, a dôce menina se vol-
veu para seu pae e sua mãe, lhes beijou as mãos, e pediu-lhes a ben-
ção ; e, sem hesitar mais, transpôz os degraus do santuario e correu a
offerecer-se ao Gran'-Sacerdote. Quanto foi bello, quanto foi solemne, o
momento em qne a divina Menina pôz os pés no sagrado atrio ! O pro-
prio Deus celebrou este dia memoravel em que viu entrar no Templo sua
casta esposa: pois nunca creatura alguma tam pura e tam santa se offe-
recêra a EI le (f ). E quando Maria consagrou ao seu Deus a alma e o~
corpo, sem reserva nem remissão, com que amor devia exclamar: O meu
muito amado pertence-me, e eu pertenço-lhe a elle (2).
Gozemos nós mesmos esse espectaculo arrebatador, contemplando
o retrato que S. Epiphanio, nascido na Palestina, nos conservou d'esta
admiravel menina: «Maria, diz elle, mostrava-se em tudo cheia de reserva
e gravidade; fallava pouco, escutava com boa vontade, e era mui affavel,
mui zelosa e mui respeitosa para tudo quanto a rodeava; era de estatura
um pouco mais que mediana; tinha a côr levemente doirada, ·os cabellos
loiros, os olhos vivos, as pupillas mui ovaes e côr d'azeitona, os sobr'
olhos arqueados e d'um negro mui gracioso, o nariz comprido, os labios
rosados e d'uma ineffavel suavidaue de palavras, o rosto oval, e as mãos
e os dêdos de comprimento mais que mediano. O seu Nestuario era mui
simples e da côr natural da fazenda de que era feito; finalmente uma
graça divina respirava em toda a sua pessoa (3). »
(1) Bernardin. de Busto, Marian., p. 4. Serm. 1.
(2) Cantic., 1, 12.
(3) Erat Maria in rebus omnibus honesta et gravis, pauca. admodum eaque
necessaria loquens, ad audiendum facilis, et perquam a:ffabilis, honorem suum et ve-
nerationem omnibus exhibens; statura mediocri, quamvis sint, qui eam aliquamtu-
lum mediocrem longitudinem e:x:ces1Disse dicant. Colore fuit triticum referente, capillo
flavo, oculis acribus: subflavus et tanquam olivre colore pupillas in eis habens. Su-
percilia ei erant inflexa e decenter nigra : nasus longior, labia flori da et verborum
suavitate plena: facies non rotunda et acuta, sed aliquanto longior, manus simul et
digiti longiores. Erat denique fastu s omnis expers, simplex, minimeque vultum
fingens, nihil mollitiei secum trahens, sed humilitatem prrecellentem colens. Vesti-
mentis qu::e ipsa gestavit coloris nativi contenta fuit: et quod etinmn um sanctum
capitis ejus velamén ostendit, et ut paucis dicam in rebus ejus omnibu s multa di-
vinitus inerat gratia. S. Epiph., Orat. de Ma1·., apud Canis., l. I, e. XIII, p. 95.

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DE PERSEVERANÇA. 2f3·

Quem contará agora a vida angelica de Maria no Templo? A santa


menina, diz S. Jeronirno, regulava assim o seu tempo: e Desde pela ma-
nhã até á terceira hora do dia, estava em oração ; da terceira á nona, tra-
balhava, e depois começava de novo a orar até á occasião de comer. Pu-
nha todo o zêlo em ser a primeira nas santas vigilias, a mais exacta em
observar a lei, e a mais humilde e perfeita em virtude entre tod~s as com-
panheiras. Nunca se surprehendeu n'ella um sentimento d'ira, e todas as
palavras da sua bôcca eram tão cheias de doçura, que era facil 'de reco-
nhecer n'ellas o espírito de Deus (t ). »
V. ÜRIGEl\1 n'EsrA FESTA. - O acto que Maria acabava de praticar
apresentando-se no Templo, era tão importante e instructivo que a Egreja
catholica não podia deixar de apressar-se a consagrai-o por meio d'uma
festa solemne. O Oriente foi o primeiro que fez celebrar a Apresentação.
Encontra-se já nas constituições do imperador Manuel Commeno no meado
do duodecimo seculo, em i U3. Dois seculos depois, em i37 4., depois
das Cruzadas, passou esta festa ao occidente, no reinado de Carlos V, rei
de França.
Eis, em que termos escreveu este religioso monarcha aos doutores e aos
estudantes do collegio de Navarra, em Paris : «Soube do chanceller de Chy-
pre que a apresentação da Virgem no Templo, quando ainda não tinha
de edade senão tres annos, se celebra mui solemnemente no Oriente, a
2t de novembro. O mesmo chanceller, sendo embaiiador do rei de Chy-
pre e JerusaJem em Avinhão, fallou ao Papa d'esta festa religiosamente
observada pelos gregos e lhe apresentou o officio d'ella. O Papa examinou
esse officio e o mandou examinar pelos Cardeaes e par Theologos. Ap-
provou-o e permittiu . a celebração d'esta festa, que elle mesmo solemni-
sou com grande concurso de povo. Tendo vindo o mesmo chanceller a
França e tendo-me apresentado o officio, fiz celebrar a festa na Santa Ca-
pella ; diversos Prelados e outros senhores se acharam presentes, e o Nun-
cio do Papa fez uma prédica muito eloquente (2). »
Tal é a maneira como a festa da Apresentação passou do Oriente
ao Occidente e principalmente a França, onde foi observada por man-
dado do piedoso monarcha cujas palavras acabamos d'ouvir. Os sue·
cessores de Gregorio IX, a quem foi apresentado o officio da Apresen-
tação pelo embaixador de Cbypre, enriqueceram de numerosas indulgen-

(1) De HÜJt. Vit. Mar.; Ca.nisius, de Mar. Deip. Virg. 1 1. I, e. XII.


(2) Thomass., 1. II, e. XX.
u
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CATECISMO

cias esta bella festa, que tomou Jogar entre as solemnidades da Egreja (1).
VI. INFLUENCIA DA VIDA DE MARIA SOBRE A MULHER CHRISTÃ. - Aqui
teem cabimento algumas reflexões sobre a vida da nova Eva e· sobre a
saudavel influencia dos seus exemplos. Em todas as suas festas, se apre-
senta Maria como o modelo e o typo da mulher christã. Filha, esposa,
mãe e viuva, passou Maria por todos os estados da mulher, a fim de ser
um modelo universal. Mas em Maria domina uma grande qualidade a tÓ-
das as outras, e dura desde o berço até a sepultura, e é a virgindade.
Com effeito, á virgindade, ou ao menos á pureza conjugal, estão unidas,
para a mulher, a honra, o respeito e a rehabilitação. Oxalá ella o não es-
queça!_ lJma só coisa torna a mulher constantemente respeitavel e a faz
objecto d'uma especie de culto e veneração, e é o pudor. Tal é, repeti-
mos, a primeira condição de salvação e rehabilitação para a mulher.
Filha, ensina Maria á mulher o meio de conservar o seu mais bello
adorno, o Jyrio embalsamado da innocencia, e é occultar-se á sombra do
santuario. Terna piedade e fuga do mundo, tal é a segunda condição de
salvação e rehabilitação para a mulher.
Esposa, ensina Maria á mulher o meio de eiercer sobre seu esposo
esse ascendente irresistível qne, afastando d'ella o anathema proferido
contra Eva, lhe faz recobrar todo o imper:u que deve ter para felicidade
da familia, para sua propria felicidade e para a da sociedade (2). A dôce
Maria obedece, ora, trabalha e calla. José falia, e Maria parte para Beth-
lem, para o Egypto, para Nazareth, para Jerusalem. Doçura, obedien-
cia, trabalbo, oração e silencio, tal é a terceira condição de salvação e re-
habilitação para a mulher.
Mãe, não apparece Maria no mundo pela primeira vez senão para
exercer uma obra de charidade. Tracta-se de levar a benção á familia de
sua prima : ella vôa. A cbaridade, as boas obras, oh 1 sim, eis ahi a parte
da mulher no Christianismo. E' a sua vocação. Deu-lhe Deus em abun-
dancia tudo quanto é preciso para a desempenhar com bom exilo. Sensi-
bilidade, doçura, insinuação, actividade e valor, nada lhe falia. A chari-
dade, tal é por tanto a quarta condição de salvação e rehabilitação para
a mulher.
Mãe, ensina Maria á mulller o meio de cumprir o mais sagrado dos
seus deveres. Do presepio á cruz, vedei-a inseparavel de seu Filbo. Pó-

(i) Beoed. XIV, p. ú3õ, n. 8.


(2) Considerantes in timore castam conve1·satiore vestram. I Pett-., III, 2.

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DE PERSEVERANÇA. 2t5
de-se dizer com mais eloquencia ás mães christães: Nos vossos joelhos
descança o futuro do mundo, é ahi que elle se prepara; os vossos cuida-
dos, os vossos olhos, assim como o vosso coração, não deixem um in-
stante o homem cuja vida de\'e fazer a vossa felicidade ou a vossa desgraça
e a de muitos outros? A educação, a educação que se dá sobre os joelhos,
ao canto do lar, tal é por tanto a quinta condição de salvação e rehabili-
tação para a mulher (i ).
Mãe, ensina Maria á mulher a soffrer. Fugir para o Egyto tremendo
por seu Filho, offerecel-o a Deus ainda mui joven e consentir d'antemão
nas torturas do Calvaria; finalmente, permanecer em pé junto da cruz,
eis a vida de Maria, m:Je de Deus. O soffrimento sob todas as fórmas, o
soffrimenlo desde o nascimento do seu primeiro filho até á morte, tal é
a vida da mãe. Supportar o soffrimento como Maria, com doçura, em si-
lencio, com valor e perseverança, tal é a sexta condição de salvação e
rehabilitação para a mulher.
Viuva, ensina Maria á mulher o grande segredo da vida occulta. As
virtudes domesticas, saudaveis conselhos, orações mais longas, boas obras
tanto mais meritorias perante Deus quanto mais occultas são aos olhos dos
homens, tal é a septima condição de salvação e rehabilitação para a mu-
lher.
Filha, esposa, mãe, viuva e sempre virgem, tal nos apparece Maria
nas suas relações com o mundo inferior. Estas relações tocantes e tão per-
feitamente realisadas por Maria não eram senão a expressão das relações
mais sublimes de Maria com o mundo superior. E' filha do Pae, mãe do
Filho, e esposa do Espirita Santo, e tudo isto d'um modo ineffavel. E a
mulher lambem, para ser o que deve com respeito ao homem e á socie-
dade, deve estar como Maria em relação intima com o mundo superior.
Como ella, posto que d'um modo differente, deve ser filha do Pae, mãe
do Filho, e esposa do Espírito Santo. Com esta condição, terá sobre o
mundo inferior o saudavel imperio de que Maria foi revestida para salva~
ção do genero humano.
Com effeito, se lerdes a historia, ella vos apresentará novas Marias
que, d'edade em edade, exercem sobre o homem e sobre os pavos uma
influencia incalculavel, Monica, Clotilde, Branca, Adelaide, Matbílde, Isa.,
bel e tantas outras, são monumentos authenticos da verdade que signala-

(1) Salvabitur autem per filiorum generationem, se permanse1·it in fide, et di-


lectione, et sanctificatione cum sobrietate. 1 Tim., II, 15.

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2{6 CATECISMO

mos. O culto de Maria é pois a salvação e gloria da mulher, e, pela mu-


lher, de toda a sociedade.
VII. INFLUENCIA SOBRE A SOCIEDADE. - Este culto- da mais dôce, da
mais amavel e da mais pura das Virgens, derrama tambem sobre o catho-
licismo não sei que encantos, que indefinível graça que expande o coração
e o· leva â confiança. Comprazemo'-nos em pensar que junto de Deus te-
mos umo medianeira que é nossa irmã, cujo sangue é o mesmo que nos
corre nas veias, cuja nalureza puramente humana se approxima inteira-
mente da nossa fraqueza, e cuja maternidade divina lhe dá uma especie
de imperio sobre o mesmo Omnipotente. N'uma palavra, comprazemo'-
nos em vêr Maria apertando ao seu coração de mãe Deus e o homem, e
chamando-lhes a ambos: MEUS FILHOS.
Assim que, vêde como este pensamento consolador se reproduziu
no mundo christão. O homem sentiu a ne~essidade de o não perder de
vista um só instante, e quiz encontrai-o a todos os seus passos e sob to-
das as fórmas. Sem fallar dos bymnos, dos canticos e das ladainhas em
que prodigalisa a Maria os títulos mais dôces, contemplae esses milhares
de obras primas inspiradas pelo culto da Rainha dos anjos, da Mãe de
Deus e dos homens. Percorrei a Europa inteira, parae diante dos anti-
gos monumentos, interrogae-os, e perguntae o que os fez sahir da terra
com todas as suas maravilhas. Uma voz se erguerá das pedras, da tra-
dição, e dos annaes dos povos, para responder-vos : O culto de Maria.
Sim, este tocante culto é que tem adornado o mundo catbolico de tantas
egrejas magnificas, de tantas ricas abbadias, de tantos hospitaes, e de
tantas, poeticas recordações.
Sem sahirmos da nossa França, outr'orá taro christã, vêde que de
basílicas, que de capellas, que de hospicios sob a invocação de Nossa Se-
nhora, e que dôces -cognomes á Virgem divina ! Aqui, é Nossa Senhora
do Bom Soccorro ; alli, Nossa Senhora da Piedade ; mais longe, Nossa
Senhora da Alegria ; em outro Jogar, é Nossa Senhora da Ajuda ; junto
dos bospitaes, Nossa Senhora das Sete Dôres ; alli, onde se combateu,
Nossa Senhora da Victoria; no fundo d'um valle, Nossa Senhora da
Paz; na montanha, Nossa Senhora da Graça; perto das ondas, Nossa
Senhora do Bom Porto, ' e depois Nossa Senhora do Livramento, Nossa
Senhora das Neves, Nossa Senlwra da Rocha, Nossa Senhora do Monte,
Nossa Senhora dos Lyrios, Nossa Senhora dos Anjos, Nossa Senhora da
Consolação, etc.
Accusar-nos-iam de procurarmos surprehender o ouvido com suaves

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DE PERSEVERANÇA. 217
sons, se repêtissemos aqui todos os graciosos, todos os tocantes titulos
da padroeira que haviam escolhido nossos paes ; por isso nbs detemos.
Os filhos dos francos e dos gaulezes, esses homens de movimento, de
batalhas e conquistas, os !lOssos antepassados, que por espaço de tantos
seculos se foram pelo mundo, pondo reis em todos os tbronos, haviam
eollocado o seu brilhante valor sob a prqtecção d'uma mulher celeste.
Toda coberta do pó e do sangue dos combates, se ajoelhava a velha
França ante as estatuas de MARIA, e punha muitas vezes a imagem da
Virgem nos seus brancos estandartes... Em verdade, era um nobre es·
pectaculo o vêr assim a força e o valor honrarem uma mãe e um filho,
e oppôrem assim o que a terra tem mais terrivel ao que o Ceo tem mais
dôce (t ).
E o mesmo Deus teve cuidado de justificar, auctorisar e fomentar o
amavel culto de Maria por meio de brilhantes milagres. Seria longo re-
feril-os todos ; seria força escrever os annaes de cada povo, de cada ci-
dade, e até de cada familia ; um só bastará.
VIII. BATALHA DE LEPANTO. - A batalha de Lepanto será uma bri-
lhante prova da protecção da Mãe de Deus, em favor d'aquelles que a
invocam com confiança. Havia perto d'um seculo que os turcos espalha·
vam o terror por toda a christandade com uma serie de victorias que Deus
permittia para castigar os peccados dos christãos, e para despertar a sua
fé meio extincta. Selim, filho e successor de Soliman, imperador de
Constantinopla, tendo-se assenhoreado da ilha de Chypre, vinha com um
poderoso exercifo cabir sobre os venezianos, e promettia-se nada menos
qae a conquista do universo. O santo Papa Pio V, assustado com o pe-
rigo que corria a christandade, uniu~se aos venezianos, aos genovezes e
aos hespanhoes, para repellirem os esforços d'aqaelle inimigo commum.
Posto que as forcas não fossem eguaes, os christãos, confiando na pro-
tec~ão da SS. Virgem, não davidaram do bom exito da sua empreza.
Desde o principio d'esta expedição, orden'ou-o Papa jejuns e preces
publicas para abrandar a justiça divina. Toda a Europa estava em ora-
ção, e os fieis corriam em multidão a Nossa Senhora do Loreto, para im-
plorarem o auxilio do Ceo, por intercessão da. Mãe de Deus. O santo Pon-
tífice, enviando a sua benção ao general D. João d' Austria, o certificou
positivamente da victoria. Ordenou-lhe ao mesmo tempo que despedisse
todos os soldados que não pareciam animados senão pela esperança da

(1) Quadro poetico das festas.

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!18 CATECISMO

pilhagem, assim como todas as pessoas cojos costumes eram desregra-


dos, para que os seus crimes não attrahissem ~ ira divina sobre o exer-
cito.
A ordem do Pontifice é executada religiosamente. Todas as tripula-
ções, sem exceptuar um s6 homem, se approximam dos Sacramentos com
fé viva. Os jogos de carlas são vedados; a blasphemia é prohibida sob
pena de morte. O Nuncio do Santo Padre abençôa solemnemente a frota,
e aquelles milhares de· bravos, seguros da protecção do Ceo, se fazem
de véla para o Oriente. Pela sua parte, o Summo i>ontifice, qual outro
Moysés, não cessa de levantar as mãos para o Ceo e dirigir a Deus fer-
vorosas orações, para attrahir as suas bençãos sobre as armas dos chris-
tãos.
Finalmente, a 7 d'outubro de 1571, os dois exercitos veem ás mãos
no golfo de Lepanto. Os turcos carregam o exercito christão com furia e
parecem a principio ganhar algumas vantagens. Mas Aquelle que tem a
victoria na. mão, não tarda a declarar-se pelos Christãos. Os infleis são
completamente derrotados, e perdem mais de trinta mil homens e qnasi
todo o material do seu exercito. Os christãos colhem um despojo im-
menso, e poem em liberdade quinze mil captivos que estavam nos navios
dos mabometanos.
O Santo Padre teve revelação da victoria no momento em que era
alcançada. Estava então occupa<lo a trabalhar com os Cardeaes. De re-
pente deixa-os, abre a janella, e, depois de ter olhado para o Ceo alguns
instantes, lbes diz: «Já não se tracta de negocios; nãô devemos pensar
senão em dar graças a Deus pela victoria que acaba de conceder ao exercito
christão ( t ). » Este facto, por mais extraordinario que seja. foi attestado
da maneira mais authentica, e é relatado como incontestavel no processo
de canonisação do santo Papa.
Pio V eslava tam persuadido de que esta victoria era effeito da par-
ticular protecção da SS. Virgem, que instituiu, com esse motivo, a festa
de Nossa Senhora da. Victoria, que foi depois transferida para o primeiro
domingo d'outubro por Gregorio XIII, seu successor, sob o titulo de
festa do Santo Rosario. Foi lambem n'aquella occasião que Pio V inseriu
nas Ladainhas da SS. Virgem estas palavras : .Auxilium Christianorum,
ora pro nob1's; Auxilio dos Christãos, orae por nós.

(1) Vida de S. Pio V, po1· M. de Falloux.

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DE PERSEVERANÇA. 219

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por nos haver-
des dado em Maria uma mãe omnipotente e infinitamente boa ; concedei-
nos qoe a amemos e imitemos.
Tomo a resolução de amar- a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de invocar a Maria em todos os meus trabalhos e tentações. .

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CATECISMO

QUADRAGESIMA·NONA LIÇÃO.

O christianismo tornado sensivel.

Pe•ta• da Vruz. -Que é uma Cruz 't-Fe11ta da lnwenção da


santa Vruz.-Sua hi8toria .-Festa da Exaltação.-Sua hi•-
toria. -Vantagen111 do culto da Vruz. -Caminho da cruz.

1. A CRuz. -Que é uma cruz? Uma cruz é um livro que contém


toda a historia de Deus, do homem e do mundo.
A historia de Deus. O universo com todas as suas maravilhas é um
livro que narra eloquentemente, sem duvida, a omnipotencia d'Aquelle
cuja simples palavra tirou as creaturas do nada.
A ordem e constante harmonia dos mundos me diz a sabedoria in-
finita d' Aquelle que dispoz, como que brincando, todas as rodas da im-
mensa machina do universo.
Lucifer e as suas legiões rebelladas, precipitados n'um relampago
do esplendor do ceo nas sombrias profundezas do abysmo; Adão e Eva,
reis do mundo visível, descoroados, despojados, expulsos, condemnados
ás dôres e á morte com toda a sua raça ; Sodoma abrasada, e as nações
esmagadas pelos seus crimes, dizem-me a terrivel severidade da justiça
· de Deus.
O sol nascendo todos os dias assim para o peccador como para o
justo me diz a ine_sgotavel bondade de Deus. Mas tudo isto não é mais
que o alpbabeto da sciencia de Deus: a cruz é a sua ultima palavra.
Mil vezes mais eloquentemente que todas essas coisas, me diz ella o po-
der, a sabedoria, a justiça e a bondade de Deus; a cruz é por tanto a
mais brilhante manifestação de Deus e das suas adoraveis perfeições.
A historia do homem. As guerras, as divisões, os odios nacionaes
e domesticos, a lucta sem cessar renascente que sinto dentro a·e mim,
me dizem sem duvida que o homem está abatido ; que está abatido por-
que é criminoso ; mas qual é a profundeza do meu abatimento ? Só a

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.~

DE PERSEVERANÇA. 22t
cruz m'o explica bem, porque sõ ella me diz que reparação me é neces-
saria.
As revelações divinas, as lições dos Prophetas, as innumeras graças
derramadas sobre o mundo, me dizem bem o valor da alma humana aos
olhos de Deus, mas a cruz diz-m' o infinitamente melhor. 0.fferecendo-me
á vista um Deus morrendo sobre um patibulo, me diz: Vê, alma hu-
mana, eis o que tu vales ! Anima, tanti vales ! E' pois certo que a cruz
me diz mais ácerca da minha natureza, da minha corrupção, dos meios
de me rehabilitar, e do valor da minha alma, que todas as revelações e
todos os livros. A cruz é por tanto a ultima palavrà da sciencia humana.
A cruz me diz tambem a historia do mundo. Os historiadores nar-
ram-me a vida das nações, as suas epochas de gloria e decadencia, e a
sua influencia em bem ou em mal; porém a tendencia geral dos seculos,
o fim providencial de todos os povos que se succedem no theatro do
mundo, só m' o diz a cruz.
Só ella me mostra a historia do género humano como uma magni-
fica epopêa. A cruz reune debaixo dos seus braços todos os seculos;
exprime o mundo antigo e o mundo novo ; salvou um pela esperança, e
salva e civilisa o outro pela fé. Abri os seus annaes a datar do Golgo-
tha: todos ~s povos vão passar ante vós successivamente. Virão contra-
riar um instante com a espada o triumpho da cruz, e depois os vereis
descançar á sombra d'esta arvore salutar, inclinar-se ante as bençãos dos
seus Pontificas, e abysmar-se, para se regenerarem, nas aguas do bap-
tismo. Se os ha nas extremidades do mundo que não pensem em vir
para ella, ella vôa para elles, e os seus apostolos os inscrevem com o
proprio sangue nos seus registros immortaes.
E acima de todos os povos e de todas as historias, a cruz nos mos-
tra a Deus tendo na mão o coração do mundo, e fazendo mover á sua
vontade, na esphera dos seus destinos, os Estados, a Egreja e a humani-
dade ! Circulo immenso cujos raios vivificantes chegam ás extremidades
do univer:so e cnjo centro é a cruz ! A cruz ! sempre a cruz ; tudo serve
para os seus progressos, tudo concorre para as suas vietorias,, tanto os
seculos antigos como os novos. A cruz é por tanto a ultima palavra da
sciencia do mundo e da humanidade.
Que mais é uma cruz? E' todo o Christianismo tornado sensivel
nos seus meios de triumpho e no seu espirito ; é o monumento sempre
subsistente da divindade da nossa Religião. Retrocedei para Já de dezoito
seculos; interrogae as nações d' então, perguntae-lhes o que é uma cruz.

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222 CATECISMO

Judeus e pagãos vos responderão : A crnz é o instrumento de supplicio


dos escravos, é um objecto de maldição, vergonha e horror (t).
Hoje, interrogae a nações, perguntae-lbes: Que é a cruz? Respon-
der-vos-ão : A cruz é um objecto de amor e veneração. E se levantar-
des os olhos, a vereis no topo dos edificios, no cume dos montes, á orla
I
dos caminhos, na solidão e nos lagares habitados, nas cidades e nos cam-
pos, ao pescoço das priucezas como adorno e ao das simples campone-
zas como objecto de consolação, sobre a cabeça dos monarchas e sobre
a sepultura do pobre, nos palacios e nas choupanas, nos templos e nos
tribunaes da justiça.
1

D' onde vem esta estranha revolução em sentimentos e ideias? Por-


que e quando se começou a honrar a cruz? que cruz foi a primeira hon-
rada? Se dirigirdes todas estas perguntas á mais simples creança christã,
ella vos fallará d'essa grande crnz que foi levantada, ha dezoito seculos,
no cume do Cahario~ e na qual expirou o Salvador Jesus. Tal foi a pri-
meira cruz honrada no universo, e a unica que merece sêl-o: pois todas
as outras não são honradas senão com relação a ella, como ella ,propria
não é honrada senão com relação ao Deus cujo sangue lbe purpureou os
braços e a haste,
Ah l já não me admira que o christão reverenceie a cruz! Todo o
homem, quemquer que seja, deve tambem cahir de joelhos diante d'ella;
pois, sabei-o bem, a cruz é a primeira arvore da liberdade, é o palladio
dos thronos, é o estandarte da civilisação, é o livro das grandes dôres,
das grandes lições, e por conseguinte das grandes luzes e das grandes
consolações. Foi ella que venceu o paganismo homicida, despota e infame.
Foi ella que dissipou e que dissipa ainda todas as trevas da ignorancia.
Os paizes onde ella fulge, estão allumiados como a terra quando brilha o
sol no horisonte. A cruz é a dedicação, é o espirita do sacrificio, é tudo
o que segura a existencia das familias e das sociedades. Vergonha e des-
graça aos homens que passam ante a cruz sem se dígnarem de saudai-a!
vergonha e desgraça aos que a desterram do lar domestico! O filho não
se envergonha d'um pae virtuoso, senão quando elle proprio deixou de
o ser.

(1) Servorum, latronum, sicarionun et seditiosorum supplicium crux erat, cui


illi affigebantur, et in ea pendebant, donec fame, siti, doloribus, eoecarentur, post
mortem strnm canum et corvornm relicti cibus. !taque supplicio illo non aliud apud
Romanos infame magis, et acerbum magis. Lamy4 Dissert. de Critce, § 1, p. 537;
id., Lipsim:, de Cruce, l. I, e. XII e XIII.

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DE PERSEVERANÇA.

Terna esposa do Deus do Calvario, tem sempre a Egreja catbolica


olhado a cruz como a sua joia mais preciosa e mais chara. Quem dirâ as
honras de que a rodêa? Não ha uma só ceremonia do seu culto em que
não encontreis a imagem e a recordação da cruz. Como se estas home-
nagens de todos os dias e instantes não bastassem ao sen amor, estabe-
leceu duas festas particulares para honrar a cruz : a da Invenção e a da
Exaltação. Eis aqui a interessante historia d'ellas.
II. DESCOBERTA DA VERDADEIRA CRuz. - O grande Constantino, que
triumphára dos seus inimigos p~lo milagroso poder da cruz, conservava
para com Jesus Chrislo o mais vivo reconhecimento. S. Helena, sua mãe,
comp:lrtia os nobres sentimentos de seu filho. D'onde a sua veneração
commum pelos Jogares que o Filho de Deus honrára com a sua presença,
com as suas instrucções e milagres. Para satisfazer a sua devoção foi
que a piedosa imperatriz, posto que de perto de oitenta annos de edade,
passou á Palestina em 326.
Chegada a Jerusalem, sentiu-se animada do ardente desejo de en-
contrar a cruz em qne padecêra o Filho de Deus pelos nossos peccados;
nada porém designava o sitio onde ella poderia estar. A mesma tradição
poucas luzes dava a este respeito. Os pagãos, por orlio ao Christianismo,
haviam posto tudo em prática para apagarem o conhecimento do Jogar
onde fôra sepultado o corpo do Salva.dor. Não contentes com terem alli
amontoado grande quantidade de pedras e entulho, haviam lambem edi-
ficado um templo a ·venus, para que parecesse que os fieis iam honrar
esta falsa divindade, quando iam prestar as suas adorações a Jesus Christo.
Tambem haviam profanado o Jogar onde se realisára o mysterio da Resur-
reição, levantando alli uma estatua a Jupiter, que subsistiu desde o rei-
nado d'Adriano· até ao de Constantino.
Helena, resolvida a nada poupar para que o seu piedoso projecto
fosse bem succedido, consultou os habitantes de Jerusalem e todos aquel-
les de quem podia receber alguma luz. Responderam-lhe que se podesse
descobrir o sepulcro do Salvador, não deixaria de encontrar os instru-
mentos do seu supplicio. Com effeito, era costume entre os judeus abrir
uma cova ao pé do Jogar onde era enterrado o corpo das pessoas con-
demnadas á morte, e deitar n'ella tudo quan'to servira para a execução.
Estas especies de coisas tinham-se tornado objecto de horror, e apressa-
vam-se a escondêl-as á vista para sempre.
Mandou logo a piedosa imperatriz demolir o templo e abater a esta-
tua de Venus, bem como a de Jupiter. Limparam o sitio, e começaram

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CATECISMO

a cavar. Finalmente encontraram o santo Sepulcro. Estavam ao pé tres


cruzes, com os cravos que tinham traspassado o corpo do Salvador, e o
titulo que fôra pregado no alto da cruz. Foi facil conhecer que uma das
cruzes era a que se procurava, e que as outras eram as dos malfeitores
no meio dos quaes expirára o Filho de Deus; mas não se sabia como dis-
tinguil-as, tanto mais quanto o titulo estava separado, e não pregado em
nenhuma das tres.
N'este apuro, eis a resolução que julgou dever tomar S. Macario,
Bispo de Jerusalem. Disse que levassem as tres cruzes a casa d'uma se-
nhora de distincção que acabava de morrer; o que se fez. Havendo-se
depois dirigido a Deus por meio d'uma fervorosa oração, applicou sepa-
radamente as cruzes á defuncta. Ao contacto das duas primeiras, a morte
recusou largar a sua prêsa ; porém a terceira a obrigou a fugir, e a se-
nhora acordou cheia de vida.
III. HisTORIA DA VERDADEIRA Cauz. - S. Helena manifestou a mais
viva alegria por motivo do milagre que fazia conhecer a verdadeira cruz.
Fundou uma egreja no ponto onde fôra enc.ontrado este piedoso thesouro,
e alli o depositou com grande veneração, depois de têl-o feito encerrar
n'uma caixa extremamente rica. Deu parte d'ella ao imperador seu filho,
que a recebea em Constantinopla com muito respeito. Outra parte foi
enviada á egreja que ella fundou em Roma e que é conhecida com o
nome de Santa Cruz em Jerusalem.
Fez presente á mesma egreja do titulo da cruz do Salvador. Poze-
ram-n'o no alto d'uma arcada, onde foi encontrado em 1492, encerrado
n'uma cai1a de chumbo. O letreiro, que é em hebreu, ~rego e latim,
está em lettras vermelhas e em madeira branqueada. Estas côres desbo-
taram muito desde o fim do decimo-quinto seculo. As duas ultimas let-
tras da palavra Rex e a palavra Judmorum desappareceram com a parte
da taboa em que estavam. Tal qual se acha, tem esta taboa nove polle-
gadas de comprimento; mas primitivamente tinha doze.
S. Helena mandou encerrar n'uma caixa de prata a porção mais con-
sideravel da cruz e a deixou em Jerusalem sob a guarda do santo Bispo
Macario, para a conservar á posteridade. Depositaram-n'a na magnifica
egreja que a imperatriz e seu filho tinham mandado edificar. Acudia alli
gente de todas as partes para a venerar, como sabemos pelas vidas de·
S. Cyrillo de Jerusalem, S. Porphyrio de Gaza, etc. Muitas vezes corta-
vam d'ella partículas que davam a pessoas piedosas, sem que por isso
houvesse diminuição alguma no madeiro sagrado; este facto é relatado

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DE PERSEVERANÇA. 225
por S. Paulino na sua carta a Severo. Vinte e cinco annos depois da des-
coberta da cruz, dizia S. Cyrillo de Jerusalem que este madeiro cortado
em pedacinhos estava espalhado por toda a terra, e comparava este pro-
digio com o que operou o Salvador quando alimentou milagrosamente
cinco mil homens no deserto.
A egreja edificada por S. Helena chamava-se a basilica da Santa
Cruz, por causa do precioso thesouro de que estava de posse. O que a
guardava era sempre um Sacerdote venerando. Chamava-se a basilica da
Santa Cruz lambem Egreja do Sepulcro ou da Resurreição~ porque ha-
via uma capella edificada sobre o sepulcro ou caverna em que fôra en-
cerrado o corpo do Salvador, e que era no jardim contiguo ao monte Cal-
vario. Por aqui se deve julgar da grandeza da basilica. Cobria o sepul-
cro, estendia-se até ao monte Calvario e encerrava a roca do Golgotha,
assim como o mesmo lugar onde fôra cravada a cruz de Nosso Senhor na
occasião da çrucificação. Este edificio foi encerrado no recinto de Jeru-
salem quando se reedificou a cidade.
Fallamos do titulo que foi posto na cruz do Salvador. Cumpre sa-
ber que era costume entre os romanos fazer levar diante dos malfeitores
que se conduziam ao supplicio um rotulo, em que se indicava o crime
pelo qual os condemnavam á morte. Suetonio diz fallando d'um crimino-
so: e: Levavam diante d'elle um rotulo onde o publico lia a causa do seu
supplicio. » Dion assevera o mesmo. Eis o que Eusebio conta de S. Attalo,
martyr em Lyão : o: Conduziam-n'o em redor do amphitheatro, levando
diante d'elle uma taboinha em que estavam escriptas as palavras seguin·
tes: Attalo, christão. »
Em conformidade do que se praticava entre os romanos, mandou Pi-
latos levar ao Calvario, diante do Salvador, e pregar-lhe na cruz um ti-
tulo ou rotulo que mostrava a causa do seu supplicio. Queria, por meio
d'este titulo, dar a entender que Jesus Cbristo era morto só por ter aspi-
rado ao supremo poder; mas aqui tudo era dirigido pela Providencia. De
facto, Nosso Senhor era o verdadeiro rei dos judeus, dos gregos e dos ro-
manos; haviam-n'o escripto na Jingua d'estes tres povos, para que elles
podessem lêl-o e prestar as suas homenagens áquelle que tinha direito
de exigil-as (t ).
IV. ÜRIGEl\f DAS FESTAS DA CRUZ. - Em memoria do milagroso ap-

(1) Vide Godescard. - O titulo da verdadeira cruz está em Jloma, na. egreja
de Santa Cruz em Jerusalem. Vide as Trea Romas, t. 1.

