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SALVOS PELO CEO ©Copyright 2020 — C.J.

Yriel
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Está é uma obra de ficção qualquer semelhança, com nome,
pessoas, locais ou fatos será mera coincidência.

Revisão: Independente
Proibido para menores de 18 anos
Eu tinha um propósito: ser o tutor da filha do meu amigo.
Ela destruiu todo esse propósito quando fez com que eu me apaixonasse
por ela.

∞∞∞
Eu possuía um império, mas ter tudo, dinheiro, fama, não me tirava da
solidão. O único amigo que tinha, era meu sócio que falecera há dois meses
deixando um pedido que eu não podia recusar: cuidar de sua filha e seu neto
que estavam sob os cuidados de uma tia distante que ele não confiava.
Sabia que não podia recusar o seu pedido, no entanto não esperava
encontrar uma garota linda, extremamente meiga e apaixonante. O seu filho
era um encanto, que eu queria a todo custo evitar, mas não consegui.
No fim me vi rendido pela garota, mas no fundo eu sabia que era errado
viver o que eu tanto desejava, porém como poderia evitar quando ela se
mostrou tão entregue e pronta para me seduzir?
Queria agradecer a todas as leitoras que me acompanham. Que vibram e
que amam minhas histórias. Queria dar as boas-vindas, aos novos leitores e
dizer que fico muito feliz por estarem se embarcando nesse romance. Salvos
Pelo CEO é um livro fora da série Amarílis, mas que senti a necessidade de
contar sua história antes de tudo que estar por vir nos próximos romances da
série.
Infelizmente há poucos dias descobri que meu livro CEO Abandonado,
foi plagiado, e isso me desestabilizou, no entanto agradeço por quem sempre
me acompanha e me apoia.
Espero que amem mais esse romance. Beijos!
Sumário

Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Epílogo
Outros Romances
Prólogo

​ empre fui um homem frio, que não se comunicava muito com as pessoas
S
ao meu redor, um verdadeiro antissocial. Todos me conheciam por essas
características. Possuía um império da tecnologia, mas sempre o mais
carismático fora meu sócio Matheus.
​Acho que era mais por ele que havíamos ficado tão famosos com o
decorrer dos anos. Nunca pensei que dois órfãos poderiam montar uma
empresa de tecnologia de sucesso. Também não imaginava que poderia ter
tanto dinheiro como tinha agora, mas que não poderia usá-lo para salvar a
única pessoa que eu me importava em toda a vida.
​Matheus havia descoberto há alguns anos um câncer que já estava em
estágio quatro, e mesmo com todo o dinheiro do mundo, ele não havia
conseguido se curar. Eu perderia meu amigo e não sabia o que fazer para
seguir adiante depois disso.
​Olhando para ele agora, totalmente debilitado, em uma cama de hospital.
Era perceptível como a vida era frágil. Como estávamos contornando uma
bomba relógio que a qualquer momento explodiria em nossas mãos.
​— Posso te fazer um pedido? — Matheus questionou, quase não
conseguindo completar a frase, pelo quanto estava mal.
​— Você sabe que sim — respondi, saindo dos meus devaneios.
​Eu costumava ser sarcástico com aquelas coisas mais dramáticas, no
entanto Matheus era como um irmão para mim, então eu não estava sabendo
lidar com a perda prematura. Não que fôssemos jovens demais, mas ainda
éramos novos. Tínhamos a mesma idade, então não sabia como um homem
de trinta e oito anos poderia perder sua vida tão jovem.
​— Descobri há pouco tempo uma coisa que não quis compartilhar com
você.
​Olhei para meu amigo, sem entender o que ele estava dizendo. Nós
nunca, ou melhor, quase nunca escondíamos algo um do outro.
​— Como assim Matheus?
​Ele tossiu por um momento, mas logo conseguiu voltar a falar:
​— Eduardo, você se lembra de Camile?
​— Claro!
​Como eu poderia me esquecer de Camile? Era uma mulher linda que fez
faculdade com a gente, e foi o grande amor da vida de Matheus. Uma pena
que em um dia ela sumiu, e nós nunca mais ficamos sabendo do seu
paradeiro. Isso foi a ruína do meu amigo, que nunca se envolveu com mais
com ninguém, fora seus sexos sem compromissos.
​Ele se tornou frio em relação a envolvimentos amorosos e nunca mais
quis saber da palavra amor. Não que eu o julgasse, já que não acreditava
nessa merda de amor. Se isso realmente existisse, os pais não abandonavam
crianças em orfanatos para um futuro incerto.
​Ou casais não cometiam traição, eram tantos exemplos que ficaria
enumerando por décadas.
​— Ela teve uma filha minha e acabou morrendo no parto.
​— O quê? — Novamente saí dos meus devaneios e encarei meu amigo,
tendo certeza que ele estava ficando maluco pela quantidade de remédios que
aplicavam em seu corpo.
​— Isso mesmo, eu tive uma filha. Que não pude conhecer pessoalmente,
pois quando descobri já estava nessa luta incansável contra o câncer. Então,
queria lhe pedir algo, posso?
​Franzi meu cenho sem entender muito bem o que ele queria, mas para ao
menos lhe dar uma esperança naqueles seus últimos dias de vida. Sim,
Matheus tinha dias de vida, segundo o médico que cuidava do seu caso,
respondi:
​— Você sabe que sempre pode contar comigo.
​— Vou colocar no meu testamento uma missão para você. Quero que
encontre essa garota, e cuide dela, a proteja de tudo e fale que amei muito sua
mãe.
​— Matheus, como você pode ter certeza que teve uma filha?
​— Só faça o que te pedi.
​Lógico que eu pesquisaria sobre aquele assunto, e até contrataria um
detetive para saber sobre aquela história. Mas para deixar meu amigo em paz,
só pude responder.
​— Tudo bem, eu cuidarei de sua filha.
​Tinha quase certeza que aquilo era somente uma alucinação de Matheus,
porém eu faria o que fosse possível para tranquilizá-lo em seus últimos
suspiros.
​Capítulo 1

​Dois meses depois

Acho que todos em algum momento da sua vida possuem vários


sonhos. Na maioria das vezes são sonhos como cursar uma faculdade, ter um
carro zero, o emprego que sempre almejara. Eu já até tive isso, mas agora a
única coisa que desejava era ter liberdade, para poder viver minha vida da
forma que eu sempre quis, para ter paz e cuidar daquela belezinha que estava
chorando, parecendo que eu não havia lhe dado sua mamadeira há pouco
mais de meia hora.
​— O que foi, Pietro? — questionei ao meu pequeno.
​ le tinha somente um ano e seis meses, mas o meu amor por aquele
E
garotinho duraria por uma eternidade. Ultrapassava todas as barreiras
existentes. Pietro foi uma bandeira de salvação em minha vida, tenho certeza
que se não tivesse descoberto que estava grávida eu já teria desistido de tudo
há muito tempo.
​Havia engravidado muito nova, mas aquela gravidez me salvou. O pai era
um ex-funcionário da casa que eu morava, e ele foi como a maioria dos filhos
da puta que a gente encontrava por aí. Quando descobriu que seria pai, pediu
demissão e foi embora. Nunca mais tive contato com aquela peste chamada
Daniel.
​Fui abandonada mais uma vez por alguém que deveria me apoiar, e tive
que continuar morando com Edna, a tia que eu considerava pior que um
monstro. A mulher que havia herdado a herança dos meus avós maternos que
morreram há alguns anos, e me manteve com os piores tratamentos.
​Às vezes eu me perguntava o que a vida estava querendo de mim? Já que
ninguém merecia passar pelo que eu estava passando. Perdi minha mãe
quando deu à luz a mim, meus avós sempre falavam que meu pai nunca quis
saber da minha existência. Ao menos eu não tive o mesmo fim da minha mãe,
e não deixei meu filho com Edna, seria o maior pecado que eu já teria
cometido na vida.
​Peguei Pietro em meus braços – que já havia se acalmado – ele acabou
sorrindo em minha direção –, tive que retribuir aquele sorriso com poucos
dentes, mas que era extremamente fofo.
— Mamã... — Amava quando ele falava aquilo.
Eu agradecia muito também, por meu quarto ser perto do das
funcionárias da casa, pois se fosse no andar de cima e Edna escutasse Pietro
chorando, ela seria capaz de fazer as piores maldades com meu filho.
​Claro, que todo mundo falava que eu tinha alguma escolha, mas qual
seria, quando estava sozinha no mundo? Já que uma mulher que não tinha
experiência com nada, que mal terminou o ensino médio, o que poderia fazer
a não ser ter que ficar aguentando a tia infernal para manter o filho embaixo
de um teto?
​Enquanto Pietro pegava uma mecha do meu cabelo, entre os seus
dedinhos gordos, eu ainda o encarava. Meu filho se parecia muito comigo:
olhos claros, cabelos ruivos, uma criança perfeita que eu faria de tudo para
dar a melhor infância.
​Assim que pensei nisso, ouvi uma batida na porta do meu quarto. Olhei
para o relógio no momento que ouvi o toque na madeira, e por se tratar do
horário que devia estar trabalhando, eu sabia que estava muito ferrada.
​Coloquei Pietro novamente na cama, e caminhei lentamente até à porta.
Assim que a abri, vi a imagem do demônio, que no caso era minha tia Edna.
No entanto era uma figura bonita e não horripilante, já que a mulher era
muito linda. Tinha apenas quarenta anos, mas aparentava bem menos. Seus
cabelos eram loiros, diferentes dos meus ruivos, e quem não a conhecia não
imaginava o quanto poderia ser diabólica.
​— Olá, imprestável! — aquele era o tipo de cumprimento que Edna me
dava todos os dias.
​Ela entrou em meu quarto, sem que eu permitisse. Caminhou até próximo
a minha cama e por um momento o medo me abateu, já que meu pequeno
estava lá sozinho e desprotegido.
​— Posso ajudar a senhora? — perguntei, com toda a educação que
precisava ter por aquela mulher.
​Edna me olhou de cima a baixo, encarando-me como se eu fosse a pior
pessoa que ela já havia visto na vida. Isso acontecia desde que eu entendia
por gente. Minha tia sempre me odiou, eu não sabia se era por eu ser muito
bem cuidada por meus avós, ou se por ser a filha da sua irmã morta. Edna só
nunca gostou de mim.
​— Você deveria estar na sala me esperando, Vitória — cuspiu.
​— Sim, eu sei, mas é que Pietro não pegou no sono e eu não podia deixá-
lo sozinho por enquanto.
​A mulher virou a cabeça em direção ao meu bebê o encarando, mas logo
voltou a me olhar. Se ela tentasse fazer algo com ele eu poderia matá-la sem
piedade, sem qualquer remorso. Meu filho era meu porto seguro, meu
amuleto de salvação, então eu nunca deixaria que nada acontecesse a ele.
​— Espero você na sala em quinze minutos, se não aparecer eu juro que
jogo você e esse bastardo para fora desta casa. Não tente bancar a
engraçadinha para meu lado, não quero saber se esse moleque está acordado
ou não. Quero que cumpra o que combinou comigo quando ele nasceu, que
você faria o que eu mandasse, senão ficaria sem um teto para morar.
​Engoli em seco, por medo, pois sabia que Edna seria bem capaz de fazer
aquilo. Minha tia poderia muito bem acabar com minha vida se ela quisesse,
por isso, sem muita escolha assenti.
​Antes de sair do quarto, voltou-se em minha direção e comentou:
​— Hoje tenho um pequeno jantar para alguns amigos. Quero essa casa
brilhando, impecável, não faça com que eu perca o resto de paciência que
tenho com você, Vitória. Seu atraso já foi a gota d’água.
​Havia me atrasado somente dez minutos, mas aquilo era o fim para Edna.
A mulher me odiava tanto que ela não entendia que eu tinha um bebê
pequeno que precisava da minha atenção exclusivamente.
​Acho que era exatamente por isso que ela ainda era tão sozinha, não que
eu achasse que as mulheres precisavam de homens para se sentirem
realizadas na vida. Mas Edna não tinha nem amigos de verdade, as únicas
pessoas que circulavam sua vida estavam interessados em seu dinheiro, era a
única coisa que ela tinha para oferecer. Uma mulher fria, sem sentimentos,
sem emoção... só podia oferecer isso: absolutamente nada.
​Balancei minha cabeça e voltei-me em direção de Pietro. Meu filho estava
sobre a minha cama, que na verdade era o lugar que ele também dormia, já
que eu não tinha muitas coisas para lhe oferecer, nem mesmo um berço.
​Meu bebê tinha poucas roupas, e poucos brinquedos. Edna não me pagava
um salário, só permitia que tivesse aquele pequeno cantinho e que pudesse
comer da comida que ela comprava. De resto eu não recebia nada, os outros
empregados que me deram algumas coisas, mas os coitados também não
tinham onde caírem mortos, não podiam esbanjar dinheiro.
​Ninei Pietro por mais alguns minutos e ainda dei sua mamadeira a ele,
logo o pequeno conseguiu dormir e eu mais que depressa fui até onde Edna
ordenara. Dei graça a Deus que ela já havia saído, para fazer um total de
nada, já que minha tia vivia com a herança dos meus avós.
​A mulher havia deixado uma lista de coisas para que eu fizesse antes que
voltasse. Tinha absoluta certeza que se eu fosse uma funcionária normal, e
não a pessoa que precisava viver sobre o mesmo teto que ela, não teria aquele
tratamento.
​Só que achei por bem, sair dos meus devaneios e começar a fazer o que
Edna pediu, aproveitando que Pietro ainda dormia. Arrumei todo o andar de
cima primeiro, desde a cama que minha tia dormia, que não fazia questão de
dobrar sequer um edredom, depois lavei os banheiros e limpei todos os
quartos.
​Pelo visto a pequena festinha que ela faria, renderia a noite toda e alguns
dos convidados poderiam até dormir por ali mesmo. O que eu odiava, já que
algumas pessoas bebiam mais do que deviam e sempre acabava ruim para o
meu lado, como: limpar lugares sujos de vômitos, bebidas espalhadas pela
casa, algum vaso raro quebrado. No fim Edna me culpava por aqueles
estragos.
​Assim que terminei de arrumar todo o andar de cima, Matilde – a
empregada da casa desde que eu entendia por gente – veio ao meu encontro,
meio apavorada.
​— Querida, Pietro acordou. Está um pouco nervoso. Provavelmente
querendo atenção da mãe.
​— Obrigada por me avisar, Matilde. Você é a única ainda que me apoia
nessa casa.
​— Querida, eu só trabalho para aquela megera porque ninguém contrata
uma velha como eu. Então não tenho opção de escolha.
​— Um dia irei conseguir dar uma vida melhor para você. Por você ter me
ajudado esses anos todos.
​A senhora de cabelos grisalhos que estava parada à minha frente, me
olhou com um sorriso doce nos lábios e segurou minhas mãos ao dizer:
​— Menina, não diga isso. Eu só fiz por saber o quanto você é
maravilhosa.
​Assenti e beijei a bochecha de Matilde, correndo para o andar de baixo e
indo até meu filho, que estava se esperneando na cama. Aproximei
lentamente do meu pequeno e ele me olhou com os olhinhos cheios de
lágrimas, como se somente eu pudesse protegê-lo de qualquer coisa.
​Claro que podia, mas naquele momento eu só tinha que olhá-lo
rapidamente para voltar ao trabalho. Peguei meu pequeno com cuidado e
comecei a acalmá-lo:
​— Que foi, meu amorzinho? A mamãe tá aqui e você sabe que ela precisa
trabalhar, então se acalma.
​Peguei uma estrelinha de borracha – que ele amava mastigar –, e o
entreguei. Depois coloquei Pietro no carrinho que havia ganhado de Matilde
quando nasceu. Empurrei até a sala e aproveitei que ele se acalmou para
voltar ao trabalho.
​Tirei o pó de todos os móveis, passei água na casa e por fim terminei toda
a faxina que Edna pediu. Voltei para cozinha com Pietro, já que minha tia
odiava ver meu menino pela casa, mesmo que a criança precisasse passear
por lugares diferentes.
​Eu bem que queria ir embora, mas como? Senão tinha um tostão, então
como eu sairia dali com meu filho?
​Sabia que era julgada por quem me conhecia, afinal, como eu aguentava
toda aquela humilhação que minha tia fazia eu passar. No entanto o que as
pessoas queriam? Tinha um filho pequeno, que se tornou meu ponto alto da
vida, não tinha pai e nem mãe para me ajudar. Não tinha dinheiro para deixar
Pietro com uma babá, não tinha porra nenhuma. Então, era somente isso,
precisava ser capacho de um monstro para que pudesse ao menos ter um teto
para criar meu bebê.
​Saí dos meus devaneios assim que cheguei à cozinha e encontrei Matilde
e Clotilde. Matilde era a única que gostava de mim naquela casa, já Clotilde
era totalmente contra a minha existência, quase uma Edna, mas na versão
empregada doméstica.
​— Pronto, consegui terminar tudo antes de Edna voltar — comentei.
Sentei-me em uma das cadeiras que ficavam dispostas na cozinha,
enquanto pegava Pietro do carrinho para brincar um pouquinho com meu
filho.
​— Ainda bem, já que a senhorita Edna não gosta de atrasos. Se ela
chegasse da rua e você não tivesse feito o que mandou, nossa patroa podia te
colocar para fora daqui, fedelha.
​Sim, Clotilde me odiava tanto quanto minha tia, no entanto eu não sabia o
motivo já que ela era uma empregada normal como eu. Uma coitada que não
tinha onde cair morta, igual a mim.
​— Clotilde nem perca seu tempo tentando me ofender, não me atinge
nada do que diz. Já estou bem crescida para saber que pessoas como você, só
se interessam pelos bens materiais que é presenteada. Posso até ser uma
pessoa que não tem nada na vida, mas ao menos tenho caráter.
Voltei a olhar para meu filho e ele sorriu para mim, logo começou a
ronronar algumas palavrinhas que ainda eram indecifráveis.
— Aqui minha filha, preparei a comidinha para Pietro. — Olhei para
Matilde, e quase levantei correndo para abraçá-la.
No entanto, não gostava de demonstrar aquele afeto que sentia pela
mulher na frente de Clotilde, já que ela era uma invejosa. Levantei-me e
peguei o pratinho que me estendia.
— Obrigada, Matilde — agradeci, abrindo um sorriso em sua direção.
Depois de dar comida a Pietro, e eu mesma fazer uma refeição rápida.
Voltei ao meu quarto. Já havia terminado todo o meu trabalho, então podia
cuidar do meu bebê. Porém, meus planos foram estragados, já que fui
acordada do meu cochilo com Pietro com batidas muito fortes na porta.
Levantei-me meio grogue pelo sono, e caminhei lentamente até à
porta. Claro, que era Edna, em toda a sua pose de vilã de contos de fadas,
pronta para fazer a maldade que ela tanto queria naquele dia.
— Vejo que já fez tudo que te pedi, mas o seu serviço não acabou. —
Olhei para ela sem entender. Eu sempre arrumava a casa e podia ter o resto
do meu tempo para cuidar de Pietro. — Quero que vista um dos vestidinhos
de empregada que fica naquele armário.
Olhei para o armário que ela apontava, pois sabia muito bem o que
era, já que Matilde e Clotilde usavam os mesmos.
— Mas como assim? — questionei, realmente confusa.
— Você trabalhará na festa que darei hoje. — A mulher abriu um
sorriso diabólico, e estava nítido que aquilo era para me humilhar ainda mais.

— Só que eu preciso olhar, Pietro — murmurei com o choro preso a


minha garganta.
— Quantas vezes vou ter que repetir: que você faz o que eu mando,
Vitória? Ou quer ir para o olho da rua com esse bastardo?
Pelo jeito eu nunca conseguiria revidar alguma coisa contra aquela
mulher. Ela sempre atingia o meu ponto fraco: que era o medo de ser
despejada com Pietro nos braços sem ter para onde ir.
— Meu filho não é um bastardo, ele só foi abandonado pelo pai.
A mulher à minha frente soltou uma gargalhada tão alta que fez meu
filho acordar chorando.
— Desde quando filho de jardineiro é alguma coisa? — Edna olhou
para a criança sobre a cama, esperneando e chorando, por ter sido acordado
pelo susto e disse: — Cale a boca desse fedelho, e esteja pronta às sete da
noite, e caso se atrase você já sabe o seu fim.
Após dar o seu recado, saiu andando pelo corredor como se não
tivesse falado nada demais. Por outro lado, fiquei observando-a, na verdade
eu mais a fuzilava com meu olhar.
Tentava ser boa e não nutrir ódio por ninguém. Só que Edna sabia
despertar o pior das pessoas. Torcia para o dia que ela iria me deixar em paz e
eu pudesse juntar algum dinheiro para ir embora dali. Mas pelo visto aquele
dia ainda iria demorar.
Capítulo 2

Ainda era estranho tomar todas as decisões para a E&M - Software.


Antes tudo precisava da minha aprovação e a de Matheus, mas agora depois
que meu amigo perdeu a batalha para o câncer, eu que estava à frente de tudo
que se relacionava a contratos e a investimentos.
Não que eu não desse conta sozinho, porém eu sentia falta da única
pessoa que eu podia conversar sem achar que estava sendo julgado. Assinei
mais um dos contratos que estava lendo, e logo chamei Melissa, minha
secretária, para tirar uma cópia e enviar para o departamento responsável.
Assim que a moça apareceu em minha sala, passei meus olhos por seu
corpo. Ultimamente ela estava usando alguns estilos de roupas muito
diferentes do seu habitual. Não sabia o motivo, mas vi a mudança e claro que
não tinha problema, até por que ela não estava desrespeitando nenhuma
norma da empresa.
Só que eu sabia quando uma mulher queria me provocar, porém, não
era daqueles homens que se via uma mulher com roupa sexy, já achava que
ela estava querendo que eu a agarrasse. E além do mais, era um dos únicos
CEO’s do mundo que não queria nada com sua secretária, então ela podia
aparecer pelada que não iria acontecer nada.
Assim que Melissa saiu, meu celular recebeu uma mensagem, não me
alarmei ao ver quem era, já que estava esperando há algum tempo aquele
contato.
Quando Matheus me fez o pedido de cuidar de sua filha, em um
primeiro momento achei aquilo uma loucura e nem dei moral. Eram os
últimos tempos do meu amigo vivo e eu queria ao menos estar ao seu lado
naquele período difícil. Só que depois de sua morte achei que já estava
passando da hora de ir atrás de sua filha, no entanto o endereço que meu
amigo tinha era muito antigo, e ela já não morava mais lá, e foi muito difícil
encontrá-la novamente.
Quando li a mensagem do detetive que contratei há quatro meses,
soube que havia a encontrado. Já que foi muito difícil descobrir o paradeiro
da menina, afinal ela não tinha celular, não tinha endereço registrado em seu
nome… era quase um fantasma no meio da multidão.
Porém não perdi as esperanças, ainda mais quando Roberto, o detetive
particular, conseguiu descobrir que os pais de Camile haviam morrido há
muitos anos. Eu sabia que Camile possuía uma irmã – que Matheus odiava –,
no entanto a mulher também era um mistério, pois tinha sumido do mapa. Ao
abrir a mensagem de Roberto, fiquei satisfeito por estar certo e ele ter
descoberto enfim onde a mulher morava.

Olá, Eduardo!
Sei que você prefere ser informado por mensagem das
atualizações do caso de Vitória Cardoso. Posso te dizer que descobri que
a menina está com dezenove anos e pelo que soube de uma fonte
confiável, ela tem um bebê com quase dois anos. Mora com a tia, em uma
casa no interior de São Paulo, e foi difícil encontrá-la, pois elas vivem
como nômades mudando sempre que podem.
Consegui o endereço, e estou indo para lá hoje à noite, se quiser
me acompanhar.
Eu queria acompanhá-lo?
Parei por um momento para pensar naquele assunto. Aquilo ainda era
muito novo para mim. Era uma pessoa que eu nem conhecia, que não possuía
um pingo de sentimento, mas era filha de Matheus.
Sim, eu já havia confirmado aquilo. Já que Matheus havia investigado
um pouco da história da menina antes de me contar.
Quando Camile foi obrigada a se afastar do meu amigo, foi por seus
pais descobrirem que ela estava grávida. A história toda parecia roteiro de um
clichê, se nós não vivêssemos uma vida completamente real.
Levantei-me da minha cadeira, caminhei até a janela da minha sala e
encarei o trânsito de São Paulo. Eu queria mesmo embarcar em uma viagem
rápida no interior para encontrar a garota que era filha do meu melhor amigo?
Porra! Eu tinha que fazer aquilo. Fiz uma promessa a Matheus, e ele
ainda colocou na merda de seu testamento que queria que eu encontrasse sua
filha para que a informasse que havia herdado tudo que ele tinha. Todos os
bens de Matheus foram deixados para a menina.
Depois de me afastar da janela, peguei meu celular que havia deixado
em cima da mesa e respondi a Roberto.

Sim, só me diga o horário que te acompanharei.


​Estava na hora de ir atrás da tal Vitória, eu não sabia como ela era, mas
estava pronto para conhecê-la.

∞∞∞
​ ra uma casa enorme, uma verdadeira mansão. Lembrava-me que a
E
família de Camile era rica, só não imaginava que era daquela maneira. Os
muros altos impediam que enxergássemos o lugar, mas com toda certeza era
muito bonito.
Fiquei mais tranquilo por saber que a filha do meu amigo foi bem
cuidada. Se Matheus soubesse da existência de sua filha há anos, teria feito o
possível e o impossível para deixá-la totalmente alegre e realizada.
Caminhei até o portão do local, sendo seguido por um dos meus
seguranças e ao meu lado estava Roberto, que permanecia calado. O homem
sabia que eu não gostava muito de conversar, que era um poço de silêncio, e
eu agradecia por ele ser discreto.
Assim que paramos em frente ao portão um dos seguranças do lugar
se aproximou.
— O que desejam?
Era um homem alto, que nos encarava com uma expressão nada
amigável.
— Boa noite, gostaria de falar com Vitória Cardoso — comuniquei ao
homem, mostrando que não estava nem um pouco afetado pela sua pose de
durão.
Enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta de couro que usava, já que eu
não era um homem de ternos. Eu era um CEO de renome, mas gostava
mesmo de ter uma aparência de bad boy. Sabia que para minha idade eu já
devia ter amadurecido aquele pensamento, no entanto ainda não era o
momento para mudar meu estilo completamente.
— E quem seria o senhor? — o homem voltou a dizer como se
realmente mandasse naquela casa.
Entendia que ele não poderia simplesmente acatar o meu pedido para
falar com a dona da propriedade.
— Sou Eduardo Montana, gostaria de poder falar com ela.
O homem assentiu e caminhou até uma guarita, onde outros
seguranças estavam parados. Eles me observavam, pareciam quase me
fuzilarem, no entanto eu não ligava. O segurança que conversei
anteriormente caminhou até o portão e disse:
— Ela está vindo, senhor.
Ele não me convidou para entrar, já que eu era um completo estranho
e entendia bem o seu jeito de me tratar. Esperamos por volta de quinze
minutos, e o céu ficava cada vez mais escuro, algumas estrelas até
começaram a surgir. Estava começando a ficar irritado por ter que esperar a
garota na porta da rua.
No mesmo momento surgiu uma mulher pela rampa que ia do portão
até a casa, pelo que podia ver era uma empregada do lugar. Ela usava um
vestidinho que caracterizava um uniforme. Assim que se aproximou do
portão de grades, franziu o cenho ao olhar os três homens que a aguardava.
Só que eu não pude deixar de reparar como era uma moça bonita.
Possuía uma expressão delicada, nariz fino, lábios desenhados e mesmo no
crepúsculo pude perceber que os olhos eram verdes. Seus cabelos ruivos
estavam presos em um coque no alto da cabeça, e a moça se aproximou das
grades do portão, mas não pediu para que o abrisse.
— Pois não? — murmurou, completamente incerta por estar fazendo
aquilo.
— Boa noite!
Ela não respondeu o cumprimento, ficou me encarando sem entender
nada. Depois passou os olhos pelos outros homens ao meu lado e voltou a
questionar:
— O que o senhor deseja? — sua voz era doce, muito doce... e
parecia ser bem jovem.
No entanto não era com ela que eu devia falar, por isso respondi:
— Eu gostaria de falar com Vitória Cardoso.
— Senhor, eu sou a Vitória Cardoso. Se está me procurando deveria
saber disso, não é mesmo?
Soou um pouco grosseira, mas era compreensível. A moça estava
certa, se eu procurava por uma pessoa eu devia no mínimo saber de quem se
tratava. Porém, algo estava muito errado naquela história, pois tinha certeza
que aquela casa, era uma das que a família Cardoso possuía, então por qual
motivo aquela mulher seria uma funcionária da casa?
— Acho que está ocorrendo algum engano, moça. Quero falar com a
sua chefe, ela… — Como eu poderia caracterizar Vitória para que a mulher
soubesse com quem eu queria falar? Foi aí que pensei em Camile.
Infelizmente eu teria que tocar no nome da falecida amada do meu
amigo, que também já tinha encontrado o seu caminho para o céu. Se é que
existia mesmo um céu para onde as pessoas seguia.
— Gostaria de falar com a filha de Camile Cardoso.
Vi o momento que a ruiva à minha frente engoliu em seco, seus olhos
se encheram de lágrimas e eu me arrependi no mesmo momento de tocar no
nome de Camile. Só que com aquela reação comecei a achar que a moça
realmente era quem dizia ser.
— Se o senhor não entendeu, vou repetir, eu sou Vitória Cardoso filha
de Camile. O que quer comigo? — sua voz embargada me fez ter certeza que
era quem eu procurava.
Aquilo estava completamente estranho, já que aquela casa era da
família Cardoso, então por qual motivo Vitória estava vestida como a
empregada do lugar? Franzi o cenho sem saber o motivo, mas muito curioso
para entender aquela história que não estava me cheirando nada bem.
Porém não podia ficar parado como um idiota a encarando e
esquecendo de falar quem eu era. Por isso, me aproximei um pouco mais das
grades do portão e comuniquei:
— Prazer, sou Eduardo Montana. Conheci sua mãe há alguns anos e
há pouco tempo soube de sua existência. Sou amigo do seu pai, Matheus
Santana.
A mulher que já estava completamente sem entender nada, ficou
ainda mais confusa. Ela abriu a boca como se fosse questionar algo, no
entanto a fechou novamente. Parei para observá-la, enquanto ainda estava
sem entender nada.
No fundo ela tinha certa semelhança com seu pai, o cabelo fora
puxado da mãe e os olhos claros também, mas se eu a olhasse profundamente
lembraria um pouco Matheus.
Vitória, pois agora eu já podia chamá-la assim, por saber que se
tratava da mulher que eu procurava, abaixou a cabeça e quando voltou seus
olhos para mim só pude ver fúria.
Não tinha mais desentendimento, não tinha mais curiosidade, só tinha
ódio, raiva, nojo. Mas por qual motivo ela estava daquela maneira?
— O senhor faça o favor de se retirar daqui e mande o seu amigo não
me procurar mais.
Deu-me as costas e começou a voltar pelo mesmo caminho que
percorreu até chegar ali, no entanto eu aumentei o tom de voz e disse:
— Não estou fazendo isso para lhe ofender. Esse foi o último pedido
que Matheus me deixou, por isso estou tentando cumprir com o que foi me
pedido.
A mulher de cabelos ruivos, parou no mesmo lugar, e se voltou em
minha direção novamente com o cenho franzido.
— Como? — perguntou, sem acreditar no que eu havia falado.
— Matheus não sabia que tinha uma filha até poucos meses atrás, no
entanto ele me pediu para lhe encontrar, já que ele não teria tempo para isso.
Ela voltou a caminhar lentamente até o portão e questionou
novamente:
— Você está dizendo que o pai que nunca quis saber de mim,
morreu? E que antes de isso acontecer, ele resolveu ficar com a consciência
pesada e voltar atrás com sua decisão de me conhecer?
Ela não gritou, mas sua voz estava alterada. Era nítido que não estava
muito bem. Só que não entendi o que ela falava, já que Matheus descobriu
sobre sua existência há poucos meses.
— Juro que não sei sobre o que está se referindo, moça.
E eu não sabia mesmo, não tinha motivo para estar ali inventando
mentiras. Só estava fazendo aquilo porque foi o último pedido de Matheus,
senão eu nunca encararia aquela mulher.
Linda, diga-se de passagem.
— Olha, não quero ser indelicada com você, pois tenho certeza que
não tem nada a ver com a história. — Ela parou por um momento, passou a
mão na testa e voltou a murmurar: — Minha tia irá chegar em breve, então
não quero ser repreendida por ter homens como vocês na porta da casa dela.
Por favor, só vão embora e me deixem em paz. Não quero saber de um
homem que nunca quis saber sobre mim.
Fiquei totalmente sem entender sobre o que ela falava, mas resolvi
acatar seu pedido, Vitória parecia realmente abalada e nervosa. Por isso,
peguei um cartão dentro da carteira que estava em meu bolso e aproximei um
pouco mais do portão até que sussurrei, para que só ela ouvisse:
— Acho que algumas histórias foram contadas erradas a você, se
quiser entrar em contato comigo para saber a verdade sobre tudo. — Estendi
o cartão a ela, que pegou meio incerta e olhou para o papel. — Pode me ligar
a qualquer momento. Não irei te perturbar mais.
Olhei novamente para a garota, mas fiz questão de encarar seus olhos,
eram tão lindos e representava tanto sofrimento.
Caralho! Ela era linda, muito linda!
— Tudo bem!
Depois que respondeu eu me retirei da frente do portão, sendo
acompanhado por Roberto e por Carlos, meu segurança.
— Quero alguém vigiando essa menina durante vinte quatro horas.
Não sei o que aconteceu com ela, e nem por qual motivo parece ser a
empregada da casa. Mas não quero que nada de ruim aconteça com ela e nem
que suma das minhas vistas, vocês estão entendendo? — questionei,
enquanto abria a porta do meu carro.
— Sim, senhor.
Depois que responderam, entrei em meu carro. Olhei novamente para
o lugar que Vitória estava há alguns minutos e ela já havia sumido das
minhas vistas. Aquela história estava muito mal contada e eu iria descobrir
em breve por qual motivo.
Capítulo 3

Ainda estava sem acreditar no que havia acontecido.


Quando interfonaram para a área de serviço e Matilde me informou
que estavam me chamando no portão, estranhei no mesmo momento. Já que
ninguém me conhecia aqui em Holambra, uma pequena cidade no interior de
São Paulo, que eu não conhecia muito bem, pois havia pouco tempo que
minha tia estava morando ali.
Edna gostava de ficar mudando de cidade a cada seis meses. Eu não
entendia o motivo, no entanto não tinha como ir contra, pois ela ainda era a
minha única fonte de renda. Antes de Pietro eu ficava mais revoltada, no
entanto depois do meu filho tudo que Edna falasse eu aceitava.
Entrei novamente na casa, meio puta, já que o tal Eduardo conseguiu
me tirar do sério. Como ele tinha coragem de aparecer na porta da casa que
eu morava e tocar no nome do homem que abandonou minha mãe? Na
verdade, eu nem sabia que meu pai se chamava Matheus, só que também não
iria confirmar, eu não queria saber daquele homem.
Mas e se...
Não era possível que existissem várias mentiras a respeito da minha
história. Afinal, eu não podia parecer tanto uma gata borralheira. Uma mulher
que só tinha azar na vida.
Matilde apareceu na cozinha e me encarou por um momento até que
questionou:
— O que foi, querida? — Ela se aproximou de mim, e segurou
minhas mãos. — Quem era o homem que estava te procurando?
Ela não iria trabalhar na hora da pequena festa de Edna, e eu tive sorte
por isso, já que assim ela poderia ficar com Pietro. Meu filho era o que mais
me preocupava sobre ir trabalhar à noite para aquela víbora.
— Não o conheço, Matilde. Ele disse ser amigo do meu pai. — Parei
de falar para olhar ao redor, no entanto constatei que não tinha ninguém por
perto. — E falou que as histórias que me foram contadas são uma mentira.
Sem conseguir controlar, deixei que as lágrimas que estava segurando
desde o momento que ouvi as palavras do homem – muito bonito, lindo,
perfeito. Com uma aura de pedaço de mau caminho – que era amigo do meu
pai.
Pai… um pai que se fosse verdade, havia me abandonado na barriga
da minha mãe, e nunca quis saber da minha existência.
Matilde fez o mesmo que eu, verificou se não havia ninguém por
perto, e sussurrou:
— Talvez você devesse ouvir esse homem. Ele pode estar dizendo a
verdade.
O que ela me disse me tirou do chão, me deixou sem rumo, e sem
acreditar. Não era possível que eu fui enganada a minha vida toda.
— Matilde o que você está dizendo?
No momento que fiz a pergunta, Edna entrou na cozinha. Ainda bem
que ela não havia chegado no momento que Eduardo estava na frente do
portão.
Olhou para nós com uma expressão de desdém e comunicou:
— Podem parar com essa conversinha. Vitória, ande logo, pois meus
convidados estão começando a chegar.
Olhei para Matilde ainda tentando entender o que ela me disse, mas a
mulher sussurrou para que eu fosse, e sem poder fazer muito mais
acompanhei Edna.
Assim que cheguei à sala, olhei a quantidade de gente que estava
presente e realmente uma reunião não podia ser considerada, já que haviam
mais de vinte pessoas.
Edna provavelmente devia ter trazido todos juntos com ela. Os
convidados me encararam assim que cheguei à sala. Saí do meu transe,
caminhei até a mesa de frios e peguei uma bandeja que já havia deixado
preparada.
Distribuí pela sala e por sorte percebi que Clotilde estava levando as
bebidas até os convidados. Eles por sua vez, eram convidados de alta classe,
com roupas de marcas e elegância de quem possuía muito dinheiro.
Edna me observava em todos os momentos, seus olhos sempre me
fuzilavam quando eu demorava mais de um minuto perto de um convidado.
Ela me odiava isso era um fato, eu só nunca soube o motivo.
A noite foi passando, mas pelo visto os convidados não iriam embora
tão cedo, e provavelmente muitos deles dormiriam na casa. Já que tive que
arrumar todos os quartos de hóspedes durante o dia.
A única pessoa que me preocupava era Pietro, meu pequeno bebê não
tinha o costume de ficar sem minha presença no período da noite, então
estava morrendo de medo de ele dar algum problema a Matilde.
Em um determinado momento passei perto de um homem, que
simplesmente segurou o meu braço e sussurrou em meu ouvido:
— Você é muito linda, deveria estar em um lugar muito melhor, por
exemplo minha cama.
O encarei chocada, retirei meu braço à força de sua mão e me afastei.
Ele era bem vestido, bonito até, com cabelos castanhos e olhos claros. Mas
aquilo não dava o direito de ele me agarrar daquela forma. Afastei-me de
todos os convidados, deixando a bandeja na mesa de frios, e caminhando até
a cozinha onde não tinha ninguém.
Meu coração estava disparado e o ódio dominava minhas veias. Como
alguém se sentia no direito de agarrar o braço de outra pessoa como se ela lhe
pertencesse?
Apoiei as mãos sobre a bancada da cozinha, para tentar me acalmar.
Não havia passado nem cinco minutos que eu havia saído da sala quando
Edna veio ao meu encontro.
— Posso saber o que está fazendo aqui, Vitória? — cuspiu, como se
eu fosse um ser horripilante.
— Nada… — Voltei-me em sua direção e ela me encarava com ódio.
— Quer dizer, um de seus convidados segurou meu braço, eu meio que entrei
em choque.
A mulher se aproximou de mim, sem perder sua pose de confiança,
com o queixo erguido, sem um fio de cabelo fora do lugar. Ela ficou há
alguns palmos de distância, e sussurrou de forma ameaçadora:
— Você tem ciência de que quem manda nessa casa sou eu? — seu
questionamento não me pegou de surpresa.
Ela sempre achara um jeito de deixar claro que eu só estava ali por ela
era caridosa e fazer aquele favor a mim.
— Eu sei que é você quem manda, Edna.
— Agora eu me tornei você? Olha bem como fala, Vitória. Eu sou a
senhora desta casa, então me trate com o respeito que eu mereço.
— Sim, senhora — respondi, abaixando minha cabeça.
Eu era uma fraca, que nunca dava conta de encarar aquela mulher,
sempre me deixava ser humilhada por ela.
— Quero que volte para a sala e atenda aos meus convidados, e se
algum deles quiser conhecer você melhor… — Sua pausa me assustou, ainda
mais com o sorriso diabólico que abriu em sua boca. — Você deve permitir,
Vitória. Porque eu juro que jogo você e o bastardo no olho da rua hoje
mesmo, se você não fizer o que querem. Meus amigos precisam ter o que
bem entender, e eu não posso negar que você é bonitinha, por isso, te escolhi
para trabalhar esta noite. Eles precisam de carne nova.
Ela mal terminou de dizer e saiu da cozinha, no entanto antes de
sumir totalmente voltou a dizer, como se aquilo fosse algo extremamente
normal.
— Volte agora mesmo para a sala.
Era realmente verdade o que eu tinha acabado de ouvir? Edna, a
mulher que deveria ser minha protetora, minha tia, irmã da minha mãe, falou
para eu voltar a sala e deixar que os seus convidados abusassem de mim?
Não! Aquilo era demais até para uma “barata tonta” como eu
aguentar. Era demais para mim. Preferia passar necessidade, ficar sem um
teto, correr atrás de algum lugar que abrigasse uma mulher desesperada, do
que continuar naquela casa.
Acho que toda pessoa calma como eu tinha um limite. Respirei duas
vezes, antes de tirar o avental, deixá-lo em cima da bancada e caminhar até o
quarto de Matilde. Bati em sua porta e ela logo abriu com o cenho franzido.
— Você precisa me ajudar, Matilde.
— O que foi, minha querida?
— Eu preciso ir embora dessa casa. — Deixei que uma lágrima caísse
por meu rosto. — Aquela mulher quer que eu me deixe ser abusada por seus
amigos, Matilde. Pelo amor de Deus me ajuda a sair daqui.
Matilde cerrou o cenho e eu a entendia, eu não parecia estar coerente.
No entanto se ela conhecia bem a minha tia, como eu, ela sabia que aquilo era
bem capaz de ser verdade.
— Querida, eu tenho umas economias, não é muita coisa, mas vai te
ajudar a passar alguns dias em um hotel. Então pegue o que conseguir, que eu
te ajudarei a sair dessa casa.
Ela estava mesmo falando aquilo?
— Mas Matilde, eu não posso…
— Pode sim, você pode tudo Vitória. Chega de aguentar essa mulher,
desde que seus avós morreram ela te trata como um monte de lixo. Você não
merece, meu amor. Eu vi sua mãe e essa diaba nascerem e as duas eram
completamente diferentes. Então, por favor, faça o que estou falando.
Engoli em seco e assenti, eu precisava confiar na única pessoa que me
tratava bem desde que nasci. Vi que Pietro estava deitado sobre a cama, ao
constatar isso voltei para o meu quarto correndo, pois sabia que Edna logo
voltaria para me humilhar novamente.
Por isso saí pegando tudo o que achei necessário e joguei dentro da
mochila gasta que eu tinha. Logo voltei para o quarto de Matilde e ela já
estava com Pietro nos braços.
Entregou-me uma bolsinha, que imaginei ser a que tinha dinheiro e
falou:
— Querida, como eu te disse. Procure o homem que veio aqui hoje,
não acredite cem por cento no que foi lhe contado no passado, pois pode ser
que você tenha sido enganada. A palavra dos seus avós não vale de muita
coisa, eles mentiam para você.
Meu coração disparou e uma vontade desesperado para chorar me
tomou, mas me controlei eu não podia deixar me afetar por aquela revelação
agora. Assenti novamente, mas não demorei a começar a caminhar para a
saída da cozinha. Joguei uma manta por cima de Pietro e Matilde me
acompanhou. Nem retirei o vestidinho de empregada que usava, pois não
dava tempo.
Edna sempre dissera que me colocaria para fora de casa, caso eu não
cumprisse o que ela mandava, no entanto eu sabia que no fundo ela só queria
me assustar.
Tenho quase certeza que se ela realmente me visse indo embora, não
perderia tempo em me trancar em meu quarto, como ela fez da vez que tentei
fugir. Antes de Pietro, antes dos meus sonhos serem totalmente destruídos,
antes de eu perceber que estava fodida pelo resto da vida.
Assim que cheguei ao portão da casa, os seguranças me olharam
como se não estivessem entendendo o que eu estava fazendo ali. Foi então
que Matilde, a minha salvadora, comentou:
— Deixem a moça passar, o bebezinho está com febre.
— Não foi nos informado nada — Um dos homens falou, logo
levando a mão a um rádio que provavelmente seria para perguntar sobre a
minha saída.
Se aquilo chegasse aos ouvidos de Clotilde, ou de Edna eu sabia que
não conseguiria sair daquela casa. Foi então que pela primeira vez em minha
vida soltei uma mentira, já que era tão idiota que não soube mentir durante
toda a minha vida.
— É porque Edna está ocupada com a festa, não a perturbem, vocês
sabem como ela é.
Eu sabia que aqueles homens podiam perder seus empregos, por me
deixar sair daquela casa, e que no fundo eles só cumpriam o que era pedido a
eles. Só que eu tinha que parar de pensar primeiro nas pessoas, e agora pensar
no meu filho e em mim.
Não podia aceitar ser estuprada por amigos da minha tia diabólica,
não podia mais aceitar o que era obrigada a passar ali. E se Matilde estivesse
certa, eu simplesmente fui enganada a minha vida toda.
O homem olhou para nós, porém assentiu em seguida. Apertou um
botão e abriu o portão. Assim que dei o primeiro passo parei, encarei Matilde
e questionei:
— Não quer ir comigo? — Não queria deixá-la naquela casa, não
sabia quando a minha tia resolveria mudar de cidade novamente. — Podemos
tentar nos virar.
— Não querida, preciso estar aqui para saber o que ela fará. E ela
nunca fez nada contra mim diretamente, o problema entre eu e ela sempre foi
a forma que você era tratada.
Isso era uma verdade, minha tia não tratava Matilde tão mal quanto a
mim. Ela parecia odiar somente uma pessoa ou melhor duas: Pietro e eu.
— Tudo bem! Quando eu me ajeitar dou um jeito de tirar daqui,
Matilde.
— Tudo bem, querida.
Voltei a me aproximar, e abracei a mulher que era quase uma mãe
para mim. Eu sentiria falta dela. Assim que me afastei, deixei que as lágrimas
começassem a escorrer por meu rosto.
Quando dei o primeiro passo para minha liberdade, senti até um peso
invisível ser retirado de cima de mim. Pietro se mexeu em meus braços, mas
eu não o destampei, pois, a noite estava fria. Era o momento de eu traçar meu
caminho com meus próprios passos, sem uma maluca me ordenando tudo.
Era o momento de começar a minha felicidade.
Capítulo 4

