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arquitextos ISSN 1809-6298

059.04ano 05, abr. 2005

Cidade moderna sobre cidade tradicional: movimento e expansão


– parte 2 (1)
Célia Helena Castro Gonsales





Estudo de Le Corbusier para São Paulo, 1929 [BARDI, Pietro Maria. Lembranças de Le
Corbusier. São Paulo, Nobel, 1984]
1/19


De Sixto V a Le Corbusier
O inchaço populacional da cidade industrial do século XIX e todos os problemas
decorrentes desse fato, constituem-se como o impulso de novas idéias para a
moderna cidade. A partir da migração campo-cidade de uma população que buscava
trabalho e melhores condições de vida, surgem os primeiros bairros operários
que em seguida vão apresentar problemas de insalubridade e falta de infra-
estrutura. Desde as primeiras propostas revolucionárias elaboradas pelos
chamados pré-socialistas da primeira metade do século XIX – Owen, Fourier,
Cabet – à Carta de Atenas, existiu uma busca em comum: a de uma cidade que
representasse o “espírito da época”, que respondesse às necessidades, mas
também aos anseios do homem da era moderna. O resultado físico último é uma
cidade que se constitui como um campo livre pontuado por edifícios isolados
que leva implícita uma idéia de higiene, salubridade, banho de sol e
velocidade.
O século XX acumulou um acervo considerável de planos urbanísticos baseados
nesse paradigma. Algumas cidades totalmente novas foram projetadas e
construídas, mas a grande parte dos planos teve que se confrontar com a cidade
existente, com uma intervenção mais ou menos agressiva, com um diálogo mais ou
menos amigável, como proposta de uma cidade moderna sobre a cidade
tradicional, como uma proposta de mudança ao lado da cidade existente.
A intervenção do tipo cidade moderna sobre cidade tradicional apresenta 3
nuanças: as propostas conciliadoras, como as de Le Corbusier para Buenos
Aires, Montevidéu, São Paulo e Rio de Janeiro, onde edifícios-autopista são
pousados sobre a cidade sem alteração do tecido ou da paisagem natural
(fig.1); as propostas implantadas sob uma nova legislação urbanística aplicada
sobre tecido tradicional e obrigadas de alguma forma a dialogar com este (2)
(fig. 2); e ainda, as conhecidas proposições mais agressivas como o Plan
Voison para Paris, também do mestre moderno, que em uma atitude de tábula
rasa propõe a destruição do centro medieval de Paris e a construção de um
centro comercial e de negócios com torres isoladas (fig. 3).
Porém, na prática, a estrutura física moderna se mostrou mais explicitamente
nas propostas para novos pedaços de cidade que respondiam, principalmente, à
demanda de habitação decorrente do grande crescimento urbano do século XX. Os
novos bairros e conjuntos habitacionais, tendo as Siedlungs como organizações
pioneiras, se constituirão como principal posta em cena urbana moderna (fig.
4).
O século XIX é conhecido por uma série de projetos de interferência na cidade
que de alguma maneira tentavam lidar com os problemas da nova cidade
industrial. Se os utopistas apresentaram propostas de negação da cidade,
afastando-se da urbe doente, essas intervenções eram apresentadas sob a forma
de propostas “curativas” que enfrentavam as enfermidades da própria cidade.
Os Planos de Haussmann, para Paris e de Cerdà, para Barcelona, são dois
conhecidos exemplos com abordagens diferenciadas dentro do que pode ser
chamado de planejamento urbano moderno. Haussmann projeta um esquema que abre
passo dentro do tecido medieval de Paris (fig. 5). Cerdá propõe um traçado que
envolve o casco antigo de Barcelona, mantendo-o praticamente intacto (fig. 6).
