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::!iUNISC
A linne Bon elli e Soraya Fleischer
Reitor
Vilm~r Thoml
Organizadoras
Vice-ReitQr
{use ",,, /6 " ;0 Pasl on': " Fantou""
Pró-Reilora de CraduJç30
ü m nr" Luria dt U mu fld{"
Pró- Reilora de Pesquisa
e Pós-Graduaç30
U an c AlIlI"m amr KII/per
Pró-Reitor de Ex tcns;\o
e ~1..:IÇÔC$ ComunÍl:'rias
lu i: A. ugus to CosIa <I C"mp iJ
Pr6-Rdtor de Administração
l aime L(lula
Pró-Rcitor d<, P1an;,.;amento
e I:>esenvolvimento Insti tucion.11
10cIo Ptdro Sellm ;,1t

EDITORA DA UNISC
Ed itora
Hdga Hol:U Entre saias justas
COMISSÃO EDITO RIAL
Hdga HoUlS - Prniúnrlc e jog os de cintura
Uant :\1arJm:mn Kip~r
Eduardo Aluis r.oro A/ar:rasa
EI,,,or los.! 5ch"rider
Ir;,rru Afo"SI) Frry
ROSiIn<l Ih GiS5m di: s . 5chnridcr
Sirgio Sd-.:ufor
Vundtrlri Btck" Rj~ro

I a reimpressão

Av. [ ndcpcnd~ncia, 2293


96815-900 • Sa nta Cruz do Sul, RS
Fones: (51) 37 17 7462 / (51) 3717 7:\61 Ilha de Santa catarina
Fax: (51) 3717 7665 Editora ;\'Iulhcrcs
cdi tora@Unisc. br EDUNJSC
WW I\'_u n isc.br
2007
\
Q 2006. Alinne Bone ttL e Sora)'a Fldscher
I' rdmp ress.io 2007
CoordelraçJo editorial
Zah idé Lupinacci Muzart

Rroisão
Gerusa Bonda n

Projeto gráfICO c diagramação


Stud ioS • Diagramação & Arte Visual
studios@studios.com.br _(48)JIP..53070

Capa f
Gracco Bonett i, sobre foto reali zada por Kelly Cristian!! da Silva em cas,l lllento no
interi or do Timor Leste. As d uas mulheres que apawcc nl com mais vis ibilidade
s.io Sara Teles e Zelia Lopt."S de La utém, Timor.

Dados IntcmJ<:;io,... is de Catalogaç,'\o na l'ubJiraç,lu _ Cf['


Lcny Hd cna Bru nd CRB 10/4-12
1::61 Entre 5.';35 just1lS c jogos de cintu ra I organiz.:ltlor3S A]irtn(>
llone lt i e So ra)"a Fl ... isc h... r. - Fl oria nópolis: Ed. Mu lh cr("S;
Santa Cruz do Sul: EDUNJSC.2007. i
Jn p.

JSIlN: 978-85-86501·61-6 (Editora I>lul hcres)


ISBN; 978-85-75iS_159-J (EDUN ISq

I. Etnografia. 2. A ntropologia social. J. Gt'neru .


l. Ballettl. A linnc. 11. Fldschc •. Sorar" .

C[)U 39
I

A Clau dia Fonseca. pejas liçõcs . inspiraç<:IO c generoSidade .


larrn l MI J.JIlIS

Caixa Postal 503 !


8S().1O-970 - Flori anópolis, se
Fone/ Fax: (048) 3233 2164
cdi to ramu lhcrcs@floripa.com.br
w\\'w.cdiloramulhcrL"S.com.br
I

Muitas vezes retOmei do charnac[o "campo", que sem


isso. um capim de gaclo. p aisagem lJaslagem. esva .
zjada de mim c repleta dos Qu[ros .,. quase cheia . de
ossos fraTurados; atropelada. Nossos valores mais
caros espocam ou colidem. (... ) Passam-se os dias
c a sensação muda. Confonne escrevo preencho.
me novamente clc mim. Esla SOu Cu. (;om m inhas
I
t
dúvidas e inseguranças combalidas, em eTerno
questionar. Parece que preciso esvaziar·me do oUlro.
aquilo que se convenciona como scne[o ·Outro·. E
que nilo passa do -eu" em Choque; c u queStionado
e sem sossego.

I\ndréa Manin i
Sumário
i
- I I ••

INTRODUÇÃO
Diário de campo: !Scmprc) um experimcllIo ernográficQ-lireráriO?
Alinne Bonelfi e Soraya Fleischer ..... JI
o • • • • • • • • •• •• • •••••• •••••••••• ••••• •

CAPITULO I
ViCissitudes da s ubjelividadc: aUlo -controle. aU lo-exorcismo c
Hminaridadc na ant ropologia dos movimen tos Sociais
Carmen SUsono Tomqllisf. ... .. .... . .. ...... ... .. .......... .. ............ 43

I CAPiTULO 2
A pesquisa tem "m ironga": Noras cr nográfi cas sobre o
fazer c rnográfico
I"'ónico Dias ... ..

CAPITULO 3
. . .. ... ... ..... .. ............................................. .. 75

"NO salro": Trilhas e percalços de lIma etnografia entre travestis


que se pros tituem
Larisso Peltício .. . ............ ... ........ ... .. ........ 95
I
CAPITUL O 4
I
Um olhar sexual n a inveSTigação ern ográflca : notas sobre
trabalho de campo c sexualidade

, 1

Nódio Elisa Meinerz

CAPiTULO 5
127

Ent re h ome n s: Espaços ele gc n c ro em uma p esquisa


an rropológica sobre masculinidad e e (Iecisões sexuais e
reprodu tivas
Pou/a S(]nclrine Mac/l0do .. ............. ...... ... .. ...... ... ......... ... 157

CAPÍTULO 6
On ele es rã o as u .gir/s? t\ pesquis8 an trop Ológ ica numa
roda de break
Fernanda Noronha ............. .... ........... ........... ......... ....... 187
Ct\P;TULO 7
Enrre O familiar c o exólicü: CornparliJI1ando experiências de
campo na Boa v isla. cabo Verde
AIlClréa de SOuza Lobo ..... 209
o •• "' • ••• •• ••••• " •• •• •• • ••• o., • ••• • " • • • •• •• o •• " •• •

C\PI'TULO 8
O poelc r do campo c o scu campo ele poder
Inrroclução
Kel/y CriStlol1e do Silva .................. .... ... .. ................ .... ..... .... 231
CAPíTULO 9 --------~ ._------
Casos e acasos: Corno aciClcmes e fatos fortuitos innucnciam DiáriO de campo: (Sem pre) um experi mento
o Iraball10 de campo
Daniela COTeJovij ..... .... .... .............. ..... .................... .... .. ..... ... 257 elnográfico-literário?
C,\PiTULO 10
Ser mujer Y anrropóloga en la escuela: Una Cxperiencia de lrabaj o i"\ n(IITOtluo é o fOfO da liberd(lde e do sonidad..:.
de campo con niiios }' nirias EJnlxlle. enCOlltro. exercíciO clc sem/menta:
Diana Milslein ............. ............... . semiClo /lO p..:nsomento".
•• ••• ••• •••• •• o • • 283
C,\PiTULO I , 1t\....prutA ~1."'lrn~l'

Ritual d e iniciaçilo: Quando o campo evoca o próprio obje to


através da expcriónCi<l
PO/ricia ele / \roujo BraneJcio COUIO .................. ...... .. ..... ........ 307
27 d e j aneiro de 2006.
CAPiTULO 12
EllIrc colinas verdes: Trabalhos espirituais. plantas c culinária.
Reflexões sobre experiências d e campo numa comunidade
do Santo Daimc
D esci do ÕnilJlIS e caminllei alé o endereço que elas ha-
viam me passaelo por lelefone. Era ap enas urn par de
quaneirões pelas ruas arborizadas c m ovirnemadas do Bom Fin 1.
Isabel Sontana ele Rose ... . . .... ....... .... ... ... .. . . .. .. ······ .. .. ... . . 33 1 Passava um pOuco das 16 11. justamcl11c quanclo o cator intenso
Posfácio dL: Pono Alegre começava a dar trégua. i \ confeitaria ficava Cqüi.
C/aLlelia Fonseca .... ... .... . clistanre e[a casa das duas antropólogas. por iSso a conveniência
· ···· ···· .. .... .... 355
dc nos enContrarmos ali. Logo avistci o nome espanl1ol. as gran-

,
As allloras .. ........ ..... .
. ... .. .... . 365
I
I
des vidraças qlle serviam de portas e j anelas e as mesinhas ele
madeira. Eu esperélva quc. lá dentro. o ar conelicionado criasse

! um c lima mais ameno. especialmente nesta circunslância: Cntre.


vislar meus pares. Toda vez que eu preCisava sair ele casa para

I entrevistar ourras anlropótogas. ficava ansiosa: Serâo amistosas?


Entenderão meu lem a ele pesquisa? Senlir·sc-áo invadidas? Estas

I! pergunras me dispersavam. confundiaJn se com outras lantas que


eu tinha p reparado para esse cncontro. Eu trazia algumas notas
no ci:lelcITlo ele campo. mas tcnrava tam l)ém e[encar as ]x:rgulltas
m c nmlrnente. para que a conversa tluisse rnctllor.
I
Di.ifio de campo Alirme BonCUi c SOf.ly.l Flcischcr

f
Um segurança ele terno estava a poria . como parece ser issO Taml)ém teria acontecido se eu enrrevislasse Outra p essoa
o costume por esses tempos no bairro . Ent rei e continuei a que não uma all1ropóloga? Será que o enlrevisTador raml)ém
observar o ambiente. A[gumas pessoas. de pé. dirigiam seus desperra a cllriosidade de seus inlerloculores?
p edidos aos atendentes atrás do longo b alcão c[e vidro. Três EnquantO ela engalava uma pergunla na outra e eu me
senllOras mais Velllas desfrutavam ela companllia uma da ourra cmbaral!18va com essas elúvidas m etodológicas. a segunda
c de v"lriOS peliljours colOridos. Um jovem de cabelo bem prelO informalllc chegou um pouco apressada. Ela foi logo pedindo
cligitava frcnelicamenle em seu [ap TOp. Chaj6s - esse delicioso descl llpas pelo aTraso . culpando o gato ql le resolvera ler fome
cloce gelada do Uruguai - al)sorviam a aTenção de um casal l:>em no m omento em que ela deixava o apanamenTo. Essa
que parecia apaixonado. Na única m esa vazia. uma m oça lia OuTra era tão jovem e elétrica quanto a primeira, cabelo ainda
um livro ele capa elura. Ela aparenlOva seus 30 c poucos anos. m ais curro e roupas ainda mais coloridas. A cliferença é que não
Vest ia urna frenle l rnica laranja com uma saia esvoaçante preta . combinava tão bem as cores. Parecia um arco·íris ambulanTe.
Cabelos cunos e levemente en caracolados pareciam recém ·la· CurnprimentOu a amiga com os três b eijinhos lipicos aqui do
vados. Do pescoço. desciam varias colares finos de miçangas Sul e depoiS me beijou da m esm a forma . Um tanto informal e
em lons solares. Nos pés. as sandálias verctes - era por elas sineslésica essa OUTra. Sentou·se c logo pediu um guaran á bem
que a infonnanre havia se identificado. Tom ei fôlego e caminhei gelado. Reclamou do calor c perguntou se já haviam os come·
aré ali. Quando senriu minlla proxirn idadc. logo levantOu os çadO. Eu expliquei que ainda não. rnas j á poderiamos fazê·lo se
01l10S de sellS OCtllos verdes (parece que Ule agraciava combi. assim o desejassem. Ela n80 m e respondeu, mas agradeceu à
nar roclas as cores da roupa). "Tl l ( leves ser a ant ropóloga que garçonete que irrompeu nesse m omento . Virou·sc para a amiga
esTá n os prOcurando·. ela elisparou SOrridenre. ao iechar o livro
sobre o colo. POr que decieli fazer 11111 estudo elo familiar?, era 1I e corncntou sobre a ressaca que lhe assolara naquela m anlltl. : \5
duas com enlaram rapidamenle sobre a anim ada feSTa da noite
a pergunTa que eu sempre m e repeTia no início do contato. Por anlerior. 1\ segunda soltou uma gargalhada quase conlagiamc e
que cscolhera um grupo lão inquisidor. arisco, obsclVador? Eu
m e apreSCllIei e pendurei a bolsa e[e brim no esp aldar da cadei.
ra, De lá. fui rirando meus inslrumenlos ele IrabaltlO: gravador,
I eu vi as tréS veltlinhas a repreenderem com o olhar. Depois do
mamemo de cumplicidade e do refrigeranlc. eu lhes lancej a pri·
m eira pergunla. baslanle ampla . Queria teslar p or qual caminho
c8clemo de campo , caneras, ' \0 escrever essas linhas, cnver. scglririam. Eu Torcia para que o I)arull-\Oambicnre n ~lo inlerfcrisse
gonho·me da rapidez com que j á pilssci ao ~ traba lho· . Ela me na gravação. ;\1)aixo. transcrevo a en trevista dessa 13rde .
olhava Curiosa, talvez ela censurasse minha ansiedade, lalvez
Entrevistadora: Como vocês sabem, minl1Q pesqlliW C sobre (I

, eu lhe remeresse às suas primeiras cxp eriências ele rrabalho ele


campo. f"oram suas pergulllas corriqueiras que m e deix<:lram
mais ~I vontade. Ela queria sa l)er onde eu m orava na cidade,
novo geração de onrrop ólogas cIO Rio GrClnde do Sul. Eu clecidi
elllrevis/Or uocês porque fiquei sabendo que orgonizorom um
se meus pais haviam vinclo do inrerior, se cu já linha planos liuro jusramcnre com esse duplo foco: gênero e juuentude,
de enlrar no dOuTorado, se Cu conl1ecia aquela confeiwria e ,\linne Bone" i: t, mais ou menos isso.
os OUlros lamos cafés do b()irro. se neSTe final de ano eu linlla
veraneado nalguma praia do li/Oral gaucho , Eu percebi que ela EnTrcvisraclora: Como a ssim?
me c tllografava discreTamenle, invcrren c[o o j ogo, Será que

12 13
Diário de çampo Alinne Boneui e Soraya fleisçher

Alinne: Bom. primeiro não sei se podem os ser consideradas e.'\ala· percelJido. a/i era. com o eu passei a cllam ar. a alual ~r..·l eca do
mente do Rio Grande (lo Sul. Eu sou gaúcha. n'k.lS faço doutorado feminismo~ no f3rasil.
na Uj\'ICA.M I~ 1\ soraya é de Brasilia. mas faz doulorado aqui. t\/innc : Eu já linlla tielo textos sobre a efcrvescência do feminis·
Soraya : Temos laços com o estado. E. sobretudo . vivemos e mo de Recife c quandO a Soraya colocou essa · pulga alras da
convivemos uma com a Qu! ra aqui. IsSO foi mu ilO imponamc minha o relha" eu comccei a cogirar scriamel11e essa allernaliva.
para terrn inm o livro . Eu nunca linha ielo para um lugar t[lo longe. nunca IÍnlla feito
campo num a cidacle nova para mim. como Recife. E aí a 50·
Emrevisladord: Um minwo. 11á muitos infonnaçÕC$ aqui. Como vo- raya m e eSlirnulou muito: ela disse que eSlava m orando num
cês se conhecerom se são (Ie cidades e universi(/ac/es diferentes? quano com espaço para nós duas e com um a bela v isla para o
Soraya: A11. essa hislória é imponante mesmo. Eslá direlélmenle Atlãnlico e ela já conllecia um pouco da cidade. Então. aceitei
relacionada à Ilislória do livro . Em agoSIO de 2004. cu já morava o desafio e m e m andei para lá. De fato. conviver com a Soraya
em Pono r\legre e me dirigia para Hccifc. onde eu começaria a se· naquelas u ês semanas foi muito imponanle para mim e para
gunda pane do nabaJtlo de campo. denl ro de uma ONG feminisla p esquisa. Ela me ajudou a conllccer os primeiros caminllos
que Iraballla com paneiras. que são m eu foco de eSludo. ~\'las. no daqucla m elrópole e as primeiras ONGs c feministas dali .
cam inllo. eu planejei parar no "Fazendo Gênero" . que é um evenlo Soraya: Eu não sei se ajuclCi lan lo assim. 1\ t\linne ficou muito
ferninisl él que aconlcce Ilienalmeme em Floripa. Lá eu enconlrei mais tempo li! do que eu. e ela se embrenllou super bem pela
com a minlla oriema(lora. a professora Claudia Fonseca. "Meca" . (RisoSI. Só sei que nossa convivência foi super intensa
Alinnc: Na rcal. a Claudia é m eio "Culpaela" por tudo isso. (Ri· naquelas sem anas. Eu eSlava no final de meus meses de cam·
SOS). Não. cu eSIOU brincando. Acho quc seria m aiS apropriado po ali. rumo a oulro canto do país. o Pará. onde eu conviveria
defini·la como uma madrinha dessa amizade. desse enconlro m esm o com as parteiras. E a i\linnc eslava começando sua
e. por que não. desse livro. incursão pelo Recife. Eu queria descrever um pouquinho nosso
Soraya: Isso mesmo. Foi a Claudia quem nos aprescll1ou. ali no convívio porque é daí que nasce a idéia do livro.
m eio do saguão (Ia reitoria. onde aconleciam as inscrições do
Entrevisladora: Cloro. boa idéia. Com o era esse conuiuio?
even to. as grandes paleslras e a sociabiJida(lc do final de tarde.
r\linne: Eu fui oricnlanda dela na grdduação. i\ Claudia. sabendo Soraya: t\ gente acordava bem cedo.

,
dos m eu s intercsses de pesquisa. que envolve alivismo polítiCo.
feminismo. gênero e familia . achou que seria interessante nós
I, Alinne: Bem mais cedo do que cu goslaria. (Risos).
Soraya: Ê. vcrda(le. Mas corno não tinha canina no quano . a
duas nos conllecermos.
Soraya : E ela accnou em C/leio. r\ gente nunca mais se des·
grudou desde então. (Risos!. Depois do eVento . eu segu i para
,
1
genle levantava com os primeiros raiOS de sol. ,\ geme comia
alguma coisa de café (la manll;;l e. depoiS. descíamos junlas o
r\ltO da Sé. em Olinda. Nem sempre pegávamos o m esmo õni·
bus . porque eu eSTava elnografanc!o uma única ONG e a Alinnc

I
Recife e a i\1inne vollou para casa quc. à época. era em Cam·
pinas. A gente se falava por e·m ai/ ele vez em quando. Nessa eSlava com uma perspectiva m ais ampla. iSlo e. conllecendo
ép oca. ela não lin/la definido onde iria fazer o cam po elela. E eu o universo de ONGs. associaçõcs comlUlilárias . grupos dc mu·
sugeri que ela pensasse em Hecife porque. pelo que eu já tinha lheres cla cicia de. No final cio dia a gente se falava.

14 15
Diário de campo Alinne Boncni e Solayil l'Ieischcr

AJinnc: As vezes. a gemc marcava de se encomrar para almoçar Soraya: Para mim. (oi a primeira vez em que eu compartilhei
também. ~·I as. gerahnenre. o "cafofo" era o pomo ele encontro casa & campo com outra antropó loga . Eu aprendi multo ele
"natural" ao entardecer. antropologia naquelas três semanas nas quais con vivi dia·
riamente com a 1\linne. Nosso cliálogo foi m uito proveitoso.
Entrevis tadora: Com o assim "co/ajo "?
Numa d essas noiTes, eu virei para Line e falei: "l\'!uitas Outras
AJinne: A gente c hamou nosso quartinho assim. (BiSas) . Era antropó logas devem se sentir sozinhas também. você co·
u m quarto ele m adeira pré·fabricada. Devia medir o que. 50· nhece aquele famoso livrO da peggy Gold e?' Eu sei q ue ele e
raya. uns 20 m e tros quadrados? Dois colchõ es no chão. uma datado. m as não há nada parecido nem atualizado n o Brasil.
m esinha redonda com duas cadeiras. um frigabar. lima estante Quem sabe a gente não o rganiza u m livro p ara socializar es·
para as roupas. sapatos e livros. e um banheiro separado por sas dificuldades e aprendizagenS? Quem sabe uma coletânea
uma canina . Não tinha porra. (BisOS). A11. claro. C uma varanda assim ajude outras pesquisad oras a enfrentar o campo me!l1Dr
que d ava pro mar. 1\ coisa mais linda do munelo. AC)10 que. ·equipadas·?" . E a i\linne aceitou o desafio.
b rincando com o nome do livro, posso dizer que estávamos 1\linne: Sim . Ainda mais porque a idéia surgiu num momento
fi sicamente justas. (Hisos) muito particular: eu andava muito interessada numa certa antro-
pologia feminista: super encantada com a leitura de textos como
Enr revi s rador~: Parece bem paradisíaco esse Itlgor onde vocés
o s d e I-Ienric tla Moore c pensando a resp eito da relação entre
moravam. Seró que seus pores neio desconfiariam que vocês
etnografia e gênero.2 São temas que sempre me instigaram e
csrauom mais a rurismo do que o rroba/ho em Oline/o? (Ac/miro
queria muito pensar c d elJater sobre eles. E. justamente n esse
q ue eu solrei Llm olhar irónico nesse m om emo,.
momento. a Soraya veio com essa idéia . Topei na hora. sem peno
Sor<lya: (RiSOS). A gente se perguntou muitas vezes isso . Há sar muito sobre o trabalhão em que implicaria! (RiSOS). E, juntO
um subtexto na Antropologia de que a qualidade elos clados ele disso. estávamos nós duas em meio às nossas experiênCias de
campo é proporc io nal aos sacrific ios que se enfrent<l durante campo. FOi a nossa experiência. ali, intensam ente companilhada.
o m esm o. Isso nem sempre é v erclade. Sim . m orávamos n um que criOlt as poSSibilid<1dcs para a genninaçilo da idéia.
lugar lindo que j ustam en te nos dava um pouco de t(i)nqüilidad e Soraya: E queria reme ter a mais u m ponto aqui. /\ Alinne comen·
emocional depois de longos dias ele Iraballlo. IOU ames como sempre eSlávamos temando m anter os nossos
Alinne: E. além d e p assanllOS 110ras debruçaclas sobre nossos diáriOS ele campo atualizados. Esse livro nilo se relaciona com
lap lOpS velhos. escrevendo nossos d iarios de campo (que. por os diáriOS só po rque fOi pensado entre um e Outro dia relatado
mais que fôssem os disciplinadas. estavam sempre a trasados). em suas páginas. Mas falar do trabalt10 d e campo é falar. ne·
\
aind a passilVamos horas. madrugada adentro. (al"ndo elas cessariamente. de como regiStramos nossos clados e nossa
avenruras e d esventuras das experic n cills de campo. Na real. 1 c irculação pelo campo. É falar ela procluçi:lo e apropriaçáo elos
eSSil troca ele confidências. angÚStias e d cscoberras foi a que diáriOS. Porque. refletir sobre as nossas experiências d e campo
inspirou a idéia elo livro. Geralmente. fazemos pesquisa de for· é re/tomar o diária como nossa principal fonte .
m a muito solitária. vamos e vollamos sozinhas pora o campo .
DepoiS, pens amos e escrevemos sozinhas sobre ele. 1 \'cr Golde. t 070.
2 ver Moorc 2000. I DOO. t 004 C t !.ISS.

16 17
Oi.'irio de ca mpo Alinne Uonelti c Soraya Fleischer

A[[nnc: Enquanto captávamos textos. recebemos váriOS e-mails r\ li nne: Essa pergunra nos fOi feita várias vezes. vê só. Nós
te vamos falar disso (Iaqui a POUCO) . Eu queria ressaltar aqui escrevemos a propOSta do livro e lançamos na Inrerne!. l"vlan·
que mu itas dessas pessoas fizeram essa associação ent re o dam os para nossas redes e conllecidos da área e pedimos
diário e o campo. E acllO relevame enfa tizar o lugar - delicioso que a passassem adiante. Desde o início. o projeto Tem um
e pesadíssimo ao mesmo tempo - que o diário (Ie campo toma quê ensaisTico. Nunca havíamos feito isso antes. cada passo
crn nossas trajc tórias profiSSionais e p essoais. Num e·mai!. urna foi aprenetido na p ráTica. Enfim. era um TeSte. um experimento:
professora escreveu: ~...\ reflexão sobre os diários de campo me Será que muiTas pessoas responderiam? Será que a p ropOSTa
persegue desele m eu doutorado e. corno sabes. tem sido um seduziria muiTa genre? Será que o conreúdo estava claro e reu·
dos eixos funelamemais de m inhas pesquisas e elas que orien - niria textos exatamenre como esperávamos? Não Unhamos a
to". Uma doutoranda de Brasilia desabafou: -Nós. por algum menor idéia do que poderia aconrecer.
molivo que não sei qual ê. ternos varrido essas experiências Soraya : AO Todo. 72 pessoas nos escreveram. Fizeram toclo
para debaixo do tapete. deixando·as relegadas tão someme aos Tipo de p ergunta sobre a idéia do livro. Muitas dessas pergunras
nossos diários de campo". No mesmo semido . um outro colega nos ajudaram a definir melllor o foco do livro. Se. no -cafo fo~.
disse ainda: -Penso que tenho muitas informações preciosas e tivcmos um -primeiro momenTO de diálogo-. com esses e·maUs.
imeressantes nos diáriOS de campo de mestrado e douroraelo Tivemos um ~segundo momento de diálogo-. se posso chamar
e que é um desperdicio guardar isso nas próprias p rateleiras assim. que consolidou. para nós mesmas. o argumento do livro.
para sempre". O livro que. em mu iT OS momentos . deri va de Foi muito inreressanTe conversar com tOdos esscs pares. 1I.·luitas
nossa relação com os cliarios. é uma ten tat iva de levantar esses dessas pessoas. mesmo em curtOS e·mails. nos contaram ele
tapetes. de acessar essas prateleiras. Um livro corno o "Saias- casos ponruais vivielos no campo. A chamada eSlÍmulou que
socializa essa relação que é. convencionalmeme. tão ínt ima. deixassem o silêncio e a solidão das experiênCias de campo.
silenciada e escondicla. Nós aprendemos um bocado sobre as pesquisas de.ssas pes·
Soraya: E não só isso. I-la mcsmo um gênero -diário de campo-o soas e Também aumenrou baSTante nosso leque de comatos e
já com muitas p ublicações. 3 Mas é u ma liTeratura di ferenTe da. nosso conhecimento sobre a aTuai prOdução ant ropológica no
quela sobre o trabalho de campo em si mesmo - eSl<J seria uma Brasi!. E você acertou na mosca . várias foram as pessoas que
relação e uma abordagem de segunda ordem com os diarios escreveram perguntando por que homens não podiam participar:

,
d e cam po. Quer dizer. no nosso livro. 05 Textos re/ tomam os
diáriOS - abordagem com a qual concordamos tOTalmente.

Em revis tadora: Mas por que somel1le antropólogas e. sobre-


I
,1
por que gracluandas e professoras já experien tes não podiam
Submeter TextOS: por que SOCiólogas. psicólogas. arqu itetas.
terapeutas. hiStoriadoras - que já tinham usado o método eTno-
gráfico - não poderiam contar suas hiSTórias de campo. Toelo um
IUclo. jovens?

iI
grupo elc pessoas "excluídas- pelo escopo do livro nos escre·
veu . Quer dizer. ficava claro (para nós. sobreluclo) . que o livro .
ao impor critérios. circunscrevia um universo de candidatas - e
3 Só jXIra alguns exemplos. ver Lévi·Slrauss. 1957; Maybury·Lewis. 1990:
.\l<Jlinowski. J 997 c cardo~o de Oliveira. 2003. i\gra(!ccemos todas as su - não foi fácil lidar com isso. r\pareccram pessoas genuinamenre
gCStões t}ibliográfiC<lS que nos foram enviadil5 durantc a chnmada do livro. in teressadas em conllecer melhor o perfil cio livro. Mas também
cspccia lmcnle cssas do gcncro 'diário de campo". gemHmCn!e indicadas
pelo professor Robcno cardoso de Oliveira. surgiram outras. mais agressivas. que nos acusaram de sexistas.

18 19
Diário de campo Alinne Bonetti e Soraya Fl eischer

do goracionislas. decorporalivislas. Foram lodos esses embaleS essa fonnação. por assim dizer. ~ masculina ·. é experenciada
que nos ajudaram a amadurecer a idéia do livro . e re·significada p or corpos de mull1eres nos embates cotidia·
1\linno: Foram diálogos de cena forma inesperados. mas pro· nos da pesquisa empirica. Enfim . muito eml)Qra amropólogos
fundamente ricos . Acho que um dos m ais surpreendemes foi (corpos sexualmente marcados. homens) vivenciem situações
o diálogo com anlropólogos homens. Foi juSmmenle desse semell1antes (vé. acreditamos que sejam sem elhanTes e não as
diálogo que surgiu a sugestão cle sexismo. Um cOlega nos es· mesmas) de obstáculos e sélias justas em campo. [1a uma dife·
creveu . rnuilo polidamcme. e disse. ~Eu não sou mull1er e sou rença em relação aquelas que antropólogas (corpos sexualmente
antropólogo e lenl10 vivido as mesm as siluaçôes de trabalho marcados. mulheres) exp erimentam. E é sobre as implicações
de campo . Como cenameme não as convencerei do contrário. desTa diferença. na própria reprOduçào da disciplina tal como
vocês acabam de me inspirar para um projeto semelhame com é feita no Brasil. que queremos refletir porque sentimos que há
élmrop ólogos ho menS-. Nós ficamos comemes que ele tenha uma certa invisibilidade acerca dela.
se molivaclo a começar um projeto correlmo . Enquamo alguns Soraya: Pouco se fala disso: é quase como se os antropólogos
nos acusaram ele um cerlo sexismo. outros ainda sugcriram LLm não fossem 110mens e mulllcres. e que essa diferença não ti·
ccnO'csscncialismo no uso que supunham estannos fa zendo de vesse um peso fone p ara a geme. Essa suposta indiferenciação
gcnero . I~ IJcm verdade que. dado o ponto de vism. eSta nossa nos remeTe a um tex to da Miriam Grossi no qual ela se refere
decisC::l o possa ser assim descrim. Primeiro. para fundamenlar· ao "mito do antropólogo assexuado~ e as suas implicações di-
m os a nossa escolha. precisamos te contar sobre a forma como ferenciais de género na diSCiplin a ant ropológica . Esse pomo da
encaramos o gênero. Longe de querermos essencializar c traçar :-"liriam também nos ins tigou a p ensar sobre os impactos clesse
uma corresponclcncia direta enTre homens = t11i:l s(:ulino c mulhe· mito sobre a produção de conllecimcmo na antropologia. 5 Pen·
res ::: fem inino . entendemos gênero como uma forma cle atribuir sarnas m uito. também. n a experiência que a Hu th Ulndes Teve
sentido a detenninadas diferenças. que panem. sobretudo. da quando esteve pesquisando em Salvador. em 1938. 6
imagctica scxual. mas as transcendem . dotando de semiclo as Alinne: I lá uma infinidade de Outros exemplos que nos parecem
mais diversas m anifestações das experiências humanas. como demarcar uma especificidade da experiência de antropólogAS
ensina Marilyn ST rathern . ~ Tais diferenças não sfi.o desprovidas em campo.7 Assim . quisemos dar visi lJilid~lde JUSTam ente para
de valOr. quc variam cnorrnem ente de acordo com uma com · esta especificidade. lX!nsar nas suas implicaçôes para a l\n·
plexa combinação entre COnteXTOS. Situações e sentidos. Em
conseqüênCia. em endem os qu e "as coisas do mundo· lêm . lia I Iropologia. em especial para a f\nTropologia feila no Brasil. e.
sobretudo. co ns truir um espaço dc delJaTe e trocas acerca das

, sua base. um mril) uto relativo ao gênero. Sendo assim. com a


nossa disciplina não poderia deixar de ser diferente. Entendemos
!
!
formas como se têm lidado com essa inegável espeCifiCidade.

Entrevis tadora: E o idéio clejouens. tem (/ ucr com o que. ex(/-


que a Antropologia é eminemem eme masculina. assim como
a cicn cia 1,11com o a conhecemos no Ocidente . o quc se re flelc lamenre?
no tipo ele formação que nós. antropólogos c an trop ólogas.
recel)ernos. Essa consciência nos instiga a pensar em como
5 Ve r Grossi. t902.
13 Ver U1ndes. 19 70 c 19(;7.
•~ Ver SlrmllCnl. 1:)9ú C 1987 7 ver Corri:<l. 2003 .

20 21
Diário de c.lmpo Atinnc Bonctti c Soraya Flcischcr

Soraya: r\ idéia de "jovens" se relaciona com o momenTO na for· livro segundo todas essas demandas. Como o foco do livro é a
mação desSc:"1S amropólogas e não necessariamente com a faixa fomlação em Antropologia no Brasil. aceitamos textOS ele toclas
etária. O importante era um momenTO na carreira. iSto é. ser "jüniOr". aquelas que mantinham alguma relação com sua formação aqui
Nosso inTuitO foi conhecer como uma nova geração tem pensado, no país. Isto é. brasileiras que Tiveram sua formação aqui e al ual-
pratiCado e reinventado o bom e velho traballlo de campo. O livro mente estão eSludando e pesquisanelo no exterior e/oll estrangei-
serviria como um reTratO desse momenTO da Antropologia Brasilei· ras com vínculos institucionais e etnogrãficos aqui no Brasil.
m. Claro que graduandas esTão em fOrTTlação. como alguns e·mails
Soraya: Eu quero retomar um ponto. Várias pessoas escreve·
nos alertaram . i\'l as uma de nossas Ilipó teses é que a partir elos
ram elemonstrando SimpaTia com a proposta do livro . Como eu
CUrSOs d e pós·graduaçào. os/as pesquisadores/as têm a opor- disse antes. algumas não se enquadravam no perfil por serem
tunidaele de mergulhar com basTante intensidade e exclusividade
de oulTas áreas de eSTudo. Eu suponhO que esse interesse foi
na r\ntropologia. na fOrTTla ele pesquisa e escriTa. Há um salto de demonstrado justamente porque elas se recontleceram na nos·
amadurecimento imponante aqui. que quisemos ressaltar. sa proposla pelo impaCTO subjetivo que geralmente se vivencia
durante as pesquisas de campo . mesmo que não -essenCial·
En trcvistaelora : Enrào. parece que vocês esrào me contando de
mente" etnográficas. O "campo" parece ser. também para esses
uórias saias justas que enfrentaram ao organizar o livro.
e essas interlOCUTores/as. uma oportunidade de aprendizado.
Soraya: E.xatamenTe. Desde o começo. enfrentamos as tais -saias sensibilização. superação. r\ exposição - sobretudo pessoal - ao
juslas" que imaginávamos que apareceriam somente depois. mundo concreto dos dados marca os pesquisadores e demanda
nos textos. 1\ 0 definir um escopo tão estreito para as biografias que novos espaços sejam criados para compartilhar e analisar
que estão por trás dos capitulos aqui reunidos . não imagináva- eSTas experiênCias. O interesse elesse públiCO além·?\ntropolo·
mos como teriamos que justificar cada uma elestas condiçóes c gia só d emonstra como a iniciaTiva do livro cumpre com a sua
escoJtlas. (E penso tamlJém se a forma c a quantidade de inter- intenção ele suprir um pouco essa lacuna. Eu espero que esse
vençôes que recebemos também não se relacionam com o fato livro inspire outras iniciativas semeltlanles. Por exemplo. seria
de nós duas sermos juniores. Quer dizer. se uma antropóloga ÓTimo enconTrar uma coletânea de textos sobre as experiências
senior est ivesse propondO esse livro. estes e-mails teriam sido interdisciplinares de/ no campo. sobre as diferentes apropriações
Tão "inquisidores" . tão agressivos por vezes? Esse parêmese é do que seja "campo" e "eTnografia". uma conversa franca entre a
só para lembrar que aprendemos mu ito com o livro.) Antropologia e oUlras áreas. Todas essas inquisições nos fizeram

, Alinne: E não parou só na idade e no sexo. COmO a soraya lemo


brou. apareceram Ou tros casos difíceis: uma antrOpóloga portu·
guesa que eSTava pesquisando em Portugal. uma elOUloranda
pensar e repensar nosso livro . Foi um e ....crcicio m aravilhoso.
Desde o começo e de forma mais intensa do que poderíamos
supor. a iniciativa foi coletivamente conSTruída. vale aqui um
argentina no Brasil e com campo na Espanha . uma chilena que agradecimenro a todas c todos que nos escreveram. apoiaram a
eSTuda no Rio de Janeiro e pesquisa na ArgenTina e Moçambique. idéio. enviaram sugestões e ajudaram a divulgar a chamada ."
uma alemã que realizou seu campo no imcrior de Pemambuco.
Nos escreveram também algumas Ixasileiras que eSTavam estu· 8 Atgumas pessoas eSllVcmm panicularmenle presentes enquanto el<lbor;'l·
dando e pesquisanelo na Inglalerra. E.c;panlla. cabo Verde. Mexico. v<)mos esse livro. ),1<Ircia veiga. t\ngdo I\dami. Gwcco Bonclli c .\Iichad
SwioKto. que nos inspir,uam co m conStall1C cll1usiasmo . ..\qui. goslaría·
Timar LeSTe. Quer dizer. tivemos que refletir sobre os limites do mos ele regiStrar nosso agrartccimCll10 especiat pct,", <lmiwdc C cu idado

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Diário de campo Alinnc Uoncui c Sorolya Flcischcr

1\linne: l\!uita gcmcescreveu para nos parabenizar pela iniciativa. do None. Santa cararina. Rio de Janeiro e S;?o Paulo. t\lém disso.
para dizer que iriam encaminllar a proposta a seus conl1ecielos. de Portugal. Espanha c Inglaterrd. ,\S aUloras eram mesrrandas,
para sugerir nomes de ediToras. para indicar referências biblio. mesrras. dOutorandas. doutoras e pÓs·douloras. Algumas já
gráficas. E. como a Sora}/a lembrou. vários e·m ails louvaram a estavam dando aulas em universidades. OUI r<lS CSlavam Iral)a·
idéia que vinha de encom ro com uma espécie de lacuna sobre Ihando fora da academia. Ê Cllrioso notar que, mesmo com a
as c .... pcriências mais SubjeTivas. metodológicas e conceituais ampla circulação da chamada para o livro c com a manifesração
sobre Trabalhos de campo. Eu m e lembro que uma grdduanda de inreresse de pe.squisadoras (Ie diferentes panes do país. a
em Ciências Sociais nos escreveu : -Realmente esse 'silênclo' maioria dos Textos qlle recebemos veio de centros de formação
Sobre o campo faz com que todos os trabatllos pareçam ser j á tradicionais no Brasil. em especial do sudesTe. do sul e de
fei TOS na tOTal rranqüilidade, na qual as coisas 'broram' naTural. Brasília. o que nos remelc a um quadro bastanre interessante
menre e nêiO Ilá espaço para dúviclas e angúsrias-. Eu gosrei sobre o perfil atual da formação antropológica aqui.
rnuiro desse comenrário dela. Soraya: Depois. t\linne e eu lemos e comenramos lodos os rex·
Soraya: Hecebemos muiras mensagens ele apoio . m as também TOS. FOi uma fase de esforço argurnemativo. critica conStruriva
algumas reclamações. criticas e verdadeiros sacolejos. Fazcr e um genuíno inreresse em dialogar. Dos 28 . selecionamos t 2
um livro nos instruiu como é possivel fazer l\nr rOpologia . Qucr que mais se aproximavam de nossa proposta. Devolvemos ro·
diz.cr, acrediro que no pcríodo de fonnaçâo também eleve haver dos os textos às autoras e pedimos que os revisassem à luz de
espaço para aprender a fazer livros e não só fazer pesquisa c nossos comemários e Sugestões. Elas tiveram mais um rempo
escrever reses. Nós aprendemos muito pouco sol)re como di. para esse segundo esforço sobre o texto . Quanclo relornaram.
vulgar o que produzimos. nós lemos lucia de novo. Aqui. nosso obj elivo era tornar o livro
Alinnc: Ju stamenre porque duranre nossa formação nós nào re. cada vez mélis -redonclinllo-. consistente. bonilo. bom de ler.
cebemos lições claras sobre corno publicar. aqui nesse livro nós :\linnc: Como lU podeS perceber. a organização do livro demandou
aprendemos fa zendo e fi zemos com nossa cara. nosso esrilo. um IraballlO intenso e denso ele nós duas e foi. além da nossa
sem seguir carTilhas. Essa ê a vanragem de sermos juniores c eXI:>cctativa. muito lento. Primeiro. porque cu e Soraya lemos rit·
incaluas. (RiSOS). Por isso. há um cerTO frescor em nosso projeto . mos de TraballlO bem distintos. Eu preciso de mais lempo para ler.
Não cleixa ele ser um olhar da nova safra solJrc o cânone e uma refleTir. escrever. E tu podes imaginar corno essas características
conrribuiçflo na rcelaboração do m esmo. se pOlencializaram em meio ti demanda do trabalho ele campo.

I
SegundO, porque essas clisrintas fases · de leirura e retorno às
, (nrrcvisladoril: vocês disseTCIm que 72 IXSSoas cscreuerClm paro
uocês. E qUClnros textos uocês recebera/ no noflnal c/os contas?
aluaras. também fOrdn1 elemoradas. t\S auroras. por sua vez.
Também esravam em diferentcs momenros das suas trajerÓrias:
• algumas em meio ao campo como nós. ourras em fase de finaU·
I\Jinne: Cllegaram 28. As instiruições. os Tcmas e a form<1çilo das
zaç[lo de reses. aulas, viagens. Havia ainda algumas em processo
auroras foram muito d iversos. Por exemplo. recebemos reXl0S
de deslocai nenro par<) cursar dourorados sancluicllCS fora do pais.
dc Brasília. Rio Granrlc do Sul. P"draí/)a. Pcrnarnbuco. Rio Grancle
Tivemos de lid<:lr com rodas eSS<.ts vicissiludcs, negociar prazos e
adequar as diferentes tcmporalidades dc cada uma. Bem ao gosro
com que I)OS brin(lafarn. • dos imponderávcis que um projClo colelivo como esse rr<)z .
I
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Diário de campo "Iinne Bonetti c Soray,l Fleischcr

Sora}'a: I~. e rem mais uma terceira etapa aí. que I\linne esque· pudesse ser dc alguma forma (uH para encaminhar os textos a
ceu de mencionar: o rempo de negociação com financiadores ourrOS elestinos de publicaçilo .
e editoras que topassem publicar um livro como esse. sem
pessoas de ~ reno me~ assinando o livro. Quase não Ilá ediroras Enrrevismdora: Ellfão. pode·se dizer que essafase de leilllfCI elos
que incent ivem iniciarivas de emprcendedores juniore....:;;, não há textos e dos comcllfários uma da OU/TO fOi o ~/erceiro momento
linhas de financiamen to para pesquisadores em formação. há de diálogo·?
poucos editais para publicação em geral. elc. Alinne; Claro! E é bom lembrar que depOiS Que nos despedimos
no ·cafofo·. eu e Soraya vivemos poucas semanas na mesma
Enlrevis.adora : Ainda uma Oll/ra ques/ão sobre o processo ele
cicia de. Quer elizer. toela essa fase de divulgação da chamada
lei/ura elos /ex/os: vocês duas concorclavom sempre consenso-
de propostas. recepção e leil ura dos textos e diálogo entre nós
a/meme sobre os rexros?
duas. todos os trêS momentos foram feitos à distã,ncia. Ora cu
Soraya: (BiSaS). Essa é uma outra saiajusla: dialogar e discordar estava em Recife e a SoraY' I. aqui em Porto Alegre. preparando
sem que isso resvalasse sobre a nossa amizade. Descobrimos a qualificação cicia. DepOiS. ela foi para o Pará e eu voltei pard cá
que temos estilos diferentes para escrever. analisar. del)3Ier. criticar. para escrever a minha qualificação . Ou então. eu estava em Cam·
Mas . em geral. concordávamos bastante. Eu aprendi m uito nessa pinas e ela cOnlinuava no interior elo Pará. A InterneI e o telefone
intensa conversa com a ,\Iinne. prindpalmente sobre t\mropologia. foram fundatnenlais para geme tocar nossas tarefas. Se por um
cada vez que chegava um teXlo que ela tinha Udo e comentaelo. eu lado. foram os nossos campos que nos aproximaram e criaram
não só aprendia um bocado com a própria autora. mas também condições para o livro brolar. fomm os mesmos campos que nos
com as provocativas intervenções da I\linne sobre ele. E acllo separaram por vários meses c fizeram grande parte do livro ser
que vice·versa. né amiga? Foram meses muito ricos. realizado virtualmcnlc. Um paródoxo existencial. eu diria.
:\ Iinne: CenameOle. Acho que aqui tem ainda outra saia jus ta .
Entr~v iSladora : Muiro imeressal1le: esse liuro sobre o campo foi
Foi uma OpOrtunidade de aprendizado para nós eluas o desalio
de ler e comenlar Irabalhos de colegas que estão em p osições praricamenlc organize/Clo enqua/1/O uoces
duas também e5lauam
muito semelhames às nossas dentro da Ilierarquia acad6mica. em lrabalho de campo.
Quer dizer. geralmente é o/a professor/ a que lê o que um ou Soraya: Exatameme. E para mim isso é muito forte porque oro
uma doutorando/ a escreve. Então. estamos aprendendo como ganizar o livro enquantO se está no campo supre justamente o
formular e comunicar criticas ele forma mais eficieme possível. que nos motivou a começá-lo. iStO é. a solidão do campo. Por
E impOrlanle também foi o exercício da escuta . em lodos os exemplo. lá em i\lclgaço. essa cieladela marajoara na qual eu
momenlOS : responeler aos e·mails queslionadorcs. ter os texlos. fazia meu campo. s6 tinha Imcrnel na prefeitura. E foi lá que eu
debater com a Soraya. compreender as reações (Ias autoras li todos os textos revisados pelas autoras . Enquamo a cidade
aos n ossos comenlários . etc. inteira dorrniél sui), eligamos. sics lQ. eu aproveitaVa o desacelc·
Somya: i\lém clisso . fi zemos questão ele enviar os comcnltlrios rarnenlO do cot idiano lá fora e o ar conelicionado lá elentro ela
taml)ém p ara as 16 au loras que não enlraram no livro. ,\ crccli· prefeitura . Passava cerca ele duas horas lenclo sobre experiências
tamos que essa nossa leitura compromeliela e inlcrcssada l!les ele campo em outros lugares elo mundo. mas eu sempre saía

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Diário de campo Alin ne Banetti e SoraY,l Fleischcr

de lá inspirada para en fremar as m inhas próprias dificuldades no conlato c om os lextos Que a idéia abstrata das saias JUStaS e
de pesquisa. Todas as aUloras e a ,.\linne serviram com o um a jogos de cintura foi tom ando corpo. Foi laml)ém um aprendiza·
espécie de "oráculo" para m im . (RisOS de lodas). do perceber com o as aUloras interpretavam aquela nossa ieléia
inicial de saia j u sta. Sendo assim. OS teXlos foram revelando
Em reviSladora: Daria para inrerpre,or o que Soraya eJisse sobre gratas e inusitadas surpresas. Um a das autoras. a Kelly Crislia·
a sua leitura dos 'ex /os. em m eio ao seu p róprio campo. com o ne da Silva . lem urna passagemjustam cnle sobre isso. Ela diz
um segundo efeilo de descenrramenro - a primeira seria a própria assim. "É impossível. ilusório. ou mesmo. amimetodo!ógico.
experiência ele imerséio e solidão no campo. Is'o poderia ser co· anlecipar ou calcular minuciosam ente a realização de qualqucr
raClerizado com o um jogo ele cintura com o qual o organização pesquisa em antropologia - é preciSO deixar·se caplurar ou 'per·
do liuro lhes muniu em m eio às suas pesqtlisas de cam po. E der-se' pela experiência de cam JXl- c/ ou a firmar. de alllem ão.
quaiS foram as oUlros surprCSQS encomrados nessa lei/um? Quero Que necessariamente algum traço da idenTidaele elo antrop ólogo
dizer. os textos que chegauam correspondiam à expeClOliuo inicial (sua poSição de gênero, raça ou classe. etc.) seria vantajoso ou
sobre as saias jus /as e os jogos de cimura enf remados? desvantaj oso diante da natureza de um determinado objeto. Tal
Soraya : Esse é um p omo b em imeressante. Lem bro dos en· resposta só p ode ser conSTruída etnograficam enle". Co ncorda·
sinam emos de um professor dc graduação quc dizia que não mos plenam enle com isso .
Ilá com o en sinar a fazer cam po : a geme aprenelc fazendo. Na Alinne: Então . quem eSTiver esp erundo enconTrar um m anual
época. cu fiquei muito penurb ada com essa idéia. Para uma com dicas de prOblemas C soluçôes certam ente se frUSTrará. Ê
neófila . recém ingressa na J\mroJXllogia. aquele conselho pare. possível caraclerizar os teXlos como uma meta·elnografia: ou
cia tirar todO meu chão. Só dep oiS eu entendi que a riqueza da sej a. uma narrativa·reflexão sobre diferenles aspecTos do fazer
f\ OIrOpologia parecc ser justam eme o seu calt llcr exp erim ental emográ fico m ais do que simplesm eme um invelllário das vi·
e an esanal. ~'l as não precisamos nos semir lào sozinl1OS. Quer cissiludes e as suas soluções correspondemes . Os teXlOS nos
dizer. ler e conhecer outras experiências de campo nos ajuela ensinam que fazer elnografia é. sobretudo. formular perguntas.
a formar um repertÓrio de p ossíveis e prováveis saias JUSTas e E é a p ar/ir dessas pergumas. claudicanlcs c criaTivas . que se
jogos de cimura. Vdm os para o cam po com essas sugestões. vao ensa iando caminllos. l~ exaTam ente esse processo ele for·
esse legado na forma de histórias ele campo. E Ilá um bocado m ulações conSlames de pergulllas. susciTadas pelas vivências
de coisas j á proelU 7.ielas que lem ajudada muita geole em cam · inesperadas que as pesquisas impõem . que o livro relraTa. É.
po.9 Em visla d isso. queríam os Irocar essas experiências, ver sobretudo. um exercício fOrlem eme reflcxivo. Por essa carac·
como cada lima eSlava lidando com o seu cam po c, com isso . teríSTica. os lexlos são riquíssimos. lfazem inúmeras questões
como m encionam os Ilá pouco. além de irmos afinando a idéia sobre o oficio ela/ do ctnégrafa/ctnógraro. E 11<'1. ainda. uma outra
do p rojeto ao longo do diálogo com os/ as im cressHelos/ as . foi peculiaridade que gostaria de m encionar: nem 10elas as aUl0ras
são cstudiosas clLl lem álica dc gênero. Sendo assim . o liv ro rc·
lram diferentes p OSições e abordagens solJre a relação gênero e
g Na lircra rurl) I)ra:;ildm. Jõ'lllá um laSlro conSI(lcr<'wc l nesse sentido. Apcnus
como sl lgcsrilo iniCiai. ver C<lrdoso. 1986: Gwrnor:tcS. 1900: Silv;:!. 2000 c c lnografia. revelando a im ponàn cia e a necessidade de se Iramr
Velho c KuscIU1lr. 200::1. E. pura algurn..'lS sugcslôt.:s csn<lngclr<ls. vc r R...bi· dessa relaçflo como algo fundamc do fazer OfmopológiCO.
now. 19;7; CCS<lril. r 9M2: SanjCk. 1990: Okcly c C"lllilW:ly. 1992: Allor\';i e
EJ.SOltl. 19i:lM. K!lhek c wrLSO.'{ ]995.

28 29
Di.1rio de cJmpo Alirmc BonCUi e Sor.lyJ Fteischer

Em reviSladOra: Se ncio é um m Clnuol. qual é o com cio liuro? ao COnlrole do Ireinamento antropológiCO . I~Cpetinelo padrões
Soraya: \-amos falar um pouquinho sobrc cada um cios IC>':IOS culturais associados ao feminino. ela se questiona se eSlariam
p ara você Icr uma icléia. i\'las ames . queria dizer um par de as etnógrafas mais susce tíveis aos afclOs e envolv imem os
coisas : reunir [eXIOS sobre IralJa U10 de campo é considerar se. emocionais_ Sem nos brindar objetivamente com uma respos ta.
riamcme a aUlonomia cios dados. o efeilO <lo acaso. o lemo e ela se embrcnha numa renexão SObre o encolllro etnogránco e
manualliming da produção emográfica e, rClomando llm pouco o processo <Ie eSlranhamenlo afirmando que o/ a etnógrafo/ a
a idéia da t\Jinne, os le;..:IOS nos ajudam a formular pcrguntils deve experimemar OLura condição de ser: o que significa não
em relação ao eslar em campo e ao escreVCr sobre ele: nos virar o ou tro. mas experimentar a sua lógica .
pCrgumar COntinuamcme sobre como o nosso campo nos afc. soraya: Esse jogo elllre a familiarizaçâo e o eSfranharnento é
la como 3mropólogas. nos forja como tais. c. ncsse proccsso, lambém a tônica do le:-:lO da Larissa Pelúcio . Ela descreve o
forja lambém a própria pesquisa. Ou seja: rCfleli r sabre com o prOcesso - desejado. mas insuponavelmcme lemo por vezes
fomos recebidas. definidas e m anipuladas semanlicameme em . de "de~ ·es 'ran/lam ento" n o campo e nos Iraz uma discus-
nossos campos cle pesquisa especificas é uma das grancles são fundamental sobre como foi const ruindo o seu lugar d e
COntribuiç6cs dos capílulos aqui reunidos. pesquisadorA j unto ao grupo pesqu isado - Iraveslis quc se
r\linne: E. isso mesmo. O lexlo de carmen Susana Tomquisf prosliluem e homens que se rc lacionam com travestis - ne·
reflele sobrc difercmes saias justas enfremadas no m ovimento gociando os dislinlos marcadores sociais Igên ero. classe.
de humanização do parlo. <lo qual ela era (ou é?) adepla. Den. sexualidade. etc) Que se Iraduzem, segundo ela. nas marcas
tre as inúmeras idéias que o leXIO traz. eu salientaria duas quc do dismnciamenlo entre eles . Nesse processo. ela <lemons-
me parecem funclamelllais: uma delas eSlá relacionada com a tra como foi aprendendo sobre o Que era "estar mulher" ao
sua reflexão acerca dos impactos subje tivos e as saias justas enfrenlar saias juslas de misoginia e lambem de se<lução.
enfrentadas no processo de estranllamentO na construção elo por exemplo. Sendo assim, o alributo que no início da sua
seu objelo ele pesquisa. Jmimamenle ligado com csse primei. pesquisa fora um entrave. passou a ser vamajoso para o es-
ro aspeclo cstá o segundo: uma imponame disCUssão sobre labelecimem o do vinCulo da pesquisa: de uma "est ranha na
como lidar com o tempo ela reflexão acadcmica e as urgcncias rua" para ser urna "am apõ" (iSIO é. "mulher no bajubá. espécie
<Ia mililàncla e a manutenção elas crenças políl icas após ler de giria falada pelas traveslis em todo o Brasil").
passado pelo processo indelével de relativi7..ação. No mesmo t\linne: Na mesma lin/la. no lexlo da iXádia ~·Iejnerz. o foco é a
scmido de questionamento sobre a manutenção das crenças. prOdução de conhecimento anlropológico através da etnografia
embora num Oulro campo. o capitulo de Mónica Dias rela ta a quando o [ema é a sexualidade. EI<l traz uma renexão sobre os
Sua expericncia ao pesquisar i<lcntidade e religiosidade negra difercmes dilemas enfrentados ao pesqu isar um grupo de mu-
em tCrreiros de Umbanda. No seu caso. analisa como o encontro lheres que se rclacionam sexual e afetivameJllc com mulheres.
Ctnográfico prOduziu um choque no seu sistcma cle crenças. !\ aUlora elenca diferenfcs "enrascadas" leórico-metodológicas
cnquanlO pesquisaelora c também como ca tólica. Pasmada enfrentadas na sua pesquisa e as diferentes suspeitas de que
frenle à força com que lhe afefOu a experiência de campo. ela se é alvo quando se estuda esse tema. Por exemplo. m esmo
se pergunta se Ilaveria aí uma Queslão de gênero que fugiria mencionando a exiSfêncii:l do namorado. foi alvo da expectclliva

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Dijrio de campo Atinne Bommi c 5maya Fleischcr

ele eSlar. a qualquer m amemo. "saindo do armário" . Sempre sificador em relação àlao alll ropóloga/o . E. por outro . indica
quc a pergunTa "VOCe é emendidaT ItlC era dirigiela. ~'I einerz como a coleta de daelos e a própria consTnlção da ...\ntropologia
explica que "adOTei cOrno est rarégia p osicionar·me no campo "passam" pelo presença dal a am ropóloga/ o em cam po. colo·
em relaç,jo à o rienTação sexual d e forma não decis iva. Ou cando em xeque o mUo do ant ropólogo assexuado. Ou seja.
sCja. quando interpelada a esse resp eiTo. procurava devolver em que n1eelida ser m ulher aj uda ou alrapalha a inveSTigação
e explorar as queSTões colocadas·. Ela nos mOStra. portamo. quando se pesqu isa entre !10mens. como no caso da Paula c.
que é justameme com base nesses enCOntros em campo que em grande m edida. da Fernanda Noronha. que pesquisa sobre
a r\mropologia se desenvolve. movimenTO Ilip IlOp em São Pau lo.
Soraya: Isso m esmo! E o TeXtO da Nádia nos leva a refletir Tam· t\linne: No seu teXTO. Fernanda renere sobre os problemas ele
bém SObre a pluralidade de sentidos que o papel de eTnógrafa inserção no universo d e pesquisa masculino. e em certa medida
pode gerar. Uma d as pergunras que esses textos nos ensinam a -machis la". advindos do seu lugar de pesquisoelora. Ela relaTa
fazer. de diferentes formas. é sobre se e como esses papéiS csTão que questÕCS raciaiS. de gcnero . geracionais c do que caracleriza
relacionados aos corpos de e Tnógrafas sexualmente marcados como um certo -estilo univerSiTário" fizeram·na redirecion ar as
como mulheres e tamlJém indica como a coleta de daclos e a atenções da pesquisa e impuseram·lhe OUT ros questionamentos
p rópria consTrução da Antropologia "passam" pela p resença da sobre os modelos de masculinidade e feminilidade vigenteS em
antropóloga em campo. E aqui já adenTro no TeXtO de Paula !\"Ia· um gnlpo ele hip Iloppc rs da periferia paulistana. Foram esses
c llado. Ele se cenTrd quase por complclO nas negociações para duplos eSlranhamemos - dela em relação ao g nJPO e do grupo
TransiTar pelos espaços masculinos de uma vila em Porto :\Iegre. em relaçi'lo a ela - que passaram a clar a tõnica da sua intera·
O foco dela era conhecer as representações e práticas sociais ele ção. Compreenclendo o porque era uma "mUlller estrdnha" aos
homens pobres sobre méTodos para eviT ar gravidez ou OS"[.,. olhos dos seus interlocutores II0mcl1S . Fernanda i\:oronha (assim
r\linllc; Eu lembro que Paula. a cerl<l a lTura. diz assim. "O d es" como Paula Machado) p6ele compreender m elllor os códigos
confortO gerado po r minlla presença em lugares maSCulinos que regem ôquele micro·universo. Dc forma semelhante. Andréa
foi ur'rl fo rle indicarivo nào apenas deste contexto segregaló, LObo coloca em perspeclivêi as d \Slin tas posições ql.IC ocupa no
rio. como lambem das elifercmes avaliações que podiam ser seu univcrso d e pesquiSê:t peJra ryaelllor compreen(lc·lo.
auibu íclas às mulheres. entre as quais eu m esma . t ... 1 Tive Soraya: t\ t\ndrca Lobo fez pesquisa em Ca!JO Verde. um pais
que lielar Com algumas p eculiaridades do Tm!)alllO. COn IQ. por marcado pela emigração de seus 11abiTanres. E na ilha onde
exemplo. as !)fincaelciras e as tentalivas dos homens de me ela vivia. Bo;) Vista.. são especialmente as mullleres que v1:"'Io
elesignarem classificações: eu era uma mulher de respeito"? embora. Emào. voce pode imaginar o que (oi urna esr rangeira
Sem·vergonha? Cos(j(la? Sol/ciro? (\juntado? "("ico·rico no !ulJó? c l1cgar onde a regra é as mulllcres part irem?
Essas interlocuçàesjá iam m e mostrando de que fOrrll;;1esses :\linne; Ela nos mosrra como as diferentes posições a qu e era
homens também classificavam as 'Outras' mulheres. ou seja. levada a üssumir em campo (e.g. pesquisadora. m;Ole. mulher.
que clemen ros eram Significativos P;)w tanto" . esposa (Ie cabo·verd iano. cST rangeira) impunham·lhe d is timas
Soraya: Pois é. e aqui há dois aspectos que tendem a apõ1rccer dificuldaeles. UTilizando ·se: ela m eráfora do "j ogo de espelhos".
em muitas pesquisas. Por u m lado. hã sempre um esforço elas· ela dcsvcln LI redescolJCrla de si no diálogo com eli ferenlcs

32 33
Diário de campo Alinnc Bonctti c Soraya Flci;cher

outros. culminando com uma definiçBo do seu lugar naquele abordar a discussflo sobre a conjugalidade em campo. Kelly
contexto como de um ~ser entre dois mundos". Esse complexo confidencia que achou est ratégiCO. em alguns mamemos .
mosaico ele posições reforça a nossa tese de que é fundamental omi tir o fato de ser casada. com o consentimento do próprio
se levar em consideração as questões de gênero inerentes ao marido. também amropólogo.
processo de trabalho de campo. Soraya : Bem lembrado! A presença ele mariclos. namorados e
Soraya: AI1. Outra coisa que considero importante salientar: companlleiros em ca mpo perpassa vários capitulas e é particu-
a questâo da matemiclade. Andréa. Larissa e Patrícia (que larmente imeressante para o foco do livro . vale a pena registrar
comen taremos daqui a POUCO) mencionam como o fato de aqui a imponáncia da reflexão clelcs para o fazer elnográfico
serem m ães e de terem. vez por outra. seus filhos em campo porque remete a questões clássicas de antropólogas em campo.
ou. ao menos. m encionados e semantizados em campo. lt1es sozinhas e mal vistas (como no caso já citado de Ruth Landes).
afetou sua inserçâo e o tipo de dados e posicionamentos que ou casadas e invisibilizadas pelos seus maridos antropólogos
dai derivaram. Eu. pessoalmente. gostaria de ouvir mais (lestas de renome Icomo no caso de Dina Lévi-Strauss). ' o
experiências e aqui fica a sugestão pa ra uma nova coletânea: 1\lin ne: Colocando um pouco de lenha na fogueira: 11á tamlJcm o
como é ser mãe no campo. como é ser mBe na t\ntropologia. caso clássico da Margaret ;vlead. que fez seu trabalho de campo
como os filtlOS ret ra tam suas mães antropólogas e como se na Nova Guiné acompanhada do seu então marido - FOrlune."
relacionam com a intensidaele e rOtina do campo. e tc. E. cla- Eu nem sequer lemlJro do primeiro nome dele! Nesse caso. o
ro. tudo isso para quem é pai também . Com base no modelo menos famoso ou menos ~v i síver foi ele .. (RiSOS)
ocidental e masculino de ciência e ele I\ntropologia. o silêncio soraya : Pois é. são exatamente essas nuances que tornam a
sobre essas questões é previsivel e, justamente por isso. de- questão t"LO instigante. Longe ele dar receitas. váriOS capítulOS
safiador a novas reflexões . disclLlem as v<lmagens e elesvamagens de identificações como
Alinn e: E por falar em desafios. o texto ele KeJ!y da Silva traz uma "he terossexual". ~aj untada·. "casada". "comprOmet ida". -acom-
cOnt ribuiçilo sobre as inter-relações entre tralJalho de campo. panhada". ~sozinha". "avulsa" e tantas OUlras pOSSibilidades afe-
gênero e poder. Ela pesquisou a influencia da ONU na "re-es- tivo-erót icas. E como essas conelições contribuiram ou não para
tflJ1uração~ dos mecanismos cstatais no Timor LeSte e, no seu a coleta de dados. para o tipO de incu rsões e relações que foram
tex to. analisa de que fOrmas os d iferentes traços que a cons- estabelecielas em campo. 1\ Daniela Cordovil. por exemplo. em
tituem como sujeito naquele contexto ~ "multler. casada. nilo· pesquisa no interior do Maranhão. ora esteve acompanhada e
b ranca. brasileira. falame de POrlugues. etc" - influenciaram ora esteve distante do marido antropÓlogo e comenta. "Não
no desenrolar da sua pesquisa e interagiram com os distintos acredito que o faro de estar só em ca mpo seja uma espéCie ele
eixos de poder que conformam o seu campo de invest igação. 'passaporte instantâneo' para adentrar a realidade nativa".
segundo avalia. "se eu não fosse brasileira. multler c não fa· Alinne: E por falar na D<Jniela. eliJ eliscutc. à luz de suas suces-
lasse tétum. m inha rede de contatos demro da estrutura do sivas incursões de pesquisa em Cururupu. i·...1A. uma questão
Estado timorense nâo fluiria com essa relativa facilidade". E sobre o nosso ofício. que mu itas de nós certamente já cnfrcn-
Ilá ainda. nesse texto. uma oUlra reflexão crucia l. já clássica
na I\ntropologia e que nos interessa muito em discu tir: ao 10 ver Corr':a. idem.
t t Ver 1I.lc<l(1. 1988.

