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CATEGISMO

VIII,

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CATECISMO

PffiRSHWffiRAIEW,GA
ouo
Nnostç[o il§T0ilcÁ' D0GilÂIICt, iloflAL! LIIURGICÁ,, Âpot0G[IlcA, pillosopHcÁ 0 sofltAt

DA BELIGIÂo,
oEsDE Â oBtGEIn tto ttultuo arÉ uossos tltls

9,'lo &oàou
vlcÀ]tro
I Çnu*r,
üEBAI, D.r rDlocB§E rlB ltnyBRü, oavttLErrto rD.r oBtEü DB s. ãrI,VasI.I]B,
IIEIIBBO Ir^ ÂCirIDalIt^ ID^ rrrcr,relãO CArIEOLIOA DB BOn..A, ErC.

Tru,ütr.tlüo ilu, 6." cü,\r,úo ü,c, Puris


PELO

F"" t{o §. EARBOZA "


. Jcsir.s ú%r'i.stir.s Iuri, harlit, í;tse
et saetula. Hctrr. Illl. ti.
iD,
Jesus Christo cra horrtonr, c-i
Ioje : o nlesrro l,irrnbelr sorí llor
todos os sccrrlos.
Deus Charitas esú. l. Joarr IV. ti.
TOMO VIII. Dcus t! a crridadc.

PORTO:
NÀ 'IYP. DE TIANOI'L JOSÉ PI,REIRA,
Rua de Santa fhcreza,4 e 6.

l86ti.,

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CÂTECISMO

PffiBffiffiWEffi q&"
(xrrr. sECuL0.)
gDIIo" D[qÃo.

() CIIRISTIÀNI§MO CON§IRYÂDO D PR()PÀGÀD().

 ígreJa dofenrlider; carmeritas, E'ranciscorl1rs, nolr;nieanos,


Agoslinlros I S. lTlromaz.

0s primeiros combatentes, que durante o tlecimo terceiro seculo, op-


pÔz Deus aos numerosos sectariíls, que atacavam a lgreja, foram os Car-
melitas. Estes religiosos foram na sua origem eremitas, que viviam ho
trIonte Carmelo, na Palestina, e tiveram por fundador e modêlo, o profeta
Elias; porque este, bem c0m0 Eliseu, seu discipulo, habitaram no mesrno
monte. 0 superior d'aquelles eremitas dirigiu-seem {209 ao bemaventu-
rado Alberto, Patriarcha de Jerusalem, pedindo-lhe uma regra. O Santo,
pois, compÔz para esta ordem uns estatutos cheios de sabetloria, nos
quaes se ordenava aOs frades que Orassem noute e dia, em suas cellas,
men0s que não fossem dispensadOs por legitimas occupações; que dtstle
a Exaltação da santa cruz ate á Paschoa, jejuassem todos os clias, exce-
pto nos Domingos; que nunca jámais comessem caroe ; quc se applicas-
sern ao trabalho mattual, e guardassem silencio desde yesperas até terha,
do dia seguinte.

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(i CA.InCISTIO

As conquistas dos Sarracenos obrigaram os Carmelitas, n0 começo do


seculo decimo terceiro, a sahir da Palestina, passando á Europa. Era c0m0
uma legião de provados soldados, que nosso Senhor enviava em S0c-
c0rr0 da Igreja, sua esposa. Esta ordem tomou rapido incremento, e pres-
tou relevantes serviços; procluzindo multidão de grandes homens, que hon-
raram a Religião por sua sabedoria. 0 beato Àlberto, seu legislaclor, mor-
relr em l,2l!1, ás mãos d'ummalvado, cujos crimes reprehendêra ('l).
Ao mesmo tempo que 0s Carmelitas chegavam do 0riente em defe-
sa da lgreja, suscitou Deus no Occidente o quarto Patriarcha da 0rdem
monastica, Fi'ancisco d'Assis. Sob 0 commando d'este chefe, marcha um
exercito de Santos que, por suas pregações, oppoem a verdade a0 erro;
o exemplo da pobresa, da rnortiÍicaçã0, da humildade, a0 amor desordena-
do das riquezas, dos prazeres e das honras ; n'urna palavra, virtudes ver-
dadeiras ás apparentes virludes dos soctalios, e aos escandalos dos maus
Christãos.
S. Francisco, fundador da Ordem dos Franoiscanos, nasceu ern Assis,
cidade da Italia, em {t82. A compaixão com os pobres parecia ter nas-
cido com elle, e muitas vezes se privou cle seus vestidos, para cobrir-lhes
e nudez. Um dia, es[ando na Igreja, ouviu lêr estas palavras do Evange-
lho; «não tomeis para a jornada 0ur0, prata ou outras provisões, não le-
«veis çapatos nem bordão, rrem mais que um vestido» (2), o novo Antão
as tomou litteralmente, e, appllcando-as a si, deu aos pobres o dinheiro
que tinha, descalçou-se, largou o bordã0, e vestiu um borel, cingido pela
cintura com uma corda. Tal foi o habito que deu a seus discipulos ; por-
que seus exernplos e discursos, fazendo debulhar em lagrimas 0s pecca-
dores mais endurecidos, commoyeram por tal modo a alguns habitantes
da cidade d'Assis, que buscaram submetter-se á sua direcção. Pam os
formar n0 mar e na prática da pobreza, levou-os urn dia comsigo pela ci-
dade d'Àssis, a pedir esmola de porta em porta; parecendo querer logo
que entendessem, que 0 seu patrimonio seriam 0s donativos da caridade.
Tendo successivamente adestrado os selrs discipulos em todos 0s exer-

(l) Helyot,t. 1, pag.301.


í2) Lrtr'. IX. 3.

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I
DE PERSIIYERAIiÇA.

sobre O reino de
cicios tla rida espiritual, fez-lhes frequentes rliscur'qos,
mortifrcaÇões do cor-
Deus, desprêzo rio mundo, abnegaçaô Oa vontarle, e
que tinlta' de
p0, â Íim de melhor os dispÔr putu a execução do designio
exhortações do Santo
os enviar por tocla a tert'a a prégar o Evalgel[o' As
rlivino, e sustentadas pelo ardento
Patriarcha, animadas do fogo do amor
zêlo tla salvação das almas, fizeram
que elle esperára. Fillando-lltes um
les, movitlos de santa inspiração, se
caram que não ilifferisse por mais t
nlas não era ainda chegado o momen
Bntretanto tleu Francisco á sua peqt
Yezes o Padre
Ihes orclenou que a cacla hora cle oÍlicio recitassem tres
verdadeiro assom-
À'osso. Em pouco tempO confeccionou SeuS estal'ut'os,
louvados pelos Sum-
lrro de sabedoria, qut foram approvados e altamenl'e
mos Potttifices. Eis em geral o que continham'
Por humilclade deu o Santo a s
nores. Seu oÍÍicio e Pregar com o'e
virtudes do Ctrristianismo: 0 amor
miliações. Por isso nunca estes relig
clescalços e c6m a cabeça descoberta ; teem
por aposento uma pobre' e
apertatla cella; u*, ,,r*rrga e suà cama; o
seu habito tê um borel que
a só vil'erd'esmtllas''
vestem, sem camisa, sgbre á pelle nua- São obrigados
possuir ahsolutamente' seu mes-
ou do trabalho de suas mãos ; e a nada
os ultimOs dos ho-
m0 ngme lhes aclverte que devem considerar-Se cgmo
de desprêzos' injtt-
mens, e a estar pro*pàt a soffrer tocla a qualidafle
rias e perseguições, que lhes fizerem'
Esta orde*, qr.* tal cliria ? tlesproricla de todos os
meios humanos'
6ilatou-se com prodigiosa
e tliametralmente ópposta a toclas as pairões,
já o instituto mais de dez mil
rapidez. Em rida Oô-S. Franciseo cotúara
cincoenta mil' Eram ou-
religiosos ; e cOm o tempo chegou a ter cento e
a toclos os olhos, das virtudes fun-
tros tantos exemplos virÚs, e patentes
tlamentaes da nótigiao : humilclade, pobreza e castidade' Dão-se differen-
paizes chamam-lhes Fran-
tes nomes aos filhos de s. F'rancisco ; em certos
ciscanos, ou Fracles do cordã0, pgr Causa cla
corda com qlle se oingetn ;

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I (;,tl,te clsitro

ão de sua vida soriüariae apartacla do mundo;


0 nome de Capuchos, por causa da íórma par-
as Ordens rerigiosas, a dos capuchos
tem sicro
sãoirnmensos os se^.iços que estes fracles
fizeram ás po'oações po-
bres, ás cidades e a,s camp,s. Opprobrio a,s
que ,usam proferir inde-
centes injurias contra estes protectores
da pobreza, consoladores dos aÍÍli-
ctos, e amigos do povo !
' Francisco d'Assis, Patriarcha d'estas innumeraveis
tribus de Santos e
santas, e denominado o seraphico; nome
Deus, que o tornava similhante a
clevido á ,*
;;;idràu pr*.r,
ui
seraphim vestido na fórma humana.
Entre muitas extraordinarias graÇas que Nosso
sentror rhe concecreu, a
mais celebre foi a que vamos referir. i,[,u*u
em que Francisco se
entregava aos movimentos da mais terna 'isã,,
compaixã0, pelos soffrimentos do
Homem-Deus, dignou-se este senhor tornal-o
admiravelmente similhante
a Si, imprimindo-lhe n0 0orp0 stigrnas da sua Sagr
os pés de Francisc, foram pero meio traspassadàs
beças redondas e neg'as se acha'am no interior
das
as pon 0ng0s, appareceram outra parte, e

ffi;: -:
encurv
+
que lhe tingia a tunica.
:11*l#;f i.x;ll',H#l[1,1:
-da

Não póde duvidar-se da verdade tl'cstes stigmas,


tlepois clo testemu-
nho do Papa Âlexancrre IV, que, n'*m sermão
s. Boaventura, aÍrirma têl-os eile mesmo visto lregaao'ou prr*çu de
ion, os seus orhos. Este
testemuuho e
soas, que
Sentindo
a*e *H[',ff11T::firTffJhifi:
pediu o humilde servo dc Dóus que
lhe cantassem
ao Senhor em nome de todas as crea
rido sobre os seres que o rodeava
homem innocente exercia em toda a

(1) Hely'ot, r. VIf, p. 24.

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Dlj PBnSl,]\'Iin^NC,\ Í]
elle orava em sua gruta sombria, vinham as a\:es cantar nas arvores vi-
sinhas. 0 concerto d'estas o perturbava, e abençoando-as, lhes dizia : 1le-
vos; e as avesinhas iam doceis cantar n'outra parte, por não perturbar
outro mais bello cantico.
No momento da morte, quiz o santo que o levassem ao convento
de Nossa senhora dos Anjos, e que ahi o deiÍassem em terra, coberto
com um pobre vestido que lhe haviam dádo. N'esto estado 3onvocou os
discipulos, e os exhortou ao amor de Deus, á prática da pobreza e da
paciencia; rleu-lhes sua ultima bençã0, bem como a todos ós ausentes,
e
disse-lhes em Íim: Adeus, meus Íiltros ; permanecei Íirmes na fé. Recitou
depois o Psalmo |&1, e tendo chegado ás palavras : «Livrai a minha
alma
da sna prisã0, para gue possa bemdizer o v0ss0 santo Nome; os justos
estão esperando a recompensa que dareis», adormeceu placidamente
o
s0mn0 dós justos a 4 d'Outuro de 1226, aos quarenta e cinco
annos
d'idade, tendo visto estabelecer, em quasi todos os reinos christãos,
mais
de oitenta casas da sua orclem. Ilorreu Diacono, porque sua humildade
não lhe perrnittia receber o presbyterado ({).
Apenas expirou o Santo, quiz Deus manifestar a santidacle de
seu
ser\Io, para ensinar aOs p0v0s, que a verdadeira vir[ude não estava
com
os hereges, mas sim na antiga e vercladeira Igreja. uma maravilhosa
mu-
dança se observ0u n0 00rp0 do bemaventuraclo Patriarcha: sua pelle,
até
alli negra e queimaca do sol, tornou-se branca como a neve, e os
stigmas
appareceram mais evidentes do que nunca. Elles foram então
livremente
exarninados, e Íoda a cidatle cl'Assis correu a vêr os salutares signaos
da
nossa Redempção, com que Jesu-christo favorecêra 0 seu servo.
No dia
seguinte, innumeravelrnultidão de p0\,0, com ramos ou velas accêsas,
acgm-
panhou o corpo do santo ate á Igreja de s. Jorge, onde foi sepulíaclo;
e
o seu tumulo não tardou que sc tornasse celebre por grande numero
de
milagres (2). Deixemos agcra a Italia, para entrarmos em tr'rança,
a con-

(1) Yeja-se a uíd,a rle S. Francisco, por M. Chavin, e o breve mas bellissimo
opusculo ern italiano : Fioreiti di S. Fr., in-lg.
(2) Yeja-se Godescarrl, 4 ci,Out. ; Hel;,ot, i t. l, p,27.

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,l () cÀToclslto

templar outro espectaoulo, trão menos proprio para nos fazer louvat' aquel-
la divina Providencia, que vela pela lgreja !
Em quanto S. Francisco d'Assis e seus numerosos Íilhos demons-
travam tam claramente, por Seus exemplos e discursos, a cOnstante san-
tirlade da lgreja Catholica, S. Domingos e seus companlreiros l-ratiam a
heresia ate nos seus intrincheiramentos. 0s iníaures hereges, conhecidos
pelo nome d'Albigenses, por se havere;n es[abelecido nas visinhanças
d'Albi, continuavam em suas profanações e estragos. Era horrivel vêr um
Seln-numero d'Igrejas profanadas, os altares despedaçados, e oS vaSOS Sa-

para seu consolador a S. Domingos.


Este santo, tam distincto pela nobreza de seu nascimento como por
seus talentos e virtudes, nasceu em Hespanha, da illtrstre familia dos
Gus-

mÕes n0 anng l,l7). Seus virtuosos paes nada pguparam para lhe dar
uma educação solidamente christã; e elle correspondia perfeitamente a
seus ouidados. Fallava apenas, e já pedia que 0 levassem á Igreja, pal'a

admirado, foi por rl'uma frrme, que assolou a Hespanha' Para


occasião
Sggggrrer OS necessitaclOs vendeu o joven alumnO todos 0S SeuS mOveis, e
vencler-se a si
ate os livros. Qutra vez, nã0 tenclo mais que vender, quiz
tnesm6, para re§gatar uma viuva pobre, que fÔra tomada pelos Sarrace-
nos.
sua caridade pois, que assim costuma ser nos Santos, não se li-
A
mitava a Sgccorrer o proximo nas necessidades tempgraes, senão tam-
bem nas espírituaes. Domingos apertou com as penitencias' para alcan-
dos mais endurecidos ;
çar a conversão dos peccadores, e especialmente

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Dti PliRstivrtrRANç.{ |I
e o Senhor attendeu aos r0g0s de seu zeloso servo. Breve sc ordenou Sa-
cerdote, e a unção sagrada, que na fronte recebeu, renovou o ardor de
seu zêlo pela salvação das almas. Depois d'haver edificado a Hespanha, e
chamado para Deus grande numero de peccadores quasi incuraveis, Do-
mingos passou á França. Aqui empregou elle todo o poder de suas vir-
tudes e de seus talentos, na conversão dos Albigenses; aqui abonçoou
Deus ainda os seus trabalhos.
Depois d'incriveis fadigas, teve o Santo Apostolo a felicidade de res-
tituir ao aprisco do divino Pastor innumeraveis ovelhas perdidas. Foi en-
tão que Donringos e seus companheiros resolveram permanecer juntos, e
fundar uma ordem religiosa, cujo fim principal seria a pregação do Evan-
gelho, a conversão dos hereges, a defesa da fe e a propagação do Chris-
tianismo. 0 santo dirigiu-se a Roma, e submettendo 0 seu designio ao
Summo PontiÍice, este o approvou. Chamaram-se os novos religiosos Fra-
des Prégadores, oa Dom.inicanos. Em França lhe deram o nome de Ja-
cobinos, porque a sua primeira casa em Paris foi na rua de Saint-Jaques.
:
0s principaes artigos da sua regra são os seguintes silencio per-
petuo. Em tempo nenhum podiam os Religiosos fallar uns com os ou-
tros, sem permissão do superior. Jejum quasi contÍnuo, e abstinencia da
carne, excepto em molestias graves. Uso de lã, em vez de linho. e rnui-
tas outras austeridades. Vestem habito branco, com escapulario da mes-
ma côr, capa e capello preto, terminando em ponta aguda, á maneira
dos Cartuxos.
À 0rdem Dominicana estendeu-se rapidamente por todo o mundo.
Desde sua origem não cessou de prestar os maiores serviços á Igreja,
quer nas missões entre os inÍieis, quer nos paizes Catholicos ; e proclu-
ziu multidão d'homens illustres em santidade e sciencia; taes como San-
to Antonio, S. Yicente Ferrer, Alberto Magno, Yicente de Beauvais, Luiz
de Granada. 0 mais celebre, e inquestionavelmente s. Thomaz ; porem,
cle quem fallaremos depois. 0s Summos PcntiÍices dignaram-se cumular
de graças a esta 0rdem, poderoso auxiliar da fé. uma d'ellas e que o
mestre do sacro palacio e sempre um Dominico ; o que deu origem á
creação d'este cargo, foi o seguinte facto :
Estando S. Dontingos em Roma, viu que o-s domesticos clos Cardeaes

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12 i:.{Tí.lcrs}to

e ministros da côrte se tlivertiam jogantlo, c pertlcndo tempo, em quanto


seus amos estavam occupados com 0 Pontifice ; e senfindo vivamente esta
desordem, propôz a S. Santiilacle que nomeasse alguem para os instruir.
Approvou o PontiÍice o conselho, e encarregou ao San[o que exercesse
este emprego. Acceitou elie, e comeÇou a lhes explicar as Epistolas de S.
Paulo, com tam feliz exi[o, que o Summo Pontifice quiz que estas ins-
trucções continuassem n0 futulo, e que o emprego fosse dado sempre a
um religioso Dominicano, com o titulo de mestre rlo sacro palacio (l).
Deve-se tambem a Domingos a instituição da celebre confraria do
Rosario. Para conseguir o resultado de suas missões, recorreu o santo á
protecção da Santissima Yirgem, ensinando a honrar d'um modo sirnples
e facil seus principaes m,vsterios, e os de seu amado Filho. Quiz o Santo
desaggravar tambem a Sauta llãe dos Clrristãos dos ultrages dos hereges.
A devoção clo Ro.sario e summamente popular, e poderosissima para lucrar
aos que a praticam, a protecção de }Iaria e seus mais preciosos favores: fal-
laremos d'ella na quarta parte d'es[a obra. Provecto em idade, rico de vir-
tudes, e honrado com o dom dos milagres, morreu o glorioso Santo em
Bolonha, a 5 d'Agosto de l32l (2).
Aos Carmelitas, Franciscanos e Dominicanos, se juntaram ainda pelo
decurso do tempo Íreze outros auxiliares da fe; c0m0 foram os Agosti-

(1) Assim tem sido até hoje, se bem qne o mestre tlo Sacro palacio nâo ensina
presentemente os domesticos do§ Carcleaes, rnas tam sómente os do Papa. Tem obri-
gaçôo de lhes cnsiuar as verclacles da Fé, cluraute a Quat'esma, no Advcnto e nas
principaes festas.
Pelo andar dos tempos concederam os Summos Pontifices maior honra e con-
fianga ao mesttc do Sacro palacio. Só individuos nomeados por elle podem pr'égar,
cliante do Papa, e tem direito de reprehendel publicamente o prégador. quando este
clá logar a isso. Nâo se póde imprimil obra alguma em Roma, nem em seu distlictor
sem a sua approvaçâo. E' juiz em Roma de todos os implessores, livreiros e grava-
dorea, em tutlo que toca a impressào, venda, compla, entlada e sahida de livros ou
estampas.
(1) Helyot, t. III, p. 210. O Santo Bosario, que cousiste sobretudo Da repe-
tiçâo da saudagão Angelica, inspirou ao P. Lacordaire, que escrevou axida d,e S. Do'
rní,ngos, a reflexâo seguinte: "O racionalista sorriu, vendo passar gente em alas a
repetir ume mesma palavra : o homem allumiado de melhor luz eomprehend.e que o
amor uão tem mais que ume palavla, e qtle dizendo-a sempre, nflo a repote llunca.D

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DU PEnSEVERAi'iÇt'. 13

Dhos. Ate csta epocha existiam na Igreja differentes congregações reli-


giosas da regra de Santo Agostinho ; mas para lhe dar mais uniã0, força
e um futuro esperançoso, 0 Papa Alexandre VII os reuniu em um sÓ cor-
po, sob a direcção d'um superior geral: eis a origem dos Agostinhos, que
foi a quarta Ordem de mendicantes. Tam regular e austera como aS pre-
cedeutes, não foi ella menos utiI nem menos celebre.
Em quanto este exercito de varões apostolicos e exemplares impe-
diam que a irreligiosidade e a heresia penetrassem no povo, outros de-
fensores da verdade e da virtude sustentavsm a causa da Igreja na pre-
sença dos sabios, pois, como já dissemos, houve no seculo decimo-segun-
do grandes doutores, que com nimia e perigosa curiosidade, tinham ai-
terado a verdadeira Doutrina, e sustentado graves erros, que aprenderam
tlos }louros d'Hespanha, isto é, dos lIahometanos que habitaram aquelle
paiz.
Para desalojar o erro do seu novo posto, susciton Dcus abalisados
gerrios, Brodigios de santidade e de sciencia ; c0m0 foram esses dous
homens imrnortaes, S. Boaventura, chamaclo o Doutor seraphico. e S. Tho-
naz, o Doutor angelico. Lelar-nos-ia mui longe escrever aqui a vida
d'ambos elles; mas não poclemos deixar de dizer alguma cousa do ultimo,
porque "o seu nome deve ter rnuitas vezes resoado em vossos ouvidos.
S. Thomaz, destinado por Deus para desembaraçar a sciencia sa-
grada de todas as superfluidades inuteis e perigosas, de marcar com mão
Íirme e segura os limites da sciencia e da fe, expôr a necessaria corre-
lação d'uma e d'outra, e refutar emÍim os erros dos Mahonietanos, intro-
duzidos nas escholas christãs, nasceu em Italia pelos Íins do anno 1226.
Scu pae, por nome Lendulptro, era concle d'Aquino e Senhor de Loretto.
Sua mãe, chamada Theodora, era Íilha do conde de Théate. Tinha Tho-
maz cinco annos d'idade quando seu pae o entregou aos religiosos tlo Monte
Oassino, a fim cle lhe ensinarem os rutlimentos das sciencias, e tla Reli-
gião. Pasrnaram os'mestres, a0 vêr os progressos do discipulo que, no
espaço de cinco annos, sabendo já tudo o que lhe sabiam ensinâr, voltou
ao seio de sua familia, para encher de admiração seus paes e amigos. 0
excellente estudante ainda encantava mais pela sua modestia e piedade,
que pela sua intelligencia. l'allava pouco e nada clizia que não fosse multo

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I I* cÀTEL:IS,llo

a piopr,rsito. Era rnuito amigo tle intercedr.r pelos pobres junto tle seus
paes, c com elles repartia mais d'uma yez o seu sustento. Pouco depois
o manclaram a Napoles, para coutinuar os seus estudos; e n0 meio d'esta
grandc cirlade, soube Thomaz conservar viçosa e bella a flôr da innocen-
cia. Fez pacto com seus olhos de que nunca se deteriam em objecto pe-
ligoso : e a Íinal, desgostoso do mundo, [omou o habito dos Dominica-
nos de Napoles, em,1243, tendo d'idade dezesete annos. Seus paes, ir-
mãos e irmãs empregaram todos os meios imaginaveis para o fazer vol-
tar ao seculo. Esta especie de perseguição durou muitos annos; porem
foi debalde. r\ntes serviu par,l conl,erter os mesmos que a executaram. Tho-
ÍÍtaz deu tam boas razões da sua escolha, que duas de suas irmãs se-
guiram depois o seu exemplo, tomando o habito de religiosas. Entretanto
tinharn o Santo em uma especie de prisã0, a Íim de o obrigarem a se-
guir outro modo de vida; mas elle, podendo evadir-se, partiu para Pa-
ris, coflr o geral dos Dominicanos. D'alli foi a Golonia, onde Alberto Ma-
gno ensinava a Theologia com grandes creditos, e em cuja escóla fez
progressos admiraveis, que todavia elle occultava por ltumildade. Por esta
razão se condemnou a um rigoroso silencio, que seus condiscipulos at-
tribuiram a ignorancia, chamando-lhe por escarneo 0 Boi rnudo.
Porem certa occasiã0, tendo-o Alberto interrogarlo sobre materias
muitas obscuras, elle responcleu com tanta precisão e clareza, que todos
os ouvintes ficaram pasmados ; e 0 proprio mestre, exclamoU com trans-
porte: «Nós chamamos a Ttromaz o Boi mudo, mas elle mugirá um dia
tam alto por sua douürina, gue se fará ouvir em todo o universo ('l).»
Cumpriu-se a predicçã0. Já como prégador, já como escriptor, reu-
niu S. Thomaz todo o genero de talento ate a poesia. À elle se deve o
magniÍico oÍlicio do Santissimo Sacramento, que e obra incomparavel.
Nas questões diÍliceis contava menos com o seu trabalho que com
a oração. Costumava tambem dizer que tinha aprendido mais junto do
altar em um CruciÍixo, que em todos os livros. Colonia, Paris, Roma,
Bolonha e Napoles foram as principaes cidades onde elle ensinou, e nin-

(1) Iiós vocamus istum, Bouenr,rttu,tu;ml secl ipse dabit taiern in cloctin:r mugittrm,
quotl in tr,,to urrrndo sonabit.

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DE T'I'RSEVIiRANÇÀ. I;i

gucm (lei.\ava tle lazer justiça ao seu mcrrito. Convitlava-o muitas


t'ézes

S. Luiz, para a sua me;a, e elle apparecia na côrte tam


modesto e re-

colhirlo, c0m0 n0 Seu convento. Tereis sern cluvida ouvido


dizer' que 0S
pois o Doutor Àngelico não
homens tle genio são sujeitos a dis[racÇões ;
era isentO d'ellas. Um tlia, estanclo á mesa cgm o rei, llte aconteceu uma

quc merece ser referida. Trabalhava â'lreresia dos

ltanicheos, conhecidos pelo nome d' dasse pteocctl'


decisitso cln-
paclo do seu assumpto, exclamou de
advertiu-lhe que
tl.q 0s ilIaniclteor (i). 0 prior, que o l,inha acompanhado,
ol[rasse o logar ontle estava ; e 0 santo teve cle
reparar a sua falta' pe-

dindo perdão ao Rei ; mas o bom do principe, longe


de mostrar des-
secretarios que escrevesse aS ra-
contentamentg, mandOu a um dos seuS
zões cle Thomaz, antes que lhe esc,apassem da memoria'
que oS Sumrnos
Recusou Thomaz toilas as digniclades ecclesiasticas,
joven, o achou Deus fi-
Pontiíices quizeram ofr'erecer-lhe; e sendo ainrJa
Italia adoeceu no
nalmente macluro para o ceo. N'uma viagem que fez á
de cyster na diocese de Ter-
convento de l'ossa Nuor,a, celebre mosteiro
dispunham a trazet'
racina. Em quanto o D. Abbade e seus religiosos se
que o deitassem
lhe o Sagrado Yiatico, pediu aos que cercaYam- seu leito,
dizia elle, receber a Jesu-C5risto com mais
sobre cinza, para poclãr,
-que
respeito: foi assim elle esperou o salvador. Apesar de sua extrenia
do Sacerdote' pro-
fratlueza, logo que ãvistou a Sagracia Ilostia nas mãos
que fez derramar
nunciou r, ,rg1,intes palavras, com clevoção tam terna,
lagrimas a totlos os assistentes : «creio Íirmemente, disse elle, que Jesu-
Homem, está n'este Augusto Sa-
Ciiristo, verdacleiro Deus e verclarleiro
eramento. Eu vos ador6, meu DeuS e meg SalvadOr t EU vOs receb6, ó
peregrinação' pur
Preço adoravel da rninha redempçã0, viatico da minha
Senhor, que
emOr de quem estudei, trabalhei, preguei e ensinei ! Espero,
a vosse Divina palavra, mas Se, por ignorancia' tal
nacla terei- clito contra
me acontecesse, publicamente me desdigo e subrnetto os meus escriptos
á Santa Igreja Romana.
Tenclo-se em seguirla recolhido para formar alguns actos de
Religiã0,

' [': Cottslttstttn est ooltra'l['-ttúchc'"etts'

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| 6 cATECrsilo

recebeu o sagrado viatico, e não consentiu gue


outra \ez o luvassem
para a cama, em quanto não acabou
de dar graças. como suas fr.rrças tli-
minuissem cada vez mais, quiz que ltre administrissern
a Extrema-unção,
em quanto' c,nservava perfeito cónhecimento;
e respondeu eile mesmo a
todas as oraçÔes da- Igreja. Depois d'isto
agradeceu ao D. Abbacle e mais
religiosos os seus bons oÍficioi. perguntando-rhe
en[ão um d.,elles o quc
era necessario fazer, para ser toda a vida Íiel graça,
á respondeu : «An-
tlar incessantemente na presença de Deus (l)., faes
fo.rm suas ultimas
palavras. Orou ainda arguns momentos,
até. que adormeceu em o senhor,
a 7 tle IlIaio cle r,z7&, tendo quarenta annos d,idade (2).

(l) o mesmo santo, sendo corrsurtado por u,,a de suas irmàs sobre
rnister fazer para se sarvar, re-spondeu esta
só paravra , *;;:;';;:;" 'o que e.a "
(2) Godscard,.? de Mar'golHelyot, r. tti, p. 2lo.-as
dividem.se em quatro partes :
obr:as de s. Thomaz

.1'o obtasphilosophicas' o santo as compôz para refutar aos hereges e arabes


d'Hespanha, que se serviam d'Aristoter"r,
a Rerigiâo. Este philosopho,
entâo chamado o terror dos christàos, como"rÀbut'.ndo
que se tornou orflrodoro, gragas ao santo
Doutor, e forneceu á Religi o novas armas contra
o atheismo e a increduliclacle.
2.o Os Commentarabs sobre os quatro Iiyros
do Mestre da^s serúe,ças.
curso completo de Theologia. \ r -' E, um
3'" A Summa Theología, obra admiravel em que a razào
e a fó mutuame,te se
sustentam.
A sumrna corúra.os genti,os, escripta a fogo de s. Raimunclo
para fornecer aos prégadores hcspanhoes meios de
dc pe,ha-forte,
trabalhar com fructo rra co,-
versâo rlos Judeus e Sarraeenos.
l'o os opusat'l'os' Acba-se n'esta obra grancle variedade d,assumptcs,
outros uma explicaçâ,o do symbolo, dos sacrÃentos, e entr.e
do decalogo, da oraçâ,o Domi_
minical e da Saudagâ,o Angelica.
Ha tambern outros commentarios de s. Thomaz sobre
ptura' E' sobre tudo excellente a explicagâo ar. npi.toias a maiorpaulo.
parte cla Escr.i-
de suas eclições é a de Roma de 1ó?0, 1g vol. in_fol.
de s. A rnelho'

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Dll PERSIVERANÇÀ l-t

(}RAÇAO.

0' meu Deus I que sois todo amor, eu vos dou graças por ltaver-
des dado á vossa Igreja tantas Ordens Religiosas e [antos Santos Douto-
res, para a defenderem ; dai-nos, Senhor, a humildade e terna devoção
de S. Thomaz d'Aquino.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao proxirno como
a mim mesmo por amor de Deus; e em testemunho d'este amor direi
mu,ilas oezes: Eu quero suluar-me.

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I

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xl_,11., LIÇÃO.

0 ühris[iunisno coúservado e propilgado.

{xilr srcul.o.)

À l5reja oonsorada: s. rt,rr, rei dc Franeo, Ferna,do,


rei dr:
casÚerta e Leão;-p.o',,"goda r conv*".ão rra Lisonia.-rres
Concilio§ geraes.-À fgreja crlnsr»larra: fundaeão rra
de lTossa senlrora elas Ftercês. ordern

Se tl'aquelle tempo, tinharn 0s povos e os sabios necessirlade


cle
mestres e modêlos, a heresia e libertinagem
não os tornavarn merros ne-
cessarios aos grantles e aos Reis. verclade
e-que muitos principes pu_
gnavam contra o err, á força d'armas, poróú
eram muitos maii os que
o seguiam; e estes, tendo suas paixões por guia, cliscorcles
sÊmpre un'
com outros, opprimiam o pOvo com pesados tributos, para
sustentar seu
luxo, e as guerras que mutuamente se faziam. 0 roubo e
o assassinio,
a desgraça das familias e a miseria dos pequenos e cros fracos, erarn
as
eonsequencias c}'estas guerras inertingui'eis,
com que a Igreja era dila-
cerada. compadeceu-se Deus de suas lagrimas,
enviando-lhe grindes Reis,
de cujo braço se se^,iu para suspender , .aprrr.
o mal. Dc numero d,es-
tes foi s. Fernando, rei d'Hespanha, e s. L,iz,rei
de França.
Este ultimo, gloria da sua monarctria, era Íilho cle Luiz
viII, rei cle
Irrança, e nasceu a 2J d'Abril de lzl,ü, no castello de poissy,
onde foi
baptisado; p.r cuja razão, querendo dar pubrico testemuniro
de quanto
presava a graÇa do BaptisÍro, e adopcão de
Íilho de Deus, se ,rrigoro,
Luiz de Poissy. Tinhas raz'ào, grande principe: o tituro cre christão
e
preferilel ao de rei de Ft'ança. Luiz
lrassou 0s primeiros annos sob a rlircc-

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20 cÀTuclsllo

que seu filho be-


çãro cle§ra nrÍe, a llailtra D. Branca; a qual, zelosa de
b.r,, com o leite as maximas fla Religiã0, o sentava muitas Yezes em
que estar nos la-
seu regaÇo, e lhe dizia estas bellas palayras, cleveriam
«lleu Filho, amO-
bios e no coração de todas as nrães dignas tl'este ll0me:
pes' do que cahi-
te ternamente, pgrem antes queria vêr-te morto a meLls
lições da piedosa Rai-
do em um peccado mortal.» Não foram inuteis as
lembrar d'ellas, e de tal mo-
nha; setr Íilfio não deixava um sÓ dia cle se
ate á mOrte a innoCen-
flo as observ6tr, que teve a ventura de COnservar
cia baptismal.
Naidadedeclozeanl}ossubitrojovenPrincipeaomaisbelloThro.
Salomão' elle sup-
no clo Universo, sendrl sagrado em Reims. Qual outro
patrono no ggrerno da monar-
plicou a0 Senhor, que fósse seu guia e
justiça e todas as qualidades
,t ir; e a prudencii e fi.rmeza, o àmot cla
grandes santos'
que formam os valorosos Principes, os bons Reis e os
a sua oração'
bem claramente provaram que foi ourida de Deus
par[e clo dia a.s neg'cios do es-
Depois d'haier consagiado a maior
piedosas' À'quelles
tado, descançava s. Luiz cgnyersando com
pessoas

queegarnaoraçãoalsula-sh0ras,.respondiacom
sranaesecensulaesaminhaassiduidadenaora.
u

çã0;palavraSeeugastasseotempon0Jogo0u
que os Reis são ministros de Deus,
que tudo em favorecer a Religião,
alos. 0 que Por si mesmo não Po-
os. Fundou grande numero de mos-
homens, que Prestaram imPortantes
serYiços á Igreja. Sua caridade socctlrria
a todos; e muitas Yezes servia
e algumas occasiões duzentos'
elle mesmo e mesa a cento e vinte pobres,
Havendo tido a felicidade d'obter a corÔa
d'espinhos do salvador, es-
tabeleceu .uma capella magniÍica, para a
c0nservar' sua fé era tão viva'
que ella e objecto' um dia veio
que via, por assim dizer, as verdades de
que Ngsso Senhor apparecia
certa pessga dizerJhe muito apressuradá,
que estava celebranclo Missa' a0
visivelmente nas mãos cl'um Saõerdote,
vêr para crêr'» Promul-
que lesponcleu placiclamente: «Não necessito de

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I

. Dll PERSDVERANCÀ. "2I

gou S. Luiz unta lei, na rlual ordenou que fosse traspassada com ferro
em braza a lingoa de todo aquelle que blasphemava. Baniu de seu reino
os histriões; e punia com exemplar severidade os Senhores, que oppri-
miam 0s subditos. Quantlo só tratava de fazer justiça, não havia para
elle respeitos humanos, nem graus de parentesco. Sentado clcbaixo do
carvalho de Yincennes, julga\ra as causas, e fazia imrneüiatamenl,e reparar
os damuos.
A Provitlencia, entretanto, formava de Luiz outros designios; pois
queria não só que por elle reÍlorescesse a Religião em seus estados,
mas se continuasse tambem a guerra santa da civilisação, contra a bar-
Itaria musuhnana. 0s Ctrristãos da Palestina gemiam de n0v0 sob o jugo
dos inÍieis, e Luiz resoh,eu marchrr em seu s0cc0rr0. Se estas gran-
des expedições não tiveram o resultado directo e immediato, que se es-
perava, obtiveram com o andar do tempo uma superior vantagem, qual
foi impedir que os Sarracenos não molestassern a Igreja, porque as for-
ças d'estes liarbaros, foLarn, d'esta arte, bastante enfraquecitlas, e o nome
christão começou a inspirar-lhes grande terror.
Embarcou S. Luiz com um numeroso exercito; tomou Damietta,
mas perdeu a batalba de l\Iassotrra, na qual ficou prlsioneiro. Elle se mos-
trou tão grancle na prisão como no throno. 0s ilIusulmanos não podiam
deixar d'atlmirar sua paciencia, e a heroica Íirmeza com gue recusava tu-
do o que lhe não parecia razoavel. Diziam-lhe: «Nós te consideramos co-
m0 captivo e escravo; e tu, estando em ferros, tratas-nos como se fos-
semos tambem prisioneiros.» Proposeram-lhe uma vez que desse certa
somma de tlinheiro para seu resgate, ao que respondeu, dízendo aos en-
viados do Suttão: «Dizei a \r0ss0 amo, que um lei de França não se res-
gata por dinheiro: eu darei essa somma pelos prisioneiros meus subdi-
tos, e Damietta por minhâ possoâ. »
voltou s. [-,uiz á França, e se applicou com novo zêlo em fazer a feli-
cidade cle seus subditos. Tão grande capitã0, c0m0 bom rei, depois de
pÔr o reino em socego, embarccru rrovamente com 0 Íim de libertar os
Christãos. Contentou-se Deus com sua boa vontacle, pois desembarcando
em Àfrica, perto tle Tunes, enfermou grlvemente; e conhecendo que a
tnor[e se avisinltava, cttamou a selr filho mais velho, e lhe deixou o se-

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22 tlATEcISilÍO

guillte [esÍamento, digno d'unt Christã0, cl'um lteroe, d'um Rei e pae :
uNleu amado Íilho, disse elle a Philippe, a primeira cousa que te
«deixo recommendada é que ames a Deus de todo o teu c0raçã0, e que
«antes te sujeites de bom grado a soffrer toda a qualitiade de tormentos,
«do que commctter um peccado mortal. Se Deus te enviar aclversidades,
usoffre-as resignado, lembrando-te cle quanto o tens offendido.
«Se te concecler prospericlades, não te ensoberbeças; porque não de-
«vemos servir-nos dos tlons de Deus para offender o mesmo Deus. Cott-
«fessa-te corn frequencia, elegendo confessor idoneo e prudente, que pos-
«sa seguramente ensinar-te o que deves fazer ou evitar, que livremente
«te reprehenda do mal que fizeres, e te mostre teus defeitos. Acompa-
«nha devotamente as funcções da Igreja, com 0 coração e os labios, eS-
«pecialmarte na i\Iissa, depois cla consagraçã0. Sê brando e compassivo
utle coração C{tm 0s pobres, e favorece-os quanto podéres. Mantem no
«teu reir_rO oS bOns cOStumes, e corrige oS maus. Não carregues o poYo
« cl'irnpostos....
«Temjunto de ti homens prudentes e leaes, reiigiosos ou soculares,
«que não sejam arnbiciosos; falla muitas vezss com elles e foge da com-
«panhia dos maus. 0uvo com attenção a Palavra de Deus, retem-n'a no
«00raçã0, e sOlicita orações voluntarias e indulgencias. Ninguem tenha o
«atrevimento tle dizer na tua presenÇa cousa que tenha malicia ou induc-
<rção cl€ peccado; nern seja em detracção contra alguma pessoà ausento;
«rlprn soffras que Se mofe das cousas de Deus na tua presença. Dá mui-
«tas vezes gragas ao Senhor pelas mercês que te tem feito, para que pos-
«sâs rrerecer outras. A justiça que Íizeres seja leal e recta, sem propen-
oder a uma ou outra parte. Inclina-te, porém, mais ao direito do pobre
«e apoig da sUa causa, em quanto a verdade não apparecer.
«Dcves cuiclaclosamente applicar-te a manter a paz e a rectitlão en-
«tre teus vassallos. Quanto ás cidades e aos costümes cio tetr reino, con-
«sgrvâ-gs no estaclo em que teus antepassados os deixaram, respeitando
«SUâs regalias, e corrigilclo sÓmente o que fÔr mau. Pela força e rique-
«za clas grandes ciclades, é que te farás respeitar dos estrangeiros, e es-
<rpecialmente clos teus pares e harões., Cuicla muito Cm que as despe-
usas da ttta casa sejam razoaveis.

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DE PENSEYERANCA. 23

«Recommendo-te emÍim, meu fllho, que mandes celebrar Missas pela


minha alma, e recitar orações por todo o teu reino, e applica-me espe-
ciatmente parte em todas as obras que Íizeres. lleu Íilho, eu te abençoo
tanto quanto um pas pódÊ abençoar a seu fllho. A Santissima.Trindade,
e todos os Santos üe guardem e defendam de todos os males, para hon-
ra e gloria sua. Permitta Deus gue cumpras sempre com a sua vontade,
para que elle seja por ti honrado, e a fim que tu e todos nós possamos,
depois d'esta vida mortal, viver na sua presenÇa, e louval-o para todo o
se{npre. Amenr.
Logo depois, recebeu o rei os Sacramentos da lgreja, com um fervor
que fez derramar lagrimas a todos os assistentes, e vendo-se na ultima
hora quiz que 0 deitassem sobre a cinza dos peniten[es; e assim doitado,
com 0s braços curvados sobre o peito, e os olhos fitos no Ceo, expirou
placidamente, pronuociando estas palavras da Escriptura: Entrarp,i, Se-
nhm, nn Dossa morada (l).
Assim morreuo melhor clos reis, cujas virtudes se não podem admirar
sem abençoar a Religião que as produziu: foi isto a 29 de Agosto de
1270.
Em quanto S. Luiz cumpria tam gloriosamente a duplicada missão
clue a Providencia lhe c,onÍiou, de extirpar a heresia e 0 escandalo das al-
tas classes das sociedades, e humilhar a barbaria musulmana; outro rei
desempenhavqos mesÍuos deveres, e ambos provavam brilhantemente o que
n'este seculo mais importava que se provasse. ; isto é, que as verdadeiras
virtudes não estavam da parte dos sectarios, mas sim na antiga e vertla-
deira Igreja.
Este Rei, emulo de S. Luiz nas qualidades que constituem os heroes
e os Santos, foi Fernando III, Rei de Castella e Leão, primo dc S.
Luiz e Íitho d'Affonso, rei de Leã0. Logo que subiu ao throno, que foi
na idade de dezoito annos, em 1,226, cuidou em se rodear d'homens ha-
beis e virtuosos; tendo, c0m0 S. Luiz, por seu maior empenho, o procurar,
que Deus fosse por todos conhecido e servido nos seus estados. Cons[ruiu
ou reparou grande numerO de lgrejas, mosteiros e hospitaes, e apesar

(L) Ps. \r, 8.

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24 cÀTrcrsrro

de tantas despezas, não careceu de carregar 0s povos com tributos. Na


guerra que sustentava contra os l\'louros, um pretendido politico, d'esses
que não fazem caso da miseria do povo, lembrou ao rei um meio que ti-
nha excogitado de levantsr uma grossa somma.
«Não permitta Deus, respondeu o rei com indignaçã0, que eu ado-
p[e jámais o teu projecto I A Providencia saberá soccorrer-me por outro
modo. Temo mais das maldições d'um pobre, que de todo o exe rcito dos
llouros. »
Apenas viu paciÍicos e felizes 0s seus estados, tractou Fernanclo dc
dilatar o reino de Jesu-Christo ; o que Deus permittiu, para resarcir a
Igreja das perdas, que a heresia dos Albigeoses, Waldenses, Beguardos
e outros sectarios, lhe tinham causado. Conhecia o Santo rei a sua mis-
são : pelo que dizia a Deus : «Senhor, que sondaes 0s pensamentos e os
corações, bem sabeis que procuro a vossa gloria e não a minha ; eu não
me proponho adquirir reinos transitorios, mas sim dilatar o conhecimento
do vosso'Nome.»
Fernando marchou, contra os inÍieis, e lhes tomou vinte das melho-
res praÇas d'Andaluzia. 0 arcebispo de Toledo fazia no exercito as funs-
ções pastoraes; e querendo Fernando qne se inspirassem a seus soldados
os mais ternos sentirnentos de piedade, elle era o primeiro a dar-lhes
exemplos de todas as virtudes. Era rigoroso nos jejuns, usava cl'um cili-
cio em fórma de Cruz, passava muitas noites em oraçã0, principalmente
quando se tractava de dar batalha, e attribuia a Deus todo o resultatlo
d'ellas. Trazia sempre no exercito uma Imagem da Santissima Virgem, a
Íim que a sua vista inspirasse aos sollados devoção e conÍiança na Mãe de
Deus. E que admira que um exercito de Christãos, commandado por um
Santo, Íizesse tantos prodigios ? Não poderam 0s mesmos inÍieis deixar
de reconhecer que Deus mettia n'isto a mão; porque depois dl tomada
fle, Sevilha, praça inexpugnavel, dizia, chorantlo, o governaclor mottt'o:
«Só um Santo podia com tão poucas tropas apoclerar-se tle uma ci-
dade tão forte e tão populosa, Carthagena, llurcia, um grande numero de
outras cidades, occupadas pelos mouros, cahiram em pocler dos chris-
tãos.
Mas a mais celebre conqtrista de l-ernando foi Cordova. Esta cidade

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DE pEnSDY!rRÀNÇA. 2:i

estava em poder dos infieis á quinhentos e vinte e quatro annos, e tinha


sido por muito tempo a capital do seu imperio na Hespanha. 0 exercito
christão n'ella entrou no dia de S. Pedro e de S. Paulo, no anno 1286.
A sua principal mesquita foi logo puriÍicada e convertida n'uma Igreja sob
a invocação da Santissima Yirgem. 0s sinos de S. Thiago de Compostella,
que o Sultão Almanzor para alli havia feito transportar aos hombros dos
christãos, foram restituidos a Compostella, sendo levados ás costas dos
mouros, por ordem de Fernando.
No entretanto approximava-se o dia em que o Santo rei devia entrar
na posse tlo reino celestial, que tinha conquistado por suas virtudes. Avi-
sado da sua ultima hora, fez uma conÍissão geral, e pediu o sagrado Via-
tico que lhe foi adrninistrado pelo bispo de Segovia, na presença do Clero
e da cÔrte. Quando viu entrar o Santissimo Sacramento em sua camara,
desceu do leito, ajoelhou-se. Tintra elle uma corda ao pescoÇo, e nas mãos
um CruciÍixo, que beijava e regava com suas lagrimas, recebendo n'esta
posição o corpo do Salvador com demonstração da mais terna devoçã0.
Antes de morrer mandou chamar seus Íilhos, para lhe dar sua benção.
com seus saudaveis conselhos.
Durante a agonia pediu ao clero que recitassem as Ladainhas, e o
Te-Deum; e terminadas estas orações, morreu tranquillamente, a 30 cle
Maio de 1252 (l).
As conquistas que s. Fernanúofezaos mouros d'Hespanha, não eram
as unicas compensações que a Igreja recebia das perdas que soffrêra da
heresia. À luz clo Evangeltro diffundia-se rapidarnente para o Norte. À Li-
vonia, vasto paiz, habitado por povos barbaros, que adoravam animaes,
arvores, rios, hervas e espiritos immunclos, se conyerteu á Fe.
A Religião lançou por terra os altares d'estas divindades ridiculas,
plantando em seu lugar a Cruz. A civilisaçã0, Íilha cla verdade, rai6u n'a-
quellas terras inhospitas. Parte da Prussia, seguiu o eremplo da Livonia.
0s Cassianos, outro poyo inÍiel, que habitava a embocadura clo Danubio,
recebeu tambem o Evangelho, isto e, a boa nova da nobre origem do
homem, do seu ultimo Íim, e tlos meios de o conseguir. convertendo-se

(1) Goclescard, B0 de l\faio.

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2t-, CATIiCIsll0

ao Christianismo, passaram do estado barbaro para a civilisação ; sendo


para notar, que toda a vez que 0 Evangelho coIlverte urna nação, faz
duas conquistas ; porque, a0 passo que dissipa 0 erro, acaba com 0s cos-
lumes barbaros. Nunca esta verdade será assás repdtida.
Qutras consolações recebia tambem a Igreja na Àllemanha e ltalia.
N'aquella, mostrava Santa Isabel aos poderosos clo Seculo, a união ad-
miravel de torias as rirtucles com a granileza temporal ; n'esta, uma il-
lustle penitente, a Bemavcnturada n'Iargarida de Cortona, reparava, cOm
vinte annos de penitencia, os escandalos de sua mocidade desregrada.
Para consolidar Íinalmente todos os bens operados pelas 0rdens re-
ligiosas, e pelos Sanüos, de que temos feito rnenção, houve no Seculo de-
cimo terceiro tres concilioS ecumenicos, que foram o decimo segunilo,
decimo terceiro e decimo quarto. Celebrou-se o primeiro eln Roma, na
Igreja de S. João de Latrã0, em {2{5, presidido pelo Papa Innocencio III,
assistindo a elle clous Patriarchas, o de Constantinopla, e o de Jerusalem,
7,t Arcebispos, &{2 Bispos, 800 Abbades, o Primaz dos Maronitas, e S.
Domingos. N'esta iltustre assemblêa foram condemnados 0s err0s dos
Albigenses e d'outros hereges, e se promulgtlu o famoso decreto que
obriga os Fieis, chegados á idade de descripçã0, a confessar-se a0 menos
uma vez cada anno; contentando-se a lgreja, com pedir pouco, para ob-
[er muito. Antes d'este Concilio, havia obrigação de receber os Sacra-
mentos com mais frequencia, porém os costumes exigiam a motliÍicação
da antiga disciPlina.
O deci,mo segundo Concilio foi conr:ocado em Leão, no anno 1215,
e teve por Íim acabar com aS perturbações que agitavam a Europa, e
encetar uma nova Cruzada.
Na mesma ciclade de Leão se reuniu o decimo terceiro Concilio da
Igreia, virrte e ngve annos clepois, em {27t*, o qual teve por objecto unir
oi gregos á Igreja Latina.
A caridarle da Igreja, por tantos moilos manifestada, de nenhum modo
se extinguia. Hayia ainda granrles males a remediar. 0 numero dos
Ctrristãos, que gerniam n0 cap[iveiro tlos infieis, tinha considerat'elmente
augmentaAô Ouiante as ultimas guerras. Desventurados captivos, cobrai
anirno ; qlle a vossa carinhOsa mãe, nItO vOs pertle de viSta. Breve serÍo

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DD PEnSEVIiRANÇA. 2i
quebrados vossos ferros. Outra nova Ordem vôa em vosso aurilio. Com
effeito, uma nova instituição heroica em virtude e dedicaçã0, se t'ormou
n'estes tempos, que foi a 0rdem de À'ossa Senhora das Mercês da re-
dempçd,c dos captiuos. Ha na Igreja duas Ordens religiosas, que teem por
Íim livrar os Christãos do jugo dos inÍieis; e, digam-no 0s francezes
com santo brio, foi na França que, amba$ nasceram. A primeira e a dos
Trinitarios, de que já atraz fizemos menção; a segunda e a cle Nossa
Senhora das Mercês, de que tractaremos agora. Póde dizer-se, segundo
revelações reiteradas e eertissimas, que a Santissima Trindade e Authora
da prirneira; mas a Santissima Yirgem, â consoladora dos aÍllictos, quiz
ser Àuthora da segunda. Para instrumento de sua misericordiosa com-
paixão, escolheu ella a S. Pedro Nolasoo. Referiremos em poucas pala-
vras a hisioria d'este grande'servo de l\Iaria.
S. Pedro Nolasco nasceu no Langdoc pelos annos de l {89. Qui-
zeram seus paes obrigal-o a tomar o estado tlo matrimonio ; mas Pedro,
despresador do seculo, tinha escolhido para o seu coração um coração
maior que o d'uma creatura, entregando*e torlo a Deus. Passando-se á
Idespanha, foi encarregado da educação do Íilho do Rei d'Aragã0, pre-
cisando por isso viver üa côrte. Pedro soube evitar a seducção dos pra-
zer€s, e das grandezas humanas, por aquelles meios que suggere a pru-.
dencia christã. Fiel ao exercicio da oração e mortiÍicaçã0, orava quatro.
horas no dia, e duas de noute. Foi n'esta condição que Pedro se com-
padeceu.tam vivamente dos pobres Christíos, captivos dos irúieis, que
resolveu empregar quanto possuia, n0 seu resga[e; e andandg torJo en-
golfado n'este pensamento, appareceu-lhe a Santissima Virgem. Corria a
noute do {.0 d'Àgosto de l2{8, festa de S. Pedro ad aíncula, quando
:
em sonhos, lhe disse a Augusta Rainha do Ceo estas palavras r«Quer
Deus que estabeleças uma Ordem religiosa, para o resgate dos Capti-
YOS. »
Pedro, que não era homem credulo, consultou a respeito d'esta vi-
são o seu confessor, S. Rilimunclo Ce Penhaforte, um dos mais illustres
doutores da lgreja. Qual não foi, porem, o assombro tlo nosso Santo,
quando Rairnundo lhe asser,eron ter titlo a mesma visão, e que a San-
tissima Virgern, lhe ordentira que o animasse em sens clesignios ! Então

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28 cATncrsrro

ambos fallararn ao Rei, e o seu assombro subiu de ponto, quaudo o piedoso


tr[onarcha lhes disse, que Nossa Senhora the havia revelado isso mes-
mo. Cerlos da vontade de Deus sem mais demora metteram mãos á
obra.
Assignou o Rci grandes bens, para fundação d'um convento, aonde
Peclro entrou, e em pouco tempo se lhe juntaram muitos senhores d'Hes-
panha, que professaram na nova 0rdem. Alem dos tres vo[os de pobreza,
castidade e obediencia, faziam estes religiosos outro, que nos mostra ate
onde a Religião póde levar a caridade para com o proximo. Faziam voto
de empenhar suas proprias pessoas, e se preciso fosse fazer-se escravos
dos infieis, para livramento dos captivos. Eis a formula d'este compro-
misso, unico dos annaes da historia : Eu, F., cavalleiro de Nossa Senhora
das l\Iercês, da redempção dos captivos, faço proÍissão e promessa de
guardar a obediencia, pobreza e casticlade ; de viver pana Deus, seguindo
a regrade S. Bento; e, se preciso fôrpara livrar os Fieis de Jesu-Chris[0,
ficarei captivo em poder dos Sarracenos (l).»
EÍfectivamente se viram muitos d'es[es generosos Servos de lllaria
Íicar escravos em- poder dos infleis, a Íim de resgatar maior numero de '
Fieis, e ter occasião de pregar a Fé aos ilIahometanos. D'estes foi S. Rai-
mundo Nonnato, que Íicou oito mezes captivo, soffrendo em todo este
tempo inauditos tormentos ; ate que os inÍieis, não o podendo por outro
modo impedir de pregar, lhe traspassaram os labios com ferro em braza,
fechando-lhe a bôca com cadeaclo. Da mesma sorto S. Pedro Pascal, Bis-
po de Jaen, tendo gasto todas as sues rendas em soccorrer 0s pobres e
resgatar os captivos, emprehendeu tambem a conversão dos Mahome[a-
nos. 0 clero e p0\:0 da sua Diocese enviaram sommas consideraveis para
0 Seu resgate, que elle recebeu com muita gratitlão; mas em vcz de as
empregar em seu proprio livramento, resgatou grande numero de mulhe-
l.es e nreninos, uuja fraqrteza receiava lhes Íizesse abjurar a Fe; e se dei-

(l) Ego N. milcs sanctae Marire de Mer:ccde et Reclemptione captivorum, fa-


cio promissionem et prornitto obcdientiarn, paupertittcm, castitatem servare, Deo vi-
vere et comedere secrrndurn legulan S. IJerieiticti, et in Serracenottun potestate, si,
neccsso fuelit, acl redctnptiouern Christo fideiium, dctentus tnauuebo.

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DE I.,ERSDYERÀNÇÀ 29

xou Íicar em poder dos barbaros, conseguindo por ultimo a corÔa do


martyrio (l).
Seria diÍflcit contar o numero rlos escravos que os religiosos de Nos-
sa Senhora restituiram a0 seio de suas familias. S. Pedro l{olasco, em
duas viagens que fez a terras de llouros, libertou mais de quatrocentos ;
ate que cheio de bençã0, e rico de virtudes, morreu o Santo fundador,
em 1,226, aos sessenta e setc annos d'idade (2).

oRaÇÃo.
O' rneu Deust que sois toclo amor, eu vos dou graÇas por haverdes
concedido um S. Luiz á França e á lgreja, para sua defeza e ediÍicaçã0.
Dae-nos, Senhor, a caridade e a Íirmeza d'este santo Rei.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao proximo c0-
mo a mim mesmo por amor de Deus; e, em testemunho d'este amor
orarei pelos peccadores.

(1) Godescard, 6 de Dezembro e 31 tl'Agosto.


(2) Helyot, t. III, p. 280.

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xllll." LIÇÃo:

0 Christianisruô oonservado e propagado.

' (rIv sncuro.)

 tgreia aÚacada 3 EreroÚes, Dulcirrislas, f,'lAgellanÚeE, eÚc ,


scisrua do OccirlenÚe: - defendirla : frrndacrio dos Gellil'as
da Orrlem de É&uÚa Brigida: sanÚo Dlzeario e SanÚa l)elfina

Bem c0m0 ngs ardores do estio, após cle tempestuosa 0huva, de ha


muito esperada, se vêem sahir da terra nuYens d'insectos e reptis, assim,
n0 seculo decimo quarto, depois tla longa fermentação dos seculos pre-
ceclentes, se viram surgir nuvens de sectarios tão inconsequentes e de-
vassos, como contumaces e fanaticos, Frerotes, Dulcinistas, Fraticeles,
Flagellantes, Turlopinos, etc., taes foram os ignobeis inimigos, QUg o in-
ferno vomitou contra a lgreja. Todos estes hereges eram modifreações dos
Albigenses, e outros innovadores já condemnados. Imitando a seus ante'
cessores, faziam proÍissão d'absoluta pobreza, severa mortiÍicação, oraqão
contÍnua, e sobre tudo grande caridade uns com os outros. Debaixo po-
rém, d'esta mascara, esconcliam ac@es as mais abominaveis, que entre si
faziam passar por virturles.
Inimigos jurados da Igreja Catlrolica, que os condemnava a todos,
tlistinguiam duas lgrejas: uma tocla exterior, que era rica e possuia do-
minios e dignitlatles; o Papa e os Bispos, diziam os sectarios, sãoos che-
fes d'esta Igreja: mas ha outra lgreja toda e,rpiritual, que não tem por
fundamento senão a pobreza e a vir[ude, de que nós Somo§ membros.
O odio clos sectarios contra os Summos PontiÍices lhes attrahiu a pro-
leeção de certos principes corrtlennatlos, utrs após outros, por suas Yexa-

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'J2 cATECrsuo

ções, c usurpação tle bens alheios. Juntava-se á heresia um tleploravel


scisma, {u0, por espaço de quasi quarenta annos, consternou
a Igreja:
taes os temiveis meios que n'este seculo empregou o inferno para aba-
lar a obra da Redempção Humana.
Deus, porem, lhe oppôz {.. trinta e no\'e 0rclens ou congregações
Religiosas, que patentearam ao mundo, por modo portentoso, a santida-
de e verdade da lgreja Catholica. A caridatle, reproduzinclo-se debaixo
das mais variadas fórmas, acudia ás nor-as necessiclãcles; ao passo que a
mais solida piedade, a mortiÍicação mais austera, a casticlade mais pura,
eclipsaram as falsas virtudes dos hereges: 2.o granrles Santos de todas
as condições: 3.o Martyres: &.o a palavra poclerosa do sacerdocio e da
Igreja, unida em concilio universal; emÍim, reparou o 6mnipotente as
perdas da sua Igreja com a conversão de novas nações, r,erifliantlo s0-
lemnemente a sua immortal promessa: As portas ilo inferno ndo preaa-
lecerão contra ella (l).
0s erros dos hereges do decimp quarto seculo, eram tão crassos e
grosseiros, Çü0 quasi por si mesmos se refutavam. Suas falsas virtudes,
porem, se faziam perigosas; e por isso mesmo (providencia rJe Deus!),
muitas mais Ordens contemplativas e Hospitalarias floresceram, do que
Apologeticas. Entre outras a dos Dominicos, fundada no seculo anterior,
appareceu cheia de zêlo no cumprimento do seu instituto, e clefeza da
verdade catholica.
De todas as 0rdens Hospitalarias do deciúo quarto seculo, foi a dos
cellitas que mais floresceu. Não ha estremosa mãe, que tanto estremeça
um Íilho unigenito, como o Senhor ao homem, que e 0 seu Íilho queri-
do. A prova d'esta verdade, capaz d'abrandar um coração de bronze, lê-
se em cada pagina d'este Catecismo. Trazei á memoria os seculos passa-
dos, e perguntai a cada um d'elles: Tem-me Deus amor? nem um deixa-
rá de responder, com mostrar especiaes e variados penhores do amor di-
vino. Não ha necessidade, que se occulte aos olhos, não digo bem, ao
coração attento do nosso ReCemptor: a nossa alma e o nosso corpo en-
[ram alternadamente nos Íins da sua Providencia. Não provê elle só ás

(1) IUath. XVI, 1E.

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DL PERSEVERAN[]i\. BJ

ilecessidades da nossa vida, ainda rlepois da morte,


e n0ss0 c0rp0 ohje-
cto de seus cuidados. Bsses despojos mortaes não são desprezidos de
Deus. A Religião illuminada das suas luzes, consagra os lugaiu,
.* qre,
repousando, aguardam a resurreição ultima, e o.árdo vela junÍ,0
cl,elles,
c,mo desvelada mãe, junto ao berço de seus firhos.
Àssim, pois, o Divino Salvador, por sua intinitá soliciturle, nos intimou
ser uma tlas mais meritorias obras a de sepultar os mortos; e, por isso
que este dever e penoso e repugnante á nossa natureza, porque
não ca-
hisse n0 pouco respeito dos homens, inspirou a fervoroio, ci,rirtão,
.
devoção de a tomarem por sua principal ôccupaçao. succedeu isto
no
decimo quarto seculo em '1309. Reuniclos estes religiosos em Communi-
r1ade, Íomaram 0 nome de Cellitas, que signiÍica irmãos
do sepulcirro (,1),
ou vulgarmente irmã,os da tumba. visitavam elles os enfermós, protliga-
lisavam-lhes todos os oÍlicios da cariclacle, oravam por elles, ajurlavam-
nos a bem rnOrrer, assistiam-lhes aos funeraes, em Íim lhes
dayam se-
pultura, junto cla qoal todos os dias resavam o Officio dos tlefuncros.
Em tempo de pestilencias é que mais zelosos e assiduos se mostra-
vam com. 0§ enfernos; e para que não desanimassem em tão perigosa
enfermidade, faziam estes bons religiosos, cheios de carirlade vórdadei-
ramente heroica, particular vo[o de não sahirern cla cabeceira dos
doentes,
que fossem feridos da peste. Ilavia tambem conventos
de Religiosas Cellitas,
com o mesmo instituto; porern eram isentas clo tlever, múiio
rnais pe-
n0s0 e repugnante, de assistir aos criminosos condemnatlos 'o
á morte,
que só pertencia aos religiosos d'esta Ordem (2).
Quando o supplicio se [orna necessario, intercecle a Religião a sua-
visar-lhe o rigor. Cireia de compaixão e misericordia, consolin6o
e ani-
mando o culpado, exalta-o: pârâ assim dizer, a seus proprios
olhos, en-
sinantloJhe gue a acceitação da morte violenta tern particulares privile-
gios, de desarrnar a jusiiça divina. N'aquella hora
extrema sabe a Igreja
inspirar aos Íieis tal intel'esse e compaixão do crifninoso, guo
o rotlêarr
cle mais orações, votos e bengãos, do que tem muitas yezcs
urn justo no

(1) Do latim cetta)sr,pulchr.o, eur Tertulliano,


'.2) Helyot,
t. III, p. 414.
..

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3[ CÀTECISII0

qtte o
m6melrtg Supremg cla vida. Ella colloca a0 Seu ladg o Sacerdote,
ter-
não desampera um instante. Palavras cheias cle doçura e c0ns0laÇã0,
celeste, infun-
nos e paternaes abraços, imagens persllasiYas do perdão
a esperanqa cm
clem-lhe 0 arrependimento no coraçãg, e fazem. brilhar
sua fr6nte. Em aigumas nações intimam a sentença
a0 condemnado tres
justiça, l3ranta
horas antes da execuçã0. Illal acalla de fallar o oflicial da
tocam á agonia, que dura
a Igreja a sua vgz; iotlos os sinos da ciclacle
povo, que re'
tres hóras. Ctrama o som Iugubre aos templos multidão de
za e chora em sobresalto, e espectativa do
que vae succeder' 0s signaes
acabam; põe-se a caminho o terrivel prestito; mas
lá rompem na frente
penitencia, e com cirios accêsos re-
os irmãos da cruz, que em habitos de
zam em alta voz, e convidam o po\'o á oração'
se intima a ter-
Ha ainda em Hespanha outro temo costume' Apenas
pedindo para o p0-
rivel seltença, um pieãoso irmão percorre a cidacle,
bre condemnado; e as ofiertas se empregam nos ofÍicios de sepultura e
celebração 6os Santos I\Iysterios. O SaciiÍicio
Di'ino ac.mpanha o sacriÍicio
para assim clizer com o clo
da terra; o Sangue do Hómem-Deus mistura-se
cheio cle conÍianÇa na miseri-
culpado, a fim de o puriÍicar; e o Sacerdote,
para o condemnado' diante
corclia clivina, levaniando a vgz e os olhos
aprestos d'uma aÍfrontosa morte, aponta-lhe a ultima
vez
dos terriveis
emfi
fu., o Ceo, .lembra-lhe a eternicla
e es-

palavra s '- Vai meu fi' glori


ias sublimes
D'est'arte ennobrece e sanctiÍic a mo Re-

corrlando-se d'aquelle crirninoso,


unto pri-
vend e res uma
meiro, que entrou no Paraizo;
conÍissão de sangue da justiça clivina, ella
tira ao supplicio o seu 0ppr0-
justo, e purifica o
brio, põe em pirallelo a morte do criminoso e a do
patibuio com a Cruz do Calvario ({)' í1nnnn
congregaçoes
No momento em qlle os trmãos cellitas, e numerosas
evidentemente que a carida-
de Religioro, ,àntr.mplàtivos mostravam tão
unicamente na Igreja
de, e todas as virtuàes christãs estavam sempre e
momento em que a lucta entre 0 bem e o
mal mais se
catholica; n0

(l) Veia'setlm& eseouçào em Roma' uas


Ti'e's Rontas' t'-II'

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DIJ PDRSE\.ERÀNcÀ. 3)i

accendia, e 0 grande .icisma do Occidente, unindo-se á heresia, ameaçava


submergir a barca de Pedro; os Fieis, cheios de conÍiança, let'antain pa-
ra a Mãe de Deus as mãos supplicantes, pois bem sabem, com os Santos
Padres, que ella e a mulher forte, que esmagará o collo da Serpettte, c
triumphará de üoclas as lteresias.
Santa Brizida, princeza da Suecia, teve n'este tempo inspiraçÍo di-
vina, para fundar uma Ordem Religiosa, especialmente destinada a obter
a poderosa protecção da Rainha do Ceo. Abençoou visivelmente Deus es-
ta santa empreza. Illaria Santissima, invocada com ardente fervor, calcou
com o seu pé Yirginal a cabeça do infernal dragã0, e a Igreja foi salva.
Ouçamos em poucas palavras a historia de Santa Brizitla. Nasceu
esta princeza no anno de {302 da familia reai de Suecia. Foi sua eclu-
cação conÍiada a urna sua tia, cujas raras virtutles se esforçou Brizida
por imitar logo que pôde comprehendêl-as; manifestando descte a mais
tenra infancia a maior atleição a todos os exercicios de piedade. Nem es-
friou o seu fei'vor religioso no estado do matrimonio, que contralriu por
conselho de seus paes. Tendo seu marido adoecido de gravissima doen-
Çâ, da qual convalesceu pelas fervorosrs orações de sua esposa, como
por esta occasião conhecesse a fragilidade da vida e de todos os bens
temporaes, obtido o consentimento de Brizitla, retirou-se para un mos-
teiro da Ordcm de Cyster, onde morreu alguns annos depois corn cheiro
de santidade.
Logo que se viu livre, rcnunciou Brizida a qualiclacle de princeza, pa-
ra se consagrar inteiramente á penitencia. Repar[iu, por seus filhos, totlos
os seus bens, esqueceu tudo o que tinha sido no mundo, e só cuidotr
em alcançar o glorioso titulo de serva dos pobres. A caridade para com
estes membros de Jesu-Christo, a mortiÍicação e a oração se tornaram
suas mais caras, e deliciosas occupações. Foi pelos annos rJe 13L4, que
Nosso Senhor lhe inspirou a idea de ftrndar uma Orclem, para honrar a
Santissima Virgem com especial culto. A opportunidadc d'esta funclação
e mais uma prova da a,lmiravel providencia, que vela pelas necessidacles
da Igreja.
Eis em resumo a regra d'estc celebre instituto, que revela a rnais
alta sabecloria. Cada mosteiro tom o r)umero Íi.ro cle sesseuta lleligiosa-s.

