Você está na página 1de 22

CDD: 501

Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica


em Descartes
ÉRICO ANDRADE

Universidade Federal de Alagoas (UFAL)


RECIFE, PE
ericoandrade@hotmail.com

Resumo: O dissenso em torno da caracterização da ciência cartesiana quanto ao seu viés metodoló-
gico – considerando que os comentários normalmente deferidos sobre essa ciência oscilam entre o
idealismo que a considera como a expressão perfeita do método geométrico (indiferente à experiên-
cia) e o pragmatismo que lhe concebe como a expressão de um projeto falido, dada a incongruência
entre o método geométrico (proposto) e a prática científica (realizada de fato; mediante um forte ape-
lo à experiência) – parece residir, sobretudo, na relação do método com a experiência. Ao contrário
das interpretações acima expostas, defenderemos que a exigência metodológica de uma ciência geo-
metrizável não designa a supressão da ciência experimental, nem hipotética. Essa exigência é nor-
mativa: o método cartesiano exige da ciência uma releitura geométrica da experiência. A possibili-
dade desta leitura está condicionada ao recurso às hipóteses que reconfiguram a percepção sensível
mediante a correção da experiência, padronizando-a.

Palavras-chave: Hipótese. Experiência. Ciência cartesiana. Método e certeza.

1. Introdução
Certas leituras idealistas do pensamento cartesiano tomam a sua geometri-
zação do real, sugerida em alguns textos, como a expressão de um método que
prescinde da experiência porque restringe a matéria às propriedades geométricas
de profundidade, largura e comprimento. Sob esse horizonte de interpretação, o
método teria a função de dissuadir o espírito da utilidade da experiência a fim de
submeter a ciência à geometria. A ciência cartesiana poderia ser apresentada,
então, como um bloco sem fissuras, impenetrável pelo sensível, disposto por
axiomas que substituiriam o conhecimento empírico em favor de uma geometria

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
260 Érico Andrade

da natureza 1 . A ocorrência do uso da experiência em algumas passagens da obra


cartesiana seria um acidente, ou na linguagem kuhniana, uma anomalia no seu
sistema; a ser corrigida ou simplesmente desconsiderada como problema cientí-
fico 2 .
Essa leitura apóia-se, sobretudo, nos preceitos das Regulae ad Direction Inge-
nii (doravante abreviada como Regras) e do Discours de la Méthode (doravante Discur-
so), no intuito de apresentar o método cartesiano como a antítese daquele experi-
mental, inscrevendo a ciência decorrente dele no âmbito axiomático, definitiva-
mente estranho à experiência e à hipótese. A ciência cartesiana, tal como a geo-
metria, almejaria, segundo esses interpretes, a perfeição; a razão pura. Escreve
Descartes: Pois se lhe apraz considerar o que escrevi do solo, da neve, do arco-íris etc..., saberá
efetivamente que toda a minha Física não é mais do que Geometria 3 .
As interpretações, diríamos, pragmático-realistas da ciência cartesiana
opõem-se à leitura idealista acima exposta, descreditando o projeto cartesiano de
uma mathesis universalis, descrito nas Regulae, como ideal regulador da atividade
científica. Esse segundo grupo de interpretes defende que a ciência mores geometrico,
projetada pela mathesis universalis – cujo escopo estaria circunscrito às operações

1 A física cartesiana seria uma ciência estritamente dedutiva segundo a leitura idealista

e fenomenológica de Husserl que associava diretamente a física à metafísica cartesiana. Cf.


Husserl, 1967, p. 6. Tournadre defende que o método dedutivo seria a forma definitiva da
ciência para Descartes. Cf. Tournadre, 1982, p. 307. Referência completa da citação cons-
tará na bibliografia.
2 O uso da experiência ou observação não seria propriamente uma escolha, mas uma

imposição fruto da impossibilidade de se deduzir, em alguns casos, as verdades a partir de


noções claramente conhecidas. Essa opinião parece ser partilhada, em matizes diferentes,
por diversos autores, entre eles podemos destacar: Liard, 1882, p. 118-119 e Mouy, 1981
p. 44.
3 Car s'ils lui plaît de considérer ce que j'ai écrit du ciel, de la neige, de l'arc-en-ciel… il connaîtra bien

que toute ma Physique n'est autre chose que Géométrie. (Carta a Mersenne de 27 de julho de 1638,
AT, II, p. 168). O ideal da física cartesiana seria uma ciência abstrata, segundo Gueroult.
Cf. Gueroult, 1967, p. 92. Toda referência das obras de Descartes será atualizada quanto à
tipografia e posta segundo as inicias dos editores: AT, volume e página. As traduções para
o português são nossas.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 261

metodológicas de ordem e medida – seria logo abandonado dada a resistência do


real à geometria 4 . Ou seja, a geometria não poderia ser aplicada à natureza porque
a constituição de uma ciência dedutiva – condição para a geometrização do real –
esbarraria em dificuldades ontológicas estruturais; considerando que seria impos-
sível traduzir em termos quantitativos, por isso passíveis de dedução, os dados da
natureza, substancialmente qualitativos. Nos Principes de la Philosophie (doravante
Princípios) acentuar-se-ia essa tendência visto que a prática científica cartesiana
assimilaria, segundo o referido grupo de interpretes, uma análise qualitativa da
natureza, moldada conforme a constituição e à diversidade empírica dos fenôme-
nos; em detrimento de uma geometrização a priori do natural. A ausência da ma-
temática na famosa árvore do conhecimento, desenhada na carta prefácio dos
Princípios, forneceria o diagnóstico definitivo que condenara o projeto de uma
ciência mores geometrico ao ostracismo histórico 5 .
Essas leituras divergentes do método e da ciência elaboradas por Descartes
não apenas acentuaram a riqueza do seu pensamento, mas, quando confrontadas,
revelam uma tensão, implícita nos próprios textos, entre a prática científica (reple-
ta de inconsistências metodológicas) e o método (mathesis universalis). Nessa pers-
pectiva, proporemos a discussão da função da experiência e do uso de hipóteses
na ciência cartesiana no intuito de compreendermos a relação dessas duas ferra-
mentas científicas com o método exposto nas Regras. A nossa questão consiste
em saber em que medida a mathesis universalis cartesiana – considerado por nós
como o método cartesiano – rejeita o emprego da experiência e da hipótese na

4 Cf. Defendem esse ponto de vista a partir de uma interpretação pragmática ou realis-

ta: Garber, 2004, p. 116, 120 e 164-168 e Garber, 2001, p. 86-87; Sasaki, 2003, p. 198;
Gaukroger, 2002, p. 9-10 Williams, 2005, p. 255. Apontam as insuficiências da filosofia
cartesiana, mostrando o descompasso entre o método e prática científica: Alquié, 2000, p.
275. Fichant, 1998, p. 84; Kobayachi, 1994, p. 10, 26; e Koyré, 1966, p. 128.
5 Essa opinião é introduzida primeiramente por Boutroux. Cf. Boutroux, 1900, p. 19.

