A Semiótica do amor

Laura Botelho

A semiótica do amor

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Laura Botelho é Master em Neurolinguística, Health Coach em
MetaMedicina Autora dos livros: Alzheimer, a doença da alma – Russell Editores – 2008 A Ciência do Agora – Russell Editores - 2009-09-02 Durante 7 dias – Edição própria – E-Book

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Introdução

Não somos perturbados pelas coisas, eventos que nos rodeiam, mas e principalmente, pelas opiniões que temos sobre elas, o real significado que damos ao que nos cerca. E a Semiótica do Amor fala deste conjunto de sinais não verbais que estão constantemente presentes no convívio, na troca, no lidar entre amigos, pais, filhos, marido e esposa, amantes, com nossos animais de estimação... Enfim, com tudo aquilo que nos cerca e carece de atenção e cuidados especiais de nossa parte. Segundo cientistas: “A palavra é aquilo que o homem utiliza quando todo o resto falha!”
(Todo livro foi fundamentado por pesquisas nesta linha - Comunicação Verbal e Não verbal e Programação Neurolinguística - PNL)

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A Semiótica do Amor

A semiótica é um saber muito antigo, que estuda o modo como o homem significa o que o rodeia

As três amigas seguem de carro em direção ao aeroporto para receber Fernando, amigo de infância, de juventude, que chega de uma viagem de mais de 16 anos fora do país. Viaja sem destino desde os 25 anos de idade. Já correu toda a Europa, Ásia e África. Agora volta pra casa para passar um tempo com seus amigos. Aos 45 anos, não aparenta a idade que tem. Sua aparência é ótima. Homem alto de corpo esguio e forte, fino e andar seguro. Bem vestido, cabelos ligeiramente grisalhos, quase imperceptíveis que denunciam o avançar dos anos. Sorriso maravilhoso, boca grande com dentes brancos e alinhados. A histeria é contagiosa, muitos gritos e abraços longos. As amigas param por alguns minutos a contemplar o amigo charmoso. _Uaúhhh!!! Que coisa mais linda!!! - Sandra grita apertando o rosto de Fernando. _Está, está ótimo!!! – completa Clarice dando vários beijinhos no recém chegado. _Seja muito bem vindo meu amor... - Vera dá um abraço apertado e carinhoso. _Ladys, perdoe-me, mas vou pedir pra me levarem rápido pra algum lugar onde eu possa beber uma cerveja geladéssima e comer uma batata frita ou um bolinho de bacalhau.... uhmmm... que fome, que cansaço.... _Claro, vamos nessa gente, ainda temos que acomodar você direito na minha casa. Diz Sandra pegando o casaco e uma sacola das mãos de Fernando. Saem todos abraçados porta afora do aeroporto. Os 4 amigos estão presos num engarrafamento horroroso, nada anda. _Parece que pouca coisa mudou nesses anos. - Diz Fernando colocando o rosto para fora da janela do carro da Sandra. _Tudo na mesma... a única mudança é que foi pra pior. _Ah Clarice, também não é assim. Tem coisas que mudaram pra melhor, outras apenas estacionaram... _vejo que você continua a mesma Vera... Sempre vendo as coisas dos dois ângulos. _Fernando... Você quer dizer que eu só vejo um lado da coisa? A semiótica do amor Página 4

_Clarice, minha adorada, você sempre foi negativa. Tudo pra você não vai dar certo, não vai funcionar, não vai muito longe... _Nando... eu nunca pensei que eu fosse assim tão prática!!! - Cai numa gargalhada debochada Clarice. _Por isso que não arruma ninguém pra dividir a cama. Todos têm defeito, ninguém é suficiente bom pra ela. - Resume Sandra olhando Fernando pelo retrovisor do carro enquanto tenta sair de trás de carro que não anda. _Queridinha, você já me perguntou se eu quero dividir alguma coisa com alguém? _Ficar sozinha não é legal. Se eu não tivesse meu marido, as crianças e vocês eu não sei o que seria de mim.- Intervém Vera. _E por falar em marido, como vai seu casamento Vera? Vocês já estão 10 anos juntos, é isso? _Isso, 10 anos de muita luta, muita dedicação e muita alegria. Maurício mandou um abraço pra você. _Fernando, você precisa conhecer os gêmeos da Vera. É a coisa mais fofa! –exclama Sandra. _Depois de muito tratamento consegui finalmente ter meus filhos. Eles estão com 5 anos e são umas pestinhas maravilhosas. Maurício baba... Nunca pensei que o pai fosse ficar mais babão do que a mãe. - Complementa Vera. _Pessoal, desce aí que eu vou estacionar lá na frente, senão vão arranhar meu carro aqui. Diz Sandra visivelmente preocupada e atenta a todos os lados da rua. _Gente, esse é aquele boteco que a gente freqüentava? Tá de cara nova, mas aparentemente continua o mesmo. Mesma mobília, cadeiras, disposição das mesas...Gente, não acredito. Aquele é o Seu Mário? O dono daqui? _Ele mesmo! Vamos entrar. Temos nossa mesa cativa. Clarice encaminha Fernando segurando seu braço e levando o a mesa de sempre. _Vamos pedindo logo. Eu já sei o que Sandra vai querer. _Eu quero uma cerveja estourando de gelada e uns bolinhos de tudo! Diz Fernando com a boca cheia d‟água. _Eu quero só um suco de laranja. _ Ué, não vai beber com a gente Vera? Espanta-se Clarice. _Não, desculpe. Tenho que pegar os gêmeos no colégio. Já está na hora da saída. É aqui perto, é o tempo só de beber o suco e sair. A gente se encontra amanhã com mais calma. Tudo bem? Não vai ficar chateado, Fernando? Quero saber de tudo! Cada detalhe, eim !? _Que isso, Verinha. O importante é que foi me receber e eu adorei! - Fernando abraça a amiga e dá um beijo longo no pescoço da Vera que retribui o carinho. A semiótica do amor Laura Botelho Página 5

_Já pediram? - Chega Sandra sentando rapidamente á mesa do bar. _Tá vindo aí cerveja e bolinhos. _Me conta. O que você fez esse tempo todo na Europa? Sandra segura o braço de Fernando procurando atenção para si. _Muita coisa. Não saberia te dizer agora de cabeça o que eu aprendi, o tanto que eu li, o tanto que eu vi. Muita coisa. Agora que eu vou ficar mais tempo, vamos colocar o assunto em dia e poderei aos poucos liberar o que tá aqui dentro. - Fernando bate a cabeça com a mão fechada como quem bate pra entrar. _Espero que seu doutorado não seja em vão. Essas duas precisam de ajuda, urgente! - Vera levanta da mesa e tira a carteira fazendo menção a tirar dinheiro pra pagar o suco que pediu. _Guarda isso. Hoje eu tô pagando. - Diz Fernando abraçando carinhosamente Vera que se despede de todos. Ela sai e é seguida pelo olhar atento dos amigos. _Vera mudou bastante. Está com olhar criterioso, seguro. - Comenta Fernando dando um gole profundo na sua bebida. _Só você mesmo pra vir de longe e enxergar alguma coisa diferente na personalidade de alguém que você não vê há mais de 16 anos. - Ri Sandra do comentário do amigo. _Você queria saber o que andei fazendo lá fora? Então. Estudei comportamento humano. A maneira como o homem fala, anda, olha, recebe e afasta alguém de si... _Fala sério Fernando. Você gastou esse tempo todo pra isso. Era só me perguntar que eu te diria sobre tudo de todo mundo. Gargalha Clarice, jogando o corpo pra trás da cadeira. _É sério Clarice... Nós nos comunicamos, interagimos com o corpo. Muito pouco pela fala. Diria que a fala pouco diz sobre alguma coisa ou alguém. _Quer dizer que você pode ficar “lendo” os outros por aí. Você olha a pessoa e sabe o que ela quer dizer sem que ela precise abrir a boca, só de ver como se comporta?. Sandra encara com seriedade o amigo. _Isso. _ Mas como? Como isso é possível? Nós somos tão complexos, tão diferentes, culturas diferentes... - interroga Sandra novamente. _ Você tem razão. Mas toda cultura tem seu próprio repertorio gestual, seus trajes típicos, seus costumes revelam muito o aspectos da psicologia do seu povo. Albert Mehrabian, professor da Universidade em Los Angeles, identificou através de pesquisas que 93% dos sentimentos são expressos através da comunicação não verbal, a não falada. Somente 7% do que sentimos são representados pelo conteúdo da fala. Olha que loucura! Somos um complexo de símbolos que o corpo traduz A semiótica do amor Laura Botelho Página 6

simultaneamente o que se passa na nossa mente. Seus braços, nariz ou suas mãozinhas dizem palavras, ou até frases inteiras. A comunicação Sandra, é uma negociação entre duas pessoas. Uma troca de movimentos imperceptíveis a primeira vista, que entendemos, mas não temos consciência das posturas que adotamos nem das emoções que transmitimos. Não se pode determinar com precisão aquilo que eu digo pelo simples fato de sair da minha boca, como por exemplo, a frase: “Eu te amo”, Sandra! - Fernando puxa a amiga pra si enquanto exemplifica seu discurso. É necessário mais que isso. Uma frase. Você tem que reconhecer no meu corpo se o que eu digo não conflita com a mensagem. O brilho nos meus olhos, o ritmo da minha respiração, o cheiro que exalo, o movimento em busca do seu corpo, a intenção das minhas mãos, o arquear das minhas sobrancelhas. Você pode entender agora? _Chiii pode parar! ... já gamei. – Sandra se desembaraça das mãos de Fernando num ato debochado. _É sério. È fantástico estudar essa comunicação do ser humano. Se todos pudessem aprender a se comunicar de forma mais coerente com suas atitudes a vida teria outro significado. _Eu sempre leio as pessoas! Por isso, não acredito nelas. A raça humana tá um lixo, quer saber! - Critica Clarice. _Calma aí, Clarice. Você não é a rainha da autenticidade. Tô cansada de ver você mesma fazer, o que critica, nos outros. Replica Sandra. _O que, por exemplo? – Questiona Clarice com olhar de dúvida. _Clarice, você vive falando das amigas da Fabiana, que a mãe delas é isso, faz isso, ou não faz aquilo... e no fundo você faz igualzinho a todas elas, seu discurso não acompanha suas atitudes.... _Dá um exemplo Sandra. Tô boiando. - Comenta Fernando. _A Fabiana, filha da Clarice tá com 14 anos, freqüenta festinha até altas horas da madrugada. Fica a Clarice desesperada querendo saber a que horas a menina vai chegar, mas não impõe um limite de horário pra não parecer careta, dominadora. Diz que odiava os limites que a mãe impunha a ela e não quer o mesmo para filha. Fabiana não arruma seu quarto, não lava um único copo, não tem responsabilidades com seus pertences, vive perdendo tudo, celular, tênis, roupas que deixa na casa de outras amiguinhas... Daí a dona Clarice fica se lamentando com a gente que não agüenta mais, que não sabe o que fazer, que isso, que aquilo... _Compreendo. Adolescência é uma barra ou já esqueceu Sandra? Foi no outro dia que quase saímos dela. - Ri Fernando. _ Mas nessa época da vida, o melhor a fazer é conversar, é negociar, é fundamentar sua atitude diante de qualquer episódio. _Fernando, Fernando meu amigo... Me ajude, pelo amor de Deus! A coisa está fugindo do meu controle. Eu achei que ser mãe solteira seria fácil, afinal, o pai nessa hora só serve pra entrar com a mesada. - Desabafa Clarice. _Ainda bem que você entendeu que não é fácil. O Que eu posso fazer Clarice pra te ajudar? Será que o que eu vou dizer você vai querer mesmo ouvir? Receber conselho não é o que você quer. Tô entendo que você quer ajuda profissional. E eu estou muito A semiótica do amor Laura Botelho Página 7

próximo de vocês... Não vai dar certo. Tem que procurar um Psicólogo que seja de fora do circulo de amizade. Que possa avaliar a família em ângulos diferentes sem informações pré concebidas, sem pré - conceitos. Você me entende Clarice? _É, eu já achava que você iria me dizer isso. _Como amigo eu posso te ouvir, posso dar a minha opinião se você quiser ou pedi-la, mas não da forma que você precisa. Se está perdida, é melhor procurar se “achar” o mais rápido possível. A Fabiana vai precisar de você e quanto mais tarde a coisa tende a piorar ela só tem 14 anos. Já pensou quando ela tiver com 17? _Já pensei, e estou me borrando de medo. Acho que estou entrando numa sala com 2 portas e não sei que porta devo abrir. A da frente ou a dos fundos, pra sair correndo! _Eu entendo o que você está passando, Clarice. Tudo vai se ajeitar querida, pode ter certeza. – Diz Fernando abraçando a amiga.
Mais tarde Fernando entra no apartamento de Sandra e é recebido com pulos e latidos pelos dois cães que a amiga cria como filhos. Sandra mora num apartamento pequeno, claro e confortável de dois quartos, sozinha, com dois poodles saltitantes e barulhentos. Seus cachorros têm nome de gente; Diogo e Tiago. Ambos já com bastante idade, um branquinho e outro pretinho e muito bem tratados. Fernando os poe no colo e os cheira como se fosse um igual.

_Entra e joga suas coisas naquele quarto. Já arrumei tudo mais ou menos. Mais tarde você me ajuda a dar uma geral. Você relutou tanto em ficar aqui que eu não sabia se arrumava o quarto pra 30 dias ou pra 30 anos! Comenta Sandra acariciando cada filho e beijando os no colo. _ Tá ótimo Sandrinha. Eu te disse que minha estada no seu delicioso lar seria de dias, o suficiente pra eu encontrar um apartamento pra eu ficar. Minhas coisas vão chegar e tenho que achar esse AP logo. Você vai me ajudar a encontrá-lo, né? _Lógico! Sei de um lugar que você vai amar... é a sua cara!
Sandra leva a cachorrada pra cozinha para dar comida e trocar a água de beber dos bichinhos .

_Diogo, Tiago! Vem, vem meus filhotes! Vem com a mamãe! Vem que mamãe quer ver se vocês comeram o papa todinho.
Fernando senta no sofá e com olhar irônico acompanha a cachorrada correr atrás da “mãe” deles em direção a cozinha.

_Sandra! Por que Diogo e Tiago? Por que não “Pink” e “Floyd”, “Tico e Teco”? Indaga Fernando com sorriso largo. _Ah.. todo mundo me pergunta isso... Tem uma vizinha, uma senhora de uns 80 anos aqui do quarto andar, que quase me bateu por isso. “Você sabia que meu neto se chama Tiago e meu sobrinho Diogo? Que absurdo dar nome de gente pra cachorro!!” Sandra personifica a velhinha encrenqueira quando narra a frase para o amigo e ri dela mesma. _Imagino a fúria da velhinha. Que idéia a sua!?! A semiótica do amor Laura Botelho Página 8

_Ué, se eu tivesse filhos eu colocaria esses nomes neles. Eu adoro esses nomes. Gosto do som que eles fazem. Por que meus filhotinhos não podem ter esses nomes lindos também? Ela abraça os cães beijando com certo carinho cada um deles. Os coloca no chão. Eles pulam, pulam alto com a certeza de que estão falando deles. _Tá certa. Eles são seus “filhos”.... Bom... Vou tomar um banho e me entregar nos braços de Hipnos e de Morfeu. Ai que delícia! - Exclama Fernando dando um abraço nele mesmo. _Mas antes, você vai me contar rapidinho porque abandonou a Itália assim tão de repente. Eu não quis falar desse assunto na frente das meninas, senão ia dar pano pra manga e o papo ia varar madrugada... _Ahh.. Sandrinha o amor é uma coisa fantástica quando começa e uma tragédia quando acaba, ou pelo menos quando termina de forma trágica como a minha. Lorenzo era lindo... Que sujeito maravilhoso, inteligente... Um italiano de 55 anos, que foi casado por 12 anos com uma mulher, foi pai de dois filhos homens, se separou da esposa sem problemas, e quatros anos depois me conheceu. Era professor de outra Universidade e por conseqüência do meu Doutorado vim a conhecê-lo. Ele contava que não sabia por que o casamento não deu certo, pois adorava a mulher, eram amigos, mas faltava alguma coisa, mas só entendeu depois que assumiu sua sexualidade. Ficamos juntos e felizes por 8 anos até que seu coração nos pregou uma peça... Foi fulminante, Sandra. Não deu tempo nem de chegar ao telefone. Ele era um homem forte, mas parecia um garotinho na hora da morte nos meus braços. Não vou esquecer seu olhar de adeus... Foi tão sereno, tanto que não me apavorei na hora, entendi que ele já havia feito tudo que queria na vida. – Fernando descansa a cabeça entre as mãos apoiada aos joelhos e puxa uma respiração profunda como se faltasse ar no recinto. _Ô Nando... eu não sei o que te dizer, o que fazer pra amenizar sua dor. Quando você disse que estava voltando, fiquei feliz, mas não tinha idéia do que havia se passado com você. Pelas poucas cartas que trocamos nesses últimos anos e nossos recentes e-mails você nunca explicitou sua vida amorosa. Nós sabíamos que você vivia com o Lorenzo, mas não tínhamos a dimensão desse amor entre vocês... Nos pareceu um relacionamento aberto de amizade e troca de intimidades entre vocês sem muita complicação e cumplicidade, não sabíamos que ele foi tão importante pra você assim. Eu não entendo de relacionamentos entre homossexuais... Como vocês encaram a vida a dois, se existe o mesmo compromisso que há na vida entre um homem e uma mulher...desculpe minha ignorância.... _Tudo bem minha querida. Não acho que as pessoas têm que saber sobre os nossos “compromissos”, afinal isso é uma negociação entre qualquer casal, seja ele hetero ou não. Eu e Lorenzo sempre preservamos nossa intimidade, nosso lar, nossos mais íntimos desejos. Não se sinta desorientada por isso. E já se passaram 7 meses. Já estou-me reestruturando novamente. Só voltei para cá para ampliar meus horizontes. Estava me sentindo muito sozinho mesmo cercado de amigos que fizemos nesses anos. Precisava dar uma sacudida, levantar a poeira... Talvez eu não esteja conseguindo explicar para você o que estou sentindo agora... Eu precisava ver minhas amigas queridas, só estou precisando de colo, só isso. A semiótica do amor Laura Botelho Página 9

Fernando abraça forte a amiga por uns segundos e chora. Na manhã seguinte, Sandra já de pé, arruma a mesa do café e com olhar meigo cumprimenta o amigo que acaba de acordar.

_Bom dia, Amore mio... O dia está lindo com sol, pássaros cantando e café pronto. _Bom dia minha linda. Acordei com o cheiro do café. Que maravilha!
Diogo e Tiago pulam e dançam em duas patas para chamar a atenção do novo morador.

_Diogo, Tiago, agora chega, deixa ele tomar o café meus filhinhos...
Imediatamente os cães deitam ao lado da poltrona como de costume.

_O que você vai fazer hoje, nesse sábado de manhã? _Eu tenho que dar uma aula agora às 9h na Faculdade, devo sair lá pelo meio dia. A gente almoça junto e depois vamos ver o seu apartamento? _Sim senhora, dona engenheira química. Vá dar a sua aula e depois do almoço a gente vê o Ap. – Fernando senta-se a mesa e vai se servindo do café enquanto fala. _OK. O numero do meu celular e o das meninas tá do lado do telefone. Qualquer coisa me liga. Hoje é o aniversário da Clarice. Ela quer sair à noite. Quer ir a uma casa de shows aqui perto. Música calma, tranqüila, dá pra conversar sem gritar. Você é quem sabe. Se não tiver legal pra sair fala pra ela. Ela vai entender. _ Não, tá tudo bem. Eu preciso espairecer um pouco. Minha cabeça parece que tem vida própria. Ela quer fazer uma coisa e meu corpo outra.
Sandra beija a testa do amigo e se despede novamente dos cachorros. Beija um por um várias vezes até fechar a porta do apartamento. À noite Clarice chega à casa de Sandra e pergunta logo por Fernando.

_Cadê o moço? Ele vai querer ir com a gente? _Vai. Tá terminando de se vestir. Mas temos que ir devagar com ele, OK? - Alerta Sandra. _Ele te contou por que voltou pra ficar? _Mais ou menos. Não sei se voltou definitivamente... temos que dar um tempo. Pode ser que amanhã tudo mude. Ele precisa estar com a gente nesse momento, só isso. _Sandra, vocês encontraram o apartamento? _Acho que ele gostou de um que vimos. Vai depender da negociação do valor do aluguel. Ele achou o preço um absurdo. Coitado, tá acostumado com coisa boa perdeu totalmente a noção do que temos a oferecer nesse país. _E ele já teve notícias do irmão? Ele mora ainda no Sul? _Ainda não conseguiu falar com o irmão não. Parece que ele se mudou de novo. O cara é da Marinha, não para quieto. Sua única tia viva faleceu e ele nem ficou sabendo. Tá sozinho no mundo... A semiótica do amor Laura Botelho Página 10

Fernando sai do quarto já todo arrumado, lindo e cheiroso.

