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Texto para Leitura.

Os princípios da primeira infância segundo a neurociência

São três conceitos principais de desenvolvimento que contribuem para o


desenvolvimento saudável da criança:

PRINCÍPIO 1: A arquitetura do cérebro é estabelecida nos primeiros anos e impacta na


aprendizagem, no comportamento e na saúde ao longo de toda a vida.
Quando você pensa em arquitetura, logo vem a ideia de design e da
construção de uma casa ou edifício, certo? Bem, quando falamos em
arquitetura e desenvolvimento cerebral, estamos fazendo uma analogia com
as plantas baixas, a estrutura e a estratégia que um arquiteto usaria para
criar um projeto. O conceito é que o cérebro é construído ao longo do
tempo, começando nos primeiros anos de vida, aprendendo primeiro as
habilidades simples, com as habilidades mais complexas sendo construídas
sobre elas. A primeira coisa a fazer em uma casa é construir o alicerce, para
só então levantar as paredes e instalar a fiação para finalizar a construção. 
O desenvolvimento cerebral é muito parecido com isso, começa com uma
base e então as habilidades simples geram as habilidades mais complexas,
sobrepondo-se umas às outras.

Nos primeiros anos de vida, o cérebro aprende primeiro as habilidades simples,


com as habilidades mais complexas sendo construídas sobre elas.

As capacidades cognitivas emocionais e sociais estão entrelaçadas ao longo


da vida. Antes, na psicologia, estudávamos cognição, emoção e
desenvolvido social separadamente, mas agora sabe-se que os três andam
juntos, particularmente nos primeiros anos de vida.
A conclusão desse primeiro princípio é que uma base sólida nos primeiros
anos de vida melhora as chances de resultados positivos, ao passo que uma
base fraca aumenta as chances de dificuldades posteriores. A capacidade
de mudança do cérebro é menor com o tempo, pois a plasticidade cerebral
diminui com a idade. Por isso é muito mais fácil para uma criança aprender
um novo idioma do que para um adulto, pois o esforço fisiológico do cérebro
para esse aprendizado é muito menor na criança.
Outro princípio da arquitetura do cérebro é que os circuitos neurais são
conectados de forma ascendente – o que casa perfeitamente com o fato de
que primeiro aprendemos habilidade simples para então adicionar as
habilidades mais complexas.
Os neurologistas costumavam pensar que o cérebro se desenvolvia como
um todo ao mesmo tempo, mas agora sabemos que não, e que de fato
diferentes partes do cérebro desenvolvem-se em ritmos e em idades
diferentes.
Nos estágios iniciais do desenvolvimento cerebral, as áreas associadas
a informações sensoriais como visão, audição e tato são as que se
desenvolvem primeiro. Só depois é que surgem as habilidades
relacionadas à linguagem, com a função cognitiva completa
aparecendo mais tarde, no decorrer do crescimento.
Ao comparar as sinapses cerebrais de uma criança aos seis meses e aos
seis anos de idade, podemos verificar um aumento exponencial de
conexões.  Já quando comparamos as sinapses de um adolescente de
quatorze anos com uma criança de seis anos, verificamos que a quantidade
de conexões do adolescente é menor, pois algumas conexões foram
perdidas através da poda cerebral. Isso ocorre porque ao longo do
desenvolvimento não necessitamos mais de algumas ferramentas que
utilizávamos no início do aprendizado, mais ou menos como uma bicicleta
em que no início colocam-se rodinhas de apoio, que depois podem ser
dispensadas quando aprendemos a nos equilibrar. Nos primeiros anos
temos também o que se chama de períodos sensíveis.
Períodos sensíveis são períodos de tempo limitados durante os quais o
efeito da experiência inicial no cérebro é particularmente forte. Eles
permitem que a experiência instrua os circuitos neurais a processarem
informações de maneira adaptativa e fornecem informações essenciais
para o desenvolvimento normal, além de alterar o desenvolvimento
permanentemente. São momentos críticos, nos quais a experiência tem
um efeito profundo no cérebro.