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36 cÀrEcrslro

Àlguns Religiosos Sacerdotes se incumbem de as dirigir e adrninistrar-lhes


os Sacramentos. Toclos os dias reci[am as Religiosas o OÍlicio da Santis-
sissima Virgem, assistem a uma Missa cantada em ltonra da mesma Se'
nhora, e cantam por ultimo a Salae Rainha'. Para perpetuar o verdadei-
ro espirito do Elangellto, e imitar os primeiros Christãos, que formavam
todos um sÓ coração e uma sÓ alma, nlo só e tuclO commum entre as Íi-
lhas de Santa Brizida, mas observam ainda a seguinte prática. Antes de
começar Yesperas, tendo recitado a Ave-Maria, os Religiosos e Religiosas
peclern perdão uns aos outros. 0 primeiro côro inclina-se profundamente
dizrntc clo outro, dizendo: Perdoai-nos plr arnlt' de Deus e de sua illã,e
San,tissi.,mtt,, Âe por palauras, acções 0u gestos aos temos offendido; plr-
çlue, quanlo a nos, se em alguma clusa nos houuerdes offenLlido,
uol-o
periloarnos de todo o coraçã0. Depois se inclina o segundo cÔro, e repete
o mesmo. Ordenam-se jejuns frequentes, vestuario pobre e silencio quasi
continuo.
Quando mol're algum Religioso ou Religiosa, dão-se de esmola aos
pobres 0s seus haltitos, e em quanto não e substituido por outro, que
então se admitte para o lugar vago, dá-se [ambem aos pobres a Sua ra-
çã0. Toilos oS annos, antes do dia de todos os Santos, calcula-se a por'
ção de viveres necessarios para o anno Seguinte; e o que ha tle - rnais
em generos on dinheiro, distrihue-se pelos pobres ao outro dia da festa
tlos Santos, de sorte que a 0rdem só possue 0 que lhe e absolutamente
necessario
No cemiterio.de cada mosteiro está Sempre aberta uma cova, onde
to6os os dias vai a abbadessa e as religiosas, e feita breve oração e me-
ditação cleita a prelada um punhado tle terra dentro d'ella. Da mesma
sorte está um caixão e tumba á entrada da lgreja, para recordar aos clue
entram que um clia hão-de morrer. Que sérias e saudaveis meditações
não hão-cle suscitar estes objectos t Depois que dos templos, e de nossas
proprias casas, repellimos tudo que possa despertar a lembrança da mor-
te, somos por ventura mais attentos á oraçã0, mais desapegaclos do mun-
do e de costumes mais puros do que eramos antes ?
Yendo, pois, estabetecida a sua Ordem, fez Santa Brizida devotas
peregrinações a clifferentes sanchrarios, que foram occasião de cliffundir por

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DE PDRSTIVERANÇA. 37

onde passava o bom cheiro de Jesu-Christo, e o culto de illaria Santissi-


ma. Nada ha tam celebre como as suas revelaçõcs; as guaes [eem 00m0
principal objecto 0s pormenores da Paixão de Ctrristo, e as revoluções
qtle ha-de haver em certos reinos. 0s Summos PontiÍices naJa acharam
n'ellas contrario á fé c?tholica, e ate declararam que se pótle crêr pia-
mente, supposto não sejam pontos de fe. Nltrreu Santa Brizida em Ro-
ma, prüvecta em annos e merecimentos, a 2J de Julho de {873 (l).
Iguaes exernplos de santidade, c0m0 os gue davam na solitlão clo
claustro as 0rdens religiosas. dava publicamente s. Elzearo, n0 meio
das classes elevadas da socieilade. Este n0v0 apologista da Igreja Catho-
lica, modêlo dos casados e dos paes de familia, nasceu em {2g5 em Ro-
bians, perto do castello d'Ansois, na Diocese cl'Apt, da illustre e antiga
casa de sabran, na Provença. sua piedosa mãe, a r{uem pela caridade
e exemplares virtudes chamavam aboa conrlessa, apenas o vio nascitlo,
tomando-o nos braços e oflerecendo-o a Deus, lhe pediu com lagrimas,
gue antes lh'o levasse depois do Baptismo, do que chegasse elle um dia
a manchar a alm.a pelo peccado. Desde a mais tenra infancia, mostrou
Elzearo singular caridade com 0s infelizes, e muitas vezes repa;"tia o
seu jantar com os meninos pobres. Formou.o nas scielcias seu thio
Gui-
lherme de Sabran, abbade do celebre mosteiro rle S. Victor em Marse-
lha, e depois de solidamente ediÍicado na pieclade e na prática da mor-
tiÍicação, o casaram na idade de quatorze annos com DelÍina Glanileves,
gue tambem não contava mais de dezeseis annos. Antes, pórem, de
ca-
sarem, se otirigaram por mutuo consen[imento a viver como irmãos,
unidos sÓ pelo vinculo da caridade. As ausÍericlades que estes rlous
se-
re.s angelicos praticavam na Quaresma, faziam recorclar
a vida dos Santos
Penitentes da primitiva Igreja.
Apenas tinha Elzearo vinte e [res annos, quando a morte
lhe arre_
batou seus piedosos paes ; por cuja occasiã0, entrando na posse
de uma
grunde herança, entendett que lh'a enviava a Providencia
p^ara soccorrer
os pobres e promover a gloria de Deus. senhor d,uma
immensa for[u-
na, nem um só instante deixou de proseguir no alcance
dos bens eter_

(1) Helyof .,1.7., p.2it; Gocl. B cl,Out.

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3S CÀTII]CISTIO

nos. T0r10s 0s dias rerita\:a 0 OfÍicio Divino e frequenteúente c0rnmun-


gava durante a semana. Sua piedade
ninguem havia mais alegre e amavel
activo e prudente na paz, vigilan[issi

meiro o exemPlo.
{.o Totlas as pessoas tle minha casa ouvit'ão missa diariamente,
qlaesquer que sejim as occupações que tenham' Nacla faltará na casa
onde se ser\;e bem a Deus.
2.0 Se algum de meus clomesticos jurar ou blasphemar, será
punido

c.m severidade. Poderei eu soffrer de portas a clentro bÔcas infames,

que introcluzam o veneno nos corações ?


3.0 Respeitem todos o pudor; a menor impureza de
palavra ou
cl'acção não Íicará impune em casa d'Elzearo'
4.o Tanto homens cOmo mulheres devem tonfessar-se
todas as se-
manas. I\iguem tenha a desgraça de Ílcar sem a sagrada communhão

cuidar das suas ohrigações.


6.o I\ão quero em minha casa divertimentos de jogos d'azar' Não é
ou que os
porém minha intenção que o ureu castello seja um claus[ro,

(1) 1. Tim. V. 8'

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DIi PERSII§EnÀNÇA. 39

meus familiares vivam c0m0 heremitas; não prohibo que se distraiam e


alegrem, com tanto que nacla façam contra a sua consciencia.
7.0 Srrscitanclo-se alguma disputa, quero que inviolavelmetrte se ob-
Serve o preceito tlo Apostolo, que manda nos reconciliemos, antes do pÔr
tlo Sol. Não querer perdoar ao proximo e procedimento diabolico. Amar
os inimigos e dar o bem pelo mal, e a divisa dos Íilhos de Deus. Se eu
tiver domesticos d'esta qualidade, franquear-lhes-hei a casa, a bolsa e o
coração.
8.0 Todas as noutes se rounirá a minha familia para assistir á cott-
ferencia em que se fallará de Deus, da salvação e dos meios de alcan-
çar 0 Ceo. Não tenho negocio algum que tanto me importe como a sal-
vação dos clue me servem.
9.o Prohibo a todos 0s meus ofÍiciaes, debairo das mais sevcrils
penas, que façam o menor damno a quem quer que seja, ttos bens
ou na honra; quc opprimam os pobres, 0u que a pretexto de manter
Rleus direitos, prejudiquem os dos outros.
O exemplo d'Elzearo era a explicação prática d'este regulamento.
Delfina ia de perfuito accôrdo com os designios de seu marido, e
lhe prestava inteira obediencia. Bem sabia a piedosa condessa, que as
práticas de ReligiÍo proprias da mulher casada, nã0 são as mesmas d'uma
freira; pois não deve aquella separar a vida activa da contemplatit'a ; e
para assim o poder cumprir de tal sor[e repartia o tempo, que lhe che-
gava para tudo. Bondosa, affavel, attenta, vigilante e em extremc com-
passiva, era honrada de todos os familiares, c0m0 mãe, e ella 0s amava
como Íithos. 0s amos virtuosos fazem os bons creados, e as Íamilias dos
Santos são as familias de Deus: Elzearo e DelÍina provavam a verdade
d'esta maxima.
Tendo sido nomeado aio do joven Rei de Napoles, e depois chefe do
conselho da Regencia, viu-se Eizearo quasi inteiramente cncarregado dc
toclos os grandes negocios do reirro. N'es[a qualidade, pediu o Santo atr
joven principe a graÇa de o constl[uir advogado dos pobres abandonados.
«0 oÍIicio que me pedis, disse o principe sorrinclo, creio não terá muitos
competidores. Bu t'o conceclo, e ponho debaixo da [ua protecção todos
os pobres d'este reino., llandou Elzearo fazer uma bolsa que trazia pe-

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10 CATECISiIÍO

las ruas, püra recebcr'as pelições dos desgraçailos. Ouvia seus queiru-
mes, drs[ribuia-lhes esmolas; e a ninguem deixava sem consolaçã0. Encar-
regava-se elle proprio d'advogar a causa de viuvas e orphãos, e não con-
sentia que se lhe fizesse injustiça.
Tendo passado alguns annos no exercicio d'este cargo, Elzearo vol-
tou ti França, e morreu em Paris a 27 de Julho de 't323. Santa Delfina
qtre lhe sobreviveu quarenta e tres annos, perpetuou na terra suas virtu-
des, e foi depois no Ceo partilhar sua corÔa. Docil á voz dos milagres,
com que Deus proclamava a santitlade d'estes seus servos, collocou-os a
Igreja em seus altares. Podia ella offerecer aos que vivem no mundo,
modêlos mais perfeitos ?

oRaÇÃ,.o.

0' meu Deus t que sois todo amor, eu vos dou graças por haverdes,
pelo esplendor de tantas virtudes, defendirlo a verdadeira Igreja dos es-
candalos, e falsas virtudes dos hereges. Permitti, Senhor, que pratique-
mos oS deveres do nosso estado como Santo Elzearo e Santa Delfina.
Bu protesto amar a Deus sobre todas aS cousas, e ao proximo como
a mim mesmo por amor de'Deus; e, em testemunho d'este amor, oisita-
rei os enfernos.

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XLIV." LIÇÃ0.

0 Christianismo conservado e propagado.

(conrnuaÇÃo Do xlv.o snculo.)

A Igreja consolarla: SanÚa Isalrel, roinh& de PorÚugal; illnr'


úyrcs da LiÚlruaniai s. Joáo Nepomuceno - Â. IgreJa aÍIIi-
oúa: grande scisma do orienÚe; - consolado; miesõo de
Joõo de ffionücorYin; colrversão de parÚe da flarÚarial con-
versão da LiÚIruania.

Em ,l3l,l, tinha o Concilio de Vienna em França, gue foi decimo


quintg ecumenico, coníJemnado os erros dos sectarios, reformado os cos-
tumes, e prgcuraclo eÍlicazmente 0 progresso das sciencias, estabelecen-
do cadeiras nas universidades, para o ensino das linguas orientaes. Des-
t'arte se manifestava o p6der e vigilancia da Igreja ; e nem a sua inalte-
ravel Santidade se patenteava com menos esplendor. Por toda a parte
resplandecia, assim nas cÔr[es dos principes, e nos degráos do throno,
comg nas mais humikles contlições da sociedade. Mostrando-se assim
cheia de vida, a verdatleira Religião fazia emmudeccr os sectarios, e torna-
va indesculpaveis os que seguiam o erro.
Entre 0s mais illustres Santos do seculo XIV, [em lugar Santa
Isabel, Rainha tle Portugal. PÓtle dizer-se que todas as virtudes su-
biram a0 throno com esta princeza. Filha de Pedro III, rei de Aragã0,
nasceu em {271, e foi-lhe posto o nome delsabel, por causa de sua thia,
Santa Isabel de Hungria. Foi eclucada por seu avÔ Thiago I, chamado
o
'sqnfo pgr SuaS virtudes, e o conquistaclor, por causa da tomada de

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h2 carccrstro

llayorca e de Yalencia. i\Iorrenclo deixou já sua neta penetra6a das mais


sublimes maximas da piedacle, ainda que não tinlra dez annos completos
de idade.
Tinha havido todo o cuidado, em não cercar Isabel senão 6e pes-
soas virtuosas, cujos exemplos pocléssem sen'ir-lhe continuamente tle li-

Casada com Diniz, rei de Portugal, a noya Esther não se fascinou

de Nossa Senhora, e o dos defunctos. Tinha regulado suas horas tanto


para a lei[ura de livros santos, c0m0 para seus negocios domesticos, as-
sim como para o cumprimento de todos os outros seus rleveres para cgn
o proximo.
0 seu trabalho consistia em fazer ornamentos para as igrejas, ou
vestidos para os .pobres, n0 que era ajudada por suas damas d,honra.
D'esta sorte não lhe restava nenhum momento para conversações inuteis,
ou para divertimentos frivolos.
Por seus cuidados, os cstrangeiros tinham alojamentos, e tuclo 0 que
lhes era necessario. Fazia procurar com exactidão os pobres envergonha-
dos, e lhes ministrava secretamente o necessario para sua subsisiencia,
d'um modo em conformidade com o seu estado. As raparigas pobres, tantas
vezes em perigo de offender a Deus, encontravam em suas liberaliclades
um dote para se casar segundo sua condição. EIla parecia não viver se-
ruão para 0s desgraçados. Tantos cuidados não a impediam de cumprir
todos os seus mais deveres.
Amava e respeitava seu marido, era-lhe submissa, e soffria suas fal-
tas com paciencia. A excellentes qualidades, Diniz ajuntava paixões vio;
lentas. Isabel, sensivelmente tocada da offensa de Deus e do escandalõ

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PERSEYTNÀNCÀ. h3
DB

fazia orar por sua


que resultalam de tar:s paixões, orava assicluamente, e
que torlas as espo-
conversã0. além cl'isto, ella adoptava o meio infallivel
bem: procurava ga-
Sas flevem empregar, sob pena de nunca se sahirem
com uma to-
nhar o coração dJseu mrii,lo por via da doçura, e reparava
cante ltondade as desordens de suas.paixões. sorrnnn,
occtiPaR-sE, oRÀR

E cÂLan-sE, era a sua grande divisa'


N'isto seguia o e-"xempto tle Santa Clotilde, que o tinha hertlado
de
a conversão
Santa Nlonica. Esposas chiis[ãas, que quereis sinceramente
de vossos urporor, sê me é permittitlo dar-vos um conselho,
adoptae es-
a Deus que
ta divisa, 0u, se gostaes mais, esÍa receiÍa tradicional' Pedi
a grave com letra-s de fogo em vosso coração ; meditai-a cada manhã :
ao

faiei d'ella a regra immutavel de vossa conducta


pe tlo v0ss0 cruciÍixo ;
; successo é infa]Jivel. Lembrai-r'os que só fortes por vossa angelica
Eis
doçura. ô-
As erprobrações, as queixas, os ralhos, o mau modo, não farão se'
rei seu es'
não augmentar o mal. À conducta de Isabel abriu os olhos do
pgso : eile rrnrnciou a suas desorclens. Suas virtudes naturaes, embelleza'
a gloria e
ãas pcla religiã0, brilharam com noY6 resplendor, e tgrnou-se
o idolo tte seus vassallos. Foi pouco tempo antes de sua perfeita con-
versão que teve lugar o seguinte facto'
quem ella se ser'
Isabel tinhr om prgem extremamente virtuoso, de
via para a distribuiçaô Oe suas esmolas secretas. Outro pagem, invejoso
resolveu per-
do favor de que aquelle gozava por causa de sua virtude,
dêl-0. Para 0 conseguir, carreggu'o com as mais odiosas imputações'
Diniz, acostumatlo a pensar mal dos outros, acreditou na'calumnia, e
formou 0 projecto de matar o pretendido criminoso' Tendo mandado
chamar um mestre d'um forno cle cal, disse-lhe :
«Hei-tle mandar-vos um
pagem que vos perguntará: Tendes executarJo as ordens do rei ? será es-
"o e lançai-o no fogo, para
ie signal, pelô qual o conhecereis. Agarrai-o
por ter justamente incorrido
qo. rr;ã queimado. Elle mereceu a morte,
na minha indignaçã0.»
No dia tlesignado, o pagem virtuoso foi mandado ao forno da cal.
Indo seu caminho, entrou n'uma igreja para adorar Nosso senhor. Não
contente tle assistir it missa que tin ha começaclo, ottvin ontra'
No entre-

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Ll ÍtATECrsilo

0 pagem da rainha, depois de ter satisfei[o sua devoçã0, continugrl 0


seu caminho; chegou ao forno e perguntou se a ortlem 6o rei
estava
erecutada. Responderam-lhe que sim, e voltou ao palacio 4ar
conta da
stla commissã0. 0 rei Íicou singularmente admiraú0, ven6o-o de volta
contra o : [anto que soube o que se tinha passaclo,
adoiou o justiça á innocencia dô pagem, e respeitou
d'ahi em a Railha.

Não lhe sahia a desvelada esposa da cabeceira clo lei[0, ella mesma o
servia, e desejando sobre tudo gue elle morresse santamente, fazia largas
esmolas, e encommendava orações por toda a parte, a íim fle lhe alcan-
çar de Deus aquella graça. 0 sentror ouviu a sua humilde serva : o rei
morreu christãmente, dando em todo o decurso da sua doença, provas rJa
mais sincera penitencia.

nunciou a hora da sua morte; confessou-se muitas vezes, recebeu de joe-


lhos e junto do altar o sagrado viatico, e em Íim, a extrcma-unção. Esta
digna filha de Maria, mostrou para com sua divina I\Iãe a rlevoção mais
terna, e manifestou a maior alegria guando o Celestc Dsposo a veio cha-
mar para as eternas nupcias, que foi a 4 de Julho de ,13g6. Estron-
dosos milagres assignalaram a verdade, e heroismo de suas virtudes; e
a Igreja teve occasião de oppôr aos sectarios, esta illustre princeza, Íi-
lha, esposa, e mãe de reis, como n0\'0 monumento de sua imrnortal san-
üdade.

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l*Ü
DE PBRSEIIiRÀNÇA.

Àinda n'este seculo teve a igreja mais outros eloquentes defensores,


que cOm o seu proprio sangue r]eram testemunho da santidade de sua
moral, verdacle tle seus dogmas, e tlivintlatle de sua origem' Teve mar-
tyres o seculo decimo quarto.
!
l'ilhos da Igreja batholica foi por vÓs e por ella que elles combate-
ram: prestai-lhes a-hornenagem da vossa gratidã0. Lançai os olhos para
fron-
o Nortã, vêde esses tres rlistinctos manccbos cla Lithuania, em cuja
te resplanclece o fulgor cla immortalid.acle; seus nomes são : r\ntonio, Joãg,
d'uma
e Eusiactrio. 0s cloús primeiros são irmãos, nasoidos na Lithuania,
gran-du'
tlas mais illLrstres familias, e todos tres camaristas de Olgerd,
que ile Lithuania, e pae do famoso Jagellã0. Qual ftli o motivo da sua
morte ? eu vol-o digo.
Etlucaclos nu,r.ligiao do paiz, era 0 fogo a unica divindade que ado'
rayam mas tentlo a ventura tle conhecer a vertlade, converteram'se
ao
;
ctrristianismo, e receberam o baptismo. como acon[ecesse. rlepois não
quererem c3mer as viandas prohibitlas em dias de jejum, custou-lhes es-
tã abstinenc.ia a liberclade e a vitla. 0 gran-cluque 0s mandou prender,
e 6epois de horriveis torturas 0s condemnou á morte. Eustachio, o mais
*oçó, teve de passar pelas mais dolorosas prgvas. Moeram-lhe o corpo
cgm bastonar]as, cortaram-lhe aS pernas, e lhe arrancaram á força 0S ca'
bellos e a pelte do craneo. Padeceram estes santos martyres em Wilna,
pelos ann6s cle I342; sendo enforcados em um grande carvallto, que ser-
,i. O, forca aos malfeitores, e onde depois ninguem mais foi enforcado.
Compraram 0s Christãos esta arvore ao principe, e bem assim o ter-
reno on6e estava, no qual depois se erliÍicou uma lgreja. Não tardará
que vejamos que o saugue d'estes martyres não foi infecundo.
Deixemos a Lithuania, e passemos á Allemanha, onde outro tcste-
munho de sangue se offerece a conÍirmar a fe quc professamos ; e reivin-
dicar para sempre, das calumnias da impiedade, üD dos mais sagrados
dogmas da Igreja Catholica. Occupava o throno imperial um principe,
alcunhatlo pela historia com os epithel,os de aadio e bebado. Seu nome
era Wenceslau, e residia na cirlacle de Praga. Não longe d'esta cidade
viu a luz rlo clia em {330 um mening, qtle foi baptisado com o nome de
Joã0, e se t6gnominou Nepomucgrtg, da cidade de Nepomuck, onde nas-

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4$ cÀTrclsilo

cêra. Apenas recebeu a vicla, esteve a ponto de a percler ; nras seus


paes, irnplorando a protecção da Mãe de Deus, na Igreja d'um
mosteiro,
proximo, da Ordem de cister, obtiveram a saude do menino, e em reco-
ntrecimento lh'o consagraram, nacla poupando para o eclucar de motlo,
que fosse digno Íilho de Maria.
Crescendo em virtudes como em itlade, recebeu João Nepomuceno
o griiu de doutor em Theologia e Direito Canonico, na celebre Universi-
clade tle úaga, emula e irmã das universidatles cle Paris e paclua.
Desde
seus primeiros annos mostrou decidida vocação para o estado ecclesiasti-
c0, a0 qual dirigiu todos os seus estudos ; e fezseu noviciado participan-
do com frequencia da Sagraila Communhã0. Apenas recebeu ordens sa-
cras, mandaram-lhe que exercesse no pulpito o raro talento, que tinha
para aquelle ministerio. Correu toda a cidade a ouvil-0. 0s esiurlantes,
então em numero de quatro mil, iam em multiclão aos seus sermões,
que produziam admiraveis fructos de sah'açã0. Chamou o arcebispo de
Praga para junto de si aquelle homem, que conhecia tão cheio do espi-
rito de Deus, e lhe deu depois um canonicato que vagou na sua sé.
chegou aos ouvidos de wenceslau a fama do servo de Deus, e quiz
ter d'elle conhecimento immediato, encarregando-o de pregar o Advento
na sua CÔrte. Sem que desconhecesse a diÍIieuldade d'este encargo, João
o acceitou; e o imperador, commovido por seus discursos, apertou por
algum tempo as redeas a suas clesordenadas paixões, e offereceu ao San-
to um bispado, que elle recusou, bem como outra dignidade, a que esta-
yam annexas consideraveis rendas.
Quanto mais, porem, desprezava o mundo, mais permittia Deus que
o mundo o estimasse.
Era a imperatriz, esposa cle Wenceslau, ornada de grandes virtudes,
e levada da uncção que respiravam os discursos de João Nepomuceno, o
elegeu para clirector de sua consciencia. Não foi ella a unica pessoa cla
côrte, que quiz ser dirigida por este servo cle Deus, antes todas que
eram virtuosas lhe enuarregaram suas almas. Era João Nepomuceno acl-
miravel na sciencia cle ft-rrmar santos no fastigio do throno, consolar e
tornar felizes os attribulados, e fazer emÍim, amar e praticar o Evangelho
ás classes mais elevaclas, cousa que é ordinariamen[e rara.

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DE PERSE\ERÀ,r*ÇÀ' \i

Entretanto, o brutal \\renceslau, tcve um dia o desejo tlto novo, co-


mo extravagante, de obrigar João Nepomuceno a revelar-lhe a conÍissão da
imperatriz. Para isto manclou chamar o servg de Deus, e comeÇou por lhe
dirigir perguntas intlifferentes ; e tirando a mascara, se explicou por ul-
timo abertarnente. João, cheio d'horror, lhe representOu quanto este de-
sejo era contrario a razáo, e offen'sivo á religião; mas não foi attendido.
Naila poclendo obter, fez Wenceslau encerrar o santo em um calabouç0.
Àlgum tempo depois, foi João novamente trazitlo á presença do impera-
dor, e conviclado ate para a sua mesa. Findo o jantar, e despedidas todas as
mais pessoas presentes, Íicou Wenceslau só com elle, e redobrou esfor-
ços para o mover a descobrir-lhe a confissão da imperutriz. 0 santo res-
pondeu cgmo tl'antes, que era obrigado ao mais inviolavel segredo, pelas
leis naturaes, divinas e humanas ; e que nada seria capal, de o forçar a
trahir o seu dever.
Yendo a inutilidade dos meios ate alli empregados, Wenceslau rúo
conteve mais os transportes do seu furor, e ordenou que mettesse[I 0ü.
tra vez o santo na prisã0, e ahi fosse tratado coln a ultima barbaridade.
Tendo-o estendido sobre uma especie de cavallete, lhe applicaram os al'
gozes archotes accêsos, e queimando-o a fogo lento, o,atormentaram do
modo mais horrivel.
No meio tto supplicio, não pronunciava João Nepomuceno outras pa-
lavras mais que os Sagrados Nornes de Jesus e Maria. Tiraram-no em
Íim do potro, quasi moribundo, e Wenceslau o mandou lrazet inda as-
sirn á Sua presença : nEscolhe, lhe disse elle, ou morrer ou revelar a
confissão da imperalriz.» O santo nada respondeu; e o silencio bem ma-
nifestava o Seu pensamento. Bntão o tyranno, desenganado que nada con-
seguia, exclamou furioso: «Apartem este homem da rninha vista, e lan-
cem-no ao rio quando seja noute cerrada, para occultar ao povo esta exe-
cução».
Empregou o santo martyr aS poucas horas que lho restavam em pre-
parar-se para o sacriÍicio. Chegada a noute, ligaclo de pes e mãos, o lan-
çaram no Muldava, precipitando-o do cimo da ponte que ha entre a gran-
de e peguena Praga. Succedeu isto na vespera do dia da Ascensão do
Senhor, aos 13 tle Maio de 1383. .\penas o santo martyr foi suffocaclo,

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.'18 cÀTECrsNo

pelas aguas, o seu c0rp0 volveu á superÍicie, e o circumdava um clario


celeste, que attrahia á praia grande numero cle espectadores. À impe-
peratriz, que nada sabia do que era passado, correu a perguntar a \\ren-
ceslau, que luz seria aquella, que tinha visto da janella da sua camara ?
0 tyranno. atterrado com isto, nada responrleu; mas partiu immediata-
mente para uma casa de campo, a Íim de esconder a confusã0, e vergon5a
prohibindo que ninguem 0 seguisse. Ao amanhecer já se sabia tudo;
porque os proprios algozes revelaram o segredo do principe.
Toda a cidade correu a vêr o c0rp0 do santo; e os conegos, nada
receiando já, sahiram em procissão da catherlral, e conduziram as reli-
quias do martyr á Igreja. de Santa Cruz. Muitos doentes recobraram a
saude durante a trasladaçã0. Assim morreu S. João Nepomuceno, justa-
mente contado em o numero dos lllartyres. Este ultimo titulo lhe é sin-
gularmente glorioso; porquanto, não tendo o sigillo da confissão excita-
rlo ate atli o furor dos tyrannos, foi ao martyr de praga que coube a
gloria de o confirmar com 0 seu sangue; e d'est'arte reivindicar a Igre-
ja das calumnias, que sobre este ponto lhe imputavam seus inimigos.
Serviu tambem este martyrio de consolar a Esposa do Homem-Deus
do deploravel scisma que então a dividia, conhecido pelo nome tle Scas-
ma do 0ccidente, ao qual deu origem o seguinte facto. Tendo muitos
Summos PontiÍices Íixado sua residencia em Avinhã0, foi esta ausencia
de grande prejuizo para a Italia, e particularmente para Roma, sendo es-
ta a principal causa porque não apparecem em Roma monumentos da icla-
de media. Quando, pois, morreu Gregorio IX, temendo o povo romano
QUe, se o Papa fosse francez, continuaria a residir em avinhã0, juntou-
se em tumulto ao redor da casa onde os Cardeaes se achavam reunidos,
!
e comeÇ0u a gritar : Queremos Papa rTmanT No meio dos clamores e
ameaças do povo, Íizeram os Cardeaes precipitadamente a eleiçãc d'um
summo Pontifice, que tomou o nome d'urbano vI; a qual, porem, de-
ram por nulla, nomeanclo outro Papa, com o nome de Clemente vII.
Yiu-se pois a christandade dividida em dous partidos sem saber a qual
d'estes Papas havia de reconhecer por verdadeiro. Este scisma, porém,
não teve consequencias tão funestas como outros escandalos ao parecer
menos grales.

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-
DE PERSUVUnÀNIrÀ. &9.

Santo Antã0, Arcebispo de Florença, que escrevia no meado tlo se-


eulo seguinte, fazia já esta reflexã0, dizenclo : «Cada um dos partidos se
julgava cle boa fé, e em consciencia segura ; pois não obstante a necessida-
cle de crêr, que não ha mais ciue urn Chefe visir,el da Igrejg, toclavia quan-
do aconteça elegerern-se dous Summos PontiÍices a0 mesmo tempo, não
ha necessidade de crêr que este ou aquelle seja o legiÍimo. Devemos
crêr sim, que o vercladeiro e c que foi canonicamerúe eleito; e o povo
não está obrigado a discernir n'esta materia. Póde em tal caso seguir o
parecer e 0 cOmporta[rent0 cle seu Pastor par[icular. » cumpre ajuntar a
isto que a successão dos Yigarios de Jesus Christo não foi mais inter-
rompida durante'o scisma tlo que o póde ser na rnorte do Papa. 0 quu
essencialmente constltuo a cadeira e successão apostolica é a perpetuida-
de da doutrina. Todos os oerdadeiros Pa1-ras, que teem precedido 0u suc-
cedido aos Papas dursiilosos, professaram e ensinaram isto mesmo; e es-
tes são unica e incontestavelmente os successores de Pedro. O grande
clesignio de Deus que é a santiÍicação de seus escolhidos, tle nenhum
moclo deixou de se realisar no meio d'esta afflictiva tlivisão: houve santos
em um e outro partido, sob uma e outra jurisdicção.
Em tão grande attribulação não ficou a lgreja sem allivio. Tinha a
heresia arrebatado-lhe, sim, alguns Íilhos indignos d'ella; mas eis que
milhares e milhares d'outros se veem acolher ao seu maternal seio.
0 sanguo dos tres Mar[yres, de que acima fallamos, foi origem de
novos Christãos. Um humilde Religioso de S. Francisco, que debaixo
do borel occultava a coragcrn d'um heroe e o zêlo d'um aposlolo, frei
João de Montcorvin, foi enviado c0m0 missionario ao Oriente. Paltiu
elle a p0, apegado ao seu bordlo, sem mais auxilios que 0s da Provi-
tlencia. Atravessou a Tartaria e a Persia, visitou parte das Indias, e pe-
netrou na China septentrional. ,Levava elle urna carta do Summo Pon-
tiÍice para 0 Imperador: ouçamos o que o. grande missionario nos refe-
re da sua viagem.
«Tendo passado treze mezes nas Indias, na Igreja de S. Thome,'che-
guei ao reino de Cathai (na China septentrional): apresentei-me ao Impe-
rador, que charnam o Gran-Khan, e o convidei, em conformidade com as
letras do Papa, a abraçar a Religião Christã; ello porém, está mui[o en-
lL

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. à0 argctstro

durecitlo na idola[r'il, não obstante ser benigno com 0s christãos. Nos


rloze annos que tenho estarlo n'esta missão, ediÍiquei uma Igreja na ci-
dade de Cambalu, residencia principal do rei ; a qual ha seis annos que
está concluida,. e n'ella levantei sua torre com tres sinos. Tenho bapti-
sado ate hoje perto rle seis mil pessoas, entre ellas um rei do paiz, por
nome Jorge, que descle o primeiro anno que para aqui vim tem sido sempre
meu amigo. Depois de baptisado recebeu ordens menores, e e elle que
me acolytha á Missa, vestido corn suas vestes reaes. Tem este rei conier-
tido grande parte de seus subditos, e fundou em honra da SS. Trindado
uma magniÍica Igreja, á qual deu o nome d'Igreja Romana. Baptisei tam-
bem cento e cincoenta meninos, que hoje me ajudarn no côro ao ofiicio
divino. Eu toco os sinos a todas as horas, mas cantamos de toadilha,
porque não temos livros de canto-chã0.
«Estou velho, porém mais envelhecido dos trabalhos e afllicções, que
da idade, pois estou de cincoenta e oito annos. Tenho traduzido em tar-
taro toclo o Novo Testamento, e o Psalterio. Ensino e prégo publicamen-
te a Lei de Jesus Christo.»
Foi grande o contentamento ilo Soberano PontiÍice quando soube
dos progressos da fé no Oriente; e escreveu a Gonçalves, então geral dos
irmãos menores, mandando-lhe que sem demora escolhesse sete religio-
sos da sua Ordem, Qü0 fossetn dignos por suas virtudes e saber, a Íim
de os ordenar Bispos, e os enviar á Tartaria. Terminava esta carta o Yi-
gario de Christo, dizenclo: «Considerando as grantles acções que, com o
soccorro da graça, tem feito e está fazendo na Tartaria frei João de Mont-
corvin, Nós o elegemos Arcebispo da grande ciclade de Cambalu, e lhe
conÍiamos o governo espiritual das almas nos dominios dos Tarta-
ros ('l).D
Não tardou que a Religião penetrasse na Persia, onde o Summo
PontiÍice creou novos Bispados. Ao passo que a Igreja recebia estas con-
solações, outros filhos de S. Francisco faziam na Bulgaria innumeraveis
conversões. Dentro em cento sessenta e dias baptisaram elles mais de

(l) Fleury, liv. LXXXVII, LXXXVIII,

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DE PERSE\:ERÀNçÀ. 5I

duzentos mil homens; e p&ra que se não duvidasse do numero, fez o rei
lançar nos registros publicos 0s nomes de todos os baptisatlos.
Immortal Esposa do llomem-Deus, Igreja Santa, regosija-te pela vin-
da d'estes Íilhos, e mais pelos qlle o Senhor vai agora concecler-tc. No-
vas flôres ornarão tua gloliosa corôa: a Lithuania experimentará a pro-
tecção de seus martS,res.
Àdoravam aquelles barbaros o fogo, que julga\?m ser perpetuo;
bem como as serpentes e os bosques. Em 1387, vindo á Lithuania Ja-
gellon, rei de Polonia, c0nv0c0u uma assemblea em Wilna, 0H quar[a
feira de cinza; na qual, juntamente com os grandes e Bispos que o acom'
'panhavam, se esforçou por persuadir aos Lithuanos, que reconhecessem
o verdadeiro Deus, e se convertessem á Religião Christã. 0s barbaros
porem se escusaram, pretendendo que era impiedade abandonar os deu-
ses, e abolir os costumes dos seus antepassados. Para lhes mostrar pois
que não era a vertlade quê abandonavam, mas ridiculos erros, ordenou
Jagellon que se extinguisse o fogo perpetuo, que se coRservava em Wilna.
Mandou tambem, em presença dos barbaros, derribar o templo, onde
immolavam as victimas; cortar os bosques, gue diziam sagrados ; matar
as serpentes, que conservavam nas casas, e adoravam por clivinclades.
Vendo os barbaros destruir por este modo a sua religiã0, contenta-
rem-se com chorar e lamentar-se, não cusando oppÔr-se ás ordens do
rei, e esperando que o seu deus viesse vingar a sua propria causa ; mas
como nenhum mal aconteceu aos executores da ordem do principe, abri-
ram os olhos á tuz, e pediram o baptismo. 0s sacerdotes polacos os
instruiram nos Artigos da Fe, e lhes ensinaram a 0ração Dominical e o
Symbolo; mas ninguem mais eÍlicaztuente trabalhou n'esta conversão do
que 0 mesmo rei. Qual outro Santo Estevão, rei d'Hungria, êntendia es-
te grande principe que a civilisação e filha da fe, e que a gloria do mo-
narcha consiste em civilisar por ella os povos conÍiados a0 seu governo.
0s nobres da Lithuania se baptisaram urrs após outros : quanto ao p0v0,
c0m0 fosse um immenso trabalho baptisar cacla pessoa por sua vez, re-
ceberam este Sacramento por aspersao.

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5) CATBCISilTO

oRAÇÃo.

0' meu Deus I que sois todo amor, eu vos dou graças pela constan-
te protecção que haveis dado á Igreja: e para n0ss0 bem que a tendes
defendido e consolado; permitti, Senhor, que escutemos com docilidade
sua maternal r'oz.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao prorimo co-
m0 a mim mesmo por amor de Deus; e, em testemunho d'este amor, ob-
seraarei fielmente os Mandamentos da Santa Madre lgreja.

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xlv.' LtcAO.

0 Christianisno conservado e propagado.

(rv. sucuro).

a rgreJa aúacarta: IViclef, .troõo lrtts, eÚc.; - defendlda: con'


cilio de consÍancia; s. IricenÚe f,'errer, s. casimiro l ordem
«los polrres volunÍarios; Confraria da l[iserioordia'

Yamos assistir de novo aos combates de nossa IIIãe; mas se as per-


seguições que Soffre nos magoam o coraçã0, reanime'Se a nossa fe ao
contemplar seus triumphos. O seculo l5.o em que hoje vamos entrar,
mostra-nos a continuação e desenvolvimento da eterna lucta do inferno
cgntra a Igreja, do mal contra o bem, do erro cgntra a verdade, da car-
ne emfim contra o esPirito.
0 inferno emprega os seguintes meios e assaltos : l.o a continuação
do grande scisma do Obcidente; 2.n Wiclef, João Hus e Jeronymo de Pra-
ga; 3.0 horriveis escandalos e novas heresias ; 4.o a perda da fe em par-
te das povoações christãs do Oriente e 0ccidente.
Para impedir ou reparar o mal, oppÔz Deus : l.o trinta e sete con-
gregações e Ordens Religiosas ; 2.o um Concilio geral; 3.o grandes San-
tos ero todas as classes; 4.o conversão de novos povos.
As heresias do seculo anterior, juntas ao funesto scisma que desola-
va o Qccidente, haviam enfraquecido entre os povos o respeito da autho-
ritlade Pontificia, e levado a toda a parte os principios de revolta contra
a Igreja. Para que estes principios gerassem seitas mais fortes e perigo-
sas bastava metterem-se em alguma cabeça, que podésse dar-lhes ordem
e tornal-as especiosas : appar eceu esta cabeça, e foi a de \Yiclef. Alem

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i;tt carricrslro

tle tltrspeitatlo pela clemissão d'um cargo que occupaya na Unir.ersiclade


d'Oxford, este padre inglez se arremessou primeiro contra 0s mgnges, e
clepois contra 0 Summo PontiÍice, a quem olhava como author de sua
desgraça. Em seus escriptos e sennões atacou abertamente a Igreja, sua
auttroridade, Sacramentos e ceremonias. O clero d'Inglaterra se lsvantou
unanime contra o innovador, condemnou-o, e o forçou a largar o seu cu-
rato.
Levados á Àllemanha os escriptos de \Yiclef, escandeceram 0s espi-
ritos indispostos contra o Clero. João Hu§, sacerdote Bohemio, enreda-
dor e orgulhoso, adoptou as declamações do delirante inglez, e entrou a
dogmatisar contra a lgreja. Discipulo d'este, Jeronymo de praga, assim
chamado'da cidade onde nasceu, sustentou altamente a doutrina de seu
mestre. A corrupção de seu coração o lançou na heresia; a soberba o
tornou contumaz ate á morte.
À estes tres hereges oppÔz Deus grande rumero de doutores ca[ho-
lir:os, reunidos n0 Concilio de constancia, e a propria clecisão do Con-
cilio. Entre os defensores da verdade se distinguiu o Cardeal d'Ailly, ap-
pellidado o marlello dos hereges, e seu discipulo, o celebre Gerson, Chan-
celler da Universidado de Paris. Victoriosamente refutados pelos theolo.
gos catholicos, foram os innovadores condemnados em ltlll no Concilio
tle Constancia, n0 qual a Igrcja prohibiu aos loigos o receberem a Sagrada
Communhão nas duas especies. Já demos a razÁo d'isto, tratanclo do Sa-
cramento rla Eucharis[ia.
Wiclef morreu miseravelmente em Inglaterra: João Hus e Jeronymo
tle Praga foram'queimados vivos por ordem do imperador Segismundo.
Não tcem os impios. com a sciencia e conscieneia que costumam ter,
cessaclo por isto de declamar contra a Igreja; mas, para apreciar o va-
lor de suas accusações, basta saber que o Concilio cle Constancia não im-
pôz outra pena aos hereges, e particularmente a João Hus, senão a de-
posição tlo estado ecclesiastico, e a suppressão de seus escriptos : tudo
o que se fez alem d'isto foi obra do poder civil. se a Igreja concedeu a
João Hus um salvo-conducto, para que viesse justiÍicar-se perante o Con-
cilio, foi com a condição de que ss submetteria á clecisão do mesmo,
quando I sua doutrina fosse julgada heretica, c0m0 publicava o proprio

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DE PERSEVERÀNÇ,\. ir5

João Hus. Tenüo porém este homem faltaclo á sua palavra, julgou o im'
perador Segismundo, que era contrario a torjas as regras da prudencia'
ileligião'e üoa politica, expôr os povgs á setlucçãg d'umfanatico, quede-
quanto respi-
clarava por sua propria bÔca, que havia de dogmatisar em
?
rasse. se o braço da justiça o feriu, a quem o deve Quando é
que a

reyolta e a soberba podem perdoar-se ?


Ziska, discipulo d'Hus, sabedor da morte de sett mestre, pÔz-se á tes-
ta de milhares de furiosos, e assolou não só a Bohemia, mas quasi toda a
Allemanha. À heresia se mostrou o que sempre foi, fecunda origem de
calamida6es publicas. A Bohemia e parte da Allemanha Íicou despovoa-
da, inundada cle Sangue, coberta de cinzas e ruinas de povoações, mostei-
ros e cidades inteiras. Foram taes as desgraças, que o imperador Segis-
mundo se viu obrigado a pÔr um exercito em campo, que bateu e dis-
persou os Hussitas.
0 concilio de constancia terminou tambem 0 grande scisma do 0c-
ci6ente pela nomeação de Martinho V, que foi reconhecido de toda a Igre-
ja pelo unico e verdadeiro Papa, successor tle s. Pedro. Entretanto, no
âoge do seu odio, haviam d.i[o os hereges que a Igreja Catholica não
e.i , verdadeira depositaria da fé. Para lhes tapar a bôca dignou-se Nos-
so Senhor mostrar durante este seculo que nunca a lgreja, nossa mãe,
deixára de ser a sua legitima Esposa; que só n'ella empregaYa suas com-
placencias; que ella sÓ perpetuava a Qbra da Redempção, e lhe dava Íi-
lhos verdadeiramente virtuosos, pois que suas virtudes erarn conÍirmadas
por estupendos milagres.
\

Um d'estes homens, que Deus se dignou expôr aos olhos da Euro-


pa inteira, por espaço de meio seculo, para desaffrontar a Igreja Catho-
lica, confundir a heresia, e dispÔr o mundo para o Íim dos tempos, foi
S. Yicente Ferrer. Este anjo do Apocalypsg nasceti em Yalença, na Hes-
panha, a 23 de Fevereiro de 1357. Eram seus paes notaveis na pieda-
cle e amor dos pohres. No fim de cada anno empregavam estes genero-
sos Christãos o que lhes sobejava de suas rendas em bem applicadas es-
molas.
Manifestou Vicente desde a infancia grande devoção á Pai:xão do Se-
nhor, e á Santissima Virgem, a quem honrou sempre como sua IIãe. To-

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li6 CATECISIIo

humilde, passava grande par[e clo dia no confessionario, onde completava


o que começlira no pulpito ; e recusou sempre as digniclades ecclesiasti-
cas e 0s cargos que na Ordem queriam offerecer-lhe.
A[ravessanclo a França prégou em Nevers, Burgos e no Delphinado.
Àlli lhe ccrnstou que os habitantes d'um valle, chamaclo Valte ctà corru-
?Çdo, se engolfavam nas mais infames clesorclens. E eram tão indomitos
aquelles barbarog que nenhum missionario ousava penetrar entre elles.
vicente, porem, quiz expôr-se a tuclo pela gloria de Deus; resolveu sal-
val-os á custa da propria vida, e não foram ballados seus esforços. os
desgraçados barbaros, instruidos já e commovidos, cletestaram seus cri-

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57
DB PllRSli§liRÀNÇr\'
geral, que elle-tivera
nhece. o mesmo santo dizia, em uma carta ao seu
das terras por onde pas-
a felicidade de converter quasi todos os hereges
sava.
Nlouro de Hespanha ;
ctregou sua alta reputaçÍto aos ouvidos do rei
principe conhecer homem tão
e apesar'de mahometano c0m0 era, quiz este
que o SantO annuiu' em-
extraordinario, e o Convidou a ir á sua cÔrte; a0
começou a prégar o
barcanilo-se em Marselha. Apenas chegou a Granada
quando 0s gran-
Evangelho. Bram iá conveÚidos muitos mahome[anos,
soffria a sua re-
des clo reino, espavoridos pelas perdas que diariamente
logo Yicente. Foi o apostolo
ligiã0, supplicaram ao rei que dãspedissã
pouco tempo vol'
exercer o seu zêlo em outras partei d'Hespanha, e em
tou á França.'
Turena e Bretanha fOram o principal theatro de suas
pregações e
todos a ouvil-o;
milagres. Tanto em França com0 em Hespanha corriam
e, o qo* ainda e mais prodigioso, muitos tlos que o ouviam, em numero
,ígo*u, vezes de rlez a- quinze m az d'elle' só pelo
ouvirem, para oncle quer que elte
mpossivel' torna-
mos a dizer, calcular o numero d'a
l' Pelos calculos

mais approximados duzentos mil hereges, oitenta mil mohornetanos,


vinüe,
e poccadoras,
e cincó mil judeus, e innumeravel multidão de peccatlgres
o fructo de seus trabalhos ({).
convertiüos á verdade e á virtude, foram
a Europa, e a mgveu até ás
Semelhante ao raio, sua paiavra electris6u
entranhas, assim como, d'úi a um seculo, a de Francisco
Xavier, abalou as
Indias e o JaPã0.
Entretanto approximava-se o dia em que o Santo Àpostolo iria
reco-
lher no ceo 0 qou nu terra havia serneado, e regado com Seus Suores'
Co-
augmentando'lhe a
meÇou a adoecer em Bretanha, e chegando a Vannes,
dia, pediu lhe les-
febie, predisse que morreria em dez dias. Ao decimo
sem a pairão dã Senhor. Depois recitou elle mesmo os Psalmos Peni-
tenciaes, e tanto que os acabou, placidamente expirou na
quarta-feira
antes do Domingo de Ramos, aos 5 d'Abril de l&19, tendo d'idade cin-
coenta e clous unror. Reduzia o Santo a tres cOusas todas as regras da

(1) I'ejct'se os Bollandistas'

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,J8 CATECI s,\IO

perfeição : 'l.o evitar as tlistracções externas, causadas


pelos cui6ados su-
perfluos ; 2.o preservar a alma da influencia do amor
proprio; 8.. Í.ugir
de todo o apego immoderado ás c,usas temporaes (l).
0 poder que a verdadeira Igreja u"er.ü, pelo ministerio de s. vi-
cente, de trazer a0 seu grernio tão grandu *rlti,leo de
ovelhas desgar-
radas, igualmente o mostrava, em levar ao fastigio tlg throno
as nobres
e santas virtudes, que ella ensina. Não é bem nolar.el gue
todos os se-
culos nos offerecem illustres Santos nas classes inferiores'e
superiores da
sociedade, nos claustros e nas côrtes, na choupana e no
throno ? pocleria
a Religião 'dizer-nos d'um modo mais eloque nte : Eu [enho poder
bastante
para vo§ santiÍicar em qualquer condição; que desculpa
tem i\:ossa tthieza?
No seculo {5.o vêmos um principe clistincto, mais pero vivo
esplen-
dor de suas virtudes, que pela nobr eza t)o sangue 0u por suas qualida.
des sociaes. Este foi S. Casimiro, Íilho. de Casimiro III, .ri à,
Êotonia.
semelhante a0 lirio que floresce entre 'espinhos, floresáeu
este principe
em meio do contagio do seculo, sem nada offencler a amavel
candura de
seus costumes. A caridade com os pobres e a tlevoção
a Maria Santissi-
ma foram suas mais distinctas virtucles. Para mostrar a conÍiança
filial
que tinha na Rainha dos Ànjos, compôz em sua honra o
hymno, que con-
serva o seu nome, e quiz levar upa cópia d'elle para 0 tumulo.
Tinha casimiro apenas quinze ann,s, quand-o os hungaros, sabedo-
res de sua§ grandes qualidacles, e raras virtudes, lhe oÍIereceram a
corôa
da Hungria, que queriam tirar a Mathias seu rei, cle quem estavam
descon-
tentes. Partiu o santo para aquelle reino, por cleferencia a seu pae
; mas
tanto que soube que o Summo PontiÍice desapprovava o procedimento
dos
Hungaros, vol[ou á Polonia, onde só cuidou em merecer throno mais
su-
blime, santiÍicando sua alma. Ainda verde n,s annos, mas já macluro
para o ce0, morreu este principe em \\rilna, à 4 cle Março rle
d4g3, aos
vinte e quatro annos d'idade.
E' s. casirniro o patrono dos polacos, e o modêlo da mocidade,
que cultiva a mais amavel e delicada das virtucles (2).
(l) Guillon, t. xXV, p. 526, God. 5 d'abril ; t;eja-sesobre a missào provitre,_
cial de s. vicente Ferrer, a nossa ohrt: oú all,ons-nottsz i.-g.
(2) God. 4 dc Março.

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DE PERSEVENANCA' '50

Se, das altas classes da societlade, descemos ao seio do povo, iá des'


" cobrimos outros monurnentos da eÍflcacia santificante
da Igreja Catholica.
Her4eiros de Valdenses e Albigenses, preüentliam 0s sectarios de Wiclef
e João IIus ser a verdadeira Igreja. Para assim o inculcarem faziam pro-
Íissão fle grande desapêgo das riquezas; mas, em compensação d'isso,
eram aferrarlissimos ao seu particular sentimento; praticavam exterior-
mente os conselhos evangelicos, não sentlo na realidade senão sepulchros
caiados, cheios por dentro de corrupção e ossos de tlefuncto. Sua appa'
rente santitlade era laço perigosissimo; ai dos que n'elle cahissem, que lo-
go sorviam o veneno da heresia.
para desfazer este novo artlil do inferno, suscitott Deus no decimo
quinto seculo, c0m0 frzera nos seculos precedentes, verdadeiros discipu-
los do Evangelho que, ás falsas virtudes dos sectarios, oppunham virtu-
des verdafleiras; provando que todas as boas obras de que se jactava a
heresia, eram só e perfeitamente praticadas pelos Íilhos da Igreja. Assim
foi para vQr grande numero de Íieis darem aos pobres tudo quanto pos'
suiam; e Íicarem a grangear o seü pão com o Suor do rosto, en[regues á
oração e á observancia dos conselhos etangelicos. Isto deu origem a se
estabelecerem muitas ordens religiosas, das quaes foi uma a dos pobres
ooluntarios,
Teve esta irmandade principio no decimo segundo seculo; mas sÓ
em ltLTO foi erigida em Ordem religiosa. Seu principal fim era, como
iá tlissemos, mostrar qlle a Igreja Catholica ê a unica mãe de todas as vir-
tudes, assim como e o unico sustentaculo da verdade. Nem os religiosos,
nem a mesma Ordem, possuiam, Pot consequencia, renda alguma. En-
tregues só á Providencia d'aquelle que sustenta as aves do ceo, e dá r'ida
a tudo o que respira, viviam clo que Elle restrictamente lhes deparava
cada dia. Ignoravam pela manhã 0 que teriam, e ainda se teriam que
' jantar. Depois de longas e fervorosas orações sahiam dous e dous, se-
gunrlo a ordem do superior, a pedir esmola pela cidade. Iam descalços,
cgm um rosario na mão esquerda, apoiando-se com a direita em seu bor-
dã0, que tinha cinco pes d'altura, e na parüe superior um CruxiÍico. Le-
vavam no ltraço direito um cabaz, onde recebiam as esmolas. Vestiam ha-
bito preto, cingido na cintura, e manto de cÔr pardo, com seu capuz. Era

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60 c.:ATECTSTTO

n'este trage pobre e hurnilde, Que não se pejavam tle apparccer lomens,
a qucm o nascimento e os bens da fortuna proporcionavam meios de pas-
sar vida regalada e occupar lugares distinctos no mundo. Êloquente ser-
mã0, que confundia a lteresia, eclypsanrlo as falsas virtutles de seus se-
ctarios, e inspirando aos catholicos o sautlavel desapego clos bens ter-
renos.
Yoltando ao nosteiro, comiarn em conmum 0 que lhes haviarn da-
do. À r'ida sempre occupada d'estes religiosos poderia bem assegurar-
lhes urn commodo passadio, se, Íieis á sua vocaçã0, não preferissem an-
tes depender inteiramente da Divina Providencia, dando ao munclo os
exemplos d'abnegação que as circurnstancias exigiam. Exerciam as artes
mecanicas : ;
uns eram alfaiates outros, sapateiros; estes marceneiros;
aquelles ferreiros. Cheios de caridade e zêlo clas almas, iam assistir aos
enfermos logo que os chamavam; curando-os, consolando-gs, ajudando-os
a bem morrer, e, depois de fallecidos, amortalhando-os e clando -lhes se-
pultura. Estes caritativos religiosos levantavam-se sempre á meia n6ute,
para rezar o oÍflcio; e no Íim faziam duas horas oração mental, de joelhos,
sobre a Paixão de Nosso Senhor. Findo este exercicio voltavam ás cel-
las,'onde repousavam até ás quatro horas e meia. A essa hora se diri-
giam á Igreja da Parochia para ouvir missa; o ahi permaneciam por es-
paço de tres ltoras, sempre de joelhos. Entrando outra vez n0 mosteiro
iam para seu trabalho, ou sahiam a pedir esmola para o jantar. A tarde
passava-se como a manhã, repartida entre o serviço manual e a oração.
Tal foi a ordem dos PoDresuolunüarios, (l) milagre vivo de caridade, ab-
negação e sacrificio.
Este caracter de caridade é o distinctivo das obras catholicas ; não
permitte Deus que a heresia o possa imitar. De sorte que jámais as sei-
tas dissidentes poderam, apesar de suas riquezas e poderio,. produzir
uma irmã de S. Yicente de Paula. E' que lhes falta a origem do amor
divino. Só a Igreja romana, ella só unida ao Divino Esposo, realmente pre-
sente em seus tabernaculos, e viviÍicada pela perpeÍua e infinita caridade,
que debaixo de mil variadas fórmas se presta ao allivio espiriüual e c0rp0-

(1) Helyoü, t. IV, p. 50.

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DE PERSEVERÀNÇÀ.
6l
parece que
ral ce seus Íilhos. Àclmiravel cousa t 0s grancles infortunios
teem particular força de attrabir seu maternal coraçã0.
os
li os pobres, graÇas a esta boa mãe, as criançassãoabandonaclas,
ohjecto de seus
cloentes de totla a especie, os velhos e os
viajantes
que tratamos' uma clas-
mais ternos cuidaclos 1l;. Faltava, na epocha de

da idade
(I) Não póde meditar-se, sem enternecimento, a fundagâo seguinte
rnedeia. um pierloso catholico applicou
^Nâo
ur fundo conside'ravel para que sedésse aos

se contenta a caridade christâ' com dar a setl


cloentes tudo o que desejassem.
os soffrimentos' satis-
fiIho enfermo tudo aquilio que precisa.l qirer, para acloçar-lhe
fazer até os seus caPrichos !
cle Deusrsuspender afgre-
Yimos n'outra iarte, pelo estabelecim:nto da Tregoa
ja a effusâo de saolue: eil-a âgol:â protegendo''afortuna do pobre edo artista, con-
tra a avida cubiça dos usuralios'
o cluplo flagel-
Pelos fius d,o seculo 15.o, quando os povos d'Italia suppottavam
parte das familias estavam quasi
lo de guerra civil, e guerra estrangeira,la -aio.
Uma só classe â. ptt'ou' tirava proveito da miseria publi-
totalmente atruinadaJ.
com juros rle 70' e
ca; eram os judeus, que emplestavam dinheiro sobre penhores,
E0 pol cento. '
Cresceu tanto este mal, que setornon da maior urge[cia
remeclial-o' A Igreja
creagâ,o dos montes'pios, cu-
tomou a iniciativa, e nos Estirlos Pontificios se viu a
ja gloria Pertence toda ao Patlre B
em Perusa, nâo Pôile conter as lagr
aos pobres pelos usurarios' E nâo desca
alguns ricos caritativos a formarern
Foi maravilhoso o resultado, e a este et
pietatis... ut atl ipsa tanquam ad montem 'ur-
io pro-ptu sint ad mutuantlum sub pi
^ea
&n-
,errdrL u..rris, qtlas pro sua incligentia
tttr., (Ferrarís, art' Mont' piet' t' V')
Fm 1491 alguns habitantes cle Perusa depositaram cm commum certa somma,
destinada u ,oa.or""r os pobres, rnediante um pequeno juro, para_ as despesas do
L
banco, c conservação dos penhores, que se restituiam I seus donos logo que pe88-
' Eis'aqui
vam asoo,m
simos' A
pois, o que.
elle se socc 'alli tire-
vâ sommas 'modieas
quantizr,s, sern as quaes nem me§mo pocleria acabar as suas obras, e ganhar a 8t1a
fcria.
Foram taes as vautagcns ti'este estabelecimento, que o Papa Xisto IY
quiz es-

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62 cATECrsuo

se de desgraçados tanto mais para lamentar, quanto é certo que


o são
por sua culpa: fallo dos criminosos conclemnados á
morte. Não rejeitou
a Igreja estes desgraçados Íilhos, a quem desejava consolar
e salr-ar para
a eternidade; nem 0 horror de seus crimes, nem os calabouços
infec[os
lhe detiveram o passo que não se chegásse a elles,
e os apertasse c ontra
o seu coração. Roma, centro da verdacle, e foco da cariclaàe
catholica, foi
quem primeiro viu nascer em seu gremio as
confraterniilades da morte.
Já desde o principio da Igreja, eram os encarceraclos
objecto da ca-
ridade christã; e ainda ha pouco vimos, na lição antecedente,
exemplos
d'esta caridade ; agora porém a lgreja rhe deu uma organisação, para
tor-
nal-a mais eÍlicaz, duravel e erliÍicanú.
Já no seculo decimo terceiro se haviam formado em Roma, n,essa
cidade modêlo, confrarias de penitentes, destinados,
cotrlo r.o ooÁ. indi-

tabelecer em savona, sua patria, um Monte-pio como o de perus


a, pa"ra,que aquela
cidade goza§se os beneficios d'elle. Logo depois se estabeleceram
ootro, ãm Cesêna,
Florença, Padua, Boronha, Nápoles, ItÍilâo, e por ultimo
Yulr_or, na propria capital
do Mund.o Christâo.

- Os Papas, considerando este genero de mutuo, como verdadeiro acto de carida.


de, os auctorisaram por suas buuas, ras quaes, o principar
motivo que a1egao". .r*
assegurar aos pobres emprestimos faceis e gratuitos.
Nao tardou qru ,u iundassem
iguaes estabelecimentos nas cidades industriaes
de Flandes, intervindo sempre a
auctoridacle religiosa, para regular as condições clo emprestimo.
Foi decidido pelos Summos Pontifices e Concilios Lateranence e Tridentino:
l'o Que o emprestimo nâo exced.eria certa quantia, para se nâo esgotarem os
funclos do bancol e que se nâo fizesse a fidalgos riãos, nem
& estrangeiros.
.).o Que o empr:ssfi66 fosse por tempo determinaclo, de um anno ou menos.
$.o Que,'psra, seguranga da somma emprestada, a pessoa que â pedia, désse
penhor, afim de que se nâo pagasse no tempo convencionado, se indemnisas.o'o
brr,-
co vendendo o penhor.
l'o Que, para occorrer ás nêcessarias despesas do deposito, e eonser:vaçâo dos
penhores, aquelle que pedisse o mutuo pagaria um p.qo.rrã juro, ainda
que merhor.
seria (tliz o Papa Leâo X na bulla de autôrisagâo aã uooles- pios), q,ie ,ada .e
exigisse. Emfim que se nâo tolerasse despesa alguma superflua na'adLinistraçâo
do banco; e sobre tudo que o dinheito destinado a emprestimos nâo fosse distrahi-
do para algum outro fim.
No comego do seculo 17.o havia lltontes-pios em quasi todos os Estado da Eu-
rcpa, aeja-se as Tres Romas, t. II, p. 448. t

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DE PEaSEvIiRAn-ÇA' 63

câ, aexpiar o crime e fazer da punição reparação da ctllpa, e salutar


Peni'
lição para a socierlade. A mais cetãbre d'estas confrarias foi a dos
tintei negros ila Misericordlo, funclada em Roma em l&88 por mttitos
Florentinós, que se cgngregaram para assistir aos criminosgs contlemna-
clos á tnorte, e ajuclal-os a bem morrer.
0uçamos a narração de suas obras. Quanflo algum infeliz é condem-
nadrt á pena ultima, á justiça dá togo parte á confraria da l\[isericordia,
a qrral norneia quatro confrarles para irem á prisão consolar o padecen-
te, ô dispôl-o paia fazer confissão geral. Com elle ficam toda a noite, no
carcere, e não o abandonam até ao ultimo suspiro. Chegada a hora de
o conduzir ao supplicio, veem em procissão todos os penitentes, para 0
acompanharem, piãcedidos 6a sua Cruz cgm m nga preta. Ao lado da
Cruz vão dous confrades cgln duas grandes tochas amarellas, symbolo da
puhlica conÍissão clo delicto, {ü0 o peniteníefaz a Deus, a quem ultra-
jor, t
á sociedade, a qtlem escantlalisou. Todos os irmãos da Misericor-
dia cantam em tom iugubre os Psalmos Penitenciaes, e Ladainhas dos
Santos. Arrependimento e conÍiança, eis os dous sentimento§ que se es-
forçam por excitar n0 coraçãc do padecente
Quando 0 ministro da justiça se apodéra da victima, redobram
os

caritativos ministros cla Misericordia suas grações, e permanecem iunto


do caclafalso, uninclo suas supplicas ao sangue e soffrimento do culpado'
Logo que expira, entram na Igreja pro1ima, e c6m fervorosas orações
acompanham ao tribunal do Soberano Juiz a alma do seu irmão' Algu-
mas horas flepois, tornam ao lugar do supplicio com tochas accêsas, em
signal de gloria e immortalidade, desprendem o corpo do patibulo, met'
tem-no em tumba coberta de panno pretg, e o conduzem á sua Igreja'
Àlli recitam o oÍlicio de defunctos, e no dia seguinte lhe fazemsolemnes
exequias, no fim das quaes o enterram.
Trazem os irmãoJ da Misericordia vestitlo de sacco preto, com cinto
e manto cla mcsma côr. Nas procissões Ievam na cabeça chapéo desar-
mado (,1). A confraria da Misericordia goza do privilegio tle livrar cada

(1) VI[, p. 262. Veja, á,cetca da Confraria da Misericorclia de Flo-


flelyot, t.
renga, as Tres Rotnas, t. L.o

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6& cATEcrsilto

anno um criminoso condemnado á morÍe, ou a prisão perpetua.


o
exemplo de Roma foi imitado; as cidarles e reinos catfroiicoi
tiveram
tambem seus irmãos da Misericordia; e as victimas tla justiÇa se viram
rodeados em seus ultimos momentos, de todos os necessarios
soccorros
para morrer santamente.

()RAÇÃO.

o' meu Deus I que sois todo am,r, eu v os dou graças pela paternal
Providencia com que attendeis solicito a todas as nossas necessiclades.
Peimitti, senhor, que imitemos o zêro de s. vicente Ferrer, e a compas-
siva caridade dos :Irmãos Penitentes.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e a0 proximo como
a mim mésmo por amor de Deus; e, em testemunho d,este
amor, orarei
pel,os forçados e condemnados d morte.

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t

xLvI." LrÇÃO.

0 Chrislianismo conservado e propagado.

(coNrnu.LÇÃo Do xv. sucuro).

Â' fgreJa consíernarla : riolaqão de sua§ leis; - corrsolaelt:


S. f'rancisco de Paula I ordem dos rniuimos; Concilio rle
Florenca. - rfuizo de l)eus solrre os Gregos.-Â tgreja corl'
solada da Berda do imperio grego; os lf,ourrrs expnlsos do
Eespanlra; conversáo «Ia Samogicia. -Progresso do Dvarr-
gellro na Afriea e nas Indiasl descoDerÍa da Âmerica.

