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ARTIGO ARTICLE 1583

O que é lixo afinal? Como pensam


mulheres residentes na periferia
de um grande centro urbano

What is garbage, anyway? The opinions


of women from an outlying neighborhood
in a large Brazilian city

Rita de Cássia Franco Rêgo 1


Maurício L. Barreto 1
Cristina Larrea Killinger 1,2

1 Instituto de Saúde Coletiva, Abstract Domestic solid waste is cause for current environmental concern in large cities around
Universidade Federal da
the world. Little is known about the human health consequences of solid waste disposal in open-
Bahia. Rua Padre Feijó 29,
Salvador, BA air dumps. In addition, there are few studies on people’s health practices in relation to solid
40110-170, Brasil. waste. As the initial step in epidemiological research on the relationship between solid waste
ritarego@lognet.com.br
2 Departament
and diarrhea, this study describes women’s perception of the definition of garbage and the popu-
d’Antropologis Cultural lar understanding of the relationships between garbage and disease, and between garbage and
i Història d’Amèrica the environment. The study used a qualitative approach in a slum neighborhood in Salvador,
i Àfrica, Divisio de Ciencies
Bahia. A total of 13 women were interviewed using a semi-structured questionnaire in 1999. The
Humanes i Socials,
Universitat de Barcelona. FileMaker “diaricamp” application was used for data analysis. Interviewees defined garbage as
Cúpules Torre-B, Baldiri anything useless and considered it a problem whenever it accumulated in the surroundings pro-
Reixac s/n, Barcelona
08028, Espanya.
ducing a bad smell or visual pollution, attracted animals, caused disease in children or adults,
or was shifted from the individual to the collective/institutional sphere of action to solve the
problem.
Key words Garbage; Solid Waste; Environment; Sanitation

Resumo O lixo urbano constitui-se hoje uma preocupação ambiental nos grandes centros ur-
banos e ainda pouco se conhece sobre os efeitos à saúde causados pela disposição do mesmo a
céu aberto, coleta inadequada e as práticas sanitárias da população em relação a estes resíduos.
Como etapa inicial de um estudo epidemiológico que buscou a relação entre exposição ao lixo e
diarréia em crianças, desenvolveu-se este estudo com o objetivo de conhecer como mulheres, re-
sidentes na periferia de um grande centro urbano, definem lixo, bem como as mesmas percebem
a relação entre lixo e doença e entre lixo e outros aspectos ambientais. Em 1999, realizaram-se
entrevistas com treze mulheres, em um bairro da periferia de Salvador, utilizando-se um roteiro
semi-estruturado. Para a análise das entrevistas utilizou-se o aplicativo “diaricamp” do progra-
ma FileMaker. As entrevistadas definem o lixo como tudo que não serve para ser utilizado e o
consideram como um problema quando este se encontra acumulado no ambiente, sendo capaz
de provocar incômodos como mau cheiro ou poluição visual;quando serve como foco da presen-
ça de animais; provoca doenças em crianças e adultos, ou quando o poder para a solução do
problema se desloca da esfera individual para o âmbito coletivo ou institucional.
Palavras-chave Lixo; Resíduos Sólidos; Meio Ambiente; Saneamento

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1584 REGO, R. C. F.; BARRETO, M. L. & KILLINGER, C. L.

