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ARTIGO Produção de
Conhecimento
e Preservação
em Debate:
Aspectos da
Arqueologia na
Cidade de Manaus
Helena P. Lima1 e Bruno Moraes2
lenalima@hotmail.com
bmomoraes@hotmail.com
1
Museu Amazônico - Universidade Federal do Amazonas
Rua Ramos Ferreira, 1.036, Centro - Manaus, AM - CEP 69010-120
2
PPG - GEOG - Universidade Federal do Amazonas
90

Resumo
Abstract A arqueologia amazônica, e em especial
Amazonian archeology, particularly in da cidade de Manaus, sempre impressionou
the city of Manaus, has always impressed nossos olhos ocidentais. Marcada pelo apre-
our Western eyes. Characterized by the ço estético de seus vestígios e pelo tamanho
aesthetic appreciation of its remains, and e densidade dos sítios arqueológicos, desta-
the size and density of the archaeological ca-se no contexto arqueológico nacional. No
sites, the area stands in the national archa- entanto, o acelerado crescimento econômi-
eological context. However, the accelerated co, aliado à enorme expansão urbana que a
economic growth, coupled with massive cidade tem sofrido nas últimas décadas tem
urban sprawl that the city has suffered in causado danos irreversíveis ao patrimônio
recent decades has caused irreversible da- arqueológico local. O presente artigo tem
mage to the archeological heritage. This como objetivo colocar em discussão a situ-
article aims to raise into discussion the ação preocupante em que se encontram os
concern about the archaeological sites in sítios arqueológicos na área urbana de Ma-
the urban area of Manaus, seeking to re- naus/AM, buscando refletir sobre as possi-
flect on the possibilities to reverse this re- bilidades de reversão deste quadro. De for-
grettable situation. Illustratively, two situa- ma ilustrativa, serão apresentadas duas
tions that occurred in the recent history of situações ocorridas na história recente da
the city which reflect how the archeology cidade, que refletem o modo como a arque-
and archeological heritage of Manaus have ologia e o patrimônio arqueológico de Ma-
been addressed, will be presented. naus têm sido abordados.

Key words: Amazonian archaeolo- Palavras-chave: arqueologia ama-


gy, archaeological preservation, Manaus zônica, preservação arqueológica, Manaus

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Introdução trial provoca um enorme inchaço urbano


A região amazônica, e particularmente a na cidade. Na década de 1960, por exemplo,
cidade de Manaus – situada às margens da a cidade não possuía mais do que duzentos
confluência de dois dos maiores rios do mun- mil habitantes. Cinqüenta anos depois, mais
do, o Negro e o Solimões – tem uma longa de um milhão e setecentas mil pessoas resi-
história de ocupação humana, que remonta a dem neste mesmo espaço (IBGE, SIDRA).
milhares de anos. Os sítios arqueológicos, A idéia dos ciclos traz a noção de uma
através dos quais contamos esta rica história, história fragmentada, ou mesmo fragmen-
são abundantes. O alto potencial arqueológico tária, atribuindo uma hierarquização de va-
da região é comprovado pelas dezenas de sí- lores entre o crescimento e a recessão, ten-
tios ali presentes, principalmente na zona ru- do por base, sempre, os índices econômicos.
ral do município (Hilbert, 1968; Simões, 1974; Somado a isto, os ciclos são sempre vistos
Costa e Lima, 2006). como novos (re)começos, soterrando aque-
Em contexto plenamente urbano são co- les anos inglórios de estagnação econômica.
nhecidos vinte e quatro sítios, em diferentes Com isso, levado às últimas conseqüências,
graus de preservação. No entanto, os sítios ar- desvincula-se o passado como fator cons-
queológicos já conhecidos e cadastrados não trutivo e integrante do presente. Neste con-
refletem, amostralmente, a realidade. Eles re- texto de uma história em ciclos, aliado à
presentam uma pequena parcela dos sítios rejeição popular a um passado indígena, a
que efetivamente estão – ou estiveram – sob a destruição dos sítios arqueológicos – pré-
cidade, muitas vezes já destruídos pelo ritmo históricos e mesmo históricos – se encerra
desenfreado do crescimento urbano desorde- dentro desta perspectiva. Nos últimos cinco
nado e de uma velha fórmula do desenvolvi- anos Manaus tem vivenciado um momento
mento econômico não-sustentável. de grande expansão urbana, onde cada vez
Notável, também, é a própria história da mais obras de grande tamanho e importân-
cidade e, ainda mais, a forma como esta cia tomam conta do cenário. Muitas destas
mesma história é percebida por grande par- obras são feitas sem os levantamentos ar-
te de seus habitantes. Plenamente arraigado queológicos previstos pela legislação vigen-
no discurso Manauara é a idéia de que a te no país, resultando em intensos danos ao
história da cidade foi construída por meio patrimônio arqueológico e histórico, muitas
de “ciclos” de crescimento, eminentemente vezes não-identificado e desconhecido.
econômicos. Estes ciclos seriam tempos de Esta é uma realidade comum no contex-
intensa prosperidade econômica, mormen- to do crescimento urbano de Manaus. A fre-
te de curta duração, que terminariam em qüência com que se têm notícias de novos
períodos de severa estagnação econômica. sítios sendo encontrados – e destruídos – é
Assim é visto o final do séc. XIX e início do assustadora. Isto reitera o alto potencial ar-
séc. XX, conhecido como “ciclo da borra- queológico do município, ao passo em que
cha” ou “belle èpoque”, momento em que demonstra uma baixa eficiência dos atuais
Manaus se viu embebida pelo intenso fluxo mecanismos e politicas de preservação.
financeiro gerado pela comercialização do Outro fator que contribui para o quadro
látex da seringueira, até então exclusivo da geral do desenvolvimento da arqueologia
região. O mesmo se vê em relação ao esta- em Manaus é a falta de arqueólogos institu-
belecimento da Zona Franca de Manaus, cionalizados em universidades, como ocor-
por meio de decreto federal, na década de re em outras partes do Brasil de forma bas-
1970. A infusão de capitais de origem indus- tante crescente. É certo que algumas