Não só no decimo quinto seculo, o scisma e a heresia affligiam a


Igreja, mas ainda seus proprios Íilhos lhe faziarn chorar lagrimas amargas.
A caridade, primeira e maxima virtude do christianismo, tinha esfriado
em muitos corações. Muitos havia clue zombayam sacrilegamente das leis
santas da abstinencia e do jejum; por que 0 scisma, com 0 desprêzo da
auctoridade ecclesiastica, trouxe tambem o de suas leis. Olhou Nosso
Senhor com olhos cle commiseração para sua afÍlicta Esposa ; e eis que,
para reanimar o fervor dos christãos, e conlrabalanqar as iniquidades do
mundo, surge dos thesouros da Divina Misericordia a Ordem mais auste-
ra que se tinha visto, a dos Minimos. Teve esta Orclem por fundador
um homem igualmente recommendavel pela santidade da vida e esplen-
dor dos milagres: Francisco cle Paula e o nome do grande consolador
da Igreja no seculo {5.o
Nasceu elle na Italia pi-:los annos {ít6.
Seus paes que, não sendo
ricos, grangeayam por sua inclustria honestos meios de subsistencia, bus-
caram desde o berço inspirar-lhe sentimentos de piectade; pois considc-
ralarn este menino como um sagrado deposito, que o Senhor lhcs con-
)

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66 cArEClsMo

Íiára, e de que um dia lhes tomaria contas. Correspondeu oste Íilho de


I
benção a0 designio cle seus paes, mostrando particular amor á'oraçã0,
re[iro e mortiÍicaçã0.
Chegado aos doze annos o mandou seu pae para 0 convento dos
Padres Franciscanos, onde aprendeu os rudimentos das sciencias huma-
nas, e, o que é mais apreciavel, os elementos da sciencia dos Santos;
levandod'alli os fundamentos da vida austera, que teve sempre depois.
D'ahi um anno fez com seus paes llma peregrinação a Roma e a Nossa
Senhora dos Anjos, e na volta á sua terra lhes pediu licença para se re-
tirar a um lugar solitario. Na tenra idade de quinze annos, Francisco re-
novou alli o genero de vicla dos antigos solitarios da Thebayda: a Italia
teve o seu Santo Hilario. 0 joven heremita dormia sobre a pedra nua, e
sustentava-se d'herças colhidas em um bosque visinho da sua gruta, ou
do que talvez lhe traziam almas caritativas.
Quatro annos depois que se retirou para o deser[o, alguns compa-
nheiros, attrahidos pelo bom cheiro de suas virtudes, se lhe reuniram;
0s quaes edificaram cellas e uma capellinha. Francisco via crescer tle
dia para dia o numero de seus discipulos; a solidão acolhia risonha seus
angelicos habitantes, 0 â Igreja exultava d'esperança. Tal foi a origem da
Ordem dos Minimos. O Santo deu o nome de Xlinimos a seus Religiosos,
para que se considerassem os ultimos dos homens.
0 f,m principal d'esta Qrdem era, como já dissemos, reanimar a
caridade quasi extincta no coração dos Christãos ; e por isso tomou por
divisa a divina palavra : Caridade (l). Es[a virtude devia ser a alma e o
caracter distinctivo da Ordem não só para unir perfeitamente os religiosos
entrc si, mas para dilatar-lhes os corações e franqueal-os a todos os fieis,
cgm o Íim de cooperar para a sua salvaçã0.. 0 segundo objecto da 0r-
dem dos llinimos era expiar, e fazer face com sua vida austéra aos abu-
Sos e relaxação com que os Christãos tratavam o santo tempo da Quares-
ma e o.s dias d'abstinencia. O exemplo d'estes religiosos foi com efleito
de mais effimz lição que milhares de sermões.

(1) As armas da Oídem sâo a palavra Chari,tcts, escripta em letras d'ouro, cer.
cadas cle taios do melmo rnetal, em campo azul. .

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DE PT]RSEVERÀI{CÀ. Ü7

Àlem tlos tres votos de pobreza, castidade e obediencia, faziam ou-


tro, que era de.guardar perpetua quaresma, abstendo-se inteiramente do
uso de carnes, 0u tlo que tivesse natureza de carne. D'est'arte toda a
.sorte de viandas, gorduras, peixe, ovos, manteiga, e queijo, toda a espe-
cie de lacticinios, e tudo o que d'elles se fórrna ou compõe lhes era absolu-
tamente prohibido. Exceptuava-se só 0 caso tle molestia grave. A tão
grande austeridacle accrescentava aintla o Santo o jejum na maior parte
do anno.
Quando todo se occupava em estabelecer o quarto v0t0, quiz o Sum-
mo PontiÍice, Paulo II, obter inforrnações exactas de F'rancisco, de qucm
a fama referia cousas maravilhosas. Com este dcsignio mantlou a visi-
tal-o urn Prelado tla sua côrte, o qual partiu immediatanrente para a Ca-
labria, onCe habitava o servo de Deus. Apenas viu Fraucisco, quiz hei-
jar-lhe as mãos, ao que o Santo obstou corn muita humilclade. «À mim,
disse elle ao Prolado, a qLrern nunca tinha visto, e grre compete tratar-
vos d'esse modo, por que sois honrado com a dignidade do sacertlocio
ha trinta e tres annos. »
O Prelado, extretrnamente maravilhado, lhe disse então que vinha d.l
parte do Summo PontiÍice, a Íim tle se informar do seu genero de vida
e de seus discipulos; depois do que taxou d'indiscreto o seu rigor, e
de perigosa a sua singularidade. Esteve o Santo ouvindo tranquillamen-
t0, mas como se tratava do estabelecimento da vida quaresmal, cuja or-
dem havia recebido do ceo, tomou em suas mãos uns poucos de carvões
em btaza, e conservando-os por aigum tempo sem se queimar, disse ao
Prelado: oYêdes o que faço por virtude de Deus ? pois logo não duvideis
QUe, COm O auxilio cla Graça, eu possa supportar a vida mais austera, e
os maiores rigores da penitencia. »
0 Prelado, deslumbrado com este prodigio, quiz lançar-se-lhe aos
peS, para lhe pedir perdão do que tinlra dito, e rcceber suas bençãos;
mas o Santo o não consentiu, antes lhe pediu a sua corn [anta humildade,
qtle o enviado tornou para Roma cheio de respeilo e veneração paril com
aquelle servo tle Deus. À informação que deu ao Papa e á côrte roma-
na fci causa das graças, que a Santa se concedeu depois á Ordern dt.is
Ilinimos.

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68 cATECrsuo

Àprazia a0 Senhor manifestar por meio d'estrontlosos milagres a


santidade do seu servo. Obrigado a faznr differentes viagens para 0 es-
tabelecimento da sua 0rdem, tinha elle um dia de ir á Sicilia. Chegou
com dous companheiros á borda do mar, e rogando a um capitão de na-
vio, que os quizesse reoeber a bordo, este, r,endo a sua pobreza, recu-
sou fazê1-0. Então o Santo, cheio de confiança n'Aquelle, que manda as
ondas e as tempestades; que diante dos Israelitas abriu outr'ora os abys-
mos do mar Yermelho e que S. Pedro caminhasse por sobre as aguas;
estende a capa sobre 0 mar, senta-se sobre ella com seus companheiros,
e, Com vergonha e pasmo do avarento marinheiro, chega com feliz viagem
á Sicilia. Quat anjo descido do ceo, assim lá era recehido e buscado de
todos o novo thaumaturgo.
0 ruido d'estes milagres transpÔz os limites da Italia, e chegou aos
ouviclos de Luiz XI, rei de França. Vivia este principe aterrado extre-
mamente com a idea da morte, e esperando que 0 servo de Deus podésse
com SuaS orações retartlar-lhe a hora qrte temia, escreYeu ao Papa, sup-
plicanclo-lhe fosse servido ordenar ao Santo, que viesse á França. Sixto
IY enviou clous breves a Francisco, ordenandtl-lhe que partisse; 0 que
elle a.ssim fez por obediencia, vencendo sua extrema repugnancia, e fa-
zendo engrme violencia á sua modestia, por considerar a voz do San-
to Parlre como ordem do ceo. Foi recebido em Napoles c0m0 se fosse
um legado apostolico, 0u o proprio rei. Toda a cÔrte lhe veio ao encon-
tro, e era tão grande a multidão de povo, quc, a não Serem os esforços
do principe cle ierento, Íilho do rei, seria impossivel deixarem-no passar.
Em Roma ihe fez o Santo Padre taes honras, que nem aos principes
se concedem. 0s Cardeaes 0 visitaram com todo 0 ceremonial, e em tres
aucliencias que teve clo Papa, se sentou em cadeira igual á de Sua Santi-
dacle. Querendo o mesmo Summo PontiÍice eleval-o ás dignidades eccle-
siasticas, o Santo Se escusou com muita humildade, e, de todos os pode-
res e privilegios que lhe quiz dar, só aceitou o de benzer cirios e rosarios
para fazer SeuS presentes em França, o que foi origem de innum.eraveis
milagres, que operou no reino christianissimo.
Quando o Santo se approximou de Touraine, Luiz XI the sahiu ao
onconlru com [oda a cÔrte, e se lhe lançou aos pes, pedindo lhe prolon-

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DE PERSEYERANÇA. 69

gasse a Francisco respondeu como santo, que «só Deus e que dis-
vitla.
pO, da saude; que tanto a vida dos monarchas c0m0 a dos demais tro-
mens está nas suas mãos; e por isso recorresse a elle, conformando-se
em tudo com a sua divina vontade.» 0 t'ei hospedou o Santo em Seu
proprio palacio, com elle tomou conselho muitas vezes, e ltre pcdiu que
o preparasse para a morte. Bste ultimo negocio foi o que o Santo tomou
mais a peito, obtendo por SuaS orações a mudança do coração drl mo-
narcha. Lliz, encarregando-o de seus tres Íilhos, e do repouso de sua al-
1nâ, lhe morreu nos braços, perfeitamente resignadO Com a vontade de
Deus, a 4 d'0utubro de {483.
Fundou S. Francisco um mosteiro, junto ao palacio; e foi alli que
Deus lhe deu a saber que breve o tiraria do mundo, para lhe dar sua im-
mortal recompensa. Com effeito, no anno de'1507, em um Domingo de
Ramos, enfermou d'uma febre, que o levou á sepultura. Conservou o
Santo até o Íirn sua vida penitente, recusando regalos e lenitivos. Em
Quinta-feira Santa se fez conduzir á Igreja, onde se confessou e recebeu
a Sagrada Eucharistia, c0m0 a recebiam os seus religiosos, isto e, des-
calço e de corda ao pescoço. Yoltando á sua cella, lhe perguntou um ir-
mão se queria lhe lavasse 0s pes á tarde, segundo o costume da Igreja ; ao
que respondeu que não; mas que no dia seguinte Íizessem de seu c0rp0 o
Qü0 Qu,zessem. Com effeito morreu no dia seguinte, em Sexta-feira San-
ta, a 12 d'Abril.
Propagou-se a Ordem rte S. Francisco de Paula, com admiravel ra-
pidez, por todos os Estados da Europa ; e chegou até ás Indias, produ-
zindo por toda a parte copiosos fructos de salvação ('l).
Cheia de consolação por vêr reanimar-se o fervor de seus Íilhos, na-
da omittia a Igreja para trazer á unidade os Gregos do Oriente. Já atraz
dissemos c0m0 Phocio, patriarcha do Constantinopla, lançára no espirito
dos Gregos 0s germens do scisma. Estes foram fomentados por Miguel
Cerulario, outro patriarcha da mesma cidatle. Defecções particulares, mais
ou menos consideraveis, a pouco e pouco, como funesto fermento, iam
corrompendo inteiramente 0 povo. Entre tanto a Igreja Romana, como

(1) IIelyot, lir'. \TI. pag. 442, God. 2 d'Abril

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i0 cATECrsilÍo

mÍe e mestra do toclas, enviava incessantemente palavras tle paz á sua


filha de Constantinopla, não perdendo occasião de dissipar os prejuizos,
que apartsvam os Gregos dos Latinos. 0s Gregos, pela sua parte, pare-
cia desejarem a uniã0. Esta a causa de tantos Concilios que se celebra-
raln, sendo 0s mais notaveis os de Latrão, Lyã0, Vienna e Constancia,
onde as duas Igrejas do 0riente e 0ccidente se abraçaram e assignaram
a mesma proÍissão de lte. 0 caracter inconstante e astucioso espirito dos
Gregos achou, porem, sempre pretextos para romper a uniã0. Houve,
entÍim, no decimo quinto seculo uma nova tentativa de reunião em Flo-
rença. convocou-se n'esta cidade um Concilio, que foi o decimo sexto
ecumenico, no anno cle 1439; no qual se lalrou um clecreto cl'uniã0,
mais explicito e solemne que os prececlentes, que foi promulgado e assi-
gnado pelo Summo Pontifice e pelos Cardeaes, Patriarchas e Bispos do
Oriente (l;. Julgou-se firmada a paz. Àpenas porem os Gregos voltavam
á patria, suscitaram-se novas difficuldades. 0s signatarios da união fo-
ram mal recebidos ; troule contra elles urna geral sublevação do Clero e
do povo; e com suas perseguições Íizeram afrouxar grande numero d'el-
Ies. Se alguns permaneceram Íirmes na verdade, muitos outros, de viva
voz e p or escripto, começaram a declamar contra a união assignada, at-
tratrindo ao seu partido a rnaior parte dos Gregos.
Soou a hora da vingançra divina. nluito tinha Deus esperado a este
povo culpado. llavia quinhentos annos, isto é, descle Phocio até o Con-
cilio de Florença, que 0s Gregos fatigavam 0 ceo com suas rebeldias con-
tra a Mãe commurn cle todas as Igrejas. Tudo erarn calumnias, injurias,
interminaveis revoltas, compronÍissos assignados n'um dia e illudidos no
outro; em uma palavra. no seu procedimento, assim religioso como p0-
litico, nem havia espirito de rectidão nem clesejo de paz.
Pronunciou Deus contra o seu imperio esta sentença, que outr'ora
pronunciára, e pronuncia ainda contra as nações reprovadas : «Eu vos
criei e estabeleci no mundo, para servirdes a Jesu-Christo, meu Filho, a
queÍrr tlei em hera.nça todas as nações; esta era a condição da vossa feli-
cidade. NIas pois que recusastes reconhecêl-o, e dissestes como os Ju-

(1) !'leuly, lir'. CYI[, p. 39'

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DE PERSEYEIIÀNÇA. iI

dará improviso sobre vós: nação cruel, barbara e impia, da rlual


nem

conhecereis a lingua ; que será inaccessivel á compaixão e á humanida-


de (il)., Yejamos a execllção litteral d'esta terrivel ameaÇa.
0 Senhor disse, e chamou,. comg nos tempos passados, Àssur contra
o seu p0v0. Eis que um feroz ôonquistador, Mahomet II, á testa de
tre-
tla vin-
zentos mil turcos, .urrçu rapiclamente para Constantinopla' Ministro
gança clivina, qual outro Tito em Jerusalem, Ilahomet a circumda com mu-
em
ialhade ferro. Ncs primeiros dias d'Abril de {453, torlos os campos
pas'
roda se inundaram dõ soldados, que apertavam a cidatle por terra,
ao

so que urna frota de tre zentas galeras e duzentos navios menores a blo -
queavam por mar.
Não podiam estes, porem, entrar no porto, que estava fecharlo po r
fortissimay cadêas de ferro, e vantajosamente defendido. Então l\Iahomet

turca desce por terra e entra no porto, enchendo de espanto e pavor


os sitiados. Diante d'elles construem logo uma ponte de barcas, Qü0
serve para estabelecer uma formidavel bateria. Àinda assim se defen-
diam õs Gregos; mas sendo ferido e morto o proprio Imperador em um
combate, perárrum de todo o animo. À cidade foi entrada e tomada
pe-

los turcos. 0s furiosos soldados saqueam, matam e commettem excessos


inauclitos. Quarenta mil pessoas foram degoladas, sessenta mil escravisa-
dos, e o numer6 tlos clispersos foi tão consideravel, que o Sultão se viu
obrigado a manrlar vir gente das cli'lersas provincias do seu imperio, pa-

(1) Deut. XXXYIII.

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-i2 cATEcIstÍo

ra po\'oar de novo a desgraçatla constantinopla. santa soptria, a mais


vasta Igreja do Oriente, converte-se em mesquita; e o crescente toma o
lugar da Cruz, sobre suas antigas torres. 0 estantlarte da barbaria e do
despotismo, substituindo o tla civilisação e liberclade, predisse o futuro
dos criminosos vencidos.
Desde esta epocha, a Grecia, a patria dos itliltiade.s, Leonidas, Alo-
xandres, Sophocles e Platões, se tornou com effeito a terra classica da es-
cravidão e da mais grosseira ignorancia. Ap.endei agora, reis e povos;
vêde aqui o que custa ás nações a ousadia cle dizer ao Cortleiro Domina-
dor do mundo: Não queremos que reineis sobre nós. Aprendei, repito,
e vêde o que traz o mahometismo aos povos, que sujeita ao seu sceptro:
os ferros da servidão, e as trevas da barbariclade, a0 passo quo o Chris-.
tianismo estabelece a liberdad e, e faz brilhar a luz das sciencias e artes,
nos paizes barbaros que recebem sua amavel lei. Ousareis ainda exprg-
brar ao Papado esses esforços de tantos secuios, esses sacriÍicios a que
se sujeitou, para vos preservar das invasões do Islairrismo ?
, Senhor de Constant inopla, continuou lVlahomet sua missão vingado-
râ, em todas as provincias culp adas do scisma. Corintho, Trebisonda,
Theodosia, a Grecia e o Peloponeso cahiram debaixo de seu jugo. Ebrio
de suas victorias, quiz o barbaro vencedor levar a guerra ás ilhas e p0-
vos que Deus guardava, mas aqui fcri vencido. 0 celebre Huniades o obri-
gou a levantar 0 cerco de Belgrade ; scandesberg, rei d'Albania, e sobre-
tudo o gran-mestre dos cavalleiros de Rhodes, pedro d'Aubusson, lhe
Íizeram provar sérios rerezes.
Estava a Igreja, porém, em continuo sobrcsalto, por que 0 attila ma-
hometano Íizera o impio voto d'exterminar todos os adoradores de Chris-
to; e tinha já derribado dous imperios, conquistado doze reinos e toma.
do mais de duzentas cidades christãs. Mas Deus cuidou de tranquillizar
sua esposa. Uma colica, em um instante, livrou o mundo do terrivel
Mahomet. Logo depois appareceu no 0ccidente um magnanimo princi-
p0, suscitado por Deus para enfraque cer o poder othomano, e tirar-lhe
por uma parte o que tinha ganhado por outra
Fernando o catholico, tal e o heroe providencial que convém agora
a
dar conhecer. Rei d'aragão por nascimento, senhor de castella por

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DIi I'ERSEVERÀNÇA. i3

Isabel sua esp0sa, flepois o foi, pelas armas, do reino de Granada' Em


meado de Novembro cle lllgz, Fernando, á frente de quatro mil homens,
entrou na cidade cle Granada, capital d'este poderoso estado, possuido
pelos mouros havia cerca de quinhentos annos; e com esta conquista
quebrou para sempre na Hespanha o sceptro dos Mahometanos. Depois de
gccuparam cgm
os tornar tributarios de sua corÔa, Fernando e Isabel Se
actividade em submettêl-os ao jugo do Evangelho. N'isto os ajudou pro-
digiosamente o celebre Cardeal Ximenes, Arcebispo de Toledo (l). Mi-
lháres de mgurgs receberam o baptismo, d indemnisaram a Igreja das
perdas, que o scisma dos Gregos lhe havia causado. Ao mesmo tempo
feitos, o norte
ãr., n0 meio dia da Europa se realisavam tão grandesJagellã0,
enchia de jubilo o materno coração da Igreja. 0 illustre rei da
polonia, cgnve rtia á fé aquella vasta provincia, habitada ate alli por ido-
latras; taes c0m0 os Samogicios. Foi outra c6mpensação para o Chris-
tianismo, e mais uma prova de quo o sol do Evangelho é semelhante a0
que iltumina o mundo ; nem pára nem se extingue. Quando desappa-
rece d'um paiz, e para passar a outro.
Exulta de n ovo, igreja de Deus, dilata as tuas tendas, que novos Íi-
lbos entram em teus arraiaes. Tinham por este tempo penetrado Mis-
sionarios no Congo e no i nterior da Àfrica, operando conversões nume-
rosas. Descobriram-Se aS ilhas Canarias, e se abriu caminho por mar
parü aS Inrlias orientaes, e n'estes campos se lançou a semente evapge-
lica.
Não foram estas só as cÓmpensações e consolações da lgreja. Um
novo mundo, como pOr milagre, surge no meio dos mares. A Esposa do
Homem-Deus vai tomar posse d'esta nova herança. Lá plantará primeiro
sua tenrla volante; erigirá depois templos, e estabelecerá por fim o seu
imperio. Innumeravel multidão terão a gloria de ser seus Íilhos. EIla
será sempre a grande lgreja, a Igreja Catholica.
Adescoberta da America, que reparou as perdas que o scisma
Grego causou á Igreja, e que devia, passado meio seculo, indemnisal-a
ainrla dos esl,ragos do protestantismo, e um facto onde visivelmente se

(1) Yicla tlo Card. Xim. pot Flechier. p. 103.

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7 L cATncrsuo

reconhece aquella providencia, que tudo dispõe para a consen.ação da


Igreja e gloria de Jesu-Christo. Acontecimentoi politicos, descobertasar-
tisticas, empresas do genio, projectos e paixões dos hornens, ventos e
tempestades, ern uma palavra, a terra e 0 ceo tiram a este Íim. Em pou-
cas palavras o vamos mostrar.
Nas visinhanças de Genova nasceu em l4lg um pobre pescador,
chamado christovão colombo. persuadido desde a infancia qrc Dem o
tinha criado para descobrir um novo mundo, entregou-se com ardor
ao estudo da astronomia, mathematicas e navegaçã0. cheio de confiança,
se dirigiu a Portugal, onde debalde pediu meios para a execução da sua
empresa. Passou então á Hespanha, e supplicou a Fernando que pozes-
se alguns navios á sua disposiçã0. Foi tratado d'insensato; porem não
desanimou. Depois de muitas repulsas e desprêzos, obteve es[e grande
homem uma audiencia do rei : Fernando o recebeu n0 meio de toda a
sua cÔrte. Com aquella emphase e a.r inspiraclo que tem algumas vezes 0
genio, expôz Colombo 0 seu projecto, e assegurou tão positivamente ao
rei que descobriria um n0v0 mundo, que logo exigiu para si e seus
descendentes o lugar dc vir:e-rei d'aquelles estados, pedindo ao mesmo
tempo os navios e dinheiros necessarios para a sua expediçã0. Todas es-
tas propostas. Íoram acolhidas com gargalhadas.
Animado, com tudo, e sustentado por seu bemfeitor e amigo, Fr.
João Peres de Marchena, religioso Franciscano e prior do convento de
Rabida em Andalusia, Colombo ainda assim não descoroçoou. Escreveu
o seu amigo á rainha Isabel, de quem tinha sido confessor. Com esta re-
commendaçã0, a princeza que, por outra parte, se persuadia que em Co-
lombo havia cousa sobrenatural, lhe obteve o que desejava. D'est'arte,
o unico homem em Hespanha que, desde o principio, comprehendeu o
illustre genovez, e mais eÍficazmente contribuiu para a descoberta do no-
vo mundo, foi um d'esses pobres rironges, cuja pretendida ignorancia é
objecto dos chrsÍosissimos gracejos da nossa illustrissima escola uo ltai-
rianna. (l)

(1) Yicla de Colombo, por Washington Irving, t. 1, p. 97 e seg.-Irvi,g é pro-


testante.

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DE PERSEVERÀNÇÀ' i5

Deram tres navios a Colombo. momento tla partida foi assás so-
o
na praia' A
lemne. Toclos os habitantes da cidade de Palos se achavam
eram COndemnados a
vista d'esses c0mpetriotas, que por Ordem da côrte
em busca d'um
tentar uma expeOiçao arriscida, pgr mares desconhecidos'
em. suas almas
ngvo mundo, sO pàta palavra d'um estrangeiro, derramou
tx amargum u o ttttór. Abraçam-se e despedem-se chorando os paren-
dos Íilhos q ma-
es e amiggs; as máes e espgsas não podem apartar-se
d'um ambi-
riilos, para quem olham comO victimas sacriÍicadas aos sonhos
marinheiros' intimida-
cioso. Tuclo eram choros e lamentos, e 0s proprios
clos ou enternecidos, cgrrcspondiam com lagrimas
a tão lugubres despe-
didas. Em meio d'esta scena d'agitação e dÔr, sobresahia a
bella e sere-
* a todos silen-
na figura tle Colombo. Cheio de ionfiançâ em Deus, impõe
forte e devota Se encommenda a si e a seus navios á Di-
cio, ã com
'oi
vina Providencia ; ouve missa com sua equipagem, e c0mmunga em pre-
com ar
sença de toclos e satisfeitos estes deveres, religiosos, adianta-se
gravc, sereno e firme; e sobe ao navio almirante, que tem por nome a
Sctnta lllaria. Dado o signal da partida levanta ancora a frotilha,
em

uma sexta-feira, â 3 d'Agosto de l!$2, e navegando com vento prospe-

rp descobriu, no Íim rle nove semanas, uma ilha da America.


Alli surgiu colombo em outra sexta-feira, l2 d'Outubro. I-.,ogo que des-
graças a
embarcou n'esta tão desejada terra. lançando-se de ioelhos, deu
Deus pelo feliz exito da sua empresa, e toda a equipagem seguiu o seu
e*erpio. Tão fervoroso christão como f,el subdito, tomou o immortal na-
lhe pôz o
vegante p6sse da ilira em ncme rJe Deus e do rei d'Hespanha, e
prinoipio, os selragens habitantes apenas viram os
no*. de S. Saluatlor. Ao
hespanhoes, fugiram amedrontados; mas a pouc0 e poucO se tranquilli-
,urã* e familiúisaram com elles. Offereciam-lhes pequenos objectos de
ridro e outras bagateltas, eil troca dos quaes davam elles ouro ('l)' Co-
lombo voltou á Hespanha, e foi recebido com as maiores honras. Fez se-
guncla e terceira viagem: e por ultimo, calumniado e cahido em desagra-

(1) Com este primeiro ouro da america, e offerecido em homeDagem pelos reis
cl'Hespanha á Sautissima Yirgem, se dourou o tecto da Igreja de Santa Maria Maior
em Roma.

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76 cATECrsMo

do, morreu este homem, que dera um mundo ao rei d'Hespanha,


pobre
e desvalido, sem ter ao menos a consolação de deixar 5,., ,orna á terra
que descobriu. Esta se chamou America, por causa
d,americo yespucio,
navegante florentino, que não tardou a sulcar 0 rumo
traçado por iolom-
bo. Quem poderá contar com a gratidão dos homens.
A seguinte lição mostrará p,r que motivo n,este seculo e não
em
outro, surgiu um mundo noto do seio clo Oceano.

oRAÇÃo.
o' meu Deust que sois todo amor, eu vos dou graças pelos mila-
gres providenciaes com que haveis conservado e consolado a ,ossa Igre-
ja; permitti, senhor, g[eo meu coração seja reconhecido a tantos bene-
ficios que vos deve I
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e a0 proximo co-
m0 a mim mesno, por amor de Deus; e, em testemunho à,este amop,
n?tnca obrareí por agrüdar aos homens, rnas sim a De.us.

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I
xlvl[." LIÇÃO.

0 Christianismo conservado e propilgado'

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I
78 cATrrcrsr\ro

material, personificacla nos imperadores romanos;


seis seculos depois viu-
se em campo com a revolta ck;s sentidos, personiÍicados
em Ulatiomet.
Passados mil annos, teve de se haver
ao* , ievorta do orgulh., persona-
lisado em Luthero. D'est'arte, a ambiçã0,
a sensualidade, ã o o.golho fo.
ram, n'ostas differentes épocas, os tres inimigos
do christianismo, e ain-
da o serão eternamente.
Dêmos ag,ra a conhecer os tres campeões
do orgurho ; isto é, cro
protestantismo: elles são dignos da caus,
fiou defendem.
'1.' Luthero. Nasceu este homem na
Artemanha, no ann. de Lttgú,.
Indo certo dia a passear com um seu companheiro,
foi este fericlo e mgr-
to por um raio. Luthero aterrou-se tanto com esta morte, que
se reti_
rou a um c0nYento de Religiosos Agostinhos. Foi alli que teu
os livros
do heresiarcha João Hus, e concebeu por elles violento
ôdio á Igreja Ro-
mana. Ardente, impetuoso e cheio dJ si mesmo, não tarclou
a derramar
a bilis e o veneno que trazia, em umas theses, que defendeu em {516.
Tendo o Papa Leão x publicado uma indulgencia,
a favor dos que con-
tribuiram para concluir a Basilica de S. Pedro em Roma,
tirou Luthero
a mascara, e atacou primeiro as indulgencias, depois a liber6ade do ho-
mem, a confissã0, a supremacia do papa e os votos
monachaes. con-
demnou seus erros o Summo pontifice, por sua Bulla
de 1520; e por
unica resposta, o monge apostata a maráoo queimar publicamente
em
Wittemberg.
Foi então que ptrblicou o Iivro que intitulou : Do Captiueiro ila
Ba-
bylonia. N'elle, depois de clizer que se arrependia de ter sido
tão mode-
rado, expia esta falta por meio de todas as injurias, que o mais furioso
frenesi póde fornecer a um herege. Exhorta os principes a que
sacudam
o jugo do Papado ; supprime d'um a vez quatro sacramentos. como es-
tas audaciosas tentativas excitassem vivas ieclamaÇões, Lutherg,
queren-
do affectar rectidã0, tomou por arbitro a facuklade cle Theologia Ae pa-
ris, cuja profunda sciencia mostrára sempre respeitar. À faculdade
o con-
demnou unanimemente, e enfurecido o monge h-eresiarcha, vomitou
contra
ella grosseiras injurias.
Pelo mesmo tempo pubricou Henrique YIII uma obra contra
elle, que
offereceu ao Papa Leão x.Mereceu esüe escripto ao principe inglez o ti-

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7n
DE PERSEVERANÇÀ'
publica por
tulo cle defensor da fé, conservado e feito gravar na moeda
ao seu meio ordinario'
seus successores. Enraivecido Luthero, recorreu
polidez e suaviclade do seu estilo:
Tomil,ou injurias. Façamos mostra da
insensata c0m0 a cabeça do
«Não sei se a propria loucura póde sãr'tão
ingleza de lama
pãfr.u Henrique, ôf, t .o quizera cobrir esta magestade
que eu
e immunflicia ; e tinha clireito a fazêl-o; venha cá snr' Henrique'
o ensinarei (f).
de Frederico' eleitor
Encerrado n'um castello, debaixo da protecção
quantas extravagancias e loucuras
de Saxonia, escrevia o furibundo apostolo
que tivera uma con'
lho passavam pela cabeça. Disse entro outras oousas
que, para se salvar'
ferencia cgm 0 diabo, e que este I[e tinha revelado
contra ellas'
era mister supprimir todas as missas resadas ; e escreveu
tempo fechado. no recinto
Não potlia entretanto Lu[hero viver por muito
gra1gear sectarios, dispen'
d'um castello; percorreu a allemanha, e, para
de castidade' esgrevendo
sgu ags Clerigos, religiosos e religiosas, do voto
para isso umã obra, õnde o em
pudoi e ido' Depois
de appellar para a impudicicia, appeltou
za' publican-

do em 1,522 uma obra intitulada Trqt


lica' N'essa
" todos os mosteiros' bis'
convidava os principes a lançar mão das rendas de
em geral' O en-
paclos e abbaãiar, ã d. todos os beneficios ecclesiasticos
os seus livros'
godo da presa trouxe mais proselytos a Luthero que todos
impuros e prin'
ó.o partido engr.ss'u rapidimente c'm quantos homens
par[e da allemanha'
cipes ambiciosos havia, e se estendeu a grancle
Por estc, tempo o fundaclor do novo evangelho largou o habito de
San[o Agostinfu0, e n0 anno de '1525, pguco mais ou mengs' casgu-se
convento' Passado pouco tempo'
com uma freira, que fizera sahir de seu
extraordinario: conce'
ainda deu ao mundo christão outro espectaculo mais
a'permissão de se casar
cleu publicamente a Phitippe Lanagrave d'Hesse,
.o* àru, mulheres. imperador Carlos Y, contristado com taes escanda-
0
Ios e excessgs, conv6cgu em Spira, no anno de 1529,
uma dieta, ou assgm-

não deixa
(1) Venío,tís, clomine Hent.íce, ego tlocebo oos- sobre cuja passagem
fallar latirn, e não juntar solccis-
Erasmo cle notar, que Luthero cieveriá, ao menos
mos ás suas grosserias.

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80 CA ECIS,\IO

blea cle principes allemães. Alli tomaram os Iutheranos


0 nome r)e Ttrotes-
tct,ntes, porque Íizeram seu pro[esto contra
o clecreto da dieta, o qual or_
tlenava que se seguisse a Rerigião rla Igreja catholica.
Enfurecia-se Luthero cada vez maiJ: não prrruva
anno que não des-
se a0 prelo algum n0v0 escripto contra o summo pontiÍicr,
oo contra os
principes ou os theologos catholicos. Eis
outro exemplo do seu modo de
escrever. chamava a Roma as
fezes tlc sod,oma, Ttrostitura d,e Babyto_
nia; ao santo Padre, maluado {lue escarraua d,iabos; aos cardeaes mise-
raueis que erartecessario ,*trri,inor. «Se eu podesse,
escreyia elle, fa-
«zia um feixe do papa e dos carcleaes, e lanfaria juntos
a0 mar; este
«banho os sararia, dou a minha palavra e a Jesu{hristo
por fiador.»
Com igual mtlderação falla dos Theologos Catholicos; as mais
leves inju-
rias que lhes dirige, são : besta, plrco, epicurista, cttheu,
eÍc. Era com
os proprios sectarios tão arrebatado como com 0s Catholicos.
Ameaçava-
os, se continuassem a contradizêl-0, de se retracÍar de tudo que
0 tinha eh-
sinado: ameaça bem digna d'unr apostolo da menüra. Tendo
ãs Zuinglos,
de quem fallaremos brevemente, cahido no seu desagrado, disse que
o
diabo tomára conta d'elles; «sã0 gente endiabrada, superendiabradã,
pe-
«rentliabrada; a sua lingua é a lingua da mentira, movicla
á vontade de
«satanaz, transfundida em seu inferar veneno.» Em
Íim,,n0 excesso do
seu furor injuriava a si proprio, dizen do que estaüa cheio de
iliabos, sata-
tanisado, persatanisado, etc. será esta linguagem a d,um.apostolo
da
verdade ?
Depois de sua apostasia pass,u esüe desgraçado a vida em furibun-
das declamações e toda a casta de devassidão. Crlnserra-se ainda
uma bi-
blia, no Íim da qual se vê uma oração em vers,s allemães, escripta por
mão de Luthero, cujo sentirlo é este. «IIeu Deus, por vossa bonclacle
«provede-nos de vestidos, chapéos, cdlotes e capas de gorctas
f vaccas,
«bois, cabritos, carneiros, novilhas, e de todos os meios de satisfazer
«rlOssâs paixões... Bem comer e bern beber e o verdadeiro
mockr de vi-
«ver sem enfado ('l).» Esta oração, em que correm parelhas
a indecen-
cia, impiedade, luxuria e glo[oneria, dá justa idéa clo ãnrf. tla preten6ida

(1) Christian, Juncker, yita Lntheri, p. 22ô.

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DD PERSEVERÀNÇÀ. 8l
reforma, que em Íim morreu d'uma indigestão na idade de sessenta e
dous annos.
'lllonge apostata, corruptor de freiras, homem de tal-rernas e de co-
mesainas, impio o synico chocarreiro, eis o primeiro gue moveu crua
guerra á Igreja, a titulo de reforma ; e que, para prova da sua estranha
missã0, que requeria por certo milagres da primeira ordem, offereceu,
como Mahomet, as provas do terçaclo, o progresso da devassidã0, e mil
oxcessos de discordia, revolta, crueldade, sacrilegio e roubo: eis-aqui
Luthero (l).
2.o Zuinglo. Parocho de Nossa Senhora dos Bremitas, na Suissa, e
depois pregador em Zarich, Zuinglo lendo as obras tle Luthero, deu
em dogmatisar; isto e, em atacar tudo quanto a Igreja tirrha ensinado e
praticado ate o seu tempo. Intlulgenoias, authoridade do Summo Ponti:
fice, Sacramento da Penitencia, vo[os monasticos, celibato ecclesiastico,
abstinencia da carne, tudo foi objecto das suas invectivas. Este digno apos-
tolo da mentira cuidou logo em se aproveitar da liberdade que prêgava
aos outros, casando-se com uma rica viuva; por que o casamento foi o
desfecho inevitavel de todas as farças da reforma. Sua doutrina transtor-
nou toda a Suissa, ate alli.tão paciÍica e feliz. 0s cantões protestantes
tomaram armas contra os catholicos. Zuinglo foi obrigado a dar batalha
com os sectarios QUe, apesar do que havia predicto, foram derroÍados,
Íicando elle mesmo morto no campo. Succedeu isto no anno cle ,l5B,t (z).
3.0 Caltsino. Este noyo apostolo da pretendida reforma nasceu na
diocese de Noyon, 0m 'lõ09. sem nunca ser padre, foi provido em um
beneÍicio; mas, pelo desregramento de seus costum:s, foi depois stigma-
tisado nas costas com ferro em braza (3).
Sahiu en[ão da patria, e tendo percorrido diversas cidades de Fran-
ça, onde pregou os erros de Luthero, ajuntando-lhes sous proprios des-
varios, dirigiu-se a Bale, e alli publicou sua obra intitulatla Instucçao
christã. Bem como Luthero e Calvino, nem respeita a doutrina, nem a

(I) Veja-se Viagem d'urn fidalgo fllauclez, cm procnra d'uma rcligiâo; r,icla
de Luthero, por Juncker I e vida de Luthero, por M. Audin.
(2) Hist. da ref. na Suissa Occ., por l\,L cle Ifaller.
(3) Veja-se I\I. .Jucques na Theologia.
Li

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82 cATtrcrsuo

moral, nem 0 cul[o da Igreja em que nascêra. Nito quer que haja culto
externo, nem invocação de santos, nem chefe visivel da Igreja, nem Bis-
Pos, nem Padres, nem festas, nem Cruz, nem alguma d'essas sagrarJas
ceremonias, que a Religião reconhece serem tão uteis ao culto de Deus,
e a philosophia tão necessarias aos homcns maleriaes e grosseiros, que,
para assim dizer, só pelos sentidos se elet am It contemplação das sousas
espirituaes.
Depois de varias correrias pela Suissa e ltalia, foi o pretendido re-
f..rrmatlor estabelecer-Se em Genova. A menor objecçÍo, a menor opposi-
çã0, que ousassem fazer-lhe, era Sempre no dizer d'elle obra de Satanaz,
crime digno cle fogo. Tenclo-o contra-dictaclo o jclven medico llespanhol
Miguel Servet, mandou-o queimar vivo. Erhor[ava os seus discipulos
a tratar tlo mesmo' m,tclo quantos Se opposessem aos progrsssos da sua
cloutrina. Escrevenclo a tlu Potit, a quem tratàva de Geral da Religia,o
no Detfinado, dizia-lhe: «Não tenhaes duviCa em ptlrgar a terra d'esses
«zelosos patifes quc, com seus discursos, exhortam oS p0v0s a obsl,inar-
«Se contra uós, tliffamando o n0sso comportamento, e querendo inculcar
«c0r[0 desvario a nossa cíença. Monstros taos devem ser suffocados, co-
«rrro €u aqui fiz na execução de ilIiguel Seryet. » Tal era a caridade d'es-
'mostra
Ie homem euangelico. Dar-vos-hemos tambcm a da polidez. de
sua linguagem: os comprimentos que dirigia a seus adversarit)s eram
p0rc0, asno, cdo, Cauallo, lou,ro, bebado, alnta dam.naclü. ExhOrtava Setls
parciaes a apoderarem-se tle'todas as riquezas tlos Catholiccls; «e isto di-
«zia clle, por amor de Deus, a Íim de podermos sustentar o pequeno reba-
«nh0, por que Sem meios grandes e poderosos, scria inutil a boa von-
«tade. »

0orgulhoso, impudico e barbaro Calvino morretl desesperado, e de


vergonhosa molestia, que aos olhos dos proprios disciptrlos foi considera-
da como castigo visivel da Divina Justiça (l).
(1) Calvinus in clesperatione finiens vitara obiit, turpissirno et faedissimo tÍIor.
bo, quem Deus rebellibus et, maledictis commirratus est, plius excruciatus et con-
sumptus. Quod ego verissime attestari aucleo, qui fnnostum et trtgicum illius exitum
et exitinrn his mois ocLrlis plreseDs aspcxi. "lo«,ru. Ilaren,, Aptccl, Petr, Cu,l,sentitcrnl ví'd,a
il,e Caluüw, por i\.1. Audiri.

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Dt, PERSEYBUÀNCÀ. 9,3

Não podiam os n0v0s erros deixar cle ser bem recebidos em um paiz
d'antemão disposto para a revol[a. Já no reinado d'Ilenrique \:III c6me-
çou o lutheranismo a introduzir-se p0uc0 a p0uc0 n0s seus estados, mes-
m0 contra sua vorrtade. Por morte d'esle principe, Bduarclo VI aboliu
inteiramente a Religião Catholica.

Gonsideremos pois esse protestantismo, que por;tantos meios,se pre-


tende hoje propagar.

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84 cÀrEClSMo

apostolo da re'
flos, porque offerecem conclições vantajosas. 0 principal
0 amor
forma' n'Állemanha, foi o amor clos t ens tlo clero ;
em FranÇâ,

da novidade; ern Inglaterra, o amor impudico'»


g.o Em seu d,o[ma. 0 symbolo dos protestantes reduz-se a um unl-
principio fundamental'
co artigo z'Creio tuilo o que quero. Com effeito, o
quo cada um deve buscar na Bi-
o o que elte sÓ entender, e mais
aos Povos, offerecenclo-lhes a Bi-
conticla n'este livro; mas que @u.sa
éa verdacle ?o que e o christianismo ? Não sei, procurai-o na Biblia'
mulheres, menings, Sa.
Procurai, pois, quem quer que sejaes, homens,
t
bios e ignoranter,.pro.otai Depóis dizei : achaes
na Biblia o Nlysterio
não o ? sois christão'
da Trindacle ? crOdàs n'elle ;
? soiJ christão crêdes
? sois christão ; não crêdes ? sois
Crêdes na Divindatle de Jesu-Christo
não crêdes ? sois chris-
christã0. crêdes nas penas eternas ? sois christão ;
que pretendeis-que as achaes
tã0. sejam quaes forem vossas opiniões, logo
0 que vós crêdes, outros 0
na Biblla, isio basta, sois christão. Todavia,
parece falso' Não me per-
negam; o que vos parece verdadeiro, a outros
na t'ossa in-
,
gont.ir quem qrã tem razã0, basta que Íiqueis tranquillos
o qüe e
cerleza,e estai certos que se pÓde tei bo* christão ignorando
necessario crêr para ser christão'»
E' prtrn., por palavra, a doutrina do protestantismo' Que
es[a,
entre os proüestantes tantas re-
aconteceu poiJt Dentro em pouco houve
na Biblia' que ha cinco sa-
ligiões quantos individuos. Um crê descobrir
que ha dous; este, que não ha
cramentos; outro, que h.a quatro ; aquelle,
nenhum. De soríe qo., .* vitla d I Luthero, cgntavam-se já' entre seus
que se combatiam' depri-
discipulos, trinia e quatro differentes religiões'
sendo que sÓ estavam unidas
miam e anathematisavam umas ás outras;
pelo otlio á verdadeira Igreja'
teem multiplicatlo ao
Desde esta epoc, ,íO úoJe as seitas protestantes
na citlade de Londres c
inÍinito; e todos os dias só fo.m.* noyas. só
seus soburbios crlntam-se mais de cem
(l). Bro[am as seitas como fo-

11)Eis.aquiosuomesdaspriucipaes,(nomestãoextravagautescomo§ua§

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DI.: PERSEYBRANÇÀ. b5

lhas nas arvorcs. Pelo que disse um professor protestante : «A nossa


religião está inteiramente dissolvida pela mull,iplicictade de proÍissões e
seitas que se formaram duranle a reforma e rlepois d'ella... Não só exte-
riormente tem soffrido a nossa Igreja innumeraveis subdivisões, mas eslá
essencial e totalmente desunida e dividida em principios e opiniões (2).,
«r\ reforma, dizia outro ern 1835, assemelha'se nas divisões e no
poder espiritual a um verme retalhado em pequenissimas partes, que
todas continuam a mover-Se em quanto podem, mas que em Íiut perdem
gradualmente a vida e o movimento que lhes restava (3).» Outro accres-
centa: «Se Luthero sahisse hoje do tumuLl, ser-lhe-hia impossivel reco-
nhecer como seus, e ainda c0m0 membros tla sociedade que fundou, es-
tes apostolos Qü0, em nossa Igreja, são actualmente considerados como
seus successores (a)., Outro continua: «A desunião dos pas[ores causa

doutrinas): Anglicanos, Collegiant.r, F*irurtes, Lalmoynistas,Indifferentes, Multi-


plicantes, Brayantcs, Quakers, Shakers, Jumpers, Groanners, Methoclistas, Weslheya-
nos, Wifeldiauos, I\[illenarios, Adamitas, Racionalistas, Generacionistas, Sonthestistas,
Anabaptistas, Adiaforistas, Enlsusiastas, Pneumaticos, Bruwnistas,Interimitas, Men-
nonitas, Berboritas, Calvinistas, Evangelistas, Labadistas, Lutheranos,Luthero-Calvi.
nistas, Baptistas, Luthero-Baptistas, Uniíersaes-Baptistas, Meincerianos, Sabbataria-
nos, Puritanos, Armenianos, Socinianos, Zwinglianos, Presbyteriauos, Anti-presbyte-
rianos, Luthero-Zwinglianos, Calvino-Zwinglianos, Oziandrianos, Luthero-Oziandria-
nos, Staueerinianos, Syncretinianos, Synerginianos, Ubiquistanos, Pietistianos, Bo-
nakerianos, Versechorianos, Latitudinarianos, Cecederianos, Bourrignonianos, Cami-
sarianos, Glassinianos, Sandmanianos, Herchonsinianos, Cameronianos, Philisteus,
À[arechalianos, Ifopkinsianianos, Necessarianos, Edwarianos, Priestliauos, Belief-Ce-
cedlianos, Burgerianos, Alti-Burgerianos, Bereanianos, Ârnbrosianos, Dforaviauos,
1\[onasterianos, Antimouianoe, Auomeanos, 1\[unsterianos, l\[amilalios, Clancularios,
Grubenharios, Staberios, Baeularios, Nuperaes, Sanguinarios, Confessionarios, Unita-
rios, Trinitarios, Anti-Trinitarios, Convulsiouarios, Antí-Convulsionarios, Impecca-
veis, Alegres, Rüsticos, Taciturnos, Dernoniacos, Choradores, Livres, Concubinarios,
Apostolicos, Espirituaes, Oleiros, Pastoricidas, Couformistas, Nào conformistas, Epis-
copaes, I\Íysticos, Conscienciosos, Socialistas, Puseystas. Total110.(Extracto daobla
fngleza intitulada : Guta rlue conduz á. t:erdaile e d, feli,cíclade, p.8í. Nâo é uma crl-
riosa pagina para ajuntar á historia das Vari,ações ?
(2) Wette, os ytt'otestantes, t828.
(3) As Igrejas Christâs, 1835.
(4) Reirüard, Discour. sur l'Eglise, 1800.

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86 cATEcIStto

nas cabeças e n0 coração clo povo a maior confusÍ0. Toclos ouvem e


lêem, mas não sabem já a quantas andam nem o que det'em crêr ou se-
grtir ('l)., Outro protesl,ante cltega a dizer em tlrna obra recente, qtrc se
obriç1aua G escrteüer nü unhu do dédo polegar torlas as doulriwts que se
crêern ainda' geralrtente enffe os protestantes (2).D
0utrn Íinalmente conclue que : «A' força de reformar e protestar rc-
tluz-se o protestantismo a uma linha 'de zeros sem valer cifra (3). » E
quereriam que a ,nossa religião fosse a protestante ! Antes dizei que que-
rieis que não fosse nem uma, porquc o protestantismo e anegaçãodeto-
da a relig.iã0.
Não carecemos demorar-nos com as pcrpetuas inconsequencias dos
protestantes. Elles rejeitam; por exemplo, toda a especie de tradição e
auctoridade em materias religiosas ; mas como sabem estes hereges que
a Biblia e um Livro Divino ? não será pela auctoridade da tradiqão ? Se
a traclição lhes parece inf,allivel quando lhes diz : A Biblia vem de Deus;
por gue razão o não será quando lhes ensina as outras verdades que elles
rejeitam ? Quando tleixareis de ter dois pêsos e duas meclidas ? Quando
sereis consequentes ? Yós guardaes o Domingo; pois logo dizei'nos : como
sabeis que o Domingo e o dia do Senhor ? não e unicamente pela aucto-
ridacle da tradição ? Então porque. razão supprimistes as festas, e por
que não guardaes absiinencia na Quaresma, nas vigilias, nas sextas-feiras
e sabbarlos, como vos ensina a auctoridade da t'iadição, e o antigo costu-
me da Igreja ? Ontle, da mesma sor[e aprendestes, se não na tradição,
que o baptismo por infusão e válido ? assim como outras muitas práticas
que consideraes sagradas ?
h.o Na rnoral. 0 decalogo dos protestantes reduz-se a um só pre'
oeito : Pratíca.ras tutlo o que crêres. 0 protestante, comO havemos de-
monstrado, pÓde pois cr'êr tudo o que quizer, isto é, tudo'o que á sua ra'
z-àO Se antolhar verdadeiro; e fazer, Por consequencia, tudo o que quizer,
Íicanclo sernpre protestante, e sem que nenhum protestante possa ir-lbe

(1) Luclk, ministro.


(2) Harms, minietro em Kiel.
(3) Shmaltz. jurisoonsulto prussiano.

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DIi PERSEYERANÇ.{. tt7

á mão. Pois isto mesrlo e o quc já vimos e vêmos alnda hoje. Lu[lte-
r0 estabeleceu por basc de sua moral, que aS boas obras são inuteis e
mesmo nocivas á salvação; que o homem é uma pura machina, sem li-
berdade morat, incapaz de virtudeç e crimes. Calvitlo diz que o homem,
uma vez justificado pela fe, te.m a salvação cer[a, ainda quando se entre-
ga depois a todas as dcsordens. E ambos estes hereges pretendiam
achar clarissimamente estas abominaveis maximas na Biblia t
:
0s anabaptistas disseram tarnbem Acltantls na Biblia que, para
erecutar as ordens do ceo, deaernos entermínar os impios, e conft,scar-
h,es os bens, a ft,nt d'estabelecer u,nt, rxouo nutndo; e eil-os com a Biblia
em uma das mãos, uffi tição na outra, e cingidos de espada, queimando,
matando, saqueando, e devastando toda a Allemanha (l). Yieram após
estes os Familistas, que ensinavam, sempre com a Biblia que era bon't
perseDerar n0 peccado, para que su,pp.rabu,ndasse a graçd,. Depois os An-
timonianos disseram abertamente, que o adulterio e o homiôidio augmen-
tam, a, santidade na terra, e a felicidaile no ceo.
Se estuclardes as innumeraveis seitas protestantes, vereis que não
lra um unico ponto de moral, que não tenha sido negado por alguma
d'ellas; porque nenhum ha de que o protestantismo possa aÍlirmar : Cum-
pre tomal-l c0n?0 regra d'acções; por isso mesmo que não ha dogma a[-
:
gum, tle que possa aflirrnar E' necessario crêl-o e submetter a razã,0
a elle. Concluamos que da mesma sorte que o symbolo do protestantis-
mo póde reduzir-se a este só artigo : Creio tudo o que me pai'ece oerda-
deiro, 0 seu codigo de moral pode cifrar-se n'este.: Deao praticar tuilo
o que me parece bom,. Por consequencia cada um, sejam quaes forem
suas paixões, póde accommodal-as a esta formula de moral; da mesma
sorte que póde, sejam quaes forem seus erros, encaixal-os na outra for-
mula de fe.
.5.o Em seu nu,lto. O culto é a expressão da fé e da moral. Como en-
tre 0s protestantes não existe fé nem moral obrigatoria e uoiforme, não
ha por conseguinte, nem póde haver culto olirigatorio e uniforme. O va-
sio da refornra, pela privação de fe e amor, sensivelmente se manifesta

(1) Yitle a tida tlr: Joào dc f,e1'deu c de l\Iuuzor.

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SS cATticrsrro

llos seus templos: são mudos, r,asios e nirs. Nada mais frio e melanco-
lico do que um ternplo protestante. Da perpetua mobilidade das opi-
niões nasce a mobilidade dos signaes, destinados a exprimil-as. Por is-
so entre os protestantes, uns teem a prédica c0m0 acto religioso ; outros,
corno aoto civil ; aquelles encaram o Baptismo como rito inutil ; estes, o
consideram necessario.
l\Ias o seguinte facto excede tudo o qrre se póde imaginar. Tendo-
se ha pouco os Lutheranos e Calvinistas allemães reunido em assemblea,
proposeram 0s ministros que dariam a realidade ou a figura do Corpo de
.Iesu-Christo na Communhão, á vontade e segundo a crenÇa de cada um.
Quando, em consequencia d'isto, vinham os crentes receber a commu-
:
nhã0, diziam-lhes os ministros protestantes Crês receber o Corpo de
Jesu-Christo ? Sim, respondiam 0s Lutheranos: Bem I recebe o Corpo
de Christo. Crês que recebes a figura do Corpo de Christo ? Sim, res-
I
pondiam os Calvinistas. Bem recebe a Íigura. Que é isto senão uma
charlataneria sacrilegâ, 0 a declaração que faz o protestantisrno á fáce do
nniverso, de que já não sabe o que ha-de crêr a respeito da Eucharistia,
como de tudo o mais ; e de que o acto mais augusto do Culto Christão
está sendo para elles uma simples ceremonia de que nada entendem.
Será pois, para admirar, que tantos protestantes mostrem invenci-
vel repugnancia a este culto vasio de fe ? Elle se sustenta ainda, da mes-
ma sorte que as fórmas d'um corpo privado da alma subsistem por al-
gum tempo, em quanto não chega a putrefacçã0, que tudo reduz a pó ({).
. 6.o Em seus effeitos. 0 protestantismo e a principal causa de todas
as calamidades, qne ha trezentos annos a esta parte teem pesado sobre a
Europa (2). 0s factos ahi estÍo para o provar. Apenas os primeircs apos-
tolos d'esta heresia semeeram entre o povo 0s seus principios, um vas-
to incendio se ateou em Allemanha, França, Suissa e Inglaterra. Uma
guerra de trinta annos, o saque de cem mil mosteiros (sagrados asylos
da sciencia, monumentos da caridade de nossos paes) ; a devastação e
(1) Yeja-se a carta cle trI. Laval, miuistro protestante, soble a sua conversâo
á Igreja Catholica.
(2) Grotius, celelrre plotestante, dízia: Ubicumque invaluere Calvioi discipu-
li, ilnpelia tttuhavele.

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DE PERSEVERÀÀ-ÇÀ. 89

espoliaÇÍo de mais de duzentas mil Igrejas ; rios de sangue desde 0 nor-


te a0 meio dia cla Europa ; crimes inauditos ; otlios atrozes; perjurios e
escandalos capazes d'envergonhar o proprio vicio; taes foram os imme-
diatos effeitos do protestantismo. Seria elle a verdade ? «Nã0, diz urn fa-
mo§o irnpio, a verdade nunca e nociva ({),, e esta é para nós a melhor
prova de que o protestantismo não é a verdade.
À inexoravel logica vem dar a razão d'esses lamentaveis factos, e at-
tribuil-os aos reformadores do seculo 16.o Que outra cousa é, com effei-
to, o protestantismo aos olhos do observador imparcial, se não a energi-
ca appellação para as tres grandes paixões que, nas diversas epocas da
historia, teem transtornado o mundo ? «0 principal author da reforma
na Allemanha foi o amor dos bens do clero; em FranÇa, o amor da no-
vidade ; em Inglaterra, o amor impudico. » São palavras d'um author na-
da suspeito. Que é pois, outra vez perguntamos: 0 que é o protestantis-
m0, se não a deificação da razão particular, e por consequencia a consa-
gração da duvida universal, primeiro em rnateria de religiã0, e depois em
tudo o mais ? Ora, não póde haver sociedade sem religião, religião sem
crenÇas, crenças sem fé, fé com o direito de duvidar de tudo; isto e,
com o protestantismo. Segue-se, pois, que com o protestantismo não pó-
de haver Religião, nem por conseguinte, sociedade; mas sim intermina-
veis revoluções, sangrentas catastrophes, como as que ha trezen[os'an-
nos vêmos na historia da Europa e do mundo.
Se, pois, com toda a verdade, póde dizer-se de Voltaire, simples lo-
gico do protestantismo, que «elle não viu tudo o que fez, mas fez tudo o
que r,êmos i» com maior razáo diremos de Luthero, pae da tluvida uni-
versal, que «elle não viu todo o mal que fez, mas fez todo o mal que
vêmos. » Percorrei as nações, que seguiram o protestantismo por toda
a parte, em presença do horrendo cahos d'opiniões em que se acham
submersas, e da duvida horrivel que as devora, a consciencia universal
pronuncia contra a reforma este pavoroso anathema : Matou a fe e cont
ellq, o Chrisl,ianismo e a sociedade.
Luthero, Zuinglo, Calt'ino, Henrique VIII t que, dando-vos a vós

(1) J. J. Rosseau.

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90 c^Triclslro

mesmos essa missã0, anprchcndesles por'vossl propria auctoritlade re-


furmar a Igreja, vêde o rlue Íizestes: Descle que, rejei[anclo a auctorida-
de Catholica, proclamastes a independencia do homem em rnateria de fé,
ou[ros reformadores surgiram inda em \,ossa vida para continuar a vgssa
obra iniqua. Elles reformaram a vossa doutrina assim como havieis re-
formado a da Igreja. vós tinheis rlito: Rejeiúarnos estes clogmas, por que
repugnam á nossa raz.,to; e elles disseram: Rejeitamos est'outros dogmas
por que a nossa razio não pórle atlrnittil-os. Perguntastes-llres: Quem
sois vós, que nos contraclizeiÀ t e elles ,r'os perguntaram tambem: E vós
quem ereis, quando contradissestes a Igreja ? Naila tiyestes
Que respon-
der-lhes.
Aterrados da vossa propria obra, logo em seu nascimento previstes
seus lamentaveis progressos. Corn horror descoltristes no futuro essas
inextinguiveis guerras d'opiniões que legastes á posteridade; essa immen-
sa confusão de doutrinas ; essa destruição graclual da fe. Ah ! vossos si-
nistros presentimen tos estatarn longe cl'igualar a realidade; vós não vis-
tes tudo o que Íizestes, mas Íizestes tudo 0 que vêmos. Apenas descieis
ao tumulo, quando novas seitas, despeltanrlo á palavra de revoita, que
Iançaveis no mundo, destruiram csses fragrnenfos cle fé que tinheis con-
servado, e successivamente todo o symbolo da Religiã0. 0s vcssos ulti-
tnos discipulos chegam em Íim a negar a Divindacle do proprio Jesu-Chris-
to (l), e esta apostasia solemne, que teria arrancaclo á reforma um grito

. (1) Sabe-se que o consistorio de Genora plohibiu aos ministros que prégas-
sem a Divindade de Jesu-Christo. Sào curiosas e dignas rle se registrarem as la,-
mentaçôes dos actuaes ministros ern A llemanha, hrglaterra, etc. Eis-aqui algumas:
.O espirito anti-christâo falla altarnente. Nós temos a Biblia de ié, mas
"oo,o,.go
'nâo ouso dizer como ella é interpretada. Nossas proprias universidades vã,o tâo
.longer que temo nâ,o preparern sua propria quéda; porque quando o sal perde o sa-
'bor é lançado fóra e calc.ad.o aos pés. 0 diabo tem rnais fé que muitos de nossos
.douüoresr e o mesmo ]llahornet valia mais do que elles. E'pasmoso, entre tanto
nverdadeiro, que ninguem entre os turcos ousariablaspheurar publicamente de Chr,is-
"to, Àbrahào, Moysés ou dos Prophetas, ao passo que, entr.e nós, tantos christâos o
nfa,zem de viva Íoz e por escripto! O numero dos que explicamos milagresdoNo.
regiào, e se's acreptos sâ'o tio
:HJ,T.';Iil:""::Tí:;ff il1T,l"h#àm 'ma

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DE PEIiSEYERANÇÀ' 9'l

pelo escandalo do
d,inrligneçã0, se ella aincla fosse ctrt'istã, foi ractiÍicacla
para ella consummado' A obra t-10 pro-
seu silencio. Tudo então estava
resta a reformar ao Christianis-
testantismo chegou a0 Seu termo, e nacla
religião que hoje
mo quando ,. õlrrga a reformar o mesmo Deus. Eis
a
tanto sc forceja Por ProPagar I

oRAÇÃO.

O' meu Deus, que sOis toflO amor, eu vOs clOu graças pgr me havcr-
des feito nascer no seio da verdadeira Igreja; permitti Senhor, que a
con-

solemos pela santidade de nossas acções.


Eu protesto amar a Deus sobre todas aS cgusas, e ao proxtmo Como
a mim mesmo por amgr de Deus; e, em testemunho tl'este amor, orarei
rnuittts Dezes ltela conaersd,o dos hereges.

dos superintenclentes, superintenclentes-ge-


"Muitos dos uossos sermÜes, até os
«l'âês; prégadoles da côrte, e prirneiros capellâes, poderiam, sem a menor inconve-
uma synagogaludaica, ou mesquita turca. Bastaxia só
"ri"rr"à, Ier prégados em
e Christianismo, q*e elles introduzem occasionalmen-
"substiiuir ,. palàvras Christo
ote e por fórma, por outras em que o pr'égador crêsse; por exemplo, as doutlinas e
os philosophos Socrates, Mendelssohn, Nlahomet, etc' Se um ho-
"preceitos da razio,
pura e sem alteragào; se a préga com resulta'
"."* hoje préga a'palavra flebeus do
os incredulos, abalando os indifferentes, confirmando os amigos
",1o, "oriortdináo
nChristo, gritam logoz oEste préga o papisttt'o''
yeja-se u ob"aão doutor .Y. I{reuminghans, protestante convertido, intitulada :
O resuítaclo cle m,ínlrus enc6rsões no ca,nxf)o d,al,ítteralwra Tttotestantel owanecessida'
d, Igreja Cathol,íca, d,emonstrad,a enclusio^amente gtelas confistões
d'os
ile d,e uoltar
Theologos e Ttltilosophos ltrotestantes. Nâo pótle deixar cl'aclmirar-se * ousadia da
empresa clo doutor Heumlnghans. Entre as auctoridacles que reunia, em nttmelo cle

rnil oitoceutas e oitenta e sete, uâo ha nem tlm tuico catholico.

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xlvIII., LIÇ40.

0 Christianismo conservado e propagado.

(xvr. srcuro).

.tr Igreja defendirla: concilio de LaÚrão; orderr de §. João


rle I)eqr; JeSuiÚas 1 sanÚo fgnacio; S. Illrancirco Xtr,vier'

Na lição prececlente reconhecemos o campo dos inimigos da Igreja,


pa-
e oS heresiarchas de que o demonio se serviu, no decimo sex[o seculo,
ra destruir na terra a obra tla Redempçã0. Nunca seus esforços foram
mais temiveis; mas está escripto : ás portas ilo inferno nd'o preÜa-
lecerdo cyntrd, ella ({). Ao exercito inimigo oppÔz Deus dous concilios
gerae§, doutores tão distinctos pelo genio, como pela santitlade; cincoen-
í, r nout grdens ou Congregações religiosas; e emfim, para indemnisar

Igreja Romana; é então digo que esta Igreja se mostra stlperabundantis-


sirna de vida e faz immensa ostentação de novas forças.
Eis na Italia, França e Hespanha cincoenta e nove reformas e cria-
ções d'ordens religiosas, destinadas á educaçã0, ins,trucção e beneflcencia;
tenclentes a cgnsagrar ao serviço da Igreja todas as suas forças, e a fazer
entrar insensivelmente no mesmo caminho as gerações futuras. Detenho-
me a vêr as grandes Íiguras d'esta epoca, os Carlos Borromeus, 0s Igna-

(1) Math. XVI, 18.

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9,i c,\r.Ecrsilt)

cios, tls Franciscos Xavicr, os Iiranciscos do Sallcs, as '[lcresas tlc Jcsus,


os Paulos Justinianos, 0s Caetanos cle Tiriene, os Peclros Caraífas, os R0-
millões, 0s Berulles, os Filippes Neri, os Hugo nlenarcl, os Àzpilcuóias,
0s Joões de Deus, os Bellar.rninos, os Baronios, os yicentes de paula.
«Mais adiante diviso o magniÍico ecliticio da Igreja Catholica,
erguen-
do'se na America meridional, onde a coniJuista se transformára cm mis-
sã0, e a missão se tornára civilisadora. Yejo nas Inclias Orientaes esse
centrO immenso conquistado pelo catholicismo, em Gôa; e em volta clo
qual se contavam em'1565 perto tle trezentos mil n0v0s Christãos; no
Japã0, em l,õ79, outros trezentos mil christãos; rlepois, em ,1606, tre-
zentas Igrejas e trinta casas de Jesu!tas, fundação do p. valignano cl,ahi,
;
nOs ann0s 1603 a 1,622, duzentos e trinta e nove mil trezentos e trinta
e no\'e japonezes convertidos, nã0 obstante a furiosa perseguição: na chi-
lla a c0nsagração da primeira Igreja em Nanliim, um anno clepois cla mor-
te do celebre P. Ricci, que comeÇava sempre por lições de mathematica
para acabar peio ensino da Religião; e, em 16,16, as Igrejas christãs nas
cinco provincias do imperio. Não se passava anno que se não cgnvertes-
sem milhares de milhares de pessoas ; e isto apesar da viva resistencia
das religiões nacionaes, que dominam no Oriente setenta Bralrmines c,n-
;
vertidos em 1609 pelo Padre Nobili ; na côrte de ltlogol, êrr 15g5, tres
principes da familia imperial d'Akbar, conver[idos pgr Jeronymo Xavier,
sobrinho do Santo do mesmo nome; a Cornmunidacle Nestoiiana reduzi-
da á fe; em Àbyssinia, sela christos, irmão do imperarlor, seguitlo d,um
grande numero d'outros; depois o imperador seltan segueicl commun-
gando segundo o rito catholico.
«Na corrte romana quantos homens se distinguiram em politica, ad-
ministraçã0, poesia, artes e erudiçã0, tiverarn toclos o mosmo caracter
d'austeridade religiosa. A Igreja acalentava, reanimava com seu alito
bemfazejo as forças vitaes, extinctas e corrompictras, e clava ao munclo um
andamento e urn aspecto inteiramente dlverso.
«Que imrnensa activiclade ! Roma abrange o mundo inteiro, penetra
a0 mesmo tempo nas Indias e nos Alpes, envia repre.sentantes e defenso-
res ao Thibet e á Scandinavia t E alem cl'esta itlimitada scena, vêde-a
por tocla a parte joven vigot'osa e infatigavel. 0 irnpulso que operava 10

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DE PERSIIVUIIANÇÀ. e$j
*
centro, talvez se communicava com mais exaltação e força aos operarios
clos paizes longiquos (l) l»
Antes do nascimento da heresia de Luthero, tinha a Igreja, cheia de
solicitucle pelo bem cia Clrristandade, convocado em l5l2 o clecimo se'
timo Concilio geral no templo cle S. João de Latrão em Roma. Os prin-
cipaes objectos de que sc occupou este Concilio foram restabelecer a
paz entrc os principes Christãos, e fOrmar uma liga contra o Turco, ini'
migo sempre ameaçador da ReligiÍo e civilisação europeia. Deve-se a Lu-
thero, cuja heresia mct[eu a discordia em r\llemanlia, o nã0 ter effeito a
liga e poderem os Nlahometanos devastar á sua vontade as provincias
christãs, visinhas do seu imperio.
Ao mesmo tempo que velava pela conservação de setrs Íilhos, a Igre-
ja justiticava-se perante o universo das exprobrações e calumnias, com
que o apostata cle Wittemberg procurava feril-a. Elle increpava a San[a
Esposa de Christo de ser uma Babylonia, uma prostilu[a, orgão de Sata-
naz, e de n'ella não existir já verdacle, santidade nem caridade. lIaS é,
pelo fru,cto que se conhece a arulre, como disse nosso Senhor : a boa ar-
wre produz bons fructos ; a mtí os produz mrÍos (2). Àssim, pois, quando
o pro[estantismo prégava o odio clos grandes, e o roubo dos bens do cle-
ro ; quanclo aconselhava a licença aos religiosos, e punha tudo em com'
bustã0, deva a Igreja ao mundo um dos mais bellos penhore§ que podia
clar-lhe, d'aquella maternal e terna caridade, que só de per si basta para
a dar a conhecer como a Esposa sempre legitima do Deus da caridade.
Às paixões todas, agitadas pelas cloutrinas de Luthero, as subver-
sões que foram sua consequcncia, e bem assim o enfraquecimento e a
perda geral da fé, totlas estas cousas estavam prestes a desonvolver a mo-
lestia mais humiliante que podia aÍfligir a humanidade. A demencia ia
tornar-se muito mais commum, e 0 oumero dos doudos exceder todas as
proporções a que ate alli chegára na Europa. Sim força é dizêl-0, a scien-
cia tem hoje comprovadô este facto, e forrnulado-o em proporções ma-

(1) Leopoldo Rank, Histoire de la Papatté. lÍ. Lcopoldo Rank é protestante,


e a sua obra niseravelmente o prova mais cl'nma vez.
(2) Math. VII, 16, 17.

