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COMPONENTE CURRICULAR:

FILOSOFIA

APOSTILA DE FILOSOFIA

Organização:
Prof. Esp. Francisco Vasconcelos Silva Júnior
O que é Filosofia?

Capítulo 1
Pense um pouco e responda:
1. Você saberia dizer o que é também à não aceitação do ób-
Filosofia? vio. A tudo isso, chamamos de
2. O que seria ter uma Atitude atitude filosófica.
Filosófica? Engana-se aquele que pensa
não haver espaço para a filoso-
Muitos filósofos dedicaram boa fia no cotidiano. Nosso dia a dia
parte da vida tentando responder é permeado de questões filosó-
o seria a filosofia? No entanto, ficas, desde a mais simples até
uma definição fechada, específica as mais complexas. Um exem-
e precisa do termo Filosofia é im- plo disso, são os debates sobre
praticável, pois qualquer formula- a pena de morte, o levantamen-
ção poderia induzir a erros ou a to de questões sobre o desma-
equívocos. tamento e questões relaciona-
Equivoco: Inter-
pretação incorre- A palavra Filosofia é a junção de das com os direitos humanos,
ta; engano por dois termos gregos: filos ou philia tudo isso passa pelo espaço
má interpretação
– que significa filosófico.
amor fraterno, A indagação filosó-
amizade – e sofia fica geralmente
ou sophia, que parte de bases
Indagação: Ato
ou efeito de per- significa sabedo- simples, funda-
guntar, investi- ria. Assim, o senti- mentos básicos
gar, pesquisar.
do etimológico da que, por vezes,
palavra Filosofia são intocados por
seria amor à sa- parecerem óbvios
bedoria ou amor demais. Na filoso-
pelo saber. fia, o Indagador
Desse modo, que agora passa a
filósofo não é aquele que detém o ser chamado de Filósofo, deve
saber, e sim aquele que ama e manter uma postura crítica.
busca a sabedoria, que tem amiza- O indagar, a atitude crítica, a
de e desejo pelo saber. No entan- reflexão crítica, levam o ser que
to, a Filosofia não é apenas a pura os pratica a uma outra condi-
razão, ela é a procura da verdade. ção. As redescobertas feitas po-
A filosofia não é um conjunto de dem gerar o agradável espanto
conhecimentos, mas para além do novo, como também deses-
disso. Ela nos leva a uma inquieta- tabilizar o individuo em todas as
ção, uma atitude ou um posiciona- suas certezas.
mento diante da vida e do mundo.
Essa inquietude conduz a uma sé-
rie de indagações e reflexões e

¹in CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 1995


É por isso que a filosofia nem curiosidade é elemento funda-
sempre teve boa aceitação em mental para a filosofia.
alguns países ou entre algumas Na introdução da obra Mundo
pessoas mais conservadoras. Seu de Sophia, o escritor Jostein Gaar-
compromisso em estimular o pen- der, disse: " A capacidade de nos
samento crítico e dar a oportuni- surpreendermos é a única coisa
dade de que cada um tire suas de que precisamos para
próprias conclusões sobre as situ- nos tornarmos bons filó-

O Pensador - Rodin/ 1902 - Bronze e Mármore


ações de sua sofos (...). E agora tens
vida, da políti- que te decidir, Sofia: és
ca, da socieda- uma criança que ainda
de, sobre as não se habituou ao mun-
outras pessoas, do? Ou és uma filósofa
pode incomo- que pode jurar que isso
dar àqueles nunca lhe acontecerá?
que não têm ...Não quero que tu per-
interesse em tenças à categoria dos
deixar o pensamento livre e crítico apáticos e dos indiferen-
ganhar espaços em nossa socie- tes. Quero que vivas a tua vida de
dade. forma consciente."
Alguns importantes pensadores Assim podemos afirmar que a
e escritores, dentre eles Rubem atitude filosófica seria a “decisão
Alves, afirma que devemos ter es- de não aceitar como naturais, ób-
pírito de criança para que possa- vias e evidentes as coisas, as ide-
mos exercer nossa plena capaci- ais, os fatos, as situações, os va-
dade filosófica, isso porque a cri- lores, os comportamentos de nos-
ança busca saber coisas novas e sa existências cotidiana; jamais
se espanta diante do novo. O ado- aceita-los sem antes havê-los in-
lescente, público alvo do ensino vestigados e compreendido”.²
médio também é curioso e essa

A historia em quadrinhos com a personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino. Ao questionar o mundo,
Mafalda se aproxima da atitude filosófica.

As inquietações de Mafalda põem os adultos para pensar.

PERGUNTAS DO HOMEM COMUM PERGUNTAS DE UM FILÓSOFO


Que horas são? O que é o tempo?
Ele está sonhando? O que é o sonho?
As flores são bonitas O que é o belo?
Você está mentindo? O que é a verdade? O que é o erro? O
que é a mentira?

Fazer perguntas como as citadas acima diz respeito à atitude da filo-


sofia. Com estas perguntas o filosofo busca investigar conceitos, abor-
dando-os de forma crítica e reflexiva.

²in CHAUÍ, Marilena. Iniciação a Filosofia. 2010. p17.


LEITURA COMPLEMENTAR
“Nós, [homem comum] que vivemos aqui, somos os bichi-
nhos microscópicos que
vivem na base dos pêlos do coelho. Mas os filósofos ten-
tam subir da base para a ponta dos finos pêlos, a fim de po-
der olhar bem dentro dos olhos do grande mágico.³”
No livro O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder expõe uma si-
tuação figurativa para explicar o que é ser filósofo e o que o
diferencia do “homem comum”. Para tanto, ele nos trás o
exemplo de um mágico que retira de sua cartola um coelho
que simboliza o mundo. Nos pelos desse coelho existem
“bichinhos microscópicos”, alguns residem na base dos pe-
los, são os homens comuns, ou seja, pessoas que estão cos-
tumadas com o mundo em que vivem, estão na escuridão da
base dos pelos, não se perguntam sobre o mundo e estão
acomodadas no conforto da pelagem do coelho, aceitando,
assim, as coisas como são. Elas não se questionam, portan-
to, por que as coisas não são diferentes do que se apresen-
tam a elas, tendo como verdades, principalmente, o que ve-
em e o que ouvem.
O filósofo, por sua vez, sobe da base para as pontas dos
pelos do coelho em busca da iluminação do conhecimento
que lhe permite questionar o mundo em que vive, ou seja, a
filosofia existe para fazer questionamento que os “homens
comuns” não fazem.