_Meu Zeus! Que Apolo! - Exclama Clarice brincando com o amigo. _Me dê aqui um abraço bem gostoso... Parabéns pelo dia de hoje. Muitas felicidades minha querida. Sandrinha, onde você colocou o presentinho que eu comprei pra Clarice? Tá na sua bolsa? _Tá sim. Pega aí. Tõ arrumando a caminha do Tiago pra a gente sair. Ele fez uma bagunça danada no meu quarto, saiu arrastando os paninhos pra cozinha...né? Meu filhotinho da mamãe... Baguncheilo, seu baguncheilo... – Atravessa a sala Sandra cheia de panos nas mãos, falando com eles como se fossem bebes e é seguida pelos dois cães que acompanham por onde ela vai. _Eu comprei esse livro, por que achei que vai poder acrescentar mais alguma coisa daquilo que já conversamos a respeito do relacionamento entre você e Fabiana. – Fernando entrega um pacote colorido e bem embrulhado para a Clarice. _Que gentileza Nandinho. Vou ler com muito carinho e vou alugar você depois para discutir a respeito, eim?! _Com certeza. Vamos nos entender perfeitamente. _Vamos indo, gente. Vera e o Maurício vão nos encontrar no local. Meu presente você já ganhou há dois dias trás, né, Clarice? - Comenta Sandra indo em direção a porta do elevador do seu apartamento. _Posso saber o que você deu a ela, Sandra? - Pergunta Fernando curioso. _Um coquetel para emagrecimento. Uma linha de chás, sheiks, cremes, aparelhos, enfim, uma parafernália de produtos para emagrecer. Tem que fazer algum efeito, não é possível... - Diz Sandra com ares de dúvida. _Jogou dinheiro no lixo... Já te falei que não adianta chazinho, creminho. Já fiz de tudo. Não consigo perder mais peso Sandra! _Você está pesando quanto agora Clarice? Pergunta Fernando. _Já nem sei mais... tô de mal com a balança. Quando a vejo, viro as costas. _Da última vez que eu a fiz se pesar na minha frente, estava com 93 Quilos. Agora você vê, uma pessoa de 1. 65m pesando 93quilos... É um absurdo! Tem pressão alta, tá com um pé na Diabetes, dor aqui, dor ali... como se não bastasse cheia de aporrinhação com a menina... - Relata Sandra muito preocupada. _Clarice minha flor, a Sandra tá preocupada não é a toa. Você precisa se cuidar. A obesidade leva a outras conseqüências no organismo que não tratadas a tempo vão levá-la a um triste fim. Nem digo sobre a “morte”, disso ninguém escapa, nem eu, nem ninguém que tenha o peso adequado. Falo das prováveis conseqüências terríveis que poderão advir dessa obesidade descontrolada. Um derrame. Você já pensou nisso? Uma trombose? Acidentes vasculares cerebrais são comuns na diabetes. Insuficiência A semiótica do amor Laura Botelho Página 11

renal crônica, cegueira, agravamento nas articulações... Você é jovem, linda, tem uma filha maravilhosa, uma carreira de Arquiteta em pleno desenvolvimento. Pense nisso. Mude seus hábitos alimentares, faça mais exercícios, se goste mais... _ Fernando, eu não gosto de ficar “gorda”, não quero engordar. Não tenho culpa que tudo que eu como fica nas pernas, nas coxas, na cintura... Eu como a mesma coisa que você, que a Sandra, que a minha filha... Mas comigo parece que acumula o que como, enquanto que com as outras pessoas a coisa flui, sai do jeito que entrou! _Não é bem assim, né Clarice!? Sua vida é sedentária, Você não anda a pé freqüentemente, tá sempre de carro, até pra ir à padaria a um quarteirão da sua casa precisa tirar o carro da garagem. Você fica lá naquele escritório horas desenhando, desenhando, atendendo telefone. Só pára para ir ao banheiro ou pegar alguma coisa pra comer, e quando chega em casa faz um pratão de macarrão, acompanhado de litros de refrigerante “diet” altas horas da noite vendo TV, dorme tarde, acorda tarde... – Rebate Sandra ao comentário da amiga.
Já na casa de Shows os amigos dão uma pausa na conversa e se encontram com o casal Vera e o marido e mais dois amigos do trabalho de Clarice que são apresentados a Fernando. A mesa está completa com 7 pessoas. Eles cantam, conversam ao pé do ouvido, dançam e se divertem até as 3 da madrugada. No dia seguinte Vera telefona para a Sandra logo cedo avisando que encontrou um apartamento maravilhoso para o Fernando com um preço bem mais administrável. Um primo dela está se mudando por motivos de transferência de trabalho e quer alugar para pessoas conhecidas, pois o apartamento está mobiliado. O aluguel seria uma forma de manter o apartamento em perfeita ordem até o seu regresso sem data prevista. Sandra imediatamente acorda Fernando com a notícia.

_Nandinhuuu... Lindinho, Amore mio! Acorda! Acho que a Vera encontrou o apartamento que você queria. Maravilhoso e com um aluguel lá embaixo. Levanta! Sei que é Domingo, mas a Vera disse que tá cheio de gente perturbando o primo para ficar com o apartamento, só que ele dará preferência para o amigo da prima. E esse “amigo” da Vera tem que estar lá no máximo daqui há duas horas, senão ele vai abrir para outro conhecido dele. Levanta! _Tô um bagaço, Sandrinha... não estou mais acostumado a dormir tão tarde. Eu e Lorenzo íamos pra cama antes das 22 horas... Que horas são? _Quase uma hora da tarde. O cara vai esperar só até as três... Vamos lá. Toma seu café, vou dar uma volta com Diogo e Tiago na calçada e já volto. É o tempo suficiente pra você tomar café e trocar a roupa, Amore mio!
No apartamento do primo da Vera, Fred, estão também, Vera, Sandra, Clarice e Fernando. Todos circulam de um lado pro outro no imóvel, maravilhados com o espaço e a disposição dos poucos móveis que ficaram. Um bar decorado com muito bom gosto e vários armários embutidos. Num canto da sala Fred e Fernando conversam em separado sobre o aluguel e o funcionamento do imóvel. Enquanto isso num dos quartos do apartamento as amigas conversam baixinho.

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_Que fofo esse seu primo Vera. Ele é solteiro? Pergunta Clarice eufórica. _É, mas nem adianta se empolgar muito... é do mesmo time do Fernando. É Gay. Foi transferido do trabalho pra Roma. Olha que coincidência! Um chega e outro vai. _Ha! Logo vi. Bom gosto assim só pode ser coisa de Gay. Por quê? Por que meu Deus?!! Homens lindos, ricos, de bem com a vida, chiquérrimos, não gostam de mulheres! Acho que vou trocar de sexo. De repente eu me transformando em homem eles se interessem por mim! – ergue as mãos para o céu Sandra quando exclama sua indignação. _psiuiiii!!!! Fala baixo, Sandra! Eles vão ouvir! – acalma Clarice. _Tudo bem, até isso eles são fantásticos, tão se lixando pro que a gente pensa. - Diz Vera abrindo a janela do quarto com vista para o mar.
Fernando entra no quarto onde estão as amigas balançando as chaves do imóvel na altura da cabeça.

_Fred já foi, teve um compromisso mandou beijos pra todas e Já fechamos o negócio. Adorei!!! Adorei o apartamento, adorei o local, adorei seu primo, Vera! Ficamos de nos encontrar até ele viajar, que é daqui a umas quatro semanas. Já posso me mudar amanhã se eu quiser. _Assim tão rápido? Pergunta Sandra. _A mudança? Claro, muita coisa vai ficar. A mesa, o fog... – Antes de terminar a palavra Fernando é interrompido pela Sandra. _Não, o encontro! Como é que você sabe, ou melhor, como é que ele sabia que você também é...
Fernando cai na gargalhada. O que leva a todas, a rirem sem parar também.

_Ahhh... Minha amiga, um gay sempre reconhece outro gay de longe! - E Fernando volta a rir sem parar. _Mas como? Sem abrir a boca, sem fazer trejeitos? Nem bocas e munhecas... - Ainda rindo, pergunta Clarice. _Olhar Clarice. Pelo olhar. Os olhos “falam” menina! Um gay sabe se o outro é também quando olha, mantém o olhar fixamente até que este desvie. Caso ele não o faça, não desvie o olhar e retribua fixamente, ele concorda com o galanteio. Claro, isso tudo acompanhado de tantos outros movimentos que não são percebidos por outras pessoas. Um balé, vamos chamar assim, de sinais e movimentos e gestos são enviados ao outro como resposta a seu olhar. Uma verdadeira dança do acasalamento! – Fernando e as garotas não conseguem parar de rir...
Na casa de Sandra, Clarice combina com Fernando as pequenas mudanças que farão no apartamento para sua adaptação. A conversa é interrompida pelo celular de Clarice que toca.

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_Oi, fala filha. Aonde Fabiana? Não, não, ouviu, não! Eu não conheço esse pessoal, Fabiana. Fabiana, espera eu chegar em casa. Eu disse não! Desligou. Filha da put... _Calma. O que aconteceu Clarice? Pergunta Fernando. _Fabiana quer viajar nesse feriado com um pessoal que eu não gosto. Tem uns caras no meio que eu sei que fazem uso de droga pesada. Ela não me obedece! Só matando... _Clarice, agora não dá mais pra puxar a corda... Você deu, deu, cedeu o máximo que pôde. Vai levar muito tempo para chegar a outra ponta, filha... – comenta Sandra abraçada a um de seus cães. _Fabiana tá aonde agora? Na sua casa? - Indaga Fernando _Tá lá em casa fazendo a mochila. Eu não sei o que fazer Fernando, não sei. – Chora acanhada Clarice. _ Ela tem dinheiro Clarice? Você dá dinheiro pra ela? Ela faz que sim com a cabeça. _Eu fiz um cartão de débito conjunto com ela para saque 24h, desses que se faz para adolescente. Ponho uma quantia para ela passar o mês, uma mesada. Mas tenho controle de quanto ela gasta. Achei que esse ano ela teria maturidade para gerir suas despesas, comprar o que precisasse sem precisar ficar pedindo dinheiro toda hora. Mas não acho que esteja dando certo. Ela já me fez comprar o terceiro celular. Celular de cartão, nem pensar! Ela não aceita. Pago uma conta alta de telefonemas de 20, 30min, às vezes até 1 hora de chamadas... Não sei se ela usa drogas, acho que não, senão eu ia saber. Essas coisas a gente conhece logo... _Que droga você se refere? - Pergunta Fernando. _Essas mais comuns... Maconha, cocaína, estasi... _Álcool, cigarro com filtro também são drogas. Você sabe se ela bebe, fuma? _Fumar acho que sim, já vi um maço de cigarros no armário dela. Ela me disse que era de uma amiga que esqueceu lá em casa... beber... Ela nunca chegou bêbada em casa. _Clarice, não é preciso ficar bêbada nem visualmente drogado para se negar um vício. A bebida ingerida com freqüência, diariamente já caracteriza um vício, uma dependência. Doses diárias acalmam o usuário, não é necessário ficar totalmente drogado. Tenho amigos que fazem uso de drogas há anos e nunca, nunca os vi alterados a ponto de saírem do limite de uma “conduta apropriada.” Quem os conhece sabe que não estão normais, mas para estranhos eles estão perfeitamente sóbrios e em perfeito juízo. _Por favor, Fernando, não embola minha cabeça... Você acha que ela pode fazer uso de drogas sem que eu saiba ou note?

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_Perfeitamente Clarice. Muitos pais se descuidam nessa hora. Não percebem quando foi que o filho mudou. Atribuem a mudança como “o nervoso”, a agressividade de atitude, a fatos corriqueiros por conseqüência da aproximação do Vestibular, dos hormônios, da briga com o namorado, da separação dos pais.... dão desculpas para eles mesmos, tentando acalmar suas mentes e seu coração. E é o que você está fazendo agora Clarice. Você acha que não seria possível porque você não flagrou. _ É, você tem razão. Eu tenho medo de saber. De confirmar... seria a morte para mim. A prova da minha incompetência como mãe. _Clarice, não se maltrate dessa forma, isso não vai levá-la a lugar algum, só piorar sua condição, sua baixa estima. Vá pra casa. Converse com ela. Abra seu coração, não seja durona, não ponha paredes entre vocês. Se tiver que chorar, chore, mas sem chantagens, sem pieguice. Diga a ela sobre seus medos, sobre seus objetivos, sobre suas expectativas quanto ao futuro de vocês. Pergunte a ela os dela. Ponha no papel seus objetivos em comum e diga que vocês tem que trabalhar para que juntas possam conseguir atingi-los, pois se continuarem discordantes nenhuma das duas vai a lugar algum. Precisam atravessar o rio juntas, numa mesma canoa, caso uma de vocês abale o equilíbrio desta canoa será preciso parar e retomá-lo para que possam chegar do outro lado. Lembre-se o rio é caudaloso, a correnteza é muito forte, caso uma de vocês caia para fora do barco, será muito, muito difícil voltar. Juntas poderão assumir o controle, já separadas será muito mais difícil...
Fernando está com Sandra numa loja de utilidades domésticas. Precisa comprar algumas coisas para o novo lar. Sua mudança só chegará daqui há dois dias da Itália, mas mesmo assim precisa comprar algumas coisas que deixou pra trás na sua saída repentina de Milão. Não quis mexer na casa em que viveu feliz por 8 anos com seu companheiro. A casa grande com 4 quartos e um lindo jardim foi comprada por eles logo que foram morar juntos. Tudo continua no mesmo lugar e vai permanecer até que um dia ele volte. Móveis, cortinas, tapetes, quadros. Fernando só empacotou seus objetos pessoais e muita roupa de cama, banho e acessórios de cozinha que era uma das paixões dos dois. Cozinhar para receber os amigos. O novo apartamento alugado de Fred está praticamente mobiliado. Armários embutidos, mesas cadeiras, sofás, geladeira, fogão, máquina de lavar roupa. Fred também não sabe quanto tempo ficará fora do país, por isso não quer se desfazer de tudo. Fred é Bacharel em Antropologia, não exerce nem de longe a atividade que adora desde criança. A empresa de tecnologia e informática a qual trabalha no momento quer que ele vá para Roma para abrir uma nova filial. Fred fala quatro línguas fluentemente. O italiano é uma delas. A abertura e fixação dessa nova empresa levará no mínimo 3 anos. Fred está animado. Gosta de desafios e praticamente já resolveu alguns possíveis problemas de ordem pessoal. Um deles seria o destino do seu lindo apartamento, mas o resultado foi tão bom, em relação ao aluguel, que não esperava que fosse resolver assim tão rápido. Ele ficará algumas semanas em um hotel até o dia da sua partida.

_Olha Sandra, que lindo aquele abajur! Acho que não vou resistir, vou comprar. _ Lindo mesmo. Você vai fazer a festa logo depois que suas coisas chegarem? _ Não é uma festa Sandrinha. Uma reunião entre amigos. A função precípua desta reunião será o agradecimento a você pela minha estada na sua maravilhosa residência na qual tive o prazer da companhia de seus queridos Tiago e Diogo. E A semiótica do amor Laura Botelho Página 15

aproveitando o ensejo da alegoria, Fred trará alguns amigos dele para uma despedida sem muito frufru... _Bom, pra mim, isso já é uma festa. _Serão no máximo 20 pessoas, nem chega a isso. Vou fazer um cardápio simples para a ceia. Um jantarzinho a Americana. Já aluguei toda a louça. Está tudo pronto. Estou apenas querendo dar uma arrumada na decoração, que tá bem pobrinha... _É, aquele abajur tá lindo mesmo Fernando. Vocês vão sair hoje à noite? _Vamos. Estou muito cansado, mas não vou adiar esse encontro, não. Esse movimento todo de mudança tá me deixando meio tonto. E outra coisa. Não vou voltar pra dormir na sua casa, vou ficar direto no meu apartamento hoje à noite. Amanhã eu pego minhas coisas. Ok? _Uhhhmmm, já vi tudo... a noite vai ser longa... _Por mim não. Como disse, estou um bagaço. Ri Fernando. _Amore mio. Se você precisar de mim, me chama tá? _Você é um amor Sandrinha, sempre prestativa.- Fernando abraça e beija a testa da amiga.
As coisas de Fernando chegaram, ele e as amigas estão no apartamento arrumando e colocando tudo nos armários. Colocando tudo no lugar.

_Nandinho, soube que já tem um hospede na casa. – Vera catuca o braço de Fernando quando fala. _ Hospede não, o proprietário do imóvel. _O que? Conta isso direito! – perguntam em coro as amigas. _Peraí, não é nada do que vocês estão pensando... Eu convidei o Fred para ficar até sua partida. Não faz o menor cabimento ele ficar num hotel quando o apartamento tem três quartos enormes. Ele não vai me cobrar o primeiro mês de aluguel. Vamos dividir as despesas de alimentação e coisas básicas. Algum problema nisso mocinhas? _Não... Imagina. – responde com ironia Clarice. _ Deus do céu. Dois homens lindos nesse apartamento enorme... Nus de um lado pro outro por esse corredor. Que desperdício! _Falando em desperdício... Você já foi a nutricionista ver sua alimentação? Procurou a Academia de ginástica do bairro, para aquelas atividades básicas que a gente conversou? Você é que está desperdiçando beleza embaixo dessa camada de gordura. Clarice, você é uma mulher bonita. Resgate essa tigresa exterior, essa mulher selvagem que está trancada aí dentro, para que você mesma dê valor a sua beleza interior. Leu o livro todo que eu te dei? _ Sim mamãe! Já providenciei tudo que me mandou fazer, mamãe.

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_ O jantar será amanhã mesmo, Nandinho? _ Bem, tá tudo programado para amanhã Vera. _Você quer que eu venha cedo pra te ajudar, Amore mio? _Não precisa Sandrinha. O Fred vai me dar uma força com os arranjos e as bebidas. Obrigado. Quero vocês aqui amanhã lindíssimas, eim? Nada de olheiras horrorosas, cabelos desgrenhados, unhas descascando! Não me apareçam aqui de pretinho básico, por favor! Comprem um vestido colorido, decotado, apertado na cintura e um salto bem alto!
Todas riem e fazem caretas para Fernando. À noite Fred abre a porta do apartamento para receber mais convidados que acabam de chegar. São apresentados a todos no recinto. O grupo reunido está bem estruturado. Um casal de gays, um casal hetero, cinco moças solteiras e cinco rapazes bonitos desimpedido, e aparentemente, tudo faz crer, que sejam heteros. Uma música toca de fundo - I Put a Spell on You, cantada por Nina Simone. Um jazz gostoso e sensual como o ambiente. No canto da sala se divertem e confabulam Sandra, Clarice e Vera. Observam cada convidado e fazem comentários pertinentes a suas expectativas.

_Gente, olha ali no banco do bar o cara de camisa azul. Que lindo! Com certeza é gay. Alguém sabe com quem ele veio? – Pergunta Sandra. _Olha, Fred me prometeu que não ia convidar seus “amiguinhos”. Não ia fazer essa sacanagem com vocês. Numa reunião destas seria embaraçoso ter 5 moças e 5 “moças”.... Não dá! Tem que diversificar, rolar uma paquera, um ambiente descontraído e harmonioso, senão vai ficar um saco. Maurício já me fez rir em casa imaginando a cena na sala. _ “Querida! Que blusinha linda! Me dê o endereço da loja depois?” “_Chiquérrimo seu modelito, amiga!”. Imagina. plumas voando pra todo lado... –Vera imita o marido, fazendo caras e bocas e mãos. _Meninas, os homossexuais não se movimentam obrigatoriamente de maneira feminina. – Fernando interrompe a conversa das amigas chegando com um prato de petiscos. _O intercambio de identidade sexual é fundamental para a confirmação entre seres humanos. Vocês sabiam que não nascemos programados a agir como “homens” ou “mulheres‟? Aprendemos a nos portar como homens ou mulheres na infância. Nossos pais, nossos educadores nos enviam sinais a todo o momento de como deveríamos nos comportar desde que nascemos. Desde o momento em que os pais pegam um bebe no colo, já o fazem de maneira diferente. As meninas com uma muita delicadeza, já os meninos sem muito cuidado. Quando o menino reage da forma que os pais querem, com atitudes “másculas”, estes enviam mensagens para ele afirmando que estão orgulhosos e concluem com comentários do tipo: “que lindo, gente, já é um hominho!”. Já as meninas, coitadinhas...caso não se comportem “apropriadamente”, como rolar no chão com um coleguinha, sentar com as pernas abertas ou tirar a blusa quando faz calor, logo receberá uma bronca daquelas da mãe zelosa. “Você parece um moleque! Levanta do chão, menina! Senta direito! Fecha essas pernas, poe a blusa garota!”

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_Sabe que eu nunca pensei nisso Nando. Vou me policiar com os meninos. Vou tentar observar esses sinais quando estiver com eles. – Diz Vera admirada. Não quero criar aquele tipo de homem machão e controlador. Chega de “Maurícios” no mundo! _Acho que fiz isso a vida toda com a Fabiana, coitada. Sempre tentei fazer com que ela fosse essencialmente feminina. Dei muitas bonecas quando criança, apesar dela odiá-las, jogava todas na lixeira do prédio. Queria jogar futebol com as crianças no pátio e eu não deixava. Achava que ela ia se machucar com um chute forte dos meninos. Tinha medo dela andar que nem um menino. _De certa forma você tem razão, Clarice. Movimentos corporais se aprendem com a convivência. É muito comum, filhos adotivos se parecerem com seus pais. Sua convivência faz com que eles absorvam certos gestos, movimentos corporais, musculares, o jeito de mexerem as pálpebras, mexerem a boca. E, por conseguinte adquirir a feiúra ou a beleza, à graça e a leveza, o desleixo e deselegância. É muito importante prestarmos a atenção nessas mensagens que passamos as crianças. Nós humanos somos extremamente imitativos e sensíveis a observação dos “sinais alheios”. Se admiramos, queremos ficar iguais. _Acho que agora estou entendendo porque Fabiana está diferente na maneira de se vestir e de se comportar. Ela parece irmã gêmea de uma amiga da escola. Está falando como ela, se vestindo como ela e até andando como a garota. Me assusta a falta de personalidade da minha filha. _Clarice, nessa idade ela está justamente procurando uma “identidade”. Se você não sabe, as crianças tomam como modelo o comportamento dos pais; já os adolescentes escolhem um ídolo. Ela quer se parecer com quem ela admira. Temos que ter cuidado para que isso não extrapole. Dela realmente encarnar um personagem e sair por aí produzindo um ícone que traduza uma coisa que ela não é. _Como assim Fernando? – Curiosa pergunta Vera. _Você sabe como se comporta uma prostituta? Uma garota de programa? Uma hippie? Uma sex simbol? Nosso corpo carrega a marca de nossa cultura, imprime nossa assinatura pessoal. Traduzimos o que queremos, e o que não queremos para nós. _Então minha “assinatura” tá meio falsificada nesse momento, pois eu não sou o que pareço. – Ironiza Clarice. _Clarice, essa obesidade explicita traduz sim, um certo isolamento, um afastamento do sexo oposto, uma depressãozinha, um relaxamento do EGO. Já pensou nisso? _Pegou pesado agora... Não acho que quero conscientemente me afastar de ninguém ou de qualquer homem. Realmente de uns anos pra cá estou meio depressiva, meio sem animo pra namorar, me arrumar... Será que faço isso de propósito? Estou afastando os futuros pretendentes sem precisar “avisá-los”? “Olha, não vem que não vai rolar nada”. Será? Conscientemente não estou fazendo isso, mas posso tentar fazer alguma coisa a respeito.... E vou começar hoje. Quer ver? Tá vendo aquele bonitinho ali, o de camisa azul? Tá me dando um mole... Vou lá e vou mostra pra você que não é bem do jeito que você tá falando Dr. A semiótica do amor Laura Botelho Página 18

_Taí, essa eu quero ver! Vou ficar daqui só estudando sua performance. – Diz Fernando.
Os amigos acompanham a ida entusiasmada da Clarice em direção ao rapaz sentado no lindo bar do apartamento. Ela se apresenta a ele e iniciam uma conversa com sorrisos encabulados de ambas as partes. E um ritual de movimentos conjuntos se inicia no abaixar a cabeça e levantar. Olhar ao redor, mãos agitadas, sacudir de pernas, balançar de corpo, pés inquietos. De longe os amigos se divertem com o que vêem.

