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CONSIDERAÇÕES SOBRE A FAMÍLIA ESCRAVA DA FRONTEIRA OESTE DO

RIO GRANDE DE SÃO PEDRO (1750-1835)

Silmei de Sant’Ana Petiz1

1. Introdução

Os historiadores que pesquisam aspectos sociais da escravidão têm enfatizado a


valorização do escravo enquanto sujeito ativo do processo histórico, indicando a necessidade
de uma nova percepção que visualize as formas de controle e reprodução da sociedade
escravista, contextualizado, necessariamente, no tempo e no espaço, como marcos essenciais
para o estudo das experiências históricas na sua singularidade. Nesse sentido, a compreensão
dos lugares e das múltiplas temporalidades passa a ser fundamental para a análise das
mobilidades, das vizinhanças, do nível das relações sociais, bem como da dinâmica
socioeconômica de cada região.
Esses novos estudos encontraram nos inventários post-mortem e nos registros
paroquiais de batismos e casamentos, fontes cruciais para a análise mais precisa do parentesco
escravo. Esses documentos, quando tomados em conjunto, permitem a identificação das
diversas formas de organização familiar e as mobilidades e hierarquias relativas à escravidão.
Tais estudos, têm sido direcionados para determinados períodos da história e em determinadas
conjunturas regionais e, ainda que com objetivos distintos, certificam-nos de que os escravos
realmente teriam criado redes parentais, dando início a outra discussão relativa ao seu
significado na relação com os senhores.

1
Doutorando em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, bolsista CAPES. Autor do
livro: Buscando a liberdade – as fugas de escravos da província de São Pedro para o além-fronteira de 1811 a
1851. Passo Fundo: Editora UPF, 2006. E-mail: silmeipetiz@terra.com.br

1
Como se sabe, os primeiros estudos sobre as relações entre escravos no Brasil
defendiam uma noção de que a devassidão imperava nas senzalas. O relacionamento de cunho
familiar não tinha lugar, enfatizava-se as relações casuais que apontariam para uma situação
de generalizada promiscuidade (MALHEIROS, 1976) Tal posição, por sua vez, apoiava-se
em argumentos que defendiam a inferioridade do negro em relação aos brancos
(RODRIGUES, 1976). Outros atribuíram a escravidão à responsabilidade pela falta de
oportunidade para a constituição da família, como elemento que impôs aos cativos uma
condição de anomalia social (FERNANDES, 1965).
Do ponto de vista demográfico, diversos autores, como, Maria Luiza Marcílio (1984)
e Horácio Gutierrez (1987), entre outros, passaram a estudar aspectos diversos pertinentes as
famílias, através do exame das taxas de nupcialidades, compadrio e a legitimidade dos
escravos nascidos no Brasil, como também as variações de fecundidade e mortalidade dos
cativos, resgatando assim uma realidade do cativeiro e da família escrava que até então
estiveram esquecidas pela historiografia tradicional da escravidão.
Os aspectos sociais e os ganhos políticos também foram analisados, destacando-se,
nesse sentido, os estudos realizados por Florentino e Góes (1997) que observaram a família
escrava como um artifício que possibilitava a organização interna das escravarias, permitindo
aos senhores a obtenção de uma renda política com as suas manutenções e, ao escravo, um
espaço maior de manobras, mesmo dentro dos limites da escravidão.
Seguindo o caminho desses debates movidos pela questão da família escrava que,
conforme salientou Robert Slenes,2 permanecem centrados na região de plantation do século
XIX, propusemos executar pesquisa para a fronteira Oeste do Rio Grande, objetivando
verificar, assim, qual o papel exercido pelas famílias na relação dos escravos com seus
proprietários, buscando perceber a sua função nesse processo.

2. Os escravos da fronteira Oeste do Rio Grande

Autores como Schwartz (1988) e Slenes (1999) afirmaram que em plantéis maiores
haveria melhores condições para a constituição das famílias com maiores possibilidades de
estabilidade. Esses autores afirmam que a participação de legítimos aumentava de acordo com
o tamanho dos plantéis, o que se explica pela dificuldade de se estabelecer casamentos entre
escravos de propriedades diferentes, conseqüentemente os escravos teriam mais
oportunidades de escolher seus parceiros e oficializar suas relações em plantéis maiores.