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iniciativas recentes vêm aos poucos mu- um conjunto habitacional – obra geren-
dando este quadro, dando um novo vigor ciada pela Superintendência de Habitação
para as pesquisas na região. Exemplos disso e Assuntos Fundiários do Estado do Ama-
são a abertura de um curso superior de tec- zonas (SUHAB). Os trabalhos ligados ao
nologia em arqueologia e o auxílio das ins- resgate arqueológico ocorreram em 2001
tituições de fomento a pesquisa locais a es- e em 2004, por uma equipe composta por
tudos arqueológicos, agregando não arqueólogos integrantes do PAC. Desde
somente levantamentos em localidades pra- então, nenhuma ação concreta visando à
ticamente desconhecidas arqueologica- recuperação da área foi efetivada, a des-
mente mas também contextualizando a re- peito das orientações dadas nos relatórios
lação dos comunitários com os sítios (Neves e Costa 2001, Neves et al. 2004).
arqueológicos que habitam, dentro do Esta- Hoje, o local encontra-se exposto ao aban-
do do Amazonas. Estas iniciativas se dão, de dono, violência e à degradação.
forma direta ou indireta, em parceria com o O caso do sítio Lajes é de fato emblemá-
Projeto Amazônia Central (PAC), vinculado tico. Conhecido desde a década de 70 (Si-
ao Museu de Arqueologia e Etnologia da mões e Araújo-Costa, 1978) e identificado
Universidade de São Paulo (MAE-USP). sob a insígnia AM-MA-01 – o primeiro sítio
Este projeto se faz presente e atuante acade- arqueológico cadastrado na cidade de Ma-
micamente há quinze anos na região de naus –, sua existência não era ignorada na
confluência entre os rios Solimões e Negro. ocasião da implantação das obras do Pro-
Entretanto, ainda que estas ações contribu- grama de Ampliação do Abastecimento de
am para a crescente atuação de arqueólogos Água de Manaus (PROAMA), em 2009, nem
no Estado do Amazonas, sem uma presença por parte dos executores nem por parte dos
significativa – garantida apenas através do gestores. O sítio foi visitado em 2006 por
ingresso destes profissionais em âmbito pú- uma equipe de arqueólogos contratados
blico, seja em instituições de ensino e pes- pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Ar-
quisa ou em órgãos de fiscalização e geren- tístico Nacional (IPHAN) durante o Projeto
ciamento – não há como ter garantias de Levantamento Arqueológico no Município
continuidade em pesquisa e produção de de Manaus (LAMA) (Costa & Lima, 2006).
conhecimento em longo prazo. Além disso, a presença do sítio arqueológi-
De uma forma bastante ilustrativa, descre- co foi mencionada nos estudos ligados ao
veremos duas situações ocorridas na história licenciamento da área (Lira, 2009).
recente de Manaus, que refletem o modo O objetivo dos autores com a publicação
como a arqueologia e o patrimônio arqueoló- deste artigo é justamente colocar em discus-
gico de Manaus têm sido abordados pelo Po- são a situação em que se encontra o patrimô-
der Público e pela sociedade civil em geral. nio arqueológico da cidade de Manaus, bus-
Referimo-nos aos trabalhos de resgate arque- cando refletir sobre as possibilidades de
ológico realizados nos sítios Nova Cidade e melhoria deste quadro.
Lajes, que têm em comum as suas grandes
dimensões e relevância científica, e o fato de Aspectos históricos
terem sido quase inteiramente destruídos. das pesquisas arqueológicas
O sítio Nova Cidade (AM-MA-38), lo- em Manaus
calizado na periferia da área urbanizada Em Manaus, as primeiras notícias rela-
de Manaus, foi identificado em 2000, por tivas a indícios arqueológicos datam do sé-
ocasião da construção de moradias em culo XIX, período em que vasos e urnas fu-

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nerárias encontravam-se expostos na área Brasileiras’ (Simões, 1972) e também pelo ca-
onde atualmente se localiza o centro histó- dastro de inúmeros sítios na Amazônia brasi-
rico (Marcoy, [1848-1860] 2001). As pesqui- leira, utilizando um sistema padronizado de
sas arqueológicas propriamente ditas so- siglas, posteriormente empregado no Sistema
mente têm início no município de Manaus Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) (Si-
entre as décadas de 1950 e 1960, quando o mões & Araújo-Costa, 1978).
arqueólogo alemão Peter Paul Hilbert de- A região voltou a ser sistematicamente
senvolveu estudos na Amazônia Central. pesquisada somente a partir de 1995, através
Hilbert registrou alguns sítios arqueológi- de uma equipe de pesquisadores e estudantes
cos na área central e nos arredores da cida- do ‘Projeto Amazônia Central’ (PAC), vincula-
de de Manaus, onde atualmente se encon- do ao Museu de Arqueologia e Etnologia da
tram o centro histórico, a refinaria Universidade de São Paulo (MAE-USP). Este
petrolífera de Manaus (REMAN) e o Aero- projeto vem atuando na área de confluência
porto da Ponta Pelada. Esses locais recebe- dos rios Negro e Solimões, em especial nos
ram as nomenclaturas de sítio Manaus, Re- municípios de Iranduba, Manaus e Manaca-
finaria, Base Naval e Paredão. Este puru, com o intuito de mapear e estudar os
pesquisador se tornou um importante nome sítios arqueológicos ali presentes. Desde o seu
da arqueologia amazônica, uma vez que início até os dias de hoje, mais de uma cente-
seus trabalhos o auxiliaram a estabelecer na de sítios foi identificada, sendo alguns de-
uma primeira – e pioneira – cronologia da les intensivamente escavados e pesquisados,
ocupação pré-colonial da cidade de Manaus inclusive com grande quantidade de datações
e da Amazônia central, definindo e nome- radiocarbônicas, o que permitiu o estabeleci-
ando os principais conjuntos artefatuais en- mento de uma cronologia segura para a ocu-
contrados na região (Hilbert, 1968). pação pré-colonial da área (Neves, 2008a,
Posteriormente, entre 1970 e 1983, o ar- 2008b; Lima, 2008).
queólogo brasileiro Mário Simões identificou Alguns membros da equipe de arqueólo-
e registrou mais de duas dezenas de sítios na gos ligados ao PAC – um projeto essencial-
área rural e periférica da capital do Estado do mente acadêmico – desenvolveram, ainda,
Amazonas. Além da parceria com o PRONA- uma série de pesquisas dentro da própria ci-
PABA (Programa Nacional de Pesquisa Arque- dade de Manaus em conjunto com outros pes-
ológica na Bacia Amazônica), criado em 1977, quisadores. É o caso do Projeto ARQUEOUR-
uma característica dos trabalhos de Mario Si- BS – Arqueologia Urbana no Centro Histórico
mões está na sua proximidade com dois dos de Manaus, realizado em 2002, que possuía
maiores nomes da pesquisa arqueológica na como objetivo localizar os vestígios da Forta-
Amazônia, Betty Meggers e Clifford Evans. De leza de São José do Rio Negro, de outras cons-
fato, em todas as suas asserções na Amazônia truções históricas e das ocupações pré-colo-
central, tanto Hilbert como Simões foram niais. Como resultados, foram identificados e
orientados pelo casal norte-americano Meg- descritos os complexos arqueológicos e histó-
gers e Evans, precursores da arqueologia ricos da área (Zanettini, 2002).
amazônica e brasileira em um âmbito geral No início dos anos 2000, arqueólogos do
(Meggers e Evans 1961, 1983). próprio Amazonas realizaram trabalhos na
Mário Simões foi o responsável, também, área central da cidade, no local onde hoje se
pela organização e padronização das nomen- localiza a Matriz, recolhendo enormes quanti-
claturas do acervo de sítios e fases arqueoló- dades de vestígios das ocupações indígenas e
gicas no Brasil, através do ‘Índice das Fases coloniais da cidade (Souza, 2002). E, em mea-

