Você está na página 1de 6

O triunfo do modelo de Hollywood – segundo um futurista do trabalho

Empresas «descartáveis» por projecto, como a produção e realização dos filmes em


Hollywood hoje em dia. Leilão de competências e de tempo de trabalho. Gestão da
própria carreira, inclusive depois da chamada idade de 'reforma'. Atracção pela nova
pequena empresa em detrimento de um lugar ao sol nas grandes. Escolher primeiro quem
se quer ter como «colega» ou «parceiro», e não optar em função de quem paga o cheque.
Tudo isto pode parecer «distante» à maioria dos leitores portugueses. Mas é o futuro do
trabalho. O que se está a passar nos Estados Unidos serve de filme de antecipação.

Jorge Nascimento Rodrigues «online» com Charles Grantham em Sonoma


(Califórnia) em entrevista exclusiva sobre o seu livro The Future of Work

Versão adaptada da publicada no Expresso de 18/03/2000

A Terceira Vaga nos Estados Unidos provocou uma mudança profunda no emprego e no
trabalho. Mas tem-se-lhe dado menos atenção do que à mais mediática nova tecnologia ou
nova economia. Os futuristas vêm chamando a atenção para o que se está a passar debaixo
dos nosso olhos no terreno do que mais profundamente toca a vida profissional de cada um
- o emprego, a carreira e o gozo ou não de realização no trabalho.

Os resultados da investigação que estes futuristas fizeram nos últimos dez a vinte anos
podem ser surpreendentes para um olhar europeu. O modelo emergente é o que vem
sucedendo no mundo do espectáculo, com empreendimentos por projecto.

«Mas é o futuro do trabalho», diz-nos Charles Grantham, um dos especialistas norte-


americanos mais reputados, que acaba precisamente de publicar The Future of Work
(editado pela Commerce.net Press e pela McGraw-Hill, ISBN 0071348301) e que tem na
calha Communities of Commerce, que sairá, em Julho (também na McGraw-Hill, ISBN
0071361154) e que aborda esse novo modelo de negócio em torno de comunidades de
trabalho, que estão surgindo por toda a América, mesmo onde menos se esperaria.
Grantham prepara, ainda, dentro do tema, uma terceira obra que será intitulada Net Psyche,
que acaba de começar na sua casa em Sonoma, na região do vinho californiano, a norte da
Baía de São Francisco.

Charles - ou Charlie, para os amigos - criou um Instituto para estudar a nova forma de
organizar o trabalho (Institute for the Study of Distributed Work), saiu do buliço de Silicon
Valley, e com pouco mais de 50 anos, comprou um jeep antigo de colecção e refugiou-se
numa pequena cidade do «campo» com a mulher e o labrador preto, o «Zak», que o
acompanha em longos passeios pelos vinhedos. Prova bom vinho, investiga, pensa e
escreve, e nos intervalos faz consultoria junto de 'start ups' na área da Internet e é
investigador na Haas School of Business da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Apostando numa relação continuada com o leitor, Charlie criou um «site» na Web onde
procura criar uma comunidade virtual em torno desta temática, tomando o livro (em papel)
como ponto de partida. Não se esqueça de passar por lá (www.thefutureofwork.com) e dar
o seu feedback.

Factos dos e-States


 O emprego: 6 milhões de novos empregos criados entre 1990 e 2000
 O multiplicador: Por cada posto de engenheiro criado geram-se dois outros postos de
trabalho na nova economia
 O berço: as PME, particularmente as empresas nascentes ('start-ups')
 O novo escritório: local de encontro social e de reuniões de equipas
 A empresa emergente: a «descartável» por projecto (o modelo do «showbiz»)
 Novas funções para quadros: o produtor, o moderador, o líder e o agente de talentos
 Novo método emergente de venda de trabalho: o leilão das suas competências e do seu
tempo

Nos últimos 20 anos deste longo «boom» desde 1982, a que ficou associada a «Terceira
Vaga» de Toffler e mais recentemente a «Nova Economia», quantos empregos foram
gerados nos Estados Unidos?

CHARLES GRANTHAM - É difícil dar um número exacto para um período tão longo. A
minha estimativa pessoal ronda os 6 milhões de novos empregos criados só nos últimos
dez anos. Temos, de facto, o mais baixo nível de desemprego da história e, segundo os
meus cálculos, por cada novo engenheiro a trabalhar há dois outros postos de trabalho que
são criados.

