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Programa de Educação

Continuada a Distância

CURSO DE DIREITO
DO CONSUMIDOR

MÓDULO I

Aluno:

EAD - Educação a Distância


Parceria entre Portal Educação e Sites Associados
CURSO DE DIREITO

DO CONSUMIDOR

MÓDULO I

MÓDULO I

Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para
este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização do
mesmo. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores
descritos nas Referências Bibliográficas.

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SUMÁRIO

MÓDULO I
1 APRESENTAÇÃO E INTRODUÇÃO AO CURSO
1.2 CONCEITO DE DIREITO DO CONSUMIDOR
1.3 CONCEITO DE CONSUMIDOR E FORNECEDOR
1.3.1 Consumidor
1.3.2 Fornecedor
1.4 OBJETO
1.5 POLÍTICA NACIONAL DE RELAÇÕES DE CONSUMO E SEUS PRINCÍPIOS
1.5.1. Política Nacional das Relações de Consumo
1.5.2 Princípios nas Relações de Consumo

MÓDULO II
2 A LEI 8.078/90 E OS DIREITOS BÁSICOS DO CONSUMIDOR
2.1 SISTEMA NACIONAL DE DEFESA DO CONSUMIDOR
2.2 FUNÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS BÁSICOS
2.2.1 Termo de Garantia
2.2.2 Manual de Instrução
2.2.3 Garantia Complementar

MÓDULO III
3 A RESPONSABILIDADE CIVIL NO CDC
3.1 RESPONSABILIDADE
3.1.1 Da Responsabilidade pelo fato do Produto e do Serviço
3.1.2 Da Responsabilidade pelo Vício do Produto
3.2 PRODUTO E SERVIÇO E SUAS RESPONSABILIDADES
3.2.1 Produto e Serviço
3.2.2 Serviços Públicos e sua Possibilidade de Paralisação

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MÓDULO IV
4 PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR
4.1 A RESPONSABILIDADE DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS
4.1.1 Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor
4.1.2 Os PROCONs Estaduais e Municipais
4.2 DA PRESCRIÇÃO E DA DECADÊNCIA
4.2.1 Da Decadência
4.2.2 Da Prescrição
4.3 DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

MÓDULO V
5 PROPAGANDA E AS PRÁTICAS ABUSIVAS
5.1 PUBLICIDADE ENGANOSA E ABUSIVA NA FASE CONTRATUAL
5.2 PUBLICIDADE ENGANOSA E ABUSIVA E O CONTROLE PUBLICITÁRIO
5.3 DAS PRÁTICAS ABUSIVAS
5.4 CONTRAPROPAGANDA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MÓDULO I

1 APRESENTAÇÃO E INTRODUÇÃO AO CURSO

O direito do consumidor apresenta-se como um instrumento indispensável,


pois o consumo é parte indissociável do cotidiano do ser humano.
Independentemente da classe social e da faixa de renda, a pessoa consome
desde o seu nascimento e em todos os períodos de nossa existência.
Consumidores, por definição, somos todos nós. Os consumidores são as
maiores partes do grupo econômico na economia. Celebramos, diariamente,
diversos negócios jurídicos que caracterizam a relação de consumo. Quando
acordamos e tomamos banho, celebramos contrato de consumo com empresa que
fornece a água. Quando pegamos um transporte coletivo para irmos ao trabalho,
celebramos um contrato de transporte. Quando vamos ao mercado e fazemos as
compras, celebramos um contrato. Enfim, a relação de consumo está presente na
maior parte de nossas vidas.
O objetivo do curso é auxiliar, estudantes da graduação, especialização e
profissionais como aplicar o direito do consumidor.

1.2 CONCEITO DE DIREITO DO CONSUMIDOR

Antes de conceituarmos o direito do consumidor, faz-se necessário


passarmos por uma breve análise histórica, para entendermos o porquê de uma
legislação que visa proteger o consumidor.
A origem do código de defesa do consumidor, CDC, veio a partir da segunda
metade do século XIX, marcado pelo Estado Liberal Clássico, cujo fundamento,
criado por Rosseau, era o do Princípio da Liberdade de Contratar e a Autonomia da

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Vontade (pacta sunt servanda), ou seja, todas as relações econômicas deveriam ser
reduzidas no contrato. O Estado não interviria nessas relações, as pessoas eram
livres para contratar o que quisessem desde que fossem capazes de manifestar a
sua vontade. Tudo o que é contratual é justo, desde que as partes sejam livres para
contratar. Eram essas as máximas da época. O Estado Liberal somente assistia à
formação dos contratos. A economia fazia suas próprias leis, enquanto que o Estado
só regia suas normas de direito público.
Eram os dois principais princípios daquela época:

1) Autonomia da vontade: liberdade de contratar. A liberdade das partes


assegura a segurança e a justiça dos contratos
2) Força obrigatória dos contratos: pacta sunt servanda. O contrato fazia lei
entre as partes.