Allard afirma, por seu turno: nous venons de constater que Descartes a été incapable de réaliser
complètement son idéal scientifique. Cf. Allard, 1963, p. 190. Segue essa mesma linha Loparic
para quem os problemas enfrentados por Descartes na construção de uma física do mun-
do real o levaria a abandonar a idéia de uma física dedutiva. Cf. Loparic, 1989, p. 195.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
262 Érico Andrade

efetivação da ciência. Ou ainda, poderíamos perguntar de forma mais precisa: a


mathesis universalis (método) financiaria uma ciência estritamente dedutiva, despro-
vida de um conteúdo empírico porque inscrita numa geometrização do real; ou
ela permitiria uma reassimilação – hipotética – do natural, sob uma estrutura
geométrica para cuja aplicação concorreria a verificação empírica?
Após uma breve recuperação de algumas interpretações referentes ao mé-
todo e à ciência cartesiana, nosso artigo comportará duas etapas: primeiro defen-
deremos a tese de que as Regras não podem servir de baluarte do idealismo mo-
derno, cuja caricatura seria uma ciência estritamente formal e axiomática. Ao
contrário das duas correntes de interpretação, que sustentam uma leitura idealista
das Regras, mostraremos que nesse texto está prescrita a necessidade do uso da
experiência e de hipóteses na abordagem científica como forma de constituir a
certeza concernente aos resultados obtidos nas ciências. No segundo momento,
apresentaremos o modo pelo qual as hipóteses e a experiência serão orquestradas
no que tange a constituição da modelação da diversidade empírica do real. Nesta
segunda etapa nos limitaremos a alguns exemplos da ciência cartesiana. Enfim,
concluiremos que o uso da experiência e de hipóteses ratifica o projeto da mathesis
universalis de normatizar a prática científica mediante uma série de preceitos meto-
dológicos. Essa normatização transcreveria a exigência de se reler a experiência
sensível em função das ferramentas conceptuais da geometria; permitindo a cons-
tituição de uma rede de proposições empíricas estruturadas sob uma mesma base
metodológica e experimental.

2. Obstruções ao método: o real sem geometria


Parte dos filósofos contemporâneos creditam ao pensamento cartesiano o
exemplo maior de uma ciência axiomática cuja construção está subordinada à
irrefutabilidade de suas proposições. Quine, por exemplo, contrapõe a dinâmica
do saber científico, composta, em grande parte, por um saber pragmático e incer-
to, a uniformidade e estaticidade do saber cartesiano cuja certeza e clareza escapa-
riam à qualquer revisão e reconsideração teórica:

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 263
Ao contrário de Descartes nos consideramos o movimento e nos servimos, mesmo
no momento em que filosofamos até atingirmos aquilo chamamos vagamente de
método científico, nós mudamos essa teoria sobre um ou outro ponto, nós a me-
lhoramos. No seio da doutrina total em evolução, tão seriamente e tão absolu-
tamente quanto possível; mas claro sob reserva de correção, o que é de fato evi-
dente 6 .

De fato, a rígida estrutura metodológica empreendida nas Regras e no Dis-


curso consiste num dos maiores alvos dos críticos da ciência cartesiana. Esse ata-
que passa, sobretudo nas décadas de 90 e nesta década, pela reavaliação da função
do método nas ciências. Nessa perspectiva, a crítica de Quine ganha, entre o
especialista do pensamento cartesiano, a forma de uma exegese cujo objetivo
encerra-se na tentativa de mostrar o abismo teórico que separaria o método carte-
siano, que supostamente impulsionaria as ciências ao uso da geometria, e a ciência
realizada por Descartes, marcada profundamente por hipóteses falsas e pelo uso
excessivo da experiência.
Nos Princípios o descompasso entre método e ciência faria desta obra da
maturidade cartesiana o exemplo mais agudo de uma ciência que abdica comple-
tamente do seu método diante das dificuldades impostas pela experiência. Os
intérpretes do pensamento cartesiano lamentarão esta mudança cujo resultado
consiste, segundo eles, na usurpação das conquista do Le Monde (doravante Mun-
do) em favor de uma física por vezes essencialista, mas, sobretudo: qualitativa 7 .

6 A la différence de Descartes, nous tenons à nos convictions du mouvement et nous en servons, même

pendant que nos philosophons, jusqu’à ce que nous appelons de façons vague la méthode scientifique, nous
changions cette théorie sur l’un ou l’autre point pour l’améliorer. Du sein de notre doctrine totale en
évolution, nous pouvons juger de la vérité aussi sérieusement et aussi absolument qu’il est possible ; bien
entendu, sous réserve de correction, mais cela va sans dire. Quine, 1977, p. 56.
7 Alquié reconhece uma certa tendência cartesiana de chercher une vérité adhérant à l’être,

porém os Princípios marcariam o recurso à experiência e o fim de uma ciência simbólica,


com deveria ser, ao seu ver, toda ciência: Mais c’est dans le Principes que les plans se
confondendent vraiment, que Descartes renonce à une physique symbolique et déréalisée, oblie que la science
n’est que langage et l’objet scientifique que construction de l’esprit, revient enfin à un réalisme scientifique
qui, laissant perdre le sens métaphysique de la pure transcendance de l’être, conduit la science elle-même au
dogmatisme et à l’erreur. Alquié, 2000, p. 274/cf. 115. De fato, argumenta ainda Alquié, no
período que sucedesse 1631 Descartes n’est prisonnier d’aucune ontologie scientifique. Tout au plus

