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etapa 1

capítulo 6
língua portuguesa Pontos de vista: modos de olhar,
ver e dizer

P ara encontrar o que é essencial em um tex-

Juliengrondin/Dreamstime.com
to, é preciso que o leitor saiba que objeti-
vos orientam sua leitura. Ao buscar as “ideias
principais” contidas num texto, é importante
identificar uma questão que represente o foco
do assunto tratado, para a qual o leitor deve pro-
curar argumentos ou respostas dentro do pró-
prio texto. Periódicos, como
jornais, trazem
Neste capítulo, você terá a oportunidade de notícias sobre o
ler textos argumentativos e de experimentar e cotidiano do nosso
país e do mundo,
refletir a respeito de procedimentos que podem além de informações
contribuir para a identificação do que é funda- úteis sobre negócios,
trabalho e lazer.
mental em um texto.

ler texto de opinião

1. Antes de começar a leitura do artigo, responda à questão proposta pelo autor:“História: por que e para
quê?”. Justifique sua resposta.

2. De acordo com a orientação de seu professor, apresente sua resposta e discuta-a com seus colegas. Ouça as
respostas deles também. Ao final, organizem um painel com o resultado da discussão.

FIQUE ATENTO!
Lembre-se de que o título é, geralmente, muito importante para compreender um texto.

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Agora, leia o artigo:
História: por que e para quê?

1 Várias são as evidências da atual avidez pelo

Museus e Galerias do Vaticano, Cidade do Vaticano, Itália. Foto: Alinari/The Bridgeman Art Library/Keystone
conhecimento histórico. Em outras palavras, a História
está na moda! Filmes, séries televisivas, revistas
de ampla divulgação, obras de caráter biográfico e
temático são algumas das expressões que atestam a
receptividade que a produção de cunho histórico vem
obtendo no universo sociocultural brasileiro.
2 Tal panorama parece indicar que, entre nós, a
História atinge sua maioridade, suas pesquisas ganham
consistência e adquirem respeitabilidade. Verdade é que
tudo isso pode ser atribuído, em grande parte, ao fato
de os historiadores, cada vez mais, ampliarem seus
diálogos com as demais ciências.
3 Por isso, instigado pelo nome desta seção
da Nossa História, ponho-me a pensar sobre as
responsabilidades daqueles que se deixam seduzir
pelos encantos de Clio, a musa dos historiadores,
fazendo dessa disciplina sua opção profissional.
4 Afloram em mim leituras e ensinamentos,
a começar pela recorrente profissão de fé legada por
Marc Bloch nas anotações que, publicadas postumamente,
resultaram na sua Apologia pela História ou o ofício do
historiador. Belo título! Incontornável leitura!
5 De imediato, relembro o parágrafo inicial. Clio é a musa da História na mitologia grega da Antiguidade. É filha de
Zeus, o maior dos deuses, e é representada com um rolo de pergaminho
Nele, uma criança, se dirigindo ao pai historiador,
nas mãos. As musas são divindades relacionadas às artes e às ciências.
indaga-lhe: “Diga-me, para que serve a História?”.
Pergunta desconcertante que (felizmente, a meu ver)
inquieta e atormenta estudantes, estudiosos e diletantes de História. Capacitados ou não a respondê-la,
importa registrar a permanência desse desafio ao longo de nossa trajetória profissional.
6 Com efeito, perceber e introjetar o sentido e a função sociais da História, compromisso do
profissional da área, é também dever de consciência, de cada um de nós, na condição de agentes da
nossa História, pois nunca é demasiado salientar que esta só se justifica e se explica porque tem os
homens vivos como sua razão de ser. Estudamos História para conhecer e transformar a vida. Nossas
angústias e interrogações são a força-motriz que nos impulsiona a conhecer o passado e, daí, tentar
identificar e analisar criticamente as condições de e para a compreensão do nosso presente. […]
7 O passado e os mortos se constituem no objeto de nossos estudos, mas é das indagações
e das perplexidades do presente que a História vai sendo re(escrita) e compreendida. É a partir do
contexto em que nos situamos e do qual somos partícipes que construímos a nossa História.
8 Cuidando em não resvalarmos para a prática do anacronismo, GLOSSÁRIO
é no questionamento do passado que buscamos detectar e delinear
Anacronismo: atitude ou fato que não está
nossas identidades. Essas, por seu turno, obviamente, só se delineiam de acordo com sua época.
por contrastação, por antinomia. Vale dizer: o estudo da História Antinomia: contradição, oposição.
objetiva captar e exprimir, predominantemente, nossas diferenças e Avidez: desejo intenso.
não nossas afinidades. Diletante: interessado, amante, que se
9 Assim, o conhecimento do passado, não sendo em si dedica a uma arte, ciência por puro prazer.
mesmo a História, antes de iluminar o futuro, deve proporcionar Introjetar: internalizar, interiorizar.
aos homens viverem melhor o seu presente. Propiciar-nos Partícipe: participante.
referências para a constituição de uma almejada sociedade mais Resvalar: tocar de leve, de maneira
superficial.
justa e solidária.

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10 Refletindo dessa maneira, tenho como horizonte primeiro as pessoas e o mundo que GLOSSÁRIO
me cercam. Não faço abstração do que está longe de mim. Bem sei e reconheço que necessito Mister: necessi-
aprender o todo. No entanto, como incita o poeta, é mister que eu conheça e (con)viva com o dade, precisão,
rio de minha aldeia para que alcance e dimensione a extensão e a profundidade do oceano. exigência.
11 A evocação final, igualmente lição assimilada, busco-a em Josef Fontana, quando afirma: “Entender
melhor o mundo em que vivemos e ajudar os outros a entendê-lo, a fim de contribuir para melhorá-lo, (é) o
que nos faz falta. Porque como disse Tom Payne há mais de 200 anos, e essas são palavras que cada um de
nós deveria gravar na sua consciência: está em nossas mãos recomeçar o mundo outra vez”.
BOSCHI, Caio. Revista Nossa História. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/Ministério da Cultura, ano 1, n. 11, set. 2004. p. 98.

compreensão textual i

1. Qual foi o parágrafo do texto que mais chamou sua atenção? Por quê?
a) Reúna-se com os colegas que escolheram o mesmo trecho que você e verifiquem se as justificativas de
vocês coincidem ou não. Anote as observações sobre essa conversa.

b) Converse com toda a classe a respeito das anotações feitas nos grupos.
2. A respeito do primeiro parágrafo, responda:
a) Qual é a informação que, aparentemente, responde à pergunta que dá título ao texto?

b) Após a primeira leitura, você confirma que essa é a resposta do autor à questão que ele propõe no
título? Por quê?

3. No parágrafo 6, o autor revela seu posicionamento. A esse respeito, responda:


a) Qual é a informação que pode ser indicada como resposta ao título?

b) Que palavra(s), logo no início do parágrafo, dá (dão) pistas de que se trata da posição do autor?

4. No oitavo parágrafo, o autor retoma o argumento apresentado no parágrafo 6. Destaque no texto o trecho
em que essa retomada acontece.
5. Essa mesma ideia continua a ser explorada nos parágrafos 9, 10 e 11. Destaque, em cada parágrafo, o trecho
que sustenta o posicionamento do autor.
6. Você percebeu que, nas três ocorrências da expressão “nossa História”, o pronome FIQUE ATENTO!
“nossa” está em itálico? Qual a sua hipótese para o uso desse recurso pelo autor? Para responder a essa
pergunta, observe to-
das as informações
que aparecem antes do
texto e depois dele.

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7. No segundo parágrafo, o autor atribui a maioridade, a consistência e a respeitabilidade que a História vem
alcançando a um fato importante também para o processo de aprendizagem.
a) Que fato é esse?

b) Você concorda com a afirmação do autor? Justifique sua resposta.

8. Observe que, nos parágrafos 3 e 4, o autor recorre a outros “textos” para desenvolver sua tese. Ele menciona
Clio, a musa dos historiadores, e o autor Marc Bloch.
a) Qual é a função dessas informações no texto?

b) O que essas informações sugerem a respeito do autor? Para responder a essa questão, retome a noção
de intertextualidade.

análise linguística

Você já deve ter observado que diversos recursos são utilizados em um texto para garantir a articulação das
ideias. A escolha lexical é um desses elementos: o autor escolhe as palavras sempre orientado por sua intenção, seu
objetivo, pelo efeito que pretende provocar no leitor. Outro recurso importante para a construção e compreensão
de um texto é o uso de expressões que estabelecem diversas relações entre as ideias apresentadas: as conjunções.

Conjunções
Um dos processos que pode ser utilizado para articular as ora- Alternativas: indicam ideias alternadas. Exemplos: ou…ou,
ções em um texto é o que chamamos de coordenação. As orações ora…ora, já…já etc.
coordenadas podem ser articuladas sem que sejam explicitadas as “… Ou você toma uma decisão agora ou perde essa oportunidade.”
relações de dependência entre elas. Nesse caso, o encadeamento Adversativas: revelam a ideia de contraste, oposição, de que-
é sinalizado pela pontuação. bra de expectativa. Exemplos: mas, porém, contudo, todavia, entre-
tanto etc.
Exemplos:
“… gosto de você, entretanto não podemos continuar juntos.”
a) Vim, vi, venci!
Explicativas: sinalizam a explicação ou continuação. Exemplos: pois,
b) Li o livro. Gostei da história!
porque, isto é, ou seja, por exemplo, a saber etc.
Observe que nos dois exemplos as orações são justapostas; “… o protagonista aceita que a narradora escreva sua morte (e o
sendo a justaposição indicada pelo uso dos sinais de pontuação. condene, portanto, a morrer), pois esse parece ser, naquela altura, o
Usamos as conjunções para explicitar as conexões entre as desfecho adequado da história…”
orações. Elas podem ser: aditivas, alternativas, adversativas, ex- Conclusivas: indicam conclusão. Exemplos: então, logo, por-
plicativas e conclusivas. Dependendo do contexto, as conjunções tanto, assim, por isso etc.
podem ter sentidos diferentes. Mesmo assim, é importante que “Penso, logo existo.”
você saiba que funções, geralmente, cada uma delas desempenha: É muito comum que as relações entre as orações sejam marca-
Aditivas: remetem à ideia de soma, adição, de complementa- das por expressões equivalentes a essas que acabamos de mencio-
ção. Exemplos: e, nem, mas também etc. nar. Por isso, use esse quadro apenas como referência, para ajudá-lo
“… ela nos apresenta a diversidade do mundo e constitui um a compreender o sentido das conjunções ou de outras palavras ou
repertório do possível…” expressões usadas para articular as informações em um texto.

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1. Agora, observe as frases destacadas do texto e, sempre considerando o contexto em que aparecem, indique
a função das palavras ou expressões em negrito. Volte ao texto para observar os fragmentos que antecedem
as orações destacadas, sempre que necessário.
a) Em outras palavras, a História está na moda!…

b) Com efeito, perceber e introjetar o sentido e a função sociais da História, compromisso do profissional
da área, é também dever de consciência, de cada um de nós…

c) Vale dizer: o estudo da História objetiva captar e exprimir, predominantemente, nossas diferenças e
não nossas afinidades.

d) No entanto, como incita o poeta, é mister que eu conheça e (con)viva com o rio de minha aldeia para
que alcance e dimensione a extensão e a profundidade do oceano.

2. Releia o final do artigo e observe que as últimas linhas do texto estão entre aspas.
a) O que isso signfica?

b) Na sua opinião, por que o autor usou esse recurso?

Você leu um texto argumentativo, um artigo em que o autor defende uma opinião, um ponto de vista.

ler discurso

O discurso que você vai ler agora foi elaborado para ser apresentado oralmente, mas sua construção revela
marcas explícitas da produção escrita. É bem diferente daquele depoimento dos irmãos Biano, da Banda de
Pífanos de Caruaru, que você leu no capítulo anterior.
Meus amigos e minhas amigas,
Quatro anos atrás, nesta casa, em um 1o de janeiro, vivi a experiência mais importante de minha
vida – a de assumir a Presidência do meu país. Não era apenas a realização de um sonho individual.
O que então ocorreu foi o resultado de um poderoso movimento histórico do qual eu me sentia – e
ainda hoje me sinto – parte e humilde instrumento.
Pela primeira vez, um homem nascido na pobreza, que teve que derrotar o risco crônico da morte
na infância e vencer, depois, a desesperança na idade adulta, chegava, pela disputa democrática, ao
mais alto posto da República. Pela primeira vez, a longa jornada de um retirante, que começara, como
a de milhões de nordestinos, em cima de um pau de arara, terminava, como expressão de um projeto
coletivo, na rampa do Planalto.
Hoje estou de volta a esta casa, no mesmo 1o de janeiro e quase na mesma hora. Tenho a meu
lado, como em 2003, o amigo e companheiro José Alencar, cuja colaboração inteligente e leal tornou
menos árduas as tarefas destes quatro anos. E assim o será no governo que se inicia.
Tudo é muito parecido, mas tudo é profundamente diferente. É igual e diferente o Brasil; é igual
e diferente o mundo; e eu sou, também, igual e diferente. Sou igual naquilo que mais prezo: no
profundo compromisso com o povo e com meu país. Sou diferente na consciência madura do que

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posso e do que não posso, no pleno conhecimento dos limites. Sou igual no ímpeto e na coragem de
fazer. Sou diferente na experiência acumulada na difícil arte de governar.
Sou igual quando volto a conjugar, nas suas formas mais afirmativas, o verbo “mudar”, como fiz aqui
quatro anos atrás. Mas sou diferente, pois, sem renegar a paciência e a persistência que aqui também preguei,
quero hoje pedir, com toda ênfase, pressa, ousadia, coragem e criatividade para abrir novos caminhos.
Trecho do discurso de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1o de janeiro de 2007.
Disponível em: <http://g1.globo.com/noticias/politica/0,,AA1405346-5601,00.html>. Acesso em: 3 mar. 2009.