Dois dias que estava em uma pensão, bem humilde, mas com o pouco
dinheiro que tinha foi o que consegui. No entanto eu precisava agir rápido, se
não poderia ficar sem um lugar para morar em breve. Já que o dinheiro que
Matilde me dera, deu para pagar somente esses dias na pensão e comprar
pouca coisa para comer.
Assim que saí do banho, vi que Pietro havia acordado. Caminhei até a
cama, com o cabelo enrolado em uma toalha e o corpo em outra.
— Oi, meu amor — cumprimentei meu pequeno pedaço do paraíso.
— Mamã… — murmurou.
Logo abriu um sorriso, enquanto mexia as perninhas e levava uma de
suas mãos até a boca. Passei uma das minhas por sua bochecha e fui me
vestir, assim que coloquei um vestido de tecido leve, que quase não me servia
mais, mas era uma das únicas roupas que tinha voltei para perto de Pietro.
Havia tomado uma decisão naquela manhã, iria dar uma chance para
o tal amigo do meu pai me explicar toda a história que estava por trás do que
me foi contado anos atrás. No entanto se eu realmente tivesse sido enganada,
não sei como iria reagir. Já que pelo que entendi meu pai havia morrido.
Seria muito azar perder o pai antes de conhecê-lo.
​Desci até a recepção da pensão, levando meu bebê comigo. Pietro pegou
uma mecha do meu cabelo, enquanto descia as escadas. Meu pequeno ficou
brincando com os fios até que cheguei no balcão da recepção.
​— Oi, tudo bem? — cumprimentei a recepcionista.
​— Oi — ela respondeu, abrindo um sorriso gentil.
​— Desculpa perguntar, mas eu poderia usar o telefone de vocês para uma
ligação? — Estava morrendo de vergonha por ter perguntado aquilo.
​Já que era um absurdo uma hóspede querer usar tranquilamente o telefone
da pensão que ela estava hospedada.
​— Olha, a dona Marcela não gosta muito que usem o telefone.
​Senti a humilhação tomar meu corpo.
​— Entendo, obrigada.
​Afastei-me do balcão e preparei-me para subir as escadas no momento
que a moça me chamou.
​— Se você prometer não contar a ela e que será rápida sua ligação, eu
deixo você usar.
​Voltei-me na direção da moça e abri um sorriso. A mulher parecia ser
uma boa pessoa. Tinha a pele morena e os cabelos enrolados, além de vestir
um uniforme social.
​— Obrigada, juro que serei rápida.
​— Tudo bem — respondeu, encarando Pietro. — Oi, garotão. Como se
chama? — perguntou, encarando meu filho que parou de brincar com meu
cabelo, e a encarou.
​— Fala para ela filho, que você é o Pietro. — Meu bebê sorriu, para a
mulher e estendeu os bracinhos para ela.
​Ele era muito entregue a desconhecidos, só com Edna que ele nunca quis
ir, acho que sentia o quanto aquela mulher era malvada e asquerosa.
​Deixei que os pensamentos saíssem da minha cabeça e vi quando a
mulher estendeu os braços para pegar Pietro.
​— Posso? — indagou.
​— Claro, se não for nenhum problema para você.
​— Não, está tudo bem.
​Entreguei Pietro a mulher e fiquei de olho enquanto ela me estendia o
aparelho de telefone. Peguei o cartão que estava no bolso do meu vestido e
logo li o nome no papel, Eduardo Montana era o homem que eu deveria falar.
​Liguei diretamente para o número de celular que havia no cartão e
chamou algumas vezes, mas logo ouvi a ligação ser atendida.
​— Alô! — a voz era grossa, com um tom de pecado.
​— Gostaria de falar com Eduardo Montana.
​O homem ficou calado por um momento, no entanto logo respondeu:
​— É com ele que você está falando, posso saber quem é?
​Claro que ele podia, afinal se realmente existisse uma história diferente da
que eu conhecia, ele teria que me ajudar.
​— Oi, Eduardo. Aqui quem fala é a Vitória… — Como eu deveria me
apresentar? Parei por um momento e logo soube o que dizer: — A filha de
Camile.
Era uma boa apresentação, afinal eu não sabia se era realmente filha
de seu amigo, então não poderia me denominar daquela maneira.
— Ah! Bom… Que surpresa! — Ao fundo pude ouvir a voz de uma
mulher.
Será que era esposa dele?
— Se eu tiver atrapalhando posso ligar depois — comuniquei, pois
não queria ser indiscreta.
— Você não está atrapalhando, Vitória. Pode falar!
O que eu iria falar? Até então tinha pensando em ligar para ele, mas
para quê? Porém sem perder tempo comecei a dizer:
— Eu fugi da casa da minha tia, estou hospedada em uma pensão, e
não tenho mais dinheiro para ficar aqui. Preciso saber sobre a história que
você disse que me contaria, então por favor, me ajude.
Sabia que estava me humilhando para um total desconhecido, sendo
que ele poderia nem se importar comigo. Só que eu não podia fazer nada, já
que estava desesperada por ajuda. Eu tinha um filho pequeno que não dava
conta de se defender de ninguém.
Pensando nele, olhei em sua direção e Pietro estava gargalhando com
a atendente da pensão. Abri um sorriso ao perceber aquela cena. No entanto
assim que ouvi novamente a voz do homem se tornar audível, meu coração
deu uma leve descompassada.
— Me passe o endereço da pensão que irei te buscar e contarei toda a
história assim que você estiver em minha casa.
Eu não queria ir para a casa dele, não o conhecia, não sabia de nada e
quando fui dizer isso a ele, parecendo adivinhar meus pensamentos o homem
me respondeu:
— Sei que não nos conhecemos, só que não precisa pensar que sou
alguém ruim. Procure meu nome na internet que você saberá que não sou má
pessoa, então me passe o endereço. E se formos realistas podemos dizer que
você não tem opção.
Poderia confiar em uma pessoa completamente estranha?
Mas Matilde disse que ele seria minha melhor opção, não disse?
E nela eu confiava plenamente, foi só por causa disso que respondi:
— Tudo bem!
Passei o endereço da pensão e Eduardo deixou claro para que eu me
arrumasse. Em até duas horas seu motorista estaria me esperando para me
levar até ele.
E foi o que fiz, no tempo que me restou fechei minha conta na pensão,
já que eu não tinha como pagar mais um dia ali. E pelo que foi informado,
Eduardo não morava na mesma cidade em que eu estava, por isso, eu já podia
esquecer aquela pequena cidadezinha.
Arrumei minha pequena mala e esperei que partisse para o
desconhecido. Só esperava que aquilo fosse o passo para o início de algo bom
na minha vida.

∞∞∞
Sinceramente, se não tivesse sido a filha de Matheus que houvesse me
atrapalhado eu teria a xingado totalmente. Estava começando uma nova
rodada de sexo quando Vitória me atrapalhou, e como o número que dei a ela
era pessoal, e só quem tinha eram pessoas da minha confiança, pensei que
poderia ser algo sério.
E até era, já que eu ainda não havia entendido muito bem, mas a
garota tinha fugido de casa com o filho. Era isso mesmo? Ela já não era
grandinha o suficiente para cometer uma loucura dessas?
Tive que dispensar Geovana, uma mulher que havia conhecido há
alguns meses e que estava sendo meu sexo por aquele tempo. Ela não gostou
muito de ter sido jogada para segundo plano, no entanto era da filha do meu
melhor amigo que estávamos falando.
Depois de um banho rápido, vesti uma calça jeans e uma camisa
preta. Meus cabelos ainda estavam molhados, mas nem me importei, passei
uma mão pelos fios deixando-os arrepiados do jeito que eu gostava.
Me olhei no espelho e estava pronto para realmente conhecer a tal
Vitória. Eu sabia que ela estava prestes a chegar, já que Amadeu, meu
motorista me avisara. Eu morava em uma casa afastada da sociedade, pois
gostava de privacidade e não queria ser importunado por ninguém.
Por isso o caminho era ainda mais longo de se percorrer, ainda mais
que Vitória morava em uma cidade do interior. No entanto assim que desci as
escadas lentamente, a campainha tocou.
Lourdes, minha governanta, passou por mim com um sorriso gentil
nos lábios e foi abrir a porta. Eu por outro lado fiquei parado aguardando para
ver a minha convidada. Quando a ruiva atravessou o hall de entrada,
cumprimentando Lourdes, com um bebê em seus braços eu tive que
novamente passar meus olhos por todo o seu corpo.
Matheus teria que me desculpar, mas a sua filha era muito linda, e era
impossível não prestar atenção em sua beleza. Cabelos ondulados, ruivo, com
uma pele de porcelana, as feições do rosto completamente desenhadas com
um pincel muito perfeito. O bebê olhava por todos os lados e era uma
gracinha. Não que eu fosse um amante de crianças, porém não podia negar
que aquele bebê era… bonitinho. Todos deviam se derreter por ele, igual
minha governanta estava fazendo.
— Que bebê mais lindo. É seu filho, querida? — Lourdes questionou.
Enquanto Vitória passava os olhos por todos os lugares até que
pararam sobre mim. Tivemos uma troca de olhares, até que ela se voltou para
Lourdes e respondeu:
— Sim, meu pequeno Pietro.
Abriu um sorriso radiante que parecia deixá-la ainda mais linda. Sabia
que não podia ficar repetindo aquilo para mim, mas era impossível quando eu
não era cego e estava vendo uma mulher perfeita a minha frente.
— Tão jovem e já é mãe, deve ter sido difícil.
O sorriso de Vitória morreu um pouco ao ouvir o comentário da
minha governanta, que às vezes era muito intrometida, até para mim que já a
conhecia há anos.
— Lourdes, por favor, prepare um café ou suco para a moça. Preciso
conversar com ela.
— Sim, senhor — a velhinha intrometida respondeu, saindo do
ambiente rapidamente.
— Desculpe pelo comentário inapropriado — disse, para Vitória que
voltou novamente a me encarar.
— Tudo bem! Não é como se fosse a primeira vez que ouvisse algo
do tipo.
— Que bom que não ficou ofendida.
Olhei para ela e gesticulei para a sala de visitas. Assim que comecei a
caminhar Vitória começou a me seguir com o garotinho curioso. Ela se
sentou no sofá, mesmo antes que eu pudesse oferecer a ela, no entanto eu não
me importava. Sentei do lado oposto e fiquei encarando-a, enquanto ajeitava
o pequeno em seu colo.
— Bom, eu sou Eduardo. Fico grato que tenha aceitado conversar
comigo.
— Não é como se eu tivesse muita escolha. Meu destino não me deu
outra opção a não ser procurar um desconhecido, que se diz conhecer mais da
minha história do que eu mesma.
Eu até podia entendê-la. Já que pelo que parecia ela não sabia de nada
do que havia acontecido com os seus pais, e ainda achava que Matheus tinha
a abandonado.
— Primeiramente Vitória, quero lhe informar que o testamento de
Matheus já foi lido. Porém, irei chamar o advogado para ele lhe explicar
como tudo funcionará a respeito da sua herança.
Assim que ouviu a última palavra, percebi que seu cenho franziu sem
muita explicação. Mas o que ela me disse me deixou ainda mais chocado.
— Sei que dinheiro é importante, ainda mais para que eu cuide do
meu filho, só que neste momento eu estou querendo saber primeiro da minha
história. Por que a única coisa que sei é que: me chamo Vitória Cardoso,
minha mãe morreu no meu parto, meu pai me abandonou quando eu ainda
nem existia. Meus avós me deixaram e eu fui criada por uma tia que não
tinha um pingo de amor por mim. Que me fez ser a empregada de sua casa,
que me obrigou a fugir no mesmo dia que te conheci, pois ela queria permitir
que um de seus amigos me estuprasse.
Não sei se foi por Vitória ter aumentado o tom de voz, mas Pietro
começou a chorar. No mesmo momento Lourdes entrou na sala com um suco
de laranja. Vitória se levantou do sofá e começou a balançar o filho em seus
braços, sussurrando palavras fofas para o garotinho.
Minha governanta observando toda a cena, se aproximou da moça e
perguntou:
— Quer que eu cuide desse pequeno, enquanto você conversa com o
senhor Eduardo?
Sabia que Lourdes estava tentando ser gentil, porém Vitória não a
conhecia, por isso, não aceitou em um primeiro momento. Só que até eu
preferia que estivesse a sós com ela, para falarmos de assuntos pesados. A
garota olhou para minha funcionária completamente desconfiada, e eu tive
que intervir.
— Não faremos mal ao seu filho, pode confiar em Lourdes.
— Sim, querida. Eu tive três filhas, sei bem quanto os primeiros anos
de um bebê pode ser complicado.
Vitória sorriu e entregou o garotinho a Lourdes. Ele já havia se
acalmado, e parecia não se importar que minha funcionária fosse uma
completa estranha. Assim que Lourdes saiu com Pietro em seus braços,
Vitória se voltou em minha direção:
— Agora você pode me contar a minha história?
Eu podia, claro que podia. Já que pelo visto somente eu sabia toda a
verdade sobre a sua história.
— Posso.
Foi o que respondi, enquanto ela caminhava para o sofá. Depois
pegou o copo de suco e tomou um gole da bebida. Estava na hora de contar
tudo o que sabia sobre Matheus e Camile para aquela garota.
Capítulo 5

Eu havia vivido uma mentira, dezenove anos de mentira. Uma


mentira que me fez acreditar que eu não podia ser amada por ninguém.
Talvez eu tivesse sido ao menos um pouco por minha mãe, mas ela não teve
tempo e pelo visto meu pai também não. Já que quando descobriu a minha
existência ele já estava no final de sua vida.
Senti quando uma lágrima escorreu por meu rosto e Eduardo
continuou contando algumas coisas do meu passado, ou melhor do passado
dele que me envolvia.
— Eu até brincava com seu pai que ele e Camile eram dois grudentos.
Eles realmente se amavam, só que a família da sua mãe não aceitava que ela
se relacionasse com um homem que não tinha onde cair morto. — Voltei a
olhar aquele homem e sinceramente, não tinha como não se perder um pouco
na beleza que ele possuía.
Um rosto com uma expressão fechada, uma leve barba, queixo
quadrado, boca quase em formato de coração, olhos claros, cabelos
completamente bagunçados. Eduardo não parecia em nada com um CEO,
mas ele havia me dito que era um. Ele estava mais para um caçador, daqueles
homens que sempre eram escolhidos para serem os mocinhos de séries de
mistério.
Parecia ter um humor negro, algo que não me agradava em nada, mas
era o que eu podia aceitar. Ele como Matilde havia comentado, era o único
que sabia da minha história, e pelo visto ela estava certa. Tinha muita coisa
que eu não tinha ideia que havia acontecido.
— Houve uma época que Matheus e Camile resolveram fugir e foi
bem quando ela desapareceu. Sua mãe realmente sumiu, nós a procuramos
por todos os lugares e não a encontramos. Seu pai nunca mais foi o mesmo
homem, ele a amava demais, perdê-la foi o fim para ele. O câncer pode até tê-
lo levado recentemente, mas Matheus já era um homem morto desde a nossa
adolescência.
Aquilo era muito triste, como as pessoas eram impedidas de viverem
o seu amor por causa de dinheiro? Meus avós pelo visto eram uns monstros.
Que não se importavam com a felicidade alheia.
— Você por acaso tem alguma foto dos dois? — questionei, pois
queria ver a época que eu ainda não existia, mas que tinha duas pessoas que
me amariam demais se ainda estivessem juntas.
— Provavelmente devo ter algo, mas preciso procurar.
— Claro.
— Seu pai me disse que recebeu uma ligação anônima para que
procurasse a respeito de uma filha que ele não sabia da existência. Você tem
ideia de quem poderia ligar para ele?
Aquela informação me pegou de surpresa, só que eu não poderia
ajudá-lo, já que até há alguns dias eu nem sabia que tinha um pai que poderia
me querer.
— Não tenho ideia — respondi, ainda meio abalada com toda aquela
história.
— Ele fez tudo escondido de mim, só me revelou quando faltavam
dias para partir. Deixou no testamento que eu precisava te encontrar, e até me
disse algo sobre não confiar em sua tia, só que não imaginei que você vivia
um inferno com ela. Pensei que era algo da cabeça de Matheus.
Quem dera se fosse mentira.
— Ele não se enganou, Edna é um monstro… uma mulher que tenho
medo. — Fiz uma pausa, pensando se realmente podia confiar naquele
homem a minha frente. Mas se eu não pudesse em quem eu confiaria? Não
tinha ninguém vivo para dizer se Eduardo Montana era realmente um homem
legal. — Na minha infância ela me ignorava, meus avós que cuidavam de
mim e foram eles que falaram que meu pai abandonou minha mãe. Eu jurei
que o caso dela era igual o meu, que fui abandonada pelo pai de Pietro. Pelo
visto foi só mais uma mentira que cercou minha vida por todo o meu tempo
de existência.
— Matheus nunca abandonaria sua mãe, ele a amava demais, morreu
amando aquela mulher. Não que eu acredite nesse sentimento, mas existem
pessoas que acreditam até demais.
Encarei aquele homem que parecia realmente estar falando sério.
Eduardo pelo visto não acreditava no amor, o que era triste, como uma pessoa
não acreditava em um sentimento tão bonito?
— Posso ter sofrido muito, mas ainda acredito no amor.
— Você é uma garota ingênua, isso é normal. Enfim, não estou aqui
para falar das minhas crenças. Estou aqui para te falar que ele não teve tempo
de cuidar de você, que ele até queria, mas estava muito debilitado. E eu só
tive tempo de te procurar agora. Então, estou oferecendo ajuda, pois pelo que
entendi sua vida não é nada fácil com Edna.
— Não mesmo, minha tia me odeia. Posso falar isso com toda
convicção, ela nem se importou que o seu “amigo” — fiz aspas com os dedos
— tentasse se aproveitar de mim. Como uma pessoa que tem o mesmo
sangue que o meu pôde fazer algo assim?
O choro novamente estava querendo ser libertado, só que eu não
queria me mostrar tão frágil na frente daquele homem. No entanto, depois de
tudo que passei, a única coisa que eu queria era poder fazer o que eu quisesse.
E se fosse chorar na frente de um estranho era isso que eu iria fazer.
— Não conheço sua tia, mas já não tenho simpatia por ela. Você é
filha de Matheus, e seu pai foi o meu melhor amigo. Fomos criados juntos em
um orfanato, saímos de lá e batalhamos muito para conseguir o que tenho
hoje e ele também tinha, acabou deixando tudo para você. Por isso, não gosto
de injustiça, pois sofremos muito da vida que levamos até chegarmos aqui.
Vi quando Eduardo abaixou a cabeça, aquele homem parecia ser bem
solitário. O que me mostrava o motivo de ele não acreditar no amor. Um
homem que não tinha ninguém para fazê-lo acreditar no amor, não tinha
motivos reais para ter tal sentimento.
Pelo que pude perceber, Eduardo só tinha meu pai, mas ele também
deixou seu amigo para trás, para algo muito fácil: a morte. Afinal, a morte é
muito fácil, difícil mesmo é viver nesse mundo cheio de armadilhas, tristezas
e desespero.
Eduardo era o típico homem que não sorria, ele tinha os olhos lindos,
mas eram tristes, era quase palpável a tristeza que reverberava de todo o seu
corpo, poros, expressão. Droga! Eu me conhecia bem o suficiente, para saber
que queria tentar curar aquele homem que não havia trocado nem meia dúzia
de palavras direito. Houve uma época que eu queria fazer o mesmo com
minha tia, mas ela não aceitou, no entanto eu poderia tentar com Eduardo,
não podia?
O que eu estava dizendo?
Meu Deus!
Não, eu precisava tirar aquele pensamento da minha mente.
Ele continuou me contando como montou a empresa com meu pai, o
que achei incrível. Já tinha visto algumas propagandas da empresa de
software que eles possuíam, mas como iria imaginar que era a empresa do
meu próprio pai?
Minha vida foi constituída com uma base de mentiras, agora eu nem
sabia como dar o próximo passo sem me perder pelo caminho.
— Bom, agora você precisa me dizer como quer prosseguir. Quer que
eu chame o advogado e ele explique para você sobre o testamento?
— Tudo bem! Ele pode me explicar, mas eu queria saber onde posso
ficar, pois não tenho um lugar e por agora eu preciso de um local para morar.
Eduardo assentiu e novamente abaixou a cabeça, focando seus olhos
em suas mãos. Acho que essa era uma mania sua para quando estava
pensando.
— Não sou um homem que costuma fazer favores, eu sou bem na
minha, no entanto você é filha de Matheus, por você posso abrir uma
exceção. — O encarei sem entender o que estava dizendo. — Se quiser ficar
em minha casa por alguns dias, até se adaptar com tudo que acabei de te
contar, sinta-se convidada. Tenho vários quartos de hóspedes, e posso pedir
para Lourdes providenciar um berço para Pietro.
— Não quero ser um incômodo.
Não queria mesmo atrapalhar alguém que estava acostumado a viver
em total paz, sem que estranhos tomassem sua casa. Além de que também
não poderia confiar plenamente naquele homem, ele ainda era um completo
estranho para mim. Poderia estar inventando todas aquelas histórias para
poder se aproveitar de mim e do meu filho, não é?
Porém alguma coisa me dizia que eu deveria aceitar sua ajuda. Uma
voz no meu ombro gritava para que eu aceitasse, para que enfim eu recebesse
a ajuda que tanto precisei durante toda a minha vida. Principalmente a
respeito de Pietro, que nunca pôde ter nem sequer um pouquinho de luxo em
seu nascimento, não pôde ter roupinhas suficientes para usar durante uma
semana.
— Você não seria um incômodo desde que não atrapalhasse minha
rotina. Na verdade, eu quase não seria visto em casa, eu passo a maior parte
do meu tempo na empresa, então, seria como se a casa fosse somente sua.
Eu não sabia o que fazer. Tinha somente um pouco de dinheiro – para
me alimentar e alimentar meu filho – na minha carteira, que estava dentro da
minha mala gasta, jogada no canto da sala de estar da mansão de Eduardo.
Sim, o homem solitário possuía uma casa enorme, e pelo visto era somente
para esbanjar dinheiro.
Já que ele não tinha esposa, muito menos filhos, e era cercado
somente por seus funcionários. No entanto eu não ficaria julgando o homem
por gastar o seu dinheiro da forma que ele achava melhor.
Abaixei minha cabeça, porém antes de tomar qualquer decisão
questionei:
— Posso usar seu telefone para falar com uma pessoa importante?
Eduardo me encarou por um tempo. Ele estava me analisando, sem
expressar nada em seus traços.
— Fique à vontade — respondeu, se levantando do sofá. — Estarei
em meu escritório, assim que tomar sua decisão peça para que Lourdes me
chame. Virei ao seu encontro.
— Claro.
Assim que respondi, o homem que não parecia se importar com nada,
se retirou da sala e antes mesmo que eu pudesse me levantar do sofá macio
que estava sentada, Lourdes voltou com Pietro em seus braços. O meu
pequeno pedaço de vida, estava com um biscoito na mão e o comia como se
aquilo fosse a melhor refeição da vida.
Levantei-me e comuniquei a Lourdes:
— Eduardo deixou que eu fizesse uma ligação. — Apontei para o
telefone.
— Fique à vontade, querida. O senhor Eduardo pode ser um homem
caladão, que nunca sorri, mas é um bom homem e se você realmente é filha
do senhor Matheus, ele sempre te tratará com respeito. — Ela abriu um
sorriso, e apertou a ponta do nariz de Pietro. — Não pude deixar de ouvir que
ele fez um convite para que fique aqui até se acostumar com sua nova vida.
Se quiser eu posso te ajudar a cuidar desse lindinho. Tenho certeza que você
se sentirá bem, nós somos pessoas boas.
Aquela mulher parecia realmente uma pessoa boa, ela era um
pouquinho intrometida, pois ficava ouvindo pelas paredes, mas parecia ser só
uma senhora fofoqueira, que não fazia mal a ninguém.
Caminhei até o telefone, enquanto Lourdes ficou brincando com
Pietro. Disquei o número de Matilde, que havia anotado no dia que fui
embora da casa, e esperei enquanto chamava. Depois de uns cinco toques, a
mulher que sempre considerei uma mãe atendeu.
— Alô!
— Matilde? — perguntei só por ser um hábito.
— Menina, que bom que conseguiu entrar em contato comigo, queria
tanto saber se você está bem. Como está o nosso pequeno?
Sempre muito preocupada, como se realmente eu fizesse parte de sua
família.
— Estou com saudades — foi o que disse.
— Menina, estou morrendo de saudades, mas você me deu o melhor
presente em anos. Ver a cara de desespero daquela jararaca quando viu que
você não estava mais aqui. Foi tanta gritaria que eu só queria rir, mas não
pude para não ficar tão na cara que eu a havia ajudado. — Ela fez uma pausa,
mas logo voltou a falar: — Sabe o que é engraçado? A sua tia sempre falava
que te colocaria para fora de casa, e quando você resolve ir embora ela fica
toda estressada. Acho que Edna só falava demais quando você estava aqui,
aquele típico ditado de “cão que ladra não morde”.
Tive que abrir um sorriso, pois até eu seria capaz de voltar aquela
casa para ver minha tia quase tendo uma síncope.
— Para você ver, Matilde. Ela desejou tanto que eu fosse embora, que
acabei indo, agora deve estar louca para que eu volte.
Não queria ser tão ruim, mas senti até certo alívio por saber que Edna
estava colhendo o que plantou.
— Menina, não diga isso nem de brincadeira. Não volte para cá, essa
mulher é completamente maluca, tenho medo que ela tente fazer algo com
você.
Eu também tinha, não sabia o que uma pessoa em seu momento de
fúria podia cometer. Por isso, estava mais segura longe daquela casa, longe
daquela mulher, longe de qualquer endereço que ela resolvesse se mudar.
— Tudo bem, Matilde. Não irei retornar. Só liguei para avisar que
estou bem, mas que estou com um empecilho que preciso de sua ajuda para
resolver.
A mulher ficou em silêncio por um momento, mas logo voltou a
dizer:
— Pode dizer, querida. Só não fale que está em encrenca, senão eu
não poderei te ajudar.
— Não é uma encrenca. Encontrei o amigo do meu pai. Eduardo
Montana, ele se diz ser como um irmão para o meu pai. Devo acreditar?
— Deve sim, querida. Eu me lembro dele, ficava sempre junto com
Matheus o homem por quem sua mãe foi apaixonada.
Aquela informação me pegou de surpresa. Como Matilde sabia o
nome do meu pai?
— Matilde, você sabia quem era meu pai esse tempo todo? —
indaguei completamente curiosa.
— Claro que sim, querida. Mas como eu poderia falar dele para você,
se até eu fui enganada por seus avós? Jurei que aquele menino havia
abandonado sua mãe, e descobri recentemente por ter ouvido sua tia fuxicar
com Clotilde sobre a verdade dos fatos. Seus avós separaram sua mãe de
Matheus, o coitadinho não sabia que você existia. — Ela fez uma pausa,
enquanto meu coração estava completamente disparado.
Ela realmente sabia tudo sobre mim e nunca havia me contado. No
entanto não podia ficar com raiva da única pessoa que ficou ao meu lado
durante todo o tempo que sofri com as maldades da minha tia.
— Foi eu que liguei para o seu pai, menina. Desculpa nunca ter te
falado nada, mas não queria que você sofresse com a rejeição. Só descobri
que Matheus não sabia da sua existência recentemente, senão eu mesmo teria
te levado para ele quando você nasceu. Não se deixe enganar, nem seus avós
te queriam, se não eles ao menos teriam deixado algum dinheiro para você
não é mesmo?
Senti meus olhos se encherem de lágrimas, não era possível que fui
ainda mais enganada. Naquele momento senti meu coração se quebrar, nem
os meus avós me queriam. Era aquilo mesmo?
— Obrigada por ter me ajudado, Matilde — agradeci, com a voz
embargada. — Eduardo me convidou para passar algum tempo em sua casa,
você acha que aceito? — Ainda precisava do conselho da mulher que me
conhecia tão bem.
— Aceita, meu amorzinho. Ele é sua melhor opção.
Sim, pelo jeito a única pessoa que podia me salvar de um futuro
completamente desastroso era Eduardo. Um homem que eu nem conhecia,
mas que precisaria confiar.
— Tudo bem, eu confio na sua palavra.
— E eu sempre estarei aqui por você, Vitória — Matilde respondeu,
toda emocionada.
— Quando tudo estiver acertado, eu vou te buscar.
— Vou aguardar, garota.
Depois que desliguei o telefone, me voltei para Lourdes que me
encarava, provavelmente querendo uma resposta.
Estava na hora de cometer outra maluquice para tentar ser feliz e
livre, não é mesmo?
— Avise ao Eduardo que eu ficarei alguns dias aqui.
Só esperava que aquilo não acabasse mal.
Capítulo 6

Cinco dias que eu tinha a espécie de um intruso em minha casa. Sabia


que a culpa era minha, eu me ofereci para ela ficar aqui, não foi? Ofereci que
se hospedasse em um dos meus quartos e que cuidasse de seu bebezinho da
melhor forma.
Lourdes havia ido com a garota ao shopping para comprar algumas
coisas. Claro que ofereci meu cartão, pois a moça parecia precisar de roupas
tanto quanto seu filho. E elas quase trouxeram todas as lojas para casa. Pela
quantidade de sacolas que havia chegado, imaginei que deveriam ter passado
horas fazendo compras. Tinha até medo de acompanhá-las em suas aventuras.
Agora depois de cinco dias, eu tinha medo de sair do meu quarto no
meio da noite, para não ter que encontrar uma ruiva e um bebê pelo caminho.
Às vezes eu tinha vontade de agredir Matheus por ter me deixado aquela
missão, agora tinha que servir de babá para uma mulher de dezenove anos e
um bebê de quase dois.
O advogado já havia comparecido à minha casa, e explicara que
demoraria alguns dias até que a herança de Matheus fosse completamente
transferida para Vitória, ainda mais que alguns documentos ficaram em
aberto. E ela aceitou numa boa, parecia ser uma garota que aceitava tudo que
falavam para ela. Literalmente uma garota boa demais, que chegava a ser
boba.
Daquele jeito ingênuo que as pessoas adoravam pisar em cima. Devia
ser por isso que ela fora tão humilhada por sua tia. Uma mulher que era tão
intragável que só de imaginá-la, me dava vontade de vomitar.
Saí dos meus devaneios assim que vi uma estrela cadente passando
pelo céu. Estava na sacada do meu quarto observando a noite. Usava uma
calça de moletom, mas estava sem camisa, pois odiava usar uma para dormir.
Senti meu estômago doer, estava com fome, mas não queria sair do
quarto no meio da noite e correr o risco de encontrar Vitória. Ela parecia
querer conversar sempre que podia, e eu era um homem de poucas palavras,
só queria ficar na minha. Solitário, e em paz, ouvindo somente os bichinhos
da noite.
No entanto meu estômago novamente protestou e eu tive que atender
a seu pedido. Antes de sair do quarto, peguei uma camiseta cavada, e fui até a
cozinha. O quarto que Lourdes escolheu para Vitória era bem longe do meu,
o que eu agradecia, pois não estava nem um pouco a fim de ouvir uma
criança chorando no meio da noite.
Assim que cheguei à cozinha, fui direto para a geladeira, procurando
qualquer coisa que pudesse matar minha fome. Não acendi nenhuma luz, pois
não queria chamar atenção de ninguém. Mas também pelo horário as únicas
pessoas que deveriam estar acordadas eram os seguranças, e eles raramente
entravam dentro de casa naquele horário.
Assim que achei tudo que dava para preparar um sanduíche, comecei
a fazer um que mataria minha fome. Coloquei na torradeira e esperei até que
derretesse o queijo, já que eu amava queijo derretido.
Tirei o pão, o coloquei em um pequeno prato e me sentei em um dos
bancos que ficava perto da ilha da cozinha. Dei uma mordida no pão
apreciando o sabor do sanduíche e na segunda vez que levei a boca alguém
resolveu aparecer.
Como já estava acostumado com a escuridão foi fácil perceber os
movimentos da pessoa, no entanto ela não me viu. No escuro não dava para
ver bem, mas eu tinha certeza que era Vitória, a única pessoa que eu queria
evitar de encontrar, porém pelo visto alguma coisa estava a colocando em
meu caminho.
Vitória abriu a geladeira cantarolando alguma coisa que eu não
conseguia decifrar, e eu por outro lado fiquei em completo silêncio, sem levar
o pão à boca: uma estátua. Talvez assim ela não me visse e logo saísse da
cozinha. Mas no momento que a ruiva se virou com uma garrafa de vidro na
mão ela me viu e soltou um grito.
Fechei meus olhos com aquela tragédia iminente e quis ter somente
algum poder que me fizesse desaparecer. Ouvi o som da garrafa que segurava
se partir em mil pedaços e no mesmo momento abri meus olhos preocupado
com a garota.
— É somente eu Vitória — preferi dizer, para que ela não se
desesperasse mais.
— Desculpa, Eduardo. Eu não tinha te visto, e assim que me virei,
eu…
Ela parecia realmente assustada. Me levantei da bancada, e aproximei
da tomada acendendo as luzes – que eu não queria. Olhei em sua direção, ela
estava parada no mesmo lugar, rodeada por cacos de vidro.
Estava descalça e agradeci mentalmente, por ter ficado parada e não
ter se cortado. Seus olhos saíram dos cacos de vidro e se voltaram para mim.
Vi o momento exato em que eles passaram por meus braços que estavam
completamente expostos, no entanto tentou disfarçar.
Aproximei lentamente de onde estava, já que eu usava uma chinela de
dedos. Vitória olhou para mim e antes de tomar qualquer iniciativa,
questionei:
— Posso te ajudar? — Esperei seu consentimento para só depois
abaixar-me e pegá-la em meu colo.
Ela se assustou, mas não fez nada além de grudar as mãos em meu
pescoço, enquanto eu a levantava do chão delicadamente e levava para um
dos bancos perto da ilha da cozinha.
— Você se machucou? — perguntei, enquanto Vitória ainda me
encarava.
A mulher ficou me olhando como se tivesse me visto somente naquele
momento, seus olhos passaram pelo meu corpo, e ela logo respondeu:
— Não, estou bem. Não me cortei nem nada.
Engoliu em seco afastando seus olhos de mim, parecia que era muito
difícil para ela me olhar. Mas estava afim de não dar atenção para aquilo, já
que queria deixar minha casa organizada como eu sempre gostava. Então,
enquanto Vitória ainda estava constrangida sentada no banco, eu fui até a
dispensa e peguei uma vassoura e uma pá, para recolher os cacos de vidro.
Assim que viu o que eu ia fazer, Vitória se levantou do banco e
murmurou:
— Deixa que eu faço, você estava comendo.
Ela parecia ser gentil, muito, no entanto não queria deixar aquilo
passar dos limites, por isso neguei sem responder. Não estava com a mínima
vontade de dar corda para aquela menina que amava conversar.
Assim que finalizei o que estava fazendo, voltei para o meu prato para
finalizar meu sanduíche. A garota ainda me encarava, e eu sabia que seria
questão de tempo para que ela começasse a questionar sobre algum assunto.
Cometi o erro de levantar meus olhos em direção aos dela, e assim que a
olhei ela sorriu meio envergonhada para mim.
— Você sempre está na empresa?
— Uhum — respondi, querendo cortá-la.
— O que você faz lá?
Droga! Pelo visto ela realmente iria querer conversar, se não fosse por
Matheus eu juro que mandaria aquela garota caçar alguma coisa para fazer.
Eu era um idiota, não gostava de me comunicar com as pessoas, então
tudo que saía da minha rotina me estressava. Só queria poder continuar com
ela, porém tudo mudou desde que fiz a proposta para aquela garota ficar em
minha casa.
— Cuido de contratos e tiro algumas dúvidas, nada mais. Eu fazia no
início, mas agora tenho quem faça para mim.
— Entendi, e meu… — Vitória fez uma pausa, mas logo continuou:
— pai, ele fazia o que?
Queria evitar aquela garota, mas como faria isso? Sabendo que ela
ainda estava tão perdida no meio da história maluca que se tornou a sua vida.
— Matheus no início também fazia de tudo um pouco. Como não
tínhamos dinheiro para investir em funcionários nós fomos construindo do
início nossa empresa. Fazíamos os programas e tivemos sorte de ter pegado
um cliente grande em poucos meses que havíamos “montado” a nossa
empresa. Isso fez alavancarmos o nosso nome, e logo seu pai se tornou a cara
da E&M Software, ele fechava os nossos contratos, sempre foi a pessoa mais
comunicativa de nós dois.
Tive que olhar novamente para a garota, pois por um momento ela
ficou calada. O que não era o seu normal. Quando a encarei, percebi que
tinha um sorriso singelo em seus lábios.
— Você parece mesmo ser bem devotado ao meu pai. Ele devia ser
uma pessoa legal.
Legal? Matheus foi um homem muito bom, bom até demais. Às vezes
eu ficava até estressado do quanto ele queria ser tranquilo com todas as
pessoas, mesmo que algumas merecessem ser escorraçadas.
— Matheus foi o meu melhor amigo, foi meu irmão, e a pessoa que
me ajudou quando eu mais precisava. Ele era sim, uma pessoa legal.
— Você poderia me mostrar algumas coisas dele?
Estava passando dos limites, eu só queria voltar para o silêncio, por
isso, tive que ser um pouco grosso.
— Um dia, agora vou para a cama.
Deixei o sanduíche inacabado e fui saindo da cozinha, mas antes de
sumir completamente do lugar ouvi um sussurro vindo da garota que deixei
para trás.
— Boa noite!
Pensei em responder, mas ignorei continuando a caminhar para o meu
quarto.
Não adiantava eu era uma pessoa muito antissocial, não gostava de
modificações em minha rotina, então seria difícil me acostumar com aquela
garota e até mesmo com seu filho. Entrei em meu quarto e me joguei na
cama, sem mesmo tirar a camisa. Estava exausto e só queria apagar por
completo.
No outro dia levantei-me cedo, para ir a empresa, e quando saí ainda
estava escuro. Pude ouvir um chorinho reverberar pelo silêncio da casa, mas
não quis me preocupar, crianças choravam em todos os momentos.
Saí de casa e parti para a E&M Software, passei o dia todo
concentrado em alguns contratos, que nem percebi quando já era hora de ir
embora. Havia parado naquele dia só para um almoço rápido, que se resumia
a um sanduíche nada saudável e estava morto de fome.
Quando chegasse em casa precisava preparar algo para comer
urgentemente, se Lourdes não tivesse pedido para alguma das meninas que
ficavam responsável pela cozinha deixar algo preparado.
Cheguei em casa quando já se passavam das sete da noite, tudo estava
silencioso e escuro. Meus funcionários costumavam ficar livres no período
noturno, já que eu achava um absurdo eles trabalharem para uma casa vazia.
Afinal, eu costumava passar a maioria do meu tempo fora de casa e chegava
muito tarde. Então eles poderiam fazer seus afazeres durante os dias, e à noite
ter tempo para descansar.
Deixei minha maleta em cima de uma das mesinhas que haviam pelo
caminho e tirei o casaco de couro que usava, jogando sobre o sofá da sala.
Assim que comecei a dobrar as mangas da minha camisa até o cotovelo e a
caminhar em direção a cozinha, pisei em algo que fez um barulho alto devido
ao silêncio que a casa se encontrava.
Olhei para o chão e era um bichinho de borracha que fazia um barulho
sonoro quando apertava sua barriguinha. Tirei o pé de cima do ursinho, e o
peguei, olhei por um momento para aquilo e realmente tive certeza que minha
vida mudara desde que ofereci a Vitória à minha casa para ficar durante
algum tempo.
Deixei o bichinho em cima da mesma mesa de canto que estava
minha maleta e fui em direção a cozinha. Novamente estava sozinho e dessa
vez torcia para permanecer assim. Não que eu não quisesse conviver com
Vitória, eu só queria ter a minha paz somente para mim.
Olhei para ver o que tinha na geladeira e achei uma salada caesar, que
estava com uma aparência muito deliciosa. Peguei um prato e coloquei um
pouco de salada para mim, logo sentei-me no banco que ficava perto da
bancada da cozinha e comecei a devorar a comida.
Estava na minha terceira garfada, quando novamente fui interrompido
por ela. A mulher que parecia me perseguir, dessa vez eu ao menos lembrei
de deixar a luz acesa para que ela não se assustasse como a noite passada.
Encarei Vitória, e tive que deixar meus olhos passarem por seu corpo.
Ela estava com uma bermuda jeans colada, que não era muito curta, mas
também não deixava muito para a imaginação. Uma regata branca, e um sutiã
preto, que ficava exposto pela peça que a tapava.
Os cabelos ruivos caiam com ondas por seu corpo, e um sorriso
estampava seus lábios. Ela olhou diretamente para mim, e eu não consegui
desviar meus olhos por nenhum momento.
— Que bom que chegou. Não vou te atrapalhar, vim só pegar um
copo de água e estou voltando. Pietro está meio chatinho hoje, então não
posso deixá-lo por muito tempo.
Vitória nem esperou que eu falasse algo para caminhar até o filtro e
pegar a água que ela tanto queria. Depois continuou saindo sem nem se
importar em se despedir, e eu não deveria ter ficado tão chateado com aquilo,
no entanto senti uma comichão apossar do meu corpo, já que ela sempre
pareceu muito falante.
Terminei minha refeição, decidindo ir para o meu quarto. Eu
precisava de um banho e urgentemente de uma cama. Os dias estavam sendo
complicados, me sentia sobrecarregado, e a empresa estava me desgastando.
Quando eu tinha a ajuda de Matheus as coisas eram mais fáceis, ao menos
não tinha que fingir ser quem eu não era para puxar saco de cliente.
Cheguei ao corredor e novamente ouvi o choro do bebê, no entanto
dessa vez não consegui resistir e caminhei até onde eu sabia que era o quarto
de Vitória. A porta estava aberta e ela estava de costas para mim, com o bebê
nos braços que parecia muito nervoso.
— Filho, se acalma. Nós não podemos atrapalhar o senhor Eduardo.
Ele já tá sendo muito gentil de nos ajudar, então mostra pra mamãe onde tá
doendo, meu amor.
A voz da mulher parecia estar embargada e por um momento pensei
em deixá-la sozinha para cuidar dos seus próprios problemas, no entanto
Vitória parecia totalmente desesperada. Por isso, lentamente me aproximei da
porta do seu quarto e questionei:
— Você precisa de ajuda?
Vitória olhou para mim, com os olhos rasos de lágrimas e respondeu:
— Eu não sei o que está acontecendo. Pietro nunca ficou assim.
Ao ver o seu desespero, tive certeza que teria que me intrometer
naquela história. Não podia deixar aquela menina completamente
desamparada com um filho tão pequeno. Se ela precisava de um ombro
amigo, eu serviria naquele momento.
Entrei dentro do seu quarto e só pedi mentalmente para que o
garotinho não tivesse nada grave.
Capítulo 7