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
264 Érico Andrade

Nesse sentido Koyré descreve, com um certo pesar, a física dos Princípios: O fato é
sabido a física de Descartes tal como nos é apresentada nos Princípios não contém mais leis da
matemática experimentáveis. Ela é, de fato, tão pouco matemática quanto aquela de Aristóte-
les 8 . Essa obra, realizada segundo o modelo dos manuais da escola, dissolveria,
então, a pretensão de formalizar o mundo segundo as leis da geometria 9 . Nela a
física reassumiria a função de descrever o real conforme as qualidades sensíveis
presentes nos objetos; seria um retorno inevitável ao método experimental, na
sua forma mais incipiente: a aristotélica.
Jammer corrobora e comunga da opinião de Koyré quando afirma que o
projeto de uma ciência mores geometrico cartesiano arruinar-se-ia em conseqüência
da impossibilidade de se reduzir a física à geometria 10 . No intuito de adaptar-se
ao real, o recurso à hipóteses ad hoc e à experiência, fora, portanto, prática corren-
te na ciência cartesiana: mais preocupada em render-se às evidências da experiên-
cia que à armadura invariavelmente estática do método. As diretrizes dessa inter-
pretação de Jammer ganham na pena de Garber um aprofundamento que em
certa medida lhes radicaliza. Para Garber, de fato, os Princípios se opõem aos pre-
ceitos metodológicos, elaborados nas Regras, conforme os quais a ciência poderia
prescindir da experiência sensível na procura da verdade 11 . No entanto, ele esten-
de o uso da hipótese e da experiência ao próprio Discurso no qual poder-se-ia

tend-il à transformer une science qui, l’origine, était une physique techniciste, en une cosmogonie, p. 116.
Assim, a física dos Princípios seria um lamentável retrocesso, uma volta a uma física-
metafísica.
8 Le fait est connu La Physique de Descartes telle que nous la présentent les Principes ne contient plus

de lois mathématique exprimables. Elle est, en fait, aussi peu mathématique que celle d’Aristote. Koyré,
1966, p. 128.
9 Les Principes como manual escolástico conferir: a Mersenne / dezembro/ 1640 / AT,

III, p. 259; a Chanut / 26/fevereiro/1649 / AT, V, p. 291; AT, IX, p. 16.


10 Jammer, 1990, p. 304 e 326.
11 Garber, 1999, p. 89. Garber defende uma tripla fase da ciência cartesiana; 1a As Re-

gras 2a Os Ensaios e 3a Os Princípios. As duas últimas fases se opõem completamente às


Regras (primeira fase) pelo uso de hipóteses. Os Princípios se opõem aos Ensaios pelo uso de
analogias e por contentar-se com a certeza moral a despeito da certeza fornecida pela
intuição. Ver: Garber, 2004, p. 116, 120 e 164-168.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 265

constatar que os clássicos preceitos para bem conduzir a razão sucumbiriam face
à prática científicas dos Essais (doravante, Ensaios), repleta de incoerências meto-
dológicas – aplicação de diferentes métodos para a resolução de questões simila-
res – assim como de hipóteses falsas, quando não indemonstráveis 12 . Nesse sen-
tido, Garber e Jammer acentuam a natureza hipotético-dedutiva do método car-
tesiano à proporção que o considera a antítese daquele esboçado nas Regras; pro-
fundamente axiomático e indiferente à experiência 13 .
Alquié, por outro lado, insiste que nos Ensaios bem como no Mundo, a
ciência cartesiana se alimentaria do método geométrico que se formaria sob a
alegação que a prioridade da razão no conhecimento pressupõe a instituição de
uma ciência ideal; ainda que ulteriormente Descartes tenha sido obrigado a aban-
donar o seu método pelas necessidades introduzidas por diversas experiências,
particularizadas nos diferentes domínios do saber 14 . Em outras palavras, o real se
vingaria da pretensão cartesiana de reinventar a natureza sobre as bases da geo-
metria, obrigando a ciência e o método a cederem aos caprichos da experiência e
adequando-os às qualidades sensíveis dos objetos, reveladas pela percepção sensí-
vel. Os aspectos qualitativos aportados pelas novas experiências, entre destaca-se
aquela do imã, desterraria, então, a quantidade enquanto terreno primordial da
ação científica, conduzindo a geometrização do real, proposta pelo método, à
falência, ao desuso.
Esses autores guardam tons diferentes da mesma certeza: a impossi-
bilidade de uma leitura idealista da ciência cartesiana visto que ela recorreria ine-
gavelmente à experiência e à hipóteses ad hoc (e em alguns casos à hipóteses fal-
sas) em contradição com uma ciência pura, estritamente geométrica, subscrita
pelo método. Por conseqüências, o método cartesiano desenhado nas Regras e
nos Discurso estaria efetivamente fadado ao abandono, quando da prática científi-
ca, dada a resistência inegociável do real a se adaptar a uma reificação dos concei-

12 Garber, 1978, p. 114-152, p. 127-129.


13 In the Regulae Descartes is quite opposed to all use probalities in science including the use of
hypothese assumptions...Garber, 1978, p. 147. Ver também: Garber, 2001, p. 86-87.
14 Alquié, 2000, p. 273.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
266 Érico Andrade

tos fundamentais da geometria. Descartes reconheceria os limites do seu projeto


em carta a Mersenne: Mas exigir de mim demonstrações geométricas em matéria que é de
física, é querer que eu faça coisas impossíveis 15 . A ciência cartesiana seria, por conseguin-
te, dissonante em relação ao método – preconizado nas Regras na forma de uma
mathesis universalis (disciplina) universalis – porque incapaz de conciliar o método
dedutivo (mores geometrico) com a experiência.
Apesar de algumas dissidências teóricas, parte substancial dos intérpretes
do pensamento cartesiano sustenta que o projeto de uma ciência mores geometrico,
tratar-se-ia de uma exigência de uma ciência pura, abstrata, que se insculpe numa
mathesis universalis, essencialmente monolítica. Assim, podemos inferir que eles
convergem para uma leitura idealista do método cartesiano, introduzido nas Re-
gras, sobretudo, porque nesse escrito considerar-se-ia como o conhecimento váli-
do aquele que partiria de princípios certos e evidentes, determinados a priori; ana-
logamente aqueles da geometria.
Embora estejamos de acordo com esses autores no que concerne ao apelo
à hipóteses e à experiência na prática da ciência cartesiana, entendemos que o uso
da experiência e de hipóteses é fomentado e regulado inicialmente nas Regras.
Assim, avançaremos uma interpretação que desautoriza a tomada desta obra
como fonte subsidiária de uma leitura idealista do método cartesiano e de sua
ciência. O ponto central da etapa subseqüente do nosso artigo consiste em enfati-
zar que a definição da mathesis universalis como método para toda ciência possível
não exclui o uso de hipóteses e de experiências, mas, ao contrário, o exige.

3. As Regras e o método: o caminho para as hipóteses


Reverter o epicentro do debate da relação entre hipótese e ciência pode
nos aportar algumas indicações relevantes à compreensão do método cartesiano.
Desse modo, o lugar comum que parece figurar numa leitura das Regras sob a
insígnia de um idealismo virulento, por vezes desmesurado, conforme o qual se

15Mais d’exiger de mois des démonstrations géométriques en une matière qui dépend de la Physique, c’est

vouloir que je fasse des choses impossibles. (Carta a Mersenne 27/maio/1638 // AT, II, p142).