O discurso é um gênero oral produ-


Luiz Inácio Lula da Silva
zido em registro formal, com muitas ca-

Marcello Casal Jr./ABr


racterísticas e marcas da produção escrita.
Em situações públicas, como seminários,
congressos, posses, lançamentos de obras
ou exposições, muitas vezes os convidados
leem seus discursos. Quando isso acontece,
principalmente no caso de discursos mais
longos, é comum que a plateia se canse e se
disperse. Acontece que o texto escrito tem
características diversas do texto oral, produ-
zido para uma situação de interação direta
entre os interlocutores.
Presidente Lula em seu discurso de posse, em 1o de janeiro de 2007.
Espera-se que um discurso, assim como
um texto a ser apresentado em um semi- Nascido em 1945, na cidade de Garanhuns (PE), o ex-presidente Lula
nário, por exemplo, seja objetivo e claro. É foi metalúrgico durante boa parte de sua vida. Sempre atuante em mo-
vimentos sindicais, tornou-se um líder importante do movimento dos
fundamental preservar o foco no tema prin- trabalhadores em indústrias metalúrgicas. Participou da fundação do Par-
cipal, diferentemente do que acontece em tido dos Trabalhadores (PT), da Central Única dos Trabalhadores (CUT),
foi deputado federal e disputou três eleições presidenciais, antes de ser
um depoimento mais informal, como o dos eleito em 2002. Em 2006, foi reeleito com mais de 58 milhões de votos.
irmãos Biano (da banda de Pífanos de Ca-
ruaru, lembra-se?), cuja principal intenção
é relatar uma experiência.
No caso do discurso, o que se espera é um pronunciamento claro, bem articulado, um
posicionamento a respeito de determinada ideia ou fato. Por isso, normalmente os textos
produzidos para situações mais formais são cuidadosamente elaborados, registrados e pos-
teriormente lidos, ou pelo menos consultados, pelo orador. O registro escrito desse texto
oral precisa levar em consideração que se trata de um texto para ser ouvido e não lido.
Há, portanto, características da oralidade que precisam ser preservadas para garantir
a interação. É importante ressaltar também que, ao contrário do depoimento, que tem um
caráter mais narrativo, o discurso é de natureza argumentativa e tem como objetivo per-
suadir, convencer a plateia da adequação, da pertinência de determinada ideia ou posição.

Compreensão textual ii

1. Releia o fragmento do discurso do ex-presidente Lula. Destaque, pelo menos, três expressões que foram
usadas para estabelecer contato mais direto com os interlocutores.
2. Releia o primeiro parágrafo do discurso e identifique qual é a ideia central apresentada pelo ex-presidente.
3. Destaque no texto a oração que justifica a resposta dada à questão anterior.

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4. No segundo parágrafo, há uma expressão que aparece duas vezes, reforçando uma característica típica do
texto oral. Destaque no texto a expressão e a característica a que ela corresponde.
5. Outro recurso muito utilizado pelo ex-presidente Lula, e que aparece também em seu discurso, é a escolha
de um vocabulário que o aproxima da população a quem ele se dirige. O parágrafo 2 é um exemplo desse
recurso. Destaque pelo menos três expressões que exemplifiquem essa estratégia.
6. Releia a afirmação que inicia o último parágrafo do trecho que você leu. Nessa afirmação, o autor faz uma
reflexão metalinguística, ou seja, a respeito do uso que ele faz da língua, da linguagem.
O que você entende por “conjugar, nas suas formas mais afirmativas, o verbo mudar”?
7. Perceba que, no quarto parágrafo, o ex-presidente apresenta uma ideia central do seu discurso.
a) Que ideia é essa?
b) Que argumentos o ex-presidente utiliza para fundamentar a sua tese?
c) Considerando os argumentos apresentados no discurso, você considera o texto convincente? Justifique
sua resposta.
8. Imagine que os dois últimos parágrafos do discurso fizessem parte de um artigo escrito para um jornal ou
uma revista.
a) Que alterações você realizaria nesses parágrafos?
b) Reescreva o parágrafo com as mudanças que você considerar adequadas.
c) Justifique as alterações realizadas no texto.

produzir texto

Você deve ter observado que os textos argumentativos discutem sempre uma questão e que, a par­tir de um
posicionamento em ­relação a ela, o autor escolhe argumentos e constrói o seu texto.
Agora é sua vez.

1. Responda “sim” ou “não” a esta questão.

Cor não pega. E racismo, pega?

2. Formule duas justificativas para a sua resposta. Anote-as.


3. Observe que, ao responder e justificar sua resposta, você assumiu um ponto de vista, uma posição diante da
questão proposta. Imagine agora a seguinte si-
Library of Congress

tuação: sua turma resolve promover um debate


sobre a questão do racismo e propõe a questão
como desafio para que os interessados em par-
ticipar do evento concorram a um lugar à mesa
de debatedores. Suponha que você tivesse inte-
resse em participar e tenha decidido escrever
um texto defendendo seu ponto de vista.
a) Retome suas anotações e esboce seu texto.
Não se esqueça: o artigo deve ter argumen-
tos consistentes e bem articulados para
convencer os leitores e, posteriormente, a O pastor estadunidense Martin Luther King (1929-1968), discursando em 1963, em
Washington, Estados Unidos da América.
plateia no debate.

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b) Não deixe de lhe atribuir um título criativo. Use a criatividade e procure expressar com ele alguma
ideia ou informação importante do seu texto.
c) Depois de concluir o esboço, troque seu texto com um colega. Depois de trocar e ler os textos, vocês
deverão observar se os argumentos são consistentes, se convencem o leitor e se o texto está claro.
4. Ao terminar sua produção, leia o texto “Cor não pega. E racismo, pega?”, apresentado a seguir. Durante a
leitura, observe se há algum aspecto que foi abordado pelo autor e que você gostaria de incluir no seu texto.
Anote as informações.
5. Após a leitura, forme grupos para discutir. Volte ao seu texto e faça as alterações que considerar necessárias.
6. Releia e faça as últimas modificações.
7. Finalmente, faça a revisão ortográfica e gramatical.
8. Alguns textos poderão ser lidos e discutidos em sala de aula; os demais devem ficar expostos em um painel
para que todos leiam e indiquem os textos que considerarem mais convincentes e persuasivos.

Cor não pega. E racismo, pega?

Há três quartos de século, a cada fevereiro renova-se a pergunta: e se a cor pegasse? Foi logo
depois da Revolução de 30 que Lamartine Babo lançou “O teu cabelo não nega”, coautoria dos irmãos
Valença. Como ensinam as professoras às crianças com direito a creche, cantam os versos: “Mas
como a cor não pega, mulata/ Mulata eu quero o teu amor”.
Pela lógica da letra, a resposta é inescapável: se a cor pegasse, tchau, mulata, bye-bye, amor.
Sem dúvida, marchinhas carnavalescas não foram feitas para consagrar a lógica. Bem como, se a
maldição do politicamente correto se impusesse à folia, a festa correria o risco de acabar.
“Cabeleira do Zezé” tem mesmo certa dose de homofobia. Porém não se compara à ideia implícita,
do mal em si, na cor da mulata.
Argumentam que era a cultura da época, sem conotação discriminatória. O racismo, contudo, é
inegável. E, fosse para eternizar cabeças do passado, talvez valesse reintroduzir a escravidão e a chibata.
Incomoda que se trate como natural o que não é. Dizer que só topa a moçoila porque cor não
se transmite é barbaridade, não liberdade poética. Reconsiderar o que cantamos desde o berço não
implica avalizar desvarios autoritários como cartilhas para sufocar a arte. Muito menos proibir a
composição de Lamartine Babo e dos Irmãos Valença, criadores da marcha que, reinventada por Lalá,
virou sucesso.
O Brasil só teria a ganhar se, vez por outra, pensasse sobre aberrações como essa. Fizesse isso
em relação a outras tantas expressões de segregação, quem sabe fosse menos racista. Da minha parte,
recuso-me a perpetuar o “espírito d'antanho”.
Quando o bloco vai de “O teu cabelo não nega”, ouço calado. É o tal protesto silencioso.
MAGALHÃES, Mário. Folha de S.Paulo, 2 fev. 2007. p. 2.

Lamartine Babo
Conexão Editorial

Autor da marcha “O teu cabelo não nega”, nasceu no Rio de Janeiro


em 1904. Desde a infância conviveu com a música e com 13 anos começou a
compor. Em 1924, quando trabalhava em uma empresa de seguros, partici-
pou de blocos carnavalescos e escreveu canções em que prevaleciam o bom-
-humor. Em 1929, iniciou sua carreira no rádio e, em 1932, “O teu cabelo não
nega” foi sucesso de Carnaval. Nos anos seguintes, fez parcerias com Ari Barro-
so e teve canções gravadas por Carmen Miranda. Escreveu hinos para todos os
clubes de futebol cariocas, em especial para o América, time de sua preferência.
Faleceu vítima de infarto em 1963.

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aplicar conHecimentos
1. Enem (2010)
O "politicamente correto" tem seus exageros, como chamar baixinho de "verticalmente prejudicado", mas,
no fundo, vem de uma louvável preocupação em não ofender os diferentes. É muito mais gentil chamar estrabis-
mo de "idiossincrasia ótica" do que de vesguice.
O linguajar brasileiro está cheio de expressões racistas e preconceituosas que precisam de uma correção, e
até as várias denominações para bêbado (pinguço, bebo, pé de cana) poderiam ser substituídas por algo como
"contumaz etílico", para lhe poupar os sentimentos.
O tratamento verbal dado aos negros é o melhor exemplo da condescendência que passa por tolerância racial no Brasil.
Termos como "crioulo", "negão" etc. são até considerados carinhosos, do tipo de carinho que se dá a inferiores, e, felizmente,
cada vez menos ouvidos. "Negro" também não é mais correto. Foi substituído por afrodescendente, por influência dos afro-
-americans, num caso de colonialismo cultural positivo. Está certo. Enquanto o racismo que não quer dizer seu nome continua
no Brasil, uma integração real pode começar pela linguagem.
VERISSIMO, Luis Fernando. Peixe na cama. Diário de Pernambuco. 10 jun. 2006 (adaptado).

Ao comparar a linguagem cotidiana utilizada no Brasil e as exigências do comportamento "politicamente correto", o autor tem
a intenção de

a) criticar o racismo declarado do brasileiro, que convive com a discriminação camuflada em certas expressões linguísticas.
b) defender o uso de termos que revelam a despreocupação do brasileiro quanto ao preconceito racial, que inexiste no Brasil.
c) mostrar que os problemas de intolerância racial, no Brasil, já estão superados, o que se evidencia na linguagem cotidiana.
d) questionar a condenação de certas expressões consideradas "politicamente incorretas", o que impede os falantes de usarem
a linguagem espontaneamente.
e) sugerir que o país adote, além de uma postura linguística "politicamente correta", uma política de convivência sem preconceito racial.

2. Enem (2011)
Cultivar um estilo de vida saudável é extremamente importante para diminuir o risco de infarto, mas também
de problemas como morte súbita e derrame. Significa que manter uma alimentação saudável e praticar atividade
física regularmente já reduz, por si só, as chances de desenvolver vários problemas. Além disso, é importante para
o controle da pressão arterial, dos níveis de colesterol e de glicose no sangue. Também ajuda a diminuir o estresse
e aumentar a capacidade física, fatores que, somados, reduzem as chances de infarto. Exercitar-se, nesses casos,
com acompanhamento médico e moderação, é altamente recomendável.
ATALLA, Marcio. Nossa vida. Época, 23 mar. 2009.

As ideias veiculadas no texto se organizam estabelecendo relações que atuam na construção do sentido. A esse respeito, identi-
fica-se, no fragmento, que

a) a expressão “Além disso” marca uma sequenciação de ideias.


b) o conectivo “mas também” inicia oração que exprime ideia de contraste.
c) o termo “como”, em “como morte súbita e derrame”, introduz uma generalização.
d) o termo “Também” exprime uma justificativa.
e) o termo “fatores” retoma coesivamente “níveis de colesterol e de glicose no sangue”.

para ampliar seus estudos


Filme EU TENHO UM SONHO – DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING (28 AGO. 1963).
Luther King, um pastor negro estadunidense que sonhou com um mundo livre e justo para todos, foi assas-
sinado em 4 de abril de 1968. Sua memória é símbolo da luta contra o racismo.
Um trecho desse discurso está disponível em: <www.mais.uol.com.br/view/fl5f1701art6/martin-luther-king--eu-tenho-um-sonho-
04023360D8996326?types=A>. Acesso em: 12 dez. 2011.

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etapa 1

capítulo 7
língua portuguesa Conviver: manifestar-se, defender e
sustentar ideias, formar opinião

A todo momento, pessoas procuram defender e fazer valer suas ideias, seja nas rela-
ções pessoais, em casa ou entre amigos, seja nas relações de trabalho, de estudo, de
compra e venda. Uma simples discussão sobre futebol pode levar horas, se cada debate-
dor quiser recordar performances de seu time, a fim de demonstrar que ele é o melhor.
Ninguém gosta de “comprar gato por lebre”, nem de deixar de tomar posse daquilo que
lhe pertence, ou ainda deixar que outros ocupem o espaço que lhe é de direito.
A dificuldade está em demonstrar que se tem razão ou direito àquilo que se está plei-
teando, pois as outras pessoas também se esforçam em ocupar espaços que reconhecem
como seus e em fazer valer suas ideias. Quem está com a razão? Que argumentos são
mais convincentes? Como avaliar os fatos que se apresentam no cotidiano e assumir uma
postura coerente diante deles?
Neste capítulo, você terá contato com diferentes pontos de vista. Entretanto, percebe-
rá que, às vezes, a maneira de defender uma ideia não está totalmente explícita. Perceberá
também que a defesa de ideias está em toda parte. O tempo todo, as pessoas são expostas
à “maneira dos outros” de encarar os fatos, sejam eles amigos ou parentes próximos, se-
jam jornalistas, literatos ou governantes, aparentemente tão distantes.
Ricardo Stuckert/PR

Ricardo Stuckert/PR

Pelé e Maradona, protagonistas da polêmica que divide opiniões: qual deles foi o melhor jogador de futebol do mundo?