_Não é que ela foi mesmo! - Vera exclama admirada. _Nando, você pode “ler” o que está acontecendo lá naquela conversa? - Pergunta Sandra curiosa. _Alguns sinais são pateticamente comuns. Não precisamos de nenhum livro pra entender o que estamos vendo. Instintivamente entendemos que ambos estão muito constrangidos com a aproximação. Estavam mais seguros quando distantes. Sabem que estão sendo observados e isso intimida qualquer um. Reparem que eles não mantêm um contato visual constante. Ele levanta o olhar quando fala, ela abaixa o dela, encara e mantém por segundos, abaixa. Levanta o olhar quando vai responder... Ambos estão se conhecendo através desses curtos olhares. Ele sabe que se mantiver o olhar fixadamente nos olhos dela, Clarice vai correr. Um contato prolongado olhos nos olhos nos faz sentir extremamente expostos e vulneráveis. Isso intimida qualquer um. _Ah se intimida. Detesto homens que me encaram na rua. Me olham dentro dos meus olhos. Um verdadeiro atentado terrorista a minha alma. - Concorda Vera. _Também, não vão olhar pra você por causa de quê Verinha? Mulataça dessa, linda, alta, com todos os predicados que a natureza afro lhe deu... Bunda, pernas, peitos, cintura fina... Aí é sacanagem... Só sendo gay mesmo... Desculpa Nando, mas não deu pra segurar... _E por que você acha que um gay não iria olhar pra ela? Justamente por que ela é linda será fatalmente apreciada por um homossexual também. A beleza atrai, indiscutivelmente. O ser humano está fisiologicamente afinado para distinguir harmonia e desarmonia e a nossa amiga Vera é harmonia em pessoa. - Diz Fernando abraçando Vera carinhosamente. Por falar em harmonia... Cadê o Mauricio? Vi vocês chegarem juntos e não o vi mais. _Também, meu querido, vocês tinham que deixar a TV ligada no quarto? Ele não pode ver uma Tv, ainda mais hoje que tem um futebolzinho básico passando em todos os canais... _Deixa ele. Eu liguei justamente porque a TV está em outro ambiente. As pessoas podem se espalhar pelo apartamento e criar afinidades. Ele deve estar acompanhado de outros “machos” provavelmente. _Isso que me intriga nos homossexuais. Eles não pensam como “Homens”. Deixa eu explicar melhor. Nos filmes eu vejo um gay olhar para outro gay e sem complicação os dois ficam juntos, saem e vão fazer, ou não, o que quiserem, conversam abertamente, se tocam se encaram olhos nos olhos... A semiótica do amor Laura Botelho Página 19

_Sandrinha, eles tem um propósito, sexo. Não precisam de joguinhos. Homens e mulheres fazem um joguinho de sedução. Um cede, o outro avança, um recua o outro se fecha. Fred que é Antropólogo pode explicar melhor isso pra vocês. Esse ritual vem da era primitiva, onde o homem não falava. Era necessário demonstrar através de dança, através de gestos, de atitudes as intenções do macho sobre a fêmea. A aceitação de um macho pela fêmea só se daria através desse ritual que está impregnado em nosso sangue até hoje. Uma seleção natural das espécies. Vence a lei do mais forte, mais belo, mais inteligente para que suas crias sejam boas e garantam a sobrevivência dos próximos, e que estes, por conseguinte sejam fortes e inteligentes como os pais. Seleção natural Sandra, sobrevivência. Gays não reproduzem. Não com o mesmo sexo. _Gente, olha lá. A Clarice está mais solta, não está Fernando? Vera chama atenção para o casal ao longe. _Reparem, ela está alisando os cabelos... Ela o está seduzindo! Danada! - Exclama eufórico Fernando. _Só porque ela está alisando os cabelos? Eu faço isso o tempo todo! Espanta-se Vera. _Não sua boba. Não só o fato de ela estar mexendo nos cabelos. Tem todo um contexto. Reparem que ela mostra a palma das mãos quando fala com ele. Tudo que ela diz expõe a palma da mão. Isso é uma forma de galanteio. Seu olhar está mais fixo nos dele. Eles parecem que estão se entendendo. Estão bem mais próximos, diria que a distancia dos seus corpos é bastante suspeita... Está havendo um toma lá da cá. Explica Fernando. _Não acredito nisso. Eu não saio mostrando a palma da minha mão pra todo mundo que me agrada! - Diz Vera incrédula. _Mostra sim Verinha. Você não tem noção do que faz, é instintivo. Seu corpo diz: “Estou aberta a uma comunicação, quero trocar galanteios com você. Você me parece agradável”... _Vou agarrar minhas mãos daqui pra frente pra elas não me traírem. - Comenta ironicamente Sandra. Será então que eu ando mostrando a palma da mão pra todo mundo? Meus alunos, meus colegas... O meu porteiro? _Sandrinha... Relaxa, até a poucos minutos você estava flertando com todos e nem se preocupava com isso – Ri debochando Vera, da amiga. _Gente, tem todo um contexto. Galanteios podem ocorrer entre qualquer um, em qualquer lugar. Entre professores e alunos, entre pais e filhos, entre doutor e paciente, entre homens e homens, homens e mulheres e mulheres e mulheres sem nenhuma conotação obvia sexual ou de homossexualismo. Na vida social as pessoas se tocam, trocam olhares, enfeitam-se com inúmeros propósitos, mas basicamente, querem ser aceitas. Básico! Queremos ser aceitos. A rejeição não cai bem na nossa vida. Já viu quando a gente cisma com uma pessoa, acha ela antipática? Num primeiro contato, não gostamos de gente que desvia o olhar do nosso durante uma conversa. Parece que não está prestando atenção no que estamos falando. O que nos transmite? Desaprovação ou indiferença o fato de não nos dirigir o olhar. Em outras palavras “tõ me lixando pro que você tá falando”. Tem aquela pessoa também que na hora de

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apertar a mão num cumprimento, não estende o braço o suficiente e ainda aperta com a ponta dos dedos, mão mole. Já conheceu essa? _Nem me fale. Fico danada da vida quando não apertam a mão como se deve. Parece que estão com nojo da gente, que vão pegar alguma doença se chegarem muito perto. _A pessoa a qual você foi cumprimentada desta forma Vera, quis dizer isso mesmo. “Há “restrições nesse contato”, „não quer envolvimento contigo”, minha neguinha... Alerta Fernando. _Sério? Só porque eu sou negra? Eu pensei que o problema fosse com a pessoa e não comigo. _Com certeza ele tem problemas Verinha. Insegurança é uma delas. Nesse momento se juntam ao grupo Fred e Maurício, marido de Vera. _ Gente, vamos comer? Estou morrendo de fome. Meu estomago tá colando na testa. - Alerta Fred em voz alta. Já fui resgatar o pessoal do Futebol pra gente começar a se servir. _Vamos sim, também estou faminto. Fred, mostra os talheres e os pratos pro pessoal enquanto vou trazer a comida. - Norteia Fernando. _Meus queridos peguem seus pratos e talheres e sirvam se das saladas. Fernando já está trazendo os pratos quentes. E tenham um bom apetite!
O jantar foi tranqüilo. A comida estava magnífica. Um cardápio de mestre. A bebida adequada e sobremesa de contrariar uma tentativa de qualquer dieta. Os grupos se formaram novamente, mas de forma diferente. Casais eram vistos nos cantos, solitários e discordantes em rodinhas distintas.

_Já deram uma olhada no casal ali de pé? - Maurício aponta em direção a Clarice e o rapaz de camisa azul afastados do centro da sala. _Já, e já rimos muito com a leitura que Fernando fez dos dois. - Esclarece Vera. _O que você acha que está acontecendo lá agora Fernando? _Depois do jantar, parece que o casalzinho discordou de alguma coisa. Não estão mais sincronizados. _Ah... Tinha que melar? Tomara que você esteja errado, Amore Mio! _Tomara Sandrinha. Ela cruzou os braços e não estou gostando da distancia entre eles... _Calma aí. Você acha que o fato dela cruzar os braços quer dizer que ela está discordando dele? Mas ela está sorrindo! - Exclama Maurício duvidando da sentença de Fernando. _Maurício, cruzar os braços no peito é sinal, dentro de um determinado contexto, que o ouvinte não concorda, não aceita a mensagem que está recebendo. È de opinião contrária quer refletir sobre o assunto. Pode estar sendo gentil ao sorrir apenas. A A semiótica do amor Laura Botelho Página 21

distância entre eles está maior que no começo das apresentações. Ele deve ter tocado em algum ponto na conversa que não está agradando Clarice... Pena, eles pareciam que iam sair daqui juntos... _Ah, Amore Mio, não acredito que a conversa esteja ruim... Clarice não tem papas na língua. Se o cara fosse chato ela já tinha dispensado ele. _Sei lá Sandra. Ela pode estar forçando uma barra até mesmo pra provar a gente que é possível se relacionar com alguém nem que seja pelo menos numa única noite. Afinal, você vive dizendo na cara dela que é estranha, imatura e insensível diante dos homens. Que ela vê defeito em todo mundo... _Também não é assim, né Vera? Eu tento balançá-la de alguma maneira pra ver se ela acorda, não faço no intuito de espezinhar ninguém. _Agora eu acredito que a coisa tá feia. Ela cruzou os braços para trás do corpo e girou o corpo para nossa direção. Ela está achando a conversa um saco! Quer cair fora logo dali - Diz Fernando.
O rapaz de camisa azul tira as mãos do bolso beija Clarice no rosto e se despede do grupo com um rápido tchauzinho de longe. Vira as costas e vai embora. Cumprimenta Fred e é conduzido por este até a porta de saída do apartamento. Clarice vem em direção aos amigos, de cabeça baixa e embaraçada.

_E aí? Rolou alguma coisa Clarice. – Pergunta curiosa Sandra. _Nada... Tava tudo indo muito bem até que começamos a falar sobre os nossos filhos, nossa maneira de educá-los, nossa visão de família... Aí entornou o caldo. Me segurei até onde deu. Quando desisti do debate ele sacou e resolveu ir embora. Disse que tinha que acordar cedo amanhã, bla´, blá, blá.. _É... Tenho que dar a mão a palmatória Fernando. Você acertou em cheio! Tô apavorado! - Elogia Maurício. _A inclinação do corpo fala sempre. A distancia entre as pessoas. O movimento dos braços, dos pés. O corpo fala o que a mente contém naquele momento. É intressante observar esses detalhes na vida em comum, entre marido e esposa, pais e filhos, entre namorados, entre amigos. São pequenos detalhes que fazem uma grande diferença na comunicação. Essa prática leva a manter a nossa mente mais atenta aos diálogos, atenta ao que não foi dito e ao que precisamos rever. - Conclui Fernando. _Nando, segundo o que eu entendi, nosso corpo expressa a nossa personalidade, o que se passa no nosso interior, com isso, se modificarmos nossos aspectos físicos, corporais, poderemos mudar os aspectos mentais, mudar nosso estado emocional? Questiona Clarice. _Eu diria que sim Clarice. O poder que temos nas mãos é tão grande minha amiga. Não temos consciência ainda das posturas erradas que adotamos no nosso corpo que desgastam nosso organismo, arrasam nossos pensamentos, muitas vezes levando a muitas doenças geradas por nossos conflitos interiores. Nossa harmonia consiste em equilibrar a razão, emoção e instinto. Já falei e vou repetir. Sua obesidade é fruto da A semiótica do amor Laura Botelho Página 22

sua cabeça. Você quer ficar assim, você se sente assim, cheia de tudo. Você anda com as costas curvadas e os ombros arqueados passando a idéia de cansaço e depressão, como se carregasse um fardo. Veja o Maurício. – Fernando poe uma mão no ombro do Maurício com a outra traça uma linha imaginária no modelo. _Costas retas e peito projetado para frente, mostrando segurança e certa dose de narcisismo, dando até a sensação de arrogância, coisa que ele não tem. Né, Maurício?!
Todos riem e se entreolham com certa crítica nos olhos. Mais pessoas começam a chegar e se sentar atraídos pelas gargalhadas. O grupo aumenta e o assunto toma um rumo de palestra. Fernando está no meio do círculo, rodeado de olhares atentos a tudo que diz. Fred afastado se diverte com a situação. Providencia mais bebida para os que estão com os copos vazios.

_Fernando, experts no assunto, garantem que é possível fazer um mapa da nossa
estrutura física e com isso traçar a personalidade de um indivíduo. Isso é verdade? Ouvi dizer que é possível olhar pra alguém e dizer o que se vê, utilizando alguns conhecimentos... _É verdade sim Marta. Com a medicina oriental, que acredita na força das emoções, associada a medicina psicossomática, que mostra como a mente desencadeia algumas doenças e principalmente, com o auxílio da Neurolinguística, a ciência que estuda a influência da linguagem sobre o cérebro e o comportamento, é possível sim traçar um perfil de alguém. _Então vá lá. Me diz o que você vê em mim. Afinal, você não me conhece, sou amiga de Fred, não tivemos tempo para nos conhecermos e queria saber se vai bater com o que penso. – Questiona uma moça que se junta ao grupo intrigada com o assunto que já domina todo o recinto. _Marta. Seu nome é Marta, não isso? _ Isso. _Martinha... Você realmente quer saber? Eu sei que é um assunto interessante e divertidíssimo, não é a toa que fui estudar tão a fundo esse tema, comportamento humano. É uma curiosidade normal do ser humano querer entender de tudo. Somos PhD em “Achologia”. Eu “acho” que esse remédio vai te fazer bem, eu “acho” que esse sujeito não gosta de você, eu “acho” que você deveria fazer isso, ou aquilo.... Onde quero chegar... Penso que seria embaraçoso e nada ético da minha parte “decifrar” ou “achar” algum conceito no seu corpo ou de qualquer um nesta sala a partir de um olhar superficial. É preciso muito mais que isso. Vamos fazer assim. Para matar a curiosidade de vocês, vou descrever um quadro de “indicadores”. Vou indicar um aspecto. Não do seu corpo ou de alguém aqui, mas de um modo geral, nas pessoas que conhecemos e tentar traçar, encaixar e avaliar a personalidade desse indivíduo pelas características físicas dele que darei. Tá bom assim?! _Tudo bem, mas eu não me importo em saber o que você vai “achar” em mim. Gostaria realmente de ter sua opinião nesse momento a partir da sua observação direta. - Confirma Marta. _Tem certeza? Não vai ficar chateada com o que posso descrever a primeira vista, instintivamente? A semiótica do amor Laura Botelho Página 23

_Manda ver! - Insiste Marta. _Por sua camiseta justa ao corpo podemos observar que você não tem quase seios, não são fartos como os da nossa Clarice aqui! Seios fartos são acolhedores, protetores, está sempre atendendo às necessidades dos que a solicitam, mas infelizmente... são pessoas que se magoam facilmente. - Todos sorriem e voltam a focar no que Fernando vai dizer. _ Vamos lá. Seios pequenos - Você é Independente e gosta dessa sua liberdade, não aceita ficar presa e se apegar a absolutamente nada. Você está sempre em primeiro lugar na sua lista, por conta disso é mandona e gosta das coisas do seu jeito. Desculpe, mas você pediu! _Tá certíssimo! Fantástico. O Fred não te passou nenhuma cola, não?! Em meio a risadas nervosas, todos na sala conversam entre si e comentam o que foi dito. Marta conversa paralelamente com Fernando sobre esse seu lado egoísta. Quando em meio ao burburinho, Clarice levanta com a bolsa já no ombro com intenção de se despedir de todos na reunião. _Que isso? Já vai Clarice? impedindo-a de sair. Pergunta Sandra segurando o braço da amiga

_Já, meus queridos. Tenho que pegar Fabiana na casa de uma amiga. Amanhã eu e ela vamos acordar cedo para nos inscrever numa Academia de ginástica. – continua a se despedir. _Não acredito! Que papo é esse de Fabiana ir com você a Academia? Indaga Sandra. _Depois a gente conversa. Outra hora eu conto o “papo” que tive com ela. Foi emocionante e assustador ao mesmo tempo. Mas agora eu tenho que ir mesmo. Eu ligo pra vocês amanhã. Ok? Beijos! Beijos!
Clarice sai da sala acompanhada de Fernando que a leva até a porta do elevador, enquanto o grupo volta a conversa anterior.

_Tá tudo bem mesmo querida? _Tá melhor do que a encomenda Nandinho. Fiz o que me mandou, conversei com ela horas e horas e descobri coisas que nunca iriam me passar pela cabeça se ela não dissesse. Eu estava errada esse tempo todo, só pensando em dar o material, Fernando. Acabei fazendo justamente aquilo que mais condenei nos pais, nos homens em geral, a tal da mesada... Ela só queria minha companhia, minha atenção, e eu não dei...
O assunto é interrompido pela chagada do elevador. Os amigos se despedem em silencio num abraço apertado. Clarice entra no elevador e a porta se fecha. Fernando volta para a sala e antes de sentar já está sendo consultado para novas questões.

_Barriga, fale da maldita barriguinha. Aquela que a gente malha, malha e ela não vai embora. - Indaga outra convidada de nome Solange. _Barriguinha... A barriguinha costuma ser rebelde e teimosa, assim como seu dono. Essa pessoa tem dificuldade em resolver seus diversos problemas, falta lhe atitude. Está sempre adiando aquilo que é fundamental para sua paz. Como diz o ditado: ”vai empurrando enquanto dá tudo com a barriga”. Com uma série de frustrações, problemas não “digeridos” acumulam sentimentos mal resolvidos em forma de gordurinhas na região do abdômen. – Conclui Fernando. A semiótica do amor Laura Botelho Página 24

Sandra olha sério pra Fernando. Encara o amigo fixamente.

_Que foi? Tá me olhando assim por quê? Não é verdade? Pergunta Fernando para Sandra. _Meio certo. A única coisa que você acertou é que o abdome acumula gordurinhas que a gente não consegue resolver de jeito nenhum! _Sandrinha... Seu corpo está perfeito. Seu peso é ideal para sua altura de 1.70, mas essa barriguinha fala, grita... – Com olhar de piedade, Fernando segura a mão de Sandra enquanto fala. _Não vai falar da minha bunda achatada também não?! Amore mio! _Uhmm... Bunda achatada... Vamos mudar pra outra parte do corpo! _Não Fernando, fala da minha bunda! - Grita Sandra.
Todos riem e aguardam a resposta.

_Mama mia... Como eu vou sair dessa? Bem, pessoas de bunda achatada... - Todos riem quando Fernando faz outra pausa. _São pessoas que apresentam personalidade forte... Mas, na realidade, são muito inseguras emocionalmente e vivem sob o comando alheio... Se anulam constantemente, temendo tomar suas próprias decisões, abrindo mão de suas vontades. Aquelas que deixamos de lado para não causar discórdia com quem estamos dependentes emocionalmente. Estão sempre visando agradar outras pessoas, como eu, por exemplo – olha pra Sandra e manda um beijo no ar pra ela. _De uma forma geral, é uma pessoa muito carente que tem medo de ficar sozinha com seus pensamentos. – Fernando encara Sandra, levanta as sobrancelhas com ar de arrependimento. _ Errou de novo. Não sou carente... Eu gosto das pessoas por perto, só isso. _Amore mio... Come ti voglio bene!! Vita mia... Fernando abraça Sandra como quem consola uma criança. _Fernando, meu pai tem um papo enorme. Ele parece mais velho do que é por causa desse papo. O que você me diz disso. Indaga Maurício curioso. _Acredito que ele seja um cara durão. É avesso a críticas e reage de forma agressiva quando alguém insiste em reavaliá-las. É uma pessoa que tenta andar na linha, ser justa, comprometida, justamente pelo pavor de ser repreendida. _É ele! É ele, meu sogro! Nando, você descreveu meu sogro e nem chegou a conhecê-lo. Fantástico! Ri nervosamente Vera com a descrição de Fernando.
E a noite se passa com muita risada e Troca de contatos.É muito tarde. Sandra foi a última a sair. Então se despedem dos amigos, Fred e Fernando.

_Peraí, não vai não. Fica essa noite aqui, Sandrinha... – apela Fernando. _Amore, não dá. Meus filhotes vão ficar histéricos se eu não chegar ainda hoje. Vão pintar o sete se eu demorar muito. É a forma que eles têm para demonstrar a falta, a minha ausência.