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 267

extravia a hipótese do âmbito da atividade científica, será preterido por nós em


virtude das passagens desse texto que apontam para a incontornabilidade da hi-
pótese na constituição da ciência. Para Descartes a ciência hipotética não seria
debilitada, frágil. Ao contrário, o apelo à hipótese é essencial à constituição de
uma ciência certa como prescreve a mathesis universalis nas Regras.
A partir dessa breve consideração acreditamos que a seguinte passagem
das Regras é seminal para o nosso propósito porque ela apresenta o uso de supo-
sições (hipótese) em dissonância aguda face à qualquer espécie de constrangimento
à ciência:

Neste momento por me ater a segunda parte e para distinguir com exatidão as no-
ções das coisas simples daquelas que são compostas, tornando claro o local no qual
reside o erro nas ciências, de sorte a fazer como estejamos prevenidos na busca pela
verdade, assim como possamos conhecer a própria verdade; devemos admitir cer-
tas suposições que não aceitas por todos, mas pode-se através deles, como fazem
os astrônomos, descrever os fenômenos, de sorte a nos permitir conhecer a verda-
de e o falso 16 .

O recurso a suposições não implica que certas demonstrações sejam a priori


destituídas de verdade, mas, pelo contrário, ele possibilita a constituição de um
conhecimento certo daquilo que não se apresenta imediatamente como evidente.
A necessidade do método impõe-se, segundo Descartes, justamente quando a
aplicabilidade da intuição e da dedução – operações responsáveis pelo conheci-
mento certo e evidente (cf. AT, X, p.366) – é comprometida em decorrência da difi-
culdade do problema (cf. AT, X, p.372). O método detém o papel de estenuar
uma certa dificuldade, redirecionando a ausência de ordem causal entre alguns
fenômenos para o âmbito de uma rede de proposições cuja articulação é dada
como certa, ainda que algumas das proposições dessa rede sejam falsas. O recur-

16Jam ut quoque secundum aggrediamur, et ut accurate distinguamus simplicium rerum notiones ab

illis quae ex iisdem componuntur, ac videamus in utrisque, ubinam falsitas esse possit, ut caveamus, et
quaenam certo possint cognosci, ut his solis incubamus: hic loci, quemadmodum in superioribus, quaedam
assumenda sunt, quae fortasse non apud omnes sunt in confesso; sed parum refert, etsi non magis vera esse
credantur, quam circuli illi imaginabiles, quibus Astronomi phaenomena sua describunt, modo illorum
ope, qualis de qualibet re cognitio vera esse possit aut falsa, distinguatis. AT, X, p. 417.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
268 Érico Andrade

so à suposições insere-se num quadro de codificação da natureza em função de


uma ordem artificial. Assim, quando simulada num holograma imaginativo a
natureza ganha as feições que o método subscrevera como condição para sua
cientificidade, tornando-se apta, por conseguinte, a uma leitura quantitativa.
A procura por um conhecimento certo e evidente, introduzida e prescrita pe-
las operações de dedução e intuição, não acarreta a supressão imediata de propo-
sições incertas e transitórias. Ao contrário, cumpre tornar possível a aplicação
dessas operações mediante o método, o qual pode fingir a realidade, trocando a
turva percepção sensível por símbolos articulados racionalmente em função de
hipóteses transitórias e, na maior parte das vezes, falsas. Assim, dilui-se, como
sugere a passagem acima citada, os infortúnios causados pela falta de observação
dos fenômenos celestes, quando se apresenta uma ordem postiça que concilia a
ocorrência desses fenômenos com uma causalidade linear e invariavelmente de-
terminável. O método cartesiano nutre, no que tange as hipóteses, uma relação
íntima que desbrava a geografia da incerteza recorrendo à própria incerteza tra-
vestida, no entanto, de ordem. A hipótese, amplamente empreendida na astro-
nomia como se referia Descartes, mineraliza uma certeza condicional – mas, não
menos certeza – porque subordinada à veracidade dos resultados científicos.
A hipótese aventada nas Regras quanto à disposição espacial dos corpos ce-
lestes será reeditada nos Princípios e no Mundo no intuito de avançar a construção
de uma cosmologia. A passagem que citaremos agora é particularmente impor-
tante porque apresenta a condição para o estabelecimento de hipóteses, que não
fora abordada nas Regras à exaustão:

É isso o que exponho expressamente aqui, pois embora fale de suposições, contu-
do não suponho nenhuma cuja falsidade, ainda que conhecida, possa dar possibili-
dade à dúvida sobre a verdade das conclusões extraídas 17 .

17 Ce que je mets ici expressément, afin qu’on remarque qu’encore que je parle de suppositions, je n’en

fais néanmoins aucune dont la fausseté, quoi que connue, puisse donner occasion de douter de la vérité des
conclusions qui seront tirées. AT, IX, p. 126. // Pr. III, art.47.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 269

A função da hipótese não é elevar a falsidade de uma proposição ao pata-


mar de verdade, o que seria contraditório com as exigências da mathesis universalis,
mas é de ir além dos fenômenos observáveis – aquilo que se apresenta aos senti-
dos de forma bruta – a fim de redesenhá-los segundo a inteligibilidade do próprio
espírito. Nessa perspectiva, não se trata de se tomar uma hipótese ao azar, mas de
uma antecipação do espírito face ao mundo sensível, através da qual ele pode de-
terminar, diante das várias possibilidades de interpretação, aquela mais plausível
porque detentora, ainda que pragmaticamente, de um olhar que enquadra os
fenômenos do mundo num sistema mecânico 18 . Por conseguinte, a verdade do
raciocínio hipotético não está subordinada à verdade da hipótese, mas à verdade
da conclusão que porta as certezas derivadas da organização artificial do mundo,
fabricada pela própria hipótese19 .

18 Cf. ....mais seulement en représenter quelque idée par de comparaisons et des ombrages, autant qu’il

ma semblé nécessaire pour le sujet de la Dioptrique. Carta a Vatier 22/ fevereiro / 1638 / AT, I,
p. 526.
19 A efetividade da ciência cartesiana está condicionada ao uso de hipóteses. Em res-