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ler texto jornalístico i

Vamos começar analisando alguns recursos que os jornais costumam empregar na veiculação de mensa-
gens: manchete, olho, imagem. Leia a manchete a seguir. Responda oralmente às perguntas propostas, para ver
o que você consegue descobrir antes de ler o texto completo da reportagem.

Reformada, República ganha banco


antimendigo
1. A palavra “reformada” pode apresentar mais de um significado. Qual (ou quais) você conhece? Consulte
um dicionário para ampliar seus conhecimentos sobre essa palavra.
2. A palavra “república” também pode se referir a mais de um significado. A que sentido de “República” a
manchete pode estar se referindo?
3. A palavra “banco” também apresenta mais de um significado. Quais?
4. O que a palavra “antimendigo” significa?
5. Depois de refletir sobre o sentido das palavras que formam a manchete, qual será, em sua opinião, o assunto
dessa reportagem?

ler texto jornalístico ii

Agora, passe a analisar o intertítulo ou olho (pequeno texto abaixo do título) e descubra um pouco mais
sobre a reportagem.

Reformada, República ganha banco


antimendigo
Resultado é que os moradores de rua passaram a dormir no chão da praça.
Reforma do local, que custou R$ 3,1 milhões, incluiu ainda troca de piso e a revitalização
dos lagos e canteiros.

1. O texto da manchete ficou mais compreensível? Por quê?


2. Por que o banco a que se refere a manchete é “antimendigo”?
3. A que tipo de “reforma” fica claro que a manchete se referia? Justifique.

Etapa 1 85

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ler imagem

Agora que você já sabe do que tratará a notícia, amplie ainda mais sua compreensão, visua­lizando uma foto
do local que será o tema da notícia. Leia também a legenda que acompanha a imagem. Responda oralmente às
questões.

Ricardo Nogueira/Folhapress
Reinaugurada pelo prefeito Gilberto Kassab, em 2007, a praça da República, na capital paulista, ganhou novos pisos e canteiros.
Na imagem, jovem se ajeita em banco antimendigo da praça. Agora, os moradores de rua dormem no chão.

1. Quais informações presentes na legenda trazem mais conhecimento sobre o assunto?


2. Observe atentamente o rapaz que aparece na foto: ele aparenta ser um dos mendigos mencionados? Justifique.
3. A legenda afirma que o jovem “se ajeita” no banco antimendigo. Descreva o modo como ele “se ajeitou”.
4. O rapaz utilizou o banco de forma correta? Justifique.
5. Que razões você apontaria para ele utilizar o banco dessa forma?

ler textos jornalísticos iii

Perceba que somente com a leitura dos breves textos anteriores você já sabe muito sobre o fato que será
apresentado na reportagem completa. Leia atentamente os textos a seguir, pois ainda há muito a perceber quan-
to ao que está por trás dessas informações.

Reformada, República ganha banco antimendigo


Resultado é que os moradores de rua passaram a dormir no chão da praça.
Reforma do local, que custou R$ 3,1 milhões, incluiu ainda a troca de piso e a
revitalização dos lagos e canteiros
Daniela Tófoli
Reinaugurada ontem, a pra- se deite. O resultado, porém, é que, Paulo, Gilberto Kassab (PFL),
ça da República, no centro de São agora, os moradores de rua passa- e ganhou também novos pisos,
Paulo, recebeu bancos antimendi- ram a dormir no chão da praça. lagos e canteiros bem tratados.
gos – de madeira, com divisórias de A praça foi reinaugura- A reforma total da praça custou
ferro, que impedem que uma pessoa da ontem pelo prefeito de São 3,1 milhões.

86 Língua Portuguesa

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Mas o que mais chama a aten- [da retirada dos moradores da pra- gundo ele, é preciso encontrar novas
ção são os novos bancos, que subs- ça]”, comentava. “Era preciso man- saídas como, por exemplo, oferecer
tituíram os ­tradicionais de madeira dá-los para um abrigo.” emprego e melhores condições de
ou concreto, onde, antes, casais de O presidente da Comissão de vida para essas pessoas.
namorados podiam sentar abraçados. Direitos Humanos da OAB-SP, Mário Antes da República, a praça da
A prefeitura diz que o objetivo de Oliveira F
­ ilho, diz que a prefeitu- Sé também havia passado por revita-
não era impedir mendigos de dormir ra tem de assegurar a liberdade de os lização e ganhou canteiros ao redor
na praça, inau­gurada em 1905. “[os munícipes transitarem pelo local. “É do espelho d'água, concebidos para
bancos] Foram escolhidos porque uma atitude complicada porque os dificultar que moradores e crianças
são mais adequados para a arquite- moradores não querem sair e não se de rua se banhassem no local.
tura da República”, afirma Andrea pode tirá-los à força. Por outro lado, Mas a medida também não
Matarazzo, secretário municipal das o paulistano tem o direito de circular.” surtiu o efeito desejado: dias após a
subprefeituras e subprefeito da Sé. O diretor da Rede Social de reinauguração da praça da Sé, vários
Na tarde de ontem, pouco an- Justiça e Direi­ tos Humanos, Aton mendigos foram flagrados tomando
tes das 14h, a Folha observou três Fon, criticou os novos bancos. Se- banho no espelho d'água. […]
moradores de rua estirados sobre
pontos do novo passeio. “Ficou

Elen Silvestre/Conexão Editorial


pior. Antes, eles se deitavam nos
bancos, que não ficavam no meio
do caminho. Agora a gente tem de
passar por cima”, dizia a vende­dora
Rosa Amélia Pires, 28, que elogiou
as outras mudanças no local. “Fi-
cou tudo mais bonito, tirando os
mendigos.”
A secretária Madalena Pinhei-
ro, 32, também reclamava. “Não
adianta colocar esses bancos porque,
além de reduzir o espaço para a gen- Morador de rua dormindo no chão em São Paulo. Essa cena é parte do cotidiano
de muitos brasileiros que não têm onde morar.
te descansar, não resolve o problema

Folha de S.Paulo, 22 fev. 2007.

Novos bancos combinam mais com a praça


Daniela Tófoli
O secretário municipal de sub- agora passaram a ter divisórias de digos. Ele afirmou apenas que o
prefeituras e subprefeito da Sé, An- ferro que impedem as pessoas de propósito não é o de impedir os
drea Matarazzo, responsável pelas deitar – ocorreu porque o modelo moradores de rua de os utilizarem.
obras de revitalização da praça da adotado combina mais com a ar- Na inauguração, Kassab disse
República (centro de SP), disse quitetura do local, de 1905. que o objetivo da prefeitura é criar
ontem não ver problemas no fato “No projeto original, não cons- novas áreas de lazer à população.
de os moradores de rua usarem a tavam bancos. Colocamos alguns “A cidade tem carência de espa-
praça como dormitório e afirma só para o caso de alguém precisar ços públicos.”
que os bancos não foram trocados descansar.” A reforma iniciada em maio
com a intenção de impedir que eles Ele afirmou que o modelo é o passado incluiu ainda o rebaixa-
durmam no local. mesmo adota­do há dois anos na mento de canteiros, instalação de
“Não há problema que eles praça Dom José G ­ aspar. cerca metálica em arco, o desas-
durmam no passeio ou onde qui- O prefeito Gilberto Kassab soreamento do lago e a reconsti-
serem. Qualquer um pode dormir desconversou na manhã de ontem tuição do piso original.
ali”, afirmou. quando perguntado sobre os mo- Também foram instaladas câ-
De acordo com o secretário, tivos que levaram sua administra- meras para reforçar a segurança
a substitui­ção dos bancos – que ção a adotar os bancos antimen- da praça.
Folha de S.Paulo. 22 fev. 2007.

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compreensão textual i

1. Releia as seguintes falas e posicionamentos:

Ficou pior. Antes, eles se deitavam nos bancos, que não ficavam no meio do caminho. Agora a
gente tem de passar por cima, […] Ficou tudo mais bonito, tirando os mendigos.
Rosa Amélia Pires, vendedora, 28.

Não adianta colocar esses bancos porque, além de reduzir o espaço para a gente descansar, não
resolve o problema [da retirada dos moradores da praça]. Era preciso mandá-los para um abrigo.
Madalena Pinheiro, secretária, 32.

É uma atitude complicada porque os moradores não querem sair e não se pode tirá-los à força.
Por outro lado, o paulistano tem o direito de circular (a prefeitura tem de assegurar a liberdade de os
munícipes transitarem pelo local).
Mário de Oliveira Filho, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP.

O diretor da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Aton Fon, criticou os novos bancos.
Segundo ele, é preciso encontrar novas saídas como, por exemplo, oferecer emprego e melhores
condições de vida para essas pessoas.
O secretário municipal de subprefeituras e subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo, responsável
pelas obras de revitalização da praça da República (centro de SP), disse ontem não ver problemas
no fato de os moradores de rua usarem a praça como dormitório e afirma que os bancos não foram
trocados com a intenção de impedir que eles durmam no local. “Não há problema que eles durmam
no passeio ou onde quiserem. Qualquer um pode dormir ali”, afirmou.
O prefeito Gilberto Kassab desconversou na manhã de ontem quando perguntado sobre os motivos
que levaram sua administração a adotar os bancos antimendigos. Ele afirmou apenas que o propósito
não é o de impedir os moradores de rua de os utilizarem.
Agora, organize os posicionamentos dos opinantes, escrevendo, a seguir, os nomes e as funções de cada um.
a) Manifestaram contrariedade quanto à situa­ção causada pelos novos bancos.

b) manifestaram indiferença quanto à situação causada pelos novos bancos.

2. Identifique a principal diferença entre as seguintes falas:


Não adianta colocar esses bancos porque, além de reduzir o espaço para a gente descansar, não
resolve o problema [da retirada dos moradores da praça]. Era preciso mandá-los para um abrigo.
Madalena Pinheiro, secretária, 32.

Não há problema que eles durmam no passeio ou onde quiserem. Qualquer um pode dormir ali.
Andrea Matarazzo, ex-secretário municipal de ex-subprefeituras e subprefeito da Sé, responsável pelas obras de revitalização da praça da República, centro de SP.

3. Nomeie e dê a ocupação dos opinantes que:


a) revelaram preocupação com a situação dos moradores de rua.

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b) revelaram indiferença quanto à situação dos moradores de rua.

4. Agora, dê a sua opinião. Com qual desses posicionamentos você concorda? De qual discorda? Por quê?

Em cada cabeça, uma sentença: os argumentos de cada um


Os textos de opinião, como você já estudou anteriormente, revelam, em primeiro
plano, as intenções e o ponto de vista do autor. Neles, os argumentos devem ser expostos
de maneira clara, direta, ordenada, e seu objetivo muitas vezes é o de convencer o leitor.
Por vezes, no entanto, como acontece no caso da reportagem analisada por você,
deparamos-nos com uma situação diversa daquela: há a incorporação de várias opiniões,
de modo que a intenção e o ponto de vista do autor não aparecem em primeiro plano.
No entanto, a maneira como os fatos são dispostos, a seleção e a sequência de ideias apre-
sentadas levam o leitor a perceber o posicionamento e as intenções de quem o escreveu.
É praticamente impossível produzir um texto sem vestígios das intenções de seu autor.
É possível torná-las menos aparentes ou tirá-las do primeiro plano, mas não suprimi-las.
Quando os textos assumem um posicionamento a ser defendido, ainda que se refiram
a experimentos científicos ou a veiculação de fatos, são classificados como “de tese”.
Para o exercício crítico, é sempre bom você ter em mente que todo texto que lê está
submetido às crenças e opiniões de quem o escreve. Isso se torna mais sério ainda se você
considerar que os grandes veículos de informação – como os jornais e a TV – possuem
esta característica: há sempre intenções e defesa de ideias na maneira como organizam as
notícias, as imagens e as fotos.
Em geral, as teses (ideias a serem defendidas) vêm sempre seguidas de argumentos
(fatos, dados, documentos que as comprovam). É fundamental que o leitor procure sem-
pre verificar se esses dados são corretos. Por vezes, os fatos são ordenados de tal forma
que levam a conclusões errôneas.Também podem ser apresentados apenas parcialmente,
encobrindo direitos, injustiças, contradições.

Nossos autores, nossa língua


Assim como textos da mídia expressam, em primeiro plano ou não, opiniões, os textos
literários também podem fazê-lo. Por vezes, os textos literários trazem denúncias à socie-
dade de sua época, tornando-se importante material de exercício crítico para o leitor, fa-
zendo-o pensar e tomar posição. Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros,
produziu uma obra de reconhecida qualidade literária, que também se mostra repleta de
denúncias às posturas e às práticas sociais do século XIX e início do XX, no Rio de Janeiro.

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Você lerá a seguir um conto desse autor que mostra algumas das várias faces que uma
mesma situação pode oferecer.

