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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA TRADUÇÃO

FERNANDA LIBÉRIO PEREIRA

A TRADUÇÃO DA LITERATURA DE FICÇÃO CIENTÍFICA: UMA ANÁLISE


DAS REFRAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO DO GÊNERO NO BRASIL

Projeto de Pesquisa apresentado ao Programa de Pós-


Graduação em Estudos da Tradução, do
Departamento de Letras Modernas da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da
Universidade de São Paulo como parte do Exame de
Seleção para o Curso de Mestrado.

São Paulo
2017
SUMÁRIO

1 IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO............................................................................3

2 INTRODUÇÃO............................................................................................................3

3 JUSTIFICATIVA.........................................................................................................6

4 OBJETIVOS.................................................................................................................7

4.1 GERAL........................................................................................................................7

4.2 ESPECÍFICO(S)..........................................................................................................7

5 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS...................................................................................7

6 METODOLOGIA DE PESQUISA...........................................................................15

7 CRONOGRAMA........................................................................................................16

8 BIBLIOGRAFIA........................................................................................................17
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1 IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO

Título: A tradução da literatura de Ficção Científica: uma análise das refrações

no desenvolvimento do gênero no Brasil

Autora: Fernanda Libério Pereira

Palavras-chave: Tradução; Ficção Científica; Literatura; Refrações.

2 INTRODUÇÃO

Este projeto propõe a realização de uma análise das refrações da tradução da

literatura de Ficção Científica (FC) no Brasil como circunstância para o desenvolvimento

do gênero no país. A proposta pretende investigar a correlação entre adaptações de obras

de Ficção Científica ao público brasileiro a partir da década de 50 e a construção da

identidade nacional deste gênero literário, que teve desenvolvimento tardio e demorado

no país. Para isso, serão observadas, ainda, as principais características do sistema vigente

no âmbito literário brasileiro da época, levando em consideração o panorama nacional e

seu contexto histórico.

O estudo das refrações no processo de tradução tem demonstrado grande

importância na análise do perfil de obras e gênero traduzidos e inseridos em um novo

sistema literário. A teoria proposta por André Lefevere em 1982, no artigo “Mother

courage’s cucumber: Text, system and refraction in a theory of literature”, aponta as

refrações como diferentes formas de adaptação de obras literárias a novos públicos com

a intenção de influenciar a maneira como tais obras serão interpretadas. À essa época, o

autor relatou o pouco aprofundamento tomado por pesquisadores neste assunto:

Refractions, then, exist, and they are influential, but they have not been much
studied. At best their existence is lamented (after all they are unfaithful to the
original), at worst it has been ignored within the Romanticism-based
approaches, on the very obvious ground that we should not be cannot be, even
though it is. Refractions have certainly not been analysed in any way that does
justice to the immense part they play, not just in the dissemination of a certain
author’s work, but in the development of a certain literature (LEFEVERE,
2000, p.235).
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Desde a época da publicação deste artigo até os dias de hoje, o universo das

refrações literárias já foi mais explorado, seja através do desenvolvimento desta teoria ou

da análise de suas consequências na trajetória de obras ou autores específicos. No entanto,

ainda há muito espaço para pesquisas e aprofundamentos sobre as influências que tais

escolhas de adaptação podem ter proporcionado à literatura como um todo. A localização

das refrações como pontos de partida para a inserção de uma obra, autor ou mesmo um

novo gênero literário em um sistema cultural já estabelecido nos mostra a importância do

conhecimento daquele sistema, ou polissistema, como proposto em 1978 por Itamar

Even-Zohar.

Portanto, para que seja possível uma visão mais detalhada do momento de

inserção de algum elemento literário à nova cultura a qual ele está destinado, após ser

traduzido, é essencial mergulhar nos pormenores desse processo, dando atenção às

escolhas do tradutor, aos contextos nos quais estão inseridos obra, autor, tradutor, e

público-alvo, além de reunir os aspectos de influência direta na recepção deste elemento,

como críticas, reflexões e comentários elaborados já no ambiente de destino.