Exercitando o que aprendeu

1. Afinal o que é filosofia?

2. Você acredita que a Filosofia pode mudar a vida das pessoas?

3. Qual o significado da palavra filosofia?

4. O que é a atitude filosófica?

5. Quais as características da atitude filosófica?

6. Porque nem sempre a filosofia é aceita entre as pessoas?

7. Dê exemplos de perguntas filosóficas

4in GAARDER, Jositein. O Mundo de Sofia. Adaptado


O Nascimento da Filosofia

Capítulo 2
A filosofia, como a entendemos Tales, Pitágoras, Heráclito e Xe-
hoje, tem seu início no século VI nófanes que, na época, concen-
a.C., na Grécia Antiga. O nascimen- travam seus esforços em tentar
to da filosofia pode ser entendido responder racionalmente às
como o surgimento de uma nova questões da realidade humana.
ordem do pensamento, comple- Numa época em que pratica-
mentar ao mito, que era a forma de mente tudo era explicado atra-
pensar dos gregos. Uma visão de vés da mitologia e da ação dos
mundo que se formou de um con- deuses, esses pensadores bus-
junto de narrativas contadas de ge- cavam, em pensamentos lógi-
ração a ge- cos e racionais, explicar qual a
ração por fundamentação e a utilidade
séculos e dos valores morais na socieda-
que trans- de da época. Também queriam
mitiam aos identificar as características do
jovens a conhecimento puro, as origens
experiência das coisas e dos fatos e outras
dos an- indagações que surgiam confor-
ciãos. Essa me o caminhar intelectual da
pa s sag em época. Numa época em
no entanto, que praticamen-
ocorreu durante um longo processo te.
histórico. Poderia ter surgido em Historica-
qualquer lugar, mas naquele mo- mente, a Filoso-
mento da história diversas coisas fia como conhe-
ocorriam para que ali fosse seu co- cimento se inici-
meço. ou com Tales de
A Grécia Antiga vivia um momen- Mileto, o primei-
to de auge de sua cultura. O comér- ro filosofo oci-
cio com outros povos trouxe conhe- dental que bus-
cimento. A produção artística era cou explicar a
muito ativa. Havia os jogos olímpi- existência por
cos. A linguagem, moeda e tecnolo- meio de um
gia (de arquitetura e militar) tam- principio único.
bém marcaram esse período.
Os primeiros pensadores a se- Tales de Mileto (624 a 546 a.C)
rem chamados de filósofos foram Considerado o primeiro Filosofo
Grego, afirmava que a origem de
todas as coisas era a água.
2.1. Condições históricas para o aos gregos uma situação financei-
surgimento da Filosofia ra mais igualitária, o prestígio soci-
A filosofia não surgiu de uma al que antes era benefício de ape-
dia para o outro, o pensamento nas algumas famílias diminuiu,
filosófico é resultado de um pro- assim como o prestígio que deti-
cesso gestado ao longo dos tem- nham. As artes ganharam patroci-
pos. nadores, estimulando assim o sur-
Vejamos agora alguns dos fato- gimento de novos artistas.
res que contribuíram para o surgi- Invenção da escrita alfabética –
mento da filosofia. O uso do alfabeto fez com que os
Invenção do calendário – Os gregos se expressassem de forma
gregos aprende- mais clara, colaborando para
ram que era que suas ideias fossem me-
possível contar lhor compreendidas e difundi-
o tempo das es- das pelo mundo afora, levan-
tações do ano, do a sabedoria as pessoas.
definindo quan- Invenção da política – Com a
do e de que for- invenção da politica surgiram
ma aconteciam novas fontes de informação, a
as mudanças do lei passou a abranger muitas
clima e do dia, outras coisas e chegou até as
notando que o pessoas, criou-se uma área
tempo passava por transforma- pública vol-
ções espontaneamente e não por tada para
intervenções divinas. discursos e
Invenção da moeda – Os gre- debates, lo-
gos aprenderam a arte de cal no qual
negociar, não mais se efe- os gregos
tuava a venda de uma mer- debatiam e
cadoria aceitando como propagavam
pagamento a troca por mer- suas ideias
cadoria semelhante, o paga- a respeito
mento tornou-se monetário, ou da política. A política estimula um discurso que
seja, a moeda substituiu o poder procura ser público, ensinado,
transmitido, comunicado e discutido.
de troca.
Surgimento da vida urbana – O
desenvolvimento da cidade trouxe
LEITURA COMPLEMENTAR
A filosofia nasceu do espanto
Certo dia um menino chamado Saber abriu os olhos e viu que a
Terra era um pequeno planeta, perdido na imensidão do caos.
O pequeno filósofo passou, então, a contemplar os pequenos
seres que Deus havia criado com tanta paixão. E admirando-se,
então, das coisas estranhas à sua volta, começou a formular as
mais variadas perguntas:
-Por que os astros se movimentam?
-O que é o ser?
-Quem é o homem?
-Qual o sentido da vida?
Ao nos concentrarmos nas perguntas formuladas pelo pequeno
sábio, vemos que não podem ser respondidas cientificamente, o
que as tornam perguntas irrespondíveis.
Portanto, o estado de admiração diante das novas e que o pe-
queno sábio não consegue compreender, chamamos aquilo de es-
panto.
O espanto, pois, é o inicio do filosofar. E o filósofo, por sua vez, é
um perito na arte de espantar-se.
A filosofia nasceu da admiração dos gregos diante daquilo que
não compreendiam.
E porquê o espanto? Porque é este sentimento de admiração,
que o Homem experimenta ao confrontar-se com as coisas e os
acontecimentos, que determina o aparecimento de interrogações.
Do espanto nasce a interrogação, característica essencial da atitu-
de filosófica. Possuidor de espírito critico, o filosofo é assaltado
pela dúvida, pois sabe que o habitual e o que pensa conhecer, po-
de não ser mais do que uma ilusão. É por isso que o que a muitos
de nós parece óbvio continua a ser problemático para o filósofo,
continua a espantá-lo e a dar origem a questões que se renovam
constantemente.