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_Sandrinha... Precisamos conversar sobre isso... Já não bastou a sua dedicação a sua mãe durante tantos anos? Você se dedicou a ela de corpo e alma. Abriu mão da sua vida em todos os níveis... já não chega?... _Foi uma escolha consciente, Nando. Eu sabia o que estava fazendo. Era mais forte do que eu cuidar dela até sua morte. Você sabe. Meus irmãos não davam a mínima, eu não podia deixá-la sozinha. – senta-se novamente Sandra desmoronando na poltrona. _Todos nós sabemos que foi uma escolha difícil. Abrir mão de um noivado, de um relacionamento de 12 anos, de uma vida de prazeres, de autoconhecimento... Não é fácil minha querida... Por isso, estou chamando você à razão. Será que não chega? Está na hora de fazer alguma coisa por você. De se dar um prazer. De se viver plenamente e não pela metade. Não por algo ou por alguém, mas por você... Eu te olho e vejo uma menina carente, cheia de vida, cheia de vontade de sair correndo e se sujar na terra, de pular, de subir, escalar as árvores... mas fica só nisso, só na vontade. É logo contida por algo ou alguém...
Sandra desmorona. Chora copiosamente. Agarrada a uma almofada, ela a abraça e se agacha numa posição quase fetal. Se deixa levar pela emoção das palavras do amigo. Chora, chora muito, sem pensar onde está e com quem está. Sandra chora tanto que adormece sem se dar conta. Fernando a pega nos braços e a leva pra um dos quartos onde há uma cama já a espera de algum hospede. Ele a cobre. Apaga a luz e sai. De manhã.

_O que você pos na minha bebida Nando...? _Eu? Nada. Você mal bebeu. Tomou só um cálice do vinho tinto só depois que insisti muito. _Não acredito... Eu desmaiei. Não me lembro de ter ido para o quarto... _Amore... Você não foi... Eu a levei nos braços. _Sério? Meu Deus! Tenho que ir pra casa. Os bichinhos devem estar maluquinhos... _Calma senta aí e toma seu café. Eu vou com você até lá pra ver se seus filhos não se mataram... _Ah, Nandinho... Não brinca... eles sentem no ar. Ou melhor eles não sentem o meu cheiro no ar, daí entram em pânico. _ Eu sei, sua boba... Os cães podem detectar o medo, a raiva ou amizade de uma pessoa através do cheiro. E a solidão os afeta em muito, mas também, não é assim, Sandrinha. Você não está 24h fora de casa. Tem muito de você ainda por lá. _Desculpa pela choradeira de ontem...

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_Por que se desculpar? Você precisava fazer aquilo há muito tempo. Foi tão intenso a maneira que você deixou fluir as emoções que seu corpo relaxou de maneira calma e tranqüila. _Foi mesmo. Eu perdi a noção do quanto aquilo tudo estava me fazendo mal... Talvez essas dores de cabeça que ando sentindo diminuam. Tenho tido muita enxaqueca ultimamente. _Vai passar, pode acreditar. Seu desejo de controlar tudo e essa incapacidade de expressar a raiva é a base da sua enxaqueca. Esse peso que você carrega todos esses anos é absurdo. O fato de o seu noivado ter acabado não foi sua culpa, nem de sua mãe. Sua autocrítica é perversa. Você precisa se auto valorizar. Murilo não era o cara certo pra você minha querida. _Agora eu sei disso. Fiquei sabendo que ele se casou e já tem um filho. Isso tudo aconteceu dentro desses 4 anos que nos separamos, Nando. Comigo a coisa sempre foi difícil. Eu queria me casar, mas tudo tinha um “porém”. Num momento tudo era complicado ou por causa da minha mãe ou por problemas financeiros, dizia ele. Mas com essa atual namorada não demorou muito. Casou-se dentro de um ano e no ano seguinte já teve seu próprio filho... _Eu queria ter essa conversa com você, mas a distancia não era propícia para chegar até seu coração. Foi tudo muito agressivo na sua vida. Todo o seu suporte solitário na velhice dos seus pais, tudo em suas mãos. A morte do seu pai. A doença da sua mãe. O fim do seu noivado... Ninguém agüenta Sandrinha. Acho que você é muito mais forte do que eu pensava. Ao contrario do que eu imaginava você não desmoronou com tudo isso. Estou muito orgulhoso de ti. _Depois que o Murilo me deixou eu botei uma coisa na minha cabeça. Não vou deixar a peteca cair. Minha mãe precisava de mim. O câncer a deixou muito debilitada. Eu não tinha tempo nem pra pensar em nada, nem no meu sofrimento interior. Mas agora que tudo passou... Já tem 2 anos que ela morreu, eu me sinto tão vazia, tão estraçalhada, tão desanimada... _E é por isso que você se dedica tanto aos seus “filhos Tiago e Diogo”... Eles precisam de você? _É Dr. Eu preciso que alguém precise de mim... _Sandrinha... Eu preciso de você. As meninas precisam de você. Sua existência é fundamental para todos nós. Olha, Aristóteles escreveu a 360 anos Antes de Cristo um texto de nome “Revolução da Alma” que diz entre outras coisas: “A razão da sua vida é você mesmo. A tua paz interior é a tua meta de vida, quando sentires um vazio na alma, quando acreditares que ainda está faltando algo, mesmo tendo tudo, remete teu pensamento para os teus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe em você.” _Você vai me fazer chorar de novo? Isso faz parte da terapia? _Não querida... – Fernando abraça Sandra com muita força. _O que eu quero dizer é que ninguém é dono da sua felicidade. Um dos motivos para o desajustamento entre A semiótica do amor Laura Botelho Página 27

você e Murilo foi essa discrepância de ritmos. Vocês não tinham uma troca. Uma sinergia em comum. Faltava algo ou muita coisa entre vocês. Era a pessoa errada na hora errada. Acredito que se não fosse a doença da sua mãe ele arrumaria outra coisa como desculpa para não se unir a você como seria do seu gosto. _Eu sabia, eu sempre soube que havia alguma coisa errada entre nós dois. Passávamos longo tempo em silencio e quando o quebrávamos era para fazer observações mesquinhas um com o outro, apontar faltas, apontar atitudes erradas. Nada soava a comentários com a finalidade de melhorar o nosso relacionamento, pelo contrário, afirmávamos inconscientemente, diariamente, o quanto tudo aquilo estava errado, só que negávamos a agir e nos calávamos... Talvez por isso tenha durado tanto tempo. Doze anos! É uma eternidade, pensando bem. O medo de ficar sozinha, de não saber o que fazer com essa “solidão” emburrece a gente. Deixamos de viver, deixamos de nos gostar para investir de cabeça em algo que de cara a gente tem certeza que não vai dar certo, que não tem futuro. _Você não perdeu tempo. Você ganhou. Só teria essa maturidade hoje porque pode avaliar sua experiência de um outro angulo com mais discernimento, mais objetividade. A razão fala mais alto nesse momento. Sua emoção estava amarrada e sedimentada em modelos e crenças que sua cabeça não tinha como avaliar á época. Quando estamos passando por estresse profundo nosso ritmo de pensamento é lento. Não temos capacidade de enxergar o que todos ao nosso redor enxergam. A postura e a expressão de atitude do Murilo em relação a tudo que voce passava já nos davam um pequeno índice do seu caráter. Duas pessoas percebem um mesmo acontecimento de formas diferentes, pois cada uma delas usa um tipo de filtro para observar o fato. Você filtrava tudo de forma diferente dele do que acontecia naquele momento. Você via o que queria ver. Ou seja, seu amor a ele e a sua mãe estavam em primeiro lugar na sua vida naquele momento e ele não enxergava dessa maneira. Ele só via sua atenção voltada pra ela, quando ele queria estar em primeiro plano. Seu egoísmo diante dos acontecimentos já demonstrava que ele queria ser o centro das atenções. Com certeza ele seria o centro das atenções sempre na vida de voces até hoje... _Tá certo. Você está certíssimo! E eu tenho que fazer alguma coisa urgente pra sair dessa. - Exclama Sandra. _Você já saiu, minha querida. Só o fato de ter consciência de tudo já é muito bom Sandrinha. Muito bom! Vamos fazer o seguinte. Acaba seu café, vamos pegar Diogo e Tiago e levá-los para esticar as patas no calçadão. No passeio a gente traça um plano para o seu futuro. Que tal?! No fim da tarde tenho que passar na casa de Vera pra conhecer os pimpolhos dela. Já comprei umas roupinhas lindas pra eles. Você vai comigo? _ Não dá, Amore... Realmente tenho que rever material pra aula de amanhã... _ Ah... Mestres... Dupla jornada de trabalho sempre... Precisa de ajuda? _Não querido. E obrigada por essa noite...
À noitinha na casa de Vera.

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_OI meu amor. Que prazer imenso ter você aqui. Maurício! Nando chegou. _Que prazer inenarrável tê-lo conosco Fernando. A Vera preparou um jantarzinho pra você que me deixou com ciúme... Nunca tive um jantar desses! – Maurício recebe Fernando já com um longo aperto de mãos e uns tapinhas nas costas encaminhado o convidado ao centro da sala. _Deixa de ser bobo Maurício. Cansei de fazer esse prato pra você. Liga não Fernando. Agora tenho três filhos. Como se não bastasse ter que dar atenção as crianças tenho que dar “muita” atenção a esse marmanjo... Fica a vontade. Você quer tomar alguma coisa antes do jantar? Quer uma cerveja, um Whisky, um vinho... _ Água. Verinha eu quero água. Gente, como faz calor lá fora. Tenho que me acostumar com esse clima rapidamente. O calor está me fazendo muito mal. Aqui dentro está muito agradável. _ Nesses dias tivemos que deixar o ar ligado o dia todo. Os meninos sofrem muito também. Comenta Maurício. _Afinal, cadê esses banbinos? Trouxe uma lembrancinha pra eles Verinha. Se não couber, me avisa que eu troco. A lojinha fica próximo do meu apartamento.
Maurício se levanta e vai em direção ao corredor do imóvel para chamar os meninos que jogam vídeo game no quarto.

_Tá gostando de lá Nandinho? O bairro é excelente, né? – Vera conversa com Fernando da Cozinha em voz alta. _ Se é Vera. Quer que eu ajude em alguma coisa? – Fernando levanta e vai em direção a cozinha. Já lavando as mãos toma conta da situação. _Já fiz tudo que precisava. Só estou “enfeitando o pavão”. Maurício vai subir pelas paredes. Quer ver? Ele adora pratos decorados, mesa posta com bastante etiqueta. Mas fala sério? Tem condição de colocar a mesa nesse nível todos os dias? Toalha novinha, pratos e talheres e copos e guardanapos e flores decorativas... Não tenho esse tempo Nando! Presta atenção! A escravidão já acabou! – Os dois gargalham na cozinha à custa das críticas de Vera a respeito dos gostos refinados do marido. _Fernando, quero apresentar meus sócios. Alexandre e Mateus. Fala com o tio. Vai lá, dá um abraço nele. O cara veio da Itália só pra apertar a mão de vocês! – Brinca Maurício com as crianças. _Que prazer conhecer vocês Alexandre e Matheus. Vocês são maravilhosos. Lindos mesmo. A cara da sua mãe! _ Obrigada pela parte que me toca querido amigo. – Entra Vera com um grande prato de Risoto de camarão todo decorado e o deposita com muita graça a mesa. _Caramba, que prato lindo amor! Aí meus sócios, vocês já viram mamãe preparar um prato tão bonito assim pra gente? Vamos aproveitar que outra dessa vai demorar. – Maurício olha atento o prato na mesa e senta-se esquecendo da visita. _Ah, Senta aí Fernando. Por favor. A semiótica do amor Laura Botelho Página 29

_Vou esperar a Vera sentar primeiro. Daí eu tomo meu lugar. – Fernando ajuda a Vera a trazer outros pratos, alguns talheres e a bebida enquanto Maurício se serve sem constrangimento.
Vera dá uma parada no meio da sala quando vê o marido se servindo rapidamente.

_Maurício! Pelo amor de Deus! Custa você esperar todos se sentarem para se servir? Pelo menos sirva seus filhos primeiro, homem! – Exclama Vera bastante irritada. _Eu nunca sei o que eles gostam. Não adianta eu fazer isso se eles não vão comer o que vou colocar. – Ignora Maurício a expressão de constrangimento da esposa. Vera tentar acalmar-se diante da cena. Ela senta, respira fundo e pergunta ao amigo se quer que ela o sirva. _Atenda aos meninos Verinha. Deixa que eu me sirvo, se não se importa. – Fernando encara Vera e sorri com um olhar de cumplicidade. _Me importar... Importar-me com o quê? Depois dessa... Vera balança a cabeça indignada e fica em silencio.
Maurício comeu muito, bebeu muito e sentou-se na poltrona da sala como um rei satisfeito. Fernando tira os pratos e os leva para a cozinha onde encontra a amiga acanhada e sem graça.

_Já sei o que você está pensando, o que você quer me dizer e o que você gostaria de desabafar, mas não o fará pelos motivos óbvios. Portanto, segura a onda. Respira fundo. O jantar estava divino. Eu adorei cada detalhe. Amei seus filhos. É raro crianças nessa idade se comportarem tão bem a mesa como eles se comportaram. Nota 10! E Sim, você está linda. Sim, eu entendo o que se passou até agora. Não, eu não estou nem um pouco constrangido com o que aconteceu. Não, eu não vou ficar chateado. Não, eu não quero cafezinho com adoçante depois desse maravilhoso jantar!
Os dois gargalham e relaxam. Fernando ajuda a Vera a lavar a louça e trocam velhas historinhas do passado. Enquanto isso, Maurício assiste a TV passivamente sem incomodar em entreter a visita. Na casa de Sandra dois dias depois, Fernando é recebido por ela com um abraço eletrizante ao abrir a porta do seu apartamento. Os cães latem e pulam obedecendo ao ritual de boas vindas.

_ Olá fofinhos! Sentiram falta do meu Chanel numero 5? – Fernando abraça um por um os cachorrinhos fazendo cafuné nas orelhas deles. _E aí? Como foi lá na casa de Vera? Já soube que Maurício aprontou uma na sua frente. _ Se você sabe pra que eu vou contar? Vocês, eim? Nossa, estão na velocidade da luz em termos de fofoca. _Amore, conta aí, não desconversa não. Quero ouvir de você o que achou do que viu. Quer um cafezinho? Acabei de fazer, ainda nem tomei. A semiótica do amor Laura Botelho Página 30

_Quero sim. Ah... Sandra... Aquelas coisas de macho dominante latino. Nada que um Etológo não explique. Fernando pega o copo de café das mãos de Sandra e se larga no sofá. _ Barra, né? Às vezes eu penso em desistir de me casar por causa disso, sabia? Mas quando penso... É mentira... eu quero me casar sim. _ Claro que quer. É um instinto básico. É mais forte do que você. O amor é essencial ao ser humano. Paixão. Aquele arrepio do beijo. A expectativa de o outro chegar. O batimento cardíaco acelerado quando ele chega e te abraça... _Isso que você tá descrevendo é o começo de namoro, amore... Tudo fica as mil maravilhas quando estamos no início de namoro. O céu é mais azul, nada nos irrita tão facilmente. O “amor é lindo”. Depois de um tempo de intimidade a coisa começa a sair dos eixos. A gente se irrita com tudo, o céu está sempre nublado e o amor não é tão bonito assim quanto antes. _Você está falando do seu namoro, mais precisamente, né mocinha?!No inicio de um namoro, ambos estão empenhados e dispostos a se ajustarem. Há um esforço de ambos os lados. Há uma sincronia no ar. Mas basta um sair dessa sincronia, que tudo desanda. A tensão se cumula e se torna cada vez mais rígida. O casal fica desemparelhado e menos propensos a se ajustarem influenciando num descontentamento que gera dor, um mal estar no relacionamento. O sexo é o primeiro a apitar. Ele diz como vão as coisas. As mulheres, principalmente, sabem muito bem como esfriar uma relação e sabe também como apimentá-la. _Você quer dizer que eu sai de sincronia com Murilo? _ Talvez. Pense como você era no início do namoro e como você ficou quando teve que se dedicar a sua mãe doente. Namoraram por três anos. Foram morar juntos, mas só conseguiram ficar sozinhos dois anos. Daí seu pai morreu. Sua mãe doente foi morar com vocês. Por 7 anos! Alguma coisa mudou no comportamento de vocês, Sandra. Com certeza. _ Eu acho que parte foi minha culpa e parte dele. Acho que ao sair de sincronia ele saiu também e não conseguimos mais nos ajustar. E agora que você comentou... o sexo ficou uma droga! _Lembrou direitinho... né? Existem centenas de níveis diferentes para se expressar intimidade ou distanciamento num relacionamento, é fácil identificar nossa postura diante dos fatos. Há falta de contato visual, economia no contato físico... Silencio... _Nando, vou te falar uma coisa que nunca comentei com as meninas. Fiquei com medo de elas acharem que sou lésbica. Sério! Não ri não. Você sabe que eu já não gostava tanto da penetração na hora do vamos ver...? Eu queria mais beijo, mas língua, mas mãos, mais olho no olho... Menos aquilo... _ “Aquilo”? A maioria das mulheres valoriza muito mais uma série de “rituais para o sexo” do que a própria penetração Sandrinha... Só que elas não falam não expõem esse fato para seus companheiros. E não há nada de lésbico nisso. Muitas mulheres, eu falo de muitas mulheres, você não avalia quantas destas pobres mulheres, não A semiótica do amor Laura Botelho Página 31

conhecem essas “preliminares”, esses prazeres que você está descrevendo e que tanto você necessitava, mas que lhe era negado ou pelo menos não dedicado da forma que você necessitava. Essas pobres mulheres não têm e não tiveram a oportunidade de experimentá-los pelo desconhecimento de seus parceiros. E por incrível que pareça, eles também procuram o mesmo, se você quer saber, mas por falta de orientação, falta de conhecimento do seu próprio corpo, eles também se privam desses prazeres. Eu ouvia o relato de algumas mulheres a respeito da “eficiência” dos seus maridos. Elas queriam dizer que eles se uniam num coito de alguns minutos até que “ele” terminasse em gozo próprio. Isso é que era “a eficiência”! Muito macho!!! _Eu imagino o que você devia ouvir... Você acha que no nosso país existam tantas mulheres burras assim? Que ignoram outros prazeres sem ser o da penetração. _Sandrinha, eu acho que sim. Infelizmente. A nova geração nem tanto, mas as mulheres da nossa geração, sim. Eu morro de rir quando ouço umas aí dizerem que seus maridos estão “brochas” “não levanta mais ou têm dificuldade de manter”. Daí a pouco “aqueles brochas” arrumam uma garota mais nova... Isso só denota como o sexo deles era ruim desde quando se casaram!!! A falta de intimidade entre eles nestes casos é explicita numa frase dessas... Total ignorância do assunto. As mulheres não se dão conta no casamento é que o que mais as atraía era justamente a fase do namoro. E o que era o namoro? Pelo menos antigamente. Aqueles beijos ofegantes, mãos pelo corpo a procura do outro, olho no olho, muita energia era gasta até encontrar um local apropriado, um momento apropriado até chegarem a penetração em si. E isso minha cara, é o clímax. _ Essas preliminares acabam depois do casamento. O homem não se sente mais na obrigação de levá-la “a loucura” para que ela ceda seus instintos básicos. Ninguém precisa mais “correr atrás do outro”. Né? Como diz o ditado popular “ galinha de casa não se corre atrás”... É, horrível essa expressão, mas é verdade! Mas o fato é que aquele affair de antes desaparece nos primeiros anos ou até mesmo nos meses seguintes ao habitarem a mesma casa. Ela tá ali na cama e ele se chega. Ele passa a mão nas pernas dela ou no cabelo como sinal típico de suas intenções, aqueles sinais, mensagens que só os casais entendem. Nós mulheres quando queremos atenção, colocamos aquela lingerie novinha que sabemos que o deixa fora de si e logo estaremos sem as roupas em segundos, partindo para o coito propriamente dito... Gastando munição à toa. Ahhh... a aproximação é fácil demais, banal demais! Tudo se cessa a partir do derrame dos “fluidos corporais”... Geralmente deixando a parceira à ver navios...
A campaninha toca do apartamento de Sandra e a cachorrada late e pula, pula olhando fixo para porta até que a dona abra...

_Oi! Sabia que você tava aqui. Ligamos para sua casa e ninguém atendeu. Disse logo pra Vera. Ele tá na casa da Sandra, quer ver? - Vera e Clarice entram sem a menor cerimônia na casa de Sandra, brincam com os cachorrinhos e vão beijar Fernando. _Oi minhas bonequinhas. Clarice amore, você não devia estar trabalhando nesse momento?

