18 – dezembro – 2012 Quarta-feira Fim de tarde de temperatura elevada, muito calor – início da noite na Zona sul de um bairro

agitado de classe média alta. A família de Paulo e Sueli moram no 23º andar de um Edifício de 25 andares. - O interfone está tocando! Alguém por favor, pode atender esse interfone!!! Merda!! Alô. É, Chico. Pode falar. Quem? Não, Chico, agradeça o velho, mas não queremos batata, cenoura, tomate ou qualquer porra que venha da terra! Eu sei, Chico, eu agradeço, mas diz pro velho que nós não queremos nada do sítio, mas se ele me trouxer pé de dólar, yens ou real, eu vou querer! Tudo bem, Chico. Valeu, não esquenta Chico... _O que o Chico queria, Paulo? _Agora você quer saber? Porra, acabo de entrar em casa mal consigo chegar no vaso pra fazer um xixi e o interfone toca e nenhum puto pra atender! Quase saí pingando tudo pela casa. Cadê Flavinho? Cadê Miúcha? _Flavinho deve estar trancado no quarto pendurado no computador fixado naqueles joguinhos barulhentos e Miúcha deve estar pendurada no celular com alguém, por isso ninguém te ouviu. E eu também to chegando agora da Academia. Estou exausta! Não tenho força nem de levantar um copo de água, quanto mais correr pra atender interfone. Por falar em copo d’água, cadê Fatinha? Ela já se mandou de novo, cedo? Ainda não são nem sete horas! Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 1

_Sueli, já são dezoito horas e trinta e cinco minutos! Ela não é escrava. Ela entra às 8h e por lei, tem que sair do serviço às 17h. Pra você deve ser difícil entender isso, né? Trabalho não é uma coisa que você entende bem. É um pouco difícil de assimilar certas regras trabalhistas... _Paulinho, meu querido, de patrão, horário fixo, eu quero distancia. _Eu também pensaria assim se tivesse uma mula como eu de marido pra sustentar todo esse povo que não faz porra nenhuma, nem se dão ao trabalho de atender a uma merda de telefone! _Mas afinal, o que o Chico queria? _Ah... aquele velho do segundo andar que mora num sítio e quando vem fazer exames de saúde de rotina com a mulher trás a quitanda toda naquele carrinho dele caindo aos pedaços De onde esse velho tirou da cabeça que alguém com milhões de supermercados a menos de 20 metros de casa, vai querer comprar logo as batatas do sítio dele? Ele não desiste. Toda vez eu falo pro Chico que não quero, mas ele insiste e pede pra perguntar. O Chico fica sem graça, né, mas fazer o que? O velho manda, ele obedece. _Ah, seu Paulo, seu Felix do 203 é uma gracinha e ele quer o nosso bem, pois esses legumes e verduras que têm por aí tão tudo com agrostrochicos. As mangas e as laranjas do sítio são uma delícia! Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 2

_Ué Fatinha, você ainda taí? _Tava tomando banho pra ir embora, Dona Sueli. De fedendo já chega aquele povo dentro dos ônibus lotados. Eu sou limpinha. Gosto de sair toda cheirosa de roupa limpa. Num sou igual a Carminha do 308 que sai com a mesma roupa que entrou no serviço. Que nojo. Tem água pra que, nesse mundo? Custa tomá um baninho? Passar uns perfumes. Na minha casinha o que não falta é água, meu poço tá sempre cheio. Nem imagino passar um dia inteiro sem tomar um banho! E tem gente que não gosta! Água é vida! Não é, não Seu Paulo? _ Tá certa Fatinha. Por falar em água você lavou e passou as minhas camisas pra semana? Ve-lá, ein? _Seu Paulo, nunca deixei o Sr. Na mão nesses 17 anos que trabalho pro Sr. suas camisas tão penduradas no armário do jeito que o Sr gosta. E fiz também aquela empada de palmito que o Sr, adora. Vou indo. Inté amanhã se Deus quiser. E não esquece de comprar as coisas pro jantar da Alessandra que vem com o noivo amanhã. Eles não comem carne que nem nós. Gente esquisita... _Ah, Fatinha... não sei o que seria da minha vida sem você! Fatinha sai e bate a porta do apartamento deixando o casal em pé de guerra. _”Não sei o que seria da minha vida sem você...” – remenda Sueli com a voz debochada. Você devia ter casado com ela depois do seu divorcio com a Marta, afinal, ela já te serve a tanto tempo... Olha a economia que você iria fazer! Mas não, foi Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 3

logo atrás de brotinho de 15 anos mais nova que ainda por cima não quer porra nenhuma com o trabalho... A Fatinha tá muito velha, né? Deve estar quase com a sua idade, tirando uns 56 anos. É meu amigo, mas um pacote completo: que lava, passa, arruma, cozinha e faz bonito pros amigos... isso ta muito difícil, meu querido! Mas você muito esperto dividiu em duas partes; uma pras coisas do lar e a outra pra desfilar por aí. _Sueli... não começa... Tô cansado. Peguei um puta engarrafamento, tava doido pra mijar, um calor danado. Levei 2 horas pra percorrer 16 km... dá um tempo... e a única coisa boa nisso tudo é chegar em casa e saber que tem uma delícia de prato me esperando com uma cervejinha gelada e que meu guarda roupa está arrumado pra enfrentar a semana que vem, tudo de novo. Me poupe! _A sua filha tá demorando a chegar. Devem estar demorando por conta desse engarrafamento, porque pela hora já era pra eles terem chegado. Faz três horas que eles ligaram avisando que o avião pousou. _Eu não esqueci, achei que eram eles no interfone. A Alessandra iria passar na casa da mãe primeiro antes de ficar aqui. _Não entendo. Por que ela não fica na casa da Marta de uma vez ao invés de ficar aqui. Marta tem um big apartamento. Nosso apartamento é tão apertado pra gente e ainda vamos ter mais dois até o fim de semana... _Sueli, eu adoro a Alessandra e não a vejo há mais de um ano, desde que ela foi morar no interior por causa da sua Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 4

formação. Falamos muito rápido ao telefone. Esse negócio dela ficar sempre na casa da mãe me tira o prazer de passar boas horas com ela e outra, eu não conheço bem esse cara que vai casar com ela! É uma boa oportunidade de poder conhecer e saber o que ele pensa. Ela fica até esse fim de semana comigo e passa o Natal com a Marta, só isso... _Ela não ficava aqui em casa nas férias por que não queria. Dizia que se sentia mal na cidade, lembra? Passava rapidinho pra ver você e a Marta e voltava pro interior quando estava na Faculdade. Não entendo. Uma moça tão linda, tão inteligente, que estudou lá fora em outros países, gostar de ficar no mato ao invés de aproveitar as maravilhas e o conforto da cidade? Ela tem dinheiro, um bom salário, poderia morar melhor que a gente se quisesse. Mas quer se enfiar no meio dos sapos, mosquitos, cobras, aranhas... _Sueli, eu acho ótimo ela gostar de cobra, aranha, sapo, ou seja, é melhor do que virar mais uma madame do asfalto. Cuidar de bicho é mais simples e gratificante do que gente. O ser humano está muito maluco e ela está certa em fugir desse circo de horrores. _Tá Paulo... até parece. Seu discurso é lindo, mas a vida não é fácil para ninguém. Se ela cuidasse de gente, poderia cuidar de você. Ela vai ficar chocada quando se deparar com essa imensa barriga que você cultivou nesses últimos anos, sua pressão alta e essa diabetes que está vindo aí. _O que, tá muito ruim, ta? você acha que ela vai ficar preocupada com a minha saúde?

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_ Acho meio difícil. Ela é médica de bicho. Tá acostumada a ver hipopótamos desse tamanho por aí. _Vai a merda Sueli! Alessandra e o noivo chegam à casa do pai e depois de alojados no quarto do Flavinho, seu irmão de 10 anos de idade, e mais novo por parte de pai, se juntam à mesa para um lanche rápido em família. _ Pai, estou tão feliz de estar aqui com vocês hoje! Mamãe mandou um abraço pra todos. Ela está ótima. Hoje, antes de virmos pra cá, conversamos rapidamente e ela me disse que esta pensando em comprar uma casa lá perto de mim e que vamos ver isso logo depois dos festejos do ano novo...(risos) _Sua mãe? Morando no interior? Essa eu quero estar vivo pra assistir! (gargalha alto) Ficar longe dos Shoppings? Longe dos restaurantes franceses? Privada dos encontros com as amigas no Clube todas as quintas? Duvido! _Pois saiba você que ela me pareceu muito decidida, pai. Diz que está cansada dessa vida que leva. Acho que a ficha está caindo, um pouco tarde, mas em tempo. _Desculpe, mas não entendo do que você está falando Alessandra. Cansada de que? Ela tem uma mordomia de dar inveja. Casou novamente com um cara riquíssimo que mesmo depois de morto continuou a dar lucro. Desculpe, mas é verdade. Parece político, está sempre viajando para outros Continentes. Tem chofer, muitos imóveis. Do que ela ta cansada, minha filha? Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 6

_Sueli, não quero entrar em detalhes, pois eu não seria fiel ao que ela realmente pensa. Acho que cada um sabe da sua vida e de como vive-la. Eu só quis fazer um comentário que achei muito bom, ainda mais vindo de minha mãe. Quero que ela vá para perto de mim e quero que ela tenha uma qualidade de vida muito melhor do que a que todos acreditam que levam nesse momento. _Pera lá, Alessandra, você vem na minha casa, senta na minha mesa, come da minha comida e diz que nós não sabemos viver? Que não temos qualidade de vida? _Calma Sueli! Ela não disse que a sua vida não tem qualidade. E antes de tudo, a porra da casa é minha, a comida é minha, portanto a minha filha pode dizer o que quiser na minha casa! _Sr. Paulo acho que a conversa tomou um outro rumo e estamos perdendo o caminho para retornarmos com mais sensatez. _Vitor, fica frio. Desculpe o mal estar, mas essas coisas costumam acontecer aqui em casa. Só não acontece todos os dias porque chegamos tão cansados da rua que não temos tempo para olhar a cara do outro, conversar e falar o que pensamos. É comer, tomar banho, ligar a merda da TV e dormir. Eu concordo com a Alessandra, nossa vida não é saudável. Essas crianças não fazem mais nada do que chegar da escola e se trancar no quarto. Ninguém se fala. Eu nem me lembro da voz da Miúcha! Ela só sabe bater a porta do quarto quando digo que não tenho dinheiro!

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_Eu não admito que você fale assim comigo! E não fale dos nossos filhos como se não fossem seus! Você é um grosso, estúpido. Calhorda! Sueli sai da sala e vai para seu quarto. Bate a porta com força. _Papai, eu acho que não dá pra ficar essa semana aqui. Eu e o Vitor vamos pra casa de mamãe, OK? O clima está pesado, acho que não vai ser bom pra mim nem pra Sueli. _ Alessandra, minha filha, já são quase dez horas da noite, você acabaram de chegar de arrumar suas coisas no quarto, não faz isso, não... _Vitor chama um táxi e rapidinho estamos lá na mamãe. Não se preocupe. Aqui não dá pra ficar. Por favor, entenda. No Natal eu volto aqui para deixar os presentes da Miúcha e do Flavinho. Mas não me peça pra ficar. _Eu levo vocês lá. É o mínimo que posso fazer agora. Merda! Desculpe Vitor, eu sou um boca suja, não consigo parar de xingar quando estou estressado, e hoje ta brabo! É uma forma de alívio, você me entende? _Que isso, Seu Paulo. O Sr. Está na sua casa. Meu pai também solta uns palavrões quando o gado rompe a cerca da fazenda e se mistura com o gado do vizinho... dá um trabalho separar os bichos... _Eh... eu também xingo pra separar os bichos aqui em casa também...