Poderemos estabelecer alguma correlação entre essa criação de emprego e as famosas


«corporations», as grandes empresas do capitalismo industrial, a grande invenção
organizacional norte-americana do século XX?

C.G. - Não. Os novos empregos são, em larga medida, gerados por


pequenas e médias empresas. Mesmo as grandes «corporations» estão a «Os novos
adoptar a estratégia de criar pequenas novas empresas sobretudo na área da empregos são
Internet. A meu ver, a «velha economia» das «corporations» está a sair de gerados por
cena e uma nova emerge, onde as 'start ups' têm um papel muito dinâmico. PME. A velha
economia das
Mas que tipo de empregos estão a ser criados? Na Europa, ironizava-se grandes
sobre essa vaga americana, como os empregos de «hamburgueria»... empresas está
a sair de cena.
C.G. - Não, de forma alguma. Esta nova vaga são empregos, em larga As 'start ups'
medida, de base técnica ou de engenharia. Alguns são no chamado 'hi- têm hoje um
tech', mas outros são nos serviços qualificados às empresas - precisamos de papel muito
advogados para patentes e contratos, homens da finança para gerir dinâmico»
dinheiro...e também trabalhadores especializados de construção civil para
levantar novas fábricas com complexos requisitos para os fabricantes de «chips» - não
batatas fritas - (risos, com o trocadilho em inglês), por exemplo.

E que tipo de trabalho está a ser gerado? Um livro muito polémico, nos Estados Unidos,
escrito por Jeremy Rifkin falava há poucos anos do fim do trabalho...

C.G. - O trabalho não está a desaparecer - está a mudar. E a mudança é sobretudo para o
trabalhador que baseia a sua actividade no saber. Assistimos ao declínio do peso do
trabalhador manual, como no caso dos operários fabris típicos do capitalismo industrial.

Mas esse conceito do «trabalhador do conhecimento» não foi sobretudo uma imagem
literária criada por Drucker?

C.G. - Não, de modo algum. É uma realidade bem real. Peter Drucker teve o condão
especial de ter percebido isso há 30 anos.

E essa tendência vai persistir nos próximos 20 anos no mundo desenvolvido?


C.G. - Absolutamente. Há uma cada vez maior procura de trabalho baseado no
conhecimento, muito maior do que a oferta existente por agora. Estou crente que vai haver
uma mudança massiva do trabalho de tipo industrial, intensivo em mão-de-obra de
manufactura, para o que alguns já chamam os «países braçais» do designado Terceiro
Mundo.

Qual foi o impacto da Internet e da Web no trabalho?

C.G. - Há novos paradigmas - há uma visão mais metanacional e o que eu designei de


emergência do trabalho distribuído. O trabalho está cada vez mais distribuído no espaço e
através do tempo. As fronteiras nacionais perderam o seu tradicional papel proteccionista.
Podemos muito bem fazer o design na Europa, a parte de engenharia ou o marketing nos
Estados Unidos e manufacturar na Ásia - tudo num piscar de olhos.

Será que poderemos falar de um «espaço» de trabalho, independente do tempo e da


geografia, mais do que de um «local» de trabalho, físico, determinado, que continua a ser a
forma «mental» como vemos o emprego?

C.G. - Exactamente. É já trivial gente a trabalhar a partir de casa - como eu estou agora a
fazer consigo - ou a viajar e trabalhar ao mesmo tempo. Saiba que a própria habitação nos
Estados Unidos já está a ser construída incorporando - obrigatoriamente - o design de um
espaço de escritório e rede de ligação à Internet em todas as divisões. Os escritórios - como
tradicionalmente nos habituámos a chamar esses lugares 'mentais' onde a maioria das
pessoas hoje têm emprego - irão transformar-se em comunidades, ou seja locais onde as
pessoas se encontram uma a duas vezes por semana, para reunir equipas ou conviver, para
discutir e resolver conflitos. Esta mudança de conceito está já a provocar uma alteração
enorme na arquitectura do imobiliário comercial.

Vamos então deixar de suspirar pelas grandes empresas como o local ideal para trabalhar?