Ressalte-se que nem mesmo o Poder Judiciário poderia analisar os


contratos, pois, como já dito, se as partes eram capazes, ou seja, tinham o
discernimento e vontade de celebrar os contratos, presumia-se que eles eram
sempre justos, não havendo qualquer erro quanto a isso.
Esses eram os dogmas que inspiraram o Estado Liberal, criado após a
Revolução Francesa.
Chegamos a ter um reflexo dessa época em nosso antigo código civil de
1916, em que prevalecia o individualismo em vez do socialismo. Felizmente, com a
entrada em vigor da Constituição Federal de 1988, uma constituição existencialista,
ou seja, contrária ao individualismo e patrimonialismo, fez com que o Estado criasse
um novo Código Civil, e foi justamente com isso que veio o Código Civil de 2002.
Com o passar do tempo, esse excesso de liberalismo foi letal ao Estado
Liberal. Devido à liberdade de contratar muitos abusos eram cometidos e isso foi
bem observado no direito do trabalho, por exemplo, jornadas de trabalho excessivas,
condições de trabalho insalubres, salários baixíssimos, etc. Tudo isso era permitido,
pois, como visto o Estado não intervinha nessas relações, pois as partes eram livres

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para contratar. O trabalhador acabava se submetendo, pois precisava do trabalho
para seu sustento.
Outro fato, mais voltado para o consumo, eram os contratos com cláusulas
abusivas e sem falar nos preços excessivamente desproporcionais. O consumidor se
submetia a essas cláusulas, pois, muitas das vezes o produto ou serviço lhe eram
indispensável para sua vida.
Com isso, viu-se que, na prática, a liberdade de contratar não garantia a
igualdade e o equilíbrio perfeito dos contratos. Passou-se a entender que a
igualdade das partes também é fundamental para o equilíbrio e a justiça dos
contratos. Concluiu-se que as partes poderiam ser livres, mas suas condições
econômicas, sócias, culturais, etc., influenciavam negativamente neste equilíbrio.
Foram a partir destes fatos que o Estado começou a se transformar. Esse
passou a dirigir, a interferir nesses contratos, deixando o Liberalismo puro de lado,
para o Estado Intervencionista. O Estado passou a ser mais atuante em vez de mero
observador das relações contratuais. Agora, sempre com o intuito de proteger a
parte mais vulnerável, criou normas visando igualar essas pessoas.
Tais normas podem ser divididas em duas espécies:

1) Obrigação de certas cláusulas nos contratos, ainda que as partes não a


quisessem;
2) Vedação de certas cláusulas. Ou seja, mesmo que elas estejam no
contrato, sê-lo-ão consideras nulas de pleno direito;
Essa intervenção saliente-se, só pode ocorrer quando as partes estejam em
uma desigualdade substancial. As legislações trabalhistas foram às pioneiras do
novo Estado Intervencionista, seguida por diversas outras leis, inclusive o Código de
Defesa do Consumidor.
No Brasil, o direito do consumidor só foi reconhecido, a partir da Constituição
da República de 1988, trazido no artigo 5º, com status de direito fundamental. Antes
disso, o consumidor brasileiro assumia os riscos do consumo, submetendo-se a
grandes abusos.

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Art. 5º, XXXII, CRFB/88: “O Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do
consumidor”.

O poder constituinte originário, embora tenha colocado o direito do


consumidor como direitos fundamentais, sendo com isso uma cláusula pétrea,
reservou ao legislador ordinário a tarefa de criar uma lei consumerista. Tal obrigação
está contida no artigo 48 do ADCT.

Art. 48, ADCT: “O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da


promulgação da Constituição, elaborará o código de defesa do consumidor”.

Com essas duas normas constitucionais, com os objetivos do novo Estado


Intervencionista, foi criada a lei 8.078 de 1990, conhecida como o Código de Defesa
do Consumidor.
Por fim, há quem entenda que tal lei já nascera totalmente inconstitucional,
por ferir o Princípio da Igualdade, uma vez que tal lei é de exclusiva proteção aos
consumidores. Ocorre que esse princípio deve ser visto sob dois enfoques: a
isonomia formal e a material (ou substancial). A primeira decorre da mera igualdade,
como o nome já diz, forma, ou seja, a lei deve ser igual para todos, aplicada para
todos. A segunda tem como fundamento a famosa frase de Rui Barbosa “tratar os
iguais, igualmente; e os desiguais, desigualmente, na medida de suas
desigualdades”. É com esse último enfoque que o CDC não é inconstitucional. Como
já vimos, enquanto o consumidor estiver num patamar de vulnerabilidade perante o
fornecedor, deverá ser tratado legalmente de forma diferente, para se alcançar uma
relação de igualdade entre esses dois sujeitos da relação de consumo.
Por tudo trazido até aqui, podemos, finalmente, conceituar o direito do
consumidor como um conjunto de normas, estabelecidas na lei 8.078/90 (CDC), e
que regula as relações de consumo, travadas entre os consumidores, parte
vulnerável e os prestadores de serviços ou os vendedores de produtos.

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Diz-se que em doutrina o CDC é um microssistema jurídico interdisciplinar
que é formado por duas normas jurídicas, em um mesmo corpo legislativo, todas
elas coordenadas entre si, tendo por objeto a defesa do consumidor.
Portanto, trata-se de uma lei de cunhos inter e multidisciplinar, com caráter
de um verdadeiro microssistema jurídico. Tem caráter interdisciplinar, porque se
relaciona com outros ramos do direito e multidisciplinar, porque cuida de questões
inseridas no direito constitucional, administrativo, penal, civil, etc.