posta a Morin sobre a natureza do seu método, Descartes esclarece que o emprego de
hipótese não é uma forma de fragilizar a ciência, substituir a verdade por preceitos transi-
tórios e imprecisos, mas é uma maneira racional de compreender certos fenômenos cuja
explicação não se apresenta de forma evidente: A isso respondo que essas coisas não são compre-
endidas jamais sem suposições ou hipóteses como eu falei; e que as tenha claramente designado, dizendo que
se pode tirar conseqüências verdadeiras e seguras, ainda que elas sejam incertas. Pois, as figuras matemáti-
ca só podem sem consideradas certas, ao passo que o Equador, o zodíaco e outros círculos, são supostos
como falsos e a mobilidade da Terra como incerta, no entanto nós não deixamos de deduzir coisas certas
dessas hipótese falsas. Original: A quoi je réponds que ces choses-là ne se comprennent jamais entre cette
sorte de suppositions ou hypothèses dont j’ai parlé ; et que je les ai clairement désignées, en disant qu’on en
peut tirer des conséquences très vrais et très assurées, encore qu’elles soient fausses ou incertaines. Car la
parallaxe, ou l’obliquité de L’Éciptique, etc., ne peuvent être supposés comme fausses ou incertaines, mais
seulement comme vrais ; au lieu que L’Équateur, le Zodiaque, les Épicycles et les autres tels cercles, sont
ordinairement supposés comme faux, et la mobilité de la terre comme incertaine, et on ne laisse pas pour
cela d’en déduire des choses vraies. Carta a Morin, 13/julho/1638 / AT, II, p. 198-199. Ver
também : Principes, III, art. 15 // AT, IX, p. 108. Sobre astronomia e hipótese, cf. Carta a
Mersenne 4/março/1630 / AT, I, p. 125; carta a Mersenne / abril/1534 / AT, I, 287.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
270 Érico Andrade

Segue-se, então, que na ciência a inteligibilidade do fenômeno não é cons-


tatada na apreensão imediata dos dados das observações, mas na forma como o
espírito decide interpretá-los em conformidade com uma linguagem conceptual
produzida e concatenada previamente à referida interpretação 20 . Desse modo, o
método hipotético-dedutivo encontra nas suposições falsas uma forma de im-
plantar a dedução como procedimento de descoberta científica, onde aparente-
mente tinha-se apenas proposições desarticuladas e isoladas 21 .

4. Dos sentidos à experiência: o caminho para a certeza


Para instauração da hipótese concorrem as várias dimensões da mens, sem
que nenhuma delas seja escamoteada. Por isso, a “suspensão” dos sentidos en-
quanto critério para fundamentação epistemológica do conhecimento não deve
ser confundido, como normalmente o é, com a interdição do uso dos sentidos na
construção do conhecimento. Todas as faculdades devem ser empreendias para a
consolidação da ciência. Nas Regras, reivindica-se o papel dos sentidos para tal
propósito:

Em suma, é necessário se servir de todas as fontes: entendimento, imaginação, sen-


tidos, e memória; tanto para se tomas uma intuição distinta das proposições sim-
ples, que para combinar segundo as regras as coisas que se procura com aquelas
que se conhece, a fim de as achar; como também para descobrir as coisas que se faz
necessário se relacionar umas com as outras, de sorte a não desperdiçar a mínima
fonte humana de conhecimento 22 .

20 O uso de hipóteses na astronomia é tomado como exemplo para as ciências por

Descartes até seus últimos anos de vida, carta a ? /1648-1649 ? / AT, V, p. 259.
21 O emprego de suposições (hipóteses) é uma prática corrente na matemática, sobretu-

do, no método analítico (AT, X, p. 460-461) que será usado por Descartes na construção
da sua Geometria. Cf. AT, X, p. 412 // FA, I, p. 136-137.
22 Denique omnibus utendum est intellectus, imaginationis, sensus, et memoriae auxiliis, tum ad pro-

positiones simplices distincte intuendas, tum ad quaesita cum cognitis rite comparanda ut agnoscantur, tum
ad illa invenienda, quae ita inter se debeant conferri, ut nulla pars humanae industriae omittatur. AT, X,
p. 410.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 271

A exigência traçada na Regra II, concernente ao conhecimento certo e evi-


dente – toda ciência é conhecimento certo e evidente (Omnis scientia est cognitio certa et evidens.
AT, X, p.362) – insere-se num plano epistemológico, sobre o qual deve-se fun-
damentar as condições da representatividade das proposições científicas. Entre-
tanto, conhecimentos prováveis ou sensíveis, quando submetidos à análise do
método, que guarda a decibilidade de sua eventual contribuição à ciência, aliam-se
à certeza e à evidência por proverem a factalidade do conhecimento empírico. Ou
seja, as hipóteses corrigem, mas não suprimem o conhecimento sensível, o qual é
reconduzido pelo método a precisar os dados da percepção.
Ademais, a experiência sensível longe de ser postergada por sua eventual
ineficácia, no que concerne à instauração da certeza do conhecimento, ela apre-
senta-se – já nas Regras – enquanto condição para verificação empírica das propo-
sições científicas. Desse modo, uma proposição científica não pode ser exeqüível
senão experimentalmente, visto que a experiência compõe as variáveis que con-
correm para formulação de um problema e para sua subseqüente resolução. As-
sim, ainda que as questões de física, que seriam tratadas integralmente no terceiro
livro, não tenham sido desenvolvidas nas Regras – talvez porque a abrangência e
dificuldades de suas questões demandaram um livro exclusivo: O Mundo – encon-
tramos nesse texto o condicionamento da ciência à experiência:

... nosso homem observará facilmente que a determinação dessa linha [anaclastique]
(…) depende da proporção que pertence aos ângulos de refração e incidência; mas
ele não será capaz de procurar essa proporção, que não é pertinente à matemática,
mas à física. 23

O problema das curvas anaclastiques será examinado por nós logo em se-
guida. Não obstante, acreditamos que é lícito ver nessa passagem a desautoriza-
ção da matemática pura como única via de acesso ao conhecimento científico,

23 …ut omnes post refractionem se in uno puncto intersecent, facile quidem animadvertet, (…), hujus

lineae determinationem pendere a proportione, quam servant anguli refractionis ad angulos incidentiae; sed
quia hujus indagandae non erit capax, cum non ad Mathesim pertineat, sed ad Physicam… AT, X, p.
393-394.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
272 Érico Andrade

dado que a matemática sem a experiência revela-se estéril porque incapaz de for-
necer a proporção do próprio algoritmo que ela prescrevera como medida do
real. Isto é, as diversas variáveis empíricas que concorrem para a refração – a
densidade do meio por onde passa o feixe de luz e a trajetória desse feixe antes
dele incidir no referido meio (AT, X, p.394-396) – escapam à dedução a priori de
princípios certos e evidentes e necessitam da reedição de diversas experiências
para licenciar a sua validade. Por isso através da física, que compõe o conteúdo
empírico das proposições matemáticas, será possível fabricar a fotografia do
mundo, enraizada, ainda que hipoteticamente, na própria natureza.
De fato, a física não é desenvolvida nas Regras que aborda, afora as ques-
tões metodológicas, no máximo alguns problemas de natureza matemática. No
entanto, a constatação dessa ausência não deve eclipsar as assertivas metodológi-
cas desse texto que apontam para a necessidade inegociável da experiência na
constituição do conhecimento natural. Nesse sentido, quando Descartes refere-se
à terceira parte do livro – que, repetimos, provavelmente corresponde ao Mundo –
ele, ainda que circunspecto, inscreve essas questões no âmbito do conhecimento
empírico para cuja saturação faz-se necessário o recurso à experiência: e aquela
(física) ainda pressupõe outras as quais concluímos por experiência... 24 . Em suma, a expe-
riência não serve como parâmetro de mensuração do real, mas, quando corrigida
– padronizada – fornece sua medida.
Ao interromper o acabamento das Regras Descartes não se desfaz do seu
método para protocolar um outro modelo metodológico. As obras concernentes
à física guardarão a necessidade de exaurir a experiência do seu âmbito qualitati-
vo, inapto à quantificação, para transformá-la num conteúdo inerte das proposi-
ções científicas. Os problemas para solução dos quais Descartes engaja o seu
método salientarão o papel da experiência e das hipóteses na edificação da ciên-
cia. As Regras ganharão nas obras científicas de Descartes, ao contrário do que
afirma parte importante da literatura secundária, uma forma normativa que regula
o uso da hipótese e da experiência na abordagem científica.