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dos de 2003 e início de 2004, a Prefeitura de presença de sítios arqueológicos, e que re-
Manaus promoveu uma intervenção na mes- metem a dois contextos bastante diferencia-
ma área central da cidade, na Praça D. Pedro dos. Trata-se das áreas de ocorrência dos
II, que resultou na coleta de centenas vestí- sítios pré-cerâmicos, por um lado, e dos lo-
gios arqueológicos e no salvamento de quatro cais onde comumente ocorrem os sítios li-
urnas funerárias, ligadas à fase Paredão (Ne- gados às ocupações ceramistas.
ves, 2003; Martiniano e Filippini 2006:7). Os No primeiro contexto, pesquisas volta-
materiais coletados nessas iniciativas encon- das ao entendimento da configuração dos
tram-se, atualmente, divididos entre os labo- sítios arqueológicos localizados em areais,
ratórios de arqueologia da Universidade Fe- tanto no município de Iranduba como Ma-
deral do Amazonas (UFAM) e do Governo do naus, apontaram para algumas característi-
Estado do Amazonas. Vale lembrar que não cas em comum: proximidade com igarapés
existe, até o presente momento, nenhuma re- de água preta, a cobertura vegetal dominan-
serva técnica apropriada para a guarda de te composta por campinaranas, a ocorrên-
materiais arqueológicos na cidade. cia de afloramentos de arenito-silicificado
Finalmente, no ano de 2006, o IPHAN da formação Alter do Chão e, primordial-
promoveu um importante estudo sobre o mente, a presença de material lítico lascado
patrimônio arqueológico da região, através (Costa 2009: 42). Sítios como estes têm
do já citado Levantamento Arqueológico no grande relevância para a construção da pré-
Município de Manaus (LAMA) (Costa e história da Amazônia central, em especial
Lima, 2006), que teve o intuito de catalogar em períodos bastante remotos, outrora não
os sítios presentes no município. Além dis- conhecidos. Exemplo disso é o sítio Dona
so, objetivou-se naquele momento levantar Stella, localizado em Iranduba, que de-
informações sobre a localização, estado de monstrou uma seqüência cronológica da-
conservação e relevância de sítios e cole- tando de até 9000 anos antes do presente,
ções arqueológicas para possibilitar o de- até aproximadamente 3000AP (Costa, 2009;
senvolvimento de um plano de ação efetivo Neves, 2008b). Em Manaus, sítios seme-
para a preservação do patrimônio. lhantes são o Marina Rio Belo, Areal do Ita-
puranga I e II, identificados por ocasião de
Elementos contextuais contratos de arqueologia consultiva.
da história pré-colonial A segunda característica ambiental relacio-
de Manaus: duração nada à presença de sítios arqueológicos é bas-
e diversidade tante conhecida dentre os estudiosos da arque-
A partir dos dados angariados ao longo de ologia amazônica e também junto ao senso
quinze anos de pesquisas arqueológicas sis- comum local, e reside no fato de que os sítios
temáticas ligadas ao PAC na região – que cerâmicos na Amazônia estão comumente as-
agregam um enorme volume de informa- sociados às áreas de ocorrência das chamadas
ções acerca dos sítios na área da Amazônia Terras Pretas de Índio (TPI’s). As terras pretas
Central – é possível, hoje, inferir alguns ele- são neossolos antropogênicos bastante ricos
mentos relevantes sobre a cronologia e pro- em matéria orgânica e destacam-se pela colo-
cessos de ocupação da área e certos padrões ração escura e pela alta fertilidade (Petersen et
de assentamento (Neves, 2008a, 2008b, Ar- al., 2001; Arroyo-Kalin et al., 2009; Relelatto et
royo-Kalin et al., 2009; Rebelatto et al., 2009). al., 2009), bem como por sua implantação nos
Existem, aparentemente, duas caracte- topos dos terraços fluviais (Denevan, 1996).
rísticas ambientais bastante indicativas da Estes locais – sítios arqueológicos por excelên-

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cia – são normalmente habitados até o presen- mais antigas e normalmente mais profun-
te, seja em contextos urbanos, áreas agriculta- das, as inferências sobre padrões do uso do
das ou por comunidades ribeirinhas. Desta espaço se tornam mais complicadas. E nes-
forma, e diferentemente do restante do Brasil, te sentido, os materiais relacionados à fase
os vestígios arqueológicos tornam-se elemen- Paredão oferecem maiores possibilidades
tos ativos no cotidiano das pessoas, sendo cons- interpretativas, sendo estes os mais repre-
tantemente interpretados e re-significados de sentativos nos sítios da cidade como um
diferentes maneiras pela população Amazôni- todo, e relacionados diretamente com fei-
da (Carneiro et al., 2008; Lima, 2008). ções paisagísticas mais marcantes, como as
A este tipo de sítio estão ligadas as ocupa- próprias terras pretas e a construção de
ções por grupos produtores de cerâmica na montículos artificiais (Donatti, 2003; Ma-
região, que remontam a uma história iniciada chado, 2005; Moraes, 2007).
há aproximadamente dois mil anos atrás, es- Atualmente, os montículos já não são per-
tendendo-se até o período do contato, em 1500. ceptíveis nos sítios situados na zona urbana
A partir de um refinamento da cronologia ini- em função do elevado grau de impacto que
cialmente proposta por Hilbert (1968), foram estes se encontram. No entanto, sabe-se que
estabelecidos quatro conjuntos que reúnem outrora eles existiram. O sítio Paredão, por
elementos tecnológicos e contextuais destes sí- exemplo, que foi pesquisado por Hilbert nos
tios. Os três primeiros, interpretados enquanto anos 60, teve três sondagens escavadas, sen-
um continuum ligado à Tradição Borda Incisa, do uma delas sobre montículo, embora não
englobam as fases Açutuba, Manacapuru e Pa- se reconhecesse tais estruturas na época (fig.
redão. O último conjunto, representante de 1) (Hilbert, 1968; K. Hilbert, 2007, comunica-
uma aparente ruptura da história pré-colonial ção pessoal). Em uma posterior análise de
local, é representado pela fase Guarita da Tra- seus dados e materiais, foi possível identifi-
dição Polícroma da Amazônia (Lima, 2008; Ne- car, a partir de inversões na seqüência estra-
ves, 2008a; Rebellato et al., 2009). tigráfica e da profundidade anômala da terra
A ocupação mais antiga é relacionada à preta, tratar-se, de fato, de uma sondagem
fase Açutuba, observada em pacotes cultu- escavada sobre um montículo (Lima, 2008:
rais pouco espessos com densidades dife- 380-381).
renciadas de vestígios, datados entre 300AC A fase Paredão tem datações absolutas en-
a 350DC e depositados em matrizes de solo tre os séculos VII e XII d.C., e se distribui pela
pouco modificadas pela ação humana – o região de Manaus e da área de confluência dos
início de um processo que levaria à forma- rios Solimões e Negro. Seus materiais apresen-
ção das terras pretas na região
(Lima et al., 2006). Na seqüência
cronológica da região encontram-se
os materiais ligados à fase Manaca-
puru. Sua relação com a terra preta
é clara, ou seja, há evidentes altera-
ções humanas no meio, num perío-
do que tem início nos primeiros sé-
culos da Era Cristã e se estendeu até
aproximadamente os séculos VII- Figura 1 – Posicionamento de urna no sítio Refinaria (fonte
Hilbert 1968:36) e aplique antropomorfo típico das urnas Pa-
VI I I (Lima 2008, Portocarrero, redão (fonte Hilbert 1968: 119).
2007). No caso dessas ocupações