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_Devia? Pensei que, como chefe, eu pudesse matar o trabalho a hora que eu quisesse. Ah... só hoje! Não tinha nada de muito sério pra resolver. Só trabalhei na parte da manhã. Passei na casa de Vera pra a gente ir ver você, mas você veio se esconder aqui... – Clarice faz biquinhos de criança contrariada. _Ciumenta essa Dona! Eu passei aqui por que sei que Sandra hoje não dá aula e que iria poder colocar umas fofocas em dia. _ Falou a palavra certa. Fofoca. De quem vocês estão falando nesse momento? Tem café ainda Sandra? _Tem, pega na garrafa térmica para vocês. Não estamos falando de “quem”, estamos falando do “por que”. Por que o namoro acaba depois do casamento e tudo mais nos relacionamentos...?. É isso. Estamos falando da “Semiótica do amor”, pra ficar mais chique. Afinal, Nandinho é um homem culto e está tentando deixar esse ser aqui menos ignorante possível. _Ah... Eu também quero ficar menos burra, Nando! Me diz aí, onde vocês pararam? – pergunta Vera. _Estávamos falando sobre as preliminares. Por que elas acabam quando vem o casamento, ou seja, quando passamos a conviver juntos na mesma casa. - Diz Sandra interando as meninas na conversa. _ Se fosse preliminares de um jogo de futebol eu até podia colaborar na conversa. Disso eu entendo... - Debocha Vera. _Mais ou menos isso Verinha... Homens ficam loucos com preliminares de um “grande” jogo. Já notou? Aquela excitação toda. Compra de ingressos, camisas... Pois é. Tudo isso é um jogo. E o Jogo de que estamos falando é o da sedução. Vai dizer que você não “joga” o tempo todo com o Maurício? _Jogo. Meu tempo fora... _Fala sério Vera. Quando ele faz alguma coisa que você não gosta você reage de forma agressiva na hora, ou você “arruma” uma maneira de irritá-lo da mesma forma que ele fez com você? _Claro. Arrumo uma forma infalível de irritá-lo duplamente. A nega aqui é vingativa! _ Esse tipo de jogo do “quem pode mais”, é que, se não for “bem jogado” leva tudo a perder. Muitos casais se separam por conta de joguinhos mesquinhos. Tem um amigo meu que brinca, dizendo que sabia que o casamento dele tinha ido pro espaço quando ligou pra casa avisando a mulher que iria chegar bem tarde, só pra irritá-la, deixá-la ansiosa, mas recebe da “secretária eletrônica” o seguinte recado: “Chegarei muito tarde essa noite. Seu jantar está no Microondas...” é piada, mas é o jogo do toma lá da cá. _Eu sei do que você está falando. Eu e o Maurício “jogamos esse joguinho” anos atrás. E quase nós dois saímos perdendo. Estivemos muito estressados na época em que descobri que havia uma dificuldade em engravidar. Havia discussão por motivos A semiótica do amor Laura Botelho Página 33

bobos. ... muita energia negativa no ar. Só depois que nos acertamos é que a gravidez fluiu normalmente. – Confirma Vera num semblante fechado. _Tem pessoas que têm dificuldade em admitir que estão erradas, não querem dar o braço a torcer. Querem manter sua posição até o fim. – Conclui Fernando.
Faz se um instante de silencio. Todas passam a pensar em suas condições. Seus momentos em que foram radicais com suas atitudes... Clarice interrompe o momento com certa aflição.

_ Nando. Eu queria que você fosse lá em casa conversar com Fabiana. Acho que você podia nos ajudar em muito nesse momento. Acabou que eu nem contei pra vocês o que deu naquele dia que conversei com ela. – Clarice segura as mãos de Fernando como se segura as mãos de um padre. _Claro querida. A hora que você quiser. Me conta então. Como foi a conversa? _Sentei com ela. Olho no olho. Como você falou pra eu fazer... _E...? _ E, que ela me arrasou! Disse que ela se sentia largada, abandonada... que eu não a enxergava como pessoa, somente como uma menina que precisava de “brinquedos” para obedecer e fazer o que eu queria...Que não era justo pedir que ela se comportasse como adulta se eu não fazia o mesmo... Essa então foi à pior parte... Disse que eu estava me matando de tanto comer. Que minha infelicidade ocupava todos os cômodos da casa. Que eu não cantava mais, que eu não saía com ela pra ir ao um cinema, não passeávamos mais juntas, pois estava sempre cansada. Não fazíamos mais refeições na mesma casa. Que sua companhia ultimamente era a da empregada. Que eu só queria trabalhar, trabalhar. E... Que também não queria ser gorda como eu...Iria vomitar tudo que comesse sempre que passasse do peso ideal. – Clarice derrama lágrimas sem esboçar sinal clássico facial de choro. Os olhos se enchem contra sua vontade e transbordam involuntariamente.
Os amigos se comovem, mas mantêm a distancia sem mover um músculo para ampará-la. Ela seca as lágrimas e continua sua fala depois de alguns instantes para se recompor emocionalmente. Fernando a observa com olhos atentos a cada expressão do seu corpo. Detalhe por detalhe. Quase sem piscar.

_Eu juro que eu não fazia a menor idéia do que ela sentia a respeito do meu modo de vida. Do meu corpo. Do meu “isolamento” temporário... Achei que ela nem ligava pra mim. Que não sentia falta da minha companhia nem dos nossos passeios, pois agora ela tinha vários amigos, saía sozinha, não precisava mais mim... _ Clarice. O primeiro órgão sexual, acredite você, é a boca. Quando uma mulher é impedida por algum “determinante” em sua vida, de usar seus órgãos genitais fora dos mais rígidos princípios sociais, sobra a ela, ocupar a boca com alguma coisa, comer. É um escape clássico para a sexualidade reprimida. Essa ansiedade aumenta ano após ano e passa a ser transferida para muitos outros “desejos” que a façam se sentir feliz, momentaneamente, como compras e gastos excessivos... Você é uma mulher sensual Clarice. Os problemas psicológicos costumam se refletir nas características físicas, minha querida. E a Fabiana não é especialista no assunto, mas já observou que a A semiótica do amor Laura Botelho Página 34

coisa está fora de controle. Seu resgate para o “prazer” está fora de controle. Uma lê a outra diariamente, com seus gestos, tensões nas suas palavras e entonações. E independente do que vêm sente no “ar”. – responde Fernando expectativa da amiga. _Ela é uma criança Fernando. Ela não sabe o que se passa na minha cabeça... _Somos o que pensamos Clarice. O pensamento negativo gera energia negativa, se transformando em doença. Adquirimos doenças pelo simples fato de culparmos os outros e não assumirmos as nossas responsabilidades pelas nossas experiências mal sucedidas. Pensamentos positivos geram energia positiva e com o uso da inteligência, da autodisciplina, da responsabilidade, do talento, da habilidade e do conhecimento, se transformam em harmonia, paz, prosperidade... Essa sua diabetes é fruto de amargura, de uma tristeza profunda minha amiga. E temos que fazer alguma coisa a respeito. Consertar tudo. Vasculhar o que está errado e recomeçar. Mudar de atitude é um excelente começo. Você está deprimida isso é fato. A Fabiana não gosta de te ver assim. Só que ela não sabe expressar de forma clara o que está sentindo e por conta disso iniciou um “joguinho” com você para chamar sua atenção... e as duas vão sair perdendo nesse jogo se não pararem o que estão fazendo com vocês e recomeçar um novo capítulo. William James, filósofo e psicólogo disse: "Nós podemos mudar as circunstâncias por uma mera mudança de nossa atitude". _ Posso interromper um minuto, Nando? – Pergunta aflita Sandra. _ Você acredita que se a Clarice, eu ou qualquer pessoa, poderia dar a volta por cima a partir da mudança de comportamento? De atitudes e pensamentos positivos? _Não tenho dúvida Sandrinha. Aristóteles já dizia que a psique e corpo reagem uma com outro. Uma mudança no estado da psique, da sua mente, produz uma mudança na estrutura de corpo, e à inversa, uma mudança na estrutura de corpo produz uma mudança na estrutura da psique. A maioria das pessoas não compreende muito bem como tudo isso funciona e com isso, experimentam muita dor por ignorância. _Nando eu já tentei de tudo, meu querido. Já tentei mudar, mas não consigo emagrecer. Já parei com minhas macarronadas da noite, pizzas que adoro tanto, por conta da diabetes. Estou abrindo mão de muitas coisas. Quando faço um esforço medonho por meses de regime, perco o quê? 5, 6 quilos, no máximo. Daí a coisa não segue, não perco mais nada, e volta tudo a estaca zero. Dá um desanimo... E vira bola de neve. Fico deprimida e me sinto mal e quero comer... _ Luta e trabalha inconscientemente para que tudo continue como está, dona Clarice!. Pergunte-se. Será que você quer mesmo “parar de comer”? A hora que quiser? O que quiser, sem fazer um grande esforço? Você se movimenta em direção àquilo em que pensa constantemente. O que você pensa Clarice? _ Ah... Eu penso em gerar dinheiro para sustentar a mim e Fabiana bem, até o fim de nossas vidas. Penso na formatura de Fabiana, na sua carreira, no seu casamento. Penso num dia encontrar alguém de que eu goste. Penso em viajar muito por aí. A última viagem que fiz foi a Disney quando levei Fabiana quando tinha 10 anos, desde então não saí mais de casa...

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_ Seu primeiro pensamento é o de gerar dinheiro, Clarice. É claro, você o faz muito bem. Mas a sua justificativa de gerar dinheiro é para um futuro tão distante... Seus meios estão tão distantes, longe dos seus fins. Quais são os seus fins? Já parou pra pensar? A saúde, bem estar, o prazer, o amor... Felicidade... Que estão disponíveis agora, nesse momento, em suas mãos Clarice! Fabiana vai ficar bem se você estiver bem. Ela irá se formar, ter uma carreira, ou não, independente do seu dinheiro. Conheço filhos de milionários que nunca se formaram em coisa alguma. Uns são cantores, artistas mambembes, sem formação acadêmica e não usufruem do dinheiro e poder dos pais. Casamento de Fabiana...? Como é que você sabe se Fabiana pretende casar um dia? E se ela seguir a vida que você seguiu, a de mãe solteira? Assumir a maternidade sem um companheiro em tempo integral. Olha que ridículo sua preocupação! Viajar... Fabiana reclama que vocês não vão nem passear na praia, no calçadão pra ver o por do sol... Cara mia... _Isso é verdade. – Interrompe Vera. _Ela desistiu até de procurar um novo amor. Ninguém é suficientemente bom pra ela. O Celso era ótimo pra voce e pra Fabiana, Clarice. Ele foi um ótimo companheiro. Mas sempre achava alguma coisa errada no cara. Nando, até a Fabiana gostava dele. Um belo dia Clarice mandou o sujeito andar, sem nenhuma explicação. _Vera, Você talvez não tenha ficado sabendo porque a moça aí mandou ele andar, mas eu sei. Fabiana me contou. Né, Dona Clarice?! – Sandra olha a amiga com olhar interrogativo. _ Duvido. Fabiana? O que Fabiana iria te contar que eu mesma não contasse? _Que você se encontrou, se “esbarrou” com “seu grande amor” numa tarde num barzinho, destes que você sabe que ele freqüenta, acompanhada de Celso. E só porque ele te fez algumas perguntas como: “quem era o cara”, “se iria se casar com ele” e fez comentário “que estava com saudades”... Essas coisas que todo vagabundo faz para deixar a gente de prontidão novamente, a sua disposição. Você ficou toda ouriçada e atônita com as perguntas dele sobre suas intenções. Ele vislumbrou uma fumaça no seu olhar. Assoprou e refez a brasa. Pos mais lenha na fogueira. Diz que é mentira, Clarice?! _Não foi bem assim... Realmente eu me encontrei com ele e contei pra Fabiana... Acho que esqueci de contar pra vocês... _Clarice, Clarice.... Quando uma porta se fecha, outra se abre. Ficamos olhando para a porta fechada, que não vemos aquela que abriu bem diante de nós. Não é por que você se decepcionou com um amor na sua vida anos atrás, que vai deixar de lutar para encontrar um novo amor agora, Clarice! Aquele momento se foi. Acabou. Seus parâmetros de amor são baseados “naquele amor” errado na sua vida, Clarice. Retome as rédeas. Sua mente é escrava de sentidos, de cheiros, sensações que foram excelente numa determinada época da sua vida. Relembrá-los é muito bom, faz sentir um frio na barriga. Tudo vem a mente com clareza de detalhes, né?... É uma sensação muito boa, eu sei. Mas tentar revive-los intensamente é outra história, Clarice. O sujeito já demonstrou por inúmeras vezes que não tem caráter, que quer fazer de você um fantoche. Ele puxa uma cordinha e você faz o que ele quer. Ele não A semiótica do amor Laura Botelho Página 36

te respeita. Outras portas se abriram pra você nesse longo tempo, mas você fica de olho naquela que se fechou... – Argumenta Fernando com semblante decepcionado. _Eu sei por que você nos “omitiu” essa informação. Sabia que iríamos reagir e fazer esse mesmo discurso que Nando está fazendo agora. Bem feito! Se tinha alguma dúvida a respeito desse cafajeste, ouviu da voz de quem melhor pode afirmar isso. – Responde Vera visivelmente irritada com a fraqueza da amiga. _Eu não contei por que não me lembrei gente... _ Sei, agora você tem memória seletiva! Só lembra daquilo que acha que “pode” se lembrar! - Responde Sandra levantando abruptamente da poltrona e saindo da sala para a cozinha, seguida pelos cachorrinhos.
O silencio se faz por alguns minutos. Sandra foi fazer mais café. Pergunta aos amigos se querem comer alguma coisa. Lembrou que tinha um bolo de fubá de alguns dias guardado sobre a geladeira. O recinto estava tenso. Clarice abre a bolsa e tira um papel e entrega a Fernando com a inscrição da academia de ginástica e aulas de ioga. Dela e de Fabiana

_Ioga? Que maravilha!! Que notícia boa, Clarice. – Exalta Fernando quebrando o gelo do momento. _Foi idéia de Fabiana. Ela tem algumas colegas que fazem ioga por recomendação médica. Sabe como é, abuso de drogas, separação dos pais, todo tipo de transtornos psicológicos. – Clarice se mostra orgulhosa da ação. _Muito bom, minha querida. Muito bom. Melhor ainda ter partido da Fabiana. É sinal de que ela se importa com o seu bem estar geral. A ioga é fantástica. Deveria ser prática obrigatória nas escolas. Um momento de relaxamento de meditação. – Afirma Fernando. _Pois é. Voltando ao começo da minha conversa. Ela disse aquilo tudo e ponderamos algumas coisas. Vamos sair mais vezes juntas. Só nós duas. Vamos jantar juntas daqui pra frente. Vou chegar mais cedo em casa. Vamos viajar... Vou me esforçar para fazer tudo dar certo para eu emagrecer e ter saúde, conseqüentemente mais disposição... _Sentiu? – Pergunta Vera se dirigindo a Sandra. _O que? _ Sandra, o rosto dela mudou. A voz mudou. Quando ela falou dos ajustes com Fabiana seu rosto corou. Sua fisionomia era de orgulho! – Extasia-se Vera com a sua própria observação. _ O corpo está sempre falando conosco, só precisamos parar para ouvi-lo, gente! Com certeza é possível ver isso. Pensamentos positivos geram energias positivas, meus amores!! Vamos analisar alguns exemplos específicos de pensamentos negativos. A raiva e a hostilidade, por exemplo. Quando ficamos com raiva, nosso organismo fica pronto ou para “fugir” ou para “lutar”, quando temos raiva, contraímos nossos músculos, ficam tensos, liberam adrenalina e fazem com isso aumentar o número de batimentos cardíacos e, simultaneamente, torna mais estreitos os vasos sanguíneos, o A semiótica do amor Laura Botelho Página 37

que aumenta a pressão arterial, entre outras coisas. A ansiedade também acelera o coração e faz a pressão subir, provoca tremores nas mãos, suor frio, peso no estômago e fraqueza generalizada. Enquanto que, quando sentimos alegria, tranqüilidade, ocorre um abrandar dessas energias. E eu estou sentindo você mais tranqüila, tô enganado? – pergunta Fernando. _Não, você não está enganado. Ninguém consegue te enganar!! _ Exclama Clarice beijando a testa do amigo. _Essa ansiedade produzida por esses encontros “involuntários” – Fernando faz o movimento de aspas no ar para enfatizar a palavra - com esse sujeito tem que acabar querida. Eu sei que vocês conviveram muito tempo juntos desde a faculdade de Arquitetura, muito jovens. O namoro de vocês vinha e ia ao sabor das opções dele. Nunca eram as suas. Você sempre ficou a disposição. Já parou pra pensar nisso Clarice? – Indaga Fernando olhando nos olhos de Clarice. _ Já Nando, já passei noites e noites pensando no papel ridículo que já fiz. Em tudo que passei sozinha quando tive Fabiana. Na decepção dos meus pais em levar a gravidez adiante... Já pensei em tudo isso, mas não é fácil virar uma chavesinha aqui na cabeça e mudar o canal... Meu pai até me ameaçou de cortar a grana se eu voltasse com ele. E o bonitinho não gosta de trabalho. E eu gosto de dinheiro... de bem estar. _ Se você reconhece tudo isso, porque não evita de vê-lo, de falar com ele, de procurá-lo em seus pensamentos? – Questiona Vera intrigada. _Verinha... eu não sei o que acontece! É mais forte do que eu. Pensei que na época que ele foi morar na Argentina, tudo isso iria acabar. Afinal foram 3 anos, 3 anos! mas não aconteceu dessa forma! Eu o vejo e minhas pernas ficam bambas, meu coração dispara. Não raciocino direito. Acho que vou envelhecer com ele na minha cabeça! Eu estou disposta a fazer lobotomia se for preciso!!! _Fabiana sabe que ele é pai dela, Clarice? _Sabe Nando. Nunca escondi dela. Engraçado que ela mesma se desliga dessa função. Não quebra a cabeça com esse fato ou se deprime por ele não a procurar e nem mencionar sua existência diante de outros conhecidos nossos.... É um canalha! _Acho que você sabia o que te esperava. Ou você acreditava que ficando grávida iria prende-lo a ti? – Sandra pergunta, mesmo sabendo que no fundo a resposta é afirmativa.
Clarice faz que não com a cabeça e mantém um olhar fixo e distante para o teto da sala.

_Bem, vamos ao que interessa! Vamos trabalhar! Como você poderá mudar esse comportamento? Como poderá melhorar sua vida daqui em diante? Vamos bolar estratégias. Sandra me arruma papel e caneta. Vamos escrever tudo que queremos construir, tudo que queremos alcançar. Nossos objetivos mais intrínsecos. Vamos construir nossa meta a partir dessas premissas. Vamos lá! Cada uma pega uma folha de papel e escrevam seus sonhos, seus desejos. Já!

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_ O que estamos fazendo Doutor? _ Pergunta Vera se divertindo com tudo aquilo. _ Nossos pensamentos criam todas as nossas experiências, nossas realizações e como nos movimentamos em situações extremas e como construímos nossos sentimentos. Quanto mais pensamos num determinado problema, situação, mas nos colocamos nele. Elas se tornam foco de nossa atenção. Passamos a gerar pensamentos e pensamentos são energias poderosas. Nossa energia constrói tudo que iremos experimentar no futuro. O que vamos fazer então. Vamos canalizar nossos pensamentos, nossa energia para aquilo que queremos e não para aquilo que “não” queremos. Clarice deixará de pensar em “não quero ficar gorda”, para “quero emagrecer, ter saúde!”. Deixará de pensar em “não querer encontrar, ver, se aproximar daquele sujeito” para “desejar, se empenhar, em encontrar o verdadeiro amor na sua vida!”. Vamos focar no que queremos e não no que NÃO queremos. Vamos mover nossas energias, vamos trabalhar para realizarmos o que desejamos com tanta força, com tanta vontade, que nada e ninguém, vai impedi-las de conseguir! Vamos focar nossa atenção em outro nível, num nível muito, mas muito elevado! Trabalhem meninas!
Todos levaram o exercício a sério, tão sério que nenhum comentário foi feito durante alguns longos minutos. Estavam compenetrados e focados nos seus próprios pensamentos. Até que por enfim, Vera quebra o silêncio.

_ E agora? O que faço com esse papel? Queimo num cinzeiro e faço uma dança em torno da mesa para atrair os espíritos da bondade e da temperança?! - Ironiza Vera. _Não senhora. Colocará a vista onde poderá encontrá-lo sempre. Terá acesso a esses desejos e focará por alguns instantes todos os dias suas metas. Trabalhará para realizá-los. “Nada acontece até que algo se mova” já dizia Albert Einstein. O que está aí escrito é só um roteiro para que você não desvie de sua meta. As pessoas querem tantas coisas. Mudam de idéia a cada minuto. Não focam naquilo que realmente desejam, por isso nada conseguem. Os pensamentos evaporam, sua energia se dissipa ao invés se ser canalizada e levada até seus reais objetivos. _Vocês querem ouvir o que eu escrevi? – pergunta Clarice empolgada. _Não! Ninguém comentará com ninguém seus ideais. Isso é particular e intransferível. Não esperem que alguém realize seus desejos por vocês. Essa tarefa é sua. Você tem esse poder. Ele está em suas mãos. Acreditem que podem e farão acontecer. Quem sabe daqui a uns anos abriremos esses papeis e poderemos ver o que conseguimos e o que não conseguimos e principalmente o por quê? – Interfere Fernando firmemente.
Dias se passaram até que Fernando foi visitar a Clarice e conhecer Fabiana sua filha, pivô de sua vida, alegria e preocupações.

_Olá! Que moça linda você é Fabiana! Deixa-me ver seus olhos... São verdes?! Que maravilha! – Extasia-se Fernando diante da bela adolescente. _Oi Fernando. Mamãe não pára de falar de você. Não tem outro papo aqui em casa que o assunto não seja “Fernando”! _Intrigas da oposição! – Brinca Clarice encabulada. Linda minha boneca, não é Nandinho? Razão da minha existência!!! – Clarice leva a cabeça da filha ao peito e a abraça durante alguns segundos. _Vocês duas são lindas, sabia! Que dupla! Os Italianos iriam ficar doidos com vocês. Morenas, brasileiras com seus corpos voluptuosos...