Não sei bem o que seria de mim se estivesse sozinha nesse momento.
Eu estava tentando disfarçar meu desespero durante todo o dia, já que me
sentia um estorvo por estar na casa de Eduardo – um homem que não parecia
querer a presença de estranhos ali, mas que também não me mandava
embora.
O problema maior era que eu sabia que estava rica, que podia sair a
qualquer momento daquela casa, era só esperar que a herança fosse
transferida para mim. Só que no fundo eu sentia que devia ficar um pouco
mais ali na mansão de Eduardo, mas parecia algo tão errado, invadir a
propriedade de outra pessoa que estava sendo gentil só por cortesia.
Porém naquele momento Eduardo era minha única salvação, ou
melhor nos últimos dias ele estava sendo minha salvação para muitas coisas.
Me deu um teto para morar, enquanto eu fugia de uma tia maluca, deu várias
roupas, brinquedos, e até um berço para Pietro e para mim. Fazia com que
Lourdes me oferecesse tudo que era possível.
Quando ele pegou meu bebê dos meus braços completamente
cuidadoso, e começou a aconchegá-lo naqueles braços músculos que eu já
havia visto muito bem, eu quase agradeci a ele de joelhos.
Não sabia o que meu pequeno tinha, Pietro nunca havia ficado
daquela maneira, então tudo era um mistério para mim. Eu era uma mãe de
primeira viagem que tive que aprender a cuidar de um bebê sozinha, sem o
apoio de ninguém. Matilde que era a única que me ajudou em todo esse
trajeto nunca pôde ficar completamente ao meu lado, já que ela tinha que
ajudar a megera de tia que eu tinha.
No entanto eu tive que aprender sozinha quase tudo. Igual a trocar
fraldas, a cuidar das dores de ouvido, das dores de barriga, do desespero de
ter um dos meus mamilos inflamados no início da amamentação. Agora eu já
não dava mais de mamar, pois o meu leite não durou mais do que os
primeiros meses, mas mesmo assim no início foi muito difícil. Era impossível
não ficar desesperada quando seu filho novamente começava a chorar como
se estivesse sentindo muita dor e você não sabia o que era.
— Você tem alguma noção do que ele possa estar sentindo? —
Eduardo questionou.
Ele parecia entender como tratar uma criança. A segurava com toda
precisão, por um momento pensei que ele poderia já ter tido um filho e não
me contou.
— Já tentei de tudo, dor de ouvido, dor de barriga e nem a mamadeira
ele quis.
Eduardo voltou seus olhos magníficos em minha direção, mas logo
voltou a encarar Pietro. O seu cenho franzido me deixava ainda mais
apavorada, e foi impossível conter novamente mais algumas lágrimas que
quiseram cair por meu rosto.
— Se arrume, vamos levá-lo a uma emergência, não podemos deixar
essa criança chorando neste estado.
Assenti, e enquanto ele colocava Pietro em seu carrinho, corri até o
armário e peguei um moletom para vestir. Fui até o banheiro para trocar de
roupa, quando voltei para o quarto Eduardo me aguardava e eu mais que
depressa peguei os documentos necessário, além de pegar Pietro do carrinho.
Descemos as escadas apressadamente. Eu o segui em silêncio até a
garagem da casa, onde ele destravou sua Land Rover, entrei na porta traseira,
e como ele não tinha cadeirinha de bebê, deixei Pietro em meu colo, depois
passei o cinto de segurança por nossos corpos.
Não prestei atenção por qual caminho seguíamos, já que eu não
conseguia desviar os olhos do meu filho, que ainda chorava
desesperadamente. Assim que chegamos em um hospital que aparentava ser
muito chique, caminhamos para dentro e Eduardo tomou a frente da situação.
Foi explicando para a atendente o que estava acontecendo, dando ordens de
que queria ser atendido imediatamente.
Não sabia se era por se tratar de um hospital particular, ou por
Eduardo estar exigindo ser atendido, mas logo fomos encaminhados para a
pediatra de plantão. Era uma mulher bonita, loira, alta, e parecia mais uma
modelo do que uma médica. No entanto assim que começou a nos atender, e
depois de alguns exames, fora constatado que Pietro estava com inflamação
de garganta.
Aquilo era algo que eu não sabia como tratar, Pietro ainda não tinha
passado por aquilo, então eu não tinha a mínima ideia do que fazer. A
doutora Isabel, aplicou um remédio que ajudaria meu pequeno a se acalmar e
começasse o tratamento para controlar a inflamação. Depois passou uma lista
de remédios que ajudaria a tratar aquela inflamação.
— Papais, agora podem se acalmar, que o bebê de vocês logo vai
estar ótimo. — A doutora sorriu em nossa direção.
Olhei para Eduardo no mesmo momento que a médica o confundiu
como pai de Pietro. Ele não expressou nenhuma reação, o que agradeci, não
estava com a mínima vontade de passar por uma cena depois de tudo que
aconteceu em meu dia.
Assim que Pietro estava totalmente controlado a médica nos liberou, e
antes de voltarmos para o carro Eduardo parou na calçada do hospital e me
estendeu a mão. O encarei sem entender o que estava querendo.
— O que foi?
O homem que permanecia calado desde que a médica consultou
Pietro, resmungou por um momento, algo totalmente incoerente e
comunicou:
— Me dê a receita que irei à farmácia do outro lado da rua para
comprar os medicamentos.
Assenti e estendi o papel para ele, fiquei o olhando enquanto
atravessava a rua e ia até o local que falou. Pietro nesse momento encostou
sua cabecinha em meu ombro e eu o ninei, ele iria pegar no sono finalmente e
eu só podia agradecer a Eduardo por ter nos levado até o hospital, senão eu
nunca saberia o que meu filho teria e não teria como tratar.
— Vocês são uma família muito bonita.
Olhei para o lado que ouvi a voz. Era uma senhora que aparentava ter
uns sessenta anos, ela estava sentada no banco que ficava na calçada do
hospital. Provavelmente estava com algum familiar internado ou tendo
alguma consulta de emergência.
— Não somos uma família… é somente eu e meu pequeno. —
Apontei com minha cabeça para Pietro que já havia pegado no sono.
Sua boquinha estava aberta, e só agora depois da médica me dar um
diagnóstico é que reparei que seu nariz estava entupido.
— Ah, querida! Eu sou velha, mas não sou cega. Tenho certeza que
vocês serão uma linda família. — A mulher voltou a dizer, e eu meio sem
graça só direcionei um sorriso em sua direção.
Não queria ouvir aquele tipo de coisa. Nem conhecia Eduardo, como
as pessoas podiam sugerir que éramos uma família? Também não poderia
levar em consideração o que aquela mulher dizia, já que ela parecia ter muita
idade, provavelmente a sanidade já estava a deixando. No entanto parecia ser
uma boa pessoa.
Vi Eduardo saindo da farmácia, enquanto um homem mais jovem se
aproximava da senhora que estava sentada no banco.
— Vamos vovó?
Ela estendeu a mão para o rapaz, e acenou para mim quando já estava
em pé.
— Boa sorte com o menininho, querida. Amanhã ele já vai estar bem
melhor com a inflamação de garganta.
— Obrigada! — respondi, e observei enquanto a senhora se afastava.
Só que no mesmo momento o meu sorriso morreu.
Eu não tinha falado para ela que Pietro estava com inflamação de
garganta. Fiquei a encarando, mas ela não voltou a me olhar. Senti por um
momento meu coração disparando e a minha pele se arrepiar. Por qual motivo
ela tinha me falado aquilo?
— Tudo bem? — Eduardo, perguntou quando parou ao meu lado.
Voltei meus olhos para ele, que me encarava como se tentasse
decifrar o que tinha acontecido. Provavelmente eu estava com uma expressão
estranha no rosto.
— Sim, só quero voltar para casa… quer dizer... para sua casa. Estou
exausta.
Eduardo assentiu e começamos a caminhar para o seu carro. Fizemos
o mesmo processo da vinda, mas agora felizmente meu bebê estava calminho
em meus braços, dormindo como um anjinho.
Chegamos à mansão que ficava um pouco distante do centro da
cidade, e assim que entramos na casa, olhei para Eduardo. Eu não queria
perturbá-lo mais, pois já havia percebido que ele não queria trocar muitas
palavras comigo, mas tinha que agradecê-lo.
— Obrigada, Eduardo. Você não tinha obrigação nenhuma de me
ajudar, mas mesmo assim o fez. Não sei como pagarei pela consulta, mas
assim que eu souber quero deixar tudo certo com você.
O homem que sempre estava com a expressão mais fechada, me
encarou como se eu tivesse falado a coisa mais ridícula do mundo.
— Não te cobrei nada.
— Eu sei que não, porém não quero me sentir ainda mais um estorvo
na sua vida. — Comecei a caminhar para as escadas, mas antes de subir
voltei-me para ele que ainda me encarava. — Pode pedir para o advogado vir
essa semana? Quero finalizar todo o assunto da transferência da herança.
O homem assentiu, e não disse mais nada. Subi as escadas e fui para o
quarto que tinha se tornado meu por aquele período de tempo que estava
passando ali. Assim que cheguei nele, fui até o berço do meu pequeno e o
deitei. O observei por um momento, com um sorriso bobo em meus lábios.
Era sempre incrível encarar meu bebê, sentia meu coração disparar
com cada traço do seu rosto. Sentia meu amor por ele aumentar a cada
respiração que dava. Pietro era meu mundo, e sinceramente, eu podia até não
ser a melhor mãe, no entanto tentava ao máximo fazer com que meu bebê
ficasse bem.
Tentava fazer com que se sentisse amado e especial. Não queria em
hipótese alguma que ele sofresse como eu sofri na minha infância. Queria que
tivesse a melhor vida de todas. Acho que toda mãe pensava como eu, no
entanto eu era uma mãe de primeira viagem sem muitos ensinamentos, então
sempre tentaria fazer o meu melhor.
Antes que pudesse tomar um banho para tirar a contaminação do
hospital, lembrei-me que a sacola com os remédios de Pietro havia ficado na
sala, por isso, quase me amaldiçoei por esquecê-la no andar de baixo.
Caminhei rapidamente até o local que deixei a sacola e logo a
encontrei. Assim que ia voltar pelas escadas, uma sombra na sala de estar
chamou minha atenção. Não consegui voltar para o quarto sem antes verificar
quem era. Na verdade, passava levemente pela minha cabeça quem poderia
ser, mas mesmo assim a curiosidade era maior.
Fui até a sala lentamente e assim que a luz da lua entrou pela janela
pude ver que se tratava de quem eu imaginava. Eduardo estava sentado no
canto de um dos sofás que ficava disposto no ambiente, um copo de uísque
estava em sua mão, e a outra repousava em sua perna.
Novamente algo dentro de mim gritou mais alto e eu não consegui
deixar aquele homem que parecia tão triste sozinho. Eduardo era muito
solitário para eu ser indiferente com aquilo. Acho que eu era amorosa demais
para aceitar aquela situação numa boa, eu era solitária demais para achar
normal um homem como Eduardo ser tão abandonado.
Não conseguia deixar as pessoas se sentirem tão miseráveis. Ele até
podia tentar demonstrar aquilo, poderia ser um bruto e me tratar em sua
maioria um pouco mal, porém eu não conseguia deixar o homem que me
ajudou com meu filho de lado.
Eu sabia que Pietro estava calminho, por isso, dei alguns passos até
parar perto de Eduardo.
— Está tudo bem? — perguntei, tentando ser o mais amigável
possível.
— Não sou eu que está doente, e sim o seu filho. — Foi o que ele
respondeu.
Grosso. Totalmente idiota. A vontade que dava era de mandá-lo ir
para o inferno. Estava só tentando ajudar e ele me tratava como uma imbecil.
— Eu sei muito bem quem está doente. Mas você parece tão sozinho,
que vim ver se estava bem, pois eu posso ajudar em algo se precisar.
Eduardo virou a bebida em um gole só e voltou a dizer:
— Se eu estivesse precisando de ajuda, pode ter certeza que pediria, e
provavelmente não seria para você. Então, pare de tentar ser legal, que você
só fica sendo…
Esperei que ele terminasse, no entanto nada foi dito. Balancei minha
cabeça e completei a sua frase.
— Chata? — indaguei, mas não esperei por sua resposta. — Eu sei
que falo demais, mas é só porque nunca tive muito com quem conversar,
então quando encontro pessoas diferentes quero saber de tudo que essa
pessoa puder falar. Desculpa se não sou o poço de silêncio que você
imaginou. Sinto muito mesmo, por ter estragado sua vidinha pacata. É
exatamente por isso que quero conversar com o advogado para poder sumir
da sua vida.
Sem esperar mais, saí da sala e voltei para o meu quarto o mais rápido
que pude. Não queria ver aquele homem mais, pelo menos não naquele
momento, estava com raiva e era muito difícil eu ter aquele sentimento.
Porém Eduardo conseguiu despertar o pior em mim.
Entrei no meu quarto e Pietro continuava a dormir. Deixei a sacola
com remédio em cima da cama, logo tirei minhas roupas e fui para o
banheiro. Seria um banho rápido para o caso do meu filho acordar eu estar ao
seu lado.
Porém a água quente também era boa para tirar o sentimento
assassino que apossava do meu corpo. Eduardo era um ser irritante, e não sei
como as pessoas o suportavam. Ele não conversava e toda vez que eu tentava
falar algo, era recebida com quatro pedras nas mãos.
Aquele homem não merecia que ninguém se importasse com ele, e
sinceramente eu faria o que ele queria. Deixaria de me importar, deixaria de
ser idiota ao ponto de tentar ficar puxando saco de quem não queria. Assim
que saí do banheiro, vesti um pijama e me deitei na cama, peguei no sono em
seguida deixando os problemas de lado para poder descansar.
Amanhã seria um novo dia, meu filho estaria melhor, e eu torcia para
não me humilhar mais uma vez para aquele imbecil.
Capítulo 8

Tudo bem, eu era um idiota!


Não tinha como negar, quando eu tratava uma pessoa que só estava
tentando ser gentil comigo daquela maneira. Podia não gostar de conversar
com ninguém, podia ser solitário, mas ao menos deveria tentar manter a
cordialidade quando uma pessoa – que eu convidei – tentava ser gentil
comigo.
Porra! O filhinho dela estava doente, e ao invés de apoiá-la, eu
simplesmente joguei mais merdas para cima de Vitória. Ela parecia ser bem
inexperiente com seu filho, e até podia entender depois de descobrir um
pouco de sua história.
Perdera a mãe quando nasceu, teve uns avós filhos da puta que
inventaram mentiras sobre Matheus, e ainda tinha Edna: uma imbecil que ao
invés de ajudar a menina só fez maltratá-la ainda mais. Para piorar Vitória
ficou grávida e o pilantra do pai a abandonou.
Aquela menina era muito forte para a quantidade de merdas que havia
acontecido em sua vida. E aparecera eu, depois de anos, falando ser amigo do
seu falecido pai. Como eu podia não ter o mínimo de filtro para tratar aquela
garota?
Eu não podia deixar meu passado interferir no meu presente. Era por
isso que nada dava certo para mim… mentira, neste momento eu estava
mentindo. Muitas coisas deram certo para mim, consegui me tornar um
homem bem sucedido, minha empresa cada dia mais crescia e me tornava um
homem ainda mais conhecido.
Porém se tratando de vida pessoal, me tornei um idiota, que não se
importava muito com os sentimentos de ninguém, no entanto aquilo se dava
devido aos meus sentimentos terem sido destruídos.
Até tentei ser o cara que foi criado em um orfanato e que era cheio de
vitórias, que seria um exemplo de pessoa. Só que seria impossível quando
você percebia que sua vida era uma merda e que ficava pior com a medida
que as pessoas te julgavam por você não ter pai nem mãe, sendo que aquilo
não era uma culpa minha. Fui abandonado pela pessoa que devia me amar, e
não sabia agir de maneira correta para fazer aquele sentimento de abandono e
tristeza sair de mim.
Odiava me martirizar tanto, mas infelizmente o silêncio que eu tanto
amava, às vezes fazia com que eu tivesse pensamentos mórbidos e aquilo
acabava com meu discernimento. Fui até o bar que ficava disposto no canto
da minha sala e enchi até a metade do copo com uísque. Aquele era o
segundo da noite, e não estava com a mínima vontade de parar por ele, só que
novamente meu silêncio foi interrompido, dessa vez pela a única mulher que
conseguia me colocar no lugar.
— Não acha que já está tarde demais para ficar bebendo? — Lourdes
questionou.
— Acho que um dia ou outro eu posso sair do meu estado normal,
não? — Voltei meus olhos em sua direção.
Minha governanta, usava um robe de cetim, roxo, estampado com
diversas flores. A roupa era completamente discreta e aquilo provava que ela
saiu da cama para fuxicar, já que aquela senhora, que tinha idade para ser
minha mãe adorava uma fofoca.
— A sorte é que amanhã é sábado.
— Você pode perguntar o que veio perguntar, Lourdes. Não sou
idiota ao ponto de não perceber que você só está aqui para saber o que
aconteceu.
A mulher abriu um sorriso sem graça, mas se aproximou de mim.
— Não vim aqui só por ser fofoqueira, mas também por que sabia que
você poderia muito bem estar assim. Já que amanhã é seu aniversário, e você
odeia a data em si.
Eu até tinha esquecido que amanhã era o tão temido dia onze de
setembro, minha data de aniversário. Ou ao menos era o que estava escrito na
carta que fora deixada na cesta que me encontraram em frente ao orfanato.
Sempre ficava meio depressivo nessa data, no entanto dessa vez nem
estava lembrando que amanhã seria o fatídico dia, mas pelo visto meu corpo
e minha mente estavam cientes disso, pois só aí percebi que estava agindo
estranho.
— Não odeio a data, só não tenho nada para comemorar, Lourdes.
— Querido, só por você estar vivo já seria motivo de comemoração,
entende?
Sempre o mesmo papo de eu dever amar a minha vida e a
oportunidade que foi me dada. Por eu ser o homem que eu era hoje em dia. E
eu era o que? Um imbecil que gritava com outras pessoas à toa.
— Lourdes, não quero saber desse papo motivacional, entende? —
Virei o copo da bebida de uma só vez.
Senti o líquido quente descer por minha garganta queimando, depois
depositei o copo em cima de um aparador. Logo comecei a caminhar em
direção da porta que me levaria para as escadas e finalmente para o meu
quarto.
— Não terminei de falar, Eduardo.
Fechei meus olhos, porém parei para ouvir o que ela tinha a dizer.
— O que aconteceu para você e a menina Vitória saírem?
Sabia que ela não iria aguentar se não mexesse naquela história.
Passei a mão por meus cabelos curtos e respondi:
— O Pietro está doente, preferi levá-los a um hospital. Agora já está
melhor.
— Viu, no lugar que você pensa que não existe um coração, ainda tem
algo que se importa com os outros.
— Nunca disse que não me importo com os outros, se não me
importasse não teria sentido tanto a morte de Matheus. Isso não significa que
ficarei fazendo boas ações e tentando me aproximar de quem eu não quero.
Estamos entendidos, Lourdes? — Olhei por cima do ombro, para a mulher
que me encarava com as mãos na cintura, parecendo muito indignada com o
que eu estava falando.
— Claro, senhor.
Não esperei que ela viesse com outra enxurrada de perguntas, saí da
sala e subi as escadas rapidamente. Não parei nenhum segundo sequer, a não
ser assim que atravessei a porta do meu quarto e me tranquei dentro do lugar.
Ali eu teria paz, sem filha de melhor amigo tentando fazer uma
amizade forçada, não teria governanta que achava que mandava em minha
vida, e que talvez soubesse meu futuro. Eu teria somente a solidão, escuridão
e o silêncio.
Tirei minha jaqueta de couro e joguei sobre uma cadeira que estava
perto da janela. Depois tirei minha camisa, minha calça e pôr fim a minha
boxer. Caminhei lentamente até o banheiro e liguei o chuveiro na água
quente.
Queria relaxar meus músculos e foi por isso que me coloquei embaixo
da água. Quando ela tocou minha pele, consegui pelo menos aquele momento
respirar sem sentir o peso do dia sobre meu corpo.
Fechei meus olhos, e encostei minha testa na parede. Era isso, eu iria
completar mais um ano de vida, uma vida que era mais como uma incógnita.
Que eu nunca soube ao certo o caminho correto para seguir.
Após sair do banho, enxuguei meu corpo e nem me vesti. Só me
joguei sobre a cama e dormi, sem pensar muito no amanhã. No entanto minha
noite foi embalada por sonhos muito estranhos.
Eu abraçava alguém que não sabia dizer ao certo quem era. Mas no
decorrer do sonho, uma mão que tinha a pele macia passou por meu rosto, e
eu apertei a cintura da mulher… sim, era uma mulher, magra, com curvas nos
lugares certos.
Logo nossas bocas se chocaram e eu fui obrigado a levar minhas
mãos aos seus cabelos que eu amava apreciar. Meus dedos entrelaçaram nos
fios ruivos e de repente aquele perfume parecia tão familiar. Aquela boca
parecia fazer parte constante da minha vida. Quando a mulher se afastou e
encarou meus olhos, meu coração disparou.
Era ela…
A mulher que eu deveria evitar…
Porra! Era a filha do meu melhor amigo…
Vitória!
Sobressaltei-me sobre a cama e imediatamente me sentei no colchão.
Olhei pela janela que havia esquecido de fechar as cortinas e o sol já irradiava
no céu. Por outro lado, nada daquilo parecia fazer sentido depois do sonho
que tive.
Agora além de me sentir escroto por ter tratado a mulher daquela
maneira, ainda tinha sonhos obscenos com ela? Eu nem podia imaginar uma
coisa daquela, eu tinha só um papel em minha vida: cuidar de Vitória.
Esse fora o pedido de Matheus, e não ter sonhos com ela,
principalmente se esses sonhos envolvessem beijos, e as mãos dela passando
por meu corpo. Era melhor ser idiota do que me tornar um tolo que desejava
a filha do amigo.
Levantei-me e fui até o meu armário, procurando algo mais despojado
para usar naquele sábado. Estava tão cansado que não ousaria trabalhar hoje,
por isso, peguei uma bermuda cargo, uma camiseta de algodão, e chinelos.
Aquele seria o meu look do dia.
Após vestir a roupa e fazer a minha higiene, saí do meu quarto. Olhei
pelo corredor e o caminho estava livre, por isso, comecei a seguir adiante.
Assim que desci as escadas, senti um cheiro maravilhoso de bolo de laranja
assado. Sabia que aquela maravilha vinha da cozinha por isso caminhei para
lá, no entanto, antes de chegar no lugar escutei vozes e parei para ouvir o que
falavam, já que meu nome saiu de uma das bocas.
— Mas ele é assim mesmo, querida. Eduardo é um homem solitário,
que não acredita que pode se relacionar com ninguém. O único amigo que ele
tinha foi seu pai, pois eles cresceram juntos no orfanato. Para mim ele tem
medo de se relacionar e ser abandonado.
— Eu também não tive uma vida fácil, Lourdes. Nem por isso fico
atacando as pessoas. — Ouvi Vitória falar.
— Querida, mas ninguém pode comparar a dor de ninguém. Você ao
menos tem essa gracinha de filho.
— Não estou comparando, só estou dizendo que não sou uma sem
educação como ele. Tentei conversar tranquilamente com Eduardo durante
todos esses dias que estou aqui em sua casa, mas ele nem me deu abertura
para um “oi” digno. Estou realmente cansada e querendo ir embora desse
lugar.
Elas ficaram em silêncio, e o único som que podia se ouvir era os
resmunguinhos de Pietro. O cheiro do bolo de laranja teria que esperar, já que
eu não queria entrar na cozinha naquele momento. Não com Vitória lá, ela
ainda estava indignada comigo, e eu assustado com o sonho que tive.
Saí do corredor e fui para meu escritório. Sentia-me o estranho da
casa e não o verdadeiro dono. Parecia que estava invadindo o espaço de
Vitória, por isso, quis me afastar.
Assim que cheguei ao escritório lembrei-me de falar para o advogado
de Matheus vir até minha casa. Mandei uma mensagem a ele, que respondeu
avisando que após o almoço viria sem falta.
Como não estava com a mínima vontade de trabalhar, só fiquei
sentado no sofá de canto do escritório. Mas alguns minutos depois fui tirado
dos meus devaneios ao escutar uma batida leve na porta.
— Pode entrar — autorizei.
Assim que a porta se abriu a garota que eu queria evitar ao máximo
apareceu, ela estava com um vestido roxo e os cabelos soltos. A única vez
que a vi de cabelos amarrados, foi quando fui até a casa de sua tia.
— Oi — cumprimentou-me, completamente sem graça.
— Olá! — Eu podia deixar de ser um pouco escroto.
— Você já falou com o advogado? — questionou, abaixando seus
olhos para suas mãos.
Então era isso, ela queria saber sobre o seu futuro. E não me perturbar
com seu falatório incessante.
— Sim, ele virá hoje à tarde, para falar sobre a transferência. E fechar
os pontos que ficaram em aberto da outra vez.
— Que bom, então. Obrigada — dizendo isso, Vitória começou a sair
do escritório.
— Vitória, espere.
A mulher parou, esperando o que eu tinha a dizer.
— Mesmo depois que ele te explicar como as coisas funcionarão,
você pode ficar aqui.
Ouvi uma risada que parecia ser de ironia. Por um momento eu quis
me fazer de idiota e não entender, no entanto eu havia entendido muito bem.
Ela voltou-se em minha direção. Me olhou com aqueles olhos claros, e o
sorriso ainda estava em seus lábios.
— Você acha mesmo que ficarei aqui depois do que me disse ontem?
Vitória parecia realmente chateada com o que eu havia falado. E
claro, que eu não tirava sua razão, mas será que seria difícil fazer ela entender
que eu era um caso perdido?
— Olha, sou um homem muito difícil de ser compreendido, Vitória.
Mas eu era o melhor amigo do seu pai, ainda tem muita coisa que tenho que
te contar sobre ele. Só que às vezes eu estouro e não quero pessoas ao meu
redor. Sou um homem acostumado com o silêncio, com a solidão. — Abaixei
minha cabeça, porém voltei a olhar aquela garota. — Só tenha paciência para
me aguentar, que no tempo certo eu falarei tudo que você quiser saber sobre
Matheus.
Vitória ficou em silêncio por um momento, e o sorriso irônico havia
sumido dos seus lábios. Passou seus olhos por meu escritório e quando os
voltou para mim, murmurou:
— Tudo bem! Só não seja tão idiota, senão eu vou embora e vou ter
que descobrir quem é meu pai sozinha.
Assenti e ela antes de sair sorriu para mim, no entanto dessa vez
parecia realmente verdadeiro.
— Feliz aniversário!
Com isso a ruiva saiu do escritório e me deixou novamente no
silêncio que tomava minha vida. Parecia que quando a tagarela estava por
perto, eu me sentia com menos demônios. Talvez Vitória seria o ponto para
eu mudar de vida, só não estava percebendo aquilo com coerência, não estava
dando a oportunidade necessária para ela.
Capítulo 9

Se em algum momento da minha vida alguém me dissesse que eu


ficaria rica da noite para o dia eu não acreditaria. Afinal, era impossível algo
assim acontecer. Eu até parecia a gata borralheira, mas não imaginava que
realmente minha vida daria uma girada gigantesca dessa forma.
Quando o advogado veio pela primeira vez conversar comigo, não dei
muita atenção aos fatos. Já que ainda estava muito abalada com toda a
história da fuga da casa de Edna. No entanto, agora estava atenta e ainda
chocada com tudo o que ele falava.
Coloquei Pietro no chão e como bem o conhecia, meu pequeno ficou
todo alegre. Começou a engatinhar de um lado para o outro. Encarei por um
momento Eduardo e ele observava meu menino passear pelo seu tapete
caríssimo.
Até vi um formato estranho tomar seus lábios, mas aquilo nem
poderia ser considerado um sorriso. Eduardo pegou um dos bichinhos que
estava sobre o sofá e estendeu para Pietro. Foi impossível não me derreter um
pouco vendo a interação dele com meu bebê.
O advogado do meu pai estava sentado na poltrona oposta a que eu
estava, e continuava lembrando-me do que havia herdado. Era muita coisa, e
se eu parasse para pensar talvez eu teria mais dinheiro que Edna.
— Além de sua parte na empresa, você também herdou todo o
dinheiro que está em suas contas bancárias. A casa de campo em Gramado,
os dois apartamentos que Matheus possui em São Paulo, a casa de Miami...
Meu pai era realmente rico. Meu Deus!
Enquanto Adriano, o advogado continuava falando, comecei a me
perder em pensamentos, desviando totalmente minha atenção do homem que
estava sentado à minha frente.
Não era justo herdar aquilo tudo sendo que nem pude conhecer a
pessoa que estava me dando aquela fortuna. Senti meus olhos se encherem de
lágrimas. Não era justo não ter tido a oportunidade de conhecer Matheus,
queria saber como era a pessoa que mesmo no fim de sua vida, quando
descobriu da minha existência, quis me deixar resguardada.
Não era justo eu ter tido um pai, que pelo que falavam poderia ter sido
o melhor pai do mundo e eu acabei não o conhecendo. Tudo isso por minha
família ser a pior que alguém poderia ter.
Pietro veio engatinhando em minha direção e assim que chegou as
minhas pernas, ele segurou nelas e começou a escalá-las. Segurei meu
pequeno, para que ele não caísse, e assim que o sentei em meu colo, Eduardo
pronunciou:
— Entendeu Vitória?
O que eu tinha que entender? Que tive um pai, mas que não pude
conhecê-lo e que agora um sentimento de perda estava atacando meu coração
e minha mente? O dinheiro era o de menos, se tratando do homem que
deveria ter sido um ótimo pai se tivesse tido oportunidade.
Encarei Eduardo, e senti que não conseguiria mais conter as lágrimas,
por isso, deixei elas escorrerem por meu rosto. Pietro olhou para mim e
mesmo sendo tão pequeno, apoio a cabeça em meu peito sabendo que algo
estava errado.
Vi o homem que eu poderia considerar quase um tutor, me olhar de
volta com o cenho franzido sem entender o que estava acontecendo.
— Está tudo bem? — questionou.
E só acenei negativamente com minha cabeça. Nada estava bem, nada
mesmo. Era só agora que eu percebia o quanto de coisas boas perdi na minha
vida.
— Não sei se posso aceitar essa herança — comentei, com a voz
embargada pelo choro.
— Como assim? — Eduardo indagou.
Uma vontade incontrolável de sair correndo dali me tomou. Por isso
levantei-me, sendo uma pessoa extremamente sem educação e deixando o
advogado sem entender nada. Já era a segunda vez que ele vinha ali e eu não
resolvia nada. Acabei me retirando da sala.
Caminhei com meu bebê grudado comigo até a área externa da casa.
Parei perto da piscina, onde dava uma bela vista para a propriedade de
Eduardo e imaginei que ele era tão rico quanto o meu pai. Como será que ele
conseguiu superar os seus demônios?
Ouvi que alguém se aproximava, no entanto nem direcionei meu olhar
para a pessoa. Imaginei que seria Lourdes, ela amava uma fofoca e não podia
perder aquela oportunidade para saber o que aconteceu.
Porém, para minha total surpresa, não era a governanta de Eduardo e
sim o próprio que havia vindo atrás de mim.
— Não sei o que está pensando, mas não tem como recusar o que seu
pai deixou para você. Era um desejo dele que você recebe todos os seus bens
e o que tivesse direito sobre a empresa.
Ele era tão frio, será que não percebia que eu não estava bem comigo
mesma?
— Não é certo aceitar um dinheiro que ele batalhou para conseguir,
sendo que eu nem o conheci.
Tentei fazer com que Eduardo entendesse o que estava me deixando
destruída.
Pietro murmurou suas palavrinhas fofas, e eu o encarei. Meu pequeno
pedaço de normalidade, o meu amor, o único que fazia eu cometer loucuras
na minha vida.
— Vitória, seu pai queria que você tivesse uma vida ainda melhor.
Ele não sabia que você passava tantas dificuldades, mas agora vejo que
alguma coisa o avisou de que você precisava disso tudo.
Girei e voltei meus olhos para aquele homem. Mais cedo ele estava
completamente despojado, com uma bermuda que me deu uma bela visão de
suas coxas torneadas. No entanto para receber o advogado ele havia optado
por um jeans escuro, a camisa era a mesma, o que não afetava em nada a
beleza daquele homem.
— Estou me sentindo culpada por nunca ter conhecido o meu pai.
Agora parece que só surgi em seu caminho para pegar sua herança. Não sou
interesseira nem nada, entende? — Abaixei minha cabeça, encarando
novamente meu pequeno em meus braços. — Eu queria ter o conhecido.
Queria ter contado os meus medos para ele, falado sobre meus sonhos,
porque a vida tem que ser tão… mórbida às vezes?
Eduardo se aproximou um pouco mais de mim, mas ficou numa
distância segura de mim. Passou as mãos pelos cabelos, olhou para o nada,
mas logo voltou aqueles olhos verdes em minha direção. Aqueles olhos
verdes profundos, que guardava tanta mágoa, tanta perda... Eduardo era um
homem, porém parecia uma criança perdida.
— Seu pai nunca imaginaria que você estaria se aproximando dele por
causa do dinheiro. Ele amava sua mãe mais que tudo, amou tanto Camile que
não quis conhecer outra mulher. Ele teve seus casos, mas o único amor dele
foi sua mãe. Você seria a pessoa mais importante da vida dele, seria a peça
mais preciosa de todas as joias que existentes. Matheus se tivesse tido a
oportunidade de te conhecer, teria lhe feito a filha mais feliz do mundo. Você
sabe que não sou muito de conversa, está sendo muito difícil te falar essas
coisas.
— Sim, você é um poço de silêncio — brinquei, mas sem ter graça
alguma.
— Vitória, não é porque você ganhou uma fortuna da noite para o dia,
que faz você mudar a pessoa que é. Já percebi que é tão amorosa quanto sua
mãe. E eu tive oportunidade de conhecer a mulher por quem o meu melhor
amigo se apaixonou. Então saiba que você é igual ela, tem compaixão e é um
pouquinho enxerida, mas não deixa de ser uma pessoa do bem.
As palavras do homem mais frio que eu conheci, conseguiram
aquecer minha alma.
— Não perca a oportunidade de viver bem com seu filho. Se não quer
aceitar por você, aceita por ele. Ele merece o melhor Vitória.
Sim, Pietro merecia as melhores coisas do mundo. Ele merecia o
mundo, tudo que eu pudesse dar aquele pequeno serzinho.
— Não vou ficar parecendo uma aproveitadora de pessoas mortas?
Era doloroso falar aquilo, mas eu precisava ser sincera com aquele
homem.
— Não, você só estará aceitando o que seu pai te deixou.
Sim, meu pai. Um homem que não sabia da minha existência, mas
que quando descobriu resolveu me deixar preservada com a única coisa que
ele podia me dar.
— Meu pai me deixou essa herança para que eu pudesse usar da
melhor forma, certo?
— Isso mesmo.
E naquele instante, diferente de mais cedo, um milagre aconteceu.
Eduardo sorriu, não um meio sorriso, ou só um movimento de lábios. Foi um
sorriso cheio de dentes, que fez covinhas aparecerem em suas bochechas. Sua
boca ficou completamente tentadora e não consegui desviar meus olhos dela
por algum tempo. Caralho! Aquele homem era… maravilhoso, lindo,
realmente um pecado.
E foi nesse momento que fui pega no flagra o encarando. No entanto
como eu poderia não encarar? Ele estava ali, perto de mim com toda aquela
beleza, perfeito. Nunca havia visto um homem tão lindo quanto Eduardo, não
tinha como não o encarar… admirá-lo… ficar fascinada.
Ele foi o primeiro a desviar sua atenção para Pietro, que estendeu os
bracinhos para ele. Porém, mais uma vez ele não o pegou. Só apertou o seu
narizinho e se afastou.
— Bom, quando se sentir melhor para voltar e assinar os papéis da
trasferência.
Com isso Eduardo saiu me deixando plantada no lugar. Ele realmente
era um homem completamente estranho. Abri um sorriso com meu
pensamento e me voltei para o meu bebê.
— Vamos ter um futuro melhor, meu amor? — perguntei a Pietro,
mesmo que ele não entendesse muito bem ao que me referia.
E ele como a criança mais linda do mundo, assentiu e apontou o
dedinho na direção que Eduardo seguia.
— Você gosta daquele chato, não é?
— Goto. — a pequena criança respondeu.
Pietro falava poucas palavras, nada demais, mas já era um passo para
logo estar todo tagarela como a mãe dele.
— Eu te amo, meu lindinho.
Novamente meu filho me abraçou e eu segui pelo mesmo caminho
que Eduardo fizera minutos antes. Assim que cheguei à sala o advogado
sorriu ao me ver de volta. Ele era um homem mais velho, com cabelos
grisalhos, e muito educado. Assim que me explicou tudo, eu assinei os
papéis.
Em breve o dinheiro seria transferido para a minha conta, depois disso
foi embora. Deixando Eduardo, Pietro e eu na sala. Lourdes que havia
acompanhado o homem até a saída retornou para a sala e indagou:
— Querida, posso roubar seu pequeno um pouquinho?
— O que você está querendo dar para ele?
Era sempre assim, ela pegava meu filho para enchê-los de guloseimas,
e como eu poderia negar? Pietro amava aquela mulher. Em pouco tempo, ela
já o tinha conquistado, mas uma coisa eu tinha que concordar: Lourdes era
uma mulher muito boa.
Uma fofoqueirinha, porém muito amável.
— Fiz um bolo que tenho certeza que ele vai amar.
Abri um sorriso para ela que parecia muito inocente, mas no fundo
todos sabíamos que não era.
— Pode levá-lo — respondi, sorrindo.
— Ela vai mimar seu filho — Eduardo comentou, enquanto
caminhava até o bar de sua sala e colocava um pouco de uísque em um copo.
— Aceita?
— Não, eu não bebo. E acho que ainda está cedo para tomar uísque.
O homem tomou um gole daquela bebida, que imaginava ser muito
ruim, e olhou para mim.
— Você pretende ir embora daqui por agora?
Eu não sabia se ele só estava sendo curioso ou me expulsando da sua
casa. Apesar de ter me dito para ficar mais cedo.
— Se você quiser eu posso ir hoje.
Minha voz tinha um timbre meio chateado, no entanto acho que ele
não percebeu.
— Não te expulsei, Vitória. Até falei para permanecer por aqui por
mais tempo. Estava realmente querendo saber, para organizarmos o lugar que
você quiser morar, contratar funcionários para você. Pois não pode ficar
sozinha com Pietro, não quero pensar na hipótese de você sair da minha casa,
onde tem tudo e passar por problemas quando estiver longe daqui.
Era impressão minha ou Eduardo, um homem frio e completamente
calculista, estava preocupado com meu bem-estar e o de Pietro?
— Acho que eu poderia fazer isso sozinha — respondi, sem querer ser
grossa.
— Eu sei que pode, você pode tudo se quiser. No entanto, eu tenho a
missão que é cuidar de você. E enquanto eu não souber que você está
completamente segura, eu vou continuar sendo o intercessor de tudo que
passará.
— Eduardo eu sou só uma missão para você?
— Você é a filha do meu melhor amigo, que eu cuidarei sem medir
esforços — respondeu, tomando mais um gole do uísque.
— Não precisa se preocupar tanto, você já cumpriu a promessa para o
meu pai.
— Enquanto você não estiver cem por cento instalada em um lugar,
segura, sem que sua tia monstruosa te perturbe, não terei completado nada.
— Você é mesmo um cabeça dura — brinquei, enquanto direcionava
um sorriso para ele.
— Sou mesmo, e você me lembra o seu pai também. Que era uma
pessoa que queria dar conta de tudo sozinho.
— Quer dizer então que eu também me pareço com ele?
— Você tem certa semelhança, mas é linda comparada aquele traste.
— Enquanto tomava mais um gole de sua bebida, ele me olhou por cima da
borda do copo.
Não consegui evitar a pergunta que escapou da minha boca, ainda
mais que meu coração estava disparado.
— Eu sou linda?
O homem depositou o copo de bebida em cima da bancada do bar,
caminhou até a saída da sala. No entanto antes de sumir da minha vista, ele
parou, olhou para mim e respondeu com um sussurro que me deixou com as
pernas bambas:
— Maravilhosa!
Dizendo isso saiu pela porta me deixando completamente atônita.
Puta que pariu! Se ele repetisse aquela palavra, com aquela voz sussurrada,
juro que entraria em combustão e Eduardo não precisaria fazer esforço
algum.
Capítulo 10

Que merda eu tinha na cabeça?