Exercitando o que aprendeu

1. Onde e quando surgiu a Filosofia?

2. O que tentavam responder os primeiros filósofos?

3. Quais fatores contribuíram para o surgimento da filosofia?

4. Quais perguntas fizeram os primeiros filósofos?

5. Quem foi o primeiro filósofo a ver a filosofia como uma forma de conhecimen-
to?

6. Qual o principio de todas as coisas segundo Tales de Mileto?

7. Como a invenção da politica influenciou o surgimento da Filosofia?


Capítulo 3
Mito e Filosofia

Cena do filme Como Treinar o seu Dragão

Antes da Filosofia, todas as origem e a forma das coisas, suas


coisas eram explicadas por meio funções e finalidade, os poderes
da crença em seres e forças so- do divino sobre a natureza e os
brenaturais que agiam sobre o homens. Ele vem em forma de
mundo, governando os aconteci- narrativa, cria-
mentos e o destino dos homens. da por um nar-
Os povos primitivos acreditavam rador que pos-
que as doen- sua credibilida-
ças, a morte, de diante da
os fenômenos sociedade, po-
naturais depen- der de lideran-
diam da vonta- ça e domínio da
de dos deuses. linguagem con-
Procuravam vincente, e que,
por isso agir de acima de tudo,
modo a não “jogue para a
lhes provocar a boca do mito” o
ira para não que gostaria de
serem por eles impor, mas
castigados. adequando a estrutura do mito de
Um mito é uma narrativa sobre uma forma que tranquilize os âni-
a origem de alguma coisa (origem mos e responda às necessidades
dos astros, dos homens, das do coletivo.
plantas, dos animais, do bem e Assim, Homero e Hesíodo são
do mal, da morte, etc). O mito considerados os educadores da
narra as origens das coisas por Grécia por excelência, pois por se-
meio de forças sobrenaturais. Ele rem tidos como portadores de
narra como seres sobrenaturais uma verdade fundamental sobre a
fizeram a realidade começar a origem do universo, das leis etc.
existir. Como já foi visto no capitulo
A palavra mito é grega e signifi- anterior somente a partir de deter-
ca contar, narrar algo para al- minadas condições que o modelo
guém que reconhece o proferidor mítico foi sendo questionado e
do discurso como autoridade so- substituído por uma forma de pen-
bre aquilo que foi dito. sar que exigia outros critérios para
O mito surge a partir da ne- a confecção de argumentos.
cessidade de explicação sobre a
3.1. Diferença entre mito e Filoso- nitiva, já que a discussão é própria
fia da filosofia. Existem sistemas filo-
O mito é um relato que oferece sóficos que pretendiam oferecer
uma explicação definitiva; o mito uma explicação definitiva da reali-
não precisa de justificativa. Ao dade.
contrário, é o mito Outro aspecto é que a filosofia
que justifica uma sempre precisa se justificar. O pró-
sociedade, uma prio ato de filo-
cultura, um costu- sofar já implica
me, como vimos a apresentação
acima. de uma justifica-
Da maneira como tiva daquilo que
é elaborado, o vai ser dito. Por
mito não é para ser um processo
ser criticado ou baseado na ex-
discutido. Da periência e/ou
mesma forma, ele no raciocínio
não precisa ser lógico, a filosofia
Mito da caixa de pandora apresentado atra- sempre está su-
vés de argumen- jeita a criticas.
tações – ele simplesmente é co- Assim Mito e Filosofia, se com-
municado à comunidade por plementam entre si, haja vista que
aqueles que se consideram os um sempre sucede o outro de for-
arautos das Musas ou dos Deu- ma cíclica no decorrer do tempo.
ses.
A filosofia é uma narrativa que
não oferece uma explicação defi-

PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE MITO E FILOSOFIA


MITO FILOSOFIA
- Fixa a narrativa no passado - Se preocupa em explicar como e
porque, no passado, no presente e
no futuro
- Narra a origem através de genea- - Explica a produção natural das coi-
logias e rivalidades ou alianças sas por elementos e causas naturais
entre forças divinas sobrenaturais e impessoais (céu, mar e terra).
e personalizadas (Urano, Ponto e
Gaia);
- Não se importa com contradi- - Não admite contradições, fabula-
ções, com o fabuloso e o incom- ção e coisas incompreensíveis; exige
preensível; a autoridade é posta explicação coerente, lógica e racio-
na confiança religiosa no narra- nal; autoridade: vem da razão
A visão mitológica dos Gregos

Capítulo 4

Os gregos como já se foi menciona- na forma física como no comporta-


do nos capítulos anteriores buscavam mento e nos sentimentos, tinham qua-
explicar a origem das coisas, através lidades humanas, mas também ti-
de historias fantasiosas e que geral- nham defeitos, sentiam ciúmes, inve-
mente trazia nessas explicações seres ja, raiva e as mais diversas emoções.
divinos e com poderes sobrenaturais. Embora dotado de sentimentos, pai-
Para os gregos a xões humanas, ao
ideia de algum ser, contrario dos ho-
dono de uma inteli- mens, porem tinham
gência superior cri- poderes sobrenatu-
ar o mundo parece rais, eram imortais e
natural porque se permaneciam eterna-
nós, com a nossa mente jovens.
inteligência, pode- De acordo com os
mos criar coisas e historiadores, para os
se não fomos nós gregos os deuses vi-
que criamos o mun- viam na montanha
do ele deve ter sido mais alta da Grécia, o
criado por um ser dotado de uma inte- Monte Olimpo, lá era a morada dos
ligência superior à nossa. Foi dessas deuses, acreditava-se que no alto do
indagações que apareceram os mitos monte eles se reuniam, comiam, bebi-
da criação. am, cantavam, dançavam e se diverti-
Os gregos tinham uma visão mito- am.
lógica para explicar a origem do mun-
do e do homem. Para eles, todas as
coisas aparentemente inexplicáveis
eram sobrenaturais e decorrentes da
ação dos DEUSES.
Isso mesmo deuses, pois o povo
grego assim como a maioria dos povos
antigos eram politeístas, mas diferen-
te dos outros povos os deuses gregos
tinham características humanas, tanto
4.1. Mitologia Grega obras artísticas ocidentais.
A mitologia grega é uma das mais Assim os gregos cultuavam os
geniais e belas concepções huma- deuses, onde cada um tinha um
na. Os gregos, com sua fantasia, atributo especifico. Os mais famo-
povoaram o céu, a terra e os mares sos deuses gregos eram: Zeus, o
com suas divindades e com seres e mais poderoso, o deus dos deuses,
acontecimentos era o senhor os céus; He-
mágicos. Ela se ra, esposa de Zeus, con-
apresenta como siderada a
uma possibilidade, protetora do
riquíssima, de expli- casamento;
car e experimentar Demeter, a
o mundo. Superan- deusa da
do o tempo e resis- agr ic u lt u ra;
tindo a racionalida- Poseidon, o
de ela é muito pre- senhor dos
sente na vida do mares; Afrodi-
homem contempo- te, Deusa do
râneo: alimentou a amor sensu-
literatura, o teatro, al; Atena, deusa da sa-
as artes visuais através dos sécu- bedoria; Ares, deus da
los. guerra; Apolo, deus da
Os gregos cultuavam uma série adivinhação, da verda-
de deuses, além de heróis ou se- de e da música e da medicina; Ar-
mideus. Relatando a vida desses têmis, Deusa da caça e protetora
deuses e heróis e se u envolvimen- da vida selvagem. Hefáistos, deus
to com os ho- do fogo e dos metais; Dionísio,
mens, os gregos deus do vinho e da embriaguez.
criaram uma Fora os deuses, os gregos acredi-
rica mitologia, tavam que nas origens de suas
isto é um con- historia viveram pessoas nascida
junto de lendas da união de um deus com um
e crenças que, mortal, os semideus, que foram
de modo simbó- responsáveis por feitos e ações
lico fornecem extraordinárias. Dentre os mais
explicações pa- famosos estão: Teseu, Hercules,
ra a realidade Prometeu e Perseu.
universal. Inte-
gra a mitologia
grega grade numero de relatos ma-
ravilhosos e de lendas que inspira-
ram e ainda inspiram diversas
Capítulo 5
O mito no mundo atual