C.G. - Claro. As «corporations» foram criadas como entidades legais para proteger os
investidores. É uma forma de organização moribunda. A época da famosa organização
multidivisional terminou. Talvez isso ainda leve uns 30 anos até se dar o «O novo
funeral oficial. Mas, o novo modelo é o da 'start up' em que o capital trabalhador
accionista é partilhado pelos que embarcam no projecto. Quando crescem quer ganhar
para entidades com mais de 200 pessoas, partem-se em unidades dinheiro, mas
autónomas mais pequenas. É visível que o capital e o talento estão a fugir sentir prazer.
das célebres «corporations» para a tal nova economia. Basta olhar para a E sobretudo
dança de costas viradas entre o Dow Jones Industrial, em baixa, e o não trabalhar
Nasdaq, em alta, para se perceber a massiva transferência de riqueza que se com idiotas
está a dar aqui nos Estados Unidos! Siga atrás do dinheiro - que vai na sejam colegas
direcção certa! ou chefes.
Dilbert está
Essas alterações significaram, também, a mudança da psicologia morto»
tradicional do empregado?

C.G. - Essa é uma das áreas onde houve alterações mais profundas. As expectativas do
trabalhador mudaram imenso. O trabalhador da nova geração exige partilha do capital no
projecto, quer tecnologia e um local de trabalho adequados, ao nível do mais avançado, e
quer trabalhar em equipas e não para um patrão. A mudança-chave que verifiquei é que o
novo trabalhador está mais preocupado sobre as pessoas com quem vai trabalhar do que
com a entidade que lhe vai dar o cheque. Querem ganhar dinheiro, mas sentir prazer, e
sobretudo não trabalhar com idiotas sejam colegas ou chefes. Dilbert está morto!

Quais são as principais características dessas novas comunidades de trabalho?

C.G. - Parecem-se mais com o que eu designo por modelo do «showbiz», de Hollywood -
não da Hollywood dos grandes estúdios, mas dos actuais produtores e realizadores. Estas
comunidades emergentes baseiam-se na confiança entre os seus membros, na partilha do
capital, na identidade nos objectivos do projecto, e desintegram-se quando o projecto
acaba.

Alguns já cognominaram essas empresas temporárias de «descartáveis». O «descartável» é


o nosso futuro como organização?

C.G. - Claro (risos). Aliás, não sei se já reparou, mas o tempo de vida de
uma 'start up' antes de se transformar em algo diferente está em 30 meses «O tempo de
aqui na Califórnia. Cada 2 anos e meio, a 'start up' desaparece por causa de vida de uma
uma fusão, de uma aquisição ou simplesmente por falência. 'start up'
antes de se
Quando fala das novas características do mercado de trabalho no tal transformar
modelo do «showbiz», refere-se mais exactamente a quê? em algo
diferente está
C.G. - O trabalho passou a ser baseado em projectos e só existe enquanto o em 2 anos e
projecto existir. As pessoas depois partem para outra. O que é que isto meio aqui na
implica? Precisamos de uma espécie nova de organizadores desses Califórnia»
projectos - os produtores - que possam descobrir e juntar recursos, como
dinheiro, ideias, talentos. Por outro lado, os bons profissionais precisam de «agentes» que
os representem e os ajudem a descobrir novos projectos.

Essas mudanças significam que vão multiplicar-se empresas de oferta de trabalho que
funcionam como «pools» de talentos que vendem - ou que leiloam - o seu tempo e as suas
competências para projectos específicos e temporários?

C.G. - Veja os casos na Web de empresas como a Opus 360 (www.opus360.com) que tem
por lema colocar pessoas e projectos em conjunto, ou a Free Agent (www.freeagent.com),
também da Opus360, virada para agrupar consultores, profissionais liberais ou
empreiteiros independentes, a iNiku (www.iniku.com), a Icarian (www.icarian.com) virada
para a oferta dirigida ao que chamam de «e-serviços», ou a eWork (www.ework.com), ou a
Guru (www.guru.com).

Isso significa que a tendência para o recurso à subcontratação externa (designada no calão
de gestão por «outsourcing») se vai acentuar ainda mais?

C.G. - Sim. Se algo não é uma competência central não há qualquer razão para ser feito
dentro de casa obrigando a criar uma grande empresa - isso já não é mais eficiente. Isto
também vai obrigar a uma mudança na forma de gerir - estamos a mudar rapidamente de
um estilo virado para a organização dentro das paredes da empresa para a necessidade de
saber organizar o fluxo de informação e de bens ao longo da cadeia de valor que abrange
várias empresas e contratados.
«Teletrabalho
é uma
O perfil e imagem tradicionais do gestor já não faz grande sentido?
herança do
taylorismo»
C.G. - De facto, não faz. Eu falo de três novas funções de gestão - a do produtor, de que já
falei atrás, a do moderador que age como um director operacional que assegura que as
coisas se fazem efectivamente e que para isso tem de moderar diversos problemas e um
mosaico de gente diversa, e a do líder, o visionário da empresa, que está sempre em busca
de novas oportunidades.