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96 cAlgcrsilo

tlremalicas : Da pcrda tla Fé ti 'perda da razã,0 ttíto ha mais que mn pos-


s0. Qu,anta menos fe eniste n'unt, p0D0, mais abttndam os itouitos (l). A
Igreja, pois, sahe ao encontro tl'esta nova calamidade; ella vae reparar
os damnos, de que a heresia será principal causa.
Fundou-se n'este tempo a Ordem de s. João cre Deus ; na qual, além
dos tres votos de pobreza, casticlade e obediencia, fazem os religiosos
outro, tle servir os doentes, e particularmente os alienados. Cariclacle
I
Catholica, quanto és admiravel Conhecedora da fraqueza e inconstancia
do coração humano, tu o ligas com vinculo indissoluvel. Aqui junto á
cabeceira do empestado ; alli, ás cadeias do escravo; alem na casinha do
doudo. E a Religião que, ha desoito seculos, inspira o nutre taes dedica-
ções em milhares e milhares de pessoas não terá nada sobrena[ural ltt
Dizei-nos, logo d'onde ven este grande milagre de caridade, se e que não
vem tle Deus ?
Foi s. João de Deus o fundador da nova 0rdem. Nasceu elle em
Portugal no anno de l.í95, de paes poucos favorecidos dos bens da for-
tuna, mas piedosos e caritativos. 0 desejo de viajar fez que deixasse, inda
em tenra idade, a patria e a familia. Causou esta ausencia tal dôr a sua
mãe, que m orreu ao caho de tres semanas. Não tardou porem, que o
joven prodigo se achasse desprovido de tudo, e reduzirio a tal miseria,
que foi obrigado a servir, para obter meios de subsistencia. Tinha cerca
de dez annos d'idade quando entrou a servir um pastor de gaclo, que o
empregou na guarda dos rebanhos, e em cujo estado elle viveu em toda
a innocencia d'um verdadeiro Christã0.
Alguns annos depôis sentou praÇa em um regimento de infanteria.
Desgraçadamente, a corrupção que reinava entre 0s camaradas, infeccionou
sua virtude; perdeu insensivelmente o temor de Deus, e abandonou quasi

(l) Veja as sabias investigações do doutor Esquirol. O progresso da demen-


cia depois da reforma é facto hoje tâo incontestavelf que o- notaram com admiraçâo
os mesmos homens publicos. Na sessâo da camara dos pare§ em 5 de Fevereiro de
183S plovott-se que o numero dos doudos augmentára prodigiosamente em Inglater-
ra clesde o tempo de Ilenlique YIII. Já no seculo passado tinha calculado um me-
clico italiano, que na Italia, na proporgâo da sua populaçâo, o numero de doudos
ela setc vczcs mcnor que nos paizes protcstautcs.

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DE PI'RSEYERANÇA. 97

todos0s seus exercicios de piedade. 0 Senhor poren1 que vela pelos


seus escollúclos, e que se permitte que catam em algumas faltas
é
pgr sua
para lhes fazer conhecer sua propria fraqueza, e ediÍicar a Igreja
desor-
penitencia, nã0 tleixou muito tempo a João no abysmo das suas
dens. Um dia cahiu d'um cavallo eil que montava, e Íicou
por tal motlo
falla nem movimento' Tornando em
ferido, que muito tempo esteve sem
si, e conhecenclo o perigo em que estaYa de perder a vida do corpo, fez

sérias reflexões Sobre o estado cla sua alma, e de


joelhos Se enc0mmen-

dou á Santissima Yirgem, promettendo mudar de vida' Fiet á sua prg-


pastor'
messa, sahiu, do exercito e voltou ao antigo estado de
Longe do tumulto clas armas, lembrou-so João do que na juventude
tinho sirJo, e concebeu o mais vivo arrependimento. Desde logo começou
de m0r-
a empregar a maior parte do rlia e cla noute na oração e exercicios
tificação; mas entendeu que o melhor que podia fazer, para satisfazer á

Divina Justiça, era dedicar-se ao serviço dos infelizes. Com este intento
pass6u á Africa, para prestar aos escravos christãos todos 0S SOcCorrOS
e

consolações que pode.sse. Esperava alem d'isso alcançar alli


a corÔa do

martyrio, gue arrientemente anhelava. Todavia seu confessor lhe acon-


selhou que fosse para Hespanha ; elle obedeceu. Assistindo a um serrnão

do Pactre João tl'Avila, o mais celebre pregador hespanhol, c0mmoveu-se


tanto, que c0me80u a debulhar-Se em lagrimas, e a encher a Igreja de
prantos e gemirlos. Fez conÍissão geral, e desde então não cuidava em
outra cgusa mais que em se [ornar util aos pobres e enfermos. Passava
os 6ias inteiros á cabeceira dos doentes, prodigalisando-lhes os mais ter-
nos cuidados e oflicios, ainda os mais penosos e servis. Pelas nove horas
da noute sahia pelas ruas a pedir para elles e não havia chuva, vento ou
frio que o cle[ivesse. Anclava com um ces[o ás costas e duas marmitas nos
braços, peclindo em alta voz com este pregáo: Irmãos, fazei, bem' por
amor ilc Deus ; irmã,os fazei, bert, por anmr de Deus'
Acodiam todos ás janellas, por aquelle modo tão exÍ,raordinario, e
pelas palavras tão profunrlamente ptrilosophicas com que pedia ; e ao mes-
mo tempo que ajuntava muitas esmolas, cQm que soccorrer os Seus p0-
ltres, edificava com sua cariclade os trabitantes cle Granada. Não tardou
que outros caritatiuos ohristãos se lhc. ajun[assem, e esta ftli a origent
/

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Í18 cÀl,ECIsu€)

rlos irmãos du ca,ritlade d,e s. Joao de Deus, cuja orclem l'oi app;ovada
pelo Papa S. Pio Y.
Continuou o Santo ate á ntorte a exercitar as obras cle misericordia,
sendo elle mesmo llobre necessitado de tuclo. Na sua ultima e.fermida-
tle veio a visital-o ccrla senhora, e o achou clc.itado vestido em sua pe-
quenina cella, não tendo outra cohertura que uma casaca velha,
Era este
o modo ordinario porque repousiiva, só com a differença, que em lugar
tla pedra que llre servia de travesseiro, tinha o cesto em que juntava as
esmolas. 0s pobres doentes estavam alli junto d'elle dcbulhando-se em
lagrimas. 0 Bispo da cidade o veio vcr, clisse missa no seu aposento e
'
lhe ministrou os trltimos Sacramentos. Ilstava João de joelhos àiante tlo
altar, em que havia commungacro, quando rencleu o cspirito a Deus, a
8 de llarço de ,I5õ0.
Dissemos que 0s irmãos de s. João cle Deus tinham por Íim 0sp0.
cial cuidar dos alienados. De todas as molestias cle que o homem pO.te
ser accOmmettido, a demencia e ineontclstavelmente a mais triste e humi-
liante. 0 homem, privadu cla razã0, é similhante ao bruto, e uiui[as ve-
zes bruto furioso. 0 doudo nada tem a esperar cio muntlo senão rlesprêzos7
insultos e abandono. Repellidos de toclos, encerraclos c0m0 criminoios err
sombrios carceres, expostos a toda a qualiCacle de máo tratamento, irri-
tavarn-se c atormentavitm-se estes infelizes; e d'est'arte o sangue, catla vez
mais incendido, tornava para sempre ineuravel a sua molestia. Illedico tle
todas as enfermidades humanas, o Christianismo os buscou c0m0 amigos,
tomou a peito 0s seus males, e foram incalculaveis os fi'uctos cle seu zêlo.
Fundararn os irmãos de S. João de Deus hospitaes espaçosos, ltem arcjaclos,
e alern d'isso com alamedas, jardins e todas as distracçúes capazes tle
acalmar 0 sallgue, e serenar as ideas dos alienaclos. Alli já se não con.
trariam os dernentes, nem se fecharn n'esses calabouçós, onde se oifus-
ca e pertle o ultimo lume cla raano. Pelo contrario os clouclos passeiam
livres e á sua vontade no interior clo.estabelecimento, e paru os copter
só empregam 0s religiosos meios de brandura. Assinr r'ão soceganrlo
aqueilas cabeças agitadas, succecleudo muitas vezes terern os irmiics cle
S. João de Deus a felicidade tlc restituir a suas falnilias, parentes que
Para semilrLr consideravam perdiclos. Estavum lror tal motlo ar,raigatlas

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DII PIIRSEYERÀNC.II. Ul)
a

as prevcnçocs coutra a demencia, quando os it'mãos tle S. João tle Deus


emprchenderam a sua cura, que não foi sem grandes diÍliculdades que
obtiveram a permissão de levar a eÍIeito seu generoso designio. Para os
dissuadir de tão bella tentativa, qne reputavam inutil, ordenaram as autho-
ridades cir,is qlte 0s santos funclaclores fossem conduzidos aos infectos
subterraneos, onde se acbavam sumidos alguns tlos doudos mais furiosos.
i\[as n'esta empresa, bem como em todas aquellas que devem seu
nascimento ao Christianismo, se manifesta corn esplendttr o caracter dit'i-
n0. Um prodigio ve,io em auxilio dos caritativos frades, mostraudo Deus
por elle que lhe era agradavel o seu generoso sacriÍicio. Jazia dei[ar]o
em umâs palhas no fuuclo d'estes payorosos sub[erraneos um dottdo, que
passava pelo mais terrivei furioso. Estava prêso de pes e mãos com gros-
sas cadeias a possantes argolas, embutidas e chumbadas nos lrluros; ten-
rlo com duros ferros comprilnidos todos os movimentos. Seus vestidos
despedaçados, annunciavam que muitas vezes se exercia violencias contra
si mesmo, e (lue era perigoso approximar muito a elle. Tinha aos pes
uma bilha d'agua meia rtrucbrada, c um pão negt'0, tnanchado d'ercremen-
to: e era 0 unico alimcnto d'este desgraç"rdo. Quando cle longe, ao cla-
rão dos archotes que levavam 0s guardas, r,io caminhar para elle o pres-
tito, quc vinha visital-o, pôz-se a pe d'urn salto, e sacudindo as cadeias
tomava attitucle tmeaçadora. Seus cabellos eriçados, os olhos esgazea-
dos e cholericos, este todo horrendo tlc idiotismo e furor, o tenebroso car-
cere, o profunclo silenr;io, interrompitlo sdr pelo retinir clos ferro.i, davam
a es[a scena um caracter lugubre e terrivel, r:1ue só deixava de intimidar
a ctrristãos ctreios do espirito cle lleus.
A alguma distancia do temivel alienado par?ram os guardas: porém
o superior dos religiosos rle S. João de Deus carninhou sô para elle, abra-
çou-o affectuosamente, e acariciando-o com a mão, c0m0 quem ciomestica
uma fera brava, deu-lhe a entender que não vinha alli senão para lhe fa-
zer bem. I\[udou d'aspecto o louco, e tocla a sua furia se converteu em in-
disivel pasmo. Havia mrri[os annos que elle não cr:nhecia a presença dos
tromens senão por ntáos tnrtos c aEoutes com que o opprimiam; e 1rcr isso
era este agora um prtltligio, ;rara o seu lraco cercttro inerplicavcl, o r'ôr'
cstc homem, uno su nio llrc dat'uáos [t'atos, rtt;rs mirnosa.urcrrr[e sigliti-

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l0o cÀrEctstro

car-llle que se compadecia dos seus males. Desde este momcn[o Íicou o
religioso senhor absoluto do louco. llandou, com terror dos que o acom-
panhavam, que o desprendessem, vestiu-lire habitos convenientes, tomou-o
pelo braço e o conduziu á case que tinha preparada. Passado um anno,
este louco tão perigoso estava restituido á stra familia, no meio de seus Íi-
lhos, abençoando com elles os caridosos irmãos de S. João, e agradecendo
a0 ceo o haver-lltos enviaclo para llre restituir a liberdade, a razão e a vida,(l).
A fundação da 0rdem de S. João de Deus, e de tantas outras or-
denshos pitaleiras que appareceram n0 decimo sexto seculo, admiraveis
prodigios de caridade, defenderam gloriosamente a Igreja Catholica das
calumnias tlos inÍieis e protestantes. Quiz Deus confundir tambem os
scus inimigos, descobrindo o veneno e a vaidade de suas doutrinas. Para
este Íim abrindo o thesouro das suas misericordias, fez apparecer outra
Ordem religiosa, aggregado atimiravel de virtude, actividade e sciencia;
viveiro de santos, sabios, martyres e missionarios. Estes religiosos, sus-
tentaculo da Igreja, quaes vigilanÍes sentinellas, empunhadas sempre as
armas, susten[arão a fé pelo seu ensino e a transmittirão ás gerações
vindouras. Com seus escriptos a farão rcviver no coração dos homens
maduros e anciãos; porão a heresia em fugifla com suas sabias controver-
sias, e com suas missões admiraveis chamar'ão ao gremio da lgreja as
nações idolatras. ' t
No momento preciso, no mesmo anno. talvez no proprio dia em que
Luthero sus[entava pela primeira vez suas theses hereticas, Santo Ignacio,
destinado por Deus para confundir o heresiarcha, recehia uma ferida no
cerco tle Pamplona, que devia separal-o para sempre do mundo, clispôr
sua conversã0, e conduzil-o á gruta de Manreza, ondg escreveu os seus
exercicios espirituaes, codigo methodico da piedade que serviu a fundar
a sua Ordem e povoar de novo as outras ; livro d'0ur0, do qual se clisse
que Íizera mais conversões do que tem letras. Quando, passados anuos,
começava o impio Calvino a fazet discipulos em Paris, santo lgnacio, que
vicra estudar a esta cidade, juntava companheiros para declarar guerra

(1) vej« Butler, 8 de ilIarço ; Ilelyot. t. IY, p. 131 ; Hist. clos Benefi,cios clo
aln'ist. t.7, p. 747:

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DE PERSEYIIRANÇA. 'l0l

aos inimigos tla fr:. Emfim, quando Henrique VIII, rei d'Inglaterra'
se fcz
a seus subditos' sob pena
inaugurar chefe da Igreja ,nglitan*, e manrlou
rle mOrte, que apagassem em toclos os livros o nome do Papa, lançava

Santo Ignació os funáamentos 6a sua orrlem, que faz


particular profissÍo
de obediencia ao succes§or'de Pedro.
0 iltustre fundador da Companhia de Jesus nasceu em Hespanlta, no
porém
anno ltigL seus paes 0 mandaram de tenra itlade para a cÔrte ;
foi n'es-
Ignacio, apaironadô de gtoria, seguiu a carreira das armas' lião
d conclição muito regular sua vida: todo occupado das vaidades e pra-
aS maximas
zeres do murtdo, estarla longe de conformar SuaS acções com
e nove annos, quando
do Evangelho. Assim viveú ate á idade de vinte
Deus fui serviclo abrir-ihe os olhos. Defendendo a cidade de Pamplona,
que lhe fracturou
cercacla pelos trancezes, Ignacio foi ferido pgr uma bala
pelos inimigos
urnu p.rna. Ficando prisioneiro, foi tratado com benignidade
cura prolongada, pediu lhe
e assistido de bons cirurgiões. Todavia sendo a
dessem tivros para se diitrahir, e lhe trouxeram as vidas dos santos. AIli
o esperaya Deus. De tal sorte a graÇa lhe toeou o c0raçã0, que resolveu
converter-se e imitar os santos. Apenas pÔde andar de pe retirou'se
a

uma ]gruta, per.to de Manreza, onde praticou grandes austeridades e fez

conÍisião geral de totla a sua vida. Depois partiu para a Terra Santa'
Yoltando da sua peregrinaçã0, applicou-se aos estudos com a maior
assiduidade, e passou a Paris, onde converteu a S. FranCiscO Xavier, re-
petintlo-lhe estas palavras de Nosso Senhor : Que aprooeitard, ao homem
lucrar o mundo toilo, se perder sua alma (l)?
Juntaram-se-lhe muitos discipulos, e assim lançaram os fundamentos
da Ordem da companhia de Jesus, gue depois foi approvada pelo sum-
mo PontiÍice em 1540.
yiveu Ignacio muito tempo em Roma, onde muitas vezes foi alvo de
calumnias e perseguições; mas tudo soffreu com inalteravel paciencia e
humildade. Havia tomado por clivisa estas quatro palavras : Tudo para
mai,or gloria de Deus, e este pensamento o [ornava insensivel a todos os
bens e males da terra. Tinha ordinariamente os olhos elevados para 0 ceo,

(1) l\Íath. XYI,2G.

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a
l(tz cÀrncrsluo

e rr:petia com frequencia. roh t como me parecc vil


a terra, quan6o olho
para o ceo !» Este grande santo morreu em
Roma a 3t de Jurúo de ,rüü6,
r)a idade de sessenta e cinco ar)nos.
A ordem dos Jesuitas, ou Íilhos rle santo Ignacio, tem por
objeoto :
'l.o eclucar a mocidade; 2.o procurar a sarvação
dos cathoricàs pera pré-
gaçã0, Confessionaric e composição cle boas
obras ; B.o trabalhar na con-
versão dos hereges e inÍieis, por meio tle missões.
Àlem dos tres votos
ordinarios de obediencia, pobreza e castidade, fazem
outro cle ir a todas
as missões a gue o Summo PontiÍice os manrlar. Não
acceitam clignida-
de alguma ecclesiastica, menos que il isso ,ão sejam obrigados p,r or-
dem erpressa do Papa. Estes religiosos teem prestado
e continuam a
prestar os maiores serviços á Igreja, senilo as
missões aos inÍieis o mais
bello florão da sua corÔa. Elles teem manrlado apostolos
a toda a parte
do mundo, e em tão glanrle numero que, n0 espaÇo de cem annos
sahi_
ram de seus conYentos mais d'oito mil missionarios, ao. quaes
cem mor-
reram martyres. Teve esta ordem a gloria cle produ zir -o s. paulo
dos
tempos motlernos, o apostolo clas Indias, s. Francisco xavier,
tle quem
agora yamos occupar-nos ({).
Nasceu Frattcisco Xavier a õ d'Abril cle I õ06, no
Castello cle Xavier
em Hespanha, de pacs por suas virtutles tão clistinctos, cgmo por
sua
nobreza. Alegre, affavel, espirituoso e conclescentlente,
de iodos que tl tra-
[avam se tornava affeiçoado. Na idade de c]ezoito anngs
foi a pariz, onde
se entregou com tal ardor aos estudos, que em breve excedeu todos
os
seus condiscipulos. Concluido o seu curso litterario, foi
ncmeaclo profes-
sor tle philosophia. Desgraçadamente xavier trabalhava só para
o mun-
rlo; c os applausos risongearam sua vaidacle e ambiçã0. vindo a paris
Santo Ignacio, com o intuito de formar uma socieclade
cle sabios, dedica-
da á salvação do proxirno, propôz a xavier que fosse,um dos membros
d'ella. o fervido mancebo, cheio d'ideas rnundanas, rejeitou com rres-
dem a proposta, e até mofava cre Ignacio toda a \ez que se rhe
offerecia
occasiã0. Não descoroçoou porêm o santo, antes suppor[ava
tudo com

(l) Hcl;'ot, t, \rrr, p, 41t2. ve,ia-se a Hist. cru, comp. de Je,srs,por IrI. chreti-
ueau-Joly"

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DII PTIRSEVENÀNÇ4. {03

paciencirr e até coln rosto alegre; tlizenrlo só de quattdo ern quando a


\avier aquella rnaxima clo Evangelho: Que aproueita ao ltoment lucrar
o rrtundo totlo, se pertler sua alma? (l\
Nada fisto fazia irupr.Lrssão no munda.no manc ebo. lintÍo lgnacio mu-
dou tle tactica, e comeÇou a leval-o pela baltht, louçatttlo sua sabedoria e
Éalento ; e lhe offereceu clinheiro em certa precisão em que Xavier se viu
em apuros. Commovcu-se o joven com esta generosidade ; o setl cora-
çno Cedeu á gmça, e opergu-Se a Sua conversãro. Desde logo, insepat'a-
vel companheiro d'Ignaeio, todo aquelle zêlo com que l-ruscárl arlqrririr e
sciencia, corneÇou a e{npregal+ em conseguir a virtude. Seguidos d'al-
guns companheiros, partirarn então para Roma os dotts n0v0s athletas dl
fc, e alli offereceram seus sert-iços ao Santo Padre.
Àconteceu isto n0 rnomento para Sempre solemne, em que grande
parte da Eulopa perdia o lurne da fe, de que se tornára indigna. 0s
protestantes cerravam os ouvicios á voz maternal da Igreja, que os cha-
maya a0 gremio, e a seus carinhosos e antecipados esforços correspoll-
tliam atc com grosseiros insutios. Tinha a Igreja cumprido já toclos os
d.everes de mãe: e lembrada de quc tarnbem era fllha do 0e0, con a n0-
bre dignidade que lhe convinha, disse para e§ses obdurados : Jd que aos
jutgaes ind,ignos da aerdacle, irei let;al-a a ouh"as nações (2).
Já um B0v0 ntundo, a Àmerica e aS Indias, lhe estava preparaclo:
faltava porem o hOmem que, tomando o sagrado facho, transpozesse oS
mares. Não tartlou que appareoesse, ahi estava Xavier. Escolhido pelo
Yigario de Jesu-Christo para pregar o Evangeiho ás nações do Oriente,
sahiu de Roma exactamente no momento em que a Àllemanha, Suissa e
Inglaterra rompiam os ultimos vinculos que os uniam á antiga Igreja. Urna
frota, pr,estes a levantar ferro, o esperava no porto de Lisboa. Lii se
apresenta O homem providencial, o novo apostolo tlas gentes; e qual
astro henefico, eil-o I'ae allumiar novas terras com a divina luz, de que
o ceo irritado acabava de privar 0s p0v0s do Norte. Apenas chega o n0-
y0 Paulo, fulgura, diffunde-se rapicla a celeste luz por essas vastas re-

(1) l\tath. XVI, 26.


(2) Act. XIII. 46.

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l0/r CATECISMO

co tempo as conquistas de Xavier recompensam a Igreja, dando-l5e tan-


tas novas ovelhas quantas ou mais que as que havia perdido.
Bra incansavel o santo missionario. por toda a parte pregava, ca-
thechisava, baptisava e visitava os enfermos. E' fama que baptisou por
suas mãos um milhão e cem mil idolatras. Constando-lhe que havia alem
das Indias um grand e paiz chamaclo Japã0, resolveu ir alli ; por mais que
the ponderaram, que se lá fosse, com certeza o matavam, nem assim o de-
tiveram, antes lhes relorquiu dizendo : «para lucrar um pouco d,ouro,
não temem os mercadores expôr-se a todos os perigos, e quereis que eu
tenha menOs animo, e menos zêlc pelas almas ?» Apenas desembarcgu n0
Japão comeÇou a pregar o Evangelho, e a conf,rmar corn no\,os milagres
a doutrina que ensinava. EnÍre muitos que fez, resuscitou a Íilha d'um
nobre, morta havia vinte e quatro horas. Muito auctorisavam e faziam
respeitar a Religião estes milagres ; mas o que mais contribuiu para a
conversão dos infieis, foi um insulto feito ao Paclre Fernancles, um dos
companheiros de S. Francisco Xavier.
um dia que este missionario pregava na praÇa publica, um homem tla
plebe se apprOximou, como para lhe fallar, e lhe escarrou no rosto. 0 pa-
dre sem dizer palavra, nem dar 0 menor signar de resentimento, tirou o
Ienço para se limpar, e continuou tranquillamente 0 seu discurso. Causou
geral assombro esta heroica moderação ; e ate alguns, que a0 principio
riram do insulto, ficaram depois attonitos. Um clos mais sabios doutores
da cidade disse comsigo mesmo : Lei que inspira tal valor, tal,grandeza
d'alma, que faz alcançar ao homem tão completa rictoria sobre si mesmo,
só póde vir do ceo. Findo o sermão, confessou que a virtucle do pregador
o commovêra, e pecliu o baptismo, que solemnemente lhe foi administra-
do. Esta illustre conversão foi seguida de muúas mais.
A semente evangelica lançada no Japão por s. Francisco Xavier, fle
tal sorte fructificou, que quando alli se accendeu a perseguição, haviajá
no imperio quatrocentos mil ChrisÍãos, NÍo cstava comtudo satisfeito o

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DE PERSEYERANCA' 'l0Ir

santO missionario ; antes parecia que as suas conquistas só serviam de


mais accender as chammas de seu zêlo. Concebeu o designio de levar
a

fe ao vasto imperio da china ; e ainda chegou a avistar de longe aquella


terra desejacla, e a saudal-a como Moyses a terra da Promissão; mas Deus,
contentando-se com a sua boa vontade, julgou que era tempo de
lhe dar
a corôa merecida por tantos trabalhos.
Enfermou o Santo em Sanciano, pequena ilha, distante poucas leguas
das costas da China. Deixaram'no sobre a praia, exposto ao rigor
do tem-
que soprava violento.e penetrante. um
llo, e sobretutlo d'um vento norte
negociante portuguez, compatlecido do estado em que o achou, o mandou
buicar para a suâ cabana, que não valia mais que a praia, pois era aberta
por todàs os lados. Augmentou a doença cada vez mais. Em fim a 2 dc
-Dezembro,
gffi uma sexta-feira, o santo pronunciou estas palavras : se-
nhor, eu puz ern aÓs l,oila a minha confiança, nã,0 serei confundido ('t;'
Depois, transpor[ado d'uma alegria que brilhou celestial em seu rost0,
rendeu placidamente o espirito, no anno de 1552, quadragesimo sexto
da sua idade, tendo vivido dez annos e meio nas Indias. Seu corpo in-
corrupto acha-se exposto na citlade de Gôa, capital da India. Quando
S. Francisco Xavier se queria excitar á conversão dos infieis, repetia estas
palavras: o0' Santissima Trindadel» era a sua vOz de guerra contra os
demonios (2).
Eis-ahi pois, graças a Francisco Xavier e seus dignos cooperadores,
a fe santa da Igreja romana que os impios se persua.diam extinguir, bri-
lhando com novo esplendor nos vastos paizes do Oriente. D'est'arte sem-
pre a Igreja nossa mãe, a verdadeira Igreja, foi ca[holica; sempre foi ella
a cidade d'Isaias, fundada sobre a montanha, visivel a todas as nações,
na qual totlos os poyos devem entrar, para participarem das bençãos do
Deus de Jacob.
Salve, pois, ó Igreja Romana ! Igreja immortal, com que hei-de com-
parar-te ? Ao passo que as seitas e heresias não tem feito mais que lan-
çar por um instante, em algum canto da terra, seus falsos clarões, e pa-

(1) Ps. XXX.


(2) Goclscarcl. 3 cle Dezembro.

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I (l(i cATECrStrío

I'll stlllUll'0 tottt tlesalrpareoido, semelhantcs aos fogos fatuos e rãos, que
sc levantam dos cltarcos duran[e a abscuriciacle cla noute, e depois tlc sul-
carrrm as baixas regiões da atmosphera, se apagam cle subito tu, pelo
! -
coutrario, ó Igreja de Deus Igreja catholica ! respiandeces sempre cgrn
luz inextinguivel. Âssirn coflro o sol que allumia o muntlr,
l,rrrrJ mages-
tosa d'um a outro hemisplterio ; e se povos ingratos descrinhecem teus
beneÍicios, tu os deixas recahir de novo no hor.ror clas trevas, de que os
Itavias tirado, e vaes a outras nações levar a luz e a virla de que es ma-
nancial perenne. Que mais direi ? a Igreja catholica e c0m0 magestoso
rio: se diante lhe levantam impruclentes rliques, sem nacla periler da sua
abundancia e fecundidade, volve para ou[ra parte a corrente, e yai com
suas aguas ferlilizar ltOvas terras. Arvore secular, cheia cle r-igor e de
vida, se 0 machado derriba algurn de seus rarnos, brota n0v0s cgm a su-
perabundante seiva, e cria nos restantes mais excellentes fructos.

oRAÇÃ().

0' meu Deus I que sois todo amor, eu vos dou graças por havercles
justiÍicado e consolado a vossa lgreja, nossa terna X[ãe, suscitando-lhe
grandes santos e zelosos apostolos ; permi[ti, Senhor, que tenhamos a
caridade tle S. João Deus e de S. Francisco Xavier.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao proximo co-
m0 a mim mesmo pelo amor de Deus ; e, em testemunho d'este amor, re-
peüirei, muitas aezes estas palauras de Santo lgnaci,o : Tuilo para maior
gl,oria de'Deus.

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LrÇÃO xlx.
0 Christianismo conservado 0 propagado.

(nnt no rvt. sncuro).

 lgr de llrenÚo ; Carlos


Bo si e B' Angela de
Br Pias; congregação
(le os I lrmãos Dnfer-
meiros dc Olrrégon; Irmáos da lroa morÚe ; Gamillo de
hellis.

mãe. Tentou ella um ultimo esforç0, para chamar a si seus Íilhos prodi-
g6s, ou para ao menos conÍirmar na verrlatle os que permaneceram fieis,
tirando todas as incertezas, clissipanclo todas as duvidas, e traçando d'um
modo claro e positivo os limites da heresia e da fe.
Para este fim reuniu em Trento, capital do Tyrol, o ultimo e talvez
o mais sabio Concilio Geral que tem havido até nossos dias ; o qual du-
rou'dezoito annos em diversas sessões; abrindo-se em {54õ, e sendo
encerrado em 1563. Assistiram a elle cinco Cardeaes, Legados da Santa
Sé, tres Patriarchas, trinta e tres Àrcebispos, duzentos e trinta e cinco
Bispos, sete Abbades, sete geraes d'Ordens monasticas, e centO e SeS-
senta doutores em Theologia.
0s clrttfes clo partitlo protestante, cujos el"ros aflligiam a lgreia e en-

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'108 cÀrncrsrro

sanguentavam a Europa, foram convidados para este concilio, mas re-


cusaram comparecer; a Igreja eraminou seus livros, julgou
e conrlemrrou
su4 doutrina. A augusta assemblêa fez tambem sabios iegularnentos pa-
ra a reforma dos costumes publicos; mas estes regulamentos, inda que
recebidos nos paizes catholicos, eram comtudo
morosamente e\ecutatlos.
Foi então que Deus suscitou uma d'aquellas almas privilegiadas, que tle
seculos a seculos concede á sua tgrója, para emprehender
e erecutar.
grantles empresas.
Carlos Borromeu, modêlo dos Bispos e restauraclor da tlisciplina
ec-
clesiastica, nasceu em arona, perto de Milã0, d,uma das mais illuitres
fa-
milias d'Italia ; e, inda m0ç0, seguiu o estado ecclesiastico. seü zêlo no
seruiço do altar, sua rara piedacle, virginal pureza e grancle aptidÍo pa-
ra os negocios publicos, em breve o Íizeram occupar as primeiras 6i-
gnidades da lgreja. Feiro cardeal e Arcebispo de
Milã0, mostrou por
suas virtudes e acções quanto era digno do alto cargo que a provitlencia
lhe conÍiára; ao seu zêlo se deveu o terminarem-se os trabalhos-do Con-
ciiio. Abriu em Milão um numeroso synodo, para executar os decretos
da augusÍa assemblêa, ao passo que, por suas instancias e solicitações
fazia com os bispos e principes, que se apressasse a sua promulgaçã0.
Começand0 por si mesmo a reformar, substituiu aos prazeres mais
inno-
centes as mais graves e severas occupações. Renunciou a torlos 0s seus
beneficios, privou-se das ves[es de sêda, e adoptou um genero de vida
duro e austéro. Nos ultimos annos de, sua curtã existencia, levou a sua
frugalidade a tal extremo, que o seu sustento reduzia-se a pão e água, e
alguns legumes.
Trazia suh casa tão bem regulada, que mais parecia seminario, que
paço Archiepiscopal. De sorte que na Itatia não se fallava d'outra
cousa
senão da santidade e zêlo do Cardeal Borromeu. Yisitou mais d'uma vez
sua vasta diocese, percorreu toda a sua provincia ecclesiastica, e p'ene-
trou até 0s profundos valles dos Grisões e suissos. Em suas aposto-
licas peregrinações via-se este varão santo caminhando a pé, soffrendo
fomes e sêdes, exposto ao rigor do tempo, trepando pelos mais escarpa-
dos montes, tudo por buscar as ovelhas desgarradas e trazêl-a s a0 se-
guro aprisco.

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DE PERSEVERÀIiÇÀ. 109

À sua arclente Caridade, porem, nunca Se mOstrOu tão rit'a como na


occasião da pestc de ilIilã0. Apenas se declara o terrivel flagello, 0s gran-
des e ricos tlo seculo abanclonam a cidade, e o Santo Arcebispo e tam'
bem aconselhado a retirar-se para lugar Seguro, e conservar a vida para
bem tle Sua diocese. Não tleu mais resposta o Santo que repetir o [ex-
to rlo Evangelho; O bom pastor dd, auida'por suas ouelhas; e offerecendo
ao Senhor a sua, declica-se todo inteiramente ao serviço clos empestados-
Desde aquelle momento não teve mais limites a sua caridade. Velando
noute e dia, leva a toda a parte lenitivos, remedios e palavras de conso-
laçã0. Prolonga-se o contagio, os meios extinguem-Se, parece que não
resta esperanÇa aos desgraçados Milanezes ; porem Carlos achará recur-
sos em su a inexgotavel caridade. Empenha e vende os seus bens moveis
e o propri o leito. D'est'arte empobrecendo-se, se fez rico para os pobres,
e se viu com meios de continuar a ministrar aos enfermos alimentos e
remedios. Cedeu emÍim a ira de Deus aos sacrificios do Pastor, desappa-
receu o contagio.
Aproveitou Carlos a mesma calamidade que acabava d'aÍlligir a cidade
para estender e firmar cada vez mais uma salutar reforma. Bem persua-
dido que da educação da mocidade depende o porvir da sociedade, consa-
gra uma parte do seu patrimonio á fundação d'um collegio na cidade de
Pavia, onde a mociclade de Milão podésse, sem risco dos bons costumes,
receber a instrucgão que torna os homens uteis. Bste magnifico estabe-
lecimento, conhecido pelo nome de Collegio Borromeu, faz ha tres Secu-
los os mais eminentes serviços á patria do illustre fundador. Sete annos
tlepois que terminou a peste, foi o servo de Deus receber no ceo a re-
compensa de tantas virtudes e sacriÍicios, A 3 de Novembro de 1581, le-
vando comsigo as lagrimas d'um rebanho, que o chorava como pae; as
saudades da Santa Se, de quem fôra efÍicaz apoio ; e a admiração da lgreja,
a quem ediÍicou com sua santa vida, dilatou com seu zêlo, e com sua
prudencia verdadeiramente reformou. Que sociedade separada da unida-
de Catholica produziu jámais homens semelhantes (l) ?
Ào passo clue S. Carlos trabalhava no restabelecimento da disciplina

(1) Flist. abr. de I'Egl. p. 410.

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.t
to cArECtsrllo

ecclcsiastica, levavam zolosos missionarios


a ltoa nova tlo llvlrg,r.l5o a p0\0s
Irarbaros ;
fazia a heresia, redobranclo seu fur.or, gener6sgs mart,r,res;
creavam-se na lgreja inslituições novas ; effcctuava-se a reforma nos claus-
tros; e se renOvava o primitivo fervor entre as ordens monasticas. B'oi
Santa Theresa de Jesus o principal instrumento cl'estas ultimas maravi-
lhas, Esta virgem reformaLlora, magnanima, coração amante e celeste
por excellencia, nasceu em Avila, na Ilespanha, a lg de llarço de lõ{j.
E' ella rnesma quem uos vai referir sua vida.
«Era meu pae, diz ella, muito amigo de bons livros, e tinha muitos
ern lingua vulgar, para que tambem seus Íilhos os lôssem. 0 mesmo de-
oejo tinha minha mãe, a qual sobretuclo queria muito que rezassemos, e
tivessemos muita devoção corn Maria santissima e os santos, â0
QUe c0;
meÇou a incitar-me desde a idads dc sete annos. Assirn tive a grande
vantagem de ser fitha de paes rnuito virtuosos, e que nada estimavam nem
favoreciam tanto c0ln0 a virtude. Meu pae era muito caridoso com os p0-
bres, e compassivo com os enfermos. Tratava os domesticos com singular
hondacle; era mui sincero em suas palavras; nunca alguem lhe ouviu pra-
gas ou murmuração; c era exacto no ultimo ponto pelo que respeita a
honesticlade.
«Minha mãe era tambem virtuosissima. Não obstante ser extrema-
mcnte formosa, fazit tão p0uc0 caso da sua formosura, que não tendo
ainda trinta e tres annos cornpletos quando morreu, nenhuma pessoa ido-
sa poderia viver d'um moclo mais ediÍicante. Era de genio extremamento
benigno, e tinha muito espirito, mas pouca saucle. Estava muitas vezes
doente, soffreu rnuito em sua vida e morreu christãmente.
«Ainda que eu estimava a t0d0s 0s meus irmãos, amava com mais
ternura a um d'elles, que era quasi da minha idade, e com quern costu-
mava lêr as viclas dos Santos. Pensando nos Martlrcs, pareceu-me que
por pouco tinham alcançado a bemaventurança, e tive granrle desejo de
morrer c0m0 elles. Illeu irmão teve a mesma vontade.»
Esta idea fermentou de tal sorte no coração das duas crearÇas, que
um tlia fugiram de casa em demanda dos paizes infieis, onde espera\ram
colher a corôa do marlyrio. Felizmente foram encontrados tl sahitla cla
cidadc por um cle seus tlrios, que os veio entregar á sua mãe; e úomo

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üE PEIISIIvERA\ÇÀ. il{
fossem anib6s muito reprehendirJos, 0 tnenino lançou locla a cullla a
sua irmã.
Do[acla rl.uma alma g(-)nergsa, a pequenina Tlteresa tinha parliL,,ular,
prazer ern sgocorrer 0s pobres, quanto suas litcttldades o permittiam.
1Uu tlava, cliz eila, as esmolas qtte podia, mas podia poucg.,» Tinha ella
apenas doze annos, qUanclo sua mãe morreu. Yendo'se orphã, clebullra'
tla em lagrimas se prostrou diante cla Santissima Yirgem, pcdindo á NIãe
de Deus que Íicasse no lugar fle sua mãe. Esta acçãg, praticada com in-
fantil sirnplicitlacle e confiança, lhe pareceu no decurso do tempo a melhor
acção cla sua vida; á protccção cle Maria se iulgou semprc devedora das
graças Sem numero que recebou do Senhor, maiOrmente no tempo em
ú0, correu risco de percler a0 meslno tempo a irmocsncia e o amor de
seus devet'es.
0 tempo r]e que fallamos Íoi o da juventude, epoca tão critica para
os bons costumes ; elle lhe ia scndo bem funesto por causa das leituras
perigosas e das más companhias. «Bntreguei-me, diz ella, á leitura de ro-
mances. Esta fatta a que me levou o exemplo da minha n}ãe, esfriou tanto
0s meus l-rons desejos, que me fez cahir em muitas outras. Comecci primei-
ro a gostar clos ent'eites, e sen[i nascer no coraçi-to a vontatle d'agradar; ás
mãos e o touçr,Jo tornantm-se o objecto de meus cuidados; amei os per'
fumes e toflas as outras vaidades. nluitos annos se passaram n'esle emor
extremo pelo adorno e aceio, sem que adrertisse qUe havia n'isso 0 me-
nor mal: mas agora vcjo qualto dt'via de haver. Não me aproveitava dos
bons exemplos cl'uma de minbas ifmÍs, tÍo prudente como virtuosa; e
recebi ao contrario nttrito ilamno rlas r'nás qualiclades d'uma parente,
(lue muitas vezcs vinha visil.ar-me. Suas conversações me mudaram de
tal sorte, que já em mim nio recolrhecia algumas inclinações virtuosas
que tinha rccebido de Deus. Iistive a perigo tle perder a minha inno'
ccncia. lielizmente Detts me amparou por effeito da sua hondade.»
O pae cle Theresa, perrcebendo qne ella já não tinha a mesma pieda-
de, c rlue esta ri:laração provinha da intima amizade d'aquella sua paren.
ta, a frz rec,.tllrer 00rno pensionista n0 conven[o das religiosas Agosti-
nhas. '[lrcicsl crtrLtula tluinzc anli0s tl'idaclc. A frequencia de pessoas
virtuosa:i llr,r r',tairillrlu lcrgo ut-l eut'aiàur crs pius sentimentos da suu pri-

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ll') CATECISTII0

meira infancia, e o Senhor lhe abriu os olhos para que vissc seus des-
varios. Docil á graça, Theresa muclou Íotalmente de vida, e terminaclo o
praz0 pOr que tinha entrado c0m0 secular, tratou seriarnente de se con-
sagrar a Deus c0m0 religiosa. Apresentou-se ás Carmelitas, e solicitou
o favor de ser recebida n0 numero das noviças. Este passo custou caro
a seü coraçã0, pelo pesar que teve de deixar seu terno pae. a graça,
porém, venceu a natureza, e a ella; e entranclo n0 convento não tardcu que
tomassc o habito. Deus a visitou por meio de crueis soffrimentos, que
duraram a maior parta da sua vida. EIla os supportava com resignaçã0,
e ate com portentosa alegria. Na maior força do mal repetia as palavras
de Job, que muito a consolavam e fortiÍicavam: Se temos recebid,o tan-
tos bens da mão de Deus, por wae nao receberemls os males que nls
eru:ia (l)?
Assim chegou a tal perfeição que gostava cle padecer, e assim o dizia
muitas vezes ao Senhor: «0u padecer 0u trroÍrer.»
Sua fraqueza habitual não impedia que se occupasse da salvação do
. proximo. EIla emprehendeu fazer reviver em sua Ordem a regra e o fervor
. do tempo primitivo. Seria impossivel referir todos os obstaculos que teÍe
que vencer, as contradicções e perseguições que experimentou, para levar
a cabo a sua empresa: mas Deus a sustentou. O Carmelo refloresceu
como nos antigos dias, e a Igreja achou, e acha ainda nas virtudes e ora-
ções das religiosas Cdlmelitas uma compensação aos males e numerosos
escandalos, que a aÍIligiam então e aÍlligem ainda hoje.
0s grandes trabalhos de Theresa haviam entretanto exhauriclo sua
saude. Â 3 d'Outubro de {582 sentiu-se desfallecer, conheceu a pro-
ximidade da morte e pediu os Sacramentos. Ao avisúar o Sagrado via-
tico, suas forças pareceram reanimar-se, 0 rosto se lhe inflammou, 0 â
fe scintillou em seus olhcls. Ella os voltou para 0 Salvaclor, e sentanclo-
se para o receber com mais respeito, exclamou em santo transporte:
oMeu Senhor, e Esposo ! eis a hora que tão ardentemente desejava t Che-
gou o instante do meu livramento t, Pelas nove horas da noute pefliu a
Extrerna-unçã0, que recebeu com a mais terna piedade, e ate o momento

(1) Job II,10.

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DU PEHSUVERÀNÇÀ. II3

en quc perdeu a falla sb lhe ouvia repetir este verso do lrsalmo:


O' meu Deus, rsós nao reieitu,reis wn coraçdO contricto e hmnilha'
do (l).
As dôres da agonia prolongaram-se a[e o dia seguinte. Tendo a ca-
beça repousarla nos braços d'uma de suas irmãs, e Íitos os olhos em um
Crucifixo que tinha nas mãos, esperou tranquillamente a morte, que veio
coroar seus trabalhos e virtudes, em a noute de 6 d'0utubro de'1582(2).
Depois de darmos a conhecer a mãe, digamos duas palavras a res-
peito das filhas. No estio, Ievantam-se as Carmelitas ás cinco horas da
manhã, e fazem oraçãO ate ás seis; d'inverno, levantam-se ás SeiS, e oram
até ás sete; e teem ainda, antes tlo refeitorio, outra hora d'oraçã0. Je-
juam desde a Exaltação da Santa Cruz atê á Paschoa, e só estando en-
fermas comem carne. Nos dias de jejum da Igreja, e em todas as sex-
tas-feiras do anno, excepto no tempo da Paschoa ate o Pentecostes, nãrl
comem ovos nem lacticinios. Teem disciplina muitas vezes por'semant,
o em todas as sextas-feiras do anno a tomam particularmente pelo au-
gmento da Íé, conservação da vida e dos es[ados dos principes sobera-
nos, pelos Seus bemfeitores, almas do purgatorio, pelos captivos, e pelos
que em peccado m,ortal.
estã,0
gusar-se-ha ainda dizor, que as ordens contemplativas são inuteis no
mundo t
Quantos peccadores convertidos, e flagellos conjurados pelas
expiações voluntarias d'estas innocentes victimas tAs Carmelitas trazem
habito e escapulario de cÔr partla, dormem em enxergões sobre taboas,
e vestem alpercatas de cordas, com a sola forrada do mesmo,panno do
habito (3).
Teve Santa Theresa a consolaçãcl de t'êr em sua vida dezeseis con-
ventos de mulheres e quartorze d'homens seguirem seu austéro instituto,
que, pouco depois, se diffundiu por toda a Ctrristandade. Esta admiravel
reforma, fundada contra todas as previsões humanas, n'um seculo em que
grandes peccatlos angustiavam a terra, é, tornamos a dizer, uma prova

(1) Psalm. L.
(.2) Goclscard, 14 d'Out.
(3) llelyot, t. I, pag. 3ó8.
I

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lltt cÀrliclssto

palpavel d'aquella vertlade, jti tantas vezes provada, quc nunca a l)ruvi'
dencia deixa de contrabalançar a iniquidade com a expiaçã0.
A pureza dos costumes, 0 fervor e piedade restabelecidos no clero
e nas ordens monasticas, foi para todos os Íieis fecundo manancial de
bençãos, com que se renovou a face da terra. Para obter este glonioso
triumpho'Qü0, confundindo a heresia, o scisma e 0 escandalo, provava a
constante santidade da Igreja Catholica, empregou Deus todos 0s recur-
sos da sua Providencia. Sobre a cadeira Pontificia collocou um grande Santo,
firme como ?edro, esclarecido c0m0 Leã0, zeloso corno Gregorio, e cujo
nome ê em si mesmo um elogio : quereis sabêl-o ? e Pio V. Grandes
-
bispos adornam as Sés de França, Allemanha. Hespanha e Italia, taes como
S. Francisco de Salles em Genebra. Mais de cincoenta ordens 0u congre-
gações religiosas se fundaram 0u reformaram; umas, propagam a verda-
de entre 0S poyos, e lhes conservarn ou restituem a fe, dissipando as
trevas do erro; outras, reparam os males causados pelos crimes'publicos;
dão linitivo a todas as enfermirlades humanas, e mostram u heresia que
ella bem póde attrahir flagellos sobre o mundo, mas que só a Igreja Ca-
tholica tem ó poder de lhes suavisar as consequencias.
Entre as ordens destinadas a conservar e propagar a verdade, vêmos
sobresahir a dos Theatimos, estabelecida pelo Papa Paülo IV (l) ; a dos
Barnebites, cujos fundadores foram tres fidalgos Italianos (2) ; os Padres
da Doutrirut Christd, qJsse deve ao veneravel Cesar de Bus (3), e muitas
outras mais. 0brigados porém a restringir-nos, daremos a conhecer as
cluas mais celebres e ramiflcadas, as [Jrsulinas a os pobres da Mã,e de
Deus.
As religiosas Ursulinas tiveram por fundadora a B. Angela, natural
cla Italia e cognominada do Bresse, por ter residido n'esta cidatle. Orphã
desde a mais tenra infancia, e já então virtuosa, foi com sua irmã con-
Íiada á tutela d'um thio, que se encarrogou de as eclucar. Àmbas faziam
sua delicia de se entregar a certas devoÇões não communs e ordinarias,

(1) Ilelyot, t. IV, p. 83.


(2) lbid. p. 106.
(s) Ibirl p. 347'

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DE PERSEVERANÇÀ.
,l l5
mas clifficeis. Levantavam-se de noute para orar, c o pouco que dormiam
era n0 chã0, ou sobre as taboas, juntando a esta mortiÍicaçã0, tão pen0sa
na sua idade, frequentes jejuns. Um dia, não querendo já viver senão
para Deus, fugiram a buscar o retiro de certa ermida; porem o thio, indo
em seu a.lcance, aS trouxe Outra vez para casa. Angela, que era a maiS
nova, não tinha na terra outra consolação que sua irmã. Levou-llt'a Deus
pnra si, e tanto mais sensivel the foi esta falta, quanto considerava n'ella
um apoio e guia no caminho da virtude. Ainda que profttndamente ma-
goacla, supportou a' santa menina este apartamento com admiravel resi-
gnaçã0.
Yivendo desde então sósinha, pôz Angela toda a sua esperança n0
Deus dos orphãos e desvalidos, e fez tudo que poutle para merecer o
seu amor. Chegada aos vinte e seis annos, e conÍirmada na virtude por
meio cla onaçã0, jejum e toda a especie d'austeridades, foi a Saota inspi-
rada por Deus para se tornar uüil ao proximq, fundando uma congre-
gação religiosa. Era n'esta occasião que 0s protestantes demoliam os
mosteiros, condemnavam a virgindade, e postergavam oS mais solemnes
votos. Lá estava Deus,r porem, velando pela Igreja. Admiremos com que
sabia previdencia elle soube applicar o remedio á enfermidade. Já virnos
c6mo nos differentes secnlos suscitou ordens religiosas, casas de peni-
tencia e oração, asylos seguros contra a impiedade e a corrupção; mas
para que estes asylos fossem prestantes era de mister entrar n'elles.
Quantas pessoas havia, porem, que não podiam ou não queriam deixar
o munrlo. Relevava, pois, salvar estas almas, inda no rneio dos perigos da
vida secular; convinha buscar oS peccadores em SuaS proprias casas,
constrangêl-os a abrir os olhos á hu, correr após d'elles e de novo enca-
minhal-os para a salvaçã0.
A beata Àngela comprehendeu, ou antes quiz Deus que comprehen'
rlesse esta necsssidade. Ella quiz, pois, que todas as suas Íilhas vivessem
no mundo, cada uma em casa de SeUS paes, a Íim d'espalharem mais fa-
cilmente 0 bom cheiro da graça e da doutrina christã, e serem uteis a
toda a classe de pessoas pelo exemplo de suas virtudes. Deu-lhes por
lei e t'egra 0 procurar os afllictos para os consolar e instruir; soccorrer
r» pobres, r,isitar os hospitacs, servir os enfermos e prestar-sc humilde'

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{ ,16 cArocrsuo

mente a todos os trabalhos, .que a caridade exigisse d'ellas. Quiz que se


empl'egasseln em toda a qualidade d'exercicios caritativos, para contribuir
por este modo á conversão e sah,ação de todos os homens. E inda que
suas Íilhas fossem livres e, na maior parte de familias nobres, obrigou-as
a fazerem-se como escravas de todos, á imi[ação do Apostolo, a fim de
lucrar para Deus maior numero d'almas. D'est'arte se vio nas cidades
por onde se espalharam, renascer 0 espirito dos primeiros christãos, assim
luo que toca a soccorrer os pobres, como em ensinar os ignorantes.
Pol effeito rl'uma previdencia que e inseparavel da sabedoria divina,
determinou Angela que, segundo a necessidade dos tempos, podéssem
suas Íilhas variar a fórma de vida que lhes estabelecêra. Tendo pois
mudado as circumstancias, a maior parte d estas virgens missionarias se-
guiram a lida commum das congregações, querendo passar na solidão
do claustro o resto de seus dias. Esta Ordem propagou-se com prodi-
giosa rapidez, que foi evidente prova da sua utilidade, e da protecção do
ceo. D'ella nasceram mais de trezentas e cincoenta communidades, que,
em geral, se occupam hoje da educação de meninas de todas as condi-
ções. Tudo nas Ursulinas revela o espirito de sua santa fundadora ; tudo,
ate seu proprio nome, é monumento eterno de sua propria humildade.
Nomeada superiora da congregaçã0, persuadiu a lteata Angela a suas Íi-
lhas, que pozessem a nova Ordem sob a protecção de Santa Ursula, que
em outro tempo havia governado tantas virgens, e as conduzira ao marty-
rio. B' por isso que esta 0rdem se chama a Companhia de Santa Urstrla
ou as Ursulinas ({).
Ao passo que a Igreja ia d'est'arte buscar do meio das distracções
do mundo as almas fracas ou deslembradas da salvaçã0, lançava seus
olhos matcrnaes para a infancia, tanto mais digna da sua ternura, quanto
mais fraca e exposta á seducção das más doutrinas. Para a auxiliar tirou
Deus dos thesouros da sua Misericordia infinita outro homem extraordi-
nario, d'esses que elle reserva aos povos e aos seculos que quer salvar,

(1) I{elyot, t. IY, p. 150.


-
A bella legeucla de Santa Ulsula e de suas nu-
merosâs cornpanheiras acaba de ser admiravelmeute cotnprovada por um clos nossos
rirais cclebrcs archeôlogos, M. Ditlron. Vcja-sc l'Uúuersr 2-c de Dezembro tle 1840,

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DE PERSEVERÀNÇA. ll7

Em ,1592 chegaya a Roma Jose de calasanz. Este nollre araggnez reunirt


á sciencia dos doutores a humildade dos santos, e o sublirne errtltusias-

eram rnuito mal pagos. Jose de Calasanz pediu-thes que recebessem nas
suas aulas aquelles infelizes meninos ; mas elles recusaram encarregar-se
tle os ensinar, a menos que §e lhes não augmentasse 0 salario. 0 terno
amigo da infancia bateu successivamente a toclas as portas, e em toda a
parte foi despedido sob mais ou menos plausiveis pretextos.
. yenclo a inutilitlade cle seus esforços, resolveu encarregar-se elle
mesmo tle realisar os seus desejos. No mez de Novembro de 1597,
fundou pois, Calasanz, junto ao Tibre, da outra parte tle Roma, a pri-
meira escóla publica gratuita da Europa. D'ahi a pouco outros piedosos
sacerdotes se lhe ajuntaram, e não tardou que a escóla contasse muitos
centos d'educandos. A instrucção dos pobres é por excellencia uma obra
de piedade, e por isso deu S. Jose á sua instituição o nomo d'escÓlaspias,
d'onde nasceu o clenomiuarem-se estes religiosos Scolopi. Começou pois
a ensinar aos meninos o catecismo, a lei[ura, escripta e arithmetica, jun-
tando ao ensino o fornecimento de livros e outros pequenos objectos, de
que as pobres.creançts não podiam provêr-se.
Dentro em pouco estes debeis elementos deram origem a uma s0-
ciêdade de mestres sacerdotes, que conferiram a S. Jose o titulo de prç'
feito das Escolas-Pias, danclo este á sua propria congregação o dÔoe
10me de Pobres da lllã,e de Deus das escolas'pias. São tres pàlavras,
que fallam energicamente á alma, Pobreza, llaria, Infancia. Ellas a[[ra-
Siram unanimes bençãos e promoveram abundantes recursos aos devotos
padres que as tomaram por divisa. Aos tres votos ordinarios accrescen-
tam os religiosos d'esta veneravel ordem o do ensino. Recebern gratuita-
mente os meninos de todas as condiçÕes, da idade de scte annos pal'a
cima, dando-lhes tres horas dc lição de manhã e outras trcs de tarde.

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| ,18 cATrfcTsilo

0s alumnos vão todos os dias á missa, teem suas oraÇões no principio e


Íim das aulas, e ainda aos domingos se reunem em suas salas, para
praticarem juntos diversos exercicios religiosos, entre outros a resa do
oÍlicio pequeno de Nossa Senhora. Toclos os annos, pela paschoa, lhes dão
umas pequenas ferias. Por esta occasião são conduzidos pelos bons
religiosos a casa de seus paes. Sáem elles da aula coordenados, e se
dirigem dous a dous aos diversos bairros da cidacle, evitando-se d'este
modo o alvoroto, confusão e desordens, Qü0 podôriam dar-se em tão
grande multidão de creanças juntas, se as cleixassem entregues a si mes-
mas. Esta Ordem está muito ramificada em Italia e Uespanha; por toda
a parte abençÔa Deus os trabalhos d'estes religiosos, eonceclendo-lhos
verdadeiras consolações na terra, em quanto lhes não dá a melhor corôa
que os aguarda no ceo.
Ao passo que S. José de Calasanz assegul'ava aos meninos o inesti-
mavel beneÍicio da educação christã, completava o beato Peclro Fourrier
a obra da Providencia, ostabelecenclo uma ordem religiosr votafla á ins-
trucção das meninas. Bste santo sacerdote, que ainda vive na memoria
e n0 coração dos francezes, nasceu a 30 de Novembro cle 1564, em illi-
recourt, pequena cidade de Lorena. Passando a mociclade na innocencia
e nOs estudos, em que fez brilhantes progressos, foi Pedro promovido ao
sacerdocio, e nomeado parocho de Mat[aincourt, alcleiaimportante, proxi-
ma clo lugar do seu nascimen[0. 0 commercio dos habitantes com a ci-
dade de Genebra, que forneciam dc lã, pannos e rendas, sua opulencia,
c por conseguin[e o luxo, devassidão e espirito irreiigiqso eram causa
que em todo o paiz tinha má nota aquella terra, á qual chamavam, com
justo titulo, pequenü Genebra. tal era o campo que 0 novo parocho
tinha de arrotear e fertilisar.
cheio de conÍiança em Deus, metteu mãos á obra. a' força cl'ora-
ções e lagrimas derramadas a0 pé do seu CruciÍixo, tle paternaes ins-
trucções, testemunhos d'affecto, exemplos de desinteresse e d'heroicas
vir[udes, conseguiu o Santo abrandar os corações d'este povo, e dentro
em p0uc0 totla a parochia se commoveu e muclou de face. As virtudes
tlos primeiros seculos c0m0 que Íinham volvido a animar aquelle p0v0.
0 zêlo da palavra de Deus, assistencia aos oÍlicios divinos, assidua e fer-

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DB PBRSEVERANÇA. {{9
vor6sa frequencia dos Sacramentos, pureza dos costumes, paz domestiea,
hospitalidade com os estranhos, generosidade com 0s pobres, caridade
Co m 0S visinhos, Soccorro mutuo, parecia gue porÍiavam a qual viveria
mais exemplar e christãmente. Foi tal a mudanÇa e tÍo geral, que as
pessoas honestas, que antes fugiam de Mattaincour[ c0m0 de perigosa oc-
casião de peccado, lá iam agora de proposito, para vêrem com seus olhos
o portentoso espectaculo d'um povo inteiro, que passára da morte á vida,
e ouvir a voz do pastor de tão feliz rebanho ('l).
Todavia e o zêlo semelhante ao fogo, que quer Sempre novo alimett-
to; assim o do servo de Deus não socegava, mas contínuamente procu-
rava occasião de fazer bem e salvar almas. Deus, que viu o intimo clo
seu coração, ouviu o santo sacerdote e lhe inspirou 0 pensamento de
fundar uma ordem religiosa, especialmente dedicada á educação das me-
ninas. Longo tempo meditou elle n'este projecto junto do altar, pratican-
do obras :meritorias e austeridades de todo o genero, já para eonbecer
claramente a vontade de Deus, já para reunir os elementos da nova con-
gregaçã0. Por ultimo lembrou-se de algumas suas paroehianas, a quem
tinha com suas insl,rucções desenganado das vaidades do mundo, e lhes
communicou 0 seu projecto. Todas annuiram de boa vontade, e começa-
ram por visitar os enfermos, levar esmolas aos pobres, ensinar as meni-
nas, e d'es['arte insensivelmente formaram uma escóla, seguntlo a idéa
que o ceo communicára ao santo director.
Foi pela festa do Natal do anno de [597 que ellas ob[iveram a per-
missão de romper inteira e solemnemente com o mundo. Depois d'ha-
verem cedido do que tinham de precloso em jolas e outros o.bjectos de
luxo, para empregar 0 seu valor na constrücção d'um tabernâculo. vie-
ram estas donzellas assistir á missa da meia noute, com vestidos pretos
do panno mais ordinario e da fórma mais sintples, e o Divino Infante,
descendo a seus corações pela Sagrada Communhã0, se tornou o penhor
e sêllo d'esta doaçã0, que lhe acabavam de faze.r de si mesmas. Desde
este momento. sempre a congregação de Nossa Senltora consitlerou a ves-

tl) \fitla tlo ltt'rtlo ['cclt'o. p. 3lJ.

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,l
20 cArEcrslro

pera de Natal c0m0 a epoca do seu nascirnento, a Santissima Yirgern cgmo


sua i!Iãe, e 0 presepio do Salvador como seu berço (l).
Abençoada de Deus a pequena planta, inda que açoutada das tem-
pestades, lançou profundas raizes, e rapidamente desenvolveu seus ramos
llemfazejos. 0 veneravel fundaclor se viu dentro em pouco na impossibi-
lidade de satisfazer aos pedidos que de toda a parte lhe faziam, de lhes
mandar algumas de suas religiosas. Não admira que n'isto houvesse tanto
empenho, sc considerarmos o Íim da Santa Congregação de Nossa Se-
nltora, o excellente espiriüo que a anima, e os inapreciaveis serviços que
presta á sociedade.
Aos tres votos perpetuos de pobreza, casticlade e obecliencia, accres-
centam as religiosas coristas outro da instrucção das meninas, por estas
palavras Faço voto de nunca consentir que a instrucção das meninas,
-
permittida pela Santa Se e ordenada em nossas constituições, seja aban-
tlonada. Não houve jámais voto mais bem observado. Fieis ao espirito
-
rlo santo fundador, teem as religiosas de Nossa Senhora em todas as suas
casas lugares especiaes, onde dão gratui[amente ás meninas pobres a mais
rlesvelada educaçã0. Uma só casa, que com prazer nomeamos, a d,oi-
seaufr em Pariz, educa mais de duzentas. Estas meninas são todas ex-
ternas, e não teem communicação com as pensionistas senão em tres ou
quatro festas do anno, em que estas gostosamente as servem á mesa, e
llres procuram innocentes prazeres. por occasião da primeira Commu-
trltão das externas, as que a ella tem a felicidacle cle ser admittidas, sã0,
tlurante o retiro da preparaçã0, recolhidas e gratuitamente sustentadas na
casa. Ha tambem casas de trabalho, onde as meninas ao sahir das aulas
aprendern'alguma occupação, para que, quando não tiverem o materno
agasalho da Religiã0, estejam em estado de poder ganhar sua vida. para
complemento cl'este admiravel systema de caridade, a congregação de
Nossa Senhora adopta tambem orphãs a quem recolhe, sustenta, instrue,
educa e guarda ate á idacle de desoito ou vinÍe annos. Estas meninas fre-
quentam as aulas das extenras, quasi nunca sahem de casa e se habituam

(1) ld. p. l-,0.

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o

DE PERSEYEnÀNÇÀ. l2l
a uma virla simples e muito laboriosa; pois e de mister para serem feli-
zes, que não lhes custe o trabalho.
Quanto ás meninas que lhe são conÍiadas como pensionistas, teem
por Íim as religiosas de Nossa Senhora formal-as em uma solida e escla-
recida piedade, ensinar-lhes a fazerem amar e praticar a virfudo ás pes-
soas com quem hajam de viver; de sorte que possamum diapreencher
com exito a missão proviilencial que lhes fôr conÍiada, como filhas, ir-
mãs, esposas 0u mães. Para tornar mais efftcaz a pia influencia que estas
meninas poderão exercer um dia no interior de suas familias, pela prá-
tica' d'uma piedade bem entendida, dá-se-lhes tambem uma suÍflciente
instrucção para tornar agradavel a.sua sociedade. E' por isso que os es-
tudos andam constantemente a par das necessidades, digo mal, das exi-
gencias da epoca. Graças ao excellente espirito da congregaÇã0, estes es-
tudos tão variados e proprios para inspirar a presumpção e desenvolver
gostos frivolos, nunca jámais produziram nas educandas, como se podia
temer, esses tão vulgares defeitos. Todas as pessoas que visitam as pen-
sionistas d'0iseauu e d'outras casas da Congregação de Nossa Senhora,
elogiam sobre tudo a simplicidade que respiram estes piedosos asylos.
As casas de Nossa Senhora, assim como as da visitaÇã0, são independentes
u mas das outras. A Ordem conta hoje perto de desoito.
0 santo fundador, sendo entretanto nomeado geral da Ordem, ettl-
prehendeu a visita d'estas casas, e cb-egou em 1636 á cidade de Gray,
no Franc-condado. Depois d'haver ediflcado as suas religiosas com o
exemplo de todas as virtudes, especialmente a da paciencia, e com o exer-
cicio das mais humildes funcções do seu ministerio, adoeceu d'uma febre,
de que morreu. sentindo approximar-se a hora ultima, recommendou
ás pessoas que lhe assistiam que no tempo da agonia lhe repetissem
muitas vezes estas palavras, que'sempre trazia nos labios «Habernus bo-
num Donúnum, et bonam Dominam: Bom senhor e boa senhora temos.
N'estas disposições de terna conhança, aclormeceu n0 somno dos justos,
em outubro de 1,6!10, aos 77 annos d'idade. 0 coração d'este bemaven-
turado foi cedido á cidade de Gray, e o corpo restituido á sua cara pa-
rochia de Mattaincour[. A l0 de Janeiro de {7S0 expediu o Summo pon-
tifice, Bento XIII. o clecreto rle sua beatificaçã0, que authenticamente ins-

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e

122 (.-ATticlstrro

creve 0 servo tle Deus em o numero dos protectores que temos no


ce0.
Curando inteiramente as enfermidades da alma, se occupava tambem
a Igreja das molestias tlo corpo : nada escapava á sua maternal caridarle.
Lti vêmos na Italia 0 veneravel Padre Jeronymo Emiliano, o S. Yicente
de Paula do seculo 16.o, dedicando-se ao allivio de todas as miserias.
Pobres, enf'errnos, orphãos,,peccadores e peccadoras, tudo e objecto da sua
caridade. EIle funda a 0rdenl dos religiosos Soma.scos, norne clerivado da
cidade d,e Somasca,'local do seu primeiro es[abelecimento. Alegre e con-
tente no meio de seus penosos trabalhos, o veneravel fundador adoptou
por armas da sua Ordem Nosso Sertltor com a Cruz ás costas, tenclo por
:
divisa estas palavras E' suaoe 0 meu jugo: 0ttus meu,nx leue (l).
Surge na Hespanha outro medico das enfermidades humanas, d'esses
que só a Igreja Catholica tem poder de produzir; desinteressados, cari-
dosos, pacientes, que não confiando jámais nas suas proprias forças, nunca
todavia recuam diante de enfermidade algumâ, por mais repugnante on
incuravel. Este prodigio de caridade foi o veneravel Padre Bernardino

Foi Bernardino christãmente educado; mas tendo-lhe morrido seus


paes, sentou praÇa ao serviço do rei d'Hespanha, em cuja proÍissão per-
deu pouco a poneo o espirito do Evangelho. Deus p()rem, que velava
por esta alma eleita, buscou occasião de o converter. Um dia, passando
por 'cer[a rua immunda de Madrid, n0 momento em que a andavam lim-
pando, um dos varredores lançou inaclvértitlamente uma poucr de lama
á farda do joven militar; este, cégo da ira, deu uma bofetarla no pobre
homem. Em vez de lhe mostrar o menor resentimen[0, o varre,lor se
apressou a limpal-o, e lhe agracleceu a desfeita, clizendo : «Nunca recebi
tanta honra como agora, com esta bofetada, que acceito voluntariamente
por amor de Jesu-Christo».
Bernardino, todo confuso ao ouvir as palavras d'este homem, pediu-
lhe immediatamente perdão, e se retirou reflectindo no exemplo de pa-
ciencia que elle lhe dava. «Que acabo eu d'ouvir? disse comsigo mesmo,

(1) Helyot, *. IY, p. 235.