Não podemos negar que o mito Nos desenhos animados e nos


ainda está presente em nossa quadrinhos, algumas figuras cha-
sociedade basta prestarmos mam a atenção das crianças. São
atenção nos contos os super-heróis, que es-
populares, no folclo- timulam o desejo e os
re, e na vida diária anseios que existem no
do ser humano, a nosso inconsciente.
partir dessa reflexão Mas não só os super-
percebemos que ao heróis dos filmes e qua-
proferir certas pala- drinhos que podem ser
vras míticas: casa, considerados mitos. Al-
lar, amor, pai, mãe, gumas pes-
paz, liberdade, mor- soas de car-
te, o homem as com ne e osso
valores que são mo- tornam-se
delos universais, existentes na ídolos de uma gera-
natureza inconsciente e primitiva ção e são também
de todos nós. tratadas como verda-
Em nossa sociedade, as estru- deiros mitos. Em nos-
turas míticas estão fortemente sa sociedade como
presentes em qualquer outra,
nas ima- existem valores que
gens e nos que se deseja que
comporta- todos possuam. Esses valores
mentos podem ser a bondade, a honesti-
que são dade, a coragem a inteligência. E
impostos algumas pessoas encarnam tão
às pesso- bem esse valores
as através que se tornam
da mídia. modelos de com-
Um exemplo são os personagens portamento para
das histórias em quadrinhos que todos, é como se
trazem presentes em seus dese- fossem verdadei-
nhos e em seus diálogos os he- ros heróis.
róis mitológicos ou folclóricos.
5.1. A permanência do mito reflexivos, pois assim não há ne-
Se a pergunta inicial era se ain- cessidade de criticar ou questioná-
da existe mito no mundo de hoje, los. Analisando as manifestações
podemos afirmar com toda a cer- coletivas do cotidiano do brasilei-
teza que sim, ele existe, por meio ro, percebe-se componentes míti-
das crenças, temores e desejos, cos no carnaval e no futebol, am-
mas o mito não tem tanto poder bos manifestações do imaginário
quanto tinha antigamente, pois nacional e da expansão de forças
com o pensamento crítico racional inconscientes.
o indivíduo é capaz de encontrar Portanto podemos afirmar que o
explicações mais lógicas para os mito não se reduz a simples len-
acontecimentos. das, mas faz parte da vida huma-
Os mitos de hoje na desde seus primórdios e ainda
podem ser divi- persiste no nosso cotidiano como
didos em mitos uma das experiências possíveis do
autênticos e em existir humano, expressas por
mitos fabricados meio das
pelos meios de crenças,
comunicação de dos temo-
massa e pela res e dos
mídia. desejos.
Atualmente per- No en-
sistem os mitos autênticos que tanto o mi-
são derivados das mesmas neces- to não apa-
sidades de propiciar o bem e afas- rece com
tar o mal e são exemplares, fazem mesma for-
parte da vida e podem ser vividos ça que anti-
por todos os indivíduos de uma gamente,
comunidade. Os exemplos mais porque o
comuns em nossa sociedade são: exercício da critica racional nos
Ano-novo, Baile de 15 anos, Casa- permite validá-los ou negá-los
mento, entre outros. Hoje na soci- quando nos desumanizam.
edade são criados mitos de ma-
neira que possam ser entendidos
por todos sem maiores esforços
Imaginação, Fantasia e Filosofia

Capítulo 6
De origem no latim imagina- tem como função produzir a apa-
tióne, que significa imagem, a rência e produz erros no espírito.
imaginação é a representação da Segundo Descartes, é necessário
realidade ou dos objetos e não a romper com a aparência ilusória
coisa em si. das coisas que nos surgem pelas
imagens.
Por outro lado, Kant fez da ima-
ginação transcendental a condi-
ção primeira de todos os pensa-
mentos, isto porque considerou
que a imaginação é a faculdade
das imagens e, como tal, pode
intervir na sensação onde a ima-
gem se produz e na memória on-
de se repro-
duz. Por últi-
A imaginação enquanto produ- mo, segundo
ção de representações pressupõe Bachelard, a
uma atividade do espírito. É a ca- imaginação
pacidade de criar imagens men- é a faculda-
tais e poder pensar além da pró- de de inven-
pria realidade, inovando-a ção e de re-
A imaginação permite ao ser novação.
humano conceber um mundo O homem
imaginário. É assim uma imagina- é um ser
ção produtora e que pode enri- imaginário,
quecer o nosso espírito, já que é pois ele é capaz de inventar o no-
a representação de uma realida- vo a partir de sua imaginação cri-
de ausente, mas que permite a adora.
existência da liberdade do espíri-
to.
Na corrente inspirada por Des-
cartes e Espinosa, a imaginação
6.1. A Imaginação criadora e re- ra.
produtora A imaginação criadora, é a que
A tradição filosófica sempre deu inventa ou cria algo novo nas artes,
prioridade à imaginação reproduto- nas ciências, nas técnicas e na Filo-
ra, considerada como um resíduo sofia. Aqui, combinam-se elementos
do objeto percebido afetivos, intelectuais e culturais que
que permanece retido preparam as con-
em nossa consciência. dições para que
A imagem seria um ras- algo novo seja
tro ou um vestígio dei- criado e que só
xado pela percepção. A existia, primeiro,
imaginação reprodutora como imagem
é aquela que reproduz futura ou como
imagens anteriormente possibilidade
percebidas. Apesar de aberta. A imagi-
utilizar nossas experiên- nação criadora
cias adquiridas a imagi- pede auxílio à
nação reprodutora não percepção, à me-
se situa no tempo, pois mória, às ideias existentes, à imagi-
é capaz de reproduzir imagens rela- nação reprodutora e evocadora pa-
tiva ao passado, a o presente ao ra cumprir-se como criação ou in-
futuro. venção.
Por exemplo, se neste momento Ela é pois uma maneira complexa
você fechar os olhos, poderá imagi- de se apresentar a atividade consci-
nar a sala de aula, as carteiras os ente, combinando assim, certos ele-
colegas que estão com você ou se- mentos que são armazenados pela
ja imagem seria a coisa atual per- imaginação reprodutora, com os
cebida quando ausente. Seria uma quais realiza sínteses imaginativas
percepção enfraquecida, que, asso- inteiramente nova.
ciada a outras, formaria as ideias Quando a criança representa ob-
no pensa- jetos pelo
mento. pensa-
Quando a mento,
imaginação ela cria
reprodut ora um mun-
chega a fazer do de fan-
parte de nos- tasia. O
sas relações homem é
cotidianas, um ser eu
nos faz acre- vive sem-
ditar na pre- pre imagi-
sença do ob- nando,
jeto represen- por isso,
tado, como vive sem-
acontece nas pre crian-
alucinações e nos sonhos. do fantasias.
Mas o que seria a imaginação
criadora?
O homem é o único que tem a
capacidade de reassentar objetos
pelo pensamento, por isso só ele é
capaz de usar a imaginação criado-
O homem é a medida de todas as coisas