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23:55h as luzes da cidade se apagaram. Blackout completo na cidade. Um silencio toma conta do apartamento. As crianças tateiam as paredes em direção ao quarto da mãe que dormindo não sabe do apagão. _Mãe!!! Tá escuro! Mãe! Sueli acorda assustada. _ Cadê seu pai? Deve ser outra falta de luz. Logo, logo vai voltar. _Não vai, não. A luz ta demorando muito a voltar e o papai foi levar a Alessandra na casa da Marta. Ele ta demorando... To sentindo falta de ar, não consigo respirar... _Calma, Flavinho. Ele deve estar batendo papo com eles e se esqueceu da hora. E a luz já vai voltar. Que horas são? Cadê sua bombinha? Já tomou o remédio? Fica calmo, vai passar. _A luz apagou uma meia hora depois que papai saiu, mas já tem um bom tempo. acho que agora é mais de meia noite e o papai não chega. _ Ah... mas eu não vou ligar pro celular dele, não. Ele foi muito grosso comigo. Que se dane. Liga pro seu pai você Miúcha. _ Meu celular já está sem bateria. Tava carregando! Liga você pro papai, Flavinho. _ Eu não sei onde está meu celular. Eu estou sem ar!! _ Toma aqui o meu. Ele vai achar que sou eu. Diz que você é que quis ligar. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 9

_ Mãe, o celular não funciona. Não faz barulho nenhum. Não chama. _ Dá aqui. Vou ligar e passo pra você. Ué... não funciona mesmo. Tá mudo. _ Liga do telefone fixo, mãe! Rápido! _ A gente até esquece dele! É, também ta mudo! O que será que está acontecendo? Já ficamos zilhões de vezes sem luz, mas nunca ficamos sem telefone. Tem algo estranho acontecendo. Abra a cortina Miúcha. Veja lá fora até onde está apagado. Se foi só o bairro ou só a rua. _ Mãe! Não vejo nenhuma luz! Está um breu lá fora. _Que exagero Miucha... Deus do céu... é um blackout! _O que é isso “Blackout”, mãe? Nós vamos morrer? _Nada disso Flavinho. Blackout é um apagão de grande extensão. Uma falta de luz de grande dimensão. Ninguém vai morrer por que está faltando luz, Flavinho! Ela vai voltar logo, logo. _Mãe, estou com medo. Não estou vendo seu rosto, mas a sua voz ta horrível. –gagueja Miucha. _Gente, vamos catar as velas? Parem de fazer drama. Seu pai deve estar chegando e sabe como ele é se souber que não fizemos nada para melhorar a situação. 02:15h - Já com velas pela casa toda os três – Sueli, Flavinho e Miúcha aguardam ansiosos e sonolentos a chegada de Paulo e o retorno das luzes no sofá da sala. A porta do apartamento se abre e Paulo entra sem fôlego e muito abatido.

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_Paulo! O que aconteceu? Por que demorou? Você sabe por que a cidade está escura? _Porra, deixa eu respirar? Subi 23 andares!! Não faço uma coisa dessas desde que eu tinha 17 anos. Acho que vou ter um treco. Me dá água. _Corre na cozinha, Miúcha e pega um copo de água pro seu pai! Você quer que eu faça alguma coisa? Fala Paulinho! Me diz se eu tenho que chamar alguém! _Chamar alguém? Não há como se locomover. Todos os sinais de cruzamentos, luzes dos postes, iluminação de rua se apagaram. A cidade está um caos. Ninguém anda e não se pode fugir dos engarrafamentos. Os carros estão sendo largados no meio da rua. Uma loucura! Eu nunca vi uma coisa dessas. Todos com medo de serem assaltados, fogem da situação para não ficar à mercê das gangues. Eles estão impando todos que estão parados. Estão se sentido seguros, pois não há como se comunicar com a polícia e ela chegar perto. Um caos! Uma loucura! Eu tentei ligar pra vocês, mas os telefones não chamam. Tentei os orelhões e todos mudos. Larguei o carro em frente a um prédio a alguns quarteirões daqui quando estava voltando pra casa. Pelo menos Alessandra está com o noivo na casa da Marta. Eu ficaria maluco de pensar que ela poderia estar em táxi nesse momento. _Aí você deixou o carro. E por que demorou tanto a subir o prédio? _Sueli! São 23 andares!!! Eu já havia andado três quarteirões parei para conversar com alguns moradores dos primeiros Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 11

andares, falei com Chico que não conseguiu ir pra casa, para saber mais sobre a situação. O radinho dele tá mudo. Tive que subir de três em três andares e parar para ter fôlego. No escuro, não sei quanto tempo eu parei em cada andar. Subi com a luz do celular, mas a bateria acabou no 18º ! Vim tateando até aqui. Pensa que é fácil? Esse prédio é antigo e não tem luz de emergência. Vou discutir sobre isso na próxima reunião de condomínio. _Paulo, você está me assustando. O radio do Chico está mudo? Gente, pega lá o radinho da Fatinha. Tá em cima da maquina de lavar roupa. Não é possível não ter algum canal no ar. _Mãe, o radinho ta sem pilha. Eu ouvi a Fatinha reclamando no outro dia que a pilha não durou nada. _Dá aqui, Flavinho. Pega as pilhas do controle remoto. Sueli tenta sintonizar qualquer coisa, mas o rádio não capta nada. _Desiste, Sueli. O jeito é a gente ir dormir. Trancar todas as portas. Encostar os móveis nelas. Me ajudem a empurrar esse sofá aqui. Agora não há como abrir a porta sem que a gente não ouça. Vamos fazer o mesmo com a porta da cozinha. _Papai, estou com medo. A gente vai morrer? _Não Flavinho! Ninguém vai morrer. Estamos apenas protegendo a nossa casa. OK? Vamos dormir todos no mesmo quarto e esperar a luz voltar ou o dia clarear. E isso será em breve, 02:45h já. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 12

19 – dezembro - 2012 Quinta-feira Todos adormecem no mesmo quarto do casal. O sol desponta no horizonte dando os primeiros sinais de movimento no ambiente. _Sueli! Levanta. Vamos tomar café todos juntos e eu vou descer para ver o que está realmente acontecendo. A luz ainda não veio. Estou ouvindo gente falando nos corredores do prédio, muito movimento. Acorda as crianças, vai! _O que você pretende fazer, Paulo? Você não vai lá fora onde os marginais estão atacando, né? Promete que você não vai sair do prédio. _Fica calma. Tenho que saber o que está acontecendo. Não podemos ficar aqui trancados sem ter uma definição de quando a luz vai voltar. _Páaiiii! Não sai água pra dar descarga no xixi! Não tem água pra lavar o rosto também!! _Flavinho, porra, sem gritos, OK? Estamos passando por uns probleminhas e não há necessidade de histeria. Quando a luz voltar a água volta. _E se a luz não voltar, pai? Não terei água pra lavar o cabelo? Hoje eu tenho aniversário de Sabrina! Não posso ir a festa dela com esse cabelo! _Miúcha, querida, nem você nem a Sabrina vão a qualquer festa hoje. Pode ter certeza disso. A coisa está muita estranha. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 13

Mas quem sabe? Pode ser que você ainda lave os cabelos no Natal. Presente de papai Noel... _Você não ta falando sério, né pai? _Miúcha, vamos tomar café. Depois do café as ideias ficam mais claras. Isso sempre funciona comigo. – esclarece Sueli. _Salve o café! Vamos a ele. – responde Paulo em tom de ironia. Paulo desce devagar e cauteloso a cada andar do seu prédio. O interior dos corredores ainda está escuro. A luz do dia ainda não está presente em todos os espaços. Leva com ele um bastão pequeno de beisebol do filho para qualquer investida de vândalos. Ao chegar exausto no segundo andar, ouve vozes, muitas vozes de pessoas nervosas e agitadas. Uma pequena discussão entre moradores. Ao chegar no saguão dos elevadores avista um grupo grande de vizinhos, muitos com roupas de dormir, pijamas, roupões. Paulo se junta a eles com certo desconforto, pois não conhece muitos dos moradores que ali estão, mesmo morando há mais de 10 anos no prédio. Mas entre eles avista o Chico cabisbaixo e cansado na cadeira da portaria. _Chico! O que está acontecendo, cara!? _Seu Paulo... pelos boatos a coisa é feia. A luz não volta tão cedo. Tão falando de uma tal de tempestade solar... Isso quer dizer que vai chover fogo, Seu Paulo? _Tempestade solar? Quem disse isso? _Foi o Seu Miguel do 606. Ele é professor de faculdade e disse que não há o que fazer. É o fim do mundo, Seu Paulo! Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 14

Pior que eu nem consegui pegar o ônibus pra ir pra casa e não consigo falar com minha mulher, nem me despedi dos meus filhos... _Para com isso, Chico! Deixa de ser bobo, ninguém vai morrer! Não posso deixar você ficar perto de Flavinho! Depois de ouvir alguns comentários dos vizinhos, Paulo resolveu tomar fôlego pra subir os 23 andares de novo. Dessa vez subiu com mais calma e pode controlar o tempo certo da respiração para cada subida, sem que lhe faltasse o ar. _E ai, Paulinho? Quando é que a luz volta? _Sueli, meu notebook está com você? Tá carregado? Tá aonde? Pega pra mim. _Ele está com bateria, mas o que você vai fazer? Já temos internet? Que maravilha!! Crianças, já temos internet! _ Pára Sueli! Não temos porra nenhuma ainda. Não há luz, não há comunicação de nenhuma forma. Pega a merda do computador, por favor! _Pai, você vai brincar numa hora dessas? Vai jogar o que? Quero jogar também! _ Flavinho, não vou jogar! Você só pensa nisso? Será que eu não consegui dar nenhum conhecimento a vocês nesses anos todos? Uma só pensa em lavar cabelos, fazer social e o outro em jogar no computador! Vamos colocar a cabeça pra funcionar, OK? A partir de hoje com luz ou sem luz todos vão ter que estudar. Vamos aprender novas formas de Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 15

pensar. Internet é muito bom, mas não nos serve muito sem eletricidade. Estou confuso e preciso pensar. A situação não é muito boa, mas juntos vamos encontrar novas soluções para nos mantermos alimentados e com saúde. _Aqui está o computador. Do que você está falando, Paulo? Que papo é esse de nos mantermos alimentados e com saúde? Estamos em guerra? Fomos atacados por marcianos? Terroristas? Não me diga que estamos sendo alvos de terrorismo? Somos um povo calmo. Não fazemos mal a ninguém, senão a nós mesmos... _ Deixe eu ver... onde eu li essa merda... tenho certeza que recebi um e-mail de algum sujeito falando sobre o perigo das tempestades solares... eu achei interessante e até gravei na pasta de abobrinhas... mas onde está essa merda... _ Pai, dê “Ctrl E” que o computador vai encontrar a palavra que você está procurando. _Flavinho!... esse é meu garoto... pelo menos você aprendeu alguma coisa nesses anos todos em frente a um micro. Aqui está. “Em 1859 uma grande tempestade solar fez com que os fios dos telégrafos entrassem em curto nos USA e na Europa levando a grandes incêndios. Esse mesmo evento está programado para o ano de 2012 quando a tempestade solar mais uma vez causará danos à rede de força e sistemas de comunicação de todos os países com consequências catastrófica e assustadoras. Cientistas acreditam que os efeitos poderão levar a um descontrole governamental da situação. Uma repetição contemporânea do evento de 1859 causaria distúrbios socioeconômicos significativos para a humanidade. A cada 11 anos o sol entra na sua Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 16

fase mais ativa, enviando tempestades magnéticas poderosas que desligam satélites, interrompem sistemas de comunicação, ameaçando a segurança inclusive dos astronautas As piores tempestades atuais derrubam redes de energia ao induzir correntes que derretem os transformadores.Uma única tempestade pode deixar mais de 130 milhões de pessoas sem eletricidade de acordo com estudos feitos pela NASA. Os impactos da falta de eletricidade, por exemplo, acabariam com a distribuição de água potável em questão de horas, alimentos e medicamentos perecíveis seriam perdidos entre 12 e 24h; serviços de esgoto, telefones, transportes, abastecimento de combustíveis seriam interrompidos etc. A energia poderia levar meses para ser restabelecida e nesse período manteria os bancos fechados e o comércio internacional seria suspenso...” _ E mais o que? Leia tudo, Paulo! _O resto não interessa. Sueli estamos em 2012! Se esse apagão foi causado por tempestades solares ou não, o fato é que teremos que nos preparar para o que virá pela frente. _Pai, a gente continua sem água. As garrafas da geladeira estão ficando vazias. A mamãe teve que pegar água do garrafão do filtro para fazer o café e agora vem o almoço... _Miúcha eu não sabia. Como é que eu iria saber que a luz iria demorar a voltar? Achei que você subiria com a notícia que estão consertando o poste e devemos esperar mais só umas horas. Lembra quando faltou luz no verão passado? Ficamos sem ar condicionado uma noite inteira num dia quente do cão! Mas a luz voltou às 5h da manhã... _Sueli, a luz não vai voltar tão cedo. Não é uma questão de horas... é questão de dias... E daquela vez a falta de energia foi local. A gravidade da situação é que não há energia Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 17

elétrica na cidade! Você consegue entender isso? Não tenho noção ainda de quantos municípios foram atingidos por esse evento. Podem ser muitas cidades, pode ser o Estado todo! Caramba, pode ter afetado o país!! _Pai, vamos embora pra casa da vovó! Lá deve ter luz. _Flavinho... sua avó mora em outra cidade perto daqui. É muito provável que não haja luz lá também. E mesmo que lá tivesse luz não podemos sair na rua. Estão todos fazendo a mesma coisa. Saindo para algum lugar. Devem estar uma loucura as estradas. Fora o fato que se a gasolina acabar antes do seu destino, você não estará em lugar algum, pois não há eletricidade para ligar as bombas de gasolina. Nesses casos os donos de postos com medo de saqueadores trancam a fonte de maneira que não temos como pegar. Pelo que ouvi de alguns moradores muita gente conseguiu ser avisada do possível apagão pela internet e tomou providencias – pensaram num plano “B” _Minha mãe! Eu me esqueci da minha mãe! Paulo, qual será nosso plano B? Temos que encontrar minha mãe! _Calma Su, sua mãe não está sozinha. Ela tem a companhia de mais três irmãos seus. Garanto que ela está em melhor situação do que nós. Nesse momento devemos racionar. _Mas racionar o que? Não temos mais água. O prédio todo deve ter recolhido água a noite enquanto estávamos dormindo. Encheram tudo que podiam. Não temos muita comida. O rocambole de carne que Fatinha fez para o almoço com sua filha hoje está na geladeira sem refrigeração e o freezer está descongelando as outras carnes também. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 18