1.3 CONCEITO DE CONSUMIDOR E FORNECEDOR

O Código de Defesa do Consumidor é uma lei especial que se inspirou em


modelo legislativo estrangeiro já vigente. Contudo, os textos não foram totalmente
transcritos, pois foi levado em conta o mercado de consumo e características
específicas do Brasil. Esta lei foi criada exclusivamente para proteger o consumidor,
parte mais vulnerável na relação jurídica. Somente se aplicará àquelas relações de
consumo, caso contrário aplicar-se-á, comumente, o Código Civil. Para isso, é de
suma importância o estudo dos sujeitos da relação de consumo, quais sejam,
consumidor e fornecedor.
Vamos a um exemplo para se ter noção da importância do referido tópico.
Digamos que Carlos querendo comprar um carro novo resolve vender seu automóvel
a Marcelo. Carlos possui apenas o requisito da onerosidade (vender o carro com um
determinado valor), mas não possui o requisito da habitualidade (ter a atividade de
vender carros). Neste caso, aplicar-se-á o Código Civil no que tange aos contratos
de compra e venda. Agora, outra história seria se Carlos, dono de uma empresa de
carro, vende como sua atividade econômica um carro a Marcelo, destinatário final do
produto. Neste caso, estamos diante de uma relação de consumo, aplicando-se o
CDC, com todos os institutos da lei 8.078/90, como, por exemplo, a possibilidade da
inversão do ônus da prova e os benefícios processuais.

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1.3.1 Consumidor

No Brasil, existe um conceito legal de consumidor que foi criado pela lei
8.078 de 11 de setembro de 1990, previsto no art. abaixo:

Art. 2º Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza


produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se consumidor a coletividade de pessoas, ainda
que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.

O artigo define para nós o que é consumidor. Em seu conceito, veem-se três
elementos: A) subjetivo (pessoa física ou jurídica); B) objetivo (que adquire ou
utiliza produto ou serviço); C) teleológico (a finalidade pretendida, ou seja, o destino
final do produto ou serviço).
A doutrina ainda divide o conceito de consumidor em: consumidor sticto
sensu, é aquela pessoa que adquire, usufrui do produto ou serviço, é o real
consumidor propriamente dito; e consumidor por equiparação, que são aqueles que
não participam da relação de consumo diretamente, mas a lei os equiparou como tal,
são aqueles dos artigos: 2º, parágrafo único e nos artigos 17 e 29.
O principal ponto da definição de consumidor vem no conceito de
destinatário final, que causa controvérsia na doutrina e na jurisprudência, tendo-se
três correntes que vão definir o que seria destinatário final.
São elas:

1) Teoria Finalista: também chamada de subjetiva, parte do conceito


econômico de consumidor. Essa teoria restringe o conceito de destinatário final
àqueles que apenas adquirem o produto ou serviço para seu uso próprio ou de sua
família. Com isso é necessário ser destinatário final e econômico do bem, não

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podendo adquirir o bem ou serviço como insumo, para uso profissional, revendê-lo,
etc.
Exemplo para esta teoria do que não seria consumidor: Uma empresa “X”
que venda água mineral. Não há relação de consumo entre a e “X” e uma
concessionária de serviço público fornecedora de água. Outro exemplo também
seria uma empresa de telemarketing “Y” não é considerada consumidora de uma
empresa concessionária de serviço público telefônico.
Exemplo para esta teoria do que seria consumidor: Uma pessoa que adquire
uma televisão numa loja de eletrodomésticos para que ele e sua família a usufrua.
Resumindo, para esta teoria, consumidor é aquele que põe um fim na cadeia
de produção.

2) Teoria Maximalista: também chamada de objetiva, ela tem uma


abrangência maior do que seria consumidor. Para esta teoria, o destinatário final
seria aquele destinatário fático, ou seja, pouco importa a destinação econômica que
se dará ao bem, se é usado como insumo ou não, se é destinado à pessoa ou à
família ou não. Assim, consumidor é visto puramente de forma objetiva, ou seja, não
se vê a finalidade que se dará ao produto ou serviço.
Essa teoria é criticada, pois o código de defesa do consumidor seria uma
norma geral, podendo confundir sempre os sujeitos que seriam ora fornecedor, ora
consumidor.
Essa teoria se vincula ao medo que assombrava a época do Estado Liberal,
que, como vimos, teve resquício em nosso antigo código civil de 1916, lei geral da
relação privada. Como o CDC é anterior ao novo Código Civil, era até razoável essa
teoria, devido ao individualismo que predominava no antigo Código Civil. Todavia,
com a entrada em vigor do Novo Código em 2002, com o fundamento na
Constituição Federal de 1988 e os Princípios da Eticidade, Boa-fé Objetiva e
Socialidade, não há mais razão para que essa teoria predomine na doutrina.
Para essa teoria, todos os exemplos colocados na Teoria Finalista acima
são casos de relação de consumo.