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tam forma e decoração pecu-


liares. As formas mais co-
muns são os vasos com alça,
cuias e grandes urnas fune-
rárias com apliques antropo-
morfos, muito comuns em
sítios arqueológicos espalha-
dos pela cidade.
A ocupação mais recente
da região – a última ocupa-
ção antes do contato – está
relacionada à fase Guarita, e Figura 2 – Urnas as funerárias aflorando nas proximidades do atual cen-
tro histórico de Manaus, representadas por Paul Marcoy em 1869 (Fonte:
à presença de terra preta, da- Marcoy P. 2001:165).
tada entre 950 e 1450DC (Hil-
bert, 1968; Neves, 2008a;
2008b; Rebelatto et al., 2009). Parece caracteri- dígenas, justamente por abrigarem uma
zar um evento passageiro e, portanto, posterior grande quantidade de recipientes funerários,
à construção dos montículos e a um possível como mostra a fig. 2.
pico demográfico (Neves, 2009). Muito já se discutiu sobre a ocorrência
Pretendemos focar as discussões nos con- deste tipo de vestígios na cidade de Manaus,
textos ligados às ocupações Paredão, a partir que realmente faz-se admirar e se sobrepõe
de duas questões principais. A primeira de- às demais localidades na Amazônia. O muni-
las diz respeito a um acervo extremamente cípio de Iranduba, por exemplo, vem sendo
grande de urnas funerárias presente nos sí- sistematicamente pesquisado desde 1995,
tios da cidade de Manaus. O que chama aten- contando com um acervo de mais de cem sí-
ção é o fato de que estas urnas funerárias tios arqueológicos cadastrados, e até o pre-
associadas à ocupação Paredão são mais co- sente momento não mostrou densidade de
mumente encontradas em sítios identifica- sítios com cemitérios indígenas Paredão. Na
dos dentro da cidade, e não fora dela, apesar verdade, até hoje, apenas um local em Iran-
dos inúmeros levantamentos feitos em diver- duba mostrou a ocorrência de urnas funerá-
sos locais. A quantidade de sítios arqueológi- rias relacionadas a este período (Lima,
cos com grandes urnas funerárias aflorando 2008). No entanto, ao invés de relacionarmos
em superfície, por vezes com mais de um este fato a uma diferença em padrões ocupa-
metro de altura e mais de um metro de lar- cionais antigos, devemos voltar nossos olha-
gura, é muito grande. São exemplos os sítios res para outros horizontes: o grau de degra-
Paredão, Refinaria, Base Naval, Nova Cidade, dação dos sítios arqueológicos nos dois locais
Lajes, Manaus, UDV, Antonio Medeiros, en- e de antropização das duas áreas.
tre outros (Hilbert, 1968; Simões e Araújo- Mais do que uma questão voltada à com-
Costa, 1978; Neves e Costa, 2001; Neves et al. preensão da dispersão dos vestígios na Ama-
2004; Silva, 2000a, 200b, 2001). São as famo- zônia, pensamos tratar-se de uma questão
sas “urnas Paredão”, que aparecem às deze- conjuntural. Comumente, o que ocorre é que
nas nestes sítios. Com sua morfologia pecu- estas urnas – os cemitérios – aparecem em
liar e contexto onde se destacam as sítios multi-componenciais e enterradas sob
impressões circulares no solo, estes sítios espessa camada arqueológica, composta pe-
são usualmente chamados de cemitérios in- las terras pretas, tal como aponta a fig. 2. Em

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Manaus, estes sítios já se encontram com tão Desenvolvimento