Não devia me deixar levar pelas emoções de ela ser a filha do meu
amigo, não devia dar a mínima importância para os seus sentimentos. Mas
não, eu tinha a chamado de maravilhosa. Esse não era o Eduardo que eu
costumava ser, nem de perto parecia o homem que eu era.
Estava em meu quarto, sentado na sacada, observando o céu estrelado.
Já estava há horas no mesmo lugar, só pensando no que havia falado a Vitória
mais cedo.
Acabei adormecendo sobre o sofá de vime da varanda e acordando em
algum momento da madrugada, com a minha barriga protestando de fome.
Levantei-me ainda meio sonolento, espreguicei-me e caminhei pelo quarto,
saindo do ambiente e indo em direção a cozinha.
A casa estava silenciosa e escura, todos já deviam estar dormindo. Por
isso caminhei despreocupado, só não imaginava que iria encontrar quem eu
queria evitar na cozinha. Ela estava de costas, com seus cabelos ruivos caindo
pelos ombros em ondas delicadas. Usava uma bermuda que não deixava
muito para a imaginação, regata preta colada a sua cintura fina.
Pensei em sair de fininho para Vitória não me ver, porém foi
impossível, assim que dei o primeiro passo para trás, acabei esbarrando em
uma mesinha que ficava com um arranjo de flores em cima. Por fim fiz mais
barulho do que queria, no entanto nada foi destruído. Só a minha saída da
cozinha sem que Vitória me visse.
Ela se virou lentamente em minha direção e estava com um copo de
leite nas mãos. Encarou-me por um tempo, e mesmo sob a penumbra do luar,
no ambiente escuro, pude perceber que tinha um sorriso leve em seus lábios.
— Você estava tentando fugir? — indagou, com a voz em tom de
ironia.
Eu terminei de arrumar a pequena bagunça que se formou entre a
mesinha e o arranjo.
— Claro que não, nem tenho motivos para fugir de algo. — A encarei
e perguntei: — Tenho?
— Não sei, me diga você… — Ela estava mais atrevida do que nos
outros dias. — Já que saiu correndo mais cedo quando me elogiou.
Droga! Ela não esqueceria aquilo?
— Não saí correndo, só não tinha mais nada para falar.
— Ok! — respondeu, tomando o resto do leite.
Depois voltou-se para a pia e lavou o copo que havia usado. Vitória
começou a caminhar em direção a saída da cozinha, no entanto parou perto de
mim e voltou a questionar:
— Por que não gosta do seu aniversário?
— Acho que essa pergunta é íntima demais.
Não queria comentar sobre aquilo, não com uma garota que eu mal
conhecia. Aliás eu nunca falava daquilo com ninguém, e não seria com
Vitória que iria acabar me abrindo.
— Você não acha que evitar as pessoas seja pior?
— Não devo satisfações da minha vida a você.
Estava sendo grosso, mas ela me tirava do sério e eu nem sabia o
motivo de ficar tão afetado com sua presença.
— Não precisa ser idiota. Eu só quero tentar retribuir a ajuda que
você me deu quando eu mais precisei. Pelo jeito você e meu pai eram como
unha e carne, e eu queria muito poder te tirar da escuridão que vejo se
formando em volta de você.
Permaneci calado, sem abrir a boca e sem olhar para ela. Observava a
noite pelas janelas de vidro da cozinha. Não iria revelar os demônios que
rondavam minha vida. Já bastava ter que viver um dia de cada vez, me
despedaçar para alguém não estava no roteiro que eu tinha proposto para a
minha vida.
— Me deixa te ajudar, Eduardo.
— Não tenho que ser ajudado, estou muito bem.
— Não está. Você é um homem solitário que não deixa ninguém se
aproximar, e eu quero me aproximar de você. Quero te ajudar a ser menos
turrão, igual está sendo agora.
Perdendo a paciência que eu quase não tinha, me voltei para Vitória e
a encarei. Ela me olhava de queixo erguido. Demonstrando que não estava
pronta para desistir do seu objetivo. Seus olhos tinham um fogo decisivo, um
fogo atraente, mas que eu não deixaria me abalar.
— Pela última vez, eu não preciso da ajuda de ninguém.
— Então por qual motivo odeia seu aniversário, por qual motivo
prefere o silêncio do que conhecer pessoas novas, por qual motivo afasta a
única pessoa que está se aproximando de bom grado de você?
— Talvez eu só prefira ficar sozinho. Tem algum problema?
— Nenhuma pessoa escolhe a solidão.
— Caralho! — esbravejei.
Vitória – aquela mulher intrometida – por outro lado não se
sobressaltou como eu pensei que faria. Porém eu não me dei por vencido e
disse:
— Será que é pecado eu querer paz, sem ter ninguém para “me abrir”
— fiz aspas com as mãos, continuando: — Se eu precisasse de terapeuta já
teria arrumado uma. Tenho dinheiro suficiente para pagar um ótimo
profissional.
— Alguma coisa te quebrou, Eduardo. Não sei o que foi, mas vou
descobrir e vou te ajudar. Nem que seja a última coisa que faça na minha
vida. Eu serei quase o meu pai para você.
Com isso ela saiu e me deixou sozinho. No entanto no mesmo
momento que Vitória saiu, senti novamente a porra daquele vazio que estava
tomando meu corpo, meus dias, meu mundo se aflorar. Eu tinha que parar
com aquilo, já que sempre me sentia sozinho. Não era por causa de uma
garota querendo quebrar minhas barreiras que eu começaria achar o vazio que
me acompanhava estranho.
Fui até a geladeira tentando tirar os pensamentos de merda da minha
mente e peguei um sanduíche natural que estava preparado, enrolado em um
plástico filme, aquilo seria minha refeição.
Decidi por bem comer o sanduíche em meu quarto, para não ser
atrapalhado novamente por uma certa ruiva intrometida. No momento que
cheguei perto das escadas, ouvi um sussurro na sala de estar, e não pude
deixar de me aproximar para escutar do que se tratava. Eu estava parecendo
Lourdes, um curioso sem tamanho.
— Sim, Matilde. Meu pai deixou tudo para mim, por isso, quero que
você deixe essa megera e venha morar comigo. Você é quase minha mãe, não
posso deixar que fique nessa casa, enquanto eu vou levar minha vida
tranquilamente longe de Edna.
Houve uma pausa, e ouvi um leve suspirar, além de uma fungada.
Parecia que Vitória estava chorando, e eu pude constatar que era real o meu
pensamento no momento que ela voltou a falar com a voz embargada.
— Por favor, você me ajudou tanto. Aceita minha ajuda… que droga!
Será que alguém pode aceitar minha ajuda? Eu quero te tirar desse caos que
vive, quero ajudar o Eduardo que é uma pessoa sozinha, mas nem você e nem
ele permite que eu faça isso. Não estou dando conta mais, Matilde.
Outra pausa e mais choro constante.
— Você sabe como eu sou, uma idiota que quer agradar a todos. Uma
besta que quer fazer o melhor, por isso, eu sempre levei da vida. Então, por
favor, aceita vir morar comigo. Irei passar mais alguns dias aqui na casa de
Eduardo, mas vou embora em breve e você poderá viver comigo e com
Pietro.
Seu pedido era mais para uma súplica, e no fundo fiquei com pena
daquela garota. Vitória realmente era boa demais para o mundo que
vivíamos. Não merecia as maldades que encontrou por seu caminho. Se meu
amigo ainda estivesse vivo, e visse a forma como eu a estava tratando iria me
excomungar.
Deixei meus pensamentos seguirem para longe, no dia que ele me
deixou…
Matheus não era a mesma pessoa, estava irreconhecível e quase não
conseguia falar, mas ele ainda conseguiu pronunciar poucas palavras antes
de deixar esse mundo.
— Promete que cuidará da minha filha, sei que coloquei em meu
testamento, mas não posso confiar em outra pessoa a não ser você. Eduardo
você sempre foi meu melhor amigo, não posso ir sem saber que você cuidará
dela, e que falará para ela que mesmo não a conhecendo eu a amo mais que
tudo nesse mundo.
Segurei sua mão com o mínimo de força possível, meu amigo estava
frágil demais, parecia uma pétala que se apertasse seria destruída.
— Eu prometo, Matheus.
— Sei que posso ir em paz… — Ele respirou fundo. — Eu confio em
você.

E foi assim que o seu coração parou de bater. Os médicos até


tentaram reanimar, mas ele não voltou. Matheus morreu confiando que eu
faria o melhor para sua filha, e agora eu estava a tratando pior que a tia que
deveria tê-la criado de uma forma melhor.
Entrei na sala e assim que me viu, Vitória se sobressaltou,
imediatamente enxugou as lágrimas que tomavam seu rosto. Estava na hora
de eu deixar de ser um filho da puta e tentar ao menos uma vez ser humano
para que aquela menina tivesse um pouco de felicidade em sua vida.
— Pensa com carinho, Matilde. Vou ter que desligar agora. — A
mulher que eu observava, sorriu levemente, provavelmente com algo que a
tal Matilde havia falado do outro lado da linha. — Sim, vou dar um beijo
naquele gorducho. Te amo, Matilde.
Assim que ela apoiou o telefone no gancho, começou a se justificar.
— Desculpa ligar de sua casa para Matilde, mas ela é muito
importante para mim e eu precisava saber como ela estava.
— Não tem problema.
Vitória assentiu, e começou a caminhar em minha direção, no entanto
assim que chegou próxima a mim desviou o seu caminho para passar pela
porta. Porém, segurei seu braço a impedindo de dar mais um passo.
No mesmo momento Vitória encarou-me, sem entender muito bem o
que eu estava fazendo.
— Acho melhor você se sentar, tenho que falar com você.
— Eduardo eu…
— Você gosta de conversar, então agora não corra do seu destino.
Precisa ouvir o que vou lhe contar.
A mulher engoliu em seco, porém fez o que pedi. Soltou seu braço da
minha mão e caminhou para um dos sofás do lugar. Fiz o mesmo, mas me
sentei distante o bastante dela. Abri o saco que cobria o meu sanduíche e dei
uma mordida, ainda sem encarar Vitória.
— Seu pai foi deixado no orfanato no mesmo ano que eu. Era mais
velho que ele por meses, crescemos juntos e nos tornamos amigos —
comecei, já que ela queria que eu falasse algo, achei por bem ser por onde
mais a interessaria. — Nenhuma família teve interesse em nos adotar quando
pequenos, e depois que crescemos ninguém nos olhava.
Voltei a comer meu sanduíche, pois realmente estava com fome. Mas
parecia que daquela vez Vitória esperaria em silêncio, até que estivesse
pronto para falar qualquer coisa.
— Fomos crescendo, até quando chegou nossa data limite de sairmos
do orfanato. Por sorte, a vida nos deu uma chance e conseguimos passar para
uma universidade pública. Lá tivemos a oportunidade de cursar o curso que
nos deu tudo isso. — Estendi minha mão mostrando minha casa, mas ela
entendia que eu me referia ao dinheiro. — E foi lá também que seu pai
conheceu sua mãe e eles tiveram oportunidade de se amarem.
Agora que viria a hora da verdade, que eu falaria algo que poderia
afastar aquela menina da minha vida para sempre. Poderia ser o ápice para
que ela nunca mais falasse comigo.
— Só que eu sempre fui um homem solitário. Tive seu pai como
amigo, quase irmão, mas nunca consegui me interessar por ninguém. Nunca
quis ser mais íntimo de ninguém. Por que no fundo eu sempre pensei que não
merecia, já que fui…
Não conseguia continuar, as palavras ficaram travadas na minha
garganta e nesse momento Vitória resolveu se manifestar.
— Continua Eduardo, me conta o seu passado para que eu possa te
ajudar no seu presente.
— Posso ter barreiras obscuras que uma moça tão amável não
conseguirá ultrapassar.
​Ela sorriu lentamente, no entanto respondeu:
​— Tenta contar para essa moça amável, ela pode tentar ultrapassar cada
barreira escura que você tiver. Ela também tem alguns demônios na
profundeza de sua alma.
​ lhei Vitória por um tempo, pois ela realmente parecia estar dizendo a
O
verdade. Aquela menina, que parecia tão em paz consigo mesma, não
demonstrava que tinha demônios para serem destruídos. Mas pelo visto uma
imagem não era tudo, e talvez a tia diabólica de Vitória, destruiu um pouco
da paz que ela devia ter.
​No entanto, resolvi abrir o jogo de uma vez. Talvez fosse um motivo de
merda, mas era um que me fazia corroer para sempre.
​— Eu tive inveja do seu pai. Inveja por ele ter amado e ter sido amado
por alguém. Eu nunca acreditei no amor, nunca acreditei que alguém pudesse
amar tão fielmente, já que fui abandonado por minha mãe no meu
nascimento. Se o amor existisse ela devia ter ficado comigo, certo? Então,
por qual motivo me deixou para trás? Por isso, eu odiava esse sentimento de
amor, mas no fundo invejei Matheus e Camile.
​Não parecia ter julgamento em sua expressão, mas ela talvez soubesse
esconder muito bem seus sentimentos.
​— E me sinto culpado até hoje por eles terem sido separados. Carrego
essa culpa dentro de mim, primeiro os invejei, e acho que esse sentimento os
separou. Depois o meu amigo sofreu durante anos e acabou morrendo antes
de conhecer a filha que eu tenho certeza que ele amaria com todas as suas
forças. Ele sempre foi a parte romântica de nós dois. Eu sou um monstro.
​Abaixei minha cabeça e fiquei encarando meus dedos. Era
melodramático, mas eu me culpava e nunca tirei aquele pensamento da minha
mente. E a cada ano que passava mais culpa eu sentia.
​— Eu não diria que você é um monstro, Eduardo.
​— E o que eu seria? — indaguei, completamente irônico.
​— Humano, você era simplesmente humano.
​Vitória se levantou do sofá, não que eu tenha olhado em sua direção, mas
ouvi os passos dela até que sentou ao meu lado. Segurou a minha mão que
não estava com o sanduíche e disse:
​— Eu vou te ajudar a superar isso. Vai ser uma prova de que você não fez
maldade alguma com minha mãe e meu pai. Você só era humano e ainda é,
só precisamos achar o seu coração, pois na maioria das vezes você deixa o
gelo mandar em tudo.
​Não pude evitar sorrir com seu comentário.
​— Só você para me fazer rir, Vitória.
​— Deveria fazer mais vezes. Você também fica lindo sorrindo — dizendo
isso, ela beijou minha bochecha em rompante.
​ enti o calor dos seus lábios tomar meu rosto, e foi inevitável não fechar
S
meus olhos ao ter aquele contato. Assim que ela se afastou senti falta do seu
beijo.
​— Vou dormir, mas amanhã nós faremos um programa. Já que é domingo
e você não vai trabalhar. Vamos começar a te desintoxicar do seu mundo
escuro e jogar um pouquinho de cor dentro da sua realidade.
​Vitória se afastou e eu fiquei olhando-a, enquanto ela sumia pelos
corredores escuros. Eu realmente mudaria por causa de uma garota?
Capítulo 11

​ im, eu havia conseguido quebrar um pouco das barreiras daquele


S
homem tão sério. Eduardo não passava de uma pessoa abandonada, que
sentia falta de uma mãe e que se fechou para o mundo. Ainda se culpava
pelas merdas que a vida deu às pessoas que ficavam ao seu redor.
​Ele não tinha nada a ver com o que aconteceu a minha mãe e muito
menos ao meu pai. Na verdade, se eu tivesse em seu lugar, também invejaria
uma relação que parecia realmente ser verdadeira. Nunca tive isso, um amor
que abalasse minhas estruturas.
​Não que não tivesse sido apaixonada pelo pai de Pietro, mas não era amor
o suficiente para eu morrer de desgosto quando fui abandonada por ele.
Queria sentir o amor arrebatador que meu pai teve por minha mãe. Um amor
tão grande que durou por anos, mesmo que ele não soubesse que ela havia
morrido, mesmo que ele nunca mais a viu.
​Eu queria sentir algo tão forte que chegasse a explodir meu coração. Se
eu parasse para pensar, meu bebê, meu pequeno príncipe fazia eu sentir isso.
Amava Pietro com todas as minhas forças, e se essas mesmas forças
acabassem eu buscaria novas, para continuar amando aquele pequeno pedaço
de gente, que era minha vida.
​Pietro era muito importante para mim, meu mundo, meu tudo, minha
vida. No entanto eu queria sentir amor por um homem que me amasse de
forma recíproca. Queria encontrar alguém no meu caminho que
correspondesse todas as minhas expectativas.
​Balancei minha cabeça, para ver se os pensamentos conflitantes sobre
amor saíam da minha mente, no entanto nada daquilo aconteceu. Continuei
rolando na cama, até que quase amanhecendo eu consegui pegar no sono. Fui
acordada somente duas horas depois pelo chorinho mais lindo que alguém
poderia dar.
​Mesmo que tivesse dormido só por poucas horas, acordei radiante.
Levantei-me da minha cama, e caminhei até o bercinho de Pietro. Eduardo
tinha sido muito gentil nos dando tudo que foi possível para nos manter
confortável. Ele até havia disposto um quarto separado para mim, só que eu
preferia dormir mais perto do meu filho, pois era mais fácil quando ele
acordava com a garganta potente como naquele momento.
​— Bom dia, meu lindinho! — cumprimentei meu bebê e no mesmo
instante ele se calou e me olhou.
​Pietro era uma cópia viva de mim, olhos claros, cabelos ruivos e toda vez
que eu o olhava mais amor crescia dentro do meu peito. Amava aquele
menino, meu tesouro. Ele abriu um sorriso para mim, enquanto sacudia suas
perninhas gordas.
​— Mamã… — Abri um sorriso radiante, já que ele murmurava poucas
palavrinhas, mas quando fazia me deixava completamente alegre.
​— É a mamãe, meu amor. — Peguei aquele gordinho em meus braços, e
entreguei um dos bichinhos que ele adorava brincar.
​Desta vez foi uma girafinha de borracha – Pietro amava bichinhos
daquele modelo, pois gostava de ficar mordendo. Beijei sua bochecha e ele
aproveitou para abraçar meu pescoço. Pronto! Não precisava de mais nada a
não ser aquilo.
​Porém, hoje eu tinha um compromisso, por isso, comentei com meu bebê:
​— Hoje nós vamos fazer um programa com o tio Eduardo, você vai amar.
​Pietro sorriu, mas tenho certeza que ele não entendeu muito do que falei.
Coloquei meu garotinho sobre a cama e fui o arrumar. Depois que o vesti
uma bermudinha, e uma gola polo que havia comprado recentemente, calcei
um sapatênis naquele pezinho minúsculo. Assim que finalizei fui me arrumar.
​Como eu estava planejando fazer um piquenique, era melhor começar me
aprontar desde cedo. Ainda mais que conhecendo Eduardo, ele tentaria me
evitar o máximo que podia, só que dessa vez ele não me escaparia.
​Faria aquele homem enxergar as coisas boas da vida, mesmo que às vezes
fosse difícil de vê-las em nossa frente.
​Abri o armário e peguei uma blusa levinha e uma bermuda, pois o dia
estava com cara que prometeria calor. Após me vestir e calçar uma
rasteirinha, peguei Pietro e saímos do quarto, quando estava caminhando para
as escadas Eduardo surgiu no corredor vindo para o mesmo lugar que eu
estava indo.
​Ele vestia uma bermuda escura, com uma camiseta que deixava os seus
músculos completamente expostos. Sinceramente, aquele homem era… nem
sabia o que falar para explicar o quanto ele parecia perfeito aos meus olhos.
Eu não conhecia seu corpo por completo, mas já podia imaginar que em sua
barriga existia vários gominhos de um tanquinho perfeito, suas coxas
torneadas pareciam ser mais fortes do que aparentava. E provavelmente sua
mão não era nada delicada quando tocava a pele de uma mulher, devia
possuir um toque forte, que levava uma pessoa a loucura.
​Balancei a cabeça para desviar os pensamentos.
​— Bom dia! — o cumprimentei, completamente sorridente, nem
parecendo que estava tendo pensamentos pecaminosos com aquele homem.
​Ele olhou para mim com o cenho franzido, depois passou os olhos por
Pietro.
​— Vitória, acho melhor....
​— Não, senhor. Você não vai se livrar de mim. Ontem eu disse que
iríamos ter um programa hoje e teremos.
​Eduardo soltou um suspiro audível. Aquele homem era complicado.
​— Não quero sair de casa, Vitória.
​— Então esse é o problema? — questionei.
​— Um deles.
​— Pode ficar tranquilo que prepararei o melhor piquenique da sua vida
no jardim enorme da sua casa.
​O homem voltou a me olhar sério, porém não disse mais nada.
​— Segura o Pietro, enquanto eu preparo as coisas para levarmos para
fora.
​Estendi meu filho para ele, e mesmo a contragosto Eduardo o pegou de
forma cuidadosa.
​Desci as escadas no mesmo momento, deixando o homem turrão para trás
com meu filho. No entanto um sorriso brincava em meus lábios, eu faria
aquele homem mudar mesmo se ele não quisesse.
​Como era domingo os funcionários da casa não trabalhavam, inclusive
Lourdes, que já havia me dito que ficaria fora no dia de hoje. Achei até
melhor, pois ela adorava juntar teorias que não eram reais.
​Assim que cheguei à cozinha comecei a pegar o que achei necessário para
fazer um ótimo piquenique. Fui até a dispensa e achei uma cesta que me
ajudaria a levar as coisas para o jardim. Quando voltei para a cozinha
Eduardo já havia chegado com Pietro, ele segurava o garotinho e observava o
que estava fazendo.
​— Precisa de ajuda? — perguntou, com aquela sua voz grossa.
​Será que se eu falasse que precisava que ele sussurrasse com aquela voz
em meu ouvido eu estaria passando dos limites? Eu sei que estaria, mas que
culpa eu tinha de achava aquele homem lindo demais… como eu falava, ele
era o pecado em pessoa. Eduardo era um pecado que se eu tivesse
oportunidade agarraria com todas as minhas forças.
​Precisava parar com aqueles pensamentos insanos, afinal, Eduardo nunca
se mostrou interessado em nada. E ele era amigo do meu falecido pai, eu
deveria ser algum território proibido para ele. No entanto aquele fetiche que
existia, em um homem mais velho que não era nada seu estar te ajudando,
realmente existia e eu estava completa por ele.
​— Bom, acho que podemos ir? — perguntei, tentando quebrar o silêncio.
​Não era aquilo que eu queria para o dia, queria que Eduardo conversasse,
que se abrisse, que deixasse de ser o poço de silêncio que estava acostumado
a ser.
​— Ok!
​Foi a única coisa que respondeu, no entanto ele tomou a frente da
situação e abriu a porta que daria para o jardim dos fundos, onde a piscina
não ficava muito distante. Pietro continuava em seus braços e eu vi que meu
filho brincava com a gola de sua camiseta, enquanto ele caminhava para
baixo de uma das árvores do lugar.
​ m vento fresco batia em nossos corpos e levava meus cabelos para
U
longe. Estendi a flanela, que havia pegado na dispensa junto com a cesta, no
chão e coloquei a cesta em cima do pano. Sentei-me e estendi os braços para
que Eduardo me entregasse meu bebê.
​Assim que ele o fez, sentei Pietro em meu colo. O homem que ainda se
manteve em pé por alguns minutos, acabou se rendendo e sentou ao meu
lado, mas um pouco afastado. Parecia mesmo que Eduardo era um homem
respeitador.
​Peguei uma banana, descasquei e entreguei a Pietro. Meu pequeno levou
a boca e começou a devorar a fruta. Eu por outro lado, peguei uma maçã, e
dei uma mordida enquanto encarava o lugar que estava ficando. A casa de
Eduardo era linda, com um jardim enorme, com direito a flores e árvores por
todo o lugar. Nem parecia que estávamos cercados por muros altos e
enormes, que separava sua casa das outras da região.
​— Aqui parece ser uma casa afastada da sociedade de tão calma e com
muito verde.
​Novamente tive a oportunidade de ver um sorriso no rosto de Eduardo.
Não fora nada demais, mas era algo que eu poderia considerar uma vitória, já
que ele quase nunca fazia esse gesto.
​— Quando comprei esse lugar, foi exatamente por causa desse jardim
enorme que quis essa casa. Eu não tive muitas condições quando pequeno, o
orfanato possuía um pátio minúsculo e quando tive a oportunidade de ter algo
meu, eu queria realmente algo que valesse a pena gastar dinheiro.
​— Sei como é. Quando morava com Edna a única coisa que eu queria era
ter algo totalmente diferente com que estava costumada a ter, ou melhor com
o que ela me obrigava a ter. Agora que essa oportunidade do destino
apareceu, poderei ter meu próprio cantinho e falar literalmente que ele é meu.
​— Espero que você consiga realizar suas vontades, Matheus iria querer
isso.
​Fiquei encarando o perfil daquele homem de forma deslumbrada. Sua
barba rala era uma dádiva a ser apreciada, aquela boca desenhada parecia
ainda mais linda olhando daquela maneira. Novamente estava me deixando
perder por meus pensamentos insanos, por isso, quis deixar Eduardo falando
para que não pensasse safadezas com ele.
​— Qual seu maior sonho, Eduardo? — indaguei, tentando ser a pessoa
que ele iria confiar para falar.
​O homem permaneceu em silêncio procurando dentro da cesta algo que o
agradasse para se satisfazer. Assim que encontrou um pequeno bolinho,
cortou um pedaço e o levou a boca. Continuei em silêncio o observando
comer. Só que pelo visto eu realmente havia feito algo bom, pois Eduardo
falou em seguida:
— Hoje em dia não tenho mais sonhos, os que eu tinha eu realizei.
Com todo o meu esforço e dinheiro consegui conquistar. Tenho a casa dos
sonhos, já fiz diversas viagens que nunca pensei que poderia fazer. Acho que
não tenho mais nada para querer.
— Mas você sabe que dinheiro e bens materiais não são tudo, não é
mesmo? — Como ele não podia sonhar com uma família.
— Eu sei bem, mas não preciso de mais nada que não seja o que eu
não tenho. E você o que sonha?
— Eu acho que já consegui realizar meu sonho, que era sair das
garras de Edna e ter condições financeiras para poder cuidar do meu filho.
Afinal, Pietro é meu mundo. — Quando falei o nome do meu bebê ele olhou
para mim e sorriu. Saiu do meu colo e foi brincar um pouquinho afastado de
nós, ele tentava dar passinhos, mas no mesmo momento caía e começava a
engatinhar.
Apreciava aqueles momentos, pois ele não pôde ter muito deles
anteriormente, agora ele tinha paz para fazer o que queria.
— Acho que preciso acrescentar algo à minha lista. — Eduardo me
encarou, quando comecei a falar novamente. — Ainda sonho em viver um
amor de conto de fadas. Sei que mulher não precisa de homem para levar a
vida e nem nada, e que agora eu terei condições suficientes de ter a vida que
quero. Mas ainda quero viver um amor arrebatador, aquele que me deixará
sonhando com a pessoa, suspirando por ela.
— Mesmo que eu tenha dito que tive inveja do seu pai e mãe, posso
dizer que hoje em dia não acredito que esse tipo de amor exista. As pessoas
estão mais desligadas emocionalmente, querem mais um sexo sem
compromisso e só.
Seco, como eu imaginava, mas eu sentia que um dia aquele homem
estaria aos pés de alguém declarando amor eterno.
— Eu até entendo o seu ponto de vista, mas como você disse ontem: o
amor existe sim, Eduardo. Você só não encontrou a pessoa que vai te fazer
feliz.
Ele olhou para mim com uma sobrancelha arqueada, e um sorrisinho
sacana nos lábios.
— Acho que você sonha demais, Vitória.
— Se eu não sonhar quem vai sonhar por mim? Já tive diversos dos
meus sonhos destruídos, mas nunca pude deixar de desacreditar em algumas
coisas.
Os olhos de Eduardo ficaram muito tempo sobre os meus, mas logo
ele os desviou para meus lábios, foi impossível não engolir em seco com
aquilo. No entanto nosso momento foi totalmente quebrado quando uma voz
feminina esbravejou:
— Então é por isso que você não atende as minhas ligações, Eduardo?
Olhei na direção da voz, e o que vi foi a perfeição de uma mulher.
Alta, com feições de anjo e cabelos loiros curtos. Caralho! Era linda.
No entanto o que tinha de linda, parecia ter de chata. Olhou para o
meu filho e fez uma expressão de nojo, mas logo o ignorou voltando para
Eduardo.
— Vai me explicar o que essa piranha está fazendo aqui?
Sinceramente, as pessoas podiam me chamar de tudo, mas nunca me
chamar de piranha. Se não as coisas poderiam ficar muito ruins, já que eu
nunca fui piranha e até se eu fosse, aquela mulher não tinha o direito de falar
comigo daquela maneira. Levantei-me rapidamente e encarei a mulher que
era bem mais alta que eu.
— Não fale comigo como se tivesse algum direito de me ofender.
Pietro veio engatinhando em minha direção, e segurou em minhas
pernas.
— Arrumou uma vadia com filho para te satisfazer?
Eu não medi as consequências, só levei minha mão até seu rosto, onde
o tapa ressoou alto. A mulher soltou um grito quando sentiu a bofetada, e
para não a machucar ainda mais, peguei meu bebê que começou a chorar.
Comecei a me afastar no mesmo instante que ouvi Eduardo gritar:
— Vitória, espera.
Só que eu não esperei. Não saí da casa de Edna para ser humilhada
por outra pessoa que se achava melhor do que eu. Era melhor ir para o meu
quarto, antes que deixasse minhas atitudes falarem mais alto e acabasse com
a raça daquela mulher.
Capítulo 12

Odiava quando uma pessoa não entendia bem o que eu havia lhe dito.
Nunca prometi amor eterno a Geovana, então não entendia o motivo de
tamanha cena. Na verdade, ainda não acreditava que ela havia chamado a
garota com nomes tão ofensivos. Quem ela achava que era para falar algo
daquela maneira para Vitória?
A única mulher que convidei para ficar em minha casa, a única que
tinha o direito ali dentro. Não ela que havia acabado de chegar sem ser
convidada e queria humilhar a filha do meu amigo.
— Você tem que fazer alguma coisa com aquela desqualificada,
Eduardo — berrou, como se tivesse algum direito sobre qualquer merda
naquele dia.
Fiquei encarando Vitória até que ela entrou com Pietro dentro da
minha casa. Que merda!
— Geovana eu posso saber que porra foi essa? — indaguei sem gritar.
Nunca fui de fazer escândalos, até mesmo quando queria berrar para o
mundo. Pois eu não entendia o motivo de Geovana estar ali, e muito menos
ter feito aquilo com Vitória.
— É assim que você me trata depois daquela vadia ter me batido?
Seu questionamento não me pegou de surpresa, já que depois de uma
cena como a que ela havia feito eu podia esperar tudo.
— Primeiramente Geovana, mais respeito para tratar Vitória, ela é
filha de Matheus. — A mulher arregalou os olhos com minha declaração. —
Isso mesmo, você acabou de ofender a filha do homem que eu considerava
como irmão. Segundo, não é assim que se fala de outra mulher. Até eu que
sou homem, que deveria ser um filho da puta, sei respeitar as mulheres e você
deveria ter um pouquinho de sororidade.
— Mas…
Ela até tentou falar, mas eu estava puto em um nível que não queria
ouvir suas desculpas esfarrapadas.
— Não quero saber de nada, Geovana. A única coisa que quero é que
você vá embora da minha casa, pois eu não te chamei aqui. Sempre deixei
claro que não queria um relacionamento sério com ninguém, então, por favor,
não insista em algo que eu não possa te dar.
Geovana era uma mulher linda, um corpo maravilhoso, inteligente.
Advogada de primeira, e eu amava passar horas e horas fazendo sexo com
ela. No entanto aquilo não dava o direito de ela chegar em minha casa e tratar
minha convidada mal.
— Não acredito que está me expulsando, por causa de uma garota que
não é nada sua.
— Será que você não entende? Não é por ela ser alguma coisa minha,
é por você chegar em minha casa e desrespeitar minha convida, ela e o filho.
A mulher levantou o queixo, mas não deixou de passar os olhos pela
flanela e a cesta com comida que estava no gramado do jardim.
— Estou vendo que comigo você não pode ter nada íntimo, mas com
a filha do amigo morto pode. — Sorriu com desdém. — Pode ficar com essa
mulherzinha, ela já é um pacote completo, não é mesmo?
— Por favor, só vai embora.
Apontei em direção a saída e o fogo consumiu os olhos da mulher a
minha frente. Não era um fogo de desejo nem nada, era de puro ódio. Tenho
quase certeza que se ela pudesse, ela me mataria sem dó nem piedade.
— Espero nunca mais te ver, Eduardo. Vá para a puta que te pariu. —
Geovana fez uma pausa, sorriu maldosamente e continuou: — Você não
pode, porque nem a própria puta que te pariu te quis.
Senti o sangue ferver em minhas veias. Sempre que uma pessoa
quisesse me atingir era só tocar no assunto do meu abandono no orfanato.
Aquilo mexia comigo, afinal uma criança rejeitada era pior que uma pessoa
adulta.
Por sorte Geovana saiu caminhando pelo gramado como se tivesse
todo o direito de ficar chateada. Eu quem deveria estar mandando-a para a
puta que pariu. Como uma pessoa invade minha casa daquela maneira e ainda
se acha no direito de ficar ofendida por eu mandá-la embora?
Peguei as coisas que estavam no chão do jardim, e voltei para o
interior da minha casa. Pelo jeito o passatempo que Vitória queria fazer
comigo dera completamente errado. E novamente eu sentia como se a ovelha
negra do mundo fosse eu. Tudo que se relacionava a minha pessoa acabava
de forma ruim.
Deixei as coisas do piquenique mal sucedido em cima da bancada da
cozinha e fui procurar Vitória para me desculpar. Procurei ela pela casa, e
como não a encontrei constatei que deveria estar em seu quarto. Por isso subi
até o lugar e antes mesmo de chegar à porta pude ouvir que discutia com
alguém.
— Como ela pôde falar comigo daquela forma? Tudo bem! Ela é toda
linda, e tem razão de ficar enciumada por alguém estar com seu namorado. —
Fez uma pausa. — Ela só pode ser namorada de Eduardo, porque se não fosse
não teria motivo de me ofender. Provavelmente ele esqueceu de mencionar
que tinha alguém em sua vida. Mas como ele também não me defendeu? Eu
não sou uma vadia, só que se eu soubesse que Eduardo tivesse namorada eu
não teria tido pensamentos tão pecaminosos com ele. Ah! Eu preciso ir
embora dessa casa...
Ela não falava coisa com coisa, estava embaralhando as palavras, e
com toda certeza estava irritada. No entanto mesmo percebendo tudo isso,
não pude deixar de prestar atenção em uma parte de sua fala.
Vitória tinha pensamentos pecaminosos comigo? Meu Deus!
Passei a mão por meu cabelo, mas ainda estava meio sem reação. Só
que não podia ficar ouvindo suas lamúrias e não fazer nada. Aproximei da
porta e dei duas batidas, logo as reclamações de Vitória foram cessadas.
Ela abriu a porta e pude ver que suas bochechas estavam vermelhas
de raiva. Pelo jeito a garota estava realmente afetada com o que havia
acontecido. Seu olhar furioso me fuzilou, mas por qual motivo? Não tinha
falado nada para lhe magoar, e ainda fiquei do seu lado na história toda.
— O que quer Eduardo?
— Eu…
— Você o quê? Vai concordar que sou uma vadia?
Olhei para dentro do quarto para ver se via alguém, já que antes de
atender a porta ela estava falando como uma maluca. Mas além de Pietro, que
estava brincando em um canto do quarto, alheio ao que a mãe falava, não
tinha ninguém.
— Eu não concordei em momento nenhum com Geovana. Até a fiz ir
embora da minha casa para nunca mais tratar uma convidada minha da forma
que fez.
Vitória me olhou por um tempo, e sua expressão suavizou mais um
pouco.
— Você mandou sua namorada ir embora?
— Ela não é minha namorada.
​Vitória me encarou como se realmente não estivesse acreditando no que
eu falava. E ao perceber que realmente não mentia, ela simplesmente elevou
sua sobrancelha e comentou:
​— Aquela mulher chega do nada, já começa a me ofender e não é nada
sua?
​Seu questionamento tinha um pouco de entendimento, já que eu também
não sabia explicar o motivo de Geovana ter feito aquilo. Já que desde que
combinamos que iríamos sair por alguns meses ela sempre concordou,
tranquilamente, que seria meu sexo sem compromisso.
​— Sim, ela não é…
​— Mas por qual motivo ela quis se mostrar ser a sua dona?
​Eu também não tinha resposta para aquilo, no entanto falei:
​— Não sei, Vitória. Eu sei que vim aqui pedir desculpar pelo que ela
falou, não compactuo com as palavras dela e nunca te trataria com tamanha
falta de respeito.
​Vitória abaixou a cabeça, mas eu pude ver que um sorriso se formava em
seus lábios. Quando ela voltou seus olhos para os meus, toda a ira que ainda
continha em seu olhar havia sumido, e um sorriso carinhoso brincava na sua
boca.
​— Acho que ela está apaixonada e você nem sequer percebeu.
​Se fosse, eu não me importaria. Geovana não era a mulher que eu queria
para minha vida, se é que em algum momento eu iria querer alguém ao meu
lado.
​— Enfim, não é isso que importa. O importante é saber se você está bem?
​Não sabia dizer o motivo de querer saber sobre o seu estado emocional.
Porém não tinha como fugir da pergunta quando algo gritava dentro de mim.
​— Estou sim.
​— Que bom! — Antes de sair da porta de seu quarto, continuei: —
Desculpa, por seu piquenique ter dado errado. Juro que tento uma próxima
vez.
​De onde havia saído aquilo? Eu não queria tentar mais uma vez, então por
qual motivo estava falando sobre uma próxima vez?
​Que porra estava acontecendo comigo?
​— Tudo bem! Teremos novas oportunidades, sem que alguma maluca
apareça e tente competir comigo sua atenção.
​Não via daquela maneira a situação, porém não estava querendo de lutar
contra a vontade que ela tinha de me fazer sair da minha zona de conforto.
​— Bom… eu vou para o meu quarto.
​Quando fui me afastar, Vitória segurou minha mão. Parei no mesmo
momento e olhei para sua pele na minha, depois subi meus olhos por seus
braços, passando por seu colo, novamente foquei meus olhos em seus lábios
carnudos, mas sem perder tempo grudei meu olhar nos dela.
​Desde mais cedo comecei a sentir uma vontade de encarar sua boca, no
entanto não podia deixar aquele desejo predominar meu corpo, senão as
coisas poderiam ficar ainda mais preocupantes.
​— Obrigada, por ter me defendido da mulher. Sei que não esperei para
ver o que disse a ela, mas mesmo assim obrigada.
​Quando fui responder, não tive tempo. Já que Vitória se aproximou
demais do meu corpo, e fez com que eu sentisse o calor da sua pele perto da
minha. Um arrepio subiu por minha espinha, quando senti aquele contato, e
eu mal consegui resistir a vontade de colocar a minha mão em sua cintura
para aproximá-la ainda mais do meu corpo.
​Fiquei imóvel, enquanto Vitória ficava na ponta dos pés – já que eu era
muito mais alto que ela –, logo seus lábios tocaram minha bochecha e eu
senti aquela parte do seu corpo afagando a minha.
​ beijo não demorou mais que poucos segundos, e eu quase desejei que
O
durasse mais. Muito mais… não sabia o motivo, mas eu queria. Necessitava,
precisava, desejava que aquele contato durasse ao menos alguns minutos e
não segundos.
​Assim que se afastou, meus olhos ainda estavam grudados nos dela.
Vitória sorriu para mim, entrou em seu quarto e fechou a porta.
​Primeiro ela tinha tido pensamentos pecaminosos comigo. Agora esse
beijo na bochecha. Eu já estava encarando seus lábios com outros
pensamentos nada inocentes.
​Mil vezes merda! Isso não acabaria bem de jeito nenhum, eu podia
apostar que não acabaria.
​Capítulo 13