Todas essas propostas mencionadas constituem uma ampla gama de tipos de
intervenções na cidade existente dentro da Modernidade. No entanto, embora
apresentem aspectos conceituais totalmente novos, podemos verificar que em
relação à forma de interferência apresentam poucas novidades em relação ao que
se fez no passado, apresentando ineditismo apenas aquelas propostas
dependentes de uma tecnologia inexistente em épocas anteriores e aquelas
atitudes de tabula rasa, verificadas anteriormente somente em caso de
catástrofe ou calamidade pública.

O desenvolvimento das cidades se dá, ao longo da história ocidental, a partir
da sobreposição de diferentes conceitos, da justaposição de sucessivos pedaços
de cidade, de diferenciados tecidos. As intervenções globais ou apenas
pontuais possuem sempre a função explicita de sanar problemas especificamente
urbanos e o propósito, muitas vezes velado, de atender a questões político-
ideológicas.
Na Grécia, a cidade profana está agregada à acrópole, cidade sagrada. Ambas se
diferenciam em função e forma, seguindo a primeira, em geral, uma disposição
mais regular a partir da ágora, e a segunda uma implantação geomórfica.
adaptada ao relevo.
Roma apesar de crescer sem qualquer plano regulador geral, no ano 46 a.C. é
submetida à Lex Julia Municipalis, primeiro regulamento de intervenção na
cidade, promulgado com a intenção de oferecer diretrizes sobre normalização
das alturas dos edifícios, das larguras das ruas, da pavimentação, das obras
públicas, dos limites da cidade, etc. (3).
Em outro momento, após o incêndio de 64 d.C., Nero intervém radicalmente na
cidade. Organiza a reconstrução dos bairros destruídos com métodos racionais,
mesmo que não possa mudar as grandes linhas do organismo já formado. As ruas
são alargadas, as alturas das construções limitadas, os espaços intermediários
são ampliados com a exigência de colocação de pórticos na frente
das insulae para protegê-las do fogo. Todas essas disposições, ainda que
ditadas por necessidades pragmáticas, acrescentaram certo decoro à cidade
proporcionando ao espaço público um aspecto totalmente diferenciado do
anterior (4).
Mas foi no Renascimento que se deu pela primeira vez uma proposta de
reestruturação da idéia vigente de cidade. Baseada em uma busca de
racionalidade do espaço urbano através de uma ordenação consciente das
edificações, teve a representação em perspectiva, cujas regras foram
descobertas nessa época, o instrumento fundamental para sua concretização.
A perspectiva – item perspectiva, palavra latina que significa olhar através –
que organizava o espaço em linhas matemáticas dentro de dois planos, a moldura
do primeiro plano e a da linha do horizonte, era apresentada como uma
“construção” geométrica “correta” que na mão dos artistas renascentistas se
transforma em instrumento de retificação e construção dos cenários urbanos.
A Perspectiva de uma praça (fig. 7), quadro atribuído a Piero della Francesca,
pintado por volta de 1470, se constitui em uma representação do tipo de cidade
que o pensamento renascentista contemplava – as proporções matemáticas da
praça, a forma perfeita circular apresentada na igreja central, a regularidade
dos pequenos palácios nas margens (5). No século XVI, se difunde na cultura
coletiva o interesse pela paisagem urbana. Os gravadores lançam ao mercado
grande quantidade de vistas das cidades, representações de ordenações
retilíneas, todas em perspectiva.
Grande parte dessas representações de espaços urbanos está impregnada de um
pensamento utópico recorrente na época, do qual as cidades ideais, Sforzinda
de Filarete, de 1460, Palmanova de Scamozzi, construída apenas em 1593, mas
com conceitos conhecidos desde 1500, são as representações mais conhecidas
(fig. 8). Por sua vez, as propostas centralizadas e radiais dessas cidades
eram idealizadas a partir dos exercícios geométricos expostos na perspectiva.
Ao mesmo tempo, o pensamento utópico e a idéia de um espaço racional estão
representados nas cidades do Novo Mundo a partir da aplicação sistemática do
traçado urbano reticular – popularizado a partir de Mileto e fundamentalmente
utilizado nas novas cidades romanas com o nome de centuriato – que impunha às
novas terras um padrão uniforme.