Capítulo 7
Mas o que é o homem? O que o cultura fazendo com que a lingua-
diferencia dos outros seres? Esta gem se torne o seu único meio de
problemática surge basicamente a chegar a qualquer objetivo por ele
partir de três fatores: o homem é desejado, aliás, é até justo afirmar
capaz de observar os fenômenos que o homem é a própria
que o envolvem; sente-se ameaça- linguagem. Pois, uma vez
do de extinção por alguns destes que ele planeja qualquer
fenômenos; questiona-se sobre o objetivo a alcançar ele
aparente absurdo do própria exis- usa da própria linguagem
tência. para desenvolver esse
Então, o que é o homem? O ho- plano, que passa pela
mem é o único ser capaz de fazer inteligência, a atividade
perguntas. Todos os demais seres de desenvolver esse pla-
não se colocam este problema. Es- no, e que vai dar razão
tão submetidos às leis e fenôme- ao desenvolvimento de
nos e não tem a capacidade de se seu próprio plano.
perguntar por sua essência ou pe- Por meio do pensa-
las razões de sua existência. mento o homem é capaz
O homem pergunta pelo seu pró- de voar para lugares dis-
prio ser. Quer compreender e ter tantes ou planejar um futuro me-
consciência de si. Mas identifica lhor, a partir dos erros e acertos do
também sua incapacidade de se presente.
compreender de modo total. Seu Assim, diferentemente dos ou-
conhecimento sobre si é limitado e tros animais os homens não são
parcial. No entanto está inquieto, apenas seres biológicos produzidos
deve expor para si mesmo as ra- pela natureza. Os homens são tam-
zões de seu existir. bém seres culturais que modificam
o estado de natureza, isto é, o mo-
7.1 O homem é um ser que pen- do de ser, a condição natural das
sa! coisas, definida pela natureza.
O homem é o único ser que pen-
sa, deseja e se comunica. Sendo
pois um ser racional ele é capaz de
construir o mundo e fazer história
uma vez que o é dono da razão e
da inteligência, ele se apossa da
Linguagem e comunicação

Capítulo 8
Alguns estudiosos entendem volvimento da linguagem e da
que o fator determinante da tran- comunicação.
sição natureza-cultura é a lingua- De fato, a linguagem constitui
gem. Trata-se de uma corrente uma das dimensões mais impor-
que entende o ser humano funda- tantes da cultura. É pela lingua-
ment alment e gem, por exemplo, que os pais
como um ser comunicam aos filhos não ape-
linguístico. nas suas experiências pessoais,
Para entender- mas algo mais amplo: as experi-
mos melhor ências acumula-
observemos o das e comparti-
exemplo do lhadas pela socie-
antropólogo dade. De modo
Claude Lévi inverso, é tam-
Strauss: bém por meio da
Suponhamos que num planeta linguagem que o
desconhecido encontremos seres conhecimento
vivos que fabricam utensílios. Is- individual de ca-
so não nos dará a certeza de que da pessoa pode
eles se incluem na ordem huma- incorporar-se ao
na. Imaginemos, agora, esbarrar- patrimônio social.
mos com seres vivos que possu- A linguagem
am uma linguagem que, por mais animal em comparação com a
diferente que seja da nossa, pos- linguagem humana é bastante
sa ser traduzida para nossa lin- limitada, porque está associada
guagem - seres, portanto, com os unicamente aos instintos de so-
quais poderíamos nos comunicar. brevivência. Se fossemos tradu-
Estaríamos, então, na ordem da zir o significado dessas expres-
cultura e não mais da natureza1. sões linguísticas provavelmente
Assim, segundo esse antropó- elas equivaleriam apenas a ex-
logo, o que teria distanciado defi- pressões do tipo: “vamos”,
nitivamente o homem da ordem “foge”, “cuidado!” ou algo seme-
comum dos animais - animal que lhante. A linguagem humana é
ele também é e nunca deixará de muito mais complexa porque há
ser - e permitido a sua entrada no algo de especifico nela, que é a
universo da cultura seria o desen- utilização de elementos abstra-
tos.
1LÉVI-STRAUSS, Claude. Culture et langage. Apud CUVILLIER, Arnoud.
Sociologia da cultura, p. 2.)
Observe atentamente a tirinha abaixo:

Em sua opinião houve uma comunicação?