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226 CATECISMO

parecimento da croz a Const~ntino, estabeleceu-se, no quarto seculo, uma


festa que se celebrou a 14 de setembro com grande pompa nas egrejas
do Oriente e Occidente (t ). Esta festa foi ainda mais solemne desde ades-
coberta da verdadeira cruz por S. Helena, pois estes dois acontecimentos
foram objecto da mesma solemnidade. No oitavo seculo, a recuperação da
cruz deu occasião ao estabelecimento d'uma nova festa que a Egreja latina
celebra a i 4 de setembro. Desde aquella epocha a festa da Invenção da
Cruz, isto é, da sua descoberta por S. Helena, foi fixada no dia 3 do mez
de maio.
Vamos contar em poucas palavras como foi retomada aos persas
esta preciosa relíquia. Em 61 .í, Chosroés, rei da Persia, apoderou-se de
Jerusalem e levou a verdadeira cruz. Por permissiío do Ceo, não foi
aberta a caixa que a continha, e o sêllo do Bispo de Jerusalem que lhe
fechava a abertura ficou intacto. Quatorze annos depois, tendo sido os
persas vencidos pelo imperador Heraclio, a primeira condição que se lhes
impôz foi qne restituiriam a verdadeira cruz: a condição foi acceita e a
cruz restituída.
Levou o imperador esta preciosa reliquia para Constantinopla, onde
entrou com a maior magnificencia. No principio da primavera do anno se-
guinte, 629, embarcou para a Palestina com o intuito de depositar a mes-
ma reliquia em Jerusalem e dar alli graças a Deus pelas suas victorias.
Principe verdadeiramente chrislão, quiz levar a verdadeira cruz ás costas
ao entrar na cidade, e acompanhar esta ceremonia da mais brilhante pom-
pa; porém sfmtiu-se detido de subito e na impossibilidade de seguir. O
Patriarcha Zacharias, que ia a seu lado, lhe representou que aquella pom-
pa não se ajustava com o estado de humilhação em que se achava o Fi-
lho de Deus, quando levou a cruz pelas rnas de Jerusalem. «Vós trazeis,
lbe disse, os vossos ornamentos imperiaes, e Jesus Christo ia pobremente
vestido; a vossa cabeçá está cingida d'um rico diadema, e elle estava co-
roado de espinhos; vós estaes calçado, e elle ia descalço. » Logo o im-
perador largou os vestidos preciosos, a corôa, o calçado, e, seguindo a
procissão com um exterior que annunciava pobreza, levou a cruz para o
logar onde precedentemente estivera.
Depois de ter-se reconhecido de novo que os sêllos estavam intac-

(1) Hujus festivitatis meminit qui paulo post Constantinum vixit Chrysosto-
mus (Horm:l., LI, t. II), qu am babuit quarto nonas octobris: "Nondum elapsi sunt
dies viginti, ex quo memoria m crucis celebravimus, et ecce martyrum memoriam ce·
lebramus. » Bened. XIV, p. 389, n. 111.

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DE PERSEVERANÇA. 227

tos, abriu-se a caixa de prata, venerou-se a santa reliquia, e fez-se vêr


ao povo reunido. Sabemos dos antigos auctores que esta porção da ver-
dadeira crnz se compunha de differentes ·pedaços, e é por isso que não
faltam d'ella senão no plural. A ceremonia. de que fallamos fez-se com a
maior piedade, e deu logar a differentes curas milagrosas. O costume de
expôr esta santa relíquia á veneração dos fieis, muito tempo antes que se
houvesse arrancado das mãos dos persas, observava-se com muita devo-
ção. Expunha-se da mesma maneira a porção da verdadeira cruz que se
guardava em Constantinopla.
V. DEVOÇÃO NA cnuz. - E nós tambem, filhos da Egreja catholica,
honremos a cruz como o filho bem criado honra o retrato de seu pae,
qt-rn digo? o penhor mais tocante do seu amor. ~eixemos os mundanos
accusarem a Religião de entristecer-nos pondo-nos incessantemente diante
dos olbos um objecto lugubre. Não sabem que a cruz é para o Christão
fiel a alegria, a gloria, a sabedoria de Deus 1
Do alto da cruz é que Nosso Senhor deu a paz aos homens de bem,
e uma paz que o mundo inteiro dos máos não póde arrancar-lhes do co-
ração. Do alto d'essa cruz é que o Filho de Deus, sacrificador e victima,
attrahindo a si todos os justos, approximando a terra dos ceos e os ceos
da terra, nos ensinou a soffrer e a morrer. E essa cruz pela qual o Re-
demptor do mundo triurnpbou da morte e do inferno; essa cruz que dá
preço á virtude e lhe segara a sua immortal recompensa; essa cruz, sig-
nal de reunião para todos aquelles que são baptisados em Jesus Chris-
to, quizereis destruir o seu culto no universo!!! .
Ah 1 se amaes o genero humano, e se tendes patria, deixae essa cruz
no topo dos palacios, para chamar á via da penitencia os ricos e os gran-
des; deixae-a sobre o humilde teclo do pobre, para o instruir na pacien-
cia e resignação; deixae-a a todos os homens, porque todos os homens
teem orgulho que reprimir, paixões que combater, e porque para lhes
ensinar a estimarem-se em quanto valem e a calcarem aos pés as vans
preoccupações da opinião, não ha melhor mestre que Jesus Christo mor-
rendo n'uma cruz.
Mas se queremos que a cruz nos sirva, se queremos ~pproximar
d'ella com amor e confiança os labios moribundos, se queremos que ella
nos proteja a sepultura e nos seja um penhor de glr.riosa resurreição (1),
leiamos muitas vezes n'esse divino livro; imprimamos fundamente no co-

(1) Vide S. Ephrem, Serm. in Pretios. ct vivi/. Crucem Domini, cii-ca medium.

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228 CATECISMO

ração as lições que nos dá. Aquelle que quer adquirir â sciencia dos
Santos,;'lpproxime-se da cruz: ahi, beberá a mais sublime doutrina e as
mais patheticas lições que ainda foram dadas aos homens. Jesus crucifi-
cado é por excellencia o modêlo de toda a virtude e o livro de vida.
S. Paulo estudou-o exclusivamente porque achava só na cruz todas as
verdades que lhe importava conhecer. Todos os Cbristãos dignss d'este
glorioso titulo imitam o Apostolo e confirmam o mesmo principio.
S. Bernardo, pergunta um auctor celebre, onde bebêra aquelle ar-
dente amor de Deus e uma tam fervorosa piedade' não foi nos soffri-
mentos do seu Redemptor morrendo n'uma cruz? Onde colbêra S. Agos-
tinho as luzes que fizeram d'elle um dos luminares da Egreja, senão nas
chagas de Jesus, como elle mesmo diz? Foi o livro da cruz que inspirou
um amor seraphico a S. Francisco. S. Tbomaz, que em todas as occa-
siões se lançava aos pés do crucifixo, lhe devia os seus admiraveis co-
nhecimentos.
«S. Boaventura, diz S. Francisco de Sales, parece, escrevendo, não
ter outro papel senão a cruz, outra penna senão a lança, nem outra tinta
senão o preciosissimo sangue de Jesus Cbristo. Com que effusão de sen-
sibilidade não exclama: E' bom para nós estar com a cruz J Façamos
aqui tres tabernaculos, um para os seus pés, outro para as suas mãos, e
o terceiro para o seu lado sagrado. E' aqui que me detenho, é aqui que
hei de velar, que hei de lêr, que hei de meditar, tendo constantemente
este livro divino ante os olbos, para estudar a sciencia da salvação todo
o dia, e ainda durante a noite, quantas vezes acordar.»
O propbeta Jonatbas repousou com delicia á sombra da moita de
hera que o Senhor havia preparado para elle. Qual deve, pois, ser a ale-
gria d'um Christão quando repousa á sombra da arvore da cruz 1 Prote-
gidos _por este sagrado madeiro, podemos dizer: Regosije-se Jonathas
sob uma moita de hera; prepare Abrahão uma comi~a para os anjos, a
uma sombra, no valle de Mambré; se~ Ismael escutado sob uma arvore
no deserto; seja Elias sustentado sob um zimbro; em qua~to a nós, a
nossa consolação e alegria será permanecer em espirito á sombra da cruz..--
VI. CAMINHO DA CRuz. - Os pormenores que precedem nos fizeram
comprebender a extrema utilidade do conhecimento e do amor da cruz
de Nosso Senhor e da sua dolorosa Paixão. Um excellente meio de pro-
porcionar aos Christãos ésta inestimavel vantagem era fallar-lbes aos sen-
tidos, pondo-lbes diante dos olhos e fazendo-lhes percorrer o caminho do-
loroso que o Salvador percorreu, carregado da cruz, para ir do pretorio

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j
DE PERSEVERANÇA.
1
ao Calvario. A Egreja o fez estabelecendo a piedosa prática do Caminho
da Cruz (Via-Sacra).
A devoção do Caminho da Cmz, isto é, essa devoção que leva o
Christão a percorrer, orando e chorando, o espaço seguido pelo seu Deus
carregado do instrumento do seu supplicio, é tam antiga como o Cbris-
tianismo. Desde o tempo dos Apostolas, e até a exemplo dos Apostolos
e de Maria, visitaram os Cbrislãos aquella via para sempre celebre. Quan-
do o Evangelho sahiu dos limites da Judêa, a devoção attrahiu de todas
as partes a Jerusalem novos peregrinos. As guérras dos romanos, as dis-
sensões dos judeus, a destruição ele Jerusalem, as profanações dos impe-
radores, mal poderam interromper ou desviar a concorrencia e as adora-
ções dos fieis.
Na verdade, viam-se forçados a apresentar de longe e em segredo
as suas homenagens aos Jogares sagrados; mas não os esqueciam nem os
abandonavam: a divina Providencia velava por que a memoria d'elles se
conservasse fielmente. Os Patriarchas de Jerusalem transmittiam facil-
mente uns aos outros as tradições e as recordações mais importantes da
Terra Santa. Viviam ainda quando a Religião veio, em 313, ornar com o
seu brilho o diadema dos Cesares .
.Seguindo os passos de S. Helena, aftluiram os Christãos a Jerusalem
de todos os paizes do mundo conhecido; a Terra Santa cobriu-se d'elles.
Bethlem, Nazareth, o Jordão e Jerusalem, recebiam continuamente as ho-
menagens da sua fé e do seu amor. Passavam junto d'aquelles monu-
mentos mezes e annos inteiros; alguns até alli estabeleciam a sua resi-
dencia. Os vestigios que lá deixa\'am com o correr do tempo -a fronte
e os joelhos dos peregrinos, attestaram a verdadeira situação dos togares
consagrados pelas circumstancias da Paixão do Salvador. Os seus piedo-
sos furtos, aliás funestos para os monumentos que alli se tinham levan-
tado, serviam lambem para fixar a situação d'elles (t ).
Os principes e os reis os visitaram por sua vez; finalmente os santos
logares, cabidos em poder dos sarracenos, viram armar-se os povos chris-
tãos para os reconquistarem. Por espeço de noventa annos que os Chris-
tãos foram -senhores d'elles, nada pou1)aram para honrarem, como mere·
ciam, aquelles monumentos tam charos á fé. Depois que os perderam, a
·Providencia conservou alli sempre guardas fieis, guardas tanto mais ve~
(1) Ácerca de todas essas peregrinações não interrompidas, vide as Cartas de
S. Jeronvmo a Eustach. e a Hi'st. de Nossa Senhora de Loreto, por M. Caillau, e. I
e II.

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230 CATECISMO

ridioos por isso que as suas crenças são differentes e as suas commu-
nhões separadas. Assim, desde o principio do Christianismo até os nossos
dias, nunca foi interrompida a cadêa dos peregrinos de Jerusalem. Sem-
pr~ se quiz percorrer o caminho regado com o sangue do Homem-Deus;
e innumeras graças;em todos os seculos, recompensaram este testimunho
de fé e reconhecimento.
Estes beneficios, contados á volta da santa viagem, inflammavam to-
dos os corações, e cada qual qoizera fazêl·a por sua vez; isso porém não
era possiveJ. D'este modo, a maior parte teriam ficado privados das con-
solações, indulgencias e lavores inherent~s á peregrinação de Jerasalem,
ao verdadeiro caminho da cruz, se a Egreja, a um tempo mãe attenta ás
necessidades e aos votos de seus filhos, e dispensadora suprema de todos
os merecimentos de Jesus Christo, não houvesse supprido com uma pie-
dosa prática, ao alcance de todos os fieis a quem quiz favorecer com as
mesmas graças.
Esta prática, chamada Via Crucis ou Caminho da Craz, não é outra
coisa senão o caminho figurativo do que andou Nosso Senhor •carregado
da craz. Para tornar esta representação o mais frisante passivei, pocm-se
de distancia a distancia paineis que nos mostram as scenas mais enter-
necedoras da Paixão, desde o momento em que Nosso Senhor sabe do
pretorio de Pilatos, para subir ao Calvaria. Estas estações, conhecidas
pela -Escriptura e pela tradição, são em numero de doze, ás quaes se
ajuntou o Descimeoto da cruz e o Transporte para o sepulcroJ o que leva
o numero a quaaorze. Tal é a. origem da devoção chamada Caminho da
Cruz, e tal a idêa, que d'ella compre ter.
Em quaóto aos motivos que temos de praticar esta saudavel devo-
ção, eis os principaes: t. º A aactoridade e o voto da Egreja. Vinte e
dois soberanos Pontifices approvaram; ·recommendaram e enriquec_eram
com numerosas indulgencias· a devoção do Caminho da Cruz. Entre todos
os outros se distinguiu pelo seu zêlo em estender esta prática por toda
a. :cbristandade, um dos maiores Papas que teem oecupado a cadeira dà
S.. Pedro, Benedicto XIV. Considerava-a como o meio mais p·roprio para
reformar os costumes e manter. a piedade (t ). _
2. O desejo de Nosso Senhor. A Escriptura do Alltigo e do Novo
0

T-estamento está cheia de textos pelos quaes nos t,onvida este divino Sal-
vador a passarmos muitas vezes pela memoria as humilhações do Messias.

(1) Breve Cum tanta, 30 d'agosto de 1741.

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DE PERSEVERANÇA'. 231
Os Apostolas parecem não saber prégar outra coisa senão Jesus, e Jesus
crucificado. Os Santos de todos os seculos fizeram da Paixão de Nosso
Senhor o assumpto ordinario das suas meditações. Com que felicidade
a propria Maria nos verá pensar nas dôres de seu Filho muito amado r
Póde uma mãe ser indifferente ás lagrimas que se derramam pelas dôres
de seu filho ?
3. 0 O nosso proprio interesse. A piedosa meditãção da cruz dis-
sipa-nos as trevas do entendimento: que luzes sobre Deus, seu poder,
sua justiça, su? misericordia, sobre nós e nossas miserias, e nossa gran-
deza, e a enormidade do peccado, derivam da cruz! Move o coração: a
vista do crucifixo, a meditação da Paixão é mais propria para converter
as almas e para fazer-lhes amar a Deus que as mais terri\'eis verdades.
E depois as extraordinarias indo1gencias inherentes ·ao Caminho da Crúz
não são um poderoso motivo para praticarmos esta devoção? Segando
uma concessão do Papa lnnocencio XI, é o Caminho da Cruz enrique-
cido com todas as indulgencias concedidas em differentes tempos, pelos
Summos Pontifices, á visita de todos os logares santos da Palestina (t ).
Nada diremos da maneira de fazer o Caminho da Cruz. Está s uffi-
cientemente explicada nos diversos opnsculos ou manuaes publicados a
este respeito. Contentemo'-nos, terminando, com admirar a maravilhosa
sollicitode da Egreja catholica em conduzir constasltemente seus filhos
pelas pisadas ensanguentadas de seu Pae e modêlo. Quanta sabedoria e
amor ha ahi 1 E vós que lêdes estas linhas, 9uereis corresponder-lhe,
não é assim?

ORAÇÃO.
O' meu Deus, que sois todo amor r graças vos dou por nos terdes
remido pela vossa cruz; concedei-nos que não saibamos, como o apos-
tolo S. Paulo, senão Jesus e Jesus crucificado.
Tomo a resolução d~ amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de pedir muitas vezes a sciencia da cruz.

(1) Via Crucis, p. 103.


*
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232 CATECISMO

QUINQUAGESIMÁ LIÇÃO.

Ochristianismo tornado sensivel.

Fe11ta de 8. Higuel. - Sua oril'em. - Culfo que pre1!ltamos ao•


A.ujoM .-Et1pil'i&o d'este cuUo.-Festa do1111 Anjos da ;-uarda.
-Reftexões 11ob1·e o A.njo da i:uarda.-Ol'igem da f'e1da do111
Anjo• da guarda. - Nosttos dewere111 para com o A.njo da
a;uarda.

1. ANTIGUIDADE DO CULTO no:; ANJOS.-0 culto dos Anjos é tam an-


tigo como o mundo. Vêmos que se invocavam no Antigo Testamento (i).
Os mesmos pagãos lhes tributavam supersticiosas homenagens. A Egreja
catholica, herdeira de todas as tradições verdadeiras, ennobreceu, puri-
ficou e consagrou, desde o seu principio, o culto dos santos Anjos. Os
Padres do Oriente e Occidente são unanimes sobre este ponto (2). Po-
rém tendo apparecido herejes que prestavam aos Anjos um cuJto idola-
trico, a Egreja do Oriente julgou dever usar de reserva nas honras que
dirigiu a estes espiritos beatos, com receio de que os sectarios tomassem
d'ahi pretexto para se confirmarem ~os seus erros. Mas a Egreja do
Occidenle, não tendo nada d'isso que temer, se explicou mais livremente
ãcerca da invocação dos Anjos (3).
E' certo que se invocavam muito tempo antes que se lhes houves-
sem destinado festas e templos. Nenhum dia particular lhes era consa-
grado, porque o seu culto estava como que incorporado em todas as ora-
,
ções publicas, em todos os sacrificios publicos, e por conseguinte em

(1) Vide Bergier, art. Anjos.


(2) Podem-se vêr os seus testimunhos no primeiro volume do Catecismo.
(3) S. Hilar., in PsaJ,. CXXIX e CXXXVII.

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DE PERSEVERANÇA. 233
todas as festas da Egreja. Faz.se menção dos Anjos no prefacio e no ca-
non da M.issa. No psalterio, que compõe todo o officio canonico, reite-
ramos muitas vezes a memoria dos Anjos. As ladainhas, que remontam
a mais alta antiguidade e que são como um resumo das orações geraes
da Egreja, nomêam os Anjos depois de Maria, sua augusta rainha.
Do mesmo modo pois que se fazia uma festa geral da Trindade, do
SS. Sacramento e de todos os Santos, antes que houvesse solemnidades
particulares estabelecidas em honra sua, assim se fazia a festa geral de
todos os Anjos cujo culto se liga a toda a liturgia catbolica, antes que se
lhes houvessem consagrado festas ou templos particulares.
Todavia a Egreja, penetrada de reconhecimento para com os espi-
ritos administradores que velam em sua defensa e trabalham na salvação
de seus filhos, estabeleceu tres festas especiaes para solver o tributo da
sua piedade. As duas primeiras são as de S: Miguel, principe da milícia
celeste; a terceira a de todos os santos Anjos, e em particular do Anjo
da guarda. Digamos em poucas palavras a origem d'estas tres solemni-
dades.
No tempo que o Creador marcára para experimentar a fidelidade
dos Anjos, grande numero d'elles, ensuberbecidos com a sua propria ex-
cellencia, se rebellaram contra o auctor de tantos dons sublimes. O Ar-
chanjo S. Miguel precipitou no abysmo os rebeldes pela impressão irre-
sistivel do nome de Deus. Esta victoria é expressa pelo mesmo nome
d' este Archanjo: Quis ut Deus? Quem é como Deus'! S. Miguel foi sem-
pre considerado como o Anjo defensor das nações fieis. Antigo protector
da França, foi tomado para padroeiro da ordem militar estabelecida com
o seu nome, em t ~69, pelo rei Luiz XI.
II. FESTAS DE S. M1GUEL.-Em 493, appareceu o glorioso Arcbanjo
no monte Gargano, na Italia (f ). Nada foi mais consolador e mais cele-
bre que esta appariç.ão. Uma festa solemne.. fixada no dia 8 de maio,
perpetua a recordação d' ella.
Desde tempo immemorial, celebra-se outra em honra do mesmo
Archanjo. A 29 de setembro recorda a Egreja a seus filhos o poder e
os beneficias do príncipe da milícia celeste. Esta festa era outr'ora so-
Jemnissima em varias paizes do Occidente.
Eis aqui o que· se lê nas leis ecçlesiasticas, publicadas em f 014 por
Ethelredo, rei d'Inglaterra: «Todo o Christão que tem a edade prescripta

(1) Baron., an. 493.

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' CATECISMO

jejue tres dias a pão e agua, não comendo senão raizes cruas, antes da
festa de S. Miguel, e todo o homem vá á confissão e á egreja descalço ...
Cada Sacerdote vá tres dias descalço, em procissão com o seu povo; cada
qual prepare os vi veres que lhe seriam necessarios para tres dias> obser-
vando porém que não haja nada gordo, e tudo seja distribuído aos po-
bres. Todo o creado seja dispensado do trabalho durante estes tres dias,
para melhor celebrar a festa, ou não faça senão o que é necessario para
seu uso. Estes tres dias são a segunda, terça e quarta-feira antes da
festa de S. Miguel (t ). »
Posto que S. Miguel seja nomeado só no titulo d'esta festa, parece,
por orações da Egreja, que são objecto d'ella todos os Anjos. D'aqui
vem uma verdade magnifica, e mui propria para estreitar os vínculos de
charidade que nos unem. A Egreja quer evidentemente que nós honre-
mos os Anjos e os Santos, e. que façamos a sua festa com espírito d'uni-
dade e unirnrsalidade, considerando-os todos como um só corpo e um
só· santo, que é o corpo de Jesus Christo, o Santo dos Santos.
E' difficil honrar um membro sem que esta honra se communique
a todos os outros membros do mesmo corpo. A gloria e alegria de cada
um d'elles é-lhes commum a todos, e a que lhes é commum a todos, é
propria a cada um d'elles em particular. Se um membro está na alegria,
todos os outros participam d'ella, diz S. Paulo (2). Assim a festa de cada
Santo é a festa de todos os outros Santos. Por isso se fazia n'outro tempo .
a festa de todos os Apostolos n'um só dia, porque não se póde fazer a
festa d'um d'elles, sem que todos sejam d'ella participantes (3).
Estas reflexões são ainda mais necessarias a respeilo dos Anjos, que
nós honramos todos geralmente no dia da festa de S. Miguel. A Egreja
não consente que se nomêem mais de tres Anjos, cujos nomes nos foram
manifestados na Sagrada Escriptura, e comtudo deseja que nós honremos
alguns milhões d'elles. Não é por tanto por meio de festas particulares
que devemos prestar-lhes as nossas homenagens, mas estando bem per-
suadidos de que, quando nomeamos ou reverenciamos um d'elles, os

(1) Vide Godescard.


(2) I Cor., XII, 26 .
(3) E is o que diz S. Pedro Damião sobre este mesmo assumpto : alta est
omnis Apostolici culminis beatitudo conjuncta, et tot gratiarum compage vel glutino
probatur unita, ut curo unius festiv itas colitur, protinus omnium Apostolorum non
diversa sublimitas interioribus obtulibus ingeratur. Una scilicet inter eos excellen-
tia judiciarire potestatis, eadem dignitas ordinis, nec diversa in ligando sive sol- ·
vendo virtntis habeatur auctoritas.» Serrn. de sanct. Barthol.

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DE PERSEVERANÇA. ~35

comprehendemos e reverenciamos a todos, como não formando tódos se-


não uma santa cidade, cuja magestade e preeminencias representa cada
um d'elles.
III. MEIOS DE HONRAR os SANTOS ANJOS. - Digamos uma palavra do
culto que tributamos aos Anjos e do modo de celebrar a sua festa. O
culto supremo, chamado de latria, não pertence senão a Deus, e não se 1

poderia tributai-o á creatura sem cabir na mais monstruosa idolatria, e


sem ser réo do crime de alta traição contra a magestade divina. É.. se
idolatra quando se offerece o sacrificio a um ente que não é Deus, e
quando se lhe applica, d'um modo directo ou indirecto, algum attributo
da Divindade; mas ha uma honra de ordem inferior, que se deve a certas
creaturas, por causa da sua superioridade ou excellencia.
Tal é a que a mesma lei de Deus nos manda que prestemos a nossos
paes, aos príncipes, aos magistrados e a todas as pessoas constituidas em
dignidade. Tal é tambem essa honra junta com sentimentos de religião,
que, segundo os livros santos e a lei natural, se deve aos Sacerdotes ou
aos ministros do ·Altissimo, e que os reis, ainda os mais maus, prestavam
muitas vezes aos Prophetas, posto que fossem homens obscuros e des-
prezíveis aos olhos do mundo.
Esta honra, como se vê, differe infinitamente da que pertence só a
Deus. Não póde ser-lhe injuriosa; pois refere-se ás creaturas, em quanto
as suas perfeições são dons da bondade divina. Quando testimunhamos
respeito a um embaixador, honramos o senhor que o fez depositario de
parte da sua auctoridade, e o senhor é que é o fim ulterior dos senti-
mentos que manifestamos. A Escriptura Sagrada vem n'este ponto em
apoio da lei natural. Dae a todos os homens o que lhes é devido ... honra
a quem honra pertence (t). Honrae, diz S. Bernardo com este motivo,
honrae a cada um consoante a sua dignidade.
Quanto á maneira de bem celebrar as festas dos Anjos, devemos, -
para entrarmos no espirito da Religião: t. º dar graças a Deus pela glo-
ria de que enche estas sublimes creaturas, e regosijar-nos com a felici-
dade de que disfructam; 2. 0 manifestar o nosso reconhecimento ao Se-
nhor por ter, pela sua rnisericordia, confiado o cuidado da nossa salva-
ção a estes espíritos celestiaes, que nos fazem sentir contínuamente QS
effeitos do seu zêlo e da sua ternura; 3. 0 juntar-nos a elles para louvar-
mos e adorarmos a Deus, para lhe pedirmos a graça de fazermos a sua

(1) Rom., XIII, 7.

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'236 CATECISAlO .

vontade · na terra,
.
como os anjos a fazem no ceo, e de trabalharmos na
nossa santificação imitando a pureza d'estes espiritos beatos, aos quaes
estamos unidos d'um modo tam intimo; e 4. 0 não só honral-os com fer-
vor, senão lambem implorar o auxilio da sua intercessão.
IV. DEvoçAo DO ANJO DA GUARDA. - Resta-nos fallar do Anjo da
guarda. E primeiramente, dizei-me, homens, quemquer que sejaes, co-
nheceis coisa mais propria para dar ao filho d' Adão, a este filho que se
roja no pó, que rega com suas lagrimas o caminho da vida, que o per-
corre, dir-se-ia como o intimo dos entes, que se sente arrastado pelo pêso
d'uma natureza corrompida para tudo quanto ha vil e abjecto; conheceis
coisa mais propria para o ennobrecer aos seus olhos e tornal-o respeita-
vel e sagrado aos olhos dos outros, que est.a festa do Anjo da guarda?
Filho do pó, lembra-te, lhe diz a Egreja n'este dia, que és filho do
Eterno. O monarcha dos mundos enviou para ti um principe da sua
côrte e lhe disse: Vae, pega a meu filho pela mão, vela por todos os
seus passos, e faz-me conhecer as suas necessidades, os seus votos e os
seus suspiros. De dia, está ao lado d'elle no seu caminho, e de noite, a
pé á cabeceira do seu leito. Toma-o nos braçq,s para que não magôe os
pés na pedra. Está confiado aos teus cuidados, e tu o trarás nos braços
ao pé do meu throno, no dia que eu houver marcado para o introduzi-
res no meu reino, sua immortal herança. Eis tudo o que nos diz e mui-
tas outras coisas mais a festa do Anjo da guarda.
Reparadora universal, podia a Egreja catholica esquecer-se de cele-
brai-a? Oh! não; pelo contrario, fez tudo para tornar sensível e, se é
possivel, sempre presente a crença do Anjo da guarda. Desde o berço
até á sepultura, falia-nos do principe da côrte celestial que véla na de-
fensa do nosso corpo e da nossa alma, qne \·ê todas as nossas acções e
que dá contas ao Deus do ceo, pae e juiz de todos os homens.
V. FESTA Dos ANJOS DA. GUARDA. - Tudo isto porém não foi suffi-
ciente á sua sollicitude, mas estabeleceu uma festa particular para hon-
rar os Anjos da guarda de seus filhos. Foi Fernando d'Austria, depois
imperador, quem alcançou no principio do seculo decimo-septimo, do
Papa Paulo V, que se podésse fazer o officio do Anjo da guarda e que se
celebrasse a sua festa (t ). Espalhada em breve por toda a Egreja, não foi
esta tocante solemnidade interrompida desde essa epocha.
De facto, os motivos que temos para a celebrarmos não são sempre

(1) Heterot. Spirit., p. 4.

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DE PERSEVEnANÇA. 237
os mesmos, isto é, sempre numerosos, sempre poderosos, sempre que-
ridos aos corações bem nascidos? Parece ~té que quanto mais adianta-
mos na vida, e quanto mais o mundo caminha para o seu fim, tanto mais
imperiosas se tornam as razões de honrarmos os bons Anjos. Cada dia
da nossa existencia e da existencia do mundo não é testimunba de algum
novo beneficio dos Anjos da guarda ? Estes novos beneficios não ~ão no-
vos titulas ao nosso reconhecimento e á nossa piedade?
Para cumprirmos os deveres que nos são impostos para com o nosso
Anjo da guarda, é preciso, diz S. Bernardo, prestarmos-lhe tres home-
nagens : a do, respeito, a da devoção e a da confiança. Devemos-lhe o
respeito pela sua presença, a devoção pela sua charidade, e a confiança
pela sua vigilancia. Penetrados de respeito, caminhae sempre com cir-
curnspecção, lembrando-vos incessantemente de que estaes na presença
dos Anjos, encarregados de vos dirigirem em todas as vossas vias. Em
qualquer logar que estejaes, por mais secreto que possa ser, respeitae
o vosso Anjo da guarda. Ousaríeis fazer diante d'elle o que não quizereis
fazer na minha presença (i)?
Não só devemos respeitar o nosso Anjo tutelar, mas devemos amai-o.
E' um guarda fiel, um verdadeiro amigo, um poderoso protector. Não
obstante a excellencia da sua natureza, a sua charidade o leva a encar-
regar.se do cuidado de nos defender e proteger. Véla pela conservação
dos nossos corpos, os quaes os demonios teem ás vezes poder de preju-
dicar; mas que não faz pela nossa alma? Instrue-nos, alenta-nos, exhor-
ta-nos interiormente; adverte-nos dos nossos deYeres com exprobrações
secretas. Exerce a nosso respeito o oflicio que exercia a respeito dos ju-
deus o Anjo que os conduzia a Terra promettida; faz por nós o que fez
Raphael pelo moço Tobias; serve-nos de guia no meio dos perigos d' esta
vida. De que sentimentos de reconhecimento, respeito, docilidade e con-
fiança não devemos penetrar-nos para com o nosso Anjo da guarda? Po-
deriamas agradecer assás á misericordia divina o inestimavel dom que
I
nos fez?
Tobias, reflectindo nos assignalados favores que recebêra do anjo Ra-
pbael, diz a seu pae: a:Que recompensa poderemos dar-lhe que tenha al-
guma proporção com os bens de que nos encheu? Levou-me e trouxe-me
de perfeita saude, foi elle mesmo receber o dinheiro de Gabelo, fez-me
ter a mulher que esposei, afastou d'ella o demonio, encheu d'alegria seu

(1) Serm. XII, in Psal. XC.

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238 CATECISMO

pae e sua mãe, Jivrou-me do peixe que me ia devorar, fez-vos vêr a luz
do ceo, e por via d'elle nos achamos repletos de todas as especies de bens.
Que podemo pois dar-lhe que eguale o que elle fei por nós (1) ?»
Tobias e seus paes, movidos da mais viva gratidão, se prostraram
com o rosto por terra, por espaço de tres horas, bemdizendo a Deus.
Forcejemos por entrar nos mesmos sentimentos. «Amemos, diz S. Ber-
nardo, amemos ternamente em Deus os Anjos, esses espiritos beatos que
serão um dia nossos companheiros e coberdeiros na gloria, e que são p~e­
sentemente nossos tutores e guardas. Sejamos devotos e reconhecidos para
com similbantes protectores, amemol-os, e bonremol-os quanto em nós
cabe.D
Devemos tambem ter uma terna confiança na protecção do nosso Anjo
da guarda. •Por mais fracos que sejamos, diz ainda S. Bernardo, por
mais mberavel que eja a nossa condição, por maiores que sejam os pe-
rigos· que nos rodêam, não devemos temer n~da sob a protecção de taes
guarda ... Todas as yezes que vier assaltar-vos alguma tribulação ou al-
guma violenta tentação, implorae o soccorro d'aquelle que vos guarda,
que vos guia, e ql1e vos assiste em todas as vossas mortificações.»
Mas, para merecermos a sua protecção, devemos primeiro que tudo
evitar o peccado; as culpas, ainda veniaes, affiigem-n'o. «Assim como o
fumo, diz S. Basilio, afngenta as abelhas, e o mau cheiro as pombas, as-
sim tambem a infecção do peccado faz fagir o Anjo encarregado do cui-
dado de guardar-nos.» A impureza principalmente é um vicio a que os
espiritos celestiaes teem soberano horror.
Os Anjos das creanças a quem escandalisamos gritam vingança con-
tra nós. «Eu vou, diz o Senhor, enviar o meu Anjo, para qae caminhe diante
de vós, vos guarde durante o camniho, e vos faça entrar na terra que eu vos
preparei. Re peitae-o, escutae a sua voz, e livrae-vos de o desprezar, por-
que não vos perdoará quando peccardes, e porque o meu nome está n'ella.
Mas se ouvirdes a saa voz, e fizerdes tudo quanto vos digo pela sua bôcca,
serei inimigo dos vossos inimigos, e aftligirei aqaelles que vos afiligem. O
meu · Anjo caminhará diante de vós e vos introduzirá na terra que eu vos
preparei (2).

(1) Tob., XII, 3.


(2) Exod., XXIII, 20. Vide Thomassiuo, Das festas; Godesca1·d, 2 d'outubro.

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..
DE PERSEVERANÇA. ~39

ORAÇÃO.

1
O' meu Deus, que sois todo amor 1 graças vos dou por me haver-
des enviado os vossos Anjos para me guardarem; concedei-me que seja
eu mesmo um anjo perante vós pela pureza do meu coração e pela mi-
nha promptidão em cumprir a vossa santa vontade.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de recitar todos os dias, com fervor, a oração a.o meu Anjo da guarda.

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CATECISMO

QUNQUAGESIMA·PRIMEIRA LIÇÃO.

Ochrislianismo lornado sensivel.

Todos 011 Santo11. - Sabedoria da EgreJa na divi11ão do seu


anno. -omcio de Todos os sancos. - Ori&;em d'esta feMCa.
-Razõe• do Meu estabeleclmeoto.-Sentiruentos que deve
inspira1··00N. - Historia da beatificação e canonhtação
do8 Santos. - Procetu1os e ceremonla111.