24 ... et illas, quae alias etiasm praesupponunt, quas a parte rei compositas esse experimur... (AT, X,

p. 399).

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 273

5. Hipótese e experiência
Ainda que não possamos desviar o escopo desse artigo para dissertarmos
sobre o que Descartes compreende por “geometria da natureza”, acreditamos
que podemos avançar, sem grandes prejuízos para nossa tese, que o projeto carte-
siano de modelar a natureza segundo uma certa compreensão da geometria ga-
rimpa um terreno relevante nas questões alusivas à física. De fato, o Mundo e os
Princípios igualam-se na inquietação de transcrever as normas metodológicas ex-
postas nas Regras para o âmbito da ciência. Nesse sentido, veremos agora que
essas obras e algumas correspondências reúnem o ensejo de coadunar hipótese e
experiência sob o olhar crítico do método.
No intuito de tornar congruente o modelo teórico – produzido pelo espíri-
to – com a experiência sensível, o método deve financiar hipóteses cujas proposi-
ções resultantes devem necessariamente configurar todos os matizes dos fenô-
menos naturais mediante a geometria (cf. AT, IX, p.104-105 // Pr. III, art. 4). No
Mundo, por exemplo, o comportamento da luz é revelado quando se constata, por
meio da experiência, que a descrição empreendida no novo mundo – hipotético
porque fabricado artificialmente mediante o recurso à hipóteses – corresponde ao
comportamento da luz no verdadeiro mundo, visto o consoante casamento entre o
modelo dedutivo – aparado em figuras que supostamente estabelecem o contorno
do real – e a experiência, a qual corrobora as diversas conseqüências físicas, indica-
das e prescritas por esse modelo (AT, XI, p.97-103). Nos Princípios a distância entre
a incerteza do ponto de partida, as hipóteses falsas, e a certeza das conclusões é
novamente suprimida graças à articulação de hipóteses com a experiência:

...Eu desejo que aquilo que eu escrevi seja apenas tomado por uma hipótese, a qual
está talvez longe da verdade; mas ainda que ela seja falsa, eu acredito ter muitas ra-
zões se todas as coisas que são deduzidas delas estão de acordo com a experiên-
cia 25 .

25 Je désire que ce que j’écrirai soit seulement pris pour une hypothèse, laquelle est peut-être fort éloignée

de la vérité ; mais encore que cela fût, je croirai avoir beaucoup fait si toutes les choses qui en seront
déduites sont entièrement conformes aux expériences. AT, IX, p. 123 // Pr. III, art. 44.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
274 Érico Andrade

A experiência dissipa o caráter puramente ideal da hipótese – retira, desse


modo, a ciência cartesiana dos paralogismos da razão – na medida em que revela a
aplicabilidade de suas conseqüências, deduzidas pelo espírito, na descrição do mun-
do26 . Sob esse prisma, a experiência apresenta-se sempre, quando se parte de hipó-
teses, como uma forma de ratificar a descrição geométrica dos fenômenos naturais;
de assentá-la na própria estrutura ontológica do real27 . Ao invés de se excluírem,
razão e sensibilidade são harmonizadas mediante a orquestra imprescindível do mé-
todo, o qual dita as partituras – regras – fundamentais de leitura do natural.
Semelhantes às obras científicas cartesianas, as correspondências acompa-
nham a diligência de Descartes quanto à conciliação entre a modelação geométrica
do real, as hipóteses e a experiência. Entre as suas correspondências podemos sub-
linhar aquela em que ele se ocupa do problema do pêndulo. Esse problema consiste
em determinar, ao menos na forma proposta por Mersenne aos sábios da época, a
grandeza de um pêndulo simples sincronizado a um determinado corpo fixo. O
primeiro passo para resolução do problema é dado pela seguinte norma geral:

Como há um centro de gravidade em todo corpo pesado, há também um centro de


agitação, quando eles se movem, estando eles suspensos por um desses dois pon-
tos, e que todos aqueles em que o centro de agitação é igualmente distante do pon-
to pelo qual eles são suspensos, fazem seus movimentos de ida e volta em tempos
iguais... 28 .

26 Nessa perspectiva as suposições prestam-se a explicar os fenômenos e os fenôme-

nos permitem provar que as suposições não são apenas invenções. A aparência circular
desse raciocínio é dissolvia na aguda interpretação de Marniet, segundo a qual: les
suppositions rendent les phénomènes inteligibles, mais ne leur confèrent pas une certitude qu’elles ne sont
pas habilitées à leur transmettre, du fait qu’elles sont elle-mêmes incertaines, tandi qu’inversement, la
congruence d’un grand nombre de faits que l’expérience rend très certains avec les conséquences que l’on peut
tirer de suppositions confirme la validité de ces suppositions. Marniet, 1987, p. 333.
27 Outro exemplo importante é fornecido no Mundo, segundo o qual a descrição do mo-

vimento dos astros em função de sua massa e de sua figura, pode ser confirmada pela expe-
riência (l’on peut aisément confirmer tout ceci pas l’expérience AT, XI, p. 66-68).
28 Comme il y a un centre de gravité dans tous les corpo pesants, il y a aussi un centre de leur

agitation, lorsqu’ils se meuvent étant suspendus par l’un de leur points, et que tous ceux en qui ce centre
d’agitation est également distant du point par lequel ils sont suspendus, font leurs tours et retours en même
temps égaux... Carta a Mersenne 02 / março /1646 // AT, IV, p. 364.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 275

Essa regra visa criar uma situação ideal na qual se devem considerar dois
fatores: primeiro que o pêndulo descreve sempre o mesmo movimento no que
concerne à sua trajetória. Segundo, que há uma simetria entre as distâncias per-
corridas pelo o movimento de ida e de volta do pêndulo. A aplicação dessa nor-
ma pressupõe ainda:

Depois, supondo que há um cuidado, quando fazemos a experiência, de evitar a re-


sistência do ar, examinando apenas as figuras, visto que a quantidade não pode ser
determinada pela razão. Ocupo-me apenas em procurar o centro de “agitação” pe-
las regras da geometria, as quais considero infalíveis… 29 .