Introdução Na região da América Latina e Caribe, 70%


dos RSM são gerados nos domicílios e como
Os resíduos sólidos urbanos (RSU), mais co- são resultantes da atividade econômica, os paí-
nhecidos como lixo, constituem uma preocu- ses mais pobres, além de gerarem menos resí-
pação ambiental mundial, especialmente em duos, apresentam menor proporção de com-
grandes centros urbanos de países subdesen- ponentes recicláveis (Acurio et al., 1997).
volvidos. Pouco se conhece sobre as repercus- Segundo os dados da Pesquisa Nacional de
sões da disposição desses resíduos a céu aber- Amostra de Domicílios (PNAD), realizada no
to na saúde humana e das práticas sanitárias Brasil em 1996, 79,9% dos domicílios particula-
da população em relação a eles. A geração de res permanentes tinham o lixo coletado (IBGE,
RSU, proporcional ao crescimento populacio- 2000). Entretanto, o acesso à coleta no Brasil
nal, suscita uma maior demanda por serviços apresenta características de desigualdades, con-
de coleta pública e esses resíduos, se não cole- forme a região. Em 1996, o Nordeste apresenta-
tados e tratados adequadamente, provocam va a menor taxa de lixo coletado (59,7%) e a re-
efeitos diretos e indiretos na saúde, além da gião Sudeste a maior, com 90,1% (IBGE, 2000).
degradação ambiental. Salvador apresentava, em 1999, uma população
A preocupação mundial em relação aos pro- beneficiada por coleta de lixo de 94,1% (DATA-
blemas ligados aos RSU consta no capítulo 21 SUS, 2000) e coletava 1,04 kg/habitante/dia de
do documento final produzido na Conferência RSD (LIMPURB, 2000). Porém, estudo realiza-
da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre do em Salvador identificou ausência de coleta
Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), porta a porta em 44,0% dos domicílios, levando
a Eco-92. Este documento propõe como um parte da população, particularmente aquela
dos principais compromissos da humanidade residente na periferia urbana, a depositar os
para as futuras gerações o Desenvolvimento resíduos domiciliares em canais, encostas e
Sustentável, que deverá conciliar justiça social, pontos de lixo (Barreto et al., 1999).
eficiência econômica e equilíbrio ambiental Vários estudos demonstram uma associação
(UN, 1999). positiva entre ausência de saneamento e agra-
As diretrizes da Agenda 21 brasileira se- vos à saúde (Esrey et al., 1991). Heller (1997),
guem as recomendações da CNUMAD e indica em revisão de 256 estudos sobre saneamento e
como estratégias para o gerenciamento ade- saúde, identificou que 305 (81,7%) relaciona-
quado de RSU: a minimização da produção de vam-se a esgoto e água, apenas 4 (1,1%) refe-
resíduos; a maximização de práticas de reutili- riam-se a lixo.
zação e reciclagem ambientalmente corretas; a Alguns estudos realizados no Brasil têm
promoção de sistemas de tratamento e dispo- apontado para uma possível associação entre
sição de resíduos compatíveis com a preserva- manejo inadequado de RSU e o aumento de
ção ambiental; a extensão de cobertura dos ser- eventos mórbidos, notadamente diarréia e pa-
viços de coleta e destino final (MMA, 1999). rasitoses intestinais, em crianças (Catapreta &
O aumento na geração de RSU é um proble- Heller, 1999; Heller, 1995; Moraes, 1997; Rêgo,
ma atual e crescente em diversos países da 1996). Contudo, ainda são escassos os estudos
América Latina e Caribe (ALC), particularmen- que relacionam a saúde infantil com a presen-
te mais grave em países com maiores deman- ça de RSU no ambiente, permanecendo ainda
das e menor oferta de serviços de limpeza pú- pouco evidentes os mecanismos que envolvem
blica (Acurio et al., 1997). Não se sabe ao certo esta relação (Heller, 1995).
a quantidade de RSU produzida que não é co- Os processos de produção, disposição e co-
letada, estimando-se que não são recolhidos leta de RSU que ocorrem no interior das comu-
30% a 50% dos resíduos gerados nas cidades nidades não estão dissociados de questões es-
dos países em desenvolvimento (OPS, 1993). truturais mais gerais que se dão na sociedade,
Estimativas obtidas de documentos e informa- geradoras de desigualdade quanto às condi-
ções de experts do setor de RSU da região da ções de sobrevivência. Assim, a abordagem de
América Latina e Caribe apontam uma taxa de aspectos qualitativos sobre a importância atri-
geração per capita diária de 0,3 a 0,8kg/habitan- buída aos RSU, dispersos no ambiente, na saú-
tes/dia de resíduos sólidos domiciliares (RSD) de de populações periféricas, bem como dos há-
e de 0,5 a 1,2kg/habitantes/dia de Resíduos Só- bitos dessas populações em relação aos RSU,
lidos Municipais (RSM – provenientes da gera- podem constituir-se em elementos esclarece-
ção residencial, comercial, institucional e de dores sobre o modo como os riscos ocorrem,
pequena indústria e artesanato), sendo a mé- podendo vir a assumir importância científica
dia regional deste último de 0,92 kg/habitan- como delineador das políticas ambientais e na
tes/dia (Acurio et al., 1997). garantia da preservação das gerações futuras.

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COMO PENSAM MULHERES RESIDENTES NA PERIFERIA 1585

A análise das conseqüências da exposição formantes eram mulheres, moradoras do bair-