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DE PERSEYERANCA. tzit

COmg t Os ignOrantes apgssam-Se do e,eo, e nÓs, cgm todg 0 n0SS0 sabcr


e prudenCia, miseravelmente o perdemos, C0m0 escravos que sOmos da
carne e do sangüe ?» Na mesma hora convertido, deixou Bernardino a car-
reira militar e se dedicou ao serviço dos doentes. Um d'estes'offi0ios,
que só cabem na caridaile catholica, o levou a estabelec,er o hospital tle
Santa Anna, em Madrid, tlestinaclo a receber os pobres que sahiam iUda
clebititados dos outros hospitaes. D'es['ar[e, graÇas aos dous Santos Ber:'
nardino eÍn Hespanha e Filippe Nery em Roma, viu a Europa os dous
primeiros hospitaes de cont'alescentes.
Muito é sem duvida prestar aos enfermos todo o linitivo que exige
0 seu estado;mas aos olhos da fe'e de muito r[aior importancia dar a
suas almas os espirituaes soccorros, de que tantas vezes estão'em;extre-
ma nocessidatle. , À art'ore cahirá, com effeito, do lado d'onde pender, e
ahi permanecená, sogundo a palawa do Evangelho. Quer isto dizer que
quat houver sido a nossa vida, tal será a rrossa morte, e esta decidirá da
nossa eternidade. Nada é, pois, mais importante que 0 ú0tf0t bem. Por
isso redobra o demoniO esforços n'estes ultimOs momentos, bem certo de
gue se o homem morre mal, não póde mais escapar.-lhe. Mas o Salvador,
que pel.a sua parte ama extremamente as al.mas, não deixa de as defen-
der então com particularissimo cuidado. Não se satisfaz sua ternura.com
enviar Sacerdo[es para consolar, animar'e fortiÍicar seus filhos enfermos;
mas suscita uma Ordem religiosa, destinada a etercer esta grande obra
de misericordia. Taes são os religiosos conhecidos pelo titulo de lrmd,os
da boa rnorte, ou Padres ministros dos enfermos.
0 fim d'esta piedosa instituição é exercer com o proximo todas as
obras de misericordia,'tanto corporaos c0m0 espirituaes. Assistindo noute
e dia á cabeceira dos enfenmos, não poupam, estes religiosos melo algum
rle lhes suavisar os soffrimentos do c0rp0, e procurar-lhes o feliz passa-
mento de suas almas. Administram-lhes 0s necessarios remedios, dão-lhes
de comer, fazemJhes as camas, lavam-nos e vestem-nos, em uma palavra
preenchem para com elles todas as funcções de bons e zelosos servos.
Aos tres votos ordinarios accrescentam o de prestar aos doentes toda a
qualidaile de soccorros espirituaes, e ajuclal-os a bem morrer, ainda mes-
mo em tempo de peste.

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12tt CÀTECI$IO

Juntai a esta ordem a dos lrnú,os entet'radores, de que acima falla-


mOs, e vereis com que ternura Nosso Senhor attenrle aos ultimos mgmen-
tos do homem, e ainda aos seus corpos inanimaclos. parece que sua
misericordia se ha esforçado em adoçar, quanüo e possivel, o rigor cla sua
Justiça, que a todos nos condemna á morte. Dêmos, pois, graças á sua di-
vina misericordia, e temamos a sua Justiça. A exemplo d'estes santos re-
ligiosos, façamos quanto depende de nós, para alcançar ags enfermos uma
morte preciosa. diante de Deus. Mas e tempo de darmos a conhecer o
fundador d'esta ordem, tão digna da Religião da caridade. sua vida nos
oÍIerecerá um novo exemplo da bondade de Deus.
0 instituidor dos lrmdos da boa morte foi S. Camillo de Lellis, que
nasceu na Italia a 2ü de Maio de | 550. seu pae, que era militar,
nada se impor[ou com a educação de seu Íilho, gue, posto fosse á
escóla, não passou de lêr e escrever, pois no que mais se occupava era
em jogar cartas e dados. Na idade de desoito annos seguiu a profissão
das armas; mas d'ahi a pouco, morrendo seu pae, e elle mesmo cahindo
grayemente doente, começou, por disposição de Deus, a ter grande abor-
recimento do mundo. Augmentou-se esta disposição por occasião d'uns
religiosos de S. Francisco, conn os guaes se encontrou Camillo, e cuja hu-
mildade e nrodestia de tal modo o captivou, que resolveu entrar na sua
ordem e renunciar inteiramente ao seculo. Com este designio se dirigiu
a um de seus thios, fiperior d'um conven[o da referida ordem, e lhe
pectiu o recebesse n'elle. Não annuiu, porem o thio, 0u por causa das
enfermidades do joven militar, 0u por que lhe não pareceu que tivesse
grande vocaçã0. Com effeito, 0 tempo.da sua conversão não tinha aincla
chegado.
Não osteve, pois, muito tempo com seu thio, mas caminhou logo
para Roma, a 0m de curar-se d'uma ulcera que tinha em uma perna. Re-
colheu-se ao hospital dos incuraveis, na qualidade de servo dos doentes,
mas d'ahi a alguns mezes o despediram em razáo dos seus máos costu-
mes. A inclinação que tinha ao jogo era tão grande, que abandonava
. muitas vezes os enfermos, e chegava a sahir do hospital, para ir jogar.
Privado de todos 0s recursos, entrou ao serviço cle Yeneza, sentando
praÇa em 1569; e acabada a guerra d'rrsta republicr teve a mesmasorte

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DE PERSEVDRÀNCA. {25

rlos outros soldados, que voltaram d'clla com as mãos vasias. Estando
pois Camillo, no rigor do inverno, um frio intensissimo, sem dinheiro,
e quasi sem vestidos, emfim reduziclo á mais extrema miseria, foi
bater á porta d'um convento de capuchinhos, e lá recebeu generosa hos-
pitalidade. Traziam então os religiosos obras em algumas casas, e Camillo
se offereceu a servir como trabalhador, esperando assim entreter o tempo,
e voltar á guerra na primavera scguinte. Desgraçadamente não tinha per-
dido o vicio do jogo, que n'elle era tão forte, que, estando um dia em
Napoles, jogou e perdeu a propria camisa do corpo. Este excesso com-
tudo foi obra do momento, porque já então elle estava muito emendado.
Um dia se sentiu Camillo tão tocado da Graça, que pediu e obteve
a permissão de flcar com os Capuchinhos. Abrindo-se-lhe porém de novo
â ulcera da perna, teve de sahir e voltar a Roma, onde outra vez entrou
n0 hospital dos incuraveis. A este tempo já Camillo era outro homem,
tinha inteiramente mudado de vida, e 0 seu comportamento foi exemplar
em regularidade, caridade e fervor.
Alli teve elle o designio de fundar uma ordem, em beneÍicio espiri-
tual e corporal dos enfermos; para a qual, depois de muitas diÍliculdades
e contradicções, veio a obter a approvação do Santo Padre. Estabelecida
que foi, Camillo, por humildade, se dimittiu do cargo de superior; e fi-
cando desassombrado de cuidados temporaes, não pensou em mais que
em se adiantar no caminho da perfeiçã0. Chorar o tempo que perdêra,
cuidar dia e noute dos doentes n0 grande hospicio do Espirito Santo, e en-
riquecer-se de meritos para a eternidade, tal foi a occupação dos ultimos
sete annos'da sua vida. Cheio de boas obras e de confianÇa n'aquelle
que disse : Bematsenturados os que usam dc rnisericordia, por que elles
alcançard,o misericordia ({), morreu em Roma aos l,t* de Julho de
L6t 4 (2).
Em Íim, não esquecendo infortunio algum, e semelhando o sol, cujos
raios levam a toda a parte o calor e a vida, funtlou a caridade catholica
outra ordem religiosa, destinada a juntar recursos para o resgate dos

(1) I\Íath. VI.


(2) Helyot, t. IY, p. 263; gotl 14 cle Julho.

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,lzti clracrsuo

christãos captivos, e cncommendar com SuaS orações oS gen€r6sos liberta-


clores, que'passavatn annualmen[e aos paizes inÍieis a negociar o resgate.
Tal foi;a 0rd0m dos Religiasos clas Mercés, ereeta em Sevilha em 1568 (l).

oRaÇÃo.
0' meu Deus ! que sois todo amor, eu vos rlou graças por haverdes
estabelecido tantas ordens religiosas, para allivio cle nossas miserias espi-

turei os pobres, maiormente esta?tdo enfermos,

(1) Helyot, t. III, p. 296.

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LlÇÃo L...

0 ChrisÍianisuto censervado e propagado.

(rvn. sr'iur.o).

Quadro rlo ceeulo lt - Juizo do lleus sobne a: nagõer; Iiere'


úico§ .l fgreja, Aeferrrlida: §. F,rancisco de §alles; OrdeUr
-
da vlsiúagãlr propa€íado: missões do Paragua,y ; puÚras
missõóe. À fgreia consolaUa: S. VicenÚe de Paula; fr-
mãs rIâ oarldade.

Filhos.dá Igreja Catholica, eis'nos chegaclos ao seculo decimo septi-


rr0, contando da milagrosa funclação d'ella. Para vos referir a sua his-
toria, dezesete vezes nos tem sido preciso embocar a bellicosa tuba, e c0-
meçar cada uma de nossas lições entoando um novo hymno de guerra.
NIas que? como não ha-de ser assim? Por ventura não está escriptoque
a verdade e santidade inalteravel de vossa augusta mãe a hão de expÔr
ás incessantes perseguições do erro 0 do vicio (t)? Não e pela corÔa
d'espinhos, que ltre cinge a fronte, que os seculos hão de reconh€cer a
legitima esposa do Deus do Calvario ? Esta perpetua, incessante lucta,
longo pois,de vos aÍfligir, pelo contrario vos devo conÍirmar na fé, e ainda
mais inflammar-vos o coração de gratidão e amor; por{ue tanüos comba-
tes, tantas aÍllicções e trabalhos não teem por objecto mais que defender
e conservar a vossa herança. No momento em que, infiel dopositaria, a
Igreja Íizesse alliança com o erro e o vicio, deporia o inferno as armas;
e uma paz vergonhosa, a paz clas scitas, seria para vossa mãe a ignobil

(1) Ilalc. XIII, li,

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l2rt CÀTECISMO

recompensa da sua prevaricaçã0. ilÍas não temaes : já pelo decurso rJe rltt-
zesete seculos tendes visto como ella canta o hymno da sua gloriosa Íi-
I
tlelidacte Ella o cantará ainda no decurso dos ultimos tres seculos, cnja
historia prende com a epoca em que vivemos. E quanclo esta geração
se tiver sumido no tumulo, ella cantará ainda ás gerações do porvir esse
hymno solemne, que nenhuma outra sociedade pócle entoar com ella, c
que resoará eterno nas abol-radas de Jerusalem Celeste pelos seculos dos
seculos :
Quantas t)ezes, quanlas, desde a minha nrccidad,e me teem
combatido; m,as nada poderam clnffa mim. Fabricaram sobre 0 meu
dorso, c0m0 eun cima da bigorna: prolongara,m suas iniqui,dades: o
senh,or porém, na, sua justiça, espedaçou as cabeças dos peccadores (l).
Este glorioso destino de nossa Mãe ainda é outra grande lição para
nós. A guerra, guerra continua, e tambem 0 nosso elemento, e condição
infallivel da nossa existencia na terra. Unindo o valor á paciencia, con-
Íiada em Deus e fiel a suas graÇas, teem a Igreja alcançado 0 seu trium-
pho. Lancemos mão das mesmas armas, e levaremos igual victoria; r'i-
ctoria, cujo preqo será a corôa da immortalidade. Aproveitemos estas
uteis reflexões, e desçamos de novo á arena, quelá nos esperam os com-
.batentes.
Durante o seculo decimo setimo continúa o inferno a terrivel lucta
começada no seculo precedente. Multidão de seitas, Íilhas do protestan-
tismo, atacam successivamente a lgreja ; e n'ella, como em rochedo im-
movel, se despedaçam. Grandes calamidades, justos castigos do scisma,
heresia e escandalo, aÍlligem a humanidade culpada, e lhe fazem soffrer
d'alguma sorts a miseria e servidão pagã, de que o Christianismo a li-
vrára.
A todos es[es esforços, com que o inferno procura destruir a obra rla
Hedempçã0, oppõe Deus a Igreja; mas a Igreja fortalecida e defendida
por excellentes doutores'e grandes santos; a Igreja rodeada de cento e
dez srdens ou congregações religiosas; a Igreja emfim, florescendo, com
um vigor totalmente novo, e dilatando suas conquistas pelas quatro partes
elo mundo. ',

(1) I'sal. CXXYII.

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DT] T'ENSEV}:RAN!]À. T99

A Allemanha, Inglaterra, Suissa, e parte da mesma França haviarn


pertlido a fe. Estas nações, segundo o exemplo d'outras, tinham ousado
dizer a Jesu-Christo : Ndo querem1s que tu, reines sobre nÓs; e c0m0
ellas, soffreram tambem o castigo da sua rebeldia. Lêde a historia, e dizei
se ha cousa, que se possa comparar com o que soffreram entã0. Rios de
sangue inundaram a Atlemanha por mais de irinta annos; a Inglaterra
passgu meio seculo ao clarão clas fogueiras, accêsas e alimentadas pela
guerra civil: de revolução em revolução chegou em Íim ao pe d'um ca-
dafalso, S6bre o qual rolou a cabeça d'um rei : crime e castigo do crime;
tão horrivel espectaculo não se tinha ainda visto no mundo depois do
Christianismo. A Suissa bebeu 0 sangue de cem mil de seus filhos. A
mesma França foi punicla da parte que tomára na revolta contra Jesu-
Christo, por inauditas atrociclades, pela ruina de grandc numerO dos seus
mais bellos monumentos e devastação de muitas de suas provincias.
A mão de Deus cessou todavia de pesar sobre o reino Christianis-
simo, e a França tornou-se, clurante o seculo decimo septimo, o mais po-
deroso auxiliar da fe catholica. Filha primogenita da Igreja, esta nação
agora mais que nunca se mostrou digna do seu nome; pois sempre eS-
teve prompta a combater o erro, a enviar missionarios ás nações inÍieis,
e a sustentar o zêlo dos que trabalhavam na conversão dos hereges. Uma
de suas glorias n'esta epoca, foi auxiliar com todo o seu poder o Santo
Apostolo de Chablais, Francisco de Salles : nenhum outro povo lhe deu
tão particulares testemunhos d'estima e Yeneraçã0.
Este grande Santo, tão visivelmente Suscitado por Deus para comba-
ter a heresia e reanimar a verdadeira piedade, nasc'eu em Saboia no Cas-
telto de Salles, a 2,1 d'Agosto de {567. Descendente das mais illustres
e antigas familias de França, amou este menino a Deus desde a primeira
luz da intelligencia, e a primeira vez que fallou foi para dizer: f)eus e
minha mãe amam-me mui[0. Mansidão, docilidade, modestia, grande vi-
vacidade, e sobre [udo amoroso com os pobres, eis as qualidades e vir-
tudes que o distinguiam entre os meninos da sua idade. Muitas vezes
implorava a Seus paes a esmola, para ir dar aos pobres; e poupava
quanto podia dos alimentos que lhe davam, para mais largamente os
s0ccorrer g

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130 cÀTcCrsuo

Chegado a idacle conveniente foi para o collegio cl'Ànnecy, orule I'ez


os progressos que se esperavam d'elle ; e d'ahi alguns annos pass0n a
Pariz, acompanhado cl'um virtuoso aio. Ao estudo das sciencias humanas
juntava Francisco o estudo bem mais importan[e da sciencia clos Santos.
À fim d'evitar as más companhias, não sahia de casa que não fosse ou
para a lgreja, 0u para as aulas. Assim 0utr'ora fizeram em Athenas
S. Gregorio e s. Basilio, dos quaes se dizia que não conheciam mais que
duas ruas da cidade, a que ia dar á Igreja, e a que ia ter á escóla. Opti-
mo exemplo para a mocidade, que oxalá fosse imitado, já não clizemos
pelos mancebos, mas ao menos pelas donzellas. ,

Foi em uma Igreja de Pariz, chamacla de santo Estevão tle Grés,


que Francisco, prostrado diante d'uma imagem da Santissima Yirgem, fez
voto de castidade. o senhor abençoou esta acção sublime ; e, para nrais
puriÍicar este coração já tão puro, o fez passar pelo crisol das tentações.
Por instigação do demonio se lhe metleu ern cabeça que era reprobo, e
com esta idea adoeceu a ponto de se receiar muito que morresse. Não
permitte Deus, porem, que seus servos sejam tentados alem de suas
forças : Francisco foi lançar-se aos pes da Santissima Yirgem, e esta Mãe
de misericordia lhe restituiu a paz do espirito. Foi esta a primeira victo-
ria, penhor das que depois alcançou, já em Pariz, já na ltalia, contra o
inimigo da salvaçã0.
Terminados seus estudos voltou á casa paterna. Quizeram dar-lhe
estado, casando-o em uma familia rica e nobre, porem elle respondeu, que
elegêra ao Senhor por sua heiança; e sem embargo das lagiimas e ins-
tancias de seu pae, seguiu o estado ecclesiastico, e tomou orilens sacras.
0 Bispo de Genebra enviou a Francisco c0m0 missionario ao Chablais, e
a outros cantões inÍestados da heresia, onde correrl grandes perigos. Alli
soffreu fomes, frios, desprêzos e injurias, com tão angelica paciencia,
que a0 cabo de dous annos de trabalhos, seus exemplos e discursos trou-
xeram novamente a fe a mais de sessenta mil hereges,
Convinha, porém, que tao brilhante luz se collocasse sobre o cantle-
labro, para Cerramar por toda a Igreja seu puro e benefico clarã0. §0
santo missionario foi creado Bispo de Genebra. Nunc:a se viu santo mais
amavel, nem 'lotado de maior branclura ! Supposto Íbsse cle tempera-

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DE PERSEVERAN(iÀ. t 3l

mento I'ivo e assomádo, nunca em si deixou vêr a menor agitaçã0. Certo


dia d'excessivo calor, querendo tlm Seu domestico de proposi[o iurpa-
ciental-o, lhe accendeu um grande brazeiro dentro da camara. Entrando
o Santo, e venclo aquillo, contentou-Se com dizer: «Em todo o tempo o
lume e bom.» Nada recommendava tanto como a mansidão, simplicidade
e conÍiança em Deus. Todas aS suas obras respiram suas virtudes; é im-
possivel achar melhores livros de piedacle. Francisco morreu ertenuado
de fatligas a 28 de Dezembro de 1,622, tentlo d'idade cincoenta e scis
al)nos.
Fundou este grande Santo, de mãos dadas com Santa Joanna Fran-
cisca do Chantal, a 0rdem da Visitaçã0, com 0 Íim de servir de recolhi-
mento a meninas e mulheres enfermas ; razão por que suas constitttições
não obrigam a grandes austeridades. Não u comtudo vedada a entrada
a pessoas de boa saude. As religiosas fazem os tres ordinarios votos tle
pobreza. castidade e obediencia. N'esta aclmiravel ordem se ha perpe-
tuaclo a suave e earirlosa piedade de seu excellente funclarlor ; e não ha
mais bella escóla d'estas simplices e santiÍicantes virtudes, que consti-
Íuem a essencia tlo Christianismo. As irmãs da Yisitação occupam-se
tambem, com grande rantagem publica, da educação de meninas. Vestem
ellas habito preto, e o mais simples possivel : trazem sobre o peito uma
cruz de prata, plra lhes Iernbmr o amor de Deus e a conformidat'le ab-
sOluta Com a Sua dit'ina vontade, a exemplo de Nosso Senhor, que frii
obediente ate á morte, e morte de cÍaz. Depois de jantar, todas as reli-
giosas vão recel-rer as ordens da superiora, a Íim de nada fazerem senão
por obediencia; á noute, depois de ceia, outra vez se apresentam á Pre-
lada, para saberem o que lhes cumpre fazer ate ao fim do jantar rio clia
seguinte. Para que a pobreza seja entre eltas rnais exactamertte obser-
vada, toaôb oS annos mudam de cella, leito, crül, rosario, imagens, e
orrtras cousas semelhantes. Não se faz idea da paz e harmonia que reina
n'aquelles preciosos as;'los da innocencia. Se na'terra se podesse achat'
o paraizo, era alti que se'devia procurar.
A Orrlem t1a Visitação propagou-se rapidamente, e conta granrle nu'
mero de pessoas illustres por nascimento e rnais por piedatle. Citare-
rltosr entre outras, a duqueza cle -tlontmorcncy, que fallecotl em ][oulins,'

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t32 CÀTECISilO

a mãe de Brechard, uma das primeiras companheiias de Santa Joanna


Francisca do Chantal : e a veneravel IVIaria Alacoque, a quem Nosso Senhor
revelou a devoção a0'seu Coração Santissimo. 0 altar, junto do qual
orava esta religiosa quando Nosso Senhor lhe fez a dita revelaçã0, es[á
hoje na Charité-sur-Loire, bem como o coração da Santa.
Ao passo que S. Francisco de Salles reanimava a piedade, e prepa-
rava à Igreja grandes consolações, zelosos missionarios deixavam tudo,
a exemplo de S. Francisco Xavier, para irem em paizes barbaros e entre
indornitos selvagens, fazer novas conquistas para Jesu-Christo. Não aca-
bariamos se quizessemos referir os gloriosos feitos d'estes heroes da fé,
n0 decurso do seculo l7.o Bastará que digamos alguma cousa dos ser-
viços que prestaram aos pobres inÍieis; d'onde assás se mostrará que os
missionarios catholicos teem sido os verdadeiros bemfeitores da humani-
dade, e que Deus jámais cessou de dar mostras de sua paternal bondade,
ainda mesmo aos povos que não tinham a felicidade de o conhecer.
Quando os hespanhoes descobriram a Àmerica, vendo que era este
vasto paiz extremamente rico em minas d'ottro, possessos da cubiça, todos
0s meios empregaram, ainda os mais barbaros e crueis, para haverem
ás rnãos aquelle precioso metal. Chegavam a matar os desgraçados in-
dios, e revolver-lbes as'entranhas em .procura do ouro que julgavam que
elles enguliam. Só os missionarios catholicos tiveram à coragem de se
oppôr resolutamente a estas crueldades. A' força d'instancias consegui-
ram elles minorar a barbaridade dos hespanhoes; mas ah I a insaciavel
avareza dos vencedores escogitava ainda mil maneiras d'atormentar os
vencidos. Longe de clesanimar, empregaram os infatigaveis missi'onarios
todos os recursos do mais apostolico zêlo, e emfim obtiveram dos reis
d'Hespanha auctorisação para formar, de todos os selvagens que podés-
sem reunir e converter á Religiã0, colonias independentes. Assim foram
ouvidas as suas orações, e coroados seus esforços.
Yejamos agora com que custo esses illustres propagadores da fé,
embrenhando-se pelos bosques, formaram esses estabelecimentos que re-
cordam os bellos dlas da primitiva Igreja. As antigas memorias nol-os
representam caminhando com o breviario sob o brago esquerdo, uma
grande croz na mão direita, sem nenhuma outra provisão que sua côn-

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DE PERSEYERANCA. I:}:i

Íiança em Deus. Eltas nol-os pintam a.brindo caminho a[ravez das Ílores-
por
tab, por meio de pantanos, mettidgs na agua ate á cintura; trepando
entrando profundas
alcantilados rochedos; saltando medonhos precipicios ;
cavernas, com risCo de irem encOntrar, gil vez dos hOmens que busca'
vam, feras e venengsas serpentes. Por lá morriam uns de fome, outros
de farliga, outros emfim ás mãos dos selvagens, que depois os det'oravaln'
Estes se detioham algumas vezes em volta do desconhecido sacerdote,

conder-se nos bosques. Então os indios se approximavam p0uc0 a pouco,


para examinar o estandarte da paz, levantado n'aquella solitlão; e o sa-
cerdote, sahindo de repente da sua emboscada, e apr0\'eitando-se da sur-
preza dos barbargs, os convidava a trocar sua miserat'el vida, pelas do-
çuras da sociedade.
Logo qhe os incansaveis missionarios consegtriram domesticar alguns
selvagens, forrnaram pequenas aldeias, que tlentro em poucos annos cres-
ceram em numero de trinta. Cada alcleia era governada por dous missio-
narios, que dirigiam os negocios espirituaes e temporaes d'estas peque-
nas republicas. 0s trabalhos comeÇavam e acabavam a0 Som do sino'
Este tocava ao romper da aurora, e logo os meninos se reuniam na lgreja,
e o seu concerto matutino, semelhante ao das avesinhas, lá durava atê o
sol sahitlo. 0s homens e mulheres vinham depois assistir á missa, e
d'ahi partiam para 0 seu trabalho. Ao fim do dia chamava o sino outra
ue, o, novos cidadãos para jtrnto do altar, e todos can[avam a oracão da
noite em cÔro, alternaclamente.
Estava 0 terreno dividido em porções, e cada farnilia cultivava sua
para sustentar-se. Ilavia ou[ro tr*po publico c commum, chamado a
possessã,0 de Deus, cujos fructos eram destinados a suppl'ir nas más cd-
lheitas, e a sustentar as viulas, orphãos e enfermos. No cen[ro da po-
voação estava a praça publica, com estes ediÍicios : Igreja, casa dos Pa-
dres, arsenal, cetteir0 commutn, asylo, e hOspicio para oS estrangeiros.
Com tão ltaternal goyern0 não admira que os n0v0s christãos tos-

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,l:t,l cATBCISTÍo

sem os mais puros e felizes dos homens. A mudança de seus colitumes


era milagre operado á face do novo mundo. 0 espirito de cruelclacle e
tingança, a soltura e os ntais grosseiros vicios, que caracterisavam as
hordas indianas, havlam-se transformatlo em espirito de mansidão, obe-
diencia e castidade. Póde julgar-se de suas lirtudes peia ingenua ex-
pressão rlo Bispo de Buenos-Ayres: «Senhor, escrevia elle a Filippe v,
tt'estts nllmerosas povoaçoes compostas d'indios, naturalmente inclinados
a toda a especie de vicios, reina tão graucle innocencia, que não creio
qne lá se commetta um só peccado mortal. »
Parece-nos que ha um unico desejo em todos os gue lêem esta his-
toria, o de atravessar os mares e ir longe das tormentas e revoluções que
nOs assombram, viver vida obscura entre as cabanas cl'estes selvagens,
e rep0usar em paciÍico tumulo, debaixo das palmeiras de seus cemiterios.
Mas nem os desertos são assás profundos, nem os mares bastante dila-
tados para subtrahir o homem aos males que o perseguem. As missões
do Paraguay foram destruidas. 0s trezentos mit selvagens, reuniclos alli
com tantas fadigas, vivem outra vez errantes pelos bosques, ôr enterrados
vivos nas entranhas da terra. Eis o que frzera o Christianismo, eis o
que fez a malicia dos homens ({).
Entretanto, a Religião não está ertinc[a na America; pelo contrario,
Iá faz nutnerosas conquistas. Alti se contam hoje mais de vinte e quatro
rnilhões cle catholicos.
Ào passo que os missionarios,'de que acabamos de fallar, civilisa-
vam 0s barbaros da America, outros apostolos, nã0 menos zelosos, leva-
vâm a [uz da fe aos povos rlo Oriente. A Tartaria, o Thibet, a persia, o
Bgypto, a China e o Tongking viram assomar estes novos conquistado-
res, e receheram suas palavras. Não ha canto da terra que escapasse
aos missionarios, e a0 seu zêlo da salvação tlas almas. Quem jámais ern-
prehencleu o que elles poseram por ob*ra ? Compadeciclos da desgraça de
tantos infieis, remidos com um sangue divino, e ainda sepultados nas
sombras da morte, sentiam-se inflammados do desejo de dar a vida pela
salvação de suas almas. Era necessario airavessar profundissimos bosques,

(1) Clrateaubliand, Genio, t. IV, p, 35-491 e ll{uratoú, Mísst)es clo Paraguay.

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NE PETISEYEBANCÀ. I3:;

subir
transpÔr impraticaveis lagÔas, passar porigosos rios,
inaccessiveis

rochetlos; era tbrçoso arrostar nações irueis, timbrosas


e cheias de su-
os prejuizos
perstições; vencer aqui a ignoraucia da barbaridacle, acolá
ãa civilisaçã0. Mas nada ê capaz de os deter'
Quem pórJe clignamente fillar da grancleza do seu sacrificio ? Quando
paes e amigos, se
a um homerr, a oirt, de todo um p0v0, diante de seus
expõe á morte pela patria, troca alguns flias de rida
por seculos de gloria:
torna illustre a sua iarnilia e quiçe a eleva ás riquezas e honras'
Porem
na solidão dos bos-
que diremos do missionario, cuja vida se consoms
applausos,
qor. ; que acaba cle morte affrontosa, sem espectadores, sem
sem vantagens para oS SeuS, obscuro, desprezado,
tratado pOr lOuco, ab-
a um incognito
surclo e fanatico ; e tudo isto para dar a felicitlacle eterna
selvagem ?Que ngme det,eremos pÔr a esta mgrts, e a este sacriÍicio ?
cgngregaÇõe§ religiosas se
ggnsagraram ás missÕes; taes
Diversas
e Padres das
foram os Dominicanoi, F[anciscanos, Jesuitas, Lazaristas
elles ti'eram maravilhoso instincto para tles-
missões ex[ernas. Todos
assim dizer, do seu ul-
cobrir o rasto do infortunig, e desalojal-0, P.âIa
timo esconderijo (l).
discor-
Em quanto que a maior parte dos missionarios da America
collegas, P'dre
o
riam peloi matos em busca de selvagens, um de seus
avaliar o ardor da sua
Claverl se applicava á instrucção clos negros. Para
parte do genero humano rnais
caridarie ,oúro saber que oS negr )s são a

deeahida e avil[ada. D'Airica os levam


para a Cartagena d'America, que e
fazem traÍico'
o imperio de todas as nações commerciantes, que tl'elles
os d.esgralados ca'
chegam navios uns apÓs d'Outros, trazendo a mo3tão
na §ua propria immundicia,
ptivos, Sem gama, nem vestitlos, encharcad6s
o que junto ao rnáo ali-
ãarregados de ferros, de que nunca os altiviam ;
cancrgs e ulceras
rnentõ que lhes dã0, e causa de coltrahirem molestias,
tão infectas, que não poclem elles mesmos sttpportar
o seu cheiro' Em
que elles; de sorte
summa, não ha besta de carga mais maltractada do
que muitos preferern suffocar-se, ou mgrrer de fome, do que supportar
nia. tao desesperada. 0 que e ainda mais deploravel é gue se não res-

(1) Chateaubrilirtd, Getio, t' l!', p' Sí, 49'

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{ 36 ilÀTecrsuo

peitam suas almas mais que seus corpos. CarJa um só cuida em se enri-
quecer, comprando-os, ou vendendo-os; por que, pela maior parte, a ar-
dente sêde d'0ur0, . que devora aquelles traÍicantes, sufloca e faz calar
todos os outros sentimentos.
Foi á vista d'estes horrores que o Padre Claver, missionario Jesuita,
a quem o Pae de todos os homens dotára de particular compaixão e ter-
nura com 0s negros, se compadeceu d'elles vivamente, e concebeu o de-
signio de se declicar todo em seu serviç0. Quando solemnemente pro-
fessou a Religiã0, juntou aos tres votos ordinarios o de servir e erninar
os negros, e se assignou: «Pedro Claver, escravo dos negros para sem-
pre.» Nunca se fez nem póde fazer-se voto mais diflicil, e nunca voto
nenhum foi mais bem cumprido.
Apenas chegava ao porto algum navio carregado de negros, logo o
missionario, munindo-se d'agua-ardente, biscoutos, fructos e ate conservas
e manjares exquisitos, corria a acariciar e consolar os recem-chegados,
do mesmo modo que uma terna mãe fazia a seus Íithos. 0 sou ar meigo
e symphatico, as maneiras affaveis, as dôces palavras que lhes dirigia, o
vivo affecto que lhes testemunhava, tudo lhes dava a entender que este
seria o seu defensor, protector e pae. Desde logo os pobres captivos lhe
captivavam os corações, e elle os acabava de penhorar, distribuindo-lhes
os pequenos reírescos que comsigo ffazia. Costumava elle dizer que era
necessario fallar-lhes primeiro com as mãos, que com a lingua. Alguns
seus piedosos amigos o ajudavam n'isto, fornecendo-lhe aquelles mimos. De-
pois de ganhar a conÍiança dos negros, trabalhava em lhes lucrar as almas
para Deus. Primeiramgnte, se durante a viagem tinham nascido algumas
creanças, cuidava em ltres ministrar o baptismo ; e depois ia visitando
para 0 mesmo Íim os adultos, que se achavam perigosamente enfermos.
Curava-cs, e lavava-lhes elle mesmo as cbagas; mettia-lhes a comida na
bôcca, e abraçava-os ternamente antes de os deixar. Fazia isto a todos,
por mais asquerosos que fossem, de sorte que Íicavam c0m0 encantados,
á vista de tão prodigioso e inesperado tratamento.
No dia do desembarque geral voltava acompanhado de negros anti-
gos, da mesma nação dos que chegavam. Dava-lhes a rnão para 0s ajudar
a saltar na praia, tomava nos braços os doentes, que conduzia em carros,

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I

DE PERSEYERÀNÇÀ. 137

para isso preparados, sem que a nenhum deixasse Ce dar algumas parti-
õulares pionã, de benevolencia. Não os desamparava em quanto os não
quando
conduzia ao seu destino, onde depois os visitava com frequencia, e
se despedia promettia-lhes de se não esquecer d'elles, e oS recommendava
com muita instancia a seus senhores.
Mas como tinha por objecto prineipal a
alma, para lhe aver d'este modo. Depois de
convencionarc0 convenientes para a catechese,
partia no momento preÍixo, levando na mão um cajado que terminava
ãm fórma de cÍul,, um Cruxifixo ao peito, e aos-hombros um alforge
com a sobrepelliz, estola, diversas imagens, remedios e cousil§ neOessa-
rias para oS enfermos. Entrava com rosto alegre em §uas Choupanas,
que são eomo estrebarias humidas, onde estãO amontoados, sem terem
urtra oama mais que a telTa. 0 máO cheiro, gue sobre tudo n'aquelle
clima exhalam tantos corpos naturalmente infectos, torna o ar ambiente tão
insupportavel, que poucos europeus poderiam demorar-se n'elle uma
hora, sem perderem os senlidos. Mas lá estava o Padre Claver como nas
suas delicias. Todo enlevado no preço d'aquellas almas, remidas com o
Sangue de Jesu-Chrisü0, levantava uma especie d'altar, e sobre elle col-
locava alguns quadros, representando por exemplo a Crucifixã0, .o infer-
trg, o paraizo, para assim dar aquelles espiritos grosseiros alguma idéa
dos nossos mysterios.
Assim que os negros podêssem ouvir enmmodamente a catechese,
ia buscar bancos, taboas e esteiras ; e fazia isto com tanto obsequio e sa-
tisfaçã0, gue os pobres escravos não sabiam como significar-lhe o seu re-
conhecimento. Podia dizer-se, que elle estava alli só para os servir, e
que era escravo dos escravos. Não obstante terem muitos d'estes negros
certa altivez ou ferocidade estupida, que os torna quasi intractaveis, nem
um só deixava por Íim de commover-se dos obsequios e perseverança de
Eeu santo pastor. Não se contentava elle só com os fazer christãos no
'nome e na proflssão de fé; queria que fossem verdadeiros fleis, homens
exactos no cumprimento de todos os deveres do Christianismo; e, por
um prodigio que só a graça póde operar, á força de cuidados, trabalhos
e fadigas, formou elle, n'esta aviltada e quasi inteiramente embrutecida

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t:i8 CÂTIiCISIIO

gente, ltomens eremplarcs na viltu de, capazes tle confunilir' 0s curopcus


mais illustrados.
Este factu poderá mesmo agradar aos nossos philosophos, que tão
affeigoados aos negros se teem mostrado n'esies ultirnos tempos. I\Ias
com quanto se gloriam de ser os seus libertaclores, duvidamos que fos-
sem capazes de lhes dar taes provas de ternura, c0m0 a do Padre Claver.
Para os libertar não havia mais que lavrar um decreto (,1), sacriÍicando
embora 0 interesse dos proprietarios; mas para os soccorrer, consolar,
instruir e civilisar, para isso era preciso sacriÍicar-se a si mesmo, e con-
demnar-se á vida mais laboriosa e penivel. Ora é bem sabido que a hu-
manidade, inspirada pela phitosophia, não se eleva a tanto heroismo.
Das regiões onde o sol se esconde passemos áquellas aonde nasce.
Lá nos prornette a caridade ca[holica n0v0s milagres ; lá verêmos os mis-
sionarios do Levante encerrarem-se nas prisões e pestiferas galeras, para
consoiar os esoravos christãos. Se quereis formar conceito da sua dedi-
caçã0, escutai um d'elles (2).
«0s selviç,0s, diz elle, que prestamos aos pobres christãos, captivos
nas prisões de Constantinopla, consistem em conserval-os no temor de
Deus e na luz da fe; soccorrêl-os com as esmolas dos Íieis, assistir-lhes
ern suas doenças, e ajudal-ós em fim a bem morrer. Se tudo isto de-
manda muita sujeição e trabalho, p0ss0 assegurar que, em recompensa,
quer Deus que experimentemos n'isso mesmo grandes consolações. No
tempo da peste, como seja necessario haver quem leve os soccorros aos
que d'ella se acham atacados, e nós somos aqui só quatro ou cinco mis-
sionarios, temos por costume ir um para a prisã0, e permanecer lá até
Íindar a molestia. 0
que para isso obtem a permissão do superior, se
dispõe por alguns dias no retiro, e se despede de seus irmãos, c0m0 se
fosse morrer. Àlgumas vezes consulnma o sacri[icio, outras escapa (3).»
Escutemos outro:
«Hoje sou eu superior a todos os receios de molestias contagiosas.

(1) Decreto da assemblêa coustituinte, que deu oecasiào á carniceria de S, Do-


mingos.
(2) O Pedre Tarillon. q

(3) Cartas edificantes. t.I, p. 19-21.

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.DIi I'}ilRSIiIERANÇl. 'l lf Çl

Jriagol'a crsio que não quer Deus que eu morra d'este mal, á vista dos
perigos que tenho corrido. Àcabo de sahir da prisã0, onde ministrei os
Sacramen[os a oitenta e seis pessoas. De dia parecia que nada me asstls-
tava, só á noute, durante 0 p0uc0 S0mn0 por que me deixavam passar.
ó que sentia 0 espirito cheio d'ideas medonhas. 0 maior perigo que
corri, e que correrei talvez na minha vida, foi no fundo do porão d'uma
sultanrt de 82 canliões. 0s escrat os, rle concerto com os guardas, me
tinham lá feito descer de noute, para durante ella, confessar a totlos e
dizer-lhes missa de madrugada. Fomos totlos prêsos, como e de costume,
com dous cadeados. De cincoenta e dous escra\'os, que confessei, doze
estavam cloentes, e tres morreram antes que eu sahisse. Julgai que tat
seria o ar eu respiraria alli fechado, sem haver 0 menor respiro. Espero
em Deus, que por sua bondade me livrou d'aquelle perigo, que me li-
vrará de muitos outros (l ). »
Nas Indias tinham os missionarios a combater as mais grosseiras e
vergonhosas superstiçoes. Na China inculcavam-se por sabios, para assim
attrahir as attenções d'uma nação inchada do seu saber ; em outras partes
se Íingiam artifioes. A sua caridade tomava todas as fórmas, empregava
todos os meios imaginaveis; em uma palavra, faziam-se tudo para todos,
a fim de lucrar almas para Jesu-Christo.
Nem este admiravel zêlo cessa de ter imitadores. Cada anno partem,
dos diversos pontos da Europa, homens que, na flôr da idarle, dizem
eterno adeus ao mundo, á patria e aos parentes, para irem, em paizes
desconhecidos e barbaros, sacriÍicar a vida pela conversão dos inÍieis.
Fome, sêde, perseguições e privações de todo o genero, eis a vida, que
vão viver. B quanto á morte, essa lá 0s espera em algum calabouç0,
fogueira ou patibulo. Assim, pois, quem duvidará que a Religião Christã
não seja toda amor, inspirando ella a seus filhos tal caridade ? Quem
cluvidará que Deus ama aos homens, fazeodo elle taes prodigios pelos
salvar ? Quem duvidará da Providencia com que protege a sua Igreja,
quando vêmos que essas missões, que teem convertido e convertem
ainda inÍinidade d'almas, começaram exactamente na epoca em que a

(1) Cartag edificentes, t, I, p. L9-21.

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140 CATECISIIO

bem amada Esposa do Homem-Deus lamentava angustiada a apostasia de


muitos seus Íilhos ?
Passemos já a vêr outra prova da inÍinita solicitude com gue l)eus
vela pela sua obra: e S. Yicente de Paula. 0h ! quão precioso dom e
este, que 0 ceo nos envia I Não ha virtude qus não floresça n'elle; mi-
seria a que não dê allivio. Bem se lhe póde chamar o amigo da huma-
nidade. Assim como Nosso Senhor, elle passou fazendo o bem; assim o
suscitou Deus para soccorrer os infelizes, reanimar a fe, e accender a ca-
ridade quasi extincta n0 meio da guerra e heresias, que assolavam a
Europa.
Nasceu S. Yicente de Paula em 1576, na aldeia de Poy, diocese
d'Acys, na Gasconha. Seus paes eram pobres ; tinham seis Íilhos, que edu-
caram na piedade e na vida da lavoura. Passou Yicente os seus primeiros
annos a pastorear o rebanho de seu pae. Era elle de aspecto'grave, tinha
tanto amor aos pobres que muitas vezes se privava do necessario para
os soccorrer. Notando n'elle seu pae estas raras qualidades, resolveu
mandal-o para o es[udo, e o metteu em um conyento de Franciscanos
como pensionista. Passados poucos annos, já Vicente estava em es[ado
d'ensinar os outros. Aos vinte annos d'idade foi para Tolosa, onde cur-
sou Theologia, e pouco depois recebeu as ordens de subdiacono, diacono
e presbytero.
D'ahi a cinco annos fez uma viagem a lllarselha, e quando voll,ava
para a sua terra foi tomado no mar pelos piratas, e let'ado captivo a
Tunes. Primeiramente o venderam a um pescador, e depois a um velho
medico, que fez toda a diligencia para que renegasse a sua religião.
Por ultimo cabiu em poder d'um renegado, a quem, converteu e em cuja
companhia tornou á Europa. Livre da escravidão dos homens, Yicente
não pensou mais que em livrar as almas do captiveiro do demonio. Con-
sagrou-se especialmente ao serviço dos pobres, e começou pelos habi-
tantes do campo, a quem fez todo o bem que pÔde, assim espiritual como
corporal. Virou-se depois para 0s forçados, a quem prestou tantos servi-
Ços, que o rei o nomeou Esmoler-mór das
gales de França.
N'esta qualidaile voltou Vicente a Marselha, mas não se deu'a co-
nhecer, para melhor Se eertificar do estado das cousas. Assegura-se que,

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Dtr PERSEYDnaNÇA. ltt
summamente condoído tl'um forqado, a quem debalde se esÍr.rrçou por con-
solar, obteve, por inaudito heroismo de caridade, que o mettessem no
lugar d'elte, e o prendessem com 0S mesmos ferros, que arrastOu por
algum tempo. Fundou em quanto alli esteve um hospital para os for-
çados enfermos, c d'elle fez em pouco tempo um dos mais commodos do
reino.
Durante as missões que pregou pelo campo, conceberam alguns ec-
clesiasticos o desejo de se lhe reunirenn; o d'aqui teve principio a Ordem
de S. Lazato, fundada por S. Vicente de Paula. 0s Lazaristas teem por
ins[ituto occuparem-se em missões pelos campos, e ainda pclos paizes
infieis. Ç.

Não estava, porem, satisfeito o incansavel zêlo de S. Yicenie rJe


Paula. Eite fundou associações de caridade, para soccorrer os pobres
de cada parochia; as irmãs da cruz paÍa educação de meninas; e as
irmãs enfermeiras para servir nos hospitaes. E' a este grande Santo que
a citlade de Pariz deve a fundação dos hospitaes da Piedade, de Bicetre,
de Salpêtriêre e o dos Meninos Expostos. N'aquelle tempo appareciam
todas as noutes inÍinidade de creancinhas abandonadas ás portas das Igre-
jas, ou nas praças publicas, e muitas pereciam. Vivamente commovido
procurou Yicente remediar tão grande mal. Entendeu-se com algumas
senhoras caritativas, Qü0 lhe forneceram recursos para os sustentar;
porém não tardou que escaceassem estes recursos, e as senhoras c0nv0-
caram uma assemblêa, a fim de deliberarem sobre a possibilidade de con-
tinuar esta boa obra.
Profundamente commovido, tomou S. Yicente a palavra e fallou á
nobre assemblêa por estes termos: «Ora pois, senhoras, a compaixão e
(a caridade vos Íizeram adoptar por filhos estes innocentinhos; tendes
«sido suas mães pela graÇa, desde que as que por natureza o eram os
«abandonaram. Yêde agora se os quereis tambem abandonar. Deixai de
«ser mães para os julgardes, e proferirdes sentença. Das vossas mãos
«está pendente a vida d'elles. Eu vou já tomar os votos e colher os suf-
«fragios.» À assemblêa respondeu com torrente de lagrimas. Decidiu-
se que se continuasse aquella obra de misericordia; os reis de França
prometteram concorrer para ella; e eis como mais de dez mil meninos,

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11,) {}\TUClSll0

sú na citlade tle Pariz, tlevem cada anno a sua conservaÇão a S. Vicente


cle Paula.
Querendo que os meninos fossem tratados com a maior ternura, e
se prestasse aos doentes 0s mais assiduos soccorros, fundou S. VicenÍe
a congregação das lrmds da Caridade, troje chamatla congregação de
S. Yicenie tle Paula. Esta instituição deu origem a inÍiniclade d'outras
tlo ntesmo genero, não só em ú'rança, mas ern todo o orl_re christão; de
sorte que se póile dizer, que os enfermos de todos os paizes devem a
S. Yicente 0s soccorros e admiraveis serviços gue lhes prestam estas re-
ligiosas nos hospitaes (l).
Ao vêl-as não só clrar dos enfermos, pensar e puriÍicar-lhes as fe-
ridas, fazer-lhes as camas, mas ate lavar-lhes a roupa cheia de materias
e immundicias. e sujeitar-se aos mais penosos e repugnantes serviços.
por puro amor do proximo ; qlrern, ao vêr isto, as não olhará como santas
victimas gue, por tal extremo d'amor e caridade, affrontam para assim
dizer a morte no meio dos rrtiasmas e exhalações infectas de tão grande
numero de doentes (2) ?
E para d'es['arte se dedicarem ao serviço d'enfermos que não co-
nhecem, e de quent nada tecm a esperar; que sacriÍicios não careceram
de fazet estas heroinas da caritlade ? Forçoso foi deirarem 0s prazeres
da vitla, renunciar a sua juventude, separar-se de sua familia, recalcar no
coração todos os seus aÍfectos; na alma todos os sentimentos ; para guo
a piedade só impere, só domine em tudo; a piedade que, em tão dolo.
rosa vida, parece ser um tormento novo (3).
E quem não ha-de enternecer-se e maravilbar-se, a0 vêr a dedicação
d'estas religiosas hospitalarias, tão dignarnente denominadas lrmd,s da
Caridade ut, Virgens de Deus, quando o proprio Yoltaire não pôde recu-
sar-lhe o tributo de suas homenagens ?
«Não ha [alvez cousa rnais grande na terra, diz elle, que sacriÍicar
uma delicada virgem a belleza, a mocidade, o nascimento, para ir nos
hospitaes prestar soccorro e lenitivo a esse montão de toclas as miserias
(1) Bergier, t. X.
(2) ItÍelio! citado por Chateaubriand, t. Iy, p. I23.
(3) Chateanbr, t. IV, p. 723.

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DE P!:RSBVEHANÇÀ. t t3

huntanas, cuja vista e tÍo huiniliante ao orgulhg do homem, c tão repu-


gnante á nossa clelicacleza. 0s povos separados da Communhão romana

idacle fle oiterrta anngs, sobreyeio-lhe uma febre, que 0 acabott de todo'
Quando sentia approxiruar-se o accessg, dizia com amavel
resignação :
u0.0, pois, minúa irmã febre, sejas bem vinda, que vens da parte de
Deus. »E esta irmã, que tanto Se demorava com elle, não o impeclia
comtu6o cle Se levantar toilos os dias pelas quatro horas da manhã, e
entregar-se a todos cs seus exercicios de piedade e caridade. Urna santa
morte cgr6ou emfim aquella virla consumida em boas gbras, a 27 de Se-
tembro de ,1660. Fgi de toflos amargamente chorado, e oS mesm6s im-
pios nflo teem potliclo deixar de render ltomettagem a suas virtudes (2).

oRaÇÃo.
0'meu Deus ! que sois todo amor, eu \;0S dou graças por haverdes
suscitado tantos missionarios, que annunoiaram o Evangelho a todos os
povos da terra; permitti, Senhor, que por nossas acções verdadeiramente
christãs, mereçamos que entre nós se conserve a YOSSa santa fe.
Bu protesto amar a Deus sobre todas as cousás,, e a0 proximo,
como a mim mesmo, Ir0r amor de Deus ; e, em testemunho d'eSte am6r,
aceitarei com, resignaçd,o as enfermidades que me enuiardes.

(1) Imper.feitctntente i,mitaram! Nunca a imitaram bem nem mal. Aintla estó
para vêr-se a primeira religiosa hospitalaria protestante.
(2) Godscard, 19 cle Julho.

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LIÇÃo LI."

0 Chrislianismo conservado c propagado.

(xvn. srcur.o).

À rgreja aÚacada no Japã(D : Berseguição vlolenÚa; - defen'


dida: narÚyreõ; e roinlra do ll'Ango: nov()s marÚyres; sua
alegria e admiravel congÚancia; - Íl rgreJa consotadâ,;
progressos da fé na china e america; - de novo aÚacada:
Jansenismo; - defendida: BoEsueÚ e lFenelon; - coDso-
larla: lfirapisúas; ordem de Nocsa Senlrora do Befugio : a
Vener&vel madre Isabel de Jesls; ordem da adoraqão
perpeúrf,a; congregação das irmãs da cari(Iade do Nevers.

Ao passo que, n0 Occidente, provava a Igreja a sua santidade pelas


exemplares virtudes de S. Yicente de Paula, sellava no Oriente a sua fe
Com o Sangue dos martyres. E' cousa em que quasi Se não tem repa-
rado, gue em todos 0s seculos tem tido a lgreja o testemunho de sangtle.
Tinha S. Francisco Xavier, quando chegou ao Japão em ll'r49, achado
aquelle reino sepultado nas mais espêssas trevas da idolatria. Este ho-
mem apostolico, porém, que Deus Suscitára por sua misericordia, prégou
alli o Evangelho com tão bom resultado, que provincias inteiras se con-
verteram á fe. 0 fructo de suas prégaçoes foi tão duradouro como tinha
sido maravilltoso. Em {582 enviaiam os reis d'Àrima, Bongo e Omura
uma solemne embaixada ao Papa Gregorio XIII; e cinco annos depois,
já'no Japão subia 0 numero de christãos a duzentos mil, entre os quass
havia principes, reis e bonzos, ou sacerdotes do paiz. Desgraçadamente
em 1588 suspenderam-se estes progressos, que de dia para tlia se espe-
raya que augmentassem, pOr occasião cto quc vamOs reÍerir.
t0

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1\6 cÀrgcrsrro

I 0 imperador Catnbacundono, cuja sacrilega soberba o levou a0 ex-


cesso de pretender honras divinas, ordenou a todos os missionarios je-
t suitas, que no espaço de seis mezes sahissem dos seus estaclos. Àpesar
cl'esta ordem, muitos Íicaram no Japão ; mas andavam clisfarçarJos para
mais livremente poderem exercer as sagradas frmcções do seu ministerio.
Em { 592, tomando a perseguição novo calor, grande numero cle japonezes
convertidos receberam a corôa do martyrio. O imperador Taicosama,
principe tão corrupto como soberbo, qus accendeu ainda mais a perse-
guiçã0, mandou cruciÍicar nove missionarios, jun[os com muitos outros
japonezes em certo monte visinho cla cidacle cle Nãgazaqui. Iam entre
estes'martyres tres meninos que costumavam ajudar á missa. Contavam
os dous mais velhos apenas quinze annos, e o mais novo tloze. Sua tenra
idade não obstou que soffressem as torturas não só com valor, mas ate
com alegria. Todos os mais missionarios foram obrigados a embarcar e
sahir do Japão, para não continuarem a pregar a Religião Christã; Íi-
cando apenas vinte em todo o imperio, que pocleram escapar disfarçados.
Morto Taicosama, reappareceram os missionarios, e apesar de não
excederem o numero cle cem, cónverterarn em ,1593 quarenta rnil almas,
e mais de trinta mil no anno seguinte ; e ediÍica.ram cincoenta lgrejas,
onde se reuniam os Íieis. Todavia a paz, que tão maravilhosamente fa-
cilitára 0s progressos do Evangelho, foi perturbada em {602 por cubo
sama. Este principe renovou 0s editos precedentemente promulgados
contra os christãos. Em { 61,4 a perseguição se tornou horrivel, e durou
por largos annos. Viran-se então renovados os bellos exemplos de pie-
dade, caridade e valor, de que faz menção a historia da primi[iva Igreja.
Citaremos alguns d'elles.
Tinha o rei de Tango uma esposa muito moça, continuamente en-
cerrada em seu palacio, onde vivia em grande innocencia. Apesar d'ella
ser idolatra, fallava-lhe o rei muitas vezes na Religião Qhristã, que exci-
tava a admiração dos mesmos gue a não professavam. Â princeza, do-
tada cl'uma alma excellente, retinha na mente tudo o que se lhe dizia, e
como seus costumes não punham obstaculo ás impressões da graÇa, sen-
tia-se muito inclinada a uma religião tão conforme a seus gostos e pro-
pensões. Como não esperaya obter o consentimento do rei, precisou cle

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DE PERSE\ERÀI(çÀ. l\7
tratar O negOCio da SUaconYersão com o maior segredo, e oCcultar as
acções a uma infinidarle de guardas, que continua e attentamente a ob-
serYavam.
Felizmente vivia tambem no palacio uma princeza da casa real, igual'
mente dotacla de virtuosas inclinações, e a cortformidade de sentimen[os
as unia muito mais que os laços da aflinidade. Tinha esta princeza a li-
berdade de entrar e sahir do palacio quando queria ; e a esposa do rei,
que não guardava segredos com ella, abriu com esta arniga Íiel a sua
alma, p lhe r0g0u que communicasse 0s seus desejos e diflicutdades a
um missionario. À princeza, que não deseja.va com menos ardor profes-
sâr o christianismo, não se limitou a ser rnedianeira cla oufta, mas soli-
citou ella mesmo o baptismo, e o recebeu com o nome de l[aria. À graça
do Sacramento a transformou logo em apostolo, Todas as damas e don-
zellas de palacio, a quem deu parte da sua boa fortuna, foram umas após
outras procurar o missionario, e todas se fizeram christãs. Um gentil-ho-
rnem, que as acompanhava, seguiu tambem o seu exemplo.
Estava, pois, a ráinha inconsolavel e afÍIicta, por se vêr sÓ escrava
do demorio no meio cl'uma cÔrte, a quem ella mesrna tinha procurado a
santa liberdarJe dos filhos cle Deus. Então a princeza Maria foi novamente
ter-se com 0 missionario; aprendeu com totlo o cuidado a maneira de
conferir o baptismo, o tornando ao palacio, baptisou a rainha, a quem
pôz o nome de Graça, niome por certO, que nunca ninguem tornou Com
mais justo titulo.
Tudo isto se passava, estando o rei ausente. Quando este voltou,
mostrou-se extremamente irritado. e declarou imperiosamente à rainha,
bem como a toda a côrte, que cumpria abjurar immediatamente uma re-
ligião odiosa ao imperador, e capaz ate cle o perder. Sendo inuteis suas
ameaÇas e admoestações, recorreu a todo o genero de rnáos tratamentos.
Não poupou elle a rainha, mais que aos outros ; antes 0 seu resentlmenlo
Crescia na proporção do extremoso amor com que a amala. Ella, porém,
não opponclo ao despeito e furor do rei scnão mansiCão e paciencia ina[-
teravel, mostrava comtudo que a sua constancia seria invencivel. Tendo
adoecido gravemente um fllho do rei, pediu ella á princeza llaria, que o
haptisasse; e apenas ellc recebeu o baptismo ficott perfuitamente são. Ao

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148 carpçrsilo

vêr o prodigio, cahiram as armas da mão a0 rei, que t0m0u o partido de


dissimular, e não aflligir mais a quem não podia deixar tle amar e respeitar.
Yendo-se a rainha com mais alguma liberdade, aproveitou-se d'ella
unicamente p_ara se dedicar a todas as boas obras clue a sua situação lhe
permi[tia, e dar exemplo de todas as virtudes christãs. Longe d'idolatrar
a sua formosura, parecia lratar de lhe obscurecer o brilho por meio de
todas as austeridades da penitencia. Aprendeu esmeradamente o latim
e o portugüez, não tanto para adquirir sciencia, como para poder entre-
gar-se a leituras espirituaes. 0 seu maior gosto era recolher 0s orphãos
c meninos pobres, servil-os e cuidar pessoalmente d'elles, instruil-os nos
elementos da Religiã0, e tornal-os solidamente Christãos.
Havia doze annos que assim vivia a santa princeza, quando sobre-
veio no Japão uma revolta, na qual foi victima do ciume de seu marido.
Não é que elle suspeitasse jámais da sua fidelidade, mas temendo que
viesse a ser objecto d'estranhos amores, a mandou para Osaca, praça bem
fortiÍicada e capaz de resistir aos assaltos do inimigo, r'ecommendando ao
seu mordOm0, que se chegasse a ser üomada, matassse a rainha e posesse
fogo a0 palacio. osaca foi com eÍIeito tomada, 0 o mordomg intimado
para entregar a rainha nas mãos do vencedor.
Cheio de veneração para com a soberana, buscou este oÍIiciâI, rnas
em vã0, todos 0s meios de a salvar. Então foi ter com ella, e, com a
desesperação pintada no semblante, prostrado a seus pés e humedecen-
do-os de lagrimas, lhe declarou a barbara ordem que tinha recebido. uMor-
reremos ambos n'esta hora, accrescentou elle, e é toda a minha consolação
não sobreviver a uma princeza, cuja morte fazia da minha vida o mais
insupportavel tormento.» Ouviu a rainha estas palavras como se se
não entendessem com ella, e só respondeu: «Bem sabes que sou christã,
e os christãos não se aterram com a morte. Quanto a ti, pensa bem no
que vaes ser por toda a eternidade.»
Ditas estas palavras, entrou no seu oratorio, e prostrada diante da
imagem d'aquelle Deus que morreu por nós, Ihe offereceu o sacriÍicio da
sua vida. Mandou logo chamar as suas damas d'honra, que todas eram chris-
tãs, abraçou-as ternamente, e lhes representou que visto não estavam con-
demnadas a morrer, a lei de Deus as obrigava a retirar-se, antes que se

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DE PERSEVERANOA. t49
incendiasse o palacio. Todas romperam em lagrimas e lamentaveis pran-
tos ; e a rainha só tão tranquilla c0m0 se se tratasse d'algum negocio in-
differente, voltou ao seu oratorio, e chamanclo o mordomo lhe disse que
podia cumprir as ordens de que estava encarregado. Este se lançou de
n0\/0 a scus pes, e lhe r0g0rr que Ihe perdoasse aquella morte. Então a
rainha se pôz de joelhos, despregou ella mesma a gola clo vestido, e pro.
nunciando os Santissimos nomes de Jesus e }Iaria, recebeu o golpe que
lhe decepou a cabeça, mostrando por sua Íirmeza que a força christã tor-
nára sua alma d'alguma sorte independente dos laços do corpo, da fra-
gilidade do sexo, e de todas as fraquezas naturaes.
A perseguição não serviu todavia senã.o de mostrar quanto a fé se
achava profundamente arreigada no espirito e coraçã0, dos japonezes.
Tendo o imperador ordenado clue pe tomassem a rol [odos os christãos
que frequentavam as Igrejas cl'Osaca e Meaco,'logo nas provincias correu
voz de que iam ser mortos todos 0s que recusassem adorar os deuses
do imperio. Esta nova, que parece devia excitar o terror, fez brilhar a
fé com tal energia, e accendeu tal arclor do martyrio, que os proprios
idolatras Íicaram maravilhados.

me haveis chamado ao Christianismo, renunciassem todos a doutrina que


me ensinaram ; quando estivesse certo de que todos os christãos da Eurôpa
tinham renegado 0 v0ss0 Nome, eu vos confessaria, reconheceria e adoraria
como confesso, reconheço e adoro pelo unico, verdadeiro e Todo-pode-
roso Deus do universo, inda que isso me custasse a vida. »
ucondono, generalissimo dos exercitos, e um dos mais fervorosos

de missionario, a Íim de mais breve ser prêso. Querenclo despedir os

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lítr CÀTICISIIO

que o acompanhavam, protestaram todos que morreriam com elle. O


irmão mais m0ç0, que se achava no seio de sua familia, teve de ltrctar
com a ternura de seus parentes e com as proprias ameaças de seu pae,
que era pagão. Elie porem se mosl,rou tão Íirme, qtle perderam logo a
csperança de o vencer.
Um principe, parente do imperador, e possuidor de tres reinos, foi
juntar-se aos jesuitas, para morrer tarnbem com elles.
Outro, apenas baptisado, fez publicar em suas terras, que puniria
severarnente todos os que, sendo-lhes perguntadO se seu principe era
christã0, dissiniulassem a verdade.
Um grande, dos mais poderosos e nomeaclos por sua bravura, te-
mendo que não ousassem prentlêl-o em Sua casa, foi com sua rnulher
apresentar-se a um dos ministros da perseguição, sem outra comitiva
que um menino de dez anngs, a quem conduzia pela mão; e uma me-
nina que, por não poder inda caminhar, era levada nos braços de sua
mãe. Ainrla 0s fle mais commum condição se apresentat'am intrepidos
tliante dos oÍliciaes da justiça. Em uma palavra, nenhum queria deixar
fugir esta occasião cle sellar com seu Sangue a coússão da fe.
As nrulheres de qualidade, trabalhavam á pressa com sua§ criadas
em fazer vesticlos ricos, para honrar O dia de sua morte, a que chamavam
o dia rlo triumpho ; e se ajuntavam nas casas onde esperavam ser mais
facilmente reconhecidas. Entre as de Nleaco, houve uma' que pediu ás
outras que a levassem de rojo ao supplicio, Se a vissem recuar ou tre-
mer. Houve quem visse uma ioven distincta preparar-se minuciosamente
e com o maior sangue-frio concertar o seu vestido de fórma, que po-
désse, sem nada offender a clecencia, Íicar suspensa na Cruz em que di-
ziam que faziam morrer os christãos. 0s servos, igualmente occupados da
sua sorte, se apressavam a munir-se de suas reliquias, rosarios ou Cruci-
Íixos; e toclos geralmente, cgm ar tão paciÍico e tranquillo, que alguns
militares, que ainda conservavam os preconceitos do paiz, que tinham por
infamia soffrer violencia, vendo aquelle admiravel espectaculo, arroiavam
de si os punhaeS e cimitarras, para Se mttnirem, como as mulheres, ele
rosarios e cruzes, e se deixarem decepar c0m0 elias'
para mostrar quanto era sobrenatural o ardor do martyrio, citemos

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DB PERSTIYTIRANÇA. I5,I

exemplos de frageis mulheres e tenros meninos. Começaremos por uma


christã, chamada Thecla, que foi queimada viva, com cinco creancinhas
em torno d'ella, e outra dentro d'ella, porque estava pejaclu. cheganrlo
a0 lugar do supplicio, vestiu um vestido novo em signal cl'alegria; e
quando, sobre a fogueira, o fumo a suffocava lentamente, não fazia senão
enxugar as lagrimas d'uma menina de tres annos, que tinha nos braços,
animando-a pela esperanÇa da gloria eterna, de que ia gozar d'ahi a um
instante. Houve uma pobre, que vendeu o seu cinto para ter com que
comprar um poste, onde fosse ligada e queimada em defesa da fe. Outra
denunciou c0m0 christã uma neta sua aos perseguidores, para que tivesse
a ventura de receber a corÔa do martyrio. Outra condenrnacla a morrer,
a'pressou-se a escrever a0 marido, que estava longe, pedindo-lhc que
viesse partilhar a felicidade do seu triumpho.
a generosidade das creanças, igualava a de suas dignas mães. um
menino de nove aDnos correu ao lugar onde se degolavam os martyres,
e descobrindo elle mesrno o pescoÇo, 0 apresentou ao Íio da espada.
uma menina de oito annos, Qü0 era céga, não podendo ir só ao martyrio,
sg abraçou de tal sorte em sua mãe, que conseguiu arder com ella na
mesma fogueira. Outros dous meninos, condemnados á morte, buscaram
consolar ternamente uma sua tia que chorava, mas estas lagrirnas que
suppunham de dôr, eram d'inveja que ella tinha aos martyres.
0utro de cinco annos, despertado d'um profundo somno, para ser
Ievado ao supplicio, logo que conheceu 0 que pretendiam, pediu e vestiu
o sou vestido cle festa, e alegre foi nos braços do propri o algoz, para o
lugar da execuçã0. chegando alli, o innocente menino se põe de joelhos
perto de seu pae, que acabava de ser degolado, estende as mãosinúas, le-
vanta os olhos para o ceo, e espera o golpe. A generosidade e mansidão
tl'este cordeirinho enterneceu o algoz a ponto cle lhe cahir das mãos a
espada. Entretanto o martyr, tendo-se descoberto ate á cinta es[ava es-
perando a morte ; e vendo que o chefe dos algozes não ousava feri[-o,
se dirigiu a outro, e obteve 0 que pedia. 0 desastrado executor só ao
terceiro golpe lhe separou a cabeÇa; e ern tão doloroso supplicio não tleu
o menino o menor signal de fraqueza.
Póde julgar-se qual seria a coragem-dos missionarios, que [ão gene-

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,tü2 CÀTECISIIO

rosos sen[imentos souberam inspirar a tenros meninos e mulheres timidas I


0 mais antigo e celebre d'estes operarios evangelicos era o Padre Carlos
Spinola, Jesuita, nascido em Italia d'uma familia illustre. Foi prêso com
grande numero de christãos, e condemnado ao fogo. A sentença devia
executar-se sobre uma collina, perio de Nangasaqui, desviada uns cin-
coenta passos d'aquella em que, vinte e seis martyres, canonisados por
Urbano YIII, haviam siclo cruciÍicados vinte e cinco annos antes. Todos
se poseram a caminho para o lugar do supplicio, e numerosos corpos
de guardas foram collocados de distancia em distancia, para conter a mul-
tidão que, segundo se diz, não era de menos de trinta mil christãos, fóra
os idolatras.
Subindo á collina, os martyres que estavam para ser queimados,
foram prêsos a seus postes. O Padre Spinola, a quem primeiro ligaram,'
dirigiu algumas palavras aos christãos. Reparando depois em uma fer-
vorosa neophita, chamada Isabel Fernandes, se lembrou de que havia
quatro annos, vespera do dia em que fôra ptrêso, lhe tinha baptisado um
filho recemnascido, a quem posera 0 nome d'Ignacio, por ter nascido no
dia da festa do santo fundador da Companhia de Jesus.
O menino e a mãe lá estavam esperando o golpe mortal'; mas a
mãe estava diante, e o Santo não via o Íilhinho. Temendo, pois, Que o
houvessem occultado para o sútrahir ao supplicio, exclamou para Isabel:
«Que e feito do meu Íilho Ignacio? que lhefizestes? Eil-o aqui, respon-
deu a mãe, apertando-o nos braços. Não podia eu prival-o da unica fe-
licidade que lhe p0ss0 dar., Depois ella disse ao menino: oMeu Íilho, acolá
está o teu pae ; pede-lhe que te abençôe: » e logo o innocente, ajoelhando,
ajuntou as mãos, e pediu a benção ao sacerdo[e.
A attittrde pathetica do menino e a acção da mãe, attrahiram os ani-
mos de muitos espectadores. De repente sobreveio um ruido confuso de
gritos e gemlcios, cujas consequencias causaram temor, e por esse mo-
tivo foi apressada a execuçã0. Em um instante rolaram duas ou tres
cabeças ate aos pés do pequeno lgnacio, que se não mostrou aterrado"
.Dirigiram-se a sua mãe, e sem mudar de cÔr, a viu tambem decapitar.
Em fim, com uma intrepidez que aquella idade não póde fingir, e de que
não é naturalmente capaz, recebeu elle proprio o golpe, e voou a0 ceo"

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DIi PBR.EYERÀNCA. I53

onde, como os Santos InnOcentes, goza da sua corÔa diante do Throno


do Cordeiro.
À mãe era digna de tal filho : toda a vida d'esta virtuosa mulher
fôra uma preparação para o martyrio. Entrou no lugar do combate com
um crucifixo em uma das mãos e um roSario na outra, cantando O psal-
mo: Lauilate Dominum, omnes gentes, Nações do uniuerso, louaai, todas
ao Senhor.
Depois que estes primeiros martyres consummaram o sacrificio,
foram suas cabeças colloca das defronte dos que iam ser queimados vivos,
e então se accendeu o fogo. Era este desviado dos postes vinte e cinco
pés, e as achas dispostas de maneira, que a chamma lavrasse lentamente,
havendo mesmo o cuidado de o apagar quando se tornava muito activo.
Tal requinte de crueldade tinha por Íim incutir terror nos martyres, au-
gmentar sua agonià, a, se possivel fosse, fazêl-os apostatas. Mas não ga'
nhou o demonio mais que uma nova derrota; por gue o Padre Spinola,
conservando todo o sangue-frio, disse á assemblêa: «0 fogo que nos vai
queimando e unicamente uma sombra d'aquelle com que o verdadeiro
Deus punirá eternamente aquelles, que tiverem recusado reconhecêl-o;
ou que, depois de o ter conhecido e adorado, não houverem vivido d'um
modo conforme á santidade da sua lei.» 0 fogo se approximou por ul-
timo, e começaram os martyres a supportar vivas lavaredas, principal-
mente do lado do Padre Spinola, onde o vento sopraYa mais forte. Ao
vêl-os com 0s olhos Íitos no ceo, dir-se-hia que elles nada sentiam. Pas-
sada uma hora, estava consummado o holocausto (l).
À perseguição continuou desde a morte d'estes martyres até ao anno
de 1639, em que o imperador do Japão prclhibiu a entrada d'europeus
em seus estados. Generosos missionarios catholicos teem inda depois
penetraclo n'esta terra, outr'ora tão christã, mas parece que todos láteem
perecido. Todat,ia ainda ha christãos n0 Japão ; do que e p:"ova uma re-
cente relação de monsenhor Bruguiers, missionario na China, morto ha
dous annos, Bispo de Capse. A luz divina, repellida no Japão, corria pelo
interior da China e nas Indias, e penetrava ate os Iroquezes e Illinezes,

(1) Charlevoixt Hi.sf. dn ,fapott, t. II, l. XY, p. 275.