elevado grau de destruição que, na maioria econômico, expansão urbana
dos casos, a camada arqueológica – de terra e preservação arqueológica
preta – já não existe mais. Desta forma, estes A região Norte do país é reconhecida por
recipientes passam a aflorar, quando origi- seus atrativos naturais – já que abriga a
nalmente se encontravam enterradas metros maior porção da Amazônia legal – e também
abaixo da antiga superfície do terreno. Ma- pela falta de infra-estrutura concernente aos
naus apresenta inúmeros exemplos, tanto serviços básicos, como saneamento, oferta
em áreas de urbanização recente, como o energética de bases renováveis e transporte
Bairro Nova Cidade, que revelou um sítio (IBGE, SIDRA). Nos últimos anos, no entan-
com centenas de urnas, quanto em áreas an- to, um maior fluxo de capital no Estado do
tigas e centrais da cidade. Amazonas, provindos principalmente do
Já em locais com um grau menos eleva- Pólo Industrial de Manaus e de programas
do de ação antrópica atual vinculada à ex- advindos do Governo Federal, tem sido apli-
pansão da economia local, os sítios apre- cado nestes setores com a intenção de sanar
sentam maior grau de preservação, ou tais deficiências. Diversas iniciativas priva-
seja, a camada de terra preta ainda existe. das têm também sido conduzidas na região,
Desta feita, mesmo com pesquisas de longa principalmente pela Petrobrás, bastante inte-
data em locais como Iranduba, a amostra- ressada nas reservas de gás e petróleo sob a
gem com a qual os sítios são estudados ain- região amazônica.
da é pequena, limitada a poucos metros Em decorrência da expectativa gerada
quadrados por sítio, dificultando a identifi- pela próxima copa do mundo de futebol de
cação deste tipo de vestígio. Assim, esta si- 2014 – da qual Manaus será uma das sedes
tuação – o elevado estágio de degradação – a quantidade de canteiros de obras dispos-
dos sítios em Manaus versus a pequena tos pela capital amazonense aumentaram de
amostragem em sítios intactos – leva a forma sensível no último ano. Obras viárias,
uma falsa percepção de um padrão arque- construções de conjuntos habitacionais e pe-
ológico, podendo conduzir a interpretações quenas reformas urbanas tomam conta da
equivocadas acerca da pré-história local. cidade, ampliando ainda mais a malha urba-
O elevado potencial arqueológico do na manauara, principalmente em direção a
município de Manaus é visto através do his- norte e leste da cidade, onde a ocupação se
tórico das pesquisas ali empreendidas e da dá de forma menos densa. O mercado da
imensa quantidade de sítios arqueológicos construção civil encontra-se em acentuado
encontrados, e também pode ser percebido crescimento, cada vez mais aquecido pela
em sua história recente, na qual a cada nova imensa quantidade de obras demandadas.
obra realizada novos sítios arqueológicos É neste contexto em que o embate entre
são desvendados – e, em muitos casos, des- o desenvolvimento econômico e a preser-
truídos. Ademais, o elevado grau de destrui- vação dos sítios arqueológicos se insere. É
ção dos sítios arqueológicos em áreas urba- de conhecimento da comunidade arqueo-
nas, associado a uma explosão demográfica lógica a existência de uma legislação espe-
e a um crescimento urbano desordenado, cificamente voltada a este patrimônio ar-
dificulta o conhecimento a respeito das so- queológico. As iniciativas formais de
ciedades pretéritas na região, oferecendo preservação do patrimônio arqueológico,
ainda mais dificuldades aos estudos arque- pré-histórico e histórico, têm origem legal
ológicos na área, já carente de pesquisas. no Brasil com o decreto-lei 25, de 1937, que

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já previa a proteção, via tombamento, de lógicos devam passar por avaliação e posterior
sítios arqueológicos que fossem considera- indicação de medidas mitigadoras e/ou com-
dos de alto valor patrimonial. No entanto, pensatórias dos impactos negativos sobre o
o tombamento não se constitui como um patrimônio (Art. 6º, I, c).
instrumento adequado de proteção a sítios A constituição de 1988 reforçou esta pos-
arqueológicos, pelo fato de que uma vez tura quando estabeleceu a igualdade entre os
que o sítio é tombado, as alterações no lo- cidadãos e o direito de cada um ao questio-
cal, inclusive escavações, são proibidas ou namento judicial para embargar qualquer
severamente restritas (Penin, 2010: 111- ação, de pessoa física ou jurídica, que colo-
112). Em função disto, criou-se a lei n.º que em risco a integridade do patrimônio
3924, de 26 de julho de 1961, com o objeti- material - histórico e arqueológico - de socie-
vo de permitir a preservação dos sítios ar- dades pretéritas (Art. 216, V). Além disso, a
queológicos sem impedir a realização de constituição federal de 1988 (Art. 20, X) aca-
estudos através de escavações. A lei deter- ba por suplantar a lei 3.924/61 ao transferir a
mina que todos os tipos de vestígios arque- titularidade dos sítios arqueológicos para a
ológicos (lítico, cerâmico, faunístico, etc.), União (Penin, 2010: 98).
que representem testemunhos de culturas Estas leis voltadas ao patrimônio arqueo-
passadas, são considerados patrimônio, fi- lógico são ainda mais rigorosamente aplica-
cando os monumentos arqueológicos ou das àqueles projetos realizados no âmbito de
pré-históricos existentes no território na- proteção e resgate dos sítios arqueológicos.
cional sob a guarda e proteção do Poder Como visto, a legislação brasileira é bastante
Público. Além disso, considera como sítios estrita no que se refere à sua salvaguarda, e
arqueológicos os locais com vestígios de prevê que todo e qualquer tipo de interven-
ocupações paleoameríndias, tais como ção sobre o patrimônio deve se realizar me-
grutas, lapas e abrigos sob rocha que apre- diante autorização prévia do órgão respon-
sentem tais vestígios; e locais como cemi- sável, o IPHAN.
térios, sepulturas ou aldeamentos, nos No entanto, o desenvolvimento e o rápido
quais se encontram vestígios humanos de – e deveras desordenado – crescimento urbano
interesse arqueológico ou paleoetnográfi- que a cidade de Manaus vivencia tem causado
co; as inscrições rupestres ou locais como a ameaça e mesmo a destruição do patrimônio
sulcos de polimentos de utensílios e outros arqueológico do município. Cabe aqui ressal-
vestígios de atividade de paleoameríndios tar que a maioria das obras que efetivamente
(Art. 2º, I). acarretam danos ao patrimônio arqueológico é
A avaliação ambiental foi introduzida no levada a cabo pelo próprio governo estadual.
Brasil com a Lei 6.938, de 31/09/1981, que dis- Estas obras geralmente possuem um forte ape-
põe sobre a Política Nacional do Meio Ambien- lo social (e popular, evidentemente), como es-
te e que criou o Conselho Nacional do Meio tradas para interligação de cidades no interior,
Ambiente (CONAMA), com o objetivo específi- construção de conjuntos habitacionais e infra-
co de estabelecer critérios e condutas para o estrutura de serviços básicos, como água e es-
licenciamento de atividades impactantes, im- goto. Este fator é usado, correntemente, como
pondo a realização de estudos ambientais pré- justificativa para a falta de cumprimento dos
vios. A presença de arqueólogos nos trabalhos parâmetros legais na execução dos trabalhos.
de avaliação ambiental passou a ser exigida a Além disso, o órgão de fiscalização ambiental
partir de Resolução no 001 do CONAMA, de do Estado do Amazonas – Instituto de Proteção
23/02/86, que estabelece que os sítios arqueo- Ambiental do Amazonas (IPAAM) – ainda não