I. ToDos os SANTOS. -A Egreja nossa mãe teve a habilidade de tra-


çar na divisão do seu anno toda a llistoria do genero humano. As quatro
semanas do Advento, que terminam no nascimento do Salvador, nos lem-
bram os quatro mil annos durante os quaes foi esperado este dh·ino Mes-
sias. O tempo que decorre desde o Natal até ao l?entecostes, nos rediz
toda a vida occulta, publica e gloriosa do Redemplor, e esta parte do anno
termina pela Ascensão de Jesus Christo ao ceo e fundação da Egreja. O
intervallo que se estende desde o Pentecostes até ao dia de Todos os
Santos, nos representa a peregrinação da Egreja na terra, e esta nova
parte do anno termina ainda pela festa do Ceo.
Durante este longo espaço, vêmos a celestial viajeira caminhando
para a bemaventurada patria, reunindo no caminho os escolhidos disper-
sos pelos quatro pontos cardeaes, e celebrando successivamente, para se
consolar do sen exilio e se alentar nos seus combates, a festa dos seus
marlyres, dos seus confessores, das suas virgens e dos anjos que velam
na sua guarda. Todos os e\·angelhos d'este tempo respiram a charidade,
o zêlo, as virtudes e esperanças d'esta mãe cheia de sollicitude. Assim é
que chega ao termo da sua carreira annual, semeando no seu caminho as
saudaveis lições, os alentos e os grandes exemplos.
Quando pois é chegado o outono e o vinhateiro enche as suas ade-

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DE PERSEVEHANÇA. 2U

gas, o lavrador fecha nos seus celleiros as copiosas messes, e os homens


colhem na alegria os seus bens de todas as especies, fructos dos seus
suores e trabalhos, a Egreja brada a todos os seus filhos da terra : Levan-
tae os olhos e os corações! Depois, entre-abrindo as portas da Jerusalem
celeste, e deixando chegar a elles alguns raios da ineffave1 gloria que
Deus reserva aos seus Santos, com a sua dôce voz de mãe diz a todos,
ricos e pobres, sabios e ignorantes : Esses bens que accumulaes, essa
preciosa colheita cuja festa celebraes, não são senão a imagem dos bens
e das alegrias que vos esperam além do tumulo. Semeae virtudes e cei-
fareis merecimentos ; ennobrecei as vossas vistas, que só o ceo com suas
palmas e corôas, só o ceo com a sua eternidade de g1oria e as suas tor-
rentes de delicias, só o ceo é digno dos vossos cuidados.
II. LITURGIA. - E vêde como, na sua linguagem eloquente, ella nos
falia das alegrias da patrja ! A epistola do dia de Todos os Santos anima
a nossa fraqueza : diz-nos que o ceo está povoado de homens de todas as
tribus, de todas as linguas e de todas as nações; que os Santos foram
tudo o que nós somos, fracos, tentados, peccadores até, n'uma palavra,
filhos d'Adão como nós; e que assim não depende senão de nós o ser-
mos um dia o que elles são.
O Evangelho nos mostra as condições com que nos será dado o
ceo. Consola-nos, dizendo-nos que as mais humildes virtudes, desde a
humildade que se occulla até á paciencia que pela calumnia é subjeita
ás mais rodes provações, são outras tantas estradas reaes que conduzem
á cidade da ventura.
ccN'aquelle tempo, tendo Jesus subido ao cume d'um monte, se as-
sentou no meio dos seus Discipulos, e os ensinóu n'estes termos:
«Bemaventurados os pobres de espirito (isto é, os que são humil-
«des e desapegados), porqae d'elles é o reino do ceo.
«Bemaventurados os que são mansos, porque possuirão a terra.
o:Bemaventurados os que choram, porque serão consolados.
«Bemaventurados os que teem fome e sêde da justiça, p_orque se-
u.rão fartos.
«Bemaventurados os misericordiosos, porque receberão misericor-
a:dia.
«Bemaventurados os que teem o coração puro, po'rque verão a
«Deus.
«Bemaventurados os pacificas, porque ser~o chamados filhos de
«Deus.

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2~2 CATIWISl\10

o:Bemaventurados os que soffrem perseguição por causa da justiça,


«porque d'elles é o reino do ceo.
«Bemaventurados sois vós quando os homens vos amaldiçoarem e
«perseguirem, e levantarem todas as especies de calumnias contra vós,
«por causa de mim ('I). »
Por uma sabedoria de linguagem que nunca se admirará assás, cha-
ma a Egreja .a estas virtudes a que está promettido o ceo, a estas virtu-
des accessiveis a todos, as oito bemaventuranças. Sim, bemaventuranças
do homem ainda mesmo na terra, onde lbe poem o coração a salvo das
tempestades das tres grandes paixões que tyrannisam o genero humano
e transtornam o mundo: o amor desregrado das honras, o amor desre-
grado das riquezas, e o amor desregrado dos prazeres. Assim, para tor-
nar o homem feliz por toda a eternidade, não lbe pede a Heligião senão
licença para o tornar feliz na terra.
Cheios d'estes pensamentos, transportemo'-nos no dia de Todos
os Santos ao meio da sagrada Jernsalem. Alli verêmos uma nuvem
de testimunhas que, do alto dos thronos brilhantes em que estão assen-
tados, nos contemplam e animam. Filhos do exilio, as palmas que elles
reem na mão nos lembram que assim para nós como para elles a vida é
uma lacta. Nós somos os combatentes; os Santos são os espectadores; a
corôa é o Ceo. Mas os Santos não são espectadores indifferentes; são
nossos irmãos, nossos amigos; animam-nos com o gesto e com o olhar,
sustentam-nos com as suas poderosas orações, levantam-nos se cahirnos,
recebem-nos nos braços se vencemos, e applaudem o grande Rei que
nos põe na cabeça a corôa dos vencedores.
Assim, n' este magnifico officio de Todos os Santos, todas as orações
da Egreja tendem a animar-nos, em tanto que a pompa dos seus orna-
mentos e a magnificencia das suas ceremonias nos dão uma fraca idêa
das bellezas arrebatadoras da festa eterna.
Fazer dominar no nosso coração um vivo sentimento de esperança
e alegria, tal é o objecto da Egreja nos seus officios da manhã. Mas as
festas da terra são festas incompletas, as alegrias do exílio são necessaw
riamente alegrias pacientes, e eis que para completar a impressão, o of-
ficio da tarde ·nos leYa á mais indizível melancolia. E' cheio de suspiros,
ha lagrimas na voz do côro, ha-as tambem nos canticos sagrados. Os
psalmos parecem tomar uma significação particular em harmonia com as

(1) Math., IV, 1-10.

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DE PERSEVERANÇA . 2~3

.disposições do homem exilado e incerto da sua salvação. No bymno di-


rigimo' -nos a Nosso Senhor Rei dos Santos, a Maria sua Rainha e a todas
as ordens dos bemaventurados. Rogamos-lhes que se lembrem de nós,
que nos attraiam a si, e entretanto que façam reinar na Egreja militante
a charidade que faz a felicidade da Egreja trinmphante.
A antifona, a Magnificat, pela qual saudamos o ceo pela ultima
vez, é um ardente suspiro pela bemaventurada patria. Tudo está acaba-
do ; as portas da Jerusalem celeste, um instante entre-abertas, se tornam
a fechar aos nossos olbos cheios de lagrimas, e a Egreja nos chama a um
espectacu1o mui differente. Tal é, em poucas palavras, o espirito da li-
turgia catholica na festa de Todos os Santos : é tempo de relatarmos a
origem d'esta solemnidade.
III. ORIGEM DA FESTA. - Desde os primeiros seculos, celebrou a
Egreja a festa annual de cada martyr. N'esse dia, reuniam-se no logar
onde o beroe chrislão havia alcançado a victoria; cercavam o seu tu-
mulo, cuja pedra servia d'altar, e offereciam o augusto Sacrificio em ac-
ção de graças (t ).
Em breve, augmentando o numero dos martyres, não foi possivel
assignar a cada qual um dia de festa particular. A difficuldade tornou-se
muito maior quando a Egreja enviou para o Ceo uma innumeravel mul-
tidão de solitarios, virgens e confessores, cuja santidade se comprazia
Deus em comprovar por meio de brilhantes milagres. Estas razões trou-
xeram o estabelecimento d'uma festa que foi consagrada a honrar pri-
meiro todos os martyres e depois todos os Santos em commum: dêmos
a este respeito alguns pormenores.
Marco Agrippa, genro e favorito d' Augusto, mandára edificar um
magnifico templo dedicado a Jupiter vingador (2). · Queria por este meio
adular o imperador, que acabava de ganhar a famosa victoria d'Accio a
Antonio e Cleopatra. Este templo chamou-se Pantheon, ou porque n'elle
se reverenciavam todas as falsas divindades, ou porque a figura do edi-
ficio representava o ceo, chamado pelos pagãos o assento de todos os
deuses. Esta obra-prima d'architectura pagã é um hemispherio, a altura
é quasi egual á largura, e tem cento e ciucoenta e oilo pés de diamelro.
N'elle não se vêem pilares nem janellas; a luz não desce senão por uma
larga abertura de fórma redonda que está no topo e no meio. A maior
(1) 8acrificia pro eis, ut meministis, semper offerimus, quoties martrrum pas-
siones et dics anniversaria commemoratione celebramus. Cypr., ep. XXXIV.
(2) Jovi ultori. Vide ácerca d'este edificio as Tres Romas.

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CATECISl\10

parte dos templos pagãos foram destroidos, mas o imperador Honorio


quiz que se deixasse subsistir o Pantheon, como monumento da antiga
magnificencia do imperio.
Em 607, o mandou o Papa Bonifacio IV abrir e purificar. Dedicou-o
sob a invocação da SS. Virgem e de todos os martyres, o que lhe fez
dar o nome de Santa Maria dos Martyres (!); chamam-lhe tambem Ro·
tunda por causa da sua fórrna. O dia da dedicação cbristã d'este famoso
templo foi um dos mais solemnes de que Roma tem sido testimunhá. O
Summo Pontífice, paramentado de todos os ornamentos da sua dignida-
de, appareceu, seguido d'um numeroso clero e d'uma mu1tidão immensa.
Na vespera, tinham tirado das Catacumbas grande quantidade d'ossos e
relíquias de martyres; viram-se chegar ã basílica, levados em vinte e oito
carros magnificamente ornados. Quanto mais bello foi este triumpho dos
beroes da fé que o dos consules e impr,radores pagãos (2) 1
Pelo anno de 73t, consagrou tambem o Papa Gregorio III uma ca-
pella, na egreja de S. Pedro, em honra de todos os Santos. Desde estas
duas epocbas, sempre se celebrou em Roma a festa de todos os bem-
aventurados habitadores da Jerusalem celeste. Parecia não ser senão para
Roma, assim como o Pantheon e essa quantidade surprehendente de re-
liquias que se trasladou para elle. Mas o Papa Gregorio IV, vindo a
França em 836, empenhou Luiz o Clemente a fazêl-a celebrar nos seus
estados. O principe consentiu de boa vontade, e em breve a festa de To-
dos os Santos foi universalmente adoptada; Xisto IV lhe deu uma oitava
em f 480 (3).
IV. ÜBrncto DA FESTA.-A solemnidade de Todos os Santos foi pois
estabelecida: .f .ºpara honrar todos os Santos cuja festa era impossível fa-
zer-se em particular, ou porque os seus nomes não estão escriptos no
livro de vida, ou porque a sua festa não tem dia fixo para os fieis; 2. 0
para dar graças a Deus pelos beneficias de que encheu os seus escolhi-
dos; 3. 0 para excitar-nos a imitar os seus exemplos; 4. º para alentar a

(1) S. Maria ad Martyres .


(2) Legi in ejus Ecclesire codice manuscripto, tem plum illud dicatum impri-
mis in honorem Genitricis Marire, omnium sauctorum martyrnm et confessoru m il-
i at aque illuc e11se reperi duodetriginta curribus ossa sanctorum martyrum e diver-
sis urbis cramiteriis effossa, solemniterque comportata, ac <lecentissime collocata.
Bar., in Not. ad Martyrol., 13 de maio.
(3) Tunc monente Gregorio papa et omnibus episcopis assentientibus, Lodo-
vicus imperator statuit ut in Gallia et Germania festivitas ornnium Sanctorum in
Kalcndis no\•ernbribus celebraretur, quam Romani ex institutfooe Bonifacii cele•
brant . .Mabill., De re Diplom., p. 537; Reinaldo, n. 29.

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DE PERSEVERANÇA.

nossa fraqueza e confundir a nossa cobardia, pondo-nos diante dos olhos


essa multidão de santos de todas as edades, de todos os sexos, de todas
as condições, e fazendo-nos contemplar a felicidade ineffavel de que gozam
e á qual somos chamados; ã. 0 para sollicitar a bondade de Deus em favor
de seus filhos pelos merecimentos d'estes poderosos intercessores; e 6. 0
para nos dar occasião de reparàrmos as faltas que poderam escapar-nos
na celebração de cada festa em particular.
V. MEIO DE BEM A cELEBRAR.-Para celebrar dignamente a solemni-
dade de Todos os Santos, basta pensar que é uma festa de familia, a festa
de nossos parentes, de nossos amigos, e que deve ser um dia a_nossa.
Poderia succeder que não nos desgostassemos da terra quando reflec-
timos que, pela misericordia divina, somos capazes de chegar a uma
felicidade immensa que nunca ha de acabar? Como então não renunciar-
mos a tudo o que seja capaz de impedir a nossa felicidade e não adop-
tarmos todos os meios de segurar a posse d'ella? Como deixarmos de
ser inflammados d'um desejo ardente de nos vêrmos admittidos na
companhia dos amigos de Deus, para sermos coroados com elles de glo-
ria eterna ? -
Um general que, de simples soldado, chegára aos primeiros postos
do exercito pelo seu valor e comportamento, gostava de conversar fami-
liarmente com os soldados que commandava. «Eu tambem, lhes dizia,
andei com o mosquete e fiz sentinella como vós; levei um genero de vida
inteiramente similhante ao vosso e supportei as mesmas fadigas., Conta-
va-lhes que nos cercos tinba aberto trincheiras, levado fachinas, que fôra
sempre o primeiro a subir ao assalto, a forçar uma posição perigosa.
Entrava na individualisação dos diversos meios que o tinham feito passar
successivamente· pelos postos de sargento, tenente. capitão, coronel e
official-general.
E' difficil eomprehender quanto os soldados eram animados por si-
milhantes pala\rras, e que impressão lhes fazia no animo o exemplo que
tinham ante os olhos. Já não se queixavam das fadigas nem dos perigos;
faziam d'e1les um motivo d'alegria e ambição; cada um d'elles os consi-
derava como um meio de ·caminhar e chegar aos mesmos postos que o
seu general. Não ignoravam todavia que nada era mais incerto que o
objecto das suas esperanças, que a mais pequena promoção se compra
com os maiores perigos, e que, quando tivessem do seu lado os mais
felizes successos, as mais brilhantes façanhas, a recompensa e distincção
que tinham em vista era coisa tam extraordinaria, que dependia de tantas
t6

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CAl'EClSMO

circumstancias, que estava tam subjeita aos caprichos da fortuna, que não
deviam razoavelmente esperai-a.
O caso é mui differente no negocio da salvação; o resultado depende
do nosso proprio coração. Por immensa que seja a gloria a que aspira-
mos, é o proprio Deus que nos convida a pretendêl-a e que tem por bem
ser a nossa luz e força. Estamos certos, com o auxilio da sua graça, a
qual nunca nos falta senão por culpa nossa, de chegar a essa felicidade
que nunca ha de ter fim, e que ultrapassa todos os pensamentos do nosso
espirito. Quantos Santos a possuem já f Elles nos traçaram com os seus
exemplos a estrada que d ~vemos seguir; eram o que nós somos, viajan-
tes na terra; tinham a mesma natureza. «Elias, diz o apostolo S. Tbiago,
estava subjeito ás mesmas enfermidades que nós (1) . ., Elles com tudo san-
tificaram-se todos.
Em balde quizeramos allegar os obstaculos que temos que vencer;
pois que os Santos se achavam nas mesmas circumstancias, e talvez em
circumstancias mais delicadas. Quanto tiveram que luctar contra os attrac-
tivos da volupia, contra as ciladas da grandeza, contra a seducção da Ji.
sonja, contra a injustiça dos inimigos, contra os horrores da prisão, con-
tra a raiva dos perseguidores, e contra a crueza dos a1gozes f Não só
tríumpharam de todas estas difficuldades, mas até fizeram d'ellas meios
de salvação; com ellas se tornaram mais attentos em veiar sobre si mes-
mos. As suas proprias faltas redundàram em vantagem sua. Fizeram-n'os
mais ferventes na oração, mais mortificados, mas penitentes, e mais appli-
cados á prática das boas obras (2).
Taes são os vestigios que nos deixaram os Santos ao voltarem á
patria (3): para chegarmos ao mesmo termo, não ha outro caminho. Se
precisamos de motivos, lembremo'-nos d' esta verdade: Custar-nos-á mais
o condemnar-nos que o salvar-nos. ·
Acabamos, n'este grande dia de Todos os Santos, de prestar aos
bemaventurados habitadores do ceo o culto que todas as edades christãs
lhes prestaram antes de nós e que as gerações faturas lhes hão de pres-
tar quando nós já não existirmos. Baseado na palavra de Deus e na tra-
dição universa1, é imperecedouro o culto dos Santos. Não é este o Jogar
de desenvolvermos a natureza d'elle. E' sabido que os Calholicos honram

(1) 'l'hi., V, 17.


(2) Godescard, Todos os Sanlos.
(3) Hrec sunt vestigia Jure 8ancti quique in patriam revertentes nobis i·eli-
querunt. V. Bed., Serm. XVII , de Saneeis. .

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os Santos como amigos de Deus, como protectores poderosos e fieis,


cujas orações alcançam mais seguramente que as nossas as graças que
nos são necessarias.
Mas o que se conhece menos geralmente, é a historia da canonisa-
ção dos Santos, isto é, a maneira como se hão para verificar a sua san-
tidade. Seremos felizes se o que vamos dizer contribuir para fazer-nos
admirar cada vez mais a consummada prudencia e profunda sabedoria
da Egreja catholica. Interessantes por si mesmas, as noções seguintes nos
parecem ter particular utilidade por completarem a historia da festa de
Todos os Santos.
VI. CANONISAÇÃO Dos SANTOS.- Expliquemos primeiro algumas pa-
lavras que talvez tenhamos ouvido pronunciar muitas vezes sem Jhes li-
garmos um sentido preciso: Servo de Deus, Veneravel, Beato, Santo,
Beatificação e Canonisação. -
Servo de Deus. Chama-se assim, na lingua da Egreja catbolica, ao
Christão morto com cheiro de santidade (1).
Veneravel. Aquelle coja fama de santidade está provada por um jul-
gamento legitimo (2), isto é, strictamente ~aliando, aquelle cujo processo
de beatificação está começado (3).
Beato. AqueJle que está beatificado, isto é, aquelle cuja santidade
está comprovada por um julgamento solemne, e ao qual permitte o Summo
Pontífice se preste culto em certos paizes, em certas ordens religiosas,
até á canonisação solemne (4).
(1) Qui moritur cum fama sanctitatis. Bened. XIV, de Beatif. et Canonis.
SS., 1. I, e. XXXVII.
(2) Cujus sanctitatis fama judicia.li jure probata est. Id.
(3) ln quorum Beatificationis et Canonisationis causis commissio introductio-
nis signata est; non signatur enim commissio, nisi judiciali more constiterit, ex pro-
cessu auctoritate ordinaria confecto, de fama sanctitatis et miraculorum. Id.
(4) Beatificatio est ali cujus in beatos rela.tio, ou, como diz Benedicto XIV:
Beatificationem esse actum quo S. R. Pontifex indulgendo permittit aliquem Dei
servorum coli posse in aliqaa província, direcesi, civitate, aut religiosa familia, cultu
quodam determina.to, ac beatorum proprio, usquequo ad solemnem canonisationem
diveniatur. Id., e. XXXIX.
As despezas que occasiouam as Beatificãções são mui pouco consideraveis.
Alexandre VII, prescrevendo que as Beatificações se effectuassem na basil-ica vati-
7 cana, determinou ao me mo tempo a cifra d'uma indemnisação ao cabido de S. Pedro
pelas depezas d'adorno da basilica. Lê-se no tractado de Benedicto XIV que é essa
uma coisa mui justa aos olhos de todo o homem que tem conhecimento do estado mo-
netario do cabido. Nao se póde fazer idea, accrescenta Benedicto XIV, do consumo
de adornos que se faz, tanto por causa da intemperie do ar do Vaticano, como do
grande numero de missas que se celebram todos os dias na basílica; a conservação
d'estes ornamentos está a cargo do cabido e não da fabrica, que tambem não é muito
rica e se acha carregada de dividas.


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2i8 CATECISMO

Santo. Aquelle que está canonisado, isto é, cujo culto é permittido


em toda a Egreja catholica ('1 ).
Beatificação. Segundo o que precede, é facil de vêr que a beatifi-
cação é um acto pelo qual declara o Summo Pontifice que uma pessoa é
bemaventurada depois da sua morte. Em consequencia da beatificação,
concede o Papa a certas pessoas, a certos paizes, o privilegio de honra-
rem com um culto determinado aquelle que está beatificado, sem incor-
rerem-nas penas comminadas contra aquelles que prestam um culto su-
,persticioso. Os Santos que não estão senão beatificados, são honrados
Pondo de parte esta offrenda á basilica, as despezas de Beatificação reduzem-
se a pouco. A tnxa para o breve. é mui pequena; o que o lê tem direito a uma re-
tribuição de quinze paulos e nada mais : os mestl'es de ceremonias e os sacristães
da. basilica não recebem senão uma retribuição mui escassa. O notario da congre-
gação dos Ritos percebe tres escudos, e nada mais; o substituto e o seu companheiro
recebem ciuco. Veem depois, na pauta estabeleçjda por Benedicto XIV, algumas
escassas quantias para a guarda suissa e para os artilheiros que fazem troar o ca-
nhão e o morteiro durante a Beatificação.
Benedicto XIV prova, com o auxilio de differentes factos, que os Papas traba-
lharam em todo o tempo em diminuir as despezas das causas de canonisaçao: kRo-
manos Pontifices earum modérationi studqisse ac studere.> Tiraram a maior parte
das despezas excessivas e inuteis que se haviam introduzido insensivelmente: CIPle-
ragque immodicas ac superfluas, qure paulatim irrepserant, smblatas fuisse.» Não se
deixou senão o que é absolutamente necessario para seguir e levai· ao cabo as bea-
tificações e canonisações : e Expensas utique esse necessarias ad exitum perducendas
beatificationum et canonisationum causas.11 E estas despezas necessarias foram fixa-
das em pautas que se devem observar inviolavelmente. Repete etn outro sitio que
as despezas actualmente em vigor são strictamente nece.,sarias: cStricte dicimus,
necessarias profecto esse in pertractandis atque ad exitum perducendis beatificatio-
num et canonisationum causis expensas.• Vê-se na sua obra a cifra total do que
custaram certas causas de cononisaçào.
Ha comtudo uma coisa para que a Congregação dos Ritos nunca estatuiu coisa
alguma, os honorarios dos postulantes: rNulla porro quoad posse postulatores mer-
ces a sacra Congregationc statuta est. '' Benedicto XIV parece não approvar senão
mediocremente que se mantenha sumptuosamente um personagem distincto, algum
conego, para desempenhar o officio de postulante, pois é uma despeza iuutil e mui
consideravel: -superfluum ... ac maguum sumptum ... si viri nobilis, si canonici
opera hrec in re adhibeatur.n Teve occasião, quando desempenhava o cargo de pro-
motor, de ap1·eciar o procedimento d'aquelles que, em lugar de manterem alguem
com este fim, confiavam simplesmente a postulação a algum religioso: 1Dum pro-
motoris munere fungebar, satis providam quorumdam suspexi ooconomiam, qui ali-
quem religiosum vel ad Urbem missum, vel in Urbe commorantem negotio prrefi-
cientes, subministl'ata crenobio eleemosynii pro aliµioniis, et tenui quodam summa
religioso ipsi pro regularibus indigentiia, superfluum hoc pacto, et magnum sump-
tum evitarunt alioquin neccssarium, ut puta, si viri nobilis, si canonici opera hrec
in re adhibeatur. 1 Ha causas em que o honorario dos postulantes acaba por consti-
tuir uma porção notavel da despeza total.
(1) Canonisatio est alicujus beati in numerum sanctorum relatio, ou, como
diz Benedicto XIV: Canonisationem esse S. Pontificis sententiam definitivam, qua
decernit aliquem autea inter Beatos recensitum in 8anctorum catalogmn essa refe-
rendum, et coli debere in toto orbe catholico, atquc in universa Ecclesia, cultu illo
que creteris canonisatis pr::estatur. Id .


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com nm catto menos solemne qae os que estão canonisados. Não se po-
dem tomar para padroeiros; o seu officio não tem oitava: o dia em que
se faz o seu officio, não póde ser festa de preceito: não se lbes póde
dizer Missa votiva (t ).
A beatificação foi introduzida desde que não se chegou á canonisa-
ção senão por meio de longos processos. Até ao Papa Alexandre VII,
que occupava a Santa Sé no meado do seculo decimo-septimo, fazia-se a
solemnidade da beatificação dos Santos na egreja da sua ordem, se eram
religiosos, ou na da sua nação, se a tinham em Roma. Foi o mesmo Papa
que primeiro mandou que a beatificação dos Santos fosse na basilica de
S. Pedro, e a primeira que se fez d'este modo, foi a de S. Francisco de
Sales, a 8 de janeiro de t 662 (2).
Canoni.~ação. Segundo a etymologia da palavra, canonisação quer
dizer a acção pela qúal se põe alguem no canon on cathalogo dos San-
tos. Com effeito, nos primerros seculos da Egreja, consistiam as ceremo-
nias da canonisação em inscrever o nome do Santo nos diptycos sagra-
dos, isto é, nas taboinhas que se liam á Missa e que continham o nome
da SS. Virgem, dos Apostolas e d'outros Santos: nomes bemdictos que
ainda recitamos todos os dias durante os augustos mysterios, em me-
moria d'este antigo costume. Inserto o nome do Santo nos diptycos, eri·
giam-se sob a sua invocação egrejas ou oratorios para n'elles offerecer o
santo Sacrificio, dar graças a Deus pelo seu triumpho e implorar a sua
mediação.
Se agora quizermos definir a palavra canonisação segundo a sua ac-
cepção actual, diremos que a canonisação é uma declaração legitima, so-
lemne e definitiva, pela qual põe o Summo Pontifice no canoa ou catha-
logo dos Santos uma pessoa beatificada, e anctorisa o seu coito em toda
a Egreja. O termo canonisação não é tam antigo como a propria coisa,
pois que não se encontra antes do dnodecimo seculo, e o primeiro que
se serviu d'elle foi Uldarico, Bispo de Constança, na sua carta ao Papa Ca-
lixto II para a canonisação do Bispo Conrado (3).
A canonisação em si é tam antiga como a Egreja. O direito de ca-
nonisar pertence-lhe es8encialmente. Com effeito, pois que Deus permitte

(1) Vide Castellinus, Lezana e Duranti.


(2) Bened. XIV, t. V, l. I, c. XXIV e XXXIX, assim como a nossa Historia
das Catacumbas, onde se encontram todas as particularidades relativas á canonisa-
ção, etc.
(3) Acfa SS. Bened., n. 88. Vide tambem Ferraris, art. Cultus Sanctorum.

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!50 CATECISMO

e quer que nós honremos os Santos, devia dar á sua Egreja o direito e
o meio de verificar a sua santidade. Se não fosse isto, o mundo breve
recabiria na superstição e idolatria, d'onde o Christianismo acabava de
tiral-o. D'onde este raciocinio peremptorio dos theologos catbolicos: é
uma heresia negar a auctoridade da Egreja e do Summo Pontifice para
a canonisação dos Santos; porque é uma heresia negar que os Santos
devam ser invocados. Logo a Egreja tem direito de canonisar os Santos,
isto é, de determinar aquelles cuja santidade merece o culto e a invoca-
ção de seus irmãos (t). Por isso vêm os que tem feito uso d'elle desde
a sua primitiva origem, n'aquelles bellos seculos em que os proprios pro-·
testantes conveem que a Egreja romana era a unica verdadeira e fiel es-
posa de Jesus Christo. Os primeiros Santos canonisados foram os martyres.
Admiremos com que madureza e pmdencia verificava a Egreja a sua
santidade e auctorisava o seu culto. Quando um de seus irmãos era lan-
çado em ferros e levado aos tribunaes por causa da sua fé, forcejavam os
Christãos por obter todos os particulares do processo. Para alcançarem
este objecto, dois meios se empregavam: ou se mettiam sem serem co-
nhecidos entre os pagãos, assistiam aos interrogatorios, e recolhiam com
religioso cuidado as perguntas e respostas, que escreviam voltando ás suas
moradas. No dia da execução, achavam-se no logar do supplicio, ouviam
as derradeiras palavras, viam os ultimas actos do martyr, e assim eram
as testimunhas competentes do seu sacrificio. Para não citarmos senão um
exemplo, diremos que a este primeiro meio é que devemos em parte a
relação do martyrio de S. Taraco e seus companheiros.
Na falta d'estes testimunhos, recorriam nossos paes na fé aos escri-
vães dos tribunaes, aos quaes compravam, ás vezes por grandes quan-
tias, a permissão de tirarem copia do processo. As tres primeiras partes
dos actos de S. Taraco, de quem fallamos, foram pagas por duzentos di-
nheiros ao escrivão dos registos proconsulares da Asia.
Mas, de qualquer modo que tivessem obtido os actos dos martyres,

(1) Ab utilitate Sanctos in nostris necessitatibu.s invocandi, potestas cano-


nisa.ndi causam habet et fundamentum. Unde Banes, m 2 2 D. Th., q. 1, art. 10,
sic ait : Hrereticum est negare anctoritatem in Ecclesia et Pontifice ad Sanctos ca-
nonisandos, hroreticum enim e t d!cere Sanctos non esse invocandos; ergo auctori tas
est in Ecclesia ad Sanctos canonisandos. Bened. XIV 1. I, e. II I. - Papa errare
non potest in canonisationc Sanctomm, est de fide; attamen, coucludit Bened . XI V,
t. I e. X LV, qui contrarium sentiunt, licet non sint formaliter hreretici, ex quo id
nondum sit ah apostolica sede expresse defiuitum, tamen sunt temerar ii, impii, scan-
dalosi in Sanctos injuriosi, faventes hrereticis , sapientes breresim, assertores erro-
nere propositionis, et g ra vissimi.s prenis obnoxii . Ferraris, ar t. Papa., n. 49.

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DE PERSEVERANÇA. iHt
a relação d'elles era previamente enviada ao Bispo em coja diocese havia
o Santo soffrido a morte. Depois de a ter examinado matluramente, o Bis·
po a enviava ao metropolitano : a elle é que estava reservado o julga-
mento ecclesiastico pelo qual se decretava culto publico ao martyr. Este
julgamento ecclesiastico foi sempre de rigor; e segundo Saussay, citado _
por Benedicto XIV, o metropolitano não o proferia senão depois de ter
consultado os Bispos seus suffraganeos (t ).
O mesmo andamento e as mesmas formalidades se applicaram á ca-
nonisação dos confessores, isto é, dos servos de Deus que haviam confes-
sado a fé, não com o seu sangue, mas com o beroismo de todas as vir-
tudes que ella ensina (2). Só depois de pronunciado o julgamento eccle-
siastico, verificando a santidade do servo de Deus, é que se procedia
á canonisação. Esta consistia simplesmente, como já dissemos, em pôr o
seu nome nos diptycos dos Santos, que se liam á Missa.
Tal foi, até ao duodecimo seculo, a maneira de canonisar. Mas, desde
o Papa Alexandre III, que occupava a Santa Sé em H6l, a disciplina
mudou por graves razões que seria mui longo referir aqui (3); e o direito
de beatificar e canonisar ficou reservado ao Summo Pontífice, privativa·
mente a qualquer outro.
A partir d'esta epocha, e segundo a disciplina actual, eis de que modo
se procede á beatificação e canonisação dos Santos. Quando uma pessoa
morreu com cheiro de santidade, e se espalha a voz de que opera mila·
gres, o Bispo do logar, pelo depoimento de testimunhas fidedignas, lavra
uma acta fazendo constar a fama de santidade e a voz dos milagres (4).
Enviam-n'a a Roma á sagrada Congregação dos Ritos: alli é examinada
com grande cuidado. Se parece que ha lugar de seguir~ dá-se parte ao
Soberano Pontífice, que nomêa um Cardeal da Congregação dos Ritos re-
lator da causa. Este é encarregado rle proporcionar todos os documentos
necessarios á instrucção do processo, dos quaes dá communicação á Congre-
gação. Chamam-se postulantes da causa aquelles que são nomeados para
procurarem se ponha em juizo a beatificação e canonisação.
A Congregação dos Ritos fórma então um verdadeiro jury; eis aqui
os membros que o compoem e a maneira como procedem :

(1) Lib. I, e. III.


(2) Id., e. VI. Vide os pormenores e as provas na Historia das Catacumbas, p.
565.
(3) Vide Benedicto XIV, 1, I, e. III ; Ferra ris, art. OuUus Sanctorun, p. 18.
(4) De fama sanctitatis et miraculorum.

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CATECISMO

1. 0 Um presidente ; é o Cardeal relator da causa ;


2. 0 Advogados pro; são os Cardeaes postulantes da causà ;
3. º Dois advogados contra, qne se chamam o promotor e o sub-pro-
motor da fé. O officio do promotor da fé consiste em suscitar todas as
difficuldades imaginaveis sobre o facto e direito, para que se descubra a
verdade e seja annullada a causa se ha logar. O sub-promotor é o con-
selheiro do promotor. Faz juramento de guardar segredo, e é com elle
que conferencêa o promotor sobre todas as objecções que podem propor-
se contra a causa em questão . O sub-promotor assiste aos debates, re-
cebe communicação de todos os documentos, para poder julgai-os por si
mesmo. e achar n'ellas difficuldades;
4. º Diversos notarios ou escrivães, que prestam juramento de trans-
crever os documentos, depoimentos, etc., com a mais escrupulosa fide-
lidade;
5. º Um archivista que conserva debaixo de chave os documentos do
processo de que se tiram quatro exemplares : um para o tabellião, outro
para o secretario, outro para o promotor da fé; o quarto fica no archivo;
6. 0 Um interprete. .Acontece em certos processos que alguns do-
cumentos são em línguas estrangeiras. Para os traduzir, escolhe o Car-
deal relator da causa, com o consentimento do promotor da fé, um inter-
prete que faz juramento de traduzir com fidelidade. Ao mesmo tempo,
nomêa-se em segredo uma pessoa de confiança e que presta juramento
de examinar a exactidão da traducção ;
7. º Habeis juriconsultos, a fim de estudarem todas as questões relati-
vas ao direito qbe podem apresentar-se no decurso dos debates ;
8. 0 Medicos, pbysicos, cirurgiões e mathematicos, que se consultam
quando se tracta dos milagres, e que são obrigados a dar as respostas por
escripto.
Tal é a composição d'esse tribunal, chamado a julgar na causa mais
solemne em que um homem póde comparecer.
Passemos ao modo como se procede. Em primeiro logar não se oc-
. cupam da beatificação d'um servo de Deus senão cincoenta annos depois
da sua morte. Esta regra não soffre excepção senão em certos casos ra-
ríssimos d'uma santidade inteiramente extraordinaria. E' mui glorioso para
S. Affonso de Liguori o ter sido, no nosso tempo, objecto ele similhante ex-
cepção. A sagrada Congregação dos Ritos começa examinando as obras
do servo de Deus, se alguma compoz. A rninima proposição contraria
aos bons costumes ou á fé catholica basta para fazer annnllar a sua

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DE PERSEVERANÇA. 253
causa para todo o sempre. Acabado o exame das obras, suspende-se o
curso do processo por espaço de dez annos, a fim de dar á opinião tem-
po de se manifestar, e á congregação o de descobrir as obras do servo de
Deus que houvessem podido escapar ao seu conhecimento.
Ao cabo de dez annos, os postulantes da causa sollicitam as lettras
remissarias. São lettras ou bulias pelas quaes o Santo Padre nomêa com-
missarios para examinarem, nos lagares onde viveu o servo de Deus, o
beroismo das suas virtudes e a certeza dos seus milagres. Estas são as
tres virtudes theologaes : fé, esperança e cbaridade; e as quatro virtudes
cardeaes: força, prudencia, temperanç.a e justiça.
Terminado o exame, a sagrada Congregação estuda os relatorios dos
commissarios, os depoimentos das testimunhas, os documentos justifica-
tivos, etc. Esmiuçado nn seio da Congregação, o processo com todos os
seus docum.entos é depois subjeito ao exame do consistorio, ou assem-
blêa geral de todos os Cardeaes, Arcebispos e Bispos da côrte de Roma
('l). Succedem-se as reuniões; o Summo Pontifice em pessoa preside a
muitas, pergunta o parecer de todos os Cardeaes, de todos os consultores,
sem dar elle o seu, encommenda-se ás suas orações, ordena preces pu-
blicas, n'uma palavra, não omitte nada de t1Jdo quanto o póde esclarecer.
Se, depois de todas estas precauções, o Vigario de Jesus Christo está con-
vencido, publica a bnlla que auctorisa a proceder á ceremonia da bea-
tificação.
Dizei agora, homens, quemquer que sejaes, conheceis na terra tri-
bunal que obre com mais sabedoria e prudencia? Ou a verdade, tocante
a factos e factos palpaveis, é irnpossivel de verificar, ou é força convir
em que com tantas precauções e incançaveis investigações deve paten-
tear-se necessariamente. Assim qne, não ha ·homem de bôa fé que du-
vide, ainda independentemente da assistencia do Espirita Santo, da va-
lidade das canonisações catholicas.
A este respeito, referimos a anecdota tam conhecida, que data do
seculo passado. Um dos maiores homens d'essa epocha, o Papa Bene-
dicto XIV, não s·endo ainda senão o Cardeal Lambertini, foi nomeado re-
lator n'uma causa de beatificação. Como estivesse um dia occupado no
seu gabinete a compulsar um enorme processo, foram visitai-o dois Pro-
testantes inglezes. Apenas estava começada a conversação, quando um
enviado do Santo Padre levou ao Cardeal ordem de dirigir-se immedia-

(1) Benedicto XIV, !. I; e. VII.