direta ou indireta aos RSU é considerada uma ro, na faixa etária entre 18 a 45 anos. As grava-
tarefa complexa, exigindo a participação inte- ções foram transcritas e revisadas em novem-
grada de profissionais das mais diversas forma- bro de 1999. Para preservar a identidade das in-
ções disciplinares unidos por interesses comuns formantes, todos os nomes utilizados neste
(Sisinno & Oliveira, 2000). Neste contexto, os texto são fictícios.
desenhos de investigação na área ambiental Durante a sistematização das entrevistas,
associando o potencial de maior generalização realizou-se inicialmente a leitura livre das trans-
do método quantitativo, com o de maior apro- crições, anotando-se as primeiras interpreta-
fundamento do método qualitativo, podem ções em relação ao tema estudado. Em segui-
possibilitar importantes contribuições para o da, procedeu-se à categorização interna das
estudo da relação entre meio ambiente e saúde mesmas, utilizando-se o roteiro de pesquisa co-
(Huttly et al., 1998; Jenkins & Howard, 1992). mo um guia de sistematização dos dados. Pos-
O presente estudo, desenvolvido no contex- teriormente, todas as entrevistas foram com-
to de uma pesquisa epidemiológica que procu- paradas com o objetivo de verificar aspectos re-
ra uma possível relação entre a presença de correntes, convergentes e divergentes, além das
RSU no ambiente e diarréia em crianças, é uma exceções, buscando-se sempre a relação com a
primeira aproximação, de caráter qualitativo, categoria central deste estudo: a definição de
que busca identificar como os moradores de lixo e a sua relação com a saúde.
uma periferia urbana conceituam “lixo” e com- Utilizou-se o aplicativo “Diari Camp”, do
preendem a relação entre exposição a este fa- programa FileMaker Pro 4.1 (FileMaker Incor-
tor ambiental e a saúde. poration, 1994), para a sistematização em três
níveis das entrevistas transcritas. No primeiro
nível, realizou-se a classificação dos temas prin-
Metodologia cipais da pesquisa e das palavras-chave; no se-
gundo, efetuou-se a categorização das palavras
Trata-se de um estudo qualitativo, que utiliza a conceitos e das palavras relacionadas; e no ter-
técnica de avaliação etnográfica rápida (Rapid ceiro, anotaram-se as categorias “etic” (ponto
Ethnographic Methodology – REM), já aplicada de vista do pesquisador) e “emic” (ponto de
em pesquisas na área de saúde (Bentley et al., vista do informante).
1988). O presente estudo foi realizado no bair-
ro de Nova Constituinte, situado na periferia
da cidade de Salvador, que apresenta proble- Resultados
mas graves de infra-estrutura urbana (Larrea
& Barreto, 1999). A população estimada desse Os resultados obtidos foram organizados de
bairro, segundo a última PNAD realizada pelo acordo com as seguintes categorias: o que é li-
IBGE em 1996, era de 9.748 habitantes com xo para o sujeito; processo de produção, desti-
uma renda familiar média de 1,4 salário míni- no, coleta e reaproveitamento do lixo; por que
mo (Larrea & Barreto, 1999). o lixo é um problema; lixo e doenças; lixo e ou-
Foram selecionadas treze famílias median- tros fatores ambientais; responsabilidade pú-
te contatos existentes durante uma pesquisa blica, individual e coletiva em relação ao lixo.
etnográfica desenvolvida previamente nos anos
de 1997 e 1998, quando uma das autoras (C. L. K.) O que é lixo para o sujeito
permaneceu por nove meses na área (Larrea &
Barreto, 1999). Os critérios mínimos para a se- O lixo foi definido pelas entrevistadas em fun-
leção das famílias foram: residir na localidade ção de sua utilidade, da sua disposição final e
e possuir ao menos uma criança com idade in- da relação do mesmo com a saúde (se causa
ferior a três anos. Considerou-se também a he- doenças ou não). A definição mais usada pelas
terogeneidade das famílias em relação à com- mulheres foi de que “lixo é tudo aquilo que não
posição familiar, à educação, à atividade eco- serve para ser utilizado”. Alguns produtos clas-
nômica e à religião. sificados como lixo eram também considera-
As entrevistas do presente estudo foram dos aproveitáveis ou recicláveis pelas entrevis-
realizadas em outubro de 1999, na própria casa tadas. Notou-se uma distinção de conceitos en-
das informantes, por dois dos autores (C. L. K. tre o que é considerado “velho” e o que é lixo,
e R. C. F. R.), utilizando-se como instrumento ou “o que não presta”. Assim, aquilo que é ve-
um roteiro semi-estruturado. Foram realizadas lho, mas que pode ser útil, não é classificado
treze entrevistas gravadas em fitas, com a du- como lixo, como por exemplo mobiliário. Se-
ração média de quatro horas cada. Todos os in- gundo as mulheres, o lixo é o que não serve pa-

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ra ser utilizado e, portanto, aquilo que não po- lões) como fonte de renda. As relações de doa-
de constituir-se num produto de uso, venda ou ções e trocas são comuns na comunidade, com
troca. Elas demonstram uma escala de valori- relatos de pessoas que afirmam que sem isso
zação dos produtos, considerando que aquilo não haveria móveis em suas casas.
que é lixo para algumas pessoas pode ser con- As relações de troca são por vezes evitadas
siderado de grande utilidade para outras. para alguns objetos de uso pessoal, como rou-
Vários produtos foram considerados lixo: pas, devido ao receio, apontado por algumas
restos de alimentos, cascas de frutas e verdu- entrevistadas, de que aquele objeto possa ser
ras, papel usado, sujeira da varrição da casa, utilizado em rituais mágico-religiosos, no sen-
roupas velhas, papel higiênico usado, papelão, tido de maldade ou feitiço, realizado por pes-
fezes humanas e de animais, mato, podas de soas que desejam mal ao proprietário do objeto.
árvores, latas e vidros usados, pilhas de rádio As mulheres demonstraram no seu discur-
descarregadas, pneus de borracha estragados, so o conhecimento da classificação de pericu-
plásticos usados, eletrodomésticos velhos, pa- losidade dos produtos. Pilhas de rádio descar-
nelas de alumínio velhas, ferro velho, restos de regadas, restos de desinfetantes e de medica-
construções. Dentre estes, os únicos conside- mentos eram percebidos como perigosos; po-
rados, por todas as entrevistadas, como não rém, eram descartados no lixo comum. Notou-
reaproveitáveis ou recicláveis foram: sujeira de se, entretanto, um certo cuidado para que as
varrição, mato, fezes humanas e de animais, crianças não mantivessem contato com esses
papel higiênico usado e pilhas de rádio descar- elementos.
regadas.
Salienta-se que as fezes foram consideradas Por que o lixo é um problema
lixo, e isto, em parte, relaciona-se à ausência de
sanitário nos domicílios, levando as famílias a Segundo as mulheres, o lixo é em um problema
acondicionarem as fezes em jornais e sacos na medida em que, acumulado no ambiente, é
plásticos (“balão”), depositando-as em riachos, capaz de produzir odor desagradável, contri-
canais que servem como esgoto, valas ou pon- buir com mecanismos que provocam desastres
tos de lixo doméstico. Em geral, as fezes eram como enchentes e alagamentos, servir como
enterradas no quintal da casa ou colocadas nas foco de atração de animais (gatos, cães, ratos,
proximidades da mesma, em sacos separados baratas, cobras, insetos) e provocar doenças em
do lixo produzido diariamente, favorecendo a crianças e adultos.
contaminação peridomiciliar. A disposição fi- Outras vertentes, explicitadas nas entrevis-
nal era feita no mesmo local do lixo doméstico. tas, relacionam-se ao poder para a solução dos
As fezes das crianças menores eram freqüente- problemas ligados ao lixo, que deixam de ser
mente jogadas no quintal, às vezes sem acon- de âmbito individual tornando-se uma ques-
dicionamento. tão coletiva e institucional, ou ainda quando a
solução destes problemas acarretam custos pa-
Processo de produção, destino, coleta ra o já tão escasso orçamento doméstico. Algu-
e reaproveitamento do lixo mas pessoas informaram que a ausência de co-
leta em locais próximos aos domicílios obriga
Para as entrevistadas, a maior parte do lixo os moradores a colocarem o lixo em pontos ca-
produzido diariamente pela família é orgânico, da vez mais distantes. Em conseqüência deste
constituído por restos de alimentos, cascas de fato, os moradores pagam pessoas da comuni-
frutas e de verduras. A atividade de enterrar ou dade para transportarem o lixo domiciliar até
jogar o lixo e as fezes até o ponto para ser cole- as caixas coletoras em pontos estabelecidos
tado era realizada diariamente ou em dias al- pelo órgão de limpeza pública, causando ônus
ternados. Esta tarefa era freqüentemente reali- financeiro ao já escasso orçamento doméstico,
zada por mulheres ou crianças acima de oito conforme relato abaixo.
anos de idade, que, às vezes, ganhavam dinhei- “Porque, vamos supor, se, por exemplo, aqui
ro da vizinhança para a execução da mesma. tivesse uma caixa coletora seria mais fácil pra
As entrevistadas relataram o reaproveita- gente, a gente só era chegar ali e colocar, (...). (...)
mento dos produtos antes destes serem joga- eu tenho que trabalhar fora pra poder eu pagar
dos ao lixo. Assim, cascas de verduras viravam pra puder a pessoa botar lá, e se tivesse uma cai-
sopas, restos de frutas tornavam-se adubo para xa coletora aqui não precisa fazer isso, já era
as plantas, sobras de alimentos serviam de ali- um pão a mais que era pra meus filhos, era um
mentação para os animais. Algumas das entre- leite, um açúcar” (Érika).
vistadas já exerceram, ou ainda exercem, ativi- Os pontos de depósito de lixo provocam in-
dades que utilizam o lixo (latas, vidros e pape- cômodos como odor desagradável e problemas