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contempla integralmente os aspectos arqueoló- Dois casos emblemáticos: os


gicos para a emissão de licenças. sítios Nova Cidade e Lajes
Soma-se a este quadro a dificuldade da Serão apresentados, a seguir, dois exem-
Superintendência Estadual do IPHAN ao li- plos da forma pela qual o patrimônio arqueo-
dar com a fiscalização destas obras e com as lógico vem sendo abordado. Ambos os casos,
inúmeras denúncias protocoladas no órgão e os sítios Nova Cidade e Lajes (fig. 3), foram
a ausência de arqueólogos ligados a outros severamente impactados por obras levadas a
órgãos públicos, sejam eles de controle, fis- cabo pelo Governo do Estado do Amazonas.
calização ou acadêmicos, a exemplo do que Devido à denúncias, estes sítios foram alvos
acontece largamente em todo o território na- de estudos arqueológicos e salvamentos
cional, aprofunda ainda mais as mazelas so- emergenciais, posteriores aos impactos sofri-
fridas pelo patrimônio arqueológico do Esta- dos pelas atividades de suas implantações.
do. Apesar de haver um
movimento crescente de pes-
quisas arqueológicas desen-
volvidas no Estado, não existe
garantia de continuidade das
mesmas até que arqueólogos
adentrem as instituições de
ensino e pesquisa, e ganhem
seu espaço nas mais diversas
instâncias estaduais. As insti-
tuições que abrigam estas ini-
ciativas, por certo, possuem
arqueólogos atuantes. No en-
tanto, sua institucionalização
ainda não se deu de forma
efetiva, por meio de concur- Figura 3: Mapa de localização dos sítios arqueológicos na área urbana de
Manaus (Datum Horizontal WGS 1984. Autoria: Bruno Moraes).
sos públicos que assegurem
sua permanência, sem as flu-
tuações políticas as quais os cargos de con- O sítio Nova Cidade
fiança estão sujeitos. Há, atualmente, apenas O sítio Nova Cidade (AM-MA-38) locali-
um arqueólogo devidamente institucionali- za-se na zona urbana da cidade de Manaus,
zado em todo o Estado do Amazonas, vincu- a cerca de 15 km de distância da margem
lado à Empresa Estadual de Turismo do esquerda do rio Negro (conforme visto na
Amazonas (AMAZONASTUR), que tem sta- fig. 3). Os trabalhos arqueológicos no local
tus de secretaria de Estado. ocorreram em duas etapas, em 2001 e em
Desta forma, sem arqueólogos efetivos e 2004, por meio do “Programa de Resgate
permanentes nas instituições de ensino e Arqueológico do Sítio Nova Cidade”, que
pesquisa do Estado, seja na esfera estadual foi solicitado pelo IPHAN e Ministério Pú-
ou federal, as perspectivas de estudos acadê- blico Federal (AM) para avaliação dos da-
micos do patrimônio arqueológico local são nos causados ao sítio arqueológico em fun-
dirimidas em detrimento daqueles desenvol- ção da construção de um conjunto
vidos por meio de consultorias – quando es- habitacional. As obras eram de responsabi-
tas são julgadas necessárias. lidade da Superintendência de Habitação e

Produção de Conhecimento e Preservação em Debate Helena P. Lima e Bruno Moraes


100

Assuntos Fundiários do Estado do Amazo- sa de doutorado (Lima, 2008), foi possível


nas (SUHAB-AM), quando os trabalhos de inseri-lo dentro dos parâmetros da cronolo-
terraplanagem, realizados em 2000 e 2001, gia regional. Isso em função do conhecimen-
ocasionaram a destruição do sítio arqueo- to razoavelmente bem consolidado sobre a
lógico, contribuindo para a perda de mui- seqüência de ocupação da Amazônia central
tos dados a ele relativos (Neves e Costa (Lima, 2008; Neves, 2008) e também pelo
2001, Neves et al. 2004). fato dos materiais apresentarem elementos
O sítio se caracteriza pela grande quan- bastante característicos dos conjuntos já co-
tidade de materiais cerâmicos e líticos ex- nhecidos na região. Os vestígios coletados
postos na superfície em uma área de apro- apresentaram elementos diagnósticos da
ximadamente 12,7 ha. As ocorrências fase Paredão, incluindo vasilhas (conhecidas
ocupam um topo aplainado e vertentes su- como alguidares) com alças aplicadas e
aves, com solo exposto de característica grandes urnas funerárias com gargalo e apli-
areno-argilosa e cor amarela, uma vez que ques antropomorfos nos ombros. Além dos
os pacotes arqueológicos e a matriz sedi- recipientes total ou parcialmente recupera-
mentar original, composta pelas terras dos vinculados à fase Paredão, foram identi-
pretas antrópicas, foram removidos duran- ficados também materiais relacionados às
te as obras de terraplanagem (Neves e Cos- fases Manacapuru (Tradição Borda Incisa) e
ta 2001, Neves et al. 2004, Lima, 2008). Guarita (Tradição Polícroma da Amazônia).
Durante a etapa de 2001, foram mapeados Tal configuração cronológica é bastante co-
mais de duzentos recipientes e 238 concentra- mum nos sítios arqueológicos em toda a
ções cerâmicas. Deste total, 13 recipientes fo- Amazônia central, que têm uma longa – e
ram exumados. Além dos materiais cerâmicos, por vezes contínua – seqüência de ocupação
foram coletados artefatos líticos lascados, poli- entre os séculos IV e XIII d. C.
dos e picoteados. O novo mapeamento, realiza- Muitos dos recipientes exumados conti-
do em 2004, indicou quarenta novos recipien- nham ossos humanos em seu interior, indi-
tes e onze concentrações de fragmentos que as cando tratar-se também de sítio-cemitério
chuvas evidenciaram, sendo que 140 recipien- de grandes proporções. Materiais da fase
tes foram perdidos pela ação erosiva. O acele- Paredão estão sempre associados a contex-
rado processo erosivo, em decorrência da reti- tos funerários, como ocorre nos sítios Açu-
rada da vegetação e da camada original do tuba, Nova Cidade, Puraquequara, Praça D.
solo, causou a destruição de mais de 70% das Pedro II e UDV. Os quatro últimos também
concentrações identificadas em 2001, destruí- se situam na zona urbana de Manaus. Outro
das pela ação das chuvas, já no ano de 2004 ponto que destaca o sítio Nova Cidade é o
(Neves et al., 2004:10). A severa destruição do fato de se tratar de um assentamento de
sítio arqueológico, com a remoção dos níveis grandes dimensões composto pelas terras
de solos antrópicos superficiais eliminou qual- pretas antrópicas e localizado num ambien-
quer possibilidade de datação do sítio por 14C. te de terra firme. Esse sítio reitera a neces-
Sendo assim, a idade do sítio só pôde ser esti- sidade de reavaliar os modelos de ocupação
mada por datações relativas através da identi- dos diferentes ecossistemas encontrados
ficação dos restos cerâmicos identificados (Ne- nas florestas tropicais. Não obstante, um en-
ves et al., 2004: 58). tendimento mais detalhado sobre seu pro-
Através das análises dos vestígios cultu- cesso de formação e de ocupação já não é
rais recolhidos no sítio Nova Cidade, que se mais possível, por encontrar-se completa-
deram, inclusive, no âmbito de uma pesqui- mente destruído. Se, como notado, mais de