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CATECISMO

tamente junto de S. Santidade. O Cardeal pediu aos seus nobres ''isita-


dores qae -0 excusassem, e rogando· lhes que o esperassem : Se quizer-
des, lhes disse, examinar este processo, achareis menos longo o tempo.
Foi acceita a proposta. Procedimentos, depoimentos de testimunhas, re-
lações de milagres, tudo foi compulsado, revistado e examinado durante
a ausencia do Cardeal, que se prolongou muito mais do que elle espe·
rava ..
-Então, disse voltando, que pensaes dos nossos procedimentos?
- Se o personagem de que se tracta nos documentos que manuseamos,
responderam os dois inglezes, não fôr canonisado, não canonisareis nunca
ninguem.-Então as provas parecem-vos sufficientes ?-E mais que isso.
- Pois nós somos mais ruins de contentar que vós ; se não chegarem
outras provas, a causa será annullada. E os dois inglezes, a quem o Car-
deal deu uma idêa das precauções empregadas pela Congregação dos Ri-
tos nos negocios de beatificação, retiraram-se com menos uma prevenção
dizendo mui alto que os Santos da Egreja romana eram de bom quilate,
e que elles mesmos, por mais honrados que se julgassem, não quereriam
que a sua probidade passasse por similhantes provas.
Resta-nos fallar da solemne ceremonia da beatificação e canonisação.
E' realmente um bello .dia aquelle em que, convencida pelo duplo testi-
munbo do ceo e da terra, isto é, pelos milagres e por uma longa lista
de provas jurídicas, da santidade e felicidade eterna d'um de seus filhos,
a Egreja o põe nos seus altares e o offerece á veneração do universo.
Do alto do seu tbrono immortal como a verdade que n'elle está assen- '
tada, publica o Summo Pontifica uma bulia para annunciar esse grande
dia ; a cidade eterna agita-se, o mundo catbolico exulta de felicidade e
esperança, e dos paizes Jonginquos partem numerosos peregrinos para
assistirem á festa. Concede-se indulgencia plenaria a todos os fieis que,
depois de terem recebido os sacramentos da Penitencia e Eucharistia,
se acharem á Missa solemne que se celebra para a beatificação na basi-
lica do Vaticano, isto é, na egreja de S. Pedro.
Este templo augusto adorna-se com um gosto e uma magnificencia
de que se não encontra exemplo mesmo em Roma senão n'aquelle dia.
No frontispicio apparece a grande altura, no meio das niais vivas luzes,
a imagem do Santo que vôa para o ceo, levado pelos anjos ; abaixo bri-
lham encaixilhadas em ouro as armas do Pontifica reinante, as do rei em
cujos estados nasceu o bemaventurado, as da cidade onde viu a luz, e
finalmente, se é religioso, as insignias da ordem a que pertenee.

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DE PERSEVERANÇA. 255
Se transpondes o sagrado umbral, crêdes-vos transportado ao ceo.
Os vossos pés caminham sobre ricos tapetes; da abobada á base dos pi-
lares, todo o contorno do immenso templo está armado de vellado car-
mesim,_ que cahe de distancia a distancia em largos festões, cheios de
magnificencia e graça. Paineis de caixilhos doirados, emblemas em que
juntam as suas vivas côres o oiro e a sêda, sentenças em lettras d'oiro,
postas á direita e esquerda, vos redizem as virtudes, os actos sublimes,
as palavras e a vida do Santo. No fundo do templo, diante dos vossos
olhos, a grande ele\'ação acima do altar ou confissão de S. Pedro, está
suspenso o retrato do Santo, subindo ao ceo, com a cabeça cercada da
aureola : mas este retrato está ainda velado. Breve será descoberto.
De cada lado do altar estão dispostos em fórma de ferradura brilhan-
tes lhronos d'oiro e purpura, destinados aos Cardeaes, aos Prelados <la
côrte romana e aos consultores da sagrada Congregação. Por cima do
sacro Collegio apparecem tribunas magnificamente decoradas onde se
collocarão os reis e as rainhas, os principes e as princezas, e todos os
nobres estrangeiros que a augusta ceremonia attrahe das diversas partes
do mundo catholico. Para allumiar este magnifico espectaculo, brilham
em todas as partes do templo lustres, candelabros e girandolas, scintil-
lando com innumeraveis luzes. A esta viva claridade que alegra a vista
se junta, para afagar o olfacto, o incenso dos perfumes; de distancia a
distancia apparecem soberbos vasos de flôres, d'onde se exhalam os mais
suaves cheiros, e sobre todos os altares caçoilas d'ouro e prata, onde
ardem os mais delicados aromas.
Se n'esta augusta festa ficam satisfeitos os sentidos, a imaginação, o
espírito e o coração são inundactos dos mais puros gozos. Para anima-
rem a so1emnidade, varios córos de musicas, situados nos differentes pon-
tos da \'asta basilica, acompanham com o som dos seus instrumentos os
melodiosos accentos das mais bellas vozes que se poderam reunir.
Quando se approxima a hora da ceremonia, vem a guarda pontificia
dispôr-se em torno do santuario, a fim de augmentar a pompa da festa
e manter perfeita ordem. Entretanto todos os Cardeaes, todos os Prela-
dos das differentes congregações, e todos os geraes de ordens tomaram
logar. Na~ tribunas reservadas apparecem os nobres personagens que as
devem occupar, e affianço-vos que mais d'um rei se julga muito feliz em
assistir ao triumpho talvez do mais humilde dos seus numerosos subdi-
_tos. Em fim as amplas portas ela immensa basílica gyraram sobre os seus
gonzos de bronze: e as ondas pressurosas d'um povo innumeravel se pre-

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2õ6 CATECISMO

cipitaram no seu recinto. Todos aquelles homens estranhos ou nacionaes,


Catholicos ou dissidentes, estão alli, em religioso silencio, esperando o
que vae passar-se.
De repente apparece o Cardeal gran-mestre de ceremonias, reves-
tido da capa d'oiro e com a mitra na cabeça; adianta-se acompanhado de
dois conegos de S. Pedro, sobe com elles a um estrado elevado, e lê em
voz alta o breve do Santo Padre para a beatificação do servo de Deus.
Acabada a leitura, o Cardeal celebrante vae ao pé do altar acompanhado
dos Diaconos e Sub-diaconos da Egreja romana, e entôa o bymno do trium-
pho, o Te-Deum. Ainda lhe está nos labios a ultima nota, quando mão
invisiYel descerra o veó que occultava o quadro do bemaventurado, sus·
penso por cima do altar.
N'aquelle momento sublime, Cardeaes, Pontifices, reis, príncipes,
magistrall.os, e toda a multidão immensa do povo, cabem de joelhos e se
prostram com o rosto por terra para venerarem a santa imagem. E os
mil instrumentos de mllsica, tocando a um tempo, fazem resoar as abo·
badas do templo, e toda a artilheria do castello de Sant' Angelo lhes ajunta
a sua grave harmonia, unida ás descargas de mosquetaria e ao som de
todos os sinos da cidade eterna. O' momento solemne ! felizes aquelles
que uma \'8Z na sua vida experimentaram os iodefiniveis sentimentos
que tu imprimes! Triumpho augnsto, oh ! quanto at.raz deixas todos os
triumphos da antiga Roma com os seus elephantes e carros de marfim,
e os seus povos de escravos agrilhoados! Aqui, ao menos, não ha lagri-
mas, ou são lagrimas de felicidade.
Concluida a prostração, os córos de musica continuam e acabam o
Te-Deum. Então o primeiro Diacono canta o Yersiculo: «Ürae por nós,
bemaventurado N.» E os córos respondem: «Para que tambem sejamos
dignos das promessas de Jesus Christo. >> O Cardeal celebrante ajunta a
oração composta em honra do bemaventurado cuja imagem incensa. De-
pois, revestindo-se dos babitos pontificaes, offerece os santos myterios
em honra do novo habitante dos ceos. Terminada a missa, o procurador
da causa distribue a todos os circumstanles a imagem do bemaventurado,
pintada ou impressa, encaixilhada 011 doirada com mais ou menos riqueza,
segundo a qualidade das pessoas (t ). Taes são, em resumo, as ceremo-
nias da beatificação.
Como dissemos, datam da epocha em que a Egreja julgou conveniente

(1) Benedicto XIV, 1. I, e. XXIV, e Appendix ad e. XXIV.

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DE PERSEVERANÇA. 257

não chegar á canonisação senão por meio de processos longos e nume-


rosos. A beatificação é, com etfeito, uma canonisação começada. Para
passar d'uma á outra, é preciso que a partir da sua beatificação o bem-
aven\urado haja operado milagres ('I ). Quando são conhecidos, a Congre-
gação dos Ritos torna a começar sobre estes novos milagres as informa-
ções, os exames e os processos, que haviam tido logar para a beatificação.
Só depois de os ter verificado é que se procede á canonisação.
As ceremonias da canonisação differem pouco da beatificação (2).
No dia da festa, Roma apresenta o mesmo enthusiasmo; S. Pedro está
decorado com a mesma riqueza. Pela manhã ha uma procissão magnifica,
na qual se leva em triumpho a imagem do bemaventnraclo que vae rece-
ber as ultimas honras que a Egreja da terra póde tributar a seus filhos.
A' volta da procissão, á qual assiste em pessoa, C• Summo Pontifice sobe
ao seu throno, erguido na basilica de S. Pedro. O advogado consistorial,
em nome do Cardeal procurador da causa, se adianta e supplica a S. San-
tidade que admitta no numero dos Santos o bemaventurado cujo processo
foi julgado. A esta petição, responde em nome do Pontifice o Prelado se-
cretario dos breves para os principes: ccE' necessario orar instantemente
n'este grande negocio, para que o Senhor nos dê as suas luzes. n
Todos se poem de joelhos, e invocam todos os Santos <lo Ceo can-
tando as suas lat1ainhas. O advogado consistorial se adianta de novo e
pede a canonisação. A este segundo rogo, responde o Prelado secretario:
<e E' necessario ainda redobrar instancias e orações.» E dirigem-se ao Es-

pirito de luz, a esse Espirito que dirige a Egreja, e que está com ella
todos os dias até á consummação dos seculos. Poem-se de joelhos e can-
tam o Veni Creator. O advogado apresenta-se terceira ,·ez ante o throno
pontíficio e sollicita a canonisação. Então o Soberano Pontifice pronuncia
a sentença solemne pela qual declara e define que tal bemaventorado deve
ser posto na classe dos Santos. A este decreto succede o canto do
Te Deum, depois do qual o Vigario de Jesus Christo celebra Missa em
honra do Santq.
A' tarde, depois de Vesperas, vae de novo o Summo Pontifice á
egreja de S. Pedro, acompauhado de todo o Sacro Collegio. Alli, no meio
d'um povo immenso, adora o SS. Sacramento, depois vae ao altar onde
repousam as reliquias do novo Santo, lhe dirige fervorosas orações, pega

(1) Ibid., e. XXXIX.


(2) Benedicto XIV, 1. I, e. XXXIX.

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258 CATECISMO

na sua imagem, a beija com respeito e a apresenta ás homenagens da


multidão pressurosa (i ). E dôces lagrimas correm com orações; e su-
bindo ao Santo, olbares d'amor, e sentimentos de confiança, e transportes
de felicidade, começam para elle, na terra, esse delicioso triumpbo que
ha de durar d'abi em diante tanto como os seculos. Finalmente, quando
a noite, descendo do alto das sete collinas, veio estender os seus escuros
véos sobre a cidade eterna, começa um novo espectaculo. Fogueiras e
uma illuminaç.ão magnifica completam a alegria d'um povo destinado a
todos os grandes espectaculos, e tornam Roma mais bella e mil vezes
mais feliz que nos dias do triumpbo de seus antigos Cesares.
l\'Ias a felicidade dos romanos estende-se muito além dos limites da
sea cidade. A canonisação (1 'um Santo é um acontecimento immenso cujo
ecco se faz sentir até-ás extremidades do mundo catholico. Milhões de
corações se dilatam a esta feliz nova; o rico e o pobre se alegram egual-
mente. Elia diz a um e outro: A porta do Ceo está ainda aberta, os
seus tabernaculos são accessiveis a todos, e cada qual gosta de ouvir esta
voz que lhe sahe do fundo da consciencia e que diz: Eu tambem posso
ser santo. Quem poderia contar quantos animos abatidos tem levantado
esta voz, e quantas acções heroicas tem feito praticar!
Oh f sim, deixae-nol-o dizer, é muito moral esta ceremonia solemne
da beatificação e canonisação. Ha pois na terra um tribunal em que a
virtude, perseguida, desconhecida e calumniada, encontra alfim brilhante
justiça. Aqui, não ha excepção de pessoas; sêde rico ou pobre, sabio ou
ignorante, senhor ou escravo; tende nascido nos gêlos do polo ou nas ar-
dentes regiões do Meiodia, na Europa ou na Asia, na choupana do negro
da Africa central ou na barraca do selvagem americano, em Roma ou nas
mais remotas extremidades da India e do Japão, é o mesmo.
Haveis praticado n'um grau heroico todas as virtudes que são a base
d~ sociedade e da Religião; haveis sido, por outras palavras. filho docil
do Pae celeste e bemfeitor dos vossos similbantes pelos vossos exemplos,
pelas vossas orações, senão pelas vossas liberalidades e instituições? Isso
basta; é quanto se examina, é quanto se pede para coHocar-vos sobre os
altares do mundo catholico, immortalisar o vosso nome e fazer-vos offe-
recer de geração em geração, a vós, pobre pastor, humilde lavrador,
honras que nunca alcançarão os monarchas, com todo o seu poder.

(1) Bencdicto XIV, 1. I, e. XXXIX.

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DE PERSEVERANÇA. ~59

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor l graças vos dou por nos terdes
destinado á felicidade do Ceo; concedei-nos que a mereçamos.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de dizer .muüas vezes comigo: Quero ser um grande santo (i ).

(1) No dia de 'l'odos os Santos, lêr-se-á com tanto prazer como proveito, o
capitulo XLVIII do livro III da Imitação, ou o e. XXXV dos Soliloquios de S.
Agostinho: De deside1-io et siti animre ad Deum.

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CATECISMO

QUINQUAGESIMA·SEGUNDA LIÇÃO.

O christianismo tornado sensível.

Dia do8 Fieis defunctos.-Suas har01onia•, Nua orige01, sen8


CundamentoN na tradição. - Seu elliltabeleciJDento. -Te•·-
nura da Egrl"ja.-Qneixas dos Finados.-Exequias clll'ifii·
tãs.

1. DIA nos Fm1s DEFUNcros. - No dia de todos os Santos, toma a


Egreja a peito abalaM10s todas as fibras do coração. Vê-se que quer
dar um grande golpe e inspirar vivamente o degasto ua terra, o desejo
do Ceo, a terna compaixão, e a charidade universal entre todos os seus
filhos. Se na manhã d'este memorarnl dia a pompa das suas ceremo-
nias, a alegria dos seus bymnos, offerecem a expressão d'um jubilo sem
mescla, á tarcle, aos seus canticos veem juntar-se longos suspiros: ha la-
grimas na sua rnz. Em breve a scena~ já modificada, muda completa-
mente. Aos cantos d'alegria, aos suspiros do desterro, succedem sons
lugubres; ornamentos de lucto substituem as capas de ramagens d'oiro;
e eis que não vêmos no templo sagrado mais que um monumento fune-
bre, coberto de lagrímas e de ossos.
Que é tudo isto ? E' uma nova festél, a festa dos Defunctos. Terna
mãe, quer a Egreja que hoje seja uma festa de familia. Apresenta-se
aos nossos olhos nos seus tres estados differentes: triumphante no Ceo,
desterrada na terra e gemebunda no meio das chammas expiadoras. E
os canticos do Ceo, e os suspiros da terra, e os gemidos do purgatorio,
que, n'este dia, se succedem, misturam e respondem, nos fazem lembrar
de que mysteriosos vinculas unem n'um só corpo todos os filhos de Je-
sus Christo; de que as tres Egrejas, como tres irmans, dão as mãos, se
alentam, consolam e alliviam até ao dia em que, abraçando-se nos ceos,
nTio h3o de formar senão uma Egreja eternamente triumphante.
Vêde que magnifica harmonia l Outra ha que é impossivel não no-

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DE PERSEVERANÇA. i6t
tar. Oh! que bem escolhido é o dia para celebrar-se a festa dos Defonc-
tos t Essas aves· que emigram, esses dias que diminuem, essas (olhas
que cabem e rolam aos nossos pés pelos caminhos, impellidas pelo aqui-
lão, esse ceo que se ensombra, essas nuvens pardacentas, precursoras
dos gêlos, todo esse espectaculo de decadencia e morte, não é maravi-
lhosamente proprio para encher-nos a alma dos graves pensamentos que
a Egreja nos quer inspirar?
Ainda isto não é tudo. Como todas as outras, e talvez mais que as
outras, a festa dos Finados estreita os vínculos de familia. Viam-se ou-
tr'ora, e vêem-se ainda hoje nas aldêas, os irmãos, as irmãs, os paren-
tes, os visinhos, reunir-se no cemiterio, orar e chorar sobre as sepultu-
ras dos passadqs, e offerecer esmolas, para obterem· a paz aos seus que-
ridos defllnctos. Não o duvidemos, se, no decurso do anno, surgiram al-
gumas nuvens de divisão ~ntre esses homens, dissipam-se n'aqaelle dia:
estamos tam perto de amar-nos quando oramos e choramos juntos t
Ha pouco ainda, em certas cidades (t), o homem da véla, percor-
rendo toda a noite as ruas da povoação, parava de vinte em vinte passos,
fazia retinir a campainha e dizia estas palavras : Acordae, ó vós que dor-
mis, e orae pelos defunctos. Porque haviam de desapparecer estes to-
cantes costumes ! Desde que esquecemos os nossos mortos, temo'-nos
tornado frios para com os vivos : o egoismo tem seccado todos os cora·
ções, o egoismo que envilece o homem, mata a familia e transtorna a
sociedade.
II. ORIGEM n'ESTA FESTA. -Mas é tempo de fallarmos do estabele·
cimento da festa dos Defunctos. Desde o principio, orou a Egreja por
todos os seus filhos quando morriam. As suas orações eram supplicas
por aquelles que precisavam d'ellas e acções de graças pelos martyres.
Renovavam-se o sacrificio e as supplicas no dia anniversario da sua mor-
te. Tertalliano o diz expressamente : «Nós celebramos o anniversario da
natividade dos Martyres (2).D E mais adiante: «Seguindo a tradição dos
passados, offerecemos o Sacrificio pelos defunctos no dia anniversario
da sua morte (3).» Os outros Padres nos offerecem os mesmos testimu-
nhos (~).
Ainda mais, a Egreja, que sempre se mostrou tam boa e terna para

(1) Em Nevers, particularmente.


(2) Pro natalitiis annua die faoimus. De Cor, milit.
(3) Ex majorum traditione pro defunctis annua 4io faebnus. ld.
(4) Cypr., 1. I, epist. IX; Greg~ Naz.., Oral. ,X,
f7 .

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262 CATECISMO

seus filhos, tinha, desde o principio, dois modos de orar e offerecer o


Sacrificio pelos mortos; um por cada um d'elles ou por alguns em par-
ticular (i); outro por todos os mortos em geral, a fim de que a sua cba-
ridade abrangesse aquelles que não tinham parentes nem amigos para
desempenharem este dever de piedade a seu respeito (2). Obrava assim
antes do tempo de S. Agostinho. «E' muito antigo, diz este Padre, e
universalmente acceite em toda a Egreja, o costume de orar por todos
aquelles que morreram na communbão do corpo e sangue de Jesus Christo.
(3).>
Comtudo, não vêmos que houvesse alguma festa particular para en-
commendar a Deus todos os defunctos ; porém vêmos os fundamentos
em que se pôde estabelecêl·a : pois que, se desde o seu começo a Egre-
ja, segundo o testimunho dos santos Padres, orou e sacrificou pelos mor-
tos em particular e por todos em geral, se em todas as liturgias e em
todas as Missas do anno se orou por todos os mortos em commum, não
é evidente que se podia, sobre estes fundamentos, estabelecer uma festa
particular para cumprir esse dever para com os defuoctos com mais cui-
dado e applicação?
Isso se realisou effectivamente, e a gloria eterna do Franche-Comté,
então conhecido pelo nome de Borgonha. será o ter dado origem a esta
pia instituição. Oriundo d'uma das mais nobres familias de Borgonha,
acabava o beato Bernon, abbade de Baurne-les-Messieurs, perto de Lons-
le-Saulnier, de fundar a abbadia de Cluni. Esta illustre filha, que herdára
a piedade de sua mãe para com os mortos, se apressou a adoptar a com-
memoração geral dos defunctos. Tornou-a estavel e perpetua por um de-
creto do anoo de 998.
Eis aqui o teor d'elle; é o capitulo geral de Cluni que falia. «Foi
ordenado pelo nosso bemaventurado padre D. Odilon, com consentimento
e a rogo de todos os irmãos de Cluni, que, como em todas as Egrejas
se celebra a festa de todos os Santos no primeiro de novembro, assim
entre nós se celebre solemnemente, d'esta maneira, a commemoração de
todos os fieis defunctos. No dia da festa de todos os Santos, depois do

(1) Tertull. Exhort . ad Cast . ; Ag ., Conf., l. IX, e. ultim.


_ ·(2) -: Nõn sunt prmtermittend:e supplicationes pro spiritibus rnortuorum; quas
faciendas pro omnibus in christiana et catholica societate defunctis, étiam tacitis
nominibus quoramcumque sub generali commemoratione f'!uscepit Ecclesia; ut qui-
bus a.d ista decunt parentes, a ut filii, nut quicumque cognati, vel amici, ah una eis
exbibeantur pia matre communi. De cura pro mort., e. IV.
(3) Serm. X.XXII, de Verb. Apoat.

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DE PEl\SE'fERANÇA.

capitulo, o deão e os ceUeireiros darão esmola ·de pão e vinho a todos


os que se apresentarem. Depois de Vesperas se tocarão todos os sinos
e se cantarão as Vesperas dos defunctos. A Missa será solemne, os ir-
mãos cantarão o tracto, todos offerecerão em particular, e alimentar-se-ão
doze JlObres. Queremos que este decreto se observe perpétuamente,
tanto n'este logar como em todos aquelles que d'elle dependem; e se
alguem observar como nós esta instituição, participará das nossas boas
intenções (1). ' Tal é o decreto de Cluni.
A piedosa pratica passou em breve a outras Egrejas ; a de Besan·
çon foi a primeira a adoptal-a. Era em certo modo o seu bem e patri-
monio que lhe voltava, consagrado pelo voto dos servàs de Deus. Pouco
depois, era commum a toda a Egreja catholica a Commemoração geral
dos Defunctos,, no seguinte dia de Todos os Santos.
Terminemos o que temos que dizer sobre a origem d'esta festa por
uma observação mui propria para fazer sobresahir a immensa cbaridade
da Egreja nossa mãe. A Commemoração geral dos Defunctos não é mais
que um supplemento a todas as outras festas, officios e sacrificios do
anno., Tem isso de commum não só com a festa de todos os Santos, se-
não lambem com as da Trindade e do SS. Sacramento. Com effeito, em
todas as festa~, em todos os officios ou sacrificios do anno, se tributa uma
honra suprema á Trindade, pelo adoravel Sacrificio da Eucbaristia, em
que Nosso Senhor é immolante e immolado com todos os seus Santos,
que n'elle são nomeados, pelo menos em geral,
Assim que as festas particulares da Trindade, do SS. Sacramento e
de Todos os Santos não foram estabelecidas senão como snpplemento da
festa geral, para renovar a attenção e o fervor com que devemos cele-
brai-a todo o anno. O mesmo acontece com a Commemoração geral dos
Defanctos. A Egreja instituiu-a para supprir as orações e os Sacrificios
que se fazem por elles todos os dias, e advertir-nos que devemos des-
empenhar-nos dos nossos deveres a seu respeito com attenção e pieda-
de novíssimas.
Não repetiremos aqui a explicação dos motivos que temos de orar

(1) Venerabilis pater Odilo ptfr omnia monasteria sua constituit generale de-
cretum, ut sicut primo die mensis novembris, juxta universalis Ecclesire regulam,
omnium Sanctorum solemnitas agitur ; ita sequenti die in psa.lmis et eleemosynis et
prrecipue Missarum solemniis, omnium in Christo quiescentium memoria celebretur
8. Petr. Damian., in Vit . B. Odil.; Baron., an. 1048, n. 6; e Not. adMartyrol.,
2 de nov.; Hélyot, t. V, etc.
*
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CATECISMO

pelos mortos (t) ; contentar-nos-emos em offerecer ás reflexões dos Chris·


tãos o pensamento seguinte.
III. QuEIXAs nos FINADOS. ·- A gloria de Deus, a charidade, a jus-
tiça, e o nosso interesse, taes são os poderosos motivos que temos de
orar pelos defanctos. Oxalá desempenheQios a tarefa que nos impo~m de
harmonia a natureza e a Religião, de maneira que façamos cessar esta
voz qaeixosa, esta voz accusadora que se levanta do purgatorio e fere
incessantemente os ouvidos do Christão attento : Hominem non kabeo,
hominem non habeo : não tenho ninguem~ não tenho ninguem (t) I
O primeiro que fez ouvir estas penosas palavras foi o paralytico de
que se falia no Evangelbo. Tolhido em todos os membros, este desgra-
çado estava havia trinta e oito annos preso ã borda da piscina probatica.
Sempre expostn ás vistas da maltidão a quem a curiosidade ou o desejo
da cura levava áquelle logar celebre, a sua doença era conhecida de toda
a JUdea. E n'aquella multidão havia, sem duvida alguma, parentes, co-
nhecidos, e amigos d'aquelle infeliz, se tivessem amigos os infelizes. Que
pedia elle para ficar livre? O simples esforço de mão cbaritatiVia que o
impellisse para a piscina na occasião em que o Anjo do Senhor vinha
agitar a agua saudavel. Todavia, esperava este pequeno serviço; implo-
rava-o em balde havia trinta e oito annos. •
Não é essa, dizei-nos, a viva imagem das almas do purgatorio? Re-
tidas pela justiça divina em horríveis soffrimentos, esperam com afan, e
imploram em altos gritos o auxilio da mão charitativa que ha de qaebrar-
lbes os grilhões e fazêl~as entrar n'aquella cidade onde a dôr é desco-
nhecida. Estes justos pacientes são nossos irmãos. Tudo nos desperta a
sua lembrança, os logares que percorremos, as casas que habitamos, os
bens que disfructamos, o proprio nome que temos, essas lugubres cere-
monias a que assistimos, e essas sepulturas que podemos vêr todos os
dias ; e comtudo esses queridos defunctos não são alliviados.
Perguntae-lbes porque soffrem, uns ba vinte annos, outros ba trinta
ou quarenta talvez, e a sua resposta será a do paralytico : Ai f não tenho
ninguem. hominem non habeo. Deixei em verdade na terra parentes ; mas
vejo que não deixei amigos. Deixei em verdade na terra uma esposa ;
mas vejo que mui depressa enxugou as lagrimas, que o meu nome já
não está nos seus Jabios, e que a minba•memoria já não vive no seu co-

(1) Segunda parte do Catecismo, lição XX.


(2) Joan., V, 7.

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DE PERSEVERANÇA. 265
ração, hominem non habeo. Deixei em verdade na terra filhos que enchi
das mais ternas caricias, que sustentei, que criei á custa dos meus suo-
res; mas vejo que seu pae já não é nada para elles; hominem non ha-
beo, não tenho ninguem. Comtudo o que eu peço é bem pouco : algumas
orações, algumas esmolas, eis ahi tudo, e peço-o embalde. Não tenho
ninguem. Escravos dos seus prazeres e negocios, todo~ esqueceram os
seus defunctos, os seus mais charos defunctos. Hominem non habeo, não
tenho ninguem : voz accusadora, queixa angustiosa, oxalá nos toque os
corações e grangeie gloria a Deus, paz aos mortos, e a nós a recom-
pensa da misericordia ; bemaventurados os misericordiosos, porque re-
ceberão miserieordia.
IV. CEREMONIAS DAS EXEQUIAS. - E' este o logar de dizermos uma
palavra das exequias christãs~ A Egreja que nos consagra o berço e que
cerca de tam augusta protecção a creancinha que cbega ao valle das mi-
serias, nada despreza para tornar o homem respeitavel, quando, chegado
ao termo da sua carreira, desce ã sepultura para sotlrer a sentença que
o condemna a voltar ao pó.
Desde logo, uma coisa me causa impressão nas nossas ceremonias
funebres. D'um lado, vejo parentes. amigos, filhos chorosos, oiço o dobre
funebre~ e não diviso no templo senão imagens lugubres; d'outro lado,
eis a Egreja que canta, que canta sempre. Que contraste t Póde uma
mãe cantar na morte de seu filho ? e não é a Egreja a mais terna das
mães? Ah t sem duvida, a Egreja ama-nos com um àmor tanto mais vivo
quanto é mais nobre ; forcejemos por comprehender o seu coração.
Depositaria das promessas de immortalidade, proclama-as altamente
em presença da morte; se ha lagrima~ na sua voz, tambem ha alegria.
Chora, mas mais feliz que a terna Rachel consola-se e consola-nos a nós
lambem, porque sabe que seus filhos lhe serão restituídos. D'este modo,
nas lagrimas dos parentes, vejo a natureza~ nos cantos da Egreja, vejo
a fé. Uma entristece-se dizendo : Eu devo morrer ; outra consola-se res·
pondendo : Haveis de resuscitar.
Quando pois a alma do Christão se separou do corpo, o sino adverte
aos fieis que orem por seu irmão. A fim de excitar o seu fervor, o dobre
funebre renova-se a certos iotervallos, até ao momento em que se confia
ã .terra o que pertence á terra. Antes de se levar o corpo, diz o Sacer-
dote, lançando agua benta sobre o ataúde: Reguiem reternam, etc. «Se-
nhor, dae-Ihe descanço ·eterno, e a luz que nunca se apaga luza sempre
a seas olhos.» Depois recita-se o De profundis a dois coros. Com effeito,

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166 CATEmSMO

ha doas vozes n'este lugobre cantico: voz da alma inquieta e perturbada que
teme os juizos de Deus, e voz da alma que sente renascer-lhe a esperança
ã vista da Redempção do Senhor, que apaga todas as iniquidades d'Israel.
O levantamento do corpo faz-se processionalmente ; a cruz, penhor
d'esperança e signal de resurreição, precede o cortejo. O defuncto chega
á egreja, á egreja onde começa e acaba a sua carreira christã. Que ap-
proximaçãÕ entre o berço e o tumulo, entre o ·baptismo e o enterro! No
meio do apparato fuoebre que rodêa o corpo, vêem-se brilhar tochas.
E' o signal da fé e da charidade do defuncto; é o alegre emblema da sua
volta futura a uma vida melhor; é o penhor de que a tristeza do Cbristão
será convertida em alegria. D'este modo, a vida presente e a fatura, o
tempo e a eternidade, se reunem em torno do ataúde: um, com suas la-
grimas e esperanças frustradas; a outra, com suas alegrias e promessas
immortaes.
Começa a Missa, e breve a voz grave dos cantores faz resoar as abo-
badas sagradas com a prosa Dies irm. Nada mais magestoso e mais pro-
prio para gelar de terror, que este poema de morte e do juizo final. E
tanto para instrncção dos vivos como para allivio dos finados que o faz
cantar ~ Egreja. A morte com as suas sepulturas e o seu frio pó, o juízo
com os seus formidaveis signaes e rigores, apparecem successivamente.
Depois, para levantar um pouco a alma consternada, as ultimas palavras,
palavras d'esperança, veem ferir os ouvidos e vos ficam no coração como
o sentimento que o deve dominar :
~ •Para me remir, vós soffrestes a cruz. Ah! não fique sem frocto
tam grande pena r Justo Juiz, vingador do crime, perdoae·-me antes de
me chamardes ao vosso tribunal. Eu gemo como um criminoso, e córo
ao lembrar-me das minhas culpas; ó Deus f poupae um criminoso que
vos supplica r Misericordioso Jesus, dae o descanço aos finados.,
O auetor d'esta obra prima é, segundo geralmente se crê, o Cardeal
Malabranca, da familia dos Ursinos, que vivia no seculo decimo-terceiro.
Depois da Missa, vae o clero dispôr-se, para a absolvição, em torno
do ataúde, e canta-se o responso Libera me, etc. Livrae-me, Senhor, etc.
N'esta logubre e tocante oração, é o morto quem falta. Crê-se ouvir Jo-
nathas clamando para Deus, do rundo do abysmo e das entranhas do
monstro em que estava sepultado vivo: Livrae-me, Senhor, da morte
eterna no dia terrivel em que vierdes julgar o mundo pelo fogo. Movida
pelos seus gritos, a Egreja sua mãe lhe responde pela bôcca do officiante:
«Senbor, tende piedade de nós.»

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DE PERSE\'ERANÇA. ~7

Côro: cCbristo, tend,& piedade de nós.»