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_Você quer dizer com excesso de gostosura?! É. No momento estou com excesso de gostosura. Pretendo diminuir alguns centímetros dessa delícia escandalosa e ser um pouco mais modesta na minha abordagem visual. Que tal?! – ironiza Clarice fazendo gestos contornando seu corpo grande. _Isso aí! Basta tirar um pouquinho desse excesso de gostosura. Uns 40 quilos tá bom! – Implica Fabiana com a mãe. _ Ah... Bi, também assim não, né? Vou ficar um horror, magra demais. Minhas curvas vão se tornar retas, meus seios vão despencar. Você quer que eu suma!? _Acredito que você vai encontrar o peso ideal, Clarice. A nutricionista já não te disse a meta que você terá que chegar? Você vai ficar ótima. Com saúde o que é importante. – acrescenta Fernando elevando a auto-estima da amiga. _Então. O que você conta sobre você Fabiana? Sobre sua mãe eu já sei. Quero saber, conhecer você um pouquinho. _ Fernando encaminha-se ao sofá confortável do apartamento de Clarice, muito bem decorado. _Conhecer?... Nem minha mãe me conhece! _Bi, não é verdade! Eu te conheço muito mais do que você pensa. _Então me diga Fabiana. Do que você gosta, do que você não gosta. Do que você tem medo. Do que te faz feliz... – Questiona Fernando com ar de curiosidade sugestionável. _Ah... sei lá. Eu gosto de tanta coisa que não daria pra contar nessa tarde. _Bom, pelo menos diga 10 coisas que mais gosta. _Adoro meus amigos. Adoro ouvir música. Adoro minha mãe... – Fabiana faz uma pausa e olha com olhar infantil para Clarice que recebe a frase com emoção nos olhos. _Adoro animais, mas mamãe não deixa eu ter nenhum... – Clarice já ia se manifestar quando Fernando a encara com reprovação e a intimida a ficar quieta. _Gosto de pintar também. Sei lá. Gosto de tanta coisa... _Você disse que gostava de tanta coisa que não daria para enumerar até o fim da tarde e só conseguiu manifestar 5 destas coisas que você tanto gosta. Pense bem. Diga-me o que mais a faz feliz. _Posso te fazer uma pergunta? – Fabiana devolve a pergunta a Fernando. Esse faz que sim com a cabeça e sorri para Clarice com certa curiosidade. _ Por que você gosta de homens?
Clarice ponha as duas mãos sobre a boca tentando esconder a vergonha com a pergunta inesperada na atitude da filha. Fernando olha calmamente para Fabiana com um sorriso espontâneo e mostra a ela segurança de sua resposta sem sombra de constrangimento.

_Eu gosto de homens, de mulheres... Gosto de seres humanos. Gosto de gente. Gente inteligente. Gente bonita. Gente com vida. Gente com caráter, com arte, com graça e tudo mais que essa pessoa, seja ela do sexo masculino ou feminino, acrescente de bom na minha vida. Acho que o que você quer saber é por que gosto de ter relações sexuais com homens ao contrário do que a sociedade prega. A minha orientação sexual se faz a partir do mesmo sexo, ou seja, eu me alinho me sinto bem, sou feliz, tenho mais prazer com pessoas do mesmo sexo que eu. A homossexualidade não é um desvio sexual de comportamento. Tanto as Ciências Naturais como as Psico-Sociais confirmam: nada distingue um gay ou lésbica dos A semiótica do amor Laura Botelho Página 40

demais cidadãos, a não ser que: os homossexuais amam o mesmo sexo, enquanto os heterossexuais amam o sexo oposto. Essa diferença na orientação sexual de cada um é muito respeitada e protegida por Leis de países como a Suécia, Dinamarca e outros tantos povos civilizados nesse nosso mundo que você, com certeza, ainda vai conhecer. Você sabia que Freud, o Pai da Psicanálise declarou: "A homossexualidade não é nada que alguém deve envergonhar-se. Não é vício nem degradação. Não pode ser considerada doença!". Sócrates, Alexandre Magno, Leonardo Da Vinci, Miguelangelo, Shakespeare, Fernando Pessoa, Santos Dumont, Oscar Wilde todos eles eram “gays”, como este que vos fala. Não eram ignorantes, idiotas, carentes de instrução... Sua orientação sexual baseava–se em encontrar prazer com pessoas do mesmo sexo que pensavam como eles e desfrutavam de um amor e carinho recíproco sem barreiras sociais. As pessoas ignoram certas coisas. Têm a crença, acreditam que sexo entre homens “só pode ser feito” através de coito anal. Isso não é verdade. O sexo entre dois homens não necessariamente tem que haver essa atitude. Antes de tudo sexo é união, amor, carinho, amizade. Compartilhar esses momentos de prazer, é o que faz deles amantes. Eles se amam, estão se amando. Eu tive por muitos anos um grande amor da minha vida, que por acaso era do mesmo sexo. Poderia não ser. Poderia ser a sua mãe por exemplo. Mas eu amo Clarice de forma diferente. E sei que se estivéssemos morando numa mesma casa, eu me mataria no mês seguinte! Não dá! Não há sincronismo entre nós, não da maneira que eu desejo, que ela necessita. Casais heterossexuais nem sempre se ajustam. Não conseguem chegar a um acordo tanto no lado pessoal quanto no lado sexual onde é necessária uma perfeita união, uma bela harmonia entre duas pessoas para deixar de ser apenas uma “boa convivência”. Respondi sua pergunta? _Você é tão bonito. Mamãe disse que já namorou mulheres quando tinha minha idade... _É verdade. Não nasci homossexual, ou gay, como queira! Com o passar do tempo vamos conhecendo nosso corpo nossas zonas de prazer e descobrimos que certas afinidades só encontramos no corpo de determinada pessoa. Nesse caso, descobri que me sentia muito bem, gostava muito de me relacionar com outro homem, tanto no lado sexual quanto no lado pessoal. Desculpe-me o que vou falar Fabiana, mas as mulheres às vezes me deixavam louco! São muito complicadas. Todos riem com a afirmativa de Fernando. _Você é uma moça muito inteligente. Gosto disso em você. Essa espontaneidade em questionar e tirar suas dúvidas é muito bom. Não gosto de gente enrrustida. Faz de conta que não se incomoda com as coisas. Faz cara de paisagem com assuntos importantes. Eu também gosto de perguntar. Gosto de saber, senão, de que outra maneira vou poder crescer como pessoa? Com muitas informações tenho capacidade de peneirar o que me chega e decidir se concordo ou não concordo o que se afina com minhas crenças. As crenças são transmitidas dia a após dia na nossa convivência com a sociedade. Desde pequeno temos crenças a respeito de tudo, sobre religião, sobre como devemos agir na educação recebida por nossos pais e educadores.. Cada pessoa tem sua crença pessoal. Do que você acredita Fabiana? _Eu sou meio suspeita para falar dessas coisas... Não acredito em muita coisa. Nesse ponto sou parecida com minha mãe. Ela não acredita em todo mundo que conhece a primeira vista. Eu também não. A semiótica do amor Laura Botelho Página 41

_Essa é sua crença? Não acreditar em ninguém a primeira vista? Não condeno você por pensar assim. A nossa vida nessas ultimas décadas foi marcada por fatos que contribuem para que estejamos desconfiados de tudo e de todos. Na política do nosso país provamos essa afirmativa. _Mas segundo mamãe, você já conhece uma pessoa só de olhar. Né? _Digamos que posso perceber certas coisas que vocês jovens desconhecem, ignoram. Vocês até distinguem, mas não sabem como percebem o que vêem, e o que sentem, desconhecem os valores e se apegam as crenças que nós, os mais velhos, imprimimos na personalidade de vocês. _ Nando, agora que você falou nisso me lembrei de perguntar a você sobre um detalhe. Não sei se pode determinar a causa, se tem fundamento o que quero saber. – pergunta Clarice quebrando o raciocínio de Fernando. _ Fabiana ultimamente tem estado com o rosto cheio de espinhas. A acne é normal no início da adolescência eu sei, mas de uns meses pra cá a aparição dessas espinhas no rosto dela tem estado muito crítica. Nunca ficou assim antes. Já falei para ela parar de comer chocolate, evitar gorduras, mas não melhora. O que você pode nos dizer a respeito dessa aparência num corpo de um jovem, por exemplo? Alguns jovens não têm espinha, não tanto a ponto de incomodar sua auto-estima. Já outros ficam cobertos de acnes e acabam marcando o rosto... _Crenças Clarice. Crenças querida. Essa crença de que chocolate e gordura exarceba o aparecimento de espinhas não é verdade. A verdade tem haver com o estado emocional da pessoa naquele momento. Uma visão pessimista da vida é um dado forte. A pessoa, na maioria das vezes, se sente incompreendida e está sobre forte pressão. Por ser extremamente crítica com ela mesma e com os outros, tem dificuldade em se aceitar. Sua individualidade pode estar sendo ameaçada traduzindo “na cara” suas expectativas. Não é à toa que o problema surge na adolescência, fase em que os jovens se sentem incompreendidos pelo mundo e cheios de conflitos. Clarice olha fixamente para Fabiana e ambas trocam olhares em silencio por instantes. _É muito comum nessa fase da adolescência alguns episódios serem mais fortes do que no decorrer de toda nossa existência. Roer unhas por exemplo. Eu roia unha demais quando pequeno. Tanto que conseguia machucar de tal forma que não podia segurar nada. O dedo ficava em carne viva. Esse hábito horroroso denuncia ressentimento e mágoa de pais ausentes ou repressores. Você sabe da minha história, nem preciso dizer por que eu agia daquela forma. Sabe que nunca mais roí as unhas? Engraçado isso, né? Estou curado!!! Estou curado!!! – brinca Fernando para relaxar o ambiente. _Criamos todas as "doenças" de nosso corpo, minhas queridas. Nosso corpinho traduz nossos pensamentos e crenças interiores. Segundo a Doutora Louise Hay, “O corpo está sempre falando conosco, só precisamos parar para ouvi-lo.” _Tenho uma amiga que está meio doida. Ela diz que está gorda. Vive em frente ao espelho. E não é bem assim. Nas conversas, só sabe falar sobre técnicas de emagrecimento. Exercícios de 5 horas na academia, remédios e tudo mais. No outro dia desmaiou na escola. Os pais dela foram chamados e só então nós descobrimos que ela já fazia tratamento com Psicólogos porque estava desenvolvendo aquela A semiótica do amor Laura Botelho Página 42

doença, que a pessoa enfia o dedo na garganta para vomitar o que comeu... – Fabiana ilustra a idéia levando o dedo a boca aberta. _Bulimia. Bulimia é o nome que se dá a esse conjunto de sintomas. As pessoas que tem essa doença têm vergonha de seu problema e não contam tudo o que fazem para os conhecidos, nem mesmo para os amigos íntimos. Eles até sabem do absurdo que estão fazendo, tem consciência, mas não conseguem controlá-lo. Sua baixa estima as leva a ter ódio de si mesma e se auto punir por isso. Esses episódios são feitos as escondidas é muito difícil que alguém note o que estão fazendo consigo mesmo. O que muitos desconhecem ao praticarem a indução do vômito é que não vão perder apenas o que se comeu, como se fossem resolver seus problemas facilmente, mas infelizmente os sucos digestivos. A perda desses sucos digestivos pode acarretar desequilíbrio no balanço dos eletrólitos no sangue, afetando o coração, por exemplo, que precisa de um nível adequando dessas substâncias para ter seu sistema de condução elétrica funcionando. As conseqüentes passagens do vomito, que é muito ácido, pelo esôfago acabam por feri-lo, podendo provocar sangramentos. A face fica inchada e dolorida com inflamação nas glândulas salivares. Os ácidos gástricos por serem altamente corrosivos destroem o esmalte dos dentes, deixando-os frágeis para obtenção de cáries. Sem falar na desidratação, dores musculares e câimbras... É necessário ajuda profissional. Não se sai de uma doença desta pelo simples fato de explicarmos as conseqüências dela. Um suporte psicológico é fundamental. Como disse antes, nós criamos as doenças. _Nossa... Eu não sabia que era tão sério assim. Achei que o simples fato de vomitar aliviava a pressão. A culpa pelo excesso... – Fabiana fica apreensiva com o que ouviu de Fernando, pensativa abaixa a cabeça num ato de pesar e Clarice, sem que a filha visse, pronuncia com toda clareza a Fernando uma única palavra omitindo seu som. Ela disse – “Obrigada”!
A tarde passava tranqüila. Falaram sobre tudo. Fabiana parecia estar apaixonada pela figura de Fernando também. Até que a campainha tocou. Clarice foi atender meio surpresa, pois não esperava ninguém aquela hora e mais estranho ainda estar alguém a porta sem ter sido anunciado pelo porteiro. Fabiana adianta-se levantando do sofá indo atrás de Clarice em direção a porta, pois já sabia quem poderia ser. Avisara a portaria que orientasse o namorado a subir diretamente ao seu apartamento assim que chegasse. O rapaz é recebido por Clarice, que visivelmente o faz entrar meio constrangida. Fabiana segura a mão do jovem que tem um piercing na língua, no lábio inferior, tatuagem visível pelo pescoço e braços que pareciam sair por dentro da camiseta negra que estampava um desenho em vermelho, confuso a primeira vista, mas com um olhar mais atento podia se ver a figura de um diabo em meio a rostos humanos. Cabelos desalinhados e aparentemente sujos. Um odor de cigarro tomava conta do recinto com sua presença. Um misto de fumaça com roupa suja. O presente ser, era um estereótipo abominável, bizarro modelo de juventude do século vinte e um, razão que faria qualquer mãe, de mocinhas adolescentes, tremer, pensar em mandá-las para um convento na Suíça! Com uma figura dessas no meio da sala de estar da casa não há mais nada a ser dito. Fernando prontamente levanta-se para cumprimentar o recém chegado.

_Fernando, esse é meu namorado, Kuilo. Kuilo. Esse é o amigo de mamãe. _Muito prazer. – Fernando estende a mão rapidamente para cumprimentar o rapaz que não responde com tanta espontaneidade assim. Leva alguns segundos para retribuir o cumprimento como forma de protesto a figura reluzente de Fernando. Um clima pesado instalou-se por instantes no recinto. Um silêncio aterrorizante se fez com olhares recíprocos entre Clarice e Fernando. Fabiana conduziu o namorado para A semiótica do amor Laura Botelho Página 43

o interior do apartamento, levando-o para o seu quarto, como atitude comum entre eles. _Preciso dizer mais alguma coisa? – Pergunta Clarice com semblante preocupado. _Não... uma imagem vale por mil palavras! – responde Fernando brincando com Clarice. _O que eu faço Nando? Pelo amor de Deus... que eu faço? Agora eles vão ficar lá no quarto por horas até ele se cansar e ir embora... Eu nem sei como é o som da voz desse garoto! _Minha querida... Temos que rever os valores dessa mocinha... Temos que rever seus valores também Vocês tem que ter uma filosofia, uma atitude ou posicionamento perante a vida. Há quanto tempo eles estão se relacionando? Não digo namorando, mas desde quando eles se conhecem e como se conheceram? _Não sei te dizer com certeza Nando... Ele freqüenta aqui em casa há pouco tempo. Tem o quê? Umas três semanas... Não chega a um mês. _Você sempre permitiu a Fabiana de levar seus namorados pro quarto dela? _Esse, que eu saiba, é segundo namorado que ela trás aqui em casa. O anterior era um amor... _Clarice. Jovens têm que respeitar regras. Namorar no quarto não deve ser aceito, mesmo que o rapaz seja “um amor”... Você permitiu o primeiro. Como vai proibir o segundo? Ela não sabe, não tem parâmetros para avaliar ainda o que é certo ou errado na vidinha dela, minha amiga. Essa postura deve partir do mais velho, daquele que sabe mais de determinada situação. Os jovens dessa geração acreditam que o mundo é um clube de hedonismo, buscam o prazer imediato, individual, como única e possível forma de vida, evitando tudo o que possa ser desagradável. Eles não toleram blá, blá, blá de mães, porque essas mães não se dão ao respeito. Não colocaram ordem na casa desde que eram pequeninos. Mudar as regras agora, no meio do campeonato... Clarice! Essa nova geração do milênio, a geração w.w.w ou geração Y, como muitos especialista denominam, apresentam dificuldades com autoridades. São questionadoras. Você viu como desviou o assunto sobre ela para mim? Com uma sutileza de elefante! Eles são reivindicadores de seus “direitos”, mas não percebem os direitos de terceiros. Eles estão acostumados a terem acesso a muita informação e conquistar o mundo com um simples toque do mouse. São impacientes e imediatistas Clarice. São inteligentes o suficiente para descobrirem por conta própria ao em vez de serem ensinadas, mas... Não sabem avaliar, não tem maturidade para entender o que “aprendem”. Eles com isso, tem seus pontos de vista, conforme a comunidade a que pertençam, e vão adotar e ser intolerantes com aqueles que não estiverem de acordo com seus conceitos, suas próprias crenças. No fundo minha querida, eles necessitam, precisam de regras, mas antes de tudo necessitam perceber claramente o seu papel naquela comunidade, seja na sua família, na escola, no trabalho ou entre seu circulo social. Querem coerência nestas regras, honestidade, justiça e comportamento ético de seus superiores. _Infelizmente não entendia dessa forma. Acreditei que criando um filho com muito amor, isso bastaria... Regras, punições, autoritarismo não pareciam sinônimo de amor, mas hoje vejo que existem outras maneiras de dizer “amo você”.

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_Saber dizer não, é uma forma de amar, Clarice. Você tem que aprender a negar e não aprender a como “dizer não”. Como dizer “não” você já sabe, mas aprender de forma a preservar a convivência com sua filha e, conseqüentemente, com você mesma, isso precisa ser aprimorado. A culpa é um dos sentimentos mais incômodos e do qual a maioria de nós sofre, seja por algo que fizemos, seja por algo que deixamos de fazer. A sensação de culpa é, inclusive, a maior responsável pelo receio que temos de dizer não, e você está passando isso para ela. _Estou mentindo o tempo todo, eu sei. Eu sempre concordo com as coisas que ela faz, porque só assim me alivia a burrada que fiz todos esses anos... _O filho deve identificar coerência nos conselhos e orientações que recebe. Pais não devem ensinar uma coisa e fazer outra muito diferente. Coerência Clarice. Coerência é tudo que ela espera de você. Somos nós que ensinamos aos nossos filhos a não dizer a verdade. Somos nós que passamos para eles nossas ansiedades e frustrações. As nossas mentiras têm como um dos objetivos o desejo de não o decepcionar. E voce mente o tempo todo. Você mente pra si e pra ela para não decepcioná-la. Acredita que a coisa está fora de controle, mas faz de conta que não está vendo nada. É incapaz de dizer não para não tê-la como inimiga. Mas por outro lado isso lhe faz um mal terrível. Sua saúde está em risco e o que é pior, a sensação de impotência se torna cada vez maior e maior a cada dia. Ela por outro lado também se sente desamparada, sem uma base para a construção de seu caráter. Nosso caráter é resultado de nossa conduta, já dizia Aristóteles. Então, onde está a vantagem nesse seu procedimento? Ambas saem perdendo. Portanto, saber dizer não, minha adorada, é uma das medidas mais preventivas para preservação de nossa saúde. Proceda com honestidade e estará contribuindo para sua felicidade e a de Fabiana. _Acho que vou começar agora. Você aguarda um minuto Nando?
Clarice vai em direção ao quarto de Fabiana e demora alguns bons minutos até que ela volta com o casalzinho. O rapaz se despede da namorada e faz um sinal de OK com o polegar para Fernando e sai do apartamento do mesmo modo que entrou - mudo. Fabiana parece calma, sem nenhum esboço de contrariedade. Elas voltam em direção ao amigo que aguarda com certa apreensão. Clarice pede a Fernando que sente a mesa de jantar, pois a empregada servirá um delicioso lanche para eles. O clima parece ter ficado menos tenso depois do café e dos bolinhos. Novamente acomodados nas confortáveis poltronas da sala de estar a conversa volta com ares de reinício das aulas. O mestre sorri tranqüilamente para as duas que o observam com um olhar de profunda paz interior.