Pai contra mãe

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a

Marc Ferrez/IMS
outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem
a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia
também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da
embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous
para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado.
Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era
dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam
dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca
tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o
grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda,
na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
Machado de Assis (1839-1908)
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma De origem humilde, mestiço, nasceu no Rio
coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao de Janeiro na época em que a escravidão
alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era ainda não tinha sido abolida.
menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse,
mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da
escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono
não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói.
A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas
comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não
raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas
folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por
onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á
generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado
uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se
com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento
da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações
reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de
uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda
que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves – em família, Candinho, – é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga,
cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse
homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo.
Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor
bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio
chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho.
A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou
seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao
Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque
morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu

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adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

algumas lições. Não lhe custou apanhar outras,


mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal.
Não fazia obras finas nem complicadas, apenas
garras para sofás e relevos comuns para cadeiras.
Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o
casamento não se demorou muito. […]
Os jovens casaram-se e foram morar com a
tia da moça, tia Mônica. As duas viviam do pouco
que conseguiam como costureiras, e os três foram
morar juntos numa pobre casa. A tia da moça
sempre alertava o casal quanto ao perigo de terem
um filho, visto que mal conseguiam dinheiro para
o sustento dos três, pois o ofício de Candinho era
incerto: às vezes pegava algum negro, mas passava
muito tempo sem consegui-lo. Embora as coisas
O colar de ferro, castigo dos negros fugidos (1834), de Jean-Baptiste Debret fossem de mal a pior (dívidas, aluguéis em atraso),
(1768-1848), aquarela sobre papel. In: Viagem pitoresca e histórica ao o casal não deu ouvidos a tia Mônica e ficou muito
Brasil (1834). feliz quando a notícia da gravidez se anunciou.
[…] A natureza ia andando, o feto crescia, até
fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades,
menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos.
Não podiam ser mais amargos.
– Não, tia Mônica! – bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto
mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro


deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à
Roda dos Enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra
mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a
criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar,
pular… Enjeitar quê? Enjeitar como? Candinho arregalou os
olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar.
A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se
desfazer inteiramente. Clara interveio.
– Titia não fala por mal, Candinho.
– Por mal? – replicou tia Mônica. – Por mal ou por
bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem
fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se
não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de
aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor
tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos
com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem
criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia
ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa,
enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim…
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu
as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela
solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e
calor – crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido,
como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta,
Capitão do mato (1824), de Johann Moritz Rugendas
e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi
(1802-1858), litografia colorida a mão. In: Viagem
interrompida por alguém que batia à porta da rua. pitoresca através do Brasil (c. 1835).

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– Quem é? – perguntou o marido. – Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino.
Este quis que ele entrasse.
– Não é preciso…
– Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora;
achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias
não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que
era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a
retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
– Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo. […]
Tia Mônica conseguira um aposento para morarem de favor, mas nada disse ao casal, esperando
que Candinho, no desespero, concordasse em enjeitar a criança ou conseguisse um modo melhor de
ganhar dinheiro.
[…] Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois
nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança
à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos. "Cândido Neves
pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos
os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite,
assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram
promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de
uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor
fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante

Museus Castro Maia, Rio de Janeiro


da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da
quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer
um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar
pela rua e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ela
parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um
farmacêutico da rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma
onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os
sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da
escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz
com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia
Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha
já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo
feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o
que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade.
Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava.
Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia.
Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica
pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria,
podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso.
Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à
mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da
mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e
saiu na direção da rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele,
é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava,
Máscara que se usa em negros que têm o hábito de comer
que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na rua da terra (1820-1830), de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), aquarela,
Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. 18,7 × 12,5 cm.

92 Língua Portuguesa

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– Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por
um dos becos que ligavam aquela à rua da Ajuda.
Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do largo da Ajuda, viu do lado oposto
um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-
-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele
também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou,
achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
– Mas…
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em
que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José,
Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. – Arminda! – bradou, conforme
a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da
algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido
Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece
que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria
libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
– Estou grávida, meu senhor! – exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor
dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!
– Siga! – repetiu Cândido Neves.
– Me solte!
– Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava
à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o
senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes – cousa que, no estado em que ela
estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.
– Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? – perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também
é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives,
em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro


desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com
grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a
casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera.
Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali
ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao
chamado e ao rumor.
– Aqui está a fujona – disse Cândido Neves.
– É ela mesma.
– Meu senhor!
– Anda, entra…
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava
abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido
Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o
senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde
jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a
escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os
gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves
viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que
fossem, urgia correr à rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer Negras do Rio de Janeiro, de Johann Moritz Rugendas,
conhecer as consequências do desastre. litografia sobre papel. In: Viagem pitoresca através do
Brasil (c. 1835).

Etapa 1 93

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Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo.
Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos
entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco,
fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a
Roda dos Enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia
Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é
verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves,
beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
– Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.
ASSIS, Machado de. Pai contra mãe. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br>. Acesso em: 14 fev 2013.

compreensão textual ii

1. O título do texto sugere que uma disputa entre duas partes será apresentada. No entanto, a situação do
“pai”ganhou mais espaço na narrativa. Que interpretações poderiam ser dadas para esse fato?
2. Leia a seguir o significado da palavra “cinismo”, especialmente o de número 2.
Cinismo. substantivo masculino 1. Rubrica: filosofia. como modelo ideal e exemplo prático destas virtudes. 2.
Doutrina filosófica grega fundada por Antístenes de Derivação: por extensão de sentido. Atitude ou caráter de
Atenas (444-365 a.C.), que prescrevia a felicidade de uma pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela
vida simples e natural através de um completo desprezo moral vigente; impudência, desfaçatez, descaramento.
por comodidades, riquezas, apegos, convenções sociais 3. Regionalismo: São Paulo. Diacronismo: obsoleto.
e pudores, utilizando de forma polêmica a vida canina monotonia, sensaboria.
Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Agora, procure explicar o que há de cinismo na seguinte passagem, respondendo às questões a seguir.
Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da
escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono
não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói.

a) Quando escreve que “nem todos gostavam de apanhar pancada”, o que o autor está querendo dizer a
respeito dos outros escravos?
b) E o que ele quer dizer com “o sentimento de propriedade moderava a ação”?
c) Qual dos três significados transcritos do dicionário melhor se relaciona com as respostas dadas por
você aos itens a e b? Justifique.
d) Em sua opinião, que sentimento(s) o autor quer provocar no leitor ao elaborar um trecho como esse?
3. O narrador afirma inicialmente que a escravidão levara consigo “os ferros”, ou seja, a situação que será narrada
já não existe mais em 1906, data em que o conto foi publicado. Embora tal ofício e os “ferros” já não existam
mais, que herança tais procedimentos podem ter deixado à sociedade atual?
4. Você considera que a narrativa se posiciona a favor ou contra Candinho? Compartilhe a sua opinião oral-
mente justificando-a.

Análise linguística

Machado de Assis empregava a norma-padrão de modo bastante peculiar. Você deve ter se impressionado
com as construções linguísticas raras utilizadas por ele, não usuais nos textos de nosso cotidiano; por exemplo,
“gratificar-se-á generosamente”, “via-se-lhe pela cara”.

94 Língua Portuguesa

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Muitos poderiam ser os itens de observação do emprego da norma-padrão pelo autor nesse conto. No entan-
to, um deles chama bastante a atenção, pois aparece logo no título.

1. No título “Pai contra mãe”, que palavra é extremamente reveladora quanto ao conteúdo a ser encontrado pelo
leitor? Justifique.

2. Das palavras a seguir, circule aquela que poderia substituir a palavra “contra” do título, sem alterar demasia-
damente o sentido da narrativa.
após sem até por perante

3. Que alterações essa substituição promoveria?

4. De acordo com a gramática, “preposição é a palavra invariável que relaciona dois termos. Nessa relação, um
termo completa ou explica o sentido do outro”. As palavras “contra” e “perante” correspondem a essa defini-
ção. Justifique essa afirmação.

5. Consulte o quadro sobre preposições para responder às próximas questões.

Preposição de em
As preposições são palavras invariáveis que de + o = do
relacionam dois termos. Nessa relação, um termo de + a = da em + o = no
de + ele(a) = dele(a) em + a = na
completa ou explica o sentido do outro. Elas classi- em + ele(a) = nele(a)
ficam-se em essenciais e acidentais. As essenciais de + este(a) = deste(a)
de + isto = disto em + este(a) = neste(a)
só funcionam como preposições: a, ante, após, até, de + esse(a) = desse(a) em + isto = nisto
com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, de + isso = disso em + esse(a) = nesse(a)
sem, sob, sobre, trás. Já as acidentais são palavras de + aquele(a) = daquele(a) em + isso = nisso
que pertencem a outras classes gramaticais, mas, de + aqui = daqui em + aquele(a) = naquele(a)
de + ali = dali em + um(a) = num(a)
às vezes, funcionam como preposições, tais como:
afora, como, conforme, consoante, durante, median-
te etc.
A relação que as preposições estabelecem entre a per
dois termos é chamada de regência. Algumas das
relações estabelecidas pela preposição ou locução a + o = ao per + o = pelo
a + os = aos per + a = pela
prepositiva são: de ausência, de assunto, de causa ou per + os = pelos
motivo, de companhia, de concessão, de conformi- a + onde = aonde
per + as = pelas
dade ou modo, de direção, de finalidade, de instru-
mento, de lugar, de matéria, de oposição, de origem, Existem os casos de contração de preposições:
de posse, de tempo, dentre outras. É bom destacar Preposição a + artigo feminino a
que, no entanto, nem sempre é possível determinar
essa relação. a+a=à a + as = às
A locução prepositiva é um grupo de duas ou
mais palavras com valor de preposição, tais como:
Preposição + pronomes demonstrativosaquele(s), aquela(s), aquilo
abaixo de, acima de, além de, apesar de, junto de,
por trás de, devido a, em função de, por causa de etc. a + aquele(s) = àquele(s)
Esse grupo de palavras sempre termina com uma a + aquela(s) = àquela(s)
preposição. a + aquilo = àquilo
Algumas preposições combinam-se com outras
palavras, constituindo um novo vocábulo. Observação: a contração é marcada com o acento grave (`).

Etapa 1 95

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As preposições destacadas nas frases a seguir estabelecem um tipo de relação entre os termos que unem.
Para cada preposição em destaque, indique a relação mais coerente.
(A) instrumento ( ) Imaginai uma coleira grossa fechada atrás com chave.

(B) oposição  escravo deitava a correr sem conhecer as ruas da cidade.


( )O

(C) ausência  uem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a
( )Q
quem lho levasse.
(D) causa  unha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido.
( )P

(E) lugar  uita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta.
( )M

(F) finalidade ( ) Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

(G) modo ou conformidade ( ) Era preciso gratificar para reaver o negro fugido.

(H) posse ( ) Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira.

6. Tente descobrir, no período a seguir, que preposições estabelecem as relações de origem e direção.
Pegou a criança, saiu de casa e rumou para a rua dos Barbonos.

7. Nas frases a seguir, localize onde há combinações semelhantes às do quadro Preposição. Consulte-o para
separar o artigo da preposição, a fim de que fiquem mais visíveis.

Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

da = de + a
preposição artigo

a) Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas
públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava
e a quantia de gratificação.

b) Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inap-
tidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via,
davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

c) Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava
com um primo, entalhador de ofício.

d) O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou
que pouco.

96 Língua Portuguesa

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e) Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à roda na noite seguinte.

f) Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá--
-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio.

g) Eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser.

produzir texto

O conto de Machado nos dá oportunidade de refletir sobre aspectos socioeconômicos da realidade bra-
sileira, tanto na época em que o texto foi escrito como nos dias de hoje. Observando as orientações a seguir,
produza um texto com suas opiniões sobre o conto lido.

1. Destaque duas partes que mais lhe chamaram a atenção no conto e formule justificativas para suas escolhas.
2. Procure identificar, nesses trechos que você escolheu, aspectos da realidade brasileira problematizados pelo autor.
3. Em seguida, manifeste a sua opinião sobre esses aspectos e estabeleça uma comparação com o tempo presente.
4. Ao escrever, procure empregar os elementos articuladores (conjunções) com que teve contato no capítulo
anterior. Utilize, por exemplo, as conjunções explicativas (pois, porque, isto é, por exemplo) para justificar
as suas escolhas e opiniões.
5. Em duplas, leiam o que cada um escreveu e façam sugestões para o aperfeiçoamento de suas produções textuais.

aplicar conhecimentos
1. Enem (2010)
Em uma reportagem a respeito da utilização do computador, um jornalista posicionou-se da seguinte forma: A
humanidade viveu milhares de anos sem o computador e conseguiu se virar. Um escritor brasileiro disse com orgulho
que ainda escreve a máquina ou a mão; que precisa do contato físico com o papel. Um profissional liberal refletiu que o
computador não mudou apenas a vida de algumas pessoas, ampliando a oferta de pesquisa e correspondência, mudou
a carreira de todo mundo. Um professor arrematou que todas as disciplinas hoje não podem ser imaginadas sem os
recursos da computação e, para um físico, ele é imprescindível para, por exemplo, investigar a natureza subatômica.
Como era a vida antes do computador? OceanAir em Revista, n. 1. 2007 (adaptado).
Entre as diferentes estratégias argumentativas utilizadas na construção de textos, no fragmento, está presente
a) a comparação entre elementos.
b) a reduplicação de informações.
c) o confronto de pontos de vista.
d) a repetição de conceitos.
e) a citação de autoridade.
2. Enem (2010)
Duke

Etapa 1 97

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Todo texto apresenta uma intenção da qual derivam as esco-

Ministério da Saúde
lhas linguísticas que o compõem. O texto da campanha publicitária
e o da charge apresentam, respectivamente, composição textual
pautada por uma estratégia

a) expositiva, porque informa determinado assunto de modo


isento; e interativa, porque apresenta intercâmbio verbal entre
dois personagens.
b) descritiva, pois descreve ações necessárias ao combate à den-
gue; e narrativa, pois um dos personagens conta um fato, um
acontecimento.
c) injuntiva, uma vez que, por meio do cartaz, diz como se deve
combater a dengue; e dialogal, porque estabelece uma inte-
ração oral.
faca a sua parte. d) narrativa, visto que apresenta relato de ações a serem reali-
zadas; e descritiva, pois um dos personagens descreve a ação
juntos somos mais fortes realizada.
nesta luta. e) persuasiva, com o propósito de convencer o interlocutor a
O SUS está com você no combate à dengue. combater a dengue; e dialogal, pois há interação oral entre os
www.combatadengue.com.br personagens.