Foi impossível resistir tocar sua pele com meus lábios. Ainda mais
quando Eduardo disse que a tal mulher não era sua namorada. Não sabia
explicar o sentimento que tomou meu corpo, era mais forte que eu, a vontade
era incontrolável e eu precisei tocá-lo. Então quando percebi que iria embora,
tive que impedi-lo para beijar sua bochecha.
Eu só não imaginava que aquele contato mexeria tanto comigo. Já
haviam passado várias horas e eu ainda sentia como se estivesse beijando o
rosto de Eduardo.
Voltei meus olhos para a televisão, onde passava uma série de
comédia, mas que eu não estava entendendo nada, pois não prestei atenção na
maior parte do episódio. Pietro havia deitado sobre meu peito e lhe dei cafuné
até que pegou no sono.
Sua respiração estava pesada, então já sabia que eu poderia me
movimentar. Somente quando ele dormia profundamente que não acordava
caso eu mexesse em seu corpo. O tirei lentamente do meu peito, meu
pequeno resmungou algo incompreensível, mas não acordou.
O peguei em meus braços e fiquei admirando um pouco da sua beleza.
Com aquela bochecha rosada, a boquinha desenhada, meu filho perfeito.
Sorri para mim com o pensamento e o levei para o berço, era melhor que ele
descansasse em sua própria cama do que em meu corpo e depois sentisse dor.
Assim que o deitei resolvi desligar a televisão e dar uma andada pela
casa. Ainda não era tarde, então achei que não encontraria Eduardo por canto
algum, como não encontrei quando fui arrumar o almoço tanto o meu e o de
Pietro e até mesmo o jantar. Afinal estava realmente envergonhada da minha
atitude de mais cedo, só que ao mesmo tempo não me arrependia em nenhum
momento do que fiz.
Desci as escadas lentamente, mas o destino estava querendo brincar
com a minha cara. Já que assim que cheguei no último degrau, Eduardo
apareceu caminhando pelo corredor que dava em seu escritório.
Quando me viu parou abruptamente, acho que ele também não estava
preparado para me encarar. Tivemos uma troca de olhares que podia dizer
muito mais que as palavras, mas mesmo assim nos evitamos. Eduardo
abaixou a cabeça seguindo em direção a porta da casa.
Não o segui, não queria parecer uma stalker, queria na verdade pedir
desculpas por ter feito uma cena mais cedo. Mas acho que aquele não era o
momento para conversarmos. Fui até o telefone mais próximo para ligar para
Matilde. Queria muito saber se ela tinha se decidido a respeito de morar
comigo.
Assim que liguei ela atendeu. Havíamos combinado de eu ligar para
seu telefone pessoal somente a noite, para que minha tia não visse que eu
estava entrando em contato.
— Oi, minha querida. — Assim que ela atendeu senti um quentinho
tomar meu coração.
Eu amava demais Matilde, e se eu parasse para pensar ela era com
uma fada que eu precisava ter em minha vida para me proteger. Afinal, ela
que entrara em contato com meu pai ainda quando estava vivo, depois me
deu conselhos sobre Eduardo. Se eu fosse realista diria que ela cuidou de
mim da melhor forma que pôde. Com seu jeito torto, mas ainda melhor do
que minha família.
— Estou com saudade — fui logo falando, pois era a verdade.
Morria de saudade dos nossos papos noturnos, a forma carinhosa que
ela cuidava de Pietro – Lourdes também era um amor, mas Matilde era o meu
porto seguro no meio do caos, a única que me ajudou em toda minha vida.
Sentia falta de tudo que se relacionava aquela mulher.
— Não fale assim, não é como se você não estivesse melhor aí do que
aqui — brincou.
— Estou bem, mas mesmo assim ainda sinto saudade. — Estava
parecendo uma criança emburrada.
— Ah, minha menina. Deixa disso! — repreendeu-me.
Soltei uma risadinha pelo que Matilde disse, no entanto não queria me
prolongar muito mais na ligação.
— Diz para mim que você se decidiu, por favor?
Houve um momento de pausa, e eu fiquei com medo da resposta de
Matilde, no entanto meu mundo floresceu com o que ouvi.
— Sim, meu amor. Eu vou morar com você. Só não sei ainda como
vou falar para Edna que não vou mais trabalhar aqui.
— Eu acho que com tudo que aconteceu hoje, essa foi a melhor
notícia que recebi.
Fiquei animada, e esperei que a mulher do outro lado da linha falasse
mais alguma coisa.
— O que aconteceu, querida?
Ah, droga! Eu e minha mania de falar mais do que devia.
— Nada demais.
— Vitória Cardoso, você não me engana. Fale logo.
Sabia que agora não adiantava, precisava revelar para ela o que tinha
acontecido. E foi isso que fiz, contei sobre o piquenique e a maluca que
chegou me humilhando. Depois que Eduardo foi me pedir desculpas, e agora
como estávamos sem graça um com o outro por causa do beijo que eu o tinha
dado na bochecha.
— Não acredito que estão parecendo dois adolescentes, na verdade
você eu até entendo. Ainda é muito nova, mas um homem experiente como
Eduardo está parecendo um menininho acanhado por causa de um beijo na
bochecha, dai-me paciência.
— Ele só não está acostumado com esse tipo de contato, Matilde. Eu
entendo, acho que passei uma barreira que ainda não era permitida.
— Pare de besteira, e não evite o homem. Vá atrás dele e aja
naturalmente.
Como agiria naturalmente, se até eu estava meio estranha depois de
um simples beijo na bochecha? Só não queria falar aquilo para Matilde e
parecer mais real do que parecia.
— Sim, vou ver o que faço.
O problema era que Matilde me conhecia bem demais, então até pelo
timbre da minha voz ela sabia que algo não estava tão certo, por isso,
questionou:
— Tem mais alguma coisa nessa história, Vitória?
Claro que não tinha, então por qual motivo eu queria dizer o
contrário? No entanto não quis dar mais corda para aquela conversa.
— Não, nada demais.
A mulher do outro lado da linha ficou em silêncio, mas também
pareceu entender que eu não queria falar sobre aquele assunto. Por isso
voltamos a falar de algo mais seguro, como ela vir morar comigo.
Quando tudo ficou acertado, e ela disse que no dia seguinte pediria
demissão da casa da minha tia, encerramos a ligação.
Assim que depositei o telefone no gancho, meus olhos traiçoeiros
foram parar na porta que Eduardo havia passado há alguns minutos. O que
ele estava fazendo? Será que deu uma saída, ou só estava passando um tempo
do lado de fora da casa?
Infelizmente eu era curiosa demais para deixar aquelas perguntas em
aberto. Caminhei lentamente até uma das janelas que me davam uma vista
para o jardim, assim que olhei para fora pude ver sua figura, sentada em um
dos bancos, sendo contemplado pela iluminação parca do lugar, juntamente
com a lua e o céu estrelado.
Não queria vê-lo daquela forma. Parecia tão triste, tão sozinho.
Eduardo precisava de alguém para ser seu braço direito, pelo que entendi ele
depositava toda sua confiança em meu pai e agora sem ele, o homem não
sabia como reagir.
Com esse pensamento foi impossível resistir, caminhei para a porta,
abri lentamente e saí por ela indo em direção ao homem solitário. Se ele
precisava de um braço direito, eu poderia tentar ser o seu, só esperava que
nesse processo nada demais acontecesse.
Quando me aproximei, a sua concentração que estava totalmente
ligada no céu estrelado, foi desviada para mim. O homem me olhou com seus
olhos verdes, intensos, até que eu cheguei próxima a ele e não desviei minha
atenção. Sem pedir permissão, sentei ao seu lado, perto o bastante para sentir
um pouco do calor do seu corpo, seu perfume...
— Não gosto de te ver sozinho, me sinto na obrigação de te fazer
companhia — comentei, sem encará-lo.
— Não preciso ter alguém para me dar apoio moral.
— Precisa, sim. Você era grudado no meu pai e agora não o tem aqui,
então precisa de uma nova pessoa para aguentar essa sua rabugice.
Escutei sua risada, era algo gostoso de ouvir. Um som diferente do
que estava acostumado a ser pronunciado por aquele homem.
— Não sou rabugento.
— Ah, quem te contou essa mentira? — brinquei.
— Eu nunca pensei que fosse, então não precisou de ninguém me
contar.
— Além de rabugento se acha demais. Cuidado com esse ego enorme.
— Não sei se veio me fazer companhia ou se veio me dar sermão e
me ofender. — Se fez de coitado.
— Não estou te ofendendo, estou só constatando uma verdade.
Ficamos em silêncio observando o céu, no entanto não pude deixar de
passar meus olhos, de forma sorrateira, pelo perfil de Eduardo. Estava
encantada por aquele homem e nem sabia o motivo.
— Sinto falta do seu pai. Realmente eu podia falar qualquer merda
com ele, que Matheus sempre estava lá para escutá-las.
No momento que falou, Eduardo voltou seus olhos para mim e me
pegou encarando-o descaradamente. Meus olhos grudaram nos seus e ali eu
senti que ele lia minha alma, senti como se tocasse algo que ninguém nunca
viu.
Será que por sermos duas pessoas abandonadas por quem nós
amávamos fez com que tivéssemos aquela conexão inexplicável?
Mas Eduardo não manteve seus olhos por muito tempo parados nos
meus, pois ele desceu o olhar para meus lábios e ficou encarando ali por um
momento. Foi impossível depois disso não fazer o mesmo. Eu queria mais
uma vez passar meus olhos por aquela boca completamente desenhada.
E foi aí que toda nossa atmosfera mudou, tudo pareceu entrar em
outra dimensão. Tínhamos sido transferidos para um momento só nosso. E
acho que foi exatamente isso que fez Eduardo tomar a iniciativa de levar sua
mão delicadamente ao meu rosto.
Assim que a palma da sua pele tocou a minha fechei meus olhos. Era
gostoso sentir aquilo, aquele toque gentil. Seus dedos passaram por minha
bochecha e aquela carícia parecia algo tão certo no momento. Movimentei
um pouco do meu rosto para sentir mais daquele afago, era tão bom.
Abri meus olhos e Eduardo havia aproximado seu rosto do meu o
bastante para eu sentir a sua respiração. Algo dentro de mim gritava para que
eu fizesse alguma coisa e foi exatamente o que deixei acontecer.
Levei uma de minhas mãos a nuca de Eduardo e puxei seu rosto de
encontro ao meu. Seus lábios tocaram os meus de forma lenta e nós não nos
mexemos por alguns minutos. Só aproveitando aquele contato novo,
completamente diferente e inesperado.
Porém, Eduardo pelo jeito não era tão paciente quanto eu, pois logo a
sua mão que estava em minha bochecha, foi parar também em minha nuca e
ele grudou ainda mais nossas bocas.
Foi quando realmente o nosso beijo começou. Seus lábios começaram
a dar leves selinhos nos meus. E em seguida sua língua pediu permissão para
avançar e eu simplesmente deixei.
Quando sua língua tocou a minha, senti um calor possuir meu corpo
dos pés à cabeça, algo que fazia todo o meu corpo se arrepiar. E não pude
deixar de corresponder aquele contato.
O beijo que começou lento, aumentou significativamente de
velocidade, se tornando feroz. As mãos de Eduardo foram parar em meus
cabelos, entrelaçando seus dedos em meus fios. Sua boca devorava a minha
de forma violenta, e aquilo era totalmente diferente de todos os beijos que já
havia recebido em minha vida.
Não era nada experiente se tratando de homens, então sentir aquilo
que estava tomando meu corpo era insano. Algo tão novo, e tão gostoso. Um
calor que me deixava maluca e se eu fosse realmente verdadeira revelaria que
até minha calcinha estava encharcada.
Parecia que com um beijo Eduardo já sabia destruir minhas estruturas.
Sua língua continuou brincando com a minha, o beijo mais sexy e
gostoso que recebi. E quando ele se afastou senti sua falta no mesmo
momento, a brasa do meu corpo começou a ser apagada e o tesão a se
diminuir.
Abri meus olhos lentamente e o encarei, suas mãos ainda seguravam
meu rosto e o seu não estava muito afastado do meu. Os olhos de Eduardo
permaneciam fechados, e eu não sabia o que dizer.
Poderia falar que tinha sido uma experiência incrível, que foi o
melhor acontecimento em minha vida em anos, no entanto assim que
Eduardo abriu seus olhos eu vi o arrependimento estampado neles.
Sabia que ele não estava sentindo o mesmo que eu. Não tinha aquela
euforia, não tinha aquele desejo desesperador que possuiu. Droga!
— Não posso fazer isso, Vitória — murmurou.
— Por que não? — foi difícil fazer a pergunta, pois estava tentando
fazer o ar voltar aos meus pulmões.
— Eu tenho a missão de cuidar de você e não de te seduzir. Não sou o
homem ideal. Você sonha com um amor que não posso te dar.
— Mas eu não pedi amor. Foi só um beijo. — Tinha sido só um beijo,
não é mesmo?
— É assim que começa, não quero fazer isso. — Eduardo se levantou,
no entanto, antes de sair falou: — Desculpe-me!
Ele se afastou e me deixou sentada sobre o banco de madeira do
jardim. Eu era só a sua missão de caridade, tinha que deixar isso na minha
mente. Não podia pensar que ele tivesse desejo por mim. Era compreensível,
por isso, eu devia sair daquela casa o mais rápido possível para não lhe
atrapalhar mais.
Estava cansada de ser a filha do seu amigo, que Eduardo queria criar
em um pedestal, sem me dar chance para fazer algo diferente em sua vida.
Capítulo 14

Era exatamente por isso que era perigoso deixar uma mulher bonita
como Vitória se aproximar de homens como eu. Elas sempre acabavam em
minha cama, comigo as fodendo desesperadamente. Não queria fazer com a
filha de Matheus o mesmo que fazia com todos os meus sexos sem
compromisso.
Por isso a melhor coisa que fiz foi me afastar. Literalmente mudei
minha rotina. Eu saía antes de todos acordarem e voltava só quando todos já
estavam dormindo. Meus dias na empresa haviam aumentado
consideravelmente, no entanto era melhor assim do que encontrar Vitória e
querer agarrá-la mais uma vez.
Só que hoje algo estava diferente. Assim que pisei dentro da minha
casa percebi que toda a atmosfera havia mudado. Principalmente por ser
quase duas da manhã e à luz da sala estar acesa.
Nunca naquele horário as luzes ficavam acesas. Estariam todos
dormindo, no entanto, aquela diferença despertou algo em mim. Caminhei até
a mesinha que eu costumava deixar minha maleta, e a depositei lá, logo tirei a
minha jaqueta de couro e a coloquei no lugar também.
Estava exausto, mas eu precisava saber o que tinha acontecido de
diferente, por qual motivo havia alguém na sala aquele horário. Assim que
entrei no cômodo vi Lourdes dormindo sobre o sofá. Ela estava com a cabeça
recostada sobre o encosto e a boca estava aberta. Provavelmente pegou no
sono ali mesmo sem nem perceber.
Aproximei lentamente da mulher e dei um toque leve em seu braço
para não a assustar. Mesmo assim ela se sobressaltou, porém logo se situou e
percebeu que estava tudo bem, só havia pegado no sono sem querer ali.
— Vá para seu quarto, Lourdes — abri um sorriso leve ao falar.
— Vou, querido. Só estava te esperando para podermos conversar.
Achei aquilo estranho, já que Lourdes não me esperava acordada para
conversar.
— Aconteceu algo?
— Aconteceu.
Aquilo não parecia ser nada bom. Fiquei em pé esperando que ela
falasse o que tanto lhe perturbava.
— Vitória vai embora.
Foi só isso que ela precisou dizer para que eu sentisse a culpa me
devorar. Abaixei minha cabeça por um momento, tentando pensar em algo
para falar, e tirar aquele sentimento de dentro do meu corpo, no entanto foi
em vão.
— Quando? — a palavra mal saiu da minha boca.
— Amanhã! — Lourdes me encarou, no entanto não quis deixar que
ela percebesse que eu estava afetado com aquela informação.
Dei as costas para ela, mas não me movi, precisava pensar o que
fazer. Não sabia se era o momento certo de ir tentar reverter toda aquela
situação. Não queria que Vitória fosse embora daquela maneira. Sem nem ao
menos se despedir de mim, se Lourdes não tivesse me avisado eu nem saberia
que ela…
— Espera. — Voltei-me na direção da minha governanta. — Você
ficou aqui me esperando chegar?
— Bom, meu filho... — Ela começou, mas fez uma pausa, levantou-se
do sofá para se espreguiçar. — Se eu não ficasse você ficaria sabendo só
quando ela fosse embora, já que alguma coisa devia ter acontecido para você
não estar voltando para casa nos horários normais.
Lourdes me encarou como se soubesse de algo e não quisesse
compartilhar comigo aquela informação.
— Não sei do que está falando, Lourdes.
— Sabe sim, Eduardo. Alguma coisa aconteceu entre você e Vitória,
pois ela está toda nervosa e nem quis saber de me escutar quando disse para
não ir embora sem falar com você antes. Quer me contar o que foi?
A mulher alçou sua sobrancelha em minha direção, mas eu não
achava certo me abrir com mais uma pessoa. Já bastava Vitória que tentou
fazer aquilo, e pelo jeito não deu certo, afinal confundimos tudo e acabamos
trocando aquela merda de beijo. Que era o culpado e estava fazendo com que
ela fosse embora.
— Não tenho nada para te contar, Lourdes. Acho melhor ir para o seu
quarto e evitar dormir novamente no sofá.
— Como o senhor quiser, cabeça dura — resmungou, e foi saindo da
sala. Antes de sumir das minhas vistas voltou-se em minha direção com a
expressão zangada e finalizou: — Às vezes o senhor perde as oportunidades
que a vida lhe dá, só por essa bobeira de ser frio e com esse humor de merda.
Pensei em dizer que ela estava passando dos limites. Porém, Lourdes
não esperou que eu me expressasse. Aquela mulher era muito atrevida. Só
que se eu parasse só por um momento para dar ouvidos a sua fala, eu saberia
que estava certa.
Eu afastaria mais uma pessoa da minha vida, por não saber conter
meus sentimentos, por não saber entender o que o destino gritava para mim.
Respirei umas duas vezes antes de começar a caminhar até o quarto
de Vitória. Não poderia deixar que fosse embora, só por causa do beijo. Eu
sabia que ela queria ter seu próprio canto, mas não sabia se aquele era o
momento certo. Parecia que sua partida estava completamente prematura.
Tudo gritava que ela precisava ficar mais um tempo em minha casa e
era isso que eu tinha de fazê-la entender. Parei em frente à porta do seu
quarto, e dei duas batidas fortes.
Esperava que não acordasse Pietro, mas se acordasse não poderia
fazer nada. Precisava colocar na cabeça de sua mãe que não era o momento
de partir. Demorou um pouco, mas logo a porta foi aberta por uma Vitória
com cabelos completamente desgrenhados e os olhos sonolentos.
O que eu esperava? Que ela abrisse a porta de forma sorridente? Era
madrugada, ela não estaria acordada como uma imbecil, esse papel ficava
somente para mim.
— Eduardo? — sussurrou, ao mesmo tempo que saiu para fora do
quarto e fechou a porta.
Provavelmente para evitar que seu filho acordasse, pois diferente de
mim ela devia se preocupar com o garotinho. Passei meus olhos por seu
corpo, e a bermudinha curta e a regata colada, deixando pouco para minha
imaginação, mexeu comigo.
— Está tudo bem? Por que está batendo na porta do quarto uma hora
dessas? — seu questionamento, fez com que eu tirasse meus pensamentos
inapropriados da minha cabeça.
— Fiquei sabendo que vai embora amanhã.
— Claro que a Lourdes iria te contar.
Ela pareceu ficar meio brava com minha governanta. Mas Lourdes
estava certa, ela tinha que me manter informado sobre o que acontecia em
minha casa.
— Ela fez o que devia, senão eu nem ficaria sabendo sobre a sua
partida, não é mesmo Vitória?
Sim, eu estava bravo, só não sabia o motivo. Já que Vitória não tinha
obrigação nenhuma de me contar o que estava acontecendo em sua vida.
— Você não tem que saber sobre os meus passos. Meu pai pediu para
que cuidasse de mim, você fez bem, agora posso seguir sozinha.
Senti como se tivesse levado um soco com suas palavras. Estava
parecendo um maricas, que ficava afetado com tudo que me diziam.
— Se eu tivesse cuidado bem, você não estaria saindo da minha casa
escondida.
Ela abriu um sorriso irônico, colocou as mãos na cintura, como se
estivesse pronta para me enfrentar para o que quer que fosse.
— Sério, você vai mesmo falar que eu estou saindo escondida? Te
esperei por dias para falar com você, mas parece que um simples beijo o
deixou tão chateado que você me evitou todo esse tempo. Eu sou a sua obra
de caridade, não mereço sua atenção para nada, nem para saber se você
gostou do beijo ou não. Então, por favor, não venha me dizer que estou
saindo da sua casa escondida, Eduardo. Se você tivesse tido um pouco de
consideração por mim, teria permanecido como sempre, continuado com sua
rotina intacta.
Não tinha como retrucar aquela afirmação, já que eu realmente tinha
agido como um garotinho medroso. E foi só um beijo, foi isso que ela disse
aquele dia, não foi? Então, eu não deveria ter dado muita importância.
— Não queria que você confundisse as coisas, Vitória.
— Acho que quem confundiu foi você. — Ela respirou fundo e
finalizou: — Vou embora amanhã. Escolhi ficar no apartamento que o meu
pai me deixou no bairro de Moema. Agora que te informei tudo que precisava
saber, vou voltar a dormir.
Ela se voltou para a porta, mas antes que abrisse segurei seu braço,
porém ela não se movimentou. Ficou de costas para mim, esperando que eu
dissesse o que queria.
— Não sei se sua partida está certa. Não sei se você conseguiu
organizar suas coisas, quero te ajudar, não quero te deixar abandonada como
você estava — sussurrei, me aproximando um pouco mais dela, sentindo o
cheiro adocicado de seus cabelos.
— Minha partida devia ter sido bem antes, fiquei demais aqui e agora
estou sendo ignorada pelo homem que prometeu me ajudar. Só porque eu sou
sua caridade.
— Você não é minha caridade, Vitória.
— Não quero ser uma idiota, por isso, te agradeço muito por ter
aberto espaço na sua casa para essa mãe solteira desesperada. Você me
ajudou muito, Eduardo. Agora está na hora de eu trilhar meu caminho
sozinha.
Ainda segurando seu braço, me aproximei ainda mais do seu corpo.
Peguei minha outra mão e entrelacei em sua cintura, fazendo com que ela
ficasse ainda mais perto de mim. Seu corpo colocou-se ao meu e eu ouvi o
momento exato que sua respiração ficou descompassada.
— Não queria que você fosse embora, Vitória.
— Mas eu vou, Eduardo.
Vitória saiu dos meus braços, abriu a porta e antes de fechar olhou em
meus olhos. Tinha desejo, palavras que não foram ditas, mas o mais
importante, tinha mágoa. Eu havia a magoado, e aquilo pareceu me destruir.
— Adeus!
Bateu a porta na minha cara, e eu ainda esperei que ela abrisse e
falasse que mudara de ideia, mas não aconteceu nada nos minutos seguintes.
Por isso, caminhei cabisbaixo para o meu quarto, sentia que perdia algo
importante, sentia como se aquela fosse mais uma pessoa me abandonando,
no entanto eu sabia que chegaria a hora de ela ir embora, então por qual
motivo estava daquela maneira?
Entrei em meu quarto e tentei esquecer o que acabou de acontecer, no
entanto o cheiro adocicado dos cabelos de Vitória não saiu da minha mente, e
eu sabia que aquilo ainda complicaria ainda mais para o meu lado. Eu estava
fodido, completamente fodido.
No entanto antes que me arrependesse ainda mais de minhas ações.
Abri uma das gavetas que eu quase nunca mexia e procurei uma fotografia
que devia ter dado a Vitória há muito tempo. Talvez aquilo fizesse com que
ela me odiasse menos. Bom, era isso que eu esperava.
Capítulo 15

Ele ia e vinha todo animado com seu novo brinquedo. Era um Capitão
América e pelo visto meu filho já era viciado em filmes de super-heróis desde
pequeno. Sorri quando ele caiu sentado, com o brinquedo nas mãos e me
olhou com os olhos arregalados.
Pietro não tinha se machucado, o medo dele era de eu o repreender
por ter feito algo errado. Porém, ele não havia feito nada, estava somente
fazendo suas coisas de criança.
— Tá tudo bem, filho. Quer ajuda para se levantar? — questionei,
pois ela ainda me olhava com os olhos arregalados.
No entanto balançou a cabeça em negação, se levantou com seu
Capitão América e voltou a brincar pelo apartamento. Olhei pelas vidraças
que iam do teto até o chão e o sol já estava se pondo.
Eu tinha uma bela vista de um dos apartamentos que havia herdado do
meu pai, e estava encantada com toda a maravilha que era o lugar. Possuía
piscina, uma grande sala, cozinha, três quartos. Realmente meu pai tinha
muito dinheiro, e isso agora era tudo meu.
Sorri um pouco pensando no quanto minha vida estava mudando em
tão pouco tempo. Estava morando naquela cobertura há quinze dias e mesmo
que eu estivesse feliz, e pudesse agora ter a oportunidade de sonhar, ainda
sentia que algo estava faltando.
Não sabia denominar o que era, no entanto, o vazio no meu peito era
constante. Eu tentava esquecê-lo, porém as memórias apareciam com
persistência para me atormentar. Igual naquele momento que eu observava o
crepúsculo, não conseguia me sentir cem por cento bem, algo me abalava. E
sinceramente eu tinha medo do que pudesse ser, pois no fundo eu poderia dar
nome ao vazio que estava sentindo, mas não queria que fosse real.
Matilde apareceu na sala com uma expressão feliz. Ela estava
morando comigo desde o dia que eu saí da casa de Eduardo, e aquilo foi uma
das melhores coisas que aconteceu nos últimos tempos. Ainda mais que
minha tia morreu de ódio, quando ela disse que iria embora para morar
comigo. Eu queria ser a famosa mosquinha que bisbilhotava a vida alheia,
pois necessitava muito ver Edna perder. Eu tinha perdido tanto por causa dela
e dos meus avós, que não conseguia não desejar um pouco de mal aquela
mulher.
Não era certo ter aquele tipo de sentimento para o próximo, mas o que
eu podia fazer? Fui humilhada, tratada como lixo e ainda impedida de
conhecer uma pessoa que podia me amar, não tinha como ficar do lado de
Edna e não desejar o pior para ela.
— Menina, o que faço para o jantar? — Matilde, questionou.
Já havia falado para ela não se preocupar com nada, eu até tinha
contratado uma funcionária para dar um jeito nas coisas da cobertura, porém
Matilde não deixou que eu contratasse uma cozinheira. Ela não entendia que
eu queria que ela fosse como a dona daquele lugar. Para não a contrariar,
permiti que cozinhasse, mas eu não servia para dar ordens, então dei de
ombros.
— O que quiser fazer está de bom tamanho, Matilde. Sua comida é
maravilhosa, só não quero que se esforce demais. Realmente quero que se
sinta em casa e fique descansada.
— Não vou me cansar, menina. Só não consigo ficar parada.
Pietro veio dando seus passinhos desengonçados em minha direção,
assim que chegou perto o suficiente de mim, me estendeu o Capitão América.
Peguei o brinquedo e fiquei encarando meu pequeno.
— Mamã… — Esperei que ele falasse, pois sua fala já estava se
desenvolvendo melhor. — mamá...
Se eu não o entendesse direito, iria pensar que estava me chamando.
Porém eu conhecia aquele gordinho, e ele queria sua mamadeira. Olhei para
Matilde, que olhava encantada para meu filho.
— Vou preparar a mamadeira desse comilão.
— Obrigada — agradeci.
Coloquei o Capitão América no sofá ao meu lado, depois estendi
minhas mãos para Pietro e ele veio até mim. Sentei o bebê em meu colo, e
encarei seu rostinho rosado. Bochechas que representavam saúde, olhos
claros, cabelos da cor dos meus. Aquela criança era a perfeição em minha
vida, a única perfeição que existia em todo o planeta.
— Eu te amo, meu amor.
Passei a mão por seus cabelinhos, e ele encostou a cabecinha em meu
peito, todo dengoso. Provavelmente estava se sentindo carente naqueles
últimos dias. Afinal, com a correria da mudança, não pude dedicar meu
tempo para ele completamente, igual estava fazendo na casa de Eduardo. Mas
agora que estava tudo organizado, eu podia voltar a ser a mãe coruja que era.
— Amo… — Essa foi a resposta de Pietro, e eu fui obrigada a fazer
cosquinhas em sua barriga.
— Meu pequeno amor.
Enquanto ele gargalhava, fui obrigada a parar com as cócegas, pois a
campainha da cobertura tocou. Franzi o cenho, já que não estava esperando
ninguém, e muito menos fui avisada pela portaria que alguém tinha chegado.
Deixei Pietro sentado no sofá e antes de me afastar, falei para ele:
— Fica quietinho aqui, que a mamãe vai ver quem é, tudo bem?
Ele como sempre muito obediente assentiu, parecendo uma pessoinha
muito mais velha, do que uma criança com quase dois anos. Caminhei até a
porta e antes de abri-la verifiquei pelo o olho mágico de quem se tratava e
não pude acreditar no que via.
Fiquei parada pelo menos por uns cinco minutos no lugar sem reação
alguma, pois parecia que estava em um mundo paralelo. Novamente a
campainha tocou, e eu saí dos meus devaneios. Matilde apareceu na sala,
provavelmente pensando que eu não havia escutado a campainha.
— Está tudo bem, menina? — questionou.
Voltei-me em sua direção meio assustada, porém assenti,
murmurando em seguida:
— É o Eduardo.
Ela sabia de tudo, sabia do beijo, dos meus medos e dos meus anseios
a respeito do homem que estava do outro lado da porta.
— Menina, abra essa porta. Vou levar Pietro comigo, para vocês
poderem conversar.
— Não! Eu quero que você fique aqui, junto com Pietro. Primeiro que
Eduardo nunca te viu e não quero ficar sozinha.
A mulher mesmo não gostando da minha ideia, assentiu.
Destranquei a porta e a abri, vendo Eduardo pela primeira vez desde
que saí de sua casa.
— Eduardo — murmurei.
— Vitória — ele sussurrou meu nome como se aquilo fosse muito
difícil de fazer.
Seus olhos passaram por meu corpo, e eu me senti invadida. Não de
forma desrespeitosa e sim por não sabermos como iríamos seguir nossos
caminhos depois daquele beijo que mudou todo o nosso destino.
— O que você está fazendo aqui? — indaguei, porque realmente
estava curiosa.
— Eu queria ver se você está bem adaptada, se não está precisando de
nada, se tudo está cem por cento bem.
Sua voz grossa preencheu aquele vazio que eu sentia dentro de mim,
não queria acreditar que a merda daquele vazio se resumia a Eduardo. Já que
nós não tínhamos nada, trocamos um beijo e só. Mas parecia que foi por um
único beijo que eu já sentia dependência de ficar um pouco mais ao lado
daquele homem.
Permaneci calada, encarando Eduardo, até que ele disse:
— Posso entrar?
Saí do meu transe e gaguejei algo que nem sabia o que era, mas logo
respondi:
— Claro!
Afastei-me dando passagem para ele. O homem olhou ao redor e
Pietro ao perceber quem havia chegado, desceu do sofá e veio caminhando
até Eduardo que estava parado no meio da sala. Depois meu filho abraçou
suas pernas e eu tive que engolir em seco com aquilo.
Se Eduardo o recusasse, eu teria que colocá-lo para fora. Só que para
minha surpresa, o homem pegou meu bebê em seus braços.
— E aí, garotão. Como você está? Não estou pisando mais em seus
brinquedos pela casa, não sei se isso é bom ou ruim.
Tive que abrir um sorriso singelo com sua declaração.
Eduardo continuou segurando Pietro, enquanto se aproximava de
Matilde e estendia sua mão livre para ela.
— Prazer, você deve ser a Matilde.
— Isso mesmo. O prazer é todo meu.
Eles trocaram o seu cumprimento e eu achei melhor fechar a porta e
caminhar para perto dos dois. Quando cheguei ao centro da sala, Matilde
comunicou:
— Vou olhar minhas panelas.
Assenti, mesmo que eu não quisesse que ela se afastasse.
— Esse lugar está diferente. Antes era mais sério e com menos vida.
— Quando cheguei aqui e vi que estava tão formal, eu quis dar um
pouquinho de cor ao lugar. Acho que meu pai era como você, muito solitário.
— Ele era.
Olhei para a foto que estava em cima da mesinha de centro, peguei o
porta-retrato e comentei:
— Obrigada!
— Era a única foto que eu me lembrava de ter dos dois. Quando ele e
sua mãe sonhavam com uma vida juntas.
Assenti com sua resposta. No dia que vim embora, Lourdes me
entregara aquela foto, dos meus pais jovens, em uma época que eles não
sonhavam que suas vidas seriam destruídas. Foi Eduardo que mandou me
entregar, e eu fiquei feliz com aquela despedida, pensei realmente que nunca
mais o veria.
No entanto estava enganada, pois agora ele estava ali na minha frente,
parecendo uma pessoa completamente diferente da que conheci. Estava
menos frio, uma pessoa que parecia estar fora do poço sem fundo que se
encontrava.
— Como você entrou aqui? — Precisava saber.
— Bom, o porteiro me conhece. Já que eu sempre estava aqui, então
ele achou que não tinha problema me deixar subir.
— Entendi. E o que veio fazer aqui? — indaguei, já que a curiosidade
me dominava.
— Te convidar para um jantar.
Aquela informação me pegou completamente desprevenida. Olhei
para Eduardo, para tentar descobrir onde estava a piada, e ele parecia
realmente falar sério. Puta que pariu!
Eduardo Montana, o homem mais sério, frio e calado que conheci,
estava me convidando para jantar? Provavelmente eu estava sonhando e
muito perto de acordar.
O que ele queria comigo?
Eu não era somente a sua missão?
Pelo jeito alguma coisa tinha mudado, e eu ainda não sabia o que era.
Capítulo 16