Um interessante processo a ser investigado sob estas concepções é a inserção e

desenvolvimento do gênero de Ficção Científica (FC) no Brasil. A Ficção Científica

estabeleceu-se como uma literatura caracterizada pela reunião entre elementos ficcionais

e aspectos científicos em narrativas que apresentavam mundos desconhecidos e

sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Seu surgimento foi marcado pela postura

questionadora e desbravadora que instalara-se durante o período renascentista.

Identificada como expressão literária somente a partir do século XIX, a Ficção Científica

demorou a alcançar reconhecimento no contexto literário mundial, fato que estendeu-se

e agravou-se quando o gênero chegou ao Brasil.


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No país, o registro das primeiras produções que se encaixariam como Ficção

Científica aconteceu na década de 50. Nesta época, surgiram revistas relacionadas ao

gênero, responsáveis por publicar algumas das primeiras obras estrangeiras de FC

traduzidas para o português. No entanto, tais publicações caracterizaram-se pela curta

tiragem e baixo número de edições, tornando-se pouco conhecidas. Durante os anos

seguintes a produção de FC nacional continuou à margem da literatura canônica, tendo

seu pequeno espaço preenchido, em grande parte, ainda por obras estrangeiras traduzidas.

É importante dar atenção à ferramenta que possibilitou a inserção do gênero de

Ficção Científica no universo do leitor brasileiro: a tradução. Assim como no primeiro

contato de outros gêneros literários com o público brasileiro, a tradução mostrou-se

indispensável na introdução do gênero de Ficção Científica no Brasil. A partir desta

prática é possível perceber a existência de um grande espaço para investigações referentes

às especificidades que envolvem o processo de tradução; os métodos e procedimentos

aplicados em sua execução; as abordagens teóricas que envolvem a tradução deste tipo

de literatura (ainda não amplamente reconhecida no país); os propósitos (com base na

teoria de skopos) de tais traduções; e as formas de refração desta literatura a partir dos

processos de tradução empregados em diferentes obras e a influência do contexto

histórico, político e científico nacional na execução dessa prática.

A existência de diferentes abordagens e focos de pesquisa dentro da tradução,

principalmente quando aplicadas à análise da origem, motivações e resultados deste

processo em diferentes contextos, pode levantar inúmeras questões. Assim, propõe-se a

análise e discussão dos pormenores das refrações na tradução da literatura de Ficção

Científica no Brasil com o propósito de elucidar os detalhes da inserção e

desenvolvimento do gênero no país.


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3 JUSTIFICATIVA

A análise das refrações já se mostrou de extrema importância para o

aprofundamento nos estudos da tradução. A compreensão das diferentes formas de

adaptação de um texto a um novo público tem a capacidade de elucidar as propostas de

interpretação aferidas àquele conteúdo e, assim, capacitar o pesquisador a melhor

compreender como se deu a trajetória daquele texto e de sua aceitação ou rejeição na nova

cultura de destino. É essencial, também a compreensão do sistema a qual tal texto será

destinado. Haverá espaço para aquela obra, sob as específicas escolhas tomadas em sua

tradução, no sistema vigente a qual está sendo destinado?

No caso da literatura de Ficção Científica, muito ainda se pergunta sobre os

motivos de seu demorado processo de inserção, estabelecimento e desenvolvimento como

literatura no Brasil. Levando em consideração que a tradução está intimamente envolvida

na chegada e desenvolvimento do gênero literário de Ficção Científica no Brasil e que a

relação entre tais temas constitui uma área de pesquisa pouco explorada no contexto

brasileiro, o presente projeto justifica-se pela necessidade de esclarecer a relação entre

estes assuntos, aprofundando-se na discussão teórica quanto à influência das refrações no

processo de tradução e inserção desta literatura no sistema literário/cultural vigente no

Brasil.

Essa proposta pretende expandir estudos independentes elaborados na área de

tradução e FC e relacioná-los, desenvolvendo uma visão contextualizada da coexistência

de ambos e dos resultados de sua relação, investigando os detalhes dessa trajetória

conjunta e construindo uma imagem mais completa do contexto de desenvolvimento do

gênero no país através de uma análise do momento de sua inserção.