2
SLENES, 1999, p. 44.

2
No estudo que realizamos para a fronteira Oeste, recorremos à utilização dos
inventários post-mortem como fonte para análise da obtenção dos padrões de posse dos
escravos dessa região. O exame desses registros nos possibilita perceber, ainda que de
maneira aproximada,3 o montante dos escravos e a sua distribuição entre o conjunto da
população livre, assim como o estudo das suas características demográficas.

Tabela 1: Tamanho dos plantéis e freqüência dos escravos da Vila de Rio Pardo, 1769-1840.

Proprietários Escravos
Proprietários por n escravos
n % n %

Sem escravos (S/E) 86 15,5 S/E 0


1-9 escravos 372 67,1 1370 47,7
10-19 escravos 74 13,4 827 28,8
20-49 escravos 18 3,2 402 14,0
Mais de 50 escravos 04 0,8 274 9,5
TOTAL 554 100 2873 100
Fonte: Inventário post-mortem da Vila de Rio Pardo. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERGS).

Conforme podemos perceber pelo exame da Tabela 1, ao todo foram 554 inventários
da Vila de Rio Pardo, entre os quais 468 referem-se a proprietários que utilizavam mão-de-
obra escrava em suas propriedades e 86 a indivíduos que aparentemente não arrolaram cativos
entre os bens. O exame desses inventários indica que a maioria dos escravos da região
convivia com cativeiros formados por até 9 escravos. Esses dados indicam que no universo
escravista da região existiam majoritariamente, pequenos plantéis. Visto que esses
representam 67,1% de senhores.
Um dado adicional a estes pequenos plantéis, revela a diversidade das atividades
econômicas que lhes era peculiar: temos proprietários voltados para a criação, com rebanhos
formados por até 500 animais, pequenos agricultores e proprietários urbanos de poucas
posses. Viveram nessas circunstâncias 1370 escravos de um conjunto formado por 2873
cativos, correspondendo a 47,7% da totalidade dos escravos. Os plantéis médios
corresponderam a 74 dos 554, ou 13,4% dos senhores da região, e compuseram um conjunto
formado por 827 escravos, representando 28,8% das escravarias relacionadas. Como seria de

3
O uso dos inventários como fonte têm conhecidas limitações, como o fato de tenderem a representar
preferencialmente as camadas mais abastadas da sociedade e sub-representar os muito pobres uma vez que estes
provavelmente não realizariam a partilha judicial de seus poucos bens. Ainda que se tenha em conta essas
limitações, os inventários são fontes imprescindíveis para o estudo das estruturas de posse das escravarias do sul,
principalmente pelo fato dessa região não dispor das listas nominativas de habitantes, sendo assim um dos
poucos recursos viáveis para o acesso direto entre a população escrava e as unidades produtivas.

3
se esperar, as grandes escravarias constituíram uma minoria, contando com apenas 18
senhores e 402 escravos contabilizando respectivamente 3,2% dos senhores e 14,0% dos
escravos. Já os plantéis excepcionalmente grandes também foram representados, mas por
apenas 4 senhores e totalizaram 274 escravos ou 9,5%. Conclui-se com isso, que a escravidão
na fronteira Oeste era constituída, predominantemente, por pequenos e médios plantéis com
até 19 escravos, sendo que entre os plantéis pequenos existiam cerca de 4 escravos e entre os
médios 12 escravos4.
Entre os senhores que possuíam as maiores escravarias (entre 20 e 92 escravos),
registramos o predomínio dos grandes estancieiros, que, em geral, possuíam atividades de
criação superior a 1000 cabeças de gado e incluía, também, uma diversificada gama de outros
negócios como as plantações de trigo, mandioca e frutas, além de possuírem, muitas vezes,
olarias, pedreiras, moinhos de fabricar farinha e charqueadas. Alguns também exerciam
atividades comerciais e freqüentemente, propriedades urbanas.
Outro aspecto importante de ser observado para a compreensão das características
peculiares dessa região é a sua taxa de africanidade, pois esse dado nos permite estimar a
importância do tráfico atlântico para o abastecimento local. Alinhada a essa questão, podemos
explorar as informações relativas à razão de sexo entre os escravos, uma vez que se admite
que a desproporção entre homens e mulheres teria sido maior entre africanos que entre os
escravos nascidos na colônia, dado que vem sendo apontado para outras regiões do Brasil, tais
como os referidos para o Rio de Janeiro por Florentino e Góes (1997).