Quando o Papa Sixto V, no final do século XVI, elabora um plano grandioso para
Roma, essas idéias já estavam completamente consolidadas. Se em algumas
cidades foi ensaiado um urbanismo sob os novos conceitos, é em Roma que o
espaço urbano idealizado no Renascimento se concretiza como concepção
imprescindível (fig. 9).
Em seu acesso ao pontificado, Sixto V havia encontrado uma série de
intervenções fragmentárias no tecido medieval e adjacências. Ele parte da obra
de seus predecessores e a integra em um programa unificado que se constitui
como um grande plano regulador. Sixto deixou a Roma Medieval intacta e
concentrou suas energias, desde o primeiro momento, em direção à região mais
despovoada da cidade. Durante seu breve reinado, entre os anos de 1585 a 1590,
construiu uma rede de avenidas majestosas que, vencendo os obstáculos
naturais, tornou acessíveis à cidade as colinas da antiga Roma e trouxe vida
urbana a essas zonas praticamente desabitadas.
O primeiro impulso que determinou essa transformação foi eclesiástico, como
parte da reconstrução da Igreja Universal depois do Concilio de Trento. A rede
de ruas na verdade se produz como uma organização do percurso das procissões
entre as sete basílicas mais importantes da cidade. O cruzamento das ruas
largas e retilíneas marcado por monumentos – principalmente colunas e
obeliscos, como aquela da Piazza Del Popolo – se constituem como pontos focais
na paisagem urbana e referência para a orientação dos peregrinos.
Essas novas ruas, constituídas também como ruas de passeio, traçam ao lado da
trama medieval uma triangulação em perspectiva que permite, inclusive dentro
da cidade, reunir visualmente lugares distantes. A coincidência entre os
ideais do Renascimento em relação à cidade e os ideais religiosos da Contra-
reforma traz de volta à Roma os eixos monumentais.
A partir do século XVII os planejadores, tanto de cidades como de jardins,
passam a adotar de maneira crescente a solução papal de avenidas diagonais que
abrem passo através da topografia e do tecido urbano, agora associada a
traçados ortogonais. A retícula, herdada da antiguidade e aplicada no
Renascimento, entrecortada pelas avenidas já barrocas de Sixto V, vai ser o
modelo usual de traçado do século XVII até meados do século XX. O plano
elaborado por Cristopher Wren em 1666 para a reconstrução de Londres após o
grande incêndio, se destaca pela configuração ordenada da cidade onde
contracenam traçados reticulados, grandes avenidas diagonais e planta em
estrela (fig. 10).
É, portanto, a partir desse século, sob uma série de mudanças políticas e
culturais, que a idéia moderna de espaço implantada no Renascimento chegará a
suas extremas conseqüências.
Na França se inicia a reorganização do aparelho administrativo sobre o qual se
funda o absolutismo monárquico e como telão de fundo para o poder absoluto a
cidade barroca se desenvolve. O espaço urbano e arquitetônico se organiza sob
novos conceitos. O estudo da perspectiva, que estende o olhar em direção ao
horizonte, segue sendo o instrumento representativo e espacial para a
concretização das grandes avenidas. A nova mentalidade organiza o espaço de
forma contínua, uniforme, reduzindo-o à ordem e à geometria, estendendo os
limites e, finalmente, associando o espaço ao movimento e ao tempo. O espaço
barroco convida ao movimento, à viagem, à conquista pela velocidade. O tempo
barroco não tem dimensões – o costume social da época é a moda, que muda a
cada ano. O seu instrumento prático, o jornal, trata dos acontecimentos do
dia-a-dia, dispersos e incongruentes, sem nenhuma conexão exceto a
contemporaneidade.