Homem, natureza e cultura

Capítulo 9

Quando falamos em “natureza”, para serem alteradas exigem muita


atualmente, pensamos logo na reali- inventividade ou técnica.
dade exterior, no meio ambiente em O homem é um ser que se distin-
que nascemos e vivemos, e que mar- gue dos demais por transformar a na-
camos tão fortemente com nossa pre- tureza, criando para si uma "segunda
sença, nossas técnicas, esse mundo natureza", a cultura.
natural no qual construímos nossas No passado remoto da humanida-
cidades, que cortamos com nossas de, a natureza era sentida como uma
estradas, e cuja potência superior à
existência acredi- qual os homens
tamos estar amea- estavam submeti-
çada, por causa dos. Os fenômenos
de nossa atitude naturais eram com-
predatória com preendidos como
relação a ele. "fenômenos sagra-
No entanto, a dos", que revela-
natureza pode ser vam uma intenção,
compreendida de uma razão. Ora
maneira mais am- eram vistos como
pla, ou seja, abar- recompensa ou pu-
cando mais do nição divina pelos
que esse “lugar” atos humanos, ora
o u e s s a eram percebidos
“exterioridade” como a própria ma-
que recebemos de nifestação dos
presente quando deuses, que con-
nascemos. É muito importante perce- versavam diretamente com os ho-
bermos que, na verdade, os termos mens. Era uma natureza encantada.
natureza e natural referem-se àquilo 8.1 A Cultura
que nos é dado (ou imposto), não só Os homens não são apenas seres
externa, mas também internamente, biológicos produzidos pela natureza.
como determinações que nos definem Os homens são também seres cultu-
e que não podemos alterar ou que,
rais que modificam o estado de natu- O mundo que resulta do pensar e do
reza, isto é, o modo de ser, a condição agir humano não pode ser chamado de
natural das coisas, definida pela natu- natural, pois se encontra modificado por
reza. nós. Portanto as diferenças entre ser hu-
mano e animal não são apenas de
grau, porque, enquanto o animal per-
manece mergulhado na natureza,
nós somos capazes de transformá-
las em cultura.
Podemos definir cultura como um
amplo conjunto de conceitos, símbo-
los, valores e atitudes que modelam
uma sociedade. Nesse sentido, todas
as sociedades humanas, da pré-
história aos dias atuais, possuem
cultura. E cada cultura tem seus pró-
prios valores e sua própria identida-
de. De uma maneira mais filosófica
podemos afirmar que a cultura é a
Na Grécia antiga o termo cultura reposta oferecida pelos grupos humanos
adquiriu um significado todas especial ao desafio da existência.
ligada à formação individual do cida- Portanto, dada a infinita possibilidade
dão. Correspondia a chamada Paideia, humana de simbolizar, as culturas são
processo pelo qual o homem realizava múltiplas. Variam as formas de pensar,
o que os gregos consideravam a sua de agir, de valorar; são diferentes as ex-
verdadeira natureza, isto é desenvol- pressões artísticas e os modos de inte-
ver a o conhecimento de si e do mun- pretação do mundo, tais como com o mi-
do e a consciência da vida em socie- to, o senso comum, a filosofia ou a ciên-
dade. cia. Vale lembrar que a ação cultural é
coletiva, por ser exercida
como tarefa social.
A cultura é portanto uma
processo que caracteriza o
ser humano como ser de
mutação, de projeto que
se faz à medida que trans-
cende, que ultrapassa a
própria experiência.
Cultura e cotidiano1

Capítulo 9

Pensemos agora sobre a vida cotidi- que uma pessoa participa influi de for-
ana de cada pessoa e sua relação ma específica em sua maneira de pen-
com o universo cultural de que ela sar, sentir e agir, ou seja, em sua for-
participa. ma de ser no dia-a-dia.
Sabemos que a cultura abrange um Então, se por um lado a cultura é
conjunto de conceitos, valores e atitu- uma criação coletiva dos grupos hu-
des que modelam uma comunidade. manos através do tempo, por outro
Assim, podemos dizer que toda pes- lado cada pessoa também é, em gran-
soa vive sob a influencia de diversas de medida, uma criação diária e cons-
culturas, e não tante da cultura em
só de uma, pois que vivemos, desde
participa de dis- o instante do nosso
tintos grupos so- nascimento. No en-
ciais, e cada um tanto, quase não
deles lhe impri- percebemos isso,
me a sua marca pois a cultura à qual
cultural. pertencemos é prati-
Vejamos um camente invisível
exemplo: um bra- para nós em nosso
sileiro que tem cotidiano.
uma família fre-
quenta uma igreja e trabalha numa 9.1 Cultura em nossa vida diária
empresa, recebe influência de pelo Em geral, vivemos dentro de nossa
menos quatro fontes culturais - a cul- cultura num fluir contínuo, como se o
tura popular brasileira; a nosso modo de ser fosse igual para
cultura familiar, basica- todas as pessoas e as diversas coisas
mente transmitida por do mundo fossem sempre assim como
seus pais e avós; a cultura as experimentamos. Ilustremos me-
de seu grupo religioso; e a lhor essa ideia: Somos como um peixe
cultura organizacional de- que nasceu dentro de um aquário e
senvolvida em seu local de toma esse ambiente como sendo o
trabalho. mundo. Esse estado habitual de nos-
Cada universo cultural de

1Adaptado de: COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. 16ª Edição. São Paulo: Saraiva, 2006.
sas vidas se vê confrontado, por ça, na escola em que estuda, na igreja
exemplo, quando viajamos para fora que frequenta, na empresa em que
do nosso país. trabalha.
Nesse instante, ocorre um estra- Essa assimilação cultural ocorre de
nhamento em relação a esses elemen- forma tão "transparente" que quem
tos culturais que estão fora de nós, assimila ou aprende não percebe que
quebrando a invisibilidade da nossa está aprendendo algo com alguém ou
própria cultura. Mas depois que volta- uma situação. E aqueles que lhe
mos ao nosso cotidia- transmitem esses ensina-
no, nossa cultura se mentos nem sempre se dão
toma "invisível' de conta de que lhe estão
novo para nós. Por- transmitindo a sua maneira
tanto, de modo geral, de ser e viver, o seu modelo
só temos consciência de mundo, o seu "filtro" da
da nossa própria cul- realidade.
tura quando somos Assim, de modo geral, vive-
confrontados com mos nossa própria cultura
outra. sem vê-la e, muitas vezes,
Na cultura em ge- sem questioná-la.
ral ocorre algo seme- O problema dessa invisibili-
lhante: a pessoa per- dade cultural é que muitas
cebe e aprende do pessoas não compartilham
grupo cultural do qual participa, por a mesma maneira de ver e viver as
imitação e de forma quase inconscien- coisas e por conta disso podem acre-
te, boa parte de como deve pensar e ditar em uma verdade absoluta, fazen-
agir nas mínimas coisas - o que é boni- do com que desprezem e menospre-
to ou feio, o que é adequado ou inade- zem outros grupos culturais.
quado, o que é possível ou impossível, Acreditamos que a filosofia pode
como é a vida, como são as pessoas, ser um bom apoio nesse processo de
que coisas são importantes, etc. Isso transformação cultural, pois filosofar é
ocorre primeiro dentro de sua família promover uma reflexão profunda so-
e, depois, no contato com a vizinhan- bre a natureza e o ser humano, anali-
sando o que fazemos, senti-
mos, pensamos e manifes-
tamos.
Aprender a filosofar contri-
bui para a compreensão do
mundo e nos impulsiona a
desempenhar um papel
mais consciente e ativo den-
tro dele.
Cultura e valores sociais