Tabela 2: Distribuição da população escrava segundo origem e sexo, Rio Pardo, 1769-1840.

Homens Mulheres
Origem Razão de Sexo
n % n %
Africanos 313 64,7 171 35,3 183
Crioulos 632 56,5 486 43,5 130
Total 945 59,9 657 40,1 143
Fonte: Inventário post-mortem da Vila de Rio Pardo. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERGS).

Os homens eram maioria na população da região, como podemos notar pelos dados
arrolados acima. Entre os africanos, a predominância masculina era bem mais acentuada que
entre os crioulos.

4
A análise que realizamos confirma, assim, os estudos realizados por Helen Osório (1999) em cujo resultado
conclui que para 68% dos proprietários os rebanhos eram de até 500 animais e em mais da metade das estâncias,
com mais de 1000 cabeças, formavam-se estabelecimentos mistos, dedicado à agricultura e a pecuária, com uma
forte presença de mão-de-obra escrava.

4
Quanto à origem dos escravos, o exame das fontes tem indicado que a população da
Fronteira Oeste do Rio Grande era formada, predominantemente por escravos nascidos na
colônia. A explicação para essa diferença em favor dos crioulos, talvez esteja no fato da
capitania não ter tido vínculos diretos com o tráfico atlântico e por ter-se constituído por meio
de uma economia basicamente voltada para o abastecimento interno.
Um outro indicativo dessa questão é a reprodução endógena dos plantéis. Estudos
recentes sobre o perfil das escravarias têm apontado que um conjunto de elementos
característicos dos plantéis de escravos poderia nos levar a inferir sobre a reprodução natural
dos escravos, o que viria a relativizar a tese de que proprietários de escravos não
estimulariam a reprodução biológica no interior das senzalas mas como apontou Marcílio
(1984) ao hipotetizar sobre o sistema demográfico das populações escravas. Ainda não
podemos apresentar dados conclusivos sobre este aspecto, que deverá merecer nossa atenção
com o avançar da pesquisa.
Além disso, estes estudos mais recentes permitem que se repense a questão do
recorte temporal referente ao incentivo à reprodução natural, que é remetida para o período
posterior a abolição do comércio de escravos em 1850, pois a partir daí ficaria mais custoso
depender da reprodução dos escravos através da comercialização ou do tráfico interno.Uma
das raras exceções nesse sentido, refere-se justamente ao estudo realizado sobre o Rio Grande
Colonial por Laureano (2000) que tomando por base um conjunto documental formado por
inventários post-mortem, considerou que a reprodução natural entre escravos na capitania: “já
nos seus primórdios era prática comum que visava possibilitar às escravas terem filhos para
aumentar seus plantéis, o que ocorria principalmente, entre os que não possuíam uma extensa
escravaria” (LAUREANO, 2000, p. 88).
Enfim, considerando-se as características dessa região, que estaria desprovida de
vínculos mais estreitos com a economia exportadora, e que estaria formada com base em
pequenas escravarias, a pergunta que se coloca é: qual seria o perfil das famílias de cativos?
Teriam tido a possibilidade de se formar, mesmo diante da escala reduzida dos plantéis? Para
tentar responder a estas questões, é necessário que se explore as fontes eclesiásticas,
compostas pelos registros paroquiais, que julgamos serem mais apropriados para responder a
estas indagações.

3. Casamentos de escravos da fronteira Oeste do Rio Grande

Os dados arrolados a partir do levantamento dos registros de casamento relativos a


Fronteira Oeste, revelou um conjunto de informação que se mantiveram relativamente

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invariáveis e reiterativas ao longo do tempo, possibilitando com isso uma análise seriada dos
dados coletados, que permitem extrair algumas inferências sobre as possibilidades dos
escravos contraírem matrimônio no contexto de uma região fronteiriça. A tabela abaixo reúne
algumas informações fundamentais sobre o casamento entre a população cativa

Tabela 3: Casamentos de escravos e forros da fronteira Oeste do Rio Grande 1755-1835.