Teremos que comer tudo para não estragar. Temos bastante macarrão... mas não temos água para cozinhá-los. Ovos, queijos, presunto... não vão passar de amanhã. O leite... _Tudo bem querida... Vamos dar um jeito. Tudo bem. Vou descer e ver se consigo água pra beber. Pelo menos hoje temos comida. Se tranquem quando eu sair e não se assustem com a minha demora. Pode ser que eu tenha que ir longe para conseguir água. _Pai deixa eu ir com você? _Não Flavinho. Fica aqui tomando conta da casa. Você já tem 10 anos e já é um homem forte. Ajude a sua mãe. E mantenha tudo calmo. _Paulinho cuidado, por favor! E tente não demorar... _Tudo bem, Su. Não faça nada estúpido, OK? Paulo trancou a porta deixando a família temerosa e aflita com os futuros acontecimentos. No saguão do prédio não se via mais tanto morador. Alguns estavam atônitos com olhar fixo, aguardando apenas a energia elétrica voltar. Chico comia um pão com café que um morador lhe trouxera naquele instante. Estava faminto, pois iria jantar em casa no dia anterior para enfim passar em casa o fim de semana, mas não conseguiu sair do bairro, pois não havia condução. Morando há 80km de distancia de seu emprego, Chico zelador, ainda aguardava humildemente as ordens dos moradores do prédio, já que o empregado que o renderia no fim de semana também não chegou. _Chico! O que você está fazendo? Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 19

_Oi Dr. Paulo. Tô tomando um café para ficar de pé. Tô sem comer nadinha de nada desde ontem à tarde e pelo visto to vendo que não vou comer depois tão cedo, pois o pessoal ta sem água pra fazer até um café. _Pois é, disso que quero falar com você. Onde você mora? É longe? _Dr. Paulo, eu moro há uns 180km daqui, mas pegando o metro... _Chico. Não há metro. Não tem ônibus. Talvez de bicicleta você chegue lá a noite em casa. _Dr. Paulo... como é que não pensei nisso antes? O problema é que.... quem vai me emprestar uma bicicleta nessa hora? Ainda to arriscando as gangues tomarem a bicicleta... _Preciso de você Chico e você precisa de mim. Meu carro está há três quarteirões daqui. O tanque estava cheio. Se não roubaram meu carro, podemos ir até a sua casa, você vê sua mulher e filhos e me ajuda a trazer água para meu apartamento. Digo, água para beber. Depois te levo de novo até lá. Sua casa tem poço, não tem? Não é assim que vocês vivem no subúrbio? De água de poço? _Dr. Paulo... temos muita água sim, temos uma mina d’água no terreno... e eu não quero ser estraga prazer, mas o Sr não acha que levar água para o 23º andar... não vai resolver muito o problema de vocês... _Eu sei Chico, mas estou totalmente perdido. Não sei mais o que pensar. Não quero que minha esposa e meus filhos pensem que eu não sei tomar conta da situação... Quem sabe Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 20

amanhã o exercito venha nos ajudar trazendo água e comida pra a gente. _Dr. Paulo. O Sr. Ta mesmo perdido. Mesmo que o exercito traga a água e comida pra vocês não será por muito tempo. A cidade toda está sem comida. Todo o mercado fechou. Os caixas das lojas são tudo elétrico. Ninguém vai vender nada sem resistro. E mesmo que abram as portas as pessoas vão ficar desesperadas para conseguir algo que vão acabar saqueando tudo, não esperando a sua vez pra comprar. O Sr já viu bacana com fome? Eles passam por cima de quem for na fila dos restaurantes e ainda querem ser atendidos primeiro. Eu sei, por que já trabalhei de garçom e já vi cada coisa que o Sr. Não acredita... _Chico, podemos ir para sua casa? É só por um tempo. A Sueli gosta da sua mulher, lembra? Uma vez sua mulher foi fazer uma faxina lá em casa a pedido da Sueli. Ela gosta muito da sua mulher. Elas vão se dar bem. E é só uns dias até as coisas ficarem mais calmas e voltarem ao normal. _Dr. Paulo, acho que o Sr. Ta enganado. Dona Sueli tratou muito mal a minha Marlene naquele dia da faxina. Fez a bichinha limpar o apartamento todo num único dia. Toda a sujeira de meses num único dia. Minha mulher saiu da sua casa às 11 horas da noite e prometeu nunca mais fazer nada pra ela. O pior de tudo é que depois a Marlene ficou sabendo pela Jussara que trabalha no 1504, que Dona Sueli disse que a faxina foi porca. Tive que ouvir a Marlene falar uns dois dias... o pior é que fui eu que arrumou o serviço... Foi na época que a Dona Fatinha fez aquela cirurgia na barriga, lembra? Pois é... me arrependo demais daquele dia. Antes tivesse dado o serviço pra outro fazer. O problema é que as Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 21

empregadas daqui não aguentam cara feia e soltam os bichos, não são como a Marlene, que ouve, mas faz. _Desculpe Chico... eu nunca soube disso. Fico sempre tão ocupado com as coisas do dia a dia no trabalho que não fico sabendo do que acontece na minha própria casa. Sueli realmente faz umas coisas... mas ela não é má, Chico. Só não sabe lidar com as pessoas. Olha, deixa a gente ficar com vocês e eu prometo que a Sueli é que fará a faxina na sua casa. Que tal? _Não sei, não... _Vou subir pra avisar o pessoal e pegar algumas coisas pra levar. Mas antes eu vou passar na casa da Marta, minha exesposa e ver se minha filha está bem. É aqui perto. Você me espera? Depois você sobe comigo e me ajuda a descer com as malas. Eu te levo pra casa e você me deixa ficar por uns dias por lá. Um tempo suficiente para eu pensar em outra coisa, Olha, você vai comer rocambole de carne no almoço de hoje, da Fatinha! _Dr. Paulo... eu acho que não é uma boa ideia... Mas vou aceitar o almoço... Paulo anda muitos quarteirões a pé atento de um lado pro outro. As ruas estão quase desertas. Algumas pessoas nas janelas dos edifícios se abanando, estão desoladas com a mão sustentando o queixo a espera de algo que não sabem o que. Acreditam que é uma falta de luz passageira. O calor do dia está insuportável. A luz do sol dói em contato com o rosto. Carros estão atravessados no meio da pista. Portas fechadas. A cena é desoladora. Alguns grupos de homens fazem uma roda e falam de maneira suspeita quando Paulo atravessa Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 22

mais uma rua. Todos são suspeitos. Ouve-se choro de crianças, parecem com sede ou fome... calor e mal estar. Um silencio nunca ouvido antes. Apenas barulhos isolados. Não há máquinas, motores trabalhando. Apenas barulho de gente, vozes, latidos, marteladas em algo como um arrombamento. Pessoas correndo. Em frente ao prédio de Marta, Paulo é barrado logo no portão de acesso a portaria por um homem enorme e forte, armado. Muitos outros homens também armados estão afastados de olho no visitante. _Onde o Sr. Pensa que vai? _Eu quero falar com Dona Marta Zurich do 1002. Sou o exmarido dela e temos uma filha em comum e quero saber como elas estão. Preciso saber se estão bem. _ Olha, moço. Estou sendo pago para não deixar ninguém entrar no prédio. Não há ninguém mais morando aqui. Estamos tomando conta de seus pertences. Todos viajaram para fora da cidade. Não sei quem é Dona Marta, mas posso saber para onde ela foi. Aguarde aqui. _Por favor, procure essa informação, é muito importante saber se minha filha está com ela e se está bem. Minutos depois o grande homem volta. _Essa Dona Marta saiu de helicóptero logo que o sol nasceu. Sua filha e um homem estão com ela. Disseram lá dentro que ela foi para o interior. Deve ser uma dessas casas de rico nas montanhas. Bom, já sabe. Ela saiu pelo ar. Agora o Sr. Já pode ir. _Interior... obrigado. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 23

Paulo volta pelo mesmo caminho, mas em direção a seu carro. Ele está lá no mesmo lugar que deixou a noite passada. Está receoso de ligar o motor e chamar atenção. Está tudo tão calmo. _Vamos lá. Não me deixe na mão meu carrinho. Saia com calma e não morra, não afogue nesse momento... O coração de Paulo bate rápido e descompassado. Tem medo de ser impedido de seguir adiante. Um veículo com combustível é ouro agora. Paulo chega sem problemas na porta de seu edifício. Desliga o carro e entra rápido no prédio. _ Vamos lá, Chico? Vamos almoçar e pegar as coisas. Você vai ver sua esposa, Chico! Tem bastante gasolina. _Dr. Paulo, não é melhor eu ficar aqui tomando conta do carro? Sabe como é, os outros moradores podem não gostar de eu sair do meu posto. _Chico! Acorda! Não há mais empregados e patrões. Não há mais serviço que possa ser pago com dinheiro. Os bancos estão fechados. O valor do dinheiro não mais existirá se as comunicações não voltarem logo. Não há o que comprar. Você mesmo disse isso. Daqui pra frente teremos que nos unir em pequenas comunidades. Resolver as situações do grupo. Voltamos aos tempos das cavernas, meu amigo! A única diferença é que temos mais conhecimento de como transformar as coisas em benefício próprio, coisa que eles não sabiam. Tiveram que descobrir no dia a dia. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 24

_Dr. Paulo... o Sr. Ta me assustando... _Vamos fazer uma coisa. Vamos colocar o carro pra dentro do prédio. Você tem o cadeado desse portão da garagem? Tudo bem. Fique aqui e mando o Flavinho trazer seu almoço enquanto a gente arruma as coisas. Depois você sobe e me ajuda a trazer as malas. OK? _Acho que assim é melhor, Dr. Paulo. Paulo sobe os andares bufando. Está ansioso para chegar em casa e dar as boas novas a família. _Su, consegui um lugar com água e comida pra a gente ficar até as coisas se normalizarem. Junte algumas mudas de roupa, pouca coisa, pra levarmos. Vamos levar somente o necessário, tipo escova de dente, sabonetes, shampoo. _Para onde nós vamos, Paulo? Conseguiu algum hotel que ainda tenha água? _Hotel, Sueli? Os hotéis estão na mesma situação que todos nós. Não circula água pelos encanamentos da cidade! A adutora precisa de energia elétrica para gerar suas bombas e distribuir água aos bairros. _Deus do céu, eu não tinha pensado nisso. Mas se não vamos para um hotel, para onde nós vamos? _Já pensei em tudo. Vamos ficar uns dias na casa do Chico que tem muita água, em abundancia. Com a cabeça fria e afastada do problema de sobrevivência, podemos pensar melhor. A gente ajuda a eles e eles nos ajudam... sabe como Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 25