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de saúde para os residentes em suas imedia- Freqüentemente eram citadas doenças trans-
ções. Relatou uma mulher, que morava a quase mitidas por vetores como ratos, baratas e mos-
15 metros de um desses pontos, que as suas cas. Os roedores eram apontados em várias en-
crianças apresentavam problemas respirató- trevistas e alguns casos graves de doenças na
rios decorrentes do odor desagradável provo- vizinhança foram relatados.
cado pelos resíduos e das queimadas realiza- “(…) por exemplo, uma mosca vai senta lá
das no local. naquele lixo, a mosca que senta lá, ela vem até
“Era horrível, os pessoal jogava animal mor- aqui, pousa na comida, o rato mesmo, vamos
tos aí, a carniça batia toda aqui em casa, por- supor, eles estão aqui, eles vão pra lá daqui a
que o vento, o vento, (...) então quando batia o pouco, daqui a pouco eles vão pra lá, tem mijo
vento, à tarde mesmo era horrível, e os pessoal de rato, eles pisam, vai fazer doença quando ele
queimava lixo aí durante o dia, não deixava pra vê prejudica. Como eu conheço mesmo um ra-
queimar a noite, não tinha aquela considera- paz que tá na UTI de mijo de rato” (Érika).
ção, aquela consciência de saber que ia incomo- Algumas entrevistadas apontam mecanis-
dar, aí tocava fogo. Era horrível, eu tinha que fi- mos de associação entre a transmissão indireta
car com as portas fechadas, a janela fechada, os por meio de cães com possíveis doenças pro-
meninos não podia ficar do lado de fora” (Ca- vocadas pelo lixo. Segundo elas, a transmissão
mélia). pode ocorrer pelas fezes desses animais, das
patas, da saliva e dos pêlos, e as doenças afe-
Lixo e doenças tam especialmente as crianças que mais fre-
qüentemente brincam com estes animais. As
De acordo com as entrevistadas, o lixo parece pessoas que possuem animais domésticos cos-
ser um problema que pode atingir pessoas de tumam deixá-los em casa ou no quintal, sem
ambos os sexos e diferentes faixas etárias, so- restrições quanto ao contato das crianças com
bretudo as crianças. Vários mecanismos foram esses animais.
apontados associando a relação entre o lixo e Uma das entrevistadas narrou que o mau
doenças. As principais patologias, sinais ou sin- cheiro decorrente do acúmulo de lixo é capaz
tomas referidos pelas entrevistadas como de- de provocar mal estar, perda de apetite, cefa-
correntes do contato com o lixo foram: vermi- léia, náuseas, vômitos, sintomas que, segundo
noses, infecção intestinal (diarréia), gripe, lep- ela, se agravam em gestantes. Abaixo, um rela-
tospirose, dengue, meningite, dor de cabeça, to de experiência própria, sinaliza os efeitos
dor de dente, febre, alergia e náusea. provocados pelo mau cheiro.
Uma mãe descreveu como sua filha peque- “A mulher quando tá de gestante tudo inco-
na adquiriu infecção intestinal em contato com moda (...). O mau cheiro de lixo assim (...) ain-
o lixo ou pela transmissão hídrica. da mais quando ela tá com o estômago vazio,
“É, é porque aquela dali não güenta ver na- além de fazer mal a ela, faz mal à criança tam-
da, tudo ela bota na boca, qualquer coisa que bém (…). Eu não sei explicar se faz mal forma-
larga ali à toa, às vezes, ela vem com um canu- ção, mas que faz mal faz, a criança sei lá, rejeita
do não sei de que é, um negócio de picolé, um aquilo que quer comer e fica, a criança se endu-
pau de picolé, vem mastigando, negócio de pi- rece na barriga (...). E também faz mal à crian-
rulito, aí é ruim que tem gente que larga o lixo à ça, prejudica a criança, desenvolvimento da
toa lá na rua ela vai lá e pega, saco de geladinho criança é dentro da gente, tudo isso provoca
vai e pega, pega e bota na boca, e isso ai ó ela pe- doença” (Camélia).
gou infecção intestinal. (…) Eu acho que foi, ou A própria relação entre os componentes do
não foi o lixo, ou foi a água, (...) que ai dessas ambiente e a possível contaminação de plan-
coisa que dão infecção (…). Ela tem, vai fazer tas, quando em contato com água contamina-
dois anos, tem um ano e onze meses” (Nazú). da, próxima aos locais de disposição do lixo,
Outra mãe associa a parasitose intestinal de são alguns dos mecanismos apontados nas en-
sua filha ao contato com o lixo. trevistas como prejuízos que o lixo pode acar-
“Acho que a verminose é problema de lixo retar ao ambiente. Relato de entrevistada atri-
também. Ela pequenininha (apontou a crian- bui a possibilidade de as plantas próximas a lo-
ça), ficou com problema de verminose, porque cais onde o lixo é depositado adoecerem, como
ela estava começando a se arrastar e eles iam é exposto abaixo:
pra rua andar lá fora de sandália e quando che- “Como aqui, por exemplo, vamos supor: eu
gava aqui não tirava a sandália. Elas ia pro planto um aipim, uma batata ali perto daquele
chão, botava a mão na boca e pegou verminose, lixo, aquele aipim, aquela batata eu não acho
então pegou de lixo, porque lixo é sujeira, né?” que vai sair uma alimentação boa pra meus fi-
(Agda). lhos, porque se tá perto do lixo? (...) lixo ali a