A avenida é a alegoria mais importante e o tráfego a função urbana
fundamental. A rua retilínea e a uniformidade arquitetônica, componentes
monótonos para uma posição fixa ou mesmo para um cortejo, se tornam um
correspondente necessário ao ritmo de andar dos cavalos rápidos. A rua – a tal
ponto que o mercado se estende ao longo das linhas de tráfego em vez de
concentrar-se em pontos onde as pessoas pudessem congregar-se – é o elemento
urbano essencial (6). Por outro lado, a execução e ampliação do parque no
coração da cidade, foram uma importante contribuição do palácio à vida urbana
– a abertura do que a princípio era o parque real tornou-se primordial depois
da construção nos espaços verdes que antes haviam rodeado a cidade medieval.
Em 1746 o tecido medieval de Paris, cuyo foco era a Ile da Cité e a catedral
de Notre-Dame, foi enriquecido por 19 places royales – muitas delas em forma
de estrela com ruas de acesso divergentes em forma de raios – a partir de um
concurso convocado por Luis XV. Mais tarde, o Plan des artistes, projeto
revolucionário para a transformação de Paris traçado por um comitê reunido
entre 1793 e 1797 previa a abertura de várias avenidas e a criação de
rotatórias para organizar o tráfego.
No entanto, o jardim ou parque formal fora da cidade como uma composição
simétrica no espaço, na qual os elementos naturais tornavam-se simplesmente
padrões subordinados de um desenho geométrico, é o elemento mais completo do
planejamento barroco. É subordinando à regra também a natureza que o
projetista da época encontra uma ordem visual mais integral.
O Parque de Vaux, projetado por Le Nôtre nos arredores de Paris, é uma
paisagem simétrica e regular até a linha do horizonte (fig.11). Em Versailles,
o mesmo projetista ordena um canal em forma de cruz de um quilômetro e meio a
partir do eixo de simetria do palácio. Esta faixa de água guia o olho desde o
terraço central da edificação até o ponto de fuga nas colinas ao fundo a cerca
de três quilômetros de distância, resultando em um controle rigoroso do
ambiente natural e artificial (fig. 12).
Nos planos barrocos, a transformação do território é conseguida somente em
parte e não nas cidades habitadas mas nos espaços vazios do campo. O ambiente
que daí resulta é um mosaico de parques e intervenções pontuais que não se
interligam em organismos contínuos (fig.13 e 14). Uma exceção em relação ao
método barroco aplicado em seu todo a uma cidade, é o plano de Washington de
1795. A combinação de ortogonais e diagonais utilizada no projeto de L’Enfant
se tornará, com o tempo, um dos lugares-comuns do desenho urbano moderno (fig.
15).
Os urbanistas do século XIX em geral, como já havia ocorrido desde o plano de
Wren, recorriam ao traçado reticular com inclusão de diagonais. O traçado
xadrez, que resulta de uma divisão racional do solo e que remonta aos
assentamentos urbanos mais antigos, tornou-se o esquema básico da maioria das
cidades, prometendo não apenas ordem e clareza, mas também igualdade na
distribuição da propriedade. Por outro lado, as diagonais tinham como
referência tanto as cidades poligonais fortificadas surgidas a partir de 1500,
com ruas que irradiavam do centro para as portas localizadas nos lados do
polígono (fig. 8.), como o plano para Roma, de Sixto V (fig. 9).
Porém, se a organização formal tinha seus precedentes na história, já a partir
da segunda metade do século XVIII, o conceito de intervenção no espaço da
cidade havia sido completamente modificado. O pensamento ilustrado havia
delineado, pela primeira vez, o conteúdo da urbanística segundo uma concepção
que, a partir da insistente tentativa de coordenar todos os conhecimentos do
saber em uma visão geral, em uma consciência sintética do universal, englobava
os aspectos multiformes da vida social, nascendo assim, uma concepção unitária
da estrutura da cidade.
Entre 1851 e 1870, uma série de circunstâncias favoráveis, entre elas a
existência da lei sobre a expropriação de 1840 e da lei sanitária de 1850,
permitem a Georges Eugène Haussmann, prefeito de Paris e circunvizinhanças,
realizar um grande programa de transformações no espaço urbano de Paris.