são esses ignorantes. Eles precisam de pessoas como eu e você para pensar em um plano “B”. _Fala sério? Você acha que eu vou passar uns dias na casa do porteiro, só porque não tenho água em casa? Fico dura de sede, mas pra lá eu não vou! _Sueli, deixa de ser burra. Você diz isso agora que está hidratada e com a barriga cheia. Quero ver você dizer isso quando seu corpo começar a definhar de sede e fome. Não vivemos sem água, Sueli. Nosso organismo pode sobreviver até uns 3 dias, eu acho, sem água. Nossa mente vai ficar confusa e não saberemos mais o que fazer, pois não teremos mais como raciocinar! Isso é morte certa! Você quer isso para seus filhos? _Não é possível que não tenha água em outro lugar? Ou aqui mesmo no prédio. A cisterna deve estar cheia. Ela é muito grande... _Su... o que restou da cisterna o pessoal dos 10 primeiros andares já pegou com balde... nós estamos no 23 andar!! Além de não conseguirmos trazer água suficiente para cá, estaremos esgotando nossas energias físicas. E depois que água acabar? Onde pegaremos mais? _Ah, essa luz voltará, logo, Paulinho... é só ter paciência. _Pegue um pedaço bem grande de rocambole de carne para o Chico. Vamos lá embaixo dar uma olhada na rua. Acho que você não tem noção do que está acontecendo ficando aqui dentro. Todos desceram as escadas bem devagar e cautelosamente. Um silencio aterrorizante era quebrado momentaneamente e o coração disparava a cada batida de Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 26

porta de algum apartamento no prédio ou ruído não identificado. Ao chegar no salão principal do prédio o medo aumentava. _ Toma aí, Chico, seu bolo de carne que a Fatinha fez. Como é que estão as coisas? _Obrigado, Dr. Paulo. Tá tudo calmo demais... Já passou um grupo de homens olhando pra cá pra dentro. Ficaram parados tentando enxergar se havia gente tomando conta do prédio. Eles não conseguiram saber se havia gente, por causa do vidro espelhado. Mas acho que vão voltar mais tarde pra ver isso de perto... _Ai, meu Deus... Paulo vamos subir e trancar as portas! Por favor! _É pai, vamos subir. Estou com medo. Quero fazer xixi! _Calma, gente! Faz xixi em qualquer lugar aí Flavinho. Eu trouxe vocês aqui para mostrar como estão as coisas aqui. Deem uma olhada lá fora? Veja como estão as ruas. Não há gente passando. Não há carros circulando. Estão todos entocados em suas casas aguardando a luz voltar... _É isso que nós devemos fazer também, pai! Vamos subir. _Miucha, não podemos esperar um milagre. Temos que tomar uma decisão agora. Ou vamos todos pra casa do Chico ou vamos passar por maus pedaços aqui. Temos que fazer algo antes que comecemos a ter fome e sede. Temos que tomar uma decisão enquanto estamos bem fisicamente!

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_Dr. Paulo, não quero ser estraga prazer...mas se vamos pra minha casa é melhor irmãos logo. Acho que não será muito bom chegar no escuro por lá. A gente tem que ver lugar pra vocês dormirem, ajeitar as crianças. Minha casa é muito pequena pra esse povo todo... A Dona Sueli pode não gostar do que vai ver... Se a gente for cedo, vocês podem procurar outro lugar melhor... _Chico, não há “um lugar” melhor nesse momento que a sua casa! Tenho certeza que a Sueli vai ficar honrada de passar uns dias em companhia de sua família e rever a Marlene. Não é “Su”?! _Claro. Que isso Chico. Eu sei que vocês são humildes e não tem muito conforto, mas são muito honestos... _Vamos subir, então, né pessoal. Vamos antes que escureça. Já estamos descendo Chico. Termina seu almoço que estamos descendo. Subindo as escadas do prédio em direção ao 23 andar... _ “Mas vocês são muito honestos...” Que bobagem é essa Sueli? _ Não me enche Paulo. Tô sendo sincera com o cara. Só estou avisando que espero honestidade da parte deles. _ Que honestidade da parte deles? Tá louca? _ Olha, eu tenho muita coisa que custou os olhos da cara. Coisas que eles não vão ter nem trabalhando a vida toda. Não quero que suma nada! Estamos passando por um momento estressante e as pessoas se aproveitam das nossas fraquezas para nos surrupiar... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 28

_Quanta besteira! Eles são humildes e tem educação, valores bem definidos. Coisa que nos faltam ultimamente. _ Mãe, como vou fazer pra ir a escola na segunda? O Chico mora longe paca! _Sua burra! Não tem mais aula segunda, nem terça, nem dia nenhum! Vamos todos morrer! _Pára Flavinho! Ninguém vai morrer! E acredito que as aulas vão ficar suspensas até que tudo volte ao normal, Miucha. Não é só você que está nessa condição de vida tumultuada. Todos na cidade estão com o mesmo problema. Você não sabe por que não pode falar com eles pelo seu celular, o que pra você deve estar sendo a situação mais catastrófica do momento. Não saber o que a Aninha ta fazendo agora... deve estar te deixando louca, né filha? _Pára você também, Paulo! Deixa a menina! Cada um sabe aquilo que é mais importante e que afeta sua vida. E... dava pra gente parar um pouco? _Sueli nós só subimos quatro andares. Você é a única que faz academia. A única que “malha” muito aqui. _Dá licença?! Estou nervosa com tudo isso. Eu faço esteira, não Steps. _Mãe, pra falar a verdade... não sei o que você tanto faz na academia, pois você está sempre cansada e as gordurinhas estão sempre aí. Nunca vão embora... Eu detesto aquela academia. Não vejo resultado nenhum. A gente levanta peso, Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 29

corre, faz abdominal e barriga nunca vai embora. A única vantagem de ir até lá é só pra olhar pra aquele Deus Apolo do professor Dinho... fora isso... _Dona Sueli, quando tudo isso se acalmar, nós vamos ter uma conversinha sobre suas aulas de ginástica que já duram mais de três anos... _Paulinho... sabe como são os adolescentes... Miúcha está no auge dos seus 14 anos e os hormônios estão a flor da pele. O rapazinho que dá aula lá, ou melhor, o garotinho que dá aula, é muito bonitinho, mas é uma criança... _Ah, não mãe! Ele não é um garotinho, não. É um Gato! Deve ta beirando uns 30, 31 anos. Eu sei, porque a mãe da minha amiga já saiu com ele, inclusive ele tem uma filha de 5 anos. _Garotinho... de 31 anos?... Eh, nossa conversa vai ser mais séria do que eu pensava. – Paulo olhou fundo nos olhos de Sueli. Seu rosto estava sério e soturno. _Miúcha, cala a boca, OK? E vamos subir, já estou com fôlego pra chegar até o trigésimo. No 23º. Andar a família respirava ofegante, exausta. Mal podiam se sustentar nas pernas. Cada um se escorava nas paredes do corredor tentando normalizar a respiração. _E aí, a sua ideia de trazer água pra cá pra cima, ainda está de pé? Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 30

_Tudo bem Paulo. Você venceu. Não é uma boa idéia. Vamos fazer as malas. _Sueli, vamos levar o estritamente necessário. O resto fica. Vamos imaginar que estaremos passando um fim de semana numa casa de praia. Então não adianta levar roupa de ir ao Shopping no fim de tarde, OK? _Pai, posso levar meu computador? _Flavinho, não há luz lá também. Leve algum jogo de cartas. Dominó. Xadrez. Coisas que podemos fazer sem luz. Você tem bons jogos aí, Flavinho. Não sei porque paramos de brincar com eles. Nos divertimos muito quando vocês eram menores... quando não sabíamos o que era Google... _Pai, estou me sentindo estranha... não consigo pensar. Nada faz sentido. Eu quero minha vida de volta... _Pare de chorar...não faz assim, Miúchinha do pai... tudo vai dar certo. Estamos bem. Estamos fortes. Papai e Mamãe vão proteger vocês dois. Afinal, acho que foi isso que nós sempre fizemos... acabamos sem querer “desprotegendo” vocês das adversidades da vida. Vocês não foram preparados para o caos. Qualquer problema, nós resolvemos... Mas eu prometo que isso vai mudar, Miucha. Tudo vai terminar bem. Pare de chorar... _Do que você está falando, Paulo? O que vai mudar? _Nada Sueli, nada. Continue arrumando as coisas. Vou trancar os armários e as portas internas dos quartos e jogar o lixo lá fora pela lixeira. Tempos que tirar toda comida Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 31

perecível daqui. Limpar a geladeira. Senão, quando voltarmos isso estará fedendo demais e vai atrair bichos para cá. Quando Paulo termina de arrumar as coisas no imóvel, observa grande volume de fumaça ao longe no bairro, pela janela da sala. Estão queimando, incendiando casas ou algo mais estranho está acontecendo. _ Gente, vamos logo com isso. Tragam as coisas pra sala que vou fechar tudo... Que isso, Sueli? _Ué, nossas coisas. Meu estojo de maquiagem, roupa de cama, toalhas, algumas xícaras. Só to levando 4. Minha cafeteira Italiana, minhas joias... _Sueli, acho que você não está entendo a gravidade da situação. Nós só vamos levar algumas mudas de roupa. Talvez uma toalha de banho pra cada um, mas é só! Pra que as joias? Pra que maquiagem? Vai colocá-las aonde? Vai sair aonde? _Paulo, pelo amor de Deus. Isso não é hora de você me separar das minhas coisas. Não é momento para nos afundarmos mais do que já estamos. Eu já aceitei ir pra casa do Chico. Vou ter que me humilhar na frente da Marlene. E você ainda quer que eu use a roupa de cama deles? Durma no travesseiro deles? Paulo, eles devem dormir em cama de palha! Tomar café em copo de requeijão! Eu estou fazendo o que você quer, não estou? Agora me deixa. OK? Quero um mínimo de conforto. Pode ser? _Sabe de uma coisa... leva, leva. Vamos sair logo daqui. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 32

A família desce as escadas com as malas arrastando degrau a degrau. Colocam tudo no carro com ajuda do Chico, sempre solicito.Chico vai na frente com o Paulo. Os outros 3 se apertam com a mochilas gordas que não deram no porta malas. _É isso, Chico! Você vai ver sua família!! Estamos quase lá. _Dr. Paulo, não quero ser estraga prazer...mas o Sr. Não acha melhor a gente sair da estrada principal e ir pela estrada de terra? Eu conheço um desvio que vai dá lá em casa. Demora mais um pouquinho, mas é mais seguro. A estrada ta tão vazia que dá medo. Eu me garanto mais fora do asfalto. _Não! Paulo, por favor, aqui atrás está muito apertado e se formos para estrada de barro o carro vai pular muito, fora o fato que vamos nos encher de terra. Muita poeira! Vai nessa rodovia mesmo. Nunca vi uma estrada tão boa assim. Tão bom se toda vez que a gente saísse de férias pegássemos uma dia como esse... Tudo calmo... sem uma viva alma... _Pai, o que é aquilo lá na frente? Parece um carro tombado na estrada. Acho que foi um acidente! _Calma Flavinho, já vi. Vamos passar devagarzinho pelo lado. Acho que não tem ninguém mais lá. Deixaram o carro e já foram socorridos para o hospital. Tá tudo bem. Quando Paulo diminui a velocidade para passar ao lado do carro atravessado na estrada, um grupo de homens armados surge das margens da rodovia e fazem sinal para ele parar tomando a frente do automóvel. _Pai, não pára. Não pára, pai! – pede histérica Miúcha. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 33