Escravos Escravos e Escravos e Forros e Forros com Total de
com forros livres livres forros casamentos
Freguesia Período escravos
n % n % n % n % n % n %
Rio Pardo 1755-1835 454 63,4 37 54,4 23 51,1 39 73,6 65 69,8 618 63,4
Cachoeira 1779-1835 85 11,9 9 13,2 9 20,0 5 9,4 4 4,3 112 11,5
Caçapava 1800-1835 66 9,2 5 7,4 8 17,8 4 7,6 6 6,5 89 9,1
Encruzilhada 1790-1835 111 15,5 17 25,0 5 11,1 5 9,4 18 19,4 156 16,0
Total 716 100 68 100 45 100 53 100 93 100 975 100

Fonte: Livros de Registros de Casamentos. Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre/RS.

Estes resultados têm por base um conjunto documental, formado por 975 registros de
casamento registrados nas freguesias de Rio Pardo, Cachoeira, Caçapava e Encruzilhada. Tais
dados permitem que se capture certas regularidades no que se refere ao comportamento
matrimonial dos escravos e forros, e que dizem respeito, por exemplo, à naturalidade, estatuto
jurídico dos noivos, à cor, à etnia e ocasionalmente, oferecem informações sobre o nome dos
pais dos escravos que casavam, seus senhores, ex-senhores e testemunhas.
Tais cerimônias tinham a especificidade de serem sancionadas pela Igreja Católica, o
que significa dizer que, em princípio, envolveram um número pequeno de homens e mulheres
em relação ao conjunto dos escravos que encontraram um companheiro para compartilhar
uma vida conjugal. A análise desses registros torna-se fundamental, então, para entender o
índice de uniões legítimas em comparação com as representadas pelos relacionamentos
consensuais presentes no período. São indícios seguros da importância representada pelas
famílias escravas, pois, esses 975 casais que consumaram uniões legitimadas pela Igreja
constituem um número não desprezível se levarmos em consideração as dificuldades de
escravos, forros, e mesmo de livres pobres para arcar com os altos custos estipulados para
obtenção da bênção nupcial.
Na fronteira Oeste do Rio Grande, os africanos que, como vimos, formavam um
grupo minoritário entre as escravarias da região, contribuíram com mais de 60% dos escravos
que constituíram matrimônio perante a Igreja. Em 529 casamentos, de um total de 975,
ocorreu a presença de pelo menos um dos nubentes identificado como africano, sendo que,

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para 312 a escolha se deu entre parceiros de uma mesma nação ou área de procedência,
correspondendo a 108 casais da Guiné, 84 Angolas, 38 africanos, 33 Benguellas, 23
Banguelas, 13 da Costa, 6 do Congo, 2 da Costa Leste, 2 Mina, 2 de São Tomé e 1 Rebolo. Já
os crioulos, maioria entre os plantéis, constituíram apenas 36 casais com essa característica de
endogamia.
Como podemos perceber, esses casamentos, quando analisados de acordo com a
naturalidade dos cônjuges, indicam que foram os africanos, que de fato assumiram um claro
comportamento endogâmico, visto que para 76% desse grupo social o casamento deu-se entre
si e apenas 24% estabeleceram suas uniões com crioulos, portugueses ou indígenas. Já os
escravos crioulos não se mostraram tão fechados, visto que somente 38% deles casaram-se
com outros crioulos e 62% com escravos africanos, com portugueses ou indígenas.
Na fronteira Oeste militarizada, marcada pela guerra, a insuficiência de mulheres de
origem portuguesa contribuiu para que homens livres de pouco cabedal acabassem por
disputar mulheres no mercado matrimonial de escravos e forros. Por essa razão, podemos
observar que foram as escravas, e sobretudo as forras, que vislumbravam condições de
aproveitar-se de tal situação para fugir do padrão endogâmico de seu grupo. Já os homens,
quando escravos e forros, só entravam no mundo das mulheres livres quando se unia às
mulheres índias, garantindo-lhes o benefício da concepção de filhos livres.
Quanto às testemunhas dessas cerimônias, notamos que elas, aparentemente, não
formavam vínculos com os cônjuges, uma vez que se tratava de religiosos ou pessoas
influentes da sociedade que apareceram repetidamente para diversos registros. Chama-se a
atenção à ausência dos companheiros de cativeiro, configurando-se em um universo formado
basicamente por homens livres, visto que, em apenas 3 cerimônias de 975 estiveram presentes
2 escravos e 1 forro. Este dado nos parece um forte indicativo de que as relações
representadas pelas testemunhas de casamento entre os escravos não tiveram, ao menos para a
região em estudo, o caráter das redes de sociabilidades que se estabeleceram através da
escolha dos padrinhos dos batizados, conforme discutiremos a seguir.