Faz-se necessário observar que a análise aqui proposta abarca, ainda, o desejo de

edificar a importância da pesquisa que tem como tema a integração de duas diferentes
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áreas de estudo. Vale ressaltar que o caminho escolhido demandará cuidado, mas poderá

resultar em uma maior contribuição acadêmica. Por fim, o estudo pretende servir como

fonte de consulta para futuros trabalhos do gênero e semear o interesse em ambas as áreas,

cujas possibilidades de pesquisa são abundantes.

6 OBJETIVOS

4.1 GERAL

Analisar as diversas formas de refração na tradução de obras de Ficção Científica

traduzidas no Brasil como circunstância para o desenvolvimento do gênero no país.

4.2 ESPECÍFICO(S)

a) Discorrer sobre teoria da refração, teoria de polissistema, tradução literária,

tradução criativa, além de reunir os aspectos mais relatados da tradução específica do

gênero de Ficção Científica;

b) Analisar traduções de obras de FC realizadas a partir dos anos 50, envolvendo

neste processo as notas, comentários, prefácios ou quaisquer declarações referentes a tais

traduções.

c) Discutir os principais pontos encontrados referentes à tradução de Ficção

Científica no Brasil, tendo em vista a elucidação dos aspectos referentes ao processo de

inserção do gênero ao polissistema vigente, relacionando as diferentes formas de refração

encontradas ao processo de desenvolvimento dessa literatura em âmbito nacional.

7 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

A tradução, vista por muitos teóricos como forma de reescrita de uma obra, é

responsável por fazer corresponder não apenas a narrativa geral de uma produção literária,
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mas também de seus pormenores contextuais, detalhes que devem ser estudados antes da

exposição a um novo público por serem responsáveis pela estética coesiva da narrativa.

A existência de diferentes abordagens dentro da tradução, principalmente quando

aplicada à literatura, pode trazer dúvidas relacionadas a diversos fatores da prática.

Questiona-se a fidelidade do processo de transformação de um texto de origem a um texto

final, as intenções do tradutor, o conhecimento específico de áreas que podem ser

abordadas, as escolhas de adaptação relacionadas ao contexto no qual estão inseridos os

leitores da obra em sua língua original e os novos leitores de outras línguas, dentre outros

inúmeros aspectos.

Propondo uma visão geral sobre o assunto, John Milton (1998) reúne no livro

“Tradução - Teoria e Prática” diferentes posicionamentos de comentaristas e críticos da

tradução. Dentre eles, cita o pesquisador belga Theo Hermans (1985) que oferece uma

visão do momento renascentista da literatura (entre os anos de 1550 a 1650), onde a

tradução deveria ter a função de fidelidade, reproduzindo com exaustivo detalhamento

todo o conteúdo de uma obra original em sua nova versão. Sem qualquer espaço para a

expressão, o tradutor exercia um papel servil, mecânico e menosprezado, considerado

inferior ao autor.

Para Michaël Oustinoff (2011), pesquisador francês, esta perspectiva evoluiu e

nos séculos XVII e XVIII a prática da tradução passou a basear-se no princípio de que

sua execução só poderia ser bela caso fosse infiel, visão que levou os tradutores, muitas

vezes, a dar as costas ao original da forma que lhes conviessem. Tal concepção não

conseguiu consagrar-se como popular, diga-se de passagem que, em grande parte, pela

refutação advinda de críticos que tomavam os textos bíblicos e/ou sagrados como base

para seu posicionamento em relação à reprodução e tradução literária.


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Sobre uma outra abordagem, que envolve a contextualização do texto, língua e

público, dentre outras circunstâncias inerentes ao processo de tradução, a pesquisadora

Rosemary Arrojo (1996) constrói sua caracterização da tradução como uma ciência pós-

moderna, cujo desligamento da leitura excludente de elementos contextuais mostra-se

inevitável para o processo tradutório.