Um dos homens armados Poe a mão na maçaneta da porta do motorista mandando que ele abrisse a tranca enquanto os outros homens cercavam o carro. _Desce todo mundo! E encosta ali do lado. – Manda com uma voz assustadora o homem que abriu a porta de Paulo. Todos saem do carro com as mochilas. Os homens no mesmo instante tomam o assento do carro e vão embora com ele, sem dizer uma palavra. _Paulo, minhas joias! Minhas coisas estavam no porta mala, Paulo! E agora? Como vamos chamar a polícia? _Sueli... eles são a ordem nesse momento... _Dona Sueli, fica calma. Estamos bem perto da minha casa. Falta só uns 20km daqui. _O que? 20km? Você tá maluco Chico? Você acha que eu vou andar com essas crianças 20km? _ Bom Sueli, a gente pode acampar em algum lugar por aqui. Vamos entrar nesse mato e ver se achamos uma área para a gente dormir. _Paulo! Pense em alguma coisa, por favor! Você não está me dando escolhas. Ou bichos ou caminhada de 20km!? _Dr. Paulo. Eu não posso ficar aqui o tempo todo esperando uma decisão. Logo vai escurecer e eu pretendo chegar em casa ainda com o dia claro ou pelo menos anoitecendo ao Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 34

entrar em casa. Meu pessoal anda 20km brincando. Isso pra gente não é nada. Sei que vocês podem fazer. _Nós já vamos Chico. Sueli, não há alternativas. Ou você vai, ou você vai. _Pai, eu vou. _Eu também, Pai. Ainda bem que eu vim de tênis. Se fosse com minha sandália nova... ia me abrir o pé. _Então Sueli? Você quer ficar aqui pensando, pode ficar. Nós vamos andando com calma. _Você não teria coragem de me deixar aqui? Você não ousaria a fazer isso com a mãe de seus filhos! Paulo pega a mochila de Flavinho e põe nas costas e sai andando. Coloca as mãos no ombro de Miúcha e a dirige pela estrada sem olhar pra trás. _Paulooooo! Para aí! Me espera! – Sueli vai atrás do grupo. Depois de andarem meia hora, Sueli pede para parar. Não aguenta mais dar um passo. _Falta muito Chico? _Olha, Dona Sueli, depois que a gente subir aquele monte, atravessar aquela montanha, a gente ta pertinho. Vamos passar por uma pequena represa que é na entrada das minhas terrinhas. _Não dá. Não vou conseguir. Paulinho, me ajuda... _Chico, você leva as crianças com você. Vou ficar com a Sueli descansando. Quando ela se sentir mais forte a gente Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 35

segue. Você me disse que a estrada para sua casa é perto de uma represa, não é? Então, vamos parar lá e esperar você nos encontrar. De comida para meus filhos e lugar para dormir e já estou satisfeito. Andem antes que escureça. Paulo e Sueli beijam os filhos e dá a mochila de Flavinho para o Chico. Eles seguem a estrada até não serem mais vistos. _Paulo, me desculpe. Sou uma inútil. Não sirvo pra nada. Estou com sede com fome e exausta. E ainda não consigo deixar de pensar nas coisas que os homens levaram. Se eu tivesse ouvido você e deixado tudo no apartamento, minhas coisas estariam lá quando eu voltasse... _ Su, relaxe ao menos uma vez. Foque na saúde de seus filhos. Eles são o que realmente temos de mais importante na vida. Eles estão seguros. Não podemos nos apegar a coisas materiais. Só agora eu entendo isso. Esse problema todo está mexendo com meus valores, com aquilo que eu acreditava como sendo o mais importante para a nossa felicidade. Eu acreditei que tendo muito dinheiro, tudo eu poderia ter, mas o dinheiro só funciona numa única dimensão. Não nos atende nas outras... _Não estou entendendo nada do que você está falando, Paulo. Minha cabeça está girando... _Tudo bem. Deite no meu colo e descanse. Você vai ficar bem. _Sabe, você até agora não xingou um palavrãozinho... e está tão carinhoso...me lembro que você era assim quando nos Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 36

conhecemos, mas com o passar dos anos... Você só sabe gritar e xingar. Nunca mais vi aquele homem gentil que eu me apaixonei... _Eu também queria ver aquela mulher linda e meiga que me fez perder a cabeça. Você sabe por onde ela anda? _Deve ter fugido com aquele homem gentil para algum lugar que desconhecemos... Paulo e Sueli adormeceram embaixo de uma árvore no canto da estrada de terra. Juntos perderam a noção do tempo e do espaço. Acordaram no dia seguinte com a presença do Chico. 20 - dezembro – 2012 Sexta-feira _Dr. Paulo, o Sr está bem? Tudo bem com vocês? _Oi Chico! Meus filhos, como estão? Tá tudo bem na sua casa? _Tá tudo certinho por lá, como sempre. A Marlene tem controle de tudo. Mulher porreta ta ali. O mundo pode cair, que ela continua de pé. Temos comida e muita água. Seus filhos dormiram e já tomaram café. Foram tomar banho de rio com meus filhos. Tá muito quente a essa hora do dia. Vim buscar vocês. Dona Sueli já pode caminhar? _Já Chico. Acho que aguento chegar até sua casa pra tomar um bom café. Só de pensar já estou mais animada. Quero tomar um banho e tirar essa roupa fedida. O grupo segue pela estrada num sol quente da manhã. Sueli está mais forte. Na pequena represa avistam seus filhos com os dois filhos do Chico se divertindo na margem do rio. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 37

Miucha acena para eles e corre ao encontro dos pais, seguida de Flavinho. _Pai, Mãe, que delícia, a água está maravilhosa! _Oi meus queridos. É tão bom ver vocês felizes. Sorrindo. Meu coração está em paz agora. Vocês agradeceram o Chico pela estadia? _Já, pai! Eu já ajudei a Marlene a lavar a louça também. _Você, lavando louça? Você não lava nem um copo lá em casa, Miúcha! _Ah, mãe. Eu não lavo porque tem a Fatinha pra fazer isso. Nunca me pediram. A Marlene disse que aqui todos tem que trabalhar. Quem não trabalhar, não come. Eu já fiz minha parte! _Eu também já ajudei! E nem tive falta de ar a noite toda! _Você também, Flavinho? Muito legal! Nossa, essa experiência esta saindo melhor que a encomenda! _Olha Dr. Paulo, a Marlene é assim, viu. Aqui em casa todo mundo trabalha para que as coisas não fiquem pesadas só pra um. A Marlene precisa trabalhar no roçado, mexer na terra para termos o que comer. Não vamos ao mercado todos os dias. Apenas uma vez por mês para comprar querosene para o lampião, sabonetes, papel higiênico, óleo de cozinha, sal e outras coisas pequenas. Precisamos de muito pouco. _Nossa, a Marlene é quem lida na roça? É um serviço pesado! Acho que eu não aguentaria uma enxada nem 5 minutos. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 38

_ Aguenta, sim, Dr. Paulo. Quando a gente precisa, a gente aguenta qualquer coisa. Quem diria que Dona Sueli andaria 20km? _Nossa, eu não tinha pensado, nisso. Paulo eu andei 20km! O máximo que eu fazia na academia era de 2km na esteira. Ah, o pessoal vai ter que engolir! Estou me sentindo mais forte. Estou mais magra, não estou Paulinho? _Tá, Su. Está muito mais magra... Na casa do Chico, a Marlene os recebe na soleira com muita generosidade. Os deixa bem a vontade. _Sejam bem vindos a minha casinha. É de pobre, humilde, mas é cuidada com muito amor. _Que isso, Marlene. Nós é que humildemente agradecemos a sua hospitalidade. Não sei como agradecer o carinho que você está nos recebendo. O Chico já deve ter lhe contado o que está acontecendo na cidade com a falta de energia elétrica, não é? _Já sim, Dr. Paulo. E pra nós isso nunca foi novidade. Eu sempre fiquei pensando como as pessoas ficam dependentes das coisas... É microondas, é geladeira é maquina de lavar roupa, chuveiro elétrico... é muita coisa pra fazer um serviço tão pequeno... _Ah, Marlene, serviço pequeno? Você mesma não aguentou limpar o meu apartamento. Uma simples faxina.

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_Sueli! Acho que você não está entendendo o que a Marlene observou. A limpeza pode ser feita diariamente com calma e objetividade no decorrer da semana se todos ajudarem fazendo a sua parte. Limpar um imóvel, uma bagunça de dias, num único dia para um só, fica difícil. Se me lembro bem, você deixou a casa virar de cabeça pra baixo acreditando que a Fatinha iria voltar de uma cirurgia abdominal do hospital em três dias para fazer a faxina de sempre. Quando viu que ela não iria voltar tão cedo foi que você resolveu pedir ajuda, né?! E a Marlene com toda presteza tentou colocar a bagunça de vários dias em ordem em apenas 8 horas de serviço. _Não deu não, Dr. Paulo. Dona Sueli pediu pra fazer comida pra vocês pra semana, passar toda a roupa acumulada, limpar vidros, aspirar a casa, lavar banheiros, cozinha... Dona Sueli pediu pra eu escovar todos os seus sapatos de trabalho, assim que terminasse de passar as camisas, que me lembro bem... foram 6 camisas sociais de algodão. Olha, aquilo me deixou mais cansada do que pegar na enxada! _ Eu já estou cansado, só de pensar! Tudo bem, Marlene. A Sueli está aqui também para se desculpar e vai retribuir com a mesma dedicação ao trabalho aqui na sua casa. Vamos pagar essa estadia com trabalho. Afinal, quem não trabalha, não come! Não é assim? _Com certeza, Dr. Paulo. Na minha casa, temos que dividir as tarefas. Assim não fica pesado pra ninguém. Quando o Chico ta na cidade na semana eu tenho que pegar no pesado por aqui. Tenho que manter tudo em ordem. Os meninos desde pequenos me ajudam na casa e no plantio antes da escola. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 40

_Não entendo. Se vocês não gastam tanto para viver, porque o Chico precisa trabalhar na cidade de segunda a sexta? Ficar tanto tempo fora de casa. Por que não arrumar alguma coisa por aqui mesmo? _Não há muito trabalho por aqui, Dona Sueli e o pouco que tem, o povo não pode pagar muito. Com o serviço do Chico na cidade podemos aumentar nossa casinha, comprar mais terras e estocar mais material para plantio, ferramentas e vacina para os bichos. Vivemos muito bem. Temos leite, carne, ovos, legumes, verduras, frutas de todos os tipos e o melhor, compramos as terras lá de cima que tem fartura de água! Nossos filhos vão estudar na cidade logo, logo e o Chico tem que orientá-los. _Onde eles estudam aqui, Chico? Não vimos nada durante a caminhada. Nenhuma escola. _Eles estudam num povoado a uns 5km daqui. Vão a pé todos os dias. Mas a escola Municipal só vai até o primeiro grau, depois eles terão que ir para a cidade comigo para terminar o segundo grau por lá. Como sou zelador do prédio, não pago pelo quartinho que tenho. Eles iriam comigo na segunda e voltariam para casa na sexta comigo. Já pensamos em tudo, eu mais a Marlene. _Nossa, vocês realmente têm um plano B na vida... _Nós também querido. Nossa realidade é um pouco diferente, mas está tudo sobre controle... temos uma poupança maravilhosa para nos livrar de qualquer imprevisto no futuro. Podemos viajar, comprar imóveis, mandar os filhos estudar na Europa... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 41

Fez se um silencio de repente... todos olhavam incrédulos para Sueli. Como se lhe faltasse lucidez suficiente para entender o que se passava naquele momento. O dia transcorreu sem muitos problemas. Sueli ajudou a Marlene em tudo que pode. Estavam todos limpos e alimentados. A noite caía. As crianças jogavam cartas e riam alto, como se nada no mundo os afetassem naquele momento. Sueli deu boa noite a todos e foi deitar. Estava muito cansada. Marlene costurava uma manta que estava terminando de fazer. Paulo e Chico saíram da casa para ver as estrelas que apontavam no céu escuro e sentir a brisa fresca que amenizava o calor do dia. _Chico, muito obrigado por você nos receber aqui. Não sei o que seria da gente se não fossem vocês. A Marlene tem sido muito generosa. Que pessoa doce ela é, mesmo com uma vida difícil que vocês levam... _Vida difícil, Dr. Paulo? Nossa vida não é difícil. Diria que nossa vida está dentro do que a gente queria para nós. Meus pais não tiveram tanta sorte, pois não tinham estudos e não podiam ter um emprego que garantisse escolhas. Os filhos os sustentaram até seus últimos dias. Mas pouco sobrou para que cada um pudesse ter sua terrinha e seguir adiante. Eu renunciei minha parte a minha irmã mais velha, pois não tinha estudos e sabe como é... As mulheres precisam de um bom casamento para sobreviver bem e ela não casou. Pelo menos é o que acontecia no interior na minha época. Hoje as mulheres estão abandonando os pais, as terras e indo para a cidade se prostituir, virar empregada de alguém para ter aquilo que elas vêm na TV. Acha que é fácil! Daí, arrumam filhos. Os pais das crianças somem e o que era para ser um Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 42