34 35
Diário de Cilmpo Alinnc BoncUi c Sorilya Flcischcr

tamos. Ela nos d esafia : "OS problemas teÓricos que perseglli Alinnc: /\ Patricia . ao cont rário cle trazer dados de um trabalho
eram os problemas de meus in fo rrnamcs ou estavam na minlla d e campo j á realizado. nos oferece aquele perlodo do "pré·
cabeça e na de outros pesquisadores que deles se ocu param? ca m po~. em qu e a curiOsldacle e o c!csconfoTlo por um tema
L .. ) t\ final. o ofício do antropólogo não seria. em última instim· d e pesquisa nos levam a querer saber m ais. Há duas idéias
c ia. deixar falar o nat ivoT. Dan iela se inspira nos dilem as se· nesse texto sobrc as quais cu gostaria d e com en tar lambem.
m elllamemen te viviclos por Evans· PritcI1ard. 'l Qller dizer. seu Primeira. a diferença c n lrc a experiên Cia e uma experiênCia. E.
o t)jeto teÓrico só foí construído depois que voltou do campo. segunda. a d iferença entre ()jajal1lc e furisto. São elois 1)locos
j usmmente quando ela llles deu a oponuniclade ele " fala r ~ c d e conceitos que prec isam ser disclll idos . pan icu larmente
"d ialoga r ~ com as leitu ras que tinlla feito . quand o tratamos de traballlo de campo - que envolve tan to
Soraya: O texto d e Diana Õ\tilstein vai ao enCOi)1(O. de cerla forma. expericncias quan to viagens . Além elisso. ela coloca em pers·
à reflex ão d e Daniela. Diana nos mostril como foi aprenelendo pect iVa o que é fazer pesqLlisa n um contexto que l!1C é bastante
sobre o campo ao se abrir para ele. ao a finm a escuta c eleixc;lr familiar de alguma forma . E é exatamente sobre uma queSTão
falar o na tivo. [ la relata com o. em sua pesquisa sobre a relaç[Jo sem elhante que o ICxtO ele Isallel Santana d e Rose nos incita a
em re viela escolar e contex to pOlítico·econômico da Argent ina. pensar: com o lid ar com as tensões e os conflit os advindos ele um
numa cidadezinl1a peno de Buenos A ires. foi confromacla com processo d e investigação no qual interesse pessoal e in teresse
concepções c ris tali zadas nela mesma sobre gênero c geração. antropológiCO se confundem e miSturdm? AO Trazer daelos ela sua
Foram essas criSTalizações que llle impuseram um sentimento expericncia de campo numa comuniclade do Santo Daime. no
ele esgotamento do campo de pesquisa que fizeram·na percc· interior d e Minas Gerais. sendo ela mesma uma c1aimista. lsal)el
Iler. após idas e vindas reflexivas. as crianças da comunidade reflete sollre corno lidar COIll os limites e interdições rituais da
escolar como interlocu tores p rivilegiados . Segunclo relata. foram sua c rença e o processo de estranllamento e relalivização inc·
eles que contribuíram decisivamente pma o s reelirec ionam entos renres ao oficia da Anlropologia. Essas questões se agudi:i'.am.
d a sua investigação. O que me faz lembrar tamlx.:m d o tCXIO nesse caso. quando se inclui a variável d e gênero.
ele P<:llriçia Couto. que se faz pergunlas semelhantes sobre as Soraya: Há uma oulra conseqüênCia dessa relação entre inte-
c ris lalizaçócs ele concepções de gênero em que estamos imo resse pessoal e antropológico que go slaria de ressaltar. porque
plicaelas por sermos sujeiTOS ~da cu ltu ra". Estudando o TuriSI no aparece em muilos elos textos da COletânea. Isal:>el menc iona
na Bal1ia. ela elenca uma sêric de questões muito comuns e que essa conflu ência ele interesses (: comu m no campo de es·
~ rc[)l ávcis~ tdo pon to de vista etnográfico) em rclaçãoa mulheres 'udos da religião. No entanto. Outros textos também lfazem essa
em campo: ~Por que uma mull1er viaja sozinl13. sem amigos mesmi:l preocupação . como. por exemplo . quando tratam de
Ou família se não eSTá trabalhando? E se está lrclbaltlando c é temas que envolvem at ivismo POlíTiCO. Como lidar com as sim·
mull1er. por que escolheu eSTe est ranho oficio? Se est ~1 viajanclO paTias às causas dos grupos pesquisa elos? Quais os limiTes do
sozinha. p or lazer. o que está p rocu rando'! 1'\;;10 p ercebe () p eri· engajamento solicitado aos pesquisadores/as? Como encaixar
go ou gOSta d e le?~. Falar d essas situações 6 admitir como e]",1 s os clescncantam c ntos c reconfi gu rações das nossas crenças
afe l;:l In a Ant ropologia que esmmos p roduzir1(jo. pós-p esquisa'? Bem. esse conjun to de questões - que de certa
forma está contemplado no livro - j;'\ (Iaria um novo livro. Quem
12 Ver Evan s f'rnchaf( t, 1978. sal)e n[lo nos emlx enhélmos nessa nova cmpreiTacla. /\linne?

3G 37
Diârio de campo Alinne BonClli e $ora r a Fleischer

Alinne: Desafio acei /o ! (Risos). Eim. falamos pelos cOIov elos. minha caixa elc m ensagen s unl e·mail intitulado: -exercic io
não? Quase nem /e deixamos falar. .. (Risos). ;" la5 aC/lo que so· delirame- . -Ai. ai. ai. o que fOi que ela inventou agora!-. pensei.
bre o s leXIOS é isso ... (Ambas pensam alio e repelem OS n om es Quando abri o anexo. fiqllei maravilhada. Dando vazão à sua
das auloras. Me apresso em imrodu zir oulra pergunl3 . anles que veia literária . Soraya tinha feito um exercício não delirante. mas
elas m e metrall1em novamenle). super c riativo ao tc mar criar uma Situação ficcional que mime·
tizasse a experiência ele uma jovem an tropóloga em c ampo.
Em rcviSladorCl: Parece ler /icado um conjtm/o ;l1Ieres.sal1lel Mas entrevistando duas antropólogas sobre as suas experiências
é curiOso que na colelâneo nôo se encol1lrc um rexlO de uocês. de campo. 1\ base das perguntas c respostas foram as nossas
Era d e se esperor q tle. dadas as mO/iuações que as Icuarom o conversas. nossas trocas de c·mails. as mensagens que re·
conceber o liuro. uocês quisessem /ombém cOlllor das suas expe· cebemos. Confesso que a minlla primeira reação. quando li o
riên c;c/s c/e campo. Por que nôo escreueram nenhum capi/u/o? rascunho. foi de emoção. Estava registrado ali o inventário. meio
Soraya: PoiS é. essa é uma perguma que nos Icm siclo feita ficCional, meio emográfico. do processo de concepção e produ ·
rCCorrememcme. A idt:ia inicial era essa. a de que lambém pu· ção do livro. E. além de tudo. era divenielo e difereme. segu indo
cl6ssemos compar1illlar um pouco das saias j u SIaS que cada bem de perto o espirilo que nos Icvou a realizar esse projc to.
uma de nós vivenciou nos nossos campos . No c nlanlO. p or um OI)Viamente adorei a idéia. embarquei nela rapidamen te e tudo
lado. organizar um livro a quatro m ãos, à distãncia. em m eio começou novamente. Comentários. mais idéias. mais diálogos
ao nosso lrabalho de campo e 10cla a d emancla no que isso c. enfim. conseguimos finalizar a introdução experimental para o
implicou nos absorveu complClameme. Foram. como j á disse· nosso livro. Um ensaio cm que já não sabemos muilO bem onde
mos. longos m eses de imenso trabalho na produçcio do livro. finda a Antropologia c começa a ficçâo: onde está o retrato do
Por OultO lado. recebemos tamos lexlOS. riCOS e diverso s. que real e as viagens elo imaginado. onde com eça a ieléia d e uma e
consideramos o livro muito bem represemado. AsSim. abrimos termina a opinião da outra . Enfim . uma brincadeira séria com o
mi lo ele u m texto individual ele cada u ma de nós c resolvemos oficio da escri ta emográfica e aquela concepção da c lnogrdfia
Ílwcslir na renexão sobre a própria experiênCia de fazer o livro. com o ficçãO. no semid o alribuido por Clifford Geertz. 13
Fizemos a nossa COntribuição. dessa fomla. com a escrita ela SoraY<.l : All. olha só. a gente trouxe um exemplar do -Saias-
ifllrOC!uçâo inspirada nos moldes do que foi o processo inleiro: para você. Esperamos que lhe seja l ltil! E também esp eramos
a rtesanal. experimental e a qualro mãos. sua reaçi\o. Fizemos uma dedicatória porquc nâo só foi uma
A linne: E foi. novameme, uma experiência e lamo! [Elas trocam super gentileza voce vir conversar com a gente sobre o livro.
olhares d e cumplicidade e caem na gargalhada) . 1\ Idéia ele fazer corno ac reditamos muito na sua p esquisa. t\final. a hiStória da
urna illlrodução um pouco heterodoxa. que refletisse ele maneira Antropologia p assa também pelOS seus quadros em formação.
ludica e ao mesmo tempo inst rutiva o p rocesso de construção e não apcnas pejos seus ctlnones estabelecidos .
cio livro foi da Soraya. Numa das nossas reuniões sol) re o livro. r\ grad eci o presenlC. m eio timidamen te. Não esperava re·
em que discutiamos sobre como construir a introelução. eliJ teve cebê·lo. Disse ·1I1Cs que leria com muita atcnção e curios idade.
uma iel6ia e disse que faria um rascunllo·s urprcsa para depOiS
lral)alh<1rffiOS em c ima. Alguns dias depOiS. eis que su rge em
I 3 Ver Gce r17.. lOS!)

38 39

Dio'irio de campo Alinn c Bonctti c SOlaya Flcischer

Ainda mais d epois da conversa que tivemos. r\ essa allura .


Referências bibliográficas
todas nós j á clcmonslrávamos sinais ete cansaço. Logo em
seguida encerrei a en trevista . agradeccl1clo a disponibilidade f\ LTORKI, Soraya e EL·SOLl-I. Camille r-awzi. (ed .). Nab
das (luas. Passamos a falar ele am enidacles: sobre o cator que women in lhe fie/cI: Sludying Ollr OWtl sociel!) . Syracuse:
àqt,lcla allura já abrandava. os doces maravilllosos da confeitaria s yracllse u n iversil)' PresS. 1988.
c OS riscos que representam à balança e o livro que Alinne lia a CARDOSO. RUlh (arg.l. 1\ auen tura al1lropo/ógica. Teo ria o
m inha chegacla . EnquantO esqu eciamos temporariamen te dos pesquiSa. Rio d e Janeiro: Paz e Terra. 1986.
cllajós em função da nossa conversa. ela m e explicou; "0 am or CARDOSO DE OLIVEIRA Roberto. Os diários e suas margens.
de Pedro p or João' é de um escri tor gaucho e relrala a his tória Brasilia: Editora da UnB. 2003.
cio reencontro de um grupo de aTivis tas pOlíTiCOS gaúcl10s em CESt\IV\ , ~'I anda. Rcjlecrions of a LUomQI1 onrhropo/ogisr: No
mC3C[OS ela década de 70" . Ainda segundo ela, "EsTe é o meu Iliding place. London: Acadcmic Press. 1982.
livro predileto. Heli várias vezes e sempre descubro nele cai· CORRÊA r-,·Iariza. "O csparOll10 de m inha avó. Linhagens
femininas na an tropologia" . In: __ I\nrropólogas &
sas novas. Ac110'O c lnograficamcnle inspirador! vale a p ena!".
o

AnfrOpologia. Belo Horizonle: Hurnanilas/Edilora da


Sugestão regist rada. Só nos d emos coma de que se passara UR\"lG,2003 .
mu ito lempo, quando aquele mesmo segurança com quem me
EVANS·PRITICH/\RD. E. E. Bruxaria. oráculos c magia enrre os
eleparei na porta da confeitaria tinl1a ent rado e caminhava. com ,.\Zande. Hio de Janeiro : zahar. 1978.
um certo ar ele hnpacicncia, por entre as m esas agora vazias
GEERTZ. Clifford. ~Por uma tcoria interpretaliva da cull ura" . In:
d o salão . Ent reolhamo·nos c caímos na risada . n apidamcnlc GEERTZ. Clifford . A inrerprc/oçâo dos CU/IU((/S . Rio d e Janeiro :
pagam os a nossa conta c saímos. Na frent e da confeitaria nos Eclilora Guanabara Koogan, 1989.
d espedimos. trocamos d esejos de sone em nossas atividades GOLOE, Peggy ted.). H'omen in 1/10 field: l \Jl l/lrO/JOlogicol
c cada urna segu iu para u m lado diferente. Depois. peguei o exporiences. Berkeleye LOS Angeles: California Press. 19 70.
ôn ibus que me traria de valia ti minha casa . ela qual escrevo GROSSI. j\·liriam. ~Na busca do 'OUlro' enconlra·se a si
agora esse diário. com tantas idéias sobre a nova gcraçél o d e m esmo". In: Tra/)Cllho d e campo e subjeliuidade. Florianópolis:
antropólogas que transila pelo Rio Cr.lndc d o Sul. Logo come· UFSC. 1992.
ç arei a m inl1a incursão pelo "Saias·. corno o chamam Soraya c GUI).·IARt'ES. Alba z . (org. ). Desuendondo m óscoros sociais .
t\linne. vejamos que surpresas me aguarelam .. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alvez Eelilora. 1990.
KULlCK. Dan c \ VILSON, t-.largaret . 1bboo. fdenrify ond er01ic
5ubjeCliuiry In anrhropologica/ jielclwork London e New York:
/Vinno Bonerri e SOrO!)Cl F/eisc/lcr
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Porto .·\Icgrc . vcr;'o (CS<:<J td~UllC) dc ~OOG .
Lr\..i'''OES, RU111. 1\ cle/oele (los mulheres. Rio de Janeiro: Editora
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40 41
Diário de campo

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a sle teXTO é uma verS<.'1o modificada do primeiro capítulo
ela tese dc DOUTorado POrlO e Poder: / \l1ólise c/o moui·
menro pela humanização do paria no Brasil. ela qual
fizeram pane rrês eTnografias: uma feiTa juntO a dois curSOS d e
capacitaçào de paneiras tradicionais. no interior de Minas Gerais.
TrabC/lho ele campo e lexlo emogrófico nas pesqtlisas
oulra feila em uma Marernidade no Sul do Brasil c . por fim. a Ct·
allfropológicas sobre religiões (ifro·brasileiras. 5;;10 Paulo:
EelJtora da USP. 2000. nografia do movimenro social propriam enTe dito. com destaque
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STRATI-IERi'{ Marilyn . Tlle gcneler Df lhe gif/. Problems w;11l
women ond problems lvi/h socie/y in Me/anesia . Berkeley: d eSTe movimento segue uma Tendência consideraela rCCOrrenre
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awkward relal ionsl1ip: Tl1e case of feminisrn
:::C7:C-:-c-' "I\n em reias. articulando grupos e pessoas no âmbilo loca l, regional
anel amhropolog~' " . Signs Jouf/lol of "vmen in Cllllure aliei C illlernacional. conforme veremos depois.
SOcie/!). 12(2). 1987 .
Nesle capítulo. Trararei das qucsrões ligadas ti subjetivi·
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Jorge Zahar Editor. 2003.
participação no ãmlJilo do movimenlO em nívçl local. o qual.
eloravanlC. cl1amarei ele Grupo Local.

42
Vicissitudes da subjcti\'idadc Carmen SU;'lna Tomquist

Confissões foi no livro -I"\prenda ofozer MouimenTo Eco/ógico- (~·II NC. 19841
que escutci as primciras referências sobre o pano natura!. feito
t\ primeira vez que semi uma p enurbação. no semido eSTriTo de cócoras. Dizia o autor. em 10m quase confessional. mas bus,
do termo. sobre mcu próprio sisTcma de cren ças. fOi quando cando socializar sua experiênCia familiar: min/lo companheiro
uma amiga. vinda de Oulra região do Brasil. observanclo m inha resolueu clor à luz de cócoras. como os indios. Certamente o au-
preocupação exccssiva em fazer urna alimemação natural. Tor conhecia o já fam oso livro sobre Pano Indigena lPACIORi\:IK.
Com entou: -Ló em cosa o geme come qua/qller coisa. somos t982 1. paiS cram pessoas como ele as que se inleressavam pelo
l imO fomJ1io simples. ncio lemos essejeilo naTuralista dos classes assunto (esquerdiStas. ecologiStas. pacifiSTas. mlvcz femini s·
m écJias do sul (cio Brasilj -. Essa fala m c cleixou profundamenTc taS). E. lal qual esses ensinamenTOS . eu dei à luz. alguns anos
iniTada. mas não consegui responder absolulamcme nada diame depois, à minha primeira filha em casa, ele cócoras. com apoio
do impacto perame lal afirmação. Nos m eses que se seguiram. de um m édico ecologista e pessoas amigas. bcm com o. evj·
tal frase não me saía da cabeça c foi, COti.io. que se iniciou o denten1ente. m cu companheiro. O nome do bebe foi escolhiclo
processo de eS tranllamcmo do -familiar -, que acredito scr o cuidadosamente no reperTóriO onomásTiCO alternaTivo e acrediTO
inicio do processo de consTrução elesTe lraballlo. Era a primeira que lenha chancelado. duranTe a pesquisa. minha legitimidade
vez que alguém que cu supunha scr igualo mim proceclia ü um no m ovimemo sacia!. c, mais esp ecificamente. no Grupo Local.
cSlranhamemo sobre meus hábitos vcgeTarianos e o associava NinaI. eu havia seguido uma lrajeTÓria familiar muilO comum.
a um estilo de viela e ao perTencimemo de classe e a uma rcgião. na década de 80. entre j ovens perTenCenTcs a camadas m édias
f\:a sua observação. ficava clara a conSTatação de que CSTCjeilO urbanas, segundo a análise de Tânia Salem (1 983): m igrara de
nQltlral era na verdade conSTruído no COTidiano de um conlexto um grande centro urbano para urna cidade menor. à beira·mm.
social muito especifico (camadas m éclias urbanas do Sul) e que fugindO da poluiÇão e da correria da cidade grancle. em busca
SUSTentar CStc csTilo de vida requeria trabalho e esforço _ mio era de um estilo de vida conllecido como -aITcrnnl1vo·. que incluia
fácil ser naturalisla. Ou sej a, o modo de vida nalural era cons. um conjunl0 ele práTicas c valores naturalistas c contraCull urais.
truiclo culTuralmeme por um deTcmlinado grupo social. Muitos do qual fazia parTe o projelo do casal grávido e elo pano naTural
anos se passardlll e outras siTuações sirnilarcs sllcccleram -se dentro de um universo éTico especifico_ l\"estc COnteXTO. a gravi·
àquela primeira dose ele choquc cultural. Foi necessário realizar dez era fnLTo de ullla esCOl/lO conjugal. e nosso pano era ViSTO
um esforço de simbolizar um proccsso também exislencial. o como urn grande aconlccimento de nossa uida allcmelliua. como
rnomCllIo cslomacal, cunllado por Boberto da Matta (1974) em projeta que consoliclava csm ident idade de farnilia all ernaliva .
seu clássico Texto acerca do trabalho de campo. exercicio raelical Nós tínhamos lido e relido os livros de Fernando Gabcira. 18nl0
de relaTivização de um universo do qual Cu faço parTe, dcscons- Vicia Allemo/iuo. pOSTerior a seu clflSSico O Que é iSto. companllei-
Truinelo subjetividades até então companillladas por mim. CllIre rol. no qual fazia um balanço dos equivocos ela esquerda dos
elas. a forma na /ural de dor a luz. m o tivação que m e levou à anos 60 e sintetizava algumas idéias que vinllam configurando
esco!tla ela TemáTica da humanização do pano ou . com o tratarei algo como uma esquerda altcrnativa (nãO-<'l l.Ll0ritária, pacifis ta.
doravante. neSTC texto. do Pano Humanizado_ ecologism. feminiSta). Assim. embalada por ideologias de mu,
Assim como m uitas pessoas da minlla geração e dc meu danças c ele rupturas com o modo de vida burguês e urbano,
meio. eu era um a a tiviSta eCOlógica e pacifiSTa nos anos 80. c minha opção de viela aproximava·se dos parâmelros que GilberTO

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Vicissitudes d,l subjcti\'iÓJdc Carmen SUSolnJ Tornquist

velho atrill ui aos profissionais de camadas médias cariocas. escriTa. Acrcelito, no enTanTO. que. qLlando estam os envolvidos
valOrizaçào do vanguardismo. da originaliclade e de um certo com nossOS nativOS (daí o abuso do pronome ~ nossoT seja por
aris tocratisrno ligaelo à valOrização da diferença. da transgressào proximidade geográfica, afetiva, pOlitica ou siml)ólica . costuma
e da inovaçào (VELHO. J 998). sen do que estes últim os aspectos acontecer o contrário: queremos , em um determinado momen,
são típiCOS cIo ideáriO inclividualiSta·igualitário. típiCo da geraçào tO, ab andonar o campo, m as . eis que nem sempre eSTe campo
contracultural a qual teve com o desdOIJfam erllo m ais recente _ feito de pessoas de ca rne. osso, idiossincrasias, ha rmoniaS.
O m od o de vida alternativo tSALEM. 1989). Foi assim que p en o expectativas - não nos abandona, Pelo m enos, foi a experiência
sar sobre este universo alternativo - enqu anro. de cerra form a. que vivi em campo, m arcada por sucessivas tenTaTivas de rup '
ainda o vivia - e soll re O pano. foi a um só tempo um projero rura. panicularn1enre com o GfllPO Local. com o qual a relaçãO
acadêmico e um processo existencial. Como estranhar o que me era maiS conrinua e intensa, seguida de sucessivas desistências:
era tão familiar'? Ou mell1or, com o perceber o que neste familiar era com o se, a cada tentativa m inlla de ~abandona r ~ o grupo
estava relacionado a esta escolha. com esra arbitrariedade que para ded icar·m e totalmenTe à tese (O que implicava em tempo
represenra um estilo de vida - sej a por tencl(:ncia SOCiológ ica , cronológiCO e dis tanciam enTo simbólico). eu vacilasse diante das
seja p or opção? Com o relativizar, efetiva c profundam ente. que urgênCias (lo aTiviSmo. nas pautas sempre cheias do Grupo Local
o q ue eu julgava certo pudesse ser apenas (flUO das arbitrarie· e da Rede Nacion al. e diante das quaiS eu não conseguia m e
dades da cultura? Na própria escolha do objeto da pesquisa, eu abs ter. Ora se traTava da organização de um evenTO importante,
m e defrontava com o clássico desafio de estranhar o familiar, ora d~\ realização de urna reunião decisIva para a con solidação
tamo no sentido que lhe atribui Velho ( 1982) como no sen tido ela Lei do t\ comp anhante,' ou aquele necessário m UTirão para
literal: era meu modo de vida familiar que estava sendo, aos despachar certificados dos participanteS do Even to. ou, ainda. a
poucos, problem alizado, fundarnemalíssilna tarefa de formalizar a existência do grupo na
Passo, agora , a desenvolver m ais espeCificam enTe as vicis· Rede Nacional e/ou com o núcleo inslitucional da Universidade,
situde.c; do trallalJlo de campo no que se re fere a esta dimensão e assim sucessivam ente. Tais atividades que, quando eu estava,
e àquela relativa às minhas relações com o m ovimento social m ais rareIe, a uma certa distância. m c pareciam comum à dinâ·
p ela ll umanização do pano, propriameme d ito, faceta militante mica elos m ovimentos, cuja rcm poralidade é feira de urgênCias,
deste e/h os altcrnat ivo. m as quc, quandO ainda estava imerS<'1 nele, m e pareCiam efe·
!ivamentc ímpares e im perdíveis. Além disso, havia um a cena
2 Tensões l1(cl)o compo pressãO de alguns colegas do próprio Gfllpo Local. legitimada
por mim , ele que 1\ Academia era Lima Torre de m arfim . Ou seja,
,\ anTropologia das sociedades urbanO,induSTriais exige o gfllpo, de um lado valorizava o cam po acadêm ico. mas, de
qu e o eSTal)clecimenTo de fronteiras. tênues do ponto de viSTa
geográfico e social. sejam csTabelecidas SimbolicamenTe pela I A primeira mivid<lde do Gnlpo Local foi encaminhar. segUIndo o rienlLlç<1o di)
p essoa que faz a pesquisa, j á que os COnTatos com o universo Rcer!.: N<.Icion,lI, um a ca m pi.lnha pelo etireilO das m ull, ercS l:ScolI,er alguém
pa .... lhes ;1companhi.lr no parlo. [:.Sla allvi,t;:ldc foi assumida pe to GrllpO.
de estudo, e, sobretudo, com as p essoas que transformam os que buscou ••polo de uma depUlad;:l cSlaelua1. processo que rCSllllou na
em nativas. 1150 cessam nunca - desde o insig /1/ inaugurador aprovaç[tO ela lei 12.333/0 2/ eOl Si.lrll:\ Cmariml, c. clepois. de projelo de Ict
reder.!l Slmil;:lr, Lei n . 195/2003. que 'conced e à pilnuricnlc a cscollkl de
do próprio prOjeto até o derradeiro m omenTO de finali zação da um <lcompantJ<lnlc duranle o pfOCCSSO d o pano.·

46 47
Vicissitudes da subjetividade Ca rmen Susan<l Tomquist

outro. rect1açava as temat ivas. ViSTas como indivielualiSTaS . cuito: 'nossos' nativos. nossos temas. nossas questões seguem
daqueles que priorizavam escrever arTigos. diSSerTações . teses vivend o. maneiam mensagens eletrônicas . telefonam. deixam
e livros. viStaS como elesligadas do cotid iano das pessoas. no recados. convidam para reuniões . batem à nossa porta_ QuandO
caso. das mullleres usuárias dos serviços de saúde. as distâncias concretas são mantidas. a dificulelade de manter
E esse argurn emo . no conteXTO de uma sociedade como a alteridade construída simt)olicamente ê muito m aior. NeStaS
a brasileira. na qual grande parte elos pesquisadores eSTá enga· situações. se tlá abandono das relações intersul)jetivas - e elos
jada com projeTos de transforrnaçào social e/ou extensão de laços de reciprOCidade e afetividade - entre antrOpóloga e seus
direitos. Tem um peso por demais significa tivo e n os em pu rra informantes, sal)c·se que se trata de um abandono temporária .
para a desconfortável pOSição de quem Veste uma sa ia extre· Diversamente da análise feita por Crapanzano ( 1985) acerca
mamente justa. AS nossas tentativas ele fuga. exílio temporário da sua relação com Th/1Omi. seu informante principal. destinada
para pensar. escrever e conclu ir nossos trabalt10s acaelcmicos desde o início a uma desp edida. no caso desta pesquisa a mio
são . não raro. contrabalançadas com novos convites . quando nha intençáo não era a do abandono. mas sim . cle suspensão
não convocações. para o ativismo. p articipação. intervenção. temporária das relações, uma vez que m eu projeto pessoal era
posicionam ento. Tais observações não são novas na antropolo· retornar ao m ovimento após a con clusão da tese. particular-
gia brasileira. m arcada por seu compromet im emo com grup os mente ao âm b ito do Grupo Local. e . por conseqüencia. à Rede
elesviantes e marginalizados ela sociedade nacional: a elívida Nacional. dada a forma de atuação em rede do movimento pela
perpé tua que temos com esses grupos. ainda quc nem sem · humanização do pan o. No entanto. esta intenção de retornar ao
p re consubstanciaelos em atores coletivos. parece ser o fator movimenro p OSteriormente ao fim da tese não foi - e creio que
decisivo nas dificu ldades que estabelecemo s com nossos inter· dificilm ente seja - um processo Simples . já que a dinâmica da
locutores m ais imediatos . particularmente es ta relm iva à busca const rução de conhecimento. em geral. e muito mais panicu ·
de consentimento para um afastamento temporário do grupo. larrnente. o processo de estranhamento que a escrita de uma
,\'luito mais do que relações abstratas com idéias de mudança tese antropológica deve gerar. anu ncia uma mudança de olllar.
e de direitos. as relaçôes entre antropólogos e m ovimentos so· m uda nça esta que pode colocar em risco o próprio p roj c to ele
ciais são mui to concretas: os "ativistas" são sujeitOS elc carne rc torno ao campo . neste caso. ao grupo e ao movimento.
e osso. conhecem nossas agendas. e contrapõem a estas as Se de um laelo o p rocesso de estranhamento implica em
urgências da prát ica e as vicissitudes da polít ica. Estamos num um liv re pensClT. no sent ido de que todas as categorias de en·
contexto perrneaelo p ela lógica da recip rOCidade: o trabalho de tendimenro. todas as prá ticas. todas as relações devem ser
campo nos endivida. Precisamos retribuir a dádiva e não somos problematizadas e eStranl1aelas . de ou tro. creio que sabem os.
exatamente nós que detemos o controle de sua tem poraliclade. inconscientemente. que este processo p ode leva r a um não-de·
Pierre Bou rdieu f 19961 assinala estc aspecto (ela duvida sot)re a sejo d e voltar. ou a um deSejO de não·voltar ao lugar de pan ida.
tem poraliclade da contra·dádiva) pecul iar do sistema ele dádiva: Se criam os elinámicas internas de auloconr rolc que evitem este
não há uma temporalidade prevista ou explícita, ela se insinua deslocam ento radical. é elifícil avaliar. m as creio que se trata de
na relação e - por sabermos de nossa dívida - nos sentimos um ponto de tensão funclamen tal a ser problemat izado na nos-
obrigados a retribuí·la em dia e hora im p reviStOS. Nem mesmo ,,1 sa própria formação. r\ Ssim como um viajante: por m ais que
clausura. exigida pelo momento da escrita. rompe com este ciro almeje retornar à su a terra de partida. não voltará ao mesmo

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Vicissitudes dJ sulJietivid.lde Carmen SUSJnJ Tornquist

lugar. tendo em vista a experiênCia de deslocamento subjelivo duçâo e da compreensão lingüística. os envolvimentos a fetivos
da viagem - no caso. da viagem Simbólica que. por dever de e os limiteS do colaboracionismo corn agências de colonização.
ofício. devemos realizar. ~:Iariza Peirano ( (998) sublinha a impor· bem como os seu s conhecidos IC sempre tensos) dilemas éti·
tância do impaCto psíquico que a experiência e a interlocução COSo Hoje, as concepçóes sol)re ciência e olJjetividaele diferem
ele campo trazem ao antropólogo e an tropóloga. j a que esta daquelas ciO contexto e[e Malinowski: seria ingenuidae[e p ensar
envolve sempre - e necessariamentc - rclações intersul)jetivas. que sejam nítidos os limites enl rC os resultados da observação
que devem envolver o antropólogo em sua totalidaele. como direta das afirmações e interpretaçôes cios nativos e as interfe-
dizia Evans·Pritchard (1975). É ncsta rclação intersubjetiva e exis· rências do autor. baseadas em seu bom senso e em seu dis-
tcncial que provoca o impaCto pSíquiCO. prOc[uzido diretamente cernimento psiCOlógiCO. Sabemos que a ciência é também Lun
pelo choque cultural diante da allcridacle - para o qual creio que sistema de crenças. e que os cientistas eSlão também imbuíclos
estamos mais bem preparados - e impactO produzido de forma de categorias de pensamemo e interpretações limit3elas e ciro
mais sutil. m ais demorada. mas igualmente drástica. proc[uzielo cunscritas cul1ura! e hiStoricamente. e. ccrtamell1e. condiciona·
pelo estranhamento de própria universo ciO qual fazemos pane. das pela dimensão de gênero. :\ complcxificação das exigências
No meu caso parlicular. conforme descrevi de forma confessio· propriamente cientificas que foram problcmatizadas nos debaTes
nal no início do te xto. tratava·se de colocar em xeque crenças conremporaneos a partir da crítica da ciCncia iluminista - aquela
arraigadas. suportes de um macio de vcr e cle viver. EstrClnhar o de Malinowski - forçosamente remete aos componentes sub·
familiar é um processo doloroso. pois sal)emos que o descen· jetivos. a fe tivOS e existenciais en volvidos na relação com a ai·
trClmentO do olhar traz mudanças irreversíveis à forma de ver, ou teridade - seja ela dada, seja etn construída. Este é um esforço
seja. o deslocamento que o processo de relativizaçâo perm ite e de 01)jctivaçâo. e se ele envolve o antropólogo que também é
provoca é uma viagem. se bem·sucedida enquanto tal. da qual o autor. é porque o conhecim ento só se objCliva em pessoas
nâo se retoma. jamêlis. ao ponto de partida. cnfal izo tal questâo de cam e e osso situadas em diferentes posições sociológicas.
porque, em funçflo de meu engajamento no movimento. tinha Estas devem scr convidadas ela pesquisa e não incomodas hós·
como fantasma a desconfiança e[e n[IO mais conseguir partiCipar pecles a serem escondidas constrangedoramente num quarlo
do movim ento com a mesma veemência que tinha ames ele sombrio. Neste sentido. a recomendaçilo de Malinowski de que
colocar em perspeCtiva o ideário que o sustentava. o antropólogo dcve expor de forma clara. honesta c sincera a
forma corno foi feiTO o trabalho segu c sendo a principal luz da
3 Velhos conselhos. necessóriQs sojislicoções antropologia qu e leva a sério sua tradição empírica. mas que
incorpora as problemati7..ações contemr>Orâneas trazidas pela
~'laJino\Vski (1986)recomendava que os resuliados da consciencia herm enêutica impoStas nas úhimas décadas. dentre
pesquisa ctl10gráfica sejam apresentados de (onna imparcial ela, o gênero dos p esquisadores e dos nativos, que. como se
e absolutamente t"lonesta. â luz do que ele cllama de "farol da sal)e, tcm feito grane[c diferença em toclas as etapas do tral)ê)·
Sinceridade meTodológica". Desde enTão, a assim chamada boa 1110: deseje a escolha dos lemas e[e pesquisa. passando p elas
antropologia lem seguido estas recomendações. à medida que interaçõcs no trabalho de campo. 816 a própria aCeitaçâo do
procura expor aos leitores as vicissitudes c[o lrClballlO de campo. texfO final pela comunidade aca(!emica. Não me deferei nes·
as dificulelades da inTeração com os nativos. as questões ela IrCl' ses aspectos aqui. m as há urna I) il)!iografia instigante neste

50 51
Vicissitudes da subjetividade Carmen SU5.lna rornqu ist

sentido. e. aos poucos, c omecemos a falar dessas diferenças c os COtidianos. constnlinclo cadci<ts de significação. Esle modo
de observar supõe. como vimos, um investimenro do observa·
e desigualelaeles - referentes aos diversos marcadOres sociais
dor na ;:tnálisc do seu própriO olhar. Para conseguir CSla façanha
dos aruropólogos c antropólogas. ~ sem se perder enfrando pela psicanálise arnadoríslica. é preciso
AS emoções. sempre envolvidas no encontro d o pesquisa· ancoror as relaçôcs l)CSsoais em seus COnlCXIOS e eslurnr as
condiçõcs sociais de produçflo dos discursos. Do elllrcvislador
d or ou d a pesquisadora com seus nativos e/ ou nativas, interes· e do cmrcvislaClo (Ct\HOOSO. 1986 : 103. grifos mcus).
sam à antrOpologia à medida que ulTrapassam sua expliCitação
ao estilo confessional. seja nas conversas de bastidores. que t\ au tora escreve este teXTO no auge da popularidade da
cumprem uma função similar aos escritos no sen tido intimo observação participanlc nas ciências sociais. advertindo para
malinowk$iano. expresso em seu segunc/o diário. seja nas pri· vários riscos que o "encarllamento" com a intersubje tividade
m eiras frases das monografias. como forma d e aliviar o esforço pode acarretar em prejuizo dos objetivos mais amplos das c io
que lal presença eleve acarretar durante todo o trabalho. Essas ências sociais. O risco de cair no que ela cllama de pslcanólise
relações interpessoais não podem ser dcscont e xtuali)'..adas; amadoríSlicC/. em meu traball10. foi real e bastantc tentado r. em
são relações entre SUjeiTOS sociais condicionados (e não. ele· parte. pela p roximidade que a escuta emográfica guarda com
terminadosl pelas formas como foram sociali zados, ainda que o método pSicanalítico. em parte, pela p rópria associação que
este condicionamento esteja longe de s ignificar determinaçito muitos de m eus inforrnantes faziam enlre ant ropologia e psi·
ou reducionismo. Claudia Fonseca ( 1999) alcrla para o bom cologia. ExpliCO mell10r: em algumas Situações. sobretuelo na
uso do método - mesmo quando se trabalha com apenas um etnografia que fiz no hOSpital e nas entrevistas com m édicos. fu i
informante - que deve sempre fazer enquadramentos. ou seja, classificada pelas nativos. paCientes. m édicos. auxiliares. como
analisar as interaçóes e os sujeitOS envolvidos no dittlogo ele PSicóloga. em função de m eu componamento pouco inrcrven·
formu socialmente contextualizada. tivo· raro no meio hospilal . e d e uma postura que chamo aqui
l'\"Ul ll texto dos anos 80. Ruth Cardoso tamb6m alertava de "receptiva- . de ialas. ele desabafos. cle pedidos de favores.
para os risco s de um mau entendimento d o que seriu a assim etc ·, atrib ulO próprio da observação partic ipante. Creio que esta
c hamada valori zação da subjetividade: p ostura. correspondente ao nosso dever de o ficio ant rorx>lógi·
1\ relaçilo inlcrsubjeliva nilo é o enconlro de indiviôuos aUló· co. pouco senTido faz para usuários do serviço de saúde. bem
nomos e aUlo·suficicmes: é uma comunicação simbólica que como boa parte dos pro fissionais que atuam neste ãmbito. dado
supõe e repóe processos hásicos responsáveiS pela çrjaçfto de o lugar de pouca exprcssivid ade que nossa profissão encontra
SignificadOS e de glllpOS. É ncslc encolllro emre pessoas, que
se cstranlmrll c que fazem um movimenlo de ap ro.'l:jm~ç[to. no campo acadêmico c na vicia social em geral. Assim, c reio
que se pode desvendar senlidos ocultos c explidmr relaçócs que a tendência a sermos c lassificados corno meio psicólogos
desconhecidas. :\ prática da pesquisa que procura eSte Ilpo deve·se a uma certa pro.ximiclaele entre o dever de entender a
de con1<lto preciso vnlori Z<l 1<11110 a observação lamo quamo a
paTliclpaçilO. Se a úilima é condição neccssári<l para um contato lógica do pacien te. que carac teri za I)O() parte das orientaçÓes
onde afeto c razão se complc1ilm. ;) primeira forn<;ce a rncclid.. no campo da psicologia. e. mais particu l()rrnente. às correntes
das coisas. Observar é conlar. descrever e siluar os fal OS únicos
psicanalis tas, já que estas se C<:lractc ri zam pela eSCuta arenta
do analisando por parte de seu analista (na clínical. na busca de
:2 Corno. por exempto. o seminal eSlu(lo de ,\ru:lle \Veinn er ( ( 083) c os sua própria lógica p s iqLJica. Eml)ora haja consideráveis pontos
livros orgélnizi)(los por TcrC7.a dct Vatle (l9!)7) c H!IIh Behar (: 1Jellorõlh
Gorclon 1[9951. bastante divergentes entre um oficio e outro . o rechaço a uma 1X)5·

S2 S3
Vicissitudes da subjetividade C.lrnlcn SUS<lna Tornquist

tur...\ valoraTiva da aUeridaele. rcpresemaela tanto pelo analisando conrra as insritu içócs c culluras políticas dominnntes. (:\lvarez
quamo pelos nossos nativos. m e parece ser um pomo comum e/ali. 1999:37. 1
slgnificalivo ao aproximar a escu ta sócio·cultural da escuta p si·
célnalitica. Talvez por esta similaridade. fui conduzida por meus t\ partir desta noção. pensei em reCOrTar m eu ObjeTO de
infom1ames a pensar sobre os pontOS em comum entre eSles pesquisa de forma quase surrealista. lrabalhando com dados
dOis oficios. nâo raro confunelidos pelos naTivos. SCj a cm silua· de tres e t!1ogra fias (unelamcntais: a etnografia de uma instiTuiÇão
ções de cl11rcvista. seja nas conversas infonnais c na observação hospiTalar reconhecida pelo movimento com o -humanizada- . a
p ropriamenle dita. Um a siluação particulam1cme emlJlemálica ell10grafia de dois cursos de capacitação de parteiras diTas Ira·
nestc scnlido cu vivenciei na matemidaelc, onde acompanhava dicionais. feitas por um d os grupos feminiSTas. que faz parte do
um casal cuja mulher estava na primeira fase do trabalho de movimento. e. ainda, a etnografia do movimenlo social inslilucio·
parto. Ela e o marido Irocavam idéias à m eia voZ. o J/1anclo para nal (s eus riTuais, seu COTidiano) com forte ênfa se no que chamo
mim, até que ele m e inquiriu : /\final, o que é que você é mesmo? d e Grupo Local, do qual eu fazia parte. Essas três c rnografias
Pcmurienre. não é, enfermeira. também não (já que eu mostrava eram os ponTOS c tnográficos da pesquisa. mas estavam articu·
minha ignorânCia diante dos procedimenTOS e técnicas.) Médica. lados (em rede ou em leias) enTre si a partir do ideário do Pano
ncio pode ser. fica aqui convers ando com a geme ... DOUloranr.;la . Humanizado. O rcsullaelo foi u m teXTO que busca anicular d ados
IQlnbém /leio... Em vez de pergllnlClr: fico o uvinclo o geme. I \POS/O destas três e tnografias. uma vez que estas funcionam a parTir da
que é psicólogo! (Diário de campo . Julho ele 2000). noção de teias de movimentos, arTiCuladas por vários fios. entre
elas: p essoas. livros. idéias, experiências. instituições.
vários autores, sol)reludo nos anos 90. debateram intensa·
4 I\JcleiCls e rnouimen los
mente o s nuxos e reOuxos elos movimentos sociais. sobreludo
esp ecialmente na t\mérica Latina. procurando desvendar o
Os anTropólogos não esludam as aleleias. m as nas aleleias.
porque destes ciclos. em contexlos que. il principio. 1I1es seriam
conforme sugere Geert z. De certa forma, é isso que dizia i\"lali·
no\vski quanclo recomendava ao anTropólogo que fosse para mais favoráveiS à demOCratização das sociedades laTino·am e·
ricanas. recém ·saídas elas diTacluras m ilitares dos an os 7 0 (la·
sua aventura munido de questôcs e quc fizesse a obselVação
cobi. 1989 e Kriscllke. 1992) . Em que pese a complcxidade do
participante tendo·as sempre em mente. Corno o objeri vo da
debale acerca das causas deSTas dinâm iCilS. certo e que. quem
pesq u isa era compreender o m ovim ento social. suas prátiCas
se dedica a eSludar movimentos e lUTas sociais. se depara com
e seu idcério. minha aldeia é eSTe movimento. objeto nuído c
dinâmiCO po r definição. Daí alguns aUlores falarem em redes a inslabilldade própria destas ações coletivas. t\Jbcrto Mellucci
ou teias ele m ovimentos: (200 I) . tendo p or foco movimentos sociais europeus. considero
que. m csmo n os períodos de renuxo. as idéias e valores dos
(' .S t e~üs d e movimentos abrangem mais do que su as o rgn· m ovimenros estão submersas na viela social. poclendo rcapare·
fl lzaçm:s c seus Illembros arivos. elas incluetlt parlidpantcs
ocasionais de eventos e ações e simp atizanres e colol)Oradorcs cer a qualquer momentO em conjunruras específicas. Tal idéia
de ON ~S, partidos politicos. u niversidades, ou tras inSTITuições foi muito (uH p ara mim , pois permit iu enfremar o drama de vcr
culturêus e convencionalmente poliricas, a Igreja, o Esmero que o Grupo Local - um elos espaços cruciais da p esquisa - passar
lao m cnos parclalmenrc) apóia urn delerminado ObjCTivo do mo·
vimcnto c aju<.la ;) difundir seus discursos e d crnandn s dentro c de um -pico" LI uma "queda". enlre os anos de 200 I C c1e 2003.

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Carmen SUS<lnJ Tornq uist
Vicissitudes da subietividadc

vezes liTeralmente) dos ativistas d o movim ento. In iciahnenle.


ano cm que Cu ia com eçar a escrever. quando j é'r dedicava me·
p relendia trabalhar com emrevistas na perspeCTiva de história
nos lem po e energia ao ariuismo observanre. De ccn a forma. tal
de vida. em locais su pOSlamente m ais adequados para isso.
esvaziamento pOderia ser ú ,il a um necessário dis tanciamemo
m as a dificuldaele ele encontrar 11orários para os c nCOntrOS era
concrelo . d e m inl13 parte. do grupo. m as de Outro. Irazia lemores
grande. e não sem surpresa me vi correndo alrás destas pes o
ligados ao fala clceu tc r "perdida" um dos universos da pesquisa.
soas nos lugares mais IJanais ou mais inesperaelos. em I)usca
Qual o significaelO da fugacidad e d eSle grtlpo? Processo similar
ele respostaS a um conj umo grande d c quesTõcs. Enfi m. em um
- embora mais elrásTico - foi vivido por ~'liri am Grossi em sua
detcrminado mam emo. cheguei à conclusão d e que mais signi ·
pesquisa fciTa entre um grupo feminis la gaúcllo. na d écada de
ficalÍvas vinham sendo as observaçõcs e conversas informais e
80. o qual pralicamentc havia desaparecida quando ela elirigiu·se
m e salisfiz com entrevistas mais po ntuaiS c in formativas. deslo ·
ao grupo com viSTas a desenvolver sua pesq u isa:
cando a m eTOdologia para a observação participante. a parTir d a
É em lama da angt'lslia. experimenlada dUr.JIlICCSI(! primeira se· qual tive acesso às 11istórias de conversão ao Parto Human izado.
mana porque meu objelo não e:"iSlia mais. que cu decidi csludar
por parTe dos <ltjvistas. que foram rcvclGldoras d e um aspecto
o grupo. as mililillllCS e o desfacelamenro do feminismo. Tornada
por um sentimenro de vazio. do "rmdil" . de ilusêncla e de morte, fu ndamental na adesão das pessoas ao movim c lllo .
cu comecei a conSlruir meu objeto tGHOSSl. 1988: 14) . O carálc r mam bembe da minlla pesquisa foi Também v i·
venc iaclo por AJinne Bonelli (2000) em sua pesquisa solJre as
r\pesar dil !aI sensação scr similar. trabal! lci Ic ndo em vis ta p romoloras legais populares d e Porra Alegre. Ela conta que. ao
a p articularielade assinalada acim a dos m ovimenlo s sociais con trário de suas expeclativas in iciais. formuladas a partir ela
e a ções colc livas. Embora muitos desapareçam ao longo do !itcr.;lIura anlropológica desenvolvida corn da<;ses populares. tais
trabalho d e campo . por terem sido infinifOs enqllanro (Iuraram mulhcres quase nunca eram encontrõelas em suas casas. Elas
e assim se con sllluíram em aldeias. para as qu ais o anl ropó· passavam o dia inleiro na rua. sen(!o suas casas o lugar mais
logo ou a antrOpólog<l pQ(le trazer suas questões . Assim Terá improvávcl de e nco ntr~i · l as . r\5 conversas, então. forarn feitas
garanl ido seu va lor epistemológico. É quc o!:> objetos da an o sempre no espaço público . na própria ONG que sediava o TralJa·
Tropologia não são 'os na tivos' de u m 8 tribo ou grupo. m as as 1110 . no salão paroquial. entre asscm)Jléias. lanche e reuniões.
questões que lançamos sobre eSTes. com o. oportunamen Te. 1\ co ndi ç~lo mambembe ela p esquisadora foi vivenc iada c
lembra Paula ~ l onl Cro ( 1998: 75): analisad<t por Carmen Riall I 990) em um COOICXIO bem diferente
Esla rnnneirn cle chamar 'sujeiro e objelo' é um" ilusão, eSIa pola· elo anlc rior. 1\0 pesquisar o u niverso elos jas1Ioocls em algumas
ridade é ruim, porque não exislc objeTO. Os <:lrllropólogos perlS<lm cid ades de vários países. incorporou a prccarie~lde do lem po
sobre problema... qucslões. quandO falamos OT)jCIO pcarcce que ele seus nativos. consumidores ele comid<ls rápidas. ao seu
<!Sle eslá 1ft e ,,<unos até elc. i\:egro l~tO é objeto. índio não <: OOjelo.
mulher não é objclu. movimcmo social não é objelo: os objelos m étodo de pesqu isa. Tenclo ele se adapwr ao s seu s hãbil0S:
da Anrropologia silO qucsrôes c prob!emilS. (grifos meus)
Penso que <'lgir de OUlra fOrm<lleria Significado nüo CSlar ;J allur,l
de c<1]Jmr urna cI,IS principnis caraclerislic<lS ((o objeto (de peso
r\5sim . conlrari<lndo minhas cxpectal ivLlS iniciais . ao invés quisa l: a rllu(Jançil raclicill que csle significnva cm cOl1lpamçojo
de fazer obscrva ç~lo part ic ipan Te em endereços fixos e ent re· "OS espaços prcccdenres, sua mobilidade. a circulaçüo cons·
lame que nde se realizava. o permanenre nOr1l<1disrno de seus
vislas em Territórios doméSTicos. fui obrigada a correr alrás (por
frctllrctlWúon;s ImAL. 1990).

57
56
Vicissitudes da subjetividade Carmen Susanil Tornquist

1\adequação das pesquisadoras aos rilmos e espaços de est rangeira demro de um espaço que desconllecia. emlJora
seus nativos é vista. assim. corno necessária. dados os propó· compartilhasse com osl as usuárioS cle seu significado social.
Sitos da antropologia. constituindo o que Carmen Rial cllamou uma instituição nodal ela modernidade. um lugar de subordina·
de jlãnetie mérlloclologiqlle·. nome adequado para pensar. em ção dos leigos aos saberes e poderes médicos. uma fonle de
pane. a minlla adaptação às Jieleranças do Pano Humanizado. medos. temores. mas também de expectativas . alivio e - caso
Um movimemo social corno o da I'l uman ização do pan o. prata· da malemidade - alegrias.
gonizado por profisSionais da área da saúde. em grande parte AS questôes ligaclas à sulJjetiviclaele nesse espaço tinllam
m édicos. também conta com uma dinâmica acentuada de eles· relações com o evento elo parto propriameme ctito. seu caráter
locamemos que. de alguma forma. eu pude acompanhar nos ritual. sua dimensão c xtraorelinária. sua excepcionalidade. Em-
eVentos. Na observação do Grupo Local de Florianópolis pude bora eu já tivesse cena familiariclaele com Situaç6cs cle parto
perceber o quanto esta dinâmica é comum entre estes protago· - tinha dado à luz a duas crianças e desenvolvido outras pesqui-
nistas - daí a característ ica nômade do trabalho de campo. sas sobre o assunto ameriormente. Mas. como cientista social.
vivi lo do o estranhamento que uma pessoa leiga pode sofrer
5 O lugar da al1lropóloga quando emra num mundo que não é o do seu cotidiano - um
m undo de aventais. máscaras. injeções . tubos. prescriç6es. apa·
Nos espaços do 1vlovimemo (congressos . reuni6es . sociabi- relhos. sangue. Um mundo que convive com as man ifestações
lidades cotidianas). cu era vista como ativista. e a familiaridade de dor. de medo. vergonha e de submissão. mas também que
era maior. mas eu tinha certa clareza. desde o primeiro evemo convive com o alivio. a alegria e o contentamenro. propiciado
do qual participei. das diferenças que separavam meu lugar pelos partos bem-sucedidos. aç6es eSlas que 'se sucede,!, numa
como pesquisadora e das vicissi tudes de atuar numa instãncia temporalidade particular marcada por mudanças súbitas e ra·
parricipativa/militante. Certamente. em muitos momemos. as clicais. da qual o momenro da expulsão do bebê representado
fromeiras emre ativistas c pesquisadora se elissolveram. e não pela sua chegacla ao mundo é o símbolo mais perfeito. Talve z
adiantaram os textos lidos e conselhos recelJidos acerca dos essas fortes emoções tenham prejudicado. a própria p esquisa.
riSCOs da participação observante: o campo pw:aua a minlla pois iniciei o .trabalho. de Caml)O fazendo uma espécie de CI·
clluação a tal pOntO que. diante de algumas iniciativas de não- nografia scluClgem. 3 prestando atenção a todas as coisas sem
participação ativa. eu era incentivada por alguns colegas até estabelecer parâmetros para a observação e ocupando umü
mesmo a liclerar o Grupo Local. chamando reuni6es . estabele· posição liminar. enfre aquela'~lue o[Jserva e aquela que parrici·
cendo contatos entre as pessoas. pa efetivamente do evento. Nesta posição . fu i requisitada com
./tI a observação feita na 1'I'l atemidade teve Outros comor· grande freqüência pelas parturienres e seus acompanllanteS
nos e envolvimentos. Ela foi feita durante um periodo de nove para levar recados a parentes que estavam na sala ele espera.
meses. no qual tive acesso ao Centro ObStétrico do Hospilal.
ao alojamento conjumo. curso para casais grávidas e demais
3 A mCláforél fui sugerida por !'.Iaria I.lJi7..3 Heilt>om. em convcrsa oral. para
espaços comíguos da Matem idilde. Nesle comexto. a alteridade Sulllinllar a primdw cnlrélda em um campo IOlalmcnle desconhecido. c (lian·
estava bem demarcada - cu não era 'médica. nem enfermeira. te do qual. ao invés de eu cunccmrar-me nas questÓCS que arrolara como
eixos da pesquis;:!. deixava·me envotver cmocionatmenlc com parturienlCS
nem parturiente. nem acompanllante: eu ocupava um lugar ele c seus f.Jmiliarcs (Ie fomla e.Kessiva.

58 59
Vicissitudes da subjetividade Carmen SUSJna Tornquist

fazer telefonemas pa r~ am igos e parentes. levando notíCias e poSição que era diferente daquela ocupada pelas enfenneiras.
recados ou. ainda. promovendo pequenos drib les nas regras tam])ern mu tlleres e também ativiStas do Pano Humanizado.
locais. particularmen te relativos à troca de acompanhantcs Ou Cabe ressaltar que o campo da assistên cia ao parto é um campo
ingestêio de líquidos. dribles estes que eram feitos. em Outras até ]loje marcado por forre divisão do traballlo e Ilierarquia entre
ocasiões. por m embros da própria equipe. médicos e enferm eiras. Ilierarquia esta que envolve dimensões
1\las os m aiores dilemas não se colocaram nos espaços de genero (portan to. de poder). de formação (escolaridade). e.
do hospilal. e. sim . no cspaço do Grupo Local. que. p or sua por vezes . de cJasse .~ E. neste contexto. de longa duração e
vez, reunia várias p essoas que trabaltlavam no Hospital. Cabe fone persis tência. mesmo naquele Grupo. eu pOdia perceber
regist rar que a panicipação no Grupo LOCal foi fundarncnta l que - apesar de ser m ulllcr como as enfermei ras . gozava de um
para estreitar meus laços com pessoas que faziam pa rt c de prestígiO maior do que as enfermeiras: mas. ao mesmo tempo.
meu m eio social. transform ando·os em amigos. Entre eles, menor do que os médicos. Tributo este prestígiO ao fato de ser
havia en fermeiras, PSicólogas. médicos. alguns estudantes vis ta c omo antropóloga. Seja nas reuniões. nos telefonemas.
desms áreas. terapeutas corporais. umas mães e algumas ges. nas mensagens elelrõnicas. escutaVa várias vezes variações
tantes que pan icipavam de forma m ais eventua l. O processo sobre as falas que seguem:
de fortalecim ento das relações foi ocorrendo g radualrn Cnte.
mas passava p elo eStabelecimento de vinculos afetivos que Tu podias COI"lS<.'9Jlir o ""Iuseu de All1ropO[ogia poro a gemefo7.er
a (Kdesrra Ió?
transcendiam as ativiclades·fins do Gru po. como. por exemplo. Eu gosro do pouo das llunmnas!1
feStas e encont ros sociais. idas ao cinema. encontros na praia fo,'ós pOdíamos chamar os reus colegas poro debarer com a geme?
e em feiras de anesanato. em shows e bares . Se. no plano do Por que a OCJlfe não fo7. (15 reuniões lá na antropologia?
1\ faurora de um /iuro) é antropóloga rambt."m l !t
m ovimento nac ional. a minha identifi caç~o com as/os dem ais Nós já remos uórias ê.U llrop6logas /la grupo! (Di<írio de Campo.
a tivistas se es tabelecia de urna forma m ais profiSSional. c ra excertos. grifas m eus)
neste plano local que a dimensão afetiva se fazia preseme. Esta
afelividade se anunciava [amo em situações de encan[amcrllo Embora cu fi zesse queslão de sublinhar que cu ainda ni lO
quanto de rivalidade e antagonismo, que envolveram diferen. era antropóloga. m as sim. estudante de antrOpologia . j á que mi·
tes posicionamentos ligaclos a diferenças dc gênero. geração nha formação anterior não era na <'lrea. meus - já então amigos/
e formação profissional. t\ cons trução subjetiva da alteridade as - seguiam m e tratando como antropóloga. Naquela ocasião. a
foi processo p enoso CJL1C levou a uma relLII;J nCia ele minha outra ant ropólogi:l do gnlpo era minha orientilelora. que tam l)énl
pan e en l incorporar ti análise os dois anos ele panicipação participava ele algumas reuniões. e sua participação era motivo
observanle no Grupo Local. espaço que cu preferia reservar de grande orgulho para o gru po. Creio que tal valorização foi si·
para a minha panicipaçilo enquanto cidad;:l. mas que. a cada m ullânea. tamb ém. ao prestígio que vinha aclqllirinelo. no ámbito
dia. Cu passava a ver com olhos mais reflexivos e acaclêmicos, elo movimento nacional te no Gnrpo Local) a importãncia de uma
colOcando o próprio grlJpo em perspec tiva.
Desde o início. cra perCeptivelmente ligada ao lugar e ao
4 Esra longa trajerória de lensões c (bspur;lS no calnJXl d<J assiSlência ao par·
valor que a I\ntropologia tinha para o grupo. que fazia com que 10. bem con!Jt:clda ela tllsrória sod;:ll das mutheres. c u dcscnvol"i num doS
c;,piruIoS (ta lese. fOflcmc mc lnitucllci.'KIa pela sua <'I l ual,(l...dc. expressa
eu . ainda que na condição de mulh er. estivesse em uma OUlra cmrc QUrros ilspt:CIOS. pda própria cTrlCJSl<lfia do grupo (fomQuiSl. 200·11.