A partir de uma dessacralização do “original” e dos conceitos tradicionais de


autoria e leitura, e da conseqüente aceitação de que traduzir é inevitavelmente
interferir e produzir significados, num contexto em que se começam a reavaliar
as relações tradicionalmente estabelecidas entre teoria e prática e ao abandonar
a perseguição inócua da leitura desvinculada da história e suas circunstâncias,
a reflexão sobre tradução sai das margens dos estudos lingüísticos, literários e
filosóficos que sempre buscaram a repetição do mesmo e o algoritmo infalível
da tradução perfeita e assume um lugar de destaque no pensamento
contemporâneo filiado à pós-modernidade. (ARROJO, 1996, p. 62).

Dentre tantos pontos conflitantes, uma visão comumente aferida à tradução é a de

ponte responsável pelo contato de diversos gêneros literários com novas línguas e

culturas. Distintos fatores podem influenciar na recepção destes novos gêneros, seja a

proximidade ou distância entre os gêneros literários recém criados ou recém inseridos

nessa nova cultura e os já estabelecidos ali, e até as similaridades ou diferenças entre

ambas culturas ou mesmo línguas, dentre outros aspectos. As escolhas de tradução que

ajudarão a traçar o caminho à aceitação ou rejeição destes gêneros nada mais são que

refrações de diferentes visões e abordagens literárias, reunidas de maneira diferente por

cada tradutor em cada caso específico.

André Lefevere propôs a teoria da refração em 1982 no artigo “Mother Courage’s

Cucumbers: Text, system and refraction in a theory of literature”, definindo o termo como

a adaptação de uma obra literária a um novo público, com a intenção de influenciar a

maneira com a qual essa obra seria interpretada. As diferentes formas de refração

estariam, então, presentes nas mais diversas formas de construção de uma obra, seja

através do próprio texto traduzido ou de comentários, prefácios, críticas, notas de rodapé,

ou outros registros do tradutor que fizessem referência à obra em si, ao processo de


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tradução, ao próprio autor ou quaisquer características ou circunstâncias consideradas

relevantes.

Para Lefevere, esses indícios de refração seriam responsáveis pela inclusão de

uma obra, autor ou gênero ao fechado sistema literário vigente em cada cultura.

It is through translations combined with critical refractions (introductions,


notes, commentary accompanying the translation, articles on it) that a work of
literature produced outside a given system takes its place in that “new” system.
It is through refractions in the social system’s educational set-up that
canonization is achieved and, more importantly, maintained (LEFEVERE,
2000, p.246).

Na teoria de polissistemas, por Itamar Even-Zohar, as traduções seriam aceitas

dentro de um sistema literário caso estivessem relacionadas, de alguma forma, às

características da literatura de cânone válida à época ou de acordo com as necessidades

apresentadas por aquele polissistema. A aceitação pelo público e a reação positiva de

críticos seriam respostas produzidas diretamente de acordo com as normas literárias

reverenciadas, logo, para serem “bem-sucedidas” em determinado círculo cultural, as

traduções deveriam dialogar diretamente com as características da literatura já popular.

As traduções que não seguiam esse padrão terminavam, muitas vezes, por serem

rejeitadas pelo grande público e resumidas como obras ou gêneros periféricos.

Ao tratarmos da tradução de novos gêneros ou correntes literárias que se

afastavam da literatura reconhecida, tornam-se claros os obstáculos a serem enfrentados

para a inserção destes novos gêneros no topo do polissistema em questão. O destino à

categorização como literatura periférica tinha que ser driblado de alguma forma para que

fosse possível a atualização das estruturas de tal sistema, substituindo com novas

correntes, características e gêneros o cânone literário. As refrações da tradução poderiam

fazer parte de um esforço de aceitação ao modelo vigente, adaptando tais obras às

características já renomadas, ou mantendo-se fiel à sua proposta original, na tentativa de

fortalecer esse gênero recém surgido. Sobre esse posicionamento cobrado dos tradutores,
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André Lefevere (2000, p.237) comenta: “since different languages reflect different

cultures, translations will nearly always contain attempts to ‘naturalize’ the different

culture, to make it conform more to what the reader of the translation is used to”.