sonho, acaba virando pesadelo... Aconteceu com minha irmã mais nova. Éramos 7. Os mais novos já morreram, acredite. Quatro deles. Tudo na cidade. Só tem agora eu e mais dois mais velhos. Os que resolveram ficar nas terras dos nossos pais. Dois foram assassinados pela polícia de extermínio. Não sei se eram de fato bandidos, mas também, nessa vida de pobre de cidade grande não há tempo para perguntas. Ninguém quer saber mesmo. Uma irmã morreu de AIDS. E a última recentemente de câncer de peito. Não tinha como se tratar, não viu que o câncer estava muito adiantado. Não durou muito. A Marlene tentou ajudar trazendo ela pra cá pra cuidar melhor, mas minha irmã já estava acostumada com a cidade. Disse que preferia morrer lá, do que aqui nesse fim de mundo... Deixou o filho com a patroa. Deu a criança de papel passado pra patroa antes de morrer. Gostaria de ter criado esse meu sobrinho, mas a decisão já foi tomada... _É Chico, não é mole, não... Fazemos muito besteira em nome de uma imagem que vimos na TV. Nas revistas... Queremos muitas coisas, mas não estamos preparados para ter o que queremos. A Sueli é uma moça de origem humilde também, mas não foi criada pelos pais no interior, foi criada por uma patroa de sua mãe nessa mesma condição. Fez a mãe de sua empregada. Nunca teve respeito por nada. Seu objetivo foi de se casar com homem que lhe desse de tudo... Esse seria seu maior talento. focar no dinheiro tão somente. Hoje ela está perdida. Não tem a mínima noção do que o dinheiro representa e o que fazer com ele. Por mais que eu tente mostrá-la que sua vida é fútil, ela não vê. Acho que foi o mesmo que aconteceu com seus irmãos... Eu mesmo não sou uma pessoa esclarecida, tenho muitas dúvidas quanto ao meu papel de marido e de pai. Faço muita besteira. Acredito que sou responsável por Sueli ser como é, afinal eu alimento Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 43

a suas maluquices... Meus filhos estão indo no mesmo caminho. Tenho que fazer alguma coisa e rápido para que eles não sigam a estrada da mãe. A estrada da mãe tem muitas lanchonetes, muitos shoppings, muitos bancos para sentar e esperar por um transporte que as conduzam onde querem ir sem fazer força. Ontem percebi que o caminho é pesado, mas não é tão pesado como pensamos. O caminhar depende de nossa vontade. A felicidade não é a chegada e sim o trajeto. Ontem, depois de muitos anos olhei para minha mulher com vontade de protegê-la. De uns nove anos pra cá ela se tornou uma bruxa impiedosa, malcriada e autoritária. Não conseguia vê-la de outra forma. O dia a dia estava nos sufocando. Quando a Miúcha nasceu tudo estava bem, riamos mais, nos divertíamos, mas ela ficou grávida seis anos depois do Flavinho e ela não queria mais ter filhos, foi um descuido nosso. Flavinho sofreu de asma por anos. Isso também deixo-a muito angustiada. Hoje tem ataques de falta de ar quando está nervoso. Mas com o remédio ele fica bem. Como você faz quando seus filhos ficam doentes? _Ninguém fica doente aqui em casa. Não temos tempo para isso. _Ora, Chico, ficar doente precisa ter tempo? _Dr. Paulo, venho de uma família humilde, mas o pouco de informação que temos foi passada de pai pra filho. Meus bisavós ensinaram aos meus avós que ensinaram aos meus pais que a doença é fraqueza de espírito. Hoje a nova geração – a minha geração – não acredita nessas crendices dos antigos. Mas meus pais contavam que meus bisavós eram índios que se uniram com negros africanos misturando suas culturas. Tanto lado da minha de mãe quanto os do meu pai. Os chamados cafuzos, já ouviu falar? Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 44

_Claro. Índios que se uniram com os negros no inicio da colonização do nosso país. _Pois, então. Esses índios acreditavam que a natureza é perfeita. Nosso espírito é que fica doente passando esse pensamento para o corpo. Repare que nós ficamos doentes quando alguma coisa bagunça nossa vida. Quando perdemos emprego, quando a mulher nos dá uma chifrada. Quando os filhos ficam doentes... quando a gente tem tempo pra pensar na vida. _Olha Chico, parece fazer sentido o que você diz, mas o Flavinho não perdeu emprego, nem ninguém na vida dele. Foi criado com muito amor, mesmo tendo a maluca da mãe do lado. _Dr. Paulo, o Sr. não disse que começaram a brigar quando ele nasceu? Tudo ficou diferente com a chegada dele? O Sr. e Dona Sueli brigavam muito? _É de fato, nós discutíamos a toa. Gritávamos muito um com o outro... Mas o que tem haver isso com asma? _Olha, não quero ser estraga prazer, mas... segundo meus bisavós... asma é casa em desordem...falta de harmonia no lar... _Será Chico? Mas não paramos de brigar e ele melhorou muito da asma com os remédios. _Dr. Paulo, os remédios não deixam o corpo falar com o espírito... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 45

_Que loucura... nunca havia pensado nisso... Vou observar com outros olhos esse seu ponto de vista Dr. Chico... _Quem sou eu, Dr. Paulo. Quem dizia isso eram meus antepassados. E uma coisa que eles diziam é que espírito e corpo são uma coisa só. Se você maltratar seu corpo, você maltrata seu espírito. Se você maltratar seu espírito, não respeitá-lo, ele vai adoecer você. E quando temos tempo para maltratar o corpo com bobagens como a bebida, o fumo, a comida ruim e falta de trabalho físico o espírito fica aborrecido e adoece. Mantenha os dois bem e você não terá tempo para ficar doente. _Eh... vivendo e aprendendo, Dr. Chico... Os dois entram para dormir. As luzes da casa se apagam. A casa é espaçosa. Tem vários cômodos, mas apenas um banheiro central. Na cozinha o fogo a lenha mantém a chama baixa. As panelas penduradas. Tudo na mais perfeita ordem. Uma paz toma conta do ambiente. Os grilos fazem o barulho de sempre. Os coachar dos sapos são uma sinfonia à parte. A noite é fresca e traduz um equilíbrio natural a todos os seres da terra. Tudo está no lugar que deve estar. Tudo funciona como deve funcionar. 21 – dezembro – 2012 Sábado _Bom dia, Mãe! Bom dia Pai! Acordem, o dia está lindo e nós vamos ver tirar leite das vacas. Vocês não querem ir?

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_Não Flavinho, me deixa. Ainda está escuro. Deixa as vaguinhas dormirem, ta bem? Não precisa tirar o leite agora, não. Tira depois das 10h... _Levanta Sueli. Temos muito que fazer. Tá todo mundo de pé. Temos que saber como estão as coisas nas cidades vizinhas. Eu e o Chico vamos até o povoado para saber se alguém tem alguma nova notícia. Levanta! _Só mais um pouquinho, Paulinho... estou morta! Não consegui dormir direito, estranhei a cama... o silencio... sem barulho do ar condicionado, motor de elevador,descarga do vizinho... nossa, não preguei o olho. _Sueli, levanta já! _Tudo bem. Tô levantando. Tô levantando... Todos tomam seu farto café da manhã. Paulo e Chico vão até o povoado mais próximo para saber das notícias. Sueli e Marlene arrumam as coisas para o almoço. As crianças vão para o rio nadar. Chegando no povoado encontram pessoas em frente a um velho armazém conversando calmamente.Paulo e Chico se aproximam e saúdam os nativos com um bom dia. _Tem alguma notícia por aqui, Zémario? _Tem não, Chico. Tudinho na mesma. O moço aí veio da cidade? Pode nos contar alguma coisa de lá? - Olha, não tenho muito que dizer porque saímos logo que faltou a luz. A água não chegava as torneiras. O comércio fechou. As pessoas estavam muito confusas com o que fazer. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 47

Não tinham pra onde ir ou porque ir? Um desanimo total. Já havia sinais de conflito armado. _Aqui a gente não fechou nada, não. A única coisa que não posso oferecer é coisa de geladeira. Refrigerante gelado e outras coisas, mas fora isso to vendendo tudinho. _A coisa aqui ainda é na caderneta, né Sr. Zé? As coisas na cidade são todas elétricas. As caixas dos mercados não abrem sem eletricidade. Não registra a compra. Ninguém sabe o preço das coisas. Tá tudo na etiqueta pra a máquina ler. _ É, a vida na cidade não funciona sem a tal elétrica! Como o Sr. conseguiu chegar aqui? – comenta um dos homens na porta do armazém. _Nós viemos até Canto da Serra de carro, dali pra frente uns homens armados pararam a gente e levaram o carro e as coisas dentro – acrescenta Chico. _Humm... são os tais caras que entraram na fazendo do Ernesto e levaram as armas dele. Como o carro bom tava com o filho na cidade e só sobrou carro velho, eles esperaram alguém passar pra arrumar um meio de sair daqui e roubar em outro lugar. _Com certeza foram limpar a cidade mais próxima. – comenta outro conhecido encostado a porta do armazém. _Mas alguém tem alguma informação sobre a extensão desse apagão? _ pergunta Paulo ansioso.

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_Não Sr. Uns diz que a coisa ta ruim no país inteiro, outros diz que é só no Estado... Mas certo, certo, mesmo, ninguém sabe. Pelo menos as pessoas das cidades vizinhas tão dizendo que num tem luz em vários municípios. Não tem notícias de uma cidade com luz. Hoje já tem três dias, né? Pode ser que a luz volte amanhã... quem sabe? Chico, você ta precisando de alguma coisa? Eu mando lá proces... _Não Zémario. Tudo certinho. Ainda não está faltando nada. _Mas mesmo assim eu quero fazer umas compras, Chico. Vê pra mim aí Zémario; umas pilhas, e mais essas coisinhas nessa lista aqui. Vocês tem algum carro com combustível para me alugar? Moto? _Olha, carro, carro, nós não temos não. Motocicleta o Sr. pode conseguir com o Vieira no posto. Leva ele lá Chico. O Vieira tem muita gasolina ainda. Ele pode emprestar a moto pro Sr. Mas que mal lhe pergunte... o que o Sr pretende fazer com o transporte? _Vou tentar chegar a uma cidade mais próxima para ter notícias sobre essa crise. Não podemos ficar de braços cruzados. Temos que fazer alguma coisa! _O que o Sr. quer fazer? Vai ligar a luz? (todos riem da brincadeira do vendedor) _Quem sabe? Pelo menos tenho que tentar. Chico e Paulo saem carregando algumas sacolas em direção a oficina do Vieira. O frentista os recebe desconfiado, houve uma tentativa de assalto no dia anterior na sua oficina, gente atrás da gasolina, que está sendo vendida a peso de ouro. Ele botou os ladrões pra correr a tiros. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 49

_Oi Chico, o que que tu quer? _Vieira, você tem uma moto para alugar aqui pro meu patrão? _Tenho não, Chico. A última já me levaram e não trouxeram de volta. Mas pra que que o Sr, quer uma moto? _Preciso ir a cidade mais próxima saber como estão as coisas. Ter notícias sobre o que realmente está acontecendo e a gravidade de tudo. _Pra que? _Ora, temos que fazer alguma coisa! Não podemos ficar de braços cruzados sem fazer nada. As coisas tem que voltar a funcionar. O mundo tem voltar a girar! _Pra que? _Olha Sr. Vieira, não sei como o Sr. está calmo nesse momento. Afina, seu comércio precisa de combustível. O Sr vende combustível, conserta automóveis, tratores... se ninguém mais comprar automóveis, não vão mais pedir para o Sr consertá-los, não consertando o Sr. não terá dinheiro, não receberá dinheiro para comprar o que necessita. Entendeu? _Acho que o Sr. é que não está entendendo o que está falando. Se não houver mais carros pra vender, ou ninguém mais comprar carros, terão que encontrar outra maneira de se transportar. Os cavalos são ótimos para transporte. Daí, paro de consertar carros e vender combustível e vendo capim, serragem para os animais. Faço negócio com celas e estribos... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 50

_Eu desisto. Obrigado por sua ajuda. Boa sorte com seus cavalos... Paulo e Chico voltam pra casa com as sacolas pela estrada. Nada. Um deserto só. Paulo no caminho tem uma ideia. Pede ao Chico a bicicleta emprestada. Vai andar até encontrar a cidade mais próxima a procura de notícias. _Você não acha que é muita loucura sair por aí de bicicleta numa hora dessas? _indaga Sueli. _Não. Ficar aqui parado está me deixando louco. Preciso fazer alguma coisa, saber o que está realmente acontecendo. Nunca pensei que um dia pudesse passar por uma experiência dessas. Ficar totalmente isolado do mundo em pleno centro urbano. Isso parece filme de suspense, onde náufragos ficam ilhados, afastados do mundo. Mas nossa realidade é ridícula, somos nós as ilhas. _Paulinho, pense no que você está fazendo. Pense nos seus filhos. Se você não voltar não tenho como falar com seu celular! _É uma sensação estranha, né? O celular fazia parte de nossa existência. Um GPS de humanos. Éramos rastreados pelos satélites. Por isso quero saber se eles ainda estão lá. _Eles quem? _Os satélites, Sueli! _Não sei mais o que dizer. Só tenho vontade de chorar... só não sento e choro por causa das crianças que estão tão bem. Não fazem a mínima ideia das consequências em seu futuro... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 51