orientaÇão para o traBalho

Jornalista

O jornalista é um profissional da notícia. É recomendável que o jornalista consulte Área de atuação: O maior segmento do merca-
Em seu trabalho, ele investiga e divulga fatos diversas fontes para preparar suas matérias, do de trabalho para este profissional está nos
e informações de interesse público, redige e colhendo diferentes opiniões e posições sobre trabalhos de assessoria de comunicação, muitas
edita reportagens, entrevistas e artigos. Para um determinado tema. É desejável também vezes feitos de forma autônoma, sem vínculo
que a comunicação com o público aconteça, que tenha espírito investigativo, mas princi- empregatício. Empresas tradicionais de comu-
ele deve adaptar a abordagem e a linguagem palmente que privilegie o interesse público na nicação, como revistas, jornais e emissoras de
dos textos ao veículo e ao leitor a que se des- hora de apresentar a informação. rádio e TV, vêm contratando os jornalistas como
tinam. No caso de reportagens, ele apura os Exige-se desse profissional o pleno domínio freelancer. A dependência em relação a receitas
fatos e define o enfoque, possíveis entrevis- da língua, de técnicas de redação e edição, sen- de publicidade nesses órgãos muitas vezes leva
tados, o tamanho do texto e a edição final. so crítico apurado e capacidade de expressão. O à demissão de funcionários ou à precarização
Ele deve se preparar para a reportagem pes- conhecimento a respeito de elementos políticos, das relações de trabalho, tanto para jornalistas
quisando, colhendo informações e trocando sociais, econômicos e culturais que configuram como para outros profissionais. Por isso, muitos
ideias com diferentes interlocutores. Pode as sociedades contemporâneas poderá trazer procuram abrir sua própria empresa de assesso-
atuar como assessor de imprensa de em- também muitas contribuições ao seu trabalho. ria de comunicação. Sob diferentes regimes de
presas, organizações diversas e órgãos pú- No dia a dia, ele precisará dominar e se manter contratação, o jornalista pode também fazer re-
blicos, com a tarefa de coletar informações atualizado sobre softwares de edição de textos visão e edição de textos e publicações e escrever
e redigir textos para divulgação ou preparar e imagens e outras ferramentas da informática. para websites. O jornalista pode também realizar
material institucional para mídia impressa e Formação escolar exigida: Ensino superior cursos de pós-graduação, habilitando-se para a
eletrônica. completo (4 anos). pesquisa e a docência no ensino superior.

para ampliar seus estudos


Sites MACHADO DE ASSIS: HOMENAGEM AOS 100 ANOS DO FALECIMENTO DE MACHADO DE ASSIS
Página do Ministério da Educação dedicada a Machado de Assis. No site é possível obter informações biográ-
ficas, assistir a vídeos e fazer o download das obras mais importantes do autor.
Disponível em <http://machado.mec.gov.br>. Acesso em: 10 out. 2011.

UNIDOS DO LIVRAMENTO
Nesta página da TV Cultura, é possível assistir à minissérie Unidos do Livramento, uma adaptação de quatro
contos de Machado de Assis realizada por Renata Pallottini e dirigida por Maucir Campanholi.
Disponível em: <www.tvcultura.com.br/direcoes/unidos-do-livramento>. Acesso em: 10 out. 2011.

98 Língua Portuguesa

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etapa 1

capítulo 8
língua portuguesa Cantar o amor, cantar o feminino

A mar e manifestar esse sentimento são situações vividas há muito tempo pela huma-
nidade. A Bíblia possui um conhecidíssimo livro que não foi escrito para demons-
trar o poder divino, mas sim para manifestar o amor (ou amores) de um rei: Salomão. O
livro Cantares de Salomão contém versos de apreciação de um homem apaixonado por
uma mulher e também de admiração acerca da beleza feminina. “Cantar” parece ser uma
decorrência natural do “amar” e é uma prática que vem acompanhando as sociedades
humanas por séculos.
Neste capítulo, você estudará a modificação na maneira de “cantar” o amor ao longo
dos séculos e como, ao mesmo tempo, foram mantidos alguns padrões que se repetem
ainda hoje. Verá também que a literatura traz registros dessas diversas formas de amar e
que o modo de “cantar” o amor, hoje em dia, deve muito ao passado literário.

Nascher Sculpture Center, Dallas, EuA/Christie's Images/Corbis/Latinstock

O beijo (1907), de Constantin Brancusi (1876-1957), gesso, 27,9 × 26 × 21,6 cm.

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ler canção e imagens

Queixa

©Selva/Leemage. Otherimages
Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejos de vingança Cena de amor cortês, Itália, século XV.
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Österreichischer Galerie Belvedere, Viena


Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Amiga, me diga...
VELOSO, Caetano. Cores, Nomes, 1982. Warner Crappell. Faixa 1. O beijo (1907-1908), de Gustav Klimt (1862-1918), óleo sobre tela, 180 × 180 cm.

100 Língua Portuguesa

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1. Certamente você percebeu que o amor expresso nessa canção não é correspondido e que isso acarreta
tristeza àquele que ama. Reúna-se com seus colegas em grupos e façam um mapeamento da situação desse
apaixonado. Em seguida, preencham o quadro com versos retirados do poema.

Sente-se rejeitado e desprezado

Sente-se atingido pela dureza


da amada

Sente-se em sofrimento em
função do sentimento que
experimenta

Sente a indiferença que o ser


amado lhe dedica

Sente-se dominado pela amada

2. Que palavras o eu lírico empregou para caracterizar a posição de poder da mulher? Destaque-as no texto.
3. Observem as duas imagens que acompanham o poema e avaliem qual delas melhor expressa a posição de
apaixonado em que o eu lírico se coloca: Cenas de amor cortês ou O beijo? Justifiquem.
4. Releiam a terceira estrofe e respondam: que motivos tornaram esse amor impossível ou irrealizável?

A TRADIÇÃO E AS FACES DO AMOR: CANTAR O BELO, CANTAR


O SOFRIMENTO
O tema do amor inspira e faz produzir belas manifestações, mas ele também está
associado à dor, às frustrações e às irrealizações humanas. Os poemas e a literatura em
geral mostram que o “final feliz” ou a concretização plena desse sentimento não é algo
facilmente atingido. Os desacertos, os problemas decorrentes desse sentimento sempre
aparecem. As desigualdades no amar, conforme aparecem na canção de Caetano Veloso,
são cantadas há muito tempo. Essa tradição vem especialmente da Idade Média. Analise
a canção a seguir, produzida entre os séculos XII e XV.

Etapa 1 101

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ler poema I

Cantiga de amor
Senhora minha, desde que vos vi, que me causais me vai levar à morte,
lutei para ocultar esta paixão direi, chorando minha triste sorte:
que me tomou inteiro o coração; “Senhor, por que me vão assim matar?”
mas não o posso mais e decidi E, vendo-me tão triste e sem prazer,
que saibam todos o meu grande amor, todos, senhora, irão compreender
a tristeza que tenho, a imensa dor que só de vós me vem este pesar.
que sofro desde o dia em que vos vi.
Quando souberem que por vós sofri
tamanha pena, pesa-me, senhora, Já que assim é, eu venho vos rogar
que diga alguém, vendo-me triste agora, que queirais pelo menos consentir
que por vossa crueza padeci, que passe a minha vida a vos servir,
eu, que sempre vos quis mais que ninguém, e que possa dizer em meu cantar
e nunca me quiseste fazer bem, que esta mulher, que em seu poder me tem,
nem ao menos saber o que eu sofri. sois vós, senhora minha, vós, meu bem;
E quando eu vir, senhora, que o pesar graça maior não ousarei rogar.
FERNANDES, Afonso. Cantiga de amor. Disponível em: <www.graudez.com.br/literatura/obras/afernandes.html>. Acesso em: 12 dez. 2011.

Compreensão textual i

1. Você deve ter notado semelhanças entre as canções mencionadas anteriormente. preencha com versos da
“Cantiga de amor” um quadro parecido com o anterior, numa comparação entre as canções.

Sente-se rejeitado e desprezado

Sente-se atingido pela dureza


da amada

Sente-se em sofrimento em
função do sentimento que
experimenta

Sente a indiferença que o ser


amado lhe dedica

Sente-se dominado pela amada

Responda agora às seguintes questões, analisando outros componentes da canção de Afonso Fernandes.

2. Observe a última estrofe de cada uma das canções e aponte uma diferença básica entre a situação de cada
apaixonado.
3. Em mais de um verso, o eu lírico da cantiga de Afonso Fernandes mostra-se preocupado com a opinião
pública em sua declaração de amor. Que versos mostram essa preocupação? Destaque-os.
4. Que hipótese você levantaria para explicar esse fato?

102 Língua Portuguesa

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5. A cantiga foi produzida na Idade Média. Que motivos – diferentes dos de hoje – você acha que poderiam
ter tornado esse amor impossível? Discuta oralmente com a classe.

Os gêneros literários e o gênero lírico

Como acreditavam os gregos, cada tipo de expressão literá- Entre os gêneros literários, o lírico, lirismo, também chamado
ria dá lugar ou exige uma forma e um estilo próprios. A despei- poesia lírica, ou simplesmente poesia, é a forma literária em que o artis-
to de condenada à morte por diversos críticos e escolas literá- ta utiliza uma série de meios intermediários – os artifícios líricos – para
rias, a noção de gênero continua viva e necessária. Ela é ligada traduzir a sua visão da realidade e veiculá-la ao leitor. É, pois, o encon-
à própria natureza formal da literatura e não há como suprimi-- tro da inspiração lírica e de uma forma literária – o poema. […] a poesia,
-la. […] O ato criador consiste mesmo em dar “forma” a uma por sua vez, corresponde a outra inclinação elementar do homem: a de
visão da realidade pelo artista, que retira da natureza a sua ins- vazar emoções por meio de expressão rítmica – o verso e o canto. As-
piração e experiência, recriando-a ou transfigurando-a numa for- sim, a poesia é inerente ao homem desde o mais primitivo nas fases de
ma, derramando-se essa visão numa “forma”, os gêneros. […]. literatura não escrita. […] Originalmente, entre os gregos, era a forma
(p. 763, v. I) literária destinada a ser cantada com a lira […] . (p. 948, v. II.)

Coutinho, Afrânio; Souza, José Galante de (Orgs.). Enciclopédia de literatura brasileira. 2. ed. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/Departamento
Nacional do Livro/Academia Brasileira de Letras, 2001. v. 1. p. 763; v. 2. p. 948.

História literária: os autores e suas obras


A cantiga, o poema do classicismo
“Queixa”, de Caetano Veloso, faz parte, portanto, de uma vasta tradição literária e da
prática de se cantar o amor em versos, compondo-se poemas. Ela retoma um modo de
composição medieval – as cantigas – produzidas entre os séculos XII e XV pelos jograis,
artistas (músicos, cantores) que frequentavam os castelos, apresentando seus números mu-
sicais, em geral fáceis de serem repetidos pelas pessoas que assistiam às performances, em
função de sua letra facilitada. Essas composições eram produzidas por nobres, autodeno-
minados trovadores (compositores de trovas). Por vezes, elas manifestavam paixões secre-
tas e impossíveis por damas da sociedade, e essa impossibilidade de concretizar a paixão se
devia ora à diferença social, ora ao fato de as mulheres serem casadas, o que tornava a situa-
ção de miserabilidade no amor ainda mais cantável. Chamou-se a essa situação de “coita de
amor”, na qual o apaixonado era realmente digno de pena por seu sofrimento irremediável.
A mulher era uma “senhora” de posição social elevada, o que gerava o lamento pelo amor
não correspondido e por vezes desprezado. O primeiro texto literário de que se tem notícia
em galego-português (língua que corresponde a uma fase anterior à do português) é jus-
tamente uma “cantiga”. Ela se intitula “Cantiga da Ribeirinha” ou “Cantiga da Guarvaia” e
fala do encantamento que a visão de uma mulher provocou em um homem. A data de sua
produção é incerta, 1189 ou 1198, mas sabe-se que seu autor é Paio Soares de Taveirós.
A maneira com que esses versos foram compostos na Idade Média foi substituída, no
século XVI, por um profundo desejo de diferenciação formal: começam a surgir poemas
que se esmeravam em apresentar forma rigorosamente estruturada, tanto em relação ao
tamanho dos versos (métrica) quanto à sonoridade (rimas) e quanto ao ritmo (marcação
das sílabas). Luís de Camões produziu inúmeros poemas nesse período, que se caracte-
rizavam por assumir os ideais clássicos de elaboração artística. Segundo Maria Helena
Ribeiro da Cunha, professora e pesquisadora da obra camoniana,
Imitar os antigos supunha opor-se à linguagem rude, às formas indisciplinadas e ao cunho
popular da poesia medieval. Supunha imitar a perfeição dos modelos, dos paradigmas, das formas,
das imagens e dos processos clássicos.
Cunha, Maria Helena Ribeiro da. Preliminares. In: A literatura portuguesa em perspectiva: Classicismo/Barroco/Arcadismo. São Paulo: Atlas, 1993. v. 2. p. 19.

Etapa 1 103

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Leia a seguir um poema de Camões. Nele você irá identificar a mesma temática dos
anteriores. Você perceberá o tom reflexivo com que o autor apresenta o amor.

ler poema II

Se as penas com que Amor tão mal me trata


Se as penas com que Amor tão mal me trata
Permitirem que eu tanto viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata


Secar as frescas rosas sem colhê-las,
Mostrando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em bela prata;

Vereis, Senhora, então também mudado


O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.

Suspirareis então pelo passado,


Em tempo quando executar-se possa
Em vosso arrepender minha vingança.
CAMÕES, Luís de. In: Sonetos. Disponível em:
<www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf>. Acesso em: 12 dez. 2011.

compreensão textual ii

1. Leia duas ou três vezes, em voz alta, o texto de Camões. Identifique o ritmo, a métrica e as rimas do poema.
O que você entendeu desse poema? Converse com um colega e em seguida compare sua resposta com a dele.
2. Agrupe-se com alguns colegas e ensaiem a declamação dessas estrofes. Dividam-nas entre si. Apresentem-
-se para a classe, após estarem certos de que a leitura e a pronúncia das palavras será bem clara aos ouvintes.
3. Preencha com versos do poema o quadro a seguir, incluindo nele suas percepções quanto às semelhanças e
diferenças entre o texto de Camões e “Cantiga de amor”.

