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Art.

211 do Código Penal Brasileiro

Destruição, subtração ou ocultação de cadáver


O dispositivo legal art. 211 prevê:

Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele:

Pena: Reclusão, de um a três anos, e multa.

Verifica-se pela sanção ser um crime de médio potencial ofensivo. O bem


jurídico protegido é o sentimento de respeito aos mortos. O objeto material é
o cadáver ou parte dele. Sobre o objeto material é importante relembrar a
lição de Nélson Hungria:

(...) Os restos de cadáver em completa decomposição, bem como suas


cinzas, não são parte dele, do mesmo modo que os escombros de uma casa
desabada ou incendiada já não participam do que se chama "casa". Em tais
casos, o que se poderá identificar é o crime de violação de sepultura ou urna
funerária, tão somente. (HUNGRIA, Nélson; LACERDA, Romão Côrtes de.
Comentários ao Código Penal. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1954, V.8,
P.75-76
O tipo penal contém três núcleos: destruir, subtrair e ocultar. Portanto trata-se
de um crime de forma livre, podendo ser praticado com qualquer meio de
execução.

Importante ressaltar que a ocultação somente efetiva-se antes do


sepultamento do cadáver.

O sujeito ativo por ser crime comum é qualquer pessoa. O sujeito passivo
principal ou imediato e a coletividade portanto é um crime vago, também
possível familiares do morto figurarem como sujeitos passivos secundários ou
mediatos.

O elemento subjetivo é o dolo, não se admitindo modalidade culposa.

A consumação dá-se com a destruição do cadáver, total ou parcial; com a


subtração (retirada do cadáver da esfera de vigilância ou proteção dos
legítimos detentores; ou com o seu ocultamento, ainda que temporário.
Por ser crime que consuma-se com a realização da conduta de destruir,
subtrair, ou ocultar cadáver é crime formal, de resultado cortado ou de
consumação antecipada.

Admite tentativa em todas as condutas criminosas e a ação é pública


incondicionada. Admite-se a lei 9.099/95 pois a pena mínima cominada é de 1
ano, portanto compatível com a suspensão processual (art. 89 da
Lei 9.099/95).
Quando a subtração de cadáver não estiver relacionada a valor patrimonial
não constituirá crime contra o patrimônio.

A lei 9.434/1997, alterada pela lei 10.211/2001, estabelece normas sobre


remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de
transplante e tratamento, por ser lei especial em um conflito aparente de leis
penais será resolvido pelo princípio da especialidade em confronto com o
art. 211 do Código Penal.
Conforme entendimento do STF: HC 88.733/SP, rel. Min. Gilmar Mendes, 2ª
Turma, j. 17.10.2006:

O homicida que, para ocultar o cadáver, apaga ou elimina vestígios de


sangue não pode ser denunciado pela prática, em concurso, dos crimes de
fraude processual penal e ocultação de cadáver, senão apenas deste, do qual
aquele constitui mero ato executório.

Fonte bibliográfica: MASSON, Cleber. Direito Penal Parte Especial - vol.2, 10


ed. rev., atual, e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017.
p.843-848.

Vilipêndio a cadáver: afinal, o que é isso?

Com a morte trágica do cantor Cristiano Araújo e com a divulgação de um


vídeo, onde se faz a necropsia do cantor, divulgado nas redes sociais, o
assunto que tomou conta da internet e programas televisivos foi o crime
previsto no art. 212 do código penal, vilipêndio a cadáver.
Mas, afinal, o que é isso?

Com a finalidade de esclarecer aqueles que não possuem conhecimento


técnico-jurídico e aos que nunca ouviram falar neste crime, o presente
esboço, de forma objetiva, visa elucidar possíveis dúvidas acerca do tema.

Dispõe o referido artigo:

Art. 212 - Vilipendiar cadáver ou suas cinzas:


Pena - detenção, de um a três anos, e multa.

Para que possamos entender o dispositivo, temos que buscar na língua


portuguesa o que significa a palavra ”vilipendiar”.

Vilipendiar significa destratar ou humilhar; tratar com desdém; fazer com que
algo ou alguém se sinta desprezado ou desdenhado; menosprezar; julgar algo
ou alguém por baixo; não validar as qualidades de; ofender através de
palavras, gestos ou ações.

Dessa forma, como nosso objeto de estudo aqui é o cadáver, incorre no crime
previsto no art. 212 do CP, quem incidir em quaisquer das condutas acima
descritas em relação a ele.
Tutela-se no crime em estudo o sentimento de respeito pelos mortos,
repudiando, assim, condutas “desonrosas” para com o de cujus.
Muito importante citar que o vilipêndio pode ser praticado por diversos modos
como, por exemplo, proferir palavrões contra o morto, atirar excrementos no
cadáver, desdenhar da situação em que o corpo se encontra, praticar atos
sexuais com o falecido entre outros.

No caso do cantor sertanejo, o vilipêndio se deu pelo desprezo,


insignificância, pouco caso com que seu corpo fora tratado.

Inegável é o fato do pouco caso que fizeram quando jogaram o vídeo de sua
necropsia na rede como se, perdoem-me o termo utilizado, fosse um porco.
Inaceitável!

Trataram de forma animalesca um ser humano que acabara de perder a vida


expondo seu corpo (e partes dele) a milhões de pessoas como se fosse um
troféu.

Ainda que se argumente quais as reais intenções de quem cometeu o ato


criminoso, o dolo (consciência e vontade) de jogar o vídeo na rede é
inconteste, pois, como podemos observar na filmagem, não há outra
finalidade senão expor ao extremo, e de forma completamente depreciativa,
o de cujus.
Continuando a exposição jurídica do crime, o objeto material dele, ou seja,
aquele que recai a conduta é o cadáver ou suas cinzas. Ressalta-se que,
também, se protege as partes do corpo, o esqueleto etc.

Por fim, trata-se de crime de ação penal pública incondicionada, ou seja, é o


Ministério Público o titular da ação.