PRINCÍPIO 2: Relacionamentos estáveis e atenciosos e interações responsivas do tipo


“serve and return” moldam a arquitetura cerebral.
Interações do tipo “serve and return” ou interação responsiva constroem
cérebros e habilidades. Imagine um jogo de tênis, onde você joga uma bola
e ela é rebatida de um lado para o outro. O que queremos ilustrar é que uma
mãe, um cuidador e um bebê estão interagindo entre si dessa maneira o
tempo todo. A mãe diz uma coisa, o bebê diz outra. O bebê diz algo e a mãe
responde a ele, num processo contínuo de “serve and return”.
Crianças mais novas naturalmente buscam interação, balbuciando,
gesticulando e fazendo expressões faciais, e os adultos respondem da
mesma forma. Essas interações são essenciais para o desenvolvimento de
circuitos cerebrais saudáveis.
Devemos pensar nas implicações e apoiar a qualidade dos
relacionamentos nos locais de cuidados para crianças, comunidades e
lares, pois essas interações dão suporte ao desenvolvimento para uma
arquitetura robusta do cérebro.
Interações sociais são essenciais para o desenvolvimento de circuitos
cerebrais saudáveis nas crianças.

Existem estudos sobre o ambiente da linguagem do bebê, realizados em


1995 com famílias que vieram de três tipos diferentes de ambiente: crianças
com mães em situação de pobreza, com mães de classe média e crianças
com pais que possuíam educação superior. Os resultados mostraram que
aos 16 meses de vida, não havia diferenças entre os bebês em termos de
produção de linguagem, mas ao longo do tempo a lacuna foi ficando maior,
o que já pode ser observado nos primeiros 24 meses de vida.
A metáfora final é o que chamamos de controle de tráfego aéreo. Em algum
local do cérebro, você precisa estar apto a prestar atenção, inibir impulsos e
manter mais de uma coisa na memória, para realizar mais de uma coisa ao
mesmo tempo. É a tão falada multitarefa.
O responsável por esse controle de tráfego é o córtex pré-frontal.
Chamamos de controle de tráfego aéreo porque o profissional responsável
por isso em um aeroporto tem de prestar atenção em muitos aviões ao
mesmo tempo, que estão manobrando, decolando e aterrissando.
Então, o funcionamento executivo do cérebro é um grupo de habilidades que
ajudam a nos concentrarmos em múltiplos fluxos de informação ao mesmo
tempo, estabelecer metas, fazer planos, tomar decisões, revisar e resistir a
ações precipitadas. Entre as funções executivas estão:
– Controle Inibitório: filtra pensamentos e impulsos para resistir a
tentações e distrações.
– Memória de trabalho: retém e manipula informações no cérebro
durante curtos períodos de tempo, geralmente de três a cinco
informações por vez.
– Flexibilidade cognitiva: ajuste a demandas, prioridades ou
perspectivas alteradas, ou seja, adaptação a mudanças.
Pesquisas apontaram que quando esses conceitos são aplicados na
infância, trazem mais autocontrole e preveem melhor saúde física e menos
uso de substâncias ou casos relacionados à violência na vida adulta.
Estresse tóxico: sistema de resposta do cérebro ativado excessivamente na
infância enfraquece o desenvolvimento da arquitetura cerebral.

PRINCÍPIO 3: O estresse tóxico nos primeiros anos de vida pode prejudicar o


desenvolvimento saudável da criança. 
Quando falamos em stress, queremos destacar as consequências de um
ambiente estressante para um cérebro em desenvolvimento. Mas é
importante distinguir: não estamos falando do stress com o trabalho ou com
o trânsito, mas sim de situações de estresse diárias durante o
desenvolvimento. O stress é dividido em três níveis ou tipos:
Positivo: aumentos leves na frequência cardíaca e elevações leves nos
níveis de hormônio do estresse;
Tolerável: respostas de estresse sérias e temporárias, protegidas por
relacionamentos de apoio;
Tóxico: ativação prolongada de sistemas de resposta ao estresse e
ausência de relacionamentos de proteção. Sabemos que os
relacionamentos amortecem os efeitos do estresse, então aprender a lidar
com o estresse moderado pode criar um sistema de estresse que chamamos
de saudável. Já no estresse tóxico, o sistema de resposta do corpo é
ativado excessivamente, enfraquecendo o desenvolvimento da arquitetura
cerebral. Sem o devido cuidado por parte dos adultos responsáveis, o
estresse tóxico, causado ou associado à pobreza, negligência, abuso ou
depressão materna pode trazer consequências sérias para o
desenvolvimento, a saúde e a aprendizagem a longo prazo.

https://geracaoamanha.org.br/principios-da-primeira-infancia-segundo-a-neurociencia/