Horas antes

​Estava ridículo.
A forma como eu agia era muito tosca.
Sentia falta de uma pessoa que eu nunca tive contato direito.
Reclamei em toda a sua estadia que eu não suportava o quanto ela
falava e agora estava realmente sentindo falta de Vitória e até de Pietro.
​Não tive muito tempo com o pequeno, mas até seu chorinho da
madrugada me fazia falta. Eles mudaram minha rotina por poucos meses,
porém parecia que aquela mudança fez muita diferença na minha vida. Já que
sentia uma falta absurda daqueles dois.
​Estava em meu escritório, pois resolvi que não queria ir a empresa hoje.
Estava de saco cheio de cumprir todas as regras e os compromissos daquele
dia. Cansado de tudo. Não era o meu normal me importar com pessoas,
porém o que estava acontecendo comigo era isso.
​Eu me importava com uma garota que não conheci direito, porque eu não
quis, e foi uma idiotice eu ter recusado conhecê-la. Só que mesmo sem
conhecê-la bem, eu senti algo com seu beijo, algo que nunca tinha sentido
com ninguém.
​Uma coisa estranha, que me fez sentir cada vez mais conectado a ela.
Agora que a casa estava no completo silêncio novamente, sem brinquedos
espalhados pelos cantos, algo me mostrava que não gostava mais daquela
monotonia.
​Queria que minha rotina conturbada voltasse, que meus encontros
noturnos – sem querer – com Vitória voltassem acontecer, mas aquilo não iria
se concretizar. Ela estava levando a vida dela da melhor forma que podia, em
sua nova casa, não tinha tempo para dar atenção a um homem que só soube
lhe humilhar.
​Voltei a verificar um contrato, que infelizmente não pude deixar para
depois. Pois mesmo não indo a empresa, precisava reler para enviá-lo para o
departamento responsável.
​Foi nesse momento que minha porta foi aberta por uma velhinha
fofoqueira, e que se achava completamente dona da casa para entrar sem
bater no meu escritório.
​— Posso saber o que está fazendo aqui, Lourdes? — questionei, enquanto
ela me encarava com a mão na cintura.
​Não falou por alguns minutos, e eu fiz como se ela não estivesse ali. Mas
em alguns momentos a encarava, e a mulher continuava a me olhar como se
estivesse me julgando.
​Que merda eu tinha feito agora para deixá-la daquela forma?
​— Estou pensando se te dou um tapa para ver se acorda, ou se só mando
você acordar. Decida, você quer o tapa ou posso só falar?
​O que ela estava querendo com aquilo?
​— Você sabe que eu sou o seu patrão e posso te demitir se você me der
um tapa?
​— Eduardo, vamos ser realistas. A sua vida já é uma bosta, se você
demitisse a única pessoa que está ao seu lado desde muito novo, imagina o
quanto essa bosta não aumentaria?
​— Então me fale logo o que quer, mulher.
​Lourdes estava certa, eu nunca a demitiria, só que eu não queria que ela
ficasse falando que minha vida era uma bosta.
​— Termina de fazer o que está fazendo, pois parece muito importante, já
que você está com aquele vinco no meio de sua testa, de quando está
concentrado em algo. Depois levante essa bunda daí, pegue aquela jaqueta de
couro que te deixa com cara de menino malvado e vai atrás da Vitória.
​De onde Lourdes tinha tirado aquilo?
​— Eu não vou atrás de Vitória, você pirou?
​— Claro que não pirei, eu sei que está sentindo falta dela. Eu te conheço,
e sei que aconteceu algo para ela ir embora. Ainda mais que a ouvi dizendo
que você a tratava como uma missão. Você é idiota ou o quê?
​Como assim? Eu não estava entendo nada.
​— Lourdes, você terá que ser mais clara, não consigo decifrar a maioria
dos códigos que você me diz.
​— Sim, você é um idiota.
​Fiquei encarando-a, com minha sobrancelha arqueada, e depois de um
longo suspiro ela murmurou:
​— Vitória só foi embora, porque ela achava que você a considerava a
missão do pai dela. Eu sei que vocês se beijaram, eu só estava me fazendo de
idiota, pensando que você me contaria. Aquele dia, pela janela do meu
quarto, eu vi vocês no jardim. Ela queria algo e você não quis. Típico de suas
idiotices, mas eu sei que você não quis aprofundar nada por ela ser filha de
Matheus. Só que Eduardo, eu tenho certeza que se Matheus estivesse vivo,
ele iria aprovar qualquer envolvimento que você tivesse com a filha dele.
​Ela parou de falar esperando que eu comentasse algo, no entanto eu não
falaria. Não falaria mesmo. Lourdes não estava certa, na verdade, tinha um
monte de coisas erradas em sua fala. Eu não queria nada com Vitória, não era
por culpa nem nada. Só não queria me envolver com aquela garota.
​— Menino besta, ela pensa que você a rejeitou, porque ela só era a
missão que Matheus deu para você. Vai deixar a oportunidade, de conhecer
uma mulher que podia ser boa para você, só por medo de ela ser a filha do
seu melhor amigo, passar?
​Continuei calado, porém Lourdes continuou falando, já que quando ela
começava ela não parava mais.
​— Vai deixar essa menina de lado por orgulho? Vai voltar a sair com
aquela idiota da Geovana, que só quer saber de status? Pelo amor de Deus!
Você precisa de alguém como Vitória. Que foi tão destruída quanto você.
Para crescerem juntos, desenvolverem sentimentos juntos. Vocês precisam se
entender, seu idiota.
​— Lourdes…
​Ela soltou um suspiro meio revoltado, mas atendeu ao meu pedido
silencioso. Já que infelizmente, ela me conhecia tanto, que somente por falar
seu nome ela sabia o que eu queria dizer. E no momento eu só queria que ela
saísse e me deixasse sozinho.
​— Tudo bem, seu cabeça dura. Depois não venha como um cachorrinho
abandonado chorar as mágoas.
​A mulher saiu fechando a porta, e eu voltei a encarar o contrato que
estava lendo. Só que em diversos momentos eu me peguei pensando no que
Lourdes falou. Vitória realmente pensava que ela era só uma missão que
Matheus me pediu?
​Caralho! Será que ela não percebia que eu nunca fui beijado como ela me
beijou? Será que ela não entendia que eu estava uma confusão de
sentimentos, já que eu não entendia o que estava acontecendo, porque eu
nunca senti nada daquilo. Eu havia beijado várias mulheres em minha vida,
mas nunca tinha experimentado algo daquele jeito, aquele sentimento de
euforia que troquei com Vitória.
​Por fim, consegui terminar de ler o contrato, mas foi mais arrastado do
que com ânimo para terminá-lo. Assim que enviei para o departamento
responsável da empresa, fechei meu notebook e levantei-me da
cadeira.
​Fui até o bar que ficava em meu escritório e enchi um copo com uísque.
Precisava de um pouco de álcool nas minhas veias para pensar com clareza.
Tomei um gole, dois… virei o copo. E o enchi novamente.
​Não iria encher minha cara, era só para pensar naquela confusão de
pensamentos que estava tomando minha mente. Fechei meus olhos por um
momento e lembrei-me da garota de cabelos ruivos, seu sorriso, sua
gargalhada, mesmo que ela tivesse passado por momentos horríveis em sua
vida. Nunca havia perdido seu brilho.
​No fundo eu também invejava Vitória, como invejei Matheus e Camile.
Invejava Vitória por ela ainda deixar a felicidade bater à sua porta, mesmo
depois de toda desgraça que aconteceu em sua vida. Não queria invejá-la,
mas era impossível, já que eu não sabia reagir aqueles sentimentos que
tomavam minha vida.
​Quando abri meus olhos tomei uma decisão. Por isso, assim que terminei
de tomar meu uísque, subi para meu quarto. Eu precisava de um banho para
pelo menos ter certeza que o que estava passando por minha mente era real.
​Assim que cheguei ao meu quarto, retirei minha roupa e fui direto para o
chuveiro. Enquanto a água quente caia sobre meus músculos, mais convicção
eu tinha a respeito da ideia que se formava em minha mente.
Precisava dar uma chance para o destino, precisava entender o que o
presente estava me reservando, precisava saber o que o futuro queria. Por
isso, eu iria atrás daquela garota. Eu queria conhecê-la, queria deixar claro
que não era por ser a minha missão que eu não queria me envolver com ela.
Queria deixar claro que eu só tinha medo do desconhecido, tinha
medo de ser abandonado por outra pessoa, por isso eu sempre preferia não
me envolver para não ser deixado de novo. Queria dizer que eu gostei
bastante do beijo e que queria muito mais vindos dela. Só que não sabia como
dizer isso, mas que tomaria a coragem para falar.
Assim que saí do banho, enxuguei meu corpo, peguei uma boxer e
vesti. Depois optei por um jeans escuro, uma camisa preta e deixaria o resto
com a minha jaqueta de couro que estava no andar de baixo. Foi isso que
Lourdes mandara eu fazer, não foi?
Desci as escadas, e aquela velhinha parecia uma bruxa, pois estava me
esperando no final dos degraus, com um sorriso que parecia mais o do
coringa nos lábios.
— Pode dizer que eu sempre estou certa, não é mesmo?
Alcei minha sobrancelha para ela, pois eu nunca admitiria que foi ela
que fez eu tomar aquela decisão de ir atrás de Vitória.
— Não sei do que está falando, Lourdes.
— Tudo bem! Quando você estiver com a Vitória, nós voltamos a
falar sobre eu ser maravilhosa.
— Acho que você tem mais o que fazer nessa casa, a não ser cuidar
da vida dos outros, não?
— Cuidar da sua vida, está no tópico cuidar da casa, menino chato.
Tive que sorrir com seu comentário. Porque ela me tirava do sério,
mas eu adorava aquela mulher.
— Estou saindo. — Peguei minha jaqueta que estava no aparador de
parede, a vestindo em seguida.
— Manda um beijo para Vitória, e diga que estou com saudades de
Pietro.
— Não vou ver Vitória.
— Vai sim, você não me engana.
Velha abusada, foi o que pensei quando saí pela porta. Entrei em meu
carro e parti para o apartamento de Vitória. Não podia mentir que estava
ansioso com sua reação.
Quando ela abriu a porta do seu apartamento, que a vi depois de dias,
eu senti até que meu coração tomar uma batida diferente. Estava tudo errado,
eu não era um homem que pensava aquele tipo de coisa, e nem sentia. Não
sabia o que estava acontecendo, no entanto esperava que no fim não fosse
nada que me deixasse ainda mais destroçado do que eu me sentia.
Eu não podia ser ainda mais destruído, já que não acreditava em um
monte de baboseiras da vida, se essas mesmas baboseiras me destruíssem
ainda mais, tinha certeza que eu nunca mais acreditava em porra nenhuma.
Capítulo 17

​ u ainda encarava Eduardo, tentando ver se ele realmente estava falando


E
sério.
​— Você está me chamando para jantar?
​— Claro, quero tirar a impressão horrível que você deve estar de mim.
​— Não sei se estou com uma impressão horrível.
​— Sei que está. Eu nunca faço nada certo, então tenho certeza que fiz
alguma merda que te chateou.
​Sorri, porque ele parecia mais falante do que nos últimos tempos. Algo
havia mudado em Eduardo nesses quinze dias, só não sabia o que era.
​— Matilde está fazendo o jantar, se quiser ficar para…
​— Não, eu vim te convidar para jantar comigo. Então, por favor, se não
quiser ir eu vou entender, só não poderei ficar aqui.
​Pietro estava brincando com a gola da camisa de Eduardo, enquanto ele
me encarava com seus olhos devoradores.
​— Tudo bem! Vou ver se Matilde pode ficar com Pietro, se você puder
esperar eu me arrumar.
​— Claro!
​Assenti e caminhei até a cozinha, onde Matilde estava mexendo em
algumas panelas que estavam no fogo. Assim que ela me viu, abriu um
sorriso enorme.
​— Esse Eduardo é mais bonito pessoalmente do que por foto. Dou todo o
meu apoio para você se jogar em cima dele, se precisar de ajuda.
​Eu tive que gargalhar, já que não era possível que eu estava ouvindo
aquela senhora falar algo do tipo.
​— Para de falar essas coisas, Matilde. Eu nunca me jogaria para cima
dele.
​— Porque é boba, eu já teria me jogado.
​Novamente tive que rir, com o que ela falara. Só que eu tinha que saber se
ela podia ficar com Pietro para eu poder ir jantar com Eduardo. Ainda estava
meio chocada com seu convite, já que eu sabia que o homem frio que conheci
não fazia aquele tipo de coisa.
​— Matilde, ele veio me convidar para jantar. Eu aceitei, mas agora eu
acho que tinha que ver antes com você se poderia ficar com Pietro.
​A mulher limpou as mãos em um pano que estava em cima da bancada,
caminhou até mim e segurou minhas mãos.
​— Menina, claro que eu posso. Eu nunca faria você recusar um encontro
com aquele homem. Aquilo é um pedaço de mau caminho e você tem que
aproveitar todo esse caminho sacana.
​Em que século estava vivendo, onde senhoras como Matilde e Lourdes
eram mais assanhadas do que eu mesma?
​— Então eu posso ir me arrumar?
​— Já deveria estar pronta.
​— Tudo bem! Estou indo, sua velhinha danada.
​A mulher ficou sorrindo, enquanto eu saía da cozinha e passava pela sala
novamente. Eduardo estava sentado no sofá, brincando com Pietro, que ainda
permanecia em seu colo.
​Assim que me viu, ele parou o que estava fazendo e ficou me olhando.
​— Vou me arrumar — comuniquei.
​— Ok!
​Foi a única coisa que ele disse. Assim que saí da sala, tive que parar no
corredor para observar aquele homem brincando com meu filho. Senti uma
emoção tomar meu coração, enquanto Pietro gargalhava com Eduardo
brincando com ele.
​Realmente alguma coisa havia mudado naquele homem, e eu estava
pronta para descobrir o que era.
​Tomei um banho rápido, e vesti um vestido preto. Calcei um meio salto,
pois não queria me sentir cansada só por estar com um salto muito alto.
Deixei meus cabelos soltos, pois eu os amava daquela maneira. Passei um
batom vinho nos lábios, e realcei meus olhos com um pouco de lápis. Assim
que me olhei no espelho, aprovei o que escolhi para sair com Eduardo, eu
estava bonita, muito bonita.
Peguei uma bolsa pequena que coubesse meu celular, que até que
enfim eu havia conseguido comprar um.
​Meu pai tinha me deixado muito dinheiro, tanto dinheiro que eu nem
sabia como poderia aproveitar aquela quantidade, mas de uma coisa eu tinha
certeza: Em breve eu montaria algo que pudesse ajudar as pessoas, achava
muito errado uma pessoa ter demais, sendo que podia ajudar o próximo. E
agora que eu tinha condições suficientes para ajudar quem eu pudesse, eu
faria.
​Caminhei até a sala, e Matilde estava presente observando Eduardo que
ainda brincava com Pietro.
​— Matilde tem certeza que não será problema eu dar uma saidinha?
​— Claro, que não. Divirta-se que eu vou olhar esse pequenino. —
Apontou para meu filho.
​Eduardo parou de brincar com Pietro para me encarar. Seus olhos
passaram por meu corpo, e eu me senti envergonhada, no entanto tentei não
dar atenção. Ele devia só estar reparando que eu não sairia como uma maluca
com ele. Afinal, eu estava bem arrumadinha.
​— Você está muito bonita — Eduardo comentou, assim que terminou sua
inspeção.
​Senti minhas bochechas corarem, e Matilde – nada discreta – soltou uma
risada que fez até Eduardo – aquele homem inatingível – ficar sem graça.
​— Bom, me dê esse lindinho aqui. Ele precisa jantar.
​Matilde pegou Pietro do colo de Eduardo. Tentei não dar moral para as
palavras que ele dissera, caminhei até minha amiga e o meu filho. Beijei a
bochecha do meu pequeno e murmurei:
​— A mamãe volta logo, tudo bem?
​Pietro assentiu e me deu um beijo na bochecha.
​Ele era tão bonzinho, não conseguia imaginar como o seu pai se sentia
por ter nos abandonado. Se ele soubesse que o seu filho era uma gracinha,
nunca teria feito isso.
​— Qualquer coisa me liga, Matilde.
​— Pode deixar, menina.
​— Vamos? — questionei, enquanto me voltava na direção de Eduardo.
​— Sim!
​Ele se levantou do meu sofá, e nós caminhamos lado a lado até o
elevador. Enquanto esperávamos, encarei Eduardo de soslaio. Estava lindo
como sempre, com seu estilo pecador, jaqueta de couro, cabelos bagunçados,
aquela barba rala que dava um ar de homem safado, e a expressão de ser
malvado estava presente.
​— Quem te deu essa ideia de jantar? — precisei perguntar.
​— Lourdes — respondeu de forma objetiva.
​— E porque você quer jantar, nós podíamos só acertar os pontos que você
acha que me deixaram chateada com você.
​— Não era você que dizia que eu devia falar mais, sair do poço de
silêncio e solidão que eu me encontrava? Então, por favor, não reclame por
eu querer te levar para jantar.
​Sorri e entrei no elevador que havia chegado ao andar. Descemos em
silêncio, mas assim que saímos e fomos caminhando para o carro de Eduardo
eu tive que falar.
​— Fico feliz de você estar fazendo algo que falei.
​— E eu não estou me sentindo bem por fazer isso, mas talvez você deva
ter razão.
​— Eu na maioria das vezes tenho.
​Brinquei, enquanto me sentava no banco do carro, que ele havia aberto a
porta para mim. Eduardo olhou dentro dos meus olhos por alguns segundos,
no entanto logo fechou a porta, deu a volta no automóvel e sentou no banco
do motorista.
​— Sei que vai parecer estranho, mas não tenho a mínima ideia de onde te
levar para jantar.
​Eduardo mais uma vez parecia envergonhado ao dizer aquilo. E foi
impossível não cair na gargalhada com ele, afinal como uma pessoa me
convidava para jantar e não tinha um restaurante em mente?
​— Deixa eu ver se entendi. Você veio me convidar para jantar e não sabe
para onde me levar? — indaguei em meio a risadas.
​— Exatamente isso. — Ele me encarou ao dizer. — Não ria de mim.
​— Não estou rindo de você e sim de toda essa situação.
​Parei de gargalhar e o encarei. Ele estava tentando, não é?
​— Que tal se a gente procurar algum lugar? — questionei.
​— Tudo bem! — Ele deu partida no carro e assim que colocou o
automóvel em movimento, questionou: — Tem algum restaurante de sua
preferência?
​— Não, eu não conheço nada de São Paulo. Me surpreenda?
​Eduardo sorriu de lado, assentiu, e até brincou:
​— Vou tentar, mas não garanto nada.
​Assim que chegamos em um restaurante que parecia ser bem chique,
Eduardo desceu do carro, abriu minha porta e assim que entregou a chave
para o valet me conduziu para a entrada do lugar.
​Chegamos e a hostess nos conduziu para uma mesa, que ficava mais
afastada das pessoas em um lugar que parecia ser vip. Eduardo puxou a
cadeira para mim e eu quase achei aquela atitude fofa. Ele sentou à minha
frente, parecia tão sem jeito. Tinha certeza que ele nunca fizera aquele tipo de
coisa, afinal estava nítido que parecia um peixe fora d’água.
​— Pode ficar menos rígido, eu não mordo — brinquei, para cortar o
silêncio cortante.
​Seus olhos recaíram sobre os meus, no entanto ele não demorou muito
neles, pois passou o seu olhar por todo o meu rosto.
​— Mas eu posso morder — respondeu, quase como um sussurro que eu
consegui ouvir tranquilamente.
​Não pude deixar de encará-lo e ver se realmente estava falando sério, e
nem um traço de sorriso brincava em seus lábios. Porém, Eduardo podia até
abrir brechas, só que depois disso focou sua atenção totalmente no cardápio.
O garçom veio retirar os pedidos, e eu pedi qualquer coisa que estava lá, já
que com a declaração daquele homem fez com que eu perdesse toda a minha
concentração.
​Ficamos em silêncio, e no fundo eu já havia me arrependido por estar ali,
por ter deixado me levar. Pelo jeito, Eduardo tinha um período de tempo que
ficaria legal e depois voltaria ser o poço de silêncio que conheci. Olhei para o
lado, deixando que meus olhos batessem na porta de saída.
​— Não precisa querer correr de mim — murmurou.
​— Não tem como, quando você parece ficar em silêncio todas às vezes
que diz algo que me deixa chocada.
​— Essas coisas ainda são difíceis para mim, tudo que está acontecendo
comigo desde que te encontrei é novo. Não sei como me portar perto de você,
já que sinto que tudo que eu construí no decorrer dos anos fora esquecido.
Você tem algum tipo de poder que me tira dos eixos.
​— Acho que todo mundo que é fechado para o mundo, precisa de alguém
para lhe mostrar um caminho menos sombrio.
​Fazendo algo inesperado, segurei a mão de Eduardo por cima da mesa.
Ele encarou aquele contato, mas não afastou, o que eu agradeci. Seria muito
humilhante ele tirar sua mão da minha.
​— Deixa eu ser a pessoa?
​Tentei, afinal não tinha muito o que fazer a não ser pedir permissão para
Eduardo, para que eu pudesse entrar em sua vida. Ele por outro lado
permaneceu em silêncio por algum tempo, no entanto assim que se passaram
alguns minutos, respondeu:
​— Eu deixo com uma condição.
​Só de ele ter permitido, meu coração já havia perdido várias batidas.
​— Qual condição? — indaguei.
​— Me perdoa por ter feito você achar que eu não te quis, por ser a minha
missão. Eu não quis aprofundar nada, por você ser filha de Matheus. Ainda
tenho muito respeito pelo seu pai, mesmo que ele não esteja mais entre nós.
​Era isso? Então, nunca foi por eu ser sua missão de caridade?
​— Eu pensei que…
​— Pois é, pelo visto eu deixei que entendesse errado.
​— Vamos esquecer o que ficou no passado e focar no presente.
​Foi a única coisa que respondi, já que eu nem estava mais chateada com
ele. Eduardo tinha quebrado todo o seu orgulho e aparecera na porta do meu
apartamento, me pediu desculpas e agora deixaria com que eu entrasse em
sua vida.
​Não precisava de mais nada.
​Capítulo 18

​ jantar foi totalmente diferente do que eu esperava. Novamente me senti


O
bem por ter a presença daquela menina que entrara em minha vida sem
querer, e parecia que estava tomando todos os espaços que eu sentia vazios.
​Assim que estacionei na porta do seu prédio, tive que parar por um
momento para respirar. Encarei minhas mãos no volante e esperei que ela
tomasse a iniciativa de dizer algo. Era muito difícil para mim sair da minha
zona de conforto, ainda mais que foram muitos anos vivendo em completa
solidão e silêncio.
​Não era fácil sair de uma monotonia para entrar em uma vida
completamente movimentada.
​— O jantar foi melhor do que imaginei. — Vitória comentou, enquanto
destravava o seu cinto de segurança.
​— Ainda bem que pude te surpreender — murmurei.
​Tive que desviar meus olhos das minhas mãos e encarar aquela mulher.
Ela era tão magnífica. Aqueles cabelos ruivos me deixavam maluco, o
vestido que usava a deixou ainda mais bonita, a maquiagem tirou um pouco
da imagem de menina que Vitória carregava, e puta que pariu… eu queria
muito provar aqueles lábios!
​— Então… a gente vai conversar com mais frequência? — Vitória
questionou, e nem parecia querer se mover de onde estava.
​— Acho que sim, você quer me tirar do meu poço de silêncio. Não foi
isso que disse?
​— Isso mesmo.
​Vitória mordeu seu lábio inferior e sussurrou:
​— Vou fazer algo que talvez possa te chatear, mas está sendo mais forte
que eu, então nem tente evitar.
​Fiquei em silêncio esperando o que ela faria. Foi assim que Vitória se
aproximou de mim, levou uma de suas mãos ao meu rosto, acariciou minha
pele, e depois sem esperar muito grudou os nossos lábios.
​Diferente da primeira vez, eu não fiquei parado esperando me acostumar
com aquele contato. Abracei sua cintura e a puxei para o meu colo. Foi um
pouco difícil pelo pouco espaço que o carro nos dava, mas não foi
impossível.
​Vitória ficou com suas pernas uma de cada lado do meu corpo, e eu
intensifiquei nosso beijo. Não fui nada gentil, eu queria provar o doce dos
seus lábios de forma bruta. Para mostrar a ela que não era um príncipe, e sim
um homem que gostava de coisas fortes.
​Ela me surpreendeu ainda mais ao aumentar a euforia do nosso beijo,
como se realmente estivesse esperando aquela atitude. Pelo jeito, Vitória não
esperava nada muito delicado, ela queria brutalidade.
​Uma de minhas mãos apertou sua cintura, e a mulher em meu colo soltou
um gemido, que quase fez com que eu esquecesse onde estávamos. Nosso
beijo continuou voraz, até que as costas de Vitória bateu no volante e
disparou a buzina do carro. Isso fez com que nossas bocas se separassem.
​Os olhos de Vitória se abriram lentamente e focaram diretamente nos
meus. Ela abriu um leve sorriso e me deu um selinho rápido, saindo do meu
colo em seguida e voltando para o banco do passageiro.
​— Espero que você não suma e me evite, como da outra vez.
​Abriu a porta do carro e esperou que eu dissesse algo.
​— Dessa vez não será assim, é capaz de você até enjoar de mim.
​— Tenho certeza que vou adorar essa experiência. Boa noite, Eduardo!
​Saiu do carro, fechou a porta e eu fiquei observando até que entrou em
seu prédio e sumiu das minhas vistas. Pelo jeito aquela garota realmente me
mudaria, e eu estava ansioso para que aquilo acontecesse.
​Voltei para casa com um sorriso idiota brincando em meus lábios.
Estacionei o carro, e entrei em casa. Ainda não estava tarde, então foi fácil
encontrar Lourdes pelos corredores. Ela me olhou com uma expressão que
dizia que sabia que eu havia aprontado algo.
​— Viu a Vitória? — questionou.
​Eu por outro lado tirei minha jaqueta de couro e a deixei em seu devido
lugar. Depois caminhei para as escadas, antes de subir brinquei:
​— Acho que você está muito fofoqueira, não acha?
​— Eu preciso saber da sua vida, senão que graça teria a minha?
​Cocei minha cabeça e subi um degrau, só que eu tinha certeza que Vitória
me enfeitiçara a um ponto que me fez querer falar para o mundo o que estava
acontecendo.
​— Fui jantar com ela, tudo bem?
​— Ah! Agora está tudo explicado, por isso, a marca de batom na sua
boca?
​Droga! Aquela velhinha era uma intrometida, que não sabia o momento
de parar de fuxicar minha vida.
​— Acho que já contei mais do que você devia saber, Lourdes.
​— Ao menos posso ver que você está mudando. O antigo Eduardo nunca
falaria nada. Acho que gosto ainda mais da Vitória só por esse fato.
​— Boa noite!
​Subi as escadas o mais rápido que pude, mas no fundo eu concordava
com minha governanta. Eu também estava gostando ainda mais de Vitória. E
não podia negar que estava com um pouco de medo do que o futuro me
reservava.
​Tinha medo de me apegar e acabar sozinho, medo de ser abandonado,
medo de viver. No entanto daquela vez eu daria uma chance para o destino
me mostrar o que ele queria me dar de presente.
​Eu deixaria Vitória entrar em minha vida, e esperava que ela a mudasse
para melhor.
∞∞∞

​ uas semanas que Eduardo e eu estávamos nos conhecendo melhor. Às


D
vezes ele vinha até minha casa ou eu ia na dele. Já que Lourdes amava Pietro,
então era bom que ela tivesse um pouco de contato com meu filho.
​E sinceramente a melhor coisa que fiz foi ter aceitado conhecê-lo melhor,
e ter a oportunidade de fazer aquele homem deixar de ser tão solitário.
Parecia que a cada dia mais ele se abria, falava mais, sorria mais. E puta que
pariu! Aquele sorriso era tudo para mim. Amava ver o quanto Eduardo estava
se abrindo comigo.
​Mas eu não podia mentir que as melhores partes eram os beijos. Provar os
beijos daquele homem era uma dádiva. Era algo inexplicável, algo que eu
nem saberia nomear. Só podia dizer que eram momentos únicos que eu estava
amando vivenciar.
​Sorri novamente ao ler a mensagem que ele havia me mandado, pois era
tão sua cara aquele tipo de coisa, que eu não imaginaria outra pessoa fazendo
a mesma pergunta.
​Eduardo: Queria levar flores para você, no entanto não sei se gosta.
Poderia me dizer quais são as suas preferidas? E quando eu chegar finja
que não sabia que eu as levaria.
​Vitória: Nunca recebi, flores. Então, me surpreenda com qualquer
uma, tenho certeza que vou amar.

​ ietro estava deitado em meu colo, tirando seu cochilo da tarde e eu


P
mexendo em meu telefone, até que a campainha tocou. Não sabia quem era,
pois novamente não fui anunciada que alguém estava subindo. No entanto, só
podia ser Eduardo, ele era o único que tinha autorização para subir até minha
cobertura.
Por isso, assim que Matilde apareceu eu não me importei que ela
fosse até a porta abri-la. Já que não queria acordar Pietro. Porém assim que a
porta foi aberta, quem eu mais temia apareceu em toda sua elegância. Ela não
esperou ser convidada para entrar, foi invadindo meu apartamento sem dizer
nada, só olhando ao redor como se tivesse nojo.
Mesmo que eu não quisesse me levantar, para não acordar Pietro, foi
impossível. Fiz o máximo para não o despertar, mas foi impossível assim que
Edna, o monstro da minha vida, resolveu abrir sua boca. Meu filho sentindo a
presença infame daquela mulher no ambiente, acordou e ficou com os
olhinhos arregalados olhando a víbora.
— Então é aqui que você tem se escondido? — desdenhou. — Quem
você teve que enganar para receber uma propriedade como essa, Vitória?
— Não sei o que você está fazendo aqui, mas eu quero que saía, antes
que eu chame a segurança. — Eu não precisava mais ficar calada para aquela
mulher, no entanto um pouco de medo ainda vivia dentro de mim.
— Você pensa que é quem para falar comigo dessa forma? — Edna
indagou.
— A dona dessa casa, então suma daqui. Antes que eu te denuncie por
invasão.
Vi que um pouco da ironia que tinha em sua expressão foi perdida.
— Saía daqui, Edna — Matilde tomou a frente e se colocou diante da
mulher.
— Te deixei no emprego quando meus pais morreram, e é assim que
você me trata? Além de ter me deixado na mão, ainda defende essa fedelha?
— Não te devo satisfações, bruxa. Suma daqui!
— Eu sempre quis o seu fim, Vitória. E eu ainda vou conseguir, não
quero ver você se dando bem na vida. Não quero ter que viver no mesmo
ambiente social que você.
A ira tomou conta de todo o meu corpo, me aproximei rapidamente de
Edna. Ficando cara a cara com ela e esbravejei:
— Só que você vai ter que aguentar, Edna. Porque agora eu tenho
dinheiro, tanto dinheiro quanto você, então você pode até não querer, mas vai
ter que engolir. Agora suma daqui, pois posso te escorraçar da minha casa em
um estalar de dedos.
A mulher semicerrou os olhos, novamente o passou por todo o meu
apartamento. Depois focou em Pietro, e eu via o ódio que reverberava de seu
corpo. Mais uma dose de medo me dominou, pois ela poderia fazer qualquer
coisa comigo, mas nunca tentasse fazer nada com meu filho, senão eu não
resistiria.
— Até mais, Vitória.
— Até nunca mais, Edna.
Ela saiu do meu apartamento, e fui seguindo-a até a porta. Depois a
fechei em sua cara e fui direto ao telefone reclamar com a portaria por tê-la
deixado subir. No entanto o porteiro me informou que não permitiu que
nenhuma Edna subisse para o meu apartamento, e sim para o apartamento do
andar debaixo.
Aquela mulher devia ter descoberto onde eu morava, e provavelmente
teria algum amigo no prédio. Agora eu não me sentia tão segura na minha
casa. Será que um dia teria paz sem Edna para me atormentar?
— Vou levar Pietro para o quarto, para ver se ele volta a dormir —
Matilde murmurou.
Eu só pude assentir, pois estava muito abalada ainda com a visita da
minha tia. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Eduardo.

Vitória: Não me sinto segura mais. Edna apareceu aqui, e eu não


sei porquê, mas alguma coisa me diz que tem algo errado. Estou com
medo.
Ele não demorou muito para responder dessa vez.

Eduardo: Como assim apareceu em sua casa?


Vitória: Parece que tem algum conhecido que mora no prédio.
Eduardo: Irei resolver isso, não fique com medo. Eu vou te
proteger, sempre.

Eu esperava que Eduardo cumprisse com sua promessa, pois eu estava


realmente amedrontada com aquela situação. Se tinha uma pessoa que
conseguia me deixar com medo, era Edna e com sua visita minha paz foi
abalada.
Capítulo 19

Não sabia explicar como estava me sentindo nos últimos dias. Vitória
realmente estava conseguindo me tornar uma pessoa melhor, e não podia
negar que realmente estava gostando daquilo que estava acontecendo.
No momento eu conseguia até não ficar chateado de ser obrigado a
lidar com todas as burocracias da empresa sozinho. Não estava querendo
matar ninguém, e até estava mais falante.
Realmente duas semanas podiam mudar uma pessoa se ela se
relacionasse com alguém que estava realmente disposta a ajudar. Pois eu até
podia não concordar, porém eu precisava muito de ajuda, no entanto ninguém
teve paciência o bastante para me tirar do poço de solidão que eu me
encontrava.
O medo de ser abandonado novamente quase me dominava em alguns
dias, porém, em outros eu podia perceber que não era porque aconteceu na
minha infância, que uma pessoa que eu estava gostando me abandonaria.
Só que no momento que recebi suas mensagens, um pouco da leveza
que estava sentindo nos últimos dias diminuiu. Pude sentir no que Vitória
digitava que ela estava com medo de sua tia lhe fazer algo. E para falar a
verdade, depois de tudo que ela me contou de Edna, eu não duvidava que ela
poderia tentar fazer algo contra Vitória e até mesmo Pietro.
Por isso, ignorando toda minha agenda que precisava cumprir até o
final do dia, fui embora da empresa diretamente para a cobertura da minha…
não sabia denominar o que éramos, então só falaria que eu precisava ir
encontrar a garota que mudara minha vida.
Assim que cheguei subi diretamente para o seu apartamento, no
entanto não foi como das outras vezes. Quem abriu a porta para mim fora
Matilde, ela estava com um sorriso sem graça no rosto, e eu podia ver que um
pouco de preocupação passava por seus olhos.
— Que bom que chegou, menino — cumprimentou-me, deixando que
eu entrasse no lugar.
Olhei para todos os lados, mas não consegui ver Vitória em canto
algum. Muito menos Pietro. Já estava começando a ficar à noite, por isso, as
piores coisas passaram por minha mente.
— Onde eles estão? — Ainda precisava trabalhar um pouco da minha
educação.
Só que por sorte Matilde sabia que não ficava remoendo o que queria
perguntar, e sempre ia direto ao ponto.
— A menina está no quarto de Pietro, ele acabou pegando no sono.
Acho que até o pobrezinho percebeu que a sua mãe não estava bem.
Assenti e antes que eu pudesse seguir para o caminho que a mulher
me indicara, comuniquei:
— Vou ver como ela está.
— Sim, querido. Eu vou terminar de organizar a cozinha e vou para o
meu quarto. Boa noite!
— Boa noite!
Mal esperei Matilde me dar as costas para caminhar a passos largos
até onde Vitória estava. Deixei minha maleta no sofá e fui direto para o
quarto de Pietro. Assim que cheguei na porta do lugar, vi a mulher de cabelos
ruivos, segurando a barra de proteção do berço de seu bebê, enquanto o
observava.
Pela forma que ela encarava a criança, parecia que a qualquer
momento poderia perdê-lo. O que não era verdade, eu nunca permitiria que
algo daquela forma acontecesse com Vitória e nem com o seu filho.
Caminhei lentamente até ela, toquei seu braço gentilmente, mas
mesmo assim ela se sobressaltou. Quando percebeu ser somente eu, relaxou
mais e até abriu um pequeno sorriso.
— Não imaginei que viria aqui — murmurou.
— Bom, tirando o buquê que não tive tempo de comprar, após receber
sua mensagem. Acho que é isso que fazemos quando a pessoa que está se
tornando algo mais em sua vida, está precisando de um ombro amigo.
— Você fez certo, eu acho que estou realmente precisando de um
ombro amigo — sussurrou.
Voltou seus olhos para o berço de Pietro, no entanto levei minha mão
ao seu queixo e voltei seu olhar para mim.
— Ele está bem, mas acho que você não. Quer comer alguma coisa,
tomar um banho, dormir?
Não custava perguntar, pois eu ainda não sabia como ajudar de um
jeito normal, que não parecesse que eu estava dando ordens.
— Estou sem fome, mas meu corpo grita para um descanso.
Assenti e segurei sua mão, fomos caminhando juntos até seu quarto.
Ainda não tinha entrado naquele ambiente, porém eu jurava que no momento
Vitória precisava de mim completamente para ela.
Abri a porta e ela entrou ainda meio cabisbaixa. Fechou a porta e
segurou minha mão, caminhando até a cama. Aproveitei para me sentar no
colchão e ela sentou ao meu lado.
— Quer me contar direito como aconteceu a visita de Edna? —
indaguei.
— Não tem muito que contar. Ela veio aqui para me humilhar, eu
tenho certeza. Só que eu senti algo tão ruim vindo dela, que fiquei com medo
de tentar algo contra mim ou contra Pietro. Até mesmo contra Matilde. Eu
não suportaria, Eduardo.
— Não fala isso. Eu prometi que iria te proteger e não estou
mentindo, eu nunca permitiria que nada acontecesse a você.
— Obrigada! — respondeu.
Puxei seu corpo com meu braço, Vitória apoiou a cabeça em meu
ombro e nós ficamos assim por um tempo. Tempo o bastante para eu
perceber que sua respiração estava um pouco pesada. Assim que olhei para
ela, pude perceber que havia dormido.
Sorri de lado, e no mesmo momento aproveitei para deitá-la sobre a
cama. Iria embora e voltaria no outro dia para passar um tempo com ela. No
momento que tirei os sapatos dos seus pés e fui me afastar, Vitória sussurrou:
— Fica aqui essa noite, por favor.
Encarei seus olhos que estavam abertos, meio sonolentos. Ela não
estava sonhando, no entanto logo cairia em um sono profundo.
— Tenho que ir para casa, linda.
— Por favor, eu tô com medo. Com você me sinto mais segura.
Soltei um suspiro, mas atendi o seu pedido. Assenti para ela, porém
comuniquei.
— Vou tomar uma chuveirada, então.
— Tudo bem!
Vitória se aconchegou melhor na cama e voltou a fechar os olhos. Eu
fiz o que falei, deixei minha jaqueta de couro na cadeira do seu quarto, e
retirei os sapatos. Caminhei para o banheiro retirando minha camisa e assim
que fechei a porta, a calça e a boxer tiveram o mesmo fim.
Tomei uma chuveirada rápida, e não fiquei muito a fim de vestir a
mesma roupa para dormir. Por isso peguei um roupão que ficava no armário
do banheiro e o vesti. Me manteria o máximo afastado de Vitória para ela não
pensar que eu queria me aproveitar.
Sabia que teríamos momentos mais íntimos, mas eu só daria esse
passo quando ela quisesse. Quando voltei para o quarto, Vitória já dormia.
Sua cama tinha bastante espaço, porém eu preferi me deitar no sofá que
estava perto da janela.
Ele era totalmente pequeno para o meu tamanho, porém, eu sabia até
qual limite chegar. Não estava com vontade nenhuma de ultrapassar algo que
Vitória não aceitasse e acabaria me afastando da sua vida.
Acabei pegando no sono encarando-a dormir. Em algum momento da
noite acordei sentindo uma mão passando por meu peito. Abri meus olhos
lentamente, vendo a imagem da perfeição. Vitória era toda linda, mas com
cabelos desgrenhados e o rosto sonolento, ela ficava perfeita.
— Era para dormir na cama comigo e não nesse sofá que mal tem
espaço para mim, imagina para você — sorriu ao comentar.
— Não queria ser muito atrevido.
Seu sorriso aumentou, e seus olhos passaram pelo meu corpo.
— Eu fico pensando quando você será atrevido? Meio que tô
aguardando isso tem algum tempo.
Todo o clima do lugar mudou com a declaração de Vitória. A encarei
para ter certeza que estava realmente falando a verdade. E não tinha um pingo
de mentira em suas palavras.
— Vitória, se eu for para aquela cama, não ficaremos somente em
dormir. Você entende isso?
— Estava muito ansiosa para conhecer um lado ainda mais íntimo
seu.
Ficamos em silêncio, observando cada traço do rosto um do outro.
Vitória tomou a iniciativa de levar sua mão novamente ao meu peito. Dessa
vez ela ultrapassou a barra do roupão. Tocou minha pele e foi descendo seus
dedos até chegar no limite do nó do roupão.
Vitória retirou a mão de dentro do tecido, e desamarrou o nó que eu
havia feito. Assim que abriu a peça de roupa, fiquei completamente nu a sua
frente. Seus olhos passaram por meu corpo, analisando, admirando,
desejando.
Antes que ela pudesse tomar mais alguma iniciativa. Fiz sinal para
que me desse liberdade para levantar. Deixei o roupão no sofá e fiquei de
frente para ela. Vitória ainda estava com a bermuda de malha e a regata
branca que usava.
Seus mamilos estavam eriçados, pois a falta do sutiã permitia que eu
visse a forma que estavam. Levei primeiramente a mão para a barra de sua
blusa, subi delicadamente a peça deixando seus seios expostos.
Eram pequenos, com mamilos rosados, e eu senti minha boca salivar
com uma vontade incontrolável de levar meus lábios aos seus mamilos. Sem
conseguir resistir levei uma mão ao seu seio e apertei com força. Um gemido
escapou da boca de Vitória e foi inevitável não abrir um sorriso ao ouvir
aquilo.
— Você é linda, Vitória.
Ela não falou nada, ficou somente observando o que eu fazia.
Sem esperar mais, desci sua bermuda, juntamente com sua calcinha.
Deixando-a completamente nua a minha frente. Aproveitei que estava
ajoelhado para passar minha língua por toda sua extensão.
— Você é deliciosa.
Vitória fechou seus olhos ao ouvir minhas palavras, e eu fui obrigado
a novamente passar minha língua por sua boceta. No entanto, não resisti e a
chupei em seguida, com força, com desejo, com tesão.
— Faz amor comigo? — gemeu.
— Faço.
Levantei-me, peguei Vitória em meus braços. Ela entrelaçou as pernas
em minha cintura e eu caminhei para a cama com ela.
Naquela noite eu viveria mais uma experiência única em minha vida.
Conheceria por completo o corpo da garota que eu estava nutrindo
sentimentos. Não era amor, mas era algo mais, algo que nunca senti por
ninguém.
Vitória havia conseguido quebrar as minhas barreiras, e agora eu não
sabia como me tornar outra pessoa a não ser a que ela me moldou para ser. E
no fundo eu estava adorando aquele novo Eduardo Montana.
Capítulo 20