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3ª) Teoria Finalista Mitigada: analisada por Cláudia Lima Marques, essa
teoria parte da essência, como o nome já diz, da Teoria Finalista, mas buscando a
ratio (essência) do direito do consumidor. Vimos, na parte histórica, que o Direito do
Consumidor veio a partir de um novo Estado Intervencionista, visando proteger
àqueles considerados vulneráveis. Com isso, para esta teoria, então, destinatário
final seria aquele que põe fim na cadeia de produção, entretanto, tal definição é
mitigada, relativizada, com o reconhecimento da vulnerabilidade. Ou seja, se a
pessoa (física ou jurídica), mesmo que não colocasse fim na cadeia de produção,
mas fosse-lhe reconhecida à vulnerabilidade, tal pessoa seria considerada
consumidora.
A autora partiu também do artigo 4º, I, do CDC: “reconhecimento da
vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo”.
Reconhecem-se três tipos de vulnerabilidade: técnica (consumidor não
conhece as técnicas do produto ou serviço, podendo ser facilmente levado a erro);
econômica (seria a própria ignorância na seara jurídica, contábil, econômica, etc.);
fática (essa é a real vulnerabilidade decorrente da essencialidade que a pessoa
precisa do produto ou do serviço, tendo que submeter-se às exigências do
fornecedor).

Exemplos específicos para se ver a teoria: Empresário “A” que adquiriu, de


uma grande sociedade empresária “B”, cadeiras para seu pequeno restaurante. Aqui
há relação de consumo, pois é caso de vulnerabilidade entre o pequeno empresário
“A” e a grande sociedade empresária “B”.
Outro exemplo se extrai de duas de várias jurisprudências do STJ:
• Resp. 468.148SP, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes, Terceira Turma,
unânime, em tal recurso foi considerado consumidora a pessoa jurídica SBC
Serviços de Terraplanagem Ltda., ao adquirir crédito bancário para a compra de
tratores a serem utilizados em sua atividade econômica.
• Resp. 445.854MS, Rel. Min. Castro Filho, Terceira Tuma, unânime, em
tal recurso considerou ser consumidor o agricultor Francisco João Andrighetto, ao

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adquirir crédito bancário para a compra de colheitadeira a ser utilizada em sua
atividade econômica.
Pela definição legal, portanto, consumidor há de ser: Pessoa física ou
jurídica, não importando os aspectos de renda e capacidade financeira; como
destinatário final, ou seja, para uso próprio, individual, familiar ou doméstico, e até
para terceiros, desde que o repasse não se dê por revenda. Não foi incluído na
definição legal, o intermediário, que é aquele que compra com objetivo de revender
após montagem, beneficiamento ou industrialização.
Por fim, o Superior Tribunal de Justiça possui diversas jurisprudências
adotando as três teorias aqui expostas. Todavia, recentemente, parece que o
Tribunal adotou a Finalista Temperada.

1.3.2 Fornecedor

Visto um dos sujeitos da relação de consumo, o consumidor, vamos ao


estudo de fornecedor, cuja redação legal se encontra no artigo 3º da lei
consumerista.

Art. 3º. Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,


nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem
atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação,
exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços.
§1º. Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§2º. Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e
securitária, salvo as decorrentes das relações trabalhistas.

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Diferentemente do que ocorre com o consumidor, o conceito de fornecedor
não é debatido com frequência pelos autores, talvez em decorrência do vasto leque
de atividades econômicas e da amplitude da área de prestação de serviços.
Para evitar interpretações contraditórias, o legislador preferiu definir produto
como sendo qualquer bem móvel ou imóvel, material ou imaterial e serviço como
qualquer atividade fornecida no mercado de consumo (art. 3º, §1º e §2º), essa
definição legal praticamente esgotou todas as formas de atuação no mercado de
consumo. Fornecedor é não apenas quem produz ou fabrica, industrial ou
artesanalmente, em estabelecimentos industriais centralizados ou não, como
também quem vende. Nesse ponto podemos verificar que a definição de fornecedor
se distancia da definição de consumidor, pois enquanto a este há de ser o
destinatário final, tal exigência não se verifica quanto ao fornecedor, que pode ser o
fabricante originário, o intermediário ou o comerciante, bastando que faça disso sua
profissão ou atividade principal.
O Código de Defesa do Consumidor colocou dois requisitos para se
caracterizar fornecedor: habitualidade e onerosidade.
A) Habitualidade – fornecedor é aquele que tem o exercício habitual do
comércio. Vimos no exemplo acima da venda de um automóvel (vide tópico 1.3).
Desse modo, exclui-se da tutela consumerista e aplicar-se-á o Código Civil de regra.
Atente pelo fato de que fornecedor é tanto pessoa jurídica (é normalmente a
regra) como a pessoa física, bastando ter esses dois requisitos.
Atente pelo fato de que fornecedor é gênero do qual comporta algumas
espécies. Com isso, quando a lei quer responsabilizar a todos, ela usará o termo
“fornecedor”. Todavia, quando quer designar alguns, especificamente fará o uso da
nomenclatura da espécie. Como exemplo, podemos citar os profissionais liberais,
previsto no art., 14, §4º, comerciante (art., 13), etc.
Embora, no ramo do Direito Administrativo, não seja normal que as pessoas
jurídicas de direito público exerçam uma atividade econômica, estas também podem
ser consideradas fornecedoras, desde que haja prestação por parte do consumidor e
contraprestação por parte delas. Mas, atenção, aqueles serviços pagos mediante um
tributo (como por exemplo, os remunerados por uma tarifa) não se submetem ao

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código de defesa do consumidor, porquanto aqui não há consumidor propriamente
dito, mas sim a figura de um contribuinte, que paga aos cofres públicos, de acordo
com a previsão orçamentária. Neste caso, trata-se de relação eminentemente
pública, mais especificamente ao ramo do Direito Tributário.
Podemos ver nos artigos 40 a 44 do Código Civil a definição do que seria
pessoa jurídica de direito público, privado, nacional ou estrangeira, que neste último
caso é tratado na lei civil de interno ou externo, respectivamente.
Por fim, entes despersonalizados são aquelas sociedades que não possuem
personalidade jurídica (pessoas jurídicas de fato), ou seja, aquelas que não
possuem seus atos constitutivos registrados no cartório oficial competente. A lei não
quis também afastar tais entidades, pois em não havendo personalidade jurídica, em
regra, estas não poderiam ser sujeitos de direitos nem obrigações e, com isso, não
poderiam ser demandadas em juízo no caso de futuros danos ao consumidor. O
CDC afastou esse problema incluindo-as no rol de fornecedor.