Sacerdote: e Senhor, tende piedade de nós.> Depois entôa o PaJer,
que recita em voz baixa. Durante este tempo, dá a volta ao ataúde e o
asperge d'agua benta; é a ultima purificação para o morto; depois incen-
sa-o, e este incenso recorda a oração da Egreja por seu filho defuncto, e
o bom cheiro das virtudes que aquelle Cbristão praticou e que o fazem
subir ao Ceo assim como o fumo dos perfumes. Acontecerá assim com-
vosco que lêdes estas linhas? Que responde a vossa vida?
E' chegado o momento da partida para o cemiterio. Adeus, egreja
santa onde recebi o baptismo; adeus, cadeira sagrada d'onde manaram
sobre mim, qual benefico orvalho, as palavras da salvação; adeus, tribu-
nal de misericordia onde eu recebi tantas vezes, com o perdão das, minhas
culpas, conselhos paternaes .. e ineffave!s consolações; adeus, mesa santa
onde o meu Deus me alimentou com a sua carne immortal; adeus, meus
parentes, meus amigos, meus filhos, adeus até á resurreição geral. Eis
todo quanto diz aquella derradeira partida da egreja para o cemiterio.
Assim é que as lagrimas, os mesmos gritos dos parentes, redobram
n'aquelle momento solemne. Que faz então a Religião ? Com voz dôce,
e iamos a dizer alegre, dá o signal do movimento cantando estas delicio-
sas palavras: Ded-ucant te Angeli, etc. «Os Anjos te conduzam ao paraiso;
os martyres venham ao teu encontro e te introduzam na santa cidade de
Jerusalem ; o côro dos Anjos te receba e te faça compartir com Lazaro,
outr'ora pobre, o descanço e a felicidade eterna (f )h
D'est'arte, em tanto que a natureza attribulada não vê mais que um
cemiterio no termo da viagem, um cemiterio com os seus tristes mysterios
de decomposição e podridão, a Religião, radiante d'immortalidade, nos
mostra o paraiso com suas alegrias e felicidade, e umas novas palavras
de consolação serão pronuoCiadas sobre a cova. O Sacerdote diz lançando
uma pouca de terra sobre o caixão.: Torne o pó á terra flonde sahiu, e
o espirito volte a Deus que o deu! Descance em paz. Assim seja.
Depois da ultima aspersão d'agua benta, fecha-se a sepultura, e a
cruz que a domina, annuncia que está alli o corpo d'um Cbristão que
viveu cheio d'esperança e que espera com confiança o dia da resurreição
geral (2). Pensamento consolador! Religião santa, bemdita sejas! n'aquella
cova dominada pela cruz, assimilha-se o Cbristão ao viandante fatigado

(1) Ritual romano.


(2) Vide M. Thirat, Espirita das Cerem., p. 125.

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26~ CATECISMO

que descança dôcemente á sombra d'uma arvore, esperando que chegue


a hora de continuar a caminhada.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor t graças vos dou pela ternura que
fnspirastes á vossa Egreja pelos finados ; concedei-nos que façamos por
elles tudo quanto havemos de querer um dia que façam por nós.
Tomo a reso1ução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de consagrar todas as segundas feiras a orar pelos mortos.

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DE PERSEVERANÇA. . 269

QUINQUAGESIMA·TERCEIRA LIÇÃO.

Ochrislianismo tornado sensivel.

Oedtcação. - Stgntftcação, razão.- DtTisão das ceremontas


I
antes da abert.ora da egreja ;-Depois.-Razões que nos
lnstic;am a Ir á egreJa.

-1. FESTA DA DEDICAÇÃO.·-Se, como provamos, a Religião tem razão


de abençoar as mais pequenas coisas que servem no seu culto, não podia
deixar de consagrar os lagares destinados á offrenda do seu Sacrificio e
ao cumprimento dos seus augustos mysterios. Assim é que vêmos que a
consagração dos templos estava em uso na antiga Lei. E' sabido com que
magnificencia e pompa real fez Salomão a dedicação do primeiro templo
erguido no universo á gloria do Altissimo. E este templo não devia en-
cerrar senão vãs sombras f as taboas da lei, o manná do deserto e a vara
milagrosa d' Aarão. Nos seus atrios de cedro não devia ajoelhar-se senão
um povo carnal; sobre os seus altares de bronze não devia correr senão
o sangue dos· animaes, e as suas abobadas d'ouro não deviam resoar se-
não com os accentos dos Prophetas.
No templo catholico habita o Deus que dictou a Lei ; aqui descança
o pão vivo descido do ceo; um povo de adoradores em espírito e verdade
enche o recinto sagrado ; o altar é tingido com o sangue redemptor do
universo, e os eccos resoam com a voz do Senhor dos Prophetas. E crê-
des que a Egreja catholica não devia consagrar os seus templos por meio
de ceremonias cuja santidade correspondesse á mesma santidade do edi-
ficio? Oh ! não, não pÓde ser assim.
E eis que esta divina esposa do Homem-Deus apenas sahe das Ca-
tacumbas, onde por espaço de tres seculos esconde os seus augustos mys-
terios, quando se apressa a edificar e consagrar templos ao Deus vence-

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270 CATECISMO

dor dos Cesares. «A perseguição dos imperadores precedentes, diz Eu-


sebio, tinha abatido todas as nossas egrejas; mas no tempo de Constan-
tido reparamos esta perda com vantagem. Foi um bello espectaculo e o
auge da alegria para a Egreja, o ver edificar e reedificar por todos os la·
dos uma infinidade de templos. Todo o poder, todas as riquezas do novo
imperador se ostentaram n' essa occasião. Não se via por todas as cida·
des do imperio senão templos soberbos que se levantavam e que os nos-
sos Bispos dedicavam á gloria de Jesus Christo (t ). ])
Mas d'onde pensaes que vinha á Egreja a alegria que lhe causava a
solemnidade das dedicações? Era d'aquelles templos materiaes que se
offereciam ao seu divino Esposo? Não. O que a fazia exultar de felicidade,
era a união, concordia e charidade que, unindo todos os homens, como
uniam então nossos paes na fé, fazem d'elles um templo vivo e eterno
n'esses templos materiaes e perecedouros. Os templos visíveis, nos diz a
Esposa de Jesus Christo, não são mais que uma imagem; o templo real
é a reunião dos imperadores, dos Bispos, dos povos, das pro_vincias e
dos reinos, de todos os Christãos entre si, offerecendo-se todos juntos ao
Senhor com a victima di'7ina e ,immortal, que é o meu divino Esposo.
Para se tornar sensível esta verdade é que se reune grande numero dos
meus Bispos para a dedicação dos templos materiaes, a fim de se figurar
o meu templo espiritual e de se representar o que se faz no templo ce-
leste, isto é, para psalmodiar-se, para louvar-se a Deus, para ouvir-se a
palavra divina, para sacrificar-se e para fazer-se admirar o que eu tenho
mais augusto nas minhas ceremonias.
Segui as particularidades d'estas orações sublimes e d'esta mages-
tosa pompa, e dizei se a Egreja da terra podia representar melhor o tem-
plo do ceo, esse verdadeiro templo do qual os anjos e os homens devem
ser as pedras vivas? Dizei se ella podia ensinar melhor a seus filhos que
não devem fazer em Jesus Christo senão um corpo, uma alma, um cora-
ção, um templo, um altar, uma hostia viva e immortal pela cbaridade?
Dizei ainda se conheceis virtude mais social, mais indispensavel, que a
charidade e o espírito de sacrificio? Se a não conheceis, convinde lambem
em que as nossas ceremonias, das quaes escarnece a leviandade, são ad-
miravelmente proprias para a prégar ao mundo.
Com effeito, eis a magnifica linguagem que nos dirige a Egreja na
dedicação dos seus templos : ccO Verbo eterno, tendo-se unido hypostati-

(1) Eusebio, 1. X, e. III.

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DE PERSEVERANÇA. 27t
camente ao corpo do homem, que é uma porção da terra, como que se
obrigou a consagrar todo o resto da terra, e a fazer d'ella um templo e
um sacrificio tão extenso como o mundo, tão duradouro como os se-
culos. Só o Verbo pôde fazer esta obra prima e não a fez senão fazen-
do-se homem e edificando para si um templo na terra, e transformando
toda a terra n'esse mesmo templo. Com este pensamento é que eu em-
prego tantas ceremonias e tanta magnificencia na dedicação dos meus
templos, que não são senão a -imagem d'aquelle templo divino e mila-
groso (1).»
II. EXPLICAÇÃO DAS CEREMONIAS- Doceis á voz da Egreja, estude-
mos com espirita de fé e piedade a consagração dos nossos santuarios.
Esta ceremonia, uma das mais magestosas do culto catholico, pode divi-
dir-se em duas parles. Primeira, desde o começo da acção até á abertura
da egreja ; segunda, desde a abertura da egreja até ao fim. A primeira
nos diz que somos exilados na terra, e que devemos empregar todos os
nossos esforços para chegarmos á celeste patria. A segunda apresenta-
nos uma figura e um ante-gosto das alegrias e do jubilo da gloriosa Je-
rusalem. D'este modo, o todo da ceremania é um verdadeiro poema epico,
que narra á fé e aos sentidos toda a vida do genero humano no tempo e
na eternidade.
Primeira parte. Até ã abertura da egreja.
Digamos primeiro que o poder de consagrar as egrejas pertence ex-
clusivamente ao Bispo; o qual se prepara para exercei-o pelo jejum. A
razão é porque representa o Pontífice eterno, unico que pôde abrir-nos o
Ceu pelo jejum e soffrimento. As reliquias dos santos que devem ser col-
locadas no altar principal do novo templo, são encerradas n'am vaso for-
temente sellado, e depostas entre vélas sobre uma mesa cuidadosamente
decorada, fóra da egreja. Eis o homem desterrado do Ceo.
O Bispo, revestido d'uma capa branca e acompanhado do seu clero,
vae, junto das reliquias, implorar a misericordia de Deus e sollicitar a
sua graça ; para este fim recita os sete Psalmos Penitenciaes, verdadeiro
suspiro do arrependimento e da esperança. Acabados que são, dirigem-se
processionalmente á porta principal da egrej a. Está fechada, e ninguem
está dentro, excepto o Diacono, revestido do amicto, da alva, do cordão
e da estola branca. O Diacono é a figura do apostolo S. Pedro, a quem
foram entregues as chaves do Ceo.

(1) Eusebio, l. X, e. IV.

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272 CATECISMO

O Bispo, impressionado pela grandeza da empreza, exclama : «Deus


omnipotente, Padre, Filho e Espirito Santo, sêde comnosco. » No mesmo
instante Pontifice, clero, e fieis, cabem de joelhos para implorarem o au-
xilio de seus irmãos bemaventurados que triumpbam no Ceo. Cbamam-
nos successivamente pelos seus nomes recitando a Ladainha dos Santos.
Confiando no seu soccorro, ·o consagrador procede á abertura d'aquelle
ceo figurativo. Abençôa o sal e a agua, com as orações, exorcismos· e sig-
naes de cruz ordinarios. Explicamos em outra parte a efficacia e as si-
gnificações da agua benta, do sal e dos exorcismos. O poder das trevas
que havia profanado o mundo e fechado o Ceo, vae ser expulso e desa-
possado.
Com a agua que acaba de abençoar, faz o Bispo uma aspersão sobre
si proprio, sobre o clero e sobre o povo, e isto para purificar-se, a fim
de ser mais digno de consagrar a casa do Senhor, e para santificar o
clero e o povo, a fim de que as suas orações sejam mais fervorosas e
mais agradaveis a Deus. Parte depois precedido de dois ac~lytos e dá
volta á egreja derramando agua benta sobre as paredes exteriores e re-
petindo continuamente estas palavras : Em nome do Padre, e do Filho e
do Espirita Santo. Durante esta ceremonia, canta o côro esta antífona :
«A casa do Senhor foi fundada no cume do monte, e elevou-se acima de
todas as collinas. Todas as nações virão a ella e dirão: ccGloria a vós, Se-
nhor.» Virão com alegria, trazendo feixes nas mãos, e dirão: «Gloria a
vós, Senhor.»
O Bispo, voltando diante da egreja, recita uma oração em que roga
ao Senhor que tome aquelle templo debaixo da sua protecção e faça d'elle
uma casa de santidade e de oração; depois, com o baculo pastoral, bate
uma vez á porta dizendo: «Prif1cipes, abri as vossas portas; levantae-vos,
portas eternas, e o Rei de gloria entrará.» O Diacono, que ficou na egreja,
pergunta: e1Quem é esse Rei de gloria?» Responde o Bispo: c<E' o Deus
forte e poderoso, é o Deus dos exercitos. »
O Diacono não abre a porta. Então o Bispo asperge segunda vez as
paredes exteriores da egreja, em tanto que o côro canta esta antífona:
«Senhor, abençoae este templo que elevastes a gloria do vosso nome. Do
alto do vosso tbrono escutae as orações d'aquelles que vierem n'elle ado-
rar-vos. Senhor, se o vosso povo se converter, fizer penitencia e vier
orar-vos n'este logar, escutar os seus votos do a1lo do vosso throno.»
Depois de ter dado segunda vez a volta exterior á egreja, recita o
Bispo uma oração para pedir a Deus que todos aquelles que se reunirem

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DE PERSEVERANÇA. 273
n'aquella egreja, gozem as doçuras da paz e da união. Bate segunda vez
á porta com o baculo dizendo: «Principes, abri as vossas portas; levan-
tae-vos, portas eternas, e o Rei de gloria entrará.» O Diacono pergunta
de novo : a:Quem é esse rei de gloria?» Replica o Bispo: «E' o Deus
forte e poderoso, o -Deus dos exerci tos.»
A porta da egreja ainda não se abre, para recordar que não foi sem
resistencia que Nosso Senhor Jesus Christo derribou o demonio e des-
truiu· o imperio que elle exercia havia tanto tempo na terra.
O Bispo dá terceira vez volta á egreja lanç.ando, ern nome do Padre,
e do Filho e do Espírito Santo, agua benta sobre as paredes exteriores.
Durante esse tempo, canta o côro esta nova antífona: aSenhor do universo,
ó vós, que tendes tudo em abundancia; vós que quizestes que o vosso
templo fosse elevado no meio de nós, Senhor, preservae para sempre a
vossa casa de toda a mancha. Vós escolhestel-a, ó meu Deus! para que
n'ella se invoque o vosso nome, para que seja um togar de supplicas e
orações : conservae-a sempre sem mancha.»
O Bispo, de volta ao atrio, pede a Deus, n'uma oração, que aben-
çôe e santifique o que elle vae santificar e abençoar; que os demonios
saiam d'aquelle templo e que entrem n'elle os anjos de paz para nunca
mais o deixarem.
Então bate terceira vez á porta da egreja pronunciando as mesmas
palavras: Príncipes, abri as vossas portas, etc. O Diacono, depois da
sua resposta, abre a egreja. N'e.sta tripie viagem encontrareis a recorda-
ção da SS. Trindade, e a tripie jerarchia dos escolhidos: a virgindade, a
continencia e o matrimonio; e nas tres percussões da porta, o tripie po-
der de Jesus Cbristo sobre o mundo, a creação, a redempção e a glorifi-
cação; e as .Penas e os trabalhos que lhe custou a conquista da sua be-
. rança e da nossa.
Antes d'entrar na egreja, faz o Bispo com o baculo, no umbral da
porta, o signal da cruz, para mostrar que pela sua morte é que Jesus
Christo fechou o inferno e abriu o Ceo. Diz, ao effectuar esta ceremonia :
«Eis o signal da cruz, desvaneçam-se todos os vãos fantasmas.»
O clero segue o Bispo á egreja, e os fieis ficam fóra. Se o povo en-
trasse em tropel, não poderia a ceremonia fazer-se com decencia. Tal é
sem duvida uma razão externa pela qual não são introduzidos os assis-
tentes: ba outra cheia de mysterios. A Egreja representa o ceo; quando
depois da resurreição Jesus Christo alli entrou, só era seguido dos jus-
tos que tinha livrado do limbo ; mas quando houver consummado no fim

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CATECISMO

dos tempos a dedicação da eterna Jerusalem, entrará n'ella cheio de glo-


ria á testa de todos os escolhidos.
e Paz a esta casa.» diz o Bispo pondo o pé na egreja, e o clero canta
uma antifona em que pede a Deus essa paz tão necessaria á felicidade e
salvação do homem. Acabada a antifona, todos se poem de joelhos no
meio da egreja, e o Bispo entôa, o hymno Veni, Creator, para pedir ao
Espirito Santo o seu auxilio e as suas luzes.
Recita-se de novo a Ladainha dos Santos para implorar a sua assis-
tencia: é seguida do Benedictus. Durante este cantico, traça o Bispo com
o bacnlo em dois rastilhos de cinza que estão feitos em fórma de cruz
de S. André (X), d'um extremo da egreja ao outro, as lettras do alpha-
beto grego e latino ('l ). N'um estão as lettras gregas, n'outro as latinas,
e são escriptas de maneira que a primeira e ultima lettra de cada alpba-
beto se acham postas aos quatro cantos da egreja.
A reunião do grego com o barbaro, isto é, de todos os povos, no
seio da Egreja, o poder da cruz, e a victoria dos Apostolos, eis ahi o que
representa está energica ceremonia. E' seguida d'outra não menos solemne
e não menos instructiva. O Pontifice vae abençoar os altares e as paredes
interiores da egreja ; não se servirá da agua que empregou para santifi-
car o exterior do templo, mas abençôa outra nova em que deita sal, cinza
e vinho. E' Jesus Christo que nos abriu o ceo, e que dá a santidade ás
nossas egrejas onde se digna de fazer a sua morada. A agua, o sal, a
cinza e o vinho, symbolo da sua divindade e humanidade, das suas igoo-
minias e gloria, da sua morte e resurreição, recordam estas duas ver-
dades.
Depois d'uma oração magnifica, na qual enumera o Bispo todas as
qualidades da agua que acaba de abençoar, e os maravilhosos effeitos que
d'ella espera, approxima-se ao altar, se o deve consagrar, e em quanto
se canta o psalmo Judica me, etc., Julgae-me, etc., toma agua benta e
com ella fórma cinco cruzes sobre a meza do altar, uma no meio, e as
outras nos quatro cantos, dizendo: «Seja santificado este altar em honra
do Deus omnipotente, da gloriosa Virgem Maria e de todos os bemaven-
turados, sob o nome e memoria de S. N., em nome do Padre, e do Filho,
e do Espirita Santo.»
Logo o rodêa sete .vezes, e o asperge com agua benta recitando o

(1) Para denotar a perfidia dos judeus, não se empregam os caracteres he-
brnicos, posto que o hebreu seja uma das tres linguaa sagradas.

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DE PERSEVERANÇA. 275
psalmo Miserere mei, Deus, etc. O' Deus, tende misericordia de mim,
etc. Só á setima volta em torno de Jerichó é que o Senhor escutou os
votos d'lsrael e derribou os muros d'esta cidade. O Bispo deseja que
Deus ouça a sua oração e satisfaça os seus desejos diffnndindo as suas
bençãos sobre a pedra em que deve offerecer-se a adoravel Victima.
Depois, no espirita da Egreja, o altar representa o proprio Nosso
Senhor. Todas as ceremonias e orações da consagração tendem a identi-
ficar quanto é possível o altar material com o espiritual. Aquellas sete
voltas dizem as sete grandes virtudes de Nosso Senhor, e as sete viagens
d'este divino pastor á procura das ovelhas; assim como as cruzes grava-
das no altar com tres uncções d'oleo e incenso representam as suas cinco
chagas, a graça que d'ellas deriva e as tres virtudes fundamentaes do
Christianismo, fé, esperança e charidade. O incensamento que termina é
o emblema da oração.
O Bispo, com a mesma agua benta, asperge tres vezes as paredes
interiores da egreja, primeiro a parle inferior, depois o meio, e por fim
a parte superior, começando pelo ponto oriental ; e voltando ao altar
abençôa o pavimento. Esta ceremouia nos diz que á purificação externa
deve ajuntar-se a pureza interna da alma; que não ha nada manchado no
Ceo; e finalmente, que Nosso Senhor, partindo do Oriente, santificou o
mundo inteiro. O clero, durante esse tempo, canta varios psalmos que
recordam a celeste Jerusalem e os bens que reserva o Senhor aos seus
escolhidos.
Depois d'esta ceremonia, recita o Bispo varias orações tocantes, mas
sobretudo um prefacio que uma traducção não poderia deixar de enfra-
quecer, e em que expõe todos os favores, todas as graças e todos os be-
neficias que roga ao Senhor conceda aos fieis que forem adoral-o n'aquelle
templo. Acabada que é esta oração, faz com a ultima agua benta, cal e
areia, um cimento que abençôa e que breve empregará em sellar as re-
líquias dos Santos no altar.
Segunda parte. Desde a abertura da egreja até ao fim da ceremo-
nia. E' chegada a occasião de introduzir na egreja aquelles preciosos
restos ; vão buscai-os processionalmente e cantando psalmos e antífonas
em honra d'elles. Alguns Sacerdotes os levam aos hombros; dão com o
Bispo volta exterior á egreja, e, durante esta marcha triumphal, repetem
os fieis com enthusiasmo estas palavras: Kyrie, eleison: Senhor, tende
misericordia de nós. ª
Então o Bispo dirige aos fieis uma piedosa exhortação ácerca da

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276 CATECISMO

dedicação ou consagração das egrejas, e faz lêr pelo Arcediago um de-


creto do concilio de Trento que a ella se refere; depois roga ao Senhor
que tome posse do seu templo, cuja porta marca com tres signaes da
cruz feitos com santo chrisma. Entretanto entra a procissão na egreja.
Os fieis seguem o clero, e todos juntos caminham atraz das reliquias que
se vão depôr no tumulo do altar.
Não se póde, parece-me, ser testimunha d'este espectaculo sem ficar
vivamente impressionado. Transporta-vos ao ultimo dos dias, quando,
pronunciado o juizo supremo, a sociedade dos escolhidos se ha de elevar
ao Ceo, após o seu divino Chefe. A commoção é tanto mais profunda,
por isso que se cantam antifanas e psalmos em que respira a alegria e
se pinta ·a immortal felicidade dos bemaventurados. O Bispo recita uma
oração, depois da qual consagra com santo chrisma o tumulo, onde de-
posita logo as santas relíquias com tres grãos d'incenso.
Esta ceremonia recorda que, na primitiva Egreja, se celebrava o au-
gusto Sacrificio sobre o tumulo dos martyres, precioso costume cuja me·
moria se conserva pondo relrqnias no altar, e que foi de certo estabele-
cido segundo a visão do apostolo S. João no Apocalypse. «Vi debaixo do
altar, diz, as almas dos que tinham sido mortos pela palavra de Deus e
pelo testimunho que lhe haviam dado, e clamavam com voz forte dizendo:
Senhor, que sois santo e verdadeiro, até quando dilataes o fazer-nos jus-
tiça (1) ?» Os tres grãos d'incenso indicam o respeito pelas santas relí-
quias e a disposição em que estamos de as cercar sempre do perfume
das nossas orações. .
O Bispo consagra depois a pedra que deve fechar o tumulo das san·
tas relíquias; firma-a sobre o sepulcro com o cimento que fez e abençôa;
e depois, ungindo-a de novo com santo chrisma, diz: 1Seja este altar sei·
lado e santificado em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo :
a paz o rodeie sempre., Depois d'isto incensa o altar por todos os lados
em fórma de cruz, e recita esta bella oração: «Nós vos rogamos, Senhor,
que dirijaes a nossa oração como um incenso que vos é agradavel, e o
povo fiel colherá d'ella copiosos favores; e qne todos aquelles que vierem
ao pé d'este altar offerecer as suas orações ou participar do Sacrificio,
alcancem auxílios para a vida presente, a remissão dos seus peccados e
a graça da redempção eterna.»
Uma cruz está gravada sobre a pedra que fecha as relíquias, e não

(1) Apoc., VI, 9.

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DE PERS~VERANÇA. '!71
podeis vêl-o sem vos lembrardes d'estas immortaes palavras do Salvador:
Tu, és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Egreja, etc.
Um Sacerdote, que recebeu o thuribulo da mão do Bispo, não cessa,
até ao fim da consagração do altar, de espalhar em torno o seu perfume.
Instituiu a Egreja esta ceremonia para· ensinar-nos que não devemos can·
çar-nos, toda a nossa vida, de orar e edificar nossos !rmãos com as nossas
virtudes. O côro entôa psalmos, e, em quanto os canta, consagra o Bispo
com o oleo dos cathecumenos a meza do altar. As uncções, os sigoaes
da cruz, o incensamento e differentes orações concorrem para esta ma·
gestosa ceremonia. Finalmente, ~erramando sobre o altar o santo chris-
ma e o oleo dos cathecum~nos, esfrega-o com a mão direita, e convida o
povo a pedir ao Senhor que se digne, do alto do Ceo, de consagrar e
abençoar aqoelle altar sobre que elle acaba de deitar o oleo santo, e âe
receber com bondade os votos e as oblações que os fieis alli forem apre-
sentar.
Entretanto, doze cruzes foram impressas em doze pilares da egreja.
Este numero recorda os Apostolos que Jesus Christo veio estabelecer co-
lumoas e fnndamentos da verdade. Desde o principio da ceremonia, bri-
lham tochas accêsas diante d'estas cruzes para nos advertirem de que
Deus é a luz do mundo. Os pilares em que estão foram abençoados,
mas ainda não estão consagrados. O Bispo approxima-se, e, fazendo com
santo chrisma uma uncção em cada uma das cruzes, diz: «Seja este tem-
plo santificado t e consagrado t em nome do Padre, e do Filho, e do
Espirito Santo, em honra de Deus\ da gloriosa Virgem Maria e de todos
os bemaventurados, sob o nome e memoria de S. N. > Dá tres incensa-
mentos a cada cruz e vae ao pé do altar dirigir a Deus uma fervorosa
oração acompanhada de benção.
Quando um guerreiro se apodera d'ama cidadella, planta n'ella o seu
estandarte, e em quanto este tremula sobre as torres annuncia a victoria
do conquistador. Comprehendeis agora a presença d'aquellas cruzes gra-
vadas nas paredes do. templo? Mas a "santa uncção que as acompanha,
talvez não conheçaes o seu mysterio? Recorda-vos a graça interior que
aligeira a cruz do cbristão e a converterá um dia em corôa de parolas e
diamantes.
O consagrador voltou diante do altar : aprese,ntam-lhe vinte e cinco
grãos d'incenso para abençoar. Com estes grãos d'incenso, elle mesmo
fórma cinco cruzes; uma no meio do altar e as outras nos quatro cantos.
Põe uma em cada uma das vélas, formadas tambem em cruz, e destina-
t8

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278 CATECISMO

das a arder ·pelas quatro extremidades. Estes grãos d'incenso e estas


vélas são o symbolo das .virtudes que devem aformosear e consumir o
coração dos Christãos. Tal é a primeira offrenda que o Bispo apresenta
ao Senhor no altar que acaba de consagrar. Se algoma vez fordes testi-
munhas d'esta mysteriosa ceremonia, entrareis no espirito da Egreja di-
zendo a Deus: Sim, offereço-vos o meu coração; fazei com que· a fé, es-
perança, cbaridade e devoção o consumam como o fogo consome a cêra,
e que o bom cheiro das minhas virtudes edifique a terra e se eleve até
ao ceo.
Em quanto as tochas e os grãos d'incenso ardem sobre o altar, o
Bispo e o clero, prostrados, cantam a antífona seguinte que exprime per·
feitamente o espírito d'esta ceremonia: «Deus seja louvado: vinde, Espi-
rito Santo, enchei os corações dos vossos fieis, e abrasae-os com o fogo
do vosso amor.•
Entretanto um dos Sacerdotes assistentes ajunta com respeito as
cinzas do incenso e das vélas, a fim de lançai-as na piscina, em tanto que
o Bispo recita uma oração e um prefacio, para pedir a Deus que confirme
no Ceo o que elle acaba de operar na terra, e qoe se digne sempre de
acceitar o Sacrificio que se offerecer n'aquelle templo e sobre aquelle
altar. Finalmente, para completar esta solemne consagração, traça o Bispo
com santo chrisma uma cruz no meio da frente do altar e nas juntas dos
quatro angulos que sustentam a meza. E' acompanhada esta uncção de
duas orações que parecem resumir todas as empregadas dprante a au-
gusta ceremonia.
Logo se reveste o altar dos seus ornamentos; o Bispo abençôa-os se
já o não foram ; accendem-se os círios que o decoram e os que estão
collocados no santuario e em toda a egreja. Não tinham estado até então
accêsos senão os cirios suspensos diante das cruzes dos pilares e os dos
acolytos. Aquella casa não é a casa das trevas, mas sim da luz; aquellas
tochas ensinam aos que alli forem orar que não são filhos das trevas e
da noite, mas sim da luz e do dia, e, por conseguinte, que não devem
dórmir como os outros, mas ser sempre sobrios e velar (i).
A augusta ceremonia é terminada pelo santo sacrificio da Missa.
Sobre o novo altar é que o Bispo pronuncia as mysteriosas palavras da
consagração, que abrem o ceo e fazem descer áquelle templo a Deus que
alli vem habitar.

(1) Thess., V, 8. ,

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DE PERSEVERANÇA. 279
Os fieis devem assistir á consagração d'ama eg1·eja com a mais sin·
cera piedade. Se querem colher d'ella copiosos fructos, entrem no espi-
rita d'aqnellas tocantes orações e d'aquellas acções mysteriosas, acommo-
dadas á sua posição e necessidades. Como dissemos, a primeira parte
c\'esta ceremonia lhes recordará que são exilados n'esta terra e que devem
fazer todos os esforços para chegar á celeste patria; a segunda, que se
passa na sua presença no templo, será para elles uma figura e um ante·
gosto das alegrias e felicidade da cidade bema\'enturada que hão de gozar
no Ceo (1). Cada oração, cada acção do Pontífice consagrante, será para
elles uma lição de santidade.
Com effeito, as egrejas não são consagradas, diz S. Bernardo, senão
por causa· dos nossos corpos; os nossos corpos por causa das nossas ai·
mas, e as nossas almas por cansa ele Deus. Os nossos corpos são pois
templos vivos, que devem ser muito mais santos que os templos mate-
riaes. Foram purificados pela agua do Baptismo; marcados com o sêllo
de Dens, que gravou a ~ua lei no nosso coração; ungidos com a uncção
do Espirita Santo nos saéramentos; illuminados pelas luzes elo Evangelho,
para que nunca pratiquemos as obras das trevas; e, finalmente, abençoa-
dos, pois que o Senhor os livrou das vergonhosas cadêas das paixões,
e lhes promette a immortalidade gloriosa. D'abi vem que se mostre tam
cioso da santidade d' estes templos vivos: «Perderei, diz, aquelle que violar
o meu templo, e o meu templo sois vós.»
A dedicação das nossas egrejas nos recorda não só que somos o
templo de Deus, senão lambem que somos os architectos e os guardas
d'elle. Por estes dois titulos, devemos fazer pelo nosso templo vivo o que
se executa a respeito dos templos materiaes. Devemos edificai-o pela fé,
esperança, charidade e virtudes chrisrns que talham em certo modo as
pedras do edificio; devemos ornai-o, devemos collocar n'elle um altar,
devemos offerecer n'elle sacrificios; devemos abrir e fechar este templo
nas occasiões convenientes, limpai-o, restaurai-o e conservai-o sempre
n'am estado digno da santa magestade do Deus que n'elle reside. Faze-
mol-o? O' vergonha! quantos homens leem mais cuidado da corte dos
seus aoimaes que do templo da sua alma !
III. RAzõEs DE m Á EGREJA. - Homens quemquer que sejaes, tem-
plos vivos do Deus tres vezes santo, se quereis conservar eternamente
sem mancha ou purificar promptamente esse augusto santuario, ide fre-

(1) Vide Pontifical romano e Espfrito das Ceremonias.



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~80

quentemente ao templo santo : lastimo-vos se lá não ides. O filho que


abandona a casa paterna não é bom filho e nunca será bom irmão, bom
esposo, bom pae e bom cidadão.
Justos, vós não tendes asylo mais seguro e sagrado que o templo do
Altissimo. Se vos afastaes d'esse logar santo, se os vossos olhos se des-
viam dos objectos do ceo para se dirigirem para as vaidades do mundo,
a vossa alma será breve arrastada pela torrente do costume ; frageis bas-
tes, quebrareis ; columnas despegadas do edificio do Sanluario, não podereis
sustentar-vos sós, e cahireis em pedaços, esmagadas, pela propria queda. A
agua mais pura depressa perde a limpidez, porque a passagem d'um insecto
a turva, e o sopro do vento a agita e lhe encrespa a superficie : o vosso
coração é a imagem d'essa agua.
Se o templo do Senhor é para o justo um Jogar de oração e conso-
lação, é para o peccador arrependido um logar de luz e paz. Aqui foi re-
generado para a vida ; aqui foi declarado filho de Deus, irmão de Jesus
Christo e herdeiro do ceo pela graça do baptismo; aqui renunciou ao se-
culo e ás suas pompas ; não póde dissimular a si proprio que viola in-
cessantemente os seus compromissos e que o Espirilo Santo já não habita
n'elle. Aqui vê esses tribunaes sagrados em que, movido das patheticas
exhortac()es d'um director zeloso, cem vezes prometteu a Deus mudar de
vida, e mortificar as suas inclinações. Alli os seus olhos se dirigem para
aquelle altar onde alimentava outr'ora a alma com o corpo e sangue adora-
veis de Jesus Christo, que expirou na cruz para o 1ivrar da escravidão do
peccado e. da tyrannia do anjo rebelde. Mais adiante está aquella cadeira
onde se não cessa de partir o pão da palavra evangelica, e de o distri-
buir ás almas fieis ; onde uns pastores, interpretes da lei de Deus e da
sciencia da salvação, combatem as desordens da sua vida e lhe paten-
têam as terriveis consequencias d'ellas.
Que mais direi '! Sobre as lageas santas está prostrada uma alma pie-
dosa, um homem virtuoso, um verdadeiro Christão, cuja piedade o condem-
na, e cujos exemplos o confundem. Elle proprio, caminhando sobre a cinza
de seus passados, sente gue a deshoora com o opprobrio da sua vida ;
do fundo das suas sepulturas, que parecem entre-abrir-se, lhe exprobram
seus paes a sua impiedade e desvarios. F!nalmente, é a morte qa·e sur-
ge com grande estrondo das entranhas da terra, arrastando após de si
ataúdes, ossadas, farrapos manchados de sangue e pó ; offerece-se a
seus olhos sob a figura d'um espectro pavoroso, cavando diante d'elle a
cova que deve em breve recebel-o. Todo o templo em fim o accusa e lhe

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DE PERSEVERANÇA. 281
falia da sua ingratidão e dos beneficios de Deus. Breve o temor das pe-
nas, junto á dôr de ter ultrajado a Deus e de ter sido por tanto tempo
seu inimigo, produz na alma do peccador um começo de amor, o qual,
não cessando de crescer, aplaca os remorsos, reconduz a paz, e se torna
o principio da justificação.
Vão pois os peccadores aos templos buscar o seu perdão aos pés
d' Aquelle que é a resurreição e a vida. O mal é grande, os habitos estão
inveterados, o poço é profundo ; porém Jesus Cbristo encherá o abysmo,
e a justiça reinará onde abundára a iniquidade (l ).
Cada egreja é dedicada sob a invocação d'um Santo. E' um protector
e modelo que a Egreja dá aos habitantes d'uma freguezia; é mais um
laço entre a Egreja da terra e a Egreja do ceo. E' inutil dizer que os
fieis devem celebrar a festa do seu padroeiro com santa alegria e vontade
sincera de seguir as suas pisadas; na vida de cada Santo ha para nós,
qualquer que seja a nossa posição, virtudes que imitar.

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois .todo amor f graças vos dou por haverdes
escolhido habitação entre nós ; e peço-vos perdão pelo esquecimento e
pelas irreverencias de que sois objecto nas nossas egrejas.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de 1:mitar, nas nossas egrejas, o respeito dos Anjos.

(1) Butler, Dedicação.

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282 /
CATECISMO

RESUMO GERAL.