Seu corpo estava por cima do meu, enquanto ele devorava meus
lábios com tanto desejo, com tanta devoção. Nunca imaginei que conheceria
alguém como Eduardo. Um homem frio, sem sentimentos, e que no fundo era
só mais uma alma quebrada no meio da multidão.
Agora eu estava começando a conhecer um lado dele que estava
adorando. Meu maior medo era me apaixonar, e que tudo acabasse dando
errado. Tinha certeza que não suportaria tal coisa.
Porém, nesse momento, eu só pensava na quantidade de tesão que
estava sentindo.
Eduardo soltou meus lábios, com um sorrisinho sacana em sua boca.
Me encarou por um tempo, mas não demorou muito para voltar a me beijar,
no entanto dessa vez ele foi descendo por meu pescoço, passando por meus
seios. Chupou meus mamilos com tanta euforia que me fez soltar outro
gemido.
Eu estava me controlando, pois não queria que ninguém ouvisse os
sons que saíam do meu quarto. Só que em alguns momentos eu perdia a
noção do volume e deixava que escapassem mais altos do que o apropriado.
Assim que parou de dar atenção aos meus mamilos Eduardo voltou a
descer os seus beijos molhados por meu corpo, passando por minha barriga, e
fazendo minha pele se arrepiar.
Quando chegou próximo a minha vagina, ele parou por um momento.
Encarou meus olhos e novamente um sorrisinho safado passou por seus
lábios. Não estava preparada para o que veio a seguir.
Minhas pernas foram abertas com brutalidade, e quando eu mal
esperei Eduardo estava me chupando com tamanha euforia. Me deixando
completamente desnorteada. A única coisa que pude fazer foi levar minhas
mãos até seus cabelos e pressionar mais aquele contato entre minha vagina e
sua boca.
Senti algo se avolumar por meu corpo. Algo que era quase
desconhecido para mim. Já que não o senti muitas vezes, mas quando me
libertei pela primeira vez naquela noite, com uma sensação de plenitude, eu
soube que havia gozado.
— Esse será o primeiro da noite — Eduardo murmurou, assim que
afastou sua boca da minha pele.
Era impossível aquele homem ser tão lindo e ainda se preocupar com
o prazer da mulher. Estava fascinada com aquela versão de Eduardo, acho
que ela era a melhor versão para mim.
Ele mal esperou que eu me recuperasse, acabou me virando na cama.
Deixando-me com os seios colados no colchão e minha bunda exposta para
ele. Mas não satisfeito, Eduardo ajeitou minha posição com alguns
travesseiros embaixo da minha cintura, deixando minha bunda mais
empinada, e arrumando minhas pernas para que eu literalmente ficasse na
posição de quatro.
Não sabia o que ele queria fazer, mas já estava ansiosa para descobrir.
Quando seus dedos me penetraram sem aviso, soltei um grito, que foi
abafado pela cama.
Eduardo estocou com força seus dedos, eu o sentia entrando e saindo,
me deixando cada vez mais louca por ele. Me deixando repleta de tesão
novamente, nem parecia que eu havia acabado de ter um orgasmo.
Ele revezou entre seus dedos e sua língua, cada vez que seus lábios
me chupavam eu sentia mais e mais um desejo incontrolável se apossar do
meu corpo. Era algo que eu nunca senti na vida, algo tão especial que me
fazia sonhar por mais. Quando mais uma vez o orgasmo se aproximou, senti
que iria ter minha liberdade novamente. No entanto Eduardo foi maldoso e
retirou seus dedos e sua boca de mim.
Afastou-se faltando pouco para minha libertação. Olhei para ele por
cima do ombro, tentando entender o que estava fazendo. Com um sorriso
safado nos lábios ele me olhava de forma feroz, com os olhos pura chama.
Eduardo estava ajoelhado na cama, com uma mão sobre o seu
membro. Ele fazia movimentos de vai e vem, enquanto observava meu corpo
completamente exposto sobre o colchão.
Olhei por todo o seu corpo, passando meus olhos por seu peito nu, seu
abdômen definido até chegar ao seu membro, que estava completamente
duro, com veias grossas. Senti minha boca salivar só de observar aquele
homem daquela forma. Tão entregue a mim.
Por isso, sem resistir, saí da posição que Eduardo tinha me colocado.
Fiquei de frente para ele, levei minha mão até seu membro. Ele retirou a sua,
e deixou que a minha tomasse o lugar. Comecei a masturbá-lo, enquanto
encarava seu rosto, vi o momento exato que fechou seus olhos para apreciar a
carícia.
Seus lábios se abriram, pois eu imaginava que ele estava como eu.
Tomado pelo desejo, pelos sentimentos que me dominavam. Aumentei o
ritmo da minha mão e um gemido escapou de sua boca. Eduardo ficou mais
ofegante, o que me deixou ainda mais louca.
Foi impossível não me abaixar e levar minha boca ao seu membro.
Coloquei toda sua extensão em minha boca, o engolindo por completo.
Sentindo o seu pau tomar minha garganta. Comecei a fazer movimentos de
vai e vem, mas dessa vez com a cabeça. Cada gota pré-ejaculatória eu
engolia, para sentir o sabor daquele homem na minha língua.
Uma de suas mãos foram parar em meus cabelos. Eduardo entrelaçou
seus dedos nos meus fios e fez mais pressão para que eu não parasse de fazer
o que estava lhe dando tanto prazer.
— Ah, Vitória! Que boca maravilhosa… puta que pariu!
Sua voz estava mais rouca que o normal. O tesão deixava aquele
homem ainda mais selvagem. Continuei chupando-o cada vez com mais
desespero. Minha vagina ficava ainda mais encharcada a cada minuto, só por
ouvir os rosnados e gemidos de Eduardo.
No entanto fui impedida de continuar aproveitando o seu membro,
pois ele me afastou. Levantou meu corpo e fez com que eu ficasse cara a cara
com ele.
— Se você continuar, amor. Eu não conseguirei te foder da maneira
que estou pensando há bastante tempo.
Engoli em seco ao ouvir suas palavras. Ele me deitou gentilmente na
cama, e eu fiquei o observando, enquanto o homem saía de sua posição e
caminhava até o banheiro. Não imaginei o que ele teria ido fazer lá, no
entanto em seguida voltou com um pacote de preservativo.
Provavelmente deveria ter deixado em sua carteira, que eu vi que
estava em cima do lavabo.
Eduardo abriu o pacote, e ainda me encarando com aquela expressão
de prazer, foi desenrolando a camisinha por seu membro. Assim que estava
colocada, se aproximou da cama, depois ficou entre minhas pernas, sem tirar
os olhos dos meus.
— Vou te foder, Vitória.
— Você prometeu que faria amor comigo — murmurei, mas estava
louca para ser fodida.
— É assim que eu faço amor, minha linda.
Eduardo mal terminou de falar, pegou minhas pernas e apoiou em
seus ombros. Com isso ele se enterrou em mim de uma vez, sem esperar, sem
aviso prévio. Simplesmente colocou todo o seu membro dentro da minha
vagina.
Foi impossível não gritar devido a surpresa do movimento. Fechei
meus olhos ao sentir o choque tomar meu corpo. Era muito tempo sem sexo,
e Eduardo não era nada pequeno, então eu precisaria me acostumar com todo
o seu tamanho.
Ele parecia ter entendido que eu precisava de um momento, pois
parou por alguns minutos, ficando somente me preenchendo. Assim que me
acostumei com seu tamanho, abri meus olhos para olhá-lo.
Os seus me encaravam com ainda mais desejos, mais fogo, mais
prazer. Porra! Eu estava completamente louca naquele homem.
Quando Eduardo começou a estocar, ele não foi nada carinhoso, nada
calmo. Ele era rápido, forte, bruto. Eu entendia agora o seu jeito de fazer
amor, e toda a rudeza que ele demonstrava em seus gestos acabava comigo,
mas me deixava completa.
Cada vez que ele se enterrava em mim, mais uma dose de prazer
aumentava em meu corpo. Delicioso, maravilhoso, perfeito!
Aquele sexo feroz que estávamos fazendo era mais que perfeito, eu
nem saberia denominar em palavras o quanto eu estava me sentindo cheia de
prazer.
Completamente rendida por aquele homem.
Eduardo encarava meus olhos como se aquilo fosse a parte mais
importante do que estávamos fazendo. Ele me olhava completamente
diferente da brutalidade dos nossos atos. Em seu olhar existia fogo, mas
também tinha carinho, paixão.
Com aquele olhar, senti ainda mais conexão com Eduardo. Senti que
estava me rendendo definitivamente por ele, e tinha certeza que se
continuássemos daquela maneira, eu iria acabar me apaixonando
perdidamente. Não que fosse um crime me apaixonar, mas eu tinha medo, já
que Eduardo ainda não sabia entender muito bem seus sentimentos.
Senti com suas estocadas a onda de orgasmos se aproximando. Dessa
vez Eduardo não parou. Ele não parou enquanto não me libertei por
completo. Depois que me saciei ele também acabou gozando, e uma
expressão de prazer se formou em seu rosto.
Antes de se retirar de dentro de mim, Eduardo ficou encarando meus
olhos por bastante tempo. Estávamos perdidos em nosso momento,
completamente alheios a tudo que acontecia ao nosso redor.
Droga! Eu acabaria me apaixonando completamente por Eduardo.
Ele me deu um selinho e depois se retirou de dentro de mim. Após
descartar o preservativo, voltou a se aproximar da cama, mas diferente do que
imaginei ele não deitou ao meu lado. Eduardo me levantou da cama em seus
braços, e eu não entendi o que ele estava fazendo.
— O que significa isso? — indaguei.
— Vamos tomar banho.
Segurei em seu pescoço, enquanto ele me conduzia para o banheiro.
Assim que chegamos no ambiente, Eduardo me depositou em cima da
bancada da pia. Caminhou até a banheira e começou a enchê-la.
Enquanto a água caía no lugar ele voltou em minha direção. Com
aquele corpo completamente musculoso, foi impossível não passar meus
olhos por todos os seus músculos.
— Gosta do que vê? — ele perguntou, assim que parou à minha
frente.
Em seu rosto um sorriso estava estampado em seus lábios. E se aquele
homem que estava à minha frente, tivesse sido o primeiro que eu conheci
quando fui parar em sua casa. Com toda certeza, ele teria me enfeitiçado
antes.
— Amo o que vejo.
Descaradamente ele passou os olhos por meu corpo e após morder os
lábios murmurou:
— Também amo o que vejo.
Senti minhas bochechas ficarem coradas, e Eduardo levou sua mão a
uma delas.
— Parece tão inocente, mas só tem perversão nesse corpo pequeno.
— Está me chamando de pervertida?
— Sim!
— E isso é bom? — voltei a perguntar.
— Sim! — ele voltou a responder.
— E posso saber porquê?
— Porque vou te foder a noite toda.
Fui obrigada a abrir minha boca com sua revelação. Puta que pariu!
Eu iria ter mais doses de orgasmo naquela noite. Talvez eu não aguentasse,
mas estava pronta para ser usada dos melhores jeitos por Eduardo.
Capítulo 21

A primeira coisa que senti antes de abrir meus olhos, foi o cheiro
adocicado dos seus cabelos. No mesmo momento um sorriso leve apareceu
em meus lábios, eu não havia sonhado. Realmente havia passado a noite com
Vitória.
Quem diria que iria querer passar a noite toda com uma mulher?
Nunca pensei que isso fosse capaz de acontecer. No entanto, pelo visto,
Vitória me dominou por completo. Não adiantava tentar esconder: estava
rendido por ela.
Depois da noite que passamos juntos fiquei incerto, pois não sabia
dizer se era amor, o que sentia por ela. Era algo que me fazia querer passar a
maior parte do meu tempo com Vitória. Que me fazia desejar que ela
estivesse ao meu lado em momentos difíceis.
Abri meus olhos e vi que Vitória ainda dormia. Seus cabelos estavam
espalhados pelos travesseiros e um pouco sobre meu peito. Ela estava com
uma das mãos pousadas em cima do meu coração e a cabeça deitada sobre o
meu braço.
Fiquei reparando sua expressão tranquila por vários minutos. No
entanto, acho que de tanto encará-la, ela se sentiu observada, pois abriu seus
olhos lentamente. Estavam sonolentos e lindos. De um verde completamente
novo do que eu já havia presenciado, parecia que possuía um brilho diferente.
— Bom dia! — ela cumprimentou.
— Bom dia, linda!
Vitória franziu o cenho, no entanto se espreguiçou e levantou-se do
meu braço. Sentou-se sobre o colchão e me encarou. Seu corpo descoberto
tirou meu foco de seu rosto, pois era impossível não a admirar nua. Ela era
completamente linda, e até mesmo a cicatriz de uma cesárea a deixava ainda
mais perfeita. Era uma lembrança de que ela tinha um garotinho lindo e muito
inteligente.
— Está tudo bem? — a pergunta de Vitória fez com que meus olhos
voltassem para os seus.
— Claro, porque não estaria?
Ela sorriu de lado, parecendo meio envergonhada, no entanto logo
contou o que passava por sua mente.
— Estava com medo de quando acordasse você fizesse como no dia
do nosso primeiro beijo. Sumisse por vários dias.
Droga! Eu realmente tinha causada uma má impressão do caralho
naquela garota.
— Dessa vez eu não irei sumir. Na verdade, pretendo passar ainda
mais tempo ao seu lado. — Estava na hora de abrir um pouco mais do meu
coração para ela. — Já que estou me sentindo muito bem, passando esses
momentos especiais com você.
Vitória levou sua mão até meu rosto, e depois de me acariciar ela
comunicou:
— Fico feliz por estar te deixando feliz.
Segurei sua mão ainda na minha pele e disse.
— Quero tentar melhorar cada vez mais. Acho que você merece isso.
— Não sou eu que merece, é você. Eduardo, você é uma pessoa boa,
merece ser feliz. Só não sabia como sair daquele lugar silencioso que você
amava ficar.
Ela estava certa. Me fechei para o mundo, mas a cada dia dava um
passo novo para a mudança em minha vida. Graças aquela garota que estava
ao meu lado.
Ao pensar nas mudanças que eu estava tendo em minha vida, tive
mais uma ideia súbita. Um sorriso bobo brincou em meus lábios com minha
ideia.
— Por que você está sorrindo? — Vitória indagou.
— Pensei em algo, que seria completamente fora dos padrões que eu
costumo viver. No entanto estou querendo aproveitar novas experiências com
você.
— Eu não sei se devo ficar com medo — ela brincou.
— É mais fácil eu ter medo do que estou me tornando do que você.
— Vai me dizer o que está passando por sua mente?
Assenti, no entanto antes de comentar qualquer coisa, puxei Vitória
pela nuca e dei um beijo leve em seus lábios.
— Tenho uma casa de campo, que quase nunca visito. Nem lembro
quando foi a última vez que fui lá. Estava pensando se você quer passar o
final de semana comigo?
O sorriso de Vitória aumentou completamente, mostrando todos os
seus dentes. Porém algo passou por sua mente, pois no mesmo momento ele
morreu.
— Não sei, Eduardo.
— Como assim?
O que havia acontecido que ela não queria sair comigo.
— Eduardo, você sabe que tenho responsabilidades. O Pietro precisa
de mim, ele é ainda muito novo para eu deixá-lo sozinho por um final de
semana inteiro. Sei que existem mães que fazem isso, mas eu não quero me
separar do meu filho por esse tempo todo. Ainda mais depois de ver Edna…
Coloquei meu indicador sobre seus lábios para ela se calar. Havia
entendido seu medo, só estava chateado por Vitória pensar que eu queria
excluir o seu pequeno bebê.
— Linda, primeiramente, eu não estava pensando em nenhum
momento excluir Pietro e Matilde do nosso passeio.
— Não?
— Claro que não. Eu sei o quanto você é grudada em seu filho, e eu
quero passar tempo com ele também.
Vi os olhos de Vitória ficarem lacrimejados. Ela realmente pensou
que eu seria um idiota como o pai de Pietro? Eu nunca seria capaz de ignorar
o filho da garota que estava me conquistando.
— Desculpa por ter entendido errado.
— Tá tudo bem. Só quero que você entenda que até posso ser um
homem idiota, mas nunca seria um monstro dessa maneira.
— É muito bom saber disso, senhor Eduardo. — Mordeu os lábios ao
dizer.
— Senhor?
— Sim!
Vitória movimentou-se na cama e ficou de frente para mim. Depois
abriu suas pernas me dando uma visão maravilhosa de sua boceta.
— Acho que depois de um convite tão fofo como esse, eu mereço
uma sessão de sexo bruto como tive na madrugada.
Ela começou a massagear seu clitóris, fechou os olhos enquanto eu a
observava. Aquela garota pelo visto era insaciável, do jeito que eu gostava.
Levei um dedo sem aviso prévio a sua entrada e enterrei dentro dela.
Um gemido escapou dos seus lábios o que me fez sorrir.
— Isso quer dizer que você aceitou passar o final de semana comigo?
— indaguei.
— Sim — respondeu, mas ao mesmo tempo soltou outro gemido.
Me ajeitei na cama e levei minha boca até sua vagina, afastei sua mão
para que eu pudesse fazer loucuras com minha língua em sua boceta. Chupei
com força seu clitóris, ao mesmo tempo que revezava com uma passada de
língua por toda sua extensão.
Estoquei mais um dedo em sua entrada, e cada vez que eu fazia o
movimento de vai e vem Vitória ficava mais molhada. Tão molhada que o
meu pau estava duro como pedra só por senti-la em meus dedos.
Continuei chupando sua boceta e estocando meus dedos, até que ela
gozou, ao mesmo tempo que rebolava em meus dedos. Afastei minha boca e
olhei seu rosto, sua expressão demonstrava o quanto estava satisfeita com
aquele orgasmo matinal.
Assim que me encarou de volta, Vitória sussurrou:
— Me fode, por favor.
Eu tinha que realizar aquela vontade. Fui me levantar da cama, mas
ela segurou meu braço.
— Sem camisinha, eu tomo anticoncepcional.
Eu nunca havia transado sem camisinha em toda a minha vida. Será
que estava pronto para viver mais aquela experiência com Vitória? Eu
confiava nela, sabia que não estava mentindo sobre seu remédio.
— Nunca fiz sem camisinha… — respondi meio envergonhado.
— Está na hora de fazer.
Ela estava certa, eu tinha quase quarenta anos e nunca havia vivido
aquela experiência. Voltei para a cama, peguei meu pau que estava duro, e
brinquei um pouco em sua vagina.
Sentindo o seu orgasmo molhar meu pau, sua pele quente encostava
na minha e aquilo parecia o paraíso. Sentei na cama e puxei Vitória para o
meu colo, ela sentou-se em meu pau e eu senti toda a sua carne tomar meu
membro.
Aquilo era uma perfeição… puta que pariu! Uma maravilha que eu
queria provar para sempre. Ela começou a cavalgar em meu pau. E foi
impossível não gemer, enquanto me tinha por completo.
Segurei sua cintura e a ajudei se movimentar. Ajudava ela subir e
descer. Olhava seus seios pequenos balançarem com o movimento. Sua
expressão de prazer me dava ainda mais tesão.
Era maravilhoso!
Perfeito!
Caralho! Vitória era perfeita para mim.
Totalmente minha!
Sim, minha… Eu a queria pelo resto da vida.
Ela abraçou meu pescoço, e eu abracei sua cintura. Enquanto sua boca
passava por meu pescoço e chupava minha pele, eu comecei a estocar com
força, de forma bruta. Mostrando para ela o quanto me deixava maluco de
desejo. Completamente louco por seu corpo, por tudo que estava me fazendo
viver.
Se eu fosse realmente sincero comigo mesmo, falaria que em tão
pouco tempo, com todas as experiências que me deu de presente, eu seria o
homem mais realizado do mundo e mais apaixonado.
Sim, não podia mais negar os fatos. Estava me apaixonando por
Vitória, mas não sentia medo por ter constatado aquilo. Sentia felicidade
dominar todos os meus sentidos.
— Mais rápido, Eduardo. Por favor, vai mais rápido.
Aumentei o ritmo das minhas estocadas, mas Vitória parecia querer
mais.
— Mais, por favor, mais.
Retirei ela de cima de mim e a deitei no colchão. Abri suas pernas e
voltei a me enfiar dentro dela. Naquela posição eu conseguia ir ainda mais
fundo, mais desesperado, mais louco.
Entrando e saindo com mais força, com mais desejo, com mais prazer.
Vitória gritava e eu gemia.
Encontramos os nossos prazeres juntos. Enquanto ela gozava, Vitória
levou sua boca para minha, onde eu engoli todos os seus sons. Gozei dentro
dela como um louco e continuei estocando até a última gota do meu orgasmo
ser liberado.
Assim que nos afastamos ela abriu um sorriso, enquanto gotas de suor
escorriam por seu rosto.
— Acho que estou me apaixonando por você — declarou.
— Eu também acho que estou por você — revelei.
Não tinha mais o que esconder. Estávamos vivendo uma experiência
completamente nova e eu estava amando viver aquilo com Vitória.
Capítulo 22

Estava sentada em uma espreguiçadeira, observando Eduardo e Pietro


brincarem na piscina. Tinha que confessar que sentia um pouquinho de medo,
por ver meu pequeno na água, mas confiava em Eduardo. Ele iria olhar bem o
meu bebê.
Pietro estava em cima da boia, enquanto Eduardo jogava um
pouquinho de água nele, o que fazia meu filho morrer de rir quando se
molhava.
Tínhamos chegado naquela manhã à casa de campo de Eduardo. Ela
ficava afastada da movimentação da cidade grande o que era maravilhoso.
Curtir a vegetação era melhor do que escutar buzinas de carros em todos os
momentos.
Lourdes havia vindo com a gente, para dar ordens e deixar a casa de
campo toda organizada. No entanto achava que Eduardo havia a trazido, por
considerar aquela mulher uma parte de sua família.
Matilde que também tinha vindo comigo, se aproximou de onde eu
estava e sentou-se na espreguiçadeira ao meu lado.
— Você está com o rostinho apaixonado.
Tive que sorrir, ainda olhando para o homem que estava se tornando
extremamente importante para mim, e para meu pequeno pedaço de mundo.
— Acho que estou apaixonada, Matilde. E eu nem sei como pude me
apaixonar por um homem que parecia um robô tão rápido.
— Ah, querida! As surpresas do coração não podem ser evitadas. O
amor é assim mesmo, ele surge do nada e nos faz ficar enfeitiçadas.
Apaixonadas, loucas por esses homens.
Desviei minha atenção de Eduardo e Pietro, para olhar Matilde.
— Você já se apaixonou, Matilde?
— Sim, mas não valeu à pena. No entanto eu nunca deixei de
acreditar no amor, só acho que não apareceu a pessoa certa no meu caminho.
— Eu também pensava assim, até que meus sentimentos por Eduardo
mudaram.
— Acho que os sentimentos dele também correspondem aos seus.
— Eu espero. Não queria sofrer novamente por um amor não
correspondido.
Ficamos em silêncio observando os meninos na piscina, até que
Lourdes também veio nos fazer companhia.
— Nossa! Eu juro que pensei que o menino nunca voltaria para essa
casa, mas pelo visto você o mudou mesmo, Vitória.
— Espero que tenha sido para melhor — respondi, com um sorriso
em meus lábios.
— Querida, essa é a melhor versão de Eduardo. Tenho certeza que
seu pai estaria orgulhoso de ver a evolução que você fez na vida do amigo
dele.
— Que bom, então.
Ficamos mais um tempo batendo papo, até que senti fome. Então
resolvi preparar alguns sanduíches para nós. Caminhei até a cozinha, somente
de biquíni, com os cabelos amarrados em um rabo de cavalo e comecei a
fazer os sanduíches.
Depois de preparar alguns, senti braços fortes rodearem minha cintura
e eu nem precisava olhar para saber que era Eduardo. Sua pele estava um
pouco molhada, e foi impossível não abrir um sorriso. Ele beijou meu
pescoço e comentou:
— Senti falta da minha mulher na piscina, vim ver se ela não estava
precisando de nada.
— Sua mulher? — perguntei, sentindo meu coração disparado.
Eduardo nunca havia referido a mim como sendo sua. Então, aquela
informação me pegou de surpresa, mas não deixou de ser maravilhoso ouvir.
— Sim, você é minha. Não é? — indagou, enquanto me virava em
seus braços e me coloca cara a cara com ele.
— Totalmente.
Mal respondi quando ele avançou sobre a minha boca. Tomou meus
lábios para ele, e começou a me devorar da melhor forma que sabia. Sua boca
conduzia a minha para um beijo inesquecível, um beijo delicioso, um beijo
apaixonante.
Sua língua brincava com a minha, e eu não podia esquecer dos nossos
momentos bons juntos, quando ele me beijava daquela maneira.
Eduardo parecia me venerar, o seu beijo me mostrava isso, ele parecia
necessitar tanto quanto eu daquela troca de carinho. Beijar Eduardo era
inesquecível, era maravilhoso, era perfeito.
Uma de suas mãos que estavam em minhas costas começou a descer
por minha pele, até que chegou em minha bunda. Apertou minha carne que
estava desprotegida, pela calcinha do biquíni vermelho que usava.
Mas não parou por aí, ele levou sua mão para o meio de nós, invadido
a barra da minha calcinha com seu dedo e chegando a minha vagina. Senti
um medo de ser pega por Matilde, Lourdes ou pelo restante dos funcionários
que trabalhavam ali, mas ao mesmo tempo meu tesão por Eduardo aumentou
em níveis altos demais, por estar fazendo algo “perigoso”.
Parecia que o errado era bem melhor do que a coisa certa. Seus dedos
me invadiram e começaram a me masturbar, e eu fui ficando molhada para
Eduardo.
Ele se afastou do nosso beijo e sussurrou em meu ouvido:
— Vou te foder aqui, não estou aguentando olhar para você com esse
biquíni e não poder fazer nada.
Passei minha mão por seu pau e ele estava extremamente duro. Abri
um sorriso, no entanto fui cautelosa.
— Alguém pode nos ver.
— Ninguém vai nos ver.
Eduardo girou meu corpo, depositando meu peito em cima da ilha da
cozinha, naquela posição pude encarar o jardim que se via pelas vidraças de
vidro, ele desamarrou os laços da minha calcinha e ela caiu aos meus pés.
A bancada era de mármore, então quem passasse pela porta da
cozinha não conseguiria ver o que estava acontecendo ali, já que atrás de nós
estava a parede de tijolos nos protegendo da visão de alguém.
No entanto se alguém quisesse caminhar até ali, poderia ver muito
bem o que Eduardo estava fazendo. Ele se ajoelhou no chão, abriu um pouco
das minhas pernas e começou a chupar minha vagina naquela posição
mesmo.
Gemi baixinho não querendo chamar atenção de ninguém. Eduardo
por outro lado não parou de me chupar. Sua língua passava por toda a minha
extensão, e quando chegava ao meu clitóris, ele dava uma leve mordida,
fazendo o nível do prazer aumentar ainda mais.
Continuou me chupando, mas para o meu terror: Lourdes entrou na
cozinha. Ela estava animada e veio caminhando em minha direção na
bancada.
— Menina, você viu o senhor Eduardo? O telefone dele tocou, queria
ver se quer atender.
Engoli em seco e Eduardo não fez nada para despistar a mulher. Ele
continuou me chupando, e ainda começou a estocar seus dedos dentro de
mim.
Tive que segurar o gemido para que não me entregasse para a mulher.
— Não… — murmurei, tentando ao máximo parecer coerente.
— Está tudo bem? Você está meio vermelha.
— Tudo bem, Lourdes. — Pausei para respirar, tentando controlar o
gemido que queria escapar da minha garganta. — Acho que ele está no andar
de cima.
— Ah, sim! Vou procurar por ele. Você quer ajuda para fazer os
sanduíches? — questionou completamente alheia ao que acontecia embaixo
daquela bancada.
No momento que fui abrir minha boca para responder a ela, meu
orgasmo resolveu se avolumar, e foi inevitável não deixar ele se liberar.
Cerrei meus punhos, rebolando vagarosamente sobre o rosto de Eduardo,
para que a mulher não percebesse o que estava acontecendo ali.
Respirei mais rápido e enquanto gozava, tive que responder para que
Lourdes decidisse sair dali, o mais rápido possível.
— Não preciso. Já estou voltando.
— Tudo bem, querida.
Respondendo isso a mulher saiu da cozinha, e eu pude movimentar
meu quadril mais rápido, terminando de liberar o meu orgasmo na boca de
Eduardo. Gemendo um pouco mais alto e sentindo minha libertação.
Assim que terminei, Eduardo ficou de pé com uma expressão travessa
no rosto.
— Você agiu muito bem, senhorita Cardoso. Agora vou te foder do
jeito que quero.
— Você quase me matou, Eduardo. Imagina se ela visse.
— Mas ela não viu, e agora eu vou sim te matar de prazer.
Voltou a empurrar meu corpo em cima da bancada e se enterrou
dentro de mim, sem esperar que eu me recuperasse do meu orgasmo. Ele
entrava com força, fazia vários movimentos de vai e vem. Rápidos, precisos,
atingindo o ponto certo para me fazer entrar em combustão.
Eduardo gemia no meu ouvido, enquanto me fodia por trás. Rápido,
forte, bruto!
Eu estava apaixonada.
Gozamos juntos, com Eduardo pressionando sua boca em meu ombro
para não soltar um rugido alto demais. E eu tapando minha boca com a mão
para que ninguém ouvisse o grito que queria escapar.
Depois que nos vestimos. Eduardo abraçou minha cintura e encarando
meu rosto ele murmurou:
— Vitória, você é maravilhosa.
Seus olhos brilhavam enquanto ele falava aquelas palavras.
— Você é maravilhoso, Eduardo.
Trocamos um beijo e fomos nos limpar, para que eu finalizasse os
sanduíches. Assim que voltamos para perto da piscina, peguei Pietro em meu
colo e dei um sanduíche para ele.
Enquanto meu bebê comia, eu trocava olhares com Eduardo. No
entanto nosso momento foi interrompido, pois Lourdes apareceu novamente,
comentando:
— Menino, seu telefone está tocando desesperadamente. Pensei que
você iria querer atender, é o senhor Adriano.
Franzi o cenho, mas não dei muita atenção. Já que Adriano também
era seu advogado, então nada devia estar fora de controle.
Continuei conversando com Matilde e Lourdes, dando comida para
Pietro. Eduardo se afastou para falar com Adriano. Mas quando me encarou,
com uma expressão completamente diferente da romântica que estava me
direcionando há alguns segundos, eu soube que algo havia acontecido.
E imediatamente meu coração voltou a disparar, mas daquela vez era
por estar com medo. Eu tinha medo de estar feliz demais e alguma merda
acontecer. E no momento só pensava que a desgraça era grande.
Ainda mais quando Eduardo se aproximou da mesa, e disse:
— Vitória, precisamos conversar.
A fome que estava sentindo passara por completo. Entreguei Pietro
para Matilde e caminhei com Eduardo para dentro de casa. Fomos para o
escritório. E quando meu homem fechou a porta, com uma expressão
totalmente raivosa, eu soube que talvez minha felicidade realmente fosse
destruída.
Eu nunca podia começar a sonhar que algo ruim acontecia.
Capítulo 23

Sinceramente eu queria matar a tia de Vitória. Aquela mulher tinha


passado de todos os limites. Como a filha da puta conseguia fazer tanta
merda em uma única vida?
Vitória ainda estava sentada sobre o sofá do escritório indignada. Ela
fora enganada quase uma vida toda, eu entendia sua chateação. No entanto eu
iria me vingar daquela pilantra.
Ela não ficaria com nada que fosse da minha mulher. Minha pequena
ruiva merecia tudo que ela tinha direito.
— Então quer dizer que eu tinha direito a toda a herança dos meus
avós e minha tia não quis permitir?
Não, ela não tinha entendido. Na investigação de Adriano e Roberto –
meu advogado e detetive – eles descobriram que tudo pertencia a Vitória,
mas como Edna era uma ladra. Ela pagou muito bem para aquela parte ser
omitida no testamento.
— Amor, tudo é seu. Sua tia te roubou. — Ajoelhei à sua frente e
segurei suas mãos nas minhas.
​— Como alguém pode usar algo que não é seu, e sempre tentar humilhar
a pessoa que tinha o direito em tudo?
​— Existem pessoas que são filhas da puta mesmo, mas eu vou fazer de
tudo para colocar essa cretina na cadeia.
​Vitória negou com a cabeça.
​— Não compensa, Eduardo. Eu já tenho o dinheiro que meu pai deixou
para mim. Não preciso desse dinheiro que pelo visto é amaldiçoado.
​— Amor, não fala isso. É completamente seu, ela te roubou. Não vou
deixá-la impune depois de toda humilhação que ela te fez passar. Prometi que
te protegeria, então eu vou acabar com essa mulher.
​— Não queria ter mais contato com ela, Eduardo.
​— Você não vai ter, eu resolverei tudo. Edna vai aprender que com uma
pessoa tão maravilhosa, não se brinca, ainda mais quando se tem alguém para
cuidar de você.
— Edu…
— Não quero que você me peça para não fazer nada, pois eu quero
acabar com essa mulher, Vitória.
Ela depositou uma de suas mãos sobre minha bochecha e com aquela
expressão angelical que Vitória possuía, murmurou:
— Você sabe que não precisa mover o mundo para eu saber que você
se importa comigo, não é mesmo?
— Eu sei, minha linda. Mas se eu puder mover céu e terra por você eu
vou fazer, já que se tornou a pessoa mais importante para mim.
— Obrigada por se importar.
— Quando se está apaixonado é impossível não se importar.
Vitória sorriu lindamente para mim. Ela estava feliz, mesmo depois
da notícia ruim que deixei para ela, a minha menina parecia feliz. Era aquilo
que importava.
— Eu sei como é, pois também estou apaixonada.
Dei um leve beijo em seus lábios, e assim que me afastei ela
questionou:
— Podemos só curtir o nosso final de semana sem ter o assunto Edna
para nos atrapalhar?
— Claro, até porque deixei Adriano encarregado de acabar com
aquela idiota. Então, quando voltarmos para casa ela provavelmente já estará
presa.
— Ótimo, confio em você. No entanto, não quero ser afetada por
nada, então, por favor, não deixe Edna fazer nada comigo e com Pietro.
— Ela nunca iria fazer algo. Eu sempre vou te proteger.
Vitória se levantou do sofá e abraçou meu pescoço. Depois me deu
um leve beijo nos lábios, até que se afastou e murmurou:
— Quando você quis vir para o escritório, eu jurei que estava com
raiva de mim, por algo que eu nem sabia o que era.
— Ultimamente está sendo meio difícil ter raiva de você, garota linda.
Ela sorriu e voltou a me beijar. Sempre era algo único quando nos
beijávamos, era sempre uma sensação diferente, uma nova experiência.
Sempre um novo momento para guardar na mente.
Voltamos para a área da piscina e fomos curtir o nosso final de
semana, que prometia ter muitas risadas com Matilde e Lourdes juntas. E
muito amor, tanto para Pietro, quanto entre mim e Vitória.
Minha vida havia mudado completamente, e pensar que há pouco
tempo eu achava um absurdo Vitória ser tão otimista e cheia de alegria.
Agora eu queria aquela alegria totalmente para mim, queria passar meu
tempo ao lado daquela mulher, queria ser feliz com ela para sempre.
Eu não sabia quando comecei a desejar aquilo, porém, era algo que eu
ansiava por ter. Nunca pensei em ter uma família, mas com Vitória e Pietro
eu queria montar uma. Era estranho dizer, mas era real.
O homem que um dia não teve sentimentos, agora estava
completamente apaixonado pela filha do seu melhor amigo. Se alguém
duvidasse que o destino não sabia escrever um verdadeiro conto de fadas, eu
podia provar com minha história que eu pude ter o meu conto.
Passamos o melhor final de semana juntos e quando foi o momento de
voltar fiquei chateado. Não queria estragar a nossa bolha de perfeição. Eu
sabia que assim que pisássemos em São Paulo, minha vida toda voltaria a ser
conturbada.
Era empresa, era problemas com Edna, era muita coisa que me
impedia de aproveitar Vitória vinte e quatro horas por dia, no entanto era
necessário.
Então, precisávamos enfrentar aquele dilema logo, para voltarmos o
mais rápido possível para nossa bolha de felicidade.

∞∞∞

Tinha exatamente sete dias que havíamos voltado do nosso final de


semana mágico. E só hoje, havia permitido que o advogado comparecesse em
minha casa, para me falar a respeito do testamento dos meus avós.
Ele me explicou que tudo havia sido deixado para mim, e que a partir
dos meus dezoito anos eu podia ter gerenciado todas as contas. E que era
exatamente por isso, que Edna ficava mudando de casa várias vezes ao ano.
Para que ninguém da justiça fosse verificar se eu realmente estava usufruindo
da minha herança.
Além do mais, Adriano conseguiu ter acesso completo ao meu
testamento, quando Eduardo pediu para que ele verificasse minha história,
juntamente com o investigador particular que ele havia contratado para me
encontrar.
Com isso eles chegaram a todos os pontos em aberto sobre minha
herança materna e descobriram a verdade. Agora que a polícia já havia sido
informada sobre o roubo que Edna vinha fazendo no decorrer dos anos com o
meu dinheiro, ela estava foragida.
Afinal, aquela mulher além de ordinária, era também muito esperta.
Eu só tinha medo que ela tentasse fazer algo comigo ou com o meu bebê. Já
que agora sem dinheiro, ela não podia fazer mais nada do que sempre amou.
Que era exatamente, esfregar na cara da sociedade o quanto de
dinheiro possuía. Um dinheiro que nunca foi dela e que Edna nunca quis nem
compartilhar comigo, sendo que era completamente meu.
No fundo eu estava com raiva, mas não me importava de minha tia ter
usado daquele dinheiro. Bom, pelo menos não agora que eu estava muito bem
reservada com a herança que meu pai havia deixado para mim. Porém, se eu
pensasse no passado o quanto de dificuldade passei, dava vontade de eu
mesma procurar Edna para esfregar a cara dela em algo afiado.
— Vitória, eu também encontrei uma carta nos documentos do
testamento dos seus avós, que estava escondido. Ela está direcionada a você.
Adriano me estendeu um envelope, que já possuía algumas manchas
no papel, para demonstrar o quanto aquela carta era antiga.
Eduardo que estava ao meu lado, segurando Pietro para mim,
estendeu sua mão livre e apertou a minha. Provavelmente ele queria mostrar
que estava ali para me dar a força que tanto precisava. Matilde estava do
outro lado da sala, me observando com uma expressão de pesar.
Ela também estava com ódio da minha tia por ter me humilhado por
todos os anos que morei com ela, sendo que tudo era meu. Só que ela também
se sentia culpada por ter me feito acreditar que meus avós não gostavam de
mim. Porém, como Matilde podia saber, já que eles tinham – para a gente –
me deixado sem nada.
Soltei a minha mão da de Eduardo, e rasguei o envelope para pegar o
papel que estava protegido por ele.
Assim que peguei, desdobrei a carta. Abri lentamente o papel e vi
aquelas palavras escrita em caneta preta. No fundo eu lembrava da caligrafia
da minha avó, e aquilo trouxe um pouco da nostalgia da minha infância.
Foi inevitável não sentir meus olhos sendo tomados por lágrimas.
Ainda mais agora que eu sabia que eles não me odiavam tanto quanto eu
imaginava.

“Oi, meu docinho


Espero que esteja bem!
Bom, se você estiver lendo essa carta é porque provavelmente eu e
seu avô não estejamos mais vivos. Espero que eu já esteja bem velha, pois
não quero te deixar abandonada nesse mundo.

Foi impossível não soltar um soluço ao ler aquilo. Lágrimas


escorreram por meu rosto. Eduardo fez um gesto para Matilde pegar Pietro e
ela veio no mesmo momento. Retirou meu filho da sala para ele não perceber
o que estava acontecendo ali. Em seguida, Eduardo depositou sua mão em
meu ombro e me incentivou a continuar a ler.

Amor, primeiramente… eu nunca conseguiria contar em vida o que


vou te contar nesse papel. Então, antes de tudo, quero pedir perdão por
mim e por seu avô, que está ao meu lado enquanto escrevo essa carta para
você.
Vitória, a sua história no mundo começou de forma trágica, afinal
sua mãe ao dar à luz a você, acabou partindo. E eu tenho por mim, que a
maior culpada de sua morte fui eu. Sim, eu sinto que a matei. Minha filha
querida. Já que… não sei nem como dizer isso, mas o seu pai não
abandonou você querida muito menos a sua mãe.
Afastei sua mãe dele, quando descobriu que estava grávida. Pois
achava muito errado, ela se relacionar com um homem que não tinha
dinheiro suficiente nem para lhe sustentar. Só que eu estava errada, como
proibi Camile de ver Matheus, ela acabou caindo em uma depressão
profunda.
Você nasceu prematura, sua mãe e você estavam desnutridas. Ela
acabou tendo pré-eclâmpsia. Não resistiu, ao que eu a fiz passar. Me culpo
até hoje por isso, meu docinho.
Então, para tentar aplacar um pouco da culpa, seu avô e eu
tentamos te criar da melhor forma. Tentei te dar o máximo de amor que
pude, mesmo sendo uma mulher um pouco fria.
Vitória, eu te dei esse nome, um mês depois do seu nascimento. Já
que você foi melhorando a cada dia. E sua mãe não teve tempo de escolher
que nome te daria. Sei que são motivos suficientes para você me odiar, mas
eu peço que nos perdoe por ter escondido a sua verdadeira história. Por ter
omitido que seu pai lhe queria.
Se um dia você quiser conhecê-lo, saiba que ele montou uma
empresa de software, que se chama E&M software, a empresa está dando
bons frutos. Ele provavelmente vai querer te conhecer, pois pelo que soube
ele amava muito sua mãe. Seu pai se chama Matheus Santana, é só o
procurar, espero que os braços dele estejam abertos para te receber.
Querida, antes de finalizar, quero deixar um conselho. Mesmo
amando Edna, sei que ela não gosta de você e muito menos gostou de sua
mãe quando ela ainda estava viva. Então, quando tiver direito a sua
herança divida com ela, para que sua tia não seja uma pedra no seu sapato.
Nós não deixaremos nada para ela, pois ela não merece. Nunca quis
ser uma boa filha, odiava tudo que propúnhamos em família. Só queria
saber do nosso dinheiro. Então, quando chegar a hora certa, você saberá o
que fazer.
Espero que um dia você possa perdoar seu avô e eu por termos feito
você perder um pouco do seu tempo com seu pai. Mas agora seja feliz com
ele. Te desejamos tudo de bom meu amor, espero que você tenha uma linda
família e saiba que eu sempre vou te amar. Minha eterna docinho.”