60 61
Vicissitudes da subjetividade Carmen Su:.ana Tornquist

antropóloga none-americana. que aclerira ao Parto Humanizado na malc rnidade). c ra vista çom cena desconfiança diant e de
e vinlla partiCipando cada vez mais do movimento. Tratava-se MabcJ. uma panicipanle não·antropóloga do GRIpO Local. bem
cle um a das estucl iosas pioneiras da antropologia do pano. que mais versada nas prátiCas neo-xamãmicas e oSTentando um
escrevera alguns livros queStionando o ritual médico. patriarcal conjunto de diacríticos que. na visão do grupo. compunham o
e intcrvencioniSIa hegemônico na obstetrícia narre-americana. estilo antropológico típico. esperado p elo Grupo: uso de roupas e
Desde o primeiro evemo do qual participei. em 2000 até o ano adereços indianos. colares indígcnas . conhecimento de mantras
de 2004. seu envolvimento com as pessoas cIo movimento e meStres ele espiritualidades allernativas. Devo dizer que eSla
fOi crescendo a tal pOnto que ela to rnou-se. ao longo destes era uma visâo com a qual eu compartilllara. até alguns anos
meses. am iga pessoal dos ativistas de movimento. incluinclo alrás . antes dc aproXimar-me definitivamente da I\mropologia na
algumas das pessoas do Grupo Local. I\ pesar d e sua p rodução universidade. e que corresponele a um imaginário que circula.
acadêmica ser conhecida por algumas lideranças do movimento. pelo menos nos campi universitários. daqueles que cstudam
nenhuma de suas obras Ilavia Sido traduzida para o ponugues: pOVOS nâo ocidentais. 1\ noção de natureza (pano nalural/par-
assim. sua faceta mais conhecida era a de m ili tante. Dotada tO fisiológico/pano humanizado) é o ponto consensual para o
ele uma grande capacidade de comunicação. extremamente movimento. e a I\ntropologia aparece. neSTe contcxto. corno
carismática e gentil. ela lambém era associada ao mundo do sendo a ciencia que estuda os povos menos civilizados . com
xamanismo. no qual tin/la algumas experiências (rituais Wicca. seus COSTumes exóticos. seu maior respeiTO e conllccimemo dos
Santo Daime, Temazcal. etc.). segundo cost umava relatar, Ela instintos e mais p róximos da Natureza. TraIa-se. ponanto. cle uma
era uma das muitas lideranças que. em seus testemunhos. Antropologia a parlir da qual se eSluela a dimensão animal, sei·
falava da conversão à humanização. enfat izando aspecl0S espi- vagem. não-cultivada do ser Ilumano. e então. humanização do
rituais. fazendo coro com as demais narrativas sobre o tema da parto é. solJretudo a sua ·animalização·. uma espéCie de retorno
aclesão . Se. no Grupo Local. ameriormeme. já havia um lugar de a momentos m enos contaminados pela Ciuí/izaçao OddenlO!.
prestigio previa para a /\ntropologia. a p resença desta antropó- Diante deste lugar - certamente de prestígio - da Antropo-
loga. chamada c/e estrela do mouimemo. certamenTe contribu iu logia no GRIPO Local. e da minha d ificu ldade de corresponder
para a reiTeração do personagem antropólogo/a como pessoas plenamente à expectativa cio grupo; acabei assumindo urna
alternativas. adeplos de prátiCas e crenças exóticas. sejam in- postura de timidez. que s6 desapareCia quando havia at ividaeles
dígenas ou orientais ..\:amãs. meSTres orientais. A t\ntrOpologia concretas para serem feitas. como fazer alas de reuniões./olders
é pOuco vista corno um campo de conhecimento. em moldes e textOs. colar carfazes. dar telefonemas, dobrar cert ificados e
académicos. mas antes. corno sinônimo ele xamanismo e eXOTis- encaminhá-los pelo correio. carregar murais. servir água aos
mo. Hiluais. velas. mantras. preces. inccnsos . cantigas. danças. palestrantes. etc. Nestas ocasiões, a aprendiZ de amror>óloga e
respirações e exercícios não·ocidentais seriam nossa cspecia- feminista (Ou tra forma como cra vista pelo grupo. uma vez quc
lidade. dai a mística que envolvia a AntrOpologia em um grupo fazia parte ele um grupo de pesquisa ctiretamcnte vinculado ao
mobilizado pela crítica aos costumes ociclentais. Neste sentido. feminismo e corno eu p rópria gostava de m e aUTo, identifica r.
eu fruSTrava as expeCtativas do grupo. pois pouco entendia d es- partilhando eSTa idemidade com algumas colegas do GrupO).
res riluais ranto quanto eles. Com o sentimcnto desconfortável cedia lugar à ativista disciplinada. muito próxima a uma secreTária
de contrariar expectativas dos nativos mais uma vez (Ial como executiva. Um papel que. segundo alguns relatos recentes de

62 63
• Vi ciss ilud t:'S dJ subjc(iv id<lde Carmen SUs,ln<1 TornquiSl
'i
colegas am ropólogas. como Soraya Flciscllcr (2005) C A ngela das mulheres . e mesmo. "feminismo") Tinlla um semielo muito
S<)cch i (2005) e minha experiência amerior,:; parece ser muito peculiar no Grupo Local. e que não estava relacionaelo ao m eu
comum aos pesquisadores das arcas de cicncias t-Iumanas. ideário fem inisla-iguaJitário. Hcpousava. ames. num feminismo
Mas 'esconder-so' no ativism o ~ que fazia pane da olJscrvação essencialista. que atribuia positividade às larefas femininas sem
panicipame a que cu m e permitia - não eliminava os conllhos. p roblemat izar a divisão sexual do rraballlo - inclusive hospitalar
apenas os colocava em QUl ro plano, Emre 0$ conflitos persis- - e que fazia eco â noçflo de que as mullw res deveriam recuperor
lemes, estava minha dificulda([e em aderir sem criliças é) divisão seus inSlinl05 selvagen s, capazes de Illes elevolver o poeler ele
sexual do traball10 que se instalara no gru po. 501)1'0 11 1(10 a p anir dar a luz c/e f ormo na tural ou humani;t..ada. poder este que JllCS
da organi 7.ação de a riv idades em torno da lei d o t\ cOmpanI13nte. fora confiscado pela m edicina moderna.
que requeria reuniões Com autoridades e CnlrcviSlas na televisão Ali . efc tivamente. estava vivendo a experiência mais radical
(tarefa promamcmc assumida pejos m édicos do grupo) até a d o traballlo antropológiCO: m eus descontroles. m inllas inquic·
confecção de pannCl0S e faixas para a divulgação da referida tudes. minha ansiedade. minhas simpatias. l"\·leus afetos não
lei à população. Ironicamente. após panflc tcar até a cxa u s t ~l o eram. afinal. os pen etras ela pesqu isa. mas sim, os seus mais
num Oito ele Morço extremamente quente n o centro da saúde. esperados convidados . que m e exigiram colocar em prática o s
junto com a grande m aiOria das mulheres cio Gl1.Ip O. enCOntrei lais enquadramentos sociológicos e exercitar o desejável es·
os compa nheiros m édicos sentados em to rno ele fl lmcgantes tranham ento . tcndo em v iSIa . de Lun laelo. provinCias onde os
cafezinhos. em um shopping l)Cm climatizado, ao [aelo ela Uni. significados nos eram comuns e. d e outro . espaços n os quais
vCrsielade. algumas l"loras depois da atividade do Gn..IIJO. Curiosa ficava claro que cu náo era uma pessoa ela área médica. c que
c sintomaticamcnte, elcs sequer haviam agendado a a tividadc. esta área confere sen tidos específicos â antrolJOlogia. ao poder
e p ouco sc intcressaram p elos m eus com entários. a princípiO. feminino. à idéia m esma ele Ilumani zação .
cnrusiasmados acerca do su cesso da arividade de nJél. Não foi Os trabalho s solJre assistência ao parto. 0lJS1Ctrícia c me-
sem semimenro ele indignação que tive que processar o faro que. dicina cla mulher analisam as intrínsecas relaçóes entrc gênero
a m im. no prim eiro momenro. parecia Contraelitório com o cada e ciên cias m édicas. mosl rando o quanto o o Jllélr m éelico mo·
vez m ais UTilizado conceito de empodemmenro el(l5 muI/leres. dem o esteve informaelo IJOr viSÕCs patriarcais. rep rooUloras ela
r ~IO usual na gramática naliva e tão celebrado nos d iscursos dos noção de feminilidade essencialmente histérica. frágil . passiva e
Inê<licos humanizados. i\'a verdade. fui solitária em minha indig . incapaz. con forme m OStram os estudos de Emily Marlin ( 19861.
naç~lo. nflo companil/mda explicitamenTe por (quasel ninguém Tllomas L.aqueur (1992) e Fahiola H/loden (:.W O 1). ent re outras.
do Gn lpo. nem m esmo minhas esbaforidas colegas d e panfle . mostrando a centralidaele do d isçurso m édico na constituiÇão
Tcaçflo Y 1\'lais Tardc. e não sem granele cu sto subje tivo. puele desta imagem elo corpo feminino. e. IJOr conseqü ênCia. dentro
compreender. c feri vamem e. que ral conceilo (cmpoderament o ela tradiçáo esscncia!ista (; cssencializante ela m cdicina m odema.
1\·135. se para m im. 11a"ia uma correlação clar<:l cntrc eSTa 11isTÓ-
5 COnforme a c.~pCri (:ncia de Ana Beaniz Bahia. Cilada Cl ll Fl'<Ill zoni e Tonl(jl llSJ ria (bem conl"lccida d os a tivistas) e a forma de organizaç80 do
U0011) .
gnlpo. esta era apenas a rninllíl concepção particular - nflo a elo
(; 1\'a ve rcl,)ch::. duas cOlnpanhCil'<ls cornp<lnill1<.11'<11l1 comigo. em pane. a sen.
saç:,o ck: cllviS<"\o <lo 1r;11),11110: el'<lm. juslamente. as que esmv()m (i.1ZCnefo GnIPo. Aos pouços, c siml lltaneamemc às minlla'i )citurdS acerca
II"',JIl;)lhos de pCSquiS,l em antropologia c/ou relaçõcs (te g(:n.;:ro.
da l1iSTória da assistência ao parto. percet)ja o quanto o próprio

64 65
• Vrcissitudes da subjctivid.ldc C;umcn Susan,l TornquiSI

Grupo - e larnbém a Rede Nacional - era pane elesla Ili5lória, e. niTiva ou racional. CSTa. d e ~c hocar· se com o Oluro·. mas sim.
como lal. rcprodu7ja a divisão sexual do trabalho em suas fom1aS uma quesTão sut)jeliva que. para poder ser transformacla em
d e o rganização. d e fomla não contraditó ria (embora. para mim. interpretação e inscrida lem enquactrarnento. C.xigc u rn grande
assim parecesse) às noções d e empoderamenlo e d ireitos da esforço. O que passa é que nas relaçócs interpessoais me d e·
mulher que constituem o ideário do Pano Humanizado. parei com fortes emoções e envolvimentos densos. que podem
r\ O m esmo Tempo em que estava familiarizacla com muito ser elaboractos SulJjCtivamente e enquaclrados na análise. mas
do que o grupo fazia c vivia (OS espaços e os fonnatos das que. para isso. exigcm u m enonne esforço de dislanc iarnento
reuniões, as roupas e adereços. o linguajar. os valores. enfim), de nossas próprias categorias de entendim ento.
quanto m ais avançava na leitu ra do Diário . à luz da lircrcllura Entre esses fones sent imentos e densas emoções. o senti·
antropológica e da interlocução com minhas colegas de eslU' m enTa erÓtiCO e/ ou amoroso é um elos que tem sido. ainda que
dos de gênero. cada vez mais me sentia desconfOrTável diante timidamente. abordado por alguns antropólogos e antropólogas.
de s ubentendidos. comentários s ubliminares . piadas. idéias e c hamando atenção para a real possibilidade de encantamento
valores d a m aioria dO grupo. Achava que não podia expliCitar erÓtico com a alTeridade. seja ela dada . seja ela conslruida. Tal
estes desconfortos - muitos deles . levei tempo para compre· siTuação n50 é nova no m élicr. como bem arglJmenta Roque
en cler - senclo que. por vezes. me vi em situações de conflit o Laraia { I 997) ao mostrar como tal preocupação já estava ex·
com alguns d e meus informantes privilegiados. Foi encão que pliciTada no Código de Élica informal. que orientou o Trabalho
passei a problema1izar de forma mais p rofunda essa Situação. dos pioneiros no Brasil. JuntO a outros dois imponantcs itens .
enquanto relação inlersllbjeliva na qual idenlidades e represen· tal código recomt::nda a pOStura d e eviTação d e contato sexual
tações eSlavam emjogo . com os informanTes. o que faz com que pensemos que. efeliva·
Ilclutei. em demasia. a considerar este espaço como sendo mente. a pOSSibilidade ele envolvimenTo amoroso e/ou sexual
um espaço privilegiado da pesquisa. em função das tensões de· com os nativos c/ou nativas taml)ém andou atorm entando as
corrcnccs dos confli tos. da ins tabilidade do grupo e de um cena consciências de nossos anTecessores em Suas expedições em
sentimento de traição ao Grupo. já que vinha colocando em pers· busca da al!c ridacte. O que. no entanto. há de novo . Talvez. nos
p ectiva cenas idéias ccntrais do ideário da humanização c . cada dias aTuais. é que a sul)jetividade - no caso. ligada ti sexualidacle
vez mais. o ~fa nt asma do relomo~ m e rondava. sem tréguas. Se dos envolvidOS no trabalho de campo - não precisa mais ser
eu decidisse ilbrir mão das observações c da p anic ipação nesIC vista como u m incômodo intruso. m as uma convidada a ser
g rupo certamente teria perdido o Qu e Ilavia d e m elhor (e. por analisada. como tão bem sugerem 001"1 Kullik e Margaret Wilson
isso. o mais viscerall d c m eu campo. e lal fato foi densamente I t 995) . Embora eu tenha vivcnciado Situações deste tipo. não
d isculido no grupo d e p esqu isa elo Qual participava. ti época. me deterei neslC momento sobre elas. m as s im. a ou tras. j á
em m inha u nivers idaclc. Eu tambémjil sal)ia. na tcoria. que e ra insinuad as em parágrafos anTeriores: estes senlimcmos menos
no trabalho cal n nossos ~ou tros· mais familiares. no processo e nobres do que o encanto e o desejo. como reclmço. raiva e in ·
estranham ento elo familiar que nos d eparamos com as questões diferença. que. na tri!lla das confissões intimas ele Malinowski.
emoc ionais Que se impõem com veemência. mas dai assum ir vêm a falar do impaCTO psiquico e do envolvimenlo da pessoa
este desafio subjetiva c emoc ionalmenle. era outra coisa. bem qu e pesquisa com seu s informantes e u niverso de eSTudo. Em
diferente. Nilo se traTa. em m eu entender. de uma quest[lO cog· m eu trabalho de campo. vários deSTes sentimenlos ruins se

66 67
Vici~ilUdcs da subjetividade Clrmen SUS<JnJ Tomquist

colocaram no meio do cam inho: raiva e indignação dian te de bem corno na elaboração de uma p rimeira narrativa escrita. que
situações reveladoras do poder medico c da sul)orclinação das é o DiáriO de Campo .......Iiriam Grossi (1992) sugere que façamos
mulllcres. que. em meu entender - e apenas em meu entender. um diário de campo com eluas partes: uma dedicada à escrita
já que as demais ativistas não compartilhavam efet ivamente de de dados m ais descritivos de nossa observação. Outra elestinada
meus sentimentos - entrariam em contradição com o icleáriO d o a u m regiStrO m ais impresSionis ta. mais conectado com a su l)·
movimento. Foi só ao me d istanciar e elaborar. subjetivamen· jetividade elo pesqu isador que merece ser, também. analisa(la.
!e. os semielos do ideário para o Grupo Local. que a at ivista Sem p retender estabelecer uma im possível ruptura raelical ent re
cedeu. enfim - e creio que. definitivamente - à antropóloga. dados objetivos e dados subj etivos . a proposta vem a consa·
A elaboração destes dados emográficos - m arcados pela grar u m espaço imponante na reflexão antropológica acerca elo
subjetividaele - tevc deselobramcn tos teóricos impon an!es no impacto psíquiCO que o trabaltlo de campo nos aporta, e que.
!raballlo como um todo. pois apontaVam. como antcs sugeri. tanto qu anto os dados m ais ~o bj etivos~. é pane do !ral)altlo de
para a reproelução de um conjunto de valores e relações cons· campo. Creio que este singelo conselho metodológico facilita.
titutivos do campo ela assistên cia ao parto em meio hospitalar. efetivam ente. a necessária auto ·análise do antropólogo e de sua
nos quais as noções de natureza fem in ina e superiorielade do subjet ividade, conforme postula o anTropólogo René Lourau.
saber méelico são ressemantizados sem coloca r em cheque reportado po r GrOSSi (2003).
as I)ases do paradigma biomédico. Provavelmente por isso . tlá momentos de inevitável apre ·
ensão e tensão. POiS se trata ele colocar no roe/o um trabalho
6 Consiclerações finois ainda inconclusa . e. em geral. feito quando estamos ainda em
meio à nossa imersão no campo: estas formas de elal)oração
Au to·exorcismo é o termo cuntlado por Da 1"\l1311a (1982) nas qua is a fala e a escrita contril)uíram . fortemente, pelo me·
sobre a tendência contemporãnca d a anrropologia se voltar para nos em meu caso . para apro funelar o p rocesso de eSlran]la·
a nossa própria sociedade. pois o que se elcseja e eles cobrir o mento e alavancar a análise sociológica de todos os nativos.
exótico no que cstá pct rificado dentro de nós pela reificação e ou seja, perceber as pessoas de carne e osso como sujeitos
pelos mecanismos de legitimação. É que o envolvim ento com sociais - inclusive eu m esma.
o 'campo' nào passa apenas pela Observação parlicipante ou. Se. du rante o [rabaUl o de campo. deixar·se envolver. en·
em algumas situações. pela chamada porricipação obseruante tregar. afetar. é u m ponto fundamenTal. há que se retomar o
(DURHN....1. t 986) num sent ido racio nal ou m ental. mas. sobre· traballlo dc tradução elesta experiência de campo. elaborando a
tudo. pelo p rocesso ele deixar·se afetar por ele. como sugere experiência que passou pelo corpo. pela psiquê. pelas emoçõcs .
Jeanne Favret·Saada ( 1988). Nes!e sentido. aje'l citada etnografia pelos sonhos. O fato de termos efetivamente ~mergultl ado- no
selvagem coloc[I·se como uma etapa e. quiÇ<J. uma dimensão campo. inevitavelmente, traz ao nosso inconsciente elementos
permanent e do trabalho anTropológico o qUé.lI . no entanto . deve ricos. instiganteS e mesmo impaCtanTes que povoam inclusive
ser elaborada a partir de procedimen tos ele d istanciamento. que nossos momentos de repouso . fazendo·se p resentes nos so·
envolvem . em meu entender. a const ruçào de uma narrativa oral . nhos. Tal aspecto tem sido alvo de algu ns trabalhos instigantes.
de um lado. nas interlocuções que estabelecemos com colegas e como os que foram compilados por David Young e Gt.TY Caule!
orientadores. nos diversos espélços de troca em que c irculamos. (1994). bem como o já citado trabalho de Jeanne Favrel-Saada

68 69
Vidssitudf.'S da subjetividade Carmen SU5-<lna Tornquist

( 1988) C mostram o quanto o impaCtO psíquico se fez presenTe aproxim a dos im igrantes e Viajantes que. após mudarem de
na subjetividade do anT ropó logo. ele diferenTes maneiras c em endereço (lugar sobretudo Simbólico). vivem permanentemente
diferemcs esferas. particularmenTe nas s iluaçàes em que os em estado de liminaridade, frUlO de um deslocamento contínuo
nalivos sonham e fal am d esles sonllOS insistentemente aos e p erpétuo para o qual devemos nos formar - e nos conform ar.
pesquisadores. Em meu caso particular. produzi várioS sonhos Deste deslocamento cont ínuo e radica l. precisamos seguir
envolvendo alguns ele m eus informantes - notadamente aquele conversando. incorporando as vicissitudes que a consciência
com quem havia estabeJecielo relaçàes mais fones. particular. Ilermenêutica contemporânea colocou em cena. ,\prender o
m enTe m arcadas por sentimenTOS d e indignação. desacordo. e. ofício do antropólogo e da antropóloga foi. para mim. além de
em alguns momenTOs. ele raiva. Os sonllos foram mamemos apreneler a conviver com a errância. p erder ilusôes e seguir
fundamentais na minha auto·análise, a partir da constatação da viajando sem elas.
visceralidade com que me envolvera com os informan tes. parti.
cularmente os do Grupo Local. Neste caso. o plano inconsciente Referências bibliogr6jJcas
manifesto pelos sonhos incentivou ·m e a fazer uma renexão cau.
telosa. seja no plano pessoal da pSicanálisc. 7 SCja no plano da t\LVAREZ. Sonia: DAGNINO. Evelina: ESCOBt\R, t\rturo (org.).
anrropologia. e só puderam ser compreendidos a partir de um Cultura e política nos mouimenros sociais latino·americanos.
Belo Horizonte: Editora da UFi'....IG. 2000.
esforço Significativo de fazer os enquaelramentos sociológicos
lanTO do informante quanTO d e mim própria. BEHt\R . Ruth: GORDON. Del)orah (ed. ). H'omen w titing
w/tures. Berkeley/LOS Angeles/London: Univers ity of
Com o resultado. além do texto final que p retende refinar o California Press . 1995.
e[eba te 501)re. neste caso . um movimento social c sobre o par.
BOUR[)IEU, P. "1....larginalia. Algumas notas adiCionais sol)re
to na contemporaneidade, resta a aquisiçfio de um novo olhar o Dom". Mona Estudos de l \ntrop%gia Social. 2 (2 ). Rio de
- também eSle. mais "re finaeIO". mais "treinad o". para perceber Janeiro: ;-...!useu Nacional. 1996 . p. 7·20.
a a!terielaele naquilo que é familiar. mas. também. nu m a certa BONErn. t\linnc. Entrcfeminis tOs e mulllcristas: uma
dose de desilusão. de p erda de algumas das referências iniciais etnografia sobre Promotoras Legais Populares e novas
que. como citei no início . faziam parte ele m eu próprio cotieliano. configuraçôes dn partiCipação politica feminina popular
em Porto Alegre. Florianópolis: UFSC. 2000. Dissenaçào
O que traz à cena o tem a do risco. levantado ao iníCio: como
(t.,.lestrado em t\ntropolog ia Social). Universidade Federal de
manter a fé em certos ideais . que caracteriza o engaj amento Sanla Catarina. 2000.
político. tendo int roduzido o relativismo no oUlar que constnlí.
BFV\síUt\ . Senado Federal. Lei número 195/2003 . Dispôe
mos por elever de oficio? Neste sentido. acredito que o proces- sobre o direito das mulllercs escolllerem uma pessoa para
so de relativização do que nos é familiar é. efet ivamente. um lhes acompanllar du rante o processo do parto.
processo de descnraizamenlo permanente. Situação que nos c t\FmOso. RUtll. "Aventuras do anTropólogo em campo ou
como escapar elas armadilhas do método". In: Ct\RDOSO.
R (Org). 1\ auenturo ontropológica. Teorio e pesquiSO. Rio d e
7 OUrdJ1lC o p.;riodo da IC-.."'-.:. cu eslilV<I filZCn(loiln;jILsc . morivilda porqucsrôcs Janeiro: Paz e Terra. 1986. 95· 106 .
cxislcnciilis. a principio. não rclilcionadils com il lesC. 0:0 enlilmo. à medidil
que me scnriil profundélrllcme afelilda pelas cmoçõcs em Olmpo. c <lU": elas CR'\PANZANO. Vicent. 1llhami: POrlrair of a Moroccan.
1:k"lSsararn a se manifesl<lr nos sonhos. <lponei eSles sonhos ,10 d iv<1. o quc c llicago: Cllicago UniverSity Press. ! 985.
ccn<lmemc facilllOlI mcu PlOCesSO cle cs lranhilrncl"lIo dos infonllijmes.

70 71
Vicissit udes da su bjetividade Carmen $usana Tornquisl

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Vidssitudcs da subjetividade

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Clt/luml encounrers. QnTáno: Broae!view Press. 1994. Capílulo 2
. ,.
p esquisa lem "mironga": I
1'\
NOlas elnográficas sobre o
fazer einográfico

Mônica Dias

Introdução:
Trajetória paralela - O eu e a pesquisa

ro odo trajeto de pesquisa constitui·se do conhecimento


prévio que possuímos do campo. os adquirielos nele e.
conseqüentemente. as análises que seguem após o cano
tato com o outro. O que parece ser um modelo linear de m étodo
para a produçâo de um conhecimenTo. na verdade é entrecortado
por sobressalTos. idas e vindas, deccpçóes. angústias. desprezo
e surpresas que necessilatn de um mínimo de trcjeito pessoal e
de instrumentos teÓricos·metodológicos que possam viabilizar a
resoluç[JO elo prolJlema : "c o que faço com isso aqui?".
A possibilidade ete reOetir sobre a Ilistória·da·história. antro·
pologia·da·anTropologia. etnografia·cta·etnografia ou de tudo um
pouco em porções reguladas. não como esquema. mas análise
reflexiva . pode nos servir com o Trilha ele pedras na Ooresla que
pensam os ser conlleciela. que é o "nosso campo ". Pensatlclo
que elominava por complclo a eSTrada que caminhava. tive

I )'lIlonga é um rCnllO que signifICa "scgn_


w - nas religiões arro·brasilcu....ts.

74
1\ pesquisa tem "mironga" ,"Iônica Dias

que recuar sob Ull'l3 ameaça imerna de não conseguir finalizar os depoimentOS ou conceitos ingressos ela literatura, a situação
a pesquisa. Havia perdido o cormole. O que are enrão era fácil exprimia novas malizes subjetivaclas pela experiência. Isso Sigo
e simples virou rormenra pessoal. evoluindo a uma crise de nificava basicamenTe a pOSSibilidade de suprimir a idenlidade
iclentidade, rendo o eu e o Outro com fromeiras rênues. exclusiva de pesquisadora e. entender não SOmenle a lógica do
Idenridade e religiosidade negra era o foco ele meu interes· outro. mas exp erimentar tal lógica. Compreendo que a p alavra
se, iniciaclo com as pesquisas para a elisscnação em História na "suprim ir" pOde geràr uma compreensão equivocada. como se
Universidade Fccleral Fluminense. Em busci'l ele 11istórias sobre quisesse m e fazer passar pelo OLuro. mas definitivamente não é
a escrava AnaSTácia. percorri remplos a ela dedicaclos. conheci bem isso. Permiri. sem a intencionalidade corno m étodo, panici·
dcvOlos que falavam dos seus senTimentos fraternais por ela par do CrllOS e das sensaçôes compartilhadas pelos grupos aos
cle um modo quase parenlal. Divenia·m e com a pesquisa. uma quais observei. Na verdade. em meio ao tumuho pessoal. tendo
fonte levava a outra e linha sempre novidades que enriqueciam a que lidar com minha trajetória religiOsa e a posição que eu deveria
mim e ao trabalho, GenQ dia, comentando sobre a pOSSibilidade ocupar naquele espaço. procurei vivt!r O momento sem preten·
de enconTrá·la na Umllanda, um professor amigo elisse que era sões religiOsas de tornar·me um deles ou fazer da experiência um
umbandista. que elenrro de OitO dias tlaveria uma saída de santO e meio de aprencler: apenas deixei acontecer o inesperado.
que o pai de santo daquele terreiro poderia me aJuclar. Na ocasião ,\OS pOucos percebi que meu el/l0s religioso linha sido
fiquei em cstaclo de choque. Enquanto o filho ele sanro rodava no atingido, tr;)nsforrnara·se. era o campo agindo sobre m im . A
salão eu me via criança na sala de catecismo c recordava as de" violência da escrita";! sobre os nmivos parecia piada, sentia que
nominaçõcs sobre aquela religião que se elesconinava aos meus eles atuavam em mim e não vice·versa. Corno lidava com
011105. O senlimenTo era um misto de pavor e aclmiraçào pela informantcs rransilórios. a freqüência nos Icmplos era extrema·
bcJe7..3 cios rrajes e da música que dava vontade de dançar. memc diversa e passagejra, o que falavam fazia um efeito mais
Foi ainda nesse periodo que estive doeme e embora tives· duradouro. Ctl os levava para casa no diário de campo. o que
se percorrielo alguns m(:clicos e feira aquele c,l(amc tenebroso postcriormcme Iransformava meu pensamcmo e as idéias nas
que nos COIOCil num "caixão". a ressonància magnética. não foi quais acrcditava serem as "minhas verdades".
descobena a causa dos su scessivos clesma ios.
Emllora rivesse conStatado que não hav i<:l nenllul11 espíriTO
de escravos. principalmente da escrava r\nastácia naquele local. 2 "mCláfora da violcncia 00 campo Icndc a gerar um debate em 10nJO (!ti
fiz amizade com um pai·de·santo e cornbinamos ele con versar imclVcnçoo d o pesquisador nun"la deICnllln."1da or(lcm. mas o invcrso é
pOI.lCO p-roblemalizado. O pouco dc1)alc a respci,o do fazer anlfOpológico
a
depoiS. Numa das primeiras visitas sua casa eu 1l<:"1SSei mar. cerwado nas exp(:rimcllléIÇÕCS do estudioso Ixxle scr fnuo de UrTh"l escola
ReTornanelo elo desmaio ele informou. isso é teu sanTO! Santo. que necessita aincltl sc afirmar enquanto c\l."f1cia c demons,rar 1Im;1 cena
objelividadc sobre a qUCSlOO observada. E claro que impofl;) I~O S<llJcr
m as que santo? No meu universo de com preensào religiosa da cxpenc;nc,a <.10 pesquisador quando se qucr lornar conheCImento do
resl.ltlado de sua pesquisa. mas acn.:ditQ que é um pa:<:ioso lesoufO potra
figuravam os sanTOS ca!ólicos. m as não era iSso que ele clizia. aquelc quc inicia seu lrabatho saber Que I)QSSlvetllICI1IC a vlvcncia (.Ie ~rt:grias
Conhecia pouco sollre o panlcào afro·brasileiro e era no comaTO e IraumaS são dr.;mas próprios do UllivelSo de pesqursa e que (lIfiCllrnenle
entrdmos e saimos dessa situaç<lo 10li:lrmcrlIc iresos. Es&' é a 11istória ela
com os informantes que conSTatava meu pOuca conllccimenro. escritura. " nossa "(orçil" sotlfe o outro pode rcSidir no falO de que nos
Sal)endo ser /ilha ele Jansã, e não somente de Dona Eny. foi tomamos cspc:ciarislas que sabem mais cois.,s sobre o grupo do que cre
próprio. i'ts vews sendo eonlfid<ldos a j).,rCSIr<tr sohre eres para etes mcs
que mergultlei no que significava ter um samo. !\'Jais elo que rnos. E-'>Sa aU1Ofida(.iC (: disculida por J<lcqucs OCrrida ,2()().1)_

76 77
A pesquisa tem ~ mironlP~ MôniciI Diils

J Eu no cam po e o cam po em mim lugares. pelo loque de tam bores que por ser tão alIO fazia com
que os m édiuns incorporados com suas entidades falassem
Terminaela a disscnação não Ilou ve cOIl\'ersâo. I'\ credilava diretamen!e no ollvido de seu clienle.
que manTint·w mintlas convicções religiosas tradicionais apren. Meu trabaltlo. nessas idas aos lerreiros. consislia em ob·
d idas numa fonnaçfto extrem amel11c Cél1ólica. lapidada pela servar o rltual. à m edida do possível conversar com as pessoas
atuação como catcquisla. m ililantc em paStora is e comunidades sobre o ([lte viam. fazer contatOS parél futuros encontros e Iravar
ec!esiais de base. além de um penüdo semi,intema num conven. Unl diálogo com os prelos·veltlOS. No nlOmcmo exaTO eu senta·
la. Logo ingressei no dOutorado com a in tenção de investigar as va na sua frente e com o cac!cminllo ao lado pergunTava quem
prtllicas devocionais relacionadas à escrava AnastáCia. o foco era era o preto-velho. o que linha feito enquanto -vivo" e como era
o catolicismo popular. i\'las, cada vez que investigava. sobres. o mundo espirilual. Vivi enconlros interessantes e partia de um
saía sua ligação com os prelos·velhos da Umbanda. logo. ficara principio : deixar ser invadida pela crença. não racionalizar nada .
impossível não freqüentar os terreiros. Tratava isso com muila queria ouvir sem interpelações ou ajustes l e6ricos~. Lem brava·
tranqüilidade. aCrediTava que tinha uma cena bagagem. Tradu. me única e exclusivamente de Evans·Pritctlard ( 1978). que entre
zida na experiência anTerior descrita e em leITuras especificas. os Zanele presenciara a consul)Stancializaçào do feitiçO em ma·
Comecei em terreiros em que conhecia os pais·de·santo. essa terial acumulado no figado de pessoas acomelidas por Tal mal. e
proximidade me Tranqüilizava. Em pouco Tcmpo as eTapas do dizia que enquanto tlabilava aquela Iritx> acreditava como eles.
ritual já não callsavam um -esTranhamenTo". esperava ver peso Relatou sua perseguição numa noiTe cscura a uma luz que era
soas griTando no momento de desobcessão Ou algu ém lomado considerada o feiTiço em vias de ellltar na casa de alguém.
por um espírito na assistenda. l Nada me aSSustava. Cenamenle o antropólogo não paniu para a pesquisa de
Procurava nos terreiros um comato com os prelos.velhos. campo pensanclo ou dizendo que não acreditava em loelas
entidade associada aos espíritos de escravos. (\ principio. me. aquelas manifeSTações. Pode até ter passado por momentos
todologicamente buscava realizar uma hisI6ria oral. através de em que imaginava como pocllam crer em alguém que nascia
entrevis tas com as entidades. Com m édiuns incorporados prüO..t. feiticeiro, mas isso pouco importava para o resultado final. "'l inha
rava resgarar Ilistórias de vida daqueles que eram considerados imenção definitivamente não era verificar a veraciclade de relatos
espíritos de escravos. 4 Esse enconTro OCOrria num m omentO e incorporações. Mio andava com um al!lnete na bolsa para
elo ritual em que as entidades davam consul tas. recebiam as testar o grau de lucidez do transe. porém os espíritOS passaram
pessoas que se cncomravam na assistência pc"lril conversas a fazer pane de m inha vida. t\credilavC) nos relatOS. Inclusive
individuais. numa retação de proxim idade favorecida. em alguns chorei num depoimenlo em que Pai An tônio. era esse o nome
da enlidade. relatava sua vida. $Cus amores e alegrias. O tom
que o médium imprimia era desconcertante. emocionado e
3 ASS1Sté~Cla ê o nome llSildo pata denominar tanlO o tocai no qual ~cam
com trejeil0S de idoso quandO relembra o seu passado. num
os freqllcntadotes dt.: uma cõSa de umbanda. ger".11rnente orgunizaelo com
bancos c caeleiras. c I<lmlX:1ll SUil posição no rl tuat : -futano" ê da assiSte!!.
C~<C. ali seja. n:'o é mélhum ou cambono. n:'o tom ca rgo no rirual. EsS<l
dlSPOSiç:'lO se asscrnclt"k' a utnil pt.m':la. 5 MaiS uma vez a lCTltativa dc IIDo·inlcrfen::Tlcia. como se minfla vatotaÇtlo pu·
" ~sc modo de <lglr em ~ampo :evcLava il innuência da mlnh.a formaçflo de desse ahCl"ilr aqllcL;j "reiltidade" . Tl..'nho a corwlCç<lo dc QUC derlnitivamente
hlSronaclora. SObrcvatOtl7.ava a Iffi!X)nância do IcglStro -dirclo'. -cte dlS.SC e t"k"'lo expcrimerllaria 05 delírios líricos. [lOélicos c mesmo rlSicos que tivc se
não cu'. posturil illlcraela no ctccorrcr da pesquiS<!o aglSSt.: conStantt."!I"lCIlIC opcrondo somentc na l6gic~ cartcsiana.

78 79
A pesquisa tem Mmirong.l" Mõnica Di<ls

loque especial de nosTalgia. além de mover um esforço para Cerlo d ia, na dma fcsliva dedicada ao prclo·velllo. dia 13
relembrar de falOS. Cll0rando ou rindo. passei. aos POUCOS. de m aio de 2004, lemei con versar com um preTo·velho que
dC(XliS de inúmeras crises com o oficio. a não queslJonar esse se negava a falar comigo . t\ única infonnaçào que linha me
en volvimento em ocional . passado é que fora capalaz nOUlra encarnação e que era 50·
PraTicamenTe havia centralizado minhas p esquisas num Icr. menlc isso que cu podia salJer naquele momemo . No emanlo.
reiro chamado Tenda Nossa Senhora da Picclacle. aUlo inTilulacla na festividade linlla a cen eza de que ele não iria negar a con·
primeira casa de Umbanda do Brasil. Consideram ·se "Umbanda versa. mas fui surpreenelida no m eu conlrole 10131ela siluação:
branca". que significa não IrabaJllar com o m al. que par sua de dominante passei a dominada e dessa forma para a pior
vez Significa não erabalhar com exu 6 . Man Tém esse a faSTamen TO sensação já sofrida. duvidei da minha capaCidade analilica. da
m esmo após IcmêtTivas de desvincular cxu d e uma figura m a. m inha " nculra l idade~ . O m edo tomou conta e m e paralisou.
lévola. associação criada a partir da experiência cOlonizadora segue pane do relato do m cu diário ele campo:7
crisTã com os povos 'africanos': Algu ns umbandisms reforçam
o ritual feSTivo inicio u logo com a descida de várioS c.'l:US. o que
esse padrão . OUlras. numa apro ximação cris Tã·kardeCisTa. os n[IO 6 perrnilicl o p cln casa . cnlão c ra uma co nfusão só. m 6diuns
apresentam como "irmãos que precisam de ajucla" c aqueles Tombando. Olm os Tc m anerO corllrolar a slluação. Uma d as incor·
que SEIO considerados exus pr8licanTes cIo bem cl1amam cle poraçôes c ró:! horrív et. o m éelium. Álvaro$ se COntorcia no chão
c dona zilrnéia lencava conversar. pediiJ parTI sair. para não ma·
"exus criseãos" em OPOSiÇão ao Mexu pagilo~. Na lenda Nossa chucar o ~cav"lo". e ele g ri lava que não. que n ão ia sair. Fiquei
Senhora da Piedade, aquela que não Iraba.Jllava. com o "ma]" . m u iTO tensa. Acho que meu roSTO mmbém estav a c ontorcido
fiquei por aproximadamenlc dois anos. sen Tindo 'me segu ra pela poSSCSS{\ü do m edo. "'aquele d ia. reinaugu rava na casa o
s is tcma d c d iSTribu ição de senhas para fal<:lr com as en tidades.
numa 'umbanda branca'. e com receio cle cktr Ou eras passos. de eu j á sab ia com qual queria conversar, pai J050 do Congo . pois
enfrentar o p erigo de colocar os pês nouTros lu gares. cirCUlação n um a ourra sessão Tinha d iTO que Teria sido u ni feilo r nOUTra
encarnação. Estava ansioSil p<:lril saber quais seri óllll as novida'
p erigosa scgunclo m eus informanres. Havia feil0 a escolha que
d es. pois a m aior freqüencia elos relaTOS era o lugm comum: ~a i.
me Iranquilizava e ali m e acomodei. m in lm fHh<:l. sofri muiTO .. . ". :\cllO que avaliei fllUi lO m al qucrer
falm com de rlôquelc d ia. O :\Ivaro. médium dcsle preto·velllo
lin llô s ido ir lvadido por cxus e eu já csmva m e sentindo mal.
6 Exu é uma en1i<l<tClc t>aslilmc polcmica. C<1n(!ombtecls1õ1S que se I(!eruificam Cornp[etamenle envolvida. fiquei ainda pensando depois na
com <l ri<ldiçao afric'U1a dizem que ele é un i OrL'l:á elo caminho. respon~K;vet energia ruim que eslava no lugar e como d evia Ter m e afas tado
pela enrrCg;J d.lS o(crencla." ;lOS ourros Orixás. S<lriSfeito. pode beneficÍ<lr o d e Álvaro naquele momen to. pois ele cstari ü "carregado" . Mes·
supliGlnte; do COIlIráoo. pode armJ:IilItIá·Io. Há C'<lf"ldornb tccista,,, que trabalham mo assim . preocupada. fui ser alend ida. fl'lt:u número era o dois
com exus ick:nlirlCanclo·os com escravos das cnrid..')(Ies rcspons..'Wcis por
(para ser m ais p recisa. ele só Tinha lrês consulemos enquan ro o
realizar. por exempto, Iro.lhalhos de punição aos rllhOS·(Ie·santo. l"esre caso
me par~e que wili zam espíritOS denominados -Irevosos- ou de -pouca luz- Pai Benedito Tinha doze e depois de mim ele nilo quis aTender
~)()ffi" mclos -eguns'. ou seja. um espíriro ele alguém que morreu em opo- mais n in guém ). Cheguei faland o informalrn ell1c. aTrapalhada
slç~o .a urna (Ofça d? l'k'tufe?.:'l . f"a umband..' os CXIIS. fêmeas (llOmb..'lS-girdS com o riTu al de apresentação: encos ta o mbro no ombro ou beija
de IIlumcms CSp(-cI(.'S1c maChos Icom varia<k'lS denomlrmçÕCS. como por
exempto -TranC<l Hu,n. $<"10 considerados espírilOS com -pouca luz- ou dc
-tuz-. que po<lem (<:I zer o bem e o nml de <lcordo com o 1)C(linre. 1\lgumas 7 Maio de 200" . 1\ nom renetc ",quele momenlo sem reflexõcs. m<.lS minha
casas <lfinnurn que seus cxus ntlo praricam o mal.llOL<; s..;"Io lodos 'lxuiuKlos-. lx::rcepçJo tJ<.ISe;I{1a no semir_
se n~o os espiritos nmlfazcjos consicJel<Jdos -pagtlos-. scnclo "inn<1oS" que 8 Por ser a casa baSmmc conheciCUl. achei que n:'o faria dife rença omilir os
preCISam (Ie HJuda [J<lra -(;vOluir cspiriruatmente-. Exu foi tdenrifiCi1(1o pelos nomes ele seuS rnêdiuns. ,\ escolha da cas... como pontO ele partida é ele
CriSfOOS. <linda na Africa. cOlno enlldade eliabólica ou o próprio demônio. grun(le 1f11I>ort{tncia. pois reflere. em parte. a busca t>or lInm CCM;) noção clt.:
associaÇàocrcc:lililda ao fmo(1c sua rcprcscmação ser um falo kJcmiiican(1o o "Ir.x:Iiçi'lo-: omirir Sl.lil Idcnricla<le é incorrer nUIll erro jX)r omiSs<lo (Ia produ·
il fertitidade c rOO à S<>c.' nagem como pens,'i<lfll os calóllcos eI·ourrOi<l. ção do li<lh81110 e do própriO conllCdmenlo ploouzklo sobre o grupo.

80 81
• A pesqui5a (em "mironga" ,\olôllica Dias

a m[lo? Fui logo dizendo: Hoj e voec vai conversar comigo. nê? sentido ele m anhã. um peso tombando m cu corpo. pcrguncci
E ele. áspero: Eslá dizendo q ue eu CStOU fugindo d e \focc? t\ se era algo bom ou mal. Ele dissc: le fez mal? Respondi que
pesquisado ra lema rem e ndar: i"ão é isso. m as hoje é um dia d e r"Rio. nms no fundo é c lDro que é uma IX:ssima sensação estar
fcsl<.l c você vai rer m ais tempo ... Ele retruca: Es tá m e colocando num lugm e seu corpo ameaçar desabar. Ele d isse que era uma
COnTra a parcde? Você sabe com quem está fa landO? COmecei a cmidadc que não dcscia frcqüelllcmence, sua função era equili-
ficar nervosa. pois o r05[0 dele eslava;) uns dois ccnrírnClros de brar o ambiente e resolver alguns problemas dos m édiuns. por
dislânci<:l. sua tcsta quase cncomr<lva (I m ini la. fique i scm JeilO e isso conversava comigo. "Você elllcndeu. né?". Sim. Ele CSIaV;)
ele milndOIl chamar o cambono dizendo que cu não sab ia quem dizendo que só conversava comigo l)Or causa da m inha "m ediu·
ele era. C<lrlão, o cambono. também d emorou para lclcm[ficar o nictade". Ele OOlllinuou dizcndo que eu nâo ia conseguir fazer a
que aconreceu quando ele ped iu vinho Com "m arafa OOO c indagou pesquisn e que se ele quisesse cu não daria um passo d ali . se
se o QU lro. "Pai João", bebia iSlo e fumava aqueles cigarros de saíssc podia Iropeçar Ou algo parecido. Rcalmenle não deu. Meu
palha. -"hl CkIro. desculpe-me. distribuíram a senha Com o nome corpo cslava paralisado. n[lo m exia um músculo sequer. falava
errado", disse o cambono. E eu fiquei ali . acónica. Icvamo e vou COIll ele ~não faz isso comigo" e ele. sarcáslico. rindo. Mandou
cmbora, IlCnsei. mas inscincivamence percebi quc Cr<I importance trazerem uma vela c pediu que eu acendesse. Minha mão n[lo
irwcsl igar ilquelcs d ois seres quc habilavam Alvaro. Pcrguncou. mexia. demorou algum lel11l)O. enlflo acendi a vela, ele colocou
me o que eu queria . expliquei breverncnce e ai recom eçou o pilo: a m [\o sobre m inha cabeçn c fazia um movimento cirCulalóri o,
o que f<.lria ;)Ii lomondo o Icmpo dele, se eu sabia quaOfo lempo devagar. Illas com força, sentia o peso da mão d ele e comecei
clemOr<lvarn a d escer, que linham vá ri OS p essoas realmence a ficar muilO lonca. evllel fechar os 01l10S e rn enmlmente fiz uma
p rccis;)ndo de ajuda ali, que a sessão linha problem as c que na oração l"vin(le espíriTo salllo ... "I . ele me encarava e nossos
osslslêncio linha umo pessoa muilO Illil! que iil m Orrer e a espio rOStOs quase se enCOntraV<1m: passou;) vela sobre m eu corpo,
rimalidDclc estava preparando o desencarne dcla _ a cada (raSe no aliO dil cal)eçõJ pari.wn e mentalizava, o m esmo na altura d o
que ele falava linha voncade d e f<.lzer um bu raco c slun ir dali. meu peico. ,\1alldou·mc levantar e ir emllor<). cu dissc: ~não faça
pedia desculpas. ~I udo bCIll. desculpas, você eSlá certo e não Illal a mim". Dem orei a sair. ficava olhol1clo c ele dissc: ~fecha a
quero ~urapalhar o seu Irabalho. dá liccnça que CSIOU indo ... ". bOCil-. Hcspon(li : ~ n;z.o CS IOU de boca aberla·. E elc: ~ tsso é por-
Elc não cleixou: "agora que eslá. fica". In iciei novnmel1lc D con. que você nflO eSlá vendo. vejo vQCc com a m aior boca abefla,
versa e relomou o 10 m rude. dizia que se quisesse linh<l que ir <l aqui embaixo, fa zia com a 01':'0 abaixo do queixO". Respondi : ~6,
museus procurar rcsposlas e não ali. só lirnndo conclusôes do d cve ser.. .". Sai dali complemmel1fe acordoada.
que diziam, quc aquilo não linha nenhum \';)Ior. pois eu nunca ia
saber reabnem c se era um prclo·velho ou oUlra cmidadc quolquer
JuntO à perplexidade e ao embolamcntO das idéias. a pa-
que me fa l;)va. (\'csse momcmo m e enCiJfOU e pergu ncou: Você
conhecc a diferença? Riu. " Iorri d e m ed o. DiSse que eu podi;) fa. ralisia tomou conta de mim. fiquei lranslornada durame alguns
zer um bom lrab..,lho. desde que c u m e finnassc em algum lugar, dias. chorava muito e nada passava cm minha mente. o que
que cu s.:,bia disso. que Tinha que lrabalhar. nada desses corares
tus<.w a um cordflo com alguns sanc inhos IlCndur<ldos e um a mo acontecia era puramente sensoriaL Um de m eus inform amcs
de São Francisco) (IUe não valiam nada. ~cs le é m inha prOleçfIO". preparou um socorro espiritual. prontamente aceitei. Passei por
disse, "minha m ãe me deu". Parecia que eu cs/ilva informando uma limpeza espiritual cl"lamada el)ó. que consiste em oferecer
para ele "lenho m inha prOleçÚo. não ousc". Ele insislia dizendo
que eu linha quc bOmr guias lO e quc eu linha guias pronlos pa", algumas comic!as riluais para detcrminados o rixás e Outras prÓ-
lrabalh<lf. que cu sub i;). que eu semia isso. Lembrei do que h;)via prias para serem manipuladas sobre o corpo. numa perfomlflncc
de banllO mesmo. seguindO uma série de Iélbus alimentarcs e
sexuais por alguns dias seguinlcs ao rito.
f) o mesmo quc cachaça. Dcnominaçflo uSilda 110 século XIX. Pode ser que
sua amlgüidade seja mais rem01a. Ou tro amigo sugeriu um socorro acadêmico. ouviu·m e um
10/\5. gulas ~?conra'i de miçangas colori(las. Cada cor correSpOrl(l<,; <l um tanto hist6ricéT por 110ras seguiclas. " Sua m agia fez cfeitos. Como
On-.:á ou (;SPlntO. 'BOI<lr guias' é uma cxpr(;SS-:lo que signifiCit ImlXllhar como
médium. usando as gulas C recebendo cspirnos. Dizer que a I>eSSO.""! rem
um guJa significa que ela rem suas cmidadcs. Os lImbandislas acr(:dltam ! I AprovdlO para elcrniwr me" <lgmdccimc r1Io ,lU professor-amigo ~l arco
([LU'; rodos têm seus próprios ·guias·. uns exigem inco!lxlr.,1r c Oo.mos r\[IO. r\mÓnu:. da Silva Mello

82 83
A pcsquiS<llcm "mironga" Mônica Dias

1)()11l pesquisador de Tem as afins. anlropólogo e m eSTre. desper- subje Tividade agiu direTalllell1e sobre tudo aquilo qut? eS T ;J~'~
vendo. cscU!ondo e senTindo. c assim eSTabcleci a rdaçao e Cri ei
TOU e sugeriu idéias para aproveitar ao máximo aquele momentO as re ncxÕes. Seria imp0r10nTC rever a minha religios idade Dara
de crise. I\S significações com eçaram a surgir. Out ro p onto de e nTendcr o connitQ. 'a
apoio foi o encontro de um livro com refer6ncias sobre o traba1l1o
de campo, n o qual os aUTores descreviam suas experiências
2 ReJa tiuizanda a participação
(VELHO e KUSCHNIR , 2003). exprim iam principalm enlc como
o en volvim ento em ocio nal levava a um enCOntro mais [mimo Retomei às leituras sobre o riTual. percebi que não esTava
do p esquisador consigo m esm o e com o próprio ambiente de inviSível circulando naquele ambienTe, minha presença era passí-
Trabalho. Era necessário regisTrar que hüvia um movimentO nisso vel de "leituras" daqueles que ali CSTavam , sendo assim, eu fazia
Tudo. EsTava eu a circular por duplos ambienTes de Significação: pane do ritual, Ixxiia nào ser um deles, mas era como se fosse. t\
a academia e o Terreiro, Nao era um a queslão de oplar por um presença cons tante. as consultas, os passes recebidos. o acender
ou OUTro por acredilar que junTos reprcscntavam um prejuízo. de um chan.lto ou a participação de uma rifa para a mudança do
As percepções eram riqu íssimas, nada d e abandoná·las. Telhado em ruínas podia ser um indício de comprOmetimenTO.
Duas semanas depois claquela sess&o espírita . regiST rei no Dessa forma era passível sofrer, no sentido de ser aTingi-
diário de cam po :'~ da. as mesmas innuencias cios demais, Nesse mergulho me
COmo encmar que as rclnçôcs que se csmbclecelll no inrerior perguntava se nisso ludo havia uma QueSTão de gênero. Seria
do religião o bservada predomina a reciprocidad e c cu. salX!dora eu mais paSSional dianTe dos falOS? Experimen taria de corpo c
d isto. náo atinei na possibilidade d e scr. de alguma foona. cob rada
alm a TodaS as sen saçõcs por deliberarmos que as mulheres se
desse "quinllilo obrigmório". Depois de doiS ano s enfrOlltwdo nos
riTuois, fica h uman;)ll1cme impossivel llão se perceber, mcsmo que enTregam muito m ais em suas relações e eSTão. quase sem pre,
Illillill1<1mcnte pane dde 1<llllbém, m esmo que seja como (o rma CliscuTinclo os p orquês das v iT órias e fracassos?
de negar, d e [(; Il1 <tr SC diferenciar, ESlabclccida CSTa relação de con·
,\ crise da qual imergia era o m eu processo ri1ual. um rilo
tiguidade ao g rupo . você não csTá for.) dde. "Ies mo observando
(lOS IXIUCOS, 5<'10 llle aTribuidos larefas q uc visam torná·la cad a vez de passagem. de onde saía mais fortalecida. compreendendo
m ais " mcmbro~; ;)Cel'l(le um cigarro. limo vela. faz u ma doaçfto, minha aTuação no campo e renovando anligos costumes. Ten·
com e ju n to .. . AS (ronTeiras perdem um lX)UCO seu SCllfido, Cl lláo
a co brança pora um filho·dc- fé c un i filllo·pcsquisador começa o
Tava imprimir aTé emfio uma pOSlura de neuTralidade inexiSTenTe.
scr qua5C a mesma. Se, por exemplo, você (OITLl a alguma s~.:."s..;o , com o disse na nOTa do diário citado acima, não estava numa
semem s ua falTa , comen TaIll e ele algulll;) fo rllla Te rcprecnclc m. nação clcsconl1ccida. lidava com eles negando a mim m esma
Se po r acaso temos um inlcresse d e cllecar minimanu; n te o o ro
gallizaçúo ( laqueie grupo. lemos que esmr c iemcs eJess.-, purçúo
pessoal que se mislumrá ao OUlro e eles em nós.
13 bte conflilo era basicamCrllt; acredllar que de\'(:l1il me corwcrlcr. :\ 0 in
I~ imporTanTC ressat tar que aquele grupo rl[to era uma Iribo Iro·
corpor.Jr <I lógica do OUlro . as lemeridades P;)S.salll " ser ilfXml<'lel<~ como
I )rinndes.:-. ou ndcll'llXJ. d iSTamc d a realidaclc da m aioria dc $Cus frulo cI!l m.:lSiil, Cnloo ela sO pode ser combanda. peta corllr<Hllilgia, nulll
pesquisadores, mas cS TáwlIllOS convivendo com aquele grtll)O enTrcl<lÇi'llncnm infinilo t>ar<:1 que pOSS<1St;r eslabcl<."CiCIo o <.'Qul1ibno tx:ssoaJ .
em nosso co tidiano, Icv;)lIloS ao c;:unpo nosso imaginári o, "s Foi encanmdom a sensaç[lo de IranqÜilidade c poder por contar com uma
IciTur;)S a m e riorcs c tuclo mais que inforn le que m eralll ,mies força mnlor q ue nos prOlcge de qUillquer nl':ltcficlo. ,\proxim<lr's.e dISS~
mesmo d e eSTabelecer IIIl1 comalo inlil11o. Dessa forma mintlõl IClldo conlo pano de fundo ( le suas crenças lntlm<ls um deus cnsl~o (OI
muilu (lIfic i1, e rn;Jis aincl<l maIOr 'Deus' de ntro de mun, c~mo Il<l rnel:\(OW
frcudi,u kô clú ler que mOl;Jr m <.'lJ ptóprio !Xli. EnIW. IUM L'>SO rcprÚ~rlIO~1
uma imensa cnse e.xislcnCIiII. HOllCSlamcmc n oo fui a primeira nem a ~Inicil ,
12 D""flo eTc cnmpo. :! dc Junll(, d c 200.1. m a... roi profundo e únieo t)ilra mim.

84 85
,\ p(.'S(juisa tem "rniro nga" MõniGl Dias

e as mintlas cren ças. evitando ser e lnocêntrica ou precon cei· ocupação his tó rica de um lugar. Sua simples presença pode ser
luosa. Parecia descont"lecer que a sociedade da qual faço p ar- llsada como prestígiO cle um grupo sol)rc oulro. promoven do
le ainda é permeada p ela religiosidade c principalmente pelo dispulas enlTe grupos afins. 's
meclo do fe i l i ço.'~ ~'Iesmo sem freqüentar qu alquer igreja. foi f\ compreensão do drama vivido. no sentido proposto por

importame assumir que sou religiosa. que este é m eu univer· TUrner ( 1974), leva a pensar que o envolvim emo é parte inte·
50. poiS p arecia que para garamir um minimo de o bjelividade grame do campo·ritual. que sentir o campo não Significa peTeler
acadêm ica o pesqlJisador deveria n ào-ser: não ser religiOSO. a neut ralidacle, essa não exiSTe faz tempo e. acrediTO. continua
não ser poliTico parridário Ou aTivista de qualquer espéCie. Ou . a existir. de forma subj eTiva. corno orientação para um compor·
nl lm e XTremo OpOSTO. seria p OSilivo que sua pOSição servisse tamento ideal. É claro que o clebaTe sobre a questão c antigo e
com o preSTígio para abrir portas no m eio pesquisado e auxiliar produziu p érOlas nesse sentido. Sabem os que o evento corno
n a legiTimação de seu Trabalho . POiS seria um oll.ar de quem apresen tam os num fonn ato final na verdade não exis te. é uma
eSTá p or dentro. e logo. como se comenTa entre o "pOvo-elo- cons trução do antropólogo. que reuniu informaçóes suficientes
sumo ". alguém que "entende m ais do bal)ado ". para supor sua exiSTência. m as eSTam os nos resguardandO no
Percebo que não havia como fugir do cÓdigo da rcciprocida· que foi diTO am es sol)re a questão. expliCitandO exatamente
cle. você quer informações. quer compreencler fatos e eventos quem disse o qué. em que m om ento e clrcunstãncia. para dei·
e o grupo deseja . de certa forma. nOToriedacle. I\lgumas figuras xar claro anele o OUTro aparece e anele você está. No mamem o
se aUTodesTacam a tribuindo imponilncia em busca de legiTimi- desses conflitos. como o rc\acionaclo aqui. desconfiamos de
dade diante do grupo. No esTudo de caso descriTO por Maggie nossa capacidacle de construir algo significame sobre o out ro.
(200 t ) seu informante fa zia queSTão de destacar o vínculo que mesmo cotej ando com a ficção. ,(I através da teoria e m etodo·
possuía com a antrOpóloga . que era su a professora . Em inúme· logia que cleslize pelo senso comum e aprofuncle em queslóes
ras Situêlções citou que era seu aluno. além de enquadri'l·la em para além da ilu~o da transparência. 11
confliTOS pedindo que declarasse sua opinião. Impossível negar A dúvida . p orém . descorrina um estágio revelador. reforça
que pessoas e suas relações são nossos objetos de estudo. nossa in tert-eréncia. Significa dizer que eu não m e abandono
Mas a via ê de mão dupla . p oclemos ser instrumentalizados quando saio. quanclo observo o OuTro. quando penso o OUT ro Ou
efn Situações no minimo consTrangedoras e que requer ele nós escrevo sobre cle. não me tr<tnsforrno no QU[ro porque creio nele.
Ilabilidade para resolver os atrilOs sem prejuízos a ambas as posso não crer como ele. mas passo por fases em que acrecliTo
partes ou encaminhar idéias que venl"lam a I)ene ficiar o grupo. em seus ditos e desditos sobre o mundo. Deveria não crer? Não é
Dependendo do local cle atuação do pesquisador. ele pode lrazer
como beneficio ao grupo a legit imação de uma prática avaliada
15 Pi urícli) COIIIO (2003) descreve o ulidado que leve ;:\0 CSCOIl~e~ os Lemos
como secular. que leva a avaliação do q ue deve ser p ensado ou que pcsquL'Klv<I. Ternos 5<'10 gru(XlS (Ie fcslejos. com S~l!S n~usl~os c dan·
çarirKJs. com dlferenlcs IK.lcranças quc prornovcrn a (C.">I;) de 1"OS~ scnllora
não corno " tradição" ou a assinar laudos quc comprovem a real (lO B05<;riO. Pard a pcs<tuiSa foi noccssário cauleta P<'r<! que as h(ler<!nças
n~o pcnsilssem que a csludiOSt"'l privilegiava um em demmenl0 a ou U?
I G " ficC;="'o d a narrativa 3 que me refiro eSla rck"lCIOO<"Ida ao que James Clll ford
14 Yvonnc .\laggIc t 1992, produ Ziu um estudo SObre o enralzamenlo das cren· chamou de ;'Ilcgoria etnogrtifica: ." alegoria Ide mancim mais forLe que .3
ças. prinClpalmenre do medo (10 feiliço. 110 pens<lnlcnro jllri(lico brasileiro. O 'inlerprelaçoo') dCSlaciI a Ik"llurCl.a poélica. lI'i1dlcion<l\ e cosmo lÓgicll de lalS
f<llo de cornlXller o outro é d ar crédllo aos seus poderes. OU seja. acreditar processos de l.'s crila." t 1998: OS 6(i)
que eles rcalmcnre exislem . 17 Sobre est;) LClIlátia.r v isitar Bot.ndlcu. Cl\amtxm.:don e l>asseron (2000).

86 87
/I.\Õniu Dia>

essa a questão. mas o encaminl"lamen lO idealizado é produzir um pCler Gow disse que as pessoas que estudamos esculam essas
csrrânllamentO cio m uro e não identificação Ou quase.s imbiose. I~ coisaS. mas elas simplesmente aceitam po rque fazem pane d e
claro que sou afetada nesse rrãnsito . Illas teclas as Significações seu munelo. e não se preocupam com isso . Mas. de modo geral.
a mim apresentadas não sB.o inconciliáveis. ao contrário. há um como nos relacionam os com tais experiênCiaS?
proeluto final. como eSle. fn.llo ele inumeras lessituras. Afirmei que. mesmo sabendo de antemão { lesses multiplos
Embora tivesse liclo rclaros de experiências er/lográficas relacionamentos que ocorrem quandO eSfamos em campo. isso
ele pessoas que foram morar na casa ele seus informames. ou. não havia sielo suficiente para de cerla forma indicur rumos ou
tras que entraram em Choque quando pesquisaram ordenação promover alguma espécie de idenlificação com tais relatos. 50·
dos espaços nas casas em fa velas do l1io ele Janeiro. somente m ente quanelo fui "atingida" é que procurei revolver anigos. lextOS
após o falO ocorrer comigo é que ocorreu o insigl1r. Fiquei mais e Oulr;JS publicações maiS recentes sobre o lema. Isso inclica.
alen ta a s ituações semeU·mntes ocorridas em campo. Houve ao m enos para m im. que entramos absolutamente cegos em
u ma sensibilização pela via da experimentação c lal percepção campo. Mas os cegos também vêem. De que forma? t\guçmn
colaborou tanto para um mergulho no campo quanto para sua outros sentidos. geram outras percepções sobre os objetos.
posterior ordenação. Ouvi comemários. quase anedotas. SolJre Acredilamos que a té temos um conllecimento parCial da si"
pessoas que c l1egavam para a investigação social nos lerreiros tuação. mas a grandiosa SUlpresa só se faz p rcsenle no d ecorrer
c "rodavam" ou "caiam no sa mo ".'~ 1\ la5 o que fazer para o do processo de pesquisa. é pane integranle do pensar e fazer
ocorrido não virar ancelOla Ou um fato pitoresco succ{lido em antropologia . Isso é ólimo. Tal qual u ma viagem previamente
campo e realmente colaborar para o fazer <JllIropológiCO? calculada. mas interrompida por um a série de faros imprevisíveiS.
Golelman (2003) descreveu um episódiO em que ouvira o uns m ardvilhosos que descjamos que fiquem marcados por toda
loque de lambor onde não Ilavia lambores. O som fOi relacio. a vida e Out ros que. se pudéssemos. arrancaríamos de nossa me·
nuclo aos lambores dos mortos aceiranelo a en trega de Objetos m ória . Tuelo isso promove a necessidade de nos distanciarmos
num riru<:ll funerária que acompanhava . COtnCnlOU que O evento elas formas mecânicas ele compreender as coisas. do conlrário
o alingira em cheio . Insrig:aelo com a experiência. conversou se lra ta dc legalizar esSil condura. u m tanto marginal. aos códi·
com alguns ele seus pares. Sua cxpcricncia virou um nOtável gos de propriedades próprias tio pensar antropológico. O saber
artigo. Em tal publicação expóe a vivençic;t c ê.1nalis8 o falO como e a aç~lo seriam. como elestaca ~·lerleau·Ponry (1984).'9 pólos d e
senelo fru to elo d evir. ond e "circuns t8ncias" ou "pessoas" nos urna exiStcllcia unica porque não somos meros cspectaelores a
afewm. Oll seja . somos expoSl0S à POSSibilidade de vivcnciar descrever o espeláculo a que assist imos repelidas vezes.
multiplos enCOntros. mas num fluxo corrente. anele niio nos j\;cssa viagem antropológica os fatos ê que impOriam. Mas
tornamos o Outro. <Jpenas C;q:>erilnc ruamos Outra COn { lição de quais falOS'! Os observados e os senlid os. EsCOtl13 difusa em
ser. Em resposta aos quCstionarnenros de Goldrnan. seu amigo ottlcu es. componamento s c produção de teXIO$. O produlo final
é fruto do devir. série ele acontecimentos quase impossíveis
ele serem c.'\plicirados m esmo que fosse por meio de análises
18 "flod:Jr" significa cs rar inCurpOr.ldo num momenro em que o médium gira o
corpo n ~rmo dança que pode mmo ler uma fT(."{llIl:ncla vagarosa ou de CCrtd
fOlm:\ VIOlemo. aprC$(;man<lo um dcsconlrot(; (."()rporoJ "(;.a'r no $<.11)10" cslá
relacIOnado rarnbérn ao Imnse. mas a posscs."':'o rem a furma d~ Imohiti.m. I9 Colclilnca de IC.XIOS pubtlCa<los Ik"l colcçào"OS PensactOICS ". cspeci."lhrlf'll!c
ção. ,I pessoa fica inerte no choo. "Carcgolias (lo EmendiOlC!lIu" e'O olho e o espilllo".