A forma de organizar, também, mudou radicalmente nestes últimos 20 anos, segundo a sua
investigação...

C.G. - Houve uma evolução da coordenação, típica dos anos 80 aqui nos Estados Unidos,
para a cooperação nos anos 90, com o advento da massificação da Internet, e agora para a
colaboração. Na coordenação tratava-se de gerir actividades em série em que não havia a
necessidade de uma visão partilhada por parte dos protagonistas. Foi a época de ouro do
teletrabalho baseado na contribuição individual. Com a cooperação passou a haver alguma
partilha de propósitos e de conhecimento e algumas dependências se desenvolveram entre
equipas de projecto. Com a colaboração, para o novo século, tem de haver uma partilha de
valores e propósitos e a capacidade de trocar de papeis - gera-se um sentido de
comunidade, de que já falei.

Depreendo das suas palavras que o teletrabalho já foi chão que deu uvas?

C.G. - Pode parecer uma heresia, mas o teletrabalho é uma linha de produção baseada no
saber perfeitamente «taylorizada». Pelo menos, na forma como foi implementado nos
Estados Unidos. A ênfase foi no controlo e na medição da produtividade baseada em
unidades de produção, em contribuições individuais. Foi como que um resquício de
taylorismo.

Mas qual é a diferença entre o teletrabalho e o trabalho distribuído de que fala?

C.G. - Distribuído significa um contexto mais amplo, com equipas multidisciplinares que
não são necessariamente empregados numa dada empresa.

Outra das mudanças de paradigma, de que fala, ocorreu na ideia de empresa que o gestor
ou o empregador tradicional tinham. Aquele tipo de empresa em que toda a gente parece
uma cópia do outro, em que a «farda» e o catecismo para pensar uniformiza toda a gente,
já não dá prazer a ninguém?

C.G. - Mas alguma vez deu? A questão-chave hoje é a diversidade. Só da diversidade sai a
criatividade - a máquina da inovação. Diversidade em todos os sentidos - cultural,
educacional, étnica, política, de atitudes e estilos, e mesmo social.

Dentro dessa diversidade, como é que poderemos gerir o envelhecimento progressivo da


força de trabalho?

C.G. - Olhe começando a nível pessoal por deitarmos fora a ideia caduca de 'reforma'. Já
não tem qualquer sentido. As pessoas hoje podem trabalhar até quando quiserem. Um
segunda ou terceira carreiras depois de certa idade é uma coisa absolutamente plausível.

A nova psicologia social do trabalho.com


 Mudança radical de atitude face à segurança no emprego - deixou de se exigir contrato
sem prazo como contrapartida para o empenho pessoal
 Abertura à mudança de local de emprego - a nova geração acredita que mudanças de
emprego fazem parte da evolução na carreira
 Responsabilidade pessoal pela própria carreira - não deixar o assunto nas mãos do
empregador, não exigir deste a gestão do assunto
 Encarar o trabalho como uma possibilidade de desenvolvimento de competências e
satisfação pessoal, cada vez mais como um «hobby» - e não como a «chatice» de um
emprego para receber um ordenado
 Trabalhar com quem se gosta de trabalhar como se se tratasse de uma comunidade - e
não procurar emprego em função de uma marca, de um logotipo ou de um patrão com
imagem pública
 Deitar fora a ideia de reforma - construir a 2ª ou 3ª carreira. O seu «hobby» pode ser
uma oportunidade de nova carreira
As grandes mudanças «estruturais»
 A emergência do trabalhador cuja actividade se baseia na manipulação de saber em
diversos graus - o que exige maior nível educacional e formação contínua ao longo da vida
activa
 O surgimento do trabalhador 'liberto' do tempo (o horário tradicional deixou de fazer
sentido, o trabalho estrutura-se em função do cliente) e da geografia (as fronteiras
deixaram de ser a forma de organizar o trabalho que cada um pode prestar)
 O desenvolvimento do trabalho distribuído baseado na colaboração entre equipas
interdisciplinares que podem pertencer a várias entidades empresariais ou mesmo ser
constituídas por profissionais independentes
 A diversidade cultural, étnica, educacional, política, de estilos e mesmo classista é a
maior fonte de vantagem competitiva da empresa
 O início do envelhecimento progressivo da força de trabalho - 15% em 2005 terão mais
de 55 anos entre a população activa dos Estados Unidos

Você também pode gostar