Senti mais lágrimas caindo sobre meu rosto. Olhei para Eduardo e ele
estava com a expressão fechada.
— Eles só não esperavam morrer tão novos, me deixar com aquela
maluca, e que meu pai só iria saber da minha existência quando estivesse
perto de morrer.
— Eu sei, amor.
Eduardo me abraçou e eu me permitir chorar mais um pouco. No
fundo eu não tinha raiva dos meus avós, eles pensaram que estavam fazendo
o melhor para mim. Eu tinha realmente ódio, por Edna nunca ter me contado
minha história, e por ter feito eu perder momentos que deveriam ser únicos.
Eduardo estava certo, ela merecia pagar por tudo que fez. Só faltava a
polícia achá-la para eu enfim ter a minha paz de espírito.
Capítulo 24

Havia um mês que eu não tinha mais paz. Vitória estava


completamente estressada, com medo de tudo e todos. Ela não conseguia
dormir à noite, pois ficava com medo de Edna aparecer a qualquer momento.
Coisa que eu sempre deixei claro que era impossível, pois os meus
seguranças estavam de prontidão para parar qualquer passo que aquela
mulher quisesse dar em direção a minha mulher ou ao seu filho.
Desde que me descobri apaixonado por Vitória, minha atenção sobre
ela e Pietro estava dobrada. Agora que Edna ainda continuava foragida, tudo
havia aumentado. Eu nunca permitiria que algo acontecesse com ela.
Tentei tirar da minha mente aqueles pensamentos. Não era bom ficar
pensando neles enquanto estava trabalhando.
Por isso, voltei a analisar um documento que estava em cima da
minha mesa. Mas duas batidinhas foram ouvidas em minha porta. Assim que
permiti a entrada de Melissa, minha secretária, apareceu com aquele
sorrisinho de funcionária exemplar estampado em seu rosto.
Teve uma época que ela quis ter algo comigo. Só que eu não era
daqueles homens que se envolviam com suas funcionárias, mas agora que ela
sabia que eu estava tendo um relacionamento com Vitória, a mulher se
comportava adequadamente.
— Oi, senhor!
— Com vai Melissa?
— Bem, obrigada por perguntar.
— O que foi Melissa?
— Senhor Eduardo, achei por bem vir falar pessoalmente. Pois não
recebi nenhuma confirmação do senhor, em nenhum dos cinco lembretes que
enviei nesses últimos dias.
— Que era exatamente sobre o quê?
Não me lembrava de ela me falar nada, por isso, fiquei encarando-a
esperando que me respondesse.
— O evento anual da E&M Software, senhor.
Fechei meus olhos assim que ela finalizou sua fala.
Havia esquecido completamente, que era no dia seguinte a porcaria
daquele evento que Matheus havia resolvido criar há três anos. Agora era
obrigado a ficar carregando aquela bomba sozinho durante todo o decorrer da
minha vida.
— Devo cancelar, senhor? Ou não confirmar a presença do senhor?
Como eu faria aquilo com meus colaboradores? Eles esperavam
ansiosos aquela data, para a maior festa que a empresa fazia. Sem contar os
investidores que sempre gostavam de se divertir em nossa festa.
— Não para as duas coisas, até porque eu imagino que deva estar tudo
organizado no salão de festas, não é mesmo?
— Sim, senhor. Está muito bonito. Resolvemos fazer uma
homenagem ao senhor Matheus. Acho que seria legal convidar Vitória para
estar presente.
Aquilo era uma ótima ideia. Precisava fazer Vitória acalmar sua
mente, e uma festa seria a melhor opção.
— Eu vou convidá-la.
— Tudo bem!
Melissa saiu do escritório, e eu peguei meu celular para ligar para a
mulher que tinha se tornado a razão de todos os meus sorrisos.
Disquei o número de Vitória e ela atendeu com sua voz doce.
— Oi, gato! — Adorava quando ela me cumprimentava de formas
inusitadas.
Quem diria que um CEO de renome como eu, iria se derreter
completamente por uma menina que o chamava de gato.
— Oi, minha delícia.
— Posso saber o que te deu, para me ligar no meio do seu expediente?
— Queria ouvir essa voz maravilhosa.
— Eduardo, você é muito fofo, mas eu sei que não foi só por isso que
você me ligou.
Tive que gargalhar com sua declaração. Parecia pouco tempo, mas já
estávamos juntos há quase dois meses e a cada dia nos conhecíamos mais e
mais. Parecia que eu conhecia Vitória mais do que a mim mesmo.
— Você é muito espertinha, garota linda.
— Obrigada, por esse elogio.
— Quero te convidar para o evento que terá na empresa amanhã.
— Eu não estava querendo sair de casa.
Eu sabia que ela estava com medo, mas não podia deixar de viver por
causa de uma maluca que estava foragida. Para falar a verdade eu nem
acreditava que Edna fosse maluca o suficiente para fazer algo contra Vitória e
Pietro.
Ela era louca por dinheiro, mas tinha certeza que não cometeria
nenhuma bobagem para facilitar sua prisão.
— Amor, eu não quero que você fique tão maluca assim. Por favor,
vai ser importante para mim. É o evento anual da empresa, e você será como
uma convidada de honra, porque faremos uma homenagem ao seu pai.
Vitória ficou calada por um momento, no entanto assim que
respondeu fui obrigado a sorrir.
— Com você pedindo assim não tem como negar.
— Fico feliz em saber disso.
— Vem dormir aqui hoje.
— Seu pedido é uma ordem.
— Eu também fico feliz por saber disso.
​Abri outro sorriso. Eu realmente estava completamente apaixonado por
Vitória.
∞∞∞

Não podia mentir que o medo não me dominava. Eu estava me


sentindo perseguida, e nem tinha motivo suficiente para isso, já que Eduardo
havia colocado seguranças para todos os cantos que eu ia. Minha casa estava
muito bem protegida, então não tinha nada o que temer.
Eduardo também estava certo, Edna era louca por dinheiro, mas
nunca faria algum mal terrível a alguém. Ela não era tão maluca aquele
ponto.
Me olhei no espelho e não pude deixar de me achar incrivelmente
linda. Estava vestindo um vestido preto de veludo, que ia até o meio das
minhas coxas, ele era rodado e me dava um ar jovial. Seu decote era
profundo e meu colo ficava um pouco exposto.
Havia feito uma maquiagem que realçava meus olhos verdes, e passei
um batom cor de boca, para a maquiagem ficar harmoniosa.
Meus cabelos ruivos, caíam sobre meus ombros, e eu havia o
amarrado um pouco no alto da cabeça. Estava realmente muito linda.
E para finalizar calcei um scarpin de salto fino. Eu estava alta e pronta
para encontrar Eduardo que me esperava na sala.
Saí do quarto e antes de aparecer para eles, parei por um momento
para ouvir o que o homem da minha vida estava falando para meu filho.
— Aí eu me apaixonei por sua mamãe, então você tem que me dizer
se você me aceita como seu papai?
— Tim… — Pietro respondeu com sua voz doce, e a palavra
completamente errada, mas que era um grande sim.
Senti que lágrimas queriam sair por meus olhos, no entanto eu não
permiti. Queria manter minha maquiagem intacta. Queria estar bonita o
suficiente para aparecer em um evento, que faria uma homenagem ao meu pai
e ao lado do homem que eu amava.
Apareci na sala, e Eduardo assim que me viu levantou do sofá.
Matilde estava sentada do outro lado de Pietro, com um sorrisinho bobo no
rosto. Ela também tinha presenciado o que Eduardo falara.
Olhei para meu homem tentando mostrar que havia escutado o que
falara. Ele ficou meio envergonhado, mas não parecia nada arrependido do
que disse.
— Então você quer ser o pai de Pietro? — indaguei, não tendo
vergonha nenhuma de estar na frente de Matilde.
— Bom, se você me permitir quero ser tudo que eu puder.
Novamente olhei para meu filho, que nos encarava como se realmente
entendesse toda aquela discussão. Parecia um pequeno adulto.
— Você aceita, meu amor? — perguntei, só para ver sua expressão.
Pietro havia aprendido amar Eduardo e eu sabia disso, por ver como
ele brincava com aquele homem, por ver o quanto ele era entregue a
sentimentos com Eduardo. Haviam dias que ele só pegava no sono se
estivesse no colo de Eduardo, meu pequeno aprendera a confiar naquele
homem como se realmente fosse o seu pai.
— Tim, mamã…
Aproximei dele e dei um beijo em seus cabelinhos ruivos. Eu amava
aquele garoto e nunca cansaria de parecer uma mãe babona a cada palavrinha
que ele falava, mesmo que já tivesse pronunciado muitas e muitas vezes.
— Que bom, meu amor. Eu também quero que ele seja seu papai. —
Beijei novamente sua cabecinha e comuniquei: — A mamãe vai sair, você se
comporta com a tia Matilde, tá bom?
Pietro assentiu e voltou a brincar com os seus brinquedos, voltei-me
para Matilde e ela se levantou para me abraçar, assim que se afastou
murmurou:
— Você está linda. Bom evento!
— Obrigada! — Respirei fundo e questionei: — Tem certeza que não
quer ir com a gente?
— Absoluta! Essas coisas não são pra mim, menina.
— Tudo bem!
Me afastei e estendi a mão para Eduardo.
— Vamos?
— Vamos!
Saímos de mãos dadas e alguns seguranças estavam no corredor. Três
deles ficariam em minha casa, e outros três nos acompanhariam para o
evento. Descemos pelo elevador até o subsolo para entrarmos no carro de
Eduardo.
Ele abriu a porta para mim, contornou o automóvel e antes de dar
partida indagou:
— Tem algum problema eu ser o pai de Pietro?
Abri um sorriso e voltei meus olhos para ele.
— Não! Você seria o melhor pai, se eu tivesse escolhido certo da
primeira vez.
— Como você me fez acreditar: Nunca é tarde para mudarmos nossas
escolhas.
— Você está certo — respondi ainda olhando para ele.
Eduardo havia mudado e como eu o amava perdidamente. Meu
coração seria completamente dele.
— Vitória, antes de irmos para o evento, eu preciso te falar uma coisa.
Esperei que ele dissesse, mas não saiu nada de seus lábios.
— Fala, meu amor.
Insisti para tentar convencê-lo a me dizer o que passava por sua
mente.
Eduardo segurou minhas mãos, e eu pude perceber que as suas
estavam suadas. Sem ligar muito para isso, esperei que ele me dissesse o que
queria e assim que olhou em meus olhos meu coração disparou.
— Vitória, quero confessar a você que eu te amo. Foi inevitável não
te amar, foi impossível não me encantar por uma pessoa maravilhosa como
você. Não posso mais guardar essas palavras só para mim. Eu. Te. Amo!
— Eduardo! — Foi impossível segurar as lágrimas, eu teria que
retocar minha maquiagem depois. — Eu também te amo.
Eduardo me puxou de encontro aos seus lábios e começou a devorar
minha boca. Era isso, minha vida estava começando a se encaixar. Eu tinha
certeza que havia encontrado o amor da minha vida. Não precisava de mais
nada a não ser Eduardo e Pietro no meu caminho. Esse seria o meu felizes
para sempre.
Capítulo 25

Tudo estava completamente lindo. O espaço era enorme, e Eduardo


havia me explicado que ali era o salão de festas da empresa. Que ela possuía
mais trinta e cinco andares.
Muitas pessoas me cumprimentavam e faziam parecer que realmente
me conheciam, sendo que eu nunca havia visto ninguém. Alguns investidores
me prestavam condolências pela morte do meu pai. Achei educado da parte
deles, infelizmente não tive tempo de conhecer o homem que eles pareciam
venerar.
Eduardo estava segurando minha mão, e eu fiquei feliz por estar ao
meu lado me apoiando.
— Sei que é meio desconfortável, mas eles são em sua maioria boas
pessoas.
— Eu imagino. É que fico me sentindo um pouco estranha por não ter
podido conhecer meu pai.
— Tenho certeza que vocês dariam super certo. Matheus era bastante
insistente, igual a você. Quando colocava algo na cabeça só tirava quando
aquilo se concretizava. Então, estou aqui para mostrar que sou a sua obra bem
feita.
Abri um sorriso com sua declaração, mas não podia deixar de
concordar. Eduardo tinha sido a obra perfeita. Eu tinha conseguido
transformar o coração do homem frio e calculista que conheci em um
chocolate derretido.
— Eu te amo — sussurrei, pois agora não me cansaria de falar aquilo.
Nunca esqueceria a declaração de Eduardo. Lógico que ela foi fora do
padrão, no entanto se tratando de Eduardo eu sabia que aquele era seu lado
romântico, então não podia reclamar. O importante é que ele estava ao meu
lado e completamente apaixonado por mim, como eu estava por ele.
Uma mulher muito bonita se aproximou de nós, ela era baixinha e
tinha os cabelos loiros.
— É um prazer conhecer a mulher que conquistou meu chefe. — A
moça me estendeu sua mão. — Muito prazer, sou Melissa. Secretária do
senhor Eduardo.
— O prazer é todo meu — correspondi o cumprimento.
— Melissa, a festa está realmente muito bonita — Eduardo comentou,
enquanto olhava para o ambiente.
Tinha luzes azuis claras por todos os cantos, que dava um ar
harmonioso pelo lugar. Os funcionários pareciam realmente alegres com
aquela comemoração. Uma música instrumental era tocando por uma
orquestra no palco. E fotos do meu pai, eram mostradas em um telão ao
fundo.
— Está realmente, senhor. Bom, espero que vocês aproveitem. — Ela
se voltou sorrindo para mim e disse: — Espero te ver mais vezes, Vitória. E
mesmo que você não tenha conhecido o senhor Matheus, tenho que lhe dizer,
que ele era uma ótima pessoa. Vocês seriam uma dupla perfeita.
Fiquei meio emocionada com aquela declaração, mas me controlei,
não queria começar a chorar novamente. Não agora que minha maquiagem
estava toda refeita.
— Obrigada!
A menina se afastou e Eduardo me conduziu até uma mesa que estava
reservada exatamente para ele. Alguns investidores sentariam conosco, e eu
só esperava que o assuntou da mesa não se tornasse somente sobre trabalho.
Mas pelo visto todo mundo queria aproveitar o momento de
descontração para curtir a festa. Pois os assuntos que giraram na mesa foram
mais de entretenimento do que algo relacionado a E&M.
— E você Vitória, pretende trabalhar na empresa futuramente? —
Osvaldo, um senhor que aparentava ter oitenta e poucos anos, que foi me
apresentado como o primeiro homem que confiou na E&M, questionou.
— No momento não. Eu não fiz faculdade e ainda não sei o que quero
seguir. Mas sei que Eduardo está cuidando bem do patrimônio do meu pai.
— Ah, com toda certeza! Esse rapaz é muito dedicado.
— Eu sei que sim.
— Mas conta para a gente, como vocês se conheceram? — Olívia,
esposa de Osvaldo pediu.
Olhei para Eduardo e ele assentiu, era como uma permissão que eu
poderia falar se quisesse. Como eu não tinha nada a esconder, comecei a
dizer:
— Pelo que sei, meu pai pouco antes de morrer descobriu a minha
existência. Eduardo foi o homem que ele fez prometer que me encontraria,
mesmo após sua morte. Acabou que Eduardo realmente me encontrou. Ele
me “salvou” de uma tia que só estava se aproveitando de mim, e acabou que
com o passar do tempo nós nos apaixonamos.
— Que história mais lida. Parece um conto de fadas! — Olívia
comentou completamente apaixonada.
— Muito interessante, e olha que pensei que Eduardo iria terminar a
vida sozinho — Osvaldo se manifestou.
— Para você ver, Osvaldo. Como dizem por aí, todos têm a tampa de
sua panela.
— Isso é uma verdade, meu filho.
Continuamos a conversar. Até que alguns prêmios começaram a ser
sorteados no palco. E toda vez que alguém ganhava, muitos soltavam uma
piada sobre a pessoa, que era mais gozações internas do que algo que todos
entendiam.
Havia bastante tempo que não me divertia tanto. Assim que as
premiações terminaram, alguns discursos foram começados. Logo Eduardo
foi convidado a subir no palco para a homenagem ao meu pai.
— Daqui a pouco estou de volta. — Antes de sair ele me deu um
beijo na testa e depois foi caminhando para o palco.
Reparei na sua forma de andar, com sua quebrada de cintura, o jeito
que jogava as pernas e fazia com que sua bunda ficasse linda na calça jeans
que usava. Ele era o CEO mais estranho que eu já havia visto. Não usava
terno, estava de camisa social, calça jeans e um coturno que o fazia parecer
mais um caçador do que o dono de uma empresa tão grande.
Enquanto todos batiam palmas, Eduardo subiu as escadas do palco e
assim que ele chegou em frente ao microfone as palmas foram diminuindo
até que se cessaram.
Ele olhou para todos, mas seu foco foi em mim. Assim que me
encarou, sorriu de lado em minha direção, e começou a falar:
— Bom, primeiramente... boa noite! Espero que estejam gostando da
festa. — Teve algumas palmas, mas logo pararam. — Todos sabem que
Matheus e eu nos consideramos irmãos. Então quando eu o perdi foi algo de
extrema dor para mim. Algo que me machucou bastante, e se eu já era um
homem que me sentia solitário, com a sua partida eu vi o fundo do poço.
Todos temos que concordar que Matheus era a melhor escolha para nossa
empresa. Ele era bondoso, amável, amigo de todos, e comunicativo. Algo
totalmente diferente de mim.
Eduardo parou por um momento, enquanto as pessoas sorriam. E eu o
admirava encantada, porque um homem que não gostava de conversar com
ninguém, fazendo um discurso na frente de todos daquela maneira e ainda
conseguindo fazer piadinha, era uma vitória.
— Só quero dizer, obrigada por todos que ainda têm Matheus em suas
memórias. Tenho certeza que de onde ele está, meu amigo está feliz, só por
ver que tudo está dando certo e que eu não acabei com a empresa depois que
ele morreu.
Novamente uma onda de risadas. E dessa vez Eduardo deu o ar da
graça com sua risada gostosa, grossa e maravilhosa.
— Só quero agradecer a todos que ainda lembram dele. — Ele pegou
um troféu que pelo que entendi era uma homenagem pela memória de meu
pai. — Só que esse prêmio não pode ser meu, ele tem que ser direcionado a
filha de Matheus. Por isso, eu chamo aqui no palco, Vitória Cardoso.
Arregalei meus olhos e as pessoas todas olharam para mim. Mesmo
morrendo de vergonha, com o coração disparado, e toda desengonçada
caminhei até o palco. Fiquei com medo de cair nas escadas de tão em choque
que fiquei, no entanto Eduardo sendo uma pessoa completamente fofa, me
ajudou subir os degraus e só soltou minha mão quando fiquei a frente do
microfone.
Todos pararam de aplaudir e eu respirei fundo. Olhei para o prémio
que estava em cima da mesa do microfone e li o nome do meu pai na pedra
azul. Sorri um pouco e soube o que dizer.
— Acho que todos me conhecem mesmo que indiretamente, mas
muito prazer, eu sou a Vitória. Posso não ter vivido nessa empresa, mas já
sinto um carinho imenso por vocês, pois hoje quando cheguei aqui, e vi o
quanto vocês amavam o meu pai, o quanto vocês se sentiam devotados por
ele, me senti acolhida. É muito bonito ver a dedicação e amor que vocês têm
por uma pessoa, que mesmo que não esteja mais entre nós, ainda permanece
no coração de vocês.
Engoli em seco para não chorar, mas eu era muito emotiva e não sabia
como não chorar ao falar de uma pessoa que não conheci, mas que aprendi a
amar.
— Não tive o prazer de conhecer o meu pai, porque a vida e pessoas
maldosas me impediram. Porém, só de ouvir a forma que vocês falam do meu
pai, faz com que eu perceba o quanto ele era especial. Obrigada por terem me
dado a oportunidade de conhecer ele através das palavras de vocês.
Vi algumas pessoas limpando suas lágrimas, mas muitas sorriam para
mim. Quando perceberam que eu não falaria mais nada eles me aplaudiram.
Algo chamou a minha atenção ao longe, e eu abri um sorriso enorme no
mesmo momento. A senhora que um dia encontrei no hospital, e que jurou
que Eduardo e eu nos tornaríamos uma família estava parada perto da porta.
Ela me deu uma leve piscadela, e depois saiu porta afora sumindo das minhas
vistas.
Não sabia quem era aquela mulher, mas senti como se ela fosse o meu
destino falando que tudo daria certo. Eduardo e eu descemos do palco de
mãos dadas.
Passamos o resto do evento conversando com diversas pessoas, e
antes de irmos embora, Geovana veio até a mesa que estávamos. Olhei para
aquela mulher querendo matá-la, no entanto antes que eu voasse em seu
pescoço ela comentou:
— Eu sei que agi errado e super entendo essa sua expressão de ódio.
No entanto, quero pedir desculpas pela minha cena naquele dia, eu não estava
nos meus melhores dias. Então, Eduardo e Vitória me desculpem.
Ela não esperou que eu falasse nada, afastou-se da mesa como se
nunca tivesse se aproximado de nós.
— Por que ela está aqui? — questionei.
— Ela é advogada de alguns clientes, sempre está presente nos
eventos.
Assenti, mas aquela mulher me tirava do sério. Por isso, depois disso
eu dei a noite por encerrada.
— Vamos embora? — indaguei a Eduardo.
— Claro, meu amor.
Saímos de mãos dadas após despedirmos de todos. Caminhamos para
fora com nossos seguranças a uma certa distância de nós, mas mesmo assim
perto o suficiente para que pudessem agir caso aparecesse alguém à nossa
frente.
No entanto, ninguém contava com o elemento surpresa. Assim que
chegamos ao estacionamento da empresa, senti todos os pelos do meu corpo
se arrepiarem. Não sabia se era um sexto sentido me avisando de algo, mas
havia alguma coisa errada.
Caminhamos para o carro, no entanto eu não conseguia parar de olhar
para os lados.
— O que foi, amor? — Eduardo questionou.
— Não sei, estou sentindo alguma coisa estranha.
— Não é nada, amor. Você está impressionada demais.
— Ela não está impressionada.
Quando ouvi a voz que reverberou pelo estacionamento, eu soube que
todos os meus medos eram verdadeiros. Olhei para Edna e ela estava com
uma arma em sua mão apontada para nós. Parecia completamente
desequilibrada e meu coração disparou. Os seguranças tentaram se aproximar
para ficarem em nossa frente, porém ela estava com algum dispositivo em sua
mão que não segurava a arma.
— Se vocês se aproximarem eu aperto esse botão e o apartamento
dessa fedelha vai pelos ares, junto com o bastardo e aquela velha idiota.
Senti meu coração se partir em mil pedaços quando Edna pronunciou
aquelas palavras.
— O que você fez sua maluca? — Eduardo esbravejou.
— Agora Vitória, você saberá o que é perder tudo.
O sorriso diabólico que apareceu em seu rosto, fez o pior dos medos
tomar meu corpo. Edna não estava blefando, ela realmente iria fazer
maldades ao meu filho se eu não fizesse o que ela quisesse.
Diferente de mais cedo, agora eu me questionava: Será que eu nunca
teria o meu final feliz?
Capítulo 26

Nunca senti medo de muitas coisas. As únicas vezes que senti o medo
dominar todos os meus sentidos: foi quando Matheus me deixou e nesse
momento, vendo aquela maluca apontar uma arma em nossa direção. Sendo
que em sua outra mão tinha um dispositivo que ela jurava que explodiria a
cobertura de Vitória.
— Você só pode estar blefando — murmurei.
Vitória apertou minha mão fortemente, e eu olhei para ela.
Seus olhos estavam tomados por lágrimas e ela acabou sussurrando.
— Ela não está blefando, por favor, não a deixe mais nervosa.
Assenti tentando controlar minhas palavras, mas a verdade é que eu
também sentia aquele medo, no entanto quanto mais medo sentia, mais
palavras insanas saíam da minha boca.
— Escute a vadiazinha. Já que no final de semana que vocês
viajaram, eu entrei tranquilamente no seu apartamento, com a ajuda do meu
amigo, que morava no andar de baixo e instalamos tudo para esse momento.
Na verdade, eu iria te matar muito antes, mas como tive que fugir por causa
da sua ousadia contra mim, a sua morte teve que esperar algum tempo.
— Você só pode estar de brincadeira, sua... — esbravejei, não
conseguindo terminar o que comecei.
No entanto Vitória tornou a falar.
— Edna, por favor, o que você quer? Pode pedir que eu te dou.
A mulher que estava parecendo uma maluca, soltou uma gargalhada.
Só faltava começar a babar para parecer ainda mais louca. Ela apontava a
arma com mais veemência em nossa direção e voltava a rir. Não dava para
saber se aquele era seu estado normal, ou se ela estava sob o efeito de drogas.
Seus cabelos loiros estavam bagunçados, sua roupa estava rasgada,
porém o salto estava intacto. O que dava um ar de altivez aquela mulher
totalmente desequilibrada.
— Eu queria minha vida de volta. A vida que sua mãe roubou e
depois que ela morreu eu pensei que a teria, mas não, você chegou para
continuar destruindo tudo que eu sempre quis. Eu te odeio tanto Vitória,
tanto, que eu queria te matar quando nasceu, mas não tinha um minuto
sozinha com você quando ainda era um bebê. Depois que meus pais
morreram, eu pensei que estava livre de você, mas aquela velha da Matilde
ficava só me observando para ver se eu não fazia nada contra sua vida. Não
pude fazer, nem te expulsar da minha casa, pois a porra da herança era toda
sua. Aqueles velhos infelizes, mesmo depois de mortos ainda conseguiram
destruir minha paz. O que adiantou eu matá-los? Se eles deixaram tudo para
você?
Fui obrigado abrir minha boca com sua declaração. Edna era pior do
que eu imaginava, ela simplesmente matou seus pais por causa de dinheiro.
Ela era uma psicopata. Vitória correu risco sua vida toda, por ter que ficar ao
lado daquela mulher. Só de imaginar Pietro, um bebê tão pequeno, sendo
maltratado por Edna, fez meu corpo se arrepiar por completo.
— Edna, como você foi capaz de ser tão fria? — Vitória, questionou.
— Fria? Eu nunca tive atenção daqueles velhos. Camile sempre foi
importante para eles, Camile era tudo para eles. Mesmo depois de se envolver
com o vagabundo do seu pai, eles ainda a veneravam, a colocavam em um
pote de perfeição. Fiquei tão feliz quando ela morreu, acho que me sentiria
ainda melhor, se tivesse sido eu a dar fim em sua vida. Mas não tem
problema, agora eu vou ter o gosto de acabar com o seu filho e com você,
isso para mim já basta.
— Não Edna, faça o que quiser comigo, mas deixa Pietro de fora
dessa história. Ele é inocente, não tem nada a ver com tudo que aconteceu.
Vitória clamou, já que Edna estava ameaçando seu bebê. E enquanto
minha mulher chorava desesperada, eu me senti mais uma vez impotente sem
poder fazer nada. Sem poder defender quem eu amava, já que Pietro era meu
filho. Ele tinha falado que me aceitava como pai.
Senti meus olhos também serem tomados por lágrimas. Aquele
monstro de mulher estava ameaçando um bebê inocente, que não tinha
maldade, que não sabia as coisas ruins que existiam ao seu redor.
— Edna, eu te dou o que quiser. Até um jato para fugir da polícia se
for necessário, mas não aperta esse botão — pedi também.
Minha voz estava embargada, e eu não sabia como reagir com aquilo.
Mas o sorriso diabólico que apareceu no rosto daquela mulher acabou
comigo.
— Você acha mesmo, que eu vou fazer o que você está pedindo? Foi
por sua culpa que essa vadia descobriu tudo. Foi por sua culpa que eu fiquei
sem o meu dinheiro, sem a minha herança — ela gritou.
— Não faça nada, nós podemos te ajudar — retribuí o grito.
Vitória só chorava, porém ela tomou a frente. Soltou minha mão que
ainda estava segurando e murmurou:
— Edna, me mata, mas deixa meu filho em paz. Por favor, eu nunca
te implorei nada, mas agora estou fazendo isso. Estou aqui, me mata.
— Ah, você está me implorando? — Edna perguntou e Vitória
assentiu.
Porém, todos perceberam quando ela levou o dedo ao botão do
dispositivo. O apartamento que Vitória escolhera para morar, não ficava
muito distante de onde estávamos, por isso, foi possível ouvir um estouro ao
longe. Vitória se jogou ao chão gritando.
— Não! — O seu grito fora tão sofrido que eu não consegui não
chorar junto com ela.
A minha mulher se ajoelhou no chão e segurou seus cabelos. Meus
olhos iam e vinham entre Edna e Vitória. Uma sorria como se tivesse
ganhado o maior prêmio de sua vida, a outra chorava como se tivesse perdido
a própria vida.
Abaixei junto com Vitória abraçando seu corpo, colando ele junto ao
meu para ela perceber que eu também estava sofrendo. Minha pequena
mulher sofria, eu sofria e nós havíamos perdido nosso bebê. Lágrimas
escorriam por meu rosto, minha garganta doía e eu me permiti sentir mais
uma vez a dor da perda.
Passei meus olhos por Edna, enquanto Vitória apoiava a cabeça em
meu peito desolada. Os funcionários começaram a sair para o
estacionamento, para verem o que estava acontecendo. Muitos ficaram
assustados com a cena, outros sem entender o que estava acontecendo.
Edna ainda apontava a arma para nós e no momento que ela fez que
atiraria, e que eu já estava pronto para me jogar na frente da mulher que
amava, uma arma disparou. No entanto, não foi a que ela segurava, e sim a de
um dos meus seguranças. Ele deu um tiro perfeito no centro de sua testa,
fazendo a mulher cair um pouco à nossa frente.
Seu corpo caiu sem vida, não existia mais nada a não ser funcionários
assustados, minha mulher chorando em meus braços e o meu coração
desolado.
— Senhor. — Marcos, um dos meus seguranças se aproximou de
mim.
Assenti para que falasse o que queria.
— O prédio realmente explodiu. — Ao ouvir as palavras de Marcos,
Vitória chorou ainda mais.
— Meu bebê — murmurou. — Meu filhinho.
— Senhor… Alberto conseguiu enviar uma mensagem avisando aos
seguranças que estavam presentes no apartamento. Eles conseguiram esvaziar
o local antes da explosão.
Vitória levantou a cabeça do meu peito lentamente, com lágrimas
ainda escorrendo por seu rosto. Olhou para Marcos e indagou:
— Você está dizendo que meu filho?
— Sim, senhora. Pietro e Matilde estão bem e quem estava presente
no prédio também. Os seguranças conseguiram retirar todos a tempo.
Vitória se levantou no mesmo momento que Marcos passou a
informação.
— Vocês respondam as perguntas da polícia, eu preciso ver o meu
filho. Eduardo me leva para ver o meu filho, por favor.
Ela olhou para mim com uma expressão tão sofrida que mesmo se eu
fosse aquele homem frio de antigamente, não conseguiria dizer não a ela.
— Amor, eu faço tudo por você.
Peguei sua mão e a conduzi até meu carro. Abri a porta para Vitória e
assim que entrei no automóvel, parti o mais rápido possível para o local onde
esperávamos que Matilde e Pietro estivessem.
Quando chegamos na rua da casa de Vitória, pudemos ver a fumaça
que saía do seu prédio. As pessoas estavam na rua, algumas pegas totalmente
desprevenidas. E outras eram curiosas que filmavam com os celulares para
jogar nas redes sociais e ganhar as suas famosas curtidas.
Haviam carros de bombeiros, da polícia e de reportagens também.
Saímos do meu carro assim que parei em uma vaga que consegui achar.
Vitória saiu correndo no meio da multidão e ao longe eu tentava acompanhá-
la.
Assim que consegui me aproximar e vi que ela estava com Pietro nos
braços, meu mundo que parecia ter sido destruído se refez. Eu amava aquela
mulher e aquele menininho que já considerava meu. Vê-los bem foi o que eu
precisava para saber que estava vivo novamente, para saber que eu estava
completamente realizado.

∞∞∞
Foram os piores momentos da minha vida. Nem sabia explicar a
dimensão da dor que senti ao ver Edna apertando aquele botão. Eu senti
como se uma parte do meu corpo tivesse sido rasgada. Senti como se ela
tivesse pegado a arma que segurava e tivesse atirado diversas vezes em meu
coração.
Senti que eu me partia de pouco em pouco, uma dor gigante que me
fazia querer explodir junto com a bomba que ela havia colocado em meu
apartamento. Assim que vi Pietro, segurando a girafa que ele amava, nos
braços de Matilde, meu mundo voltou a florir, meu coração voltou a bater,
minha vida voltou a ter sentido.
Meu pequeno estava com os olhos arregalados, com medo e tentando
entender o que estava acontecendo. Os seguranças de Eduardo estavam ao
lado dele e de Matilde, os protegendo de qualquer coisa que quisessem atingi-
los.
— Meu amor — sussurrei, assim que Pietro se jogou em meus braços.
Seu rostinho estava com algumas manchas pretas das cinzas que
caíam pelo o ar. Eles estavam bem afastados do prédio, para não inalarem o
ar poluído da explosão, mas mesmo assim algumas cinzas o atingiram.
— Mamã… — Pietro deitou seu rostinho entre meu ombro e meu
pescoço, me abraçou com força e não me largou mais.
— Você tá bem, Matilde? — indaguei.
— Menina, em toda a minha vida, eu nunca havia passado tanto medo
quanto passei hoje.
— Ao menos agora vocês estão seguros — Eduardo comentou.
Olhei para ele, o homem que me deu seu apoio mesmo sem perceber.
Seu cenho estava franzido e ele encarava as chamas.
— O que aconteceu com aquela bandida? — Matilde perguntou.
— Morta! — respondi, passando a mão pela cabecinha do meu filho.
— Ainda bem.
Assenti sem dar muita importância. Eu só queria sair dali. Queria sair
de perto de tudo que me lembrava os momentos de terror que passei.
— Amor, podemos ir para sua casa hoje? — perguntei.
Eu não me sentia segura em nenhum lugar a não ser a casa de
Eduardo, que passei bons momentos depois que saí da casa de Edna.
— Claro! Já até informei para Lourdes arrumar os quartos de
hóspedes.
— Obrigada!
Os seguranças informaram que no dia seguinte, os investigadores que
estavam tratando do caso de Edna, iriam a casa de Eduardo pegar nossos
depoimentos e depois tudo estaria resolvido.
Quando chegamos a casa de Eduardo, Lourdes estava completamente
desesperada, mas após explicarmos tudo que havia acontecido ela entendeu e
parou com seus questionamentos.
Pietro não quis ir com ninguém, ele não me deixava e eu sentia que
aquilo era porque ele estava assustado. Quando Eduardo se aproximou, meu
filho levantou a cabeça para olhar para o homem que já tinha ganhado seu
coração.
— Quer vir com o papai? — Eduardo, perguntou.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Matilde sorriu com a atitude de
Eduardo e Lourdes abriu a boca em choque.
Não tinha como não amar aquele homem, não quando ele se mostrava
ser tão perfeito, ser o meu príncipe imperfeito. O homem que havia roubado
meu coração para ele.
As horas foram passando, eu fiquei sentada por um tempo no sofá da
sala. Matilde foi dormir, Lourdes também e Pietro ainda continuou no colo de
Eduardo. Quando passou um momento ele se rendeu e também dormiu.
Eu havia o limpado, então dava para esperar um banho no outro dia.
Fiquei observando-o dormir no colo de Eduardo, que pelo visto também não
queria tirar meu pequeno de suas vistas.
— Eu pensei que tinha perdido ele — Eduardo comentou.
— Eu também — sussurrei.
— Não sei se eu sobreviveria se algo acontecesse, Vitória. Eu iria me
culpar para sempre.
— Mas a culpa não era sua — murmurei, levando uma de minhas
mãos a sua bochecha.
— Eu jurei que te protegeria. Se o desejo de Edna tivesse se
concretizado, eu teria falhado nessa missão. Seria culpa minha.
Não queria que Eduardo pensasse daquela maneira. Pois foi aquele
pensamento que o fez se tornar um homem frio, que preferia o silêncio, a se
abrir com alguém.
— Para de se culpar por atitudes de outras pessoas. A culpa não é sua,
você é o melhor amigo, melhor namorado, melhor protetor. Não foi culpa
sua, Eduardo.
— Você não me culpa? — ele perguntou, com os olhos lacrimejados.
Ele ainda precisava de vários passos para se curar, no entanto eu ia
mostrar todos os caminhos para ele se tornar uma pessoa mais confiante em si
mesmo.
— Nunca! A culpa nunca foi sua, e sim daquela maluca que teve o
fim que mereceu.
Com a sua mão vaga, Eduardo segurou na minha, ele apertou meus
dedos e falou:
— Obrigado, por acreditar em mim. Obrigado, por ser a minha
parceira. Eu te amo.
— Eu te amo mais, meu príncipe.
— Sou quase um sapo, isso sim — brincou.
— Um sapo, cheio de imperfeição, que dei um beijo e se tornou um
príncipe. E foi exatamente por isso que me apaixonei por você.
— Eu acho que antes quando eu te achava uma matraca, eu também já
estava apaixonado e nem percebi.
— É difícil perceber quando se está apaixonado, mas ainda bem que
você descobriu a tempo.
— Fica comigo para sempre? — Eduardo, perguntou.
— Fico mais do que o para sempre.
Ele sorriu, levou minhas mãos aos seus lábios, deu um leve beijo.
Olhou em meus olhos, e com aquela conexão eu soube que agora sim, eu
podia acreditar no meu felizes para sempre. Ele enfim se tornaria real.
Epílogo

Dois anos depois

Estava sentada em uma das cadeiras que ficavam dispostas no jardim.


Pietro brincava de jogar bola para Totó, o cachorrinho que Eduardo o havia
dado de presente de aniversário de três anos.
Agora estava prestes a fazer quatro e Totó era seu melhor amigo.
Sorri quando o cachorrinho deu uma rasteira em Pietro, e ele acabou caindo,
mas ao invés de chorar igual uma criança manhosa ele simplesmente
começou a rir. Totó por outro lado, foi para cima do garotinho e começou a
lambê-lo por completo.
Matilde sentou ao meu lado e sorriu para mim. Retribuí seu sorriso e
fiquei olhando para ela, pois tinha certeza que queria me dizer algo.
— Sabe, minha filha. Acho que a melhor decisão que você tomou, foi
vir morar com Eduardo nesse casarão. Tinha razão de o homem ser tão
solitário, olha o tamanho disso tudo para ele. Pietro e você deram uma cara
melhor para esse lugar.
— Pelo visto você e Lourdes estavam fofocando novamente sobre a
minha vida e a de Eduardo.
— Só um pouquinho, né?
Sorri e assenti, enquanto voltava a olhar para Pietro.
Desde que aconteceu a explosão na cobertura que eu morava, não fui
mais embora da casa de Eduardo. Um dia depois ele me convidou para morar
com ele e aceitei. Acho que a vida era feita de escolhas e as minhas sempre
me levariam para Eduardo, por isso, decidimos montar nossa família.
Estava tudo indo muito bem. Eu havia montado uma ONG para ajudar
pessoas carentes e em sua maioria quem morava na rua. Todos os dias minha
ONG Liberdade, distribuía comidas para moradores de rua, e abrigava muitos
que procuravam um lugar para dormir. Peguei toda a herança dos meus avós
maternos para a criação da ONG.
O dinheiro do meu pai, uma parte usei para abrir um novo
departamento na empresa. Onde os funcionários que não tinham com quem
deixar seus filhos para trabalharem, podiam deixar na creche da instituição.
Era gratuita e lá cuidava muito bem das crianças. Tinham professores
de educação infantil, e eu sentia que estava ajudando ao menos uma parcela
do mundo com o que criei.
Acabei não cursando nenhuma faculdade, pois me senti melhor assim
com essas realizações, mesmo não precisando estudar para criá-las.
Para Matilde construí uma casa em uma parte do jardim enorme de
Eduardo, e ela morava lá, e ficava toda feliz. Lourdes era sua vizinha, pois
Eduardo achou por bem também construir uma para sua governanta, que ele
podia até não revelar, mas ele a considerava sua mãe.
— Querida, minha cabeça só pode estar nas nuvens. Eduardo pediu
para te avisar que ele está te esperando no pomar.
Sorri, pois realmente estava na hora de irmos para o pomar, cuidar das
nossas árvores frutíferas.
— Você pode olhar o Pietro? — perguntei.
— Claro, meu amor. Vim aqui para isso.
Beijei a bochecha de Matilde e fui caminhando até o pomar. Assim
que cheguei percebi que algo estava diferente.
Haviam pequenas luzes espalhadas pelo lugar, dando um brilho
diferente para o ambiente. No fundo do pomar Eduardo me esperava com um
sorriso em seus lábios, suas mãos estavam escondidas atrás de suas costas e
eu não pude ver muito mais do que estava atrás dele. As únicas coisas que
consegui observar: foram uma garrafa de vinho e uma mesinha de doces.
— O que você está aprontando, amor? — perguntei, abraçando seu
pescoço.
— Uma vez você me disse que ainda sonhava com o seu príncipe.
Com o seu felizes para sempre, com o seu amor de conto de fadas. Então,
hoje eu queria dizer a você, que eu sou esse homem. Acredito no amor de
conto de fadas, eu te amo mais que tudo, você é minha salvadora. Que você é
meu mundo, você é meu tudo, você é a minha mulher Vitória.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Eduardo tirou minhas
mãos do seu pescoço e se ajoelhou a minha frente.
— Você aceita ser dona do meu final feliz no conto de fadas?
Meu coração havia disparado de felicidade. Eu sentia como se a
minha vida tivesse ganhado ainda mais cor naquele momento.
— Eu aceito ser a sua princesa pelo resto da vida.
Eduardo abriu a caixinha que segurava, e eu observei a pedra linda no
centro do anel. Era de um verde que se comparasse podia dizer ser da cor dos
meus olhos, e ao lado pequenas gotas de diamante. Ele colocou o anel de
noivado em meu dedo. Se colocou em pé a minha frente, puxou-me de
encontro para o seu corpo.
— Eu te amo, minha princesa.
— Eu te amo, meu príncipe.
Existiu uma época que eu acreditava no amor, mas não sabia se um
dia encontraria um verdadeiro. No entanto, o destino me provou que ele
reservou o melhor final feliz para mim. O final que era ao lado daquele
homem, que agora roubava meus lábios mais uma vez para ele.
Eu amava Eduardo, meu ogro que se transformou em príncipe. O
homem silencioso que agora falava as palavras mais bonitas que já ouvi.
Eduardo era o meu final feliz, e ainda bem que o encontrei em meu caminho.
Agora podia dizer que estava completamente realizada. Eu tinha tudo
que sempre sonhei. Quem diria que a menina desacreditada em sonhos,
acabou se tornando a maior realizadora dos que guardava em seu coração.
E no fim, foi um lindo felizes para sempre. Acabei sendo salva por
um príncipe, que na verdade, era um CEO.

Fim
Outros Romances
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Sinopse: Eu era poderoso, temido, um CEO reconhecido mundialmente com
o mundo aos meus pés. Só que nunca imaginaria que esse mesmo mundo
poderia mudar completamente em apenas um estalar de dedos. Foi uma
ligação que me fez perceber que nada é como queremos, e que a partir dali
minha vida iria mudar. Ter um filho não era algo que almejava em um futuro
próximo, mas era o que falavam na maldita ligação. Agora precisava cuidar
de um pequeno bebê, e eu não tinha a mínima ideia de como fazer isso, ainda
mais quando queria escondê-lo de todos os que poderiam machucá-lo. No
entanto o meu segredo estava correndo perigo por causa da ruiva linda que
conheci há poucos meses, e isso podia ser a minha ruína.
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Sinopse: Era um daqueles homens que ouvia vários suspiros femininos por
onde passava, e claro, amava a vida boemia que o dinheiro podia me trazer.
Era um dos fundadores da empresa Amarílis, uma renomada rede de produtos
de cosméticos conhecida mundialmente. Estava feliz morando longe de tudo
e todos que faziam minha vida ser uma monotonia. No entanto nunca
imaginei que uma garota pudesse mudar todo o meu destino, ao aparecer no
meu caminho, e o pior ainda era que essa mesma garota me enfeitiçara anos
atrás e estava esperando um bebê que não era meu, mas que eu seria obrigado
a cuidar.