88 89
Mônica Dias
!

combinató rias. Para iluStrar lal análise. o comenlário sobre a jornal. O Dia - década elc selenta e oitenta -e O Pouo. na década
obra ele Deleuze é bem vindo: de noventa. apresentando corpos esquanejados. Convivi por
um pcríoclo. na reclação do jomal O Povo. com parentes que
t\ m Clilfisica. definida por um sistema d e saber. imp lica caminhar iam procurar o arqtlivO do jornal em busca de notícias de algum
semp re para de terminados fins e Obje tivos. O alvo é sempre a
busca da essência em Si: a verdade. 1510 consisrc em çonceber familiar.21 I\S dores daqueles familiares iam junto comigo para
a vida com o um a igualdade de aconlccimc mos. esquecen do a o recôndito do m eu lar c a nomeacla "bandidagcrT( C;\pos ta no
raridade C a d iversidade. Sair da dOminaç[IO m eta fís ica é c mfar
jomal adquiria outros Significados depois daqueles encontros .
no indefinido, na união de multiplicidades: expressar o aCOnlc·
cimenTO. ou mesmo dizê·lo . é aponEar paro a l11ul!iplic idadc c Essas c;\periências geralmell1c não aparecem de modo
inventar, produzindo conceiTOS ( ... 1para Giles Dclcuzc a fi losofia explícito na finalização do trabalho em curSO . Elas podem servir
n[lo lem a Obrigação de buscar os modelos em s i. m as [e m a
para melhorar o tipO de relação que o pesquisador trava com
função de invenmr c prOduzir conceitos. onde a arl e. ~l filosofia
e a vida afirmWll'Sc num m esmo mundo como expressáo viral scu objc10. Náo querendo ser p essimista . podem tambén""\ pio·
(,\I Ei'\"D ES e GU I;"IMtAES. 199 1). raro Mais uma c;\pcriencia ele campo pode ser ilustrativa neste
sentido. Por inumeras vczes depois desse conmto ritual experi·
3 Considerações finais: nas enrreJin/las mentei o transe mediúnico: nas primeiras vezes tOlal resiStencia
e nou tras entrega. Diferell1cs licleranças religiosaS. da umbanda.
n epois dessa experiência no campo passei a renetir sobre candoml)le. kardecismo e b<:Irquinl1a~2 foram unânimes em dizer
a procluçao final do trabalho. a lese. Pensava se valia a pena que a resistênCia provocava m al estar. Thlvez essa sej a a men-
deixar à tona o ocorrido. se o fato colabowva na compreen· sagem implícita no m ergulhO cm campo: náo rCSistir ao comatO
~o do m eu objeto ou. se omilindo. p erdia a oporlunidade de com o out ro. não impor de ant emão conceitos pré·est ruturadOs
travar esse tipo de discussão. Finalmente decidi tornar aquela Oll lançar olhares esquadrinhadores em busca de explicações
experiOncia individual. m as notadamen te comprecndcnclo que lomlizadoras. Isso não significa tornar·se o oulro. mas perm itir
minhas experiencias pessoais (que nào ficaram rCSlritas a es· ser atingido por ele e. de certa forma possibilitar sua "cntrada"
tas relatadas aqui) contribuíam de certo modo à sensil) ilização como realmente uma espéCie de estada no local. Dctinitivamen-
do meu 01l1ar sobre o que observei implicando numa escrita te. nem nós e nem eles eSlamos imunes nessa relação.
comprom elida a tais afccções. Se aprendêssemos a n l':lo impedir o tal clevir. tem ando a todo
Quando afirmo percmploriamcnte que ganhei experiência o momento atirmar pOSições no intcrior do cam po de pesqui·
com os transitos que vivenciei. isso não Significa que em traba· su . lalvez aprovei1 ássemos mais os nuxos que nos acomc tcm.
1110S vindouros estarei imune20 a novos conmlos. mas saberei Porém. quando racionalizamos as relaçõcs. a tendência é esta·
de alllemáo que este é o funcionamenlo próprio dessa forma !)clecer frontciras que nos impedem (te viver a experiência de
de relação que se estabelece na pesquisa. seja ela bibliográfica
ou de campo . Aliás. linha esquecidO o quanto foi dificultosa a 2 I A pcsquÍSi.l fOI descnvoMd..1.com verbi.1S 00 c.-.;PQ. jumo 00 [)cpan<lmcn~o (Ie
pesquisa ele iniciaçãO cicnlífica analisando a primeira p~lgi n a de História ela Universidade FI.:dcraJ Flw·nincnsc. sob <l oncnraçt\o (Ia profcsso~
G17.1cne 1"<.:<ler. nodt.:corrcrOOS anos dc 1993·4 . "tllcscnramos pan c <.tos d<, .
dos <.;nI St:!l1rntirio:õ Imcrnos. corno o (V SCmintirio (Ie Inicia<;l"IO Cien~lfrc<J : .
22 ,\ Il<'\r<!uinha ê uma rcliglftO cnst;) cspim<l QUc ~az u~ da <J)'i)11U::I~ •. rn,,~s
conll<.:C1do corno chá do santO O<lirnc. ESla fOI I"mbem ulTlil das !chgrOcs
20 Maria Laura Viveiros de Caslro 120031 d escreve como foi afetada pelo campo
crn sua pesquisa sobre o k<lrdcclsmo c (lepois sobre escolas dc samIJ<l. COIU;:' qual m<lnuvc conwflo pcsq uis;'f"I(lo rllngj;, c -prelos·vclhoS •

90 91
A pesquisa tem "mironga" Mônica Dias

forma mais imensa e. por vezes prazerosa. sem comprometer a escrever excelentes emografias. Acredito que o fazer é uma
a qualidaelc final do trabalho . mislura ele condições e afecções .
:\s produções literârias que visam mOStrar os l)aSlldores Em resumo. as experiênCias narraelas nâo pretendem
das pesquisas servem como l)arõrnetro para aquelas que ainda ser um receituário. ou se propõcm a funcionar como livros
C5t[10 em curso. elemonslram que inseguranças. inCCrTe7..c"1S. m e. de aUTo·ajuda: "como me dar bem entre os BororoS". "com o
dos e toclas as crises possíveiS cabem no universo acadêmico o pesquisador deve se componar diant e de um rilllal" . mas
c não são incompatíveiS com o profissionalismo. De que valeria buscam colaborar nos queStiOnamentos que assolam os p eso
~'lali no\Vski revelar o que sen tia na presença de seus pcsqui. quisadores em campo. renetindo sobre os inúmeros "devires"
sados? Sua obra não se eternizaria por esse motivo. Isso n ão que v ivenciamos. Um surfista sem uma I)oa onda não conse·
significa dizer que o que observamos e sentimos, relacionado gue demonslrar sua 11abilidade. m as ele pode eStar cara·a·cara
ao que somos e a nossas experiências mais profundas. não com a onda de seu s sonhos e. por razões diversas. perder
apareça em nossos Trabalhos: ao contrário . quando esconde. a oportunidade ele -mandar ver" . A crit ica ao modo de fazer
fnos. revelamos nas entrelinhas. na escolha ele um terreiro que sempre exiSTirá. a escoll1a é scmpre individual. mesmo quando
Ó considerado "puro". onde o mal n ão é praticaelo. por c ...,cmplo. som os aconsell1ados por am igos ou orientadores . Sem dire·
em dctrimento de Outro denominado "Traçado". que quer dizer ções determinadas . é o acaso. o ir se fazendo. São as nossas
fazer o bem e o m al. se necessário. nossas escoll1as nào são "mirongas" ~3 que prevalecem ao final.
"neu lras" e muito menos nossa narrativa.
,\inda que nossas escolhas Ou a escrita revelem um pou . Referências bibJiogréificas
co elo que somos. llâ uma grancle d ifercnça en1re a biografia
revelar algo e o trabalho tornar·sc biográfico . Supervalorizar a CARDOSO. Rurh. 1\ auenrura anrropológicCl. Teoria e pesquisa.
relaçélO cstal)cleciela em campo ou o quanto as cxpcriênciDS São Paulo: Paz e Terra. 2004·.
vividas foram importantes para o crescimen10 pessoal p odem Ct\Vt\LCt\NTI. ~'I aria Laurô Viveiros de CaStro. "Conhecer
comprorncter o traball10 por complelo . sendo gmnele o risco desconhecendo: t\ emografia do espirit iSmo e do camaval
carioca". In: VELHO. GilbertO c KRUSCI-INIB. Karina (Org.'.
de se perder a etnografia em detrimento ele uma "ClIIflografia- . Pesquisas urbanos. Desafios cio 1(C/001110 anlrop ológiCO. Rio de
Nesse caso. deslocando o interesse da pesquisa. pe rdemos a Janeiro: Jorge Zallar. 2003.
Op ortunidade de ampliar os conhecimentos sobre algum g rupo courO. PaTrícia Brandão COLltO. Fesra cio RosóriO. Iconogwfia
pilra ler um diário p essoal psicanalitico . e poétiCa de um rito. Ilio de Janeiro: Nitcrói: EclUFF. 2003.
Sal:>em os que no pantcão acadêmico lemos inúmeros mes. DELEUZE. Gílles . Empirismo e slIujCtiuicloelc. Sfto Paulo: Eel.
tres com resp eiT osas publicações. De alguns elclcs qUiJ5e na el~ 34 .2001 .
sa!:)cmos sobre o processo ele pesqu isa ou eSCrita. AS obr~ s que DERHIDt\. Ji'lcques . ",\ violencia ela letra ele Lêvi·Slrauss a
não trazcm o viés: "O que sentia quando eslava 1':1". OU lros. em Housscau". In: GrumOloJogia . 550 Paulo: Perspecliva. 2004.
meio ao texlo. revelam suas surp resas. IriSlczaS e sauela(!cs. EVt\NS.PI1 ITCHt\RD. Sir Ee!\·varel. Bruxaria. orócu/os e magia
Alguns reserViJ!ll a introdução para registrar as impressões ele entre os Nane/e. ruo (lO Janeiro: Zahar Editores. 1978.
viagem ou cam po. Toclas as possibilidae!cs S[IO váliCliJs. Nf'lo há
curso que ensine especificamente a tornar·se antropólogo ou 23 Miro nga":: \ lIlIlcnno qlle SlgniftCl"I 'segredo' nas retigióc~ afro-brasileiras.

92 93
1 A pesquisa tem "mironga "

GOLO'\'lA!'<, :,.·tárclo. "OS tambores dos monos e os lambores


cios v ivos. ElOog rafia. amropologia e polilica em Ilhéu s.
Bahia ". In : Reuisro ele ..\nrropologia 4-3(2).2003 .
I\ IAGGIE. Yvo~ne .. Medo do feitiço. Relações enrre magia e
poder no BfClsll. Hla de Janeiro: l\rquivQ Nacional. 1992.
Capítulo 3
1\'I END~S. :"'Iurilo e GUI.\'IARÃES. Lea r...l. -Um dia o século será
deleuzlano". In: ESCOBAR. Carlos Henrique (arg.), Dossiê
Deleuzc. Hio de Janeiro: 1-16[on. 1991 .
.. ... ...
MERLEAU·PONTY. Vida e obra. Coleção: Os Pensadores. São "No salto"
Paulo: I\bril. 1984.
Trilh as e percalços de urna etnografia
TU~N~R. Victor. Oramos. fie/eis anel m CfOp/l0 rs: Symbolic
oOlon In htlman socic/y. IIhacalLondon: Mancheslcr entre trauestis que se proslituem
univerSi{~' Press. 1974.
VELHO. Gilbeno e KUSCH.NIR, Karina (Ürg.). Pesquisas
urbanas. Desafios do IrabaUlo Qmropo/6gico. Rio de Janeiro '
Larisso Pe/ücio
Jorge Zatmr. 2003. .
Inrrodução:
Para ouuir o anrl1ropological blues
É como se na escola graduada livcssem nos
ensinado IUC/o: espere um slSlcma marrimonial
prescriliuo. um Sislema políliCO segmenrado.
um Sislema dualiSlO. CIC.. e jamaís nos liuessem
prevenido que a silllaç<io ernogr6J1ca não é
rcoJizada num vazioe Que 10/1/0 16. quanto aqui se
podc ouvir O anlllropological blues.
IDA l'.lATT",. 1978: 3 1)

ro raves lis. O aids e o modelo oficial prevel1liva. limo


emografio nos cuidodos em sGúde enrre o grupo de
Irabo/hoc/ores do sexo. esse (: o nome do projcto quc
desenvolvo desde 2003 junto ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.
Nesla cieladc iniciei o llâbaltlo elnogralico. mas corno campo
experimenTal. dado os limiles que a realidade local colocava à
pesquisa: poucas TraveSTis. nenl1um programa governamenlal
ou nilo-govcmarncnral em prevenção ao HJV/ aicls volTado para
essa população . Porém ali. pela relação que Tenho de familiarida·

94
"No S<llto" ; TrilhJS e percalços.. NJdia EliS<! Meinerz

de com a cieladc. pelas reeles que já estal)eleci. seria mais fácil I Inrenções ernográftcas sob suspeila: Enrascaclas
mc aproximar do un iverso travesli. :\prOximaçilo necessária. reáricas. remálicas e m eloclolágicas
pois. ainda quc meu tra/)alllo tenl1a como pomo de partida o
modelo preventivo para HIVf aieis ado tado por agencias públicas :\0 propor a sexualidade como ObjeTO de estudo para a an-
ele saúde e Organizações Não·Governamcntais. o enfoque ao tropologia. assumo como prerrogativa à su a referência no plural.
qual me fili o. isto é, o da é"llllropologia da saúde. exige convi· conforme a perspecJiva da diversidacle em Termos elas prá ticas
vencia a fim ele que surja dela a necessá ria familiaridade para sexuais e dos significados a elas associados. Par<J tanto. toma·
se entender as represen tações simbólicas e códigos de condu· se relevan te considerar que a sexualidade é alvo da produção
ta próprios do grupo. Para Tamo. busquei captar no "universo normatizaclora de uma série de cliscursos. como o biológico.
travesti" a formu lação/cir<'l.1lação das informações prcvenlivas psicológiCO . médico . peelagógico. art íSTico. pOlíliCO. juríd iCO c
em relação (I) à const ituição das próprias redes de circulação religioso. I~ em meio a todos eles que as pessoas. inseridas em
das infomlaçôes dentro elesTe grupo. que silo Também reeles deTerminados grupamen tos sociais c em suas práticas cOlidia·
estruTuradas pelas quais elas diferencialmente se organizam nas. elal)oram os scu s p rópriOS Significados acerca do que sej a
em relaçfi.o a OUTros gru pos; (2 ) às categorias locais que dizem sexual, do que é permitido e prOil)ido e do que é admissível ou
respeiTO ti sexuaJielade. corporaJidade e eloença. articuladas ao inadm iSsível em tenllOS sexuais .
conjunto maior de valores que orientam o comportamenTo deste NO que se refere ao estudo da hom ossexualidade femini -
gnll)Q populacional: (3) ao modo como O discurso do modelo na. realizado desde uma abordagem antropológica. o que se
prevenlivo . que. explicitamente. se p ropõe a promover mudan· coloca para a pesquisadora é o desafio da relativi7..ação acerca
ças (Ie comportamento. repercute dentro da comunidade e qual da diversidade sexual. Nesse ãml)ltO, é recorrente na literatura
a lógica que preside esse processo. elo ponro ele vista do erhos sobre a tem át ica que as pesquisas sejam realizadas por pesqui·
diferenciado dcsla c lientela. sadores que comparlilham elas experiencias sexUiJis/ cróTicas
Da :\"Ialla c l1amou a fase inicial do traball10 do pensiJr etna - socialmente consideradas "diversas". Desse modo. a relativi·
gráfico de "fase leÓrico·intelectual". esclarecendo que esta seria zação se coloca mais como proposta para o públiCO que Torna
essencialmente orienrada pelas leituras e d iscussõesjf1 travadas cama ta com o traball10 do que um instrumento InetodológiCO elo
no ambiente acadêmico. Porém . o que ele não considera c que pesquisador. Urna Tal prevalência se deve. em grande mcdida. ~l
muitas vezes CSTamos verdadeiramCnte con fusos com lanta teo· perspeCTiva de enfrcmamen to da discriminação sexual que mobi·
ria. e não csclarecidos ou gu iados por elas. Essa confus~,o pode liza grande parte d os cstudos. Decorre disso urna cstreita relação
turvar nosso olhar in icial Ou. numa perspectiva m()is o tim is ta. entre a produção d o conhecimento e o ativismo político. a qual
colocar lenTes que focam cle maneira restrita nossa percepção c destacacla por autores como Parker e Gagnon (1995). V'ance
inicial. 1\ las é esse "confronIO com uma realidade que trilZ novos t 1995). Ji:tgose t 1996) e no Brasil. I-Ieilborn t 1992) C Teria Jr (1996
(Iesafios para ser entendida e inrerprelada" (PEIRtV';O. J 992: 9) e 2000)_ Os autores argumentam que os movimentos sociais.
que vamOs conferindo novos sent iclos à tcoria apreenclida. ao tratarem de tcmáticas como gênero e scxualidade. têm. ao
Segu indo as e Tapas propostas por Da Maml, esse processo mesmo tempo. se apropriado dos estudos acadêmicos c influen -
nos levaria da fase Tcórico·inteleClual - na qual ~as aldeias são ciado sobre a sua prQ(h IÇf.IO. Essc.l relaçúo pode ser evidenciada
diilgrarnas. os malrirnõnios sc resolvem em desenhos gcomé· se atentarmos para o crescente desenvolvimento de pesquisas

96 ' 29
Um olh;u sexual na investigaç;\o etll ogr.ifica N6dia Elis.l Meincl""l

SObre sexualidade nas décadas de oirenta e novenra associados t\lém disso. entendo que a identificação de semelhanças e dife-
às rell1arivas de enfremamemo da epidemia da aids . renças elurante a il1lcração com grupo pesquisado ulTrapassa a
Desse m odo. o faro de eu nüo companill1ar as m esmas dimensão da orientação sexual. se colocando nLl!l1 plano mais
experiências sexuais que as mulheres pesquisadas. faz com ,'l11plo de pertenCimentOS sociais.
que a pesquisa desroe ela m aioria nesse campo ele estudos. De qualquer modo as pcsquisas sobre homossexualidade
Além d isso. esse elem ell10 poele também ser encaraelo corno tendem a despertar no mundo (lcadcmico e entre a conll.1l1idade
que dificuhador da apreensão da experiencia vivida pelo grupo de pares urna suspeiTa em relação à sexu alidade dos pesquisa-
estudado. Por exemplo. na relação com o campo polirico. por dores bem como às suas intenções subjetivas p ara com a reali·
exemplo. um pesquisador oUls/der poele ser considerado pau· 7..ação da pesquisa. Nesse sentido. FoucaLLlr ( 19 79) nos mostra
co autorizado para falar sobre o grupo. Nesse sentido. Sousa que a sexu alidade é um foco privilegiado p ara a construção ela
(20051. ao diSCOrrer sobre as condições de realizaçfio de sua subjetividade na nOSSél sociedade ocidental moelema. Assim.
pesquisa com m ães lésbicas no Canadá. revela as dificuldaeles ao invés de se p alitar pela repressãO. a nossa sociedade seria
que enfrentou para se inserir em campo. ell1re mulheres de marcada por uma intensa ~vontade de saber" a verdade sol)rc
comunidades organizadas. pelO fa to ele não ser mãe e nem se a sexualidaele dos indiv iduos (FOUCAULT. 19 7 9). Desse m odo.
identificar como lésbica. segundo essa autora. no contexto das torna.se impOrtante renelir sobre a form a corno essa vontade de
politiCas ident itárias canadenses. os própriOs pesquisadores da saber se coloca tanto no ãml) it o acadêmico quanto na interação
área da sexualidade têm se queStionaelo sobre a legitimidade de com o gnlpo pesquisaelo. de forma a colocar sob constal1l0 SLIS-
uma pessoa heterossexual pesquisar um grupo Clueer. fazendo peita a sexu alidade do pesquisador e também as suêlS "reais"
eco às argumemações do movim entO social. intenções com a realização ela pesquisa.
Embora não tenha en frentado esse Tipo d e dificuldade paro NO âmbiTO acadêmico, surge a expectativa cle que as razões
a realização da pesquisa na cidade de Porro r\legre. não p osso do pesquisador para a realização do trabalho encOnlrCm respal·
deixar de considerar que essa posiçflo QUlsielcr {qu e é habitual do . ele alguma m aneir<:l. na sua própria se.xualicladc. Com o nos
dem ro da antropologia) implica um maior investimento na apro- m OSTra Rob inson 119771. taiS especulações já se colocavam . por
ximação com o g rupo estudado e também nas negociações exemplo . para pesquisadores como t\!frecl Kinsey na m etade do
es tabelecidas durante a coleti) dos dados. em relação àqueles seculo passado. Por um lado. sol) re aqueles que compartilllôm
pesquisadores qu e de alguma forma são pane do grupo que das experiências eróticas do grupo eSluclado. recai a suspeita
estudam. Frente aos questionam en tos sobre a legilimidade de que o tl1)ball10 venlla a responder muito mais a qu estões
do estudo de gnlpos num COnteXTO dc altcridade, defendo que p essoais e cle engajamen ro POIiTico do que propriamente a
essa condição intensifica a necessielade de apreensão dos discu ssões cient ificas. Por Oulro lado. se retomamos a relação
fenômenos 'através da diferença'. à medida que prioriza o es· da proeluçâo cienTífica com o at ivismo p oli rico sobre o pesqui·
tran l1amel1l o~ e a relativização corno ins trumento de análise . saclor mais identificado com as normas que organizam a sexu ·

2 n..,
t\ respeito da especlrlCldade cio csw<Jflhamcnto c da participação pesquisa dc visla (lOS nalivIlS". a parur da inICrrJ1Clilç"lo. p..<SS<.' PCIi.I perSpecllva d e
i)ntropolÓglca. Gccm: (1997) rcfclC que jamais podercmos -\1rm nativos ". entcnder po r quc elas pcnsam o que pcnS<.lITl c como o fiJ zc lTl . Assim.
ou seja. cxpe limcmBr os acontecimentos da meslTk' forma que as pessoas enquanto antrOl>Ól(1~'Os. somos capazes apcI"I,,1S (~.P'"~uzir intcrp rClaçõcS
que panidpam das nossas pesqu~<;.;"lS. Sua prOflOsta de "capli)r o pomo (\as IntcrplClaçúcs (los Olmos soblc ,15 suas CXIX:flCrlCk'S.

130 13 1
Um olhar sexual na investigaçlo etnográfic.l Nádia Elisa (o.-\cinerz

alidade. paira sempre a suspeila de que cle venha a reforçar O rOmla, ~ realização ele um a pesquisa não cra considerada razão
estigma socialmente consr/1Jido accrca da diversidacle sexual. su ficien te para minl1a permanênCia junto ao grupo com o pas·
De qualquer modo. é na verdade subj aceme à sexualidaelc do sar dos meses. Na lelllaliva ele me enquadrar nas normas de
pesquisador qu e se procura a ~ realidade" das m01Ívações para interação do grupo. os jovens da IEQ procuravam me ajudar a
a consr rução do conllecimemo nessa area. enrcnder que llavia algo sllp erior que me glliauCl poro junlo ele
No Que range à relaçflo com o grupo pesquisaelo. o caráter DeuS e Que era por isso que eu participava dos cullos.
de suspeita se coloca ele uma forma m ais pró xima. à m ed ida Por um lado devem os considerar que se traIO de uma
que a descoberta de um a verdade acerca da sexualidade da condiç ão inerente ao trabalho clnográfico e aos seus c feilos
pesquisadora orienta as relações estab eleciclas em campo. para a o rdenação do gnlpo pesquisado . ou seja. a aproxima·
Em relação a isso . lembro que durantc o trabalho de campo. a ção voluntária e convivência com o gnlpo criam sempre lima
despeito de Icr explicado às participantes da pesquisa que se série de expectarivas às quais sal)emos que não podemos
trata de um trabaUlO cient ifico e de as m uJlleres se mostrarem corresponder. Elas dizem respeito aos valores. às e à visão de
d ispostas a parr icipar, elas julgavam que minha real inrenção ao m undo do grupo . o qual organiza a sua relação conosco. Em
freqüenrar os bares e ell1revistar as muJllcrcs era me descobrir algumas situações Icomo nas pesquisas sobre sexualidaele e
no meio homossexual. Assim. a qualidade da interação com também sol)re religião) suas clas!õ)ificaçõcs são contraditórias
o grupo resultou de um a classificaç~o que me d efinia como com as nossas e nos colocam frenle a uma série de dilemas
enruslido . Essa definição normalmen te vinha acompanhada da m orais e éticos. Clifford Geertz j á levanta c!õ)sa eliscussão rene·
tentativa por pane das mulllercs de me iniCÍ<~r em alguns códigos lindo acerca do rraballlo dos an1fopólogos nos países novos.
compartilhados p ela gnlpo. Duran te todo o rraballlO de campo . De acorelo com sua argumentação. as diferenças de j ulgamento
a JUSt ifica tiva do in leresse ele pesquisa jamais foi consideraela c de pOntO de vista en tre o pesquisador e o grupo pesquisadO
razão su ficiente para a m inha presença nos esp aços de socia· não elevem ser encaradas como empecilhos para a pesquisa .
bilidade. de forma que a minha qualificaçflo com o til na pessoa Assim. Geert z (200 t : 46) defende que:
que aindo ndo se clescobrill forneceu·me um lugar legitimO no
o compromisso p ro fissional de encarar os assun lOS humanos
ordenamentO das ill1erações sociais. (te forOla a nalícica n<'IO se opõe ao comnromisso pessoal de
Embora essa fosse urna situaçfJo inusitada, de certa forma cncará ios sob u m a p crspccti v<.I m oral especifica. (. .. 1 O dis·
mnc iaOlenlO prov(:m n<'lo do dcsimc rcsSC. mas de u m l ipo ~c
eu j á eslava familiarizada com esse tipO de negOCiação devido
illlcresse Ilcxível o baswnl e para cnfrem ar u m a eno rme lcnSilO
às experiencias de p esquisas anteriores 3 no área de religiilo. Já en l re a rcaç<'l o m o r;)l c a observação cien1Ífica. uma l ens50 que
naquela pesquisa, quando partiCipava dos cuhos ela Igrejil do só fa z aumencar à m edida que a percepçi:lo m oral se apro funda
C a COlllprcensflo cieneifica aV<lnça .
Evangelho Quadrangular IJEQ). minha interaçilo com os jovens
era m ediada por uma expCCtiôuiva de conversão. Da mesma
A perspecriva aponlada pelo aU10r chama alenção para
a elifcrenciação entre as concepções do pesquisador c do
3 Tram·sc de um<1 pcs<[uISil sobre:: scxu<1tlcladc e n::/igi<\o que resultou no Im. gnlpo pesqllisado c propõe que elas sej am encaradas corno
b<1lho e concluS:lo de Curso de CiênCk'lS SOCiais pela UOiverSidade Federal ferramentas p ara a investigação . t\ssim. apesar de discordar
de S.,nI<1 M<1n<1. imilulado "00 S<1grado ao I)rof;)no: Um t:SlllClo ;)l1!ropológi.
co SOhre sexu<lliclacle entre gn lpOS de jovcns pcmecoSlais". tlefendiclu cm da opiniC:lO rias mulheres acerca ela minha dcfiniçilo enquanro
jallCIlO cle 2003.

132 133
Um olhar sexuJI nJ investigação ctnogr.1fiCJ NádiJ Elisa Meinerz

enruslicla C procuranclo seguir a o rienTação de Geerl z. procuro uma relação. o lermo não p ermiTe a configuração d e uma form a
atentar para o qUI! essas d iferenças podem revelar acerca do sub stantiva que indique identidade. como no caso da homos·
meu objelO de eSludo (a c onsTiTuição da parceria homoerÓtica sexualidade que dá o rigem ao lermo homossexual. Entendo
feminina). Desse modo. as explicações d as paniCipanTes da que a argumentação expliCiTada seria por si SÓ suficiente p ara
pesquisa ao m eu respeiTo ilusTram as difercmes fOrmas atra. justificar a opção pelo uso do lermo 11omoerotis mo. No ãmbito
vés das qua is elas elão senTido às suas experiências sexuais desse lral)aIl10, ela possibilila uma ampliaçào do escopo da
e afe tivas . dentre as quais está a possibilidade ele ser lima análise porque está centrada nas relações e práTicas erÓt icas
homossexual assumida ou enruSlida. dos indivíeluos c não nos individuos em si.
No que tange à essa questão. Geenz (200 I ) ainda introdu z QUITa impOrtame razào destacada por Costa ( 1992) pod e
uma re flexào acerca da é Tica de pesquisa. d e: acordo com a ser denominada como his tórica _ Trata-se elo comprometimen-
qual devem ser levad as em consideração as conseqúências TO Il istÓrico da palavra homossexual com o COnTexto m édico
sociais em relaçtlo à forma através da qual os resultados legal. p siquiálriCo. sexológico e higienista no qual ela su rgiu .
o btidos são apropriados na práHca políHca . Desse m odo. a Nesse sen tido. o aUlor avalia que a própria diCOTomia "homos·
avaliação elas implicações morais do eSludo cienlifico deve sexual" e "heterossexual" que nos parece aUTo·evidemc 6 um
começar pela análise da p esqu isa científica como uma m o da. elem emo ela c ren ça a partir da qual se sublinha d eterminadas
lidade de experiênc ia mora l. carac terísticas sexuais nos suj eitOS a fim de diSTingu i-los. Esse
QuaJificanelo a pesquisa científica corno experiência mo- elem ento Também é de fundam ental impo nância porquc. além
raI. Geenz (200 I ) chama atenção para a responsabilidade d o d e permiTir l llna d esvinculaçào dcssas práTicas do contexto
pesquisaelor também em relação aos conceitos UTilizados para discursivo no qual o tc m 10 foi cunhado. chama a 31cnção para
análise. A esse propÓSitO tom a-se fundam ental re fle tir sobre a poSSibilidade de hisToricizaçâo e desconsTrução da categoria
opção leórica da utilização do conceito 110 tnOeroTisrno ao invés homossexualidade. Nesse scnlido. Bensa (1 998). procurando
ele l1omossexualielaele para pensar os dados coletaelos . r\ noção Traçar algumas aproximações emre a anlropologia e a micro -11iS-
de relações 11omoeró ticas entre mulheres pennite cOntemplar as tÓria. afirma que uma das prinCipais comrlbuições da segundo
mulheres que fa zem sexo com Outras mulheres independente para a primeira seria exatamente a ênfase na historicização dos
da sua elefi nição idemi taria_ Aproprio-me clessa expressão a conceitos u tilizados p ela antropologia .
pa rTir da elaboração de Cosia (1992), que defende a SUbSTiTuição Por fim , Costa ( 1992) d estaca ainda uma Iâ:i'..ão política. Ou
do Termo homossexualidad e por hom oerOTism o a panir ele u m seja. ele propóe a subslil uição d o termo homossexualidade
conjunto de razõcs , teórica, h iSTórica e política_ sobre as quais como fonna dc repúdiO à discriminaçao que recai sobre d etermi-
me parece importame refleTir â m edida que consideramos a nadas práTicas sexuais_segundo esse aUlor. criticar uma crença
pesquisa como experiência moral. discriminatória implica a critica ao vocallu lário que permiTe sua
1\ razão teórica apontaela por COSTa I J 992) é ele que o Termo enunciaçao c que a torna m ais razoável aos oll1os dos crentes.
Ilomoerotismo p ermite a elescrição de p luralielaelc d as práticas 1\ ad eS~loCl terceira razão apontada por COSta m erece um pouco
e d esejos que não eSlá compromeTida com a pressuposição da m ais de é11enção em Tennos do que se entende pela influênc ia
existência de uma essência que seja o denominaelor comum de de elem entos políticos na pesquisa c ienTifica. t\ esse propóSitO.
Todos pelas suas inclinações sexuais. Além disso, ao referir-se a resgalo a argumenTação d e \,v eber acerca da olljctividade d o co-

134 135
Nádia Elis.l Mei ner~
Um olhar sexual na investig':lI;áo etnogrjiicJ

nllecimcnlO nas c i~ncias sociais e em conseqüencia da reflexão que tange às suas relações com Oulras mulherCS. acabo por
acerca de uma élica de pesquisa. De acordo com "'eber. me afastar da agenda politica lésbica que tem se pautado pela
promoção ela viSibilidacle.
I' ·ào existe quolquer análisc cic nrifica puramc nrc ~objclivü"
da vida
cullur.:11( ...) que seja indqX'tlderue d e elc terminadas perspectiv as
especiais c parciais, graças às quais essas mônifcslaçôe5 possam 2 ReJariuizando a diuersidade:
ser explícita ou implici tamentc , consclet1l c ou inconscientemenTe,
selecionadas, analisadas e Qrgani7,.il.dilS na cxpoSiç<1o. enquanto Nossas familiaridades
ohjeto d e pcsqui5<"l. (\"EBER 1999: 67. grifas do aUlOrI
Inicio o detalhamenlo do tral)alho de campo evidenciando
Nesle trecl10. O au tor assume a influência de elementos não aqueles elem cnl0S de estranhamento decorrentes da es·
subjetivos c políticos (parciaisl tanto na escolha do objelo de colha da diversidade sexual como objeto de eSludo. mas das
estudo. quanto na seleção dos dados a serem analisados. Não familiaridades identificadas duranlC a interação.
poclenclo isentar·se dessas mOlivações. w eber aconselha que A realizaç~o de qualquer pesquisa na e sobre a sociedade
eSTaS devam ser expliCitadas a fim de evilar as influencias dessa da qual a pesquisadora faz p ane, implica na realização de uma
parcialidade. Isso implica. do pontO de vista ético. uma reflexão reflexão critica acerca do processo de construção da al1 crida·
acerca dessas mOlivações a fim de que se possa CSlabelccer um de. "Estranhar O familiar" iem sIdo. desde o final da década de
dClerminaclo conlrole acerca delas. Sobre esse aspecto l3our· setenta e inicio da década de oitenta. um dos elementos sin o
clieu ( 1997) propõe que a consciência da vinculaç[\o subjetiva Tetizadores ela discussão sobre o trabalho emogrilfico nu con·
e das possibilidades cle util ização do conllecimento produzido teXlo url)ano brasileirO. Essa pOStura melodológica tem como
coloca a pesquisaelora diante da necessidade de u tn exercício objelivO reflelir sobre as especifiCidades do Irabalho de campo
ele conSlmltC vigilância cpis temológica. nas sociedades complexas.4 seguindo esse caminllo. na esteira
Em virtude do exposlo . explicilo minl1a vinculação subjetiva cle <lUlores como Velllo ( 1997). Heilborn ( 1992). Salem ( 1989)
ao OlljClO de eSludo. principalm ente no que se refere ao comparo entre outros. que se dedicaram à discussão sobre o cstudo
tilhamento do interesse pOlíTiCO accrCil da implelllentaçôü dos de camadas m édias . 10rna·se imponanlc explicilar os valores.
direilos p ela livre oric llIação e expressão sexual. Nesse senlido, preocupações e espaços que são compartiUlados com as mu·
m esmo partindo de um eSludo panicular que privilegia O exer· lheres que participaram da pesquisa. Além de situar as análises
dcio da sexualidade eTllre mulheres. i'l discussão do prcsellle realizadas. esse proccclimerllO parece fundamenlal para reflelir
trallalho está relacionada a uma motivação política de clcfesa sobre as dificuldades implicadas na familiaridade e wrnbém
elas Illullleres enquanto Suj eitOS sexuais e desej o. Isso, porém. sobre as suas conlribuiçàes para o trabalho cle campo.
não impl ica que o traballlo p OSSua qualquer compromiSso com Entendo. desse modo. que não é possível penselr essa
a inlervenç80 e as propostas que compõem a agenda dos referi· familiaridade de forma homogênea . sendo necessário diStinguir
elos movimenlos. Em relação aos dac!os coletados e às an<:"lIiscs
realizadas parece predominar O inverso. Ou seja . ao e.xplorar a " 1\0 referir.se tl socieda(lc complexa. velho ( 1900) se renlele Janl o à (I,vi·
s[,O da sociedade em difcremcs esU<tlOS sócio·econômicos rcslIllameS di)
pOSSibilidade de resiSlt:n cia das mulheres que n[IO se enqua· CINisi\o do l í.llliltho. COl00 lambém <.ISsock, a .\OÇfto de c omptc.'I(Id..'\C1c à
dram nos modelos ideTllitarios privilegiados pelo movimeTllO ' helcrog<:nel(k"ldc cu ltu rat' . confcrindo il esla um sentido ~ .::ocxisll:ncia
n;'\o necessari<llllentC hmmoniosa ele lima p\uralickldc de lradlçucs (Ie base
homossexual e que [i-mçam mélo de t<l licas de invisilliliclaclc no étnica. religiosa. ocupacional. cntrC Olllras.

136 137
Um olhar :>e~ual na investigação ctnográfica Nâdia Elisa 1\'lcinCrJ:

entre diferentes niveis de familiaridade no COntexTO da relação do·se imponanre discernir entre os dados colelados e aquelas
enTre a pesquisadora e o grupo pesqu isado. Em lermos mais informações relaladas em carárer de confidências. em vinude
gerais. deSTaco o fato de cOmparTilIlar dos cóeligos e valores dos vinculos aferivos esrat)elecidos.
culrurais específicos do que fOi ca raCTerizado por Dumont Numa esfera mais especifica . cabe (lcsracar a relevância
(1985) como sociedade ocidenTal moderna. na qual a noção da referência ao contexlo universitário. ao qual p ane das mu ·
ele indivjeluo (enquanTo exemplar singular da espécie huma. Iheres eSlava vinculada. Esse compani lhar elas especifiCidades
na) foi hislOricamenTC construiela. como va lor fundamenTai n a do conTexro acadêmico foi lamlJém um impOrtante elemento
prOdução da sut)jelividadc. No CnTamo. além elcssa esfera que favoreceu o interesse e o compromeTimentO das mulheres
mais ampla de penencimenTo. é fundamen tal compreencler. com a pesquisa. 1\ familiaridade com a experiência (la pesquisa
a exemplo ele DuarTe (198 7). como o assim carac tcrizado ciemifica. especialment e na área de ciências sociais e IlLunanas.
individualismo peneira nos diferenTes grupos d entro de uma a compreensão das dificuldades implicadas nesse processo ,
mesma sociedade. para poder situar a familiaridade com uma constituiram um impOrTante falor ele sensibilização para a parli·
m o ralidade caracTerísTica dos segmenTOS médios.5 cipação das mu1l1eres . vale ressalTar ainda que. mesmo sendo
Tal familiaridade faciliTOU o eSTabeleCimenTO de contalOS e de âreas do conhecimenTo distinras. tive a oporTunidade de
de vínculos ele sociabilidade com as mu lheres que parTiCiparam companiltlar com duas de minhas informantes a experiência ela
da pesquisa. Desse modo. não foi preciSo despender muito sala de aula. Em semestres e disciplinas diferentes fui colega
tempo no processo de aproximação com o grupo: da m esma de Sandra e Carla.o cllegando a discutir na presença delas e
forma . não houve a necessidade de um deslocamenTo sócio. juntO aos demais colegas os dados dc campo c também as
espacia l e muiras vezes enconTrOS casuais na saída do cinema. minl1as aná lises e interpreTações .
enconrros em parques ou em livrarias acabavam se tornanelo Essa configuração. ao mesmo tcmpo em que POSSibilitou
siluaçõcs propiCias para a ernografia. I\lém disso. a inTeração um eliálogo permanente com as mulheres sobre questões teô·
com as mulheres foi pau rada por conversas em bares c fesras ricas . metodológicas. preocupações éticas e a discussão dos
quc versavam sobre assuntos em comum. como musicas. achoclos (Ia pesquisa. também impõs urna constante vigilãncia
filmcs. peças de Ica rro. livros e rra/Jalhos acadêmicos. Nâo é epislemológica em relação ti naluralização dos valores comparo
dificil. nessas Siruações . que os parTicipanTes sejam selecionados tiltlados. bem como SUSCiTOU dificuldades operaciona is do Iraba-
entre as relaçõcs do pesquisador. nem que a pesquisa p romova 1110 de campo. ,\ familiarielade com os crircrios de cienrificielaele
a formação de novos vinculos de amizade (HEILBORN. 1992). exigidos na rcalização da pesquisa fez com que por diversas
No enranTo. além de facilidades. a familiaridade com o grupo vezes as mulheres me quesr ionassem sobre questões éTicas
pesquisado implica fambém a complcxificação da reflcxão e l.
nográfica. No que diz respeito à sObreposiçào de relações de
6 Todos os nomes próprios lIlI)izaclos corno rcfcrcncias na dcscriç.!:lo das
amizade e pesquisa. isso se Iraduz numa atenção especial ti
p<lrticipantes d<l peSQuisa sáo fictíCIOS e se relacionam com a prCQCupaçao
negociaçâo ent re pesquisadora e grupo pesquisaelo. lornan. em preservar a idcntmcaç<""l o d'-1S rlIultlercs. dado que entre das observo
diferen1eS fo rmas ele enunciação das rdações eró1ic<)s que V<1ri<1m desde <1
opção por Un1<l enul1ciaçao públiç..") (I<1S relaçõcs homocrólicas. paS5..,nclu
por possillilidaclc5 de visibilidi:tclc p<lrcial d<Is expcricncias homoerótica<;. a té
5 SObrc a es[)Cciflcidade da pcne traçao da idcologi<l indiviclualisl<1 nos sego lima postura dc 1150 iclentificaç<'io com qU<lisqucr ca tegorias classifica tórias
mentos médios. ver \'clllo (19991. l<1is corno l(;stlica ou homossc~uaL

138 139
Um olhar scxu'll na invcstigação etnogrMiCJ Njdia El is.a Meincfl

envolvidas na pesquisa . f\ esse propósito. lembro-m e de certa dO relacionam ento enlre mulheres: lendo livros c assiSTindo a
vez q ue, ainda na fase inicial da p esquisa, estava sentada no filmes que abordam relacionam entos em rc m ulheres e Trocando
Porto Bier 7 conversando com Carla sobre as dificuldades étiCas inform ações com seus amigos e amigas a esse respeiTO: além
que ela eSlava enfren tando em sua p esquisa. Corno que es - dos imeresses de esludo e conhecimcmo de uma maneira gcral.
panlada com algo sobre o qual não tinha sido informacla. ela se Elas estão em pentladas, assim. na produç.ão de semiclos acerca
dirig iu a mim c qucs lionou: Vacé não uai lIsor o conselllimCIlIQ das su as experiências na área da sexualidade, tanto nas suas
in[o nnado? Embora j á tivesse conversado com ela sobre as relações com a parceira. com o com Outras pessoas da família.
condições de sua parliCipação na p esquisa. lhe assegurado amigos gays Ou 11Cterossexu ais, e também durante a interação
que sua idenlificação seria preservada e que ap enas cu Ic ria com o pesquiS('ldor. na ob servação participame c na situação
acesso ao conjunto das informações colc tadas. mio 113\1ia m en. de en treviSla. Desse m oelo, as mulheres enlrevistadas não são
cionado ainda sobre a assinalura do Icrmo de consenlim ento apenas colabOradoras ou informanles dessa pesquisa. elas se
informado. Repus-1I1C. então. que prelendia fazer u so desse constituem como sujeitos interessados na sua realização. inclusi·
procedimeruo . e d iscu li com ela que a assin alura do lermo ve com o ObjetivO e.xplicilo de estabelecer Irocas de experiênCi('lS
conSlituía apenas um aspeCtO em m eio a Lima discussão élica de diversas ordens. De uma m aneira m ais geral pode·se dizer
mais ampla . Tal re(]c xão é elaborada por Vic tora. Knaulh e Has. que perpassa a p<lrtiCipaçi:lo de todas as mulheres a avaliação
sen (2000) e prevê que o consentimento informado deve ser positiva ela reallzação de uma p esquisa sobre essa tem ática.
pensado c omo um processo de negociação das cond ições de A fim de ilustrar melhor essas peculiaridades da interação
p esquisa. paulado p elos asp eCtos associados às relações de en tre pesquisaclora c pesquisadas. Irago alguns exemplos no
resp eito e co nfian ça que se estab elecem enlre a pesquisadora qual esse interesse pela temática se m anifestou de forma mais
e o grupo pesquisado e Culmina com a assina lura, de ambas explíCiTa. Um primeiro exemplo ê o de i',·lárcia. que se interessou
as partes. de um termo dc consentimento. pela pesquisa em vinuclc de seus planos de no futuro escrevcr
Um ou tro elem ento de familiaridade que deve ser dCStaCado um liv ro contando a Ilistório d as ITItllllcres clc suo uida . Ela diz
é que. da m esm a forma que a p esquisadora. as multleres que que conllece consideravelmente os relacionam entos entre mu ·
p artiCiparam da p esquisa assumem urna p osiçêlo de Sujeilo lheres e que tem muitas Ilistórias par<) contar a esse respeito. Su a
inrcressado pela lerni Lliça p esquisada . embora eSlcjam empe. intenção cra me contar suas Il is tórias e assim contribuir com a
nll adas na produção de oUlros seruidos \t\ UGÉ. 1999). Além de pesquisa e. ao mesmo tempo. salJcr m inha opinião acerca dos
estarem envolvidas em relações sexuais c afetivas com o Ulras seus planos pard a escritura do livro. ErnlJora m inha COntribuição
mulheres. elas re(]etem cotidianamente sobre as questões que se restringiSse a inccntiva·la, considerando a importância de

, envolvem a homossexualidade feminina . .seja do ponto de vista


POlíTiCO através elo en volvim ento na miliTãncia organizada : na
disOJssão sobre a conquis ta de direitos. co m o a uniào civil. guar·
sua inicia!iva, fica explicito que nossa interaçâo configura uma
expectativa d e reCiprocidade. Ê a consciência dessa expectati·
va reciproca em relação â conslnlção do conllccimcnlo sobre
da e adoção de crian ças; na ca raClerização das esp eCifici(Jades Ilomossexunlidade feminina que, a m eu ver, caraCleri;t..a o qu e
Oliveira (I 998) denomina de encontra etrlografico.
Num sentido um pouco ctisTimo . 6 possivel explo rar os
7 Trata-se de um /);Jr privl[egla(lo para o IratXllllo d e CiIOl[XJ. localizado no
b""rro Cidade Baixa. Que possui Vincukwção com a poplllaçw GLBT. elemenTOS que desencadeiam o diálogo com carla e Crist ine.

140 141
Nádi" Elisa Meinerz
Um olh.u sexual na invCStig.1çâO C!r1ogr.:ific,l

. es )lrilo daquela époc<l sabe. que certas


que são militantes da uga Brasileira de Lésbicas da Hegião SuL ~~:~~:I~~I~~a!":~~~~I~COCila~. mais libe radas. NOS ilm~cnlCS ~~1
EITlbora não fique claro que esta seja a molivaçào delas para c ue
I
c:' lral l sililva.àspelo menos. que em um IlCS5O<l1wcr~~ou . .'
anes c ...l cra u m pessoal. como se chz hOJc.
participar da pesquisa. suas falas evidenciam que o próprio es· ligado <l.o Icatro, ~ n'c'io ~r; carela tu ser helerossexual. mas
allc rn al1VO, e nesse , ' . 'océ se
forço da realização (Iessa pesquisa contribui para a promoçào da era meio que o espírilo da época .. o (I~e unponav<l era \
visibilidade léslJica. causa que atualmente ordena a agencia cio alJrir p ara lodos os Tipos de cxpent:ncm.
movimCnlQ léslJico IJrasileiro. O interesse lX)llliCO. prinCipahnentc
por p.:\fle de carla. a impulsiona também a conhecer mais sobre o Esse 1rccho faz. panc de uma reflexão da moça sol)re as
que tem sido discutido em lennos teóricos acerca da temática. suas experiênCias amorosas. seus relaCionamentOs. CO~ mu·
t\inda em relaçãO aos semidos elaborados pelas mulheres 'eminisros" procurando con1extual!zá-laS
Ulcres c com I10mens J' . .
acerca de suas relações homoer6ticas. para algumas das entreviS· com rclaçilo aOS grupos pelos quaiS transitava. os quaIs ac rccl!·
tadas a psicanálise. desde uma persr.x:aiva terapêutica ou mesmo tava serem sexualmenle liberados. Observo nesse treCl1~ uma
de au roconhccimenro. adquire uma expressiva relevância. Em , _ de categorias sociológicas utilizadas para analisar as
apropnaçao
relação a cssa última perspccliva, o intcresse das mulhc res em " c'as v'[v'[das que faz sentido devido aO cOntcxtO no qual
experlen I . d_
dialogar com uma -pesquisadora da área da sexualidade - volta· ela é acionada. qual seja. numa enlrevisléJ com uma pessoa. e
se para l Ima dimensão de promoção do conhecimento sobre si ~aça- o acadêmica e que de cena forma comparlllha
nlesma fO Tl L I ~ <:
mesmo. Nesse conteXlo. categOrias pSicanalítiCas são açionaelas dessa -sociologização das e:<periêncizes vividas-o Esse m~st~~
para dar sentido à narrativa sobre trajetÓria afelivo sexual. prin- lipO de renexão é acionado também em mOlTlenlo.~ d~ S0031) 111·
cipalmente no que tange à relação com as famílias de origem oas quc compani1l1am a familiaridade com
dade com OUlra S pess
durante o processo de assumir C/ 11omosse.xuolidade. , cle fomla eluc deve ser enTcndido como uma
essas categunas.
Outro cxcmplo que illlStra a renexividade com a qual as especificidade elas relações cstalJclecidas por aquele gru~.
mulheres encaram essa remárica é a explicação que Rosana ExplicitO esses elementOs para demonslra r como as 1I1tcr·
elabora. ao ser quesTionada sobre os tipOS de multlcres que ela locut~raS elo Im!Jalho aprescllIam um discurso bem.c1a~rad~.
enCOntra nos lugarcs gays. Ela se refere a urna caracterização analítiCO e reflexivo acerca da sua Trajetória_ ISSO lInphca, ~~
· de valores e de d l ~·
dos casais de gays e lésbicas a partir de um recorle 11istó rico, análise, cm defrontar·m e com uma sé-ne .
que leva em consideração elementos contextuais daquele de- curSOS dos quais comparlilho. mas que devem ser colocados
terminaelo período. Em sua cxplicação ficam explíc itoS alguns m questãO em TermoS de seu carátc r histórico e cu'turahnent~
elementos alravés dos quais Rosana da senticlo . durante a cnrre- ~elimitaClo . ~rinc;palmente no quc concerne aos va~ores e VI·
vista, também a várias de suas experiências passadas. Identifico são de mundo das camadas médias. Os exemplos IluSllô l-r: a
" I - o camf)O e Tambem
a rc ferência a categOrias tais corno -o espírito da ép oca- como )Ccificicladc das nocas estabeleCle as n
caraclerísticas ele cerlos Tipos ele anál ise realizadas a parlir elo ::' diferenles formas através das C]l lais as próprias. m~lnlercs
elaboram senlidos para as suas cxperiencias. ilS quaIs sao Iam·
" contato com leorias das ciências sociais. Dessa mesma forma.
em OUTras panes da enTreViSTa, cla se utiliza dessa mesma ca·
legoria para falar sobre o COnteXTO por ela vivenciado durantc a -:--:::-c=::-::::;;:;:;~;;.;,:;, ["or.:un cnncvlslildas qualifl(;a\"llnt $CUS cx-na~OS
8 f\tgun'l<'lS mulllCr~<; QI- c f 'millis/(lS por considerá·los maIs seno
década de oiTenta. a partir do qual e]tl s ignifica as suas experi· como /lomens difcrenl/: s ou hom ens t; " ... com,lromcndos IXlllticac ncn,c
.. os homens em geral l>enl con .....
ências scxuais e afetivas. De acordo com ela. ~~'c~o~~~cais fcmlniSlilS de t}\"o"moç~o da equicl<:Ktc de gcncro.

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14 2

Um ol har scxual na investigação ctnogrMica Nádia Elisa Meincrz

b ém m eus objClOS d e irllc rprc lação enquanTo pesquisadora. Os Já na prirneira vez que fui a um bar Gl S·r.\> m e defrontei ime·
difcrc mcs níveis de familiaridades que p rocurei eslranhar no de· diatamente com a perguma: você é enlL-'n djelo?'O Esta questãO sin o
correr da argu m emação HUSlram que o processo d e consl rução tet;7..3 a necessidade do estabclecim emo de llln POSicionamen to
(Ia altcridade passa mmlJ6m peja idemificação d e afinidades e no campo. que se refere à forma de explicitar a minha Orientaçáo
semelllanças com o grupo estudado. as quais. ao m esmo Tempo sexual e ele lidar com as inveSTidas das mulheres . 1...[uito embora
em que facilitam a inserção em campo. também pOlcncializam ntlo tivesse elúvlela do condicionamento elas minhas análises e
a reflexâo sobre as trocas estabelecidas. interpreTações. implicado no faTO de não companill1ar das m es·
mas experiendas erÓTicas que as mulllcrcs. a p rópria abordagem
3 Obseruanda a sexualidade: da sexualid ade enquanto cOllStRtção social. sob a qual não cabe
POrlicipação na reoria e na prálica cngir Cene7.3S e verdades. faz com que o pesquisador se ques·
tione sobre a essencialidade e a fixidez d e sua própria Orientação
Como referi no inicio d o capíTUlo a observação partiCipame. sexual. Fren Te a essa reOexão. e a necessidade de ocu par um
reali7..<lda em bares . boates. fesTas. passeios. feiras. na casa das lugar no ordenamento das interações sociais. aelotei como estra·
informantes. enTre outras situações d e imcração. fOI a principal tégia posicio nar·m e no campo . em relação à oriemação sexual.
técnica utilizada na cOICta dos daclos. A partir disso é importante de forma não d ecisiva. Quando interpelada a esse respeito. pro·
tecer algumas consideraçóes sobre a especificidaele ela observa. curava d evolver e explorar as queSTões colocadas referindo. ao
ção participante em relação a OUlros Tipos de obsc lvação . que meu respeiTO. que a té o momento l1avia me envolvido apenas
lambém caraClerizam OUlras formas de p esquisa. !\ diferença com homens . 1\0 m esmo lempo em que explicav;) que a minlla
fundamental da obselVtlção na pesquisa anlropológica é que ela p resença nos espaços estava rel'lCionada à pesquisa. JUSTificava
preve a participação do pesquisador nas dinámiCas que envolvem que. em virtude da realizaç<'io d esta. nflo estava disponível a
o gRIpo eSTUdado. Dessa m aneira. a disciplina assume o caráTer quaisquer envolvimentos sexuais ou afetivos.
SubjeTivo implicado na colela de dados e invesle na capaCidade do Esses elemen tos . a m eu v er. sinalizam uma das princ ipais
pesquisaelor para o eSTabelecimenTo dessa inTcraçilo. ASsim. caela dificuldades na realização do trabalt10 d e campo . qual seja a
problema de pesquisa . bem como o ripo ele relação qt te cada peso necessielade d e estabelecim ento de um m eio Tcrmo entre u
quisador eslalx:lece com o campo. Tem a sua c.specificidad e, interação total. na qual a própria posição de pesquisador apa·
No caso da pesquisa .sobre l1omossexualidaelc feminina.
um a das prinCipais especificidad es é que se TraTa d e u ma parcela
9 Signi fiGI gays. lêsbiças. biSsc."Uilis e 1r.:lI1sgêncros (lr;WcSIiS e transcxuaiS) e
da sociedade que é socialm ente marcada como desvianl C em rcfere·se à de:;:ign nçoo que vem substituir no discurso dos movimelllos de
relação à sexualidade . Porem essa m arca. que pode ser em en· reivindicaç:1() sociat c poIi' icil a antiga sigla GLS (que s.gnifica gays . lésbicas
c simpalizont eS ) Aluillmenre se dL'iCUle a m(){lIlicilÇào do ,ermo para LG6T
dida taml)ém como conSTiTutiva de um estigma. nos termos a fim de p ropmdonar umil maior viSibilklaUc socinl par.) as mul!lC~CS 110·
mossex\Jais. já que enlrC o s grupoS que lutam pclél libcrdadc d e exprcssê.o
propoSTOS por Goffman ( 1985). nfto é necessariameme visível.
c ori CnJ aç~o sc xlwl as mulheres seriam as m niS itWiSibiI17..adas.
de fonn<l que clemancJa uma cena confirmaçao e elá m argem ! O Um,,", tal pergunJa nc."SC eom cxto é uSilda como fonoa 'n.."liS branda de pergun·
tar se él mulher se relélciom eOmOUtRlS mutllCres. ,,",esse espaço tcnnos como
~) manipulação da vis ib ilidade. Em vinude disso. a pesquisa foi
lésbica c 5OIXl IO. &'\0 considcrddos c.x trcmamcme pejoro tivos em situaçõcs
oriemada pela b USca por espaços sociahncnte reconllecidos de ;1[)ordagem . s.:ndo rlliliS l!Illi7..ados com c."SC fun o lemlO5 cntendk/lr ou
mesmo ao!). \~Ite chamar atenç<lo paro uma (llSC\rSSOO m .1JS elaborada do
como v ollaelos para o públiCO Ilomossexual. te m I() ('(l/{,1Klr(/(I. que I ,ode ser enconir.xla em Cvimar.'les (19771.

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Um olh,u sexual na investigação ctnográfica Njdia Elisa t..'teinerz

renrememc se dilui e urna o utra posiçãO. na qual a demarca- que é fo rm aclD em Biologia. Dcscubro atra vés da fa cu ldade na
ção incisiva ela d iferença impossibilita o es tabelecimento d e qual ela esludou que viemos de cidades pró.'\imas. Pcclimos u m a
segunda cerveja e eu com eço a pe rceber que a Illoça se apro xim a
quaisquer relações. de fo rma que o pesquisad or se (orna um cada vez mais do lugar no qual CStou seniad<l e deLxa o braço
mero o bservador. Dessa forma. marcar enfat icamente <:l dife· resvalar por sobre o Illeu ombro. Afas to·m e um pouco e VOlTO a
rença resp ondendo às interpelações de forma a afirmar que falar no assumo da [lCsquisa . E[a faz um com entário acerca d o
nleu cabelo. eu paro .... IrellSo ... e digo a ela queacllo que ela esTá
a hClcrossexualidade acarre taria uma dific uldade d e es tabe. m e interpretando m al. Ela m e pe rgunla: . você tem namorado. náo
lecimento de relações e na reiteraçâo de uma certa opOSiçâo 6?... Respondo a ela que sim. mas que. m esmo que n[Jo livesse.
não tlaveria chance d e rolar nada entre nós. por causa cto trabaltlO.
entre norma (pesquisador) e d esvio (OIJjc lo cle estudo) a qual
Eta se desculpa. p ed e outra cerveja e sugere que conrinuemos
esse trabal ho p ropõe prOIJlemalizar. falando da pesquisa. Depois d e algum tempo chega uma m oça
Em virtude d esse posicionamento não definitivo em rela- que parece sua contlecida . AS dUilS se cumprimcntam e Débora
comCnta com a m oça que cu c e[a somos da m esma região. 1\
ção à orientação sexual. tornou-se necessário uTili zar Ou lros moça. por sua vez. exclama: . Ball Débora . mas lU s6arruma guria
m ecanismos para m arca r a p OSiçâo d e pesqu isador. de forma do interior llein! Pois é, respo l lde Dého ra. fazer o qu{:?
a reiterar a defin ição de não disponibilidade para o estabele.
cimento de parcerias. Depois de algum tempo de experiência Nessa Situação. embora eu cstivesse convencida de quc
no campo. observando as ca racterísticas das relações d e so· tinha fornecido elem emos sufiCientes de que não estava dis·
ciabilidade estabelecidas. mentei para a importância que n ela pOSTa a nenhum tipo de envolvimento afetivo·sexual du rante o
assumia o consumo de b eb idas alcoólicas . especialmente Irabalho de campo . para Débora e provavelmente para outras
cerveja . Assim. a forma mais e fetiva que en contrei de situar·me pessoas na bar. nós estávam os conSTituindo u m a parceria. ISSO
como p esqu isadora fren te ao grupo estudado . sem que isso fica ainda mais explíCitO com a chegada da amiga, à medida que
resultasse na exclusão cicie, fOi a opção por não beber. Ou seja. seus cornemários j á p anem desse princip iO e são corroborados
eu participava das b rincadei ras. conversava e ria junto com as por DélJora. No COnteXTO assinalado. não faria o m enor sentido
mulheres. porem não IJebia. A e fetividade desse m ecanismo rc tomar que se tra tava de uma pesquisa . porque pela pOStura
mos trou·se ainda m ais concreta em relação às investiclas para ad01ada. o fato de eS1armos bebendo e conversando jumas.
o estabelecimento ele parcerias. que esbarra vam no fato de eu suas inves1iclas e minl1a permanência ao seu lado forneCiam
nào beber. Entendi então que aceitar uma cerveja podia Sigo elem entos Suficientes para pressupor que fôssemos parceiras.
n ificar. de certa forma. aceitar ser COrtejada. r\ esse propÓSito O que é importante reler. desse exemplo. é que embora n80
lembro de uma Situação na qual o fato ele beber j untO com eliminasse 8 m inl18 participação nos jogos de sedução. a pOSTura
uma moça. com a qual tinha estabelecido conta to. resultou na posTc riorrnen1C adotada em relação à b ebida marcava m inha
necessidaele de descartar a possibilidade de contar com ela POSição de parTicipação diferenciada duran1e a interação.
i como interlocutora . No c!ia em que conheci Débora. a través d e Uma das p rincipais especificidadcs do trabaJl10 ele campo
\!
um amigo gaV ele Carla. falei a ela sobre a pesqu isa e convidei. n a área de sexualidade, como caracteriza Bozon (1995) . é que
1I1C para part icipar. tal como foi registrado no diário: na maioria das vezes a tarefa elo pesquisador é observar o inob·
servável. Ou seja. a observação panicipan1e . técnica essencial
Enquamo lhe falava sobre os lugares que eu eslava freqüenrand o.
Débora m e convida para tomar urna cerveja: cu aceito e nós con · para o desenvolvimento da cmografia. recai sobre um objeto
linuamos conversando. Ela me lrergunta sobre o curso e com enta que geralm ente não e passível de observação . qual seja . as

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Um olhar sexual na investigação clnogr.íficil Nádia Eli;'1 Meinerz

prálicas sexuais. Embora certas práricas sej am p assíveiS de embora eu esteja jazenclo rrabolho. Maria sente·se ob rigada
obscrvaçào. " como aquelas qu e se desenvolvem em esp aços a me inform ar que estou provocando ciúmes entre as duas.
pú bicos. este não é O caso das prálicas realizélclas entre o grupo ,\ssim. uma das princip ais dificuldades que a situação de par·
'I de mulheres pesquisado. Frente a isso. a abordagem da sexu - ceria potencial trou xe foi que a minha conclição de auulsa. in·
alidade passa a depender da descrição que os atores sociais teressada em conversar sobre sexualidade, represemava uma
fazem delas. i\ ssirn . a fala do outro 501) re sexo lo rna-se um ele· ameaça para as parcerias já constituídas . l:JQr ou tro lado . entre
mento fundam ental para o desen volvimento da pesquisa. Dessa aquelas mulheres que Também estaVam desacompanhadas . a
forma, tornOu-se indispensável compreender que a exis tência situação de parCeria potencial tornava·se proficua porque me
de diferentes formas de se falar sobre sexualidade depende dos colocava numa situaçáo de interaçâo com as mulheres. não
interlocUTores e das siluaçõcs nas quais se faJa . Isso implica que sendo assim excluída do grupo. Emllora procurasse deixar
muitas vezes a p rópria en trevista cujo lema seja sexu alidad e claro que, enquanro pesquisadora. não estava disponível p ara
p ressupõe lima intenção sexu al (BOZON, 19951. qualqucr envolvimento afetivo·sexual, muiTaS vezes na siluação
1\ esse prOpósito . lembro a situação em que volTava de de pesqu isa a conStituição de uma parceria era algo esperado
u rna boate. acompanllada de uma informante. Antes de sair do e especulada por parte das m uUlercs.
Táxi. i\'larla se dirige a mim para falar sobre o desentendimento Além elisso. creio que. ao assinalar as diferemes formas
ocorrido ent re um casal de amigas: de falar sobre a sexualidade . Bozoo (1095 ) chama atençElo do
pesquisador também para as siluaçócs em que se fala de sexu·
Eu não deveria eSlar le com ando isso. m as vou fnlar pra ver se
lU le liga. Eu sei que [U cslá fa zendo Ir'dbalho c 1<11. m as o rela·
alidade atravts ele m c táforas. ou sej a. sem que sej a perguntado
cionam c nto (1;1$ gurias é m e io com p licado. ro la muitos ciú mes. ou que se esteja falando especificam ente algo a esse respeito.
5<1.bc. Elas ficam Se fazendo de boas. falando d e re lacionamento Nessc sentido. trago alguns trechos do diário ele campo que
abcno c lal. mas na verd ade. com o lodo relacionam ento. ro la
muitos ciÚmcs. sabe o bafão que d eu Iloje. pois é. fo i por lua registram a utilização ela expressão pesquiSO como metáfora
causa. Porque a Carla tem c iúm e { te l i. ela achil que cSlfI rolando do envolvimentO sexual.
illguma coisu en lre VQCC e a namorad<.l d cla.
Certa vez. em meio a urna conversa no Circuito . '~ Aline m e
apresenta à sua <lrnig<l Verônica dizendo: Essa é (/ pessoa de
Fica claro. nesse treCllo. que o fato de conversar sobre
quem le falei. que pesquisa sexualidade. e/a é nossa eslagiória.
ques tões que envolvam sexualidaele é avaliado pelas infor·
,\5 out ras pessoas da mesa dào risada. e a moça a quem estou
manTes com o trazendo implíCiTa uma razão sexual. Por isso.
sendo apresen tada perguma: Entôo é você que lá jazendo uma
pesquisa com a mu/Ilerado? Responda que sim e. na tentativa
ele me contrapor ao tom de brincadeira. p rocuro dar algu ns
1 I Especificamcnte tromndo (k, ICfTh'uica de homo5.."Cxualida( le. trabathos corno
o e!c TerlOJr \ 1989) e vdte (2000) são exemplarcs da otlscrvaç;jo das prá1icas detalllcs a respeito do trabalho. DepOiS de algum tem po de
sexuais em espaçus pubticos como c inema,." ele eXl!)içiJo de filmes pomo· conversa com Verõnica, Aline pergunta o que a amiga achou
gráficos. Alêm doS clnem()s. pOde,se destacar mml>étn a" \~dco locadoras
pomós em PortO I\Jegrc. do,:scrilils por Bicr (2004) que. <, têm (Ia c;t.;ibiçi'lo da idéia ela pesquisa. A moça. em tom zombeteiro. responde:
de mmcs. oferecem um .. g'lrn<l de ourras possi!)iU cl<lc!cs de consumo rcla·
cionado a práricas sexual". as quaiS podem ser observ.l(!os pek,s PCSSO<lS
que imcragerll nesses CSIli.lços. Outros cSfli.lÇOS nos qll<JLS se pode oIJSCrvar
pr;'l1icas se:'<lIais sJo as saunas. lugares ele pcgaçilo (IXInhciros públiCOS e 12 Trala·se de uma bcxllC que tcm afi\~(k1OcS voltadas tl<1ril o público GLUT
fli.lrqucs) C larnbém as sala,> escuras de cerras boorcs. tocatiz."ldi:J no h<)ino CkL,de (k'lXil.