_Fabiana, Kuilo... Eu já estive por um tempo em Angola e tinha uma localidade chamada Kuilo. Tem alguma coisa em comum com o nome do seu namorado? _Não é nome Fernando – Ri Fabiana da ingenuidade do mestre. O nome dele é Silvio. A mãe dele trabalha na área de saúde e foi para Angola fazer um trabalho comunitário por lá que seria muito importante na carreira dela, daí conheceu um cara Angolano e ficou grávida. Ela é toda riponga. Muito doida, mas muito legal. Aí ele nasceu lá em Kuilo e o pessoal zoa ele com isso. Ele é Angolano sim.Tem gente que nem sabe o nome dele. Só conhece por Kuilo. _Eu gosto do nome. KUILO. Diferente. – Complementa Clarice. Mas a aparência Bi... Você não sente o mau cheiro dele? Ele empesteou o ambiente. De onde voce conhece o Kuilo? _Ah mãe, ele é amigo dos meus amigos. Sei lá, acho que foi numa festa na casa da Flávia. Não lembro. Daí um dia, nos encontramos na praia e ele me convidou pra sair e rolou... Mas porque isso agora? A semiótica do amor Laura Botelho Página 45

_Acho que você está se contradizendo um pouco. – retoma a conversa Fernando. _ Não são as duas moças aí que dizem não confiar em ninguém a primeira vista? Como é que funciona essa “triagem” de vocês? _Como eu disse antes, eu já o conheci numa festa, mas não fiquei com ele. Não rolou. Só depois, muito depois é que conversamos, aí eu achei ele um cara legal. – Conclui Fabiana. _E com o passar do tempo você achou ele um gato com aquela tatuagem pelo corpo, piercing na língua e aquele fedor de gente que não é muito chegada a um banho? Questiona Clarice. _Gente, a parecia não é tudo! Não se julga um livro pela capa! Vocês já ouviram isso antes?! – Responde com certa impaciência a menina. _Ele é legal. Me faz rir. _Ele é legal! Essa é a descrição que faz dele. Bi, me preocupo com todo o resto do pacote. Realmente não devemos julgar ninguém pelas aparências, quem o faz vai quebrar a cara sempre, como eu. O problema aí é que existem outras coisas por trás dessa “aparência” do seu namorado que me deixa preocupada. _O que sua mãe está tentando dizer Fabiana, é que certos emblemas universais são característicos, são marcas da expressão de um povo, de uma cultura. Como por exemplo, a tatuagem, o piercing, a maneira de nos vestir, a maneira de nos apresentar. Vestir-se conforme a expectativa alheia é uma maneira de expressar nosso respeito por uma situação social e pelas pessoas que ali se encontram. O que cai por terra a primeira virtude do seu amigo. Não respeitar as normas da boa convivência. As pessoas sempre usam sua roupa a e sua aparência para mostrar quem são. E ele o faz com muita veemência. Seu corpo evidencia marcas da sua personalidade. Me parece que ele não é muito comunicativo e tem dificuldade em expressar o que sente. Tatuar o corpo e fazer uso do piercing foi a forma que encontrou para se manifestar. _É verdade. Ele é meio caladão mesmo. _ Concorda Fabiana com a sentença de Fernando. _ No Brasil, índios e negros foram os principais atores sociais que representaram a tatuagem como etnografia. A tatuagem na Roma antiga era usada para marcar os escravos. Não faz muito tempo, lá pelos idos dos anos 70 no Brasil, a tatuagem em geral, era vista como marcação restrita à escória social e às camadas mais simples, representadas por marinheiros, presidiários, prostitutas, mas hoje essa atitude tornouse comum entre os jovens que desconhecem a história da tatuagem e não entendem o por quê das pessoas mais velhas se chocarem ao ver um jovem todo tatuado. A tatuagem é um emblema muito forte, assim como o piercing. O piercing possui um sentido de auto-afirmação, associada à personalidade do indivíduo. Pode manifestar repúdio por alguma coisa ou alguém, ou uma simples excentricidade e rebeldia. Para sua tribo, sua comunidade, sinaliza força e coragem. Ousadia. Todo e qualquer objeto relacionado com a pessoa adquire uma linguagem própria e esses são na verdade mais uma das tantas maneiras que os jovens usam em seus ritos de passagem para a vida adulta, assim como o uso excessivo do fumo e do alcool. _Nossa! Eu não sabia sobre a história da tatuagem. É por isso que voce não me deixou fazer uma mãe? Lembra quando eu te pedi para fazer aquela tatuagem de borboleta no tornozelo? Voce me enrolou, me enrolou e eu acabei esquecendo... O

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piercing eu é que não quero mesmo. Sou covarde, eu assumo. Tenho horror dessas coisas me furando. – Eufórica, Fabiana se envolve com tudo que ouve de Fernando. _Bi, essa coisa da tatuagem é forte demais pra mim. Quando voce tiver idade para decidir sobre sua vida, voce faz uma na sua testa, na bunda, onde achar melhor, mas nesse momento da sua vida, eu sou responsável por sua integridade física e moral. Voces se deixam levar pelo movimento de massa. “Se todo mundo faz eu também quero fazer”. E não é assim que as coisas funcionam. Eu quando tinha sua idade quis ser hippye, no auge do movimento na minha geração. Todo mundo parecia querer ser Hippye. Minha mãe ficou doida comigo. Eu queria protestar contra tudo e contra todos. Não quis mais estudar, só queria estar com meus amigos dormindo ao relento e comendo lixo na rua. Mas graças a Deus meus pais foram mais fortes do que eu e não deixaram que eu fizesse essa besteira que poderia ter consequencias sérias na minha vida. Tenho amigas que não tiveram essa sorte de ter pais zelosos e com pulso firme e se entregaram ao vício e a prostituição. Hoje elas carregam mais esse peso em suas bagagens. A vida já é dificil de se levar sem erros graves do passado. Vamos tentar não piorar as coisas daqui pra frente. OK? _Adorei e aplaudo de pé sua postura minha cara! Bravo! Bravíssimo! Estou orgulhoso de voce Clarice.! _exclama Fernando já se levantando para sair. _O que é isso? Já vai? Ah.. Nando. Agora que peguei o jeito. – Ri Clarice da mensagem que enviou. _Amorzão eu preciso ir. Combinei que iria fazer um jantarzinho especial pro Fred. Ele está tão tristinho ultimamente. Acho que a ficha tá caindo. Só agora ele está se dando conta que o dia de sua partida está chegando e que vai mesmo embora e que vai deixar pessoas que ele ama por um bom tempo. Eu sei o que é isso. A sensação é horrível. Por um lado tem se a euforia de fazer uma coisa nova. Conhecer novos mundos, mas dá um nó na nossa cabeça. Temos medo do desconhecido. Isso nos assusta. Mas eu quero saber mais de voce Fabiana. Adorei te conhecer e fiquei muito emocionado de saber que voce procurou levar sua mãe para fazer Ioga. Com isso vão aprender a meditar. Medtamos para encontrar a sabedoria e retornar a felicidade. Os conflitos e desafios da vida empurram esse estado para um quarto escuro da nossa mente. Precisamos resgata-lo com concentração e muita paz. Por maiores que pareçam nossos problemas, por mais estressante que sejam nossas vidas, alguns minutos diários de ioga irão fazer muita diferença, e irá ajudá-las a superar eventuais problemas futuros. Quero as duas malhando, cuidando do corpo e da mente! _Fernando, eu gostei muito de você. Do jeito que você fala parece que tudo tem uma explicação na vida. Dá uma sensação boa ouvir você falar sobre coisas que não entendemos. Queria que fosse ao meu colégio dar uma palestra pro pessoal sobre essa coisa da impressão que causamos a primeira vista, os riscos das nossas atitudes em relação ao nosso corpo. Essa coisa da comunicação me atraiu. Quero estudar isso. Queria fazer Educação Física, mas acho que vou procurar saber mais sobre tudo que você sabe. _A pesquisa em comunicação resulta de cinco diferentes disciplinas: A Psicologia, a Psiquiatria, a Antropologia, a Sociologia e a Etologia, Fabiana. Tem que estudar muito. Saber, entender a comunicação entre seres humanos é um tema muito legal. Eu A semiótica do amor Laura Botelho Página 47

sempre fui apaixonado por tudo que me desse entendimento sobre as atitudes dos homens com o meio a que vive. Por que ele se veste daquele jeito, por que age daquela maneira. Por que não se aceitam e não aceitam o próximo. Viajei muito. Conheci muita gente estranha, muita gente interessante, muita gente que você não acredita que exista! Se você se encaixa nessa descoberta, nessa procura por respostas vá em frente! É um mundo fantástico. É a base da nossa existência. E depois com o tempo vai poder sair por aí, que nem uma louca, filosofando sobre a vida que nem eu estou fazendo agora!. Eu estarei a sua disposição para qualquer coisa, conversar, dar palestra, ou somente te ouvir. Vai ser um prazer muito grande. Me diga a hora, o lugar . I wiil be There! Linda! _Vou marcar com a direção da escola, OK? Vai ser muito bom! Vou prepara com o pessoal, perguntas que mais nos incomodam, que não entendemos direito e vou passar pra você poder preparar a aula. Tudo bem? – Pergunta Fabiana visivelmente ansiosa com tudo aquilo. _Tudo certo. Quem sabe sua escola não abre um horário no currículo escolar para a disciplina da Interação Humana como forma de esclarecer os jovens e abrir a cabeça dos pais para tudo que os cercam. Com certeza, vocês serão pais mais conscientes e participantes da educação dos seus filhos do que os da minha geração. – Fernando beija a testa de Fabiana e vai em direção a porta de saída e é conduzido por Clarice até o elevador do Hall. _Obrigada, obrigada, obrigada Nandinho.... Nossa, nem sei como agradecer sua vinda aqui. Acho que entendi como devo conduzir as coisas daqui pra frente. Terei que aprender a conduzir realmente e não deixar ser conduzida. Minha vida estava um caos até você aparecer. Acho que alguém lá em cima te mandou até nós. Meu anjinho Italiano. _Meio Italiano, Clarice. Papai era Italiano e mamãe brasileira. Fernando Barros Scolate as suas ordens. Um anjo com dupla cidadania. Um anjinho meio afrescalhado, mas os querubins parecem meio... _ Fernando vira a mão fazendo gestos afeminados para brincar com Clarice. Ambos se abraçam quando o elevador chega.
Dia da partida de Fred para a Itália. Fred pega suas coisas no hall de seu apartamento e é seguido por Fernando que leva suas malas. Já no interior do Táxi, Fred segura a mãos de Fernando e entrelaça seus dedos nos dele. Ambos evitam se olhar. Mas os olhos os traem. Suas lágrimas descem e uma forte dor cortar o fundo de suas gargantas.

_Não esquece o pessoal. Eles estarão te esperando no aeroporto com uma tabuleta rosa enorme com seu nome e uma bandinha folclórica!! - Brinca Fernando para quebrar a tensão do momento. _E me liga assim que chegar. Tadeu vai levá-lo até o seu Hotel, não precisa se preocupar com nada... _Já sei meu querido, já sei. Você tá parecendo minha mãe na minha última excursão do colégio, Fernando! _Desculpe. Acho que estou mais apreensivo do que você com tudo isso. Gostaria de estar lá para te mostrar tudo. Você vai amar cada segundo... A semiótica do amor Laura Botelho Página 48

_Você vai logo em seguida, né? Você me prometeu Fernando. Resolve o negócio do apartamento e vai embora. _Calma Fred. Passar o aluguel do apartamento para frente é o de menos. Isso é fácil. O problema agora é contar para as meninas que vou embora de novo. Elas têm tantos planos, tantas expectativas para o futuro. _Meu amor, elas sabiam que você não iria ficar para sempre. Que papo é esse agora... _Eu sei, mas elas não esperavam que eu fosse embora a menos de dois meses Fred! Para elas, minha volta se daria no mínimo daqui a um ano. A gente já conversou sobre isso. É o tempo de você se ajeitar lá e eu estarei chegando. Não vai demorar nada. Vai ver. – Fernando aperta a mão de Fred e a leva ao seu peito com carinho, acalmando o
outro. No aeroporto as meninas aguardam a chegada dos dois com a maior euforia! Gritinhos e abraços intermináveis se fazem até que Fred some entrando na sala de embarque do seu vôo para Itália. Juntos, seguem atentos o avião até que não haja mais campo de visão no grande vidro do aeroporto.

_Então. Vamos pra minha casa? Não quero ficar sozinho hoje. Sozinho de novo! Minha vida parece um grande salão de aeroporto. Pessoas chegam. Pessoas se vão. E eu fico, aguardando o embarque e o desembarque desses seres maravilhosos... – Desabafa Fernando, num abraço que cerca todas as três amigas em seu peito. _Claro. Você não vai ficar sozinho, nem hoje, nem nunca, Amore mio!!! Sandra. - Afirma

Dias depois Sandra atende ao telefone. Fernando marca um encontro na casa dela para conversar com a amiga, mas sem mencionar o teor dessa conversa. Sandra fica meio intrigada e responde que estaria em casa naquele dia. Tenta, sem êxito, saber o que tanto ele queria lhe falar. Fernando não adianta nada. Sandra fica tensa. A campaninha toca. Os cachorrinhos latem e pulam sentindo a presença de Fernando por baixo da porta. Estão eufóricos. Não sabem o que fazer para chamar a atenção do grande amigo brincalhão. Recebem carinhos nas orelhas. Beijos. Carícias na barriga, mas nada é suficiente para acalmar a alegria da visita de Fernando.

_Fala São Francisco! O que foi? Porque esse mistério todo? Estivemos juntos ontem. O que aconteceu? Estou ficando nervosa com essa audiência marcada! – Sandra explode de ansiedade ao vê-lo. _Calma Sandrinha... que bicho mordeu você? O bicho da curiosidade? Mata, mata! – Fernando dá uns tapas na bunda de Sandra como se estivesse matando um inseto no seu corpo. _Você nunca liga agendando uma conversa. Só pode ter encrenca a vista. _Minha querida... Eu liguei porque o que eu tinha para falar com você não deveria ser dito no caso de ter somente alguns minutos ao meu dispor. Preciso discutir um tema com a senhora e quero sua opinião. Se você não tivesse tempo pra mim hoje com certeza eu não iria começar o assunto e terminar no outro dia, como nós fazemos. Quero sua resposta hoje! Nuestro momento! Capicche cara mia? _Vai. Fala! É sobre Clarice?

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_Não. Vim aqui para te dizer que vou voltar para Itália. Estou negociando o apartamento para alugar. Fred já falou com um casal amigo dele que vai se casar por esses dias pretendem ficar com o apartamento, e se mais tarde Fred quiser vende-lo, o casal está na fila. Eles ficaram loucos com o imov.... – Antes que terminasse a frase Sandra interrompe o amigo. _Vai embora? Mas você acabou de chegar Amore. Nós íamos viajar até o Sul para encontrar seu irmão... Tantos planos... Você está sem dinheiro? _Não, minha querida. Não se trata disso... Eu e Lorenzo montamos uma empresa de consultoria que vai de vento em polpa em Milão. Esses anos todos consegui juntar capital suficiente para não precisar trabalhar até eu ficar bem velhinho... Os meus negócios particulares e os da firma eu administro com um Lap Top e uma Web Cam. Se acontecesse algo muito importante eu iria lá num pé e voltava no outro. Deixei gente competente trabalhando pra mim. O dinheiro não é o problema Sandrinha. _Se não é dinheiro, por que a pressa assim? – Sandra contesta sem dar folga para o amigo que está visivelmente constrangido. _Amore, olha só... – Fernando prende as duas mãos de Sandra entre as dele quando fala. Olha nos olhos dela com atenção de um pai com a criança. _Não há pressa, o que há é a necessidade de estar num lugar onde meu coração quer estar nesse momento. Tive necessidade de estar com vocês e vim correndo. Agora tenho a necessidade de estar com o Fred. Nesse pouco tempo que passamos juntos dividindo o apartamento descobrimos que existem enormes compatibilidades entre nós. Isso é tão difícil entre casais hoje em dia. Ele é muito inteligente. Carinhoso. Prestativo. Preocupa-se com os mínimos detalhes para transformar um simples dia, num dia glorioso. Ele tem um carisma Sandrinha... Não estou afirmando que nosso relacionamento vai dar certo... Mas quero desesperadamente que dê, e farei o que for preciso para dar certo! Mas para isso, preciso me empenhar nesse relacionamento, preciso estar perto. Fred precisa de mim lá na Itália. Foi uma tremenda coincidência tudo isso. Parece coisa lá de cima. – Fernando aponta para o céu e olha por alguns instantes pro alto como se esperasse uma confirmação de sua dúvida. Acho que Lorenzo está intercedendo nisso tudo. Não está vendo? _É. Foi tudo mundo estranho até agora. Sua vinda, sua ajuda com Clarice, bem no momento em que ela está muito mal. E para falar a verdade, eu já estava entrando numa depressãozinha básica até que você me escreveu dizendo que estava voltando. Esperei tanto por isso que minha vida teve outro significado... Agora que vai embora... eu não sei como vai ser... _Sandrinha, presta atenção. Eu quis vir aqui falar com você com calma justamente para poder trocar uma idéia que tenho e queria sua opinião. Na verdade opinião é pouco. Quero uma resposta afirmativa. Quero um sim maravilhoso!!! Sim, sim, amore mio!!!! _O que? Você vai me pedir em casamento agora? Tô topando qualquer coisa. Até me casar com o meu melhor amigo, mesmo que nunca façamos sexo!! _Você não está falando sério... Eu jamais desejaria isso pra você. Casar-se com alguém por uma necessidade, só para não ficar sozinha ou tornar a vida mais “agitada”... É um preço alto demais, Sandra. _Sei lá.... nada acontece de bom na minha vida. Quando acontece, dura tão pouco... _Então ouve a minha proposta. Vamos para Itália! Peça a direção da sua escola para te dar um tempo. Tranque a matrícula por uns meses. Faça as malas. A semiótica do amor Laura Botelho Página 50

_Tá louco? Como vou ver passaporte, visto e pedir licença no Estado, tudo assim tão rápido? Isso vai levar meses.... E meus filhos? não posso ir sem eles, não tenho com quem deixá-los. Meses? – Sandra olha para eles com olhar triste e os agarra como se alguém fosse tirá-los dela. _Sandrinha. Que isso? Nunca passou pela minha cabeça de levar você para longe e deixar seus filhos para trás! Pelo amor de Deus! Nós vamos levá-los também! Vamos levar a família toda, minha querida! Ninguém ficará pra trás. E quanto ao passaporte, visto e a licença, vão dar entrada essa semana e eu esperarei o tempo que for preciso. Se você realmente quiser ir comigo, eu esperarei o tempo que for necessário. Pense o quanto será maravilhoso você dar um passeio pela Europa, conhecer gente nova, aprender novas línguas, fora o fato que me dará o maior prazer em retribuir o carinho que me deu em sua casa. Você vai amar Milão! Os meninos vão adorar as cadelinhas italianas! Então? O que me diz de tudo isso? _Não sei... já ouvi dizer que cães com idade avançada não se dão bem com mudanças de ambiente. Acho que isso afetará a vida deles. Casa diferente, hábitos diferentes, cheiros diferentes... Será que tudo isso não vai fazer mal a eles, Nando? _Podemos falar hoje com algum veterinário, mas acho isso tão sem fundamento, afinal, vão estar com você, é o que importa para eles.
Sandra diz ao amigo para dar aquela semana para ela pensar em tudo. Procurará o melhor veterinário da cidade para ver as possíveis implicações na saúde dos cachorrinhos nessa mudança de país. Fernando a deixa muito angustiada. Está arrependido em ter que levar essa proposta adiante. Tem medo que Sandra não queira ir por causa dos cães e entre em depressão por sua partida. Uma situação bastante tensa para todos. A semana passou e Sandra não deu resposta a Fernando. Ainda queria pensar um pouco. Fernando fez outra proposta para Sandra. Para não pressioná-la Iria na frente e voltaria somente para pega-la quando tudo estivesse em ordem. Deixaria a passagem paga, dela e dois cachorrinhos. Seria melhor para todos, sem estresse de ambos os lados. Sandra poderia se organizar com todas as providencias em relação a passaporte, visto, licença no trabalho, com a manutenção do seu apartamento e as informações de melhor cuidar dos animais fora de seu habitat, e de quebra, a deixaria empolgada com tantas coisas para fazer que esqueceria da solidão causada na ausência do amigo. Suas amigas não podiam lhe dar tanta atenção, pois ambas tinham suas famílias e seus afazeres. Tudo estava indo bem. Fernando entregou o apartamento aos novos moradores e agora partia para o aeroporto com destino a Itália. As meninas ficaram de se encontrar com ele no saguão do aeroporto para as despedidas. Vera, Maurício, Clarice e Fabiana chegaram e abraçaram o amigo com olhar de tristeza, mas muito carinho.

_Cadê Sandra? Ela não veio junto? Não consegui falar com ela desde ontem. Fiquei por conta de mostrar o funcionamento do imóvel para o casal e resolver outras tantas coisas que acabei dormindo, desmaiei. Liguei para ela hoje de manhã quando saí, mas não tinha ninguém em casa. Essa nossa amiga é muito atrapalhada! _Os cachorrinhos não passaram bem ontem a noite, Nando. O Diogo vomitou o dia inteiro e o outro estava com diarréia. Acho que ela passou a noite no hospital veterinário. – Conclui Clarice. Soube disso bem tarde da noite, quando ela me ligou do celular, perguntei se não queria que eu te avisasse, mas ela insistiu que não, pois sabia que você tinha que descansar para longa viagem e aquilo poderia levar a noite toda até eles ficarem bem. Perguntei se não queria que eu fosse pra lá ajudá-la, mas não me deixou, sabe como é a Sandra. Disse que estava sobre controle. Eles já estavam medicados. Era só o tempo deles se estabilizarem ela iria para casa.

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_Que maluca!!! Por que não me avisou? Que merda! – Grita Fernando. Liga pra ela agora. Pergunta onde ela está.
Clarice liga para Sandra do seu celular. Ela não atende a primeira chamada. A ligação cai. Tenta de novo. Ela não atende. Fernando pede para insistir. Enfim ela atende. Clarice pergunta onde ela está e como estão os cachorrinhos. Clarice fica com olhar fixo para o nada. Os olhos se enchem de lágrimas. Todos ficam atônitos com a sua expressão e indagam nervosamente o que está acontecendo. Clarice desliga sem se despedir de Sandra ao telefone. Olha com pena para Fernando que a sacode pedindo resposta.

_O que foi Clarice? O que aconteceu? Pelo amor de Deus, diga alguma coisa!! _ pergunta Fernando nervoso. _Diogo morreu. E Tiago tá muito mal... Ela tá horrível, gente... não consegue falar, só chora... - responde Clarice ao apelo do amigo.
Fernando pega as malas e corre em direção da porta de saída do aeroporto. Grita com Clarice. Onde é o hospital veterinário? E todos os seguem desesperados. Fernando corre para abraçar a amiga em estado lastimável. Sandra não diz uma palavra. Seu rosto é de alguém que chorou a noite inteira, por horas. Todos estão ao seu lado quando o médico veterinário dá a notícia que o último cachorrinho faleceu. Infelizmente não tinham muito que fazer por eles. Haviam pego uma virose muito forte e por suas idades avançadas não resistiram. Sandra está inerte e sem forças para fazer qualquer coisa ou tomar qualquer atitude. Olha para todos com olhar de piedade. Fernando abraça a amiga, pega sua bolsa e a tira do local. Pede a Clarice e Vera para a levarem para casa enquanto que ele irá tratar de resolver o problema com a clínica com os gastos da internação e providenciar o enterro dos bichinhos em local especial onde ela possa visitá-los para homenagens futuras.

As meninas vão no carro de Clarice. Maurício fica com Fernando na Clínica para dar apoio no que for preciso. Já em casa Sandra sentada no sofá de seu apartamento murmura cansada qualquer coisa como “ele perdeu o vôo”... As meninas sentam ao seu lado e seguram suas mãos.

_Sandrinha, vamos tomar um banho e depois dormir um pouco. Vai te fazer bem. –
Acalma Vera com uma voz em tom baixo e paciente. Sandra se levanta com a ajuda das amigas e é levada para o seu quarto onde é banhada e colocada para dormir. Fernando chega horas depois em companhia de Maurício. Ele pergunta por ela e como estava. Todos se sentam e por alguns segundos permanecem em silêncio.

_Ela vai dormir até amanhã. Quando a mãe dela faleceu eu fiquei aqui e a vi dormir por mais de 15 horas. Vai fazer bem a ela. – Clarice explica ao grupo. Não adianta todos nós ficarmos aqui agora. Eu preciso voltar pra casa. Nando, agora que você perdeu o vôo, vai ficar aqui, né? _Claro. Vou ficar com ela até quando precisar. Vão pra casa. O dia foi estressante. A gente não esperava tudo isso. Deixe que eu cuido de tudo. Se acontecer alguma coisa que saia do meu controle, chamo vocês duas. OK?
Todos se levantam e por alguns instantes olham os paninhos que estão pela casa, rastro das ultimas brincadeiras dos cachorrinhos. Fernando sai catando tudo e com a ajuda de Vera e Clarice dão uma geral na casa, tentando minimizar o mesmo impacto que tiveram com relação aos rastros de vida dos bichinhos, quando Sandra acordasse.