Diante das poucas opções na tentativa de fazer um gênero literário ser inserido em

sua essência original a uma nova cultura e cair no gosto popular, é possível perceber a

existência de um grande espaço para investigações referentes às especificidades que

envolvem esse processo, os possíveis procedimentos aplicados, os skopos e as abordagens

teóricas que envolvem a tradução de um gênero desconhecido à uma nova língua e cultura

e os diferentes resultados obtidos ao longo da história da literatura. Um caso específico

que se encaixa perfeitamente na análise deste tema é a tradução do gênero de Ficção

Científica no Brasil, literatura recente que encontrou dificuldades na inserção e aceitação

no sistema literário brasileiro.

A Ficção Científica (FC), gênero que surgiu por volta do século XIX e alimentou-

se do desenvolvimento tecnológico crescente desde o renascentismo, chegou ao século

XXI com ainda limitado reconhecimento diante do contexto literário mundial.

De acordo com a pesquisadora Andréa Coutinho (2008), tal expressão literária

caracteriza-se pela mistura entre elementos científicos, ficcionais, especulativos,

intuitivos, fantasiosos e virtuais, e componentes racionais, técnicos e científicos,

tornando-se capaz de criar novos universos, amparados ou não por base tecnológica.

Alternando entre fantasia e realidade, a Ficção Científica pôde, segundo Coutinho (2008),

percorrer contradições tecnológicas e sociais na construção de narrativas capazes de

sustentar as mais diversas aventuras, que serviram e, ainda em tempos atuais, servem de

alicerce para a construção da liberdade criativa característica do gênero. Ao mesclar

aspectos científicos às construções ficcionais, a FC registra a reunião entre o fantástico

imaginário e os aspectos mais reais do conhecimento humano, arquitetando previsões


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tecnológicas e cultivando um amplo território, propício à oferta de diversas vertentes que

não se restringem a limites de concepção.

O escritor e pesquisador Braulio Tavares (1993) defende que no Brasil, a narração

de histórias que trazem ao público elementos fora da realidade comum, seja através de

previsões, projeções, ou outros artifícios literários, manteve-se marginalizada à literatura

de cânone pela associação de seu conteúdo a produções infantis ou sem grande apelo

intelectual, referindo-se a leitores que preferiam uma leitura rasa e de fácil compreensão.

O registro das primeiras produções que se encaixariam neste estilo literário

aconteceu no fim da década de 50, de acordo com o pesquisador brasileiro Fausto Cunha

(1974), através de revistas que publicavam obras nacionais e, em maior número, obras

estrangeiras. Tais revistas, no entanto, não alcançavam um grande público e foram

insuficientes para a popularização do gênero no Brasil àquela época.

Após o fim do período de regime ditatorial, instalado no país entre as décadas de

1960 e 1980, a produção de FC passou a ganhar espaço no cenário nacional. O número

de obras estrangeiras que finalmente colocaram o gênero à luz do grande público no Brasil

continuou a crescer, abrindo espaço para que a produção nacional também pudesse ser

inserida mais fortemente neste contexto. Sobre este período, Fausto Cunha, comenta:

Passados os primeiros anos de indiferença e hostilidade, com injustificadas


acusações de alienação, escapismo, subliteratura e coisas piores (quase sempre
por parte de indivíduos que não só desconheciam a ficção científica, mas
estavam também “por fora” de todos os novos movimentos literários), o gênero
é agora aceito no Brasil sem maiores reservas e até adotado em colégios.
(CUNHA, 1974, p.14).

No entanto, até hoje, uma certa discrepância entre o volume de FC estrangeira e

FC brasileira impera no país, sendo a primeira ainda a predominante. Para a pesquisadora

norte-americana Mary Elizabeth Ginway (2005), o acanhado avanço tecnológico

alcançado pelo Brasil, considerado subdesenvolvido quando comparado a grandes

potências mundiais e sua associação direta a elementos como a floresta amazônica, praias
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tropicais e o carnaval viriam a ser alguns dos motivos apontados para a falta de potencial

do Brasil no desenvolvimento de FC quando comparado a outras nações.