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Um olh ai S('xual na investigação ctnográfic.l Nãdia Eli sa Mcincll

a geme eslá aqui combinando qllc eu vou parlicipar quando Bataille (1986). um ceno carater de contágiO. i\:esse sentido. a
elo chegar na pOrle pró/ico da pesquisa. Em m eio a risadas de observação cios jogos de sedução entre as mull1eres não põdc
loelas as pessoas na mesa. a m oça se vira na minha direção e ser observada sem a parTicipaçâo neles. Ou seja. foi exatamenlC
complela , Tô brincando lá. nõo leva a sério. fazendo pane dos jogos de seduçfto enlre as mull1eres que pude
Numa siluação como essa. em uma m esa de bar. fica aprender so[)re eles. Essc talvez seja um dos motivos que faz
evidenle que as mulheres eSlão significando a minha conversa com que a observação panidpanle seja uma técnica tão cstimaela
com Verônica como uma espécie de flerle, caracterlslico de na anlropologia. pois ela permilC que. parlindo de interações e
uma siluação de conquisla sexual. A naliso esses exemplos relaçõcs in terpessoais de caráter subjetivo. se produza (através
como extrernamCn1 e ilustrativos ele uma forma acionada pelas da ol)servação ele recorrências de classificação e apreCiação)
mulheres para falar de sexualidade num ambien1e publico atra· elementos objelivOS acerca da configuração cstuelada .
vés de brincadeiras e provocaçócs verbais. i\:csse conlexto. i\:essc senlido, ~'Iachado (2003). pesquisando sobre as
as considerações ele Bozon são fundamentais para orllendor representações masculinas acerca das decisões sexLlais e
aquela forma de falar de sexualidade e me posicionar no campo reprodutivas. também se de fronta com essa especificidade
não de m aneira a fugir das brincadeiras. e sim explorá· las como da pesquisa emográfica na área de sexualidade e gênero. No
metáforas ulilizadas para falar sobro sexualidade. contexto estudado pela aUlora. além da possibilidade de inves·
Esse exemplo demonSlra que a minha inserçâo no grupo tida sexu al. que caraCTeriza a siluação de en trevisla. o fato da
e o fato dc estar fazendo uma pesquisa sobre sexualidade pesquisadora "ser uma mulller pesquisando entre 110menS-
era em si uma oponunidade do grupo de falar sobre sexo. Da implica um tipo de inleração especifico que inrorma sobre as
mesma forma. ao me apresenlar como nossa eslagiária. r\linc relações do gênero construídas enlTe os suj ei lOS pesquisados.
está usando o Terrno eSlagiária de forma a jogar com uma poso segundo a autora. "a relação que se estabelece em campo
sivel ambigüidade acerca da nossa relação. Esse j ogo com a (devido a expeClativas de gêner01 indica elementos como: as
ambigüielade fica expliCitO no momento da cllegada de oUlTas posições ocupadas. os espaços p ermitidos. os constrangimen·
mull1eres às quais também sou apresentada. Urna delas per· Ias gerados. as dificuldades em falar de cerlas questõcs em
gunla: Como assim eslagiória. ela Irabalho com UQces? E Uvia detenninados m amemos" (M/\CH/\DO. 2003: 37). A panir disso.
respondo : Ela e5/lIclo homosscxlIolidadejeminina e nós eslomos as próprias esco1l1as metodológicas passam a ser orientadas
ensinando limas coisinllOS pro cio o esse respeilo. Assim. ao pela configuração de gênero. apreendida na experiên cifl ema·
mesmo lempo em que ela está comunicando às amigas que gráfica. Da mesma forma. no que conccrne à pesquisfl sobre
está me ajudando a encontrar oultas pessoas para parTiCipar homossexualidaclc feminina. as estratégias metodológicas
ela pesquisa. ao usar o termo eSlagiária. ela insinua que nesse pautaram.se pelfls expeclativas de genero e pela situação de
assunto. elas estão me inSlruinclo . parceria potencial que caracterizmam a pesquisa de campo.
.... Dessas considerações resulla que a pesquisa sobre a lemá- Desse modo. entendo que fazer clnografia sobre a temáTica
tica da sexualidade. ao contrário da neutralidade e objetividade da sexualidade nos coloca fronlc a essa "von tade de saber".
das técnicas ele mensuração e codificação em índiCes eslatísli· que é caracteríslica da forma como a nossa sociedade lida com
cos reivit)elicada por seXÓlogos como Kinsey. Mastcrs e Johnson essa questão . Ela se expressa Tanto no campo empírico quanlo
(oplId ROB INSON. 1977). implica sempre. corno argumenta no diálogo com él comunidade inTelectual. de forma a pressupor

150 151
I' Um o lh ar se)(ual na investigaçjo ctnogrAfica Nádia EliSJ Meincrz

sempre essa potenCialidade ' contagiosa". re ferida por Bataillc beres científicos e por técnicas ele autoconhecimCnTO. e reve·
( 1986) . Ela se expressa laOIO na avaliação ( Ias "rcais· in tenções lada para que sej a reconhecida pelo próprio indivíduo e pelos
da realização da pesquisa. quanto nas intençôcs c expectaTivas outros. A re flexão sobre a suspeita acerca das reais intenções
de Iroca sexuais relacionadas ao fala de "falar sobre sexualidade" da pesquisadora ao estuelar detCrminada tem~lIica endossa a
que se colocam no campo empíriCO. argumentação de Foucault \ (979) segundo a qual a sexualidatle
é uma esfera privilegiada da construção idcntilária. inclusive da
4 COnsiderações finais identidade de pesquisador. Afinal. como se c xplicaria o interes·
se no estudo de tal tcmáTica senão da própria sexualidade do
Finalizo esse capírulo como algumas consideraçôes acerca sujeitO? Encarando essa perguma, o ICXIO obj elivou evidenciar
das reflexões propostas pelas siTuações ernogr1lficas apresenta. a -von fade de saber" a verdade sobre o inTeresse do sujcilO no
das. Sugiro que elas sej am entendidas como expressivas das estudo da sexualidade qu e penncia o campo cientifico.
tensões e incertezas enfrentadas no aprendizado do oficio cmQ- No que concemc à orientação mctOClológica. gOSTaria de
gráfico. No entanto não avalio eSTas incenczas como limitadoras retomar alguns elem entos do duplo cará1er da experiência
do trabalho. pelo COnt rário, cncaro-as como um instrumento emográfica (cstranhamel11o e familiari zação) que implicam na
impresCindível para o pensamento. Concordando com a arguo conSTrução do ou tro e ao mesmo Tempo d e si m esmo. O primei-
memação de Louro (2004). avalio as dúvidas e incCrte:.-..as como ro deles é a necessidade d e adminiSTrar a SiTuação de parceria
uma esp écie de -gatilho para a invesligação-, o qual é respon. poTenCial que se coloca nos espaços de sociabilidade e de busca
a
sável pelo estimulo busca cOnTinuada do conhecim ento. por parceiras . Ou seja. além de uma pesquisadora imeressada
I\s questões apresenradas acerca das familiaridades e dos no estudo da homossexualidade feminina. no campo. eu era
eStranl1amenros com o gnJpo pesquisa elo foram selecionadas também uma parcCira pOT enCial. AO invés de pensar nisso
porque são expressivas elos dilem as epistemOlógicos e estra. como uma dificuldade. eu p rocurei explorar essa condição para
tégias m e todológicas que pautam o trabalho ele campo sobre apreender sobrc as formas como as parcerias se conSTiTuíam :
sexualidade. Chamar atençào para tais situações c para o per· foi através da partiCipação nos jogos de sceluçâo c conqu iSTa
cu rso da pesqu isa de campo me parece fundamental p orque das mull1ercs que fi zeram pane da experiência e tnográfica que
permite uma objetivação da experiênCia etnográfica à medida eu puele apreender as práTicas e o s Significad os relacionad os à
que tal p roceelimento fOrnece elemenTOS para uma leitura crílÍca conSTiTuição (Ja parceria l10moeróTica feminina.
dos dados cole tados c elas imerpretações realizadas. Um Oulro aspeCTO para o qual procurei a tentar foram os
1\0 p ropor que se discUla a pesquisa cienlifica com o uma diferentes níveis (Ie familiaridade implicadas na relação com o
modalidade de e.xperiencia m oral. refletindo sobre as implica. grupo pesquisado. DeSTe modo. emendo corno fundamenTal a
ções leóricas. hiSlóricas e polilicas do emprego de determinados proposiçúo de Aug6 ( t 999) acerca cios senT idos dos OUTros. a

l conceitos. sugiro a necessidade de relativi zar a forma corno


a nossa sociedade el~J sent ido à homossexualidade. Ou seja.
IOrnando a sexualidade como um elemenTO que con cemra a
verdade sobre o sujeito. a qual deve ser investigada p elos sa.
qual prevê a importância ele se levar em coma o que os Oluros
pensam sobre as suas relações (sobre as quais o pesquisador
se dedica) e o macio como eles elaboram semielos acerca da
relaçé:10 com o pcsquisaelor.

152 153
Um olhar sexual na invcstigaçâo clnogrMica Nâdia Eli sa Mcincrz

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muiras mee/idas: Um estudo antropológiCO sobre as represelllo ·
ções masculinas na esfera das decisões sexuais e reprodu/iuas'.

E.'ile texlO t: parte de minha disscrt•.1ÇiJO de Illestrdrlo (Mactlado. 2(03). (jcfcn·


did,1c m janeiro etc 20(H·. no Programa dc Pós·Craduaç50 em AntrOpotogia
Sociat diJ UniverSidade Fcdcra t do r~io CWllcle do Sul. SOl) orientaçáo etn
Professora Dra. Oanielu niva KnaU!h. A pesquÍS<, foi rcalizad<l com recur~os
elo Programa IntcrirlSlilucional de Treinamcnro em Mc todologia de pesquisa
em Gt::ncro. Sexu<lli(!adc c Saúcle I~cproduli\'a promovido peto Programa
de ESludos c F'csquisas em Gênero. Scxu<ltidacrc e S'.lúetC/IMS/UERI com
<tpoio d;J Fund,1çitü Ford.

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Entre homens Paula Sandri l1~ Machado

leve como objeto d e invcsligação as represenTações e práli. algo que passasse desperceb ido durame o lraball10 de campo.
cas sociais de homens perTencemes a segmenTos populares, Esse elemenlo, somado ao fal a d e se 1Talar de urna pesquisa
m Oradores de uma vila (favela) da periferia d e Poria Alegre. no envolvendo o lema da sexualidade. provocou muilas re Oexôes.
que concemc às decisões por m étodos de prevençElo. sej am sobreluclo m elodológicas. acerca dos "espaços de gênero" na
eles paro evitar gravidez ou DSTs. Para a pesquisa. foram en. pesquisa anrropológica.
trevistados dez homens. com id ades COfre 20 e 30 anos, qllC O objetivO d eslc capitlllo é, assim . explici tar algu mas
referiam Ic r prálicas sexuais preferencialmente he terossexuais. das escolhas m elo dológicas rela livas à m inh a pesq u isa de
Além das em revisras semi-estruturadas. Também foram realiza- m estrado . apontando para as especificidades encon lradas
das cmrCviSlêlS infonn ais e Observ ações em espaços de socia- durante seu processo. Vincu lo a discussão m e todológica a
I)iliclade m asculina. especialmeme o Bar do Zé lbar localizêlclo cerlos elem enros que comextualizam o universo social no qual
na vila, que também funcionava como minimercad o) c o ClLlbe estavam inseridos o s Ilomcns qlle compuseram a p esquisa.
Campeão (local no qual os homens se reuniam para conversar. demarcando os esp aços que comparl ill1ei com eles e o cami·
I)cbc r, organizar campeonatos de futebol e carreado). O nome n l10 percorrido dl lrant c a diSSert ação. Desde já. é importam e
desse~ locais. bem corno o das pessoas indicadas, sflO fiCtícios . ressalt ar que as parlic u laridades m etodológicas susciTadas no
para preservar seu anonim alO. decorrer cio lraballlO cle campo foram extrem am enre revela·
Nas anolações do diário d e ca mpo. há urna passagem doras do p ró prio obj eto ela pesqu isa.
I)astanrc s ignifica tiva que rem eTe à panicularieladc d c negociar Iniciarei descrevendo minha inserção em camp o . d elimi·
cm ca mpo o fa to de ser uma pesquisadora mulher inreressaela lando a meto d ologia que norteou o est udo e s ituanclo o m eu
em questões envolvendo masculinidade. zé. o dono do l)Qleco lugar como pesquisac!Ora mulher em um universo de pesquisa
onde eu fazia as observações. estava m e ajudando a encontrar que encerra asp eclOs rela tivos à m asculinidade. Em seguida,
a Casa d e u m d os l'lolllens indicados por Outros para m e dar discutirei as questões envolvendo pesquisas amropológicas
uma en trevis ta . zé reforçava: seria bom III emreuislar ele. Ele lem em sexu alidadejuntamem e com aspectos que dizem respello
um gurizinllo doenle. sabe? Enrão. pergunrou se eu enrrevislava às relações etl1re OS gêneros. Darei seguimc mo a este pom o
qualquer pessoa. porque. segundo ele. leria umo moço. aqui analisando as dificuldades e os o bstáculos en<:ontraclus no
[peno ele s ua casa l. Ql le eu acho Que lem uns 20 anos. e é meio p ro cesso ele con slrução de redes ele relações entre h omens,
louqtún/lCl. sabe. Seria bom lU falor com ela.~ Percebendo a m i. aliando a discussão m e todológica a uma reOexão sobre a
nha reação ele surpresa. e ap roveilando para caçoar de mim. especificidacle d os traballlos qu e envolvem h omens. Final·
zê soltou, logo em seguida. uma boa risada e disse: Mos é só mentc . apresenmrei as estratégias utilizadas para conrornar
COIlI os homens. O leu problema sâo os homens. as dificuldacles. bern com o alguns imrasses que não foram
Evielc ntcmenrc que ser uma mulher tenelo como prOblema solucionados. propondo a lgu mas queslôes m eto d o lógicas

- de pesquisa a masc ulinidade e estudando hom ens nunca foi

2 Quandu Zé m cnciona que seria interessamc cu cnncvislilro pai elo gwil.inllo


p ara o ca mpo de es tudos das m asculinidades.
l\nl C5. aprescnrarei rapidamente o contexto geo gráfico e
social n o qual sc d esenrolou a pesquisa . Ê imporrame leml)rar
(/rx~ll": c a moça Iovquinho . cte esrá se rc(crinclo . além cUsso. ao faro dc cu que a d eSCriç80 condensa impressões de duas epocas distintas
ler rratXJlllaclo como psicóloga no PostO de Saude claqucla regláo ames de
rer rrnc iado o trabalho de campo. o Que será mcltlor explorado adlanre. de minl1a formação: a p rimcira. como PSicóloga. lTélballlando

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Entre homens P.1ula 5Jndrine Mach3do

no posro de saúelc local. vinculada ao ProgratTl3 de !'lesidência de minhas decisôes m etodológicas: Onde podiam ser feitas as
Inregrada em Saúde Coletiva. oferecido peja Escola de Saúde entrevistas? quandO? Quem podia fa la~ Quem poderia e deveri3
Pul) lica do !'lia Grande do Sul (de janeiro de 2001 a fevereiro de esrar presenTe no momenlO da enrrevista?
2002): a segunda . como m esrranda em Anrropolog ia Social na Em relaçãO aos m oradores. pocIe·se dizer que constiluem
Universidade Federal do l"lio Gronde do Sul (de setembro de 2002 uma populaç~o de baixa renda. MuÍlos deles sãO amigos e acom·
a meados/ final de 2003) . Com essa ressalva . espero rambém panharam as rransformações da comunidade. corno as lrocas
esrar introduzindo minha au ropercep ção de rer ocupado, c omo dos nomes de lUas, a ampliação do Posto de Saúde, as briga5
pesquisadora, um lugar de duplo estranharnenro: não apenas o elas associaÇõeS comunitárias, entre OUlros aspectos. Ressalra·se
de ser uma mulher entre Ilomcns. mas taml)6m o de ser uma a constituição de redes de relações densas. que envolvem con·
psicóloga enrre antropólogas e antropó logos, sangl'linidade, afinidade. sociabilidade e reciprocidade lKJ""Jr\Un I:
Em primeiro lugar, 6 preciso apontar que esrou conside· vierORA: LEI\L. 1998: FONSECA, 2000). Muil0S são os ·co·
rando a vila. espaço social em que conviviam os homens que nI1 ecidos~, de onde eu suponl10 que partiSSe a curiosidade em
compuseram o universo empíriCo de m eu estudo. como uma sab er quem eu já havia el1lrevistado. quem seria o próximo. r\S
~comunidade· 3 tipica de segmentos populares ,' Qu anro às ca· mulheres. além disso, e diferentem eme dos homens, tenravam
racterísricas físicas. pode·se considerar o espaço como clividido acionar suas redes para m e ajudar: TlIjó entrcuÍ5lou aquele rapaz,
em algumas granetcs ruas. OUlras de pequeno e m édiO pOrle e o filha da ~fll/(ltla ·'T' Essas redes. por outro lado. representavam
um sem número de becos. Alguns locais são asfaltados. espc. um grande controle social. exercido fonemente (X)r meio da fofoca
cialrnenle as ruas p rincipais. Ourros, elllreranto. são de ~chão (FONSECr\, 2000), rema que não será aqlli explorada.
balido·. assim como a quase rOlalielade dos b ecos. As casas. Assim como as vilas adjacentes, o lugar anele foi reali;r.a·
de f'nadeira, alven aria ou m istas e, em sua maioria. com poucos da a p esquisa 6 conl1ecido. especialmcll1 e arravés ela m ídia,
cômodos, pOdem ou n8.o ser ocupadas por famílias numerosas. por sua relaçãO com o tráfico de drogas e pelas dispulas cntre
Há , ainda, uma tendência a existirem terrenos nos quais residem gangucs.o Em função do forte estigma ligada a essa questão,
vários parcllIcs e agregados. que constroem casas separadas. fui p ercebendo que, se por um laelo, os informantes me davam
Esse aspecto apenas reforça urna caracteristica já amplamente ~conse lllos~ no senrido de me protegerem dos lugares ~mal
dCscrila sobre gnJpos populares no Brdsil: a proximidade que freqüentados· ou de me alertarem dos riscos em se fazer uma
sc csmbelecc emrc os moradores , taOlO no sentido fisico com o pesquisa como a que eu estava m e propondo. por OUlro fa ziam
no do convivia, e a estreita relação social cntre as p essoas questáo de apontar como, ali . as coisas jÓ foram piores .
IviCTO!'lA 1991 : KNt\lITH : VÍCTOHt\: LEAL. 19 98; FONSECA Os ~conselhos" sobre como lidar com a criminali(laelc eram
2000: P1CCOLO, 200 I ). Tudo isso foi fundamental para problc. elados sempre com alguma indicaçãO acerca dos luga res impró·
m i'l tizar a queStão e[o tempo e espaço social. c m esm o algumas

- J

·1
o [em10 'comunidade· é empregado. i1quL como o fa7.em os profissionais do
Posto d e Saúde: no sentido d e lima área gl..'Ográlica adstrita d e aluilÇé"Io.
P'ilra ullla dlscuss;'\o m ais delaJl'lilda sobre grupos tXIIXllares no contexto
braSileiro v<:r. entre OII1rOS. Claudia FonSt,.·G1 (2000) e Luiz F<:rnalldo Dias
r
'-'

6
O vim.'l. llo esmlx:!<:ciclo com as mulheres duranre o trabalho de campo foi
1)i.lsJalue vori.;.I((o e nem sempre crd t&o ' Ir.)nquilo ' . Se. por um rado. <llgOlllas
rc!;)ÇóCS er.lm (Ie prOl eç<'to e lamlX:tn de ajuda ao p róprio Ir;)/)<lll1o. como
descrevi, por outro larT'llJCm eram freqüenteS reações de ciúmes e/ oll cle
d esafIO dessas m \llheres dneClOrlo.'l(litS a mim .
mrd um<l (lcscnç;lO mais (\emlhada da reraç:to eleSt3 vir" e ro mum(/adcs
.

t)u<lne t 19861. vizinhas com o 11$0 e m:'lfico (Ie (trogas , ver Piccoro 12001).

160 161
Entre homens Polut.l Solndrinc ... tachado

prios a urna rnu!tler e. mais esp ecificamente. a uma mulher de m e causaram muito incômodo e um pouca de medo. Afinal. não
fora. 7 Os lugares permitidos e proibidos também eram definidos estava mais indo ali para fins de intervenção TerapêutiCa e ni lO
por um a espécie de divisão geográfica dentro da própria Vila . m e sent ia. naquele m am emo. protegida pela que representava
ASsim. há uma diferença en tre morar/ ser da pane de cima ou o jaleco. Por outro laclo. ainela estava aprendendo e entendendo
da parre de baixo. de um lado ou do outro. No cntanto. mais o fazer e o pensar própriOS da antropologia. ou seja . sent ia·m e
que árcas geográficas estanques. esses lugares são territórios desafiacla a pensar aquela realidacle clesde um Outro lugar.
simbólicos que vão sendo demarcados e que são ótimos inclica· Mesmo não estando mais vinculada ao l=>osto. volTa e meia
tivos das avaliações morais aTribuídas aos ouTroS e a si m esmo. era surpreendida pela denominação de dali/ora: ora a dotllora
t\ região localizada na pane superior da Vila é apOntada como do posrinho. o ra a doU/ora que fazia uma pesquisa. O dono elo
mais perigosa. Algumas pessoas que não se consideram m o· bOTeco onde cu fazia observaçôes. inclusive. sabia que cu llavia
rando nessas imediações associam os homens ou lugares aí traba1l1ado no pos/inl10 e me apresentava para os outros dessa
localizados a uma possível ligação com atividades iliciTas. Já as forma: Uma moço qtlC fazia limo pesquisa paro o ULBRt\ tele
gurios lá de cima muitas vezes são avaliadas como as oferecidas. tinha plano de saúde pela UL BI'V\) e que 'inho sido pSicóloga
ou seja. que ficam paquerando os Ilomens sem qualquer tipo cio Pos/in/1o. Ser PSicóloga e tcr trabalhado n~ Vila abriu alguns
de "recato". sejam estcs comprometidos ou não . caminllOS e ajudou na abordagem de assuntoS envolvendo re·
t\S clivisõcs. de caráler aparentcmente objetivo. como cima lacionamentos amorosos. sexualidade e reprodução. t\credito
X baixo ou cio lado de 16 x do lado de cá. eSTão baseadas em que a eSCUTa psicológica também me cleu tranqüilidade para
criTérios que variam conforme a Situação. Não é possível sal)cr lidar com clctermlnadas siTuações do Trabalho de campo. onde
exatamente onde começa o lá em cima ou o aqui em baixo. por os informantes m e teSTavam Ou UTi!iwvam est ratégias de sedu·
exemplo. '\0 invés de limites territoriais claros. o que essas ca· ção. Foram dificeis. contudo. as circunstânci<Js n<Js quais eu via
Icgorias definem são determinados tipos de oposição. já que o claramente que me era dirigida uma demanda por imervenção
que está em jogo é juStamenTe uma diferenCiação moral quandO psicológica. Nas vezes em que isso aconteceu. ofereci minha
se u tilizam referências como essas. escuta. tenTei ajudar em lermos de um encaminhamen to para
profiSSionais elo pOSTO ou dirigindO a queixa à rede de relações
(Rei Inserção no campo da pessoa. procurando deixar clara a posição ele pesquisadora.
Isso sempre era um procedimentO muito delicado.
DuranTe um ano e um mês. antes do m estrado. percorri O O que devo clizer é que logo os primeiros contatos anun·
espaço da Vila como PSicóloga do POStO de Saúde. Aproxima· ciavam alguns desafios e possíveiS enlraves para a pesquisa.
damente meio ano depoiS. sem o avental branco e o amparo ela Prol)lematizavam. ainda. e de forma muito clara. a concliçào
InstiTuiçf\o de Saúde local. retomo para realizar m inha pesquisa. do encontro etnogri lfico corno um constanle processo de ne·
Essa nova situação foi de fato um desafio e as primeiras v isitas gociação. Em primeiro lugar. a negociação elo contato com os
informantes. marcada po r um es tranhamento fundamental c
inegável: o de ser urna mulllcr estudando os Ilomens e suas
7 A forma como essas orienrações eram fornecl<:lils pelos homens poso vidas afetivo·se.xuais e relacionamentos com Outras mulheres.
suem. a meu vcr. suas peCuliaridades. à medida quc informam sobre as
rcJilçõcS de gcncro.

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Entre homens P'-lUla 5;!ndrinc /I.'Iachado

Em segundo lugar. com o já referi. a negociação com m inhas ter p ossibilitada uma experiência subjetiva fundam ental. quc
anligas cenezas e nal uralizações como PSicóloga . se apresentou como rico material de análise , sobretudo no
I~ cerlo que a pOSiçilo de ser "uma mu lher eSTudando ho· contexto em pírico no qual se inseriu . Parto. dessa forma. do
m ens" também m e Irouxe uma série ele vantagens. à m edida pressupostO ele que a subjetiv idade e a expressa0 dos senti ·
que eles situavam. a todo o momen to. para mim. caracterís ticas mentos. tan tO minha quanlo daqueles com os quais convivi.
ela relação hom em/mulher e reprodu ziam com igo. em pane. possuem uma dimensão coletiva e que informam , portamo.
aspeclos ela construção da identidade m asculina indicacla no en - sobre as relações que se eStabelecem em determinadas con·
cont ro com uma mulller. como também observa Simoni Guedes figurações sociais (M/\USS. t 98 1I,
( t 9971 em sua pesqu isa com lrabalhadores no Alo de Janeiro. A esse propósito, Mariza Peirano (1995 ) aponta como O
Não tive auxiliares de pesquisa hornens para poder contrapor confronta com a experiênCia do OlurO provoca . inevitavelmen·
as informações. mas tenl10 a impressão ele que detem 1inados te. no pesquisador. efeilos emocionais e inteleCtuais. Há um
asSun tos puderam ser acessados de forma peculiar por eu ser eStranl1am cmo v ivencial e teórico que fa z com que a etnografia
mulher. Isso pode ser ilustrado pelo fato de que os hom ens. dependa . em úhima análise, de uma série de fa to res, dentre os
embora também salientassem. em seus discursos , aspectOS téc· quais a b iografia daquele que a desenvolve. Existem lugares e
nicos envolvidos na interaçóo sexual - o ferecendo, por exemplo, valores que lhe vão sendo atribuídos e que silO extrem am ente
detalhes em relação à prática sexual - (LE/\L. 2003). recorriam revelado res, segundo VClt10 e Kuschnir (2003: 9). elas Mcrenças
com sem ell1ame intensidade aos sentimentos envolvidos nos e represem ações d os integram es do l miverso invest igado
relacionam enlos e na família, às magoas em relação às mulhc· acerca do mundo sociar . Especificamente em se tratando de
res . ao m al·estar fruto das COntradiçóes vividas por eles. uma p esquisa que buscava compreender a esfera elas deci·
Por Outro lado, a diferença de sexo colocou cenas qucs· sões sexuais e reprodutivas. o encontro emográfico permitiu
tões. Não foram raras as negativas, os acessos barrados e os captar asp ectos indizlveis da vida cotidiana das pessoas que
códigos não COmparTilhados comigo. Com m uita clareza , os escrutinavam uma ( Ietcrminada realidade social e que remet iam
informantes m OStravam que a presença de uma mulher entre fortementc às relaç ões entre os gêneros.
homens elcvia ser cuidadosamente avaliada e eslava longe de Oemrc os elementos considerados para a pesquisa. além
representar relações tranqüilas. Esse cstranl1arnento elespo n· da Mdifercnça entre os sexos", um dcles foi a idade dos homens
tou corno elem ento fundam ental na pesquisa e Situava a mim, que seriam entrevistados. I\ ssim , a elcição da faixa etária dc
pesquiséldora mull1er, no tral)all lO de campo. 20 a 30 anos nilo foi fortuita, senilo que representou uma op ,
ção m etodológica para contornar o fator geracional. ou seja, a
2 AS escolhas m elodológicas diferença de idacles, que poderia conSlituir m ais um entrave na

, 1\ pesquisa sol) ro a qual m e refiro adOTOU a etnogra fia


relação pesquisadora·pcsquisados , que não apenas aqucle já
aventado cm relação à diferença de sexo. Ê necessário ressaltar.
cot1!lIelo, que ao ut ilizar CSS;l estratêgia c dar preferência à prO'
com o m etodologia central de aná lise c inves tigação , seguinclo
a traelição inaugurada por ~Ia li n owsk i ( 1976) . r\ importância ximidade etária com meus entrevis tados. ao mesmo tempo dei
ela eTnografia para essa p esquisa sobre masculinidaclc e de· mais visil)ilidade à negociaçãO estal)Clccida com uma muI!1cr da
cisões sexuais e reprodUTivas foi. entre OU lras razões. a ele m esma f()ixa de idade, o quc TrOUxe implicações, espeCialmente

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Entre hornens Paul a Sandrine Machado

para OS con tatOS estabelecidos lanlO com OS l"lornc ns corno com Algumas entrevistas acal)aram acontecendo na própria casa
as mulheres. como será probJema rizad o adiante. do entrevistado. d emro dela ou no pátio. com a presença ou
Essas estratégias acionadas em campo. para COnIornar não ele familiares . Em outra ocasião. fui ao local ele trabalho do
falores como as relações de gênero. O fat or gcracianal. a ciro infonname e. em um caso. a conversa aconteceu na garagem
culação em espaços maSOJlinos. entre OLL1ros. conferiu uma do dono do IJoteco. situada ao lado do mes mo.
dinâmica esp ecial ao Ir31)31110. Essa movimentação em campo Para a olJtenção dos informantes . eu tinl1a a expeCta tiva ele
foi fundamental para a pesquisa. à m cclicla que a diversidade me inserir cm tres redes de relações.~ visando com isso abranger
das siTuaçõcs vivenciaclas. tanto em COnTextos majOril3riamCIlIC uma m aior diverSidade. Essas red es. as quais julguei variáveis
masculinos. como femininos e mistos. enriqllcceu a qualiclade entre si. foram ielentificadas (Iurante o traballlo de campo. i \
da observação participante. Nela. o obscn'adOr. de acordo com primeira d elas scria formada. de acordo com a representação
Howard Bccker (1994: 471. Mobserva as pessoas que está estu. local. por rapazes fraba/Iladores ou respeiladores. A segunda
dando para ver as siluações com q ue se deparam no m,aJmemc seria formada por aqueles identificados como malandros c.
e como se comportam diante delas" . quanro à terceira. imaginei que puelesse ser composta por 110 -
No caso da minlla pesquisa . devo apontar, üinela. para o faro m ens maiS velllos. com empregos fixos. inseridos em rede de
ele que desele a entrada em campo pereCi)! que os informantes soCial)ilidacle rest rita ou mais famili ar.
anunciavam. cons tantem ente. o m eulugé"l r ele muJt1er. condição ,\ última rcele definitivam ente não vingou e as outras duas
esta que não passou - nem deveria passar· despercebi ela nil serviram com o indicadoras de definições êmicas sobre as cli·
análise e escolhas meTodológicas ela pesquisa. Conforme aponTa ferenças entre os homens. Assim . os malandros DlI pagodei-
Teres.::"l caldeira ( 198 11 . a suposta neutralidaele e objetividade ros e os /rabo/hoc/ores d efinem·se sistematicamente u ns em
c ientífica são ilu sões e o observador não ê nunca uma "m osca oposição aos OutTOS. Enrretanto. essas categorias são fluidas c
na parede-. Dessa forma. foi fundam ental dar atenção à relação relacionais. d ependendo de corno cada um se classifica. tanto
Ilomem/ mulher e aos elememos envolvidos na consTrução ela que o prim eiro informame d a rede dos ditos /rObo/lloclores foi
masculinidade aCionados nesse comato. Essa relação que se justamente encontrado sem estar "trabalhando-. o que sinaliza
eSTabelece em campo indica elementos como: as pOSiçóes ocu- que e,,,i5[em OLmos fatores. além de um traballlo remunerad o.
p adas . os espaços permitidos. os conStrangimenros gerados. que poelem definir um homem como traballlador ou n ão.
as dificuldades em falar sol) re certas questões em d e tcmlinados A partir das red es de relaçôes. o próximo passo seria o
mamemos. só para citar alguns exemplos. d e selecionar os informantes por snowball. técnica pela qual
,'té m esmo a c.',>collla d os locais mais apropriados p ara cada novo informame indica os p róximos para partiCiparem
a realização elas entreviSlas foi p ensada a parHr da percep . da pesquisa. t\ técnica da formaçãO de redes JXlr snowboll. n o
ção dessas relaçôes ele gcnero. Assim. procurei combinar os entanto. m OStrou ·se falha no processo de pesquisa . Os infor·

1
encomros com os ent revistados em loca is mais -p(II)licos". mantes seguidam ente me apresenmvam argumentos. d esculpas
como a sede do Clube Campeão e uma escola loca!. pan inelo
do principio de que eles garamiriam certa privaCidade sem su .
8 De acordo com viclora. Knaulh c Hasscn. "'AS redes de relações sociais $ili)
gerir uma demand a por relacionamenro a fCTivo. No entanro. O u m conjunto especifico de vinculos cnlre um con}llnto espcdfi~o de [}Csso·
as. c a..<:; cilraclcris ucas desse conjunto podem ser usadas para Illlcrprel...r o
percurso do trabalho foi inelicando novos rumos e estratégias. compon<ltncmo social das PCSSOOS c lwoIvickLS· 12000: 681.

166 167
Entre homens Paula Sandrine Machado

c preocupações para indicarem um amigo Ou conl1ecido . Bah. dade . estabeleçe·se com isso uma implicação fundamental : os
é dificil era normatmcme a expressão que Cu escUlava logo ao significados atrilJuídos à sexu alidade são mais importantes que
final das enTrevistas quando solicitava uma referência. Mesmo a m ensuração do comportamento sexual t,\LTM:\J~. 1993). Além
buscando constituir redes em diferentes COnTextos. como o bar. disso. quandO categorias como homossexualidade. bissexua·
o clube. jogos de futebol e shows. dar um scgui merl10 a elas. lidade e heterOssexualidade são entendidas como constl1Jíclas
de forma linear e cOr'l1ínUél. foi sempre uma dificuldaclc. i\credito socialmente c apenas ambiguamente ligadas ao componamenlo
ser essa uma queSt[lo metodológica imponanTc. para a qual (GAGNON: P/\RKEH. 1995). e preciso criar recursos metodológi·
dedicarei uma reflexão mais aprofundada. cos para dar conta deSTe faTO.
Instaura.se. ainda. uma prolJlemática meTodológica qlJe
3 Pesquisas antropológicas envolvendo parece inerente aos estudos de sexualidade e que pode ser
sexualidade resumida no título de um artigQ de Bozon (1995): Como Ob·
server rinobseruoble? AS formas de obselVação clássicas ela
o desenvolvimCnlO das pesquisas em comportamento antropologia não são adequadas e n em m esmo possíveis para
sexual foi. de acordo com Michel Bozon (2002). um efeiTO ines· acessar algumas práticas nesse nível.
perado da epidemia elo I-!IV/t\J()S e as m esmas consTiTuíam·se A todo o momento. essa fo i uma preocupação e um limite
principalrnCntc com o objelivo ele traçar c avaliar as POlíticas da pesquisa. A forma de fazer as perguntas c de m e movimentar
de prevençào da infecção. r\ epidemiil acabou juslificando pelo roteiro de entrevista. adaptada a cada novo entrevistado e
um -falar- sobre a sexualidade. influenciando. portamo. o sur· a cada nova situação. leve a pr(;:Tensão. portanto. de ser capaz
gimento de metodologias mais -objetivas- e a aproximação de evocar nas pessoas aspeCtOS -indizíveiS-. ford das normas.
epidemiológica do lema [BQZQN. 1995).1\ tentativa de rnen · acompanhados ela contextu alização dos comportamen tos e
suração. especialmente levada a cabo p ela biomedicina. ainda elos sentidos atrilJuídos às práticas envolvendo a sexualidade.
hOje tende a considerar i) sexualidade como um conjunTO de Somada a isso. a abordagem das represcnlélçõcs e práticas acio·
comportamentos e prá1icas sexuais dcslZlcadas de um COnteXTO nadas no momento de uma decisão. à qual não tent10 acesso
social c cu ltural m8is amplo. O esforço das Cicncias Socia is diretamente e que acontece no contexto de uma relação a dois.
aCOnTece no sentido de relativizar concepções estáticas e pre - exigiu que cu estivesse ainda mais atenta não apenas às falas.
conceiTuosas sobre essas questões. mas mmbém aos momentos de desconcerto do discurso - os
A Teoria feminiSIa e os estudos sobre gays e lésbicas nos silêncios. as rupturas. os não ditos.
anos 90 mostraram que. com o advento ela AIDS. não era ope· Ainda de acordo com Bozon ( t 995). os Significados sociais

i mntc centmr os esforços nas aTitudes e práticas partiCulares. mas


nos COl1leXTOS sociais e culturais em que a ativiclaclc sexual era
da sexualidade passam pela idéia de intimidacJe: é algo que pode
ser compartilllado. e mesmo assim em parte. ilpcnas no nível

i
I
I
molclada e constituícla (GAGNON: P/\RKE R. 1995). Segundo os
autores. elo comportamento sexual passa ·se a clar imponãncia
às regras culturais que o organizam. De forma IJêlStanlC en fát ica.
p õcle-se supor que as categorias essencialislaS eSlavam lo nge
do discurso e que. portanto. não eSlá acessível à obselVação
direta elo pesquisador. Dessa forma. o falar sobre as práticas
sexuais pode. em deTerminados <..:onICXIOS. assumir um caráter
confidencial c a confidência sobre esse assunTO poderia. ela
I da universaliclacle. Do poruo de vista da pesquisa em sexuaJi· mesma. sugerir uma interação sexual. Especialmente nessa

168 169
Entre homens Pauta Sandrinc Machado

pesquisa. náo se Iralava de falar de scxuéllidacle com QUITO 110- Essa situaçflo. que é ac ima de tuclo m u ito emb lemática do
mcm ou ~e nrre 110mens~ - o que poeleria clar um OUITa carálcr à encomro emográfico na pesqu isa, aponta para o fato de que a
conversa. inclusive clcslocando·a da noção de confidência - mas mulher em queSTão estava. claramente. u tilizanclo o termo peso
de estar sendo enlrcvislado indiviclualmen re por uma m ulher. quiso como mCláfora para relação sexual. No que se refe re à
Não foram . nesse sem ido. poucas as negativas dos hom ens situação de entrevista com os homens. algum as falas Tam bém
em parTicipar cla pesquisa quando fi cavam sabendo do lem a. sugeriam essa associaçào. como acomeceu com um cios infor-
POis a namorada podia não goslar. mames. Eu comecei a lhe perguntar sobre sua primeira relação
Houve uma situação em qu e isso fico u mais e.'\plícilo: foi sexual. Então. ele me d isse que se eu fosse /1omem era mais
quancla a muI/ler cle um freqüentador cio b ar, passand o por lá. fácil falor os delo/Iles. 1\'lais adianTe. explicou que era compliccrdo.
viu-me conversando com ele. Apesar das IClllalivas do dono ainda mais por ele me considerar uma mulher o/raeme. Assim.
cio bOleco em explicar que c u eSlava fazendo uma pesquisa, falar sol)re lemas sexuais com uma mulher é algo recol:>eno por
que era sobre os homens e sobre formas de cvilar doenças. significados. cnlre eles O da itweslida sexual.
g ravidez. enfim. ela ficou furiosa. De fo ra do boteco e aos Passarei. agora. a uma reflexão sobre lugares de Ilomosso·
gritos . dirigia-se a m im: c iabilidadc. descrevendo os lugares p ri vilegiados em que realizei
Observação part icipanTe para logo em seguida c llegar à análise
'\1náo me leva a m",1. cu éll é panicipa\'a da tua pesquisa . m;:as cu
nao gOStO dc fazer pesquiSa com mulher. Eu SÓ gasto de pesqu iSa das especificidades encontraclas no processo de conSTrução
com homem c <lt t(: tenha um bem grande c grosso. Serti que náo elas rceles de relaçôes entre llomens .
t~m um homem ai Idirigindo·se ao grupo ele homens jog<lndo
Stnuca no imcriOr do bar! pra cu fazer uma pes q u js..,?
4 Esp açoS de hom ossociabiliclacle:
Felizmenle, um ele meus infonnamcs. que era innão d esta ;\ cons /rução da m asculinidacle emre Ilom ens
mulher e estava no bar. atemo à situação. aproximou·se c, ele.
bochando. clirigiu·se a ela: Entôo lU lá fa/anelo comigo mesmo. Du rame i:lS visitas à v ila onde foi feila a etnografia. sempre
Vamos fazer lima pesqLlisa. Pd[Ou isso m ovim en tando a região ficou mul10 claro que existiam lugares impróprias a detc rminad os
geniTal para (reOle em sua direção. Ela. entretanto. segUiu com a "tipos" de multlercs c momentos que só deveriam ser comparo
voz em tom alTerado. ao que Zé. dunodo bcuecO. reagiu de fonna Tilhados entre homens. t\ segregação entre os gêneros." acom·
um pouco mais impaciente com ela. clizenclo·ll1c: 1'á. chega disso panllada par um a desvalorização no sentido m oral da mulher
dai. Jó IÓ viajancfo. Seu innão. então. saiu do bar e fOi acalmá.la. que Ten tava ultrapassar as fronteiras estipu ladas. foram falares
voltando u m tempo depois. quando a m u lher se relirou. Pergu nto que marcaram de forma significaTiva o trabalho ele campo . Se·
o que haviam conversado e ele me infonnOLt que sua innã disse.

, furiosa: O qué? Eler quer falar de sexo com o homem cios OlllroS?
Eu vou falar com ela . entôo. Ele. c mão, disse para elajicarf rio. q ue
9 OI1(Jin<L Fachel LCill (1989). tralilrrdo de llnl contexto basranle espccirlco. o
pampa SiLuCtlO. mo~tra como a identidade e a cultura desses Ilomens sao
consm.ridas em refe rência a uma idcntldade mascuJu"k'1 caraclerizada por um",
eu era gcme jino. Logo em seguida. disse que eu não precisava si tutlÇtlo de tOlill segregação entre os gêncros. em espaços que cOl'\mm com
uma quase tO lal ausência do feminino : a eSltlncla. A esse respeito. Denise
me p reocupar. POiS ninguém jria viajar comigO. DUrdtlte todo csse J<.LrdUTl 1190 1). estudando 110lllellS de grupo~ popularcs em bares situados
na Cidade Bai,'(i). Pono ..\legre. RS. aponra que os -momemos entre os hO'
tempo. o maneio ela mulher mameve·se calado, iJlllk"lSSívcl e, após mens- fiOS bou..:cos dcmon..<:;lram a illlpontlncia dcssa vi\'~ncia masculina
a re tirada da esposa. não me elingiu mais a palavra. para renexócs e falas OCt..'TCil daquilo que caracteriza um homem.

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Entre homens Paula Sandrinc Machado

gue O mesmo principia ela divisão do espaço entre lugares d e de minha info nnanle. passou por nós. Elas escolhelâm para
homens e lugares de mul/lercs a lógica segundo a qual exis tem sentar num lugar muito próximo a eles. QuandO atravessaram.
coisas d e 110Illen s e coisos de mul11eres . entre as quais pOdem a garota ao m eu lado nâo se conteve e exclamou: Essas C/i es-
ser inc luídos. como fui p erceber mais tarde . os méto dos con· queceram os roupas em cosa. t\S roupas em si. enTretanto. não
traceptivos ou de prevenção de D$Ts - os méloclos de homem eram muito mais OJnas e justas que as da maioria das mull1eres
e os m étodos de mulher. conform e a d e finição êmica. no local. ficando claro que O grande problema foi o rompimentO
No que se refere à m inha inclusão nesse comcxlO segrega- com um pacto de moralidade.
tório. pode-se dizer que fo ram necessárias concessões quanto E lendo em m ente essa forma de organizar o espaço 50·
à minlla presença nos luga res eminenl cm c mc m asculinos , cial cn1 re os gêneros que pretcndo descrever dOiS espaços dc
como podem ser descritos o Bar do zé e o Clube Campeão . sociabilidade m asculina fundamentais no Irabalho de campo .
,\inda que n eles inserida. sempre est ive situada. d e fo rma MOStrarei d e que forma ocorreu a m inha inserção nos mesmos .
clara. como ~ um a m ulher fazendo uma pcsquisa-. Também bem como as concessões c adaptações necessárias para que
nunca m e semi à vontade para freqüentar esses ambientes a minha freqüenTe presença pudesse ser aceita. 1\lém disso.
à noite . por exemplo. o que impllcilamen1e também m e era prelendo. com a descri ç~IO . apontar para o fato de que esses
recomendado. j\·lesmo em situações nas qua is teoricamen1 e espaços diziam muilo sobrc questões que cerc avam m eu
misturavam·se 110mens e mulheres. uma espécie de llnha de · objelo de eSludo: de que forma se aceita uma m ulher. que
marcado ra sempre estava em jogo. espaço é dado a ela . qual a importância de OutrOS 110mens no
Nos shows de p agode e hip·hop que acon1eceram na vila. processo de fazer·se homem .
naqueles em que compareci, enfrenTava dificu ldades para filiar O desconforto gerado p or minha presenç a ern lugares
com os homens. m esm o aqueles já conhecidos. Como fui m asculinos foi um fOrle indicativo não apenas dcslc conteX IO
percebendo . n;jo era próprio a uma mu lh er de resp ciro fica r em segrega1ório, como também das diferenles avaliações que po·
rodinha de Ilomem. Nesse~ shows. normalmetlte os pequenos diam ser atribuídas às mulheres. entre as quaiS eu mesma . Há
grupos eram divididos en tre "de hom ens" e "de muIl1eres". Cer. um trecho rc tirado do diário de campo. de uma ida ao boleco.
lamenle os olhares e gestos. e m esmo as rápidas idas e vinelas onde essa queslão fica muilo explíCita:
de um grupo a OUTro. davam () enTender que. apesar da d ivisão
Luís . HafDcl. An1ônio. Dona Mari a. Zé c eu cs~ávDmos conver·
espacial. havia uma relacionalidade baS1anl c dinâmica entre os s ando. I ... ) Sen1adus na parte d e fora do bur. LUIS pc rgunlu se eu
géncros. i'\ào aderir a esse código. no entanto. p ode significar sou casDcla. PergunTO o moti vo pelo qual d eseja S<lber. ao que ele
m e responde: ",.....'ão. só e5IOtI pergunrando". Pcrgunlo ~ que cl~
às muJllcres serem avaliadas com o uQgobune/os. tanto pelos acha e ele prontamente responde: -Eu acho que lU é oJu/l/(/{la .
homens como por OUlrdS mulheres. Digo: "Por qué?- E ele: "Não sei. lU lem cOtO-. l:terg~1I1 t? como é
Em um show de p agode. por exemplo. em qu e eu estava iSSO de ler cara de Gl~da. Ele núo responde. mas 1I IS\SIC: -,\Ias

, conversando com uma moça casaela (e exatamenTe por ser


cilsacJa é que estava sentada pró xima ao g rupo ele seu marido
namof(lclo lU rem". I:teÇO que me expliquem como se pode reco ·
nhect::r se alguém tem nam orado e Ra fael lliz que é porque. ~u
sou bonita e simp ática. l:tergufllo se Tatlas as lllull1c res.b OflltdS
sem m aiores problemasl. houve um m om ento em que um grupo e SimpáTicas têm nam ora do. Eles riem e dizcm .que nilo. 1ll~:
não fornecem explicações: "Dó pro ver. mos eu noo seI P?' que:
de mcnini:Js. vestidas em roupas curtas e ju s tas. falando alfa c I;:nl;)o. COlllinua cxplicando que exislem mulllcrcs que S;30 00111,-
trocanclo olhares com alguns homens. dentre os quais o marido iaS. mas de I<'iO alllipátiCa'i fi cam feias e vice·versa. LUIS segu e

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Entre homens
Paula Sandrine Machado

illS~fJmlO com a pcrgullIa e cu digo que lenho namorado. /Vl.


emoo lU tem nomoraclor. Nisso, "mónio d ebocl w: -r-.:óO. lU rem É imponante ressaltar que o fala de eu querer conhecer o
que dizer quc lU é fico-rico no lu/Já", "mundo dos botecos" causou ceno estranl13menro e preocupa·
ção nos informantes do Clube Campeão. Para eles. eu poderia
o rraba1tlO de campo pOde ser descrlto. ponamo. como um fazer minha pesquisa apenas lá, um lugar onele consideravam
esforço de cuidadosas conslRlçõCS e re-construções. onde foi que eu estaria protegida . Ironicamente. foijustamell1e o fllho ele
necessário estar conslanremenrc éllcma à (omli:l como as pesso- lrlll dos integrantes ela eliretoria do clube que acabou se ofere ·
as com as quais cu entrava em conta to iam me siruando. Entre cendo para ir com igo ao Bar do zé.
QUlrQS elememos. rive que lidar com algumas pCCuliariclaClcs cio O Bar do zé se locali7.3 em uma rua considerada "perigosa"
rrabalho. corno. pOr exemplo. COm as !Jrincaclciras e as tenTa ti- na Vila. Era freqüetllado rotineiramente por homens mais velhos.
vas dos Ilomens de me designarem classificaçóes: cu era urna na faixa de 40 anos. Os Ilomens mais jovens marcavam uma
~ulll~r de respeilo? Sem·uergonha? Casado? Sol/eira? r\jtIl110da? presença que cra p assageira durante a semana. pelo menos
l/co-/ICO n o fllbá? Essas interlocuções j á iam me mostrando de du rante as tardes. De acordo com Zé, o maior movimento dos
qllC forma esses homens também classHicavam as 'OUtras" mu. jovens era à noite e aos finais de sem ana. quando se reuniam
lheres. ou seja. que elementos eram significativOs para tanto. ,(I para belJer e j ogar sinuca. aspecto referido como cornum em
Entào. no que se refere aos papéis e valOres atribuídos a mim relação a outros IJa res ela regi~lo.
como urna mulher em campo. el r nâo busquei uma pretensa Conheci. durante as observaçôes. muitos homens. de va·
n CUl ralidade. Desde o início. assumi a POSiçào de pesquisadora riadas iclaclcs. que iam contar his tórias e falar bobagem. como
"sexuada". incorporando esse fala às minllas análises. sinalizarmn Zé e Dona ~·Iaria. sua esposa e ajudame nos scrviços
do bar. Nesse amtJiente. ficava sempre muito evielente o incõmo·
5 O Clube Campeão e o Bor do Zé do causado pela presença de uma mulllcr. " Nunca tive como
passar despercebi ela e aos homens parccia intrigante eu estar
o Clube Campeão foi o primeiro local de sociabilidade mas. num espaço maSCulino. fazendo algo que fugia ao seu cOll1role.
culina com a qual entrei em comala na vila. É uma emid ade cs. como se o m eu caderno de notas e o estereÓtipo de doU/oro
po niva . onde se organizam atividades recrea tivas. como futebol e marcasse um espaço de inversão da relação ele dominação com
cancaclo. Apesar ele cOnstituir um espaço no qual só se rClrnem as mulheres. Então. especialmente nas primeiras observações.
homens. os Contatos iniciais me inseriram. primeirameme. nessa fui surpreendida por um amb iente 110Stil. tomado por desafios
re~e ~e relações . Penso que isso se deveu ao fat o de se poder conSTantemente dirigidos a mim . Sim. eu era da Universidade.
a~nburr a ela um car;!lIer mais "formal" quanelo s ituada em rela. mas na malandragem c esperteza da vida cu perdia de longe.
çao a oUlras. Digo (oonal à mediela que parece estar cOnStiTuída Essa foi a mensagem. por exemplo. quando elois tlomcns. com
ele pessoa . .
s maIs autonzaeJas a falar em nome da comunidade. uns 45 anos. depOiS de me perguntarem insisTCll1cmCntc sot)re

" sendo. ponanro. mais aprcscntável aos de fora e. talvez por sua
respeitabilidade. mais adequada a uma mulher.
o Tem a da pesquisa. meus m élodos e técnicas. passaram a me

I I Com e:<ce{80 de Dona .\laria. suas fiJllas c c~r . não era comum que as nlU'
10 P<:rra urna ilnjlise maiS (Ieraltmda I:k'lS c!iI::.Sific;:IÇÔCS rnorilis Dlribu'd<l ' a' Iheres se fizessem prcscmcs no bar sem o objetivo dc comprar produr~
mulheres. ver rninha llisscnaç;,'to de Mcsrr.tdo (.\laclklOO. 20031. I .'i S riO mini·rnerc<\c!O. Mesmo assim. era m<ris freqücnte ve r cn,mças fazendo
cornpms no Bar (to zé que propnameme as mulllCres.

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Entle homens Paula Sandri lle Machado

fazer 1e5les motemáticos , Por exem plo. um d eles m e pergunta d os e ano/ando as bobagens que eles dizem. Logo em segLlida,
que Iltimcro somado rrês uezes dá doze e que nuo é qUOIro? Quan. entretal11o, sempre sinalizava a minlla condição de mulher de
cio respondo que não sei a resposta. diz que é para cu pensar. respeito, da universid ade e su a convidada. Nunca m e senti ame-
pergunlando TU nõo é da jacu/c/ode? Rcsponclo que não entendi açada no bar, mas percebia que a m inlla presença sempre alie·
o "truque". Ele responde que não ê "truque'. que é matemática. rava a fOrma como os h omens se relacionavam: algumas vezes
Entretanto. acaba dizendo que é um. na som a tI + I . Lançam (Iesviavam os assu ntos e houve ocasiões em que Zé cllama va a
Outras qucsuJeS desse tipo, acompanhaclas da pergumêl Como atenção de seus clientes para não serem inadequados na minha
lU não sabe? Nessa Situaç[lo . o que m enos impOrTava era sat)cr frente. AS conversas que ouvi giravam em torno (Ie dificuldades
a ma temática formal. mas entender o "t ruque". da vida _ especialmente relacionadas à escassez de dinlleiro - e
A m alandragem também aparecia nos códigos cifrudos, sobre os filhos. OuTrO tema recorrente eram as m ágoas e os clra·
principalmente nos comentários sobre as mulheres. alguns que mas dos homens em relaçãO às mulheres. Escutei muito pouco
Cu não cmendia e OUlroS que não me eram sequ er pcrmi liclo sobre as façanhas amorosas dos homens, i \ tribuo is to ao fato
emender. Recostados no IJalcào. semados na mesinha. em pé de eu ser mulher e que. d e cena forma . não seria ~d ireito" que
na ru a ou ao redor da m esa de si~luca. nunca falTava assu nto esse assunto fosse falado em minha presença.
para os homens no Bar do zé. Ourras quesrões referidas a Os desafios verbais e as brincadeiras remetendo a aspectos
m im eram hipóreses sobre a m inha condição "conjugal" : se sexuais eram comuns no bar. O desfecho era sempre o ([c que
eu era ajun/ado. rinha namorado. ou era c asada. De acordo alguém penetrava e u m outro era penetrado. o que é demonstra·
com Jardim (t 99 t ). na percepção dos homens. uma mLllhcr d o tambem nos trabalhos d e Leal (19921 e Jardim (1992). Outra
d esacompanhada no b o reco encontra·se sem vinculas 50 . atitude tambem recorrente entre os Ilom ens era o acionamento
c iais . Por isso . a p reocu pa ç~lo deles em tne situar na relaçiio de estratégias de sedução motivadas pela permanência de urna
com algum homem. ,\crcdilo que essas avaliações também mulller nas d ependências do I)ar.
colocava m em ju lgamenro farores m orais. corno o respeitO e Todas essas caracterislicas do campo compõem um pa·
a vergonha {DU,\RTE. 1987). norama at ravés d o qual d evem ser lidas algumas questões c n·
Dona Maria. a esposa d e Zé. sempre foi m u ito sensivel a fren tadas na construção das redes de relações. O que p retendo
essa estran!1ez.a dos homens c invariavelrncnre se fazia pre. mostrar é como essas partiCularidades estavam infonnando a
sente no I)ilr quando eu chegava. Puxava. nesses mamemos. todo o momento sobre aspectos rclacionais de gêncro e indican-
o que talvez considerasse "assuntos de muI11cres": sobre c rian . do ques tões sobre a mascu linidade dos Ilomcns da pesquisa.
ça. filhos. a família . o quanro me via trabalhando ... Em alguns
momentos, tentava m e proreger dos deb OC/les dos homens. 6 A cO/1s lrução das redes de reloções e o CO/1 lexla
ou ainda m e retirar do ambien te de bebados, corno o fez no das enlrevis tas
dia em que sua nora e seu neto estavam na garagem e ela me

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cllamou - faz endo com quc rne (Ieslocassc da peça anele fica Aqui. gOStaria de discu tir as dificuldades encontradas para
o IJar - pam conhecé-[os c ver um pouco d e televisão. formar redes de relações por snowboll entre os hom ens de baL'\a
Zé seguidamen te brincava sobre a pesquisa ilpresen rando. renda. p roblematizando, m esmo, a adequabilidadc metodológica
me aos scus clicmes como aquela que fico observando os beba- desta técnica para o segmento masculino . O primeiro obstácu lo

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Entre homens P.lula 5<!ndrin(? Machado

foi a constituiÇão da porra de eOlrada em cada rede. ou seja. a b) Em rc laçào ao sentir·se responsável pela indicação e pelo
indiçaçito do primeiro infonname a panir cio qual seriam indicados que os OlurOS lêm para faJar: aqui. reúno os casos em que os
os próximos. A Qlura situação crirlca foi a indicação do próximo 110mens ficavam e.\:lremamel11e preoo.lpados em indicar alguém
imegranrc da rede. permeada por reações como cuidado (em que pudesse acrescentar "algo" para a minlla pesquisa. Homens
indicar alguém à alrura. (/e respeito. com filll o Ou que estaria com filh os sempre estiveram no rol cIos mais indicados. Assim.
preocupado com o aSSUnTO). clebochc (in<licação cio ou tro como era muito comu m que os 110mens pedissem um tempo para
fonna d e "sacancar"), consTrangimento c negação. afirmar não pensar antes ele me sugerirem algum nome.
penencer a uma rede de relações de clc nTro da Vila . CI Ern relação aos laços de amizade e o sentir·se respon·
Durame um rempo. eu não conseguia ncnl1uma indicação c sável pelas conseqücncias de uma indicação : os homens nor·
rodos alegavam não conhecer rapazes de 20 a 30 anos. Quando malmente tinham dificuldades em indicar um novo informant e
Cu enconTrava algum. muiTas desculpas m e eram dadas para porque se preocupavam se isso não afetaria o relacionamento
não pan icipar. ~ li nha primeira informame foi calegórica: Eu não dos amigos com as companlleiras ou se nào acarretaria pro·
sei de nacfa. Qllcm pode 10 ajudar é o seu JOcio !Iider comunita- blemas para mim. I\ssim. normalmente se indicava alguém
riol. Ele que sabe com quem lU pode ja/ar. Se há, pOr um lado. conllecido. preferenCialmente um amigo ele infância. Apesar
uma desconfié"l nça com os desconhecidos. toma·se. po r Outro. disso. p oucos foram os casos em que os informantes falavam
uma precauçilo em nào se comprometer com as indicações. para os OulrOS o que Ilaviam conversado comigo. significando
Exis tem. para isso, pessoas e lugares específicos e legilimados. que para a indicação ter sucesso. eles não deveriam explicitar
com o um lider comuniláriO ou uma enlidacle reconllecida (o que haviam falado sobre seus relacionamentos afelivos.
Clube campeão. por exem plo). dI Em relação à dificuldade em comparecer ao encontrO
A dificuldade metOdológica de uma constnJção ele redes por com u ma mldller para -conversar" : apenas quatro informantes
snowlxJII. onde um cnlreviSlado indica O outro e assim sucessiva. se dirigiram ao local marcado para a entrevista ou estavam me
menle. teve quatro características principais em minlla pesquisa. aguardandO conforme o combinado . Tive de inSiSt ir muilO com
que merecem ser ressaltadas. Todas elas falam sotJrc aspectos alguns entrevistados. e alguns 110mens marcaram comigo e nun·
fundamentais da müsculinidade. como o controle da Situação e ca fizeram a entrevis ta. Quando eu procurava entrar em conlatO
O sentimento ele responsabilidade. t\presemo·as a seguir: com eles novamentc, diziam que 11aviam dcSiStido.
a) Em relaçilo ao com role da siluação: em muitos casos. os Exc eto nos poucos casos em que os 110mens estavam
homens sentiam·se responsâveis por mim e. correspondendo esperando no local combinado. as entrevistas acabaram acon·
a uma exp ectativa das relações de gênero na qual o homem tecendo sem marcação prévia. Na maioria das Situações. eu
comroJa e a m ulher é controlada. tc mavam malller sob o seu j á conllecia os rapazes. assim como algum familiar e/ou suas
domínio a minlla Circulação pelo universo masculino. É assim namoradas ou esposas quando era o caso. e sugeria que a
que Zé, o dono do boteco. em nosso primeiro enContro, forn ece entrevista fosse feUa mesmo sem horário marcado. Em outra
dicas dCtaUlaeJas sobre a comunidade. demarcanelo os Ic rritórios ocasião . acabei encontrando a pessoa em Outro lugar que não o
perigosos e aqueles apropriados a uma mulher decen te, afere. combinado . Ou então. ent revistei a pessoa indicada no mesmo
cendo·me segurança dentro do seu própriO eSTabelecimento. momentO da indicaçào. caso estivesse eJisponível. Ainda. como

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T
Entre homens r 'lUla Sandrin c Machado

j á referi. um caso em que. por sugeSl<10 do entrevistado


110UVC parece muilo Significativa e lel11 conseqüências nas esferas da
e. n esse caso. com m arcação prévia. fui ao seu loca! d e trabaU10 vida cotidiana. incluindo a sexual e a reprodul iva. t\lém disso.
para que fosse possível acomccer a entrevista. conversar com uma mu1l1cr wde fora" para dar uma entrevista
sobre assumas inrimos nâo parece ser algo típiCO do masculino
7 Considerações finais: Deixa eu pergunlar pra ele. neste segmento soci<JI. Fazer o m ovimenlo de "ir falar da vida
o impasse cios redes masculinos w
para alguém é algo mais própria do feminino nesse grupo. De
fala. trabalhando na comunidade com o p Sicóloga, lembro de
Por m eio de ind icaçõcs pessoais. tive con hecimento d e Ter sido pouco procurada p elos h om ens e. m esmo nos atendi·
que OUlros pesquisadores. Trabalhando COm h om ens, lambem mentos familiares. quando os m esm os eram cllamados, muitas
enCOntraram as m esmas dificuldades aqui relacionadas. espe. vezes nâo compareciam . t\ cOlluerso com a psiCÓloga ou a
c ialmente, na inclicação de homens por Ou tros homens. J-l i t, conuerso com a pesquisadora são. de maneira anâloga. algo a
lamlJóm , o trabalho d e Leonardo l'...lalctlc r (2002) no qual esse ser evitado pelo universo m asculino.
aspecto aparece expliCiTado. Identifica-se. al6m disso, uma série Em relação às indicações. acrcdito que se possam consi·
de tralJalhos que oplam pela técnica de grupos focaiS. asso- derar diversos os fatores que intensifiquem a dificuldade. Em
cianeto-os ou nitO a entrevistas inclividuais (como em AR ILHt\ primeiro lugar. parece que os Ilomens constituem um lipo de
J 998: KALCKI'...I/\NN. 1998: CÁCERES. 1999: s6 para citar alguns relacionalidade enlre eles que acontece em lugares especificas.
exc mplos). o que pode resolver apenas em parlC o prol)lcma, como o Bar do z é e o Clube campeão. Essa 11omossociabilidaele
pois é sabido que em alguns casos a parTicipação m asculina não inclui uma ampliação que possa abranger o universo femini·
ainda assim é pouco Significativa. no . I\ ssim. a indicação para uma mulher pode romper com um
Acredito que essa é uma quesTão metodOlógica imponante. determinado código de reciprocid ade m aso.Jlina. Nesse sentido.
que m erece umi1 reflexão aprofundada nos IrabaUlos que e r). é interessamc ressaltar que tres d os quaTro homens que m e
v olvem/l0m cns. A dificuldade cstá apomando . penso eu . para esperaram no horário marcado eram diferenciados dos out ros
especific idades elo objelo d e pesquisa que lalvcz p erpassem entrevis tados no que se re fere aos pc"ldrõcs d e relacionam emo
o s contextos sociais. Ela fala ele aspectOS ligados à masculini. (diSOJliam maiS a relação. valori7..avam a cOlluerso] e aos tipos de
d ade e mos "a a distância existen te enlre eles e as tentativas d e ocupação lum em mon tador de cen áriOS para eventos culturais .
aposlar em reeles por snowboll enlre homens. Gostaria. ent(.io. Outro era promotor de vencias c o último . pasSiSta de escola de
d e levan tar algumas 11ipó feses sobrc a minha difiCuldade quanto samba]. Especificam entccm se fICllando de suas pro fissões. em
ao comp arecimento elos 110mcns às entreviSIaS c à pos tc rior todos o s casos elas o s remeliam a espaços fora da Vila onde a
ineli caç~' o de urn novo informanTe . conuerSQ parecia ser um valor incorporado .
Primeiramenlc, poele·se pensar no fato d e eu SCr IllUlller e O problema com as indicações alude, tamb6m. e d e forma
isso causar consT rangimento, tanlO a homens solt eiros quanlo a bastante decisiva, a aspectos lig<Jdos ao imaginário masculino
compromClielos. Como já apontei. trocar confidencias com uma d e poder c conlrole sobre as situações e as mulheres. Como
mulllc r pode s ugerir inl craçilo sexual. 1\ evitação da "conversa* procurei clemonstrar. há uma preocupação constante em se
pa reCe eSlar cvielcncianelo. mmbém . aspec tos do plano relacio. responsabili zar por mim. por minlla pesquisa, pelas indicações .
nal ele gên ero. t\ iuelisponibiliclaelc para o diillogo nesse plano pelo que pode ser falaelo. Há. a tod o momento. um balanço

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Entre homen s Paula 5i1ndrinc Machado

sobre quem JXlssu i legitimiclade para falar comigo (uma m edida Todos os pontos levanlados rem etem. em última análise.
emre 11OrncnS) e. por outro lado. sobre com quem eu devo falar às relaçõcs estabelecid as por uma pesquisadora mult1er · cntre
(uma mcclida de homens sobre uma mulhen. hom ens' . O que p rocurei mostrar é que esses aspectos sào
Outro pOnTO a ser p ensado é em relação ao Tráfico ele rcvelaclores de uma determinada realidade social a qualtenllO
drogas. ou seja . em uma comun idade onde esta prática ga· . acesso a través desse lugar especifiCO. Estar "entre homens' é.
nl13 destaque. talvez a indicação de p essoas. ou o próprio por OUlro lado. lam bém estar negOCiando a m inha relaçãO com o
310 de conceder erurevisla não seja algo lão natural ou fCilo universo feminino. com as "outras' mull1eres que compuseram
sem muitas precauções (ViCTORt\: KJ'\I'AlJTH: BHITTQ. 2000: fundamentalmenle o Iraball10 de campo.
PICCOLO.200 1). Ainda que minlla dissertação tenha tido como foco as repre·
Finahnc nre. é necessário demonSTrar algumas estratégias senlações e práticas m asculinas em lon10 da vida reproclUliva.
que u tilizei para contornar algumas dessas condições que m e é rundamemal apontar que as mulheres assumiram um papel
fo ram colocadas pelo IrabaUlo de campo. Uma deJas fo i a de impOrTante na p esquisa. Não apenas o s homens sit uavam as·
não esperar as indicações apenas dos emrevistados. Nesse peCIOS relacionais ele gênero em nossos com~uos. mas também
semido. busquei indicações nas redes fcmininas ou com o s as diferentes mulllcres. Assim. convivi freqüememenle com
próprios homens. mas não em situações em que eles. indivi · cornpanl1eiras. mães. tias. filhas desses homens, o que consli·
dualmente. semiam ·se resp onsáveis por elas. Q l)oteco mos· tuiu u m material inleressante relativo à gramática das interações
trou·se como um lugar apropriado a esse propÓSitO. anele as Ilomens.mull1ercs e mun1eres·mullleres.'J
suges tões eram dadas em grupo . Todos esses apontamentos reforçam a idéia de que as
Sobre marcar a entrevista com ant ecedência. fui perce· reilexões sobre o traball10 de campo e as est ratégias m e todoló '
bendu que em alguns casos não era o método mais efetivo. gicas empreendidas no decorrer da pesquisa podem ser muilo
Propor a realização da entrevista sem 110rário marcado. em reveladoras daquilO m esmo que nos propomos a estudar. Elas
um m om ento em que o sujeito estivesse disponivel. mos trou · anunCiam desafios e dilem as éticos colocados pelo própriO
se bastante POSitiVO. talvez por algumas razões: a primeira contato com a altcridaclc . Esse fato. em última instânc ia. força·
delas é p orque essa forma de aborelagem mais "direta " podia nos a p ensar alternat ivas. a refinar nossO olhar sobre o univerSO
ser to mada como um desafio. En tão. se o homem n ão parti· social qLIC estamos estudanclo e a conStruir abordagens mai::;
cipasse. poeleria eSlar assumind o ter se sentido acuado por ê ticas no cotidiano da pesquisa.
uma mull1er. A segunda delas . porque a conversa. que inicia va
sem tama formalielade (marCação de horário. g ravado r. local ReferênCias bibliagr6flcas
propiCiO). pOClia su scitar maior tranqüilid ade entre os homens.
sugerindo a eles um maior COntrole sobre a situação . POde·se ALTMt\N. Dennis. ~Aids and lhe cliscourses of sexuality". In:
CONNELL. H.: DQwSET[ G. Relhinking sex. sociallhcary ond

- pensar. ainda . que lalvez essa seja a forma mais rotinei ra de


eles se enCOntrarem. sem marcação de ho ra . ' 2
sexualil!)researc/ l. Filadélfia: "ICmpleUnivcrsiTyPress. 1993. p. 32·48.