_Qual é a consequência em seu futuro? _Ora, Paulinho, acorda. Como eles vão poder ter um futuro brilhante com essa demora de comunicação? As escolas paradas. Os negócios travados. A vida tem que girar, voltar ao normal. Ônibus, metro, aviões... A Miúcha faz intercambio na Nova Zelândia no ano que vem, se esqueceu? _Su... você já parou um minuto para pensar se a eletricidade não voltar assim... dentro de uns 18 meses...? _Não seja ridículo, Paulinho. Ninguém sobreviveria sem energia elétrica. Estaríamos num caos sem preceden... Você acha que vamos ficar muitos meses morando com a família do porteiro? Paulo sai com a bicicleta e deixa Sueli falando sozinha. A tarde está caindo e Paulo não chega. A família janta, e espera em frente a lareira algum movimento lá fora da casa. Enfim, Paulo chega suado, faminto e exausto. _Pelo amor de Deus! Por que você demorou tanto!? A minha pressão estava caindo e não via a hora de apagar. Deus sabe a força que fiz para me manter consciente, Paulo! _Calma. Já cheguei. Quero comer e fazer o que você não fez ainda – desmaiar. _Dr. Paulo achou o que estava procurando? _Nada, Chico. Andei horas e horas pela estrada. A cidade mais próxima que encontrei tinha tanta informação quanto essa... ou seja, nenhuma. Só relatam casos de saques e Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 52

matanças. As pessoas estão insanas. Um sujeito ouviu falar que o exercito estava dando toque de recolher nas grandes cidades. Quem causasse confusão seria levado para um local tipo campo de concentração. As coisas estão tomando um perfil de guerra civil. O desespero por água, comida e abrigo está levando chefe de família a cometer atos nunca pensados antes. O verdadeiro Holocausto. A tal profecia do apocalipse está em ação! _Pai, você andou lendo meu livro? _Seu livro, Flavinho? _É, o que minha irmã Alessandra me deu naquele dia da briga com a mamãe na mesa, lembra? Alessandra disse que talvez não pudesse estar com a gente no Natal e entregou os presentes antes de você leva-la a casa da Marta. Disse para que eu lesse ainda aquela semana e não comentasse nada com você e com a mamãe, apenas lesse. _Ela lhe deu um livro sobre o que? _Ta aqui, ó. Apocalipse. _Essa mocinha sempre agindo por baixo dos panos. Por que nós não podíamos saber sobre o livro, Paulo? Vai ver que fala sobre anti-cristo, demônios... essas coisas que ela acredita que somos. Uma vida sem qualidade, pois sim. _Você leu o livro Flavinho? _Não deu tempo, apenas folheie as ilustrações. Fui jogar na internet com o Dudu e a luz acabou... bem na hora que eu estava matando todo seu exército. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 53

_Pai, Alessandra me deu um diário e disse que eu escrevesse tudo que acontecesse de diferente na minha vida. Isso seria importante para meu futuro. Eu detesto diários. _Eu sei. Tomam muito do seu tempo. Ou você fala ou você escreve, né? Não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo. _Paulo, mas que presentes vagabundos sua filha deu, eim? Um livrinho de sebo e um diário sem datas... acho que a falta de proteína animal afetou o cérebro dela. Um diário sem datas... maluca. _Flavinho, posso ler esse livro? E Miucha, faça o que sua irmã pediu para fazer. Escreva. 22 – dezembro – 2012 Domingo Todos acordam com barulhos fortes. O chão treme. A casa parece que vai desmontar. Chico e Paulo tiram mulheres e crianças da casa e se afastam dela assustados. O céu está escuro ainda, mas é possível ver que o dia já nasceu. Uma nuvem de fumaça preta encobre o céu. Todos se agacham e se abraçam trêmulos. Depois de horas as coisas ficam calmas. A casa ainda está de pé, apesar de uma parede ter muitas rachaduras e buracos na base. Paulo e Chico verificam o interior da casa para checarem a segurança do telhado. O temor passou, mas o céu está feio. _Paulinho... pelo amor de Deus, o que está acontecendo?

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_Calma, Dona Sueli. As crianças estão bem. A casa não caiu, tudo está calmo. Vamos reconstruir a parede quantas vezes ela cair. _Obrigada, Marlene. Não sei como você consegue essa lucidez numa hora dessas. A Sueli não tem muita estrutura para essas coisas. Nossa vida sempre foi muito certinha, apesar das nossas desavenças de opinião. O mundo podia cair, mas estávamos ali, sempre juntos. _ Dr. Paulo, a sua ideia de mundo cair não é muito parecida com a realidade desse instante, não é? Eu não quero ser estraga prazer, mas... todos temos que ficar calmos e tentar nos controlar. Encontrar forças dentro de nós e resgatar o divino que esquecemos, que soterramos sobre séculos da humanidade. Nossa força está na nossa educação espiritual. Não se desvie do seu caminho. Mantenha o equilíbrio, mesmo que o mundo desabe – era o que nossos avós nos ensinaram. _Vou lembrar disso Chico. Obrigado. Meninos, vamos limpar a casa e consertar as paredes. O importante é o agora. _Pai, por que o céu está tão feio? E por que a terra tremeu? _Ontem antes de dormir, Flavinho, eu li o livro que Alessandra lhe deu e ele falava sobre isso que está acontecendo nesse momento com a vida na Terra. _Paulo, por favor, não vai me dizer que você está acreditando nas besteiras que esse livro velho está dizendo. Todo mundo sabe que o Apocalipse da Bíblia é uma metáfora para assustar aqueles que não seguirem a voz de Deus. Uma forma de impor sua vontade através do medo. E isso funciona, pois estou me borrando de medo, mesmo Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 55

tendo fé inabalável nas mãos de Deus. Sou cristã, batizada e mesmo não indo a missa todos os domingos, rezo antes de dormir todas as noites pedindo saúde e vida prospera para nossa família. _Talvez seja isso que a Terra esteja tentando nos dizer. Devemos nos voltar para nossas origens, abandonar a matéria. Abandonar velhos dogmas. Trilhar um velho caminho e não inventar um novo. O que nós fizemos foi nos desviar da trilha só porque tivemos uma dificuldade. O planeta quer que voltemos ao caminho original. _Pai, não estou entendendo nada do que você está falando... _Seu pai quer dizer que temos que começar tudo de novo. Voltar de onde nos desviamos e encontrar a trilha certa. Temos muito trabalho para fazer crianças. Vamos lá. _Chico, eu vou até a venda saber o que aconteceu e comprar algumas coisas para reconstruir a casa. No armazém do Zémario. _Bom dia, seu Zemario. Alguma notícia sobre essa tremida na terra e esse céu escuro? _Xi... as noticias que fiquei sabendo do sobrinho de minha mulher que veio da cidade com toda família, não são boas, não... _Posso falar com ele? Preciso muito falar com alguém que está chegando de lá. _Pode sim. Vou chamar o rapaz. Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 56

Chega diante de Paulo um homem de aparência cansada e depressivo. De cabeça baixa, braços cruzados e ombros arqueados. _Meu nome é Paulo. Cheguei de onde você veio há 4 dias atrás e gostaria muito de saber o que está acontecendo por lá. Você pode me contar o que viu, ouviu até ontem? _Seu Paulo... a cidade está um caos. Pessoas estão sendo levadas para um lugar cercado por muros e desolação. Muita doença. Muita gente doente sofrendo nas ruas sem ter quem as ajude. Muita fome. Muita matança. Estão comendo gatos, cachorros, o que andar de quatro patas. A água do mar subiu nas cidades costeiras tanto que os prédios sumiram. Muitos corpos boiando, foi o que me falaram. Essa água do mar inundou as represas onde ainda havia água potável e as pessoas estão bebendo água misturada... água do mar, esgoto, o que for. Demorei muito a tomar uma atitude para sair de lá acreditando que seria um problema passageiro, mas a coisa foi piorando, piorando e quando dei por mim não tinha como trazer minha mulher e duas filhas pra cá. Foi aí que conheci um senhor que perdeu a família e juntou-se a nós. Ele foi o anjo que nos trouxe até aqui. Com toda sua dor teve forças para arrumar um veículo com combustível suficiente para nos trazer até a subida da Serra. Daí em diante viemos andando dois dias até chegar aqui. Comemos o pouco que tínhamos para ter força e saúde para andar... _E onde está esse senhor que ajudou vocês? Posso falar com ele? _Infelizmente ele faleceu. Ficou muito doente no caminho. Não conseguia dar mais nenhum passo. O que fizemos por Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 57

ele para prestar nossa gratidão, foi enterra-lo na beira da estrada e seguimos. Foi um anjo... _Sinto saber disso... _Mas quanto a esse exército que levava as pessoas para esses muros cercados, eram o nosso exercito fardado? E por que estavam levando essas pessoas para esse lugar cercado? _Quem mandava estava de uniforme e os outros eram homens com roupas comuns, pessoas comuns, mas armados. O exercito não tem como tomar conta de tanta gente assim. São caminhões e caminhões de mulheres, homens e crianças. Acho que eles estavam levando essas pessoas para trabalharem em algum tipo de serviço que eu não entendi muito bem. Sei de um sujeito que conseguiu fugir desses muros e contou sobre o que eles eram obrigados a fazer para ter comida e água. _O que eles eram obrigados a fazer? Fale logo. _Não sei, ele contou para o nosso anjo que adoeceu. O velho homem não quis nos dizer o que sabia. Morreu com a informação, apenas nos disse para ficar longe dos grandes centros. Dizia: “vá para as montanhas, vá para o mais alto que puder”. E foi o que eu fiz. Parei por essa semana aqui na casa de minha tia para nos refazer. Minha filha mais velha já estava apresentando infecção, muita febre e dores. Assim que ela melhorar vou subir mais a Serra. Meus tios não querem ir, disseram que não vão largar a venda e deixar o povo sem comida, mas agora não é mais hora de pensar no povo e sim na gente, não concorda?

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_Há uns dias atrás eu concordaria com você, mas agora não posso mais ver dessa forma. Estou procurando notícias da cidade e quase pensei em voltar de alguma forma para lá, mas agora vejo que seria estúpido fazer isso. Temos que nos unir. Vamos ficar juntos haja o que houver. A partir de hoje minha vida vai mudar, acho que já mudou, mas queria algo que me balançasse e você me balançou... _Ô moço desculpe aí... o senhor me perguntou... _Não se preocupe, você não entendeu o que eu disse. O que você me contou me deu sossego, agora posso trabalhar numa meta, colocar os pés no chão. Temos que nos organizar e nos unir. Um ajudando ao outro. Todos são importantes nesse momento. Temos que unir conhecimento. O que eu sei hoje não me serve muito para essa nova vida... _Se o senhor diz... Meu nome é Reinaldo, se precisar de mim, to por aqui por esses dias. Sou carpinteiro. Trabalhava numa obra na cidade. Posso construir qualquer coisa e só me desenhar a planta que eu faço. _Obrigado, Reinaldo. Vamos nos falando. Melhoras para sua menina. Paulo volta para casa do Chico de cabeça baixa e passos miúdos. Não tem mais pressa de chegar. Não sabe como vai conversar com a esposa sobre o futuro de sua família, da humanidade... _Puxa, você demora, eim? Me deixa aqui trabalhando e vai passear. Olha as minhas unhas como estão. Não aguento mais isso tudo. Sinto falta das minhas coisas. Pode ser que as Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 59

comunicações já tenham voltado, mas nunca saberemos nesse fim de mundo! Se aqueles idiotas não tivessem levado meu celular, poderia tentar falar com alguma amiga. De repente a Sandra já está em casa providenciando um carro pipa para abastecer sua casa. Big mansão... Haja carro pipa... Ela vai fazer uma ceia de Natal de cair o queixo, foi o que a Melissa falou. Não podemos deixar de ir de jeito nenhum, Paulinho. Com água ou sem água. Será que a gente não devia ir tentando pegar uma carona na estrada para a cidade. Falta apenas um dia para arrumar tudo... que cara é essa? _Cara de quem não sabe o que te dizer... _Dizer o que? Não estou gostando desses olhos marejados... Você não vai chorar, vai? Tá sentindo alguma coisa? Tá com febre? Fala! _Nosso Natal nos próximos 200 anos será aqui nesse lugar. Su, o mundo está mudando e nós teremos que mudar, senão a morte será lenta e agonizante. _Tudo bem Paulinho... você está cansado. Já entendi a mensagem. Tome um banho para refrescar que eu vou colocar seu almoço. Todo mundo já comeu, só falta você. Isso é fome. Paulo e Chico passaram o fim de tarde no alto da Serra. Subiram a encosta atrás das terras do sitio para avistar alguma coisa de longe. O dia permaneceu fechado com nuvens negras, mas não chovia. O calor era muito forte e sufocante de dia. À noite o clima ficava um pouco mais fresco, mas ainda quente. Flavinho acompanhou os homens até o alto. Estava com muita disposição. Não reclamava de falta de ar e Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 60

nem de cansaço. A visão do alto da Serra não lhes deu muita informação, mas puderam ver outros locais tão altos quanto o que estavam. Muita fumaça em pontos distantes chamaram a atenção de Paulo. Voltaram para casa para dormir e planejar o dia seguinte. 23 – dezembro – 2012 Segunda-feira _Mãe, acorda! Vem ver uma coisa. _Me deixa Flavinho... não quero ver nada. Só agora estou acostumando a esse silencio horroroso, mas ainda não durmo direito. _Vai perder de ver o papai fazendo exercício abdominal. Ele está tão magro que você não vai reconhecer... _Tá... Paulinho fazendo exercício? O único exercício que seu pai sabe fazer é o de levantar copo de cerveja... Mas agora você me acordou! _Jesus Cristo! Paulinho! Como você emagreceu! Nossa, sua barriga está sumindo! Com aquela camisa enorme eu não percebi. Conta pra mim o que você está tomando? Quero também! _ Incrível, né? Estou me sentindo tão bem que nem me reconheço. Acordei com vontade de fazer exercício. Já peguei na enxada, capinei um bom pedaço da terra na roça do Chico. Agora é a vez dele. Já cortei lenha pra Marlene e já abasteci o fogão. Nossa, e estou me sentindo muito bem! Tenho até vontade de te levar para dentro do quarto e... Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 61