Haussmann considera parte das intervenções precedentes pontuadas por
grandiosos complexos monumentais, entre os que predominavam as praças dos
séculos XVII e XVIII, conjunto dos Inválidos e a seqüência monumental, única
no mundo, do conjunto Ilha da Cité, Louvre, Tulleries, Champs Elysées e
l’Etoile, que constituía uma grandiosa diretriz urbana. A partir daí, a
abertura de ruas que cortam em todos os sentidos o organismo medieval e
prolongam-se até a periferia, a instalação de novos serviços primários – o
aqueduto, o esgoto, a iluminação a gás, a rede de transportes públicos com os
ônibus puxados a cavalo – e a inclusão no corpo da cidade dos parques públicos
Bois de Boulogne a oeste e o Bois de Vincennes a leste constituem-se como as
principais realizações (7) (fig. 16).
As perspectivas com longas fugas de avenidas com edifícios monumentais como
pano de fundo– com precedentes na história como já havíamos destacado em
relação aos planos dessa época – assim como a regularidade e uniformidade da
arquitetura das fachadas nas praças e nas ruas mais importantes, dão ao plano
uma estruturação imponente, espetacular, atitude que correspondia, como chama
a atenção Benjamim, à tendência que se observava continuamente no século XIX
de enobrecer necessidades técnicas com finalidades artísticas (8).
O plano para Barcelona do engenheiro espanhol Ildefonso Cerdà, aprovado
inicialmente em 1859, apresenta uma intervenção completamente diferente. Os
dois traçados urbanísticos básicos na época, a quadrícula e o radial – neste
caso o segundo subordinado ao primeiro – eram sintetizados em um grande
retângulo de sessenta por vinte módulos, localizado no espaço livre deixado
entre a cidade medieval amuralhada e os povoados vizinhos e cortado por duas
diagonais (fig. 6).
Como um dos primeiros tratadistas de arquitetura e urbanismo a reivindicar a
salubridade das habitações de maneira radical e efetiva como a condição
primeira a satisfazer na criação da nova cidade, Cerdá considerava a moradia
como suporte fundamental da qualidade de vida. Emprega grande esforço na
formulação das “ilhas tipo” e, a partir do reconhecimento da quadrícula como o
traçado que reúne tanto vantagens de ordem circulatória, topológica,
construtiva, jurídica como urbanística, chega ao módulo quadrado de 113 metros
de lado com um chanfro de 20 metros como o mais adequado.
Ao compreender a necessidade de compactação da cidade industrial, abre mão de
qualquer exemplo de habitação unifamiliar com jardim, ideais no seu
pensamento, mas procura manter o máximo de qualidade ambiental propondo ilhas
abertas com dois blocos – três e até quatro blocos na versão de 1863 (fig.
17).
Cerdà escreverá mais tarde em sua Teoría General de la Urbanización, publicada
em 1867, “a urbanização reside tão somente na associação do repouso e do
movimento” (9). A presença dos dois conceitos diretores, a “habitação” e a
“circulação”, que hoje mais do que nunca continuam sendo os dois pólos
operacionais do urbanismo estão presentes, no plano de Barcelona no cuidado
com a habitação e no projeto cuidadoso de uma rua realmente racional, com 20
metros de largura e separação entre os meios de locomoção (fig. 18).
Ao contrário de Paris, a trama ortogonal, homogênea e igualitária não
caracteriza uma Barcelona monumental, mas ambos planos dão corpo às palavras
de ordem do desenho urbano no final do século XIX e começo do XX: saneamento e
embelezamento.

No traçado de uma cidade está sua primeira explicação. Está sua atitude frente
ao território. Está a apresentação de suas potencialidades de crescimento e de
conexão. O traçado e sua direta conseqüência, o tecido, esclarece o diálogo
entre as partes diacrônicas de uma cidade – sobrepostas, justapostas – ,
explica seu devir. O traçado – e seu componente mais fundamental, a rua –,
finalmente, explica uma idéia de espaço urbano público e privado.