AReligião no tempo e na eternidade.

Resumo geral.-A. Relia-ido, fonte unica da t"elicidade no tem-


po. - Qual é a 1.•eli;;ião que raz feliz o bom.em ? - A Reli-
gião, t"onte nnica da felicidade na eternidade. - O que é
o Ceo. - Protesto do auctor.

1 RESUMO GERAL. - Chegamos ao fim da nossa tarefa. Seguimos a


Religião desde a sua origem até nós, e tudo nos diz que ella é a obra de
Deus por excellencia. E' incontestavel a necessidade d'um reparador de-
pois da queda d'Adão. O facto da promessa d'um Redemptor é demons-
trado, e desde então foi necessaria a fé n'este Redemptor promettido. Por
espaço de quarenta seculos, o Messias, ou o enviado de Deus para salva-
ção do genero humano, é continuamente promettido, figurado, predicto
e preparado; alfim chega este desejado das nações, e é o Verbo eterno
feito homem por amor de nós. N'e!le e por elle se cumprem as promes-
sas, e se verificam as figuras o preLlicções de todo o Antigo Testamento.
Novo Adão, é realmente o Salvador do mundo; é o centro unico em
que se prendem os secnlos passados e os fnturos. Expozemos por rneudo
a sua vida e obras. A lei da graça é obra sua : desde então devemos unir-
nos a elle pela fé, esperança e charidade. Expozemos as condições e o
objecto da nossa união com este novo Adão. Explicamos o que pôde rom-
per esta união, e mostramos por mendo o que a perpetúa.
Aqui apparece a Egreja de Jesus Christo, e vimos o Christianismo
estabelecido, conservado, propagado por· ella e tornado sensi vel durante
os seculos da era christã. Logo é ella, a Egreja catholica romana, que é a
unica depositaria da unica boa e verdadeira Religião.
D'ahi derivam tres proposições, magnifico resumo de toda esta obra
e de toda a demonstração religiosa.

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DE PERSEVERANÇA.

Ha uma religião verdadeira, ou, ha seis mil annos, o genero humano


enlouqueceu.
A verdadeira religião acha-se no Christianismo, ou não está em parte
alguma.
O Christianismo acha-se na Egreja catholica, ou não está em parte
alguma.
D'est'arte, depois de termos descido os sessenta seculos que nos se-
param do nascimento do homem ; depois de termos, com o pensamento,
atravessado todas as edades futuras, chegamos ao limiar da Eternidade.
Alli pára o tempo, alli acaba tudo quanto é do tempo. Succederá o mes-
mo com a Religião ? Não ; ella ha de subsistir quando os seculos já não
forem; porque as relações cuja expressão é, são immutaveis como a natu-
reza de Deus e do homem, na qual se basêam.
Com effeito que é a Religião, senão o \'inculo que une o homem a
Deus? Ora, entre o pae e o filho, entre a mãe e a filha, existe um vin·
colo sagrado, necessario e immutavel. Quem ousaria negai-o? Logo, en-
tre Deus, creador e pae, e o homem, creatura e filho, existe um vinculo,
e este vinculo ha de subsistir, immutavel e sagrado, em quanto fôr certo
que Deus é creador e pae do homem, e o homem creatura e filho de Deus.
Ora, isto será certo por toda a eternidade. Logo a Religião ha de subsistir
pelos seculos dos seculos e além: ln mternum et ultra.
Antes de dizermos, ou antes para dizermos o que ella ha de ser na
eternidade, é necessario lembrar-nos do que a Religião foi, e do que é
no tempo. Recolhamo' -nos: a historia que vamos relatar é menos sua
que nossa.
No principio, creou Deus o mundo e o homem : o mundo para o
homem e o homem para Deus. Essencialmente bom, fez Deus uma obra
boa, nem podia fazêl-a d'outro modo. Assim é que o livro dos livros nos
diz que, estendendo os olbos pelo magnifico todo das suas obras, viu
Deus que todas as coisas que ha ia creado estavam muito boas (t). O
homem principalmente, obra-prima das suas mãos, estava muito bom. Luz,
amor, innocencia, immortalidade, felicidade completa, tal era o seu dote.
Felicidade na intelligencia. Conhecia claramente tudo o que devia
conhecer: a Deus, a si e ás creaturas, desde o globo de fogo suspenso
por cima da sua cabeça até ao humilde bysope que se rojava a seus pés.
CoQ.hecia todos os entes, todas as riquezas do seu vasto domínio, e so-

(1) Vidit Deus cuncta qure facerat, et erant valde bona. Gen., 1.

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18& Q.\TICISllO

bre tudo isto exercia um imperio tam suave quanto absoloto. E esta li-
ção que nos dá a Religião sobre o nosso primitivo estado é tanto a ver-
dade, que se encontra á frente da theologia de todos"Os povos.
Felicidade no coração. Amava com amor vivo, puro e tranqoitlo,
tudo quanto devia amar : a Deus, a si e ás creaturas. E o seu coração
era o medianeiro sublime por via do qual subia a Deus o mundo inteiro
subjeito ás suas leis.
Felicidade nos sentidos. Em torno d'elle uma natureza cheia- de vi-
gor e vida, producções gigantescas em harmonia com o seu poder; um
ceo sem nuvens, uma terra sem abrolhos, plantas sem veneno, flôres cu-
jos perfumes e belleza eram sem mescla d'imperferção e defeito, e fructos
cujo sabor delicio·so mantinha n'etle uma juventude eterna. , Alli, nem
doença, nem enfermidade, nem temor, nem suspiros; nem nada de tudo
quanto póde aftligir o espírito, atormentar o coração ou debilitar os sen-
tidos.
II. A RELIGIÃO, FONTE UNICA DA FELICIDADE NO TEMPO. -Tanta fe-
licidade, devia-a o homem á Religião, isto é, ao vinculo sagrado que o
unia, a elle creatura e filho, a Deus creador e pae, Verdade, Bem, Vida,
Immortalidade, Felicidade perfeita. Entr~tanto chegou o dia do crime.
Entrou o peccado no mundo, e fugiu a felicidade. Espesso véo se esten-
deu sobre a intelligeocia do homem. Qual febre devoradora, a eoncupis-
cencia tyrannica se lhe infiltrou até ã medulla dos ossos, os raios do rosto
se lhe obscureceram foi-lhe quebrantada a força dos sentidos, e appare-
ceu a morte ante elle esperando a sua victima. Adeus Juz do espirito,
adeus amor puro d'um coração innocente, adeus belleza do corpo, adeus
pacifico imperio do mundo, adeus poder dos orgãos, adeus immortali-
dade, adeus felicidade.
Como Locifer, esse grande dragão ex~ulso dos ceos, arrastou com-
sigo multidão de brilhantes seraphins ao poço do abysmo, assim o ho-
mem cahindo arrastou na quéda toda a creação que lhe estava subjeita.
Todos os entes ficaram enfraquecidos, os animaes viram desapparecer as
suas mais gigantescas especies, as tlôres perderam os seus perfumes, as
plantas as suas virtudes, cresceram abrolhos no Jogar das rosas, e o ho-
mem e o mundo não foram mais que uma grande ruina., .
A Religião, que fizera toda a felicidade do homem innocente, veio
reparar a felicidade do homem criminoso. Terna mãe, sabe com elle dq.
jardim de -delicias, acompanha-o no exílio, enxuga as lagrimas que lhe
correm dos olhos, falia-lhe de esperança no meio das suas penas, e, as-

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DE PERSEVERANÇA. 285
sentada ã cabeceira do seu leito de morte, suavisa-lhe as ultimas dôres
da agonia. Homens, quemquer que sejaes, que vos cuidaes dotados da
faculdade de pensar, nós vos conjuramos a dizer, com a mão na con-
sciencia, a quem é d~vedor o homem decahido da luz, das virtudes, da
nobreza, da esperança, e por conseguinte da felicidade que conservou ou
recobrou.
Olhae o genero humano em todas as epocbas da sua duração, se-
gui-o em todos os Jogares, interrogae-o sob os diversos climas que suc·
cessivamente tem habitado ou que ainda nos nossos dias habita: queres-
ponde? Factos, mas factos evidentes como o sol ao meio dia, fallarão aos
vossos elhos.
E primeiramente, dizei-me por favor d'onde partiu o raio luminoso
que allumiou o genero humano durante a longa noite do paganismo?
D'onde lhe vem originariamente ó tenue conhecimento da Divindade, da
distincção do bem e do mal, das penas e recompensas d'uma vida futura,
n'uma palavra o conhecimento de todas as vei:dades fündamentaes que
distinguem o homem do bruto? - Da razão.
-De veras? e dizei-nos em que dia inventou a razão a Deus, assim
como as verdades e os deveres que dimanam da noção d'esse ,.Ente su-
premo. A razão inventar a Deus? outro tanto valeria dizer que o finito
inventou o infinito, o effeito a sua causa, e o filho seu pae.
Depois quem mantem entre os homens, mergulhados no abysmo da
idolatria, um resto de luz, de justiça, de equidade, de moral e de subor-
dinação? - A philosopbia, dizeis ?
- Ah ! não nos forceis a manifestar de novo as suas culpas e igno-
minia. Onde estão essas luzes que o mundo antigo deveu á philosopbia?
Que Jhe ensinou ella que não lhe houvesse ensinado primeiro a tradição
religiosa ? Que digo ? que noções ainda um pouco just.as sobre Deus, so-
bre a alma, sobre a creação da materia, sobre o supremo bem, sobre o
fim do homem, conservadas aos povos idolatras pela Religião como a
fraca herança que um pae conserva a seu filho dissipador e rebelde, que
a philosophia não haja alterado, negado, e desacreditado na opinião, á
força de juntar-lhes absurdos e sophismas?
Dae-nos a mão e vinde ás escholas dos philosophos, conservadores,
segnndo dizeis, da verdade no mundo antigo. Interroguemol-os ácerca
d'uma verdade que nos interessa, a mim e a vós, no mais alto grau. Eis-
nos pois na eschola de Democrito, perguntae-lhe : Que é a alma ? o ve-
lho patriarcha vos responde : E' um fogo ; os estoicos, uma substancia

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286 CATECISMO

aerea ; outros, uma intelligencia ; Heraclito, o movimento. Com Thales,


dir-vos-ão que é um sopro, uma emanação dos astros ; com Pythagoras ..
um numero motor, uma monada ; com Dinarcho, uma harmonia. Estes
chamam-lhe sangue; aquelles, um espirita : vinte outras definições simi-
lhantes. Assim, como unica resposta a esta pergunta : Que é a alma ?
contradições sem fim, sonhos sem nome da parte dos philosophos.
Embora não se .entendam sobre a natureza da alma; estão mais acor-
des sobre o resto, por exemplo sobre as suas propriedades? Uns fa-
zem consistir o prazer d'ella no bem, outros no mal, e terceiro partido
em não ser nem bem nem mal. E' immortal, diz um ; não, diz outro,
está condemnada a morrer. Segundo este, ha de subsistir por algum
tempo ; segundo aquelle~ passa ao corpo d'um bruto. Sim, diz ou-
tro, mas não para lá ficar ; será para soffrer tres transmigrações diver-
sas. Ha outros que fixam a duração d'ella em mil annos. Boa gente, que
não saberia prolongar a sua propria existencia àlém de cem annos, pro-
mette a outros milhares d'annos 1
Que nome se ha de dar a estas opiniões? E' chimera, demencia,
1 absurdo, ou antes tudo isto a um tempo? Se o que elles nos contam é
a verdade, observem a mesma linguagem, approve um o que o outro
assevera;' e n'este caso, senhores, eu serei de boa vontade do vosso pa-
recer. Mas quando se vêem dividir-se a resp.eito da natureza da alma, fa-
zêl-a em pedaços, que meio de supportar uma dissidencia taro repu-
gnante?
Que sou eu pois, no dizer d'esses doutores? Este me faz immortal;
que felicidade! Aquelle, mortal; que motivo d'affiicçãol Outro me fa.z re-
solver em atamos indivisíveis; eis-me agua, eis-me ar, eis-me fogo; pouco
depois já não sou nem agua, nem ar, nem fogo; mas torno-me bruto ou
peixe; sou da familia dos atuns e golfinhos. · Se passo a examinar-me, te-
nho mêdo de mim mesmo; não sei que nome tenha, se homem ou cão,
lobo, touro, passaro, serpente, dragão ou chimera, tantas metamorphoses
differentes apraz aos senhores philosophos fazer-me soffrer. Transfor-
mado em todos os animaes do 'mundo, animaes da terra, da agua, do ar,
animaes de fórmas differentes, animaes silvestres ou domesticos, mudos
ou ruidosos, intelligentes ou brutos, nado, vôo, elevo-me aos ares, arras-
to-me, corro, descanço; e depois eis ainda Empedocles que vem fazer-me
planta (1).

(1) Hermias, Irrisio philosoph., p. 15 e 16.

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DE PERSEVERANÇA. 287

Interrogae todos esses famosos mestres ácerca das outras verdades,


bases da ordem moral e da sociedade, que não se entendem melhor. E
as unicas palavras que vos virão aos labios, ao sahirdes da sua fatigante
escóla, é este oraculo d'um homem que os conhecia bem, pois era d'elles:
Não ha, diz Cícero, absurdo tão repugnante que não seja asseveraao por
algum philosopho.
E agora, crêdes de boa fé que esses phiJosophos, que se tomariam
por charlatães que disputam n'uma praça publica (1), conservaram no
mundo antigo os princípios de justiça e equidade que mantinham um
resto de harmonia entre os homens, quebravam de longe em longe alguns
ferros de escravos e limpavam algumas lagrimas? Era â philosophia que
o patriarcha da 'dôr, Job, nascido e vivendo no seio da gentilidade, pedia
consolações? Onde está o pobre entregue á fome, onde está o escravo
açoitado pelo seu senhor, que haja dicto: Consoladora dos desgraçados,
santa philosophia, vem em meu auxilio t
Se o philosopho a quem elles chamam seu mestre, Socrates, no mo-
mento de beber a cicuta, quer adoçar a amargura da sua sorte, é a phi-
losophia que invoca? Não; é a religião! a religião, que conservou e lhe
traz o dogma consolador da immortalidade da alma. Conclui pois com-
nosco que todas quantas verdades e principias, e por conseguinte Yirtu-
des e consolações, houve no mundo antigo, vinham da religião e não da
philosopbia. .
Mas eis o dia em que esta verdade: que o homem deve tudo á reli-
gião, vae brilhar com mais vivo fulgor. Lembraes-vos do que era o mundo ·
ha dezoito seculos? A noite do erro era assás profunda e universal? a
escravidão assás dura e abjecta? o homem assás corrompido e miseravel?
a mulher, a. creança, o escraYO, o pobre, o prêso assás emilecidos, assás
pisados, assás aniquilados?
Pois bem ! dizei-nos, foi das escólas da philosophia, ou do Cenaculo,
que desceu a luz que dissipou as trevas do erro, e fez ''oltar á sombra_.
como aves lugubres, esses milhões de deuses a cujos pés se prostrava
tremulo o mundo antigo, e cujos altares bauhava de sangue humano?
Quem tornou a ensinar ao homem a origem das coisas? Quem lhe en-
sinou a unidade de Deus? Quem Jhe disse com certeza : Tu tens uma
alma; é immortaJ; espiritual, livre; descida de Deus, deve voltar a Deus?
Q1:1em proclamou estes deveres sagrados que fundaram a sociedade uni-

(1) Expressão de J. J. Rousseau. '

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CATECISMO

versai ? Quem substituiu ao direito brutal do mais forte a dôce lei de


charidade?
Quem disse aos reis : Vós sois creados para os povos e não os povos
para vós; o poder é um encargo, e a vossa dedicação deve chegar ao sa-
crificio; e mostraram-lhes uma cruz, dizendo-lhes: O rei dos reis morreu -
assim pelo seu povo. Quem disse aos povos: Vós deveis respeitar os
reis, que são os ministros de Deus para o bem; quem lhes resiste, resiste
ao mesmo Deus. Subditos, vós deveis, sendo preciso, derramar o vosso
sangue no campo de batalha, livremente e por obediencia; e mostraram-
lhes uma cruz, dizendo-lhes: O primeiro snbdito ou antes o filho do Pa-
dre eterno morreu assim para obedecer.
Isto ainda não é tudo ; quem despedaçou os ferros da escravidão
d'um extremo do mundo ao outro 't Quem aboliu os combates dos gla-
diadores? Quem ensinou ao homem a respeitar o homem? Quem salvou
a creança do homicídio, da exposição e da venda auctorisada pelas leis
antigas? Quem levantou a mulher da sua abjecção profunda, e de es-
crava humilhada, envilecida, a fez a nobre companheira do homem?
Quem mudou o direito das gentes, e, de feroz que era, tornou a
guerra tam humana quanto o póde ser? Quem substituiu a favor do pri-
sioneiro esta maxima: Graça para o prisioneiro, á divisa sangrenta do
I
mundo antigo: Vre victis, desgraçados dos vencidos 1 Sim, desgraçados!
porque os ferros da escravidão ou a morte sobre o tumulo dos vencedo-
res, ou o homicídio no meio do amphitheatro, tal era a sua inevitavel
sorte.
Que mais direi? Quem ennobreceu o pobre a ponto de fazer d' elle
um ente sagrado? Quem preparou prazeres á sua miseria e velhice~
Quem fez descer á cabeceira do enfermo desconhecido e repugnante jo-
vens principes e princezas, nascidos nos degraus do throno, e os tornou
1
orgulhosos por terem o nome de servos e servas dos pobres ?
Entre todas estas obras, pbilosophias, qual reivindicaes vós? qual
inspirastes ? qual realisaes '? Dizei a quem pertence a gloria d'ellas ?
Acreditae-oos, que já é tempo, e abjurae insustentaveis e funestissimos
erros; prostrae-vos ante a amavel filha do Ceo que fez o mundo actual
o que é, menos as manchas de que vós o tendes coberto; que velou pelo
vosso berço como pelo meu, que allumiou o vosso espirito como o meu,
ennobreceu o vosso coração como o meu, e que, se quizerdes, virá ainda
consolar-vos quando todos houverem fugido para longe de vós.
E' tempo de cessardes de perseguil-a com vossas blasphemias e

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DE PERSEVERANÇA. 289

vosso odio. Dizei, que mal vos fez ella? que mal fez ao mundo? Se pois
funestas paixões vierem ainda tentar o vosso coração e chamar-vos ás
bandeiras dos inimigos da Religião, respondei-lhes, e tendes toda a razão
para o fazer, o que responde o mesmo genero humano ha seis mil annos:
Ha seis mil annos que ella me dirige, e nunca me fez mal. Como pode-
ria eu injuriar minha mãe e rainha, a quem devo tudo, luz, virtude, li-
berdade e vida ?
III. QUAL É A RELIGIÃO QUE FAZ o HOMEM FELJZ. - Esta homenagem
de piedade filial, deixae-nol-o crêr, está no vosso coração, e breve, não é
assim? breve estará nos vossos labios; mas a quem a dirigis? Ouço-vos
ás vezes fatiar de differentes religiões; dir-se-ia que não sabeis a que altar
offereçaes o vosso incenso. E' certo que varias sociedades disputam a honra
de serem as dep.sitarias d' essa religião a quem o mundo deve tudo.
Quereis fixar as vossas incertezas? segui-nos, que o trabalho nem será
longo nem di.fficil. Vêde qual d'essas sociedades tem derramado sobre o
genero humano os beneficios cujo quadro desenrolei ante vós.
Conclui sem hesitar que aquella a quem o mundo é devedor d'elles,
é a verdadeira sociedade. a unica depositaria da verdadeira religião e da
boa doutrina. Com effeito uma doutrina que é a unica que civilisa os ho-
mens, a unica que os torna melhores, isto' é, piedosos para com Deus,
justos e charidosos para com seus irmãos, castos e humildes a respeito
de si proprios, é uma doutrina boa e a nnica boa; mas não é boa senão
por ser verdadeira; e não é verdadeira senão por ser divina: e encon-
trastes a verdadeira sociedade ou a verdadeira Egreja.
Quaes são agora essas sociedades que ha dezoito seculos se teem
apresentado como as verdadeiras depositarias da doutrina vivificante?
Vejo a Egreja romana, vejo o arianismo, vejo o mahometismo, vejo o
protestantismo, finalmente, após todas as outras, vejo voltar a philoso-
phia pagã.
Com a mão na consciencia, respondei : Eram arianos, mahometanos,
protestantes ou philosopbos os que desciam aos amphitheatros da antiga
Roma para cimentarem com o seu sangue os alicerces da sociedade mo-
derna e crearem a nova era de civilisação que fez a gloria e a felicidade
do mundo? Não; eram filhos da Egreja catbolica romana.
Eram arianos, mahometanos, protestantes ou philosophos os que
povoavam as vastas solidões da Thebaida, para darem ao mnndo esses
portentosos exemplos de todas as virtudes e lhe ensinarem a applicar
á sociedade, à familia e a todas as circumstancias da· vida as gran-

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290 CATECISMO

des lições do Christianismo? Não ; eram filhos da Egreja catholica ro·


mana.
Eram arianos, mahometanos, protestantes ou philosophos os qne, á
custa de todas as especies de fadigas e privações, em menosprêso dos
tormentos e tla morte, iam arvorar entre as nações d'então o estandarte
da civilisação e da Religião, a cruz? Não; eram filhos da Egreja catho-
lica romana.
Arianos, mahometanos, protestantes e philosophos, como havieis vós
de operar maravilhas? ainda não tinheis nascido. Tudo estava feito quan-
do viestes; o mundo já descançava em paz á sombra tutelar da Arvore
christã; já varias gerações se tinham alimentado, passanrlo sobre a terra,
dos seus fructos vivificantes.
Quando alfim vós chegastes, que fizestes? Qu~verdade conservou
o arianismo ? Que principio social proclamou, elle que negava a Jesus
Christo, principio de toda a verdade, de todo o dever, e por consegninte
de toda a sociedade? Que povo tirou elle da barbarie? Que parte do
globo tornou mais moral, mais florescente e mais feliz? Qual é a cifra
dos seus beneficios? Qual é a cifra dos males que causou'? Vejo p
mundo dividido, vejo o odio, as disputas, as violencias reapparecerern
por toda a parte onde elle passa. Eis ahi as obras do arianismo.
A sua doutrina pois não é boa; não é boa porque não é verdadeira,
e não é verdadeira porque não é divina. O arianismo não é portanto a
verdadeira sociedade, a sociedade conservadora da boa Religião.
E o mahometismo, quaes são as suas obras? Filho d'nm arabe,
bandido e libertino, caminha com a espada n'uma das mãos e a taça da
volupia na outra, dizendo: Crê ou morre. E vejo ao longe o incendio
das cidades desde as extremidades da Asia até ao centro da Africa. Vejo
o homem transformado em machina sob a mão de ferro d'uma céga fa.
talidade. Vejo a escravidão dos povos conquistados, o opprobrio da mu-
lher, e o desprêso das artes e das sciencias. Vejo a barbarie com o seu
tenebroso chaos, e a terra submettida á doutrina musulrnana subitamente
detida no seu andar progressivo, e tornada como uma petri.ficação viva
da humanidade. Eis ahi as obras do mahometismo.
A sua doutrina pois não é boa ; não é boa porque não é verdadei-
ra, e não é verdadeira porque não é divina. O mahometismo não é por
tanto a verdadeira sociedade, a sociedade conservadora da boa Reli-
gião.
Pretenciosos reformadores do seculo decimo-sextõ, chegou a vossa vez.

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DE PERSEVERANÇA. 29t
Vejamos q~aes são os vossos titolos ã fé e ao reconhecimento do mun-
do? Luthero, Zwinglio, Calvino e Henrique VIII, nada temaes, que eu
não faltarei da vossa vida privada, toda a alma honesta sabe porquê.
Tracta-se da vossa obra religiosa. Daveis-vos como reformadores da Egreja
romana, que tinha reformado e civilisado o mundo ; que havia quinze
seculos lhe conservava a sua superioridade intellectual e moral; pois
bem 1 dizei-nos : que abusos reformastes? De que nova virtude dotastes
a terra?
Que consolações trouxestes ás miserias humanas"? Onde estão as Ir-
mãs de Cbaridade que enviastes á cabeceira do moribundo, ao berço da
creança abandonada, ao pobre deitado em palha? Que novos dogmas en-
sinastes 'l Que princípios conservadores da sociedade e da religião procla-
mastes? Que sancção sagrada déstes á fé? á fé, base da ordem religio-
sa, política, civil e domestica? Que digo? sanccionar a fé 1 vós aniqui-
lastel-a deificando o orgulho humano e proclamando a infallibilidade in-
dividual.
E viram-se, consequentes com os vossos principios, povos inteiros
caminhar, com a espada n'ums das mãos e o archote na outra, para o
homicidio, para o incendio e para a pilhagem ; e a Europa foi transtor-
nada até aos seus fundamentos; e a Allemanba, a Ioglaterra, a Suissa e
a França foram, durante meio seculo, ensopadas no sangue dos seus ci-
dadãos; e houve escandalos de toda a casta; os adnlterios, os roubos, a
audaz violação de todas as leis, defensas da moral, da propriedade do
homem e da sua vida, vieram inundar a terra.
Em quanto a torrente continuava os seus estragos, vós descieis á
sepultura, e os vossos discípulos, divididos em mil seitas inimigas, se ana-
tbematisavam, se degolavam, faziam succeder-se umas 'ás outras as pro-
fissões de fé como as folhas nas arvores, e imprimiam ao espirito hu-
mano uma actividade infrene que o impellia a todos os sonhos, a todas
as mais criminosas tbeorias; de maneira que chegou, graças a elles, a
negar a Jesus Christo, principio de toda a verdade, de toda a moral, e
por conseguinte de toda a civilisação. D'ahi um cbaos que realisa na
terra a imagem do abysmo eterno, onde não habitam nem ordem, nem
paz, mas sim a noite e o horror.
E depois que povo civilisastes? Que selvagens tirastes do meio das
suas florestas? Ha um seculo que milhões de indios estão acurvados sob
o jugo do protestantismo. Ide vêr se deram um passo, um só passo na
estrada da civilisação. Dizei, zelosos methodistas, anglicanos e wesleyen-

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292 CATECISMO

ses, se todas as superstições atrozes que eucontrastes na India não rei-


nam ainda alli com toda a sua força f Ah f para civilisar povos, não
basta ter escriptorios destinados a receber o preço dos seus suores e ar-
mazens de Biblias para dar-lhes. E' necessario ter as duas coisas unicas
que civilisam: nos labios a verdade e nas veias sangue para derramar.
E d'este sangue de martyres nunca vós tivestes, e ainda o não ten-
des.
Assim, para com os povos civilisados, divisão, duvida, scepticismo,
homicídio, pilhagem e revoluções; para com os povos selvagens e bar-
baros, absoluta impotencia. Nenhum bem e muito mal: eis ahi os effei-
tos da doutrina protestante. Esta doutrina pois não é boa ; não é boa
porque não é verdadeira, e não é verdadeira porque não é divina. O
protestantismo não é por tanto a verdadeira sociedade, a sociedade depo-
sitaria da boa Religião. ·
Faltaremos agora da philosopbia? Podéramos dispensar-nos d'isso.
O que dissemos da pbilosophia antiga applica-se de todo o ponto á mo-
derna. O mesmo chaos d'opiniões, as mesmas variações, as mesmas con-
tradicções e os mesmos absurdos; e, como consequencias, as mesmas
desordens moraes, os mesmos transtornos políticos, e os mesmos des-
prêsos de todas as verdades e de todos os principios que civiJisaram o
mundo. Quanto ao mais, os philosophos modernos condemnaram-se pela
sua propria bôcca. A verdade, dizem, nunca é prejudicial. E' isso, res-
ponde um d'elles, a melhor prova de que o que vós dizeis não é a ver-
dade (1).
Esteril para toda a especie de bem, que fez a philosopbia ! Onde
estão os hospilaes que fundou, e os estabelecimentos verdadeiramente
uteis que creou ? Onde está o povo que tirou da barbarie? Onde está a
nação civilisada a quem tornou mais moral, mais tranquilla, e por conse-
guinte mais feliz? Onde está o mancebo, cujos costumes purificou, e cujas
desordens éorrigiu? Onde está o pae a quem tornou mais vigilante e
mais recto, a esposa mais fiel, o cidadão mais dedicado, o magistrado
mais integro e o negociante mais leal ? Que direi ? onde está a virtude
por pequena, por bumilde que seja, que ella ensinou, sanccionou ou
praticou?
Porém se a philosophia foi .impotente para o bem, é omnipotente
para o mal. Foi ella, sim, foi ella, dizem os seus adeptos, que fez tudo

(1) J, J, Rousseau.

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DE PERSEVERAl'iÇA. i93
o que v~mos (f ). E qoe vêmos? O mundo abalado até aos fundamentos; -
todos os vinculos da sociedade politica, civil e domestica, despedaçados e
desprezados ; rios de sangue, destroços e ruinas ; crimes que fazem em-
pallidecer; o homem tornado carne, lama .. bruto com rosto humano,
sem outra vida que a das sensações animaes. Eis ahi as obras da pbilo-
sophia, pois quem diz philosopho, diz um homem que se julga com di-
reito de nada crêr e com liberdade de fazer tudo quanto quer.
Esta doutrina, prenhe de erros, crimes e transtortlos ; esta doutri·
na, que entrega a sociedade como prêsa aos mais ambiciosos, fortes e
destros, não é pois boa ; não é boà porque não é verdadeira ; e não é
verdadeira porque não é divina. A philosopbia não é por tanto a verda-
deira sociedade, a sociedade depositaria da boa Religião.
E' pois · certo que só a Egreja catholica romana civilisãra o mundo
antes do nascimento do arianismo~ do mahometismo, do protestantismo e
da philosopbia. Era por tanto, antes do nascimento d'elles, a unica ver-
dadeira sociedade, a unica depositaria da boa doutrina, e por conseguinte
,da \'erdadeira Religião.
Depois que appareceram na terra estas recem-chegadasl tem ella
cessado a sua missão benefica? Bulgaros, russos, prussianos, tartaros,
bungaros, vós todos, formidaveis povos do Norte, longo flagello da Eu-
ropa, dizei: quem foi ao vosso encontro para abrandar a vossa ferocida-
de ? ·Quem vos dotou do beneficio das luzes ? Quem fez de vós homens
e depois christãos ?
E mais tarde, iroquezes, illinezes, selvagens das duas Americas,
queni plantou no meio dos vossos bosques o estandarte civilisador? Quem ·
vos ensinou a cessar com os vossos horriveis festins de carne humana e
com os vossos sangrentos sacrificios ? Quem vos reuniu em corpos de
nações e vos fez assentar ao vasto banquete da civilisação 'l Nos nossos dias
quem ainda civilisa as populações desconhecidas da Oceania, e os restos
dos selvagens americanos, e os indios acurvados sob o jugo de borriveis
superstições? Quem manda seus filhos regar com o proprio sangue es-
sas terras longínquas e preparar uma rica messe pa~a um futuro proxi·
mo? Arianos, mahometanos, protestantes e philosophos, sois vós?
Sem sahirmos da nossa Europa : quem cobre os nossos reinos, do
norte ao sul, de todas essas instituições em que se não sabe o que mais
se deve admirar, se o bem immenso que obram a respeito de todas as

(1) Condorcet.
49

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CATECISMO

edades! de todos os sexos, e dos infelizes de toda a especie ; se a heroica


dedicação e a alegria celeste dos anjos visiveis que, dia e noite, velam por
esse acervo repugnante de todas as miserias humanas, com mais terna
sollicitude que a joven mãe pelo berço do seu primogenito? E depois,
nos flagellos que vieram ha pouco dizimar o antigo e o novo mundo, quem
voou á cabeceira dos enfermos? Quem col!ocou o ouvido á bôcca empes-
tada d'elles para ieceber o seu ultimo suspiro? Arianos, mahomelanos,
protestantes e philosophos, sois vós? -
E' pois certo que, depois do apparecimento das pretensas sociedades
depositarias da verdadeira Religião, só a Egreja romana continuou, e con-
tinúa· magnificamente a missão civilisadora que começára antes do nasci-
mento d'ellas. A sua doutrina pois não tem cessado de ser boa, e boa
privativamente a qualquer outra ; mas não é boa senão porque é verda-
deira e não é verdadeira senão porque é divina.· A Egreja catholica não
tem por tanto cessado de ser a unica sociedade encarregada de conservar
o Christianismo.
Conheceis agora a sociedade ílepositaria da verdadeira Religião? To-
davia, para vol-a fazermos distinguir de todas as seitas mentirosas, não
empregamos senão esta prova, a mais palpavel, é certo, e por conseguinte
a mais popular, a saber: que a arvore se conhece pelos fructos. Qae
seria se tivessemas querido usar de todos os nossos meios, e desenvol-
ver-vos os signaes intrínsecos de verdade que conveem todos á Egr'eja
romana, e cada am dos quaes não convem nem ao arianismo, nem ao
mahometismo, nem ao protestantismo, nem á philosophia?
Estes signaes, para vos dizer tudo em doas palavras, são a unidade, a
santidade, a apostolicidade e a catholicidade. O incommanicavel sêllo da ver-
dade é ser uma, santa, de todos os tempos e de todos os Jogares. Ora, rogo-
vos que forcejeis por encontrar uma sombra d'unidade, santidade e univer-
. salidade no arianismo, no mahometismo, no protestantismo e na philosophia!
Santa Egreja romana 1 unica conservadora da verdade, da virtude e
da civilisação entre os homens ! quem recusará agora associar a sua voz
á do grande Agostinho para dizer.,.vos: «Egreja catholica, verdadeira mãe
dos Christãos, tu é que ensinas aos homens não só a adorar um unico
verdadeiro Deus, e que banes assim a idolatria da face da terra; mas lam-
bem que lhes ensinas a charidade para com seus irmãos d'uma maneira
tão perfeita, que todas as miserias humanas, por mais variadas que seja~,
encontram n'ella remedio efficaz.
e1Tu é que alternativamente, creança com a creança, forte com o

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DE PERSEVERANÇA. 295
mancebo, placida com o ancião, ensinas a verdade e exercitas para a vir-
tude, segundo a força da edade e o alcance da intelligencia.
«Tu é que sobmettes, por meio d'uma harmonia casta e fiel, a mu-
lher ao homem, não para satisfazer paixões brutaes, mas sim para con-
servar o genero humano, a sociedade e a familia.
«Tu é que estabeleces o homem acima da mulher, não para ·zombar
do sexo mais fraco, mas sim para ser o seu apoio e dirigil-o segundo as
leis do mais cordial amor.
«Tu é que submettes por meio d'uma livre servidão os filhos aos
paes, e que dás aos paes um santo imperio sobre os filhos. ·
o:Tu é que unes os irmãos aos irmãos pelo vinculo da Religião, vin-
culo mais sagrado e solido .que o do sangue.
«Tu é que, sempre respeitando as leis da natureza e as inclinações da
vontade, estreitas por meio d'uma cbaridade mutua as allianças e amizades.
«Tu é que ensinas aos creados a servir a seus amos, menos por te-
mor que por amor.
ccTu é que fazes os amos bons e misericordiosos para os creados,
pelo. pensamento d'um Deus supremo, seu Amo commum.
«Tu é que unes não só por vinculos de sociedade, senão lambem
por vinculos de fraternidade, os cidadãos aos cidadãos, as nações ás na-
ções, e todos os homens, quaesquer que sejam, pela recordação do seu .
commum berço. ·
«Tu é que ensinas aos reis a dedicar-se pelos povos, e aos povos a
obedecer aos reis.
«Tu é que ensinas com perfeita exactidão a quem é devida a honra,
a quem O affecto, a quem O respeito, a quem O temor, a quem a COnSO·
lação, a quem a advertencia, a quem a exhortação, a quem a reprehensão,
a quem a correcção, a quem o castigo, mostrando que todas estas coisas
não são devidas a todos, mas que a todos é devida a charidade, e a inju-
ria a ninguem (t ). »
E que quer a Religião, que quer a Egreja romana, instruindo-nos,
formando-nos na virtude, e alliviando·nos nas nossas necessidades? Quer
reparar pouco a pouco, para com todas as gerações que veem á terra, as
funestas consequencias d-0 peccado original e de todos os outros. Quer
devolver ao nosso espirita parte das luzes de que gozava no estado de
innocencia; ao nosso coração, a santidade e o imperio sobre os sentidos;

(1 De Morib. EccZ. Cath., e. XXX.