13 Uma chscIIsSilo mais aprorundau.'l sobre a m inha rclaç[lo ~ ~ '~Jlra;;'


12 Agradeço il sugcsl[lo dcssa "ICICClr;). poS5,IJillcladc' i)VCnl a(la pc la arllrOJ:X)' mult,crCS dur,tnl C o lral><llho dc campo c ncomrcl·se em nllnlw dlSsenaçdo
Ioga e colega Soraya FtCischcr de ~tCS Ir,jdo l~t" Cllt\DO. 20031.

182 183
Entre homens f>aula Sandlinc Machado

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184 185
Entfe homcns

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Dissertação (MeSTrado em r\mrOpologia SOCial). UniverSidade
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em POria t\legre. Porra r\legre: UFRGS. 199 I . Dissertação
[MeSlrndo em t\ntropo logia Social), Universidade Federal do
Rio Grande cio Sul , 1991 .
E{ "EspetáOJlo do Contradiscurso". que geralmente se busca
compreender O hip 'IOP como forma de sociabilid~~e e
idenlidade coleliva dos jovens moradores dos bairros perifencos
ViCTOB.t\, Ceres Gomes; KNt\ln-I-I. Daniela Riva; murro.
~'I a ria R , \Íds e pObreza: Prólicas sexuais. representações da das grandes cidades. Nessa perspectiva. quandO se pensa o
doença e concepções de risco em um bairro ele PorlO , \lcgre. hip /lop no conlexlo da cidade de São Pau lo. os olhares quase
Relalório Final. POria Alegre: KUPt\CS/ UFRGS: SMS/ P;VIP,\, sempre se valiam para os roppers : alores sociais que a través
2000. tmimeo)
de "r/ly/l1m and poerr!J" ~ rela tam o difícil cotidiano daqueles que
VÍCTORt\. Ceres Gomes; KNr\lJTH. Daniela Hiva: H,\SSEN
"" Iaria de Nazarelh i\gra. Pesquiso qualilOfiua em saúde: Uma
inrrocluçdo ao lema . Pano t\legre: Tomo Edito rial. 2000.
Agradl:ço o <!poio e <Ilcilura cririca do anig? rcal1~1a ~los.ilmiSos Rc~:r~
elos 5<mros Belo. Al cx<!nclre Barbosa Perc!ra e Clilra de ASSUnçoo Aze e

I ~~gUneIO HCfscllmimn. <I cmcrgénci<l c c.qxlIls[,o ele ~ma cu lluRl r(l)), ~~


BraSil é acompanhi:lda do (liSCUfSO do conframo. ou seJo. de. ~m.a es~c
de CunlrildlSClL/SO que se opOe ti rala incriminarórlo dos nOllciá flo~.lendo
no rop lima fafilia etc e.~pfessa.o privilegiacla. a culrura dil pcnfeni:! ~p~
a mídia com um novo discurso de rebeldia que uaz conoraçOCS J?OIItICa:'
c revela urna pOlcncia cupa;: cle rnOI)ihzar e seduzir as camadas Juvenis.
sejam clélS da perift:ria ou n;'ro.
2 n-aduzindo. rirmo c poesia. R(lp é a junçilo ela abfeviaçi'lo dessas duas
polilvras ern ingll::s.

186
Onde CSf.io as b.girls? Fernanda Noronha

m oram nas "quebradas" .3 Apesar de SClt carcllcr globalizélnlc. t\ Tarefa de conslrt.lir um Objeto de estudo me levou a ini·
já que t"loJe muitos países apresen tam uma expressiva ccna hip ciar uma espéCie d e sondagem de campo , cuj a estratégia era
110p. é p reciso considerar OS arranjos e a forma própria com o a observaç80 pan ic ipante em sllows d e mp que ocorriam nos
este movimento, em suas múltiplas linguagens. é pensado c fOr- bairros da periferia da zona sul da cidade. Já de início. tendo
mulado num contexto urbano específiCO: a c iclélClc de São Paulo . sempre presente a necessidade de equacionar o diálogo emre as
Por isso. na tentaTiva de realizar um trabalho antropológiCO que prálicas m ais concretas e a elaboração teórica. Ou seja , realizar
fosse capaz de olhar atentamenTe para o h/f) 110p não apenas a a reflexâo epiSTemológica necessária ao m eliér do antropólogo.
parTir da fala expressa nos raps. mas que também consideras- tal qual nos diz Roberto Cardoso Oliveira ( 1996), deparei·me
se as demais linguagens prescmes neste m ovimento, como o com problemas e queslóes referentes ao meu papel e à minl13
grafite e a dança de rua. iniciei a etnografia que delineou a pes- inserçào em campo. Os rumos do trabalho, que num primeiro
quisa de que ItatO neste capitulo. vale lembrar que ta] pesquisa m omento se orienlou. sobreludo, pela pOSSibilidade de enten·
- iniciada no segundo semestre de 2002 - não (oi u m Iraball10 der os circuitoS e a lógica dos roppers na c ielade. tomaram evi·
solitário, mas desenvolvido a partir das discussões que sc de. dente a idéia de que o 11ip Ilop não era algo tlomogêneo. mas
ram no inTc rior do NAU Jovem," grupo d e pesquisa formado por const ituído por jovens que apresentavam diferc mes discursoS,
alunos graduandos e pós·gracluanclos em Ciências Sociais que linguagens arTísticas e formas d e organizaçtlo.
se cledica a pensar as diferenTes práticas de g rupos juvenis e a Da mesma forma que o Ol)jeto. a próprta análise foi se cons·
relação que estes estabele:ccm com a metrópole. tn.rindo ao tongo da convivcnda no campo. Logo no início, a
Escolhido o lema, me dcparei com a dificil larefa quc é a escolha do campo se moStrou uma opção ingrata. poiS, dUl'âme
cons truçc:io de um objeto de estudo. Não só porque o /1ip hop os shows, senti dificuldacles de estabelecer contato com meus
havia se tornado, àquela allura. o foco d e muiTas p esquisas informantes. Em pouco tem po. percebi que OS sho\'"s de rap er'dm
acadêmicas. mas pela opção por uma abordagem antropológica vistos pelOS nativos como "espaços masculinos"; ali as garOTaS.
que valorizasse o ponto de vis ta do "nativo" C. ao m esmo Tempo, em número re<:luzido, esTavam quase sempre acompanhadas ou,
pudesse desvelar caracTeristicas importantes ela lógica urbana. em menor recorrcncia, "prolcgidas" no interior de alguma turma .
,\ssim. o eleslocamcnTo elas abordagens aTé CnTc:io correnTes. que Havia também urna Qucstão de ordem física. Assim como
Tintlam a preocupação de mOSTrar e/ou explicar a imponãnci;:a acomece em eventos d e dClerminados gêneros musicais desli,
d o rc/p COrTIO fone instrumenTO juvenil de c rít ica social, colocou. nados ao públiCO jovem . nos SllO\VS de rop não há espaço para
s e como um caminho necessário e me fez busca r um recorte muitas gentilezas : isso significa que. em função elu grande nú '
que pOSSibiliwsse abo(c[ar a dimensâo simbólica e as relações mero cle pessoas presentes e ela euforia que marca a dimimica
d e poder in Ternas ao grupo em questão. desses eventos. os empurrões, as brigas e os corre·corres se
dão com urna certa frcql'lcncia . Assim. algumas vezes fui em·

- ~I Termo quc: rcriraclo lIe seu uSO "nariVo". (oi dcscnvolvlclo como ca1egoria
anl ~opotóglca por Al ex,lnclrc PerCira: "quebra(l;)" rr<lZ em si conO laçÔ<.:s de
pe ngo, Cilrêrrci.,l e proc;:ule<laclc Gire m arcam o cotld, ..mo (Ia pe ri(eri,;l ao mes.
purrada quando, elescuielada e pouco familiarizaela, me coloquei
p róxima fi uma roda de -batc·cabeça-: ~ em Olllras siluações,

mo tempo que c.xpressa o pCrlo.:ncimenro, o rcconho.:clrnt'nto e o respclro 5 "1XI1lÇa" dcspto\1da das regras COI1SIillll ivas da d.:'tlÇi"l de nla; m omento em
tis regras especifICas quo.: s<io con StitUTiva'> dH SlX..'!.;,l)ilidafle nesses. Que alguns jovens trocam empurróCs, s<x:os e Chutes 1"10 centro dos gr.Jfl<\t.:s
4 I'úclco fIe An tro pologi.., Url).'I"k' da Univocrsk.t.--rdc de sr,o Pauto.
cira dos QUc se formam no meIO (lo públiCO dos sh o w s .

188 189
""""I Onde estão ,15 b.gir/S? Fernanda Noronha

nos m o m emos de confusões e brigas . tive IifcralmCr1!C que mais tranqüila no caso ele alguma IJriga (e as cllamadas " tretas" 7
correr (n esses casos. não com os naTivos. com o GeCrl z ( 1989: eram quase um a regra!) e, nOtei. favoreceu o m eu contato com
278·3 19 ). mas d os n aTivo s!). os freqüentadOres dos sh ows, uma vez que m eus ~ auxilia reÇ
Essas dificuldades cleixaram claro que o fala cle. a exem . (apesar de não estarem necessariamen te inseridos n a cena
p iO da m aiOria de m eus -na tjvoS". eu m o rar num bairro da Ilip hoP) demons travam familiaridade com o espaço e com os
p eriferia da zona sul da cidade e comparrilllar com meu s simbolos /lip /lOP e. por isso. tinham facilidade em estabelecer
info rmam es as m uiTaS regras qu e permeiam a sociabilidade con versas com os demais rreqüentadores dos shows. Acred ito
n esses ba irros. as m esmas n ão m e to rna vam um m em b ro que com a presença de meus "auxiliareÇ acabei "forj ando" um a
do g rup o . Em OUlras p alavras . apesar de panilhar do m esm o lunna. Assim. embora não oculTasse de m eu s inrOnllanteS a
esp aço fiSico. ClJ não tinha com o opção de lazer os SI10WS, idenlielade de pesquisadotCl, eu agora eSlava -inserida" na 50 ·
(estas e bailes ligados ao hip hop . e não possuía as relações ciabilidacle dos sllows, nas quaiS a relação que se eSTabelece
d e am izacle n ecessá rias à minha in serção no g rupo. Ta l é , sobretudo. entre lurmas. Isto me possibilitou sair m ais rapi·
a fas tam enTo (lesse conreXIQ m e cau sou uma sensaçilo d e dam ente da m era observação e do regis tro da dinâm ica desses
insegurança e (confesso!) de medo. sobretue(o qu anelo os eventos e interagir m ais efetivam ent e com m eus inform an1cs .
sllows acomeciam duranle a n oi te e eram rea li zados fora do No emanto, esta estratégia mmlJém acabou colocando alguns
m eu "pedaço" . em locais c!is tanles da Cidade I\ dem ar. ba irro entraVes à mint13 açao , pois fiquei lim itada aos horáriOS e à
anele m o ro, POis . com o nos lembra Magn ani: "Pessoas ele disponibilidade de meus ~au xi l i a res" que, além disso. necessa·
"pedaçoç eliferc mcs. ou alguém em trân sito flor um "pedaço" riam ent e, precisavam apreciar a música e o ambiente rapper
quc n ão o scu . sao m uito cautelosas: o c on fl ito. as 110Stiliela. para se d isporem a m e acompantlar.
des es tão sempre latc mes. POiS lodo lugar fora do "pe d aço~ Foi ju stam ente essa sensação de deslocam ento vivenciada
ê aquela part e desconhecida do m apa e, p o rtan to. d o perigo" em cam po, o que poclCria se aprescmar com o um em pccilllo
(i\'It\GNJ\NI. 1998: I 16· [ 17). ao mcu acesso ao obj eTO escolhido, que acabou por direcionar
fa tores com o gênero c faixa etária. sem contar um tal m inha ação: assumi o "não penencimcn tO ao grupo~ e passei
"eSTilo universitário" dc me vesTir. m e dislinguiam dos dem ais a fazer da relaçfro de alteridade um ponto positivo no exercício
freqüen tadores e m e afastavam simbolicam ente desses jovens. de dis tanciam ento tão necessário no trabalho an tropológiCO:
Sem dLlvida. no espaço rap eu era uma estranlla: sem turma. principalmente para que meu pOntO de vista não se con fundisse
eleslocada. vestida ~inadequadame nt e" e. aos 29 anos. bern com os dos meus informantes. R
acim a da faixa etária da m aioria. G Continuei com a pesq uisa na periferia, ao m esm o tempo
Em relação à m inha ~co nd ição fem inin a" e às incursõcs aos em que am pliava meu campo para outras áreas da cidade.
"espaços elesconhecielos", a solução foi solicitar a companhia Foi num bar/casa de sllow$ alternativo na RIa AuguSIa, região
m asculina de paren tes e amigos. Isso m e eleixou um poUCo dosjarclinS prÓxim iJ ti l\Venida Paulista . que estab eleci contato

7 Na g iria uti1i7.<;Cla na periferia. sinõ nimO para brigas c desavenças.


(j C<lbc ressa trar q ue. apesar do predominio da prcsenç•.l de jovens "negros" S Para unI a dL"cusstlo m ais Dm pla SObr.; a rctaçflo Que se csTabelece c nTr'; o
rl~sJIOW~ <le ~(lP, muiros deles poderiam scr c lasslficaclos como · tlm.ncOs". ponto ele ViSra <lo ww 0p6logo e () (Ie seu lnfonnanrc, assi.m com o il pcrs·
se o crrr éno utrl17.ac!o fosse apcn.:"lS o fenóripo. pccriva de um;:! . rnrropologia IlU OU da cidade. ver Magnanl (20021.

190 191
O nde estão as b.girls{ F~rn anda NoronhJ

peja prim e ira vez com m ulheres ligadas ao Ilip 110p que. na Fo i p o r m eio d e m eu trajeto cotidiano pela cidade - j á que a
ocasião . se o rganizaram jUSTamem e p ara diScu tir relações d e estaçào d e metrô Conceição integrava o percurso que eu fazia
gênero" no in le rio r desle mov imem o. sernana[ll'lerlle d e m inha casa à Universidade de São Pau lo - que
;"·Iaquiagcm. vestidos. sal [OS e acessórios eram 0510 m acl05 estabeleci contato com o g rupo de b .boy sll que se apropriava
pelas MC'S Regina e SI181y laine como sím bolos ele um posicio na. regularmente dos espaços em frente às escad as ro lam es d es·
m enta ~ poJi(i cO feminismo no imerior do /lip hop. ISSO ficou c laro ta estação e próximos à saída do CentrO Empresarial Itaú p ara
p orque. apoiad as em suas próprias e xperiênCias, elas rela taram praficar a d ança de rua. marcadamente o estilo b . bo!Jng. l ~
que p or m u ito tempo utilizaram eStraTegicamenTe "roupas mas- Frent e ti dificuldade d e enCOntrar mull1eres praticantes c[a
culinas' - calças largas c camiselões - para pOderem circular dança d e l\Ia. o plei pelo trabalho de campo com o g rupo de
e serem aceitas Como rappers num espaço classificado com o b. bo!)s da conceição. " idéia era . a panir deste g rupo de b .boy s.
m asculino. Intilulad o Minas da Rim a (\V\v\v. rninasdarima.com) , o o bter informações sobre a dança e entrar em contato com as
grupo passou a realizar eVentos e palestras Com o intuiTO espe- b.g irlslJ.; era d esta fo rma q ue eu pretendia abordar. a p anir (Ia
cífico d e disClllir a posição da mulher no im crio r do m ovimento linguagem corporal expressa na dança de rua . relaçõ es ele ge·
hip hop . É impo rta nte rcssahar q ue , p elo m enos n os primeiros nero n o interio r d o hip /lop .
encontros do g ru po em que eu est ive presente . a (a rma d e ex. a contato com O grupo d e b.boys (oi (acilitae[o pe jo local.
pressão util izada c ru a música. Ou sej a . havia uma p arric ipaçào ao m esm o tempo um espaço públiCO - urna estação d e m e tró
e fetiva de mul hercs MC 's e OJ 's. - e priv ado - . p o is é gerenciado pela g rupo empresarial [fali .
Em p o uco temp o. pude o bscnrar as d iscu::;sões e m tomo Tratava·se. pOiS, de um ~espaço nculro~ e que não pertencia a
([as relaçõ es d e gênero se m u llip licarem . assim como o n ú. nenl1uma "qucbrada~ m as que . ao contr'd rio. era apro priad o há
mero d e garo tas q ue (omlilfam seus próprios gRipaS c , com cerca de cinco anos pelo g rupo.
legitim idad e grupal. questionava em ~uas rim as o "m achismo"
pred ominante entre os rappers.
1'\ esta altura. minha percepção ele que as discu ssões no balllo em conjunto resulta no ra p oe o gra/l le. Hã. no enl<lnro. no interior du
imeriOr d a cena Ilip hop se intensificavam em lomo d as relações movimentO 11/1> /lo/) aqueles que. tal qU<l1 Afrika !3u1ll\)a<.lIaa. rcprcselllantC
(ta Zulunalion. acresccnrarn o Conheeimcn10 como U Ill quinlO elemento.
d e gcnero m e levou a reestruturar o projeto e as estra tégias de SObre esm d iscus~o. ler o amgo "B<lmbmuaél I3Ombãsfleo: um1.l viagem
campo, m as sem perder de vista a proposla inicial ([a pesquisa. a peta hls16ria do /llp /lop e da música negro murl(ilal· . In: Ilcuislo RoV Brasil.
número 24. fh"'lgln.a 29. 2002.
saber: realizar uma abord agem amropolOgica que não se restrin. I I Blcok bo!)", sig/llflca g.lrOlOS que danÇ'<lm no f)r<.'(Jk. na parada da mUslca.
Ê nél "quct>ra". Ou SCjél, na rápida ruprum do dcserwolvimenlo d<l músic<l
gisse e:lOS disaJrso.s apre5Cruaclos nos rops. m as que, ao corurario. feito pelo OJ. que os /). /)0 1.) fOt.!. no caso das g<Jrolas. as b.giriS) criam suas
privilegiasse as clemais linguagens p rescm es no Ilip hop .lO corcogr"fk"lS. O vrrluosismo do dançarino eSla mUl10 ligado à sincronia enlle
seus mD,·imemos e o ri1lllQ eSlabclt.:cido 1>C1o Dj. uu sc.;J<I. ã ack.'quaç<"lo (los
nlQvimcntos à "Ixuicta quebracJa" .

... fi l~rl1 cnde ·se aqui gcncro ntío ~OIno .lIgo cJcflninvo. d.ldo biologicamente. mas
c,:,mo l1nl<l calegorla SlISCc.;flV(;1;'ls dlfe/entes COI1SIn.IÇÕCS Nc.;sSC sentido.
genero nãu (leve ser cnlcndi(lo a tJ<lrlir (Ie um cssenclallsrno. m as como
12 r\ d<onça de rua (teve ser elllendid<! como urna modalidade que agrupa frés
esrilos desenvolvidos a IXlnir do Funk. oSao eles: o PoppillO. o Lockiog e o
Il bolJing. Es1e úlll/no eSlllu (ia dança é reallz<ldo 110 IOlerior (ias rodas (Ie
IJft~ok lOS movimenlos stIo demonslr<1dos individualmente pelos u.boi,/s
algo ql~e deve ser busc;Jdo n.lS relfl çõcs e que ntlo é relarivo as diferenças no interior (Ie um eirculol e privilegia os jXJwc:r moucs (movimenros que
a papéiS sexu<lis (lcsempc.;nll.l(!os por homens e l1\ulheres. requerem mll11<l forç;) c equilíbrio do d<!nçarino c se <L,>scmellklm muito 'IOS
10 De ;:Icordo com 1.1 maiolla (Ie rl}(:us infOrrll<lnrcs. u t/ip 110P ê formadO por movimeruos rcaliwc!os na Wn<Ística oIimpic;;lI.
quarro c!elllenros ou pr;'Jlicas: a délnça de rJ./<I. os /)J ' s e os MC' s _ a.1iO rJ<\. 13 MullICrcs que pmliCi)r n o breal; dance uu dança de n.1éI.

192 193
Fernanda NoronhJ
Onde esl.\O as b.girI5~

Circulavam pelo ~poil1l da conceiçãO" '4 alé quinze b.boys das prálicas culturais e elas opções de lazer do grupo. .
p or noite, todos oriundos de I)airros da periferia da zon;) sul da AS caractcrísticas do novO campo logo de início me deIxa·
cidade e COlll idade ent re 17 e 30 anos. Deslcs. pelo m enos ram confortável o suficiemc para al:>andonar a companhi~ de
qualrO eSlavam casados e tinham filhos e poucos (somente os meuS "auxiliares~ e estal)elecer l ima rolina de traba!t1o maLS re:
mais novos) ainda freqi."lentavam alguma inSlitl lição escolar. ,.'I grada: ia a campo pelo menos dois diaS d:lrante a semana e ali
Uma parcela significativa do grupo estaVa inserida no m ercado Jermanecia qltélSe sempre das ! 711 thOráno em que OS b. boys
de rrabaJl"lo (cinco tralJaJllavam em o ficinas m ecànicas) e, por ~hegavam de seu s trab alllOS) até às 22h (qu ando deixavam o
isso. cllegava na cstaçtto Conceiçáo no início da noile. local para ir para casa ou a um próximo ponlo na cidad e).
MuitOs no grupo se posicionavam com o "negros". sendo Apesar da quase inexiStência de meninas nO grupo - 50'
que mesmo aqueles que poderiam ser facilmente iclcntificaclos mente urna garota. namorada de um dos b./Jo!)s. que cOStu·
com o ~ IJra ncos",(I (em função de caracteristicas como a cor da m ava freqüentar o local anles de se afastar devido a uma gra·
peje) buscavam reforçar um estilo block. ou sej a. utilizavam cor· victc z _ a agradável convivência com os garotos (informamcs
tes de cabelo. roupas e freqüentavam bailes blacks'1 com o uma que se mostravam disponíveis a responder as p ergun tas que
forma de valorizar uma "identidade negra". Em outras palavras. Itles eram dirigiclaS) e o interesse que possuo pela dança m e
uma "identidade negra ~ era p artilhada por todos ali c , é possível fizeram adiar o prOj eto iniciallacessar as b .girls) e p ermanecer
dizer. construída cotidianamente aTravés do "est ilo de vida"I ". nesle campo p or mais tempo.
ISSO porque a idéia não era realizar um "estudo sobre a
mulher". nem aclotar uma metodologia que priorizasse as ca·
14 Calcgoria nauva que designa um espaço fLSiCo que é eleilo por delermlr"k"ldos
grulXlS e!c:: jovens com o o Iocat de encomro l)Ora suas l}fjllcas cullurais: pOinr tegorias em píricas . mas falar da diStinçãO sexual observada ~a
prcssuJ}OC a Idéi<l de pcrman(:nci<l C$JXICia! que marca a IdcnlidacJc grupal. pr~ltica ela dança de rua scm utilizar as categorias "11omem e
15 Um dos garOlos tmVia lrancaclo a faculdade d e adminiSlraçtlo e oturos dois
fizeram o vCSlibular. mas nao con..'lCguiram pag;Jr sequer a malricula. ~mulher ~. Em outras palavras. a pesquisa tinlla como proposta
I G InCluem ·se aqui as d(:ffims "C<J1egonas intermediárias- que se apóiam na
10nalid,JdC de pele. como paretos. mulatos c mestiços.
uma abordagem relacional de gtmero que. porl indo das categ .?
17 Fcslas e casas nOfumas que se Câf""dClem·.am como espaços de soclabilldacle rias masculino e feminino. fossc capaz de levar em consideraçao
c k.zcr de jOvens ilfro·pauliStilnos que compandlmm o gosco m usu:aJ por as experiências concretas de m eus im erlocutOrCs de campo.
CSldos cJc mu.siCa como o rapo o r60. o samba e o s.:Jmba·rock.
18 Bourdicu I I 987) define CSlilo ele Vida enquanto moelo como os u"Khvkluos NeSta p crspectiva. tal p esquisa não seria prejudicada caso eu
buscasse o p ontO ele vista dos rapazes. já que não se~i~ .0 I~'
e os gnJpos sociais adquirem dislinçtlo slmbólIcil. a partir de prefcrc rlcias
que vilil da escollla d o vesluáriO. do consumo de bebIdas. de alimenlos
ú das pra ticas de lazer à lingl,..gem ou héxls corporal de um delerminado formantC. mas. sim. o olhar antropolÓgico que me pOSs,b!h[an~
g nJpo ou classe social. Para Mlke I"'ealhcrslone (1995). o estilo de VIda na
cullura de co nsumo contcmpo rtmea é um conolador da individualidade. da interpretar as relações de gênero que o campo me indicava. FOL
aUlo·expressao c de lima consciência de 51 eSlillzada que ntlo se reSlringe desta form a que cheguei à roda de b.boUS.
aos Jovens e aos oriundOS d as classes abastadas. m as abrange a IOdos
que tem ti oportunidade (te exprimir um csulo de \~eltl e urna cOrlscit:: ncla de
si cSlilizuda. nao Imponal"Klo a idade ou a origem de classe. A concepçao
de eslilo de VicIa desenvotvida por Fea1l1erslonc ntlo se !Imlm ã Idéia de I O lu gar ciO anlrOp óloga
... conju ntos relativameme fL>;OS de diSposiÇOCs. goslos cul1uraiS c práliCas de
lazer que demarcam fronteir;:lS erllle os grupos e c lasses sociais. O eSlilo
de vida é -uma eslilizaçilil allva da VIda. onde a COCrc!lcla e a unidade
Quando cllcgu ei à roda de /.J.boys da ConceiçãO fui iClel.l -
dão lugar ti c.~ploraçao Iúclica das e.~pc ril:neias lrallsilóri,lS e dos efeitos tifici:1da pelO grupo com o uma repórter. isso porque o gnlpo Já
eSléticos supcri1clais" t l 995: 1561.

194 195
Onde! ~ão as b.gir/s? Fernanda NOIQn hJ

11avia sido entreviSTado algumas vezes por jornalistas que reali· muiTO diSlantcs da região central ( Ia c idade e t6m no metrô um
zaram matérias sobre esta eSlação cle metrô ou sobre o hip l1op. dos seus meios de transporte.
I\ pesar cle me apresentar como pesquisac!ora e deixar claro que A convil e de meus inforrnanTes. fui algumas vezes ao Clul)e
meu interesse cra obter informações sobre as b.girls. a ieléia de ela Cidade. Na primeira vez. fui com uma amiga c tralei de ob·
"pesquisa antropológica" não pareceu fazer muito sentido para servar e anotar em meu diário de campo aspecTOS importantes
os garOtOs. que entenderam que se (ralava cle um "trabalho pra d e um baile black onde se partilha o gOStO por alguns eSTilos de
facu "lo e m e a tribuíram a jclenliclade ele repórTer. musica e dança: samba·rock. rol' e R&B. entre eles.
Com a idéia de que cu c ra uma repórTer. o d iscu rso que O cenário era mais ou m enos esse: na entrada. pr01egiela
partia cios garOtOS no iníc io ela pesquisa era fOrTemente marcac[o por urna corrente. os seguranças "seguravam o público' para
por um 10m ·oficial" . ou seja. eslava afinadíssimo com o discurso que as pessoas emrassem aos poucos. "1\·lan05" e "minas" eram
dos principais representames do movimento e buscava sempre divididos em duas filas. 1\ fila dos homens era grande. mas a das
demonsTrar o conhecimcllIO da "Origem- e da hiSTória do Ilip 110p. mulheres dobrava a esquina! ~rn lorno da fila os j ovens circu la·
assim como a importância que lal expressão artíSTica adquire na vam excitadOs com o m ovimento. r\ rua em frenle também ficava
viela dos jovens "negros· c/ou pObres da periferia . tornada por jovens que conversavam. paqueravam ou apenas
DepOis elo segundo mês em campo. e de minl1a presençc;l procuravam os amigos. Pelo que se o/)servava. ninguem estava
conSTante ali. a idenTidade de repórTer deixou ele fazer senTiclo sozinl10 c a fila poderia ser dividida em grandes tunl1as.
ou foi esquecida; a partir daí notei uma mudança na'5 conversas. O visual da m aioria das meninas era composto !Xlr cabe·
que aclquiriram um tom menos formal e mais volTado ao cotidia. los alisados e escovados ou encaracolados com gel. boinas e
no e a vida pessoal dos garotos. Depois de algum Tempo que trancinhas. Ta mbém usavam calças de c intura bai.... a (modelo
cu estavc;l em campo. cu j á e ra conviclada por eles para ir aos salnl lrapcz). blusas elecOlêlelas. mini saias (apesar do frio que
demais lugares que formav<:lm. junTamenTe com a Conceiç;:lo. o marcou aqueles dias duranle o Inverno d e 2003!1. sa110 anal)ela
circuilOw b. boy na cidade (dentre os espaços. o Clube da Cidaele e muita maquiagem .
e o concurso anual de d ança de rua "BaTall-la Final"l. Os meninos reforçavam m aiS no "visual ropper" ; calça)eans
As sextas· feiras os garO/os combinavc;lm nil Conceição a ou cle m ole 10m. tênis de grife (principahnCntC Adidas. Nike e Mi·
programaçi:í.o do final de semana. 1\ opção quase sempre cri) zuno). camisetas (da grife Pixa·in2 ' de limes paulist<:ts ( Ie fUTebol
ir aos bailes blacks comu o s realizaelos no Clube da Cidaele. ou de IJasquete am ericano. de canto res e gn.lpos de rap como
A casa é urna elanccteria que fica próxima ao MeT rô i\,.larecI181 o None·americano 2PaC e os brasileiros Hacionais 1\IC' se 5a/)0·
Deodoro. o que facili ta o acesso a um publico que ê. em sua lage) . MuitOS cabelos raspados . alguns com Tranças e poucos
grande maioria. compOSlO por jovens que m oram em bairros ostenTando o cabelão no eslilo block powcr. Chamava atenção
a 1001l1inlla pendurada na calça (que serve parcl enxugar o suor
... 19 Gíria prlla Faculdildc .
20 Circuito pode scr deflnidu como lUn conjunto clt: espaços e cqlliPilmcnr()~
inevitável num lugar lão quente e cheio. ao m esmo tempo em
que revela o conhecimento "de dentro" por pane de quem a car-
que servem como pOntoS de rcfcrcnciil paró.l os Sê~IS lIsuário s C qUê n:;o
se conformam mim cSI1"lÇo contíguo. ffi."lS Chsl"lCrSoS pdo espaço urbanu.
~ndo (J(<''Cr..<;o pcrtencer ao gnlf"lO que fflXTücnt;t o cirl.:t,ito p.'ra conhl.'Cc,1o
m eus a fundo t.\IAG."t\l\:1. I !)!)(jl. 21 Soble o mercado de consumo e O esliTo de se \'csttr dOs /up IlopfJeTS ver
.\L.\CEOO r~OO-If .

196 197
Onde estâo as b.girlsf Fcrn<lnd<l Noronh,1

regai e uma espéCie de louca de nalaçáo em algumas cabeças . encosta.encoSla e a circulação das pessoas eram lão inlensos
moda inspirada no visual de alguns roppers americanos. que logo nos senT imos cansadas. Eis que I\nderson e Chão
1\ casa eSlava 10lada e abafada. Isso dificullava a elança e. Bola (dOiS de m eu s in1 erlocu tores da conceição) apareceram.
com exceção do momenTO em que o DJ fez a seleção ele mú ' Como "[ípicos" b.bO!}S veSTiam calças de m oletom. camisetas.
sicas samba rock. poucas lurmas conseguiram abrir círculos [énis e carregavam suas mocl1ilas. O reSlanlC do grupo j á eslava
e fazer os Iradicionais possinhos. 22 t\ fala elo Dl no m icrofone na pista, poiS haviam Cl1cgaelo cedo. p or volla das 2 11130min.
se dirigia às diversas ca[egorias em que o público podia ser para fazer o alongamen to e o aquecimentO necessários a uma
elivielielo: Cadê o p essoal ela Zona None? E o lado Leste? Onde "!}oa apresen Tação" de break. Fornos convidadas a ir para a
eSTão os CorinThianos? pista assis tir. por entre os ombros dos garotos . os b . bO!)S se
Assim como nos shows ele rop da periferia. ali eu Têlmbém revezarem no cen1ro do circulo: neslc momemo foi possivcl ver
"destoava" um pouco ela maioria das mulheres presenTes . Nes. um garolo sentado no ch ão se alongando, cnquanto o reslantc
[e caso, não só porque chegara ao baile sem uma turma . m as do públiCO, all1eio à roda de break, cunia o baile dançando em
porque cu não estava arrumada de acareio com o ambiente [urmas menores. Praticamente não l1avia m eninas na roda dos
(roupa, cabelo e ausência de maquiagem revclavam n;;lo só b.bOys e dentrc as presentes nenhuma se aventurou a par1icipar
l llll "descuido com m eu visual" , mas também -denunciavam " o do racI1a~~ ou aden1rar a roda de break.
diStanciamento em relação às opções esTéticas observaelas no Fiquei bastarlle tempo observando a dinâmica da roda ql le.
corpo dos freqüentadores deSle baile). Fora isso. ainda na ma agora, se apresen tava para mim fora do contexto de aprescn ·
para enT rar, um vendedor ambulanTe. ao Icntar me vender uma 1ação.lreino (com o na eSTação Conceiç;jO). Tratava·se de uma
laia de refrigerame. me chamou de galega, numa clara refercncia "apresenTação oficial", na qual os integrantes do movimen10
à cor de minha pele (caraCterislica que ali se apresentava como 1inl1am a oportunidade de se mostrar e se avaliar. QuandO Cl1ão
um evidcnTe aspcc[o de difcrenciação. 11aj a visf;J que o público Bola enTrava na roda . buscava fazer os exercícios que exigiam
era predominamcm ente "negro"). mais força e equilílJrio. Se errava. não escondia a frustração,
I\ Credito que as diferenças enTre mim e m eus inlerlOCUlorcs xingava l)élixinho e balançava a cabeça. " lodo o momentO
innuenciaram o estal:>elecimemo da relação de pesquisa (era Lagart ixa. OUIfO b .bo!). entlâva na rooa para desafiar alguém.
ób vio que ali eu era um OLllsidcr). mas não chegaram a dificultar p aranelo em frent c dos garo10s ou simplesm eme apomando
uma aproximação COf"n os freqüentadores ela casa: duranle o jJéJréJ c les . Quando alguém "coraj osamente" buscava repCti r
baile "puxei" conversa com algumas p essoas. dancei e circulei seus movimentos com mais "dcstreza", ele batia palmas para
p elo ambiemc. observando de perlo a d inâmica do baile. o dcsafiantc colocando as m~los muito próximas ao rostO deste,
Num dado m omemo. eu e m inha amiga tcn[amos ficar vol[ava ao cenlro do circulO e "pu xava" um m ovimento ainda
numa espéCie de mezanino . que era um pouco m ais alio elo mais dificil. Desafios de desafios. Parece·m e que para os b. boys
que a piSTa de dança e fornecia uma visão privilegiada do local. eS1e foi o "ápiCe da noite": os garolos ent ravam e saíam do
Começamos a dançar. mas o fa[o de ser véspera de feriado e circulO com maior velocidadc e muitos. inclusive. arriscavam
a casa eSTar lotada rapidameme Teve suas conseqCIf'::ncias. O

23 Qu...'lndo se espera que SOIll(."1lIC os doiS to IX>!/S que se ' cofrCnlilm' cnuem
22 Coreograflils QUe as lumla5 danç<lm nos lXIilcs. 11..."\ roda l)<Im dcmonsw... r Slk'S habiHdadcs.

198 199
Onde estão J.s b.gir/sf Fernanda Noronh,l

rnonais (movimeOlo em quc o D.boy impulsiona o çorpo para anlrop ológico produ zido. (\gindo como ~migu é". m anlive um
Irás e dá um s3110 sem colocar as mãos no Cllão). CCrlO d is tanciamenlo e não me envolvi com os p rol) lemaS do
O ~racha" só foi q uebrado quanelo o O) iniciou urna seleção gl1Jpo (como ausencia dc organização e alritos internos) e com
de me/oc/ias (músicas lentas) sob prOlestOS dos b.boys. Chão p roblem as p essoais qu e os garotos acabavam comenmndo
Bola comeOlou : ~ páral O cara vai tocar música ele pegar multlcr duram e o !reino.
j uslO agorar". A mudança de música anunciava a passagem (\p esar da recepçãO. naquele dia scn1ei·m e como de COS1U·
de um momcmo ele ~bala ltla sim bólica masculina" e exposi· m e no cI""\ão e continuei a conversa com i\"lagrão. Ele comentou
ção no imerior da roda de breok para o mamemo da paquera sobre as "minas" que não querem dançar e que eu !3mbém
e/ou aproximação com as garotas. Neste segundo mamemo deveria treinar. Eu me dcsculpei. disse que m eu intuito ali era
do baile, a roda de break se desfez e meus informanles b.boys só observar. saber m ais sobre o grupo. Além do que. nilo linM
desapareceram no salão. muito jCÍ!o para dança ...
Essa observação de campo. que se dcu fora da Conceição, Imerpretei a conversa daquele dia com o uma lentativa.
foi essen cial para que eu pudesse compreendcr a maneira com o por p arte de m eus informantes. de me in tegrar ao grupo. ELI
os garotos se relacionam c. a partir da dança de rua. fazem eSTava numa posição liminar: não era mais uma eSlranlla. mas
suas opções dc lazcr na cidade. Trala·se de um enfrentamelllo também não tinha lugar definidO no grupo: não era uma b·9irl c
simbólico entrc homens, onde o imponante é desafiar o OUlro lampouCo cumpria o papel ele namorada . Estava fora de lugar.
e honrar o nome elo gl1Jpo de que se faz parte, ou seja. expor Em outras palavras. o comentáriO de Magrão indicava que mio
o 1alento individual ao mesmo Tempo em que se reafirma o nha presença ali como pesquisadora - mesmo àquela ahura e
nome e a unidade do gl1Jpo da Conceiçflo freme aos grupos apesa r das cxplicüÇÕCS dadas por mim - ainda não fazia muiTO
de b.boJjs de oulras áreas da cielade. senlido para o grupo. Porém. isSO não parecia maiS me afastar
O fato ele ir regularmenle à Conceição e de me imeressi;lr do grupo, apenas causava muita curiosidade.
pelos demais lugares ligados ao breok que eles freqüen1avam comecei a perceber que quandO conversávamos. eram
fizeram gradualmcJ11e a hipÓtese inicial da ~jdem i ficação repóner" raríssim os os mornenlos em que todos participavam . Em geral.
ser lotalmeme afas1ada pelOS b.bOys . (\Iém disso . cu não agia O~ garOlos se revezavam. o u sej a. enquanto um conversava
como lal e !3mpouco minlla presença Irouxe a eles o benefício comigo os demais se manTinham afastados . nâo atrapalhandO
da visibilidade em jOrnais ali programas de lelevisão. po r isso desta forma urna possível ~paquera". Entendi que era uma forma
os garOIOS passaram a se pergumar por que Cu continuava a velada de respeito múluo CTlIre eles. uma regra capaz de evitar
freqüentar o poinl. Afinal. o que cu qucria com cles? a triTOS que colocassem a unidade do gn.lpo em risco.
Certa vez. n a véspera do feriado elc páscoa de 2003. Por oul ro lado. raras vczes eu percebi alguma inlenção real
um elos b.boys. o ~·Iagrão. m e cumprimenlou e d isse: ~E de paquera . Talvez (Xlrquc eu permanecesse uma incógniTa
aí. veio treinar? Chega aqlJi. dá uma de m igLI6 ... " (Na giria para o gl1Jpo com minhas ~at it udes estranl""\as" que não corres-
~ dar uma de migu6· significa tingir-se ele bol)o para n[lo se pondiam ao comportnmenlo da maioria elas m ulheres com as
compromeler em alguma siluação c / ou tirar provei la dela.) quaiS eles conviviam. Por vezes comentavem que eu estava
Talvez fOsse jus!3n""\c1l1c isso que eu fazia na imenção de nüo ~semprc sozinha", que cu ficava até larete ~na ru()~ com um
compromeler a conlinu idadc da c 1nografia e O conllecimcnlO grupo dc 110 mens e me qucslionavam por que eu. com aquela

200 201
Onde estão 35 b.girlsr Fernanda Noronha

idade. ainda não possllía filhos. corpo. Buscando urna aproximação com o trabalho deste aUTor.
Apesar do estranham en to que eu lhes causava. minha pre. podem os entender que o corpo dOs b.bol.Js. "marcado" pela
sença ali era mOlivo de satisfação para os b.boys. Gostavam dança e pelas pOLUer moues Uá que a m udança na musculatura
de ser alvo ele m eu interesse e de me ter corno "públic o fiel". dos corpOS é visivel e desejacla pelOS breokers) pode ser "lido"
POiS sempre m e p edia m para ver se o alo nga m ento eSlava tantO p or aqueles que pratiCam a elança quanto pelo espectador:
sendo fcitO da m aneira correta ou. enti:"io. m e explicavam com iSSO porque é através do corpo e elas técnicas que esta dança
detalhes o m ovim ento que havia sido feiro n a roda . Era uma exige que os brea"ers demonstram o clomínio de códigos e
forma de ex troversão/expressão do conhcclmemo e domínio das regras de penencimemo paniculares a um grupo que se
da dança. m as também demons tração de habilidade , resis. diferencia dos demais Ilip hoppers.
lencia e força para mim . Com a dança. as roupas. o circuito de lazer. a m úsica. os
Do m eu lado. a prática dos breakers Tafnbém m e causava eventos c, principalmeme. o cuidado com o própriO corpo. os
um cen a est ranham cmo: obselVava com Interesse o modo b. bo!Js exprim em um estilo de viela particular a este grupo. que
como aqueles jovens, "manos". durante as sessões de alonga. os diStingue simlJolicamente de Outros j ovens. embora a neces-
menta que antecediam a dança. mantin ham seus corpos pró xi. sielade de se Trabalhar o própria corpo n[IO tenlla apareCido expli ·
m os - um ele frente pro Outro. um segurando as p ernas do OUlro CiTamenTC nas falas durante a etnografia como just ificaTiva para
- diame das escadas rolames do m etrô e em meio à agitação o fato dos b. IJoys se encontrarem quasc diariamente na estação
do fim de tarde e início de noite. AproXimação corporal que em Conceição. Aliás. uma observaç[lo reaHzacla no concurso anual
outro contex to poderia ser mal visla p elos OUlros "manos". de dança de rua "Satallla Final" foi particularmente impOrtante
É na Conccição. durante o momento de lazer e encontro ti pesquisa e à necessidade de se entender as eliferenças que
com os amigos. que os b.boys lrabaUlam c disciplinam seus existem entre a socialJilidaelc dos jovens num show de rap e
corpos. Se. por acaso. vão partiCipar de algum evcl1IO de break num eventO de dança de rua.
ou racha. preferem não sair à noiTe e se p oupar p ara a "bata lha" Eram três mil pessoas em um ginásio ele espanes pró ximo
elo próximo dia. t\ ssim. veem com na turaJidacle o modo como ao terminal ele ônibus Santo r\ma ro. N<:"IQ Il ollve IJrigas n em qual·
se Tocam e trabaJllam SCus corpos num espaço púlJlico. POiS quer espéCie ele Tumultos . r\ m aioria elos presentes eram garOTOS
é justamen te ali que buscam se aelequar à diSCiplina e à rOTina e garOTas com menos de 25 anos, "negros". vestindo agasalllos
de Irampos (exercíCiOS e alongamentos) que a dança exige. É com listras. camisetas estampadas com 1095 (assinaturas que
também nesse espaço que OSTentam e com panilham cotlelia. os grafiteiros cost umam fazer pelos muros das ciclades). lenços.
namente as modificaçõcs que a rotina ele exercícios OCasiona banda nas ou banes nas cabeças e m ochilas nas COSTas. Não
ern seu s corpos (múSCulos. força e habiljclade. símbolos de fossem os clClalllcs das munhcquciras, j oelheiras. cotoveleiras
dedicação e diSCiplina). e a quantidade ele m eninos e m eninas que realizam e xercicios
Picrre Clastres ( 1978) considera que as récnicas corporais de alongamCnto, diríamos que a cena antccedia a um SllOW de
aplicadas aos corpos s<:io panes imponames do aprendizaelo na rap (O públiCO p arece o mesmo!) . AOS poucos . no en tanto. as
vida social. Em seu CSTudo sobre a iniciaçi10 dos jovens Guayaki. rodas de breok vão se formando c fica clarO a qualquer obser·
buscou analisar a fonna como por meio elos ritos de iniCiação. vador desavisado que a palavra "&uaUla Finar. que dá nome
o corpo meelializa a aquiSição de um saber que é inscrilO no ao even to. alude à forma com o esses jovens. organizados em

202 203
Onde eSI,'io as b.girls? Fe rnand a Noronha

equipes. se enfrentam no palco e na pisla do ginásio através Ora. agora ficava mais fácil enlender que no caso dos garo·
de urna coreografia que pocle ser descrila. grosso modo. como lOS da ConceiçãO a prioridade não era fonnar uma equipe para
uma mistura ele lUla. ginástica olímpica e dança . se apresentar no palco. por m eio de uma coreografia (onde a
AO Contrário do que ocorria nos shows de rapo pude circu· presença das mu1l1eres seria entendida como elemento posili-
lar com tranqüilidade. fOTografar e gravar entrevistas sem que vo). mas Ireinar basicamenTe para o m e/xI com out ros grupoS
Ilouvesse qualquer conlratempo. já que durante esses eventos de Ilomens. Isto explica a Conceiçao (assim como a roda de
procu ra·se resolver as IrelOS por m eio das l)a talllas simb ólicas break observae[a no Clube da Cidade) se caracterizar como um
no inTerior das rodas de breok. espaço masculino. Nesse semido. é possívcl dizer que embora
É importante observar que os locais deSTinados às baralhos a eTnografia demonstre que a dança de rua e os evenTOS ligados
(geralmenTc gináSiOS de esporle) possuem infra·estrUlura ade. a esta pri lTica c.c;tejam muito mais suscetíveis à presença de
quada ao número de partiCipantes (O que permite. inclusive. a mulh eres que aqueles desTinados ao rop. é necessário Que se
presença de Crianças) e moslram urna partiCipação e número observe as relações de gênero entre os pralicanteS da dança de
ele mulheres presemes muilO expreSSivos. Tais caraCteríSTicas. rua. levando·se em conSideração a especificidade e a dinãmica
nOTei. indicam uma sociabilidade nos eventos ele dança de rua social que cada campo é capaz de revelar.
que não se verifica nos Sl10WS de rap.
Foi neste cvento que cu finalmente Mdcscobri Monde cslavam 2 Considerações finais
as b.girls. Elas estavam no palco no qual, no inTerior das equipes
de dança de rua (que podiam ser integradas por homens e m u- A pesquisa antropológica é um percurso direcionado nào
lheres ou apenas por um dos ·scxOÇ). panicipavam das coreo- só pela linha Teórico·m etodológica do lal pesquiSador (a). mas
grafias que eram desenvolvidas a partir do rilmo da música. Também por sua lIajetÓria p essoal. "raça". gênero . faixa elária c
Percel)i que a presença das m eninas numa equipe de break eslilo de vida . Como vimos. na escolha da tema desta pesquisa
cllamava a atenção dos jurados (que esperavam o MpoliTica. foi delerminall1e meu gOSTO pelo hip hop e a idéia de que morar
mcme correIO". ou sej a. a participaçào de b.bo!)s c b.gir/s) e do na periferi<l da cidade (e acredilar possuir familiaridade com os
públiCO (que. ainda predominamemerue formado por homens . códigos c as regras que m ediam oS relüções sociais nesses es·
não eSlava acostumado com a presença das muJllereS) durame paços) me proporcionaria, de antemão. uma maior legit imidade
a apresentação da equipe. sendo valoriwel<l nesse semido. e facilidade de inserção no campo escolhido.
Se o palco era partilhado entre mulheres e homens. o mes. O encont ro com meus inform antes durante a observação
mo não acomecia no interior das rodas que se fomlavam no participante foi capaz de evidenciar quc , apesar de morar na
meio do público preseme: ali grupos de m eninos agrupados por periferia e possuir a mesma origem social comum ti m aioria cios
bairro. lugar de lreino (que era o caso cios b.bo!}s da Conceiçâol hip 11Oppers. cu não freqüenlava os espaços de lazer desses
ou m esmo p or cidaele (muilaS equipes v ieram elo inTerior) se j ovens afro·paulistanos e ignorava a dinâmica e boa parte dos
enfrentavam através da dança: nas roelas ele break. o que con· cóeligos que pcrmeiam sua sociabilidade. Entre mim e a m aio·
t;)Va cra a força fisica. p or iSso cada m ovimen to rcalizaelo com ria de meus interlocutores Ilavia um distanciamento simbólico
sucesso no cenlro da roela por um dos intcgrames das equ ipes _ objeTivadO em Ilábilos. vestimentas. gOS10S e modo de falar
era comemorae[o como umõ viTóri<l sobre o o Ulro gRIpO. _ que de certa fOlma impuseram à pesquisa a necessidade da

204 205
Ondc c5táo il5 b.girlsl Femanda Noronha

busca de novas estréuégias c caminhos que o prOjeto. em seu O fato de ser mul11er pode ter atrapalhado em alguns mo·
formato iniciaL náo pressupunha. mentos. como no inicio cla pesquisa. mas taml)ém ajuclou em
Os percalços durante o trabalho de campo. a sensação cle OLltros. :\ mulher. apesar de não compartilhar muiTOS códigos.
eStranl1am enTo em relação ao meu próprio espaço cotidiano e aincla mais quandO se é de fora do contexto ropper, como é
a Tomacla de consciência de que eu não pocleria ignorar o fato o meu caso. muitas vezes tem uma ermaela privilegiaela num
de que era mulher. -I)ranca" e pertenCia a uma faixa etária cli· .campo masculino". É urna entrada cliferente da dos t10mens.
fcrente da de meus informantes Ilip Iloppers se aprcserl1aram mas que também lem seus beneficios própriOS. pOiS possibilita
corno dados impOrTantcs na opçãO pela estratégia de trabalho vef o campo a partir de uma QUlra pcrspecliva .
adotada (primeiro a clependência de ·auxiliares" e depois na
mudança de campo). assim corno a ênfase clada às relações He!erên cios bibliográficaS
de gênero durante a análise anTropológica e a con sTrução do
objetO de pesqu isa. B,\RBOS,\. AR. · Pichando a cidade: Algumas apropriaç,óes
'impróprias' elo espaço urbano" . In: i','IAGNAi'U, J: t\'IA~'1 ESI, \3.
Se pela dinâmica dos shows senTi dificuldades ao freqüentar
10rgs.l. Jovens no Me/Tópole: u~o ~~Óllse a~/TOpológjÇO dos
os espaços raps nos bairros, a opção por um ·espaço nelllro" circuitOS de lazer: encon/To e soc/ob,I,dode. (NO prelo)
- que nào estava inserido em nenhuma quebroclo e apresentava BOURDIEU, p. 1\ economia dos /TOCOS simbólicas. São Paulo.
um número reduziclo cle informantes (como foi o caso da esta· Ed. PerspecTiva, 1987.
ção de metrô Conceição) - favoreceu o estabelecimento de urna ~--c-:-:;-;o' O poder simbólico. Lisboa/Hio de Janeiro. DIFEL/
rOTina de trdl)alho e minl1a inserção no gRIpO pesqLtisado. Bertrand Brasil. 1989.
t\ etnografia me POSSibilitou Transitar por dois mamemos CL.\STRES. P. 1\ socieclocle conlro o Estado. São Paulo.
e dois espaços que são constiTUTivos da dinâmica da dança cle FranciscO 1\lv05. 1990.
rua: o primeiro. o p aim da Conceição (onde a social)ilidade era FEATHERSTOi'\I3. M. Cultura de consumo e pós·moclernismo .
m ecliacla pelas relações de amizade e voltada para o cotidiano Sào Paulo: Stuclio Nobel. 1995.
dos trompas e dispu lOS) um espaço masculino (:uja dinàmica está GEEHTZ. C. "um jogo absorvente: NOlas sobre a .~riga de
voltada para a baTalha simbólica entre homens: e o segundo. o galos b alincsa". In: 1\ inrerpre/ação clas cu/luros. HIO ele
Bé.\ta1!13 Final. evento ele dança de rua que é um espaço destina· Janeiro: Ec!. Guanabara. 1989.
do à extroversão oficial do conhecimento por pane do b. bay e . O saber local: Nouos ensaios <.711 anrropologia
de sua equipe, o/1ele as b. girls ~ em nllmero significativO - eSTão ~in~,e~r~
p~,"~',~a;;;tiv
' a. pcrrópoliS: VoZt;;S, 1998.
presentes no palco e apresentam um valor simbólico que chama . 1....(01)0 ItIZ sobre a 1\l1tropolO{Jia. Rio de Janeiro:
atençtlo durante a apresentação das equipes ele dança. 7Jo~r~g~c~'~za~I;:-1'ar Ec!., 200 1.
Entender essa diferença, ou seja, em que momentos a clan· H ERSC H~'Ir\NN. M. O FlInk e o Hip·HOp invadem a cena. RiO
ça se consTituía num espaço masculino e em que momentos ele Janeiro: UFRJ. 2000.
a presença feminina era valorizada , foi funclamental durante a 1IERSCH;<" I,\NN. M: BENTES. l. ·0 eSP~TáC~IO cio
etnografia. uma vez que seriam as eSTratégias ele campo aelo· conTradisrurso· . Cademo i',laiS! Geraçao hlP hop. FOI/lO de
Sdo Patl/O. Sao. Paulo , IR agoslo. °00"
- _.
taelas e o trânsito por entre esses espaços que me revelariam
KOFES. S. -C(llegorias am11iliCél c empírica: Gênero e mulher.
a lógica interna ao gnJ!)o.

206 207
Onde estão as b.girls~

DiSjunções, conjun ções e m ediações" . In: ReuislC/ CC/demos


Pagu. UN I CI\M I~ n . I . 1993. p. 19·30.