Embora o processo não seja determinista, a forma de um traçado apresenta uma
série de implicações. A forma geomórfica é orgânica e se dá a partir da
dependência entre a estrutura da cidade e a paisagem; a forma concêntrica é
ideológica e deriva de um compromisso em direção a um ideal sobre-humano; a
forma ortogonal é pragmática permitindo o ajuste da cidade aos requisitos de
comunicação e expansão.
Os conceitos geomórficos e concêntricos são estáticos, pois são ditados pelo
que se julga absoluto – a natureza e a fé. O conceito ortogonal, baseado em
uma realidade que depende do homem, é flexível e permite uma grande variedade
de interpretações. Dentro do sistema ortogonal, a quadrícula modular
representa um compromisso entre uma ordem estática e imposta e uma ordem
flexível e sujeita à evolução (10).
Com a aplicação do plano em quadrícula, a rua começou a existir por direito
próprio deixando de ser uma passagem tortuosa entre um aglomerado de
edificações – as ruas das primeiras cidades gregas, eram pouco mais que vielas
e muitas dessas vielas constituíam apenas passagens com poucos metros de
largura. Uma vez que a rua assume um papel destacado, a idéia de alargá-la
para acomodar grupos maiores de pessoas seguir-se-ia naturalmente. Esse
alargamento de ruas teve lugar nas cidades helenísticas do terceiro século
a.C.
Sob o helenismo, a rua consolida-se como elemento urbano. Primeiro como
avenida, local de exposição do poder e, logo, como lugar de encontro. A longa
avenida e a contínua galeria aberta, a monumentalidade como caráter
representativo dominante – herança para Roma – e a rua porticada, cuja origem
se remonta à stoa da ágora grega, lugar de convívio – a continuidade formal da
ágora se espalha por outros lugares da cidade.
A importância da rua na compreensão da cidade helenística pode ser percebida
na descrição que o geógrafo e historiador grego Estrabão faz de Alexandria:
“toda a cidade está cruzada por ruas pelas quais podem correr carruagens e
cavalarias; delas, duas têm uma largura superior a um plectro e se cortam no
centro formando um ângulo reto ... A rua orientada leste-oeste está adornada
em ambos lados por casa muito belas e muitos templos magníficos e riquíssimos,
é a via Canópica, flanqueada por pórticos. A outra artéria, igualmente larga,
também porticada se encontra com a anterior nas proximidades do centro
formando uma magnífica praça”(11).
Todas as estruturações urbanas a partir do Renascimento tiveram a rua como
elemento fundamental (12). A rua espaço público da cidade é espaço do
encontro, mas e essencialmente espaço para o movimento: da caminhada das
procissões nas avenidas de Roma de Sixto, da marcha do exército vitorioso
nas Viae Triumphales na cidade barroca, da corrida das carruagens
nos boulevares (13) da cidade oitocentista e do deslocamento veloz do
automóvel – e somente do automóvel – nas vias de circulação da cidade do
século XX.
O sacrifício da vizinhança à avenida de tráfego – herança do período barroco –
perdurou ininterruptamente durante o século XIX. As rotatórias, propostas para
Londres em 1666, para os planos de Paris do século XVIII e depois
popularizadas em todo o mundo, reforçam a característica crescente da rua como
um espaço de passagem e o decréscimo de sua importância como espaço para se
estar ou habitar. Na cidade moderna do século XX a inexorabilidade do destino
da rua é confirmada quando as rotatórias são substituídas pelas passagens em
nível. Em Alexandria talvez já estivesse traçado esse destino social, mas
essencialmente funcional da rua.