_Que isso? O que você está tomando é poderoso mesmo! Você não pensa em sexo há meses. Tá sempre cansado. Eu tenho sempre que começar para a coisa evoluir... O que deu em você? _Mudei a forma de pensar! Mude você também, Su. Sua vida vai mudar. Era disso que minha filha Alessandra falava e eu não entendia! Alimentação natural, caminhadas, exercícios, trabalho braçal. Mente focada no momento, no agora!. Eu não estou mais preocupado com o amanhã! Estou trabalhando, ajudando, amando, me divertindo e me informando hoje! Estou leve. Meu corpo está traduzindo o que minha mente está sentindo! Isso é maravilhoso. _Paulinho, o que você quer dizer com “eu não estou mais preocupado com o amanhã?” _Su, não temos mais o amanhã. O que temos é o agora! _Você não está tão bem quanto diz que está. Paulinho, você é um engenheiro mecânico. Tem Mestrado e Doutorado em física. Você além da empresa que fundou de consultoria ainda é reitor de Universidade, lembra disso? Você tem dois filhos adolescentes que precisam se formar em suas respectivas carreiras e uma esposa que precisa de dinheiro para comprar as coisas que sustentam essa máquina chamada família. Será que clareie um pouco sua memória? _Ok. Vou expandir sua consciência para que você possa ver o que não quer ver. Não existe mais dinheiro. Não existe mais poder. Não há mais negócios. Portanto se não há mais negócios em troca de dinheiro, não há por que especializar-se em alguma carreira. Nossa vida foi pautada em crescer, Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 62

estudar, trabalhar, reproduzir, trabalhar para sustentar a reprodução, e morrer. Para quê? Qual a finalidade de se ter dinheiro? Muito dinheiro. Pois ninguém acha que tem o suficiente, queremos mais, mais e mais... por isso trabalhamos mais e mais para ganhar dinheiro. Tudo gira em torno de um símbolo de poder. O que o dinheiro nos dá? Uma bela casa. Boa comida. Conforto material. Mas na verdade o que queremos não é necessário ter dinheiro. O final desse processo todo é igual a: felicidade, bem estar, mas não conhecemos esse “bem estar”. Não sabemos o que estamos fazendo e por que estamos fazendo, apenas fazemos o que todo mundo faz. Nós imitamos uns aos outros. E competimos por essa imitação. Se um sobressai, todos querem a mesma coisa. Não nos percebemos donos de nossas vontades. Não sabemos quais são as nossas vontades! Me diga o que você quer Sueli? O que a faz feliz? _Esse discurso é ridículo. Todos sabem o que querem e todos sabem que nada nesse planeta pode evoluir sem o dinheiro. O dinheiro movimenta a evolução do homem. Se não tivéssemos dinheiro não iríamos a lua. Não teríamos máquinas para diagnóstico do câncer, não teríamos cirurgias de troca de órgãos humanos. Não teríamos muitas das coisas que temos hoje e que nos levaram a ser o que somos. _E o que somos Sueli? _Seres em evolução espiritual. Eu sou espírita, você sabe. Não frequento centros espíritas por que há muita gente ignorante nesses lugares que distorcem o conteúdo. _Eu jurava que você era católica... mas isso não vem ao caso. O importante é saber o que somos e o que queremos para nossas vidas. Essa noite passei muito tempo conversando Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 63

com o Chico e a Marlene e fiquei chocado com a cultura geral que eles têm. Só aí é que vi como sou um ignorante, presunçoso arrogante. Deixei que me chamassem de Dr, mas na realidade os doutores são eles... _Chega. Você pirou. O calor está queimando seus neurônios. Preciso tomar um banho e comer alguma coisa. Nossos filhos estão precisando de alguém com os pés no chão. Alguém nessa família tem que estar lúcido para voltar para casa. _Su, nós não vamos mais voltar para casa. Nossa casa é aqui agora. O Chico vai me ajudar a construir uma linda morada para vivermos tranquilos nesses últimos dias. _Agora você foi longe demais, Dr. Paulo Feitosa! Pare com isso e volte a ser quem você era! Senão... vou deixa-lo sozinho! Vou levar os meninos comigo para casa de minha mãe. Você é um grosso, estúpido e desalmado. Não é hora para uma vingança dessas. Eu nunca tive nada com o professor de ginástica! Ele é que se interessou por mim, mas eu nunca dei confiança para ele, ouviu! Isso não é justo comigo! Você já foi casado com outra mulher e eu não! Digo, com outro homem! Sempre respeitei sua ex-esposa e sua filha. Tratei a Alessandra como se fosse minha filha todos esses anos! Engoli muito sapo de seus amigos esnobes por não ter uma faculdade! Isso não é justo! Eu odeio você! _Do que você está falando, Sueli. Pare! Você não sabe mais o que diz... _Paulinho... vamos voltar pra casa e eu prometo que eu vou mudar. Eu vou comer mais alface, vou fazer steps ao invés de Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 64

esteiras. Posso subir os 23 andares uma vez por mês se você quiser. Me inscrevo numa faculdade de Letras ou Nutrição, arrumo um emprego, mas vamos voltar pra casa...por favor... _Minha querida... leia o livro que Alessandra deu ao nosso filho. Ele não fala de demônios como você pensa. Ele nos conta sobre isso que estamos passando nesse momento, essa mudança planetária que estamos sofrendo. Essa raça desumana está em extinção... não há mais um lugar seguro nessa Terra que não seja em nossos corações e mentes. Você precisa mudar. Precisa crescer. Evoluir. Precisamos deixar a raiva e ganância ir embora. Temos que aprender a ser livre!! Liberdade é ter responsabilidade por sua vida e pela do outro. É entender que não somos nada sem que exista a outra parte e todos nós somos a outra parte de alguém. Temos que aprender a respeitar a individualidade e aprender a construir um futuro para a comunidade e não para nós mesmos. A natureza só respeita o grupo que for mais forte. Os animais nos ensinam isso todo o tempo. Quando queremos nos destacar do grupo – da manada – ficamos fracos e visíveis ao predador. Será que você não vê? _Não. Não quero ver, ler e ouvir mais nada! Você está sofrendo algum tipo de delírio por falta de comida. Temos feito apenas 3 refeições por dia. Isso é muito pouco, ainda mais trabalhando do jeito que estamos trabalhando. Você deve estar fraco, anêmico, por isso está delirando e falando tanta besteira. Mas eu vou cuidar de você Vamos deitar um pouquinho. Sai do sol, ele está muito forte para essa hora da manhã, apesar dessas nuvens escuras rondando o céu. Vamos entrar, Paulinho.

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Novos abalos na terra. Um barulho forte de raios ecoava no horizonte e o céu ficava mais e mais fechado. O dia passou com temperaturas altas e o ar irrespirável. O céu nublado e pesado. Todos entraram num processo de fazer mecanicamente o que tinham para ser feito, sem questionamentos. Muito pouca conversa. Muito tempo em silencio guardando algo que mudaria suas vidas para sempre. À noite mal chegou e todos se recolheram em suas camas cansados e temerosos do dia seguinte... 24 – dezembro – 2012 Domingo Véspera de Natal. Paulo acorda carinhosamente Sueli. _Su, acorda. Me desculpe por tudo, OK? Realmente eu tenho sido um grosso incorrigível, um ser totalmente racional, pragmático e egoísta. Eu estive pensando... e se eu mudar meu comportamento as coisas ao meu redor mudam também, é uma questão de causa e efeito. A Minha filha Alessandra me deu muitos conselhos e sabe como ela é... um ser de outro planeta... Eu fui egoísta com ela também toda a minha vida. Ela sempre nos visitava, mas eu nunca tinha tempo para visitá-la em sua cidade, em seu espaço de vida. Essa coisa de achar que a falta de conforto nos deixa de mau humor é insano da minha parte. Afinal, onde ela vive tem de tudo! Bom, não tem a TV no nosso canal preferido, não tem uma cerveja gelada a cada esquina. Temos que acordar com as galinhas e dormir como um pássaro, mas teremos a beleza das estrelas, o silencio e a brisa da noite e infelizmente teremos que parar para nos ouvir, ouvir nossos pensamentos, nos conhecer... Sabe, Su, acho que era disso que eu tinha medo... de gostar dessa vida... Deixar de me preocupar se vou ter dinheiro para pagar a água que bebemos, do ritmo que Durante 7 dias – por Laura Botelho Página 66

lavamos as coisas. Se teremos dinheiro para comprar comida... Isso não passa pela cabeça das pessoas da terra, que vivem da terra, pois sempre há um meio de sobreviver com um mínimo, coisa que não temos nas cidades grandes... Tá me ouvindo? Su, Feliz Natal! Eu demorei porque passei em uma joalheria para comprar um lindo anel para você... Se não gostar você pode trocar... eu não sou muito bom com presentes... _O que? Joalheria? Anel? Natal? Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!! _Que isso? Você ainda está zangada comigo? Não precisa gritar! _Paulinho, me bate! Me bate!! Diga que não é um sonho? _Eu não vou lhe bater! Apesar de ser uma oferta tentadora, mas... Por que você está chorando? Não gostou da minha ideia do anel? Eu posso trocar por outra coisa... _Não, seu tolo! Eu estou chorando porque descobri que eu sou a mulher mais feliz do mundo!!! Você é o marido mais maravilhoso do mundo! Meus filhos são a melhor coisa que eu podia ter no mundo! Minha casa, minhas coisas... eu tenho tudo que preciso! Não necessito de mais nada!! O anel é lindo, mas vamos trocá-lo por algo que possa servir para todos nós, Ok? _O que deu em você, Su? Pare de chorar. Eu sei, somos uma família muito linda e temos que nos respeitar mais... _É isso, você tem razão. No sonho você me dizia isso... _Que sonho, Sueli? Você estava tendo um sonho quando eu acordei você?

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_Meu querido foi o sonho mais assustador, horrível, tenebroso que alguém possa ter. Mas agora que você está aqui e estamos em nossa casa e o céu está claro... eu me sinto tão, tão, tão maravilhosamente bem!! _Nossa... esse seu sonho deve ter sido bem assustador, mesmo. Você está tremendo ainda... Vamos levantar e tomar uma sauna, nadar um pouco na piscina e esperar a Fatinha colocar o nosso café da manhã. Temos que sair para comprar coisas para a ceia de hoje a noite, lembra? _Claro. Mas e a Alessandra e o noivo? Eles não virão, não é? Eu estraguei tudo... Será que se eu for na casa da Marta agora cedo e implorar para eles perdoarem meu comportamento você acha que eles veem passar a noite com a gente? _Su... que lindo. Não há necessidade disso. Demorei a chegar por que fique conversando com ela e o Vitor sobre tudo isso, e ela me fez ver que todos tem seu tempo e que ela iria respeitar o seu, o meu, o nosso... Ter consciência é a chave do futuro. Sabia disso? _Sei meu amor...agora eu sei...

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