4. Compadrio: a família ampliada

Além destas considerações gerais sobre o matrimônio entre escravos, a utilização dos
registros paroquiais de batismos permite que se explore mais alguns traços da vida familiar
que caracterizava o cotidiano dos escravos, também na região da fronteira. O estudo do

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compadrio é uma das estratégias mais interessantes que os historiadores podem se valer para
se aproximar da comunidade escrava, confirmando assim a importância deste rito para
ampliar os laços entre as populações escravas.

Tabela 4: Batismos de escravos por freguesias e índice de legitimidade.

Batismo Batismo
Filhos Filhos Escravos
de de
Freguesia Período naturais legítimos batizados
adultos inocentes

n n n % n % n
Rio Pardo 1755-1835 398 3497 2655 75,9 842 24,1 3895
Cachoeira 1779-1835 163 1044 726 69,5 318 30,5 1207
Caçapava 1800-1835 65 1008 686 68,1 322 31,9 1073
Encruzilhada 1791-1835 202 840 552 65,7 288 34,3 1042
Fonte: Livros de Registros de Batismos. Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre/RS.

O batismo, como se sabe, tinha um lugar muito importante na sociedade colonial.


Entre os rituais instituídos pela Igreja Católica, correspondia à porta de entrada ao seio da
Igreja. Do ponto de vista da escravidão, representou para os 828 africanos adultos batizados,
assim como para os 6389 inocentes escravos e os 400 inocentes forros, uma oportunidade de
ressocialização. O batizado ligava os padrinhos aos afilhados significando responsabilidades
mútuas. Conforme Schwartz (1988, p. 42), o compadrio correspondeu a um dos principais
mecanismos de reconstrução da comunidade escrava, que envolvia africanos e crioulos. Por
essas razões, o exame dos batismos de escravos permite a análise de inúmeras variáveis que
cada vez mais têm sido objeto de inúmeras pesquisas com intuito de conhecer melhor a vida
dos cativos.
Os registros correspondentes à fronteira Oeste do Rio Grande obedeciam, como no
restante do Brasil colonial, aos padrões determinados pelas Constituições Primeiras do
Arcebispado da Bahia que servia como guia para a utilização dos párocos brasileiros
(SCHWARTZ, 1988, p. 315). Conforme essa legislação, um registro de batismo de escravos
teria que conter a data da cerimônia, o local da realização, pré-nome do batizado, nome dos
pais, nome e sobrenome dos padrinhos (quando livres), nome dos senhores dos padrinhos (se
fossem escravos) e as freguesias a que pertenciam os pais e padrinhos do batizando. Os
registros das freguesias da fronteira oeste do Rio Grande não foram contudo homogêneos.
Além dos dados acima mencionados, foram acrescidas informações a respeito das nações ou
porto de origem dos africanos, além da cor das pessoas envolvidas. No caso dos inocentes,
também foram registradas 126 alforrias fornecidas na pia batismal e foram realizadas 84

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doações dos inocentes recém nascidos, dando a entender que, ao levarem seus escravos para
batizar, os senhores estavam também registrando a sua condição de posse sobre os mesmos.
Os índices de legitimidade correspondentes a aproximadamente 30% de 6800
batismos de inocentes escravos são indicativos de que os cativos conseguiam, não só ascender
ao matrimônio, como conseguiam manter estas uniões estáveis e gerar filhos. Aqui se torna
importante destacar, contudo, que não ser legítimo não significa obrigatoriamente não ter uma
família estável. É provável mesmo, que a maior parte das relações conjugais entre os escravos
não fosse oficializada , uma vez que essa característica das uniões consensuais também era
comum mesmo entre as populações livres pobres (MARCÍLIO, 1984, p. 205).