Quanto à situação do homem


apaixonado (diferenças e
semelhanças)

Quanto ao comportamento da
mulher amada (diferenças e
semelhanças)

Quanto à linguagem
empregada (diferenças e
semelhanças)

Quanto ao tamanho dos versos


(diferenças e semelhanças)

104 Língua Portuguesa

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4. Você acha que seria possível adaptar o poema a um samba ou outro ritmo que desejar? Que alterações seriam
necessárias? Experimente. Pense em um samba ou canção conhecidos, e tente adaptar o poema de Camões.
5. Compare o poema à “Cantiga de amor”, de Afonso Fernandes, e avalie: qual dos dois seria mais adequado
às batidas de um samba ou do ritmo escolhido por você? Justifique.

análise linguística

Para responder às questões a seguir, observe pontos do poema que mostram a situação do eu lírico em
relação ao amor sentido.

1. Nos pares de versos a seguir, as palavras em destaque nos versos “b” se referem a que outras palavras dos
versos “a”? Grife-as.
a) Se as penas com que Amor tão mal me trata
b) Permitirem que eu tanto viva delas,
a) Que veja escuro o lume das estrelas,
b) Em cuja vista o meu se acende e mata;

2. Escolha uma das opções a seguir como sendo a mais indicada para a correta significação dos versos “b”.
Permitirem que eu tanto viva delas
• Permitirem que eu sobreviva ao escuro
• Permitirem que eu sobreviva a essas mesmas penas
• Permitirem que eu sobreviva às estrelas
Em cuja vista o meu se acende e mata
• Em cuja vista o meu lume se acende e mata
• Em cuja vista o meu olhar se acende e mata
• Em cuja vista o meu escuro se acende e mata
3. Para entender melhor a primeira estrofe, reescreva-a em seu caderno substituindo os versos com as pala-
vras destacadas pelas opções escolhidas por você na questão anterior.
4. Consulte o quadro Os pronomes, a seguir, para resolver esta e as próximas questões. Os pronomes posses-
sivos indicam que algo ou alguém detém a posse ou propriedade de algo. Essa definição esclarece uma série
de significados dos textos. Há ainda outro pronome empregado nesta estrofe que também se relaciona a
algum elemento anteriormente mencionado no poema. Observe e compare:

Que veja escuro o lume das estrelas,


Em cuja vista o meu se acende e mata

Que veja escuro o lume das estrelas


Em cujo mirar o meu se acende e mata

a) No segundo par de versos, que palavras foram alteradas, em relação ao primeiro par?
b) Em qual delas alterou-se apenas uma letra?
c) Por que foi necessária essa alteração?
d) “Cujo mirar” se refere ao brilho de quê?
e) “Cuja vista” se refere à vista de quê?

Etapa 1 105

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Os pronomes

De acordo com Celso Cunha e Lindley Cintra, pronomes são Os pronomes relativos recebem esse nome por se referirem,
palavras que “podem representar um substantivo ou acompanhá-- regra geral, a um termo (palavra ou expressão) que já foi mencio-
-lo”. Os pronomes possessivos “acrescentam à pessoa gramatical nado anteriormente – o antecedente.
uma ideia de posse”. Veja a tabela a seguir: Esses pronomes apresentam formas variáveis e invariáveis.

Observe:
Um Vários
possuidor possuidores
Variáveis Invariáveis
Um objeto → um objeto →
vários objetos vários objetos Masculino Feminino

1a pessoa masc. meu nosso


fem. minha nossa o qual, os a qual, as
que
meus nossos quais quais
quem
minhas nossas cujo, cujos cuja, cujas
onde
quanto, quantas
2a pessoa masc. teu vosso quantos
fem. tua vossa
teus vossos
tuas vossas Há também as formas simples: que, quem, cujo, quanto, onde
e a forma composta o qual.
3a pessoa masc. seu seu Cujo é, ao mesmo tempo, relativo e possessivo, apresentando
fem. sua sua o mesmo valor de do qual, de quem, de que.
seus seus Cunha, Celso; Cintra, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo.
suas suas 5. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p. 291, 357.

5. Observe a alteração ocorrida na estrofe a seguir e explique-a de acordo com o quadro Os pronomes. Avalie
se houve alteração de sentido devido a essa modificação.

Suspirareis então pelo passado,


Em tempo no qual executar-se possa
Em vosso arrepender minha vingança.

6. Consulte o quadro Os pronomes e em seguida:


a) destaque os pronomes possessivos na estrofe a seguir.
b) indique a que se referem as expressões em que os pronomes possessivos aparecem.

Vereis, Senhora, então também mudado


O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.

106 Língua Portuguesa

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análise literária

Você deve ter notado que a leitura do poe­ma de Camões é mais complexa que a da “Cantiga de amor” de
Afonso Fernandes. Camões investiu bastante na forma e nas ideias que transmitia, buscando dar-lhes origina-
lidade e profundidade. Como já vimos, ele desejava diferenciar sua produção da do Trovadorismo, de caráter
mais popular e de fácil entendimento. O tema é o mesmo, mas a maneira de expressá-lo modificou-se bastante
e exigiu um leitor mais cuidadoso. Chamamos de “estilo” a maneira particular com que os autores elaboram
seus textos. Para construir uma maneira própria, eles empregam recursos especiais. Respondendo às questões a
seguir, você vai perceber alguns dos recursos empregados por Camões, que tornaram sua maneira de cantar “o
sofrimento do amor” tão diferenciada.

1. Compare as seguintes formas de expressão, apontando em cada par apenas o verso em que a afirmação
tenha sido dita de forma mais direta

a) Se as penas com que Amor tão mal me trata.


b) Se as penas com que Amor me trata tão mal.

a) Que veja o lume das estrelas escuro.


b) Que veja escuro o lume das estrelas.

a) Em tempo quando executar-se possa em vosso arrepender minha vingança.


b) Em tempo quando minha vingança possa executar-se em vosso arrepender.

2. Você deve ter notado que Camões prefere a forma indireta para expressar algumas das suas ideias. Que
efeito isso causa no leitor?
3. O poema alerta para o fato de que, possivelmente, com o passar do tempo, “a linda cor das tranças belas”
será mudada de “ouro fino” para “bela prata”.
a) Se as tranças eram de “ouro fino”, que informação sobre os cabelos da dama podemos subentender?
b) Se as tranças se modificarão em “bela prata”, o que podemos entender que acontecerá a elas, com o
passar do tempo?
c) De acordo com a estrofe, que elemento é o grande causador de tal mudança?
4. Observe:

Tranças → cabelos
Ouro fino → louros
Bela prata → embranquecidos

• A vingança do amado será em que etapa da vida? Que vingança será essa?

Chama-se metáfora a figura de linguagem que emprega imagens ou símbolos em lugar de uma situação ou
de certa característica de um ser, representando-a: “mostrando a linda cor das tranças belas mudada de ouro
fino em bela prata” = quando vier o envelhecimento (situação); tranças de ouro fino = tranças louras (carac-
terística).
É quase um “jogo” no qual o leitor tem de identificar qual é a relação de significação que os elementos
manifestam entre si. É também uma forma indireta e muitas vezes surpreendente de se dizer algo.

5. Releia todo o poema e procure descobrir qual é o significado do verso “Se o tempo secar as frescas rosas sem
colhê-las”. Apresente suas hipóteses oralmente aos seus colegas.

Etapa 1 107

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6. Classifique os sentimentos: assinale 1 naqueles que dizem respeito ao modo como se sente o eu lírico e 2 nos
que indicam como a amada se sentirá no futuro.

saudoso(a) ferido(a) dolorido(a) humilhado(a)

arrependido(a) vazio(a) nostálgico(a)

7. A forma de divisão dos versos também foi planejada de modo a causar impressões no leitor ou fazer da
leitura algo lúdico. Observe.

Se as/ pe/nas/ com/ que A/mor /tão/ mal/ me /tra/ta Que/ ve/ja es/cu/ro o/ lu/me/ das/es/tre/las,
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Per/mi/ti/rem/ que eu /tan/to/ vi/va/ de/las, Em/cu/ja /vis/ta o /meu /se a/cen/de e/ ma/ta;
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

a) Experimente pronunciar em voz alta cada segmento numerado. Eles são chamados de “sílabas poéticas”.
b) Agora, tente repetir essa leitura, forçando as sílabas em destaque. O que você observa quanto à
musicalidade?
c) Observe também as terminações dos versos (as rimas). Que versos se relacionam pelas mesmas rimas?
d) Tente dividir em sílabas poéticas as próximas estrofes do poema, observando mais de perto a habilidade
de Camões em montar essa espécie de jogo de palavras, musicalidade e significados.

História literária: épocas literárias


Trovadorismo numeral seguida do elemento sílabo: MONOSSÍLABO, DISSÍLABO,
Trovadorismo é o período da história da literatura portuguesa que TRISSÍLABO, TETRASSÍLABO, PENTASSÍLABO, HEXASSÍLABO, HEP-
vai de 1189 ou 1198, data aproximada da composição da “Cantiga da TASSÍLABO, OCTOSSÍLABO, ENEASSÍLABO, DECASSÍLABO, HEN-
Ribeirinha”, até 1418 ou 1434, com a nomeação de Fernão Lopes como DECASSÍLABO E DODECASSÍLABO.” (p. 650-1). Contam-se as sílabas
cronista-mor do reino português. Também conhecido como “Primeira poéticas de um verso “desde o seu início até a última sílaba tônica […]
época Medieval”, o período caracterizou-se por apresentar diversidade não se leva em conta a átona final da palavra”. (p. 651).
de manifestações poéticas. Rima. “(A) identidade ou semelhança de sons em lugares deter-
Classicismo minados dos versos é o que se chama RIMA.” (p. 675). “Elemen-
[…] De modo geral, o termo Classicismo é usado para designar to importantíssimo na poesia dos povos românicos, a rima serve
o movimento, iniciado na Renascença, de restauração das formas principalmente a dois fins. É uma sonoridade, uma musicalidade
e valores do mundo antigo, considerados os modelos da perfeição que, introduzida no poema, satisfaz o ouvido […] Mas não consti-
artística e filosófica. ” […] (p. 495, v. 1). O Classicismo português, tui um elemento intrínseco, essencial do verso […] não faltam às
século XV, é particularmente rico para a literatura portuguesa, pois literaturas modernas numerosos e admiráveis poemas compostos
manifestaram-se as produções de Gil Vicente e de Luís de Camões, de versos BRANCOS [sem rimas] […]” (p. 681)
expressão máxima do Renascimento. Vindo da Itália, o português Soneto. “Há poemas que têm uma forma fixa, isto é, submetida a re-
Francisco Sá de Miranda trouxera a Portugal os novos conceitos de gras determinadas quanto à combinação dos versos, das rimas, ou das
arte e poesia, o dolce stil nuovo (doce estilo novo) de que se utilizou estrofes. […] Dentre eles, merece um comentário particular o SONETO
Camões, com a retomada da mitologia pagã, busca da perfeição por sua longa vitalidade em várias literaturas, inclusive na portuguesa e
estética e pureza das formas. (p. 1 329, v. 2) na brasileira. […] Compõe-se o SONETO ITALIANO de quatorze versos,
COUTINHO, Afrânio; SOUZA, José Galante de (Orgs.). Enciclopédia da literatura brasileira. geralmente decassílabos ou alexandrinos, agrupados em duas quadras
2 ed. São Paulo: Global, 2001. e dois tercetos”. (p. 690).
Ritmo.“Esta sucessão de sílabas fortes e fracas, com intervalos regula- Cunha, Celso; Cintra, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo.
res, ou não muito espaçados […] é uma fonte de prazer a que chama- 5. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p. 685-729.
mos RITMO. O ritmo é o elemento essencial do verso […] Quando tais Figuras de linguagem.“Figuras de linguagem são certas maneiras de
períodos rítmicos (os versos) apresentam o mesmo número de sílabas dizer que expressam o pensamento ou o sentimento com energia e co-
em todo o poema, a versificação diz-se REGULAR. Se não há igualdade lorido, a serviço das intenções estéticas de quem as usa”.
silábica entre eles, a versificação é IRREGULAR ou LIVRE.
Lima, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 15. ed.
Metrificação. “O número de unidades silábicas que se contêm num Rio de Janeiro: José Olímpio, 1972. p. 460.
verso […] é indicado por compostos gregos em que entra a forma do

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ler e proDuZir texto

Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure


GLOSSáRIO
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Pesar: tristeza. Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Posto que é chama: já que é chama, uma
vez que é chama.
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Vão momento: momento sem importância.
Zelo: cuidado.
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Estoril, outubro de 1939.
MORAES, Vinicius de. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 49.

Você agora vai produzir um texto baseado na compreensão do “Soneto da fidelidade”, de Vinicius de Mo-
raes. Para tanto, inicie “brincando” com a melodia do poema (como você já percebeu, os poetas “contam” com
essa diversão por parte do leitor).

1. Leia-o em voz alta, para si mesmo, tentando dar-lhe entonação expressiva (mesmo que ainda não o tenha
compreendido por completo). Obedeça à pontuação (pausas leves nas vírgulas e ao fim de cada verso).
2. Procure fazer com que a entonação de sua leitura busque as rimas no fim do verso, acentuando-as.
3. Você pode também destacar em sua leitura as palavras que considerar mais marcantes, acentuando-as na
pronúncia.
4. Feito isso, localize as estrofes em que a declaração de amor fica mais intensa e procure dar-lhes uma ento-
nação que as torne o mais sinceras e verdadeiras possível.
5. Discuta com seu professor e com seus colegas o que entendeu a respeito de algumas das figuras de lingua-
gem que apareceram no poema.
6. Agora, reflita a respeito do título do poema. Nele está contida uma promessa, que se propõe ao longo do
poema. Você vai transformá-la numa “Carta à(ao) amada(o)”.
Essa carta deverá conter todas as declarações que aparecem no poema, porém numa conversa direta com
quem se ama. Por exemplo, onde se lê “De tudo ao meu amor serei atento”, na carta, apareceria algo como:
Meu amor,
Eu quero lhe dizer que serei atento a você em todas as coisas, nos menores detalhes possíveis…
Não se esqueça das características formais de uma carta (iniciar com local e data, indicar o vocativo, encer-
rar com uma saudação e assinatura). Mãos à obra!
Se tiver a quem enviá-la, não perca a oportunidade! Envie também o lindo soneto de Vinicius de Moraes
que a motivou.