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296 CATECISMO

aos mesmos sentidos, parte do seu poder e da sua primitiva inteireza.


Desde a sabida do paraiso terrestre, a Religião tem conduzido o· homem
de claridade em claridade, como a mãe conduz seu filho das primeiras
trevas da juventude até ao desenvolvimento da razão. ·
IV. A RELIGIÃO, FONTE UNICA DA FELICIDADE NA ETERNIDADE. - Mas
esta rehabilitação tam bem sustentada, e cujo quadro expozemos nos vo-
Jumes do Catecismo, é só começada na terra; a sua perfeição está reser-
vada para a eternidade, e lá nos condµz a Religião. Alli é que todas as
coisas hão de ser perfeitas; alli é que nós bavemos de vêr muito mais
que essa edade d'oiro, cuja memoria confusa se conservára no proprio
seio do paganismo, o ceo. E' tempo de dizermos o que elle será. A im-
perfeitíssima pintura que d'elle vamos fazer é comtudo, ao que nos pa-
rece, sufficiente para excitar os nossos desejos, sustentar o nosso animo
e fazer-nos repetir com o Apostolo : «Não, todos os trabalhos, todos os
sacrificios que impõe a Religião na terra, não merecem entrar em com-
paração com a gloria e felicidade que nos espera nos ceos (1). »
O que é a luz para o cego que a viu e que ancêa por tornai-a a vêr;
a saude para o enfermo que soffre cru eis dôres; a paz para o infeliz que,
toda a vida exposto a embustes, teve de estar noite e dia com as armas·
na mão; o que é para o rei cabido a volta ao seu throno; para o viajante
abrasado pela sêde, uma fonte fresca e limpida; para o exilado, o regresso
á patria, ao seio d'uma familia querida; finalmente, para o homem devo-
rado por desejos insaciaveis e sempre renascentes, para o homem alque-
brado de trabalhos e dôres, para o homem condemnado ás Iagrimas, ás
enfermidades e á morte, o livramento de todos os males, o pleno e per-
feito gôzo de todos os bens, o repouso e a immortalidade da dita e da
gloria: é-o o ceo para o genero humano, e muito mais ainda.
O ceo: é o complemento de todos os desejos de Deus, das creaturas
e do homem ; é a restauração de todas as coisas ao estado de perfeição
absoluta; é o repouso eterno na ordem.
t ~ 0 A respeito de Deus. O ceo .é o cumprimento d'este voto ex-
presso pelo Filho do Eterno, instruindo o genero humano : Pae, venha
a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra corno no
ceo (2). O ceo é para Deus o gôzo pleno e inteiro das suas obras; é a
completa manifestação da sua gloria, do seu poder, da sua bondade, da
sua sabedoria, e das suas ineffaveis perfeições; é o reinado d'um Pae
(l) Rom., VIII, 18.
(2) Math., VI, 10.

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I -

DE PERSEVERANÇA. 297
querido sobre filhos doceis; é a expansão immortal, eterna, do seu amor
n'elles, e a expansão egualmente eterna do amor d'elles n'Elle. E' a uni-
dade do homem com D.eus, e de Deus com o homem; unidade sem con-
fusão de natureza, de sorte que unindo-se eternamente Deus e o homem,
sem se confundirem, gozarão eternamente, no seio d'ineffaveis delicias,
a plenitude do seu ser. N'uma palavra, o ceo será para Deus ser tudo
ern todas as coisas (1 ).
2.º A respeito das creaturas. O ceo será o cumprimento d'este
voto expresso em seu nome pelo grande Apostolo : «Todas as creaturas
gemem, soffrem as dôres do parto, esperam o seu livramento da corrup-
ção e a sua participação na gloria dos escolhidos, aos quaes unicamente
serão d'ahi em ·diante subjeitas, e que as não farão, a pezar d'ellas, ser-
vir á iniquidade (2). » As creaturas desejam pois, concluem os doutores
catholicos, a sua renovação e livramento, não a sua aniquilação nem des-
truição quanto á substancia. Não serão pois destruídas, mas simplesmente
purificadas pelo fogo do dia final ; assim como o ouro não é destruido
passando pelo cadinho, mas purificado e tornado mais deslumbrante e
duradoiro (3).

(1) I Cor., XV, 28.


(2) Rom., VIII, 19 e seg. - Creatura hic sunt Cooli, elementa, omniaque
creata. Omnes creaturre ·avidissime naturali appetitu expectant tempus, quo filii
Dei gloria donatantur, et cum eis quibus servierunt, quasi dominis, ips::e quoque
suam gloriam, reno\1 ationem ac perfectionem, tanquam famuli accipeant. Sic arbor
per appetitum, non rationalem, nec animalem, sed naluralem, dicitur expectare suum
fructum, et semen suam messem. Atque boc magnum est n.rgumentum, gloriam
iliam nobis prreparatam, ingentem e se et inrestimabilem; quod omnes creaturm
etiam iosensibiles totre ad illam anhai1a.ut ... 8ic enim nutrix pueri regii, cum puer
coronatur, et ipsa propter ipsum de bonis regiis participat: ita pariter, cum homo
gloria donabitur, bane ejus gloriam ceterre creaturre qu::.e homini servierunt, partici-
pabunt, inquii Chryso~t. in hunc Zoe ... ita ut similetn quandam libertatem stabilita-
tem creatu rm alioo accipeant. Cor. a Lapid., in Epist. ad Rom., VIII, 19.
(3) A opinião que sustenta que o mundo não será aniquilado_, mas sómente
aperfeiçoado e mudado para melhor, é a mais auctorisada nos Santos Padres e nos
Theologos. Apropria Escriptura lhe é mui favoravel. Diz, por exemplo, no Antigo
e Novo Testamento (Is., LXV, 17; LXVI, 22; Apoc., XXI, 1.), que o Senhor fará
novos ceos e itma nova terra. Não wz oufros ceos e outras terras, mas sim novoa ceos
e uma nova terra, para indicar a sua. renovaçã.o. (Non dixit: Alios creios -et aliam
terram videbimus, diz S. Jeronymo, sed veteres et antiquos in melius commutatos.
ln Is., LI e LVI.) Quando um menino passa a mnncebo, quando de mancebo passa a
homem feito, e quando de homem feito passa a velho, não se diz que perece de cada •
vez que muda de edade: é sempre o mesmo homem, porém crescido e passado d'um
estado a outro. O mesmo succede quando um architecto d'uma antiga casa faz d'ella
uma nova, ou quando o lavrndor arrotêa um terreno inculto e abandonado, e o torna
fertil e risonho.
Quando o Psalmista (Psal., CI) falla da destruição dos ceos, a indica sob a idêa
d'um vestido que se usa e que muda; mas isto é mui differente do que é reduzido

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298 CATECISMO

Quem dirá a belleza e perfeição d'esta terra e d'estes ceos renova-


dos ? A aguia dos doutores, cuja angelica pureza lhe mereceu entrevêr
coisas occultas aos profanos, S. Thomaz, fallando dos elementos depois
da resurreição geral, nos diz que a agua será como o crystal, o ar taro
puro como o ceo, e o f(>go tam brilhante como os astros e o sol ; que a

ao nada. (lpsi peribunt, et omnes sicut vestimentum veterascent; et sicut opertorium


mutabis eos.) Isaias, descrevendo o estado do mundo depois da resurreição, diz que
o sol e a lua se verao como antes, mas com um brilho infinitamente maior :' rcA lua,
diz, brilhará como o sol, e o sol terá sete vezes mais claridade do que tem hoje.11
(11., XXX, 26.)
O Salvador diz-nos no Evangelho que o Ceo e a terra pa.ssarão (Ma tb., XXIV,
35, e V, 18), e o Apostolo que a figura, ou apparencia d'este mundo passa (Prreterit
figura hujus mundi. 1 Cor., VII, 31). Não dizem que o mundo perecerá quanto á
substancia, nem que os ceos e a terra voltarão ao nada, mas simplesmente que pas-
sarão do estado em que os vêmos a outro mais perfeito e mais bello. S. Pedro, no
ponto .mais formal que temos a este respeito, diz simplesmente que o dia do Senhor
virá como wm ladrão; que então os ceos passarão com grande esfrondo e impetuosi-
dade; que os dementos se'rão dissolvidos pelo calor; que a terra será queimada com
tudo o que está n'ella (II Petr., III, 10). Ora uada de tudo isto prova a aniquilação.
Deus revelou-nos a creaçào do universo, mas não nos declarou em sitio algum
que de\'esse reduzir a sua obra ao nada. Confessamos que póde uma coisa como
pôde a outra; mas não vêmos nas suas Escripturas que seja esse o seu designio.
A mesma aniquilação é uma coisa que não comprebendemos.
Salomão assegura-nos que soube que tudo o que o Senhor fez deve permane-
cer eternamente. (Didici quod omnia opera qure fecit Deus perseverent in perpe-
tuum.) E' o que S. Gregorio Magno explica muito bem conciliando a Escriptura com-
sigo mesma, quando diz d'um lado que a terra permanecerá eternamente, e d'outro
que os ' ceos e a terra passarão· passarão quanto á figura, mas nao quanto á essen-
cia. (Per eamquam nunc habent imaginem transeunt, sed tamen per essentiam sine
fine subsistent. Moral., 1. XVII, in Job, V.) E quando a Escriptura falla de novos
ceos e de terra nova, não entende que Deus creará outros novos, mas que renovará
os antigos. (Non alia condenda sunt, sed hrec ipsa renovantur. lbid.) O mesmo S.
Gregorio compara esta mudança com a que vemos occorrer todos os annos na revo-
lução das estações : o inverno succede ao estio e a p1·imavera ao inverno; a terra
muda de face n'estas differeates estações, mas é sempre a mesma quanto á substancia.
Mas ninguem se explicou sobre esta materia em t ermos mais expressos e cla-
ros que S. Agostinho: ccO fogo que abrasar o mundo no ultimo dia, diz este grande
doutor, mudará as qualidades do_s elementos corruptiveis, e o que con-çinha aos _nos-
sos corpos subjeitos á corrupção, será mudado em outras qualidades que convirao
aos nossos corpos incorruptíveis; de sorte que o mundo assim renovado será propor-
cionado á natureza dos homens resuscitados. » (Ut scilicet mundus, in melius inno-
vatus, apte accommodetur hominibus etiam cr,rne in melius innovatis. De Civit.
Dei, J. XX, XVI. ) Diz em outra parte que o 1ceo e a terra serão renovado.a depois
do juizo ~ que hão de passar, mas que não perecerão. (Mutatione namque i·erum, non
omnímodo. interitu, transibit bic mundus ... Figura ergo prreterit, non natura. Ibid.,
e . XIV.) Comparando depois o fogo que deve abrasar o mundo no fim dos seculos
com as aguas do diluvio, faz o parallelo das expressões de que se serve a Escriptura
para exprimir um e Ot\tro d'estes dois grandes acontecimentos. No primeiro, diz-se
que o mundo pereceu, do mesmo modo que se diz que perecerá no segundo. Mas como
se sabe que por esta palavra pereceT não quiz a Escriptura indicar senão uma mu-
dança ext.raordinnria., assim, na consummação dos seculos, quando diz que o mundo
perecerá, isso quer dizer que será sómente mudado em quanto ás suas qualidades,
mas que subsistirã em quanto á sua substancia.

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DE PEllSEVEflANÇA. 299
terra será na sua superficie tam clara e transparente como o vidro (t ).
Sempre egualmente allumiada, a terra será na sua temperatura constan-
temente eguaJ ; os astros e os elementos, sempre similhantes em si mes-
mos e a nosso respeito, não terão nenhuma das imperfeições que n'elles
observamos presentemente (2).
A terra, é verdade, será despojada de certos corpos mixtos, acompa-
nhamento forçado da sua condição presente, mas nem por isso deixará
de ser perfeita. Terá tudo quanto póde contribuir para a perfeição no
estado de estabilidade e incorrupção em que estiver, posto que privada
de certas bellezas que lbe convinham no seu primitivo estado de imper-
feição. Os adornos que convinham á casa d'um simples particular já lhe
· não conveem, logo que d'ella se fez o palacio d'nm grande principe (3).
3.º A respeito .do homem. O ceo é, como dissemos, o cumprimento
de todos os seus desejos legitimos e analogos ao seu estado futuro. E'
a satisfação d' este voto expresso em nome de todo o genero humano pelo
real Propheta: Senhor, eu serei satisfeito quando vir a vossa gloria
(4. ). Para o provar bastam estes dois principios : primeiramente, o ceo

S. Epipliauio (H~res., LXIV), Proclo, Methodio e Ecumenio (ln II Petr.,


III) sustentam e provam a mesma opinião. rcA terra e os elementos, diz este ultimo,
não serão destruidos. Do mesmo modo que fazemos passar os metaes pelo fogo sem
termos vontade alguma de os destruir, assim Deus fará passar o mundo pelo fogo,
mas não o destruirá. Não destruirá senão as coisas que so servem para uso da vida
mortal e perecedoura, e tudo o que não tem relação com o estado de immortalidade
e incorrupção em que estaremos depois da resurreição dos corpos; mas conservará
todo o resto n'um estado mais perfeito e feliz, para adorno e bellez& d'esse ceo novo
e d'essa terra nova que nos são promettidos, e para contribuir para a beatitude dos
Justos que viverem então., Do mesmo modo que aquelle que edifica uma casa nova
não a edifica de nada, assim Deus formárá os ecos novos e a terra nova, depois do
juizo, da ma.teria dos ceos e da te1Ta que hoje subsistem, masque mudará n'um esta·
do mais perfeito. (Cyrill., 1. IV, in Is., LI.)
, ( 1) Jnriovatio mundi ordinatur ad hoc q uod homo etiam sensu in corporibus
quodammodo per wanifesta indicia divinitatem videat. Inter sensus autem nostros
spiritualior est visus et subtilior. Et ideo quantum ad qualitates visivas, quarum
principium est lux, oportet omnia corpora inferiora meliorari. Unde omnia. elementa
claritate quadam vestientur; non tamen requaliter, sed secundum suum modum .. .
Aer non erit claros, sicut radios projiciens, sed sicut diapbannm, illuminatum .. .
Terra erit in superficie exteriori pervia sicut vitrum, aqua sicut crystallus, ignis
ut luminaria Creli. D. Tb., IIÍ p. suppl., q. XCI, art. 4.-0 ceo e todos os cor-
pos celestes experimentarão uma melhora similhante e ficarão mil vezes mais lumi-
nosos do que são hoje. Jd., id., art. 3.
(2) Hier., in Habacuc, III.
(3) O que se acaba de lêr sobre o estado do mundo depois da resurreição
não é dogma de fé : é a opinião mais conforme com a Escriptura Sagrada e mais
acreditada entre os Santos Padres e os Theologos. Biblia de Vence, t. XXIII. -
(4) Psal., XVI, 15.

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300 CATECISMO

é o livramento completo do mal, e o gozo completo da felicidade sem


mescla e sem fim ; em segundo logar, o homem serã no ceo verdadeiro
homem, isto é, em corpo e alma. O ceo será pois a felicidade completa
do corpo e da alma. Tal é a definição que um instincto tam universal
quanto invencivel dá d'elle ao genero humano.
Eis ahi porque, coisa mui pouco notada, posto que mui notavel, o
homem deseja o ceo com toda a extensão dos seus dois poderes, espiri-
tual e corporal. Creado para a felicidade, gravita incessante e irresisti-
velmente para o seu fim, como a agulha tocada com o iman para o polo,
e como- tudo na natureza para o seu centro. Desde o berço até á cam-
pa, este ente abatido e desgraçado busca a sua rebabilitação e o livra-
mento do mal ; este rei desthronado busca o seu throno ; este deus ca-
hido lembra-se dos ceos, e busca-os por toda a parte. Por toda a parte
vae impellido por uma força irresistível, pedindo o ceo, isto é, a felici-
dade, a tudo quanto encontra.
Perguntae-lhe qual é o remate dos seus labores, dos seus cuidados,
das suas agi~ções, dos seus sacrificios, das suas virtudes, e dos seus
proprios crimes: sempre e em toda a parte vos responderá : a felicida-
de, isto é, o ceo. Ha seis mil annos que respira no globo, e nada tem
podido deter ou afrouxàr esse movimento impetuoso que o impelle para
/
a felicidade, isto é, sempre para o ceo. Pelo contrario, quanto mais en-
velhece, mais devorante se torna o seu ardor; pois quanto mais se afas-
ta, corrompendo-se, do verdadeiro ceo, mais redobra esforços para en-
contrar o ceo imaginario que sonharam as suas paixões.
Porque essas montanhas de ruinas de que tem juncado a terra ha
quatro seculos? Por esses inauditos transtornos, essas revoluções inces-
santemente renascentes que não levam senão a amargas decepções, sem
jámais cançarem o seu tenaz desejo de felicidade? Qual é o alvo de to-
das essas coisas? A felicidade, o ceo, que o homem mendiga a tudo
quanto soppõe capaz de dar-Ih' o.
Legítimos desejos; mas superfluos esforços ! Se deseja o ceo, de-
seja o mal, ou antes põe o ceo onde elle não estâ ; e é essa uma terri-
vel consequencia da sua degradação. Dir-se-ia uma grande creança que,
collocada na borda de sereno lago, vê de subito no espelho das aguas a
imagem da lua. Toma-a pelo proprio astro, e no seu erro, precipita-se
no lago, e a imagem se despedaça; e quanto mais se agita para a apa-
nhar, menos a alcança. E quanto tira dos seus penosos esforços, é a fa-
diga, o desespêro, a morte no meio das aguas. Grande creança, ergue

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DE PERSEVERANÇA. 301
a cabeça .e não busques a teus pés o que esiá aci~a de ti; o que perse·
gues não é senão a imagem da felicidade. Nem por isso deixa de ser
certo que a satisfação que o homem encontra no gozo das creaturas é uma
sombra, uma parcella, uma alteração até se quizerem, mas emfim uma
imagem da felicidade do ceo, ou antes o ceo em imagem.
Com effeito, que é que o homem deseja para o corpo e para os
sentidos, para a alma, para a memoria, para o espírito e para o coração?
Prazeres do corpo. Primeiramente o llomem deseja para sua mo-
rada sítios encantadores, uma terra fecunda, adornada de todas as belle·
zas da natureza, um ceo puro, sereno, sem nuvens, sem frio excessivo
e sem sol abrasador. Vêde quam pouco as viagens, as indagações e as
despezas custam aos ricos para conseguirem esta vantagem, e quando a
gozam, chegam ao remale dos seus votos. Cele&ram a sua felicidade, e
escrevem d'ella aos seus parentes e amigos, convidando-os a alegrar-se
com elles.
Pois bem! é qutf o ceo? E' o complemento, é a satisfação plena,
inteira e eterna d'este desejo: pois que, depois de acabado o tempo, ha-
verá novos ceos e nova terra. Purificados pelo fogo, serão revestidos das
qualidades analogas á natureza dos nossos .corpos tornados impassiveis e
immortaes. Oh f quam arrebatadora será a sua belleza 1 E depois, sob
esses novos ceos e sobre essa nova terra, nada haverá do que perturba a
vossa morada actual, por mais feliz que vos pareça; não haverá ladrõe~
ameaçando as vossas propriedades, a vossa segurança ou a do que vos é
charo; não haverá fome, inundação, incendio, tremor de terra, flagello e
damno que temer. '
Que é que o homem pede ainda para o corpo? Uma habitação com·
moda, aposentos magnificas, e ricos moveis. Vêde que espantosa activi·
dade emprega para os adquirir 1 Dizei quantas artes e officios são em-
pregados para esse fim? Pedreiros, canteiros, carpinteiros, ensamblado-
res, doiradores, marceneiros, arlistas de todas as especies, conspiram
para aformosear a sua morada. Todos os metaes servem para o mesmo
uso: o ferro, a prata; o cobre, o chumbo, que sei eu? o marmore, a
ardosia, as flôres, e os mais preciosos estôfos. E quando chega a agasa-
lhar-se e a dormir n'esta sumptuosa morada, crê-se feliz.
Ora, o ceo não é senão o complemento, a satisfação plena, inteira
e eterna, d'esse desejo. Escutae a descripção que vos faz da morada dos
escolhidos o Discipulo muito amado, cujos olhos haviam tido a felicidade
de a contemplar: •E o anjo me transportou em espirita a uma alta monta-

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302 CATECISMO

'
«nha ; e me mostrou a cidade, a santa Jerusalem, que descia do ceo,
ccvindo de Deus; estava illuminada pela claridade do mesmo Deus; e a
«sua luz era similhante a uma pedra de jaspe, transparente como o crys-
. dai. Tinha uma grande e alta muralha, em que havia doze portas e doze
«anjos, um a cada porta. A muralha era feita de jaspe, e a cidade era
«d'ouro puro, similbante a vidro clarissimo, e os alicerces da muralha
«eram pedras preciosas. As doze portas eram doze perolas; e cada porta
«era feita d'uma d'estas perolas ; e a praça da cidade era d'ouro puro
«como vidro transparente (t). »
Homens, que mais desejaes para o vosso corpo? Vestidos sumptuo-
sos e brilhantes. Nós sabemos, ai ! quanto valor lhes ligaes, quanto or-
gulho, ia dizer quanta vaidade, vos inspiram. No ceo terão desappare-
cido esses ignobeis despojos d'animaes que trazeis para occultardes a
vossa vergonha e protegerdes a vossa fraqueza, todas essas librés da de-
gradação primitiva; o vosso corpo, brilhando com todas as graças d'uma
juventude eterna, será o seu proprio vestido.
Quaes são os outros bens que desejaes para o vosso corpo? Saude,
belleza, agilidade e vida.
Que não faz o homem para conservar o primeiro d'estes bens ou
para o recobrar quando o perdeu ? As despezas, as viagens, as privações
de todas as especies nada lhe custam; e se, á custa de todos os sacrifi-
cios, recupera essa saude que so alterará em breve, crê-se, ainda que
seja o mais ínfimo dos homens, mais feliz que o maior dos monarchas.
Ora, no ceo, o homem gozará perfeita saude. Todos os seus orgãos,
hoje corrupti veis e grosseiros, serão tam perfeitos e incorruptíveis que
nunca nada os alterará, e que servirão com maravilhosa facilidade para ·
as operações da alma.
Para o seu corpo, deseja o homem lambem a belleza ; as deformi-
dades naturaes são-lhe ás vezes tão insupportaveis como a morte. Tem in-
veja aos que teem por quinhão a belleza; gosta de crêr, para consolar-
se, que tem alguma porção d'ella; e se esta belleza imperfeita e fragil se vê
ameaçada, oh 1 que de cuidados e precauções para a reparar, para suspen·
der, se podésse, os estragos do tempo! Ora, no ceo, o homem, livre do
(1) Apoc., I, 20, 21. Para. nos dar idêa da realidade, serve-se S. João de
quanto nós conhecemos mais precioso. Não que nós creiamos que a celeste Jerusa-
lem seja com effoito edificada ou revestida e adornada das pedras e dos metaes que
tanto apreciamos no mundo; mas o Espirito Santo, para se accommodar ás nossas
idêas baixas e grosseiras, não nos falia d'outra coisa, porque não vêmos nada aqui
JD&is brilhante nem mais bello. Bellarm., p. 61.

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DE PERSEVERANÇA. 303
mal e de todos os resultados do mal, reapparecerá com uma belleza da
qual nada nos poderia dar idêa. No trabalho da sepultura, todos os corpos
dos Santos, diz S. Agostinho, perderão os seus defeitos, e o homem resus-
citará no vigor da edade, quando a belleza brilha com todo o .seu esplen-
dor; e gozará uma juventude eterna.
I Para o seu corpo ha outro bem que o homem deseja, hoje princi -
paimente, com incomprehensivel ardor, e é a agilidade : não quer distan-
cias. O pêso da materia incommoda-o; a todo o custo quer livrar.se
d'elle. O seu genio é posto a contribuição, e espantosas maravilhas co-
roam os seus esforços. O vapor presta-lhe a sua força omnipotente ; a
electricidade a sua maravilhosa rapidez; o ferro a sua solidez ; os mon-
tes abatem-se ante elle, e, mais rapido que a ave, transpõe n'um abrir e fe-
char d'olhos espaços immensos. Aspira a dar a volta ao mundo com a li-
geireza do pensamento, e os triumphos que obteve e os que ainda sonha .
lhe proporcionam incrível gozo. Pois bem ! o ceo é o complemento d' este
desejo d'agilidade que nos . atormenta. Tornados espirituaes, os nossos
corpos já não serão obstaculo á actividade da alma, que os ha de trans-
portar para toda a parte que quizer com a mesma ligeireza do pensa-
mento.
Finalmente, para o seu corpo, deseja o homem tambem a vida. Oh!
se podésse esperar a immortalidade, que não é senão a vida sem fim,
que não faria elle para a al·cançar? Imaginae-o pelo zêlo extremo que
emprega em prolongar os seus dias e pelo receio excessivo que tem de
morrer. Vêde como lucta contra a doença, e como se debate contra a
morte. A medida dos esforços que faz para se subtrahir a ella é a me-
dida do seu amor á vida . . Pois bem l o ceo é o complemento d'este de-
sejo, o mais .indestructivel e imperioso do coração humano. Alli, uma
vida immortal e acompanhada de todos os gozos sem mescla d'amargu~
ra, eis ahi o que nos está promettido.
Belleza, sande, agilidade e vida, taes são os grandes bens que de- I •

seja o homem para o seu corpo, que busca, ·que procura, que compra
por todo o preço. A Religião o leva a possuil-os, e lh'os dá no ceo.
Para cada um dos seus sentidos, experimenta o homem tambem
desejos que nada n'esle mundo póde satisfazer e que são o seu tormen-
to. Os olhos desejam vêr, os ouvidos ouvir, o gosto saborear, o olfacto
reveber e o lacto tocar tudo quanto ha bello, harmonioso; delicioso, agra-
davel e dôce. Seria necessario escrever. desde a primeira pagina até á
ultima~ a historia do geoP-ro humano, se se quizesse relatar tudo quanto

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30i CATECISMO

faz o homem para contentar os sentidos. Que de vidas consumidas, que


de rios de sangue derramado, que de montes d'ouro e-de prata sacrifi-
cados para comprar o prazer dos sentidos ! O ceo dá tu~o isto, ou antes
o ceo é tudo isto aperfeiçoado, sem mescla d'imperfeição e de vicissitude
(i).
Primeiramente, prazer da vista. Os Santos verão os novos ceos e
a nova terra incomparavelmente mais bellos que os antigos. Hão de vêr
aquella santa cidade que Tobias e depois d'elle o apostolo S. João, por
falta de termos que exprimam a sua magnificencia, nos pintam como
uma cidade toda edificada d'ouro e ornada de todas as especies de pe-
dras preciosas. Ver-se-ão a si mesmos, e como os seus corpos serão re-
formados, segundo o moddlo do de Jesus Christo, como diz S. Paulo (t ),
serão tam bellos e luminosos que não cederão ao sol em belleza e ful-
gor .
.Não ba aqui exaggeração. O corpo do Salvador, ao qual serão si-
milhantes todos os outros, pareceu um dia a S. Paulo mais brilhante
que o sol no pino do meio dia. Não diz o proprio Salvador que os Jus-
tos luzirão como o sol no reino de seu Pae (2) ? Que contentamento te-
rão pois quando virem os pés, mãos e todos os membros do seu corpo
tam resplandescentes que, em qualquer parte que estejam, não necessi-
tarão nem de tocha nem de astro para se allurniarem ?
Mas não terão só a satisfação de vêr os seus corpos assim radiantes
de gloria; verão tambem com extremo prazer os dos outros Santos, e
- principalmente o de Nosso Senhor e de sua santa Mãe. Se pois o sol ao
nascer alegra toda a terra, que alegria não causará a cada um dos bem-
aventurados a vista de todos aquelles soes vivos, quero dizer, de todos
aquelles corpos que attrahirão e encantarão os olhos, tanto pela admiravel
disposição e justa proporção dos seus membros, como pelo seu extraor-
dinario fulgor 1 Quanto ao mais, não se terá então que baixar a vista
para evitar a demasiada luz, porque os olhos serão impassiveis, e aquelle
que fortalece de tal modo os ólhos da alma que podem olhar fixamente
a Divindade, fortalecerá tambem de tal sorte os do corpo, que milhões
de ,soes não os poderão deslumbrar.

(1) Oculi, aures, na.res, os, manus, guttur, jecur, pulmo, ossa, medulloo? etc.,
beatorum mirabilj delectationis et dulcedinis sensu replentur. S. Anselm., lib. d~
Similitudinib., e. L VII.
(2) -Philipp., III, 21.
(3) Ma.th . , XIII, 43.

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DE PERSEVERANÇA. 305
Póde-se accrescenlar quanto ao prazer da vista o que diz S. Agosti-
nho, que os santos martyres terão algum signal de gloria na parte do
corpo que mais houver soffrido. Assim, vêr-se-á na cabeça de S. Este-
vão uma corôa composta de tantos diamantes quantas pedras lhé arre-
messaram. S. João Baptista, S. Thiago, S. Paulo, a quem foi a cabeça
cortada, terão um collar de maravilhosa belleza e de inestimavel preço.
S. Bartholomeu, despojado da pelle, será vestido d'uma purpura infinita-
mente mais brilhante que a dos reis e imperadores. Finalmente, para
nada dizermos dos outros, vêr-se-ão as gloriosas chagas de S. Pedro e
S. André, que morreram pelo supplicio da cruz ; vêr-se-ão tam lumino-
sas como astros. Mas o que os ha de exceder a todos em claridade, sem
todavia os offuscar, ba de ser o Rei dos martyres, que ha de brilhar no
meio d'elles como o sol entre as estrellas.
Em segundo logar, prazer do ouvido. E' certo que no ceo os cor-
pos luminosos terão os orgãos necessarios para ouvirem e fallarem, pois
todos os apostolos, com grande numero de discípulos e de mulheres, vi-
ram o Salvador e lhe fallaram depois da sua resurreição; e elle respon-
deu a differentes perguntas que lhe fizeram. Sabe-se tambem pelo livro de
Tobias e pelo Apocalypse de S. João que no ceo se cantarão canticos em
louvor do Senhor. Estes cantices tam agradaveis e sempre novos alegra-
rão maravilhosamente os Santos, e lhes agradarão tanto mais quanto as
vozes forem mais bellas, quanto aquelle cujos louvores se cantarem fôr
mais digno d'elles, quanto o logar onde se fizerem os concertos resoar
melhor, em fim quanto aquelles que os ouvirem tiverem o ouvido mais
delicado, e forem em maior numero.
Quem poderia pois conceber qual será o excesso da sua felicidade,
quando, gozando uma paz estavel e ardendo em amor a Deus, -supremo
bemfeitor, elles se excitarem uns aos outros a louvai-o eternamente?
Segundo refere S. Boaventura, tendo ouvido S. Francisco por algum
tempo a dôce harmonia d'um alaude tocado por um Anjo, ficou de tal
forma arrebatado que cria estar em outro mundo. Que prazer será pois
o de ouvir milhões de vozes, juntas a outros tantos instrumentos, que,
separadas em dois córos e respondendo continuamente umas ás outras,
cantarão por todos os seculos os louvores de Deus !
Em terceiro logar, prazer do olfacto. O ceo será uma cidade em-
balsamada pelos mais deliciosos perfumes. Sabemos com certeza que os
corpos de diversos Santos exhalaram depois da sua morte um cheiro tam
agradavel, que nunca ninguem tinha sentido outro similbante. ·Foi o que

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306 CATECISMO

aconteceu a S. Hilarião; segundo refere S. Jeronymo : pois que, dez


mezes depois de o enterrarem, o seu corpo foi achado tam inteiro como
se estivesse vivo, e sabia d'elle um cheiro milagroso, que fez crêr a al-
guns que havia sido embalsamado. Conta-se o mesmo de S. Servulo,
aquelle pobre paralytico a quem S. Gregorio faz tam grande elogio. Ao
morrer, espalhou um cheiro celeste de que ficaram penetrados todos
aquelles que assistiram á sua morte. Ha infinidade d'outros exemplos
d'esta maravilha. D'ahi se póde tirar a consequencia de que, se os cor-
pos cujas almas gozam a gloria, exbalam até no sepulcro um cheiro di-
vino, será coisa mui differente no ceo, quando lá estiverem vivos e glo-
riosos.
Accrescentae o que o mesmo S. Gregorio escreve de sua tia, S. Thar-
silla, que. um dia, tendo erguido os olhos para o ceo, sentiu um cheiro
tam suave que bem parecia que o auctor de toda a doçura estava alli pre-
sente. Aquelles pois que gostam dos bons cheiros comecem a sentir de
longe o prazer que hão de ter no paraíso, quando estiverem n'aqu~lle
jardim delicioso entre os lyrios e entre as rosas.
Em quarto e quinto logar, prazer do gosto e do tacto. E' certo que
no ceo não se usará de viandas materiaes e corruptíveis; sem embargo o
sentido do gosto, elevado e purificado como todos os sentidos do homem,
terá sua acção e seus prazeres, convenientes ao logar e á condição dos
bemaventurados. O ceo é-nos annunciado como um festim de bodas;
haverá torrentes de prazeres. Que gozo para o lacto a boa disposição
em que hão de estar os corpos dos Justos resuscitados? Imaginemol-o
por comparação.
Quando n'este mundo o corpo se acha opprimido de doenças ou co-
berto d'ulceras, o sentido que soffre ·mais, ou o unico que soffre, é o
tacto: do mesmo modo, quando o corpo está são e vigoroso, é tambem
o tacto que goza toda a commodidade e prazer. Terá pois sua beatitude,
e tel-a-á eternamente quando os Santos, depois da resurreição, tornados
immortaes 'e impassíveis, disfructarem perfeitissima saude. Que não da-
riam os grandes do mundo para estarem sempre exemplos da gota, da
pedra, das dôres de cabeça, de rins e d'estomago ! Que não devem pois
dar, que não devem fazer para ganhar o ceo, d'onde está desterrada para
sempre com a morte toda a doença e dôr !
Ainda mais, posto que os corpos resuscitados devam continuar a ser
compostos de carne e ossos, serão comtudo espirituaes, isto é, serão de
tal modo submissos ao espírito que se moverão ao grado d'elle, subirão

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DE PERSEVERANÇA. 307

e descerão, irão por todas as partes com prodigiosa ligeireza, e passarão


atravez das paredes mais espessas, tam facilmente como se fossem espi·
ritos e não corpos. Como pois este sentido é o unico que soffre, quando
os corpos pesados e terrestres são constrangidos a descer ou subir ao
cume d'urn monte, ou a correr d'am lagar para outro, só elle tambem
gozará o prazer que poderá causar aos corpos gloriosos a facilidade de
irem por todas as partes sem se cançarem.
Eis ahi de que maneira os bemaventurados serão libertados da es-
cravidão d'esta carne corruptivel. Nunca terão necessidade, para irem
mais depressa ou para andarem co.m mais segurança, nem de cavallos, nem
de carros, nem, de armas, nem de outra coisa, porque irão quasi n'um mo-
mento d'um polo ao outro; e porque, a qualquer parte que vão, nada
terão que temer. Prouvesse a Deus que aquelles mesmos que ainda não
são capazes de gozar as doçuras espirituaes, pensassem ao menos n'estes
bens sensíveis ; e que á força de n'elles pensarem, os estimassem e bus-
cassem ! Poderiam em fim elevar-se mais, e isto lbes seria um degrau
para chegarem com o auxilio divino á bemaventurança eterna.
Se dos prazeres dos sentidos, que, taes quaes acabamos de os des-
crever, completariam já a felicidade 'do homem mais ambicioso, passarmos
aos prazeres espirituaes, infinitamente mais nobres e vivos, será força
exclamarmos com o apostolo: «Não, não, os olhos do homem não viram,
os seus ouvidos não ouviram, e o seu proprio coração, tão vasto como é,
nunca pôde desejar nada similhante ao que Deus prepara aos escolhidos
(t).> Procuremos fazer d'isso uma idêa imperfeita.
Para a memoria, deseja o homem recordações completas e delicio-
sas. Uma das nossas maiores miserias e mais amargas magoas é a de es-
quecermos no todo ou em parte o que vimos, ouvimos ou aprendemos
util e agradavel. Pois bem r no ceo, que satisfação para os Santos, quando
a sua memoria, tornando-se plena e perfeita, lhes lembrar, d'ama parte,
os infinitos bens gue Deus lhes fez para o corpo e para a alma, para o

tempo e para a eternidade; e, d'outra parte, os perigos quasi contínuos
de que os livrou~ em todos os tempos, estados e empregos da sua vida ?
Poderão pensar na bondade que Elle teve de eximil-os do peccado mor-
tal e das penas do inferno, em tantas occasiões em que estavam prestes
a cahir, sem lhe darem por isso mil acções de graças?
Mas não pensarão n'isso eternamente, e não será isso para elles em

(1) I Co1·. , II, 9.