~I/\ CEDO. i\ lárcio. "Serviço PreTo: Uma faceta c[o consumo da


juvenTude afro paulista". Texto apresenTado na XXVII I Reunião
I\nua~ .da ~\SSOCi~ÇãO Nacional de Pós'Graduação e pesquisa
em Clenc_as SOCiais (ANPOCS). Caxambu. MG. 2004. Mimeo. CapÍlulo 7
MA?Nt\J-":1. J.G.C. -Da periferia ao cenTro : Pedaços e trajetos" .
ReU/s/a d e l \n/ropologia. Silo Paulo . 2 f21. 1992. p.203. 19 1.
-... ..
no pedaço: CU/lura p opular e lazer na cidade
",::-c;;:--,;:-. "'"'esla Entre o familiar e o exótico:
São Paulo : Hucitec, I 998. .
Comparrilhando experiências de
:0:-=_ _ . "Tribos urbanas: Metáfora ou calegoriaT In:
Caclemos de c?mp? Revis la dos IVunos de PÓs·Cracluoçáo campo na Boa Vista, Cabo Verde
em 1\nl(ooologIO. Sao Paulo. 2 f2). I 992b. p .5 1·48.
i\'It\GNt\NI. JOs.c Gui lherme C.: TORRES. Ulian d e Lucca lorg.).
No MClrópolc: fexlos de anrropo/ogia urbana. São Paulo: i \ndréa de Souza Lobo
Edusp. ] 996.
Trabalho de campo é Irabalho /la campo. Trabalho
""=:::CC7. "De peno e de denTro: Notas pa ra uma etnogra fia de compo é. ames (Ie lu(la, um tipo de ·/rabalho·, é
urIJana-. In: ReVis ta Brasileiro de Ciências Sociais. 17 (49). 2002. uma experiênCia crialiuQ e prodU/iva. apesar de suas
M.'\Ui'\'O\VSKI. B. -Os A rgonautas do Pacífico Ocidental". In: ·recompensas" nua serem necessariameme percebidas
do mesma fom1o como O são em OUlras fonnos de
Os Pensadores uol. XLII. S~io Paulo: I\bril Cultural. 19 76.
tralxrlho. O antropólogo 110 campo /raoolho,- suas -horas
O LIVEIRA. n. c. -O trabalho do antrOpólogo: Olllar. ouvir, d e tralxllho· 560 9aslO5 e/llreuiStando, obseruando e
cscrever ". In: l'teuiSIO de IVllropologiQ. VSP 39f] I. 1996. tomando no/as. lamando pone na uida SOCial.
Boy WAG.-':Ol. Th e inue/llion of CU/Jure.
HEVlS:li \ ~\P BR:\SI L. "Bambaataa Bombástico: Um a viagem
pela IlIs tóna cio hlJ) hop c da música negra mundial" . Número
24.2002. p. 29.
Introdução

~
ancJo recebi a cllam ada de lextos pard a publicação
de um livrO quc pretende colocar pesquisadoras em
diálogo sobre suas expericncias em campo. pensei
cm Iratar cle d iscussões pós·m odernas sobre o sentido da el·
nografia . a autoridade do antropólogo em campo, a discussão
sobre a tal busca p elo p onto de viSta naTivo e sua Tradução em
Textos que são sempre escritos por nós . etc . .0'\ 0 começar a es·
crever o texto . porém. não me scmi à vont ade com a temát ica .
primeiro porque eSTava m ergulllacla num trallalho de campo
de duração de um ano c seis m eses c d isculir o sentido cio

208
Entre o familiar c o exótico Andréa de Souza Lobo

"estar em campo" me pareceu contraditório e p ouco fru tífero. cabo-verdianos vindos do Brasil p<:lr<:l p<:lssar as férias escolares.
Segundo. porque . para aprofunclar la! discussão. precisaria de Naquela ocasião passei tres meses fazendo lraball10 de cam·
um apoio bibliográfico denso. processo difíc il quanclo nos en. po na Cidaele da Prai<:l . capilal elo pais. uma temporada curta e
contramos diStantes das referências bibliográficas c dO confono com alguns problemas cstrUlurais. mas que acatJOU por gerar
das blbliolccas universiTárias. às qu ais poclemos recorrer no uma dissertação de mestrado razoável e o eSlabclecimel1lo de
momento da escrila de um texlo . laços de amizaele e conmtOS sólidos que vieram viabili zar uma
Além disso. emendi que a propOsTa do livro era d e e.'\ptorar segunda fa se de pesquisa a qual m e dediquei no período ele
as experiênCias de mulheres antropólogas nas diversas situa. fevereiro de 2004 até maio de 2005.
ções e "saias justas" que vivemos enquamo esmrnos rcalizanclo Terminado o mestrado. vollei a CatJo Verde por questões
o trabalho de campo. Imbuída por essa proposta e limitada pejas pessoais e Já vivi por cerca de um ano c meio traball1ando como
concHções de estar esçrevenclo em campo. Optei por apresen. professora de sociologia no liceu da ilI1a da Boa Vista. Nesse
lar aqui a minha experiênCia em cabo Verde e as dificuldades . intclValo ele Tempo tive um fi1l10 e mc casei com um cabo· ver-
conStrangimentos e emoções que tal tarefa tem me proporcio. diano que Ilavia conhecido e me envolvido afelivameme na
nado. Não lenho a intenção de dar conselllos c muito menos altura ela pesquisa ele campo de mestrado - conTrariando lodos
ele apresentar um manual de pesquisa - já sabemos que não Ilá os consell10s dos "manu<:lis" de trabalho ete campo e de meu
"receiTa de bolo" para se trabalhar em campo. Minha intenção orient<)elor da pesquisa. I\pesar de eSlar ~ofic ialmente~ afastada
é a de acrescentar à discussão a experiência ele LIIna jovem da al1lropologia. ~ nOlei que uma vez que temos o olhar treinado
antrOpóloga que. irnbuida do romantismo dos clásSicos que pe ta diSciplina. estamos freqüentemente alemos diante deste ou
buscavam o exótico em um "Outro" diStante. viu surgir diante (laqueie Traço social que mmca determinada realidade. Sendo
de si cabo Verde como uma opção viável de pesquisa. decidiu assim. a convivência n~IO siStematizada. e por que não desOJi-
fazer as malas e panir para além·mar. dada. enquanto estrangeira na lIha da Boa Vista. acabou por me
Antes de entrar mais dire tamente nas considerações a re~proximar da anTropologia ao perceber que havia certas esferas
respeilo do campo. é preciso que comextualize a traje tória que ela vida desta sociedade <w c se constiTuiam como verdadeiras
me trouxe até esse país. Ainda eSlava fazendo o curso ele mes. "pérolas" para a invcstigaç50 amropológica. Como iremos dis·
trado quanelo. de fOrma meio acidental. com ecei a Ouvir falar cuTir ao longo do teXlo. lais esferas - a vida familiar. a condição
sol)(e Cabo Verde através de uma colega que eSlava fazendo da mulher emigrante e da mulher que fica na ilI1a. as relações
seu trabaJllo no arquipélago' e que me levou a conhecer alguns de casamenTO e de filiação - não me cl1amnram alenção por
cabo·verdianos que estudavam na universidad e que freqüentá. acaso. mas porque me faziam renclir sobre a própria condição
vamos. Meu contato direto com a realidade cabo-vereliana tove de mull1er. mãe e estrangeira naquela sociedade. Como num
início na tarde de 13 de dezembro de 1999. quando elesembar- jogo etc espell10s. d ialogar com o OLuro me fez refletir sobre mio

-
quei no aeropOrto do Sal. em meio a um grupo de eSTudames

:2 Digo -oficlalrncmc - porque ,Itlo estava "Boda à unlVcrslcla(!c c nem rcaliz."1ndo


1~t.:fifO. nle . <lO trabalho. de Juli;:ma Braz Dias. Enrre Ponidos e Hegr<.!$SOS: qualquer IrõlXIII10 de pCS<lulsa slstcmãticÓJ. Por <:rquCle período n:'lo cst~va
l!::cendo rc/oçócs lom/liores em Cabo Verelc. Disscnaçtio cle '\'CSIr<l(10 aprc. vivendo em C<\bo vcrde enquanto pesquisadora. mas cnquanro esrrangelra.
scnrooa ao PI>GS do Depana,nemo de Antropologia da Universldadc dc imlgranre. Icvada t)Cr qlll:StÓCS pCSSOótis e afetivas.
Brasrlia. Brasília . 2000.

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Entre o familiar e o exótico Andréa de SouZiI Lobo

nha experiênCia pessoal e, em pane, traTarei dessa experiência atenção para a realização de um estudo de sua organização
ao longo do tCXIO que se segue. familiar. O interesse era focar especificamen te no comporta·
Não resislindo aos cllamados da disciplina. em fins de mento cloméslico das famíli(ls boa·v istenses no processo de
2002 lrabalhei com afinco e con segui reingressar no PI:tGAS da trelproclução da sociedade. processo que se encontra ligada a
Universidade de Brasília e. em 2003. estava de volta ao Brasil todo um universo de transformações que se equacionam face
iniciando o processo de escolha de tema ele pesquisa p ara mio aos nuxos de pessoas. bens materiais. valores e simbolismos
nlla tese ele eloutoramenlo. Como em antropologia a escolha do em jogo na movimentação m igratória e turistica local.
tema conseqüenlemcntC determina também a escol/la de um
lugar, pane ela minha qucstão j á eslava respondida. resiando·m e Pensando sobre a Boa Vista: O p rojeto
esauturar as idéias. refletir sobre o problema da pesquisa. refinar
percepções e organizar a experiência que já linha com a socie· O proj eto de pesquisa decompunha ta l prOblem átiCa a
dade que prelendia eSludar. Foi enlão que minlla experiência partir do conceito de domesticidade e. tomando o espaço do·
enquanto imigranTe falou mais alto e não pude deixar de optar méstico como palco principal para observar a v ida cotidiana e
pelo estudo da organi zação familiar da Boa Visla face aos flu xos os conOitos q ue surgem no seio do grup o familiar. incorporei
migratÓriOs que vêm caracteri zando a mla nos últ imos anos. a noção de domestiCidade num contexto de enco nt ro com a
Boa ViSTa é uma das 10 ilhas que formam o arquipélago alteridade pri vilegiando as formas como a idéia de casa é per·
de Cal)o verde. pequeno país insular localizado no meio do cebida . v ivida e experienciada na relação com o "outro'. Esse
oceano Atlc'tnliCO a 500 km do COnl inente africano . Ê a terceira "Outro' diz respeitO aos estrangeiros que vem trabalhar na Boa
maior il/la em extensâo territorial, porém . é a menos Ilabitada. v isla trazidos p elo turismo . as gentes ele outras ilhas que mo-
com urna população de cerça de 4 .209 habi tantes dispersos vim entam o nuxo das m igrações internas e as emigrant es que
por OitO povoaçõcs. sendo que a população fem inina to tali7..a partem c relornam fazendo circular idéias e valores que têm
1.872 e a m asadina 2 .334 .J ,". principal povoação ê a da Vila se configurado c omo elos importantes n essa sociedade que
de Sal·Rei. que acolhe m ais da m etade ela p opulação total da privilegia e se reproduz no contaTO com o exterior.
ilha. Boa Vista foi uma das primeiras ilhas a serem descober· Com isso em m ente. elaborei uma eslralégia de pesquisa
tas. mas foi habirada tardiament e. sempre foi pouco povoada que desse conta da perspectiva do boa.vistense na relação com
e hoj e se constitui corno uma das ilhas periféricas no cenário essC,<; ou trOS e as lransforrnaçôes que vinham ocorrendo no
nacional. Porém . por causa de su as famosas praias e dunas espaço doméstico. 1\pe5ar de nâo estar interessada num estudo
e pelo caráter "pacato " de seu povo. a ilha tem sido alvo de sobre emigração. naquela altura já percebia que não poderia
um dcscnvolvimenlo luristico intenso nos últimos cinco anos. fugir dela. Ê difícil falar de cabo Verde sem locar na importânCia
elespen ando int eresses (le pOlítiCOS e investidores estrangeiros. que a emigruçáo exerce nesta sociedade. fenômeno que é es·
1\lém disso. essa é um;) ilha onele predomina a emigração ele sencialmen te m asculino c de imponancia fundamental no seu
m ulheres, o que gera uma estrutura familiar eliferente cio padrão processo de reprodução. Boa Vista não foge a esse padrão.
considerado normal. Foi todo esse cenáriO que m e c tlamou a não ser quando nos queStionamos quem emigra . Desde os
fin s dos anos 60. esta é a prinCipal ilha do arquipélago no qual
a emigração é essencialmente feminina. o que traz algumas
3 Daetos OI)lidos no :lhe du tns1i1ulo Nacionat de E.<;1alislica de caho Verde .

21 2 213
Entre o familiar e o exótico Andrl!a de Souza lobo

configuraçóes inrcrcssalllCs para a conStituiÇão ela família boa· res. numa lenTativa de indicar as m aneiras pelas quais os !luxos
vislcnsC. especialmente para os filhos e companheiros dessas migralórios e luristicOs conduzem os aSsuntos familiares .
mulheres. r\ situação da Boa visla demonstra. então. que. Não posso deixar de salientar que todo esse proceSSO de
mesmo sendo predominanro. o fenômeno migra tÓriO masculino reflexão sobre o obj eto de eSTudo eSleve mediado por minha
não é o único padrào existenre em cabo W:rcle. ~ e que. embora relação prévia com aquela sociedade. r\ condição de mull'\cr e
em menor escala. a saída das mu lheres provoca mudanças im· ele im igrante foi fundamenlal para um entendimento primeiro
ponantes no comportamenlo local. mudanças que reforçam a das práticas sociais das famílias caboverdianas. nas quais as
idéia de que os papéiS sociais sâo construiclos de acordo com mulheres são o componen Te fixo e eSTável. formando redes de
o cOll1exto e que. tomanclo um m esmo tem a social solJ o ponro relações de ajuda mútua nas tarefas e responsabilidades domés·
ele vista de atores em pOSições diferentes. podemos enxergar licas. EnquanlO mulher. mãe e eSlando longe de minha famnia.
oUlros ângulos ele visões da realidacle. muitaS vezes lancei mão dessas redes buscando au xilio na
r\l(;m das emigrantes. idell1ifiquei Outros grupos que ciro criação de meu 1iI110 e no cumprimentO das Tarefas domésticas
culam na sociedade boa·vistense atraídos peja movimenração diárias. Porém. logo percebi que não m anipulava o senllelo des·
lurística. Em lermos da movimenlação inrer·ilhas. a entrada sas relações e me via quebrando as normas de reCiprocidade.
dos cllamados bodius 5 (; a mais impOrtanre a ser consideraela. descumprindo padrões de visitação. de trocas de alimemos.
lanlo pela número daqueles que entram e fixam rcsidtn cia na elc. Por outro lado. o tipo ele relaçãO que buscava estabelecer
ilha. quanto pelo lipo de reações negativas que sua presença no casamento causava desconforto entre meus afins e cerra
ocasiona cnl re os locais. Num nivel cX lem o. lemos um numero inquierude ao meu companlleiro. O fatO de estar. diariamente.
pequeno. mas imponanre. de italianos que se estabelecem na tendo que reso/ucr tais questões. sem dúvida. influenciaria na
Boa Vista em virrude do turismo. fixanelo rcsidencia e sendo elaboração de meu problema de pesquisa e nas rcflexões sobre
responsáveis pelo aumenlo da oferta de emprego verificada o que implica ser m ãe e mull1er na sociedade cabovereliana.
nos ultimas anos. Exislem também os chamados mancljacos.
africanos do conr ineme que cirCulam pelas iIIlas do arquipélago 2 Viuendo em campo
vendendo artigos anesanais e "bugigangas" em geral (pill1as.
baterias. relógios. enfeites para cabelos. perfumes. xampus. CtC). Com luTI projeTO I)cm definido na bagagem. relornei à Boa
Por causa do turismo e das construções de unidades l1oteleiras. Vista em fevereiro de 2004 trozenelo comigo um sent imentO
vem crescendo o número desses a fricanos do continente que diferente dos meus colegas que tamlJém seguiam para o cam-
passam a residir na ilha. O que buscava. ao trazer todos esses po em busca de uma nova realidade para estudar e v ivendo
atores para a arena doméSTica. era explorar a diverSidade de a expeclativa que o cncOnlro com o novo gero em lodos nós.
valores emjogo na elaboração dos projetos indivieluais o familia· Meu senllmento era de reencontro. agom não mais etc v ivência
diária enquanto imigrante. mas cle uma relaçâo com novas pa·
r~\[netroS. dentro da SiStcmalicidade que a Situação de pesquisa
4 Além da \30.;"1 VlSra. mas cm menor cscal<l. rem se obscrv.:Klo um crcscimenro exige. Minllas preocupações eram de com o estabelecer uma
da emigraçtKl feminina em rodo o pais. espccialmenre na ilha da Bruva. S<'io
="lColau e até mesmo em sanriago tLESouno. r9951. nova relação e como me reposicionar diante de pessoas Que j á
5 Slto chamados assrm os Glbo·vc(dianos provenienrcs da Ilha de Sanri ago.
,\ expressa0 rcm llm carárer pejora tIVo.
me conlleciam sob out ros padróes de referência .

214 215
Entre o familiar c o exótico Andléa de Souza l obo

Imbuída dessas preocupações. segui para o rrabalho de disso. ainda não Tenho a dimensão do en tendimento dos boa·
campo. t\ cl1egada foi acolhedora. as p essoas me receberam vislenses sobrc o lrabalho de pesquisa. Foi difici! . por exemplo.
corno se eu fosse l un dos seus retomando para casa após um estabelecer um lugar. ou melhor. urna funçào pro fisSional ao
longo período de clistfmcia. Porém. logo percebi que minha au. longo de todo o Ifabalho de campo. Eles nElo entendiam porque
séncia prolongada havia sido tema de rumores e connilos entre eu não estava à procura de trabaJt10 c. por diversas vczes. vi
a família de meu rnarido e os chamados fa /aclares (fofoqueiros). pessoas próximas a m im preocupadas em me au.xiliar na tarefa
que afirmavam que eu havia abandonado a Boa Vista. fugido de "procurar " uma ocupação profiSSional.
com o filho. e que meu marido estava pagando o preço por ter Corno forma de solucionar essa "anglislia" por pane ele
escolhido casar com uma eStrangeira. Isso m e fez perceber amigos e parenlcs afins. acabei por eStabelecer uma rOtina
que. apesar da aparência de estar sendo bem recebida e ele ter sisTemálica de pesquisa que começou com uma estralégia de
sido sempre bem aceita pela comunidade. a minha posição ele aproximaçào e de divulgação de meu trabalho. Para isso. con·
estrangeira eslava muiro bem m arcada para eles. Ê claro que. tratei duas jovens ajuclanlCs que haviam sido minhas alunas dc
dentre os estrangeiros que viviam na ilha. eu tinl1a urna pOSição sociologia no Liceu . t\ noticia foi divulgada entre os ex·alunos
privilegiada e adquirida p elo fala de falar bem o Crioulo. de ser quc me propuseram uma espécie de gnlpo de eSTudos em
brasileira c. prinCipalmente. por criar meu fi1l10 sem frescura e minha casa. para que fé)lássemos de Icmé)S que a escola não
recorrendo às redes de solidariedade típicas das relaçõcs femi. permiTia. tais como planejamemo fé)miliar. educação sexual.
ninas . Porém. era de fora e, de cena forma. umil rival para essas erc . Combinamos enCOntros semanais nos quaiS trocaríamos
mesmas m ulheres que me acolheram. experiências. cleixando bem claro que aquilO seria essencial
Todo esse conmlo acabou por m e fornecer uma emrada no para os dados de m inha pesquisa. Concordaram. com a condi·
sentido de explicar essa ausência prolongada e inserir meu retor. ção de que eu resguardasse as idenEidades dos panicipanles.
no no contexto da pesquisa. ou seja. sai para estudar e, como Os enCOntros eram riquíssimos e me forneceram um conjunto
resulTado desse eStudo. elaborei um prOjeto que foi aprovado. de dados sobre é) concepção de jovens. fill10s e nelos so!)re
financiado e o foco de meu estudo era a 130Ll Vista. I\gora estava os mais diversos lemas . Por outro lado. aTravés do contai o e
voltando para realizar o aspecto prá tico dc mintla pesquisa c ela ajuda dessas m eninas e alguns rapazes. em pouco tempo
precisava ~a ajuda de Toclos nesse empreendimento. NEla é clificil ampliei minl1a redc de relaçõcs para muito além daqueles com
imaginar que. numa comunidade com cerCé) de 4.000 habitames. quem m eu marido e sua farnilia se relacionavam.
a nOlida correu a ilha com uma rapidez impressionamc c logo me Paralelam ente a esse processo de aprOXimação com e
vi numa situaçào de ser parabenizada por alguns que se senliam mravés dos jovens. organizei uma aplicação sisrcmálica de
orgull10SOs de ver um cslrangciro promovenelo sua ilha." Apesar questionários aos grupos domê.slicos. Como disse. o inluito era
duplo: primeiro de mostrar uma nova posição na comunidade e
fazer circular ~ notícia de m inl1a pesquisa e. segundo. de o!)!er
6 Isso no caso de caho Vl;rdc tCIll todO um sentido espt.:<:k"lJ. pois Iltluma di.
vLS<"lo sim/.Jólica e ccooomlca cmre o qUI; eles clüssiftGl1ll (It: 1I1l<' s cc ntraiS e uma espéCie ([e mapa que me fornecesse um guia da est rutura
periféricas: as primeiras soo S..miago (onde fica a capiltl l do paisl. stlo Vicenle.
familiar. formas elc tlabiração. estratégias de caSat1lCnlO. elC .
cl~ma(k. de ilha C Ulluf'<ll. e a tlh,. do Sal. onde fica oacroporlo irllcnlaclonal do
paIS. AS segundas 5.""10 looas as OlHra5 (Boa VlSlil. stio l\"icoli.lu. Santo Am:to. Os conselllos ele ~·Ialinowski (1978) foram decisivos na esco-
BruV<l. Fogo e MaiOI. nas quaiS illl[JCr<1o senrimento dc aba ndono por pane
(\o governo c de prcconcdlO por p.::!ne cios Q..IC vive m nas ,lh..'lS prinCipais.
lha de lal estratégia nessa fase de aproximaçao. períOdO em

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AnoréJ de Souza lobo

que. segundo suas palavras. é sempre bom evitar assuntos cebi que um estudo que tem como QueSTão principal concep·
delicaclos e temas complexos. ções e ações em lomo elo doméstico. devc aclotar um tipo ele
Por interm édio dessas estratégias de aproximação. pude e5tralêgia metcxlológica quc tente capturar a clinâmica elo ciclo
confirmar algumas intuições que linha sobre a organização doméslico que lem lugar no lempo. Nesse scnticlo. lancei mão de
familiar: o alio nível de em igração feminina. a m obilidade das duas perspectivas analíTicas para dar coma da tcmporalicladc ele
crianças en tre as casas de familiares. o baixo número cle ca· mães. avós, filhos. nelOS. irn1ãos e companheiros dentro da es·
sarnentos e a grande inciclênCia de uniôcs de faTO. a tendência fera domés1icél. 1\ primeiro perSpeCTiva. equivaler'lle à experi€:ncia
dos filhos ele residirem aTé a idade m adura nas c asas dos pais, diSTanT e. lenta recuperar o ciclo de desenvoJvimcnto dos gnlpos
a importáncia da família, especialmente da avó. no processo doméslicos dentro de um períodO 11islÓr!CO qllC cngloba rrês ge·
de criação das crianças, etc. i\ aplicação desse inquérito e os rações. ComeçandO por ai. dei menção aos arranjos familiares c
gnlpas de conversa com meus ex·alunos foram frutíferos no de casamell1os. paclrõcS de moradias e costumes tradicionais.
sen tido de identificar famílias e pessoas das quais poderia m e TClis dados forneceram uma eSTrutura das relações das pessoas
aproximar p ara a realização de entrevistas e da observação de uma m esma geraçãO. destas com os filllos c com os filllOS
p articip ante. Como era de se esperar e graças à receptiviclade dos filll0S num espaço temporal previamcnle estalJelecido.
dos cabo·verdianos. verifiquei a disposição de todos em m e Numa segunda perspectiva. explorei as qualidades e prá·
receberem em suas casas e contarem suas 11istórias. licas diárias focando nos mundos de vida dos alOrcs sociais.
Ded icava·me às visitas no p eríodO da tarde: pela m anhã Tenllo coletaclo dados a partir das Ilistórias de vida. dos ciclos
só freqüemava algumas casas nas quais con segui uma en trada de dcscnvolvimenlo das unidades clomésticas. das hiSlórias dos
privilcgiada e um grau de intimidade que m e permitisse ajudar agregaclos familiares. etc. O que é imponamc nessa perspec1iva
nas a tiviclades dOrnésticas e nos cuidados com as crianças. é dar atenção aos contextos nos quais as açóes se desenrolam.
Essa relação mais intima com cerca de I I famílias fOi construi· focando nos detalhes do componamenlo coletivo e individual.
da de form a diferenciada e em momemos diversos do trabalho enfalizando o caráter funclamental da dimensão vivida como ca·
de cam po. Ê claro que construí relações de am izade enquanto minllO privilegiado ele acesso às v isões ele mundo. Desta fonna.
vivi em Boa Vista e m e utilizei destas para uma aproximação IJUSCO estar atenta para a concrelude dos cvell10s que filzem a
m ais siSTemática. porém. o processo de pesquisa se mOS trou vida das pessoas na Boa Vista: rumores. brigas. rompimentOS.
singular e mágico no fortalecimento ele laços com m ulheres . casamenl 0S. particlas e regressos. en tre outros .
chefes de família. que me abriram suas Casas. suas famílias e O objetivo era de Cll1rar a fundo nas prát icas cOliclianas e
suas hisfórias de vida . Entre um afazer e OUTro. entre alm oços e nas con cepções que os nativos têm de lligiene. dos cuidadOS
conversas nos quintais. fui apreendendo o m odo de ser de urna domésticos. das tecnicas do corpo. dos cuidados com as crian·
casa boa·vis tense. as concepções femininas de espaço públiCO ças. alimentação. divisãO do trabalho dom éSlico. das relações
e doméstico, as rclações entre mulheres c o papel secundário ele gênero e ocupação elo espaço onde vivem . É intereSSante
do Ilom em enquantO companheiro. pai e provedor. porém es· nOtar Cl relação que mcus informantes estalJeleceram com o
sencial na vida dessas mullleres. fato dc eu CSlar fazendo pesquisa e de sempre tentar deixar
Com essas conversas iniciais . abandonei o foco sobre claro que anOlava e escrevia sobre eles. IsSO parecia não os
·eventos paradigm átiCos· que havia esboçado no projeto. Per· incomodar e por diverS<:IS vezes. am igos m e procuravam para

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Entre o famitia r e o exótico Andréa de Souza lobo

falar sobre evenTOS que poderiam -ajudar- na minha pesquisa. organização familiar local. A idéia era de I)uscar diferenlcs \'er-
"'linha cadcmela de campo virou mOlivo de brinc adeiras en tre os sões para um mesmo evento ou conmlo familiar no senlido de
rTlais próximos e recebi O apelido de -a menina do cademinho-. perceber as perspeclivas de homens, mulheres. vell10S e j ovens
Quando aconlecia algo inusirado. eles me prOClt raVam e diziam. diante dos p roblem as colidianos. da relação com os eslrangei-
-anOla o que eu VOu te comar no seu cadcrn inl10- c. revelando ros. da siluação da Boa Vista face ao desenvolvimen[o turístico.
Icr consciência ele que suas vidas eSlavam ali dcnlro, sempre da em igração feminina. etc. Não é fácil trabalt1ar com rumores.
me recom endavam que eu o guardasse com m uito cuidado. pois nunca se obtém um relmo em sua completude. o folador
Saindo desse circulo mais restrito, no qual circulava com (fofoqueirO) é um ser que rem a voz perdiela no blá·bláblâ da
dcsenvollura c me senlindo eOlre amigos. prOClrrei estreilar con. sociedade (TH/ u r\NQ FILHO. 1998] . Qllan[O à narraliva. ela é
1a10 com um grupo mais numeroso de unidades doméslicas. sempre variante a depender de quem (ala. I)cm com o sua dis-
"'esse senlido. realizei uma aproximação mais eXlensiva. ou seminação ê variada. a depender do valor de seu significado.
seja. vist[ei pessoas. observei e fiz eOlrevislas com diferemes TrajanO FilhO ( 1998) ressal[a a imponâncla e a recorrência
membros de cada unidae[e familiar conta tacla. Na minha rotina dos rumores n as sociedades crioulas a parlir do estudo na
ele trabal/1O. as tardes eram dedicadas a essas visitas, Circulava Guiné-Bissau. Os rumores aparecem como um gênero cle co·
de casa em casa buscando conversas e observando SiTuações municação especializado em fazer a crónica da vida cotidiana,
dom éslicas. Além disso. circulava peja praça cent ral. na qual refletindo seus conflitos e inconsistências. Nas palavras do autor.
sempre encontrava um bom papo. participava do enCOntro da os rumores são um e ficiente m eio de pensar soure as diferen·
fam iha que era promovido pela igrej a calôlica. elc . É preciso ças. conmtos de inleressc c sobre vários atribu tos da sociedade
lembrar que fi z trabaJl10 de campo na Vila de SaH lci. localidade crioula. porque ele Icm um ser difuso. não individualizado que
com cerca de 2.500 hobil3mese que. senão tinl1a uma relação não é nada m ais do que a sociedade crioula em si. com todas
mais intima com lodos. por outro lado. Iodos me conheciam e as suas contíddiçõcs inerentes (Idem: 4·20) .
sabiam da pesquisa que estava realizando. É claro que a abor. Enfim. foi explorando boa[os que consegui abordar a ques·
dagem não foi uniforme e tive algumas dificuldades de acesso tão dos fluxos migratôrios para a Boa Vista e cl1egar à perccpçilo
a certos tem as e pessoas (Ieterminadas . Corno fon na de dimi. que os l)oa-vistenses têm da vinda de cSTrangeiros e cal)o·ver·
nu ir constrangimemos advindos das Simpatias pessoaiS e ela dianos elc ou tras i111as. Tal movimentação sc intensificou nos
delicadeza de alguns [em as. enconrrei uma saída possível nos t'rlrimos cinco anos com o aumento dos investimentos turísticos
olmores. que se con sriluíram com o fundamenlais para uma na iIl1a. Com um a população de m enos de cinco mil habitan·
primeira aproxim ação. COmeçar uma relação comenrando sobre tes que se cledicavam basicamente à pesca e à pasToricia. foi
cVen tos ocorridos com ou[ros foi uma estratégia feliz. esp ecial. necessário a criaç~lo de uma política de incent ivo à vinda ele
mente porque. falar SObre a vida alheia é algo muilo comum na traball1adores que vinbiHzassem tais projcros. Vieram cm mas·
sociabilidacle dos boa·vistenscs. sa . além dos empreendedores italianos. bClcfitrs e africanos do
Humores e fofocas que versa m sobre o ambiente farniliar. continenle que 110je cons[ituem grande p ane da mão·de·obra
Jnfielelidade. prnlicas de poligam ia. es[rmégias mat rimoniais e presente na iltlél. i\ v inda clesses ou tTOS tcm gerado uma série
Ou tras relações da família boa·vtstcnse me ofereceram uma via ele confli tos e eventos a[é então eSTranllos à população local.
abcrla para a antllise elas tensõcs e ambiguidadcs inerentes à I\SsaIIOS. cstupros e <.lIOS de vandalism os silO semprc dissemi·

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Entrc o (ilmiliar c o c;>;ótico ,\ndréil dc SOU7.il Lobo

nados por intermédio de rumores e atribuíclos aos eStranhos, Nào é preCiSO estar muito tempo na Boa V iSIil para perceber
aos que viemm de fom para estragar a Boa Vis/a. que a mulllcr é figura central não apenas na esfera doméstica.
Realizar essa parle da pesquisa fOi interessante porqltC mas como provedora e inremlediaclora entre o universo extemo
revelou asp ectos da relação enTre os de denTro e os de fora e o domfnio doméstico. Minha condiçào de ter uma familia em
que n;;IO conseguia apreender somente ao nível do d iscurso. campo e de não ser uma cabo·verdiana . ou seja. de estar ao
Quando comecei a abordagem aos eStrangeiros. p ercebi que m esmo tempo dentro e fora cle um sis tema de relações com·
minha própria condição de estrangeira m e colocava entre os dois plexo no que se refere às redes de ajuda mútua. me forneceu
universos. Tive dificuldades para justificar. entre os boa.viSten. dados imeressantes que advinllam das Situações ligadas aos
ses. que um estudo sobre a Boa Vista deveria incluir também a cuidados com O fiUlo e com a casa. Observei que passava por
relação com os de fOra. Era especialmenTe difícil explicar minha constrangimentOS pelos quais nenlluma outra mulher cabo-ver-
presença em evemos realizados pelos africanos do continente. diana enfrentava e que tais dificuldades tinham origem no fato
os mO/leljacos. 1\ relação entre esses grupos é marcada pelo de não ter famflia extensa consangü fnca presente. Por mais que
diStanciamento. é raro ver um boa-vistense conversando com tivesse boas relaçôes com minha sogra e as Outras mulllercs
um m oneljoco. Por esse motivo. muitos não entendiam c até da familia . era estrangeira e a fim. o que dificultava consideravel·
se preocupavam pelo fato de eu estar freqCtenrando cosas ele mente meu acesso às redes ele solidariedade. t\ condiçào de
mondjacos e não fOi fácil administrar essa relaçào com ambos os casada não facilitava muito. pOIS meu m arido não dominava as
grupos. 1\ safela veio a partir de minllil integração a um grupo de estratégias de acesso às redes femininas e só foi se dar coma
récnicos da saúde que eSTavam desenvolvendo um projclo de da existência dcstas ao acompanhar m eu processo de recolha
senSibilização a form as de prevençào ao HIV enlrc os africanos de dados. Com o decorrer da pesquisa e uma crescente inti·
imigrames na Boa Vista . i \ vinculaçào a esse projeto fOi mais midade com diversas mulheres chefes de família. percebi que
intuitiva do que eStmlegica e. com sorte. vi meu trânSitO entre as possibilidades de recorrer a tais redes foram se ampliando
os gnJIJOs facilitado e JUStificado para os boa-vistenses. e passei a m e utilizar delas quando preCisava cle auxílio em
Resra relatar, ainda. a minha reJação com as mulheres. Logo casa e. principalmente. com meu filllO. Porém. nunca tive a
de IXlrrida. o traballlo de p esquisa exigiu que eu refOr01I.t!asse a desenvoltura das cabo·verdianas cm acionar a rede em caso
atenção que pretendia dedicar a tal aspecto dessa sociedacle. 1\0 de saldas notumas. viagens. mudanças. etc. Creio que minlla
entrar na estrutura familiar. percebi que é impossível entendê.la má inserção nas redes femininas tinha também owra razão de
senilo por uma análise do processo de circulaçào. saída e per. ser. a relaçào com meu marido .
manência de mulheres. Em alguns traball10s sobre o arquipélago t\ relaçào hOmcm·multlcr na Boa Vista m erece questiona-
(conforme 501001on. t992; Dias. 2000: COuto, 200 I J. é enfali7.a. mentos importantes. 1\ instabilidade é a caracterfstica central
do que a eS1n.l1ura (amiliar cabo-verdiana tenele ~I formação de das relações conjuga is no sistema de organização familiar
lares m arrifocais. onde as mullleres são os m embros adu ltos boa-vislense em particular e nos sistemas crioulos em geral.
eSláveis e a presença masculina é observada p eja au sência Ou Além disso, são ins tituciona1i;.:adas relaçôes extra· residenciais.
(raca eferividade. O que os autores destacam é que e.xisre uma não.domiciliares ou de v isitação . e com várias alternativas de
rede ele solidariedade entre mulheres de uma mesma famítia c padrão conjugal. Ê comum que os homens mantenllam casos
a avó é figltra central nesse contexto. com Outras mulheres além daqlJcl" com quem residem ou

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Entre o iami'iaf e o exótico Andu!a de Souza l obo

m antêm urna relação m ais duradoura . Essa mulher que pode· universo feminino. me distanciou dos homens . A relaçãO entre
ria ser denominada de fixa. neste complexo emaranllado de homens e muUleres na Boa ViSTa é envolta por uma esfera de inti-
relações amorosas ins táveis que caracteriza o sexo m asculino. midade. amigos se abraçam . se tocam e brincam sensualmentc .
é a chamada méie defilllo. Isso não !:iignifica que ele não lenha sempre ,ive dificuldades em sal)Cr quem namorava quem Oll se
outras mães de filllos . e sim que essa foi a primeira com quem o que eSTava presenciando cra apenas uma relaçãO carinllOsa
o Ilomem manteve uma união in fonnaJ. seja de coal)itação Ou enTre am igos. Minha pOSTura diante dos hom ens nunca passou
não. A vantagem da primeira m ele ete filho em relação às oulras pelo Toque ou pela intimidade e isso com cerTe7..a m areou o Tipo
é o tempo que dura a relação com o homem e o fa to de que ela de relação que eles pQeleriam ter comigo.
já eslaua quando as outras ctlcgaram. Esses dois fatores dão a Por OUlrO lado. a dificuldade de acesso ao grupo masculino
essa mulher o direito sobre o homem e a legitimidade ele poder adveio do Tipo ele estraTégia de al)ordagem que adOTei: passava
/)rigar por ele. Porém. isso nfto garame a eslabilidaele da união. a maior parte dos m eus dias nas casas das pessoas. um lugar
POiS o homem. a qualquer m omento. pode elecidir abandonar a onde os homens raramente se encontram. Ent&o . em vinude de
mãe de filllO e estabelecer uma relação fixa com outra mulher. sua situação distante e am bígua no cenário doméstico . do seu
Não deve !:ier difici! imaginar que esse padrão cOnjugal caráter ausenTc no ambicnTe familiar e. por Olllro lado. pelo fato de
CiluSOu d[ficu[dac!es no relacionamento amoroso com um cabo· eu ser mulher. casada e Ter uma relação muitOparticular com meu
verdiano. Dificuldades não só inTernas ao relacionamento. m as m arido. a abordagem direta. por m eio de enTrevisTas. se mOStrou
companilhada por amigos . conhecidos e potenciais mulheres inviável. AS poucas em revistaS que consegui não oferecem da·
ri UClis . L ogo de início fugimos ao padrão local de moradia. Ila- dos de boa qualidade e não chegam a tratar de forma clara suas
bilando neolocalrnente mesmo ames de ternlOS um filho . O concepções sobre a relação com os fifilOS. sol)re o lugar ocupado
comportam ento ele[e com relação à familia lambem fugia aos por eles dentro da casa e sobre as relações conjugais.
padrões. saiamos sempre acompanhados. ele cooperava de Na busca por solucionar essas dificuldades. lancei m ão de
forma inTensa nos cuidaelos com o filho e diminuiu a freqücncia eSTraTégias que diminuíssem a impossibilidade de ter um relato
aos centros e[e socialização m asculina. especiah nente os bares. direTO. Corno a abordagem por enTrevistas se m OSTrou pouco
Isso era motivo de com en tários p or homens. sempre no sentido efica7. e conSiderava importanTe obter dados sobre as perspec!Í·
dele eSlar senelo dominado p ela multlCr. Quanto às mu lheres . vas deste grupo. o que eles pensam da família tal como elas se
enquanTO algumas exclamavam que o "homem cabo-verdiano organi7.<Jm , o que acham da aUToridade dos paiS sobre os filhos.
só ê bom com as estrangeiras". oulras eliziam aclmir~r minha do comportam ento ela juventude. das mu1l1eres. dos estrangei·
f orça cm conseguir m amer um homem em caSe'} e m e pediam ros e deles m esmos. reso lvi extrair tudo isso da observação do
conselhos para eviTar a infidelidade elos companlleiros. com ponamento. das convcrsas informais. das rodas de soeia·
~\prove ité:wa essas al)ordagens em conversas com mulheres bilidaue (especialmentC nos I)ares). e dos confliTos. Lembrando
c consegui muitos dados sobre a in fidelidade. padrões conj ugais. das sugesTõcs de Evans·Pri,chard (19781. de que o antropólogo
de nlOradia e de filiação. Percebi que a infidelidade maso.J1ina é um 6 uma pessoa atê ceno p onto sem sexo. po is está fora da vidn
conceito local ambíguo. ao m esm o tempo cm que é esperado. ê social do gnll)O. min!l<:l condição revelou que as limitações ele
negafivo e gera conmTOS elas mais eliversas ordens. Porém. se o genero dependem subSTancialmente do lugar que o an tropó-
IÍpo ele arranj o familiar no qual estava inserida me aproximou do logo assume dentro eta socicdade. Minha referência m ais fOrTe

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Entre o familiar C o c:<ó!ico André.l de So uz.J Lobo

era enquanTo m u lher de u m cabo·vcrdiano e isso sem dúvida dia a noção ela diferença t,.,\udou em antropologia e passou a
innuenciou o acesso aos un iversos masculinos e femininos e. englobar o própriO an tropólogo em sua relação com a alterielade.
conseqüentemente. aos dados que baseiam minl1(l análise. os outrOS de Iloj e estão no m undo moderno como nós.
Por fim. se é que se pode eXTrair algum ensinamento do Alguns podem concluir que o relaTO ele minlla experiênCia de
rela to de minha experiência em campo. goStaria de apontar campo soa linear e que. na verelade. não passei por nenl1umCl
dois: o p rimeiro é sobre a importância d e se esmbelecer um "saia JUSTa" . Sempre digo aos m eus amigos qu e fazer IralJalho
trabalho diário sistemático e persiStente. Como d iz a epigrafe. de campo em Cabo Verde foi uma experiência sem traumas.
o trabalho ele campo é do lipo que não é realizado da mesma o que não significa dizer que não tive dificuldades de diversas
forma que QutTas trabalhos e exige um nível de vigilância diá· o rdens. Lidar com a situação de ser mulller. casada e com fa-
ria. O segundo 6 sobre a imponência de se cruzar cSlrat égias milia ao longo do Iraball10 ele pesquisa não foi fácil. ao longo
m etOdológicas que auxiliem no processo de aproxim ação e de de ,odo o processo de pesquisa eSlive lidando com estratégias
análise de urn aspecto social. I\credito que a combinação de que dessem conta dessa condição. Além dissO. a saudade, a
múltiplas perspectivas foi essencial para não me sentir refém ausência de in terlocu tores que pudessem dividir as angÚStiaS
das escolhas que fiz em campo e facililou minha busca por um e sucessos da p esquisa m e acompanhou pelos longos m eses
entenelimelllo menos refratado da realidade. Por ter consciência de Irabalho. t\gora. dianle de m eu compulador. diante de minha
de minha Situaçào de pesquisa. um tanto Singular. vi nessa es· m esa de Iraball1o. simo também saudade dos amigos ( Iue fiz.
tratégia uma possibilidade de en xergar alternativas e caminhos da rotina que estalJeleci e da família que deixei.
diferenciados que v iessem enriquecer as temátiCas em jogo. I:>t:>nanlo. creio que a maior "saia justa" que enfrentei esteve
Em qualquer Situaç[Jo de pesquisa. creio que o cruzamento de pemleando Todos os m eus momentos em campo. QuandO lemos
abo rd ~lgens analíticas permit c a aprecnsão de múlriplos modos textos que se referem ao TralJall10 de campo (Da Ma1l8. 1987;
de ver. agir e represcmat a realidade. reforçando a idéia de que. Cardoso dcOliveira. 1998; Evans·l:>rjtcharel, (978). vemos relalos
tomando um mesmo aspecto ela realidade social sob o ponto de de encontros com um nalivo que é quase a personHicação da
vista de atores em posições diferenciadas. teremos uma visão allcridadc do anlropólogO e a ulili1..ação de técnicéls. intuiÇões. ciro
mais próxima da concepção naTiva . cunstânclas que nos conduzem a um processo de familiarização
e elc reconhecimento ele si no outra. Um processo mágiCO e que
3 COnsiderações finais faz da antrop ologia essa diSciplina apaixonantc desde o paradig·
rn ático curso de In trodução à Anlropologia. Em OUlro movim ento.
Innuenciada pelo conceito clássico de etnografia. de tornar vemos a antropologia se voltando para a própria sociedade numa
o estranho familiar. Optei por m e deslocar geograficamente e busca de eStranl1amelllo de práticas familiares.

I fazer p esquisa em um país estrangeiro. Porém. no processo de


pesquisa lenho verificado qu e. diferen tem en te dos clássicos.
E eu . afinal. que relação de alleridade era essa que estava
construindo na pesquisa em Boa Vista? Se por um lado era es·

~
nos quais o Ou tro cra um enigma a ser desvendado mediante trungeira e sentia o on tllropologlcal blues lal como foi brilhant e·
procedimentos lem os e p cnosos ele p esquisa e análise. para m en te relmado por Da Mana (1 987) . por ou tro. era casada com
n ós. contemporãneos. o Outro nâo se elefine como à parte. mas um cabo·verdiano. tinl1a um filho e fazia parte de uma família
ele se soma a nós. Comoafirrna 1\lariza Peirano ( 1995), h oj e em çaIJO.verdiana . 1'.·linlla condição de um "ser entre elois mundos"

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Andr(oa de SoUZJ Lobo
Entre o familiar c o c)(óticO