Como não se pode ter precisão da quantidade de ar no local do expe-


rimento, considera-se, então, que ele não existe ou que ele é pouco relevante à
determinação da medida do pêndulo. Ao contrário da física escolástica que acre-
ditava ver no natural a forma correta dos fenômenos, a física cartesiana desconfi-
gura o natural, representado aqui pela resistência do ar, para poder determinar sua
inteligibilidade. Desse modo, elimina-se, hipoteticamente, os efeitos do ar e suas
eventuais qualidades, para se constranger o natural a se adequar às armaduras da
geometria. Nesse caso específico, reescreve-se o movimento pendular através de
figuras triangulares – prescritas por Descartes como a imagem desse movimento
– que subsidiariam, por conseguinte, o seu posterior cálculo 30 .

29 Puis, supposant qu’on ait soin, en faisant les expériences, d’éviter cette résistance de l’air, en

n’examinant que les figures ou elle n’est pas sensible, à cause que sa quantité ne peut être déterminé par
raison, je n’arrête seulement a chercher ce centre d’agitation par les règles de la géométrie, lesquelles je pense
infaillibles en ce point… Carta a Cavendish 30 / março / 1646 // AT, IV, p. 380-381. Ver
também: carta a Cavendish 15/mais/1646. AT, IV, 417.
30 As quatros possibilidades do movimento pendular, ventiladas por Descartes, serão

descritas por quatro figuras triangulares diferentes que poderiam, segundo ele, fornecer a
imagem necessária a partir da qual seriam determinados o ponto de “agitação” e aquele de
gravitação do pêndulo simples (Carta a Mersenne 02 / março / 1646 // AT, IV, p. 364).
Assim, longe de fornecer a fórmula do movimento pendular, ainda que se possa com
algumas concessões e interpretações dizer que Descartes de certa forma aproximou-se da
solução – ele achará de fato em dois casos a proporção correta do fio que sustenta o
corpo – a preocupação de Descartes não era fornecer a fórmula geral dessa questão, seu

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
276 Érico Andrade

Embora tratem de temas diferentes, as correspondências com Cavendish


remetem à Dioptrique e ao Mundo no que concerne à relação entre a representação
geral do movimento e a individualidade da experiência sensível. Nessas duas
obras encontramos uma hipótese cuja função consiste em descrever a trajetória
retilínea de uma bale que penetra obliquamente num recipiente repleto de água
(considerando que os efeitos do peso e do ar não alteram a trajetória dessa bale)
sem sofrer o desvio, que é constatado por nossa visão ocular ordinária (AT, VI,
p.91). Em outras palavras, essa hipótese determina que a bale não deve desviar sua
trajetória ao entrar neste recipiente de água. A partir dessa hipótese, pode-se re-
presentar corretamente o movimento descrito no percurso da bale, conferindo-
lhe a figura de uma reta obliqua à superfície do recipiente que ela atravessa de
modo uniforme. Assim, as diversas hipóteses (suppositions) do Dioptrique (que de-
senvolve as conquistas do Mundo em relação ao cálculo da refração) indicarão,
através da mesma figura, a continuidade retilínea do movimento da bale a despeito
da imagem turva, captada por nossa percepção sensível. Graças a essas hipóteses
pode-se formular o cálculo dos ângulos de refração e incidência, levando em
consideração a igualdade dos senos destes ângulos – já estabelecida nas Regras.
Uma vez determinado este cálculo pode-se verifier par l’expérience sua validade (AT,
VI, p.91) 31 .

cálculo, que poderia ser feito pelos geômetras (trouver ce centre [agitaion ou ocilation] en toute
sorte de corps, et par conséquence aussi en ceux-là. Et il y a peut fort aisement être calculé par géométrie.
Carta a Cavendish 30/março/1646 / AT, IV, 418). Ele estava interessado apenas em
determinar a figura que poderia descrever as diferentes situações do movimento pendular.
Convém conferir as observações da edição AT sobre as concessões necessárias para se
considerar os avanços cartesianos no tratamento desse problema (AT, IV, p. 370-371//
Cf. também, Kobayashi, 1993, p. 101-107). Esses autores tentam extrair a fórmula do
cálculo do movimento pendular a partir dos indícios deixados por Descartes, porém
ambos os autores reconhecem os grandes limites cartesianos em relação à solução desse
problema. Esses limites vão da linguagem pouco clara empregada por Descartes aos fal-
sos pressupostos de sua física, entre eles pode-se destacar sua problemática noção de
massa.
31 Esse mesmo raciocínio aplica-se para determinação da velocidade do corpo em

queda, posto que embora não se possa determinar essa velocidade senão através da expe-

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 277

Ao contrário da Dioptrique, na qual Descartes oferece o cálculo do desvio


da luz (percebido por nossa visão sensível e descrito pela fórmula geral: seno do
ângulo de refração = seno do ângulo de incidência), nas correspondências em que
ele se ocupa com o problema do pêndulo não há nenhum cálculo referente a esse
tipo de movimento. Contudo, a semelhança entre o cálculo da refração e a des-
crição do movimento pendular, realizada cerca de dez anos mais tarde, pode ser
constatada pela imposição de uma descrição geométrica – prévia ao fenômeno –
conforme a qual se corrige os lapsos da percepção sensível mediante o filtro da
geometria. Essa correção encerra-se na reconfiguração da experiência, geometri-
camente constituída, tornando-a legível em qualquer contexto no qual ela ocorra.
O uso de hipóteses serve, desse modo, como uma preparação para apli-
cação da geometria, no sentido que ele fornece provisoriamente e, por vezes,
falsamente, subsídios ontológicos – condições empíricas para interpretação do
real – que permitem uma leitura do mundo conforme a lente da própria geome-
tria. Essas hipóteses, ao contrário do que poderia defender uma interpretação
idealista, não substituem definitivamente o real, elas apenas o suspende, ou seja,
não se trata de uma institucionalização da fábula do mundo, que transcreve a hipóte-
se de geometrização do real no Mundo, mas de uma reconsideração da inteligibili-
dade da natureza. Nesse sentido, a hipótese permite uma explicação geométrica
dos fenômenos, ainda que nos limites de uma moldura, cuja estrutura fabrica uma
descrição da natureza apenas de forma aproximada, porque alheia e indiferente às
inúmeras frestas do real.
Com efeito, a validade desta geometria está condicionada aos aspectos par-
ticulares e individuais fornecidos pela experiência. De modo que a representação