Capítulo 10

ser humano pode viver numa socieda-


Toda sociedade humana é determi-
de de forma plena sem que se siga as
nada por certos valores
normas e as regras criadas
culturais. Por isso em to-
pela sociedade.
das as sociedades exis-
10.2 Somos todos diferen-
tem regras. Essas regras
tes?
expressam certos valores
Apesar das diferenças, étni-
que são de fundamental
cas, religiosas e de riqueza,
importância para o nosso
podemos afirmar que somos
convívio em sociedade.
todos iguais, pois pertence-
Por exemplo, a
mos à raça humana. Porem
regra não roubar
ao andar pelas ruas da nos-
expressa o valor
sa cidade percebemos que
que devemos
as pessoas não são tão
dar ao objeto do
outro: a regra
não matar expressa o valor
iguais as-
que devemos dar a vida hu-
sim, e que
mana. .Percebemos então
essa dife-
que as regras sociais estão
rença que é
ligadas diretamente a valores
notada são
culturais.
basicamen-
10.1 Onde aprendemos os valores?
te as dife-
Não podemos nos esquecer que as
renças físi-
regras e valores são transmitidos aos
cas. Claro que na sociedade existem
adolescentes pelas instituições soci-
outras diferenças, mas a que a marca
ais. E que eles não só aprendem es-
profundamente é a diferença de po-
ses valores como também, podem cri-
der.
ticá-los, rejeitá-los ou substituí-los por
outros.
Em casa, nas escola, na igreja e em
todos os grupos que podemos partici-
par é consenso a ideia de que não de-
vemos matar ou roubar.
Os valores estão presentes na nos-
sa vida diária. Na verdade, nenhum
Observe atentamente o cartum criado pelo cartunista argentino Quino, autor da
Mafalda, que desiludido com o rumo deste século no que diz respeito a valores e
educação, deixou impresso o seu sentimento.

Contato Humano
Pernas

Deus
O próximo a quem amar

Cérebro Ideais, Moral e Honestidade

É importante que desde pequeno aprenda


como é tudo.
Filosofia e pensamento

Capítulo 11

Na Antiguidade, dizia-se que “O pen-


bons e maus pensamentos.
samento é o passeio da alma”, pois
Pensar é, portanto, suspender o jul-
este era considerado uma atividade
gamento até se formar uma ideia ou
na qual saímos de nós mesmos sem
opinião, comparar os pontos de vista,
sairmos de nosso interior. Em nosso
avaliar, julgando seu valor e se essa
cotidiano, usamos as palavras pensar
ideia é verdadeira ou falsa, justa ou
e pensamento em sentidos variados,
injusta, examiná-las, ponderando os
podendo se constituir em uma ativida-
pontos de vista para escolher um de-
de solitária, invisí-
les e equilibrar, encontrando um meio-
vel para nós e que
termo entre extremos ou opiniões
precisa ser proferi-
opostas.
da para ser com-
Podemos chegar à conclusão de
partilhada, ou tam-
que o pensamento é uma atividade
bém se traduzir
pela qual a consciência ou a inteligên-
em sinais corpo-
cia coloca algo diante de si para aten-
rais e visíveis.
tamente considerar, avaliar, pesar,
Há várias manei-
equilibrar, reunir, compreender, esco-
ras de se interpre-
lher, entender e ler por dentro.
tar o pensar, que
O pensamento, portanto, exprime
pode ser visto co-
nossa existência como seres racionais
mo preocupação,
e capazes de conhecimento abstrato e
cisma ou dúvida;
intelectual, e manifesta sua própria
pode ser sinônimo
capacidade para dar a si mesmo leis,
de deliberação e
normas, regras e princípios para al-
de decisão, como
algo que resulta
numa ação; pode se referir a algo que
se pode ou não querer, uma forma de
atenção e concentração; pode repre-
sentar uma determinada ideia que,
definindo algum assunto, foi publica-
mente anunciada; ou pode ainda, con-
forme mencionado por Descartes na
frase “Penso, logo existo”, indicar a
própria essência da natureza humana.
Podemos inclusive supor que há
cançar a verdade de alguma coisa. descobrisse” como ser racional.
Quando pensamos, pomos em movi- 11.2 Pensamento e Filosofia
mento o que nos vem da percepção, O homem filosofa isto é, pensa so-
da imaginação, da memória, compre- bre o pensar. Ele tem consciência do
endemos o sentido das palavras, en- caráter, do valor, das possibilidades e
dos limites de seus conhecimentos. A
filosofia consiste num pensar que se
volta sobre si mesmo, sendo, portan-
to, por meio dela que o homem se re-
conhece como homem.
Quando dizemos que a filosofia é
um pensar sobre o pensar, que ela é
conhecimento do conhecimento, esta-
mos falando de uma qualidade especi-
fica da filosofia. A filosofia é uma for-
cadeamos e articulamos significações, ma de conhecimento que tem um con-
sendo algumas vin- teúdo, um método e
das de nossa expe- objetivos distintos das
riência sensível, ciências.
outras de nosso Nesse sentido afirma-
raciocínio e outras mos que a filosofia é
formadas pelas um conhecimento do
relações entre idei- conhecimento, um pen-
as anteriores. sar sobre o pensar.
11.1 Pensamen-
to e Linguagem1
Sem as palavras não teríamos como
expressar nossos pensamentos, sem
a linguagem não seriamos racionais.
O filosofo grego Platão dizia que o
pensamento é um diálogo silencioso
da alma consigo mesma. De acordo
com o entendimento de Platão as pa-
lavras seria apenas instrumentos do
pensar. Elas seriam uteis apenas para
comunicação. Só no momento de di-
zer oque se pensa é que utilizaríamos
a linguagem.
Os filósofos argumentam que a lin-
guagem é parte essencial do pensa-
mento, ou seja, o pensamento é, des-
de o seu nascimento, um ato linguísti-
co oque quer dizer que é com a lingua-
gem que pensamos sem a linguagem
não haveria pensamento.
Por meio da linguagem podemos
entender melhor o que somos capazes
e porque somos tão diferentes dos
animais. A invenção da linguagem foi
determinante para que o homem “se