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308 CATECISMO

todos os seculos um motivo de gozo ? Se fossem capazes de esquecêl-o, " /


clamaria o Propheta : Eu cantarei eternamente as misericordias do Se-
nhor (t)? E poderia dizer S. Agostinho que, na cidade de Deus, nada
haverá mais encantador que este cantico, nada que exalce mais a graça
de. Jesus Christo, nosso redemptor?
Qae diremos das vicissitudes dos tempos que elles terão sempre pre-
sentes á imaginação e ao espirita? Não será coisa mui agradavel, quando
virem a Deus, o vêrem em Deus tudo quanto se houver passado até en-
tão no mundo; tantos acontecimentos diversos, que a Providencia tiver
operado ou permittido e que tiver sabido dirigir infallivelmente para os
seus fios? Não é isso aquelle rio impetuoso de que falia David, aquelle
rio que corre sempre e que alegra a cidade de Deus (2)? Podem-se re-
presentar melhor as revoluções dos seculos que por este rio cuja corrente
é rapidissima, e que não parará, até se descarregar e perder no grande
mar que não é outra coisa senão a eternidade (3)?
Para o espirita, deseja o homem conhecer. E vêdel-o emprehen-
dendo longas \'iagens, atravessando os mares, subindo os montes cujo topo
se perde nas nuvens, descendo ás profondas entranhas da terra, consu-
mindo-se em prolongadas vigilias, e gastando-se com o tempo ! para quê?
para conhecer mais alguma verdade; e depois, julgando-se feliz quando
entreviu atravez de espesso veo alguma das bellezas do mundo espiritual.
E entretanto, o que é esta verdade? o que é esta belleza? o que são
todas as verdades que nós podemos descobrir n'este mundo, e todas as
creaturas em que pensamos ver bellezas tão arrebatadoras? Vestigios do
Creador, diz S. Thomaz, vestigia Creatoris. Se uma dama de egregia
belleza, passeando á borda do mar, e imprimindo as pégadas na arêa,
n'ella houvesse deixado vestígios d'uma belleza tão admiravel que os reis
da terra levantassem exercitas e déssem batalhas para se apossarem d'el-
les; que os mais avaros déssem de boa vontade os seus thesoiros para
os comprarem, e que finalmente todos os homens deixassem qualquer
outra occupação para não terem senão a paixão unica • de poderem só-
mente contemplai-os, fazeHdo n'isso consistir a sua maior felicidade, que
juizo farieis da formosura d'essa dama, vendo que só os vestígios dos
seus pés tinham tantos encantos que transtornavam todo o mundo? Não
1
(1) Psal., LXXXVIII.
(2) Psal. XLV.
(3) A descripçào do Ceo que se acaba de lêr é a analyse d'uma obra do pio e
sabio Cardeal Bellarmino.

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DE PERSEVEliANÇA. 399

diríeis : Deve ser um prodigio, um milagre de belleza, que vae muito


álem de tudo quanto possa occorrer á imaginação dos homens?
O' Deus de amor! que pois cumpre que nós pensemos da vossa
ineffavel belleza, visto que todos os homens trabalham incançavelmente,
se combatem e matam uns aos oµtros, sendo encantados pelos vestigios ·,
dos vossos pés? Porque fazem mutua guerra os imperadores e reis, se
não é pela posse da grandeza e da gloria humana ? Ah t e que são as
grandezas, os reinos e todas as riquezas dos príncipes d'este mundo,
senão os vestígios dos vossos pés impressos na terra : vestigia Creatoris '!
Porque correm tantos avaros por mar e por terra buscando ouro e pedras
preciosas, senão porque estão apaixonadamente enamorados da belleza
d'estas coisas? Ah ! e que são ellas, senão os vestígios dos vossos pés
/ impressos n'uma materia corruptivel: vestigia Creatoris '! Porque leem
os mais sabias philosophos e os mais bellos talentos achado sempre tantos
encantos em estudar os segredos da natureza, senão porque n'elles encon-
tram bellezas que os arrebatam ? Mas que são todas essas bellezas, senão
alguns vestígios dos vossos pés impressos nas creaturas : vestigia Crea-
toris?
Se pois só as impressões dos vossos pés, marcadas como na arêa,
teem uma belleza que alenta todos os animos, um brilho que excita todas
as paixões, encantos que prendem todos os espíritos, e attractivos que
captivam todos os corações e transtornam todo o mm~do, quem póde con-
ceber o que é vêr a vossa face, ó fonte inesgotavel de bellezas (t)?
'..Pois bem f o ceo é a satisfação plena, inteira, eterna d'este desejo
insaciavel de vêr o que é bello ; lá havemos de vêr a Belleza, fonte de
todas as bellezas. Vêl-a-emos sem meio, não n'um espelho, mas face a

face e sem véo. Vêl-a-emos em si mesma, e no segredo de todos os
acontecimentos. Saberemos porque creou Deus o mundo; conheceremos
o mysterio de todas essas revoluções do globo que espantam a sciencia
desafiando-a ; v_erêmos porque permittiu o Senhor a queda do primeiro
Anjo, bem como a do primeiro homem, e porque deu um Salvador ao
homem e não ao Anjo.
Saberemos ·porque, entre tantas nações, escolheu para seu povo
querido os descendentes d' Abrabão, posto que previsse que seriam homens
intractaveis que perseguiriam seu Filho, a ponto de o fazerem morrer

(1) Valde mirabilis es, Domine; facies tua plena gratiarum. Padre d'Ar·
genta.n, GrandezfJ.8 de Deus.
20

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3to CATECISMO

qual airninoso na cruz; executando d'est'arle, a pezar seu, o plano que


Elle tinha de salvar todas as nações da terra.
Finalmente, saberemos em particular porque, em todo o tempo,
permittiu que infinidade de pessoas de bem soffressem perseguição no
mundo, e vêr-se-á que todo o seu intento era fazer-lhes merecer pela
paciencia ·a gloria qne lhes preparava. E lodos o bemdiremos eterna-
mente, quando virmos as nossas cruzes convertidas em corôas; e dire-
mos com o Propheta : Quanto os nossos soffrimentos /'orarn grandes, Se-
nlwr, tanto enchestes as nossas almas de consolaçüo e alegria (i). Que
pensaes d'isto, homens da sciencia, será' o ceo fastidioso? e se .vós vos
fatigaes pelo menos, d'onde vem que não faÇaes nada pelo mais?
Que é o que o homem deseja para o coração? Amar e ser amado.
E quem dirá o que faz para contentar esta impetuosa necessidade do seu
ser? Nada lhe é custoso para ser amado: vigilias, sacrificios, trabalhos,
perigos, privações, a mesma vida, tudo lbe parece suave, com tanto que .
seja amado . . Offerece o seu amor a tudo quanto se apresenta, ao ouro,
á prata, ás honras, aos seus similbantes, aos mesmos animaes. E' feliz
quando te em por bem acceital- o e dar-lhe coração por coração. Pois
bem l o ceo é o complemento, a satisfação plena, inteira, eterna d'este
desejo. Lá amaremos a Belleza, o Bem infinito, oceano de toda a belle-
za, fonte eterna de todo o bem, e n'elle todas as bellezas e todos os bens
creados.
E depois o que constitue principalmente o encanto da amizade é
essa secreta sympathia, essa ligação das almas, portentosa magia que-pro-
duz entre certos corações um attracti rn tam potente que parecem force•
jar por se desprenderem do proprio peito, e se irem juntar um ao ou-
tro. Mas que é isto em· comparação da sympatbia que liga Deus com a
alma e uma alma com o seu Deus? E' tam grande do lado de Deus, que
o desejo de se juntar a ella é que o attrahiu do ceo á terra. E' tam forte
do lado da alma, que lbe é impossivel ser contente ou feliz se não está
unida com Deus.
No ceo, será tam potente e deliciosa esta sympatbia, que chegará
por assim dizer a transformar-nos em Deus ; de fórma que seremos, se-
gundo a expressão do .apostolo S. João, consumidos n'elle, si-rnilhantes a
elle (2). Consumidos. em Deus, similbantes a Deus, concebeis similhante

(1) Béllarmino, Felicidade dos Santos.


(2) Joan., XVII, 23.

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D~ PERSEVERANÇA. 3H
felicidade"? Que pensaes d'isto, bomens que ardeis em amor, será o cee
fastidioso? e~ se vós vos fatigaes pelo menos, d'onde vem que não fazeis
nada pelo mais ?
Indagae ainda quaes são os -outros desejos do homem. A gloria, o
poder; ah l sim, a gloria e o poder. Para chegar á gloria, lhe iervem
todos os caminhos, por mais difficeis que sejam. Perguntae ao sabio que
se consome em penosos labores, ao soldado que vae derramar o seu san-
gae no campo de batalha, ao ambicioso que véla noite e dia para apro-
veitar a occasião da fortuna : Que procuraes? Responder-vos-ão todos :
A gloria, a gloria ! sem ella a vida não nos serve de nada. Pois bem!
que gloria no ceo l Ser conhecido, estimado, amado pelo proprio Deus,
pelos Anjos e pelos Santos (t ). Na cabeça das virgens, dos confessores,
dos martyres, dos apostolos, dos santos de todos os estados, vejo brilhar
auréola immortal, differente segundo os graus de merecimento e a dis-
tincção das virtudes (2). Corôa que não será para ninguem motivo d'in-
veja; corôa que será justamente merecida e que fará a felicidade e a glo-
ria d'aquelles cuja fronte ornar.
E o poder. E' impossivel dizer com que ardor, especialmente n'este
seculo, o deseja o homem. Interrogae as ruinas, os rios de sangue, os
transtornos de que somos victimas, e d'ellas sabirá uma voz para dizer-
vos : Eis ahi o que o bomem faz para chegar ao poder. E de feito, de
todas as paixões, é sem contradicção a mais forte a de reinar, pois a rea-
leza é um bem que encerra todos os outros bens de que se tem mais
avidez n'este mundo.
Além do poder, da honra, das riquezas, das doçuras e dos prazeres
que d'ella são inseparaveis, acha-se n'ella uma liberdade de fazer tudo,
uma inteira independencia que a põe acima das leis, e que é sabido ser
de todas as coisas do m·ando a que a natureza mais ama. JunLae a isto
as preeminencias e a dignidade que distinguem de tal fórma os reis, do
commum dos homens, que não teem eguaes, que tudo se curva ante
elles, e que os respeitam como diyindades na terra.
D'ahi vem que, quando el les querem mostrar o excesso da sua affei-
ção e liberalidade, creiam não poderem offerecer e dar coisa maior que
a metade do sen reino. Assim Assuero dizia a Esther: Que desejas? e
que pedes de mim? ainda que me pedisses a metade do meu reino, eu o

(1) Clara cum laudm notitia.


(2) D. Thotoas, p. II, q. XCVI.
*
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CATECISMO
\

partiria comtigo (t ). Herode~, com o mesmo sentimento, dizia á filha


de Herodiades: Pede-me tud<J quanto te aprouver, e eu t'o darei, ainda
que seja a metade do meu reino (2).
D'abi vem lambem que não ha esforço que se não faça, crime que
se não commetta, coisa alguma tam santa que se não viole, quando se
traeta de conquistar um reino, ou de ampliar os limites d'elle. A histo-
ria está cheia de exemplos :que mostram a que extremos e excessos chega
a paixão de dominar. E' sabido que Julio Cesar tinha frequentemente na
bôcea aquelle verso d'Euripides: Se alguma vez se póde perjurar, é mis·
ter: que seja para reinar. Em tudo o mais, portae-vos como homem de
bem. Agrippina, mãe de Nero, tendo consultado os astrologos a respeito
do destino de seu filho, recebeu esta resposta: Vosso filho será impera-
dor, mas fará morrer sua mãe. Não importa, exclamou ella com trans-
porte, consinto que me tire a vida, com tanto que reine.
Por estes factos e por mil outros se póde vêr que entre todos os
bens :d'este mundo não ba nenhum que tanto se estime e que se deseje
com tanto ardor como a soberania. Comtudo a razão e a fé nos ensinam
qtie os reis- da terra não podem reinar muito tempo, que os reinos d' este
mundo acabarão breve, e que só o do ceo é que subsistirá eternamente
(3).
O ceo é pois a satisfação completa e eterna d'este desejo de _reinar
que atormenta o coração do homem. Associados ao monarcba dos mun-
dos e dos seculos, serão os Santos reis em toda a extensão da palavra.
O que o Omnipotente póde por si mesmo, elles o poderão por elle ; rei-
narão sobre os seus inimigos para sempre vencidos, o demonio e seus
anjos, os maus e suas proprias paixões, finalmente sobr.e tudo o que exis·
tir. Dominação, independencia, honras, riquezas, prazeres, sceptro, co-
rôa, tudo quanto é apanagio da realeza será apanagio d'elles, e isso sem
contestação, sem temor e sem limites.
' ·: Ninguem, de resto, imagine que as riquezas e a gloria do paraiso di-
minuam de modo algum ·porqoe d'ellas participem tantos milhões de
bemaventurados. Esse reino ·não se parece com os da terra,.que diminuem
ã·iproporção que se dividem:,::·e· nos quaes não ha senão um que manda.
-O dos ceos tem a vantagem de que é todo de todos os justos que o pos-
suem, e todo de cada um d'elles, sem se partir: similhante .á luz do sol
(1) Esth., V, 3.
(2) Mal'cos, VI, 23.
(3) Dan., II, 44:; Lucas, I, 33.

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DE PERSEVERANÇA. 3t3
que brilha aos olhos de todos e que allumia tanto cada homem em par-
ticular como todos os homens juntos.
No ceo, serão pois satisfeitos todos os desejos do homem, .mas d'um
modo que excede tudo quanto podemos imaginar (t ).
O' homens, ó meus irmãos, seres d'um dia e nobres candidatos d~
eternidade! sêde pois mais ambiciosos do que sois: erguei os olhos para
o ceo,, e depois dizei, olhando a terra1:e as suas honras, e as suas ri-
quezas, e os seus prazeres: Eu sou maior que todas as coisas e nasci ·para
maiores bens: Mojores his sum, et ad majora natus. Sêdes consequen-
tes com esta nobre ambição, e o ceo é vosso.
Surdos, cegos, estupidos, loucos, se,. por bens não só vis e.abjectos,
senão pouco duradoiros, nós deixamos outros·que são d'um valor infini-.
to, e que duram eternamente ; se pela sombra continuamos a sacrificar :a
realidade, consumindo-nos a buscar o ceo onde elle não está, e recusando
buscai-o onde está! Curae, eu vol-o rogo, pela vossa misericordia, ó meu
Deus! curae _a nossa surdez; abri-nos os olhos do espírito, dae-nos intelligen.
eia e corrigi os nossos erros. De que nos serve a luz da razão, que nos dis-
tingue dos brutos, e que proveito tiramos do luz do vosso rosto, que es-

(1) Ibi erunt hona. corporis et animre, qualia. nec oculus vidit, nec auris au-
divit, nec cor hominis cogitavit. Cur ergo per multa vagaris, homuncio, qurerendo
hona animre tum et corporis tui? Ama. unum bonum in quo sunt omnia. bons, et
sufficit. Quid enim amas, caro mea? Quid desideras, anima me& ? Ibi est quidquid
am&tis, quidquid desideratis. Si delectat pulchritudo, fulgebunt justi sicut sol. Si
velocitas, aut fortitudo, aut libertas corporis cui nihil obsistere possit, erunt símiles
Angelis Dei; quia seminatnr corpus animale, et surget corpus spiritale, poteatate
utique non natura. Si lunga. et salubris vita, ibi sana est reternitas, et rete~na sa-
nitas; quia justi in perpetuam vivent, et salns justorum a Domino. Si satietas, sa-
tiabuntur cum apparuerit gloria Dei. 8i ebrietae, inebriabuntur ab ubertate domus
Dei. Si melodia, ibi Angelorum chori concinunt sine fine Deo. Si qurelibet non im-
munda, sed munda. voluptas, torrente voluptatis sure potabit eos Deus. Si sapientia,
ipsa Dei sapientia ostendet eis seipsam. Si amicitia, diligent Deum plus quam seip-
sos, et invicem taoquam seipsos, et Deus illos p,las quam seipsos; quis illi illum'
et se, et invicem per illum, et ille se et illos per seipsum. Si concordia, omnibus n-
lis erit una. voluntas: quia noita illis erit nisi sola Dei voluntas. Si potestas, omni-
potentes erunt sure voluntatis, nt Deus sure. Nam sicut poterit Deus quod volet per
seipsam, ita poteruut illi quod volent per illum; quia sicut illi non aliud volent quam
quod ille, ita ille volet quidquid illi volent, et qaod ille volet non poterit non esse.
Si honor et divithe, Deus sttrvos suos bonos et fideles supra multa constítuet, imo
Filii Dei et Dei vocabantur; et ubi erit Filias, ibi erunt et illi, hreredes quidem Dei,
cohreredes autem Christi. Si vera securitas certa, ita certi erunt nunquam et nul-
latenus ista, vel potius istud bonnm si defuturum, sicut certi erunt se non sua sponte
illud amissuros, nec dilectorem Deum illud dilectoribus suis invitis ablaturum, nec
aliquid Deo potentius invitos Deum et illos se paraturum. Gauditun vero quale, a ut
quantum est, ubi tale aut tantum bonum est ! Cor humanum, cor indígena, cor ex-
pertum rerumnas, imo obrutum rernmnis, quantum gauderes, si bis omnibus abun-
dares! S. Anselm.,._in Prosolo,q.; e. XXV; Id., Cor. a Lapid., in Àpoc., e. XXII.

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3U CATECISMO

impressa em nós, se estamos ainda cegos a tal ponto no negocio mais


momentoso do mundo ?
E' pois certo, o que quizemos mostrar nos dez volumes d'esta obra,
que a Religi.ão, que subministra ao homem toda a felicidade que dis-
fructà na terra, o conduz lambem a uma felicidade infinita, sem mescla
nem fim.
E' pois certo que, para tornar feliz o homem por toda a eternidade,
não lhe pede a Religião senão licença para o tornar feliz na terra.
E' pois certo que Deus é um pae que creou o homem pontffice e rei
do universo, que o encheu de gloria e felicidade; e que, depois de haver
sido indignamente ultrajado por esta creatura favorita, não cessou um
só instante, apezar de tanta ingratidão, de trabalhar desde o principio do
mundo para reparar o mal que este filho criminoso fez a si proprio se-
parando-se de seu Pae, de alentai-o, de mover Ceo e terra para lhe mi-
nistrar os meios de recobrar a perdida felicidade, · e que um dia lh'a
restituirá centuplicada, plena, inteira, perfeita e eterna. Oxalá todos a
gozemos !

Agora que está terminada .a nossa tarefa, resta-nos um dever mui


grato de cumprir, o dever de filbo respeitoso para com a melhor das
mães. Aqui nos gloriamos de seguir nobres exemplos.
Eram sete de março do anno do Senhor mil duzentos setenta e
quatro. N'uma cellasinha do mosteiro de Fossa Nuova, celebre abbadia
da ordem de Cister, na diocese de Terracina, jazia moribundo, n'um po-
bre catre, um viajante cbegado havia algumas semanas. Este viajante era
o luminar do seu seculo, o principe dos sabios, o anjo da eschola : cha-
mava-se Thomaz d' Aquino. Ao som funebre do sino, todos os habitado-
res do mosteiro haviam corrido á egreja: iam-se levar os ultimas sacra-
mentos ao Doutor angelico,
Quando viu a. sagrada Hostia nas mãos do Sacerdote, o illustre mo-
ribundo ergueu a voz desfallecida, e, antes de receber ·o Deus de toda a
e
verdade, quiz protestar o seu inviolavel affecto a sua filial obediencia á
Egreja catholica, columna e fundamento da verdade na terra. «Creio fir-
memente, disse, que Jesus Christo, Deus e homem verdadeiro, está n'este
augusto Sacramento. Adoro-vos, ó meu Deus e Salvador! recebo-vos, ó
vós que sois o preço da minha redempção e o viatico da minha peregri-
nação! O' vós, por cujo amor estudei, trabalhei, préguei e ensinei: espere

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DE PERSEVERANÇA. 3H>

nada ter apresentado contrario á vossa divina palavra, ou se isso me


succedeu por ignorancia, publicamente me retracto e submetto todos os
meus escriptos ao juizo da santa Egreja romana.»
A nós tambem é grato, é glorioso o imitar este grande homem na
sua submissão filial á Egreja. O dever que elle desempenha, com quanto
maior razão devemos nós cumpril-o, nós a quem a consciencia da nossa
fra4ueza dá tantos motivos de temermos que haja escapado á nossa
penna algum d'esses erros involnntarios, triste apanagio da humanidade 1
De todo ·o nosso coração, pois, submettemos ao j uizo ela santa Egrej a
romana, nossa mãe, este catecismo e as outras nossas obras (t ). Filho
e ministro d'esta infallivel Esposa do Homem-Deus, temos por felicidade
e gloria o dizel-o: a nossa fê será sempre a sua; crêmos tudo o que
ella crê, esperamos tudo ó que espera, amamos tudo o que ama; con-
demnando tudo o que condemna, censurando tudo o que censura, e
approvando tudo o que approva. Assim o queremos, e, com ajuda de
Deus, assim o quereremos até ao derradeiro suspiro, convencido de que
ninguem póde ter a Deus por pae se não tem a Egr~ja por Mãe (2).

(1) 1. ª Do Catlwlicisrno na educaçtw ; 2. ª Manual dos Confessores, 2 vol. ; 3. ª


Relogio da Paixão; 4." Selva, 2 vol. ; 6. ª .Z11aria, Estrella do ma>'; 6. ª Itinerario
da terra ao Ceo, 2 vol. ; 7. ª .í)pproxima-se o grande dia, oq Cartas sobre a primeira
Commmthão ; 8. ª O Senhor é meu quinhão, Cartas sobre a perseverança depois da
primeira Communl1ão ; 9. ª Sociedade domestica entre todos os povos antigos e moder-
nos, ou Inffoencia do Chrislianismo na familia; 10.ª as Tres Ramas, 4 vol.; lV a
Eiwopa em 1848, ou Consideraçties ;;obre o Ch1istianismo, o Communismo e Socialismo;
12.ª o Verme roedor das sociedades modernas; 13.• Carta ao Senhor Bispo d'Orleans;
14. ª a Questão dos classicos reduzida á sua mais simples expressão; 15. • o Catholicismo
ou a Barbarie; 16." Classicos christãos, 30 vol. ; 17. ª a Revolnção, Invest~qações
historicas sobre a 01 igem e propagação do mal na Europa, l 2 vol.; 18. ª Betlielem ou
a Esclwla do Menino Jesus.
(2) Habere ja.m non potest. Deum patrem, qui Ecclesiam non habit matrem.
S . Cypr. , De miit. Eccl.

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INDICE
DAS

MATERIAS CONTIDAS NO DECIMO VOLUME.

TRIGESIMA·PRIMEIRA LIÇÃO.

8 ebrl11tlanl1111mo tornado •en•lvel.

Tres royste1·ios. - Sabedoria da lei da Purificação. - Humildade e obedien-


cia de Maria. - Exemplo para as mães christãe. - Ceremoniae após'
o parto. - Apresentação. - Humildade e dedicação do menino Jesus.
- Sacrificio de Maria. - Encontro do santo velho Simeão. - Suas pre-
dicções. - Seu cantico de morte. - Origem da festa da Purificação. -
Sabedoria da Egreja. - Disposições para a festa. 5

TRIGESIMA·SEGUNDA LIÇÃO.
O ebri&tlanh1mo tornado •ensivel.

1'1yeterios da santa infancia. - Sabedoria da Egreja. - Mysterios da vida


publica de Nosso Senhor. -Obrigação de imitar a Jesus penitente. -
Resposta ás objecções do mundo. - Necessidade geral da lei da absti-
nencia. - Preparação para a Quaresma. - Septuagesima, Sexagesima,
Quinquagesima. -Orações das quarentas horas.-Quarta-feira de Cinza.
- Penitencia publica. - Quatro ordens de penitentes. 16
..,
TRIGESIMA-TERCEIRA LIÇÃO.
o ebri•tianismo tornado 11enslve1.

Vantagem social da quaresma. - Vantagem particular para o corpo e para a


alm3.. - Harmonia com a estação da primavera.. - Instituição da Qua-
resma. - Submissão de nossos paes a esta grande lei. - Sabedoria da

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3t8 INDICE

Egreja na variedade dos alimentos, na edade prescripta, e no que prohibe


durante a Quaresma. -Effeifus do jejum. - Liturgia da Quaresma.-
Primeira dominga.. - Dispensas, brandões. Segunda dom.ioga. -
Terceira dominga..-Quarta dominga . 30

TRIGESIMA-QUARTA LIÇAO.

O cbrlstiani11mo tornado sensiveJ.

Domingo e semana da Paixão. -Festa da. Compaixão. - Semana Santa. -


Seus differentes nomes. - Piedade de nossos paes. 46

TRIGESIMA-QUINTA LIÇÃO.

O chrl111tianhmo 1ornado 111en11tvel.

Domingo de Ramos. --Seus differentes nomes. -Procissão. -Origem do canto


Gloria, laus, etc. - Missa, Paixão. - Quarta-feira Santa.. - Officio das
Trevas. - Quinta-foira Santa. - Espirito e divisão do officio. -Absol-
vição dos penitentes. - Missa, benção dos santos oleos. - Tumulo. -
-·Despojo dos altares. -Lava-pés. 55

TRIGESIMA-SEXTA LIÇÃO.

o ch1•is1ianlsmo tornado •ensi'7el.

Sexta-feira Santa. - Objecto do officio d'este dia. - Sexta-feira Sant~ em Je-


rusalem. - Divisão do officio. - Duas lições da Escriptura e Paixão.-
Hetrato de Nosso Senhor (nota). ~Orações solemnes ou sacerdotaes. -
Adoração da Cruz. - Util exercicio para a tarde. - Sete palavras do
Salvador. , . 67

TRIG ESIMA-SEPTIMA LIÇÃO.

o chrililtianismo torna1lo sensi vel.

Sabbado 'S;nto. - Objecto do officio.-Sua cxcellencia.-Divisão do officio.-


Bençã.o do Fogo novo. -Benção do Cirio pascbal. -Lições.-Benção das
pias baptismaes.-Missa.- Yesperas. 78

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1
DAS MATERIAS CONTIDAS N ESTE VOLUME. 3HJ

TRIGESIMA-OITA VA LIÇÃO.

O ebrl•tiani•mo tornado 11en•tve1.

Paschoa. - Objecto d'esta solem.nidade . - Sabedoria da Egreja. na epocha


d'esta festa. -Sua excellencia.- Sua harmonia com a estação.-Divi-
sào do officio. -Procissão antes da :Missa.~Missa.-Vesperas . -Pro-
cissão.-Semana de Paschoa . 88

TRIGESIMA-NONA LIÇÃO.

O chrltttlani•mo tornado sensiwel.

Annunciação da SS. Virgem. -Excellencia d'esta fests.-Seu objecto.-In-


fluenCia d'esta festa.-Su" origem.-Sendmentos que deve inspirar-nos.
-Ave, Maria.-Devoçã.o a Maria.-Uma suttea em Benarés 97

QUADRAGESIMA LIÇÃO.

o chrlli1ttani•mo tornado sen•IYel.

Práticas de devoção para com Maria. -Sabedoria da Egreja. -Mez de Maria.


-Confraria do Escapulario.-Rosario 111

QUADRAGESIMA-PRIMEIRA LIÇÃO.

o ebrl•tianlt!lmo tornado •entdvel.

Rogações. - Procissão.-Feixe da Paixão.-Sabedoria da Egreja.-Leis da


natureza subjeitas á influencia da oração.- Historia das Rogações. -O
que é necessario fazer para as santificnr. -Procissão de S. Marcos 127

QUADRAGESIMA-SEGUNDA LIÇÃO.

O "hrl11tiant•mo tornado· !llenwtwel.

Ascensão. --Objecto d'esta. festa. -Necessidade da. Ascensão do Salvador . .....:...


Sua historia.-Vestigios dos pés do Salvaclor.-Motivos d'alegria no dia
da Ascensão.-0 que se deve fazer ~1ara celebrftr esta festa.-Sua ba1·-
monia com a estação 137

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320 INDICE.

QUADRAGESIMA-TERCEIRA LIÇÃO.

o cbrl•1lan11nno &ornado •en•lvel.

Pentecostes. -Vigilia do Pentecostes. -Grandeza da festa do Pentecostes. -


Sua hil!ltoria, e differença da Lei antiga e da Lei nova.-Effeitos do Es-
pirito Santo nos Apostolos: duplo milagre.-Effeito que produz em nós.
-O que devemos fazer para nos tornarmos dignos d'elle 147

QUADRAGESIMA-QUARTA LIÇÃO.

o ehrt1111ant11mo tornado 11el111tve1.

Trindade.-Antiguidade e universalidade d'esta festa.-Rehabilita~ão de to-


das as coisas em nome da SS. Trindade.-Objecto final do 1 culto catho-
Iico. - Instituição da festa particular da Trindade. - Dogma da SS.
Trindade, suas imagens sensiveis.-Influencia d'este mysterio.-Modêlo
dos nossos deveres para com Deus, para com o proximo, e para com nós
mesmos . 159

QUADRAGESIMA-QUINTA LIÇÃO.

o cbri11tiant11mo 1ornado 11en11twe1.

Corpo de Deus.-Antiguidade, tmiversalidade d'esta festa. - Logar que oc-


cupa no culto catholico.-Instituição da festo. particular do SS. Sacra-
mento. --B. Juliaoa.-1\füagre de Bolsena.-Objecto d'esta festa.-Of-
ficio d' este dia. - Procissão. - Disposições com que se deve assistir a
ella.-Milagre de Favemey · 168

QUADRAGESIMA-SEXTA LIÇÃO.

o claristtani•mo tornado sen11tve1.

Festa do Sagrado Coração.-Objecto, motivo. -Differença entre a devoção no


Ssgrado 'Coração e a devoção no 88. Sacramento.- Historia da festa do
Sagrado Coração. - Sua harmonia com as necessidades da Egreja e da
sociedade. - Confraria do Sagrado Coração . 180
t

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DAS MATiftJAS CONTIDAS N'ESTE VOLUME. 321

QUADRAGESIMA-SETIMA LIÇÃO.

o cb1.•j1Jtlani•mo tornado 11en11ive1.

Visitação.- Sabedoria da Egreja na celebração das festas da SS. Vfrgem.-


Providencia de Deus que tira o bem do mal. - Origem da festa da Visi-
tação. - Lições que nos dá a SS. Virgem. - Assumpçào. - Origem
d'esta festa.-Tradição,...:_Triumpho de Maria.- Sua bondade, seu po-
der no ceo.- Dicto do B. Berchmans.-Historia de 5. Estanislau Kot-
~a ~2

QUADRAGESIMA-OITAVA LIÇÃO.

o ehri8tianh1mo tornado 11ensh·e1.

Natividade da SS. Virgem. - Odgem d'esta festa. - Confiança que inspira


Maria no berço. - Palavrns de S. Ambrosio. - Memorare, facto histo-
rico. - Festa do santo nome de Maria.- Apresentação, objecto d'esta
festa.- Retrato da SS. Virgem.-Sua vida no templo.-Origem d'est&
festa. - Maria, virgem, esposa, mãe, viuva, typo da mulher christã. -
Influencia do culto da SS. Virgem. - Batalha de Lepantó . 205

QUADRAGESIMA-NONA LIÇÃO.

O cbrl•tiaui11mo 'to1.•nado Nen•iwel.

Festas da cruz. - ~ue é uma cruz? - Festa da Invenção da santa Cruz. -


Sua historia. - Festa da Exaltação. - Sua historia. - Vantagens do
culto da cruz.- Caminho da cruz • 220

QUINQUAGESIMA LIÇÃO.
O dlri•tianismo to1.•nado •en•i".e l.

Festas de S. Miguel.- Sua origem.- Culto que tributamos aos Anjos.-Es-


pirito d'este culb.- Festa dos Anjos da guarda.- Reflexões ácerca do
Anjo da guarda.- Origem da festa dos Anjos da guarda.- Nossos de-
veres para com oAnjo da guarda 232

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322 ' INDICE

QUINQUAGESlMA-PRIMEffiA. LIÇÃO.
o cbritltiauiamo tornada aen1dvel.

Todos os Santos.- Sabedoria da Egreja pa divisão do seu anno.-Officio de


Todos os Santos. - Origem d'esta festa. _:_Razões do seu estabeleci·
rneuto.- Sentimentos que deve inspirar.;nos.-Historia da beatificação
e c_anonisação dos Santos. - Processos e ceremonias . .. 240

QUINQUAGESIMA-SEGUNDA LiÇÃO.
o cb1•i•tiani•m~ to1•nado sensivel .

Dia dos Fieis defunctos.- Suas harmonias, sua origem,' seus fundamentos na
tradição . - Seu estabelecimento.- Ternura da Egreja.-Quei:xas dos
E'inauos . - Exequias ~hristãs . 260

QUINQUAGESIM,A-TERCEIRA LIÇÃO.
o cbrlst.iant11mo tornado 11en•ivel.

Dedicação.-Significaç~o, razão. -Divisão das ceremonias antes· da abertura


.
da Egreja; - Depois. - Razões que nos incitam a ir á egreja
. . 269

RESUMO GERAL.
A. Religião no tempo e na et.ernidale.

Resumo geral. - A Religião, fonte unica da felicidade no temp<•·- Qual é a


Religião que torna feliz o homem ? - A Religião, fonte mica da felici ·
dade na eternidade.- O que é o ceo.- Protesto do auctlr . , . 282

FIM DO INDICE DO DECIMO E ULTIMO 'tOLUME.

PORTO: 1868 - TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA


'. - J"a1·go do Correio - 6.

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