riência, a figura geométrica relativa à descrição da queda dos corpos é aquela de um triân-
gulo mediante o qual cumpre calcular essa velocidade. Assim, escreve Descartes: Je ne puis
déterminer la vitesse dont chaque corps pesant descend au commencement, car c’est un question purement de
fait, et cela dépend de la vitesse de la Matière susptile, laquelle ôte au commencement autant de la
proportion de la vitesse dont les corps descendent, que le petit triangle ABC ôte du triangle ADE, si on
pose la ligne BC pour le premier moment de vitesse, et DE pour le dernier. D’où vous pouvez aisément
calculer la force de la percussion comparée avec la pesanteur, positis ponendis. Mersenne 11/março/
1640. AT, III, p. 36.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
278 Érico Andrade

geométrica dos fenômenos naturais, quando lapidada pelas normas do método, as


quais prescrevem as condições da modelação (geometrização) do natural e corro-
borada pela experiência, será necessariamente o espelho da natureza.

6. À guisa de conclusão
A partir da discussão traçada neste artigo podemos concluir que a expe-
riência tem duas funções fundamentais na constituição da ciência cartesiana. Pri-
meiro ela é necessária para determinar a grandeza (movimento, quantidade e
figura) presente em cada corpo 32 . Segundo, ela é o único critério de mediação
entre a falsidade de uma hipótese e a certeza de uma determinada conclusão visto
que através dela a geometria se reconcilia com a natureza, dando a medida apro-
ximada das diversas frações do real. Esses dois usos da experiência não podem
ser considerados acidentais sob preço de fazer da ciência cartesiana uma prática
desprovida na sua maior parte da experiência porque circunscrita à esfera de uma
geometria pura; o que definitivamente não corresponde à ciência empreendida
por Descartes. Portanto, a experiência é condição necessária para a realização de
uma ciência dedutiva.
No entanto, seja qual for o fenômeno, ele deve estar submetido a uma
descrição geométrica previamente estabelecida. A geometria antecipa-se – con-
forme preconiza o método – ao sensível não para subtrair seu papel na ciência,
mas para transpor, através de hipóteses, sua inteligibilidade para o âmbito da
razão humana. A experiência perde, por conseguinte, o poder de fomentar o
caminho da pesquisa científica, de assimilar o natural de forma bruta, ordenado
em conformidade com a percepção sensível, pois mediante o método o espírito
reinventa a ordem do mundo, enquadrando e configurando os fenômenos na
medida do seu olhar. Portanto, a autonomia da razão coincide com aquela do

32 Sobre a resistência do ar no estudo do movimento pendular, Descartes escreve a

Mersenne: Car en mes conclusions j’ai excepté ce que j’ai dit pouvoir être nommé l’empechement de l’air
(...) la quantité duquel empechement j’ai dit ne pouvoir être determiné que par l’expérience. Carta a
Mersenne / 02/ Novembro / 1646 / AT, IV, p. 547. Ver também: carta a Mersenne
05/outubro/1646 / AT, IV, p. 511-512.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
Hipótese e Experiência na Constituição da Certeza Científica em Descartes 279

método, não sendo subscrito no pensamento cartesiano, a supressão do sensí-


vel, mais ou menos idealizada pela literatura secundária; pelo contrário, restrin-
ge-se o a priori do método – seja através de axiomas ou de regras pragmáticas –
à forma de toda interpretação da natureza.

Bibliografia
ADAM, C., TANNERY, P. (orgs.) Œuvres de Descartes. 2.ed. Paris: Vrin, 1986.
12v.
ALLARD, J.-L. Le Mathématisme de Descartes. Ottawa: Ed. Ottawa, 1963.
ALQUIÉ, F. La Découvert Métaphysique de l’Homme chez Descartes. Paris: PUF, 1.ed.
1950, 6.ed 2000.
————. Œuvres Philosophiques de Descartes. Paris: Garnier, 1973. 3v.
ANDRADE M. de OLIVEIRA, É. “Lógica e matemática em Descartes: crítica à
leitura analítica do método cartesiano ou do primado da matemática no
sistema metodológico cartesiano”. Studium, Recife (Brasil), ano 6, n.11, p.
81-105, 2003.
BOUTROUX, P. L’Imagination et les Mathématiques chez Descartes. Paris: Felix Alcan,
1900.
FICHANT, M. Science et Métaphysique dans Descartes et Leibniz. Paris: PUF, 1998.
GARBER, D. Corps Cartésiens. Paris: PUF, 2004.
————. Descartes Embodied: Reading Cartesian Philosophy trough Cartesian Science.
Cambridge, Mass.: Cambridge University Press, 2001.
————. La Physique Métaphysique de Descartes. Paris: PUF, 1999.
————. “Science and Certainty in Descartes”. In: M. Hooker (ed.). Descartes
Critical and Interpretive Essays. London: The Johns Hopkins University Press,
p. 114-152, 1978.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.
280 Érico Andrade

GUEROULT, M. Leibniz Dynamique et Métaphysique. Paris: Aubier, 1967.


HUSSERL, E. La Crise des Sciences Européennes et la Phénoménologie Transcendantale.
Trad. Gérard Granel. Paris: Gallimard, 1967.
KHUS, T. La Structure des Révolutions Scientifiques. Trad. Laure Meyer. Paris:
Flammarion, 1983.
KOBAYSHI, M. La Philosophie Naturelle de Descartes. Paris: Vrin, 1993.
KOYRÉ, A. Études Galiléennes. Paris, 1966.
LIARD, L. Descartes. Paris: Librairie Germes Baillièr et Cie., 1892.
LOPARIC, Z. “Paradigmas Cartesianos”. Cadernos de História e Filosofia da Ciência.
Campinas, série 2, v.1, n.2, p. 185-213, jul.-dez. de 1989.
MARNIET, M. “Science et Hypothèse chez Descartes”. In: La Science chez Descar-
tes. London/New York: Garlend Publishing, p. 319-339, 1987.
MOUY, P. Le Développement de la Physique Cartésienne. New York: Arno Press, 1981.
QUINE, W. Le Mot et la Chose. Trad. Joseph Dopp et Paul Gochet. Paris: Flama-
rion, 1977.
SASAKI, C. Descartes’s Mathematical Thought. Netherlands: Dordrecht/Boston/
London: Kluwer Academic Publishers, 2003.
TOURNADRE, G. L’Orientation de la Science Cartésienne. Paris: Vrin, 1982.
WILLIMS, B. The Project of Pure Enquiry. USA/Canada: Routledge, 2005.

Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 16, n. 2, p. 259-280, jul.-dez. 2006.