1adaptado do livro Nonato Nogueira


O conhecimento de si mesmo

Capítulo 12

Por meio de perguntas Sócrates Mas viver bem para Sócrates não era
questionava as pessoas em praça pú- viver dos prazeres e da ociosidade,
blica e ali discutia os mais diversos mas viver da
assuntos: O que é o bem? O que é a c on t e m pl aç ã o
justiça? O que é a virtude? Toda sua do conhecimen-
filosofia estava a serviço do conheci- to e do cuidado
mento do homem e de sua vida moral. de si. Por toda
Seu espiritualismo afirmava-se no parte Sócrates
“conheça-te a ti mesmo”. Essa mensa- ia persuadindo a
gem estava escrita no tem- todos, jovens e
plo de Apolo. O conheci- velhos, a não se
mento de si mesmo impli- preocuparem
cava o conhecimento de exclusivamente,
nossas ações, de nossos e nem tão ar-
desejos e de nossa vida dentemente,
moral. Para ele, a sabedo- com o corpo, a
ria consistia em vencer a si beleza e a rique-
mesmo e a ignorância em za.
ser vencido por si mesmo. Dizia que devemos nos preocupar
Sua indagação principal mais com a alma para que ela seja
era sobre “a justa vida” e o quanto possível melhor. Ele identifica-
“viver bem”. Uma vez lhe va a virtude com o conhecimento. Afir-
perguntaram qual lhe pare- ma que ninguém faz o mal porque
cia a melhor tarefa para o homem. Ele quer, mas por ignorância. Ninguém
sem rodeios respondeu: viver bem. erra voluntariamente. Somente o igno-
rante não é virtuoso. Todo homem Sócrates dizia ter recebido a missão
que conhece o bem é virtuoso. Ser de exortar os atenienses, fossem eles
virtuoso para Sócrates é conhecer as velhos ou jovens, a deixarem de cui-
causas e o fim das ações permitindo dar das coisas, passando a cuidar de
uma vida moral e virtuosa em dire- si mesmos. Tal atitude o fez dedicar-
ção a ideia de se inteiramente à filosofia e à prática
bem. Por isso, ele dialógica (uma forma especial de diá-
defendia a ideia logo, denominada maiêutica) por
de que a melhor meio da qual ele fazia com que seu
forma de se viver interlocutor percebesse as inconsis-
era cultivando o tências de seu discurso e se autocorri-
próprio desenvol- gisse.
vimento ao invés A atitude de Sócrates questionava
de buscar os pra- os valores da sociedade ateniense,
zeres e os bens razão pela qual seus inimigos o leva-
materiais. ram ao tribunal, onde foi julgado e
É necessário se condenado à morte. Sua morte, po-
conhecer melhor para ser feliz. rém, não impediu que a questão do
“Conheça-te a ti mesmo”, essa frase cuidado de si se tornasse um tema
emblemática é o fundamento de toda central na filosofia durante mais de
felicidade aqui na terra. Sócrates mil anos - e chegasse a influenciar
aconselhava seus discípulos a se au- alguns filósofos modernos e contem-
toconhecerem, pois somente assim porâneos.
as pessoas sairiam da caverna, das A questão central do cuidado de si é
trevas de seus espíritos para alcan- que jamais se tem acesso à verdade
çarem a luz, a verdade e a felicidade. sem uma experiência de purificação,
Quando nos conhecemos dificilmente de meditação, de exame de consciên-
agimos por impulso, dificilmente so- cia - enfim, através de determinados
mos domina- exercícios espiritu-
dos por nos- ais capazes de
sas paixões, transfigurar nosso
mais resolvi- próprio ser.
dos e deter-
minados so- Dito de outro mo-
mos em nos- do, o estado de
sos objeti- iluminação, de
vos. Conhe- descoberta da ver-
cer a si mes- dade, não é pro-
mo significa- duto do estudo,
va que deve- mas de uma práti-
mos nos ocu- ca acompanhada
par menos com as coisas desse mun- de reflexão constante sobre minhas
do, como riquezas, fama e poder, e ações, atitudes - e de como posso mo-
nos preocuparmos mais com o culti- dificá-las para me tornar uma pessoa
vo de si, cultivando o conhecimento melhor. É como se a vida fosse uma
para contemplar o bem, o belo e a obra de arte em que nós vamos nos
verdade. moldando, nos aperfeiçoando no de-
12.1 Como ter acesso a verdade correr da existência.
Para se ter acesso à verdade, con-
tudo, não é um ato puramente inte-
lectual. Ela exige, por vezes, determi-
nadas renúncias e purificações, das
quais Sócrates é um exemplo.
Percepção e Realidade

Capítulo 13

Em Filosofia, Realidade é o estado nada na natureza que não tivesse


das coisas como elas realmente exis- existido antes no mundo das ideias”¹.
tem, ao invés de como eles podem Estes dois grandes filósofos gre-
aparecer ou pode ser pensado para gos, e também amigos, travaram uma
ser. Em uma definição mais ampla, a batalha de pensamentos para desven-
realidade inclui tudo o que é e tem dar justamente a origem dos mesmos.
sido, ou não é observável ou compre- Enquanto um propunha a razão como
ensível. artefato para se alcançar a realidade,
A percepção é o processo de acu- o outro denominava os sentidos como
mulação de informações sensoriais do meios para se experimentá-la.
ambiente. Platão (427-347 a.C), discípulo de
Nossa percepção não identifica o Sócrates, elegeu a “ideia” como a ori-
mundo exterior como ele é na realida- gem de todos os conceitos que temos
de, e sim como as em mente. Essa “ideia”, entretanto,
transformações, não vem com um sentido de “eureka,
efetuadas pelos tive uma ideia”, e sim como a respon-
nossos órgãos dos sável por inserir em nós, enquanto
sentidos nos permi- nossa mente ainda habita um outro
tem reconhecê-lo. mundo, o reconhecimento das formas
Assim é que trans- que vemos aqui onde vivemos atual-
formamos fótons mente, chamado por Platão de
em imagens, vibra- “mundo sensível”.
ções em sons e ruí- Por outro lado, Aristóteles (384-322
dos e reações químicas em cheiros e a.C.), discípulo do próprio Platão, dis-
gostos específicos. Na verdade, o uni- cordou do “inatismo” das ideias pro-
verso é incolor, inodoro, insípido e si- postas por seu mestre. Para ele, tudo
lencioso, excluindo-se a possibilidade que existe é o que conseguimos cap-
que temos de percebê-lo de outra for- tar por nossos sentidos, e através da
ma. apropriação das imagens captadas
13.1 Platão e Aristóteles: O dilema podemos denominar e formar ideias
da Razão vs. os Sentidos do que vemos. Assim, para Aristóteles,
“Aristóteles nos chama a atenção a formação de nossos pensamentos
para o fato de que não existe nada na se dá através do Empirismo, e não de
consciência que já não tenha sido ex- uma Reminiscência, como propôs Pla-
perimentado antes pelos sentidos. tão ao defender o Inatismo.
Platão poderia ter dito que não existe

¹Jostein Gaarder, em O mundo de Sofia.