Apesar do perfil inicialmente marginalizado assumido pela FC no Brasil, o gênero

conseguiu desenvolver-se graças aos avanços científicos e tecnológicos alcançados pelo

país e à flexibilidade que o público brasileiro adquiriu, com o passar dos anos, em relação

aos novos horizontes explorados pela literatura. A busca pela aproximação da FC então

produzida pelo Brasil à FC estrangeira fez com que um número cada vez maior de títulos

fosse importado do exterior, seja para alimentar o gosto que nascia no país pelo gênero,

ou para servir de inspiração aos novos autores. Sobre isso, o pesquisador Arnaldo Pinheiro

Mont’Alvão Júnior comenta que:

Provenientes do fandom, os escritores brasileiros de ficção científica, além de


produzirem suas narrativas, também desenvolvem estudos críticos da produção
dessa literatura no Brasil na linha comparativista. A análise desses estudos
comparativos realizados nos permite identificar o interesse dos brasileiros pela
science fiction norte-americana. Autores e obras anglo-americanos são citados
na maioria das obras brasileiras que trazem análises teóricas sobre o
desenvolvimento do gênero no Brasil (JUNIOR, 2009, 386).

Tendo em vista o desejo brasileiro de melhor compreender e reproduzir a FC

estrangeira, fator que pautou a construção da FC nacional e influenciou o ritmo de seu

desenvolvimento no país, é primordial atentar-nos ao processo de tradução da FC

estrangeira para a língua portuguesa.

Trazendo a discussão acerca das abordagens, teorias e visões da tradução à

aplicação na literatura de FC, percebe-se uma necessidade de explorar os pormenores

específicos à essa área na busca pela compreensão da tradução aqui aplicada. É claro, por

exemplo, que por englobar diversas vertentes, a tradução de FC não pode limitar-se a uma

proposta única e unidirecional. Por isso, uma das principais questões ressaltadas por

pesquisadores da área é a existência de dois tipos de textos distintos que encontram-se na

FC: o texto literário e o texto técnico.


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Sendo a FC um espaço de encontro entre duas vertentes tão opostas como a

literatura e a ciência, agravam-se ainda mais as circunstâncias para sua tradução. Para

Ralph Miller Jr (2007), sob tal circunstância, o tradutor, apesar de necessitar do

conhecimento e habilidades necessárias para a tradução de ambas as áreas, não pode

confundir seus elementos, nem ignorar um em detrimento do outro. Ainda neste contexto,

os tradutores devem respeitar o cenário e as circunstâncias que envolvem o país de destino

das obras a serem traduzidas, considerando os elementos culturais que compõem o

ambiente a receber tal conteúdo, além dos conceitos técnicos já estabelecidos naquele

espaço.

Voltando-se ao contexto das primeiras publicações de FC estrangeiras trazidas ao

país, é possível buscar, através das análises de refrações e do polissistema vigente no país

à época, algum esclarecimento sobre como se deu a inserção deste gênero literário, as

circunstâncias das primeiras traduções publicadas em revistas nos anos 50 e o contexto

nacional (histórico/político) brasileiro, na tentativa de compreender melhor os motivos

do árduo processo de inserção, estabelecimento e, principalmente, desenvolvimento do

gênero no Brasil.

Tendo em consideração a teoria de André Lefevere de que a inserção de uma obra

ou gênero em um novo sistema literário/cultural se dá através da análise de suas traduções

juntamente às refrações críticas referentes a elas, a análise das traduções e refrações de

obras de FC estrangeiras trazidas ao público brasileiro seria essencial para a construção

de uma imagem mais aprofundada sobre o histórico dessa literatura e para comprovar a

funcionalidade das teorias de refração e polissistema nas práticas da tradução no país.


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8 METODOLOGIA

A metodologia deste trabalho terá início através de leitura acerca da teoria da

refração, teoria de polissistemas, tradução literária, tradução criativa e tradução específica

ao gênero de Ficção Científica. Serão utilizados para o embasamento teórico relacionado

a essas áreas autores como André Lefevere, Itamar Even-Zohar, Rosemary Arrojo,

Lawrence Venuti, Paulo Henriques Britto, Augusto e Haroldo de Campos, Ezra Pound,

Eugene Nida, Theo Hermans, Friedrich Schleiermacher, dentre outros.