Etapa 1 109

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aplicar conhecimentos
1. Enem (2004)
FRANK & ERNEST ©Bob Thaves

Frank & Ernest (5/02/2003) Intercontinental Press.


Nessa tirinha, a personagem faz referência a uma das mais conhecidas figuras de linguagem para

a) condenar a prática de exercícios físicos.


b) valorizar aspectos da vida moderna.
c) desestimular o uso das bicicletas.
d) caracterizar o diálogo entre gerações.
e) criticar a falta de perspectiva do pai.

2. Enem (2010)
Texto I
XLI
Ouvia:
Que não podia odiar
E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma
E a mim mesma temer.
hilst, H. Cantares. São Paulo: Globo, 2004 (fragmento).

Texto II
Transforma-se o amador na cousa amada
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,


pois em mim tenho a parte desejada.
Camões, Luís de. Sonetos. Disponível em: <www.jornaldepoesia.jor.br>.
Acesso em: 3 set. 2010 (fragmento).

Nesses fragmentos de poemas de Hilda Hilst e de Camões, a temática comum é

a) o “outro” transformado no próprio eu lírico, o que se realiza por meio de uma espécie de fusão de dois seres em um só.
b) a fusão do “outro” com o eu lírico, havendo, nos versos de Hilda Hilst, a afirmação do eu lírico de que odeia a si mesmo.
c) o “outro” que se confunde com o eu lírico, verificando-se, porém, nos versos de Camões, certa resistência do ser amado.
d) a dissociação entre o “outro” e o eu lírico, porque o ódio ou o amor se produzem no imaginário, sem a realização concreta.
e) o “outro” que se associa ao eu lírico, sendo tratados, nos textos I e lI, respectivamente, o ódio e o amor.

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etapa 1

capítulo 9 Religiosidade e literatura:


línGuA pOrtuGuesA modos de fascinar, fazer crer
e constituir poder

N em todas as pessoas têm uma religião, mas boa parte delas gosta de manifestar sua
crença em Deus, em alguma entidade ou força que estaria acima da compreensão
humana. Essas crenças acabaram por estimular criações no campo das artes, de maneira
que até hoje nos vemos cercados de símbolos religiosos que as representam.
Neste capítulo, você entrará em contato com algumas obras literárias que incorpo‑
raram os valores religiosos e que serviram de base para a difusão de ideias e de práticas
educativas. Essas obras são representativas de duas importantes épocas da história literá‑
ria, que também serão apresentadas neste capítulo.

Biblioteca nacional de Madri, espanha

Primeira página do Auto de moralidade (1517), de Gil Vicente.

o FasCÍnio da enCenação de autos na tradição popular


Você sabe o que é um “auto”? Um auto é basicamente uma peça teatral, que apresenta
por vezes a finalidade de valorizar a religiosidade e os momentos importantes da fé cristã.

Etapa 1 111

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Auto. Palavra de origem latina (actu), que significa ação ou ato, e constitui um subgênero da literatura dramática.
Auto da compadecida. Ressuscitando a forma do auto, embora em três atos, Ariano Suassuna publica o Auto da compadecida (1959),
comédia de tipo sacramental, que aproveita para pôr em relevo os problemas do Nordeste, envolvendo sertanejos e suas questões locais.
Usa o folheto de cordel transcrito em situações e falas típicas […] misturando a tradição religiosa e a popular, sobretudo ressaltando as
crendices do povo, e assim situando‑se na melhor tradição brasileira.
Coutinho, Afrânio; SouzA, José Galante de (orgs.). Enciclopédia de literatura brasileira. 2.ed. São Paulo: Global, 2001. p. 291. (Adaptado.)

História literária: os autores e suas oBras


É muito antiga a tradição de se escrever e encenar autos para
criticar e expor injustiças ou para reforçar os valores da religião.
Desde a Idade Média, há registros de peças com tais caracte‑ Gênero dramático
rísticas. Em Portugal, no século XVI, um autor se destacou: Gil É aquele em que o meio com o qual
o autor atinge o público é a repre‑
Vicente. Ele produziu seu primeiro auto, O monólogo do vaqueiro
sentação teatral. Daí confundir‑se
ou Auto da visitação, em 1502. O bom humor que consta em boa o gênero dramático com o teatro,
parte de seus textos, assim como as críticas que traziam aos vícios porque a essência do gênero é a
ação ou representação. O gênero só
e desvios da fé, fez dos textos desse autor modelos que foram e existe se representado, agindo, atu‑
são seguidos por autores no Brasil ainda hoje, como é o caso de ando, dialogando ou monologando,
em qualquer tipo de teatro – desde
Ariano Suassuna. a arena ao palco – por atores. Dra‑
Agora você vai voltar no tempo e ler um trecho de um auto maturgo é o autor de obras dramá‑
ticas, também chamadas peças […].
muito conhecido de Gil Vicente. Nele, almas de pessoas que aca‑
Coutinho, Afrânio; SouzA, José Galante de
baram de morrer chegam ao cais, de onde partirão para sua mo‑ (orgs.). Enciclopédia de literatura brasileira.
rada eterna, no céu ou no inferno, e são aguardadas por satanás e 2. ed. São Paulo: Global; Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca nacional/Departamento
por um anjo, cada qual em uma barca que conduzirá os viajantes. nacional do Livro/Academia Brasileira de Letras,
2001. v. 1. p. 614.
A linguagem é bastante diferente da que você está acostumado,
mas é possível entender claramente o destino de duas das muitas
almas que aparecem na história.

ler textO literáriO i

Auto da barca do inferno


Auto de moralidade composto por Gil Vicente, por contemplação Glossário
da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e
representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Arrais: comandante ou guia de embarcação.
dom Manuel, primeiro de Portugal deste nome. Batel: barco.
Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no Entrelocutor: interlocutor.
presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de expirar, Fidalgo: nobre.
chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar Pajem: servo, empregado.
em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa Pera: para.

pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis têm cada um seu Scilicet: isto é.

arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal


e um companheiro.
O primeiro entrelocutor é um Fidalgo que chega com um Pajem, que lhe leva um rabo mui comprido
e uma cadeira de espaldar. E começa o Arrais do inferno antes que o Fidalgo venha.

112 Língua Portuguesa

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DIABO — À barca, à barca, houlá! DIABO — De que morreste?
que temos gentil maré! PARVO — De quê?
Ora venha o carro a ré! […] Samicas de caganeira.
À barca, à barca, hu‑u! DIABO — De quê?
Asinha, que se quer ir! PARVO — De caga‑merdeira!
Oh, que tempo de partir, Má rabugem que te dê!
louvores a Berzebu! […] DIABO — Entra! Põe aqui o pé!
PARVO — Houlá! Não tombe o zambuco!
Verga alta! Âncora a pique! DIABO — Entra, tolaço eunuco,
Ó poderoso dom Anrique, que se nos vai a maré!
cá vindes vós? Que cousa é esta? PARVO — Aguardai, aguardai, houlá!
E onde havemos nós de ir ter?
Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz DIABO — Ao porto de Lúcifer.
PARVO — Hã?!
FIDALGO — Esta barca onde vai ora, DIABO — Ao Inferno! Entra cá!
que assi está apercebida? PARVO — Ao inferno? Eramá!
DIABO — Vai pera a ilha perdida, Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
e há de partir logo essa hora. Pêro Vinagre, beiçudo,
FIDALGO — Pera lá vai a senhora? rachador d’Alverca, huhá! […]
DIABO — Senhor, a vosso serviço. Hiu! Hiu! Lanço‑te uma pulha!
FIDALGO — Parece‑me isso cortiço. Dê, dê pica naquela!
DIABO — Porque a vedes lá de fora. […] Hump! Hump! Caga na vela!
FIDALGO — Ao Inferno, todavia! Hiu, cabeça de grulha!
Inferno há i pera mi?! Perna de cigarra velha,
Ó triste! Enquanto vivi caganita de coelha,
não cuidei que o í havia: pelourinho da Pampulha,
Tive que era fantesia! rabo de forno de telha!
Folgava ser adorado, Mija n’agulha, mija n’agulha! […]
confiei em meu estado
e não vi que me perdia. […]
Chega o Parvo ao batel do Anjo e diz:

Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:


PARVO — Hou da barca!
ANJO — Que me queres?
PARVO — Hou daquesta! PARVO — Queres‑me passar além?
DIABO — Quem é? ANJO — Quem és tu?
PARVO — Eu sou. PARVO — Samicas alguém.
É esta naviarra nossa? ANJO — Tu passarás, se quiseres;
DIABO — De quem? porque em todos teus fazeres
PARVO — Dos tolos. per malícia não erraste.
DIABO — Vossa. Tua simpreza te abaste
Entra! pera gozar dos prazeres.
PARVO — De pulo ou de voo?
Espera entanto per i:
Hou! Pesar de meu avô!
veremos se vem alguém,
Soma, vim adoecer
merecedor de tal bem,
e fui má‑hora morrer,
que deva de entrar aqui. […]
e nela pera mim só.
ViCente, Gil. Auto da barca do inferno. São Paulo: Ateliê editorial, 1996. p. 79. (Clássicos para o Vestibular.)

Glossário

Abastar: ser suficiente. Eramá: má‑hora. Pulha: gracejo, dito obsceno.


Asinha: depressa. Grulha: tagarela. Samicas: talvez.
Assi: assim. Naviarra: nave, grande barca. Simpreza: simplicidade.
Daquesta: desta. Parvo: tolo. Zambuco: barco.

Etapa 1 113

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Análise Literária I

1. De acordo com o que você pôde compreender, que personagem foi para o céu? E para o inferno?

2. Que motivos levaram cada um deles a um destino diferente?

3. O Fidalgo demonstra certa arrogância em determinado ponto de sua fala. Destaque esse trecho.
4. Há passagens bastante engraçadas na fala do Parvo. Identifique algumas delas e explique a seus colegas por
que são cômicas.
5. Conforme diz a abertura do texto, o auto foi dedicado à rainha “muito católica” dona Lianor e é um “auto
de moralidade”. Como você explica a linguagem por vezes chula de Joane?

6. Você considera que a linguagem de Joane atrapalha a mensagem religiosa que o auto quer transmitir? Justifique.

Orientação para o trabalho

Bacharel em artes cênicas

O bacharel em artes cênicas recebe uma cenógrafo ou produtor de eventos artísticos. de teatro. Há casos também de atores que são
formação que o habilita a usar a voz, expres‑ Sua capacidade técnica de representação lhe autodidatas.
sões faciais e movimentos corporais para trans‑ permite também fazer dublagens de filmes ou Área de atuação: Esse profissional poderá atu‑
mitir ao público histórias, ideias, sentimentos escrever críticas e resenhas sobre espetáculos ar em teatro, televisão ou publicidade. Pode
e emoções. Os atores e atrizes são recrutados teatrais para as mídias impressa ou eletrônica. também dar aulas em escolas da educação
para trabalhar em peças teatrais, filmes, docu‑ Pode atuar como pesquisador em sua área, básica e em cursos livres de teatro. Estudantes
mentários, telenovelas e comerciais para a TV. participando de publicações especializadas. e profissionais poderão também montar seu
O bacharel pode também especializar­‑se na Formação escolar exigida: Ensino superior próprio grupo ou companhia teatral.
direção de espetáculos, como autor de peças, completo (em média 4 anos) ou cursos livres

História literária: épocas literárias

O Humanismo foi o movimento intelectual “que se espalhou Quinhentismo é a “designação do período histórico, artístico,
pela Europa no final da Idade Média e no século XVI, reunindo literário, compreendido pelo século XVI, e correspondendo à fase do
aspectos filosóficos e artísticos e pondo ênfase no desenvolvi‑ baixo Renascimento […] Nesse período também surgiram textos de‑
mento das qualidades do homem, que seria o centro da civiliza‑ nominados “informativos” ou “literatura de informação”, que cuida‑
ção (antropocentrismo). O método particular empregado pelos vam de descrever as novas terras e seus habitantes. Seus escritores
chamados “humanistas”, que deram a fisionomia especial ao Re‑ eram viajantes que se aventuravam nas novas terras pelas razões
nascimento, foi a valorização dos estudos dos textos antigos, gre‑ mais distintas: padres, militares, estudiosos, por vezes aventureiros,
gos e romanos, sobretudo estes últimos. […] E porque os autores registravam suas impressões quanto ao que viam, naturalmente
antigos foram os modelos, os livros que deviam ser lidos em influenciados por sua condição sócio­‑histórica, o que gerou visões
“classe” para a boa formação do homem, esses autores passa‑ bastante tendenciosas dos fatos narrados, sendo que muitas vezes o
ram a chamar­‑se “clássicos”, como também os que os imitavam. que viam é o que “queriam ver” ou “o que podiam ver”.
Foram os sábios e literatos da Itália meridional que deram início A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manuel, em que narra
à ressurreição maciça das letras antigas. Dante, Petrarca, Bocácio o “descobrimento” do Brasil, é um exemplo da literatura dessa época.
e outros, em Roma, Florença, Veneza, deram grande impulso ao Ela conta ao rei com entusiasmo sobre as suas novas possessões:
culto antigo, e bibliotecas se fizeram nessa base.[…]" riquezas naturais que a terra oferecia e os indígenas aqui encontrados.
Coutinho, Afrânio; Souza, José Galante de (Orgs.). Enciclopédia de literatura Coutinho, Afrânio; Souza, José Galante de (Orgs.). Enciclopédia de literatura
brasileira. 2. ed. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/ brasileira. 2. ed. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/
Departamento Nacional do Livro/Academia Brasileira de Letras, 2001. v. 1. p. 840. Departamento Nacional do Livro/Academia Brasileira de Letras, 2001. v. 2. p. 1 329.