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No dia seguinte bem cedo, por volta das 5 da manhã Sandra acorda e sai do quarto, vê malas no hall do corredor e Fernando dormindo sentado no sofá como se tivesse adormecido sem saber. Um silêncio apavorante toma conta do recinto. Não há movimentos de pequenas criaturas de um lado para outro. Tudo quieto como se a casa fosse de outra pessoa. Fernando acorda meio desorientado e tenta fixar o olhar para Sandra.

_Você perdeu o vôo... – Diz Sandra com um timbre de voz quase inaudível. _Não perdi nada. Vôos tem a toda hora. Senta aqui. Vou fazer um café pra a gente, senão não consigo despertar. – Puxa Sandra pelo braço fazendo a sentar no sofá.
Fernando não diz nada. Faz o café, esquenta uns pães meio dormidos no forno e não troca palavras com Sandra. Ela também permanece quieta com olhar fixo e distante. Procura por paninhos e brinquedos que normalmente ficariam pelo meio da sala do apartamento.

_O que você fez com os dois? – Pergunta Sandra a Fernando. _Eles foram enterrados no melhor cemitério para cães que existe nessa cidade. Não se preocupe, está tudo pago. Tudo resolvido. Quando você estiver se sentindo mais forte eu levo você até onde eles estão. _Obrigada. Eu não sei o que eu faria se vocês não tivessem ido para lá naquele momento. Acho que pirei... Estou tão cansada... _Você vai ficar bem meu anjo. Estarei do seu lado até tudo ficar no lugar. Sua cabeça, sua energia vital. – Fernando trás o café com os pães numa bandeja para ela e coloca no seu colo. Na poltrona em frente a ela, Fernando toma seu café e a observa.
Ambos acabam de comer e o sol toma conta do recinto anunciando um novo dia quente, próprio daquela época.

_A culpa é toda minha... eu sabia que isso poderia acontecer... O veterinário me avisou... – repete Sandra meio desorientada ainda. _Do que você tá falando menina? Pára com isso. Culpa? Culpa de quê Sandra? _Eles sabiam que estava acontecendo alguma coisa. Eles sentiram que havia mudança no ar. O veterinário me avisou que os animais quando muito apegados aos seus donos, sentem tudo no ar. Suas mudanças internas. Exalamos cheiros que eles identificam com o tempo. A raiva, a ansiedade, a tristeza, e alegria. Assim como os bebes humanos também sentem em relação a suas mães. – Sandra coloca as mãos sobre o rosto e com um movimento as escorrega lentamente ao topo da cabeça e desce para a nuca, como se tentasse aliviar a pressão sobre seus ombros. Eles sentiram que eu estava ansiosa com aquilo tudo. A ansiedade, minha expectativa e o medo deles não se adaptarem na viagem e em local estranho... Eles sentiram tudo. E ficaram frágeis, debilitados. Sua imunidade ficou baixa... _Amore... Tudo bem. Eles sentiram, e o que isso vai mudar? Como você faz, ou melhor, como você faria para que nunca tivesse ansiedade, tristeza e medo perto deles? Um dia isso aconteceria Sandrinha. Eles já estavam com idade avançada meu amor. São animais de raça pura e quanto mais pura, mais frágeis eles são, você sabe disso. O que você tem que entender é que estava na hora deles. Eles adoeceram. Você não os matou, Sandra. Quando sua mãe faleceu, você também ficou muito mal, Clarice nos contou. E eles não adoeceram. Porque eram mais novos, estavam mais fortes na época, mesmo sentindo seu sofrimento interior. – Pondera Fernando levando o corpo em direção da amiga com olhar fixo e atento.

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_Será? Penso que eles adoeceram porque sabiam que seriam um obstáculo na minha vida neste momento. Será que os pobrezinhos sentiram no ar que eu estava diferente, que eu tinha expectativas sobre uma mudança boa na minha vida, mas que minhas expectativas boas dependiam única e exclusivamente deles? Será Nando? _Sandrinha... Por favor, não faça isso com você. Essa sua reflexão sobre o que pode ter acontecido, o que pode ter levado a morte dos dois não faz jus ao que realmente aconteceu. Eles estavam muito velhinhos. Poderia ter acontecido lá na Itália, poderia ter acontecido agora mesmo sem que você tivesse qualquer plano pro futuro. Foi uma virose. Ponto final! Vai se arrumar. Vamos lá ao lugar onde os enterrei será melhor resolver tudo hoje mesmo. Vou ligar para as meninas para elas nos encontrar lá. Tudo bem? Você tá legal para sair? _Tô, to legal. Vou ficar bem. –Sandra vai para seu quarto deixando Fernando cuidar de tudo.
Depois da ida ao cemitério dos animais os amigos voltam todos para o apartamento de Sandra para ajudá-la naquele momento.

_Sandra, quer que eu faça alguma coisa para vocês almoçarem mais tarde? pergunta Vera tomando conta da cozinha, ajeitando a louça e organizando a bagunça dos últimos dias. _Não, obrigada Verinha. – Responde prontamente Fernando. Vamos almoçar fora e dar um passeio por aí. Querem ir com a gente? _Eu infelizmente não posso, Nando. As crianças têm um compromisso hoje a tarde, aniversário de um coleguinha, e já tá na minha hora. O Maurício tá me esperando. Eu só quero saber em que posso ajudar nesse momento? _Você já fez muito, obrigada minha amiga. – Responde Sandra tentando esboçar um sorrindo, que não se mantém. _E você Clarice? Vai com a gente? – pergunta Fernando. _Também não vai dar para eu ir, meus queridos. Prometi que iria almoçar com a dona encrenca. A Fabiana me espera. Vocês não querem ir almoçar com a gente? Seria bom para podermos conversar com mais calma... _Não. Acho essa idéia de você e Fabiana almoçarem juntas, excelente. Vocês precisam desse momento a sóis. Não estrague isso, por favor. – intervém Fernando. Eu vou sair com a Sandrinha por aí. Vamos comer lagosta! Frutos do mar. E depois vamos fazer umas compras. A geladeira tá vazia. Um horror. Só tem água! _ hummm, que inveja... Mas estou de regime e minha dieta é rigorosa agora! Vou pra casa. Tudo bem amiga? - Pergunta Clarice. _Nunca pensei em ouvir isso um dia... – Ri Sandra descontraída. – Você recusar frutos do mar, lagosta? Que mudança! Pode ir Clarice. Vá comer seu espinafre com tomate e chá gelado. – Debocha Sandra da amiga. _Tá vendo? É isso que recebo! Que apoio, amiga! – Clarice implica como forma de levantar o moral de Sandra.
Elas se abraçam e saem. Sem cachorrinhos latindo e correndo de um lado para o outro para chamar a atenção... Dias se passaram. Fernando está com Vera na sala do apartamento de Sandra.

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_Já está tudo pronto para a viagem de vocês? – Pergunta Vera curiosa. _Quase. Sandra precisa resolver uns probleminhas com a escola e enquanto aguardamos sair o visto ela está resolvendo o que pode para não deixar a diretora louca com a sua saída repentina. – responde Fernando. _Ela está nesse momento dando sua última aula. _A previsão é de quanto tempo para ela ficar com você na Itália? _Por mim, ela ficaria por seis meses, mas não sei o que se passa na cabeça dela. Sandra é muito reservada em certos aspectos. Não consigo saber de tudo que se passa naquela cabecinha... _Vai fazer bem para ela essa viagem. Não vejo a hora, apesar de sentir sua falta. Vai fazer um baita buraco na minha vida. _Eu sei. Vocês são muito unidas, né? Amo isso em vocês. Essa cumplicidade de anos... Vocês são muito ricas. Têm tudo que necessitam na vida e a amizade de vocês é o que há de mais valioso nessa passagem desses anos. Ainda bem que faço parte de tudo isso. _Mas não tenha dúvida. Nenhum segundo da sua existência. A distância não vai diminuir o que sentimos um pelo outro. Como você mesmo diz, pensamento é energia e se estivermos pensando uns nos outros, estaremos trocando energia boa e necessária para nossa existência. Certo Doutor? _ Certíssima Verinha, Certíssima, caríssima. – Fernando segura as mãos da amiga quando fala. Você deveria voltar a estudar. Fez um curso brilhante de Pedagogia e não deu continuidade a carreira. Acho você tão inteligente, Vera, tão intensa nas coisas que faz. Tem muita sensibilidade, um perfil criterioso e determinante. Tem tudo para ser uma senhora do saber! _Uma coisa de cada vez. Primeiro os meus filhos. Quis tanto que eles viessem ao mundo que não posso direcionar meus pensamentos para outra coisa agora. Eles estão crescendo. São inteligentes e logo, logo serão independentes. Acredito que daqui há mais uns cinco anos poderei relaxar e então voltar a exercer a carreira de novo. E quanto a estudar, meu querido, eu nunca deixei. Estou sempre me atualizando. Faço um cursinho rápido, uma pós graduação. Um aperfeiçoamento, uma tomada da situação atual do país quanto a educação, as novas tecnologias e métodos aplicáveis, é fundamental na minha carreira. Não dá pra voltar a trabalhar sem uma atualização do momento. A filosofia da educação me encanta. Fico fascinada pela qualidade, pelo melhor instrumento de como aplicar um conceito, usar uma boa estratégia para chegar onde queremos - ensino–aprendizagem. Fiquei sabendo que você deu um show na escola de Fabiana. Clarice contou que Fabiana estava tão orgulhosa de ter promovido aquela palestra. A escola gostou tanto do resultado e da iniciativa dela, que abriu um espaço para que os alunos promovessem e organizassem novas palestras mensais para que obtivessem respostas aos seus interesses. Isso é fantástico! Que avanço na educação! Agora são eles que escolhem o que querem saber e como encontrar um caminho para chegar ao que querem saber. Isso não é maravilhoso Nandinho? _Se é! Essa nova geração sabe o quê e como encontrar o que querem saber. Não precisam muito de facilitadores, segundo eles. Os grandes educadores agora têm que correr atrás de se atualizarem constantemente, como você está fazendo. Se pararem, serão engolidos por eles facilmente. Com a advento da internet na vida da gente tudo ficou mais fácil. O conhecimento que era restrito a poucos está ao alcance de todos agora. Temos verdadeiras aulas de qualquer assunto na Web. Qualquer método à A semiótica do amor Laura Botelho Página 55

disposição. Visual ou auditivo. Podemos operar alguém do outro lado do mundo. Podemos aprender diversas línguas. Falar com alguém de qualquer país e aprender a sua cultura local sem sair de casa. Participar de fóruns sobre qualquer tema, discutir, debater, defender nossa tese sobre determinado assunto. Um mundo de saber muito instantâneo. Uma troca de informação rápida. Cabem aos educadores do futuro peneirar estas informações que estão a disposição desses jovens e identificar o que está correto e assim corrigir as inúmeras distorções destas informações. A qualidade do patrimônio Cultural de cada um resultará da melhor representação destas informações a partir de um excelente controle de qualidade destes recursos. O que há de bom, há proporcionalmente de lixo na rede. Alguém tem que saber o que separar e quando separar o joio do trigo. Esse, em minha opinião, será o diferencial das instituições de ensino do futuro. Saber “o que” separar e “quando” separar o joio do trigo! _Concordo meu amigo, concordo em gênero, numero e grau com você. O educador, nesse momento, tem que está a frente anos luz dos seus alunos. Como você mesmo disse, serão engolidos por eles se não souberem ou dominarem o que ensinam. E isso, afeta também a nós pais. Temos que nos atualizar de todas as ferramentas do futuro. Não podemos ficar sentados e achar que não sabemos e não conseguimos aprender isso ou aquilo. Temos que nos informar. Caso contrário, com o tempo as nossas diferenças culturais, entre pais e filhos, serão abissais. Como entre a idade Media e o século xx. As crianças de hoje nascem de olhos bem abertos. Falam mais rápido e mais precisamente que nós falávamos. Aprendem com uma facilidade espantosa. Meus filhos aos cinco anos sabem fazer dowloading de jogos. Fazem busca no Google de assuntos para a escola sem a necessidade da minha consulta. Parecem que já nasceram com um microchip no cérebro. E a crítica sobre determinados assuntos? Maurício passa bons momentos de sufoco com eles. Quando não sabe responder ou não faz a menor idéia do que eles estão falando apela pra brincadeira, daí os meninos o criticam sem dó nem piedade. Sabe como é o Maurício, sempre levando tudo na brincadeira. Eu até me divirto, mas os meninos não pensam desta forma. Não perdoam! _Eu imagino. Nós entramos numa nova era, a era do conhecimento global, não mais local, não mais sazonal, não mais temporal. A rapidez como se processa o pensamento faz o mundo andar mais rápido em termos de procedimentos e soluções para viabilizar isso ou aquilo. Hoje, para se ter um bom emprego, correção, para se ter um trabalho com boas perspectivas de empregabilidade, não podemos ter uma única especialização educacional, temos que ter várias em uma determinada linha de estudo. Ser médico não basta, tem-se que ter mestrado em determinado assunto e Doutorado numa visão ampla. Falar uma ou duas línguas não basta, é necessário dominar o máximo de línguas que puder no mínimo três. Antigamente, lembra? Quem falava Inglês tinha o mundo aos seus pés... – Ri Fernando da sentença. Agora falar Inglês só não basta. Isso todo mundo fala. As crianças estão aprendo a ser bilíngües no Jardim de infância!! Que mudanças! O mundo está acelerado, está girando com muita rapidez. O que julgávamos verdade absoluta na História dos grandes descobrimentos, dos grandes acontecimentos mundiais, já estão tendo outra visão atualmente. Nada é tão certo como nos ensinaram. Religiões, mitos, crenças, revoluções, têm outros focos, outras leituras, outros entendimentos agora. É verdadeiramente assustador a rapidez dos acontecimentos. E depois de tudo isso quero parabenizá-la pela sua postura diante da sua vida. Não parou de estudar e voltará a ao trabalho com muito mais bagagem, muito mais sabedoria. _Ah... O que eu queria mesmo é que você me desse umas dicas de o que estudar e o que me especializar para contribuir, enriquecer a área que pretendo atuar. Sabe com tudo isso que aconteceu, depois da sua vinda, depois de ter bons papos sobre o poder A semiótica do amor Laura Botelho Página 56

da má comunicação verbal e a não verbal que adotamos, pude ver que essa é base na qual quero pautar, focar na educação, tanto a dos meus filhos quanto na educação dos meus futuros alunos. A comunicação é a base de tudo, desde o momento que saímos do útero de nossas mães. Acho que falta muito para nós educadores desenvolvermos essa percepção que você tem sobre as pessoas. Esse olhar crítico. Observar o comportamento, a atitude corporal de cada ser humano para podermos então partir para uma estratégia que faça chegar ao outro com mais eficiência o que queremos ensinar. Precisamos nos conhecer primeiro para depois podermos ensinar alguma coisa que faça diferença na vidas destas pessoas. Você não acha? _Claro, minha querida. "Quem conhece os outros é inteligente. Quem conhece a si mesmo é iluminado” Foi escrito 600 anos antes de Cristo no “Livro do Caminho e da sua Virtude” pelo sábio Lao Tzi. Portanto, não estamos reiventando a roda. Farei uma lista de bons livros e de assuntos que possam te ajudar a decidir o que melhor lhe atende.
Passaram se semanas e Fernando não viajou até Sandra se organizar para ir com ele para Itália. Não queria correr o risco de deixá-la naquele momento tão difícil da sua vida. Poderia entrar numa depressão e não teria forças para continuar a resolver seus problemas e seguir em frente com a viagem. Tudo pronto agora. Roupas, papéis, autorizações... Clarice ficaria com as chaves do apartamento para a sua empregada realizar periódicas faxinas até a volta da amiga. Tudo acertado. Nada a fazer. No aeroporto juntos se abraçam num circulo e com lágrimas se despedem. Sandra estava eufórica e um tanto apreensiva com tudo aquilo. Tanta coisa aconteceu. Tanta coisa poderia acontecer ainda. O fato é que estava ao lado de um grande amigo ao qual depositou toda sua esperança de dias melhores. Faria uma viagem que mudaria o rumo de sua vida. Voltaria outra mulher. Nada seria igual depois dessa experiência. Dentro do avião.

_Nando, assim que chegarmos e nos ajeitarmos você me leva naqueles cafés de beira de rua na França? Sempre que via filmes de casais sentados naqueles cafés me dava uma inveja. Sempre pensei em um dia fazer a mesma coisa... e acho que farei! _Pensamentos Sandra, pensamentos são energia. Você tanto desejou que vai conseguir.
Cinco meses se passaram. Sandra escrevia com regularidade as amigas contando tudo que via e que conhecia. Suas impressões eram as melhores possíveis. Até conheceu um rapaz. Apesar de o encontro ter sido de maneira não muito comum, mas de certa forma diferente e atraente. Como nos filmes que Sandra costumava ver.

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Sandra descreve para as amigas o encontro com Michaelle, o jovem rapaz.

“Amigas, vocês não vão acreditar. Num fim de semanas destes, Fernando e Fred não puderam me acompanhar até um Café que gosto de ir em Mônaco. Chique, Não?! Saí de casa bem cedo e parti para passar todo o dia por lá. Apesar de já acostumada com o ambiente e ter aprendido algumas frases em Frances para minha sobrevivência, não sei o que me aconteceu, mas me perdi. Acho que minha insegurança por fazer aquilo (sair sozinha) me deixou meio atordoada e me distraí ao atravessar a rua em direção ao Café que freqüentei esses meses todos que estive por aqui. Não sei como aconteceu, mas me deparei de repente com uma motocicleta entre minhas pernas e as minhas duas mãos no guidon, segurando com tanta força como se quisesse parar o veículo e evitar que me jogasse ao chão após ouvir o cantar de freios. Fiquei agarrada a moto por alguns segundos tentando entender o que havia acontecido. O rapaz que a conduzia tirou o capacete aflito, jogo-o ao chão e com uma das mãos segurou o meu pulso tentando me chamar a luz da razão. Falava em Frances rapidamente, gesticulava freneticamente e eu não entendia nada. Nem o que ele falava, tão pouco o que aquela roda da moto estava fazendo entre minhas pernas. Soltei a moto e me movi lentamente para a calçada do Café, ele colocou a moto no descanso e veio ao meu encontro aflito. Acho que me fez várias perguntas, porém consegui entender somente uma: Est-que vous êtes bien? - Est-que vous êtes blessé? -Qu'est que est arrivé avec vous? Acho que numa destas entendi um “Você está bem?” E prontamente o assegurei com gestos que estava. Mas juntamente com os gestos também dizia: “Tudo bem, não me feri. Tudo bem estou só tremendo pelo susto!” Sorrindo ele me disse: “ Puxa mina! Você é que me deixou tremendo agora!”Com sotaque de Paulista!!! Eu caí na gargalhada! E perguntei se ele era brasileiro também, mas que nada, apenas um Italiano que passou um ano no Brasil fazendo um curso sobre jóias! Que sorte! Ele então me levou para sentar a mesa do Café e pediu um monte de coisas, além do café, é claro. Conversa vai e conversa vem... ele quis me levar de volta a Milão de moto!!! Vocês acreditam nisso? Eu, Sandrinha, viajando de Mônaco até Milão numa Suzuki 1300 cilindradas! Noooooossaa! Que passeio meninas! Percorremos grande distância de Mônaco até Milão pelo litoral.Que loucura! Já sei, tão loucas pra saber se ele era casado ou Gay? Não, não é casado, nem gay. Apenas um maravilhoso rapaz Italiano que foi fazer uma entrega de seu trabalho em Mônaco naquele dia (ele faz jóias, é designer). Acreditam nisso??? Também estava de passagem por lá! Ele não sabe explicar porque eu fui parar na sua frente, pois estava quase parado quando eu tentei segurar a moto. Ele acredita que eu estava tão distraída que me assustei com o movimento dos freios, o barulho do motor e me joguei em cima dele evitando que ele batesse em mim. Devia estar muito distraída mesmo. Bom, o melhor de tudo é que o conheci e estamos saindo faz alguns dias. Ah! Ele é mais novo que eu, dois anos... aguardem os próximos capítulos. Espero que todos estejam bem. Saudades extremas. Sandra.”

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Clarice chega na casa de Vera logo cedo.

_Verinha, ontem chegou este grande envelope para mim. Abri e encontrei dentro do envelope grande um envelope menor com letra de Sandra. Abri e encontrei um bilhete e outro envelope menor, mas com uma tarja vermelha dizendo: Abrir este envelope somente em companhia de Vera. Jamais, jamais abrir este envelope sem que ela esteja presente! _Tá, mais o que o bilhete dizia? _ Dizia: espero que não me decepcione e só abra o envelope na presença de Vera!!!! _Caramba. Por que tanto mistério? Abre logo Clarice. Vê logo o que tem aí dentro. _Um convite de casamento!!!!! – as duas pulam e se abraçam e choram, rodam e gritam... _Meu Deus! Sandra vai se casar!!!! Não acredito Clarice! É com o Italianozinho da moto! Michaelle! – Mais gritos de ambas. _ Danada! Ela sabia que tínhamos que abrir o envelope juntas! Não teria o mesmo impacto se recebêssemos em momentos diferentes. Essa Sandra!!! Tem outro bilhete aqui dentro! Estou tão nervosa que nem vi.
Lê você Vera. Minhas lágrimas não me deixam enxergar nada.

_O bilhete é de Fernando. “Queridas, amanhã seguem as passagens de avião para todos. Espero que comprem roupas coloridas, nada de pretinho básico! Façam os cabelos e as unhas e saltos bem altos! Não me apareçam por aqui com cara de mal tratadas! Amo Vocês. Nando.

FIM ?

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