Tabela 5: Padrões do compadrio: o perfil dos padrinhos e madrinhas escolhidos.


Batismo Batismo Batismo Batismo Batizado de
com com apenas com apenas sem inocentes
Freguesia Período Total de padrinho e o padrinho a madrinha padrinhos em perigo
batismos madrinha de vida*
n % n % n % n % n %
Rio Pardo 1755-1835 4141 3631 87,7 453 10,9 4 0,1 53 1,3 50 1,2
Cachoeira 1779-1835 1348 1084 80,4 234 17,4 2 0,1 28 2,1 28 2,1
Caçapava 1800-1835 1079 995 92,2 71 6,6 1 0,1 12 1,1 13 1,2
Encruzilhada 1791-1835 1048 929 88,6 108 10,3 2 0,2 9 0,9 6 0,6
Total 7616 6639 87,2 866 11,3 9 0,2 102 1,3
* Informações ilustrativas, inclusas nos batismos sem padrinhos e apenas padrinho e/ou madrinha.
Fonte: Livros de Registros de Batismos. Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre/RS.

A pesquisa sobre a escravidão na fronteira Oeste da capitania do Rio Grande


compreendeu os registros de escravos das freguesias de Rio Pardo, Cachoeira, Caçapava e
Encruzilhada que somaram 7616 assentos, sendo que em 6639, ou 87,2%, os escravos
batizados contaram com ambos os padrinhos, sendo esse dado demonstrativo da importância
do compadrio entre os escravos da região. Na falta de um dos padrinhos foi a madrinha a
ausência mais freqüente, correspondendo a 866 batismos ou 11,3% do total, tendo sido
bastante incomum os batismos em que apenas a madrinha se fez presente correspondendo a
apenas 9 casos. Já as cerimônias em que não constam padrinhos contabilizaram 102 registros,
sendo que, nesses casos, constatamos que se tratavam, na grande maioria, de batismos
realizados em casa por estar a criança em perigo de vida. Deduz-se com isso que, para a
maioria desses inocentes a cerimônia teve um outro significado, ou seja, representou mais
uma preocupação com a morte do que com a vida, daí a ausência de padrinhos.

Tabela 6: Condição social dos padrinhos de escravos, 1755-1835.

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Condição social dos padrinhos Padrinhos Madrinhas
n % n %
Não Fornecido (N/F) 24 0,3 75 1,2
Escrava 3476 46,3 2376 35,7
Livre 3114 41,5 830 12,5
Forra 891 11,9 3367 50,6
Total 7505 100 6648 100
Fonte: Livros de Registros de Batismos. Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre/RS.

Analisando a Tabela 6 identificamos um padrão de compadrio entre os escravos da


fronteira Oeste do Rio Grande, que indica a preferência por outros indivíduos da mesma
condição social, isto é, cativos. Isso pode indicar uma busca individual por maior socialização
ou evidenciar que a família escrava dessa região se ampliava fortalecendo seus vínculos com
outros cativos. Para os escravos adultos, cujo percentual de padrinhos escravos era bem menor
que entre os inocentes, as escolhas provavelmente eram feitas pelos senhores. Já entre os
inocentes, pela razão inversa, são ilustrativos das possibilidades exercidas pelos escravos,
considerando-os como agentes ativos por demonstrar que quem escolhia os padrinhos eram os
pais.
Entre os forros notamos fortes indicativos da manutenção dos laços sociais com os
plantéis de origem, o que pode ser percebido pela relação de libertos que freqüentemente
batizavam filhos de escravos de seus antigos senhores, como por escravos que batizavam
filhos desses antigos companheiros de cativeiro. Nesses casos, as relações verticais com a
família senhorial também são notadas, porém sempre que ocorre é na condição dos antigos
senhores batizando filhos de escravos alforriados, sendo que o inverso nesses casos não
ocorre, pois em nenhuma ocasião encontramos forros batizando filhos de antigos senhores.