B) Onerosidade: outro requisito essencial para se enquadrar uma pessoa


como fornecedora é a onerosidade. Consequentemente, aquelas pessoas que,
embora atuem com habitualidade, mas que o fazem de forma gratuita, ou seja,
altruística, não consideradas fornecedoras. É o caso de uma pessoa que leva o filho
de sua vizinha gratuitamente ao colégio. Tais atos são considerados meros favores.
Pegando o gancho, a onerosidade também não vive sem a habitualidade; como visto
com exaustão até aqui, os dois requisitos são cumulativos.
Por fim, ainda quanto à onerosidade, devemos destacar um ponto
importante que é acontecimento normal no ramo do consumo. Trata-se dos serviços
aparentemente gratuitos, ou seja, são aqueles que à primeira vista são gratuitos,
mas analisando de forma mais detalhada o fornecedor está se beneficiando dela, ou
seja, se remunerando por esse serviço aparentemente gratuito. E, nestes casos,
embora sejam gratuitos, estão abrangidos pelo Código de Defesa do Consumidor.
Podemos citar como exemplo os estacionamentos gratuitos de um shopping
centers e supermercados. Estes são aparentemente gratuitos, porque o fornecedor
tem como objetivo principal com isso captar maiores clientelas. O STJ já editou uma

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súmula a esse respeito: Súmula 130 “a empresa responde, perante o cliente, pela
reparação de dano ou furto de veículo, ocorridos em seu estacionamento”;
Cabe uma observação importante. A doutrina e a jurisprudência são
divergentes quanto à relação entre advogado e cliente; se realmente se trataria de
uma relação de consumo ou não.
Temos duas posições que vão disputar esse entendimento:
1) Não há relação de consumo, pois se aplica a lei 8.906/94 – Estatuto da
OAB, os serviços advocatícios, suas prerrogativas e obrigações são impostas por
esta lei.
Tal norma é totalmente incompatível com a atividade de consumo, já a 2º
corrente, há relação de consumo por tudo visto até aqui, trata-se de uma atividade
que é exercida de forma habitual e onerosa.
Vimos que o conceito de Consumidor está exposto no art. 2°, caput e seu
parágrafo único e também sendo completado por outros dois artigos (17 e 29) e que
apesar de algumas dificuldades, a definição de consumidor tem a grande virtude de
colocar claramente o sentido querido na maior parte dos casos.
Já o conceito de fornecedor está exposto no caput do art. 3°e a leitura desse
caput, nos dá um panorama da extensão das pessoas enumeradas como
fornecedoras. Que na realidade são todas as pessoas capazes, físicas ou jurídicas,
além dos entes desprovidos.

1.4 OBJETO

Os parágrafos, primeiro e segundo definem o objeto da relação de consumo:


os produtos e os serviços, respectivamente.
Produto é qualquer bem móvel ou imóvel. Esses dois institutos podem ser
vistos nos artigos 79 a 84 do Código Civil. São bens imóveis o solo e tudo quando se
lhe incorporar natural ou artificialmente. Os bens móveis os bens suscetíveis de

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movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou
da destinação econômico-social.
Já os bens corpóreos são os materiais – aqueles que têm existências
materiais, perceptíveis pelos sentidos humanos, como por exemplo, um anel, uma
roda, uma mesa, etc. Por sua vez, os imateriais são os incorpóreos, ou seja, aqueles
que não têm existência material, sendo abstratos, de visualização ideal. Trata-se de
uma ficção dada pela lei.
Já os serviços são quaisquer atividades fornecidas no mercado de consumo.
A lei faz uma ressalva quanto às relações de caráter trabalhista, para que não
houvesse nenhuma divergência com a CLT. É de uma clareza solar que o CDC não
se aplica nas relações de trabalho. Vimos que ambas as leis vieram com advento do
Estado Intervencionista, devido à desigualdade formada entre consumidor x
fornecedor, e trabalhador x empregado. Com isso seria uma situação muito que
esdrúxula deixar o CDC atingir as relações de emprego, pois neste caso inverteriam
as relações: o trabalhador, vulnerável na relação de emprego, seria considerado
fornecedor – passando a ser o sujeito mais forte da relação jurídica, pois presta
serviço de forma remunerada e habitual (art. 2º da CLT). Foi por isso que o
legislador fez essa ressalva para não haver futuro choque entre a CLT (defendendo
os trabalhadores) e o CDC (defendendo os consumidores).

1.5 POLÍTICA NACIONAL DE RELAÇÕES DE CONSUMO E SEUS PRINCÍPIOS

1.5.1. Política Nacional das Relações de Consumo

O CDC, antes de tratar da Política Nacional de Proteção e Defesa do


Consumidor, trata da Política de relações de Consumo, apresentando os objetivos e
princípios que devem nortear o setor.