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água que cai vai filtrar na terra. Então foi por muns em Salvador durante o período de chu-
isso que eu também deixei de fazer plantação ai vas e considerados uma fatalidade pelas auto-
no quintal” (Érika). ridades que, corriqueiramente, não atentam
para a relação entre os fatores referidos acima
Lixo e outros fatores ambientais (falta de coleta de lixo somada à falta de drena-
gem e chuvas freqüentes levando aos desliza-
Alguns problemas provocados pelo lixo acu- mentos e enchentes).
mulado no meio ambiente foram relatados nas
entrevistas, quais sejam: contaminação da água Responsabilidade pública, individual
de consumo, deslizamento de encostas, alaga- e coletiva em relação ao lixo
mentos, enchentes, poluição atmosférica e de-
gradação do solo. Relatos apontam a presença Os relatos apontam para um consenso de que
de lixões clandestinos espalhados pela cidade o lixo é um problema de responsabilidade dos
em locais próximos a lagoas onde são jogados poderes públicos, ainda que seja também de
até mesmo resíduos industriais. São locais su- âmbito individual e da comunidade (da vizi-
jeitos à degradação ambiental, que se tornam nhança). A responsabilidade assume uma di-
focos de doenças para as populações vizinhas mensão individual na medida em que cada um
que, por sua vez, freqüentemente, consomem é responsável por jogar o seu próprio lixo em
produtos jogados nesses locais. local adequado, e aqueles que não o fazem, ge-
Os relatos apontam que o somatório dos ram problemas para a comunidade.
problemas de drenagem, acúmulo de lixo, ele- Apesar de reconhecerem a responsabilida-
vado índice pluviométrico e topografia da ci- de individual em relação ao processo de pro-
dade expõem as populações que residem em dução e de disposição do lixo, quando obser-
áreas de encostas e baixadas às mais variadas vados, eles demonstram nem sempre cumprir
situações de deslizamento de terra e enchentes as responsabilidades atribuídas a si próprios.
provocando, por vezes, vítimas fatais nessas lo- Quase sempre culpam os “outros” de jogarem o
calidades. Quando questionada sobre a exis- lixo em locais inadequados. Responsabilizam a
tência de uma possível relação entre lixo e dre- vizinhança, chamando-os de “mal educados”;
nagem, uma moradora relata, de forma clara, a os poderes públicos pelos equipamentos ina-
interface de fatores ambientais: dequados e insuficientes, colocados em locais
“(…) Eu não sei explicar, mas eu acho que impróprios; e a falta de coleta regular. Embora
tem a ver por causa do lixo sim, sabe por quê? várias entrevistas apontassem a responsabili-
(...) onde a água tá correndo, tava cheio de saco, dade do poder público quanto à coleta do lixo,
cheio de plástico parecendo que tava... ele, por nenhuma delas identificou o acesso à coleta
causa, ó cada pedá de terra que caía lá na frente como um direito.
também, tinha meio mundo de lixo, ia junto, As entrevistadas reconhecem que o órgão
sabe?” de limpeza pública realiza a coleta, capinação
“(...) A água vem muito forte, entupida e e varrição em várias áreas de outros bairros.
quebra tudo e esse rego ai ficou um tempo assim Entretanto, queixam-se de que estas ações não
até meio entupido, porque tinha muito lixo, sa- são realizadas com a freqüência adequada e
be? (...) Aí, a água, em vez de descer pra como em alguns locais de mais difícil acesso do bair-
ela sempre fazia, não, ela começou a espalhar e ro. Fazem comparações com a baixa freqüên-
o terreno ficou encharcado sabe? Aí qualquer cia da coleta no bairro onde residem (classe
chuva assim que dá o terreno, é ali alaga tudo baixa), com a coleta regular que é realizada em
ali. Tem tempo que assim da água passar na bairros considerados de classe média e alta,
perna da gente, uma semana a gente sem poder sentindo-se prejudicadas. Relatam ainda que
sair de casa (...). (...) a casa de laje dali da frente durante as eleições os candidatos a governo
já ia caindo, se a chuva não parasse já ia cain- prometem melhorias, que são esquecidas após
do, os postes de luz tudo pro meio da rua, aque- o período eleitoral.
le poste grande correu, ficou, quase caiu em ci- Durante as entrevistas observou-se uma di-
ma da casa da mulher” (Nazú). ferenciação, ainda que pouco precisa, entre o
No relato acima, a moradora explica como espaço de domínio público e o de domínio pri-
o lixo acumulado entope os canais de drena- vado. Para as mulheres, o domínio privado cor-
gem causando alagamentos. Durante as chu- responde ao que está sob o controle daquela
vas, o lixo e dejetos das casas acima da encosta casa, que inclui o domicílio e a área imediata-
deságuam para a baixada provocando desliza- mente ao redor da mesma, incluindo o quintal
mentos de terra, inundações, infiltrações das e espaços laterais e frontais. Este espaço é con-
casas e acidentes fatais. Tais eventos são co- siderado de responsabilidade daquela família e

