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BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo: Na encruzilhada da ordem e da revolta.


edição, 2015.

Capitulo 2 – os dois eixos do fascismo

1. Os contornos do fascismo

I)

- “A violência foi uma das características mais constantes, e, no entanto, numerosos


governos que exerceram violentamente o poder não foram fascistas” (44)

- “Os contornos na organização da economia também não ficam claros. Todos os


fascismos adoptaram uma estrutura corporativa [...]” (44)

- “[...] o facto de a Frente do Trabalho ter sido pensada para englobar tanto os
trabalhadores como os patrões convertia-a numa espécie de enorme corporação única”
(44)

- “[...] os vários tipos de equilíbrios estabelecidos ao longo do regime nacional-


socialista entre as burocracias do partido e do Estado e os chefes de empresa se inserem
numa concepção ampla de corporativismo” (44)

- “Aliás, Julius Evola considerou que no Terceiro Reich se atingira uma forma mais
perfeita de corporativismo do que no fascismo italiano [...]” (44-5)

- “Ora, num sentido genérico a República de Weimar não foi menos corporativa do que
o Terceiro Reich, o que significa que o corporativismo teve uma latitude demasiado
vasta para ser de qualquer utilidade na definição do fascismo” (45)

- “[...] esse sistema não se confundia com o fascismo e que, na modalidade pura e
integral, iria além do fascismo. Manoilescu considerava que o projeto corporativista só
se realizara na Itália, Portugal e Áustria, mas, se o apreciarmos mais amplamente no
contexto da época, o corporativismo deve ser considerado como um modelo geral” (45)

- “Entendido nesta acepção lata, o corporativismo foi o quadro comum de tendências


bastante distintas, definíveis consoante o aspecto em que se colocava o acento tónico”
(45)
- “A noção de Economia Dirigida nasceu da constatação de que o mercado, ao
contrário das teorias clássicas, não agia adequadamente em todos os casos, ou seja, que
os preços nem sempre transmitiam sinais certos. Na década de 1930, com o sistema
financeiro em colapso, a indústria em crise e o comércio internacional em retracção,
havia dois únicos lugares onde a economia prosperava, a União Soviética e a Palestina
judaica” (46)

- “Para o mundo eram os planos quinquenais soviéticos que importavam, entendidos


como demonstração de que a organização centralizada da economia ultrapassava os
problemas que o livre mercado era incapaz de solucionar” (46)

- “[...] a noção de Economia Dirigida derivou menos da experiência soviética do que da


Kriegswirthschaft alemã e ainda da economia de guerra de outros países beligerantes,
mas existiu aqui uma certa circularidade, porque a economia de guerra alemã também
influenciou as concepções de Lenin no começo da Russia soviética. Por outro lado,
quanto aos Estados Unidos há quem defenda que a economia dirigida da administração
Wilson durante a 1ª GM constituiu uma experiência fascista ou similar ao fascismo.
Com efeito, as circunstancias econômicas da guerra de 1914-1918 foram parcialmente
reproduzidas na crise mundial iniciada em 1929, e em ambos os casos a Economia
Dirigida exigiu autarquia” (46)

- “[...] os partidários da Economia Dirigida defendiam uma reorganização global das


instituições econômicas e, em vários casos, a formação de conglomerados nacionais
enquanto grandes unidades autárquicas” (46)

- “Por detrás desta divergência aparentemente técnica estava uma questão ideológica de
fundo, a rejeição do postulado básico do liberalismo burguês, de que a utilidade geral
resultasse do cruzamento de todas as utilidades particulares, ou seja, a negação de que
prosseguir o interesse próprio correspondesse a prosseguir o interesse coletivo. Se por
uma lado se situava na direita, já que se aliava às grandes empresas, que eram elas
próprias instituições planificadoras, a Economia Dirigida sofria devido a essa aliança s
ataques dos liberais antimonopolistas; por outro lado, devido à sua critica à burguesia e
ao seu caráter planificatório, a Economia Dirigida era considerada de esquerda e por
isso incorria na aversão dos conservadores” (47)
- “Constituindo tanto um programa de certa extrema-direita ou de algum fascismo como
de meios democráticos ou socialistas, aquela forma de ordenação econômica seduzia os
tecnocratas, que procuravam implementá-la através do autoritarismo, independente da
cor” (47)

II)

- “A explicação de cada fascismo em particular não explica, afinal, mais do que a


particularidade desses casos do fascismo, sem nada nos adiantar a respeito do fascismo
enquanto caso geral” (48)

- “O fascismo só pode ser estudado na perspectiva da história comparada” (48)

- “Mas é curioso que tantos autores recusem o caráter de fascistas a numerosos


fascismos com o pretexto de que eles não se assemelhavam aos regimes de Mussolini e
de Hitler, e neste passo da argumentação esqueçam que também entre aqueles dois
regimes as diferenças foram notáveis” (48)

- “Esses historiadores estão a provar o contrário do que pretendem, pois o fascismo


italiano distinguia-se a tal ponto do nacional-socialismo germânico que no espaço
compreendido entre eles cabem todas as outras variedade de fascismo. Seria igualmente
bom recordar que de 1932 até 1938 se travou na Áustria uma luta mortal, no sentido
exato da palavra, entre a secção austríaca do partido nacional-socialista alemão e um
regime fascista que se inspirava no modelo italiano” (48)