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Tal política deve ter por objetivos, em primeiro plano, o atendimento das
necessidades dos consumidores que é o objetivo principal das relações de
consumo, mas deve preocupar-se também com a transparência e harmonia das
relações de consumo, para pacificar e compatibilizar interesses eventualmente em
conflito. O objetivo do Estado, ao legislar sobre o tema, não será outro senão
eliminar ou reduzir tais conflitos, anunciando sua presença como mediador, para
garantir proteção à parte mais fraca e desprotegida. Pois é visível que o consumidor
é a parte mais fraca na relação de consumo que para satisfazer suas necessidades
de consumo é inevitável que ele compareça ao mercado e nessas ocasiões, se
submeta às condições que lhe são impostas pela outra parte, no caso o fornecedor.
O objetivo da defesa do consumidor não é, nem deve ser o confronto entre
classes produtora e consumidora, senão o de garantir o cumprimento de bens e
serviços pelos produtores e prestadores de serviços e o atendimento das
necessidades do consumidor, este juridicamente protegido pela lei e pelo Estado.
A política nacional das relações de consumo tem todo um sistema que se
baseia na vulnerabilidade do consumidor. Estudaremos esse sistema quando
analisarmos os princípios do Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 4º “A
Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das
necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem
como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes
princípios”.
Importante ressaltar que o legislador não só criou direitos para os
consumidores, mas também impôs ao Poder Público, a criação de órgãos para a
execução dessa política nacional das relações de consumo como já analisamos.

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1.5.2 Princípios nas Relações de Consumo

Assim como todo ramo do Direito, o Direito do Consumidor possui seus


princípios próprios.
Princípios são diretrizes fundamentais, os conceitos básicos, as ideias
estruturais de uma ciência. Nos dizeres de José Cretella Júnior: “Princípio é uma
proposição que se coloca na base de uma ciência, informando-a”.
Os princípios possuem três finalidades:
1) Orientar o legislador;
2) Auxiliar o intérprete;
3) Integrar a norma.

A Política Nacional de relações de Consumo deve estar lastreada nos


seguintes princípios:

1) Princípio da Vulnerabilidade – primeiro princípio e um dos mais


importantes. Diz respeito ao reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor
diante do fornecedor. Vulnerabilidade esta que se manifesta, conforme já estudado
anteriormente, de forma tríplice: técnica, econômica e fática.

I – reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de


consumo.
2) Princípio do Dever Governamental – não cabe ao Estado, uma vez
reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor perante o fornecedor, apenas editar
leis. É dever dele, também, protegê-lo de forma efetiva, fiscalizando os produtos e
serviços posto no mercado, conforme o inciso II, do artigo 4º, da lei de consumo.

II – Ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:


a) Por iniciativa direta;

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b) Por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) Pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) Pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.

Conhecido do público, Os PROCONs são órgãos públicos de defesa do


consumidor e surgem como verdadeira atuação governamental.

3) Princípio da Harmonização dos Interesses e da Garantia de


Adequação – conforme explica Leonardo de Medeiros Garcia “o objetivo da política
nacional das relações de consumo deve ser a harmonização entre os interesses dos
consumidores e dos fornecedores, compatibilizando a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico com a defesa do consumidor”. Com isso,
o Código de Defesa do Consumidor não pode servir como bloqueio ao incentivo de
novas pesquisas e tecnologias e nem como obstáculo para o desenvolvimento
econômico, consequentemente.
Visualizamos, também, o Princípio da Segurança no qual o consumidor
tem direito básico à proteção de sua vida e saúde. Assim, o fornecedor não pode
colocar no mercado produtos ou serviços que possam oferecer riscos ao
consumidor. Os riscos advindos devem ser claramente advertidos ao consumidor,
inclusive com orientações seguras de como minimizar esses riscos.
É com base nesse princípio da Segurança que o CDC trouxe a mudança no
que se refere à responsabilidade civil, que agora é regida pela Teoria do Risco, o
qual será visto mais adiante quando formos estudar Responsabilidade Civil do
Fornecedor.

III – Harmonização dos interesses dos participantes das relações de


consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos
quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal)...

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4) Princípio do Equilíbrio nas Relações de Consumo – como visto, o
fundamento para que se criasse o CDC veio na busca da verdadeira igualdade
substancial. Percebeu-se que o consumidor é vulnerável perante o consumidor.
Tendo isso em mente, essa busca por uma igualdade deve sempre nortear o
legislador na hora de criar leis e o magistrado na hora de interpretá-las e aplicá-las.

III - ... equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores.