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o poder para a solução do problema, naquela cia, em outros, quando esta atividade econô-
área, depende da mesma. Assim, a retirada do mica deixa de existir, é considerado como um
lixo jogado nesta área é considerada responsa- produto descartável.
bilidade do proprietário do domicílio e, quan- A identificação do que é considerado lixo
do os vizinhos jogam lixo naquele espaço, sur- envolve processos de escolhas que eventual-
gem conflitos de vizinhança. mente requerem decisões, um objeto ou pro-
O que está fora do domicílio e distante dos duto pode ser mantido ou descartado, pode-se
arredores dele é compreendido como da res- optar por reutilizá-lo, guardá-lo para uso pos-
ponsabilidade de “outros”, podendo ser outro terior, ou doá-lo a alguém. Se a opção é pelo
proprietário ou o poder público. O poder para descarte o objeto é então definido como lixo, o
a solução do problema, para elas, neste caso, destino dele, em geral, é ser removido para lu-
não está no âmbito individual. O espaço inabi- gares fora do domicílio. Como os costumes se
tado parece constituir-se em uma área sem alteram ao longo do tempo, a definição e ca-
identidade, estando sujeita a ser mais utilizada racterização do que é lixo refletem essas mu-
como pontos de lixo não autorizados. danças temporais. Strasser (1999), ao enfocar a
Os relatos apontam que os moradores das categorização do processo que define lixo, re-
baixadas estão sujeitos aos mais graves proble- lata que a idéia, em geral, se voltará quase sem-
mas relacionados ao lixo e ao somatório de fa- pre para um amontoado de objetos ou produ-
tores de riscos ambientais que afetam a saúde. tos descartados e acumulados. No entanto, a re-
Nestas áreas, as pessoas convivem com esgo- flexão que se faz neste estudo é que o lixo tam-
tos, falta de água, acúmulo de lixo e sob o risco bém é percebido como disperso no ambiente.
permanente de enchentes e desabamentos. As Quando o lixo é conceituado pelas mulhe-
entrevistadas se queixam de que, quando rei- res como “o que não serve para ser utilizado” e,
vindicam o acesso a esses serviços junto aos por isso, aquilo que não pode constituir-se em
órgãos públicos, são usualmente mal recebidas um produto de reciprocidade, de troca, reflete
e raramente suas solicitações são atendidas. um processo de escolha e de classificação. É
Uma das mulheres colocou seu sentimento de claro que a escolha é limitada pelas condições
injustiça em morar naquelas condições, mas, econômicas, que por sua vez determinam o
ao mesmo tempo, parece conformada diante consumo e o descarte do produto. Assim, aque-
da situação, concluindo que poderia estar em les que têm menos para consumir, quase não
pior condição. têm o que descartar e aproveitam ao máximo o
“A gente mora num lugar assim, porque a que podem adquirir. Para Strasser (1999), os
gente não tem pra onde ir, porque não temos países desenvolvidos, mais comumente que os
condições de ter um lugar melhor, [...] aqui pra menos desenvolvidos, descartam coisas sim-
ter uma morada. Mas eu agradeço a Deus por plesmente porque não as querem mais. Segun-
esse cantinho que muitos têm pior por aí, debai- do Douglas (1966), nada é inerentemente lixo e
xo de uma ponte, não tem onde passar chuva. O para algo ser considerado lixo, faz-se necessá-
negócio é a gente zelar pelo o que a gente tem. ria uma ordenação sistemática dos produtos e
Lá fora tá sujo, tem lixo, mas enquanto nossa ca- uma classificação contextualizada.
sa tiver limpinha, tudo limpinho pronto” (Luci). O processo de escolha do que é lixo varia de
indivíduo para indivíduo, difere de lugar para
lugar e muda com o tempo. As categorias dos
Discussão objetos descartados são socialmente definidas.
Alguns grupos, especialmente os menos favo-
Os resultados deste estudo apontam para a de- recidos, reutilizam mais facilmente as coisas
finição de lixo como aquilo que não serve para que outros, e os processos de doações e de tro-
ser utilizado, vendido ou trocado, sendo des- cas de objetos descartados limitam-se às vezes
cartado. Lixo é uma categoria dinâmica, pois o a concepções ou crenças religiosas. Acima de
que é lixo para algumas pessoas, pode ser de tudo, a seleção dos produtos a serem conside-
grande utilidade para outras. Os componentes rados como lixo varia com a classe social. O que
deste descarte são frutos de decisões indivi- é lixo para uns é valorizado por outros, e aque-
duais, mas que podem ser determinadas histó- les que mais valorizam pertencem, na grande
rica, social ou culturalmente. maioria das vezes, a uma classe social menos
A valorização e a categorização de um pro- favorecida. Quanto às mudanças com o tempo,
duto como lixo apresenta uma dimensão tem- sabe-se que durante a recessão econômica a
poral. Segundo alguns relatos, o lixo recolhido produção de lixo em geral diminui, em função
em um dado momento serve para ser vendido, da redução do poder aquisitivo da população
constituindo-se como um meio de sobrevivên- (Acurio et al., 1997).