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metade das concentrações cerâmicas iden- O sítio Lajes


tificadas em 2001 já haviam sido destruídas Identificado por Mário Ferreira Simões na
em 2004, podemos dizer que hoje, quase 10 década de 70, o sítio Lajes foi o primeiro a ser
anos depois das primeiras intervenções, já cadastrado no município de Manaus, confor-
não resta pouco mais do que nada do então me o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológi-
sítio arqueológico (fig. 4). cos – CNSA, nomeado de AM-MA-01. O sítio
Na ocasião dos trabalhos de arqueologia, as foi inicialmente identificado como “sítio-ha-
obras foram interrompidas e o local identifica- bitação com três componentes (fases Pare-
do como sítio arqueológico foi isolado e reser- dão, Guarita e Itacoatiara)” (Simões e Araú-
vado, mas nada mais foi feito. Com a supressão jo-Costa, 1978: 76).
da cobertura vegetal e a remoção total da ca- Este sítio localiza-se a leste do núcleo ur-
mada orgânica, o latossolo exposto vem so- bano mais denso da cidade de Manaus, no
frendo um processo de laterização dando ao topo de um terraço às margens do rio Negro,
local um aspecto desértico quase infernal. As de frente ao Encontro das Águas. O platô pos-
altas taxas de pluviosidade anual característi- sui baixa inclinação e declividade, resultado
cas da região têm transformado as ravinas ero- de diversos eventos de terraplenagem feitos
sivas em grandes voçorocas com dezenas de no local. Boa parte do terreno, onde se estima
metros de extensão e profundidade. Este fato ter havido outrora uma cobertura do solo de
acabou por causar outro sério problema am- terra preta, agora deixa transparecer o hori-
biental: a intensa movimentação de sedimen- zonte de coloração amarelada, anterior às
tos carreados pelas chuvas ocasionou o assore- modificações intensivas na paisagem que de-
amento total do curso d’água que margeava o ram origem ao solo antropogênico.
local. Além disso, o problema também se es- O sítio arqueológico Lajes é assim cha-
tendeu para a esfera social – o local deixado ao mado devido à toponímia do local – Ponta
abandono estimulou seu uso para finalidades das Lajes –, dada em razão da existência de
ilícitas (como o consumo e o tráfico de drogas) uma “saliência de rochas silicificadas da
e acúmulo de lixo, em uma área que concentra Formação Alter do Chão” (Franzetti e Igre-
populações carentes. As reclamações são cons- ja, 2009). Portanto, além de um importante
tantes pelos moradores da região. O fato de sítio arqueológico, o local possui estruturas
cercar e proteger o sítio causou um efeito con- do chamado Arenito Manaus, fácie da For-
trário, colocando em questão a própria compe- mação Alter do Chão, constituindo também
tência do IPHAN ao lidar com a questão. importante sítio geológico.

Figura 4: Recipiente 10 exumado na etapa de 2001 (Neves & Costa 2001) e voçoroca atual aberta
no sítio em 2010 (foto de Helena Lima, tirada em 2010).

Produção de Conhecimento e Preservação em Debate Helena P. Lima e Bruno Moraes


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Assim como o sítio Nova Cidade, o Lajes eixo Leste-Oeste do sítio e tendo passado apa-
se apresenta como um sítio cerâmico com rentemente sua porção central e mais densa.
funções habitacionais e funerárias, caracte- Essas informações já constavam no relatório
rizado pela grande quantidade de material produzido pelo LAMA. Finalmente, a despei-
arqueológico, especialmente pelos recipien- to das indicações dadas pelo diagnóstico rea-
tes semi-inteiros, espalhados em subsuperfí- lizado por Lira (2009), já em função do Pro-
cie. Ambos encontram-se destruídos e tive- grama Água para Manaus (PROAMA), o
ram a camada arqueológica composta por consórcio responsável pela construção das
terra preta retirada. obras realizou a escavação de uma vala, im-
Os trabalhos neste local também se deram pactando ainda mais o sítio Lajes. Atualmen-
em função de uma demanda do IPHAN e do te, avalia-se que a superfície original do sítio
MPF do Amazonas, ao verificar a destruição arqueológico tenha sido totalmente modifica-
do sítio em função das obras para implantação da nessas sucessivas levas de impacto, e que
do Programa de Ampliação do Abastecimento somente 5% de seus vestígios ainda estejam
de Água de Manaus (PROAMA), gerenciadas preservados (Lima e Moraes 2010: 99).
pela Secretaria de Infra-Estrutura do Governo Também os sítios arqueológicos encontra-
do Estado do Amazonas (SEINF-AM). O proje- dos no entorno de Lajes, tais como Siderama e
to de Avaliação dos Impactos, Delimitação e Refinaria (AM-MA-04 e AM-MA-17) têm uma
Resgate Arqueológico Emergencial no Sítio história parecida. Identificados e estudados
Lajes (AM-MA-01) tiveram inicio em agosto de nos anos 60-70 por Hilbert e Simões, encon-
2009, e ainda se estendem até o presente mo- tram-se hoje sob as estruturas e fundações de
mento (Lima e Moraes, 2010). grandes empresas tais como a Petrobrás.
Em 2006 o sítio foi visitado pelos arqueólo-
gos que realizaram o Levantamento Arqueoló-
gico no Município de Manaus (Costa e Lima,
2006). Na ocasião, observou-se que o sítio La-
jes já estava impactado pela construção de
uma olaria na década de 1970. Entretanto, vá-
rios recipientes estavam na superfície (fig. 5) e
alguns vestígios de terra preta ainda eram per-
ceptíveis. Na ocasião, uma placa indicativa da
presença de um sítio arqueológico foi afixada
no local – retirada convenientemente pouco
antes de o local ser vendido para a realização
das obras do PROAMA.
O histórico de impactos ao sítio Lajes re-
monta aos anos 70 e seguiu pelas décadas
seguintes. O sítio sofreu sucessivas levas de
impacto, tendo pelo menos três momentos
distintos: um primeiro relativo à construção
e funcionamento da olaria – atualmente ela
própria desativada e parte de um sítio histó-
Figura 5: Recipientes encontrados em 2006 no sítio
rico. O segundo forte evento de destruição do Lajes (Foto de acervo do LAMA), e vala criada pelas
obras de implantação de tubos para captação de
sítio foi a construção de uma estrada pavi- água (Foto de C. Moraes, tirada em 2009).
mentada da empresa Alumazon que cortou o