114 Língua Portuguesa

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ler documento histórico

Leia agora um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha e observe a maneira com que descreveu os indígenas
e a terra a ser explorada.

[…] Parece­‑me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam
logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto
se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que
eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual
praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. […]
E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos
serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de
vir clérigo para os batizar […]
[…] Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro;
nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre­
‑Douro­‑e­‑Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas;
infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo­‑a aproveitar, dar­‑se­‑á nela tudo; por causa das
águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece­‑me que será salvar esta gente. E esta deve
ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. […]
A carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv00092.pdf>. Acesso em: 12 dez 2011.

História e produção literárias no Brasil


No início da colonização brasileira, os autos foram instrumentos que serviram com
grande eficiência na catequização dos indígenas. O padre José de Anchieta, jesuíta da
Companhia de Jesus, chegou ao Brasil em 1553, lançou mão desse recurso e escreveu vá‑
rias peças com as quais fascinava os indígenas, convidando­‑os a participar como atores.
Ao mesmo tempo que se divertiam com as encenações, os indígenas iam tomando
contato com valores da fé católica e desse modo substituindo suas crenças e assumindo a
fé estrangeira. Os padres jesuítas acreditavam estar salvando­‑os da perdição e buscavam
fazê­‑los abandonar sua religião e hábitos culturais que julgavam prejudiciais.
As estratégias de Anchieta passavam por vários cuidados. Um deles, escrever o auto
não apenas em português e espanhol, mas também em tupi, para que os indígenas com‑
preendessem melhor os outros valores e os que veiculavam. Em alguns, a fala do demô‑
nio era feita em tupi. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que seu autor utilizava a língua
local, associava­‑a ao mal.
O escritor Ulisses Infante afirma:

As peças de Anchieta, no entanto, particularizaram­‑se ao se adaptarem às necessidades da nova


terra e da catequese, incluindo elementos do universo cultural indígena:
• a figura do diabo é associada a algum chefe ou sacerdote indígena (pajé) contrário aos portugueses;
• a língua e a religiosidade tupi são exploradas em diálogos, cantos e danças;
• a própria estrutura dos autos anchietanos se baseia no cerimonial indígena de recepção aos visitantes.
Dessa forma, podemos perceber que se trata de um teatro que, a partir da tradição vicentina,
procura adaptar­‑se às necessidades práticas da vida no Brasil de então.
Infante, Ulisses. Curso de Literatura de Língua Portuguesa. Volume único: Ensino Médio. São Paulo: Scipione, 2001. p. 153.

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ler texto literário II

Leia a seguir um trecho do auto Na festa de São Lourenço, de José de Anchieta, no qual você perceberá al‑
gumas das características anteriormente mencionadas.
A peça foi apresentada pela primeira vez por volta de 1585, no terreiro da Capela de São Lourenço,
em Niterói.

Personagens:
Guaixará, rei dos diabos
Aimbirê, criado de Guaixará
Saravaia, criado de Guaixará
Tataurana, Urubu, Jaguaruçu, e Caboré, companheiros dos
diabos
Décio, imperador romano
Valeriano, imperador romano
São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro
São Lourenço, padroeiro da aldeia de São Lourenço
Velha
Anjo
Temor de Deus
Amor de Deus
Acompanhantes
Meninos

Na festa de São Lourenço

SÃO LOURENÇO — Quem és tu? GUAIXARÁ — Amando os índios, não pense


GUAIXARÁ — Guaixará, o ébrio.  Alguém que aqui manda mais
Sou o grão boicininga e jaguar.  Do que nós, que ninguém vence.
Como gente, sei brigar. Deles, como coisa nossa, 
Voador, andirá­‑guaçu,  Gostamos sinceramente. 
Demônio que quer matar. 
SÃO LOURENÇO — E esse, então? SÃO LOURENÇO — Mas quem há aí que vos possa
Ter confiado, como vossa
AIMBIRÊ — Jiboia e socó,  Propriedade essa gente?
Sou o grão índio tamoio Deus foi quem
Aimbirê. O corpo e uma alma também 
Sou sucuriju, gavião,  Quis dar a essa gente amiga.
Tamanduá feio, diabão, 
Luminoso como quê! GUAIXARÁ — Deus? É possível… Porém
Seus costumes não são bem 
SÃO LOURENÇO — Mas que quereis, que buscais Coisa lá pra que se diga…
Na terra que me pertence? É gente ruim:
Nega a Deus, peca, e por fim
Disso tudo ainda se gaba.

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AIMBIRÊ — A cuia das velhas, sim,  GUAIXARÁ — Seria um nunca acabar, 
É que é bom, quando o cauim Ainda que o sol entrasse!
Regurgita na igaçaba. A taba é que é pecar!
As cabeças da festança
Amortecem­‑lhe o valor.  SÃO LOURENÇO — Mas existe a confissão, 
Excitada pela dança,  O remédio salutar
Desrespeita ao Criador: Para a alma enferma curar. 
E ganhamos o seu amor.  E, depois, a comunhão, 
Que faz de todo sarar. 
SÃO LOURENÇO — De certo não têm vontade Contrito, o índio se prepara, 
De vir rezar quando é hora? Depois vai se confessar: “Eu
Esquivam­‑se? Vão­‑se embora? quero ser bom”, declara.

E o padre o abençoa Para a ira divina aplacar. […]


AIMBIRÊ — Tal e qual. Sua piedade
É da boca pra fora. […]

AIMBIRÊ — E esses rapazes, então, 


Que vivem importunando
As mulheres, cobiçando
Escravas do branco, e vão
Covardemente escapando?
Anchieta, José de. Na festa de São Lourenço.
Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000145.pdf>. Acesso em: 12 dez 2011.

Análise literária ii

1. Que semelhanças quanto ao conteúdo e à forma você percebe entre esse fragmento e o do Auto da barca do
inferno lido anteriormente?
2. Os indígenas apresentados como satanás falam de seus próprios pecados e maldades. Destaque esses peca‑
dos no texto.
3. Os indígenas­‑demônios também associam­‑se a determinados animais. Quais são eles? Indique os possíveis
motivos que levaram Anchieta a escolher esses animais para tal caracterização.
4. Um dos demônios enumera os pecados dos indígenas que os fazem retornar aos poderes do mal. Que pe‑
cados são esses?
5. São Lourenço explica a fórmula que conduzirá o indígena pecador à salvação. Qual é ela?

ler textos científicos

Na visão do autor do auto Na festa de São Lourenço, os indígenas eram pecadores de maus hábitos e deviam
ser salvos física e espiritualmente. Leia agora um fragmento de texto escrito pelo antropólogo Darcy Ribeiro
sobre o que, segundo ele, teria acontecido no encontro entre indígenas e colonizadores europeus.

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[…] Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros
tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo,
da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos de
meses de navegação oceânica, escalavrados de feridas do escorbuto, olhavam, em espanto, o que
parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, vestidos da nudez emplumada, esplêndidos
de vigor e de beleza, tapando as ventas contra a pestilência, viam, ainda mais pasmos, aqueles seres
que saíam do mar. […]
Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1995. p. 44.

Agora, veja o que diz o historiador Roberto Catelli Jr. sobre a forma de organização social e sobre a produ‑
ção artística dos indígenas.

(Nas sociedades indígenas), a pintura dos corpos, os enfeites, os diademas, os colares, as


plumagens e as cores podem ter diferentes significados, fazendo referência a posições hierárquicas,
condições sociais e papéis distintos. Longe de serem hábitos de povos não civilizados, são símbolos
culturais repletos de significados que precisam ser interpretados para que sejam conhecidos por
pessoas de outras sociedades. […]
Existiram […] os povos ceramistas, como os que se desenvolveram na ilha de Marajó (Pará),
cerca de 500 a 1300 d.C. Os Marajoara produziram vasos, bacias, urnas funerárias e outros objetos
de utilidade cotidiana. Criavam também peças de cerâmica ricamente adornadas, como estatuetas
e enfeites para o corpo. Esse povo, entretanto, desapareceu antes mesmo da chegada dos europeus
[…]
Catelli Jr., Roberto. História: texto e contexto. São Paulo: Scipione. p. 151.

1. Elabore um quadro, registrando lado a lado as seguintes características: “Qualidades dos indígenas descri‑
tos por Darcy Ribeiro e Roberto Catelli Jr.” e “Defeitos dos indígenas descritos no auto de Anchieta e na
carta de Caminha”.
2. Após preencher o quadro, escreva um pequeno texto em que responda à seguinte questão: Darcy Ribeiro e
Roberto Catelli Jr. concordam com a ideia de que os indígenas possuíam maus hábitos e que precisavam de
salvação? Justifique sua resposta, transcrevendo trechos que a comprovem.

ler quadrinhos

Texto 1
©2006. King Features Syndicate/Ipress

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Texto 2

©2006. King Features Syndicate/Ipress


Os vikings eram um povo do Norte europeu (Noruega, Dinamarca e Suécia) conhecido por invadir e saquear mosteiros em busca de manuscritos com capas
adornadas de joias, crucifixos de ouro, taças de comunhão de prata, durante a Idade Média (793­‑1000). Hagar é um viking que simboliza não só uma época da
história, mas também os permanentes desejos das sociedades humanas de tomar posse e se assenhorear do que é de outros, fazendo disso um modo de vida.

Norma­‑padrão

É muito comum encontrar­‑se o pronome interrogativo “onde” empregado incorretamente. Em geral, confunde­‑se “aonde” com
“onde”. A diferença entre eles é que “aonde” apresenta a preposição “a”, que indica direção: “para que lugar”. Já o pronome “onde” quer
dizer “em que lugar”. Portanto:
Onde: em que lugar / Aonde: para que lugar
Também é importante esclarecer que o pronome relativo onde só deve ser empregado para indicar lugar, evitando­‑se, por exemplo:
Os amigos travaram uma conversa “onde” esclareceram a situação.
O correto é: Os amigos travaram uma conversa na qual esclareceram a situação.

1. Analise a primeira tira e descreva a cena retratada: cenário, construção, personagens e sua atuação.
2. Indique os elementos da imagem que permitem afirmar que a primeira tira se passa na Idade Média.
3. O humor, como já vimos neste capítulo, é também uma forma de criticar. Na primeira tira, que atitude está
sendo criticada? O que torna a cena engraçada?
4. “Sarcástico“ pode caracterizar “aquele que emprega ironia cáustica”, destrutiva. Escolha uma das alternati‑
vas a seguir. Sendo “sarcástico”, o “perdedor” tornou Hagar e seus homens:
a) arrependidos pelo mal que praticaram.
b) ofendidos.
c) irritados, por terem sido expostos em sua brutalidade mesquinha.
5. Observando a segunda tira, o que você acha que a palavra “rufiões” significa? Discuta sua hipótese com
seus colegas.
6. Consulte o dicionário e confronte o significado da palavra “rufiões” com as hipóteses levantadas por você
e seus colegas.
7. No terceiro quadro da segunda tira, o pronome interrogativo onde foi empregado de acordo com a norma­
‑padrão? Justifique de acordo com o quadro “Norma padrão”, acima.
8. Que semelhanças você observa entre a atitude do padre que conversa com Hagar e a do padre José de Anchieta?

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experimentAr

Dividam‑se em grupos para encenar os trechos dos autos deste capítulo. Distribuam os papéis entre si e os
apresentem para a classe. Para valorizar as apresentações, procurem:

• incluir um fundo musical na abertura, conclusão e no momento de maior tensão da peça (tocar e/
ou cantar alguma canção que contextualize a ação);
• incluir alguma peça de vestuário ou acessório que faça referência a alguma característica das perso‑
nagens (chifres, crucifixo, chapéu, arco e flecha etc.).

Vocês devem treinar muito bem a leitura e, se possível, memorizar algumas falas. É importante que a ex‑
pressão oral ganhe bastante clareza no momento da apresentação.

AplicAr cOnhecimentOs

• Enem (2011)

Quando os portugueses se instalaram no Brasil, o país era povoado de índios. Importaram, depois, da
África, grande número de escravos. O Português, o Índio e o Negro constituem, durante o período colonial,
as três bases da população brasileira. Mas no que se refere à cultura, a contribuição do Português foi de
longe a mais notada.
Durante muito tempo o português e o tupi viveram lado a lado como línguas de comunicação. Era o tupi
que utilizavam os bandeirantes nas suas expedições. Em 1694, dizia o Padre Antônio Vieira que “as famílias dos
portugueses e índios em São Paulo estão tão ligadas hoje umas com as outras, que as mulheres e os filhos se
criam mística e domesticamente, e a língua que nas ditas famílias se fala é a dos Índios, e a portuguesa a vão os
meninos aprender à escola.”
TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1984. (Adaptado.)

A identidade de uma nação está diretamente ligada à cultura de seu povo. O texto mostra que, no período colonial brasileiro, o
Português, o Índio e o Negro formaram a base da população e que o patrimônio linguístico brasileiro é resultado da

a) contribuição dos índios na escolarização dos brasileiros.


b) diferença entre as línguas dos colonizadores e as dos indígenas.
c) importância do Padre Antônio Vieira para a literatura de língua portuguesa.
d) origem das diferenças entre a língua portuguesa e as línguas tupi.
e) interação pacífica no uso da língua portuguesa e da língua tupi.

pArA AmpliAr seus estudOs

Filme O AUTO DA COMPADECIDA


Direção de Guel Arraes. Brasil: Columbia Pictures do Brasil. 2000, 104 min.

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