- “Será que o mussoliano Dollfuss, assassinado pelos nacionais-socialistas, e o seu


continuador Schuchnigg, deposto pelos nacionais-socialistas e preso num campo de
concentração, não haviam sido chefes de um regime fascistas? No Terceiro Reich não
foram poucos os fascistas presos ou assassinados por não serem hitlerianos, sem que por
isso deixassem de ser fascistas [...]” (48)

- “[...] foi a rivalidade de que opôs na Romênia um projeto fascista assente numa base
social conservadora e encabeçado pela coroa, e o fascismo radical e místico da Legião
do Arcanjo São Miguel e da sua Guarda de Ferro, fundadas e comandadas por
Corneliu Zelea Codreanu” (49)

- “Não menos estulta é a atitude de vários historiadores que recusam a classificação de


fascista a um ou outro regime com o argumento de que o seu chefe não tinha um corpo
de ideias claro e sistemático e que o que passava por doutrina não era mais do que uma
sucessão eclética de enunciados, copiados aqui e ali. Ora, o fascismo caracterizou-se no
plano ideológico pela apologia da intuição do chefe, ao qual se reservava a capacidade
de mudar de orientação e de opiniões sempre que assim o decidisse. Por isso a retórica
foi a única forma possível do discurso fascista” (49)

- “Não é catando as diferenças entre a ideologia de Salazar e a de Mussolini, por


exemplo, ou entre a de Franco e de Hitler que se pode definir quem foi ou não fascista,
porque não era menor a distancia doutrinária entre qualquer deles num dia e no dia
seguinte” (49)

- “Cada fascismo não se limitava a copiar alguns aspectos dos outros, mas trazia formas
novas, organizativas e ideológicas, que se acrescentava à série. Estaremos condenados
de antemão ao insucesso se quisermos definir o fascismo através da acumulação de
características empíricas [...]” (49)

- “[...] o tipo ideal weberiano [...] embora me desagrade mitologicamente a construção


de uma espécie de falso empírico, que para as necessidades da análise tem sobre os
verdadeiros casos concretos a vantagem de reunir a totalidade dos traços relevantes, mas
com o inconveniente de fingir aquilo que não é e apresentar a sua coerência como se ela
lhe adviesse da realidade dos factos” (49-50)

- Considero como fascistas todos os regimes que se situaram no interior deste campo”
(50)

Exército

Partidos e milícias Milícias e sindicatos

Igrejas

- “[...] dois polos institucionais exógenos ao movimento fascista, o exército e as igrejas


– no plural, porque tanto a Igreja católica como a luterana fizeram parte do Terceiro
Reich – que representavam o peso conservador da sociedade, e dois polos endógenos, o
conjunto do partido com as milícias e a articulação entre milícias e sindicatos, que
representavam o fator de radicalismo introduzido pelos fascistas na tradição
conservadora” (50)
- “[...] devemos distinguir entre o fascismo enquanto estrutura de Estado e o fascismo
enquanto movimento” (50)

- “Para definir a existência de um movimento fascista basta o eixo endógeno, mas a sua
conversão em regime fascista só era possível mediante a articulação com o eixo
exógeno. A especificidade de cada fascismo constitui no caráter que imprimiu às
instituições endógenas e na forma como se ligou às instituições exógenas” (50-1)

- “[...] que têm levado alguns autores a recusar a classificação de fascista a um regime
de fato de ele diferir de um movimento” (51)

- “Se é possível traçar histórias do socialismo ou do liberalismo ou do pensamento


conservador dentro de limites claramente definidos e sem os ultrapassar muito para um
lado ou para o outro, isto é impossível no caso do fascismo. O fascismo não teve uma
genealogia própria e a sua especificidade resultou de um cruzamento dinâmico
entre aquelas três grandes correntes políticas” (51)

- “Isto obriga-me a certos cuidados terminológicos, pois fascismo e direita não são
sinônimos, nem a direita abarcou a integralidade da dinâmica fascista. Era esta distinção
que os fascistas exprimiam quando empregavam a palavra reacionária” (51)

- “O fascismo extravasou a direita, na medida em que resultou de um eco dos temas


socialistas no interior da direita e de um eco dos temas da direita no interior do
socialismo” (51)

- “[...] a direita, enquanto categoria ampla, inclui a direita liberal, a direita conservadora
e a extrema-direita [...] e no interior da extrema-direita devemos distinguir uma
extrema-direita conservadora de uma extrema-direita radical” (51)

- “E se em certas situações é difícil separar o fascismo da extrema-direita radical, por


vezes ele pareceu confundir-se com a direita liberal ou conservadora” (51)

- “É de articulações, de cruzamentos, de ecos e de influencias práticas e circulações


ideológicas que aqui se trata, e por mais cuidados que eu tenha a terminologia será
enganadora se o leitor se esquecer a qualificar. O fascismo nunca deixou de ser um jogo
de espelhos” (51)

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