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Em decorrência da multiplicidade dos da- te produzidos pelo PROAMA, poucas infor-


nos causados ao sítio arqueológico, e da pers- mações sobre tamanho e densidade do sítio
pectiva de continuidade das obras, já que o – que poderiam nos levar a pensar em deter-
Programa possui um forte apelo social, além minados usos de espaço e de territorializa-
do fato de uma quantidade razoável de recur- ção – foram passíveis de coletada.
sos já terem sido gastos até aquele momento, No tocante às datações, as amostras reco-
foi requerido pelo IPHAN uma avaliação de lhidas nas escavações encontram-se muito
impactos e um resgate emergencial de parte do próximas à superfície atual do terreno, e com
material ainda restante. Sem quase nenhum freqüência contíguas à materiais inertes des-
vestígio da camada de solo orgânico, a não ser cartados pela olaria. Desta forma, a possibili-
as leiras de sedimento arrastado (onde foram dade de contaminação destas amostras é bas-
identificados aproximadamente quatro mil tante alta, dificultando sobremaneira uma
fragmentos cerâmicos), as etapas foram con- datação radiocarbônica confiável. No entanto,
centradas na delimitação do sítio com a reali- o conhecimento acumulado da área de pesqui-
zação de sondagens em subsuperfície, nas es- sa, aliado a um grande número de datações de
timativas de tamanho original a partir da materiais semelhantes em outros sítios arque-
dispersão dos fragmentos e da configuração do ológicos, nos permitem inferir uma datação
terreno, e na retirada dos recipientes cerâmi- relativa um tanto precisa, que remonta aos sé-
cos que estavam aflorando em superfície. culos VII ao XII D.C. (Lima e Moraes, 2010)
Dentre os vestígios escavados do sítio, en- É importante ressaltar também que,
contram-se cinco recipientes parcialmente in- mais do que um sítio pré-colonial cronologi-
tactos, que remetem à ocupação dos produto- camente distante, o sítio Lajes também conta
res das cerâmicas da fase Paredão, Tradição parte de uma história econômica presente da
Borda Incisa. Estes recipientes coletados re- cidade de Manaus. As estruturas ainda pre-
presentam a mais valiosa amostra dos vestí- sentes, da antiga da olaria, também consti-
gios culturais do sítio Lajes, e a melhor possi- tuem um patrimônio cultural ao serem re-
bilidade de compreendê-lo. Aparentemente, o manescentes materiais de um período inicial
setor do sítio onde foram escavados estes reci- de uma face econômica hoje bastante pre-
pientes possuía uma função funerária, a julgar sente e atuante no Estado: a produção de ce-
pelas características dos mesmos e por sua lo- râmica industrial. Portanto, o sitio conta uma
calização no estrato subsuperficial, abaixo da história (de longa e curta duração) da cidade
camada de terra preta. A própria disposição de e da população que nela habita.
deposição dos recipientes – tendo um recipien-
te de maiores dimensões ao centro e diversos Conclusão: cidadania
outros ao seu redor – pode aludir também a e preservação arqueológica
um contexto funerário, semelhante aos pa- em questão
drões observados no sítio Nova Cidade e em Os dois casos apresentados são exemplos
outros. Dos dois recipientes escavados em la- do modo como o patrimônio arqueológico da
boratório até o momento, apenas um apresen- cidade de Manaus tem sido abordado na úl-
tou vestígios ósseos, claramente humanos. tima década. E não se trata de exemplos iso-
Estimamos uma área bastante extensa, lados, uma vez que a situação é recorrente
de aproximadamente 22.600 m², para o sítio em todo o Estado do Amazonas e, quiçá, na
pré-colonial em função do que restou dos região norte como um todo.
vestígios na configuração do registro atual. Do ponto de vista legal, a destruição dos
Após grandes levas de impactos, não somen- sítios arqueológicos Nova Cidade e Lajes

Produção de Conhecimento e Preservação em Debate Helena P. Lima e Bruno Moraes


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constituem-se em uma violação da legisla- fra-estruturas para uma parcela da população


ção patrimonial. Caberia, por um lado, que os necessita, mas também garantir a esta
avaliar em que medida há eficiência das mesma população o acesso à sua própria his-
instituições responsáveis ligadas ao Poder tória. História essa que não pode ser contada
Público, especialmente o IPHAN regional, somente por meio de seus ciclos econômicos
na preservação dos sítios através da fisca- recentes, mas na constituição do passado e
lização do andamento das obras e da rígida presente daquele lugar, como um todo.
execução dos parâmetros legais aos quais Neste sentido, acreditamos ser possível
os empreendimentos – públicos ou priva- transformar estas situações em algo positivo
dos – estão subordinados. Uma das inicia- na medida em que se reflita sobre o modo
tivas bem sucedidas tomadas pelo Instituto como a situação foi inicialmente tratada, e,
foi o Curso de Capacitação em Gestão do principalmente, em como elas serão encami-
Patrimônio, ocorrido no ano de 2009 com a nhadas a partir de agora. Do nosso ponto de
função de sensibilizar os gestores públicos vista, esta pode ser uma oportunidade de co-
às questões relativas ao patrimônio arque- locar o patrimônio arqueológico da cidade
ológico. Estas iniciativas, no entanto, deve- em discussão – tanto com a administração
riam possuir um caráter contínuo, assim pública quanto com os verdadeiros donos
como o estabelecimento de programas per- deste patrimônio: a sociedade civil e aqueles
manentes de educação patrimonial nas es- que a compõem.
colas municipais e estaduais.
A importância social de projetos com as
dimensões e a amplitude do Conjunto Habi-
tacional Nova Cidade e do Programa Água
para Manaus é indiscutível. É somente atra-
vés desse tipo de iniciativa que grande parte
da população mais carente da cidade de Ma-
naus poderá estar mais próxima de exercer
seus plenos direitos de cidadania. No entan-
to, quando nos referimos à cidadania tam-
bém estão inclusos os direitos de conhecer e
usufruir de um patrimônio cultural público.
Faz-se importante deixar claro que nossa
proposta, com o presente artigo, tem como fi-
nalidade colocar em pauta o modo como tem
sido tratado o patrimônio cultural da cidade de
Manaus, bem como do Estado do Amazonas e,
em última instância, nacional. Colocamos em
questão, também, a própria responsabilidade
ética dos arqueólogos e da sociedade como um
todo ao servirem de agentes para a fiscalização
e preservação dos sítios arqueológicos ao co-
brarem das autoridades o cumprimento das
leis estabelecidas. Entendemos que a impor-
tância social desses projetos não se encerra
apenas na garantia de serviços básicos de in-

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 23 - N.1:90-107 - 2010