Os elementos, traçado e rua, foram os componentes fundamentais dos planos e
intervenções urbanas que viemos analisando – estivemos até aqui quase que
somente falando de traçados e ruas. Mas a ruptura radical que ocorre na cidade
do século XX já não permite que uma análise nesses termos continue.
Na cidade tradicional, rua e edifício são entidades inseparáveis. A
arquitetura conforma a rua, a forma da arquitetura é a forma da cidade. Na
cidade oitocentista, o traçado viário se estabelece como um sistema autônomo,
como uma instalação prévia à produção dos edifícios. Mas ainda assim os
edifícios construídos – a posteriori – confirmam o traçado e concretizam o
tecido.
Na cidade do Movimento Moderno, essas duas entidades, o traçado e a rua se
desmaterializam. O traçado se transfigura em uma forma geométrica abstrata –
formada por vias projetadas sobre o plano horizontal, sem qualquer
possibilidade de percepção na terceira dimensão. A forma da cidade – se é
possível agora falar em forma urbana – não possui nenhuma relação com a forma
das edificações. Em Le Corbusier não existe nenhum tecido, nenhum primeiro
plano, diz Colquhoun. Em vez disso, existe uma floresta ou parque por meio do
qual se vêem, ao longe, os blocos residenciais ou de escritórios (14) (fig.
19). Le Corbusier escreve sobre o Plano Voisin:
“Eu gostaria de fazer um retrato da [rua] contemporânea. Leitores, imaginem-se
caminhando nessa nova cidade e aclimatem-se às suas vantagens. Vocês estão sob
a sombra das árvores, vastos gramados se estendem à sua volta. O ar é límpido
e puro; não há ruídos. Como? Vocês não conseguem ver onde os edifícios estão?
Olhem através das ramas das árvores, através do encantador arabesco formado
pela trama dos galhos contra o céu, a grandes distâncias entre si, as
gigantescas massas de cristal, mais altas que qualquer edifício do mundo.
Esses prismas translúcidos parecem flutuar no ar sem qualquer ancoragem no
solo – cintilantes sob o brilho do sol de verão, suavemente brilhantes sob o
céu cinza do inverno, magicamente reluzentes ao entardecer – são enormes
blocos de escritórios ... Ao possuir esta cidade uma densidade três ou quatro
vezes maior que as cidades existentes, as distâncias a percorrer são três ou
quatro vezes menores. Apenas 5-10 por cento da superfície do centro de
negócios está construída. Esta é a razão pela qual vocês se encontram
caminhando entre espaçosos parques e longe das barulhentas autopistas.”(15)
A atividade gregária da promenade se desenvolveu cedo na cidade, junto às
muralhas e aos portões, mas essencialmente na rua alargada que proporcionava
sempre uma ração mínima de espaço público. O passeio era uma atividade que
recuperava a sensação de intimidade física. Nas ruas da cidade do século XIX
essa sensação já não existe. A cultura da metrópole moderna impõe uma
contraposição entre o público e o privado. Todas as diversidades e
excentricidades dos indivíduos e grupos são cultivadas no labirinto dos
ambientes internos ao passo que se perdem ao sair para rua, onde uma multidão
de pessoas se encontra e se ignora entre si.
A cidade radiante incentiva a promenade por toda a cidade, não na rua, mas no
parque sem fim. É a cidade das vias de trânsito rápido mas também de longos
passeios a pé. As conseqüências são conhecidas, qualquer resquício de
intimidade jamais é recuperado.
São esses novos conceitos que permeiam os variados tipos de intervenção na
cidade existente do século XX, apresentados no começo deste texto. No plano de
Le Corbusier para o Rio ou São Paulo e para Paris, nos Planos Diretores
implantados a partir dos anos 50 no Brasil, nas Siedlungs alemãs e nos novos
bairros, em todos eles está presente esse desejo de desmaterialização da
cidade. Essa idéia de distância, de separação, de solidão.
notas
1
A primeira parte deste artigo pode ser vista em: GONSALES, Célia Helena Castro.