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'litl+ c.tuicrsrro

tt'ibus selvagens, {ü0 tlivagam pelas immensas florestas cla America Se-
ptentrional.
Entretanto, furioso o demonio de vêr a Igreja ganhar vit:torias nr
perseguição, e conquistar ao longe numerosos p0v0s, querenclo
pertur-
bar-lhe a alegria, que por isso tinha, suscitou nãva nerÀsia, cujo author
foi Jansenio, bispo d'ypres, nos paizes-baixos. Em uma obra, em que
pretendia expôr a doutrina de santo r\gostinho, a respeito cla Graça,
e
que por isso inlitulouAngustianus, estabeleceu cinco proposições
oppostas
á fé catholica. Negava, entre outras cousas, a liberdade do hom.r, ,
u
possibilidade de cumprir alguns mandamentos cla lei dd Deus. 0 pspa
Innocencio X condemnou estas proposições ; mas os discipulos cle Jan-
senio continuaram a sustental-as. Publicaram multidão cl'obi.as, cujo mais
pernicioso eÍIeito foi inspirar aos Íieis tão grande temor da Communhão,
pelas exageradas disposições que queriam ser necessarias para a receber,
que p0uc0 a pouco iam abandonando os sacramentos. 0s principaes
jansenistas foram Arnaldo, Nicole, Saint-c;,1sn,
Quesnell, etc. Éo.um so_
Iidamente-refutados, e bem assim os protestantes, por dous Bispos, gloria
da França, Bossuet, Bispo de llleaux, e Fenelon, Arcebispo de cambraia.
0 grande numero de desorclens, consequencia necessaria clas inter-
minaveis heresias, demandava nova expiaçã0. Álem d'isso, para obter os
louros aos doutores que combatiam os hereges, o zêlo aos missionarios
que annunciavam ás nações o Nome do senhor; a coragem aos martyres,
que o confessavam diante dos tyrannos ; eram precisos novos Moyses, que
ol'assem noute e dia sobre a santa montanha. Nunca tão bella harmonia
se mostrou mais visivel do que n'este momento. Numero prodigioso cle
congregações contemplativas se entregaram com fervor á penitencia e
oraçã0. A mais celebre foi incontestavelmente a da Trappa; vejamos a
sua lristoria.
Yivia em Paris, no seculo decimo septimo, um moço ecclesiastico
de familia mui antiga e nobre; o qual, dotado das mais bellas qualiclades,
conseguiu conciliar a estima de todos. Desgraçadamente o mundo gue o
estimava tambem era d'elle estimado, vivendo em dissipação e fausto, que
insensivelmente o desviaram do espirito sacerdotal. Chamava-se Armando
de Rancri, e tinha nascido em paris em {626. Deus, que punha n'elle

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DE PENSIITERANÇA. I i;li

giosos, encarregados da mesma recepçã0. Estes apenas chegam, pros-


tram-se' tambem diante dos hospedes, conduzdm-nos ao altar do Santis-
simo Sacramento ; e passados alguns instantes d'oraçã0, os tornam a levar
para a sala, oncle um cl'elles lhes lê alguns periodos da Imitaçdo de
Christo.
0s hospetles são depois entregues a outro religioso, incumbido de
cuidar rl'elles, e que por isso se chama irmã,0 hospitaleiro- Este os leva
á hospeclaria, refaz suas forças, servindo-os do melhor que tem, e alegre-
mente lhes presta todos os serviços que d'elle dependem. Abrahão e 0s
patriarchas, esses modêlos tla antiga hospitalidade, não mostraram maior
desvelo em receber e servir seus hospedes. Quando algum religioso está
para professar, escreve á sua familia, fazendo renuncia de todos os seus
bens; não se lembrando mais do mundo senão para pedir por elle. Tanto
que o Abbatle tem noticia de ter morrido um pqrente d'algum religioso,
recommenda a sua atma ás orações da Communidade, mas sem declarar
quem e; clizendo sÓ em geral, que mgrreu o pao ou a mãe d'um dos
irmãos. Nenhum d'estes religioSos levanta os olhos, nem vê jámais os
estrangeiros; guardam perpetuo silencio, e aponas fallam ao superior.
Quando se reunem para o trabalho, ou outra occupaçã0, só por signaes
communicam os seus Pen samentos.
0s Trappistas trabalham como oram, isto é, corn a gravidade qtte

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,156 cÀTncrsilo

convem a uma obra santa. De quanclo em quanclo bate um fl'elles tres


vezes com as mãos, advertind0-os para que elevem 0 coração
a Deus ; e
logo os religiosos, dado aquelle signal, Íicam c0m0 rochedos immoveis
no lugar em que estavam, entregues á meditaçã0. Ao vêr estes frades
de braços cruzados sobre o peito, a cabeça um p0uc0 inclinada, e os
olhos Íitos na terra, ao vêl-os de pe sobre pedras disf ersas, tomal-os-hieis

repousa na contemplação da eterna belleza, que deve ser sua recgmpensa


e herança.
0 Papa Innocencio III chamava ao mosteiro de S. Bernardo a ma,ro,-
oilha do mundo; o mesmo se poderia dizer da Trappa. A vida de seus ha-
bitadores é verdadeiramente angelica. Não ha mais ediÍicante espectaculo,
que o contínuo recolhimento d'estes religiosos no trabalho, noiefeitorio,
e sobretudo na lgreja. Nos dias de jejum consiste o seu jantar em um pouco
de pão de rala, com hervas cosidas e temperaclas com sal. À collação e
de duas onças de pão sêcco; dormem inteiramente vestidos, e uma as-
pera enxerga, lançada sobre uma barra de taboas, lhes serve de leito. Le-
vantam-se sempre á meia noute, para rezer o oÍlicio; e occupam muitas
horas em trabalhos mecanicos, que consistem principalmente em cavar a
terra.
Mas quo espectaculo o do Trappista moribundo t que lição d,alta
philosophia I t
que aviso aos homens Estendido sobre umas palhas es-
pargidas de cinza, no sanctuario da Igreja, cercado de seus irmãos col-
locados por ordem e silenciosos, elle os exhorta á rirtucle, ao mesmo
tempo que a campa funebre annuncia seu ultimo combate. São ordina-
riamente os vivos que persuadem o enfermo a deixar corajosamente a
vida; mas aqui proced$se d'outro modo bem mais súrime. E' o mori-
bundo quem ás portas da eternidade, falla da morte. Elle melhor a deve
conhecer que os outros. A sua voz, que já repercute pelas sepulturas,
chama com auctoridade seus companheiros, e os mesmos superiores á
penitencia. Quem não tremeria ao vêr este religioso, que viveu vida tão

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t67
DE Pl:RsEvERÀNÇÀ.

tla sua salvaçã0, ao approximar-se do terrivel pas-


Sarr[a, tluvitlar ainda
samento (l) I
na agonia, e levaclo á Igreja, onde recebe
Quando o religioso entra
estado ordinariamente por-
os sacramentos oeltacto sobre cinza, e n'este
irmãos não o abandonam nunca' Lá
manece ate rencler o espirito. seus
orações ate o momento de ser
Íicam alguns juntos clo esquife, recitando
funebres, acompanham o defuncto ao
daclo á terra. Terminatlo, ót oÍlicios
0 ceo em favor de seu
cemiterio. Depois de longas orações, exorando
irmão, os TraPPistas se s Por terra'
,--ri* sottam
prostradôs, brado de gr
Dignaí-aos, Senhor, ttsar
m o Pobre P

tado o cadaver, abre-se logo para o p que fallecer


vezes se vê o religioso
que e saudada pelos Oeú;os óOot. Muitas
á, joelhos a norcla cl'aqueila d olhando'a com prazer'
e dizendo comsigo : -- }rald'
Este desejã que tem da mor[ as não se deve attribuir
E' o do exilatlo que suspira
ao desgosto da niO. e do estado. anhelo
de seu querido pae, e m.rre p.r
peta pãtriu, do filho que tem saudacle
de pá0, collocada sobre
se lançar em seus biaços. Uma simples cruz
um d'esses ho-
a sepultura, mostra ao viandante o lugar oncle repousa
gue veio talvez sepultar na obscu-
mens, de que o mundo não é tligno;
do nascimento e da for-
ritlade tl'um claustro o esplendor dos talontos,
elle soubesse' ou antes
tuna. Grande e util exemplo para o mundo, se

demonstra não menos energicamente


.
Às heresias e os scismas geram
mas fazer vol[ar ao caminho do dever
suas desgraçqdas victimas. Deus, em seus
inÍinitos thesouros, acha meio
a seus divinos olhos, res-
de sarvar o homem culpado, e de'o rehabilitar

(1) Genio do Christianismo, t' III, pag' 240' Pontifice; e é


(2) A reforma da Trappa acaba a"-tti' appro,ada pelo Summo
tlOs Trappistas é
mot consolaçâo e csperanga pâra o futuro, que o nttmero
ivo rle
hoje mais consideravel tl'o qtte ntlnca'

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{ 58 CÀTricrsuo

tituindo-o á virtude. Tal foi o Íim de grande numero d'instituições reli-


giosas, estabelecidas de seculo em seculo, e particularmente a orrlem de
Âbssa Senhora do Refugio.
Fundada para asylo de mulheres conversas, tem a ordem tle Nossa
Senlrora do Rufugio a terna particularidade de receber tambem meninas
honastas, e até nobres, que se não devem nem costumam confundir em ou-
tras quaesquer corporações com as mulheres arrepencidas. Estas pec-
cadoras são admittidas a professar, se mostram vocação e disposições con-
vcnientes. Não obstante serem as irmãs de honesta rida sempre as esco-
lhidas para exercer as dignidades e oflicios cla orclem, comtudo confun-
tlem-se na mesma sociedade com as irmãs conversas, teem todas um
mesmo espirito e um mesmo coraçã0, e são inteiramente conformes no
vestido e no motlo de viver. Para que e confundil-as assim com as cul-
padas ? De que serve este sacriÍicio tão custoso a0 amor proprio ? E'
para mais faci hnente encaminhar para Deus as pobres peccadoras.
Ainda não pára aqui a caridade catholica. .Querendo, pelo exemplo
fortiÍical'as na penitencia, fazem as irmãs um voto particular de tratar com
todo o esmero as arrependidas, e não consentir jrimais gue o numero
d'ellas, que deve ser as duas terças partes da communidade, se diminua
por nenhum motivo. «B' tanto mais para admirar, diz o paclre Helyot,
a caridade d'estas santas virgens, por isso que nos fazem lembrar com
saudade o divino amor de Jesu-Christo, que tomou a fórma tle peccador,
para livrar-nos da servidão do peccaclo (l).»
Em outras congregações estabelecidas para o mesmo, Íim servia-se a
caridade dos mais ternos e misericordiosos nomes, para encobrir os erros
passados d'estas peccadoras. Chamavam-lhes irntds do Bont, pastor, oa
da Magdalenúr, para designar sua conversão, e o perdão que as esperava.
Em tudo tratavam de lhes suscitar icléas de pureza, 0 por-isso traziam
habitos brancos, pelo que tambem se denominavam as brancas. Em al-
gumas communitlades, ao recebê[-as, punham-lhe na cabeça corôa e can-
tavam aquellas palavras :
Yeni, sponsa chrísti, vem esposa de Christo.

(1) Eu devêra fallar no pcr,ssaclo e nâo no pruentc: ah ! esta ordem, assinr


eomo outra; nuitas, já nâo er.iste.

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159
DE PERSEIDRANÇA'
d'uma Religião' que
Eram bem tocantes estes contrastes, e bem dignos
do coração humano'
sabe favorecer sem offender, e perrloar as fraquezas
dar-se melhor a enten-
arrancanclo-o inteiramente a setls vicios (l)' Pode
e irmão da inno-
der a estas pobres peccadoras, que 0 arrependimento
cencia ?
teve origem em Nancy'
Àcongregação de Nossa senhora tlo Refugio
Nlaria Isabel
no anno de 1,62|., e tem por funcladora a veneravel Madre
da cruz de lesus, nascida de paes nobres em Remiremont, na LOrêna'
-Destle
a 30 de Novembro de ,tõ92. a infancia se distinguiu Isabel por
extraordinario amor ús austerirlades, e inda muito joven trazia citicio
lhe transtorna-
tres vezes na semana. Àinda que as eomiclas grosseiras
o paladar'
vam o estomagO, não comia outras; e de tal sorte mtlrtiÍicou
Então sua mãe a
que o perdeu. Tantas penitencias a fizeram doente.
ella mesma a deitava todas as
c6meÇ6u a tratar com ãobrado desvelo;
a pequena Isabel er-
-d;lhe fazia a cama; mas quando se retirava,crrão. Assim castigava
noutes e
õffi bil preparado reiro õ ia deitar-se no
preludiava a sua futurr vo-
este anjo d'expiação sua innocente carne, e
cação'
nnirnai annos querla fazw d'glla uma
nc primeiros
Ánorln os
Deus, que destle
verda-
perseguissem' Dotada das
deira cÍü2, permittiu aincla que a§ creaturas a
excellentes quaiitlades que podem con0orrer
em uma menina' ella
mais
de seus paes. por não querer
comtudo se tornou objecto d'õdio e aversão
por lhe
0 estado clo rnatrimorio, que lhe queriam clar. começou a mãe perniciosos
mais
tirar os livros cle devoçã0, dantlo-lhe em lugar d elles
os
seu confessor' Assim se via
romances, e orde,nando-lhe Que deixasse o
santificação' Não
a santa donzella privacla dos mais potlerosos meios de
que realçassem sua belleza na-
pára aqui. Foi o-brigatla a tomar enfeites,
mundanas' trÍas a pie-
tural, e assim atavúda a levavam ás assemblêas aos
oppondo unicamente
dosa virgem não cessava ds recorrer a Deus,
de Sacramentos'
náos exómplos a oraçã0, a mortiÍicação e frequoncia
tlmou a degenerada mãe o partido de
Yendo que nada aproveitava,

(1) Chatcaubrianc'l, t' IV, P' 11ó'

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I tio clTlrcrs,rro

a opprimir com injurias_sem que a innocente


ovelha soltasse uma queixa
contra tantos vexames. certa occasião espancou-a
com tanta ira e excesso
que a propria offensora adoeceu e esteve
dous mezes de oama; sem gue
Íodavia a molestia a cOnt'ertesse. Apenas
se restabeleceu, mandou vestir
de farrapos a Isabel, e n'este estadô a levou ella
mesma pelas mais con-
corridas ruas da cidacre; e, para rhe causar
maior uurgonhr, aetinna-se
c,m as pess,as conhecidas que encontrava, e rhes
diziiqou ,ro filha es-
tava louca. Dava-se, porém, á paciencia Isabel
por muito feriz, em ser,
por amor de seu Deus, exposta aos despreros
dos homens.
Resolveram seus paes emfim casal-a, apesar
da sua resitencia. con_
trataram occultamente este consorcio, 0 â ,*r*çr.r*
crepois, que
lhe ti-
rariam a vida, se não consentisse; mas poderam
arrancar-lhe o consen_
timento. Opprimida de máos tratos adoàceu,
mas isto não impediu que
se fizesse todos os preparativos para as nupcias.
No dia ,prnruào Íizeram
erguer do leito a pobre menina, que apenas poclia
ter-se ., po, e con.
duzindo-a á Igreja, por este modo a casaram.' s
Queria Deus mostrar n'ella em trrdos os estados um perfeito
modêlo
da cruz. Primeiramente sàus paes rhe tinham ravado
no coração esta
crüz' mas depois seu marido lh'a imprirniu muito
mais no intimo. Feroz
e brutal, parecia este homem excogitãr meios de lhe
augmentar os soÍIri-
mentos. Desprezou-a, tirou-lhe o governo cla casa, e passando
a maiores
violencias, chegou a espancal-a cruermente.
um dia, àxtremamente frio,
estando ambos n0 campo, e indo de jornada,
offereceu-se:ihes atravessar
um ribeiro, que_ corria cmpolado das torrentes. O cruel
marido c,mo
fosse bem montarlo, nada tinha a receiar;
mas sua esp,sa, que cavalgava
em um pequeno potro, expunha-se a evidente perigo. Elle
porem quiz
que o passasse, e Isabel obedeceu. Não podendo
com effeito resistir á
torrente, foi a pobre senhora levada po, ella a grande
distancia, sem que
o desapiedado marido se clesse ao trabalho de a soccorrer, e infallivel-
mente pereceria se alguns camponezes a não tirassem
da agua.
Longe, porém, cle se queixar, nunca mulher [ernamente
amante cle
seu marido foi mais assidua em o acompanhar e
servir. Isabel o tratava
c0m0 a mais humilde serva. Deus pôz termo em Íim
a tantos soffrimentos.
Morreram seus paes e marido ; e como en[ão Íicasse rivre,
eila se reúirou

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DE PERSEVTIRANÇA. 10',1

a Nancy, onde fundou a Ordem de Nossa Senhora. Falleceu Isabel san-


tamente no anno de 1649 (l).
Consolar o proximo em suas miserias corporaes, e sanar os estragos
que 0 vicio produziu em suas almas, não e o meio unico de o beneÍiciar;
podemos talvez ser-lhe inda mais uteis tornando-lhe, propicia a Divindade
por meio dc fervorosas preces que desarmem sua justiça, previnam seus
castigos, e attraiam suas bençãos.
Esta consideração nos dá a conhecer a importancia das ordens reli-
giosas, consagradas á expiaçã0. Talvez porem a mais util de todas seja
a adoraçao perpetua, instituida para reparar os ultrages fel?'os a Nosso
Senhor Jesu-Christo n0 Santissimo Sacramento. Sendo certo, como e,"
que em nenhuma parte se mostra Deus mais amavel do que n'este mys-
Íerio, forçosamente concluiremos, que os ultrages feitos ao adoravel Sa-
cramento da Eucharistia, são os mais graves que se podem fazer aDeus;
os mais proprios, por consequencia, para accender sua ira, e attrabir so-
bre o mundo horriveis castigos. Este genero d'ultrages pedia por [anto
reparação publica, solemne e contÍnua. Verdade é que para este mesmo
Íim foram estabeleciclas as procissões do Corpo de Deus ; mas, essas mes-
mas, pela malicia dos homens, se teem tornado occasião de novos aggra-
vos. Restava pois outro meio de reparaçã0, uma ordem religiosa; e a
providencia, tlue receia ser obrigada a punir, inspirou o pensamento da
erecção d'esta ordem, e para logo appareceu a ordem do Santissimo Sa-
cramento.
Teve ella principio em Marselha em {634, e foi seu fundaclor o
Padre Antonio Le Quien, religioso de S. Domingos. Tem por Íim esta
ordem reparar os ultrages e irreverencias, que os hereges e a maior
parte dos christãos commettem parà com a adoravel Eircharistia; e obter,
por meio de contÍnuas e fervorosas orações, que Nosso Senhor, encerrado
nos Tabernaculos, seja conhecido de todo o mundo. Às religiosas d'esta
ordem, consagradas ao claustro, guardam exactissimo silencio. Raras l,ezes
vão ao locutorio, e só fallam a seus parentes duas vezes no anno. Bs[ão

(D Eelyot, t. IV, p. 344; e M. Boudon, o Triumpho cla Cruz ott uitla clcc ue-
net'auel, Mo,cl,rc Isctbcl de Jesus.
t,l

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t62 CÂTECISIIO

em continua adoração de noute e de. dia, revezando-se de duas em duas


horas. 0 seu mesmo vestido.lhes suscita a idéa da sua vocação. Trajam
habito preto, tendo sobre o coraçã0, bordado a sêda, um ostensorio ou
custodia de côr d'ouro, e outra sobre o braço direito; o que parece lhes
está sempre dizendo, que todos seus affectos e acções devem ter por fim
honrar o Santissimo Sacramento.
Reprimido continuamente o (I) demonio, nem por isso descançava
ou se dava por vencido. Ao contrario, pelo começo do decimo oitavo se-
culo renovou guerra mais geral e encarniçada. A infancia, tão querida
de Nosso Senhor, a esperançosa infancia, senhora do porvir, ia ser para
os impios objecto de conquista. Contavam elles com o mundo, logo que
dominassem as gerações nascentes. Para repellir este novo ataque, e con-
servar pelo menos certo numero de eleitos, Qü0, no meio da geral lpos-
tasia, não clobrassem o joelho deante de Baal, accrescentou Nosso Senhor
ás numerosas congregações já dedicadas á instrucção, um novo e pode-
roso auxiliar: fallo da congregaçd,o das irntd,s da caridade e instrucçdo
christa de lleaers.
Fundada em 1683, na pequena cidade de Saint-Saulge, pelo reve-
rendo Lavenne, Padre Benedictino, c0m0 todas as grandes instituições,
foi a pouco e pouco tomando incremento, e conservando vigilante o fogo
sagrado, que seu piedoso fundador parece que tomou do coração de S.
Yicente de" Paula. D'est'arte pÔde ella sobreviver á grande catastrophe
da revolução franceza, e desenvolver-se por tal modo, apesar da difÍicul-
tlade das circumstancias, que conta hoje para cima de duas mil religiosas.
Seu zê10, crescendo em proporção das necessidades da Igreja e da socie-
dade, abrange presentemente os mais variados serviços. E' do seu ins-
tiluto visitar e assistir aos pobres e enfermos em seus domicilios, ou nos
hospitaes e casas d'asylo; edncar e instruir os Íilhos do povo, bem'como
meninas distinctas, orphãs, e arrependidas ; emfim tratar dos alienados.
Supposto que estas religiosa§ só façam votos temporarios, não são por
isso menos Íieis a suas promessas, nem menos assiduas em suas numero'
sas occupações.

(1) Holyot, t. IV, p. 424.

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DE PERSEYENANÇÀ. .,, 163

oRAÇÃo.
0' meu Deus t que sois todo amor, eu YoS dou graças por haverdes
multiplicado os meios de conservar oS justos'na virtude, e trazer o§ pec-
cadores á peniténcia; permitti, Senhor, que assim os justos como 0s pec-
cadores, nos aproveitemos de tanta bondade, 0u para perseverarmos na
graça ou operarmos a nossa conversã0.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao proximo como
a mim mesmo por amor de Deus; e, em testemunho d'este amot, aisi-
tarei, todos os dias o Santissimo Sawamento.

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t

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LII." LIÇÃO.

0 Christianismo conservado e propug.,lo.

(rvnr. snculo.)

A fgreJa aÚacada : plriloSoplria, ianseni§mo1 - defendido: ab'


borle rle La SaIIe r' irmõos das egcólas. clrrisÚãs I §anÚo
aífonso uaria de Llguorio I congregacão do sagrado Re-
dempúor.
- a lgreja eotrsolada: conversão dos principes
rta familio imperial da Clrina; conversão dos illine,ues.

No decimo sexto seculo, Luthero e os outros pretendidos reforma-


dores, disseram ao povo: Nenhuma auctoridade religiosa [em direito de
vos impôr dogmas. Tomai a Biblia, lêde-a e crêde o que vos paiecer
verdadeiro; isto e, crêde o que quizerdes. Este fatal principio foi muito
bem cornprehendido. Bstareis lembrados riue os discipulos de Luthero e
Calvino, sobre a pretendida auctoridade da Biblia, sustentavam todos os
erros e justificavam todos os excessos. Não tardou, pois, que a impie-
dade passasse a mais. Feridos de cegueira, poseram a Biblia de parte,
e, para formar SuaS crenças e costumes, só conSultaram a vOntade do seu
coração corrup[0. Cada um era o deus de si; c quanto lisonjeava as pai-
xões, sua unica verdade. EsÍa impiedade, Sem vergonha nem freio, não
0us0u mostrar-se em França duran[e o reinado de Luiz XIV; mas tanto
que este principe desceu ao tumulo, a philosophia, heclionda Íilha do
protestantismo, levantou o collo e tirou a mascara. Durante a regencia
do duque d'OrleÍes, ostentou ella uma depravação, de qup só a lem-
brança faz ainda e fará eternamente córar de vergonha todas as almas
honestas. Totlavia ainrla então resel'vayr ella os seus ignobeis mysterios

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,l6c cÀrEcrsnÍo

para as altas classes da sociedatle. Faltava-llre pois suffocar os ultimos


rem0rsos na alma dos adeptos, e fazer chegar 0 veneno ao p0v0.
0s philosophos metteram mãos á obra ; e eis chove. por iocla a parte,
não direi um chuveiro, mas um diluvio tle folhetos impios e obscenos.
Ficou a França alagada d'elles, e por elles perverticla e gungrenada até
ámago. Desde logo por toda a parte se manifestou fermentação surda,
-ao
e
indisposição geral, sy*ptoro, temivel de imminente e horrivel
crise.
Adoeceu a sociedade de convulsões, ou mglhor direi, de colicas,
como o
infeliz que acaba de ser envenenado. o senhor,
Qu. castiga a seu pesar,
suscitou grandes bispos, que declarassem o perigo, e contivessem os po-
vos, já ás bordas do abysmo. para os commover e animar, revelouJhes
as maravilhas do seu amor no Mysterio tlo Seu Sarat issimo Coraçd,0, e
para cOllservar ao menos uma faisca de fé, e grayar o christianismo no
coração das gerações futuras, suscitou um homem, segundo o seu coragã0,
dos maiores na fé e na caridacle.
Era tempo que apparecesse, por que chegava o momento em que
as vergonhosas e destruidoras doutrinas da impiedacle iam descer dos
palacios dos grandes ás choupanas dos pobres. Já a casta filha do ceo,
a religião terna e bemfazeja, era ignominiosamente expulsa das classes su-
periores; agora 0 povo, servil Ímitador de seus senhores, com inaudita
Ingratidão a vai repellir tambem do seu lar domestico.
A maior parte
dos paes de familia já não fallarão d'ella mais a seus Íilhos ; procurando
que a conheçam, amem e bemdigam... Que digo? Ahtelles lhes ensi-
narão com a palavra e 0 exemplo a desprezar-a, aborrecêl-a e blasphe-
mal-a. Certo, guem dirá, que tanta ingratirião não seja capaz de esfriar
o amor, que Deus tem ás suas creaturas ? Quem ha-de crêr, que ainda
assim as não abandone, as não confuncla ? 0' misericorclia inexgotavel t
Aquelle Deus, que escolheu a vespera tla sua morte, para deixai aos ho-
mens ingratos o mais precioso penhor da sua caridade, instituinrlo o Sa-
cramento da sagrada Bucharistia, parece que tambem qtsiz, na vespera
dos sanguinosos ultrages que lhe preparavam, dar ao mundo extraordi-
naria prova da sua paternal bondade.
Era de mister salvar a infancia, supprir nas gerações vinrlouras a
insufÍiciencia ou má vontade dos paes de familia. Abre Deus os inex-

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Dr: PERSEVERÀNÇA.
t67

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| 68 carncrsuo ç

Çã0, e 1á se apresentou o mesmo La sallc. Blle abriu as escólas, e


fundou um noviciado. A sua ordem prosperava, . apesar
das contra-
dições, pobreza e desprêso cros homeni. o santo fundador
deu aos ir-
mãos estatutos cheios de sabetloria, tanto para sua particular
regra, cgmo
para a dos meninos. Estes estatutos, que inda hojã
vigo.r*, ,ão inÍini-
tamcnte superiores a quantos planos os homens clo
mundo teem idepclo,
para â educação da mocidade.
0 abbade de La Salle soffria havia muitos annos violentas dôres rheu-
maticas, e muitas vezes suspirava pela hora do
seu livramento. 0 Senhor
ottviu emÍim suas ardentes preces. Tendo recebido os ultimos
Sacra-
mentos, cOm angerica piedade, dirigia aos irrnãos, reunidos
em torno do
seu leito, estas palavras, que para todos os christãos são
memora.r,eis :
«se quereis perseverar e morrer n0 vosso estado,
não tenhárr-ro^mr.,
«cio corn a gente mundana; aliás a pouco pouco
e tomareis os seus cos-
«tumes. Travando amizade com elles, por cortezia
ireis applaudindo
«0s seus ditos, por mais perniciosos que sejam,
de modo que crregareis
«a cahir na sua infidelidarte ; e não sendo vós
fieis observantes da vossa
uregra, desgostar-vos-heis do vosso estatlo,
e acabareis pcrr abandonal-0.»
Aqui lhe sobreveio um su.r frio, e Íicou calatro. Entrando
nom-
mente em agonia, pronunciou ainda estas palavras: «sim
eu adoro em
tudo a Providencia de Deus a meu respeito., Àrgumas horas
clepois, le-
vantando as mãos e os olhos para o ceo, rendeu o espirito
ao creador
n0 mesmo dia em que Nosso sãnhor m.rreu na crgz, pela
salvação clas
almas, a 7 d'Abril de {7,1g, tenrlo sessenta e oito rnrol
d'iclacle 1t;.
Tcem 0s irmãos das escólas uma regra, bem tliÍlicil sem ciuvida,
mas dictaila por uma sabedoria grande. Elles não poclem coDversar
por
mera recreaçã0, sem primeiro obter licença do irmão director.
Este, e
todos 0s mais preceitos cle scu santo instituto, foram approvarlos
pelo
Papa Bento xItrI em 1,725. Abcnçoou Deus ortrcrn tão util;
e elrr conta
hoje trezentos e dez estabelecimentos, com mais de dous mil
irmãos di-
vididos pela França, Ilalia e Belgica ; 0s guaes dão gratuiia
e chrisúã ec]u-
cação a mais de cento e quarenta rnil meninos.

(1) Comcçou já o processo cla sua canonisaçào.

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{69

prestr* u,,., irmãos;.JH,, ,.;;r* que nunca assás serão re-


compensados. São elles ericortlia divina, para
operar a salvação das crea nadas. Quer Deus que
tóctos os homens tenham 0ra, como alcanqa-

rã0, m6rmente n'estes infelizes [empos, oS Íithos dos pobres'esse co-


nhecimento, a não ser em escólas christãs e gratuitas, onde se lhes ensine
a veidadeira doutrina ? 2.o Supprem os irmãos o lugar dos paes e mães
d'esses meninos, quanto á educação religiosa ; por quanto os pobres, oc-
cupados c0m0 andam em grangear a subsistencia de suas familias, não
teem tempo, nem meios, nem a instrucção necessaria para ensinar seuS
Íilhos. Que excellente providencia, pois, dar aos meninos pobres e aban-
donaclos outros paes pela graç4, que suppram 0S mais importantes deve-
res, dbs que o são por natureza. 3.o São os irrnãos como apostolos e
anjos tutelares dos meninos. Que cousa mais ordinaria nas aldêas e cida-
des, clo que vêr a infancia abanclonatla e vagabunda, aprendendo quantas
malicias 0 demonio suscita, dando-se a folguedos que ferem o pudÔr e
coniluzem aos maiores crimes? Que grande necessidade não teem elles,
pois, de quem oS desvie d'estas desordens e lhes'inspire tal horror a
ellas, que de si mesmos as evitem e detestem !
Iguaes serviços prestam ás meninas as irmãs consagradas á sua edu- '

caçã0. 0 mesmo que dissemos dos irmãos, se deve dizer d'eilas.


. Ao passo que a instituição de La Salle depositava no coração da
sociedade um germen cle salvaçã0, que havia de desenvolver-se depois da
catastroptre, de que a França ia ser victima ; cumpria na Italia um San-
to bispo outra missã0, não menos preciosa. 0 Jansenismo, de que falla-
mos, histoliando o seculo antececlente, tinha-se uuir.lo á impiedade para mi-
nar o ediÍicio cla rcligião. A impiedade trabalhava á laz do clia; seu colli-
gaclo Jansenismo, na obscnridade das tJevas. Lobo ferytz disÍarçado nas pel-
les do corrieiro, forcejou por penetrar no coração da Igreja. Não deixou
pec.lra por movcr. Catecismo, ascetismo, litteraiura, sermões, livros espiri-
tuaes,
'theologia, lithurgia, gnettia-se em tudo, em tudo tocava, e quanto to-
cala polluia. 0 temor tl'escravo antepõe-se ao amor de Íilhos de Deus. A
sagrada Eucharistia, principio vital da caridade catlicrlica, e tida como obje-
cto de terror. Abandonam-se 0s Sacrarnentos, ou se faz irrisão d'elles ;

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t70 cÀTEClStto '
o verdadeiro espiritodo Christianismo extingue-se; mas lá está a provi-
dencia t
Innumeraveis diques vão oppôr-se á torrente, que ameaça inun-
dar tudo.
Dos homens que, n'es[as graves circumstancias, chamou Deus para
combater o Jansenismo, e despertar a piedacle, at[rahindo ou[ra vez os
fieis áquelle divino sacramento, que é origem d'ella, todos concordam
em dar o primeiro lugar ao santo bispo Alphonso Maria de Liguorio.
Nasceu este grande santo em Napoles, a
l7 de setembro cle 1696. ooúdo da
melhor indole, desde menino, como o joven Tobias, aprencleu a temer
a Deus. Ardentemente devoto de Nosso senhor e da santissima virgem,
humilde e obediente a seus paes, candido e modesto como os anjos, ,or-
mamente aÍfecüo aos pobres; eis as virtucles em que floresceu desde a au-
rora da vida. Fez nas sciencias tão rapiclos progressos, que aos dezeseis
annos foi por acclamação recebido c0m0 doutor na Universidade de Na-
poles.
Exerceu depois com grandes creditos a profissão d'advogado; mas
certo incidente imprevisto, que se deu em uma causa que tratava, lhe
fez comprehender Ínais vivamente gue nunca, a vaidade das cousas hu-
mánas; e determinou entrar no estado ecclesiastico. Por muito tempo se
opposeram seus paes á sua vocação; mas emfim a vontade de Deus se
manifestou tão claramente, que não pocleram deixar de consentir. Logo
que recebeu ordens sacras, não cuidou Alphonso em outra cousa que
em exercitar as sublimes virtudes do seu estado.
0s trabitantes dos campos lhe mereciam especial attençã0. Ia com
frequencia fallar-lhes de Deus ; e,.a exemplo de Nosso senhor, pregava
nas mais obscuras aldeas com admiravel fructo. E' que Liguorio juntava á
eloquencia a prática da mortiÍicaçã0, oração e pobreza.
Dentro em p0uc0 se viu o santo rodeado de sacerdotes, cheios de
zêlo pela salvação das almas, e lançou d'est'arte os fundamentos da con-
gregação do Santo Redemptor, destinada á instrucção dos pobres cam-
ponezes. Depois de infinitas diÍflculdades e contradições, que se lhe op-
poseram por pessoas de toda a qualidade, obtevo alphonso do summo
PontiÍice a approvação da sua ordem. Abençoou-a Deus, e com grande
edifir:ação da Igreja se diffundiu por toda a Europa.

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DE PERSEYERÀNÇA. l,-t L

Estabelecitla a sua congregaçã0, occupou'se o santo em compÔr obras


para bem dirigir as almas e refutar os erros, e é tal o [alento e a sciencia com
que desempenho, esta diflicil tarefa, que os mesmos Summos Pontifices
teem tleclaiado, que o piedoso auctor fôra suscitado por Deus, para pôr freio
ás más doutrinas, Qug tão rapidas se propagaram no precedente seculo. Con-
tra sua vontade foi Alphonso nomeado bispo de Santa Agatha, no reinode
Napoles, e n'esta nova posição se mostrou, c0m0 Sempre foi, benigno e vigi-
lante pae, prelado Íirme e esclarecido, director experiente, ardente missiona-
rio. Era tão affecto aos pobres que, em uma fome que flagellou o paiz,
vendeu tutto quanto tinha para 0s Soccorrer. E como estes meios logo
se esgotassem, e tornassem os pobres em tropel pedir pão a este cari-
doso pae, sahiu-lhes elle ao encontrO, e muito commovido, lhes disse:
«Nada mais tenho, meus pobres filhos; vendi tudo para vos soccorrer,
tudo; até a carruagem e os cavallos ; ja pedi dinheiro para vos acudir,
mas não m'o emprestaram.» E dizendo isto, se debulhava em torrente de
lagrimas.
Era tão ardente a caridade que tinha com os pobres, como terna e
viva a devoção que tinha com Deus, especialmente com o Santissimo Sa-
cramento: A maior prova que d'isso nos deixou, foi a sua excellente obra,
intitulacla : Yisitas ao SS. Sacramento e tí Santissirna Virgem, que res'
pira tanto amor e confiança, c0m0 se tivesse sido escripta sobre o abra-
sado coraçho do Salvador.
A Íilial conÍiança em Nosso Senhor, que Àlphonso tão eloquente-
mente ensina em SêuS escriptos, ainda mais a persuade com seus exem-
plos. Não podemos deixar de referir um d'elles. Certo dia estava vasia a
caixa da communidade, achando-se em grande precisão os religiosos:
era pela manhã e havia apenas dous pães para o jantar. Veio o des-
penseiro dar parte d'isto ao Santo, o qual respondeu: Não te aÍIlijas.
Apenas tinha dito isto, tocaram na portaria. E_ram dous pobres que pe-
diam esmola. O Santo manclou ao clespenseirb que ltres tlesse os dous
pães que tinha. Pasmou o homem, e com mostras d'enfado propÔz seus
argumentos, dizendo emÍim, que se não encarregava mais de dar de co-
mer á communidade, e que tomasse elle isso tà sua conta. Irmã0,
lhe disse .A,lphonso, faltou-vos acaso, jámais o preciso ? não pÓde Nosso

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172 CÀTBCISUO

senhor converler gm pão as mesmas petlras ? Abandonar-nos-ha aquelle


que todos 0s dias sustenta as aves do ceo ? Homem de pouca fe, tran-
quillisa-te. Dito isto retira-se, entra na sacristia, veste um rgquete e yae
prostrar+e diante do altar. Depois cle breve oraçã0, sobe os 6egraus, faz
genuflexão profunda, e levantanrro.se, bate brandamente na porta
do sa-
crario, e diz com confiança nunca vista : Meu Deus bem sei que estaes
ahi, olhae que não temos pão: e logo, fazendo nova genuflexã0, retira-se.
Àquelle que disse : vind,e a nrim, uos que estaes opprímiitos, e eu
aos alliaiarei (l) poderia acaso resistir a tanta conÍiança, ô a tao infantil
simplicidade I Apenas Àlphonso entrava na sua cella, ouvia tocar na por-
taria. chamararn 0 santo, e inclo elle, achou ser um homem, que lhe
trazia uma avultada somma da parte d'uma senhora desconhecicla. Ficou
pois remediada a communidade não só para aquelle dia, mas aintla para
muito tempo. Àlguns annos antes de fallecer, renunciou Alphonso o bis-
pado de santa Agatlra, e se retirou ao convento da sua ordem áe Noce-
râ, onde viveu ate á idade de noventa annos. Quando estava paia mor-
rer vieram os religiosos pedir-lhe a sua benção, e 0s seus ultim6s conse-
lltos. Assim o fez, terminando por dizer-lhes, com voz enternecida : illeus
Íilhos, fazei por salvar as vossas almas. pouco depois entrou em unla
placida agonia, e morreu em o senhor, no {.0 d'Agosto de l7g7(2). Foi
o santo beatificado por Pio YII, e canonisado por Gregorio xVI, a 26 de
Maio de 1839.
As numerosas conversões preparadas pelo abbade cle La Salle, ou eÍIe-
ctuadas por Santo Alphonso }Iaria de Liguorio, não eram ainda suÍficien-
tes para compensar a Igreja das perdas gue soffria. N'estes tio desgra-
çados tempos, desaforada a inipieclacle ergtiia o hedionclo collo, e aberta-
mente caminhava a0 seu Íim. PLrblicavam-se todos os dias livros ainda
eriçados das mais atrozes calumnias, com o intento de arrastar ao ahys-
mo infinidade d'ahnas, tibias e pl'esumpÇosas. trIas cumpre que Deus te-
nha, e elle terá sempre os seus e,scolhiclos, sern que um só d'elles

(1) Illath., II, 28.


(2) Vida de Sauto Alphouso ern italiauo. a respcito clo ccurento
d.e Noccra, as Tr.es Ront«,s, t.lI. -Vcju,-se,

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DE PERSEVERÀNCA. t73

pereÇa. Se hoje a lgreja chora amargamente, ámanhã ohorará de conso-


laçã0. Se agora a aÍlligem grandes escandalos; exemplos, e famosas con-
versões, farão brilhar a sua gloria, ainda que seja mister buscal-os ás
extremidades da terra. E' o que succerJeu na epoca de que fallamOs.
Tinham chegado os missionarios á côrte rlo Imperador da China, na
qual havia um Principe de sangue real, que tinha treze Íilhos, tlos quaes
o mais novo era militar distincto, muito instruido na religião e nas scien-
cias do seu paiz. Este militar, tomando conhecimento Dom um missiona-
rio, lhe pediu explicação d'algumas verdades da religião christã, a0 que
o missionario satisfez com grande empenho. A graça operou uo coraÇão
tlo joven Principe, e resolveu receber o baptismo; mas muitos obstacu-
los se oppunham a esta santa resolução. N'este meio tempo foi um seu
irmão mandado para o exercito; e, antes de partir, pediu o baptismo
com taes instancias, que o missionario julgou não dever recusar-lh'o.
Baptisou-o com o nome de Paulo, e concedendo a mesma graça a sua
esposa, lhe deu o nome de Maria. Então o irmão mais velho, commovido
por estes exemplos, pediu tambem o baptismo e o recebeu com toda a sua
familia. Todos seus irmãos tiveram uns após outros a mesme felicitlade.
. Mas a cruz foi sempre a herança dos ainigos de Deus: toda esta il-
lustre familia foi desterrada por odio da fé, sendo seu pae, ainda idolatra, en-
volvido na qesma sentença. Privados de seus bens e dignidades, partiram
cheios d'alegria, por serem assim julgados dignos de soffrer pela gloria
de Jesu-Christo. Compunha-se esta numerosa familia de trinta e sete
principes de differentes idades, e ou[ras tantas princezas, e cerca de tre-
zentos domesticos, muitos dos quaes se tinham baptisado. 0 exilio era
apenas o preludio de seus soffrimentos: elles haviam de dar a Jesu-Chris-
to mais illustre testemunho de sua fé. Mandou com effeito o Imperador,
que estes generosos confessores fossem carregados de cadêas e degrada-
dos da qualidade de principes de sangue. Logo depois tiveram que sup-
portar novos rigores.
Resolveu-se condemnar ii morte alguns fervorosos neophitos com o
ÍirÍI, sem duvida, d'inümidar os mais. Foram, pois, citados perante o
tribunal do mandarim, ontle compareceram em numero de trinta e seis.
À cada um d'clles ligaram com nove grilhões, e ainda os mais pe-

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1,7 t* CÀTECISMO

quenos appareceram carregados de ferros, accommodados á sua idade.


D'estes extremaram oito, que encarceraram em differentes prisões, alguns
onde depois perderam a vida por indignos tratamentos; outros foram dester-
rados,. sendo algumas princezas, e i$ualmente morreram n0 exilio. N'esta
illustre familia do martyres e confessores se via renovado 0 furvor, carida-
de, paciencia e viva fé dos primeiros christãos. Pela generosa effusão de
seu sangue e seus heroicos exemplos, preparou ella novas conquistas á
Religião no vasto imperio dà China (l).
D'est'ar[e a religião catholica, immensa como Deus, que é seu au-
thor, preenchia os lugares desertados pelos impios e libertinos. Na China,
são principes da familia imperial, que ella submetre ao jugo do Evange-
lho; em o norte da America são ferozps selvagens, que converte em
homens e christãos. Como sa bes, ó religião santa, fallar a todas as intel-
ligencias ? Como pódes achar maneira de te insinuares em toclos os c0-
rações ? E' segredo que só tu conheces, e por onde mostras quanto és
divina.
Yejamos este phenomeno admiravel na conversão d'outro povo.
Entre os espêssos e nevados bosques da america do Norte, viviam
vagabundos 0s Illinezes, nação selvagem e extremamente barbara. Escu-
temos um missionario, que conheceu este p0v0 antes da sua conversão:
«0 auge da gloria d'um Illinez, diz elle, é fazer prisioneiros e trazêl-os
vivos. ao approximarem-se, reune-se toda a povoaçã0, guarnecendo em
duas alas o caminho por onde devem passar aquelles infelizes. A rece-
pção é cruel: Uns lhes arrancam as unhas, outros cortam-lhes os dêdos
e as orelhas, outros dão-lhes pauladas. Condemnado á morte o prisioneiro,
cravam na terra uma vigorosa estaca, na qual lhe prendem as mãos. Logo
lhe fazem cantar a canção da morte; e então se sentam os seh,agens em
torno'do poste. accendem a alguns passos de distancia uma grande fo-
gueira, onde mettem machados, canos d'espingarda e outros ferros, e
tanto que estão em braza, vão-se ao prêso uns após d'outros, e lhe ap-
pllcam os ferros assim candentes a diversgt partes do corpo. Alguns o
tisnam com tissões ardentes, outros o golpoam com as suas facas; esües

(1) Extraoto das cartas do Padrc Perennin.

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DE PEIISEYERÀNÇA. t75

cortam-lhe um pedaço da carne já torrada, e a comem á sua vista ; aquel-


les, introduzem-lhe polvora pelas feridas, e esfregam-lhe 0 c0rp0 com
ella, pondo-lhe depois o fogo. Emfim cada um o atormenta a seu ca-
pricho, e isto por quatro e cinco longas horas, e ás vezes por dous e tres
dias. Quanto maÍs agudos e penetrantes são os gritos, que a victima
solta pela violencia dos tormentos, mais divertitlo e para elles o espe-
ctaculo. »

Eis os Illinezes antes da sua conversã0. Yejamol-os agora depois de


convertidos. E' tambem um missionario que falla:
«Vieram os Illinezes visitar-nos e flcamos maravilhados de vêr a
sua piedade e edificante vida. Recitam todas as tardes o roiario em
dous córos, e todas as manhãs ouvem missa, durante a qual, sobre tudo
nos domingos e dias santos, cantam differentes orações da lgreja; ade-
quadas ao oÍlicio do dia. Este espectaculo, que alli era novo, attrahia
muita gente á lgreja, e a todos fazia devoçã0. Pelo decurso do dia e de-
pois de cêa cantam muitas vezes, sós ou juntos, diversos hymnos sagra-
dos, taes como o Dies i,rae, Verilla regi,s, Sl,abat Mater, etc.
«Ao ouvil-os, facilmente se conhecia que achavam mais gosto e pra-
zer n'estes sagrados canticos, do que o conamum dos selvagens, e ainda os
europeus em suas canções frivolas e dissolutas. Quem chegar a esta missão
não póde deixar de pasmar ao vêr estes neophitos muito mais instruidos na
Religiã0, que os mesmos francezes. Sabem quasi todas as historias rJo Ve-
lho e Novo Testamento, e teem excellentes methodos para ouvir missa e re-
ceber os Sacramentos. Houve o cuidado de não deixar ignorar a estes
bons selvagens nenhüm de nossos mysterios e deveres. 0 primeiro pen-
samento que 0c00rre a quem conhece os Illinezes, e que muito deverá ter
custado'e custará ainda aos missionarios o formal-os d'esta sorte no clris-
tianismo. Sua assiduidade e paciencia são porem abundantemente recom-
pensadas, pelos fructos com que Deus se apraz abençoar os seus tra-
balhos. »

Não só a Religião triumphou da crueldade d'aquelles barbaros, mas


tambem da sua grosseira ignorancia, da qual vamos apontar um exemplo.
Foi um Illinez, chamado Chikagou, levado a França, d'onde depois tor-
nou para 0 seu paiz; e quanto con[ava, do que tinha visto, aos seus com-

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t76 CATECISilO

patriotas, nã0 o acreditayam. A elle mesmo parecia um. sonho esta via-
gem. «Deram-te dinheiro, lhe diziam elles, para nos metteres essas men-
tiras. Bem quizeramos, diziam os velhos, acreditar tudo isso quo nos
rlizes; mas algum encanto te fascinou, e te faz parecer que vias essas
bellas cousas; por que e impossivel que a França seja comotu a pintas.»
Debalde lhes dizia que havia eo França cinco cabanas umas sobre as 0u-
tras, e que estas eram tão altas como as maiores arvorcs; que ha tanta
gente nas ruas de Paris, c0m0 folhinhas nas campinas e maringouins (es-
pecie de moscas) nos arvoredos; que anda muita gente e ate faz grandes
viagens em cabanas de couro movediças; que vira longas cabanas cheias
de doentes, onde habeis cirurgiões faziam mararilhosas curas ; nada d'isto
acreditavam. «Olhai cá, lhes dizia elle graciosamente, se vos faltar uma
perna, braço, olho, dente ou cousà semelhante, e fordes a França, reme-
deiam-vos lá essa falta, de maneira que ninguem depois o perceba (l).,
lsto basta para comprehenderes o que os missionarios tantas vezes
'dizem
dos selvagens, QUe antes de os fazer christãos é preciso fazêl-os
homens.
Iteligião admiravel, sempre antiga e sempre nova ! a milagrosa trans-
formação que operavas ha cem annos, que tens successivamente operado
ha dezoito seculos, nos diveróos porõs clo mundo, ainda u.op.im em
nossos dias. Para prova d'esta virtutle sempre fecunda, referiremos a
carta escripta ao Santo Padre em {840, pelo rei das ilhas de Gambier,
convertido á fé com todo o seu poyo, dentro em quatro annos. Quem ao
lêl-a, dirá que seu author tinha sido pouco antes anthropophago?
«Eu vos amo, Nosso Padre, tanto quanto vós nos amais. Permitti
que vos prestemos nossa homenagem, por isso que amamos a Deus e a
vós tambem. Enviastes um bispo e alguns sacerdotes para ensinarem em
Mangareva a santa palavra de Jesu-Christo. Yós sois o Soberano Ponti-
flce cla Igreja; abençoai-nos pois, que iá amamos ao verdacleiro Deus.
Ha pouco estavamos entregues a nós rnesrnos, como animaes; eramos
üÍtr pr)vo má0, mais senelhantes a bru[os que a homens ; mas agora s0-
mos bons e pertencemos ao reino de Deus. Somos hoje vossos filhos
(1) Cartas edifi. ablev., t. IV, p. 102 c 314.

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DB PERSEVERANÇÀ. t77

e Íilhos da Igreja: que felicidade


t
tivemos de vos terdes lembrado de
nóst
«Nós nos regosijamos ern a Bemaventurada Maria: possuimos esta
santa lIIãe em llangareva, e foi o missionario Caret quem nos trouxe a
'imagem.
sua Somos muito devofi' do Maria e todo este paiz lhe está
hoje consagrado. Illaria é pois a nossa ilIãe, e nós somos seus Íilhos;
Mangareva celebrou uma festa em sua honra, e foi bellissima; Itlaria é
o objecto da nossa rnais cara predilecçeo.
«Tambem amamos muito a Jesu-Christo; e o amamos sobre todas
as cousas. Edificamos-lhe agora uma Igreja de pedra. Fomos a grande
distancia em procissão com o Santissimo Sacrarnento, por amor de Jesus :
levamos a Jesu-Christo em triumpho e o festejamos com grande solem-
nidade. Estes dias são dias de graÇa. Amamos a Deus com sinceridade,
e não fazemos senão suspirar pelo ceo ; pelo que fomos dignos de rece-
"ber a primeira communhã0. Yós nos fizestes presente de magniÍicos ves-
tidos, que serão guardados com recato para servirem só nos dias de so-
lemnidade. 0 rei de Franga nos enviou tambem uma rica espada, que
ha-de ser para as grandes ceremonias. Dou grancle valor ao vestido que
nos enviastes, que é muito lindo. Ha tempo que os missionarios estão
em Mangare\:a. Julgavamos que caret e Layal não vinham aqui só de pas-
sagem; pois foram elles gue ensinaram a boa palavra ao povo de lllan-
gareva. Alcançai-lhe graças do Senhor por vossas orações.
«Em outro tempo quasi que não tinhamos alimentos, só apenas algum
milho. Agora temos tudo em grande quantidade. Eramos preguiçosos,
mas hoje sornos laboriosos. Os missionarios nos ha bituaram ao trabalho.
«Yós sois bom e clemente, e bem o tendes mostrado para com um
povo esquecido n'estes remotos mares. o meu coração ê todo de Jesu-
christo; sou um d'aquelles que mais vezes se approximam da sagrada
I\[esa. cypriano e 0 meu confessor. 0uvimos com grande attenção a pa-
lavra de Jesu-christo, e os missionarios nos exhortam á virtude. »
Pela ingenuidade. com que e escripta esta carta, se mostra clara-
mente aquella verdade, tantas vezes provada n'este Catecismo, e vem a
scr, que sempre as conquistas do Evangelho trazem aOs povOs dous be-
neÍicios, a virtude e a civilisaçã0.
,12

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,r78 CATTüCISilO

t
,a'
oRAÇAO.

0' meu Deus t qrre sois todo tr, etl vos dou graças.por havcrrles
tão visivelmento realisado o que Btava escripto ; -que viriam poYos do
grielte e do Qccidente submetter-se ao Evangelho, ao passo que os Íilhos
do reino seriam regeitaclos. Não permittaes Senhor, por piedade, que se-
jamos privados da fé.
Eu protesto amar a DeuS Sobre todas aS cousas, e ao proximO como
a mim mesmo por amor cle Deus; e, em testemunho d'este am1r, ndo
lerei liaros susPeitos.

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XIII.^ LICÃ0.

0 ChrisÍianismo conservado e propagado.

(rvru sncuro.)

À lgreJa aúacada: yolúaire. Juluo de neus sobre volúatre.


rlousseau. Juizo de -rDeus sobre Bousseau. vorúol-
-re e Bourseau- julSados um - por sl
rDero ouJro. Jurgodos
- Nonnoúúe,
rne§mo.. a rgrejo defenrlida: Bergier, Burreú,
Guénée; - Consolada: tr[adane tntlua de$ronca.
-

Irritado pelas conquistas que o Christianismo fazia nas extremidades


do mundo, redobrou o inferno seus esforços para aniquilar a fe na Eu-
r0pa e maiormente em França. Uma coalisão de litteratos, conhecidos
pelo norne de philosophos, formou horrivel conspiração para destruir a
religião de Jesu-christo. Grandes e pequenos me[tem mãos á obra; uns
cavam as entranhas da terra, outros interrogam os astros ; estes compul-
sam 0s annaes dos povos antigos, aquelles fazem calculos; e todos se es"
forçam por achar a religião em erro, e pôl-a em contradição com as scien-
cias naturaes, as tradições dos povos e os monumentos hisüoricos. Es-
palham-se nuvens de folhetos, préga-se por todos os moclos a incredu-
lidade e a libertinagem; o homem torna-se carne, e, como outr'ora nos
dias anteriores ao dilu'r'io, o espirito de Deus, não podendo já repousar
n'elle, está prestes a abandonal-o.
D'esses homens, cujos nomes não devem pronunciar-se sem horror,
pois que, por sua malicia, [rouxeram ao mundo incalculaveis flagellos, ha
dous principalmente que devem ser conhecidos, a Íim de que as mesmas
creanças aprendam a temer o veneno de suas doutrinas : taes são Yol-
taire e Rousseau; rluas vezes culparltls como apostatas cla fé e profana-

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{80 CÀTBCISilIO

dores rlo genio. Qrranto ao mais, a sua vida escandalosa devia natural-
mente tornal-os aclversos á religião e fazêl-os apostolos da incredulidatle ;
por quanto, não vos esqueça isto, a incredulidatle prende sempre na im'
mundicie, e só e clefenditla pelos devassos; opprobrio lhe seja I e pelo
contrario, maior gloria a ti, ó religião catholica I que nunca tivestes por
inimigos senão homens, com quem nenhuma alma honesta quereria com-
parar-se.
llancebos que vos curvais sob a auctoridade de Yoltaire e Rousseau I
Homens de idade maclura, que guardais suas obras em vossas bibliottrc-
Cas, attendei que vou revelar-vos a ignominia dos voSSOS mestres, a ab-
jecção dos vossos idolos.
Francisco l\Iaria Arouet, cognominado Yoltaire, nascetr em Chatenay,
perto de Paris, em 1694, tendo por pae um velho notario. Ftli educado
óm Paris n0 Coltegio dos Jesuitas, e não tardou que a temeridade das
suas opiniões não'âssustasse seus mestres. Um d'elles, certa occasião lhc
disse, que elle viria um dia a levantar em França o estandarte da im-
piedade; e o tempo justificou completamente tão sinistra predicçã0. Na
idade de dezeseis annos sahiu o joven Arouet do collegio, e logo se
tornou notavel nas sociedades mais elegantes e corruplas da capital.
Muitas questões que teve com seu pae, decidiram e.ste a mandal-o para
Hollantla, na qualidatle de secretario de embaixada. Mal que chegou a
Haya, fez o honesto moço taes desordens, que outra vez o mandaram para
casa de seu pae. Para se restabelecer na amizade d'este, teve que trabalhar
em casa d'um procurador; mas sua negligencia e pouca inclinação ao
fôro, logo fizeram com que tambem d'alli fosse despedido.
Foi tão máo cidadão como máo filho. Em 1,71,5, por suas mais que
levianas tagarelices, lhe pregou um velho actor uma bofetada no salão
publico do theatro ; d'ahi a pouco levou uma cutilada d'um oÍflcial do
ãxercito, a quem tinha calumniado. Nem este máo filho e máo cidadão
podia ser bom subdito. Depois da morte de Luiz XIV, comeÇaram de
apparecer grosseiras e indecentes satyras contra aquelle monarcha, e sup'
pondo-se com razão que Yoltaire fosse author d'urna d'ellas, foi recolt$do
ã Bastilha. Apenas depois o soltaram, foi accusado como cumplice d'uma
conspiração que se descobriu, e com cujos authores elle tinha intirnida-

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DE PERSEVEnaNÇA. l8l
de. Viu-se pois obrigado a fugir de Paris, e se refugiou no castello de
Sully, onde não tardou a dar provas da sua devassidã0.
Partiu depois para llollandr, onde permaneceu algum tempo, porcm
seu espirito inquieto o trouxe novamente a Paris. Tratando insolente-
mente a um jovcn Íidalgo, deram n'elle os lacaios, 0 o zurziram a paula-
das, sendo depois por parte da aucloridade mettido na Bastillta, por seis
rnezes, com ordem de no fim d'elles ser posto fóra de França.
D'est'arte, aos trinta e um annos d'idade tinha já Yoltaire sido ex-
pulso de casa de seu pae, e da do procurador; despedido em llollanda,
esbofeteado por um comico, castigado mais severamente por um oÍlicial
militar, prêso duas vezes na Bastilha, deportado de Paris, e desterrado
tle França. Philosophos ! admirai a vida exemplar do vosso apostolo.
Sahido da Bastilha passou á Inglaterra, povoada então de liores pen-
saclores, que trabalhavam c0m0 de mãos dadas em minar os fundamentos
do Clrristianismo. Em Londres publicou a sua Henriada, e enganou o
seu livreiro, que renovou nas costas do poeta a correcção tres annos antes
ministrada pelos creados do fidalgo de Rohan. Este doloroso incidente
fez solicitar a Yoltaire a permissão de regressar á Patria, que llre foi
concedida. Foi habitar n'um dos arrabaldes do Paris, e, duran[e algum
tempo, viveu desconhecido e quasi occulto, occupando-se já em trabalhos
litterarios, já em operações Íinanceiras. illetteu-se depois, de sociedade
com outros, a fornecedor do exercito d'Italia, no que o philosopho gran-
geou uma renda de cento e sessenta mil libras: pobre homem t
Denunciado a0 guarda dos sê[os, por causa da apotheose d'uma co-
mica, que é uma serie d'ataques con[ra a religião e seus ministros, e
contra a propria nação em geral, Yoltaire se refugiou eú Rouen, onde
sete mezes viveu escondido em casa d'um impressor, a quem algum tem-
po depois deitou a perder com uma tratantada digna de gales.
O resto da vida de Yoltaire corresponde aos seus principios : ella e
um longo tecido de devassidã0, impiedade, vis lisonjas aos grandes, lry-
pocrisias, sacrilegios, e por Íim uma horrivel morte. 0 culpavel escriptor
se tinha retirado a Ferney, pcrto de Genova. Era d'alh que arremeçava
contra seus inimigos, contra a religião e 0 governo, multidão de folhe[os,
cheios tle diatribes, não sc sabendo dizer qual e mais dcsprezivel, se o

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'182 cÀrccrsiuo

furibundo Íanatismo clo patriaroha da phik-rsophia motlenra, se a sua im-


prudencia e detestavel cynismo. «llenti, menti com coragem ineus ami-
gos, escrevia elle a seus acholyts, sempre lirareis algum resultado...Im-
porta-me muito ser lido e muito pouco ser crido.»
Em {778 obteve a permissão de voltar a Paris. A sua entrada n'es-
ta cidade foi um verdadeiro triumpl-ro : triumpho de Yoltaire I só estas
duas palavras causam horror e vergontra. 0 triumpho de Yoltaire, isto e,
do cynismo, da impiedade e de todos os vicios personificados, mostrava
o estaclo da sociedade franceza; e presagiava ao mesmo tempo a inaudita
catastrophe que, quinze annos depois, ensanguentou a França, e o espe-
ctaculo de degradação sem igual, que deu ao mundo a primeira das na-
ções, offerecendo incensos a l\Iarat, á escoria dos criminososlll Mas o
Deus vivo, ultrajado por esptço de setenta annos pelo mais ingrato dos
homens, ia ter solemne desaffronta.
Havia chegado Yoltaire a oitenta e quatro annos d'idade. Alguns
dias depois da sua entrada na capital foi atacado d'um vomito de sangue,
o que o não impediu de se fazer franc-maçon: mas este feito encheu a
medida de seus crimes. Eis soa a hora da clivina justiça. Notemos pri-
meiro com assombro que a molestia mortal do chefe da impiedade o sur-
prehende precisamente no tempo, em'que elle contava com o triumpho
do atheisrno. Seus mesmos partidarios publicaram a carta em que elle
escrevia a d'Alember[ n'estes termos: «Em vinte annos estará Deus em
pantana.» Esta predicção blasphema tem a data de 2Ü de fevereiro de
,1758, e a 2:r de fevereiro de {778 foi Yoltaire atacado do vomito de
sangue, que o levou á sepultura, vinte annos d'intervallo certissimos. A
violencia do nlal lhe fez tlesmentir a profissão cl'incredulo. Illandou cha-
mar um d'esses Padres, a quem tanto ultrajára e calumniára em SeuS eS-
criptos, trt. Gauthier, vigario de S. Sulpicio, e de joeltros lhe fez a c00.
Íissão de suas culpas, depondo em suas mãos a retractação authentica
de todas as impiedades e escandalos de que era culpado.
Declarou cm particular que morria na religião catholica. Parecendo
porem esta proÍissão de fé muito suspeita n'arluelle homem, que tinlta
já feito outras semelhantes, quiz o Paroclto de S. Sulpicio apresetttar-se
em casa de Yoltaire, nlas os amigOs tomaram todls as precatlções, c0m0

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DE PERSEYEBÀNÇ4. t83

tlisse um d'elles, para que o philosoph o ttão cantasse outra Dez a pali'
nod.ia. Não o cleirararn elles um instante, tornanclo assim inuteis o zêlo
e caridade do Parocho. Entre[anto, o criminoso velho approximava-se da
etcrnidade: taft'ez ainda esperava quq acabaria a grande obra de stra re-
conciliaçãg com Deus, mas ao soccorro ultimo se anticipa a morte. Horriveis
remgrsgs e temores 0 pungem : elle exclama c6m voz medOnha: «Deus
e os homens me abandonaram t» Etle invoca o Deus que blasphemára,
mas os sarcasmgs que tinha por meio seculo vomitado contra a religião,
parecia terem esgotado a paci encia do eterno. Não apparecia o sacerdote:
o enfermo entra em convulsões. Elle desespera ; turva-se-lhe a vista; as
liviclas volta-se para todos os lados, despedaça-se;e...
suls faees estão'devora ;
ó Deus ! elle o seu proprio excremento I Diante se lhe mostra
eSSe inferno, cle que tanto mofára; Voltaire estremece, 0 o seu ultimo
suspiro é o d'um reProbo.
Deus e os homens nie abandonaram ! Estas tremendas palavras, o
ar e o tom com que as pronunciou, gelaram de mêdo o Celebre medico
Tronchain, que assistiu a Yoltaire na ultima enfermidade.
«Imaginae tocla a cólera e furor d 0restes, diz este medico protestan-
t0, testemunha d'aquella pavorgsa morte, e ainda não fazeis mais que
uma imperfeita idéa da cólera e furor de Yoltaire na sua derradeira mo-
lestia. Seria para desejar, dizia elle muitas vezes, que os nossos philoso-
phos fossem testemunhas tlos remorsos e furores de Yoltaire I era a lição
mais saudavel que podiam receber aquelles, e quem elle corrompêra com
0s segs escriptos. » 0 marechal de Riphelieu viu tambem este medonho
es1-rectaculo, g não pôde rleixar cl'exclamat: «Na verdade isto e muito
forte, não se lhe resiste.» Assim morreu o patriarcha da incredulidade a
30 de }Iaio de t778.
Ào passo que Yoltaire corrompia a mocidade e fallava aos espiritos
slperficiaes, dirigia-se João Jacques Rottsseau aos homens gue Se presam

de reflectidos, e que então se intitulayam pensatlores ou espiritos fortes.