5) Princípio da Boa-fé Objetiva – o CDC inovou quando trouxe o princípio


da boa-fé objetiva, o qual, posteriormente foi trazida pela Código Civil de 2002. É
que, naquela época em que ainda está em vigor a Carta Civil de 1916, predominava
o individualismo e o um regime puramente patrimonial. Posteriormente, em 1988, foi
promulgada a Constituição Federal de 1988, trazendo novas características
existencialistas, pautadas na solidariedade e fraternidade, enterrando de vez o
individualismo.
Visualizamos a boa-fé objetiva nos artigos 4º, III, como um princípio que
orienta as relações de consumo e no art. 51, IV, como fator fundamental que, uma
vez violando-o, gerará a abusividade da cláusula.
Em 2002, com a entrada em vigor do novo Código Civil, a boa-fé objetiva
passou a ser regida em todos os campos obrigacionais privados, não só mais nas
relações de consumo. Tudo isso, para se compatibilizar com a nova Constituição
Federal de 1988. No novo código podemos analisar esse princípio sobre dois
enfoques: 1º) interpretativo (art. 113, CC); 2º) controlador (art. 187, CC); e 3º)
integrativo (art. 422, CC).
Este princípio, acerca do enfoque integrativo, estabelece um dever de
conduta entre ambas às partes, devendo-as agir de forma leal, ética e confiança
antes (fase pré-contratual), durante (execução) e depois do contrato – protegendo,
assim, as expectativas tanto do consumidor quanto do fornecedor.
Na função integrativa, a doutrina aponta, ainda, novos deveres na relação de
consumo. São chamados os deveres anexos. Estes, por sua vez, são divididos em:

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a) Dever anexo de informação (Princípio da Informação); b) Dever anexo de
cooperação; c) Dever anexo de proteção.

a) Dever Anexo de Informação: a relação contratual deve-se mostrar clara


para as partes. Esse princípio é de suma importância, primordialmente, na fase pré-
contratual, em que as partes ainda estão estipulando condições para contratação. É
aqui em que o fornecedor tem o dever de informar ao consumidor todas as
características sobre o produto ou serviço. Podemos apontar também quanto ao
abuso das práticas que se faz normalmente, trata-se daquelas cláusulas, cuja letra é
escrita de forma minúscula e com cores claras, visando o cansaço da leitura. É com
base nesse dever de informação que tais cláusulas são consideradas nulas.

b) Dever Anexo de Cooperação: é dever de o fornecedor cooperar com o


consumidor para que este possa adimplir o contrato, fornecendo meios para que
este possa concluir o contrato.
A título de exemplo, podemos citar os contratos bancários. A instituição
financeira não pode ficar inerte, esperando que a dívida aumente astronomicamente
com as taxas de juros. Esta deve sim, uma vez constatando que o consumidor esteja
com dificuldade para adimplir sua parte, ajudá-lo, dando-lhe mecanismos como uma
novação, por exemplo, para que este possa adimplir o contrato, levando à satisfação
de ambas as partes.

c) Dever Anexo de Proteção: podemos também ligá-lo ao princípio da


Segurança. Aqui, impõe-se ao fornecedor uma conduta de preservação da
integridade do consumidor e seu patrimônio, pois, quando violados, acarretará
danos materiais e/ou morais.
Quanto ao caráter interpretativo, o juiz deve interpretar as cláusulas de
forma a retirar sempre aquelas de caráter maliciosas e individualistas.
Por fim, a função controladora visa coibir qualquer abuso do direito subjetivo,
limitando condutas e práticas comerciais abusivas.

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6) Princípio da Educação e Informação dos Consumidores – cabe não
só ao Estado, mas também às entidades de defesa do consumidor, educar e
informador o consumidor acerca de seus direitos, com vistas à melhoria do mercado
de consumo. É que quanto maior for o grau de informação e educação existente,
menor será o índice de conflitos nas relações de consumo e, com isso, criar-se-ia
uma sociedade mais justa e equilibrada, uma vez que isto se trata de um dos
objetivos da República federativa do Brasil – artigo. 3º, I, da Constituição Federal.

IV – Educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos


seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo.

7) Princípio do Incentivo ao Autocontrole (ou Controle de Qualidade e


Mecanismos de Atendimento pelas Próprias Empresas) – O Estado deve
incentivar os fornecedores a tomarem medidas para solução de eventuais conflitos,
visando assim maior proteção ao consumidor. É com base nisso que as empresas
devem sempre manter um controle qualitativo em seus produtos e serviços
juntamente com o atendimento aos consumidores.

V – Incentivo à criação, pelos fornecedores, de meios eficientes de controle


de qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos
alternativos de solução de conflitos de consumo.

8) Princípio da Coibição e Repressão de Abuso no Mercado – O que se


quer neste princípio, já está fundamentado na Constituição Federal, em seu artigo
170, tratado no título da ordem econômica e financeira. Tal princípio visa proteger a
ordem econômica, possibilitando, assim, uma concorrência leal, sempre
denunciando o monopólio para que a empresa monopolizadora não aja com
abusividade perante os consumidores, pois ela seria “dona” do mercado.
Para efetivar esse princípio, as leis 4.137 de 10 de setembro de 1962 e
8.884/94 criaram o CADE, uma autarquia, entidade de direito público integrante da
administração pública indireta. Cabe destacar seu artigo 1º:

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“Art. 1º. Esta lei dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra
a ordem econômica, orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de
iniciativa, livre concorrência, função social da propriedade, defesa dos
consumidores e repressão ao abuso do poder econômico”.
VI – Coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e a utilização indevida de
inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos,
que possam causar prejuízo aos consumidores.

9) Princípio da Racionalização e Melhoria dos Serviços Públicos –


quando uma entidade, seja público ou privada, atua como fornecedora de serviços
públicos, não se exime dos deveres do código de defesa do consumidor. Com isso,
o consumidor, destinatário desses serviços, tem o direito de exigir um serviço público
efetivo, com qualidade e segurança.

VII – Racionalização e melhoria dos serviços públicos.