Serão realizadas, ainda, leituras acerca do tema Ficção Científica em um

panorama geral e no contexto brasileiro, com ênfase no período de introdução deste

gênero literário no país, os autores pioneiros e o histórico de publicação de obras que se

encaixam no perfil de FC. Referente a tais temas serão adotados autores como Mary

Elizabeth Ginway, Andrea Coutinho, Fausto Cunha, Roberto Causo, Braulio Tavares,

Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão Júnior, Ralph Miller Jr, e Tzvetan Todorov.

É importante frisar que a pesquisa e escolha do referencial teórico utilizado será

realizada através de consultas a bibliotecas, periódicos e bases de dados como Google

Scholar, Scielo, dentre outras.

Após a investigação dos temas acima citados, o projeto terá continuidade com a

análise de obras de FC traduzidas ao português e do material produzido por tradutores

referentes às mesmas, como notas de rodapé, prefácios, comentários, introduções e

críticas.

A seleção das obras a serem analisadas será realizada com base no material

bibliográfico encontrado a respeito das primeiras publicações de FC no Brasil, buscando

garimpar as primeiras traduções registradas no país a partir dos anos 50, bem como todo

o material extra referente às mesmas como notas de rodapé, prefácios, comentários,


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análises críticas e reflexões, dentre outros registros de expressão dos tradutores

relacionados às obras por eles traduzidas.

A esse material serão comparadas e discutidas as abordagens inicialmente

estudadas na pesquisa, com o intuito de elucidar a relação entre as escolhas de tradução

utilizadas em tais obras e suas possíveis consequências para a construção da imagem da

FC no Brasil, além do desenvolvimento de sua expressão nacional como gênero literário.

9 CRONOGRAMA

METAS A SEREM
2017.1 2017.2 2018.1 2018.2
ATINGIDAS

Organização da pesquisa e X X X
revisão bibliográfica

Leitura e fichamento
X X X
bibliográfico

Participação em aulas
X X X

Produção de artigos e debate


X X
com a comunidade acadêmica

Produção de capítulos para a


X X
qualificação

Exame de qualificação X

Finalização da dissertação X X
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Apresentação e defesa da X
dissertação

Este cronograma poderá ser alterado conforme o desenvolvimento da pesquisa.

10 REFERÊNCIAS

ARROJO, Rosemary. Os ‘estudos da tradução’ como área de pesquisa independente:

dilemas e ilusões de uma disciplina em (des)construção. Delta, vol.14 n.2 São Paulo,

1998.

COUTINHO, Andréa. Ficção Científica: Narrativa do Mundo Contemporâneo. Revista

de Letras da Universidade Católica de Brasília. Volume 1, Número 1, Ano I, 15-26,

fev/2008. Disponível em:

http://portalrevistas.ucb.br/index.php/RL/article/viewFile/27/59.

CUNHA, Fausto. A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado. In:

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

GINWAY, Mary Elizabetg. Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e

Nacionalidade no País do Futuro. São Paulo: Devir, 2005.

HERMANS, Theo. Images of translations: metaphors and images in the renaissance

discourse on translation. In: ______. The manipulation of literature: studies in literary

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JÚNIOR, Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão. As definições de ficção científica da crítica

brasileira contemporânea. Estudos Linguísticos, v. 38, n. 3, p. 381-393, 2009.

LEFEVERE, André. Cucumbers, Mother Courage’s. The Translation Studies Reader, p.

233, 2000.
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MILLER JR., Ralph Lorenz Max. Ficção científica e tradução: projeto de tradução do

conto "primeiro contato", de Murray Leinster. 2007. 149f. Dissertação (Mestrado em

Estudos Literários) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007.

MILTON, John. Tradução-teoria e prática. Martins Fontes, 1998.

OUSTINOFF, Michael. Tradução: história, teorias e métodos. São Paulo: Parábola,

2011.

TAVARES, Bráulio. As origens da ficção científica no Brasil. Do Leitura, n. 138, 1993.