Rousseau era protestante, e como tal desenvolveu e applicou á sociedade
os perniciosos principios da reforma. Impio, incredulo e devasso, era di-
gno rle ser contado eÍn o nlllnero clos inimigos (l'uma religiã0, que con-
demna ttitloS os viCioS e prescreve Í,orlas as virtttdes.

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t84 CATECISIIO

Nasceu João Jacques Rousseau, em Genebra, em l,7LZ, gastouseus


primciros annos a lêr romances. seu pae, que era relojoeiro, o metteu
como pensionista em casa d'um ministro protestantg, aonde aprendeu
mal latim, e contrahiu pessimos costumes. Empregaclo como amanuense
do tabellião de Genebra foi declarado inepto e posto na rua. Esleve alguns
mezes c0m0 aprendiz em casa d'um grar;ador, aonde, como elle mesmo
confessa, a mandrianice, a mentira e o roubo se tornaram seus vicios pre-
dilectos. Passou depois a Saboia, e alli um carilativo ecclesiastico lhe for-
neceu meios de se dirigir a Turin, onde se instruiu na religião catholica,
e d'ahi a dotts mezes abjurou o protestantismo. Não lhe tendo a preten-
dida conversão rendido mais que vinte francos, entrou como lacaio ao
serviço da condessa de Yercelles; mas sendo despedido por um roubo
que fez, e que quiz imputar a uma creada, passou a servir o concle de
Gouvon, primeiro escudeiro da rainha de Sardenha. Aos beneÍicios de
seu novo amo, correspondeu Rousseau com tal comportamento e insolen-
cia, que de novo foi posto no andar da rua.
Sem recursos nem protecçã0, Íingia-se devoto, e se recolheu em
casa d'urna senhora, que 0 tratou como mãe; e por cujos conselhos en-
trou no seminario, para seguir o estado ecclesiastico. D'alli porem o
mandaram embora, como homem que não servia para nada. Não sabendo
mais que Íizesse, percorreu a suissa corn um pretendido bispo grego,
que andava colhendo esmolas para o Sauto Sepulchro de Jerusalem. Es-
tes honrados viajantes foram aparrhatlos em Soleure, e postos debaixo de
chave. .
0 embaixador francez, compatlecido da posição do vagabundo m0Ç0,
deu-lhe meios de se transportar a Paris, onde experimentou todos os
horrores da intligencia. Passou depois a Lyã0, e foi na qualidade de pre-
ceptor para casa de i\I. IIIably, gran-preboste da cidadc. Rousseau roubou
ao preboste um vinho que tinha de Arbois, e se regalou a bebêl-o e a
Iêr romances. Por estas e outras taes gentilezas, teve de fazer outra via-
gem á Italia, d'onde vol[ou a Paris em 1745. Então se entregou a publica
devassidã0, vivendo d'esta escandalosa maneira vinte e cinco annos, á face
de toda a Europa. Ao despejo juntava a impiedade : tinha abjurado a seita
de Calvino para professar a religião catholica ; e depois, tornando a Gene-

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DE PENSEYENANÇA. {8li

lrra, abjurou a religião catholicaparaseguir aseitadeCalvino. 0seu Emi'


Iro, gutl é a principal das suas obras, foicensurada pela Universidade de Sor-
bonna, condemnada pelo arcebispo, e pelo Parlamento de Paris, e emÍim,
queimada na mesma citlatte de Genebra por mão do algoz. Perseguido
pelas auctoridades de França e Suissa, pa ssou Rousseau á Inglaterra ;
sendo alli, porém, mal recebido, cheio de desgostos sollicitou e obteve
á força de instancias, permissão de Íixar a sua residencia em Paris, com
a conrlição de nada mais escrever sobre religião, ou politica. Uma ulti-
ma pincelada acabará o retrato d'este patriarcha da philosophia. João
Jacques, que tão meigo escrevia sObre a ternura maternal, e Os deveres
dos paes para com os ÍilhOs, metteu os seus, com todo o sangue-frio, na
roda dos expostos t Tal vida, tal morte. Segundo todas as probabilidades
Rousseau suicidou-se com um tiro de pistola, depois de ter tomado Ye-
neno, em 1778.
Eis-aqui Voltaire e Rousseau escorias do genero humano, pedindo
-
venia áquelles que os estimam. Sim, ó philosophos de nosso§ dias, ho-
mens irreligiosos de todas as côres e condições, eis-âqui os apostolos, os
evangelistas, Os Eantos, os mestres que seguis, os authores de todas as
ruinas que temos visto ({), e que teremos de vêr. Imitai, pois, a estes
vgssos paes ; prostrai-vos diante d'estes dous homens, e dizeilhes, se vol-o
:
soffre a conscienCia Bem qui,zera eu parecer-me comtsosco ll!
Quanto
ao mais, antes de formardes o vôsso juizo, bom será que os conheçaes,
não por ouvir dizer, mas por suas proprias palavras. Yinde pois a Fer-
ney e a Genebra, applicai o ouvido ás amaveis expressões, com que elles
;
mutuamente so mimoseam vêde como um ao outro se avalidm, a Íim
que os possais tambem avaliar.
Yoltaire escreve a Rousseau, dizendo-lhe : que elle é um fugido de
Genebra i
um certo heroe que as tem feito boas; um maltra,pil.ho, um
bregetro, unt, eslupido charlalã0, que faz peloticas na Ponte-Noea; um

(1) Voltaire nd.o tíu tudo o que fez, rnas fez tudo o Eue o^ê,mos,' escrevia eu-
tre as ensanguentadas ruinas dos thronos e altares o philosopho Condorcct, ad-
mirador e discipulo de Voltaire I e alguns mezes depois poderia ainda, do alto do
patibulo, accrescentar estas palavras : aonde me tlouxelamj amim c a tantos outros,
as doutrinas de meu mestte !

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{86 CATECIS]UO

tÓlo par"oalheira, escrersinhaclor tle impertinencias dignas ile Bicétre ;


üm garoto d'algaraaia atroz, que as mulheres tomam pTr eloquencia;
hypocrita, inimigo do genero humano, tacanho nojenlo, cão pérro, ne-
gro erud;emoninhado, d,e or_gulho e tleaorailo ile odio, mariola,
'impio, atheu, farro e d,ea'ia stúir as escadas ila forca, e ser
Ttend,urado plr escr abominaceis; homent, sern fé e sem reli-
giao. Eis-aqui, Rousseau. A sua esposa é, uma aelha in,fame, cujas gar-
ras aduncas foram mordidas pelos masrins do inferno.
t
Eis=aqui uma casaca bem talhada, Snr. de Yoltaire Vossas mercês
lá se entendiam ; mas não e o Snr. de Yol[aire aquelle escriptor illustre,
motlêlo de placidez e bom gosto, que dizia : «Na tonversaçaó oe pessoas
de bem; cada um rJiz o seu parecer sem injuriar aos outros ; a quem se
deve esclarecer e não insultar ?» 0ra, o que acabamos de ouvir são in-
sultos; logo o Snr. de Yoltaire é um... não digamos mais.
Menos habil na arte de dizer injurias, responde Rousseau a Yoltaire,
atacando seus escriptos : Alma abjecta, diz elle, a qual, queres plr t0-
d,os os modos aoiltar, é a'tua desgraçaila philosophia qu,e te
faz igu,al
aos brutos; tnas o leu engenho depõe contra os te.us principios, e o abuso
que fazes das luas faculdades, proDq,, apesa,r tle ti mesmo, a encellencia
d'ellas.
se pois perguntais a Yoltaire quem é Rousseau, diz-r'os que e «um
maltrapilho, um bregeiro, um cãq, um charlatão estupido. » sc per-
guntaes a Rousseau quem é Voltaire, respontle que e (uma atma abjecta,
igual aos brutos.»
Illas o queia de melhor e menos suspeito n'este ponto, e a justiça
que fazem Yoltaire e Rousseau a seus mesmos escriptos. Quereis ouvil-os ?
Eis o que diz Voltaire : Perdi todo o tempo da minha eristencia a clm-
pôr uín montd,o enlrme de calhamaçada, metade dos quaes nunca deue-
riam ter apparecido tÍ luz do dia.
Agora Rousseau : Dizer e prlDar a.o ntesml tempo pro e contra, ludo
'persuadir
e naila crér, foi sempre o meu, maior dioertimento. Nd,oplsso
olhar pard, nenhu,m dos tneus lioros sem lremer ; em lugar d'instruir,
corrlmpl; cm De3 ile alimentat', enuencnl; mas a,s pairões me treslou-
cd,tn,, e apcsl7r dos m,eus be llos rliscursos rtão sou md,is que wn mal.ottdo.

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DE PERSEVERÀNCA. I87

Tttdo o qqe desejc é um Cafttl de terua, onde possa ntcrrer etnpaz,sent


tocar em papel nem penno,.
Eis-aqui os famigerarJos Voltaire e Rousseau; a melhor cousa que
t
póde oppôr-nos a philosophia. Grande Deus Detts de Santidade e pu-
reza, Deus de todas as virtudes ! como poderieis eleger taes homens para
vgssos representantes na terra, in[erpretes de vossas Suttas Yerdades e
preceptores do genero humano ; condemnando ao mesmo tempo a0 erro
tudo quanto teem existido de mais virtuoso, esclarecido e semellrante a
vós !?
Talvez agora me perguntem como é que se explicam'oS elogios e a
fanatica admiração de que Yoltaire e Rousseau teem sido objecto ? À
resposta não é diÍlicil :Elles diziam ds claras o que o seu seculo pen-
saaa qs oc1ultas; sua tsoz i'mpUrü era o echo de todos os corações cor-
ruptos, que pejaoatn o mundo.
Tantos escandalos pediam reparação; tantos ataques,,ltsposta pe'
remptoria. A resposta deram-na sem replica, illustres apologisüas, como
,
foram Bergier, Nonnotte, Bullet, e Guénee. À expiação foi especialmente
offerccida por uma illustre victima, objecto das attenções da Europa.
Sobre os degráos do mais bello throno do mundo nascêra uma Ptin-
ceza, idolatrada da côrte, que conhecia suas brilhantes qualidades; estre'
mecida tle sua mãe, pela sua candura, pelo amor que tinha a suas irmãs,
pela vivacidade de seu espirito e bondade de seu caracter. Esta Princeza
é Mad.' Luiza de França, filha de Luiz XV. Inesperadamente, na ÍlÔr da
idade, quanclo diante de seus olhos se descortinava um longo futuro de
festejos e honras quando ella mesma ja gàza de torJas as delicias de
;
Yersailles, eis que se põe a caminho de S. Diniz, e pede humildemente
a graça de ser recebida em o numero de fllhas de Santa Theresa. Assim
tleixa Luiza os dourados aposentos de Trianon, por uma pobre cella; e
troca os adornos de Princeza de França pelo burel do Carmello. Quanüo
este sacrificio pesou na balança do Sanctuario, só Deus.o sabe; mes 0
que sabemos e, que produziu a mais profunda sensáção, sobretudo quando
viram que ella o continuava por largos annos com indisivel contenta-
mento.
Com effeito, I\Iacl.u l,uiza foi exemplar rnodêlo das filhas de Santa The-

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t88 CÂTECISIIO

resa, e a verdadeira gloria do Carmelo. Dois dias depois tle entrar n0 Con-
vento, foi visitada das princezas suas irmãs (l):
Foi scena ternissima
vêr as tres Princezas abraçadas em sua irmã, debulhanclo-se em saurlosas
lagrimas. Toda a communitlacle, commovida d'este espectaculo, as imi-
tava chorando. No melo d'ellas, I\Iacl.u Laiza, com aspecto alegre e rosto
seren0 as consolava, dizendo-lhes em termos muito joviaes, que não cho-
rassem, que não tinham motivo de verter lagrimas, só se fosse de in-
veja pela vêrem tão prosperada e feliz. Era isto pela paschoa, tempo em
que as carmelitas interrompem o jejum. Quizeram as princezas ir por
curiosidade ao refeitorio, assistir á cêa de sua irmã. A ordem rlava n'esÍ,e
dia batatas frigidas e leite frio. Viram ellas sua irmã cear alegremente
e com appetite aquella grosseira comida, que na côrte lhe teria causa-
do indigestão mortal. Então conheceram gue com eÍIeito a coragem e
piedade de Luiza era mais digna de felicitações, que de compaixã0. Acos-
tumada a Princeza a calçar na côrte çapatos de talão mui alto, foi a prin-
cipio um verdadeiro tormento o trazu as alpercatas de Carmelita. In-
charam-lhe as pernas por esta causa a ponto de não poder andar. Quanclo
:
isto cOnstou, deram-lhe de conselho que usasse cl'outro calçado «l\,Ias
depois, respondeu ella, preciso tornar ao antigo, e n'esse caso antes querg
ir-me já costumando.,
E' tão estreita a dura cama das Íilhas do Carmelo, que muitas vezes
a Princeza esbarrava na parede, e um dia o fez com tanta força que se
feriu na cabeça. Escrevendo depois ás Princezas, suas irmãs, dizia-lhes,
gue ttazia uma contusão na testa, por bater com ella nos cortinatlos cla
sua cama de Carmelitas Do mesmo modo levava com bom humor toda
a sorte de incommodos do seu novo estado.
Desde que tornou o habito, sempre andou alegre; fallava com fre-
quencia das satisfaqões que tintra, nunca dos sacrificios que fazia ; e se
algumas vezes comparava a sua vida de Princeza com a de Carmelita, era
só pata provar-que deixára p0uc0 e achára muito. Eis o parallelo que fa-
zia entre tão diversos estados : «ÀÍlirmo-\'os, dizia ás outras freiras, com a
mais persuasiva candura, que sou aqui realmente feliz, mais clo que eu

(1) lrejo,-se a historia dc sua uicla po,- M. Proyart

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DE PERSEYERÀNÇÀ.
r89

ganhei immenso em vir para


merecia; e, tanto no physico com0 no moral,
mas dor-
o meio de vtls. Ycrdatle e que em Versailles tinha boa cama' do
mas sem a mostarda
mia n'ella sobresaltada; tinha mesa bem servifla,
solto ; o refeitorio e
appetite. Aqui tenho cama rija, mas durnro a somno
do
*rgro, *r* sabe-me a comida. De modo que ás vezes escrupuliso
ervilhas e cenouras'
muito ptazer que sinto em comer as nossas
uquanto á paz tl',espirito, Qü0 clifferença I posso dizer
sem exage-
do senhor me causa
ração e com too^o a verclade, que um dia na ca§a
mais solida consolação da que teria mil annos no
Paço' se aqui ha ob-
mais duras flue as nossas'
servancias, tambem a cÔr[e tem suas ; e muito
por mais que lhe peze' aqui,
Quem reside na cÔrte ha-de ser cortezã,
para o eÔro; em Yer-
io1" ,*.*plo, chama o sino ás cinco horas da tarde
sailles advertiam-me que era chegada a hora da
comedia' A gente da cÔrte
um circulo de futilidades'
não tem um instantB áe seu ; gira sem parar em
«Pois que bellas manhãs não perdi eu por lá: ora na cama, a re'
ao touca-
pousar tlas iadigas da vespera, talvez bem desagradaveis; ora
a ouvir
dor, cheia de aborrecimento, com mil enfaclonhos atavios; depois
pela manhã
e aturar importunos. aqui, porém, cgmo durmo de noute,
estou desperta; o toucador não me leva mais de dous minutos; depois
proveito da minha
passg o O-iu á minha vontade, porque o empregg em
alma. Em fim, na côrte estava rocleada de tutlo
ques e reputa aprasivel,
contrario, parecendo
mas em que eu não achava prazer algum; aqui,
pelo
d'um perfeito contentamento' De sorte
tudo melancholico, g0zo na verdade
que ha urn anno que vivo aqui, e aincla não vi essas austeridades, com

que queriam intimidar-me t»


Se não estivesse demonstrado em toclos os tempos,
que da virtude
as palavras de Mad'"
e da piedade nasce a felicidacle vertladeira, bastariam
Luiza, Íilhas d'uma feliz experiencia, para d'isso convencer a todos
aquelles, que não estiverem cegos de prejuizos ou
paixões.
Em certa occasiã0, senrlo Mad.'Luiza mestra de noviças, e estando
o remcdio, de que
doente uma sua educanda, esta não se resolvia a tomar
que lhe pa-
necessitava. Depois d'empregar inutilmente todas as razões
receram proprias para a determinar, acabou a mestra
por lhe dizer:
«Vejo minha nlha, que não es genergsü. Àh t isto que não tens anitno

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t90 C,I,TBCISUO

, tlefazer, nem por amor tle ti, n


amor d'aquelle, que por nós beb
que vejas que o remedio não é nen
copo uma parte d'elle, bebeu_0, e
A noviça, espantacla e confuntl
e confessa que o sacriÍicio gue rho exigia não era superior
ás forças hu-
manas; o que ella porém melhor conheceu foi, que
a vista d,um grande
exemplo, dá animo'para vencer as maiores diÍtculdades.
Não se póde crêr a que impertinencia se sujeitava
a boa da prin-
ceza, sendo superiora da communidade. Havia
uma freira que tinha
muito mêdo, e Mad.' Ltiza, conhecenrlo-lhe este defeito,
tinha a paciencia
ele a acompanhar a diÍferentes lugares cla casa, onde
ella se não atrevia
a ir só. Ainda. fazia mais ; permittia_lhe que trouxesse a cama para
a
sua estreita cella,' o que muito a molestari ror calores
do estio. Uma
só vez porem, lhe deu a princeza a conhecer o incommodg
que com isto
soffria, dizendo-lhe em tom cre graÇa: «Bom seria, Íilha,
qr. guurdasses
a0 menos o mêdo para o inverno,
QUe n,e§te tempo, duas aqul dentro é
de morrermos abafadas.»
Certa occasiã0, distrahicla pelos trabalhos diarios e multiplicados
cui-
dados que lhe impunha o seu cargo, tinha-se esquecido al,uma
rerigiosa
que estava aÍllicÚa, e a quem não tinha ido consolãr.
Veio esta lembran-
ça magoar-lhe o coração pela meia noute. A princeza inquieta-se, perde
o somno, levanta-se, vai ter com ella, e diz-lhe: «Eu devia fallar-vos
hontem, minha querida irmã, era essa a minha intençã0, mas foi
esque-
cimento indesculpaver, que talvez augmentasse a vossa mágoa.
Agora pois
venho remediar o mal.» Não pôcle a freira, cle commovitla, ,onir.
as la-
grimas, e não sabia como agradecer á prioreza tanta
bondacle. Esta po-
rém lhe disse :
«Não tendes que me agraclecer; eu tenho n'isto
tanta
consolação como vós. como poderia eu dormir tranquilla depois
de me
lembrar da vossa inquietação ?» E não sahiu d'alli em quanto lhe
não res-
tituitr a paz do espirito.
Uma freira de veo branco, encarregada de despertar a communi6ade
em dia de Paschoa pelas duas horas da noute, temia muito que o somno
a fizesse faltar á sua obrigaçã0. Lembranclo-se que a princezã queria que

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t9,t
DT] PERSEYBRÀNÇÀ.

foi procural-a, e expOn-


suas religiosas tomassem o necessario repouso,
pondo-lhe 0 seu receio, Itp disse com a
maior simplicidade' que verda-
em quenn melhor podesse con-
deiramente não via no convento ninguem
Íiar,paralhepeclirqueadespertassen0tempocompetente.Maravilhada
muito gostcr
d,esta excessiva confiança lhe responcleu
llad'' Luiza: Tenho
de porler tirar-vos tl'essa inquietàção:
ide do31 socegada que eu tomo
das duas horas ouvia a irmã con-
isso á minha conta. Ào outrã dia antes
ti porta' para a desper[ar
versa a sua prioreza e Íilha do rei bater-lhe
religião, são comtudo
do somno. rr* urções, ainda que são communs na
bem dignas da memoria do seculo'
Estanrloumdianaenfermaria,certareligiosatheaconselhou,que
observancias da ordem'
por amor da sua saude se subtrahisse a uma das
Prioreza'' nã0 m0 pa-
«A necessidade de que d'isso tenho, respondeu a
Eu devo temer mais
rece motivo bastant, pu* justiÍicar essa iiempqão'
a relaxaÇão na ordem' Pon-
que ninguem, que 0 meu exemplo auctorise
' derou a religiosa lue me seria iacil usar de dispensa sem que alguem o
tom severo: «Aconselhaes-me
soubesse; porém i{ad.' Luiza replicou em
logo a hypocrisia ? Não permitta Deus
ceo cousa que receie seja vista na terra
devemos ser, e não temamos em Parte
Uma senhora de Pietlade dizia á
creada n0 seculo como con-
que sendo ella oe compteição tão branda, e
tão austerg como o das car-
vinha á fllha d'um rei, professasse instituto
a Princeza' o que mais
melitas. «B etl, minha senhora, lhe respondeu
tendes litlo o Evangelho,
me admira e a vossa a6miração; nois de certo
particulares para as compleições
e sabeis que elle não offerec, ,tpeiificos
delicatlas, nem para os filhos dos reis, com que possam salvar-so sem
0s que tanto exaltam o
fazer penitencia., outra vez dizia:
«Enganam-se
nem havêl-o feito' mas sim
o
meu sacriÍicio. Nunca me custou o fazêl-o
o ter sido obrigafla a demorar por tantos annos
a realisação d'elle'»
Prioreza, advertiu
Em certa occasião de recrãio, I\Iad.. Laiza, senilo
da grade' Pof
pela seguntla \e7. a uma religiosa que se vie-sse embora
que estavam á .rpr* cl'ella. i
reügüsa, cletida pela curiosidatle d'ouvir
que tam bem mui'
o final rl'uma porrrgr* que Ihe contavarn, respondeu,

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j-

192 CATECISITO

tas vezes acontecia estarem á espera da Madre prioreza.


«siffi, respon-
cleu a Prelada; mas póde ser que
entre nós l?aja diversas razões.»
quer outra superiora se teria por muito Quar_
moderada se se contentasse c,m
oppÔr a uma linguagem tão iireverente estas
palavras tão leves,
e verdadeiras; mas a Princeza julgou que se tinha deixado levarlaconicas
de so-
lierba. com este rem.rso rança-só rogo aos pes
de suas Íilhas, beija a
terra, e pede. perd.ão de ter querido pó. uqo.ire
modo justiÍicar-se, ex_
:
clamando «Eu
.fui sempre ,m, orgolhosi ; 0, depois d,haver
cleixado
tudo, acho em mim loucai oeticaaezas"d'amor
propriõ .» Talvezeste
rasgo
não excite mais q.or 0 desprezo dos muncl*..,
que seguem 0s farsos
principios do pundono.; muJ eile será
,ugorrÀrnte admirado por todos
aquelles, que conhecem a excellencia e o pl.uço
da humaniclade christã.

ced
da
de
artigo ,que não tinha podido deixar de emencrar
aquella no Íim das resoloiorr: «sereis fiel em ad-
ver[ir e Madre de suas falias.,
De nada se aterrava Luiza na morada dos pobres.
EIIa, que toda a
ora, como suas irmãs, camisa e len_
no grosso, alpercates de corcla sem
rosseiro. Tinha um unico veslido, e
o ; de sorte que no ilecurso de de-
zesete annos, que foi carmerita, teve tres habitos,
o urtimo dos quaes lhe
durou oito annos. Não havia pintura mais exacta
da pobreza, qou o ,.o
habito enxertado de remendos novos, que o torna'am
de differentes cô-
res. Querendo certa religiosa obrigal-i a tomar .utro, Ihe
disse que se-
ria vergonhoso para a communidaàe, se alguem da familia real
a visse
tão mal trajada. Reprehendeu-a a princeza, dizendo: «pois já
agora será
' vergonhoso seguirmos o espirito do nosso santo instituto igno"..
r a mi-
familia que Íiz ,oto cle pobreza, e que eu, n0 lugar
lru
devo ser a primeira a dar o exennplo ?»
,,r"qo, est,u,
['or muito tempo esüeve Luiza na cella mais triste e incommotla
quo

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DF PERSEYERANÇA. r93

havia na casa. Quizeram as freiras que se Íizessem n'ella muitris reparos,


que a mesma Madre teria Julgado necessarios para qualquer outra reli-
giosa; porêm ella teve que para si eram desnecessarios ; e não consentiu
que se Íizessem. Às vidraças uniam tão mal, que o vento que entrava
lhe apagava dentro a luz. Lúza o que fazia eru calafetal-as com papeis,
sendo obrigada a renovar esta operação todas as vezes que as abria.
Àcontecendo estar doente, e tendo a cama na enfermaria, proposeram'
lhe que passasse para 0 quarto onde costumava receber a familia real,
mas ella 0 recusou formalmente. E como as Princezas suas irmãs a vies-
sem visitar, e se juntassem com as mais religiosas, instando corn ella,
para que se mudasse para aquelle lugar, onde estaria mais a commodo:
«Sim, respondeu ella, não duvido que Íicarei mais a commodo; mas não
é o mais commodo que aqui se vem buscar ; e tanto doente como sã não
me devo esquecer que sou Carmelita.»
Toda a comida que the apresentavam achava deliciosa; e temendo
sem duvida que exagerassem os sacriÍicios que fazia a Íilha d'um rei, su-
jeitando-se a um refeitorio de Carmelitas, continuamente aÍlirmava que ti-
nha escrupulo do prazer que sentia em comer a sua raçã0. «Em Yersailles,
dizia ella muitas vezes, nunca houve cosinheiro que soubesse fazer um
jantar tão saboroso como aqui o fazem, o jejum e o trabalho.» Uma boa
irmã, que tratava da cosinha, julgando ter adquirido, desde a entrada de
Mad.' Laiza, algum talento n0 seu oÍlicio, e'que já ninguem lhe punha
duvida, dizia para as religiosas : Yêdes r,ós como este paladar de prin-
ceza gosta das nossas aboboras ?.. Já agora espero que se não diga que
nós não entendemos nada de cosinha. Uma irmã cosinheira tinha tirado
'da despensa uma alcachofra toda pôdre, com intenção de a lançar fóra ;
mas outra freira inadvertidamente a misturou com as outras, 0 â trouxe
para 0 refeitorio. Sabendo d'isto a cosinheira, estava esperando que lh'a
tornassem a mandar com alguma reprehensã0. Como porem visse que
não voltava, conciuiu que tinba cahido por sorte á prioreza. Não se en-
ganou ; Mad.' Luiza, recebendo á sua parte aquelle legume, percebeu que
es[ava pôdre ; porem não se deu por achada, e o comeu. A cosinheira,
mortiflcada com este pequeno incidente, foi dar suas clesculpas á Priore-
za; e esta lhe respondeu: «Não houvc perigo, porque me cahiu em sorte i
l3

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l9l* cArccrsilo

mas tendê cuidado que não mandeis outra vez cousa semelhante para a
mesa, porque as outras irmãs não terão tão bom appetite c0ffi0 0u.»
Durante a sua estada em Paris, quiz o rei de Suecia visitar ilIad.o
Luiza, cujo heroico sacriÍicio tinha excitado a admiração de toda a Euro-
pa. Entrando na cella da Princeza, e não vendo mais que um cruciÍixo,
e por unica mobilia uma caixa e uma enxerga sobre dous bancos. «Como
assim, exclama Gustar'o, habita aqui uma Princeza de França !» «Que dor-
me aqui melhor que em Yersailles, respondeu Mad.' Lluiza, com a saude
e boa disposição que me vêdes, cousa que d'antes não tinha.» Então lhe
contou ella miudamente quat era a comida ordinaria e as occupações
d'uma Carmelita. Depois o levou ao refuitorio, e lhe mostrou o lugar
oncle se sentava no meio das freiras, e a copa do seu uso, que consistia
d'uma coltrer de páu, uma taça de barro, ê uma pequena quarta do mes-
m0. Pasmava do que via, e ainda mais do que não via em torno d'uma
grande Princeza, este rei do Norte, e possuido de sentimentos bem seme-
lhantes aos da rainha de Sabá, quando contemplava a sabedoria de Sa-
lomão no meio da sua magnificencia, não cessava de admirar a bem maior
sabedoria d'aquella, que sabia actrar a felicidade na privaç.'to e desprezo
de todo o fausto. Não podia crêr o que via, e reparando na pura satis-
fação e ingenua alegria d'uma Princeza, que todos os dias se sacriÍicava
aos rigores da penitencia. «Em toda a citlade de Paris, exclamou elle,
em toda a França, Roma e Italia, nada vi compàravel á maravilha, que
encerra o Convento das Carmelitas de S. Diniz. »
Entretanto tinha Mad.' Luiza lançado na balança da divina justiça
uma grande expiação dos crimes do seu seculo. E quem sabe se ás he-
roicas virtudes da real Carmelita deve a França a conservação do sagra-
do fogo da fé, que a impiedade não pôde ertinguir em rios de sa.ngue 7
Como quer que fosse, chegou o dia da recompensa, e este anjo d'oração
e expiação sahiu da terra do exilio a 23 de Dezembro de '1787.

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DE PEIiSEVERANÇÀ. t9ü

,4,

oRAÇAO.

0' meu Deus t que sois todo amor, eu vos dou graças por haverdes
opposto aos escandalos do mundo tão bellos exemplos de virtude; per-
mitti, Senhor, que temamos aquelles, e imitemos estes.
Eu protesto amar a Deus sobre todas as cousas, e ao proximo co-
m0 a mim mesmo por amor de Deus; e, em testemunho d'este amor,
rutnca lerei lioros suspeilos,

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LIV." LIÇÃO.

0 Christianismo conservado e propagaü0.

(xvrrr. srcur,o.)

 rgreJa aÍaoada: Dsúados geraesi aãsemblêo concúlúu,lr"


§uppreslão das ordens reltglosas; JuramenÚo exlgldo. -
I)efendida : disourso e procedimenÚo do5 bispo§ n& a''
remlrlêo naolonal.- ÂÚacoda; §Aque e deeÚruigõo dos Úem-
plos; DErrsÀ »r uz!.o; I)efendida; marÚyreB na fgreia dos Car-
meliúas I o padro f'enelon ; Glero de Neverr ; IrisÚoria do
Fran-
d'Eer-
or lre-
reger i progresso da rellgiãri nol DrÚados-unldos ; tispõo
da Coré&. - Quadro da reltglóo desdo o Gr>meço do leculo
deolmo-rrono.

Agora temos que desenrolar diante de vós um medonho painel: ides


vêr em que pára uma naÇão abandonada de Deus; oxalá que a lição vos
aproveite. A conjuração diabolica, que jurára aniquilar o Christianismo,
fortifica-se de dia para dia; a impiedade e devassidão que ella prégava,
tornavam-se objecto de moda. Debalde o Senhor mandou seus avisos,
para que a França se convertesse a elle ; debalde Ihe annunci ára, pela
bôcca de seus ministros, QUê sobre ella viriam horriveis castigos, em pre-
miô da sua obstinaqão : os coniurados phitosophos, espalhados por todo
o reino, respondiam a estas advertencias com o rir do impio, e com o
grito que, algumas horas antes da morte de Jesu-Christo, retinia pela pri-
meira ver nas ruas de Jerusalem : Ndo queremls que reine sobre nos I
Com effeito, Deus retirou-se.

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| 98 cATECrSlro

Então os impios mctteram mãos á obra, e juraram sepultar no mes-


m0 abysmo a religião e a realeza. Em ,1789 reuniram-se em yersailles
os estados geraes, para discutirem os meios cle pagar as cliviclas clo es-
tado. a impieclade, que dominava na assemblêa, nÍo tardou a manifes-
tar o seu odio contra a religiã0. Ella declara que todos os bens eccle-
siasticcs pertencem ao estado; prohibg a entracla cle noviços nos Conven-
tos; supprince logo depois as ordens religiosas i E, à Íim cle as ex[inguir
para sempre, apoderaram-se de suas casas e rendas. 0ra, havia em França
n'aquella época, mais de doze mil mosteiros, conventos, priorados, e ou-
tras casas religiosas d'ambos 0s sexos, successivamente fundadas pela pie-
dade.dos reis, principes e particulares; e gue, como temos mostrado,
PrQstavam gervjços os mais importantes. Disseminadas pelas cidades,
campos, e aÍó pelo meio:dos bosqrrcs, eram em toda a parte asylos aber-
tos á r'irtutle, e âs sciencias, contendo os mais d'elles monumentos anti-
gos, bibliothecas e outros preciosbs objectos. Estes numerosos e admira-
veis estabelecimentils, t{o uteis á mocitlatle, ao infortunio, 0 â tQrJas as
elasses em gual clesappároceram e mais quan[o possuiam. A philosophia,
armada do camartello revolueionario, destruiu:etr urn irntante a obra dos
searlos (,t). :

Derribadas as ordens monasticas, dirigiu a impiedade os'seus tiros


directamente contra a Igreja. Quando o inimigo destroe as primeiras
for[iÍicações, passa logo a escalar a praÇa. A assemblêa pois, promulgou
um decreto scismatico, com o titulo de constituiçdo ciail do clero, to
qual exigia que os sacerdotes a jurassem e observassem; isto é, que ab-
jurassem a fe catholica e a submissão devida á Santa Se. Mas Deus que
do alto do ceo velava pela FranÇa, como parte escolhida da sua herança,
desconcertou de repente os planos da impiedaCe. Heroicos confessores
da fe deram ao ntundo um espectaculo dos mais brilhantes que oÍlerece
a historia da religião. Era chegado o dia em que, segundo o clecreto. da
assemblêa nacional, todos os ecclesiasticos membros d'ella, deviam deno-
minada e individualmente ser intimaclos para prestar juramento, p0-

(1) Resumo das Lemorias da Revol., p.221.

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DE PERSBVERÀNÇ.{. {99

do clero ; isto rá'


rante 0 corpo legislativo, de manter a c0nstituiqão civil
verdadeiros princi-
como já clissemós, de renunciar solemnemente aos
inimigos' para pre-
pios da fe catholica. Nada tinha esquecitlo aos seus
em volt'a
parar-lhe a derrota, e Se assegorriem da victoria. Reuniram
que' de'
da Sala, e petos corredores, caterva de malfeitOres assalariados
quando
pois de vomi[arem mit injurias contra os bispos e sacerdotes Íieis'
de ser intimados para
ãstes se dirigiam á asseml-rlêa, no dia que haviam
Não se
prestar o jurimento, faziam retinir a sala com gritos e ameaças'
jurarem; ao
ãuvia ,rnáo gritar: «llorram os bispos e padres que não
lampião com elles !!»
Adver[iclo por este signal que era tempo de começar o ataque,
le-

vanta-se o presiàente, e tomando a lista c6meça a chamar os ecclesiasti-

cos, que haviam de jurar. 0 primeiro que intimou foi [I' de


Bonac,
os sacri-
bispo Agen. usenhorei, responcle o Prelado, pouco me custam
Íicios da fortuna, mas ha um que não p0ss0 fazer, que é o da vossa es-
que perderia uma e outra se pres-
tima e da mintta fe. Muito cer[o estou
pronunciada com
tasse o juramento que tle mim exigem.» Esta resposta,
gravidaãe e decenãia, captivou por um momento a admiraÇão ou
antes

ieprimiu os primeiros impetos do despeito da esquerda (l).


do
O presidente intima em segundo lugar a M. Fournel, da diocese
parocho, YÓS preten-
mesmo prelaflo. «Senhores, disse tambem o digno
Christianisrlo.
destes de certo transportar-nos aos primeiros seculos do
t
pois bem Com todi a simplicitlade d'esses ditosos tempos da Igreja
que tenho a gloria de seguir o exemplg que o meu prelado me
digo,
'os
acaba ãe Aãr. Seguirei 0s seus passgs, comg o
diaeano Lourenç0, os de
estares-
xisto, seu bispo. sim eu 0 acompanharei ao martyrio.» ouvida
posta, comeQaram os inimigos do clero a arrepender-sê de lhes terem
âacto occasião a tão publico e brilhante testemunho
da §ua constancia na
fé. Totlavia, como contassem não achar a mesma Íirmeza em todos os
sacerdotes, chamou ainrla o presitlente a M. Leclerc,
pargcho de Carn'
bre, diocese de Seez. M. Leclerc levanta-se e diz: «Eu nasci catholico

ao lado
(1) Assim se designavam os membros cta assemblêa, que se assentaYam
d'e descatlt'olisat'a Flança'
esquàrdo da camara ; . qo. havjam fotmado a conjuraçâo

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200 carEcrsrío

apostolico Romano ; n'esta fe quero morrer; e não poderei conseguil-o


prestando o juramento que me pedis.»
A esquerda não pÔde tolerar mais proÍissões cle fe tão firmes e ex-
plicitas. Para não ouvir mais, requer que se ponha termo á intimação
nominal. M. Banpoil de saint-Aulaire, bispo de poitieis, receiando que
o privassem de tão bella occasião de clar testemunho da sua fé, animado
d'um zêlo que supera a fraqueza dos annos, clirige-se á tribuna, e alli,
diante do presidente, pede que o escutem, e p.onuncia as seguintes pa-
lavras : «senhores, eu tenho setenta annos d'iclade, e trinta e cinco d,e[is-
copado ; e não mancharei as minhas cans com o juramento dos vossos
decretos ; eu não juro. » Todo o clero da direita se levanta, applaude,
o
declara que está unanimements determinado a fazer o mesmo. 0 furor
e a cÓlera pintam'se no rosto dos membros cla esquerda. Levantam-se e
sahem de suas cadeiras; reunem-se em grupos, e detiberam sobre que
hão-de fazer para palliar o opprobrio de sua derrota, e offuscar a bri-
lhante constancia do clero. Dentro da sala retumbam os seus clamores;
de fóra os ajudam os assassinos, clamancro em confusão e tumulto : uAo
Iampião com todos os bispos e padres que não jurarem !» Elles
entretanto,
no meio da tempestade, com aspecto sereno e inabalavel, esperam que
se prosigam as intimações ; que são preciosas á sua fé. pedem, solici-
tam, instam que continue a charnada nominal: e o espectaculo dos anti-
gos confessores, desafiando aos tyrannos cla primitiva Igreja.
Entretanto, das deliberações tumultuarias da esquerda, sahiu um pa-
recer que o jurado Gregorio é encarregado de desenvolver na Íribuna.
Elle falla ao clero da direita, e se esforça por lhes persuadir que a in-
tenção da assemblêa não foi jámais tocar na religião, nem bulir com a
auctoridade espiritual ; que o clero em jurar não se obrigava a cousa al-
guma contraria á fé catholica. «Pedimos, respondem 0s bispos e eccle-
siasticos da direita, que essa cleclaração seja convertitla em clecreto.»
Era este o meitl d'expiar d'alguma sorte os ultrages feitos á religião; mas
não era esse 0 intento da parte principal cla assemblêa. Ella recusa le-
galisar a explicaçã0, e pede em altos gritos qile cm vez da chamada no-
minal, fusse todo 0 clero intirnaclo em geral prra prestar o juramento.
Reformado assim o tlcrcreto da intimação nominal, clisse o presideute:

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DE PERSIIVERÀNÇA. 201

«Todos os ecclesiasticos que aintla não prestaram


juramonto, levantem-se

queado, agora subscrevem a retractaçã0, e pretendem mandal-a para a

mesa. A assemblêa, porem, o não consente; instam, e são de novo repel-


lidos. Todavia, no dia seguinte se publicou pela imprensa a sua conversã0.
Assim terminou este para §empre mem0ravel combate, no qual, em
presença da mais perversa assemblêa, e apesar das ameaças d'uma po-
putaça frenetica, offereceu o collegio dos bispos e sacerdotes de França
,* .rp.ctaculo de profrssão de fé o mais solemne e authentico de que
ha memoria nos annaes da Igreja.
Satriram do terrivel senado por meio dos ultrages e clamores dos

ramos nós, mas elles conservaram a stla honra''


A irnpietlade revolucionaria vingou-se em roubar e devastar os lu-
gares sar:tos. nlais de cincoenta mil Igrejas, capellas e oratorios cahiram
aos golpes clo camartello dos impios. I\'Iuitas outras converteram em casas

(1) Act. Y, 41.

o
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2M' cATEcrsrro

farticulares, armazens, covis d'agiotas e usurarios, cstrebarias, theatros,


e até em antros d'in:pios e assassin,s, com o nornc de clubs.
0s sinos,
cruzes, calices, custodias, vasos sagrados, e toda a especie
cle baixella per-
tencentes ás lgrejas, foram quebraclos, mutillaclos e absorvidos
pelos re-
presentantes do p0v0. Só da diocesse de Nevers
manrlou para paris o
celebre Fouché differentes remessas, uma das quaes era de noven[a
e
um marcos d'ouro e prata, e outra de dezesete bahus, cheios clos mes-
mos metaes tirados das Igrejas (,l)
- Não se contentaram os impios com atacar a0 mesmo Deus ngs seus
templos, ousatam ate insultar a sua divinclade, e substitulr o seu culto
pelo da razd,o. Foi sumptuosamente conduzicla e collocacla sobre o a[-
tar'mór da Metropole de Paris uma prostituta, adornada de grinaldas tle
carvalho, tendo na mão urna lança, na cabeÇa um barrete vermelho, e
aos pes um crucifixo 1... e hottve orclem que esta execravel impierJacle
fosse imitada nas cldades, villas e altleias da França t l'etizmente
a França
não cOrrespondeu a tão sacrilego desejo. Grande numero de sacerdotes,
occultando-se por onde podiam, conservavam nas familias algumas faiscas
de fé, e animavam os Íieis.
contra estes sacerdotes dirigiu, pois, a impiedade toda a sua furia.
Não ha palavras com que se possa exprimir as crueldades de que foram
obiecto. Para referir essas inauditas alrocirlades e de mister uma lingua
nova. Já em agosto de 1,792, grande numero de sacerdotes, prêsos em
Paris, haviam sido .lançados nas cadêas, 0u em conventos transformados
em carceres. Na noute de 2 para 3 de setembro, levaram carrascgs
do hotel de Yille para estas prisões, havendo cuidado antes de os em-
briagar com licores. Estes, armados de sabres e espingardas, arremes-
sam-se, como sanguisedentos tigres sobre as innocentes victimas que lhes

(1) Lê-se no l[onitor dc 14 de Novembro de 1793, o seguinte: Acaba d,entrar


na sala das sessões da convençâo, no meio d'universàes applaueos, e gritos de Viua
a Republiea! am caixâ'o cheio d'escudos, conduzido por dez homens, contendo um
carro carregado d'ouro e prata, vindo do departamento de Niévre.
E no dia 15 da Novernbro traz o mesmo jornal esta uoticia: (o departampnto
da Niévre mttncla, pela terceira, ve4 um rico presente á patria, sào uovàcentas mil
libra,s em'dinheiro, e perto de dois milhôes eur bairella.,

o
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DE PERSEVERÀNÇA. 203

a matança até
designaram. Alagaram-se as cadêas rle sangue, e d.urou
aui foram truci-
0 6ia 7. Tres b"ispos e mais de trezentos sac,erdotes
dados.
a Igreja de
Entre estes estava urn dos prelados que mais ltonraram
arcebispo d'Ar-
França por Suas luzes e virtudes; fallamos de M' Dulau,
em grande es-
les, a cluem os mesmos impios não podiam deixar de ter
tima. Estava elle na lgneja dos Carmelitas com nnais cento e
vinte occle-
que Se
siasticos alli prêsos, esperanclo ser assassinados' Proposeram-lhe
valesse de seus amigos, e allegasse ao menos as suas
enfermidades' para
o mudarem d'alli Para sua casa.
«Nã0, nã0, rôsponrlia elle, 'estou aqui muito bem, e com ryuito
boa
lenitivo,
companhia.» Tão bem estava que não só não_.pedia o menor
era com o fim
mas ainda se alguma vez se prevalecia cla sua dignidade,
de procurar que 0s outros fossem primeiro to
qlu elle p:rovidos do ne'
e nem então
cessario. Na terceira noute cle prisão não [inha ainda cama,
que lhe havia; por que contando os
foi possivel obrigal-o a aceitar uma
que viesse de novO'
colxões, viu que não Íicava nenhum para algnem
0s perversos guarrJas se divertiam a cobril'o ,d'ultrages, por isso
mesm6 que era o de maior dignidatle en[re os
prêsos; mas a paciencia
c0m0 insensivel a todos os máos tracta-
e piedadõ do prelado o tornavam
o mais feliz
mentos. Longe de se clueixar do que scffria, considerava-se
veio um brutal
em padecer mais. Na vespera do clia 2 de Setembro,
juntando
gendãrme sentar-se insolentemente iunto do santo bispo, e
oQue nobre Íigura fa-
crueis ironias e grosseiras impiedat es, lhe dizia:
saudava-o profundamente,
reis sobre a guilúotina t» depois levantava-se,
e distincgão que
e dava-lhe por escarneo toclos os seus titulos de nobreza

a assemlrlêa abolira. «nlonsenltor, accrescentava elle, e á manhã que vão


placido silencio do arce-
matar a v0ssa grandeza.» Mas anobrepaciencia e
do gendarme. Desesperado com isto, ac-
bispo tlesconcertavam a impiedade
a.n,lro o cactiimbo, e sentando-se otttra vez junto do veneral ancião lhe
ate que' achan-
lançava ao rosto bofaradas de fumo. 0 prelado soffre ainda,
mudar de lugar.
do-ie incommoclado com o cheiro do funio, se contenta com
quando vê sua
o bruto segue-0, e não acaba o cruel brinqueclo, senão
grande ho-
propria obstinação vencida pela paciencia cle l'1. Dulau. Este

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20k c.A.rocrsrro

mem estava tão senhor de si, e tão resignatlo com a morte, que acor-
dando-o n0 meio da noute um dos prêsos, por lhe parccer que ouvia
ruido, e dizendo-lhe sobresaltaclo: «Monsenhor, ahi vem os assissioos.»
Respondeu tranquillamente: «pois bem I se Deus guer que morramos,
consumme-se o sacrificio. » E dizendo estas palavras, socegadamente tor_
nou a adormecer. Quando no domin go 2 cle Setembro vieram os carras-

resposta. «E's tu pois, ó perverso,r dizem elles, voltando para o arce-


bispo. «Sim, sou eu.» «E's tu, perverso, o que fizeste verter tanto san-

p0, 0 espera segundo, sem pronunciar palavra.


Adianta-se outro algoz, e corta-lhe quasi todo o rosto. 0 arcebispo
sempre mudo e immovel, Ieva apenas as mãos á ferida. Estava ainda de
pé, sem ter dado um passo para dian[e ou para traz, quando terceira vez
ferido na cabeça, cahiu, apoiando-se sobre um braç0, para impedir a vio-
lencia da quéda. Então um dos homicidas, que trazia um chuç0, lh,o en-
terrou no peito com tal força, que não pôde arrancar o ferro; e togo
pondo um pé sobre a victima, lhe tirou o relogio e o mostrou aos com-
panheiros, como preÇo do seu triumpho.
Tal foi o mar[yrio d'este prelado, Que sacriÍicando continuamente a
sua vontade aos seus deveres, só conhecia os doçuras da sociedade,

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DE PER§EVERÀNÇÀ. 205

os infe-
para Se privar d'ellas ; só estimava as riquezas, para Soccorrer
lizes;enuncatevedesejomaisqueodefazerbem.Nãoadmireisque
para ser a pri-
os jacobinos o houvessem recgmmendado aos algozes,
primeiramente os
meiia victima do seu furor. E1les queriam sacriflcar
a defender pelo talento
homens que, Íieis á religião, eram tão capazes de
titulos metecia o arcebispo
como tle a honrar pelaõ virtudes. Por estes
d'Arles a Preferencia.
soffreram a mesma
Oepois d'este os bispos de Saints e Beauvais
assassinos' deram-se pgr
sOrte. i[orrentlo, porém, nas mãos dos crueis
felizes em derra^tt o sangue pela fé. Se os
mais bispos de França não
escaparam, fugindo' Preferindo'
foram igualmente assassinrdot, ó porqoe se
forOm," o exilio e a
pobreza ao e d'alguma parte de

iuas rendas, que podõriam ter


-terüm
c areligião' mostraram
que tambem preferido, por ver' a morte á apos-
tasia.
começatla a perseguição prisões de Paris, não tardou que se
nas
"e
estendesse pela capital provincias. uma das acções, porém, mais in-
a impie-
digRas e imprecatüas das maltlições do genero humano contra
padre Feneloo, tão
dade revolucionaria, foi o assassinato do reverendo
justamente chamado o pae dos orphã'os' r^ grande
descendonte do --^- ar'
Este venerando ,áho,
cebispo de Cambraia, do me§mo ome, a nas virtudes'

era sobremaneira notavel pelo )lo co pobres conhe-


Amava elle esta pobre gente
cidos em Paris pelo nome do Sat' oyard'os'
em tudo que podia' 0 que'
c6mo se fossem seus filhos, e os soccorria
por que os conside-
porém, lhe tlava mais cuiclado eram os mais moços'
de perigos. Tinha
rava mais necessitados e expostos a maior numero
pobres meninos'
um armazem de camizas, oesiidot e sapatos para estes
eram necessarios' e de
alem de boa provisão dos instrumentos que lhes
que muitas vezes careciam para ganhar suav lon por
eltes estes objectos, seguntlo suas particulares
sempre

a porta aberta a estes filhos; mas havia dias


em que
dar cOnta dO seu prO-
deviam comparecer, para expôr Suas necessidades,
cedimento, ou receber lições de moral e religião

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t

206 cArEcrsffo

Tan'to que tinha instruido um certo numero d'elles, designava-lhes


o bom padre um domingo para receberem sua primeira communhão.
Para isto se dispunham por exercicios espirituaes, no'fim dos quaes
se
reconciliavam no tribunal fla:penitencia; e paraque 0 aceio
do coipo cor-
respondesse á pureza da alma, dava-lhes n'essà dia vestidos
novos. a
Communhão celebrava-se com a maior magnificencia era ordinariamente
;
um bispo, Que aclministrava o pão dos Anjos a estes meninos, e um dos
mais celebres oradores de paris rhes pregaya o sermã0, no Íim ,o qual
renovavam as pr0messas do baptismo. Esta ceremonia religiosa lhes
com-
movia o espirito e os' sentidos, deixando quasi sempre em seu coração
improssões indeleveis.
0 zélo e caridade que anima'a o padre Fenelon, lhe inspirou um
meio particular de conseguir que 0s pequenos Savoyarilos se cómportas-
sem como homens de bem. Mandou fazer uma porção de merlaihas 6e
cobre, com sua inscripçã0, {ug indicava serem clistinctivo de honra e pro-
bidade. custava mui[o a merec.er esta recompensa, e só se obtinha de-
pois de reiteradas provas de docilidade e bom comportamento. 0 menino
condecorado estimava a sua medalha como joia preciosa; fiazia-a muitas
vezes, e a apresentava sempre que carecia de recommendaçã0. ,Dste
distinctivo era conhecido dos agentes da policia, e dava grande conside-
ração ao condecorado.
Às rendas do padre Fenelon, que se limitavam a um, modico prio-
rado, não'' chegavam para torlas as boas obras que e[e desejava fazet
;
mas quando se lho esgotavamr promovia subscripções pelà côrte e pela
citlade e casas opulentas, onde tinha entrada. Usava particularmente d'este
meio' om tempos dê calamidades. «Tenho, clizia elle.ás pessoas a quem
pedia, grande numero de Íithos espalhados por todos os bairros de paris;
solicito soccorros, para provêr ás necessidades d'esta pobre e numergsa
familia.» O povo'da cidade lhe conferiu o titulo honorifico de bispo d,os
pequenos Sarsoyardos. :

Parece que um horoem que assim:serviâ de pae aos Íilhos do povo,


devia ser; não só respeitado, mas ate protegido e amado d,aquelles, que
sós 'se diziam amigos do povo. i\Ias estes hypocritas desde logo mostra-
ram, gue 0 seu pre[e ndido amor do povo não e senão uma palavra vã.

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DE PEASEYETIANÇÀ. 207

c6m que rebuçâm a sua ambição. Apesar clos continuos serviços, que
prestava aos desvalidos orphãos, que vagueiam pela capital, foi prêso o
padre Fenelon na idacle de oitenta anngs, c0m0 suspeito, e lançado na

tempo estiveram a cargo do seu zêlo e beneÍicencia. Era elle'padre, e


nobie, mas era affavel e compassivo; por consequencia' era patriota'
«Este homem tão amado de nossos corações, e, ousamos dizêl'0,
tão util á humanidade, e o cidadão Fenelon, de idade de oitenta annos,
prêso nas cacléas do Luxembourg, por medida de segurança geral. Bs-
tamos longe cle condemnar esta medida ; respeitam6s a lei ; mas os ma-
gistrados não tem obrigação cle conhecer este velho como nós, seus fi'
lhos, o co nhecemos.
.«0 que pedimos, cidadãos representantes, é que esle augusro se-
natlo haja por bem permittir, que o nosso pae seja solto debairo de nossq'
responsabiliitad,e. Catla um de nós está prornpto a Íicar no seu lugar, e
nos offereceriamos a Íicar todos juntos, se a lei o não vedasse. '

«Se porem a nossa gratidão nos torna indiscreto§, ordenai cidadãôs


legisladores, que um prompto processo vos dê a con'hec6{ o nosso pae.
Seguramente tereis quo applautlir suas virtudes physicas; e será tão
suave para seus Íilhos expôr-vos essas virtudes, como consolador para
seu pae, receber o testemunho da vossa iustiça e reconhecimento.»

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208 CATECISMO

o que acaba de lêr esta petição a deposita sobre a mesa, Íirmada


com o signal «Fmurxo, em nome de todos os seus companheiros.,
À assemblêa contenta-se com orcienar que seja remettida á junta ile
segurança publica: era mantlal-a aos que mais queriam a morte do pa-
dre Fenelon. «A commissão de segurança publica t exclama horrorisarlo

o bemfeitor e amigo das choupanas dos pobres.» Este brado de clôr fi-
Iial não abrandou os ferinos coraqões dos sans-collotes.
Augmentando-se cada vez mais o terror, conheceu logo o paclre Fe-
nelon que cumpria preparar-se para o sacriÍicio da sua vida. Redobrou
de fervor em seus piedosos exercicios, tornanclo-se exemplar de resignação
para aguelles que com elle es[avam em ferros. 0 seu exemplo fez summa
impressão nos outros prêsos e inspirou a muitos os mesmos sentimentos
que animavam o benemerito sacerdote. Elle os ouvia de confissão e dis-
põz para bem morrerem. um d'estes meninos savoyardos, que o padre
Fenelon instruira e soccorrêra, estava agora chaveiro da prisão de Lu-
xembourg. Como reconhecesse o seu bemfeitor entre as victimas des-
tinadas á morte, transportade de dôr correu para elle, e abragando-o es-
t
treitamente, exclamou: uMeu pae, meu pae que é isto t... ides a mor-
I
rer vós, que toda a vida Íizestes bem t» E assim abraçado o impedia
de caminhar quando os gendarmes o iam conduzindo ao cadafalso. 0 r,e-
nerando velho então lhe disse: «consola-te, meu filho, a morte não é
um mal para quem já não póde fazer bem. A tua gratidão é n'este mo-
mento para mim bem suave recompensa. Adeus Jose, lembra-te algumas
vezes de mim !» «Ahl respondeu elle, nunca me esquecerei cle vós...»
e dizendo isto o pobre homem se debulha em lagrimas. O castigo d,esta
fllial piedade foi privarem-no do seu cargo.
0utro Savoyardo, a quem Fenelon tinha instruido e administrado a
primeira communhã0, e que se achava tambem entre os prêsos c0m0
suspeito, veio da mesma sorte, chorando, abraçal-0, exclamando : «ah t
'tambem vós, meu pae ?t «Não chores, respondeu Fenelon
enterneciclo,

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DD PBRSTTYBRANÇA. 209

não chores, cumpra-se a vontade de Deus. Ora por mim, que se eu fôr
para o ceo, c0m0 cla misericordia de Deus espero, asseguro-te que terás
Iá em mim um grande protector. »
0 padre Fenelon foi condemnado pelo tribunal de .sangue a 28 tle
Junho de 179L. Subido á fatal carroça com mais sessenta e oito victi-
mas, todo o caminho as exhortou a cletestar suas culpas, ter confiança
em Deus, e offerecer-lhe com resignação o sacriÍicio de suas virlas. Che-
ganclo a0 cadafalso, redobrou seus esforços, e os exhortou a fazer actd
de verdadeira contrição; depois do que, inclinanclo todos humildemente
a cabeça, pronunciou sobre elles as palavras da absolviçã0. Testemunltas
oculares asseguram, que o proprio executor, enternecido com o aspecto
do venerando padre Fenelon, se iriclinou tambem. Quasi todos os prê-
sos edificaram 0s espectadores pela resignação com rlue receberam 0
golpe.
Assim morreu este velho octogenario, que toda a sua vida honrou
a religião por suas virtudes, e a humanidade por seus serviços. Homem
simples, mas activo ; obscuro, mas integro; foi elle mais uma prova de
que um só padre, animado do espirito do seu estado, faz mais serviços
em um dia, que em toda a vida os nossos modernos doutores, tão ricos
em projectos e tão fecunclos em ideas liberues.
Ao passo que 0 padre Fenelon e grande nurnero tle sacerdotes,
morrendo nos patibulos, davam testemunho da fe com o seu sangue, mui-
tos mais ainda a confessavarn nas masmorras infectas, onde a impiedacle
revolucionaria os tinha amontoados. Estas santas victimas contam-se
aos milhares, e seria impossivel referir todas as privações, ultrages, dis-
sabores e máos tractos gue supportaram. Nunca as prisões de Constan-
tinopla e Tunes foram theatro d'iguaes horrores, e apenas os primeiros
christãos, encerrados nos carceres de Nero e Diocleciano, podem soffrer
comparaÇão com os modernos martyres francezes. Basta dizet, que a im-
piedade, furiosa por não ter podiclo §encer a coragem do clero, e obter
d'elle juramentos sacrilegos, dóra aos seus agentes a ortlem satanica t/c
lhes esgotar a Ttactenciu.

lt+

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t

2lo CÀTECIS]UO

Escutemos um dos veneraveis confessores, que escapou d'entre tantas


victimas (l).
Elle mesmo vai referir o que viu e soffreu. Ainda que diversa pelas
circumstancias accessorias a sorte dos padres Íieis das differentes dioce-
ses de França, ella foi essencialmente a mesma que a dos padres de Ne-
vers. Não se lhes offerece por toda a parte senão o carcere, a miseria,
o opprobrio, e a morte. Todos dão igual exemplo.de mansidão, resigna-
çã0, serenidade e até alegria angelica. A particular memoria que vamos
escrever, póde por tanto considerar-se como a historia geral do clero ca-
tholico francez de lTgZ a 1795. 0s'primeiros christãos ouviam com
profundo respeito a leitura das actas dos }lartyres, e d'ellas cobravam
novo animo. Aproveitemos.nos tambem da leitura d'estas linhas, traçadas
por um confessor da fé, sobre as palhas hurnidas d'um calabouç0.
« Depois de quinze mezes de reclusã0, já na Igreja de Notre-Dame,
já no grande seminario transformado em prisão, soubemos que havia or-
dem de nos deportar para a Guiana, e conduzir-nos a Nantes, para ahi
sermos embarcados. 0s nossos guardas e os membros da junta se apres-
saram como á porfia a despojar-nos de todos os trastes; e o pouco que
nos deixaram, foi transportado a uma barca, que nos esperava perto da
ponte.
«Chegou emfim o dia da partida, que foi a 14 de Fevereiro de l79t+.
Tinham dado nove horas da manhã quando recebemos ordem d'embar-
car. Eramos uns quarenta e oito prêsos, e trinta e dois passavam de ses-
senta annos. Fomos encadeados dous a dous, e obrigados a passar por
entre duas alas de guardas nacionaes, que contra nós vomitavam inju-
rias, em quanto que o povo nos esperava em tropel nas ruas e sobre o
caes. Causava emoção vêr estes sacerdotes, a maior parte de cabellos
brancos, carregados de ferros como criminosos, e conduzidos á morte,
só pelo crime de serem sacerdotes. Muitas lagrimas se derramaram á
vista d'este espectaculo. Quando eu entrava no barco, quiz minha mãe

(1) M. Imbert, Conego Arcypreste o actual Parocho tla Sé Cathedral de Ne-


vers; gue falleceu em 1841.
Nota cla 5." etligâo.

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I

IIE PER§EVEnANÇA. 2l,t


rêr-me pela ultima vez, e offereceu certa quantia á mulher do carcereiro,
para obter d'elle este favor, mas não lhe foi concedido.
«Amontoaram-nos n'uma estreita barca, onde encontramos mais treze
padres vindos d'outras prisões da cidarle, e condemnados como nós
á deportação. Ficamos sendo ao totlo sessenta e um. Depois de nos te-
rem passado em revista, lançamos os olhos em despedida para a cidarle,
que nOs viu nascer, e para o seminario, que nos serviu de berço sacerdo-
tal; e ultimamente de prisã0. Depois de dizer do fundo do coração um
ultimo adeus a tudo o que nos era tam caro, resignamos-nos, e espera-
mos em paz o momento'da partida. proximo da nossa barca estava um
batel guarnecido por dezeseis guardas, encarregaclos de nos escoltar, 0u
antes de nos tirar o pouco dinheiro que nos restava, e ate o nosso mes-
quinho alirnento. À diligencia que Íizemos por abranda[-os, repar[inclo
com Blles do que diariamente se nos dava, servia de os tornar mri, lrr.-
baros. Seu procedimento intoluntariamente nos fazia lembrar os d,ez leo-
ytardos, istoé, 0s dez soldados romanos, que acompanharam a Roma
santo Ignacio d'Antiochia. Davamos-nos, pois, por muito felizes em ter
alguma semelhança com tão illustre mar[yr.
«Levantou aocora emfim a pequena embarcaçã0.
« 0 tempo era má0, o tento oeste que
soprava retartlava 0 barco ;
de sorte que por muito tempo estivernos á vista d'aquelles lugares, que
tantas Yezes visitaramos, e que a maior par[e d'estes desterraclos não
Íornariam a vêr. Dcsde 0 momento da partida nos protegeu a Divina pro-
videucia sensivelmente. O mesmo r,ento contrario, atrazando a viagem los
salvou a vida; pois se chegassemos a0 termo alguns dias antes, nem um
só escaparia á morte.
«Quando chegamos perto d'Orleães, os guardas me Íizeram saltar
em terra; e o chefe, que não sabia escrever, me obrigou a escreyer-lhe
uma carta, dictada por elle, na qual informava o club de Nevers que a
escolta não tinha tido occasião de se desfazer de nós; entretan[o estava
satisfeito da nossa submissão e brandura. comtudo, se não fomos afo-
gados no rio, devêmol-o á probidade clos barqueiros encarregados'rle nos
transportar a Nantes.
«Para se consolarem clo clissabor de não terem poditlo lançar-nos ar,r

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212 CÀTECISUO

rio, 6iziam.n0s continuamente: «temos direito de nos desfazer tle vós,


degolanrlo-vos ou afoganclo-vos ; e se o não poclérmos fatu no transito
fal-o-hemos em Nantes, onde já não tereis protectores (os barqueiros);
lá é que se hão cle jogar as ultimas. Mas nem será preciso ir tam llnge.»
Ao som d'estes discursos, chegamos a Tours- Àhi recebemos numerosos
insultos, bem comg em Pont-du-Cé, onde alguns soldados chamados vo-
luntarios, vendo-nos abordar, diziam :
« Ahi yem com que engordar os nossos saveis t » Pernoutamos em
immundas enxovias, sem mais sustento que pão e agua. A populaça,
persuaclida que iamos ser lançados n0 rio, vinha gritar-nos ás frestas da
prisao : o Dai-nos cá as cedulas, lançai-nos tudo o que vgs não é absolu'
tamente necessario, pgrque ides ser afogados. » Estas ameaças
porém
não se veriÍicaram.
Partindo de Ponte-du-Cé, riamos a cada passo, fluctuand0 nas
o
aguas ou estenclidos pelos rochedos e areaes, cadaveres garrotados; e
dúrou este espectaculo de tão triste agouro, desde Bonchernaine ate An'
gers, onde se faziam então numerosas execuções. Ao mesmo tempo co-
ãorÇr*or a vêr pela margem esquerda clo Loire as lavaredas das aldeias
e villas cla Yenclée, incenrliadas pelos exercitos republicanos'
No dia {3 de Nlarço clesembarcamos em Ângers, n0 meio da po-
«
pulaça irritada, que nos [omava por Yandeános condemnados á morte'
'0s dinheiro e cédulas que ainda levava-
guardas extorquiram-nos algum
*or, clizendo que estavamos chegados ao ultimo momento, e promet-
vol-
tendo-nos cgmtúdo, debaixo de juramento, que nol-o restituiriam se
o remetteriam ás nossas fa-
hssemos para 0 barco; ou Se mgrressem6s
milias: nunca o tornamos a vêr. Fomos conduzidos alas
entre duas ao
paço Episcopal, oncle funccionava d'assento o tribunal revolucionario. Alli,
a pretôxto ãe revista, ngs clespiram quasi de todo, e assim Íicamos oito
noras fle pé, soÍfrendo ultrages e ameaÇas de toda a especie' Um
mem-

krro tlo tribunat dizia cliante cle nós, a um dos guardas : «Foste bem tolo
no fundo ?...»
em 0s trazer cá; porque os não metteste
«Depois de nos tirarem a r0upa branca, os lenços_ e breviarios, di-
vidiram-nos em tres levas, e fomos conduzidos separadamente ás enxo-
vias tlo castello, onde estivemos onze dias, nã0 tendo por alimento dia-

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Dri PERSEVERATiÇA. 213

rio mais que um p0uc0 de máo pão e meio copo d'agua, e por cama umas
palhas infectas. Estava c0mn0sc0 um velho d'oitenta annos, e trinta sexa-
genarios, todos achacados e doentes I
« A {3 de l[arç0, pela meia noute, fomos barbaratnente tirados das
enxovias. 0s guardas e barqueiros de Nevers tinltam-nos deixado, 0 o
chefe da nova escolta, que havia de acompanhar-nos a Nantes nos fez
algemar, ou antes nos algemou por suas mãos dous a dous, compondo-
se a escolta de cincoenta soldados. Estando assim encadeados nos entre-
gou aos soldados, dando-lhes esta voz barbaramente eguivoca: uÀo rio,
marcha !» No mesmo instante nos levaram quasi de rojo ao porto. Des-
de a uma hora ate ás sete da mantrã alli estivemos de pe ou sentados
nrs pedras, expostos a um vento norte glacial, em quanto foram buscar
ás prisões da cidade quinze sacerdotes septuagenarios,d'Angers. Chega-
dos estes, entramos todos na barca, que nos esperava, ficando tão aper-
tados, que cada um não tinha mais espaço que 0 d'um pé quadrado.
«Iam os soldatlos bem accommodados em uma barca canhoneira,
cujas peÇas apontavam contra a nossa para a metter a pique, n0 caso
que do lado da Yandce viessem alguns paisanos a querer-nos libertar.
A nossa paciencia, em meio de tantos soffrimentos physicos, irritava os
soldados, a ponto gue um d'elles saltou á nossa barca, trazendo nas mãos
um cruciÍixo de marÍim, que nos roubára, e começou a dar-nos com elle
no rosto, acompanhando esta acção diabolica com as mais horriveis blas-
phemias. A estes maus tratos esforçamos-nos por corresponder, a exem-
plo de Nosso Divino Mestre, fazendo-lhes bem. Cahiu um soldado no
Loire, d'onde o tiraram l,ransido de frio. Um dos nossos collegas despiu
logo o seu vestido, e lh'o enrprestou para que o vestisse, ate que o seu
estivesse sêcco. Esperavamos quc a alma d'este soldado se havia de en-
ternecer, e que devolveria mui agracleciclo o vestido com que salvára a
!
,r'ida, aquecendo-se. Baldada esperança Quando ao ou[ro dia o nosso
companheiro lhe pedia o seu unico vestitlo, recebeu insultos com a res-
posta de que o não dava.
«EmÍim a lõ de llarço chegamos á vista de Nantes. Faltava-nos o
pã0 destle que sahimos d'Angers, isto é, bavia dois dias. Entretanto
estivemos todo esse clia estacionarlos na llarca e estalando de fome, ate

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zltr- cATECrsuo

ás nove horas da noute, em que fomos conduzidos ao porto da Sech,erie


para junto d'uma galeota capturada aos hollandezes, em cujo porão ha-
viamos de ser recolhidos. 0s bcns dos nossos velhos, extenuados de fa-
digas e privações, mal podiam subir ao convez pela escada do navio,
nem descer depois ao porão por outra de cordas. Como porem, alguns
0 não podéssem absolutamente fazer, os soldados lhes passaram cordas
por baixo dos braços e assim os içaram, deixando-os depois cahir com
todo o pêso do corpo no fundo do carcere, por cuja queda um d'elles
quebrou um braç0. Antes de os precipitar n'esta especie de sepulcro,
tinhani 0s soldados acabado de os despojar dos vestidos que lhes res-
tavam.
«Entramos na galeota, sendo noute escura, no meio das mais espês-
sas trevas, Íatiga(os, pisados, desfallecidos. Buscamos, palpando, onde nos
sentassemos ; .mas o. navio que, quarrdo muito, apenas poderia alojar
quarenta passageiros em boa saude, sendo nós setenta e seis quasi to-
dos doentes, não nos offerecia outras camas ou cadeiras senão a quilha
e cordas alcatroadas. Não tardou que sentissemos que estavamos metti-
dos em agua, e julgamos chegada a ultima hora. Felizmente a agua não
augmentou durante a noute, nas póde julgar-se quanto nos seria impos-
sivel repousar. Alem d'isto estava sobre o convez um corpo de guat-
da, cujos soldados pareciam apostados a não nos deixar dormir. De-
pois de rnuito bem fechada a escotilha, unica abeÉura por onde o ar
podia renovar-se n0 porã0, quasi toda a noute dançaram por cima de
nossas cabeças. Fingiam-se enthusiasmados, fazendo um tropel horrivel,
e cantavam cantigas obscenas, jogando-nos baias e injurias grosseiras.
Este ttrmulto aggravou a nossa cruel situaçã0, e muito nos admiramos
pela manhã d'estarmos ainda vivos.
«Apesar d'isto via-se ainda em todos os ros[os um certo ar d'inno-
cente alegria e serenidade, que teria feito suppôr que nada soffriamos,
se a pallidez e fraqueza causada da fome não mostrassem claramente o
contrario. Yeio de manhã outra guarda render a da noute, a qual nos
permittiu que tirassemos a agua do nosso calabouço por meio da bom-
ba; e cómo vissêm que quasi todos, ainda os mais bem conservados,
estavamos exhaustos de forças, ajutlaram-nos n'este penoso [rabalho. Con-

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215
DE PERSEVERÀNÇA.