10) Princípio do Estudo das Modificações do Mercado – a sociedade tem


como característica a mutabilidade constante. Estamos em constantes evoluções
sociais. A cada dia é criado novas tecnologias, práticas, tendências, etc. Foi com
base nisso que o legislador ordinário criou esse princípio. Um estudo dessas
modificações visa evitar que as normas fiquem ultrapassadas e, consequentemente,
sem eficácia.

VIII – Estudo constante das modificações do mercado de consumo.

11) Princípio do Acesso à Justiça no Código de Defesa do Consumidor


– este princípio não está positivado em um único inciso ou artigo. Ele é analisado
como um sistema, por meio de artigos espalhados na lei de proteção ao consumidor.
O legislador percebeu que em nada adiantaria criar todos esses direitos que o CDC

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dá ao consumidor, se este não tivesse como reclamar e exercer esses direitos em
juízo, uma vez violados.
Não é demais dizer, sempre relembrando, que esses institutos que
beneficiam o consumidor vieram para restabelecer a igualdade e o equilíbrio entre o
consumidor e o fornecedor, pois este, geralmente, dispõe de melhores condições
econômicas e técnicas para a disputa no judiciário.
Podemos indicar alguns institutos especiais do CDC quanto ao acesso à
justiça.

a) Foro Competente é o do consumidor – conforme o artigo 101, I, do


CDC, quando se tratar de relação de consumo, a ação pode ser proposta no
domicílio do autor.

b) Inversão do ônus da prova – diz o artigo 6º, VIII do CDC, que são
direitos básicos do consumidor a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com
a inversão do ônus da prova, ao seu favor, no processo civil, quando, a critério do
juiz for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiências.
A regra geral do processo civil é de que a prova cabe a quem alega, ou seja,
ao autor cabe provar o fato constitutivo de seu direito e ao réu cabe alegar a
existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (art. 333, I e
II, do CPC). O Código de processo civil adotou, então, a distribuição estática do ônus
da prova.
O CDC, de forma inovadora, adotou a distribuição dinâmica do ônus da
prova, ou seja, o magistrado tem o poder, agora, de distribuir (inverter) o ônus
probatório, caso verifique os requisitos do art. 6º, VIII: verossimilhança da alegação
ou hipossuficiência do consumidor. Sendo assim, quando o magistrado verificar tais
hipóteses, poderá de ofício ou a requerimento das partes, inverter o ônus da prova,
presumindo como verdadeiros os fatos alegados pelo consumidor, dispensando-o de
produzir outras provas, cabendo ao fornecedor a obrigação de produzi-las.

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Verossímil é aquela alegação que parece verdadeira, que é possível ou
provável por não contrariar a verdade. Já a hipossuficiência, que não se confunde
com vulnerabilidade (esta é fenômeno de direito material com presunção absoluta), é
fenômeno processual que deve ser analisada em cada caso concreto pelo
magistrado segundo regras ordinárias de experiência.

c) Ações Coletivas – visando dar maior efetividade aos direitos do


consumidor, o CDC permitiu, além das ações individuais, as coletivas.

Art. 81. A defesa do consumidor dos interesses e direitos dos consumidores


e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.

As ações coletivas, na verdade, fundamentalmente, visam buscar o pleno


acesso à ordem jurídica justa. Influenciada pelo jurista italiano Mauro Cappelleti,
reconheceu-se três grandes ondas de desenvolvimento do acesso à justiça,
cabendo aqui neste estudo de direito do consumidor, indicar a segunda.
A primeira onde era dar assistência gratuita aos necessitados. Todavia,
verificou-se que, mesmo assim, nem todos os direitos seriam tutelados. O CPC teve
grande influência também do individualismo, assim, só permite que alguém vá a
juízo, em regra, na defesa de seus próprios interesses como pode ver no art. 6º do
CPC (“ninguém poderá pleitear em nome próprio direito alheio”). Com base nesse
culto ao individualismo, os direitos considerados supraindividuais, ou seja, aqueles
que não são próprios a ninguém, ficavam de fora. Assim, a segunda onda do acesso
à justiça foi a proteção dos interesses metaindividuais.
Foi nesse entendimento que o CDC abriu espaço para as ações coletivas,
porque muitas vezes esses direitos não só visam a um só indivíduo como toda uma
coletividade. As ações coletivas de consumo estão estipuladas mais nos artigos 81 e
seguintes do CDC.

d) Proibição de Denunciação da Lide – trata-se de uma das modalidades


de intervenção de terceiro, cuja fonte é uma ação regressiva. Tal procedimento

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acarreta sempre um retardo na prestação jurisdicional. É com base nessa demora
que o legislador, em se tratando de relação de consumo, proibiu tal instituto
processual, pois o consumidor esperaria muito mais para ver sua pretensão
satisfeita.

Art. 88, CDC: “na hipótese do art. 13, parágrafo único, deste Código, a ação
de regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade
de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da lide”.

Podemos ainda indicar alguns mecanismos de efetivação da política


nacional das relações de consumo:
• Assistência jurídica integral e gratuita às pessoas hipossuficientes;
• Órgãos de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor;
• Delegacias de Polícia especializadas no atendimento de consumidores
vítimas de infrações penais de consumo;
• Juizados Especiais e Varas Especializadas para a solução de litígios
decorrentes da relação de consumo; etc.

------------- FIM DO MÓDULO I ------------

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