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1590 REGO, R. C. F.; BARRETO, M. L. & KILLINGER, C. L.

Percebe-se uma dimensão espacial na dis- mo não constitui um problema ambiental iso-
posição dos produtos considerados lixo. Estes lado, somam-se a ele aqueles decorrentes da
ocupam lugares marginais dentro de casa, co- ocupação desordenada do solo e da falta de in-
mo a cozinha e a área de serviço; ou fora dela, fra-estrutura como drenagem, esgoto e água;
como o quintal ou a calçada. Douglas (1966) problemas que, ao se acumularem no mesmo
chama a atenção para os lugares mais periféri- espaço geográfico, favorecem ou agravam as
cos das casas, designados como pontos de co- condições de risco ambiental local.
locação do lixo. Para esta autora o que é des- A identificação do lixo enquanto um pro-
cartado ocupa um lugar situado entre as esfe- blema sentido varia de acordo com o indivíduo
ras do ambiente público e do privado, na fron- em seu contexto histórico, tornando-se ade-
teira onde o domínio doméstico encontra-se quado o resgate do conceito de problema utili-
com o ambiente externo da rua. Verificou-se zado por Matus (1993:580) como “a formulação
neste estudo que os lugares próximos aos es- para um ator social de uma discrepância entre
paços de disposição do lixo, como quintal e a realidade constatada ou simulada e uma nor-
passeio, costumam ser usados por crianças pa- ma de referência que ele aceita ou cria”. Em ou-
ra brincadeiras e jogos, o que as expõem com tras palavras é a identificação da diferença en-
regularidade ao contato com resíduos conta- tre “o que é” e “o que deveria ser”, de acordo
minados, fontes de agentes patógenos. com padrões e valores considerados desejáveis
Os domicílios e as áreas imediatamente ao do ponto de vista do ator social. Para Samaja
redor da casa, pertencentes ao terreno, tam- (2000), o conceito de problema só tem aplica-
bém fazem parte do domínio privado, sendo ção no sistema vivo e nos processos humanos
utilizados como área de lazer. Esta delimitação e são componentes de uma ordem descritiva
entre o privado e o público, além de determi- que serve para qualificar estados possíveis, nos
nar a responsabilidade sobre a coleta nestes lu- indivíduos vivos em toda a extensão da biosfe-
gares, implica também na identificação dos lo- ra. A compreensão do que é “transtorno” ou
cais para disposição do lixo. Conforme Cairn- “problema”, para Samaja, não deriva nem de
cross et al. (1996), em muitas culturas, espe- processos indutivos da simples observação dos
cialmente nos trópicos, os limites do domínio fenômenos, nem da criação espontânea da
privado são determinados pelos proprietários, consciência, mas das representações que os
que utilizam ordinariamente as áreas externas membros da comunidade possuem do fenôme-
da casa para trabalhos domésticos, banhos e no, que são herdados de “modelos que organi-
refeições. Para estes autores a delimitação dos zam a experiência”. Estes últimos, por sua vez
limites entre esses dois domínios determina a são culturalmente herdados da “sedimentação
prioridade na intervenção, se no âmbito com- milenar da história social” (Samaja, 2000:51).
portamental ou de infra-estrutura e regulação. Os relatos detalhados dos processos de
As entrevistadas relatam diferenças espa- adoecimento, por exemplo a transmissão da
ciais no acesso à coleta do lixo na cidade e in- diarréia e das parasitoses intestinais, a partir
ternamente no bairro, que se relacionam tam- do contato das crianças com o lixo, nos reme-
bém à situação topográfica do local onde resi- tem à natureza complexa, subjetiva e contex-
dem. Os entrevistados, moradores de uma típi- tual da relação entre saúde/doença/cuidado e
ca periferia urbana, relatam deficiências de in- aos processos interativos das relações entre os
fra-estrutura, sentindo-se marginalizados quan- sujeitos humanos e seu meio ambiente. Pode-
to ao acesso à coleta do lixo, comparando-a com se verificar, nas análises das entrevistas reali-
aquela realizada em bairros de classes média e zadas, que os mecanismos apontados para a
alta. Os que residem nas baixadas, por sua vez, transmissão das doenças são coerentes com o
recebem o lixo de quem mora acima e se quei- que está descrito na literatura. Esta compreen-
xam da ineficiência dos serviços públicos es- são é certamente resultante de “modelos que
senciais como a limpeza pública. Esses acha- organizam a experiência”, apontando para a
dos são reforçados por informações censitárias necessidade de mais estudos para a elucidação
de 1989, quando o acesso à coleta, no Brasil, era da relação entre o lixo, como um fator de risco
de 51,3%, para a classe de renda até um salário ambiental, e saúde. Com relação à possível as-
mínimo e de 89,0%, nas classes de renda supe- sociação entre doença e fatores de risco am-
rior a cinco salários mínimos (MMA, 1999). bientais, pode-se concordar com as idéias de
Deve-se considerar que uma cidade como Almeida Filho (2000) que não se trata apenas
Salvador, com peculiaridades topográficas, cli- de uma ação externa de um elemento ambien-
matológicas e sócio-econômicas, requer solu- tal agressivo, nem da reação de um hospedeiro
ções específicas para os graves problemas cau- susceptível, senão de um sistema (totalizado,
sados pelo lixo, levando-se em conta que o mes- interativo, processual) de efeitos patológicos.