5. Nome dos batizados

Historiadores que tratam da questão do compadrio têm apontado a importância do


nome do batizando como algo fundamental nas cerimônias de batismos, pois por meio deles é
possível ao pesquisador atento perceber indícios de “homenagens” feitas à pessoa escolhida
para cumprir este papel. Dessa forma, acredita-se que se o batizando tiver nome igual ao da
mãe, padrinho, madrinha ou mesmo dos senhores, a homenagem estaria sendo direcionada
para a relação com tal pessoa. E, dependendo da condição jurídica desta pessoa, a escolha
poderia ser uma das estratégias para o fortalecimento da comunidade escrava ou não.

Tabela 7: Homenagens entre os nomes dos inocentes batizados, 1755-1835.

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Escravos Total de Pai Mãe Padrinho Madrinha Senhores
homenagens
n % n % n % n % n %
Inocentes 395 33 8,0 65 16,1 164 40,0 116 28,3 17 4,1
Adultos 15 - 0 - 0 9 2,2 3 0,7 3 0,7
Total 410 33 8,0 65 16,1 173 42,2 119 29,0 20 4,8
Fonte: Livros de Registros de Batismos. Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre/RS.

A questão das homenagens pelo nome foi bem mais evidente em relação a batismo de
inocentes, conforme o indicado na Tabela 7. Essa questão talvez possa ser explicada pelo fato
de que, no caso dos inocentes, os próprios parentes deveriam ter a possibilidade de escolha, o
que não acontecia quando os registros se referiam a africanos adultos, que tinham os seus
nomes escolhidos pelos seus senhores. Porém, as pessoas mais homenageadas por meio do
nome foram os padrinhos e madrinhas de escravos inocentes, contabilizando 164 padrinhos e
116 madrinhas ou 4,1% das homenagens obtidas através dos nomes. As mães tiveram seus
nomes passados as filhas e ou filhos com maior freqüência que o nome dos pais aos filhos,
sendo talvez um indicativo da tendência matrilinear.
Isto parece indicar que, se os escravos tinham, em geral, esse costume de homenagem
através do nome dos inocentes batizados, não a fizeram de maneira muito expressiva uma vez
que elas representam um universo de 410 batismos de um conjunto composto por 7616, ou
seja em 5,4% dos batizandos ocorreu a escolha do prenome igual ao correspondente ao
primeiro nome de alguma pessoa envolvida na cerimônia.

6. Considerações Finais

Como se pode perceber, esse cenário fronteiriço marcado pelas atividades pecuárias,
que exigiam uma maior mobilidade no trabalho escravo, constituíram, contrariamente ao que
era defendido por uma historiografia tradicional, um meio favorável, para os cativos
constituírem famílias, como forma de se fortalecer enquanto comunidade e obter maior
autonomia. Essas estratégias serviriam, assim, como elementos da afirmação do caráter
humano em contrapartida à tese de anomalia defendida pela Escola Paulista de Sociologia que
tão fortemente marcou os estudos sobre o negro nas décadas de 1980 e 1990, através de
trabalhos que, ao procurar demonstrar o caráter violento da escravidão riograndense,
acabaram por relegar a um segundo plano a capacidade dos escravos de pensar o mundo
através de categorias e significados sociais se não aqueles instituídos pelos próprios senhores.
O exame das fontes nos mostrou, a importância da multiplicidade das organizações
familiares entre os escravos, uma vez que incluíam não só casais legalmente formados, mas,

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com certeza, aqueles que jamais sacramentaram suas uniões, mesmo que elas fossem estáveis.
Os documentos apontam indícios suficientes para determinar sua existência. Contudo, para
compreendermos a sua importância na região necessitamos ainda analisar a estabilidade
dessas famílias através do cruzamento dos dados e também seguir a trajetória de suas vidas.
Com o levantamento da documentação foi possível visualizar uma fração da história
dessas famílias, percebendo que alguns desses cativos tiveram a possibilidade de se casar,
gerar filhos, estabelecer relações de compadrio de várias maneiras, dando-nos pistas sobre
como a comunidade escrava na região criava suas estratégias de aliança e amizade. As
alianças, percebidas pela escolha nos nomes, preferencialmente entre padrinhos, demonstram
que existia laços de afetividade demonstrada através dessas homenagens. Nesse sentido,
entendemos que as famílias escravas estariam sustentadas no somatório dos laços verticais e
horizontais, os quais deverão ser melhor entendidos com o avançar do trabalho em curso.

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