Seguida a limpeza sanitaria do navio, carla


um tomou seu lugar' cedendo
aos doentes os melhores. 0s mais
p Ç0s e mengs incommodados
espon'

taneamente se offereceram a servil-os'


dos mais veiltos logo
«Àpesar porém, cl'estes mutuos cuidados, dous
de pura
n0 mesmo dia nos expiraram nos braços, morrentlo um d'elles
tres dias que não recebiamos nem uma onça de
debilidade, pois havia
pão. Não Íiciram aqui as nossas tribulações'
ha tanto
«chegou a segunda noute, e não tinhamos somno' Privados
tempo de ,otriçaã, com, poderiamos dormir ? um
guarda nacional,
trazia pão' se Ihe desi,
abrindo um p0uco a escotilha, nos disse qtle nos
À fome nos tornou credulos' Podemos ain-
§emos vinte e cinco francos.
da a rnuito custo haver entre todos esta quantia ; a qual demos ao guar-
dinheiro em em-
rla. EIle p0rem com os seus Camaradas empregaram o
Ao romper Aô dia
betredar-se, cgmeçanflo tlepois de cir a a iniuriar-ngs'
que m6rreram no dia an-
obrigaram-nos a ffazu para 0 Cgnvez os dous
policia e 0s mandou depo-
teceáente ; e alli se apresentou o oflicial
de
que 0s levaram ao cemiterio'
sitar na praia, onde ficaram quasi nús, até
o mesmo succedeu a muitos outros, que expiraram na galeota'
«Haviajáoi[odiasqueestavamOssempão,quandooguardado
que ngs era enviado como p,r
navio nos trouxe rrm pedãço de carne,
partes, e deYorado
esmola; o qual foi logo partido em setenta e duas I

podemos juntar no fundo


d,uma \ez com algumãs migalhas sêccas que
já dia que nãb tinhamos
das algibeiras. Ao outro dia, que era o nono
entre o maÇame do navio umas c0-
pão, dãus dos velhos encontraram
dêas bolorentas, as quaes amolleceram
em agua, e as comeram' Mas egte
envenenado alimontô, não tardou a lhes causar a morte' com dÔres as
mais violentas.
«Estavamos uns perfeitos esqneletos. A agua que bebiamos era do
pela multidão dos afogados' que a po-
Loire, tã0 infecta e niuseabunda
que a bebessem' Não era pos-
licia prohibira aos moradores de Nantes
accrescia o mais
sivel dormir um só instante, e a tantos padecimentos
barcos cheios
deploravel espectaculo. Quasi todos os dias avistavam0s
das quaes eram ain-
de rnulheres e creanças, vindas da Yandee, algumas
da de pei[o; e em clteganrlo a nlute as afogavam n0 rio'
0s lamentos

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216 cÂrEclsuo

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DE PITRSEVERANÇÀ. 2li
«Desde 16 de NÍarço a 18 d'Abril morreram trinta e um dos prê-
quinze, só res-
sos que vieram de Nievre; e dos de Angers, que eram
tava um, sem esperanças de vida.»
Ao cabo de seis Semanas de reclusãO na galeo[a, foram oS que S0-
breviveram transportados a Brest. D'estes ainda morrerem seis no tran-
sito, e 0s que chegaram ao termo da viagem, foram lanqados em um aper-
ta6o carcerõ. A,tf esperavam a mor[e, quandO a queda de Robspierre fez
muclar a face das cousas, e lhes deixou entrevêr a possibilidade de
vol-
tarem ao seio de suas familias. Com effeito assim foi, mas voltaram cheios

tle mil enfermidades, que Íizeram de sua vida um prolongado marty-


rio.
Não se dava por satisfeita a impiedade com dizimar a tribu sagrada.
Para aniquilar 0 Sacerdocio, tratou de dar a morte ao Seu chefe.- En-
viam-se eiercitos á Italia, assenhoream-Se de Roma, e sem demora se
apoderam do veneravel Pontifice" Entra um impio pelo palacio de Pio
vi, que se achava gravemente enfermo, e intima-lhe a sua destituição de
principe de Roma, accrescentando que a republica franceza ha por bem
ãonceder-lhe uma pensão. «Não preciso de pensã0, respondeu com digni-
dade o vigario de Jesu-Christo ; um simples cajado em Yez de baculo
basia á minha qualidatle de Pontifice; e suÍficiente um burel, a quem
fleve expirar sobre cinza e o cilicio. Àdoro a mão do Todo-Poder6sg,
que castiga n0 pastor os peccados do rebanho. Hoje tendes poder
S6bre o meu c0rp0; porem a minha alma está acima de vossos ata-
ques. Podeis clestruir as habitações dos vivos, e ate os tumulos dos
mgrtos, mrs não chegareis a destruir a religião santa ; essa subsistirá
depois rle vós e cle mim, como subsistia antes de nós, e se perpetuará
ate o Íim dos seculos. » '
0 homem, a quem o PontiÍice dirigia estas nobres palavras, era um
catvinista. Ao retirar-se, ordencu este a um dos prelados que estava de
semana na ante-camara clo PontiÍice, que lhe fosse dizer que se preparasse
para sahir de Roma ; e que peias seis horas da manhã se havia de
pôr a caminho. Yenilo que o preiado hesitata em se encarregar de tão
cruel rnissã0, r,oi'r,a clentro, e intimr elle mesmO a barbara ordem a Pio
VI, o qual nãc i,ôde deixar de responder : «Eu conto oitenta e tlm annos

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2t8 CATECTSMO

d'idade; ha dous mezes que tenho estadà tão doente, que julguei che-
gado o ultimo da vida. Agora apenas estou em convalescençr.
Além d,isso
não posso abandonar o meu povo, nem os meus deveres; portanto, quero
morrer aqui. »
«Podeis morrer muito bem em outra parte, replica insolentemente
o
republicano ; e se eu não poder deterrninar-vos a partir, empregar-se-
hão meios de rigor.» Quando este homeru sahia, retirou-se o pontiÍice
a uma camara proxima, a Íim de cobrar forças aos pes d'um cruciÍixo,
e sahindo depois disse para os que o serviam: uDeuJ o quer dispunha-
;
mo-nos para soffrer tudo o que aprouver á sua providencia. »
vieram os impios ao yaticano, pârâ arrebatar o pontifice, na noute
de t9 para 20 de Fevereiro de {798. Pio VI quiz primeiro ouvir missa,
que foi celebrada na sua camara; mas os solclados impacientes, irritam-
se com a demora do sacerdote que offerece o santo sacrificio. Temendo
que o povo se revolte contra elles, insistem em que o Santo Padre saia
de Roma antes do crepusculo, e proferindo novas blasphemias, ameaÇam
arrastal-o antes d'acabar a missa. Ella terminou, duas horas antes d,ama-
nhecer, e o Papa foi immediatarnente arrancado da sua camara. como
elle, em razáo da muita idade e da sua paralysia, que notavelmente se ti-
nha aggravado, não potlésse caminhar depressa, sobretudo ao descer as
escadas do Yaticano, ousam os satellites obrigal-o por palavras, e até
com empuxões brutaes a accelerar o passo. Metteram emfim o PontiÍice em
uma carruagem da sua cocheira, e o levaram, partindo com elle preci-
pitadamente. Já a 22 de Fevereiro es[avam perto do lago rJe Bolsena,
onde vagueavam errantes alguns sacerdotes francezes, que para escapar
á perseguiçã0, andavam disfarçados, uns em mendigos, outros em sol-
dados, com fardamentos que alguns compassivos militares francezes lhes
tinham emprestado. Não attendendo mais que á voz do reconhecimento
e da fé se approximou um d'elles da carruagem, quando chegava á estação
da posta. Pio YI que o reconheceu, e que no meio dos soffrimentos con-
servava'a santa alegria das almas puras, lhe disse sorrindo: «Estaes fei-
to soldado ! Santo Padre,' respondeu-elle, nós todos o somos e seremos
sempre de Jesu-Christo e de Pio YI. À que deploravel estado vos achaes
reduzitlo I Temos gloria em acompanhar-vos I IVIas para d'onde ides ? Ahl

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DB PERSEVDRÀNÇÀ. 2le

Santo Paclre, a ovelha Segue as pégadas clo pastor; mas se não podér'
mgs Sempre acompanhar-vos, sereis assistido dos fervorosos votos, que
fazemos, pela vossa conservaçã0. Pois hem t conservae a força e a cora-
gem. Sim, Santissimo Padre, temos grande exemplo diante de nÓs, e bem
culpaclos seriamos se o não imitassemos. » A partida da diligencia terminou
rapiclamente óstes testemunhos d'homenagem. A 25 de Fevereiro chega-
va o PontiÍice ao convento dos Àgostinhos de Sienne, onde se conservou
ate 25 de Maio ; em cujo intervallo pÔtle respirar, e onde o mesmo sa-
cerclote quê teve a felicidade de lhe fallar em Bolsena, foi admittido a
vêl-0. Mostrando este Padre grande inquietação por causa dos soflrimen-
tos de Sua Santidade: «Eu soffro, lhe respondeu com S. Paulo, mas não
:
estou abatido Patior sed non confundor.» Este ecclesiastico invejava a
felicidade de l\Ionsenhor }Iarotti, Qü0, na qualidade de secretario das
cartas latinas, andou sempre junto do Papa. Comparava-o a S. Jeronymo
encarregado outr'ora de funcções analogas, junto do Papa S. Damaso,
igualmente perseguido pela fé. «Sim disse a isto Pio YI, com a mais
terna humildade, mas o Papa Damaso era verdadeiramente santo, e eu
sou um miseravel peccador.,
A faculdade que tinha o Papa de communicar com seus subtlitos,
e o temor de que se não aproveitassem da proximidade do mar para o li-
ltertarem, menos ainda que do successo d'um tremor de terra, decidiram os
desconÍiados perseguidores a transportal-o a um rnosteiro de cartuxos, a
tres quartos de legua de Florença. Algumas almas piedosas, sabendo
c0m0 estava desprovido de recursos pecuniarios, e que seus tyrannos exi-
giam ainda que elle fizesse á sua custa as despezas da viagem, offerece-
ram-lhe dinheiro. Muito gratas lhe foram estas offertas, excitadas não
tanto pela generosidade, c0m0 pela religião; mas não estimou rnenos po-
der dispensal-as, .,'isl,o que a muniÍicencia dos soberanos da Europa jul-
gou que devia provêr a todas as suas necessidades, attenta a sua dignidade
de Monarcha.
Entre as homenagens d'este genero que então recebeu, uma houve
que, tanto em relação ao offerente, como ao objecto offerecido, formava
Í'ao notavel contraste com 0 barbaro procedimento dos revoluciona-
rios, que não poclia deirar de lhe ser summamente grata. Consistia o

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220 cArricrstro

presento em um calix de prata com sua patena, tendo na base as armas


de França, e na parte opposta uma pequena cruz. Bra enviado pelo Bey
de Tunes, que ihe escreveu n'estes termos: «Santissimo Paclre, esses per-
versOs francezes, que tudo vos arreba[aram, certamente não vos deixa-
ranl nem um calix. Peço-vos pois 'que me façaes a honra de acceitar
esse, que tenhopor dever oÍIerecer-vos (l).» Não pareceporventura que as
cinzas de S. Cypriano exhalavam então um milagroso perfume de catholici-
dade, sobre as costas de Carthago; e que já não surgiam Arabes senão
das margens do Sena ?
Inquieto o directorio pelo interesse que pio vI inspirava, e pela
irrupção das tropas austriacas na Italia, enviou ordem para que trouxes-
sem o Pontifice para França. Entreüanto já a stra paralysia ia fazenclo tre-
mendos progressos, e elle soffria excessivamente, sobretudo pelos causticos
que a molestia exigiu lhe applicassem. 0s agentes frarrcezes, com[udo, sem
attender a seus pàdecimentos, o levaram barbaramente da Cartuxa para
uma estalagem além de Florença, d'onde o fizeram partir antes da aurora-
do dia seguinte. Que n0v0 supplicio para o Santo Padre o fazw aintla
uma iornada de quatro mezes, tendo de atravessar multidão de cidade.-q,
villas e aldeias, agitadas da vertigem revolucionaria que por toda a parte
plantava a arvore infame da impiedade e anarchia, onde a maior parte
dos homens traziam o lago tricolor, e quasi todas as linguas, en[husiasti-
camente abominaveis, proferiam blasphemias I Etle não terá mais repou-
s0, nem outros alimentos que os que nas péssimas pousadas lhe deixa-
rem tomar, em quanto descançam e se refazem os trinta soldados tle
cavallaria e o seu commandante, sob cuja guarda é conduzido I
Deve confessar-sc, porem, QUe ao chegar a Parma alguma consola-

(1) Veja, quanto aos pormcnores e authenticitlade d'este facto, a Ifístoria de


Pio VI, por Baldassari, traduzida pelo padre dc Delacouture, p. 361.
A este tâ,o cutioso facto, ajuntaremos outro, que o nâo é menos. Mahornet-Alli,
errtâ,o Yice-Rei do Egypto, ordouou que d'uma pedreira d'alabastro, descoberta ha-
via poucos annos, se cortassem quatro magestosas columnas, que offereceu ao Sum-
mo Porrtifice, a fim de cooperar para a reconstrucçào da Basilica de S. Paulo, des-
truida, como ss sabe, por um inccnclio. O'profuntlidade dos Conselhos cle Deus !
O' altitudo !

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DE PERSEYERANÇA.
221

governatlor francez tl'esta citla-


ção teve pelas respeituoras attenàes 6o
Santo Padre
àr, qr., seguindo os impulsos do seu coraÇãg, mereceu do
peiorava de dia
distinctas demonstraçOeJ ae reconhecimento' Sua saude
em que
para dia, parecenclo não haver gente tão barbara que,
no estatlo
pelo .meio
se achava, o arrastasse mais longe. Não foi, porem, assim;
intimar-lhe a ordem para pro-
da noute veio o commandante da escolta
ordem, concebida nos ter-
seguir na jornacla d'alli a quatro horas. Esta
voz que corria de
mgs mais ameaçadores, era o resultado d'uma falsa
que os austriacos se approximavam para 0 libertar.
sem

üspeitar tal cousa, oppôz a sua deploravel situação


par-

tir. vi
Chamaram medicôs que decidissem, os quaes
obri-
gados pelo capitao republicano a correr as cortinas
e vêr
que
a descoberto 0 venelàvel corpo causticado do PontiÍice, declararam
ás fadigas'
corria risco cle morrer pelo caminho, se de n0v0 .o sujeitam
jornada.
tla 0 oÍflcial
sahe então por alguns momentos, e volta dizendo

tyrannicamente: «0 Papa ha-de partir nxorlo ou uiuo.»»


De manhã muito cêdo esúva effectivamente o venerando ancião a
tão pe-
caminho cle Turirn. Esperava elle que alli ao menos terminasse
viu que
ngsa jornada, e lhe déssem conveniente pousada ; mas quando
o ,ecolhirm á cidadella, levantando os olhos e as mãos para o ceu,
disse
quize'
:
elle «Irei, aclorando a vontade de Deus, irei senhor, aonde me
rem levar.»
pelas tres horas dà madrugatla do dia seguinte o fizeram partir para
suza. a
flrn de transportarem alem dos Alpes o augusto anciã0, que
não podera até aqui entrar nem sahir da carruagem senão por meio
d'um assento tle couro movediç0, puxado por CgrreiaS, agora o mettem
pre-
n'uma especie de cadeirinha, pouco inferior a umas andas; tendo os
lados e i mais comitiva de subir os roehedos em mulas. Dirigem-se
pela

terrivel passagem do monte Genersre, e o Santo Padre, levado ao alto


rlo moníe, foi d'ahi por espaÇo de quatro horas suspenso por estreitas
verêdas, entre um muro de neve rl'onze pés d'altura O hOrriveis preci-
picios. alguns hussares piemontezes offereceram suas pelliças para o

ãtrrigut ao frio insupportavel que reinava no cume da montanha, mas
0s males cla terra nada podiam com esta alma celeste; elle lhes agra'

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tgg
422 CATECIS]IIO

dece, dizendo: «Eu nada soffro e nada temo; a mão


do senhor me pr,-
tege sensivelmente entre tantos perigos. vamos,
meus firhos, meus ami-
gos ; coragem I Confiernos inteiramente
em Deus. » possuido d,estes sen-
timentos, entra o santo padre no territorio francez.
Áo fim de sete horas de tão penoso transito, chega a Briançon pela
tarde de terça feira Bô cl'abril. A[ui o magnanimo pio yI, já insensiver
á dôr, [em a consolação de vêr, com grande espanto se., sahir-lhe.ao
encontro multidão de Briançonezes, que, animidos da fé, lhe prestam
com santo enthusiasmo 0s mais vivos tes[emunhos de sincera pietlade
I
Elles mereciam, primeiro que nenhum outr"o povo ouvir da bôcca rto
summo Pontifice esta exclamação : Em oerilad,e õos iligo, qye ndo achei
td,o grande fé em Israel (l)l

. Alojaram o PontiÍice n0 hospital, em um incommodo e estreito


aposento, a cuja janella lhe prohibiram de chegar, declarando-lhe
que estava
alli em refens pela republica. Não tardou que lhe não flagellassem o c0-
ração com nova amargura, roubando-lhe a maior parte doi seus,
que são
tambem mandados em refens para Grenoble. Ficou apenas o seu
confes-
sor 0 Padre Fantini, e 0 camareiro Morelli; mas a sua resignação e sem-
pre a mesma. As victorias dos austriados ern Italia aao entrõtanto que
receiar ao directorio, que não viessem a Briançon buscar o papa. Em con-
sequencia d'isto, mandam que seja tambem transferid, pu.ã Grenoble.
Foi o Yigario de Christo levado para alli em uma meclian] diligencia de
dous assentos, acompanhado dos unicos consoladores que lhe rleixaram.
as homenagens que os habitantes de Grenoble lhe prestaram, ngs
tres dias que esteve entre elles, excedem toda a expressãó. Acompanha_
ram todos o Pontifl.ce na sua despeclida para Valença, a cuja cidad-e chre-
gou em lt* de Julho. Ao approximar-se d'ella viu o santo parlre, c0m0
vira por todo o caminho, immensidade de Íieis, que se apressavam a
pedir-lhe a bençã0. Admiravel e consolador contraste com o
irocedirnen-
to d'esses ferozes republicanos, que, no anno precedente, em o clia an-
niversario do primeiro funesto triumpho da revoluçã0, haviam queimaclo,
entre outros muitos, o retrato de pio yI, na propria cidacle de valenea.

(1) Illath. VIII, 10.

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Dtr'PERSEVERÀNÇA' 223

jardim
Foi o PontiÍice alojado no palacio do governador, de cujo
se
porêm este ediÍicio dentro
descortinavam as margens clo Rhone. Ficava
da Drome' QUg
da cidadella, e a arlministração central tlo departamento
um acto que elle
estava estabelecicla em Yalença, declarou por
solemne
que nada
permanecia debaixo de prisã0. Ordenou aos da sua comitiva-
que tivesse caracter de piedade' Toda
ãxternamente Íizessem ou dissessem
do castello
a c.mmunicação foi expressamente rlefendida entre o terrado
encerrados trinta e dous
e o do convento dos Franciscanos, oncle estavam
recebido grandes favores
sacerdotes fleis, a maior parte dos quaes tinham
que estlveru* Orportados na ltalia' Elles mu'*ôt
do PontiÍice, no tempo
receberam a mais rigorosa prohibição de não irem
cumprimentar seu au-
gusto bemfeitor, ao [ual foi- tambem vedaclo o sahir da cerca do jardim,
e aiuntamentos». Ninguem
ãom mêdo, rliziam, quu ortrrionasse «tumultos
que a administração
poclia chegar ao pé d elle senão com ordem escripta,
iiot, grancle difliculdarle em conceder'
Entretanto o directorio estava mais moderaclo Cepois que, dos cinco
membros que o compunhanc, 0s tres úais singularmente encarniçados
contra o papa, tiverarn de sahir, e foram substituitlos
por homens mais
(de Donar) nem sobre
humanos. Não reinava já um Treilhard, um n'terlin
tudo o ceiebre Lareveillere-Lepaux, QUe por meios violentos, taes conto o
d,assalariar adeptos entre os mais vis republicanos,
pretendia estabelecer
a sua absurda religiã0, charnada theo-philantropia, que consistia em fln-
gir amar a Deus e aos homens. Assim recomposto, enviava o directorio
órdens e instrucções plausiveis aos commissarios que tinha em todas as
administrações. 0 que estava no departamento da Drome felicitava-se
por
já não receber instrucçõe§ contrarias aos sentimento.s de respeito, que
ihe ,.r.riam as virtudes, a idade e triste situação tlo Pontifice. Todavia,
como todos os administradores, á excepção dtste, conservavam o espi-
rito anti-catholico de Lareveillere, prevaleceram sobre o magistrado do go-
verno, .e continuaram a atormentar Pio YI, até que elle desceu ao tu'
mulo.
0s rapitlos progressos dos exercitos austriacos e russos na ltalia, os
tinham tralido quasi á cortlilheira meridional dos Alpes. 0 directorio,
aterrado, julgou vêl-os dar de subito em Yalença; e suggerindo-lhe 0 me-

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----L,/

))t
2d.E CATECTSÀIO

tlo idéas cruóis, ordenou que o papa fosse


transferido para Dijon ; hem
cntendido, accrescenta a ordem, «que jornacra
a será feita á sua custa. »
Prohibiu expressamente que rhe permittisiern
cremorar-se em Lyã0, cicla-
i
de lamosa p,r seu zêto dedicação
á santa sé. Quando porém chegou a
ordem' o obstaculo que as enfermidacles
do santo parlre oppunham á tras-
Iadaçã0, se tornou invenci'el; e elle
rnesmo não rluvirlava já que a sua m.r-
te estava muito prorima. A vista do ttrmulo, qo,
se abria 6iante d,elle,
não lhe fez perder a pastoral soliciÍucle
com qor r.rp.e curava cle todas as
Igrejas. No mesm, rn,rnento em que
as dôrôs o aclvertem de que muito
cúdo morrerá: «0s meus soffrimentos
corporaes, diz eile, nada são em
c,mparação dos que diraceram a minha
arma... 0s cardeaes ! os Bispos
dispersos !... Roma, 0 meu p0v0 ,...
A tgreja ! oh, a Igreja t eis o que
noute e dia me atormenta. E em que
estado a deixo !»
Etle passa os crias quasi inteirãs em oraçã0,
e ainrra de noute 0 0rr-
viam recitar psarm,s, e applical-os
fervorosamente ao estaclo em que se
achava. À 20 d'agosto comãçoo a ter
vomitos violentos e outros sympto-
mas não menos demonstrativos de que paralysia
a já chegava aos intes_
tinos' Pediu lhe chamassemo seu confessor, e ficou determinado o dia
seguinte para receber o sagrado Viatico.
Querenclo infallivelmente dar
n'esta occasião as maiores pr,vas que podesse
do seu respeito e humil-
9r{r, exigiu que o ajudassem a sahir cla cama, e que o revestissem 4e
batina, roquete, murÇa e estora. sentindo ,*u.grrrnte
não pocler ajoe-
Ihar, nem ter-se de pé ao receber o seu
Deus, ãonsente em commungar
sentado n'uma cadeira de braços. Senclo-lhe
levaclo o Sagraclo viatico
pelo Arcebispo de Corintho, entendeu
esüe prelado que devia perguntar-
lhe antes de lhe aclministrar o corpo de Jesu-christo,
se perdoa'a a,s
seus inimigos. «Oht sim, de todo o meu coraçã0,
cle toclo o meu c.ra-
çã0, » responde logo o santo pontiÍice, levantando os
olhos para
e pregando-os depois em um crucifixo gue tinha nas mãos. o ceu,
o chantre
sua capella lê_em voz alta a proÍissão ãe fé
9l expressa no pontifical, e
Pio YI, reanimado, e c0m0 gue recebesse da sua pr.pria
fe novas for-
ças physicas,manifesta sua aclhesão ainda melhor que por palavras.
Elle
põe com expressivo gesto a mão direita
sobre os evangerhos, e a esquer-
da sobre o peito. Terminada a leitura, recebe
a cgmrnunlãg tl'um motlo

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DE PEnSEVEnANÇA. z"À',j

angelico, e torlos os assistentes commovidos, rompem em lagrimas.


No dia seguinte, pelas oito da manhã, julgou o Àrcebispo não de-
ver differir-lhe por mais tempo o Sacramento dos moribundos. 0 Santo
Padre, com uma piedade não menos exemplar, acompanhava todas as
orações do Ministro.
No Íim d'uma hora [e recolhimento, elle dicta e assigna um codicilí0,
em que faz algumas disposições particulares em favor dos seus domesti-
cos, conÍiando a execução d'elle ao mesmo Arcebispo, a quem tambem
eocarrega de presldir ás clausulas do testamento, que dizem respeito ao
Iugar e circumstancias de sua sepultura.
Desembaraçado então de todos cuirlados estranhos á salvação de sua
alma, occupa-se unicamente em oÍferecer a Deus o sacrificio da sua vida ;
e suas frequentcs aspirações não exprimem senão a impaciencia que ti-
nha de se unir a Jesu-Christo.
Nos intervallos, recita os Psalmos llliserere mei, e De profttndis cla-
ntatsi ad te, Domine; e repeté muitas vezes estes versiculos do Hymno
tle Santo Ambrozio, tão proprios para conservar a conÍiança em Deus :
Te ergo {lu@sunrus, tuis famulis su,bueni quls pretioso Sanguine redemistí:
«Rogamos-yos por tanto, ó Senhor, soccorraes 0s vossos sertos, que re-
mistes com vosso precioso Sangue.» ltt,[,e, Domine, speraoi, non confun-
dur i'n celernum. «Eu, Senhor, esperei om oos, nd,o serei confundido
eternamente.»
São tão ardentes e contÍnuas as suas orações em todo o resto do dia,
que os assistentes crêem necessario persuadil-o a moderar 0 seu fervor,
com mêdo que a motestia se não torne mais aguda. Este fervor acaba
todavia d'esgo[ar-lhe as forças, mas deira-lhe livre a cabeça e o entendi-
ment«r. Elte o aproteita para apertar affectuosamente a mão a todos os da
sua comiüiva, que se approximano do seu leito. D'est'arte lhes signiÍicava
juntamente com a sua paternal ternura, quanto ostava penhorado da de-
dicação e do cuidado que por elle tomavam.
Pela meia noute, symptomas inequivocos lhe annunciaram a elle mes-
m0, e aos que lhe assistiam, que não estava longe 0 momento de exha-
lar o ultimo suspiro. Entrou o Arcebispo a recitar o oflicio da agonia. Pio
VI, que o queria acompanhar com affectuosa piedade, e unir-se-lhe com
l5

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,-/

226 cATgCrslro i

intenção reÍlectida, faz signal ao Àrcebispo, que lêa de vagar. Conhecia-se


que interiormente repetia todas as palavras, e parecia que respirava os
pensamentos. Continuavam ainda as orações, quando o Santo Pontifice
entregava placidamente a alma no seio deDeus, aos 29 d'Agosto de {799,
pela uma hora e vinte minutos da noute, tendo de idade oitenta e um
annos, oito mezes e dous dias.
Jámais houve PontiÍice Romano, cuja morte causasse tanta sensa-
ção ; nem talvez existiu Papa que, a0 partir d'esta terra d'exilio, rece-
besse tantos tributos de saudade, amor e veneraçã0. Em Italia, Hespa-
nba, Allemanha e na propria França, por tocla a parte foi Pio YI aben-
çoado e celebrado como martyr.
0 seu elogio chegou a ouvir-se em S. Petersbourgo e Londres.
Conversões famosas de nossos irmãos separados, foram o fructo d'esta
gloriosa morte. À mesma Genebra se sentiu commovida, e um de seus
mais illustres cidadãos escreveu estas notaveis palavras:
«0 Ca[ho]ico romano gloriar-se-ha da memoravel victoria que seu
chefe alcançou da impiedade, e o Christão das outras communhões, r,erá
claramente onde está a verdadeira Igreja. Tantas attribulações, unica-
mente reservadas, aos Pastores da Igreja Romana, lhes mostrarão, que
uma religião, cujos ministros não fazem sombra alguma aos apostolos
da impiedade e da incredulidade, não e segura; e que o erro, quando o
vicio tão manifestamente fraternisa com elle, a ninguem deve seduzir.
Tal espero que seja o fructo dos attentados commettidos contra o Papa,
durante a sua vida e depois da sua morte., (l).
A grande victima estava immolada ás tempestuosas ondas da impie-
dade, que até alli, trasbordando, devastavam tudo onde chegavam, toca'
vam, como o Oceano, o termo que lhe assignava a mão do Todo-Pode-
roso.
Já o triumpho tla Igreja se prepara pela milagrosa eleição do novo
Pontiflce; e a justificação da Providencia divina começa peto castigo dos
culpados.
A França ousára dizer ao Cordeiro dominador: Não queremls {lue

(l) Veja Balda..sari, p. 5õ7.

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DE PEIISEVIiRÀNCÀ. qq1

reines slbre reos ; muitos homens perversos se banharam no sangue dos


martyres ; Deus carregou a mão sobre a França, e seus perseguidores.
Levantou-se horrivel tempestade, que abalou esta nação até os funcla-
mentos. Monurnentos, riquezas, cidadãos, tudo pereceu.
A historia do reino, outr'ora Christianissimo, e agora revoltado con-
tra Jesu-christo, é por espaço de dez annos, escripta com 0 ferro tinto
em sangue. Jámais houve gerações que contemplassem Íáo lamentavel
espectaculo. 0s grandes criminosos, que impelriram a França á revolta,
não escaparam aos golpes da vingança divina, um d,elles e devorado dos
cães, outro morre na miseria, e quasi todos sobem a0 cadatalso (l).
Aquelle que á crueldade juntára irrisão sacrilega, Collot cl'Herbois, hor-
rorisou os mesmos negros com a sua morte. ouçamos em resumo a sua
historia. Sirva de exemplo aos perseguidores t
Collot d'Herbois, impio furioso e revolucionario exaltado, era inti-
mo amigo de Robspierre, a quem secundou em seus abominaveis pro-
jectos. Foi o principal author dos morticinios cle Lyã0.
Enviado a esta desgraçada cidade ern l7g3, deu a morte por mão
do algoz, pela fusilaria ou pelo canhão, a mit e seissentas pessgas, só pelo
crime de quererem sacudir o jugo cla tyrannia. 0 braço do senhor não
tardou, porém, a pesar sobre este homem. Temendo a convenção resis-
tir á opinião publica, que altamente se declarára con[ra tal monstro, o
mandou prender em | 795, e logo depois foi tlesterrado para cayenna,
onde era aborrecido, não só dos brancos, mas até dos prrior, qou ou ,o,
lingua lhe chamavam algoz da Religid,o itos homens.
«No seu desterro, refere uma testemunha ocular,
algumas vezes
«exclamava: sou bern punido, o aband,ono em que me oejo
é um urda-
«deiro inferno.
«N'este comenos, devorado por uma febre inflammatoria,
chamava
«d'Herbois por Deus e pela santiisima virgem, que o soccorressem.
um

(1) Dos sessenta e tres presidentes da Convengâo nacional, clezeseis foram


gúlhotinados, tres suicidaram-se, oito foram depoltados, seis conclemnaclos
Ír,prisâo
perpetua, quatro endoudecerarn ou morreram eru Bicetre, e só dous escaparam a.
totla a condemuação humana.

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\---z

228 CÂTECISIIO

«s6ldadg, a quem tinha pregad6 o atheismo, perguntou-lhe: oCrlmo pois


«tinha escarnecido d'elles, poucos mezes ?
« Ah I meu amigo, respggil e\, ett conheCia uma cousa e dizia ouffa ;

«ilepois continuava. llleu Detts,meu Deus, pnrdoar-me-heis ainda? En-


otsiãi-me, Senhor, tttn cons1laílor, mandai'm'e algu,ent, que me l,ire de
<<iliante tlos olhos o brazeirl que me consome, Illeu DeUs, dai'me a, oossü
«paz !
-
u0 espectaculo cle seus ultitnos momentos era tãO horroroso, que o
odesviaram para longe; e em quantg lhe foram prgcurar um Sacerdote,
«expirou elle a 7 cle Junho fle | -t97 , com os olhos semi-abertos, os mem-
obrós contorcidos, vomitando golfadas de sangue e espuma. 0s pretos,
«que lhe cleram sepultura, c0m0 tivessem d'ir para uma dança, lhe en-
utãrraram só metacle do corpo, e o seu cadaver foi pasto dos pgrc6s e
«corvost...rr
Depois cl'haver justiÍicado a sua Providencia, mostrando ao mundo
que nem 0S homens nem Os imperios, quaesque que sejam, zombam in-
punemente do Cordeiro Dominador, e que toda a vez que o grito deicida
ãos jucleus resÔa em uma naçã0, chovem sobre ella os castigos
que a
esmagam e convertem em eterno monumento da Justiça divina, consolou
Deus a Igreja nossa IIãe, danclo-lhe n0v0s filhos em c6mpensação dos que
se tornaram indignos de seus beneÍicios.
Em primeiro lugar lhe restituiu milagrosamente o seu Chefe visi-
vel. Quando a impietlatle parecia sentar-se triumphante sobre os fra-
g*rniot clas derribadas Cruzes, disse um incredulo com ar de conquis'
áOor: uGuardai bem o n0ss0 Papa ac[ual, tencle muito cuidado com
elle, e embalsamaio-o depois de morto; por que vos vaticino, e podeis
estar certos tl'isso, que acabado este, não tereis outro ({)' Nunca
» houve
profecia mais visivelmente desmentida; a prova e a maneira porque Pio
VII subiu ao throno PontiÍical.
Tomou Deus como pela mão o jot'en general Bonaparte, vencedor

(1) Refere Barruel ern suas Metnoriqs parcL a hi,storia (los Jacobi,teos, que estas
put"r.í, folam ditas ao proprio secretario do Nuucio Apostolico em Paris, pelo apos'
iata Cerntti, entâo redactot da b-euíll'e ail'lageoi'se'

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DE PERSITVERANÇA. 229

da Italir, e o impelliu para os conÍins do Oriente. Àpenas o tinha


des-

viado, cltamou lá do Norte os libeltadores do i\'Ieio-dia : á sua Yoz mar-


cham os Russos e Inglezes para Italia, erpulsam d'ella os Francezes,
e

dão tempo aos dispeisos Cardeaes para se reunirem para a eleição d'ttm
novo PontiÍice. Querendo que n'este grande Successo tivesse todo o Ca-
racter clo poder sobre-natural, escolheu Deus o protector hereditario da
Igreja Grega para ser agora o defensor da Latina. Ordcna-lhe que mude
a face da Italia, que rem6va todos os obstaculos e prepare tudo para se
celebrar um novo Conclave pacifico e regularmente, que não tenha apparen'
cia, nem dê pretexto á mais leve scisã0. Tem Venesa a gloria e a ven-
tura de ser o asylo do Sacro Coltegio; toclos os seus membros alli se
reunem ; todos os votos são preenchidos; Pio VII é proclamado, e a Igre-
ja tem um chefe capaz de sanar seus males e cicatrizar'llre as feridas.
D'est'ar[e Íirma para sempre a divina Provir]encia os alicerces da Religião
Catholica, não consentindo que fosse interrompida a successão dos Pon-
tifices cla Igreja Romana, ou que uma religião scismatica destruisse a
ca[holicidade.
Não foi a eleição do Summo PontiÍice a unica consolaçã0, qtle o [Io-
mem-Deus enviou á sua cara Esposa. Em quanto uma parte da tribu
Sagrada a honrava por sua constancia sob o cutello do algoz, outros a
faziam conhecicla e respeitada nos paizes hereticos. Quatro mil Sacer-
dotes francezes quizeram antes deixar tudo, que renunciar a Religiã0. Ide
iltustres desterraclos t o Ceo vos chama a outro apostolado. Sereis os itts-
trumentos d'outro milagre, que ha-de confundir a impiedade. Gloriosos
confessores cla !-e diffuncliram-se estes Sacerdotes e Bispos por toda a
Europa.
O caracter da perseguição de que são victimas a sciencia, o zêlo, a
caridacle que manifestam, a sua propria vista, dissipam antigas preven-
ções, que desde tanto tempo dividiam o rebanho de Jesu-Christo.
Elles
fallam, e numerosas conversões cbroam SeuS discursos :
m0vem-se oS

animos, entram no gremio da Igreja Principes, sabios e homens de todos


as qualidacles. Todos desde logo, cheios cle respeito e Íilial piedatle,
buscam á porÍia en\ugar as lagrimas da augusta Esposa de Jesu-Christo.

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230 cATrigsilto

Nunca las Comntunlrões separadas, as conversões foram mais frequentes


que desde esta epocha !
À medonha tempestade cla revorução f.anceza, que, no pensar dos
impios, devia aniquilar a Igreja, não foi pois nos conselhosda provi-

No anno de 1784 chegou a pekim, capital da china, um mancebo

n0me de Pedro. Yoltando á patria, expôz o n0v0 cliscipulo de Jesu-Christo,


a seus paes e amigos os principios cla verdadeira Fe, e distribuiu pgr
elles os livros que lhe tinham dado. Esta leitura, e mais a pregação viva
tlo zeloso neophito, trouxeram dentro em pouco muitos coréanos ao c0-
nhecimento do Yerdadeiro Deus. Grande numero foram por elle bapti-
sados, e outros o foram igualmenle pelo ministerio d'outros novos chris.
tãos, que para este Íim elegêra. Dentro ern cinco annos, subia já o nu-
mero dos convertidos a perto de quah,o mil.
a propagação da nova Religião não podia Íicar occulta por muito
tempo aos ministros do rei da Corea. Fizeram elles muitas prisões; mas
sempre, em toda a part'e e em todos 0s seculos, augmenta a persegui-

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Dri PERSEYIIRÀNÇÀ. 231

os prêsos dous irmãos,


çã0 0 nunflero e ferlor dos Cbristãos. F'oram entre
óhamados Paulo e Thiago, os quaes interrogados pelo governailor, coll-
fessaram a Jesu-Christo com nobre sinceridade.
Paulo clemonstrou a verdade tla religiã0, e fallou de maneira que
fez pasmar os pagãos, e enfurecer 0s seus juizes. Participaram tudo a0
rei, o qual manclou tlar caÇa a todos os Christãos. e lançal-os no carcere,
tl'oncle não sahiriam em quanto de viva v6z ou por escripto não renun-
ciassem a sua Religiã0. Quanto pgrem aos dous irmãos, ordenou que fos-
sem á Sua presenÇa, e os interrogou de novo. A's diversas perguntas que
lhes Íizeram, respondel'am, dizendo :

«l{ós prolessamos a Religião Christã, Dorque conhecemos que e :l
verdadeira. . . Sornos Christãos, e c0rn0 taes queremos viver e mg1rer,
conformanclo-nos com 0 que fÔr da vontade de Deus.»
Esta resposta hreve, mas vigorosa. clesagradou ao tribunal da cÔrte,
que ordenou que aos dous irmãos fosse appticada a tortura, até que re-
nunciassem a Jesu-Christo. Mas 0s clous athletas mostraram n0 meio
dos tormentos a maior Íirmeza na Fé. Bntão empregaram caricias; e
c6mc p6r nenhum m0d0 se renclessem, 0 juiz, extremamente irritadO,
pronunciou a sentença de morte. Segundo 0 usg do reino, foi esta apre-
ientarla ao rei, para que a confirmasse. 0 principe Se entristeceu, por
conhecer o carac[er e optimas qualidades de Paulo, cuja familia amava ;
pelo que manclou algumas pessoas á prisã0, a Íim de exhortarem 0s
dous irmãos a renunciar o Christianismo. Tutlo foi debalde : desespe-
raclo cle vêr tanta resistencia, determinou o rei que a sentença Se cum-
prisse, sendo logo os generosos confessores conduzidos ao lugar da exe-
ãução, seguidos cl'immensa multidão de gentios e Clrristãos. Thiago.. meio
morto dgs crueis tormentos que lhe tintram dado, podia apenas pronunciar
algumas vezes os Santissimos Nomes de Jesus e illaria ; mas Paulo cami-
nhava com ar alegre para o martyrio, c0m0 se fosse para um delicioso
banquete. Ànnunciava a Jesu-Christo com tal dignidade, Qü0 não só os
Christãos, mas ate os gentios estavam transportados de admiraçã0.
Chegarlos a0 lugar do supplicio, ainda outra vez ltres perguntaram
se queriam renunciar a sua fe, e rospondendo que nãto, mandou o oÍIicial
a Pallo qrre lris.se elle mesmo a sna sentonça. I'om9u-a elle e a lett em

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232 CATECISlIÍO

alta \oz. Apenas acabou a leitura, chcio d'alegria vercladeiramente ce-


leste, pousou a cabeça em o cêpo, pronunciou muitas vezes os santos
nomes de Jesus e I'Iaria, e logo muito seguro deu signal ao algoz,
Qü0
Íizesse a sua obrigaçã0. Este o degolou, bem como a Thiago; que, ape-
sar d'estar já meio morto, tinha ainda hastante vigor para repetir, como
seu irmã0, os santos nomes de Jesus e Maria.
Nove dias ficaram insepultas as preciosas reliquias ; e ao nono,
tendo seus paes ob[ido licença do rei para 0s enterrar, vindo com seus
amigos a() lugar onde estavam, todos Íicaram maravilhados de vêr seus
corpOs sem signaI algtrrn de corrupçã0, mas com uma côr e flexibilidade
c0m0 se tivessem sido decapitados n'aquella hora. Seu pasmo redobrou,
porém, quando repararam no cêpo, por que o sangue estava da mesma
sorte liquido e fresco, c0m0 se no mesmo instante tivesse sahido das
veias. Então os Íieis bemdisseram ao senhor, começando 0s mesmos pa-
gãos a bramir contra a injustiça dos juizes, e a proclamar a innocencia
dos dous irmãos. Àlguns d'elles, observando attentamente o prodigio, se
converteram, e 0 sangue d'estcs dous mar[yres foi semente de chris-
tãos.
Em 1800 se accencleu na coréa mais terrivel perseguiçã0, sendo
condemnado á morte o unico missionario existente no reino. Ficou po-
rém grande numero de fervorosos neophitos, alguns dos quaes vieram
ul[imamente á China pedir n0\:0s apostolos, assegurando que a colheita
seria abundante. Illuitos missionarios acabam d'entrar n'aquelle reino ;
assim abençoa Deus a dedicação e zêlo d'aquelles novos christãos (l) t
Não entra no plano d'este catecismo a continuação da bistoria da re-
ligião durante o seculo decimo-nono. Àpenas examinaremos de relance
os annos que decorrem de l79g a l8&0. Este quadro, analogo a0 que
desenhamos na xLYm.' liçã0, mostrando a Igreja romana cheia de vi-
gor e de vida em dous momentos supremos, etn que seus inimigos a da-
vam por morta e aniquilada, responde victoriosamente a seus gritos de

(1) o n.'93 d,os annaes da propagaçã,o d,a/i refer.em & rova perseguiçâo que
acaba de rebentar na Coréa, e os exemplos de fé e valor dos neophitos, dignos dos
primeiros seculos da fureja.

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DE PERSEYERANÇA. 233
-fe, esperança e amor todos os corações ca-
morte, fazendo palpitar de
tholicos.
Yêmos esta Igreja, logo gue morre o Pontifice, que a impiedade aÍIir-
mava seria o ultimo, resuscitando para assim dizer na pessoa do glorioso
Pio YII, milagrosamente eleito em Veneza ; e logo depois, passada a tre-
menda tempestade, .que seus inimigos prediziam extinguiria até o seu
proprio nome, reapparecendo em França, pobre sim dos bens da fortuna,
mas rica de virtudes e brilhando com os estigmatas do martyrio. Entã0,
com a serenidade e Íirmeza dajustiça, ella combate por uma parteo gi-
gante que, após de ter pisado aos pés tantas corôas de reis, julga potler
cingir a fronte com a tiára dos Pontifices; por outra, reedifica, apesar do
poder temporal e dos sarcasmos dos impios, os muros de Jerusalem santa,
ajuntando uma por uma as pedras dispersas do sanctuario. Yêmol-a, no
Íirn de dez annos de combates, libertada por seu divino Esposo, que por
ella Íizera pelejar os homens e os elementos, tomando triumphante o ca-
minho da cidade eterna, a0 mesmo tempo que seu perseguidor, despo-
jado e captivo, ia expiar seus attentados sacrilegos em um rochedo deserto
no meio do oceano.
Yêmol-a depois cicatrisantlo suas feridas, reparando as fileiras tle
sua milicia, decimada pelo cutelo dos impios, oppondo a mansidã0, a ca-
ridatle e a oração aos incessantes ultrages de seus inimigos. Entã0, aben-
çoando Deus as suas lagrimas, surgem á sua voz innumeraveis maravi-
lhas que cohrem o solo da França. 30,000 Igrejas ediÍicadas ou repara-
das ; 10,000 escólas e hospitaes ; 40,000 sacerdotes ; 85,000 religiosos
e religiosas; a Ordem da Trappa, a mais austêra üe todas, mais nume-
rosa do que nunca; mais de 20,000;000 bons livros publicados ; uma
aetividade ate então sem exemplo em todas as obras de misericordia
espirituaes e corporaes, tal e o religioso espectaculo, que attrahe a at[en-
ção de todos, sendo a consolação dos Íieis e a desesperação dos impios.
Nem se mostra menos activa e fecunda a Igreja em as demais na-
ções : vêmol-a na Prussia e na Russia, oppondo á heresia e ao scisma,
assentados no throno, a Íirmeza de seus Pontifices; e arrancando elogios
aos seus mesmos perseguidores, em quanto de todo não depõem as ar-
mas. Vêmol-a na Gran-Bretanha quebrando os ferros, que havia tres se-

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231+ CATECIS}Ío

culos algemavam a Irlanda; desmoronando na Inglaterra o protestantismo


oppressor, e subtrahindo dentro de poucos annos á mais obstinada here-
sia dous milhões d'almas, que tornam ao aprisco; erigindo bispados na
mesma metropole do erro, e sagrando nos ensanguentados dominios
d'Henrique YIII e da rainha Isabel, mais de 600 Igrejas.
Se lançarmos a vista pelas outras partes do mando, vêmôs a Igreja
florescendo com poder e actividacle inaudita. A eterna lucta entre ella e
o erro .ag0ra Ee torna mais encarniçatla e geral : mas o mundo inteiro
será brevemente, como já foi nos primeiros tempos do christianismo, o
preço do vencedor. Q0e parte da terra terá deixado de vêr os missio-
narios casados do anglicanismo, esses moforinheiros assalariados das so-
ciedades biblicas (l), tomando por toda a parl,e a dianteira aos cattroli-
cos, a Íim de conquistar para o erro os povos, que os prodigios da na-
vegação fazem diariamente surgir do seio dos mares ?
l\[as é Simão Mago, precedendo a Pedro em Roma. A Igreja catlrolica
não se Íica atraz. Ella estende ao longe o espirito de fogo, gue desceu sobre
ella n0 cenaculo, contentando-se com indicar a seus missionarios as na-
ções longiquas, que importa arrancar a0 erro, e logo estes anjos de paz,
hoje apostolos da Boa-Nova, ámanhã seus martyres, levados nas azas do
vento, dirigem-se aos quatro angulos da terra. Que pasmoso Dos deveria
ser hoje este prodigio, se a historia de clezoito seculos nos não oÍfere-
cesse a sua constante repetição I E' exactamente na ep00a em que a im-
piedade proclama na Europa a morte d'esta Igreja immortal, que ella ma-
nifesta superabundante vida, e dilata o seu imperio ate os ultimos confins
do universo. Nomeai'um ponto do globo, uma d'essas ilhas rnais remotas
e desertas no meio do oceano, Qü0 não fosse visitada por algum de seus
apostolos? A que longinquas ou inhospitas praias [emeram ir publicar

(1) Cacla missionario anglicano recebe um or:d.euaclo de seis mil fraucos I mais
mil francos ps,ra a sua consorte I mais qtünhentos ditos para cada seu filho menor.
Se o dinheiro e os biblias bastassem psra converter o mundo, todo elle seria àoje
protestante; mâs vêde que esterilidade ! Ainda ha pouco, um d'estes pretendidos
apostolos confecsavar eue a missâo anglicana de Macáo tinha, no decurso de vinte
annos, e depois d'uma despeza de quasi quinhentos mil francos, eonvertido uns sete
chirrezes, eontando os ereados de easa.

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IIE PERSIIYIIRA\CÀ. 2:i;;

sua grandeza intla á custa do proprio sangue? Por seu maravilhoso zêlo,
, ,ruo.. da vida, plantacla no cimo do calvario, dilata seus bemfazejos
ramgs desde as montanhas gelaclas da America septentrional ate ás ar-
clentes planicies regadas do Ganges ; desde as ilhas da 0ceania até á Co-
réa ; Oõ tninet ao lado da Boa Esperança; e a todas as tribus da espe-
cie humana offerece'seus fructos d'immortalidade.
Outro procligio ainda mais ailmiravel e que ao outro dia d'uma re-
volução, rapiila como o relampago, e terrivel c0m0 o raio, que em tres dias
destruira tres rJynastias de reis, sepultando nas ensanguentadas ruinas o
aptigo throno de S. Lttiz, olhado c0m0 o pedestal necessario da lgreja ;
e ao outro dia, se não na mesma hora d'esta cataslrophe, que O zêlO do
apostolad6 Se reanima na tribu sagrada, com ardor inteiramente novO, ao
passo que cle 18,15 a 1830 não eléra o seminario das Missões do ultramar
mais de quarenta e seis apostolos ás nações inÍieis, de t830 a {839 ti-
nha-lhes enviadO setenta e seis. À ordem de S. Lazaro, qoe nos mesmos
anoos de t8,15 a {830 contava sete missões, de 1830 a {839 viu par[ir
mais de quarenta: Para que nenhum por'o fosse esquecido, estabelecem-
se duas ordens religiosas, destinadas a evangclisar as terras novan)ente
descobertas : aS duas Oceanias, oriental e occidental, tornam-Se o vastO
campo onde exercem seu zêlo as congregações de Picpus e de Maria.
Ha outra coincidencia n'este maravilhoso impulso apostolico, Qtle
torna visivel a Providencia que vela noute e dia pela Igreja. Quando em
t830 o governo francez retirava ás il[issões o seu apoio, e as esmolas
que sempre os reis christianissimos lhes concederam ; quando, em con-
sequencia d'esta medida, se [ratava de fecltar o seminario das Missóes do
ultramar; e então que uma obra in[eiramente franceza, a sociedade da
propagação d,a fé, ate ahi sentelhante á semente tle mostarda, que é a
mais pequena das plantas, toma repentinamertte urn inexplicavel incre-
mento. Primeiramente 0s catholicos de França, o depois d'elles os do
antigo mundo, possttidos do espirito do apostolado, unem sua's orações
e esmolas, para Soccorrer as missões, e assegurar á Igreja o bom exito
do combate, que se peleja entre a verdade e o erro em todos os pontos
do globo. À somma de suas offertas annuaes sobe rapidamente d'alguns
milhares a quatro milhões de francos.

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236 CATDCISIÍO

Graças a este miraculoso concurso dos homens e da provitlencia.


rRrNTÀ E 0lro ordens ou congregações da França e d'outros paizes, y0-
tadas ás Missões do ultramar, podem continuar os seus trabaihos; asse-
gurar a sustentação das antigas christandades, crear outras nor/as, augmen-
tar os obreiros evangelicos, ediÍicar Igrejas, fundar seminarios, resgatar
os captivos ,da fe, e fazer brithar o sol da graça em todos os lugares,
que 0 sol da natureza visita e fecunda. De sorte que já fóra da Europa,
em paizes aonde ha pouco era seu nome apenas conheciclo, conta hoje a
Igreja romana cento e vinte bispados, e cinco milhões de neophitos. se
juntarmos a este numero o dos antigos catholicos, temos em totla a ca-
tholicidade 800 bispos, sem contar coadjutores, suffraganeos e outros
prelados, e mais de {52:000,000 de catholicos.
Não está pois morta, como disse a impiedade, esta Igreja romana,
que impõe ainda a sua fé a tantos milhões d'intelligencias, e que. toclos
os dias, dilata o seu imperio por infatigaveis conquistas. Ao passo que
a aguia e a loba, sanguinosas imagens da antiga Roma, suspendem o passo
ás bordas do Euphrates e do Danubio, diante d'uma resistencia desespe-
rada, a nova Roma leva seus symbolos de paz, a pomba e o cordeiro,
ás margens do Ganges e do Mississipi, e muito alem ainda, a terras des-
conhecidas, e a povos sem nome.
Não está morta a Igreja romana, que hoje, como nos tlias da sua
juventude, tem ainda no coração caridade para abrazar o mundo ; e em suas
veias sangue para verter em [oda a terra. Sangue generoso qus ern vez
de a enfraquecer derrarnado, mais a fortiÍica, convertendo-se em semente
de christãos.
Não está morta a Igreja romana, cuja palavra faz surgir do estado
barbaro, e tomar parte no convite da civilisação as mais aviltadas tribus
da especie humana; a0 passo qus com mão poderosa funda escólas, con-
ventos e hospicios no meio d'esses mesmos povos, onde os Íilhos são fa-
zendas, as mulheres escravas, e os pobres uma raÇa impura.
Não está morta esta Igreja, cujas luzes constituem a unica differença
entre a civilisação e a barbaridade. Espraiai a vista por todo o globo;
ondes virdes a tocha do christianismo, vereis a luz; aonde a não virdes,
estão as trevas: aonde ella deixou de luzir, achareis o estado barbaro

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DF PEHSIi\'trRANÇÀ. 2:i7

I)'est'arte, no thermometro da in[eltigencia, a Oceania está abaixo de zero;


a Africa em zero, e a Asia immovel e como morta. Não ha vida intel-
Iectual senão na Europa e na America, isto e, na humanidade christãa.
Esta geographia da intelligencia não só responde decisivamente aos mor-
tiferos clamores da impiedade, mas termina d'uma vez todas as grandes
questões da religiã0, da Igreja, da philosophia e da historia. Está geo-
graphicamente demonstrado, que a intelligencia humana e a inielligencia
christã; que a razão humana é a razão christã ; e se perguntardes á his-
toria d'onde lhe provieram ainda suas torrentes de luz, mostrar-vos-ha
sem hesitar as bem amadas collinas da cidade eterna.
Náo está morta, homens dest'airados, esta Igreja, vossa e nossa mãe,
a quem, com quanto vos peze, deveis toda a vossa vida intellectual e s0-
cial. Bem sei que o enfraquecimento da fe, a apostasia das nações, das
familias e dos indivicluos, a revolta cacla vez maior contra a Igreja, é um
facto lamentavel e que [odos os dias se torna mais lamentavel no seio da
Europa; mas não ouseis dizer, gue a palavra da Igreja catholica e fria e
sem vida; por que yos accusacs a vós mesmos. E' fria e sem vida a sua
palavra l? oh ! como sabeis isso ? Acaso já a ouvistes ? já a pusestes em
prática ? já a estudastes ? Pótle ella forçar os cégos a vêr, e os surdos a
ouvir ? Insultada, calumniada, desÍigurada, ridicularisada por espaço de
tres seculos, tem ella culpa em que a não conheçaes nem a ameis ? Por
que não faz ella em vós a mesma impressã0, Que tem feito em intelligen-
cias tão elevadas, em corações tão nobres ? Sabeis certo que 0 catholi-
cismo está morto, e que antes o não estareis vós ? Sabeis certo que foi
o sol que se extinguiu, e não a yossa vista ? 0 que eu sei é que quando o
homem se converte todo em carne, o espirito de Deus se retira, e a vida
o abandona. Trazei á memoria certas paginas da vossa historia, da historia
dos povos e dos homens, que hoje proclamam a morte do catholicismo,
e lá achareis talvez a explicaçã0, d'este mysterio. Se isso não bastar,
pedi ao universo que vos esclareça as vossas duvidas. Interrogai esses
po\'os, esses algarismos, todos esses factos que ahi Íicam esboçados.
Se o signal da vida d'uma sociedade e a sua actividade, acção e in-
fluencia, quem tem ahi mais vida que a Igreia romana; e não é, como
a das instituições humanas, uma vida local, mas sim universal, e por con-

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238 CATEOISilIO

sequencia divina. De facto, considerai as multidões de crcntes, cgnver-


tidos ultimamente ao catholicismo, em toda a face do globo : 400,000
negros; 200,000 selvagens da America ; 320,000 chinezes ; 450,000 An-
namitas ; 800,000 Indios; 500,000 Maronitas; 200,000 colonos inglezes;
l:200,000 cidadãos dos Estados-unidos ; e, se sois capazes, esquivai-vos
a confessar a universalidade, e por consequencia a divindade d,uma reli-
giã0, que domina em todos os climas, etrr todas as raças, em todos os
gráos do desenvolvimento intellectual, em todas as instituições sociaes;
emfim, que é por tanto independente das condições de tempo e lugar,
necessarias a todas as creações terrestres ({).
salve pois, ó Igreja immortal t um horisonte magniÍico se abre
diante de ti. Mãe solicita e bem amada, tu esclareces o meu berç0, e
proteges o meu tumulo. Não fraqueia o poderoso braço de teu divino
Esposo. Tu levarás ao fim a [ua missão de bençã0, do mesmo modo que
a começaste e continuaste ern meio de combates. Sempre a corôa d'espi-
nhos do Deus do Calvario cingirá tua fronte virginal. Jámais se extin-
guirá em tuas mãos divinas a luz do ceo que te foi confiada. sim, eu
tenho a esperança , a certeza, que ella brilhará sempre na França. Pois
que, ó meu Deus, tirarieis vós a fe á Íilha primogenita da vossa Igreja;
ella, que vós evidentemente creastes e posestes no mundo para ser a con-
solaçã0, a dextra e a vo?, de sua IIIãe ; e que hoje ainda, não obstante
suas inÍidelidades, conduz ao catholicismo todos os povos da terra, do
mesmo modo que o sol com seu movimento arrebata os astros do
ceo; ella que, á custa de suas esmolas e orações e de seu mesmo san-
gue, é ainda a primeira que vos dá a conhecer, e vos faz amar e bem-
dizer das mais remotas nações, que jazem nas trevas e nas sombras da
morte (2). E vós, ó Virgem Santa, poderosa alliada da França, mãe de
misericordia, vós não desmen[ireis o oraculo solemne, que para vossa glo-
ria e consolação nossa, pronunciou um dos mais dignos orgãos de vosso

(1) Yeja os Annaes da Progagâo da fé, n.o 71, p. 3á0, e seg.


(2) Eacilmente se entende, que nâo é á Frauça, como naçâo, que convém estes
elogios, mas sim aos catholicoe francezes.

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DE PERSEYERANçA. 239

Filho : 0 reino de França é o reino de M,aria, elle nunca perecerd: Re'


gnuú gallia, regnum Maria. nunquam peribit (l); pois o não perecer a

Franga, é o ser catholica.

oRAÇÃO.
0' meu Deus que sois todo amor, eu vos dou graças por haverdes
permittido que eu lêsse esta bella historia da vossa caridade com o ho-
mem-Deus, amando aos homens, amando-os sempre, unicamente occupado
em lhes fazer bem, tal é a grande e ternissima verdade, que está escri-
pta em catla pagina da historia da religiã0. Quem á vista d'isto vos não
ha-de amar; pois que para captivardes o nosso amor, é que assim nos
amaes, como se não podésses ser feliz sem nós ?
Eu reitero, pois, Senhor pela centesima sexagesima sexta vez os
protestos de vos amar sobre todas as cousas, e ao proximo como a mim
mesmo por amor de Deus.

(1) Benedicto XIY.

FITÍ DÀ TENCEIRA PARTE.

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INDEX
DÀ§ II!ÀIERI§ CONIIID§ NO I.O YOI,UIITD.
(xur srcur.o.)
XLI.O'tIÇÁO.

O Chntsúlanlsmo §onservado e propagado


A Egreja defendida : Carmelitas, Franciscanos, Dominicanos ; S.
Thomaz. 5
XLII." IIÇAO.
O Chntsúlanlsmo conservado e propagado.
(uu snculo.)
À Egreja consolada: S. Luiz rei de França, S. Fernando, rei de
Castella e Leão ;-propagada : conversão da Livonia e da Cumania.
concilios geraes.-A Egreja consolada: fundação da Ordem
-Tres
de Nossa Senhora das Mercês 20
XL[I." tIÇaO.
O Ohnlsúlanls mo Gonsenvado e propagado.
(xlv srculo.)
A Egreja atacada : Frerotes, Dulcinistas, etc. , scisma do Occiden-
te :-defendida : fundaÇão dos cellitas da ordem--: de santa Bri-
gida: Santo Eleazaro e Santa DelÍina -. -. B,l

xLIY." tlÇÃo.
O Chrlsülanlsmo Gonservado c propagado.
(cosuuulçÃo Do xrv snculo.)
A rainha, de portugal : Martyres
eno-A Egreja aÍflicta : grande
missão de João de Montcórvin ;
onversão da Lithuania . gg
xLY.u LIÇÃO.
O Chntsúlanlsmo conservado e propagado.
(xv snculo.)
A Egreja atacada: Wiclef, João Hus etc; renascimento do paganismo
-defendida : concilio de constancia-; s. yicente Ferferl s. cá-
zimiro: ordem dos pobres voluntarios ; confraria da Miseri-
cordia 5,1

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?ltt rNDEx. i

xLYI." rIÇÃO.
O Chrlsúlanlsmo conservado e propagado.
(coxrrxuçÃo Do xv srculo.)
A Egreja colsternada :_violação de s.uas leis ;-consolacla : S. Fran-
cisco de Paula; ordem dos il rnimos ; ioncilio
Florença.-
cle
greja consolada ila perda do
da Hespanha; conversão cla
na Africa e nas Indias ; des-
65
xLYII." LIÇAO.
O Chnlsúlanlsmo conservado e propagado.
(xu snculo.)
E' violentamente aggredida a Egreja. Luthero ; Zuinglo; Calvino.
Henrique YIII. - O protestantismo consiclerado em seus aucl,ores,
suas causas, seu dogma, moral, culto, e effeitos. ll
XLYIII.A LIÇÃO.
O Chnlcúlanlrmo conservado e priopagado.
(xvl snculo.)
A Egreja defendida : Concilio de Latrão; Ordem de S. João de Deus ;
Jesuitas ; S. Francisco Xavier. 92
XLIX.U tIÇÃO.
O Chrlsúlanlsmo conseryado e pnopagado.
(rnn oo xvr socul,o.)
A Egreja defendida e consolada : Concilio de Trento; S. Carlos Bor-
romeu ;S a B. Angela cle Bresse; Ur-
sulinas; I regação rte Nossa Senhora ;
Religiosos iros de Obregon; Irmãos da
boamorte 407
L." LIÇAO.
_^=^. .
O Chnlsúlanlsmo conserpvado c pl.gpagado.
(xvu sucur,o.)
Quadro do Seculo l7--htizo de Deus sob ereticas-A
EgreJ-a defendida: S. Francisco de Salle sitação pro-
pa_ga_da: do Para$uay ; outra Egrêja ôon-
solada : S. Yicente de Paula ; Irmans,
-ltIi_s_soens
. .. i2;

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+

INDEX* 2/+2

tI." tIÇÃO.
O ChnlsÚlanlrmo contePvado e pnopagado'
(xvu snculo.)

LII.' LIÇÃO.

O ChrtsÚlanlsmo Gorrservalo e propagado'


(xvur snculo.)

LIII.O LIÇAO.
O ChrtsÚlanlsmo Gonservado e pnopagado'

LIY." LIÇAO.
O OhrtsÚlanlsmo Gonsorvado e pnopagado'
(xvttt snculo.)

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