“Cidade moderna sobre cidade tradicional: conflitos e potencialidades”,
Arquitextos, Texto Especial n. 146. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2002
<http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp146.asp>.
2
Como esclarece Fernando Diez, a legislação urbanística pode ser apresentada sob
normas restritivas e normas postulativas. As restritivas são “normas do que não se
deve fazer” relacionadas a uma situação inconveniente. Nas zonas da cidade de alta
potencialidade de construção, onde a renovação é rápida e a ocupação tende a ser
máxima, a forma é empurrada exatamente até o limite imposto pela regulamentação,
gerando uma volumetria mais ou menos homogênea. As normas postulativas surgem com a
intenção de produzir um modelo de edifício e de quarteirão que em si resolva todos
os problemas que as regulamentações restritivas controlavam pontualmente. Buscar-
se-á então uma série de regulamentações que em seu conjunto gerem um modelo de
edifício em que, por sua característica, se considera que se tenha assegurado todas
as condições desejáveis. DIEZ, Fernando E. Buenos Aires y algunas constantes en las
transformaciones urbanas. Uma reflexão sobre este tipo de intervenção pode ser
verificada no artigo de minha autoria “Cidade moderna sobre cidade tradicional:
conflitos e potencialidades” , Op. cit.
3
PATETTA, Luciano. Historia de la arquitectura. Antología critica. Madri, Celeste
Ediciones, 1997, p. 124.
4
TACITO. “O Plano Regulador de Nero”. In PATETTA, Luciano. Op. cit., p. 135.
5
ROWE, Colin. Manierismo y arquitectura moderna y otros ensayos. Barcelona, Gustavo
Gili, 1978, p. 199 e 200.
6
MUNFORD, Lewis. A cidade na história. São Paulo, Martins Fontes, 1991.
7
SAMONÀ, Giuseppe. “El Paris de Haussmann”. In PATETTA, Luciano. Op. cit. p. 384;
BENÉVOLO, Leonardo. A história da cidade. São Paulo, Perspectiva, 1983.
8
BENJAMIN, Walter. “La urbanística parisina. Haussmann o las barricadas”. In
PATETTA, Luciano. Op. cit. p. 383.
9
CHOAY, Françoise. A regra e o modelo. São Paulo, Perspectiva, 1980, p. 270.
10
MOHOLY-NAGY, Sybil. Urbanismo y sociedad. Barcelona, Blume, 1970, p. 158.
11
POETE, Marcel. “La ciudad helenística-ciudad del monarca: Alejandria”. In PATETTA,
Luciano. Op. cit. p. 113.
12
Alberti trata desse tema em seu De re aedificatoria: distingue entre ruas
principais e subordinadas. Às primeiras dava o nome de viae militares e requeria
que fossem retilíneas. Citado em MUNFORD, Lewis. Op. cit. p. 473.
13
De boulevard eram inicialmente chamadas as avenidas contínuas acompanhadas de
árvores construídas no espaço deixado pelas muralhas em Paris. A inovação
parisiense do boulevard se transformou gradualmente em um fundamental elemento da
cidade moderna em todo o mundo, bem como o termo geral para designar ruas amplas e
arborizadas em diversas línguas. RYKWERT, Joseph. Op. cit, p. 62.
14
COLQUHOUN, Alan. “Arquitetura e engenharia: Le Corbusier e o paradoxo da razão”. In
Modernidade e tradição clássica. São Paulo, Cosac & Naify, 204, p. 117.
15
LE CORBUSIER. “Plan Voisin de Paris. La rue”. In. Oeuvre complète1910 – 1929.
Zurich, Les Editions d’Architecture, Artemis, 1995, p. 112.
sobre o autor
Célia Helena Castro Gonsales é arquiteta, Doutora pela Escuela Técnica Superior de
Arquitectura de Barcelona, com a tese "Racionalidade e contingência na arquitetura
de Rino Levi". Atualmente professora da Universidade Católica de Pelotas, Rio
Grande do Sul