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COMO PENSAM MULHERES RESIDENTES NA PERIFERIA 1591

Parece existir uma compreensão, ainda que capaz de provocar incômodos como mau chei-
superficial, por parte das entrevistadas, de co- ro ou poluição visual; serve como foco da pre-
mo o lixo provoca degradação e desastres am- sença de animais; provoca doenças em crian-
bientais. As condições de vida desfavoráveis ças e adultos ou quando o poder para a solução
determinam, pelo menos em grande parte, um do problema desloca-se da esfera individual
consumo reduzido, que leva a uma menor pro- para ser uma questão coletiva e/ou institucio-
dução de resíduos e a reutilização de produtos nal. Entende-se que a discussão sobre as possí-
que seriam descartados. Algumas práticas que veis soluções para o problema do lixo requer fó-
surgem de maneira espontânea no bairro co- runs mais amplos de debate com a população,
mo meio de subsistência tornam os moradores que ultrapassem os limites de gabinetes gover-
dessas áreas mais facilmente predispostos a namentais e se aproximem cada vez mais da
acolherem programas que utilizam as concep- realidade local.
ções atuais de gerenciamento dos resíduos só- Os moradores das áreas periféricas, já des-
lidos urbanos, os três erres (redução, reutiliza- tituídos de muitos direitos de cidadania, são os
ção e reciclagem) (MMA, 1999). Estas práticas mais prejudicados com a deficiência de coleta
poderiam ser mais valorizadas na elaboração pública de lixo. Seguindo a recomendação da
das políticas públicas locais em relação ao lixo. Agenda 21, faz-se necessária uma maior discri-
A identificação dos problemas relacionados minação positiva para reduzir a desigualdade
ao lixo carece de uma delimitação mais precisa no acesso à coleta, além de uma maior regula-
por implicarem em decisões diferenciadas de ção e fiscalização das empresas prestadoras
intervenção. Se o problema identificado en- deste serviço, por parte do Estado (MMA, 1999).
contra-se na esfera do domínio público, as po- Dentre os aspectos relevantes levantados
líticas de intervenção devem ser direcionadas neste estudo está o modo como as populações
principalmente com investimento em infra-es- expostas ao contato com o lixo a céu aberto
trutura e em regulação pública. Caso o proble- percebem isto enquanto um problema, asso-
ma situe-se na esfera do domínio privado, as ciando-o à situação de saúde ou a outros pro-
intervenções devem voltar-se principalmente blemas ambientais. Neste sentido, este estudo,
para as ações educativas e de mudanças de há- ao buscar compreender esta problemática em
bitos, associadas às melhorias que são de res- uma perspectiva êmica, procurou trazer con-
ponsabilidade da esfera pública. tribuições para a compreensão deste complexo
O lixo é entendido como um problema quan- tema.
do: encontra-se acumulado no ambiente e é

Agradecimentos

Os autores agradecem à Secretaria de Saneamento e


Recursos Hídricos do Estado da Bahia, por intermé-
dio do Projeto de Avaliação do Impacto Epidemioló-
gico do Programa de Saneamento Ambiental da Baía
de Todos os Santos – Projeto Bahia Azul; ao Programa
de Apoio a Núcleos de Excelência, Ministério da Ciên-
cia e Tecnologia (661086/1998-4); à Organização Pan-
Americana da Saúde, pelo Programa de Subvenções
para Teses de Pós-Graduação (AMR00/074302-01); ao
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (bolsa no140594/2000); a Evandro Calixto
Filho e à Anita Gil, pela transcrição das fitas; e a Mar-
co Rêgo, Mônica Nunes, Ana Cerqueira e Iêda Franco,
pela leitura crítica das várias versões deste artigo.

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