u ltrapassava a conclição de pesqu isa e. se por m u itas vezes GEEHTZ. Clifford. "um j ogo abs?rven te: NOtas sol?re a bri~:iro'
de galo balinesa" In: Im~rprelc~ç~o das culruras. RIO de Ja .
essa situação toda espeCial se consTilu iu enquanto uma boa Livros TécniCOS e Cienuficos Edllora. 1986.
entrad a ao un iverso estudado. em OlJlros casos gerava confli tos
LESOURO. t...lichel. Étar el ?oci~ré ou:'\; fIes ~u c.?p·\'~rl:
interno s sol) re mi nlla p rópria posiçflo enqua nto m ulller. mãe e Allernaliues pour un pClil 12101 II1sulOlre. PariS: Karthala. 1995.
profissional naquela sociedade c na minha sOCiedade de Origem.
MALlNOWS KI. Bronislaw. Ngonawas do Paq,filCo OC'clcmol I .
Se. como afirma Evans·Pritchard . o antrOpólogo volta transfor· Introdução. São Paulo: Abril Cultural. 1978 .
mado de campo. devo dizer que. em m eu caso. o campo não
PEIRAl"O, Mariza. , \ favor cio elnografla. Relume Dumará: Rio
me transformou somente na relação com o mundo no qual fui
de Janeiro. 1995.
socializacla. mas lransfonnou minlla p rópria relaçáo com Cabo
SOLO:Vl0N ~' I aria Jll1. 'We can even feell!1eu we are ,,?or. 1)1I~
Verde e a posiçào que Ilavia assumido naquela sociedacle. we h~ue a '51(On9 and riC/l spiril": Leaming from the Ilues on
O que fica como liÇélO nesse j ogo de esp elhas incrível que orgon iZCJIiOn of lhe womcn of Tira CllOpéu. cape verclei-t I
é o fazer antropológiCo. e este é o maior desafio ao qual o an o . r1 ~HOn in Educalion presented la the Gradualc Sc 00
~~~~e University of Ma5sachusells in Pan~al Ful~llment of llle
tropólogo se lança no trabalho elc campo. nilo é somenle o da
requiremCnls for tlle degree of DoCtor o f Educallan. 1992.
b usca incansável (C nem sem p re alcançável) do tal ponTO de
THAJANO FILHO. W. PoIUmorplliC Creo/cdom: Thc creo/e
vista do naTivo. bcm como o da tradução dos seus significados . I of GuineaBisSOu. Disscrtation of An lllrOpology . .
para os conceitos no interior de nossa disciplina. mas é o próprio SpO~~~~lCct to t11e facuhicS o f It1e universlly o f pennsylvalll3 In r
scntido dessafusdo de /l orizonres (OU VEII'V\. 1998) e o que cla r . I ror the dcgree o f OOClor o
partial fulfillmcn l af lhe requlrcmen
proclu z em nós, antropólogos. naTivos e leitores. Pl1ilosoplW. 1998 .
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229
228
CapÍlulo 8
..... I ..

o p oder do campo e o
seu campo de poder

Kel/y Crisliane cla Silua

Inlrodução

a orno um dos riTuais de passagem mais esperados no


processo de formação dos anTropólogos. os Trabalhos
de campo de longa duração podem ser experimentados
como vcrdadeirosjaros sociais lo rais (MAUSS. 1974) do pOntO
d e viSTa de suas exigencias e impactos sobre a subjerividade
d@ antropólog@. ' Diante do desafio de interpretar os sent idos
da alleridade. colocamo-nos por inleiro dian te dos nossos na·
Tivos. expondO. voluntária ou irwoluntariameme, as múlTiplas
posições de SujeiTo qllC consTituem o nosso seli e os diversos
espaços de nossa social)ilidade nos quais tais posições são
consln rídas c a l i me nlada s. ~ Ademais. na busca por mais c

Este ICXIO fOI originalrncmc formulado p<"lr<l apreSl.:maÇ'OO no Grupo de Tra·


baltlO "I\ntropologia. Trnbi:JlllO d~ campo e SulJjcuvida<le·. na V BI.:unit!o ele

,
Antropologia <lo Mercusul. UnIa vcrsa.o anlCrior (oi publicada ruI Série 1\I1lro·
poIogii:l no 385. Brasma: Dcparl':JnlCnlO de Anl ropologla. 2006. GoSli;1ria ele
ilgI<KJcccr a Dilnlt.'l S. Slm~. Mari 7.il Pcirano. Sor<l}'<l FIt.'iScher. Minam Grossi
c 1\llnnc Bonc ni pcl<tS lcituros alCIlI<IS às primcir<l!i vcrsócs desre te.~lo e aos
colegas que partidpamm do grupo de Irabalho supracitado . cuj<lS qUCS1ÓCS
auxiliaram ·me a melflor a/.X>fdar certos remas.
2 Tomo a idéia de posiç:.0 de sujeito lal como <lprescnrada por Moore (199"'):
·0 premissa b..'\sica do pensamenlo pós·cs lruluralisl<.l sobro o 5lljeiro é que
discursos e pr.uica5 <liSC\.lIsivas provêm d e posiÇócs de sujclIos e que indi·
o poder do Cõllfl po e o seu C<lmpa de poder Kclly CIiSlianc d~ Silva

mais dados. trocamos dádivas c contradádivas com nossos tingências ambientaiS e ]1iStóricas. Di:lí me pa.re.ccr difícil ..senâO
interlocutores. ,\0 m esmo tempo. em função dos ~ rigores~ cio impossível, ilusório. ou m esmo. antimctodologLCO . anteCIpar ou
rnélodo - a busca do ponto de visla nativo - as exp eriênCias calcular minuciosamente a realizaçào de qualquer peSquisa em
de obseruação panicipanre (MAUi':OW$KI. 1978) que, por vc· antropologia _ é preciso d eixar·se capturar ou _" perder.se~ pela
~es. se converTem em p arlicipação observame. d emandam experiencia de campo - e. ou afirmar. de antem ao. que nece~·
um nivcl tam anho de entrega por pane do pesquisaclor que. riamente algum traço d a identidade do antropólogo (sua pos~çao
como conseqüência. torna-se quase impossível não colocar de gênero. raça ou c lasse. etc. 1seria vantajOSO ou d esvantaj osO
em perspecTiva s ua h iSTória p essoal e observar a arbitrariedade diante d a natureza de u m determinado objeto . Tal resposta só
cio seu deslino. vislumbrando a POSSibilidade cle viver Outras pode ser constru ída emograficam ente. .
vidas . E.,põem·se. assim. a um clcslocamcnto existencial. que Se é verdade que tais afirmações nao se cons1Ltucm ab~'
coloca sob sllspensflo as várias dimensões de construção. novidadc IEVANS·PI1ITCl-lt\RD. \ 978). nao
Iutaffiente em uma _
vivência c cultivo da idéia cle "eu ·. Assim , o pOder do campo posso d eixar d e reconhecer quc elas nu nca me calara~ ~ao fU'.l '
se m anifesta. no mínimo. em duas dimensões: 8) ele é o even· do quando depois do retorno do trabal!lo de camp~. ~O1-<'~(~O Já
tO que marca a nossa pro fissionalizaçâo com o amro pólogo s. d e um ceno diStanciam entO com relação às cxpenenclas VIVidaS
permitindo. emre outras coisas. a elalJOraçâo de nossas teses em Timor.Leste e o lhando de frcnte para os dados que pud0
d e doutorado e. ao m esm o tempo: bl cria condições para uma recolher, ficou claro p ara mim o quanto algumas d e min~as po.
~ revisâo existencial". muitas vezes intensificada no mamemo sições d e sujeir a em campo condicionaram o d esenvolvllnento
de retorno do antropólogo para casa. d e minha pesquisa .) t\·ICu objetivo neste text o será explorar de
No entanto. se é verdade que em campo experimentamOs que maneira cenas traçoS da minha iclenli~adc - mu1l1cr.. c.3sada.
a posSibilidade de termos outras vidas - Colde ( 1986: ( 3 ). cio n~\o.branca . brasileira, falante de ponugues. etc. - partICIparam
tando Mead e Landes. sugere que em campo vivernos mais de do desen volvimentO de minlv.l pesquisa e intcragiram com o
uma vida - seria ilusório supor que ela po deria ser construicla campo ele p oder de m eu objetO d e ifwestigaçào. . .
sob uma tábua rasa. Os proceSsos que condicionam a coleta O texto está organizado em tres seções. Na prunerra d~las
c a consln..lçào cios d ados na p esquisa antropológica ap onlam apresento. sucintamente. a natureza de meu objeto ~Ie peSqULsa.
para isso. As oponuniclades e os espaços que se alJrem ao ano s it uando alguns dos fat ores e alores entào envolVIdos no pro·
tropólogo duramc o p rocesso de pesquisa sào mccliado s pela cesso de cons trução cio Estado nacional em Timor.Les~e enl re
interaçào d e lodos os marcadores d e s ua identidad e. tal como 2002 e 2003. com deslaque para as disputas de poder eXlstentCS
sào [ic[os pelos nativos. com o s eventOs e atores com os q uais en tre eles. Em um segundO momenro. abordo de que forma
se d epara. alem de serem constrangidos por uma s 6rie de c on·

3 A. expeliênCia de campo i.lqui disCulid<r Han~corr~nrr~~~::~b~o..:~~~n~

,
viduos lorn.."lm urna v<lriediJck: de poSiçõcs dc sujeito OCmro de d iferenu;s • bro (\c 2003. Anres de ct"\Cgar a TlnlO'· IC ' --:-"" ' .
discursos. r ... 1 Algum as desms posiçõcs de sujclto sc,",o comradiróri<lS t: ~~~, rccolhendo llU}liogmfi<.r c doa.lnlcntaçOo <r lCStJeIlOda cOIo.nl~~~
connitiJ ntc$ urnas com as OU lras. - Porquc um inclivíduo Se:; d lfcrénci<l Inrcr· portuguc....."l ncslc tcmlóno e familiarizando·me com o tugar quc ~ pms ~
n<.rmcmc. assumIndo difcremes posições de sujeiro. Moore problcm au7.a a na conscléncla pós.cotonlal da socic(k"'\(1c e dO EstadO ponuguL-S "O t • êl~
uriI!zaçw do conceito de idemidade . procurandu. nesse sentidu. 1.I[X)ntilr somci LI:i meses dC Iral)<:I 11IO de Qunpo. peto (Iue sou g~lra a CAP~,,~·~cI
as IImilaçõcs da llssociaçt'lo um inclivlduo/ lIma iclcnridilCIc. sugl!r1mlo que (:-"';1"1:1. cujaS IloIsllS de est~. crll difClenlCS momellfOS. tomaram,...........,1
dcnrro de lima IllCSm<. sul)jclivicladc 1"IaI)iram vári<l s POSiçô<..-s de suj(-ilO. o (IC5CrWolvirn CnIO da pesquisa

232 233
o poder do (".Impo c o seu campo de poder Kelly Cristiane d,l Sik a

algumas
. .
das min/1as
.
POSições d e sujeiro e as reias de rela çoes
- solo português. dep arei·m e com um dos prol) lernas que. pos-
SOCiaiS nas q uaiS eu eSTava envolvida condicionaram m eu aces- rcriomleme. veio a se tomar um dos principais focos ele minlla
so a cerros dados e POSições de ol)servação. expliciTando como análise: as disputas por modelos dc Estado e. por conseqüt:ncia.
meus marcadores idenrilários relacionaram·se com o campo de por projeros civilizatórios a serem empregaclos em Ti mor-Leste
poder dos problemas que vieram a se lornar a lTlaléria·prim a de pelos agemcs da coopcraçào técnica inrernacional. :\liás. se llá
m eus eSluclos. Por fim. no úlTimo IÔPico. exponho alguns dos algo que caraclerize. p or excelência. os faiaS que leslcmunllei
m eus Sentimentos quanclo do rClorno ao Brasil. Sugiro que nes- em campo e que. posteriormente. foram discur idos na tese. é
las circunSTâncias m e sentia Como uma re/omada. nos IC01105 a ausência de consenso e. ponanto. o carárer estruturant e elos
em que Schulz ( 1945) descreve o homeco'" e'" r\ d JSOp
· . I·Ina que conflilos enrre os atores que os conformam . Tal caraclcríslica
o trabalho anlropológicO nos impõe p acte lornar o rCIOrno para não se apresenta propriamemc com o uma Surpresa. já que es·
casa rão dificiJ Como dela sair. tamos diante de um evento - a construção ele um Estado·naçào
- emincnlcmenre políTico. sujeito a dispuTas dc toda ordem .
I A COnstlllção do Estado nacional em Timor-Lesle 1\ explicilação dos principais focos de tcnsão cxistentcs na
administração pública local permite tomar inteligívcl a maneira
o ObjelivQ d e minha pesquisa cle doutorado fOi analisar o como fui assimilada por cenos grupos das elites locais c intcr-
~roces50 de construção do Esme[o nacional em Timor.LCs tc . .'\ naCionais - m cu s imerlOCl lIores privilegiados duranrc a pesquisa
Ine[ependência e[e Timor Lorosa ' e !TimorLeSte em tótum) fOi - bem como o processo de conquista de lugares eSTrarégicos
restauraela em maio de 2002 . dep OiS de 24 anos de ocupação de ob servação duram e a investigação. Tais fatos cSliveram re·
I~~onésia e 3 anos ele administração Iransirória das Nações lacionados à maneira como meus nativos associaram alguns
Unrdas. Em novembro de J 975. o então Tim or POrtuguês havia de m cu s atribu tos idemiláriOS aos projc tos politiCos por eles ali·
prOClamado unirateralmenre sua indepenclência. depois ele n omi- m entados. Amcs . porém . é preciso dizer que cenáriOS e arares
nais al~r~Ximados 450 anos de colonização lusitana. t\ pergul1la foram observados por mim .
que.ongularmente provocava minha Curiosidade era a seguinte: Como em toda p esquisa orientada por uma perspectiva
qual.S as configurações que um Estado nacional adquire. em seu micro·el!lográfica. a análise de qualquer lema exige a de finiçilo
m amemo de formação. quando seu processo ele estruluraçéio de uma pos i Ç~l o precisa de ol)servação. sobreludo quanclo
é e[ependenre da presença das Nações Unidas? esmmos diantc de um problema tão vasto e complexo como a
Não sai do Brasil diretamen te para Timor-Leste. "'[inha construção ele um Esrado nadonal. r-,'linha pesquisa abordou (:sta
chegada às fron teiras do Sudeste Asiático com a Oceania foi qU ~ lão ela p erspectiva das tensões existentes no processo de
m ediaela por uma temporada ele selC m eses cm Portugal. o nele formação dos recursoS humanos elo aparelllO da adminislração
comecei a familiarizar·mc com traços cio IJIlmp6rio Português e pública rifllorense. fenõmeno quc põc em relaçfrO os parceiros cio
I da ocupaçào lusilana do ICrrilório.~ Já na primcira semana em d escnuo/uimemo'" e as clires poliricélS c Tócnicas que co mpõem o

'I 4 ~exprcss:io lU Impé rio Portugucs fa z referência â úttlma fase da expans.~


(! emprce~~mcnr.o ~otonial tuslI;Jno. ocorrid<:1a {XInir da s(. gun~ n1cla<le
o s(-culo XIX rl.."l Nrlca e nas pequenas IXJSSCSSÓCS asitl . _
5
tempo. ver Alexandre 12000/.
5tI0 dcnomln,Klos p;l1cc iros do dcscnvolvirnCflro os Esraclos·n.açÕCS e seus
respccrivos órg:'los de cooperação inrcn):IOOnal. agenCIas do Slslcm,"l o,"'u.
rcvlst!o das diferentes fa' . d _ • , ocas. Par,) lima
,SCS o Impé riO U1rramiJflllO Português ao longo do n llssôcs de inswlnç<'io e m él!llncnç80 (Ie 1'h1Z da ONU, orguniUlç6cs niÍO·go·

234 235
o ,>Odcr du campo c o seu campo dc podcr Kclly Cristianc da Silva

funcionalismo. ESle foi um recorte heurislico definido em campo ao EsTado colon i~1 pOTlu gues e ao Eslado indon ésio e. n o caso
que nasceu do afluxo entre minhas inspirações Teôrico.meTodo- dos retomaclos: C) ao pais de acolhida n o período do exilio."
lógicas com a rica e in stigam e rotina d e Dili e com as posições ASsim. é possível que encontremos maio r simpalia p elos
de observação que fui conquistando ao lo ngo da invesTigação. p rojelOs desenvolvidos pe la coop eração lécnica portuguesa
A construção e a geStão do Estado timore n se lêm colo. e I) rasileira na pais - b em como às aTividades reali7..adas p o r
cada em inleraçâo gn.lpos socia is basTan le d ivers ificados: I) técnicos d esses paises incorporados às estnlt uras da coopera·
assesSOres internacionais cOnlraTad os pela ONU ou por órgãos çâo multilateral _ pelas timorenses que tiveram algum nivel de
ele cooperação bilaTeral (Clduisors) com o rigem cm diferenTes incorporação ao Estado colonial p OrTuguês existente aT6 1975.
tradições n acionais: 2) rcrornados limoren ses anTes acolhidos entre o s ex·FA L!i'rnL. b em c o m o entre OS retorn aelos d e países
em dis Tintos espaços de eXllio e: 3) timo renscs que p ermanece. como Moçaml)jque. Angola e Portugal. De OlltrO lado. a aluação
ram no país duram c a ocupação. co m diferemes Ilislóricos de da cooperação lécnica d e malriz anglo·saxâ (am ericana. in glesa.
inserçào no Eslado colonial ponu guês e no governo da enlão auSlraliana. neo·zeolandesa. etc.) parece ser m ais apreciada
27" Província ela Hepública Indonesia (Timor Timur) . entre os relornados da Austrália ou por aqueles que não liveram
cada um d esses g rupos detém projetos part iCulares para a qualquer pOSsil) iHdade de incorp o ração ao Estado ponuguês.
construção do Estado. muiTOS deles conflitantes ent re si. o Que bem como pelOS que foram educados pelo Estado indonésio.
faz de suas relações uma série de emba tes e coali7..aÇóeS cuj a Para c ilar um exemplo I)astantc s ig nificativo. a maneira
figuração p arece estar relacionada. sobreludo. com os diferenles como esses diferentes grupos se posicionam diante da polilica
hislóricos de fonn ação e incorporação nacional e civ ilizacional de lin güístiCa a lic iai do Eslado é expressiva das disju nções existen·
seu s membros. t\ dinâmica en lre os diferenlCS grupos polÍlicos tes enl re eles: 1 os timore nscs educados n o lempo pOTlugués.
limo renses e a maneira como alribuem senl ido à Sua experiência bem como os relo mados de países lusófonos. silO os mais sim-
parecem estar fonemenlc ligadas a trts falores fundamerllais: a)
às POSiÇóes assumielas nas diferenTes frentes da resisTência à ocu. G :\ ocul:taÇ::"o Indonésia (oi !nrcm1ilenlCIlICnle comcSt:lda d~lramc os ~ ~s 2:,1
rulOS de exiSTcnda Ix:tas difercnlCS frenTcs de açtIO que formavam a rCSISIL'flCI:1
pação indonésia: I)) à m aneira como foram ou ni lo incorpo rados ;unorense. NOS dcm.K!clrOS ano.5 da OC1.Ip<lÇ::"O. ,IICSiSI '::n~k') IIInorc~ ~Ia,,:a
organiw<.k"1 elll lfl:s!roms. sob dircÇ<io rJo Conselho NaCional da Bcslstt':ncl3
Timorensc ICNn1)· a frente annada. rcpresenlad:\ petas FALl1'<,IL: a frente
clandeSTil~l . pn;cr'lCl1id.."1 por inlcgRlnTCS da socit:dade Cl\'lI l1ffi.Of:11SC no ler·
vcrnamcl~T;:lIS irllemacionais. &lrn:o Mundial. !-undo MOTlCI(lrio Internacional. riTório e a freme diptomtltíC<l. fonllilda por componel1lCS das diásporaS umo·
f3a~lCO ASiá!lco de DcsenvolvlITlCnlo. órgtlos de cooperaçoo l)ilarCntl entre rcnses na AuSTrálra. l~nugaJ. Moç3!11t)ique. Angol<.l. enTre OUTrOS. cada uma
I,?LSCS IUSAID. AUSAID. ABC). Insrnuiçóes rcligiOSiIS. elc. que. a fundo per. dessas frenTcs lInha relaçõcs org~nicas enTrCSi. AS F'."U:'I.11L. por cxc:mplo:
dido. repassam r<:cursos ao Esrnoo da RDTL fRepública OCrnocráriC<! de sobreviveram duranTe 24 anos com affilas e Olmos TIpOS de ~ rCI1~
'unor·L<:srCI. OS rCC\.JTSOS que rem corno origem os pilrcCIn)S(lQ descnvohi. do próprio cxêlciTO Indollésio ou enviados pck"1 frlo'!lTC cl..""U"Idesllna. A língua
n~nro saod~ilados em nome do TImor·LCSTc na Ql.k"l'iCk'\(k; ele do..""lÇóes. de comllllicaçtTo utilizada pelas eliTcs do moVimenTO erd il ponugl.lC~ . par~
l>clo que esses <!Iores s..'Io mmbém denominados <Ioaooll':s. O sisrcrn<"1 de uma dcscriç;)o das diferenTes fases 1X:1as quais p..'lSsaram os mOVlmcnlO.5
d~çi'lo pode ser. romaclo como um faro SOCial rorat II>1AUS5. 19741 quan(lo de rc..<;iSll:nda IInlOlÚI1SCS de 1975 a 1999. vcr Magath;'lcs (19991. ,
IraMmo~ (Ie ~nallSar o processo (Ie consrruçtio ciO ESTa(lo em Timor.Lesrc. 7 \ttte l1omr. COlllur.lo. que sornenl e aproxima{1i)lllellle 5% ela poputaçao 11·
Etc esrá Implicado en11()(lélS as faces e fas es desse empn..:endimento. con. rnorensc é l1uenlt: elfl pOTluguês. A língua franca de l1mor·Lesrc ê o lélum.
dlcll;1I18n<lo fen6menos .TtlO diversos como a COllsoliclaçi\o (le uma lingua embora sej;1pOllCO Iltlli7.ada como tíngua cscril1). 1\ pop~laç;)O leTr<ld<J (lo
naCional e OfiClill .<lOS Slsremas (lO orçamento "l{IOlados peto ESTado. Aré pa's cscreve em tíngua il1(lon6sia c uriliza o léTutn eOl11o hngua para COI11U·
\ :2003. cerc,,1 (Ie Ires quarTOS (Ias dúspesas da admlnis l nt~'no publica eram ni~ç[IO oral. 05 usos do irtg!ÚS. COl110 do indol1~io. s:to Toterados {1éldo
pagas com recursos rep.."1SSaóos ;tO ESla(lo da ROTL pelos doadores. que a COnsTituiçno ril110rensc as define enquanlo hnguas de TralJalll0.

236 23 7
o pode. do cil mpo c o seu campo de poder Kelly Cristi:tne da Silva

páricas à decisão conST iTucional que faz da língua pOrTuguesa oficial de Timor-Leste_ o que causa nos portugueses p rofundo
um cios dois icHomas o ficiais e naçionais do pais. junTo com o rancor, dada a importãncia que a expansãO e valori7..açáo da
rérum. 8 Já os rimorcr1SCS educados no tempo da indonésia. bem língua portuguesa têm neste momento para Portugal.
como os rcromados da ,\usrrália, sugerem que só o rérum seja a Desde 1999. a O!'\U instituiu em Timor 4- missões - UNAMET
língua nacional e que, cvcntualmc mc, o inglês seja a língua oficiai Iuni!ed Nations ~'1i ssion in East Timor). INTERFET (Intemational
cio Estado. DianTe deSTe cenário. ser brasileira c, portamo. Icr o Force in East Timor). UNTr\ET (United NaTions Transition Ad·
ponuguês como língua maTema. explica parte da simpalia com miniSllôlion in East Timor) e Ui'\MISET (United NaTions Mission
que fui acolhicla en Tre OS rimorcnses rcrornaclos d e ~<\oçambjque of SLLppon in East Timor) _ Tais m issões TrOUxeram ao Timor
- que ocupam as mais imponanlcs poSições polÍlicas do Executi. milhares de "especialistaS", aduisors internacionais. funcioná-
va nacional e que defend em com maiOr afinco o projeTo de faze r rios ele carreira da ONU. além cle capacetes azuis, o que fez do
da língua pOrTuguesa de falO o idioma nacional e ofic ial do país territóriO um espaço dividido enlre dois mundOS: o mundo dos
- a ponco d e cu Icr lido o privilégio de realizar minha pesquisa d e "internacionais" ou molaes - COITIO os timo rcnses denominam
dentro do Gabinete do Primeiro-Ministro. Estou cena cle que se eu o s estrangeiros - e o mundo ciOS timorenses.o t\demais_ vale a
fosse australiana. as coisas jamais se dariam da mesma forma. pena notar que o pessoal miliTar e policial a serviço da ONU é
É digno de nOla. ainda, o fa to de que existia em Timor-Leste. hegc monicamCnte masculino e está freqüenlemente em busca
no período da pesquisa. um mal-eslar acentuado entre muitos de relações afetiVo'sexuaiS esporádiCas. Nesse sentido, qualquer
cooperanres de Origem anglo-saxã. de u m lado. e ponuguesa. de mulller disposta a conversar é sempre bem-v inda_ v ista. em
outro. CerlOS ponugueses sugeriam que a ONU não reconhecia muitos casos. como potencial parceira sexual no futuro. fato que
os conhecimentos que Portugal adquiriu a respeito do território e se mpre facili tou meus diálogos iniciais com esses nativos.
do seu povo nos anos d e coJoni7..ação, acusando-a de discrimi- Diante desse contexto, eu. como antropóloga. era Simples-
nar os ponugucses e os lafinos em função do forte lobby anglo- mente mais u m a il1lemacionof. Longe de ser a única estrangeira
saxão exiStente na instituição. Por Outro lado. muitos funcionários no Contexto em que fazia a investigação - como normalmente
das Naçôes Unidas. não-portugueses. acusavam os ponugueses acontece nas pesquisas de campo em antrOpologia - eu era só
de terem pretcnsões neocoloniais diante do território. Há. ainda, mais uma Illolae sujeita a toclos os preconceiTos e conceitos que
entre Ponugal e Auslmlia. uma diSputa pela Ilegemonia cultural diferCntes segmen tos ela sociedade timorense constntímm em
no território. ~...[uitos dos australianos envolvidos em POlít iCas de relação aos estmngeiros. Ero. contudo. uma malae 8rosil. uma
EsTado defcndem a idéia cle que o ingles deveria ser a língua ma/ae ki"ak (estrangeira pobre) c uma malae que falava Tt:lum, o
que me d iferenciava um pouco dOS in/emocionais lá presen~~.
Por fim_ vale nOTar que, diferentemente do que IradlClO·
a Diame dOS:!4 anos de OClIpaçOO milnar~ na QUat aproxilnadamenre um lerço
(Ia populaçtio IUnorcnsc (oi extCnninada _ a herança cllllllrat deixada pelos nah-nenTe tem marcado o trabalho de campo em anlropologia.
anos de coIonlzaç;"io portuguesa (oi eslr"..uegicilfllCnrc tOfnada petas ehlo.:s meus naTivOS fazjam parte de grupos sociais que gozavam
dos mOVl~en.tos de rcsi.'irC!ncia a Invastlo como sina! diacrírico da JXlpula.
Çao do rerrnóno com retélç<'lo aos demais povos que llabiravam oUlra" ilhas ele baSTante poder. l\tenTa aos processos através dos qua iS
do .ar~luipétago indonéslo. A lingua ponugucsa era o idioma uril17.<lelo pela
\ rCSlStcnCIa anllacia c por pDrrc da (reme clanelcstin.:"1 nas comunicações que ,
fa~iam emre ~i. :"lcmais. gr".lndc pane ~ freme diplomt.niCa hoje no poder
- em su..... maIOria relomada ele Moçamblquc _ ronnoll-sc inrcl<.'Ctualmenrt: ---,:---c--:::c= c·=-=:
9 :-':00 quero crisrah7.ar .. ~,_,
esses doIS m", "-"'''' al:IUI.. li' ·•......as rCStritas
,"",' . ( t,,; comu-
IlOS PALOP {Paises AfriCanos (le Ungua Ofidal Ponugues.'lt. nlcaç[lo entre etes. com as chIes loci.Iis atuando como !Jfokcrs .

238 239
o poder do Cil mpo e o seu campo de poder Kclly Cristianc da Silv<l

o Estado nacional eSlava a ser conSlru iclo em Timor. meus a respeitO das várias experiências que ele vinha tendo como
na Tivos eram os sfaf/s das Nações Unidas que a Tuavam com o consullor em algumas inslituiçóes do Estado limorense e das
conselheiros dentro cio Estado limo rensc e os qU3C!rOS Técnicos expectativas que cu linha com relação à minlla pesqu isa. i'\esse
e políticos do primeiro e segundo escalão d a máquina pública primeiro m ês ele COnTato. ele não sabia que Dan iel. meu campa·
rirnorcnse. Pensando em si mesmos como a Tábua de salvação nheiro. estava em cam po comigo. e eu omil i esse fato durante
do Estado c da população timorense. m uitos deles olhavam algum tem po. com o consentim ento do p róprio Daniel.
para m im com ceno desprezo . nu m a aTiTUde de quase resis- 12 de dezembro é o Dia InTernacionClI elos Direitos Hu·
tênCia à p ossibilidaeJe de serem adequaclarncmc observados m anos. O 12 cle dezembro de 2002 marcou a adesão de Ti·
por uma antropóloga jovem e do Brasil. mor.Leste às Nações Unidas e a u ma série de convenções de
p roteção aoS direitOS 11Umanos. Nesta data. houve em frente
2 Do café A CAJT 00 gabinete d o Primeiro.,Vlinis tro: ao palácio do governo u ma grande festa . i':0 final do evento.
Projeções iden titórias e j ogos de p Oder encontrei mais um a vez José que. muilO genti/m eme. levou·m e
a u m a aulorielaelc do Estac!o timorense. Informada por José a
/'o.'l cus primeiros d ias ele trabalho em Ti mar·LeslC tiveram respeitO do que eu vinlla fazer em Timor e perceb end o que cu
como cenário o café ACAIT (Associação Comercial, r\gricola e era b rasileira, o Ministro colocou ·se à d isposição para o caso
Industrial de Timor). onde duranTe quase um mes Cu passava de alguma necessidade.
as manllãs /cnda jornal. tomando água tônica e conhec endo Depois deste p rimeiro encontro com um elos minis tros d o
pessoas. 10 Já em Lisb oa comecei a trocar alguns c·mOils com governo tim orense. p roa..rrei·o em seu gabinete mais duas ve·
ponugueses que estavam naquele pais. os quais. quando da zes. Fui recebida com toda a genlileza c escl.llada com 3 tençúo
minha chegada. logo m e receberam . apresentando.me a váriOs quandO me p ropus a explicar o que me trazia a Timor·Leste.
amigos. Foi a pan ir das mesas do I\ G\IT, nas quaiS conheci demonstrando desde então uma po stura crítica em relação ao
amigos vindos ele países da CPLP. que clleguei ao PrimeirO':--'li . que via a ONU fazer dent ro do aparelho cio Estado. Em fevereiro
n istro. Em um elesses p rimeiros 3 0 dias conheci José. que logo de 2 0 03. em um terceiro encontro. afirmei que eSlava em busca
demonstrou interesse em m in ha pesquisa o u cm m im. Como de algum IraballlO voluntário dentro da cstlUtu ra do Estado que
out ros hom ens em campo. ele se aproximou com segundas [ornasse possível a observação da atuação dos assessores da
inTençõcs. 1\ mim cou l)C capitalizar seus interesses C contatos ONU e dos processos envolvidos na idéia de capocily building.
na direção dos obj etivos da minha pesquisa . Encon trávamo.nos Pergu ntCi então ao ;"Iinistro se ele tinha alguma sugestãO a res·
com freqüência naquele café. conversando por algumas horas peito de com o cu poderia conseguir isso. Ele sugeriu que eu
escrevesse uma carta ao Primeiro -Ministro. relatando meus ob·
jetivos e p retensões. a{irmanclo que ele intercederia por mim .
10 COmecei m~n!'k' I)C5([Ul'i<l J~IO café do ACAIT casualllll!IHc. pelo sirl1plcs fala Em abril de 2003 fui convocada pelo Prim eiro·MiniStro. S .
de um~ am,ga rer m e convid<lclo pma um dia romar o (x."que'lo olmoço com
ela lá. 1'0' emiJo que perce bi que aquele eriJ um tocai cS!r<:rrégico. l..ocali7.ado Exa. Mari Bin I\lkatiri. para lima audiência . Depois cle ler a cana
\ ao I;Jdo do Palácio do Governo - cnrooocupado p.i.Ucialrncntc Ix:Ja ;:Klminislra.
çtlo ~ l/i\').IlSET - e cmlJ.'ixo da Missão e Embaix<xk, Ponugucsa. rodas as
que eu havia enviado a ele. juntO com meu currículo e a docu·
nl<'n.'
IUS pa$SOVilIl1 pelo café pessoas organicamel \1e ligi}(las t, ildrninL"Ir<lÇOO mentação dé! G\PES que ateSlava o recebimento de uma I)olsa
do Esrado e às Nações Unkk'ls. A panir do companilhamcnlO do café com
algUl\S deles com eccj a COI\Strvir m inha primeira fecle de lnformanrcs. para a pesquisa . ele disse que eu pod eria trabalhar lá m esmo.

240 241
Kell y Cristiaoe da SilV,l
o poder do campo e o seu campo de poder

como função dar aulas ele portugu ês aos funcionários locais .


em seu gal)inete. na Unidaele de Coordenação ele Desenvolvi·
tradu zir correspondências oficiais para a língua portugu esa e..
menta de capacidades. onde eSlava também uma aus traliana
em alguns momentOS. agilizar o contato informal enlre autOri-
e outros funCionários timorenscs.
dades limo renses e brasileiras.
Estou ccna de que se cu nâo fosse I)rasileira. fnull1c r c não
falasse tétllnl. m inha rcele de contalOs dentrO da cstrutura do
Estado timorense não fluiria com essa rela tiva facUidaclc . Logo
? . I fr::cilando
_ ·· ' do Gabinele cio Primeiro Minisrro
na primeira audicncia c om o Ministro timorense. quando ma· . um d ia consultei uma uidenre e c/a di~ que mi~ha
nifestei urna certa crítica com relação à presença da ONU em fufura carreira projiSsional seria no Onenl/~. (..., Drsse
qlle em breue eu esrario à mesa com reIS e ((linhas. com
Timor. recebi como resposta acusações de que esta organiza-
os gouemodorcs do m Ufl{/o. NOQuele mamemo nada
Çi:10 tinl1a predileção pelo mundo angló fono. não respondendo. jazia senrido. mas. agora que CSIOU em Timor.Lesl:.
algu m as vezes. aos inreresses da elite tirnorense n o poder compreenda rudo f.•. ' .
rApao.IUE. assessora da ONU no Eslado limorcnSe)
que. por exemplo, desejava preferencialmente falantes ele por·
tuguês como assessores internacionais nas várias ins tituições
do Estado. Aqueles que à época ocupavam as posições de o relato acima é 1)3stante expressivO da maneira como
Primeiro·Ministro. ~'I inist ro do Interior. Secretário de Estado do grande parte dos fLlncionáriOS internacionais das f\:aç~s ~n~d~s
Conselho de tvliniSlros. Secretário de Esmdo da Defesa, MiniStra atuando em -rim or·LCSte atribui sentido ao papel desta InstrtuI~o
de Estado da I\dministração EsTatal. Ministra do Plano e Finan· no mundo_ (\bordando·a como gouamadora do mundo. mUitos
ças. entre out ros. eram todos reTornados ela diáspora timorense deles pensam ser reis e rainhas diante dos timorenses .
em j\'loçambique. I\ngola e po rtugal. Eram. Também . os m em · i\ comunidade internacional em Timor·Leste é bastante
bras do governo que defendiam com maior afinco ° projeto segment3cla . Está o rganizada com I)asc e~ critérios d_~ na·
de transformar Timor·Leste em mais um espaço clo/usofanio e cionalidade. vínculos inslituCionais e ocupaçao. ReprodUZIndo
aqueles que. no colegiado de minis tros . detinham maior poder de muitas manc iras representaçóes e condutaS orientadas por
de persLlasão no processo de tomada de decisão das polítiCas um regist rO colonial com relaçãO aos limorenses, g~ande ~arl e
a serem adotadas. bem como na negociação com os {Jorceiros dos funCionários estrangeiros do sistema das Naçoes UnIdas,
cio descnuoluimcmo _Não por acaso. foram esses os m embros de organizaçóes nilo_governamentaiS inlCrnacionais:.cooperan.
do governo que me receberam com maior abertUrd quando com tes bilat erais e do mtlndo diplomátiCO vivem em llmor·L eslC
eles fi z enrrevisTêls ou solicitei algum tipo de inforn1ação . I\bor· absolutamente separados do mundo local que os circunda .
dando·me primeiram ente com o brasileira e. portanto . falante de Para eles existe um m ercaclo especifico dc consumo que tor~a
português como lingu a m aterna. viam em mim uma "natural" possivel comprar em Tim o r·Lcsle frangos Perd.igão ~o. BraSIl.
aliada de scu projelo IingClislico e identilário para o país. leit e australil)no. vinhos cio AlentejO portugucs e In~me.ro~

,
Além disso. vale nOlar que a cortesia com que m e rece· produtOS do Sudeste Asiático, enlre outros. Em um eSl110 SImi-
beram tinha também c omo cont raparticla algum lipo de COnt ra· lar ao das colôniaS ele migrantCS c spall1ildas pelo mun~~. as
dáeliva que. durante a pesquisa. Uvc que honrar. Trabalhanelo diferentes comunielaeles ele expatriaclos residentes em lunor-
com o voluntária no gabinclc do Primeiro·Minislro na Unielade LeS1C lendem a reproduzir neste p ais os hábitOS ele consumo
de Coordenação de Desenvolvimento ele CapaCielades. livc

243
242
o poder do C.lmpo c o seu Cilmpo de podei Kelly Cristiane da Si!v;1

e trabalho trazidos de seus países de o rigem . EnTre elas há. fizesse trabaU10 volumário. fez com que m UITos dos assessores
inclusive. uma dispUla p ela aflnnação de qual é o estilo de da O:-.:U me vissem como uma igual. com o mais uma inrem{/·
vida mais saudável. mais cheio de semido e o qual. sugerem, donal que. C0l110 eles. eSlava promovendo o capacily building
deveria ser tomado pelos rimorenses como exemplo. De um das comrapancs limorenses. Eu deixei de assumir o papel de
pomo de vista sociológiCo. [l ã enT re esses clifcremes grupos uma antropóloga - que em determinadas siluações poderia
nacionais diSputas com relação ao processo civil izatório que parecer uma am eaça - para m e tornar uma companheira ele
deve ser empregado em Timor-L este. lrabalho. com quem foram compartilhadas aflições cot idianas.
Entrar nesses mundos, especificamente no escalão dos Foi sobreluelo como uma amiga ou colega ele lrabalho. dispOSta
assesSores internacionais mantidos pelo sistema das Naçôcs a ouvir e compreender as fomes de ansiedade. prazer. medo
Unidas dentro do Estado limorense - aqueles que. ao lado dos e ressenlimento dos meus nativos e amigos que tive o acesso
técnicos do Banco Mundial. gozavam de maior prestígio enTre mais denso c prof\,.ndo ao pomo de vista deles. fato que cotidia·
os estrangeiros que traball13vam em Timor - exigiu de mim a namente m e constrange e im põe limites no mamemo de trazer
conquisTa de um local especifico de fala. um local que colasse a público e/ou analisar cenas dados.
lambém à minlla imagem alguma idéia de pres Tigio. Enquanto Na qualidade de sraf! do Gabinete tive a oporlunid8de de
fui somenTe uma estudanTe. raros eram os conviTes para festas observar eventos fundam entais para se entender a conslruç;Jo
ou para algum OUTro evenT O social. Eu não exis tia socialmen. do Estado em Timor·LeSte. como a Heunião de Timor·LeSte
te. O esmbelecirnento de um diálogo imeressaclo também era com os Parceiros do Dcscnvolvimento . as c!iscussões em torno
difícil. pois alguns ora me olllavam com cerlO desprezo. o ra do downsizing da missão da ONU no país c do redesenllo da
viam ·m e como algu ém que eSlaria avaliando os resultados dos m issão pard maio de 2004. bem como as negociaras políTicas
Irabalhos por eles desenvolvidos. em torno da conlréuação de conselheiros imernacionais.
A en trada no Gabinete do Primeiro·Ministro. na Unidaele de Tive também de arcar com cena ónus financeiro advindo
Coordenação de Desenvolvim ento de Capacidades (UCDCJ." desta posiçilO: vista como uma inrernacional que traba1l1ava
foi um tuming poinl nesse semido. Abordando os funcionários dentro do Estado. tinha de m e comportar enquanto tal. IsSO
das Nações Unidas que trabalhavam dentro do Estado timorense implicava em freqüentar determ inados restaurantes, oferecer
como uma técnica com vínculos próximos à maior autoridade festas e jantares. veslir·me de forma discrcla e. na medida do
do governo. passei não só a ser muiTO bem recebida pclos possível. elegante (cf. I-Iüncock. 1989). entre Outras coisas - há
m csmos. pois tinha. se quisesse. a autoridade para quesTionar bilos que minll a IJolsa de eSTudos nem sempre era capaz de
suas práticas de trabalho. como a ser convielada para feslas. cobrir. Como diz o ciliado popular. noblesse 01J/i g e .
jantares. exposições. enTre outros evenTOS sociais. :\ partir ele um r-oi tamb ém elcsle lugar de fala que. em alguns m om en·
eleterminado momento passei inclusive a participar dos painéis 105 . live a oportunidade ele colocar em queSTão a eficácia de
ele seleção de novos assessores estrangeiros para o Estado. A algumas das atividades desenvolvid(ls pelas Nações Unidas
entrada no Gabinete n a qualidade ele estrangeira. embora eu no país. ,\ cada qucs1Íonamcnto aprescnmdo. ganllávamos.
I eu c out ros colegas da VCDC. pomos negalivos junTO ao peso
t t A UCDC esrá InsriruclonalrnCnle ligada ao gabinete do PrimelrO·Minisrro e soaI aelministra tivo da missão ela ONU. de tal forma que, em
~ern como funç[lo nlonÍlorar e CSIn.uur.:lr lX>liricas em prot d'l cap..'lclroç;'\o {lOS
luncionários pút)liCOS locaiS. em P<lrceria com os dcnornu'k"lclos cloodorcs.
eleternlin<:l(los m amemos . fornos excluídoS de alguns fóruns de

244 245
o poder do campo e o seu campo de poder Kelly Cr;sti~ne da Silva

discussão e negociação. Diante d o risco de ser simplesmente de eclificação do Eslaclo nacional em Timor: as disputaS ent re
expelida de m eu espaço de observação por alguns elos m eus anglófonos e lusÓfonos.
naTivos. muiTas vezes calei·m e e evitei a exposição de qual· É verdade também que. alguns deles - sobretudo aqueles
quer Tensão. Assim. parece·me pertinente refletirmos a respeito mais estrimmenle vinculaelos ao corpo cHplomát ico - a partir do
dos li m ites a que estamos sujeitOs. enquanto pesquisadores. momento em que perceberam meu empenl'lO em m e comunicar
quando fazemos uma antropologia daqueles que detêm po· em tétum com os Timarenses. deixaram ele me ver como uma
der e estamos . nós. antropÓlogos. numa cond içilo d e relativa a liada incondicional. O esforço em me comunicar em téTUm foi
subalternidacle diante d eles. 12 Tomad o como indice de que para mim a lu sofonia não era uma
idéia·valor inquesTionáveL
2.2 Brasileiros. Portugueses, Latinos e l \I1g/o ·Saxões t\'l inha condição de brasileira aliciava·me também a out ro
gn.LPO de expatriados em Timor LeSte: à comunidade lalino-ame·
Como sugeri acima . m inha condiçào de l)rasilCira catalisou ricana. que se definia enquantO lal por oposição aos anglo·sa-
um acolhimento relaTivamente caloroso por parte da eliTe tim o· xõeS e aoS portugueses. Graças a essa condição. amigOS latinos
rense no poder. Para além disso. eSte m esmo Traço identiTário ~de nunci avam" . em conversas de bOTcqllim. o que cl1amavam
fez com que a comu nidade lusóCona em Timor·Leste conside· de estu pidez e estreiteza anglo·sax[l . tr'ddiçãojurielica e burocrá·
rasse como dado o fato de que cu seria uma aliada na causa Tica hegemõnica no sistema das Naçôes Unidas.
da p romoção da lusofonia no pais. Fo i. pois. entre os asses- Por QUTro lado. não ser portuguesa me aTril)uía certa li·
sores inTernacionais portugueses que fui receb ida de m aneira I)erdade e créditO para a construção de relações cordiais com
maiS aberta. bem como rapidamente incorporada às recles de os anglófonos. Pelo fala do Brasil ser consielc rado. no senso
social) i1idacle que os uniam. Muitos deles. inclus ive. dirigiam· com u m. um pais que superou sua "limitada" 11erança colonial.
se a mim para reclamar das discriminações de que considera· algu ns consideravam que eu Tcria distanciamento suficiente
vam ser vitimas no sistema elas Nações Unidas. revelando·me para observar o que por eles eram vistoS corno os erros c as
uma das oposições políTicas mais estruturantes no cOTieliano pretensõcs neocoloniais pOrlugucsas. bem como a diTa falia
de d isciplina no tral)alll0 cios funcionários advindos deSTe pais.
o que, aos 01l10S de alguns anglo·saxões. era um péSSimo
12 AS condiçÕ\:!S em que reatizei uma emrcviSra com o coordenador (lO GrulXl exemplo aos limorenscs.
de Suponc Civil da lJl'.'~IISF.;T em Tunor s.'10 expressivas cln <lImosfer.l que
[XIr vezes Circundou ['>artC de meu rrabaltlO de campo. Fiz eSla enlrc.;visla
dez meses depois de ler chegado <lO campo e só a corlSt:gui porque diSse
ao c(X)rOcnador (Iesle grupo que gOSlari.. de lrocar e pal1iTh..r algumas im· 2.3 Redes de simparias e anliparias
pressões n rcSI>cil0 de como a lr1\'~USET avaliava o processo de conSlfU-
Ç[IO dc cupacTdacles cios 1imorcnscs na csrn_ uurd do Esrado. Preparei com
mulra amccectCncia csta entrevis ta c uve o máximo de cuidado em colocar GOSTaria de discutir neste TÓpico de que forma algumas das
as palavr.lS. procurando nao dizer qualquer Cois.. que puclcssc soar como amizades que conquistei em campo c o desenrolar de delem,ina·
c ri1ica_ Mais do que nunca. pisava em Ovos. Para minlla surpresa. lodas a ..
pergumas que cu coTocava ao COürctenador eram por cle an01adas em seu dos eventos coneHcionaram o dcserwolvimcntO cle m inl1a pesquj·
cadColO. bem corno as Tinhas m CStrdS das respos1as por etc dadas. SCmi- 50. Tomo esses faiaS como evidencias cle como as posições de
me. corno nunca. conrrotacla pelo meu Informame. medindo cada paTavrn
que eu coTnc nva a r.m de nJo eSlIenl(.'Ccr as bo.."lS relaÇÓCS que. a (Iuras sujeiTO dos nossos prtncipais informantes e. ao mesmo tempo.
penas. linha conseguido cons rruir com eTc.
amigos. influenciam o traba1l10 do antropÓlogo em campo.

246 247
o poder do carnpo e o seu campo de poder Kelly Cristianc da Silva

No períoelo em que lrat)alhei como volumária no Eslado alguns corredores elo sistema ONU em '['imor·Leste. Assim. o
Hmorense. companilhei meu cotidiano com uma aUSlra liana simples fato de ser amiga de Mary O de com ela tralJaJllar fez
que. ao longo do lempo. lornou ·se uma grande amiga. i\·tary era com que minha idemidade fosse colada à dela. o que implicou
contrmada pelo Programa das Naçóes Unidas para o Desenvol. algum a perda para a coleta de dados de minha pesquisa.
vimemo (PNUD) e lin!l a com o função promover o ins rirlllional Além ele ,,·..rary. ViTória foi outra grande amiga em campo.
btlilc/ing da UCDC. Ireinando os funcionários limorcnses para Brasileiri:l como eu. tralJalllava em uma ONG limorcnse cuja fun ·
monitorar c promover o desenvolvimel11o de capacidades dos ção era monilOlâr a imervenção dos organismos intcmacionais
servidores públiCOS Timorcnses. Exlrem am Cl1Ic critica ti imerven- em Timor. Vitória é un1a miliTame e faz questão de culTivar essa
ç<:io das Naçóes Unidas em Timor·Lcsle. Mary tinha um respeito identidade. Sempre pronTa a questionar a Tuclo c a IOdos. cllcga·
excepciona l p elos timorenses que conosco trabalhavam . Dife. va a ser agressiva com alguns dos m eus nativos quando esses
rentememe di:l m aioria dos estrangeiros que atuavam no Estado expressavam suas perspect ivas a respeito. por exemplo. elas
Tim orcnse. Mary falava inelonésio. comunicando·se flucntem en te ~ dificu ldaeres de se cons truir um Estado democrálico em Timor
com suas comrapanes locais. a partir de uma populaçáo que não saiu do eSTado da barbâric".
JusTamente por ser muito crílica aos programas desenvol. Houve m omentos durante o trabalho de campo em que semi que
vidas pelo sistema ONU no imerior do Estado timorense. Mary linha de m e afastar de VitÓria. Do contrário. cstaria colocando em
nEto hesitava em apresentar quesTionamentos e aponTar o que. riSCO a qualidade com que delenninêlclas informaçôcs pocleriam
para ela. eram erros na adminiSTraçào dos projetos. conquisTan. chegar até m im . dada a maneira como ela conslrangia delcrmi·
do. p or isso. a anTipalia de p arre dos quadros do sistcma ONU. nadas pessoas. No entanTO. VitÓria tinl1a um papel imponante
A parTi r de jUlllO dc 2003. Mary passou a queslionar il1lensiva. também. MuiTaS vezes ela colocava aos m eus imerlocutores
m enle a forma como o gerenciamento do chamado program a qucslócs muilo interessantes - algumas delas construídas a panir
dos ~200 poSIOs" eSlava se dando. O que levou o responsável do nosso diálogo - as quais só a ela. porque falava do papel de
por esse program a a corrar relaçàes com ela. embora livcsse a militanle. era pennitielo enunciar. Posicionando·so frontalrnentc
obrigação ins tiTucional de se relacionar com a UeDe. ,) r>.:lssou. diante de alguns inrernocionois. VilÓria não Ilesimva em apontar
a partir de então . a se relacionar diretamente com o elirClor da as conlradições da segregação social que a ONU criava em Tirnor.
unidade. ignorando a exislénçia de Mary. Dada a m inhil amizade pedindO aos fllllcionários desta inslituiç,jo que manifesTassem
com Mary. fui eu também encapsulada nessa rede de amipatia suas posiçóes a respeiTO disso. p or exemplo.
clc forma a que o fluxo ele in formaçóes a respeilo do projeto
supracilado que alé mim cllcgavCl foi interrompido . Eu passei a 2.4 Falar rélum e ser brasileiro enrre os limorenses
receb er b oicolCS diame de elemandas pela disponibilização de
informaçàes. bem como a SOl' ~ mal falada ". tal como i\rary. em Diant e do desinteresse da m aioria dos estrangciros rcsi ·
demcs em Díli em aprender as língu as m ais ulili zaclas cmre os
timürc n scs em SCU co1iclinno de traba lho - o létum e a língua
indonésia - minha pro ficiência ou m esm o . nos primeiros me·
ses. clem ons tração de vonlade em aprender o idioma. casou
muilo boa impressão en tre os lirnorenses. Assim . o domínio

248 249
I o poder do Glmpo e o seu campo de poder Kcl1y Cristianc da Silv,l
I,
da língua veicular do terri tÓrio - além de ser u m a exigência Eu e Danie!tínl1amos objetOS !Jaslantc diferenciados de peso
óbvia para o bom desemp enho da pesquisa - permitia ainda quisa: enquanto eu observava os processos que davam form a à
diferenciar·me dos demais estrangeiros qu e Irab aUlaVam no edificaçãO da adminislração púlJUca. ele eslava preocupado com
país. de maneira que pude Icr maior confiança. consideração a invenção do conceilo c do problema da violência doméstica
c respeito dos limorenscs. Eles sabiam laml)ém qu e cu fazia no país. Circulávamos. portanto. por redes a principio cliferenles.
UITI trabalho volumário den tro do ESI3Clo. e que não recebia m as que. em delerminados momenlOS. sobrepunham·se . Tais
qualquer remuneração pa ra lanlO. Nessa perspectiva, eu m e circunstânCias potenCiali zavam a nossa imersão na rotina de Oili
diferenciava ainda m ais dos imcmacionais comr31ados p elas e a nossa penelração em diferentes redes sociais. aumentando
agências de cooperação. cuj os salários, em sua maioria, eram o alcance das resp eclivas pesqu isas.
no mínimo 10 vezes m aiores que aqueles pagos aos servido- No entanlo. evenlualmente. o compartilhamenlo do mesmo
res públicos locais. campo. do ponto de vista fisico. colocava problem as à nossa
t\ dem ais. o falO de cu não ser originária ele um país com convivência. poiS. ao discutinnos em conjunto cenos problemas.
in teresses estratégicos no ferriT6rio. com o AuSTrália e Ponugal. chegávamos a lançar hipÓteses explicativas advindas do nosso
ou com um passado de pOfencia colonizadora. fambém conrrj· eliálogo sem poelcr limiTar claramente elc quem era eSIa ou ClquelCl
buiu para tanto. Os brasileiros são geralmente bem ·viSTOS pelos idéia. Tais contextos me causavam angústia e aflição. solJretudo
limorenses. Em um dos m ilos de formação nacional em cons· quandO cu lembrava elas criticas feminis tas à história da nossa
trução no país. o Brasil é apontadO corno o irmão mais veJl10 discipli na. na qual as VO%.CS femininas t6m sido constantemen te
de Timor na família dos países da CPLP silenciadas. Ao longo do Tempo. e por meio de muito diálogo.
fom os. com IJom senso. resolvendo esse protllema.
2.5 Conjugo/idade em campo
3 Considerações finaiS: A uol/a para caso - o an-
Companilhei os meus I 2 m eses de pesquisa de campo com /rop õlOgo como re/om aclo
meu companheirO. Daniel. ao m eu lado. Ele. como Cu. fazia tam ·
bém sua pesquisa de doutorado. Tal CircunSTância teve inúmeras Voltei ao Brasil em novembro de 2003. clepoiS de t8 m e·
conseqüências no desenrolar de nossa estaela no país. ses longe de casa. Difcrentemellle cio Que eu mesma espera·
Em primeiro lugar. encontrávamos. um no outro. um a fOnle va. minha saída de Timor·LeSte não foi marcada por nenhum
para o companilhamento dos nossos meelos. anições e surpre· sentimento de alívio. AO contrârio. era um senlimenlo ele perda
sas diante dos faTOS que se apresen tavam a nós. 1\ segurança que me habitava. quando. já no início de outubro. percebi que
afcliva e sexual dai decorrente controlou as crises de S lfCSS a tinlla que começar a me elcspedir das pessoas. elas paisagens
que eSlávam os Sujeitos diante de uma supercxposiçfto aos c da rolina de vida constnJíela em Oíli.
nossos objetos de pesquisa. De m cu pomo de vista. a presença NO último mês de pesquisa fui tomacla por uma grande
de Daniel intimidou também o assédio sexual a que eu poderia ansiedade: não queria cleixar de v iver um 56 m inutO com os
I. estar expoSla dian te do perfil dos meus nativos. embora. com amigos e ao mesmo tempo informantes que 11;;1vla con~ui~tad.o.
seu consentimento. em alguns momentOS eu Tivesse omitido Senti também medo: não sei o que encontrar;" no BraSll e Já n<;10
dos m eus in terlOCutores minha conelição conjugal. me senTia pertencendo ao universo social deixado aqui.

250 251
•I
f o poder do ca mpo e o seu campo de poder KcUy Crislianc da Silva

Desde os primeiros tempos em campo impl.ls·m c a dis. cia de ver minha subjCllvidade encapsulada pelas manifeslações
Ciplina ele inlegrar-me aos grupos por mim estudados. como maleriais do m eu passado também foi imeressame: eml)()ra às
lodos nós aprendemos que deve ser nos cursos de introdução vezes opressora: por mais que cu dissesse à minha famma que
à êlmropologia. Para Tanto. promovi um deslocamen to do m eu eu havia mudado e que lalvez desej asse Iransfonnar a m inha
self de minha forma de ver e m e relacionar com o mundo. No vida. senha que eles não emendiam . afinal. as fO fOS e OS ol)jelOS
enlanto. lal processo não é algo que se possa fazer racional. deixados [)()r m im aqui eram as evidências maiores do lugar que
m enTe. de forma conTrolada c observad a. ;\0 ,comr comprecncler eu deveria reocupar diame dos amigos e da (am ília.
p ane da sociabilidade internacional no contexto de um a missão Naquele momenlo eu vivia enlre Irês mundos: aquele que
das Nações Unidas. passei a me comporTar - ele forma não con. deixei em Timor. aquele que deixei no Brasil quando pani e
trolada - com o meus nativos. Pensava a partir das ca tegorias aquele que eu linha que reconslruir no momemo. Daí associar.
disponibilizadas por eles a pontO de, em alguns mamemos. naquele momento, a experiência da valia ao Brasil com a expe·
percler o meu diStanciamenTO, riência de um relornado (llolllccOlllerl. t\ volla implica /Omar a
Aliás. perder o distanciamento leve para mim um pOlencial consciência da desconllnuidade enlre o que deixamos um a vez
cognilivo fundamemal: mais do que observar. passei a senlir em "nosso" m undo c p osteriormenle no campo de pesquisa e
algu ns dos fenómenos aos quais pane dos quadros de mlssóes aquilO que lemos de reconslruir quando dele vohamos. Temos
e[a ONU eslão exposlos. Aluei como ouvimc de colegas que a que readaplar nossas expecléllivas com relação àqueles que
m im vinham relmar suas criscs exislenciais, provocadas, crure ficaram. assimilando as mudanças Que se pa5salâm na nossa
oUlras coisas. p elo des[ocamenlo fisico e m oral ao qual linham ausência e adminisllâr. ao m esmo lempe. as expectalivas da·
( [e se submelcr naquele conlCXlO de Iraba[ho. queles que ficaram com rclt:lção a qual deveria ser nossa per·
Fazer com que m eus informanles dcixassem de ser os formance quando do relorno. O embale enl re as experiências
livros para ser pessoas exigiu de mim umiJ mudança grande e expcClalivas daqueles que panilâm e daqueles Que ficaram .
de componamemo : live de i/weSlir grande parle do meu lempo inclusive orientadores e agênCias financiadoras. é parle consli·
na alimenlaçflo de uma rede de amigos e de lim a viela social IUliva do relorno do Caml)()·
agilile[a . ,[,ive de diSCiplinar o meu corpo e a minha subjClivi. Se em campo vivi o desafio de compreender o pomo de vis·
dade p ara um comalO mais iruenso com o m undo: almoços. la nalivo. aproximando·me das calcgorias de ordenação social
janlares. feslas . dança, ele. r\O me diSCiplinar ncsse seruido. que infornmvam suas sociabilidades. quando retornei ao Brasil
lornei·me lambém OU lra pessoa. AS n ecessidades colocadas live que digerir o senlimemo de des[ocamemo cxislencial que
pelo campo Iraba[haram sobre minha su[)jeliv idae[e, promo. me habimva . afinando minhas expeclalivas à vida que a mim
vendo grandes lrans(ormações na forma como no passado se apresenlava . aos compromiSSOS aC3clémicos assumidos e
cu vi~1 c organizava éI minha v ida. à sauclade de Mary. Vil Ória. enlrc 13nIOS oulros.
Voltei para o Brasil e aqui reencolllrci o mundo que clei.xei Ko período de formulaç~o de nossos projeloS de pesquisél
pari) Irás e o conjun lo dc experiencias que as pessoas com as nossos prinCipais imcrlocUlores são os livros. Em campo. lor-
quais convivo passaram na m inll él ausência. l">rimeiramenle fui nam·se as pessoas. QUíJnclo voltamos aO nosso lugar de origem.
lomaela por um selll im cOIo (Ic rejeiçâo: "eu quero vOllar pari,) o é com a leia e o Icclaclo lio complllador com Quem mais nos
Timor". eri'! a frase que m ais vezes eu repel ia por clia . t\ expc riên. relacionamos. Talvez lenhamos que melhor nos preparar para

252 2SJ
Kelly Cristianc da Silva
o poder do CJmpo e o seu campo de poder

I essas diferentes c:.:periênCias cle lraba1l1o. [oelas elas conslit u lj·


vas di) produção ernográfica. Preparemo-nos para a aTuação do
poder do campo não 56 sobre nossos conhecimentos anlropo·
lógiCOS. mas também sobre nossa própria sulJjelividadc .
Po r Olllro lado. é j us lamcrue do fala ela experiência de
""I '\USS. Marcelo "Ensaio sobre a dádiva". In: _
, '
F\r1/ropO
. ~io/ogia ('
91 . Sa"oPaulo'. EdiTora Pedagógica Universuana. 1974.
loc'"

MOORE. I-Ienricna. "T11e problem of explain viotence i~


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única - u m fcnórneno que envolve. no m ínir1"IO. n ossa exlslên- Rclume Dumará. 1995.
eia racional. afcrjva e idcnt ilária na relação com u m con texto SCHUlL. t\lfrcd ~ TI1C homecomcr The AmericOtl JouI"/101 of
clnográ fico e h iStóriCO pan icular - que advém SOll pOlc nc ial SOCiology 50 (5) 1945 . p.369·3 7 6 .
heurisr ico: como em um artesanmo. cuja elaboração é sempre
exclusiva. é a partir dela que os horizontes da disciplina são
continuamente expandidOs IPEllv\.t",O. 1995).

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Cul1ural. [978.

255
254

I'
,
\

capítulo 9
_... ..
Casos e acasos:
Como acidentes e f atos fortuitos
influenciam o trabalho de campo

Daniela Corclouil

Introdução:
uma trajetória de pesquisa
o m uito que se fala e escreve sobre a antropologia e o

D oficiO cio antropólogo não há nada mais discutido do


que o !rabaUlo de campo. ManTendu essa vellla tradi·
ção. esse capitulo pretende tratar. em primeiro lugar, do trabalho
de campo. Em segundo lugar, pretendo disCutir aqui Qulro lema
recorrente nos estudos antropológiCOS: a religião. em panicular
os cultos afro·\)rasileiros.
1\ 0 escrever sob re seu próprio Irat)alhO cle cam po. o
antropólogo tende mais a silenciar do que a revelar. seja n.o
quo diz respeito a circunstâncias práticas ou ao vai e vem
das j(Jéias que o alorm cnlam no fazer arlcsanal do dia a dia
cmográfico. ,\0 ler uma C11lografia p ronta. dificilmente o leitor
p ode ter idéia do manancial de info rmações e idéias que foi
d eixado de lado para que esse trabalho apresentasse um m [·
nimo de cocrência . Caso revelássemos esses fragmentos ele
discursos. pensamen tos e eventos cotidianos da maneira que
se nos aprc !->c ntam. talvez estivéssemos fazendo uma opção
I C ISOS c i1casoo Daniela (ordO\·jl
r
pelo caos. em lugar da ordem e da imcHgibilidacle. objeTivo de terra originalmenle oc\.lpada pelos índiOS llLpinarnllás. A hiStória
qualquer TextO cie01ifico. Por eSte motivo. muitas vezes cala· ele CurunJpu perde·se nos p rimórdios da colonização. 1\ região
mos informações impOrtantes sobre o que de falO aconreceu foi alcançada pelos portugueses pela primeira vez em 153 1.
du rante o colidiano da pesquisa. DepOiS ele séCulOS de lutas entre portugueses e inelígenas e ela
NesTe capitulo prelcnda fazer um esforço inverso ao que Te· expulS':'o dos franceses. foram funelados muitos engenhos de
nl10 fCiTO nas c lnograrias que produzi anlc lÍom 1cm c : O de revelar cana.de·açúcar na região. durame o século XIX, o que provocou
idéias inacabadas. confrOnTando-as com os fatos c mográficos urna graelaTiva sullStituição da população indígena pelOS escra·
que me levaram a conceber eSTa ou aquela pOSiçâo Teórica. vos negros. f\ populaçe'lo e cultu ra aTuaiS do município são um
AcrediTo que, ao revelar estes de talhes. poderei dar alguma renexo etessas eluas influencias.
contribuição para a disCussão sol)rc o trabalho de campo e o Em minhas pesquisas em CururuplL eSludei pajés e pajelan ·
seu papel na produçãO do conhecimento antropológiCO. Fazer ça, daí parli para o estudo da políTica, das eleições. das festas
isso significa principalmente se expór a c rít icas c revelar pOSi- e do carnaval. sem esquecer. é claro, do rCOQoc, ritmo mais
ções pessoais. ;...lai5 ainda . essa atitude revela a fragilidade do apreciado na cidade e no estado do /l. Iaranhão. TUdo isso me
antropólogo na sua posição de conhecimento. levou a travar várias eliscussôes teóricas. Cheguei a con1eSTar
Hever as condições do trabalt10 de campo suscita uma algumas hipó1eses corremos nas Ciências sociais llrasileiras. No
critica da própria ernografia. t\ pergunta funelarnental elesta crí· começo Critiquei a ieléia ele que as classes populares tem um
tica é a seguinte: os p roblem as teóricOS que persegui eram os baixo engajamemo na políTica - Tão antiga quamo as primeiras
problem as de m eus informantes ou estavam na minllél cabeça "explicações" sobre o Brasil. BaSTa lemllrar do estudo de José
e de ourros pesquisadores que d eles se ocuparam? Os dôdos ;\'Iurilo ele calValho (200()). "OS BesTii:llizados". cujo tÍlulo inspi·
que cu obrive p ennilem de fa to propor uma posição com relação rou·se niJ frase ele um comen1arisTa da época, segundo a qual
a esses problemas ou será preciso que nós, cientistas sociais. o povo assistiu "bcstializado" à Proclamação ela Repúll1ica.
reformulemos radicalrnente nossas questões? Afinal. o o ficio elo indicando sua total falta de engajamento com o p rocesso. Para
anr ropólogo não seria. em última instância. deixar falar o narivo? consln.Lir esta críTica 1en1ei argumentar que as festas e outros
Talvez este seja um dos maio res d esafios enfrenTados pelos m ecanism os de mollilização popular levavam a uma an icula·
etnógrafos nos dias de Iloje e estamos longe ele encontrar l ima ção política. Essa articulação não se dava pela mesma vin da
solução definit iva para esta questão. cidadania conheciela nos países europeus ou Outros de primeiro
O que proponho aqui é apenas uma elescrição d e alguns mundo, m as era urna parTicipação - e forte. t\ssumi que para
proll lcmas. prátiCOs c teóricos . com os quaiS me defrontei duo os pesquisadores brasileiros se darem conta dessa participação
rantc seis anos de pesquisa de campo na cidade de Curun.Lpu, popular, leriam de all rir m ão cle vários cânones herdados ela
no i\'lilfanllão. 1\ idéia não é apresentar uma análise pronta, mi:lS m aneira de pensar produzida nesses países cemrais.
apeniJS aponlar caminhos que eSIOu seguindo nesse movimen· 1\'Iinl1a imenção 1em sido verificar corno as formas ele CUI1 u,
TO COnl ínuo de prOdução de conhecimento que o IrabaU10 ele ras tradicionais. que geralmente se realizam através ele algum
campo tem m e proporCionado . Tipo ele festa ou riTUiJ1. se aniculam com inS1 ituições modernas
Há seis anos visito regulannenrc a cidad e d e Cururupu. como a política . Essa discu ssão insere·se na problemática da
(\'1/\. um município situado no litoral maranhense. numa faixa de conslruçilo dn nação no Brasil e na América Lalina. uma nação

258 259
Casos (' acasos Daniela Cordovil

que nasce do encontro e ll1re o ideal d e c idadania europeu e a acertaclo com m eu orientador que eu faria uma pesquisa teó-
reaJidacle do povo mulliémico lat ino-am eriCana_ rica sobre a música dos indios TlIkano. com base em um CD
Pretendo fornecer ao leitor o pano de fundo a panir cio qual que encomendamos pelo correio. t\ pesquisa de campo ficou
as idéias que defenct[ nos trabalhos anteriores foram produzidas. adiada para um segundo proj eto. Já que essa viagem não ia
comparando as s ituações concretas que vivi. as pessoas que rolar e e u estava d e férias. acabei aceitando o convire de um
entrevistei, com os problemas teóricos q ue me ocuparam e a então colega do P1B1C - Rosinaldo Sousa - para contlecer a tal
m aneira como os fui construindo ao lo ngo desscs anos. c idade do Maranhão - Cururupu. Ele. diferentem ente ele mim.
que estudava música e estava no primeiro ano do curso. era
Prinleira uiage/11 : Descobena aluno d e Ciências Sociais e estava se form ando. Seu interesse
em Cururupu e ra reali zar tral)alho de campo para sua pesquisa
ingressar n o 1'I'l useu Paraense Emílio Goeldi. e m 1997.
I\lé sobre migrações desta cidade para Belém do Pará. Nesra p ri-
como bolsista de Iniciação Científica. eu realm ell1c não sabia meira viagem eu fui apenas por cu riosidade e a passe io . não
nada de antropolog ia. E passei ainda um bom te mpo sem saber. tinha nenll um inte resse de pesquisa no Marantlão.
Talvez aprende r antropologia seja u m a esp6cie d e namoro: você Assim . partimos para Cururupu numa deliciosa tarde de
se aproxima devagar. vai fazendo a corte. e a pessoa amacia fevereiro de 1998. Depois d e uma noite d e viagem de Ónibus.
se revela aos poucos. lall10 nos seus defeitos quanto nas suas c hega-se em Curun.tpU d e manhã bem cedo. O que mais im-
qualidades_ Comigo foi assim. Esse períOdO com o bolsista do prcsSio na o v isitante é surpreender a c idade acorclando. como
Museu foi cheio de desco])ertas e no meio de ludo isso veio eu ainda a veria muitas vezes. Depois d e muitas d essas v iagens
a visira inusitada a uma c idade que conseguia rer o eSl ranho e ou tras tantas p ela Belem ·Brasília. percebi qual o efeito mágico
no m e d e Cururupu. que até hOje muito poucas p essoas q ue de uma no ite dormida no ônibuS enquanto são p ercorridos qui·
eu conheço conseguem acenar. T\Jdo bem. eu andava ve ndo ló m et ros e quilóme rros sem que a gente nem perceba . Quando
muitas coisas eS!rantlas naquele tem po. Havia pessoas que se clespena. a vegetaçflo mudou e se está d iante de um muno
se vestiam com roupas exólicas. tais como cll apéu F'anamá e do novo. No caso da travessia Pará-Maranhão p elo sent ido do
b raceleres indígenas. uma esp éCie de sofisticaçflo hippie com lito ral. ha uma tranSição brusca. para quem passa dormindo .
a qual d emore i muilO tempo para m e fam iliarizar. Livros com da Iloresta a m azónica co m suas árvores frondosas para as pai·
nomes CStrdntlos. como um tal c[e "Pensamento Selvagem". cujo meiras da c hamada mata de cocais. ou babaçus . Quando se
autor dev ia ser o invell10r d a ca[çajeans. Não sabia o que estava acorda no meio dessas grandes palmeiras. vêem-se algumas
escrito no livro. mas imaginei que "Pensamento selvagem" claria casinhas de pau a pique ames ainda de chegar ti cidade. Entre
u m ó timo nome pa ra uma banda d e Rock. É que nessa época essas habitações est80. nem bem acordando e ja trabaUlando .
eu ainda era. o u pretendia ser. um a music ista. tocava v iolé:10 pessoas de pele muito escura. negras. e é possivel começar a
clássico e tinha também uma g uitarra elét rica. se sentir e m alg um lugar do Cari])e.
Meu projeto de pesquisa no Museu Goeldi era sobre mú- O õnibus cruza uma ponte para entrar na cidade e daí em
sica inclígena . 1>,'lin ha intenção com es re p rojeto era fazer um8 c!iante a paisagem é o que se poderia cham ar ele semi-u rbana.
observação de campo entre os índiOS Tukano do Hio Negro. o u seja. as casas são de alvenaria. em contraposição às casas
Como a viagem para o Rio Negro era muito ca ra e d ific il. fi cou d e barro. o u pau-a·pique do que seria a "periferia" da cidade e

260 261
D~niela Cordovil
Casos c acasos

descobrimos que o seu "café da manllà" erd compostO por um


das hal)ilações propriamente rurais. Há um m ercado e uma rua p ão francês c café·preto. Nunca vi uma hospedagem oferecer
do com ércio, na qual. se for dia util. a gente pOde presenciar as algo tão singelo. O "HOlel Glória" nos fazia senlir ainda mais no
loj as senclo aben as e o burl) urinho de m ais um dia de tral)aIl10. C3ribe. Fazia um calor insuportãvel no qllartO, os hóspedes p eno
lo, luitos carros de boi circulam pela cidade e quanclo desembarca·
dUlÔvam suas lOalllas e roupaS para secar no quinlal. o banheiro
mos na rocloviâria m e surpreendi corn os carroceiroS oferecendo colelivo ficava no final do corredor e sempre lopávamos com
um serviço de frete para a bagagem . Dispensamos . Economias mullleres andando de lolha ou SUliã no lal corredor. Devia ser
de jovens bolsistas de Iniciação Cient ífica que não têm m edo (Ic ludo por causa do calor. lodo mundo pareCia bem à vontade.
carrega r p eso . A primeira caminhada pela ciclade transmitiu· Cerl a noite. live urna experiência que aumenlaria m ell
me a nítida sen sação de CSla r em ;\'Iacondo. a famosa alelcia interesse em vollar a Cururupu. Além do calor, era difícil lidar
descrita por Galxiel Garcia /I.·lárques na qual se desenvolve a com a comida . Não que ela fosse ruim. simplesmenl e deve ler
sina dos Buenelía. a eslirpe condenada a cem anos (Ic soli· aconlecido alguma incompatibilidade enTre ela e meu eST6mago.
dão. I\ S ruas são de terra I)alida. as palmeiras. os carroceiros. P'dssei mal na primeira noile. O calor e os problemas digesllvos
a arquitetura colo nial. de uma simplicidade Quase rús tica e o nos obrigaram a ficar em vigilia e acllo que todo meu traba1110
tom de pele das p essoas faz com que o visitam e se sima em de pesquisa até hoj e se deve a essa dor de barriga. É que na
um Brasil bem diferente ele tuelo Que se vê em cidadezinhas madrugada em que eu m e enconlrava acorclacla por causa da
ele im erior em outros estados . Um Brasil cari ben t10. Dep ois de indigesT~lo ou vim oS muiTO ao longe o som de um rufar de Iam'
muitos estuelos. aulas. leituras. diplom êls. defesas e t)ancas bores. Era quase imperceptível. mas resolvemos sair na rua para
examinadoras eu viria a perceber qu e essa m inha impressão tomar ar fresco e tentar descobrir de onde vinha o som. DepoiS
inicial de Cururupu tinl1a algum sentido t1iSTórico que valia a de muil0 camintlar e se perder nas ruelas de lerra batida, per·
pena ser investigado e p odia até ser sustentado. gunTando para quem víamos acordado pela rua. enconl ramoS
i\'l as o problem a naquela manl1ã de fevereiro de 1998 era a casa onde acontecia o rilual. Hoje sei que se tratava de um
outro. Precisávamos acllar 1.Im lugar paro ficar. Havia três opçõe,s : loque de i\lina, realizado para receber e louvar os encantados.
uma bem n linzinlla e duas piores ainda. diferen tes apenas no mas na ép OCil ludo era novidade. 1\ casa era urna esp écie de
est ilo . Entre as op ções m ais ou m enos Ilavia uma pousada de rancl10. comprida e com um quintallmerol. o toque ocorria na
arQuilelura moderna. pareeles em alvenarin e quarlos elistribuí· sala e algumas pessoas assistiam da janela da casa. Havia tanl'
dos em torno de um Útrio cenTraI. tuelo "muito limpo e boniIO". bém intensa m ovimentação nesse "quint<.lI". Ficamos assislindo
CIlarnava·se "Ho tel Kelmô". ,\ Outra. apelidamos (Ie "POusada ela janela po r algum tempo. Havia dois m (>diuns dançando no
dos Paelres·. porque ficava em um prédiO de arquitetura antiga . salão e recebendo os encontodos: uma mull1er c um rapaz. O
chào ele madeira, e pé direito muito alto que pertencia à 19rej" e grupo de percussão era o tradicional com Irês locadores e seu S
no passaelo Ilavia abrigada um convento · chamava ·se "Pousa· respeclivoS tam bores. ,\5 pessoas estavam muito concentradas
ela São Jos6". A opção ruinzinha era o "Hotel Glória": uma casa em ludo. Depois de algum tempo ol)Servando. preferi voltar p ara
est reita com um corredor comprielO c vários quartos enfileirados
o h01C\' m eu eSlildo não permitia ver m ais.
nesse espaço. Parecia um pouco insalul) re. AnteS dos quarTOS O riTual m e ficou na cabeça . Tentei perguntar sobre esses
11avia urna sala na qual um grupo de pessoas passava o dia O.llt05 para as pessoas na rua. mas não (lescOI)ri nada . Não sal)ia
inteiro assistinelo à 1elevisão. Fica mos com essa aí c elcpois

263
262
Casos c olcaSOS Danielol CorUO\'il

nem sobre o que perguntar e m eu amigo sô estava interessado das identidades reggoe c Tambor de Mina". A idéia era verificar
em sua prôpria pesquisa. sobre migraçôes para Belém . e. além como esses dois movimentOS culturais m obilizavam diferentes
elisso. m e incumbia de realizar tarefas para ele. como entrevis· gnlpos de pessoas e de que m aneira esses grupos p ensavam
tar as enfermeiras no ünico HoSpital da cidade para saber se o a si mesmos. ao falO de serem negros e descendenles de es·
sistema de saúde era bom. cravos. ,\ müsica contribuía ou não para um movimento social
Nas obsctvaçôes diurnas o que m ais me cllamou atenção foi de afirmação ela negrituclc entre eles?
o rcggae. tocaelo nas casas e nas Rias e que formava quase que Fui para o campo com essas perglllllas em fevereiro de
um fundo musical da cidade inteira. Para completar esse quadro 2000 e encontrei uma realidade completamente diferente das
havia uma loja de COs de reggae. b em na rua principal ela cidade. minhas e!ucubrações teóricas. Ninguém parecia muitO preocu·
cal"" grandes pinluras de Sob MarJey na parede e bandeirdS da pado com a negritude. muitO m enos com o passado escravo.
Jamaica. Seu dono era um rapaz muito jovem e me explicou um Todos os daelos que consegui obter nessa primeira viagem di·
pOllCO sobre um int rincado comércio de CDs e de múSicas que z.iam respeitO ao Tambor de Mina - na verdade. pajelança. como
vinllélln do Caril)e e da Inglaterra e eram vendidas por unidade e era chamado localm ente. Descobri que as práticas religiosas de
a peso de ouro no ;\'laranhão: mais um mundo a conllecer. Cururupu iam além do Tambor de Mina ele São Luís (FERHE·
P'a ssamos apenas uma semana em CurLlfupu. Fomos em· T I. 1985 e 1993). A pajelança cabocla era uma realidade que
bora quando chegou o Carnaval. Quedamos ver São Luis. Um convivia com o tambor e o complem entava. sendo pralicada
mundo à pane. porém muit o diferente daquela cidaclezinha de inclusive pelOS mesmos especialistaS religiOSOS. os pajés. ~'linha
imerior com um ar tão caribenho. etnografia concenl rou·se. então. apenas nas m anifestações reli·
Desde esse carnaval de 1998 pode·se dizcr que muita água giosas que encomrei em campo. Talvez pela minha inexperiênCia
rolou debaixo da ponte. Acab ei a pesquisa no 1\luseu Goeldi lainela estava na graduaçãO e era minlla primeira pesquisa rcal·
sobre ~ lúsicé-:l Indígena e segui para Brasilia para cursar Ciências m ente antropológica!. era dificil direcionar a pesquisa para o que
Sociais. TenTei obter vãrias bolsas na ãrea ele SOCiologia e ne· eu queria obler - fica mais fácil quanelo temos I)aslante leitura
nl1uma deu cena. Desiludi·me profundament e com a pesquisa sobre o assunto. o que não era meu caso naquele momentQ .
quantitativa e como ainela não sabi<:l direito qual a diferença entre Assim. deixei o campo m e envolver scm maiores prol)lcmas.
sociologia C antropologia - problema que preocupa muito os O importante era encontrar algo sobre o que escrever quando
calouros elo curso - acl1ei que a antropOlogia seriu minha sa lva· voltasse de campo . Infelizmente minha orientadora da época
ção contra as I2lbelas e questionários. Ai lembrei de CURlrupu. não pensava assim c passou o semcstre seguinte inteiro preo·
Por que não elabordr um proj eto baseando·m e naquelas fones cu pada em justificar nos relatórios do Ci\Pq por que o c.am.po
impressões iniciais? Com bastante esforço O projeto ficou con· tinha mudado a pesquisa. Mais uma das agruras <.15 quaiS tem
vinccmc e um ano e meio depois da minha primeira viagem cu de se submeter os bolsiStas etc iniciação cientifica. Foram muitos
eSti;lVd cadastrada no CKPq com um projeto de pesquisCl sobre relatórios m e desculpando porque eu nâo ia falar elo reggClc e
reggoe, tambor de mina e etifcrentcs conslnJçÔCS do passado o Tambor ele Mina eSlava maiS para ritual de cura elo qllC para
escravo e da identidade negra em CunJrupu. ~·IA. afirmação (Iireta ela negriludc .
O primeiro projeto de pesquisa que me levou a cSluelar DepoiS de vários malabarismos c adaptaçõeS. finahnentc
CUn..lrupU cllamava·se "Müsica c passadO escravo na conSln..lçúO elaborei mCll objeto de pesquisa: já em Bras~ia. e mais ele um

264 265
Casos e acasos Daniela Cordovit

sem estre depois de ter volTado do campo. O aspecto que m e um m enor aprofundamemo na viela nativa - lal qual ocorre nas
chamou atcnçào na Iilemtura especializada sobre cullos afro.bm. emogral1as -clássicas-. nas quaiS o pesquisador passa anos em
Sileiros e que passei a diSCUtir era a relação entre religião. magia campo - ela possibilita grande diálogo com a tcoria (nos períoclos
e sincre tism o . .-\qui cllamo atenção para o fato de m etI objelo de estudo que se alternam com as idas a campol e a forma de
teórico ele pesquisa só ter sido construido depois que voltei do apreensão do objeto acaba acompanhando o amadurecim ento
campo c confrontei os dados com as leituras. AS leituras que Cu teórico do pesquisador. Nos próximos tópicos pretendO detalhar
l"lavia feito antes de voltar a campo nào se adequavam aos dados m etllor como esse processo aconteceu comigo.
- uma n"laneira muito comum do campo se impor é:~ tCOria .
O m ais interessame é que nesse projeto de iniciaç;;lo cienti. 2 Segunda Viagem: pajé.s
fica. fruto muito mais de leituras teÓricas do que de experiências
vividas em campo. eu elaborava a hipÓtese do que ia ser minha Voltei para CUrun.lpU exalameme dois anos depois da minha
dissenação de m estrado. Mas. depOiS do tralJalho de campo primeira experiência. Com o se IJacle imaginar. os cursos que
da graduaç[lo. tive que negar tuclo que estava no projeto em havia freqüentada na UnO faziam com que cu me semisse mais
mellS relatÓrios p ara o CNPq. pois nessa primeira experiência etnógrafa. Havia as aulas dc m étodos dc pesquisa e uma série
ele campo élcabei sendo atraida por outros temas e abandonan. de recomemlações teóricas sobre como fazer uma pesquisa.
do a proposta inicial. Disse que a relação postu lada en'l meu que iam um pouco além daqlJclas que escutou Evans·Pritchard
projeto entre o reggae e o Tambor de Mina com o passado ( 1978) antes de ir a cam]Ja entre os t\zandc . Tinha lido sobre et·
escravo da região na qual está situada a cidade de Cururupu nometodologia. olJservação paniCipante. técnicas de entrevistas
não exis tia ou não era relevante. poiS tudo que consegui ol)/er abertas ou fechadas . Com o já com entou Jam cs Clifford (t 998),
nesse prinleiro trabalho de campo dizia respeito é~ p.;'1jelança e esse rigor do método é a fonte da chamada -autoridade emo ·
a SCus aspectos ritualislicos. gráfica- que, se por um lado limita. por OUlrO também direciona
DepOis percebi que a questão da negritude era um dado o otllar e diferencia a antropologia dos relatos de viagens.
sensível e revelado em momemos, rituais privilegiados como o t\ teoria nos proporciona as ferramentas para entender o
camaval. Assim. apenas quando fui a campo neste período con. real sob um prisma antropológiCO. mas ela também nos fornece
segui perceber as representações sociais em tomo da negrituele, as amarras sem as quais nossos textos não se diferenciariam
do preconCeito e do racismo. Acredito que esse estilo de traballlo da literatura, e se essas amarras são importantes. elas também
de campo - feito em várias viagens de pequena e média duraçi:io são incõmodas. Como m enCionei antes . da primeira vez em
foi muitO rico e resuUou em uma ell10grafla com uma ~cara~ pró. que fui a Curul1Jpu eu era estlldante ele música e nunca havia
pria. I\ S várias viagens possibilitaram que minlla percepçflo do freqüentada uma aula de antropologia. no fim das comas. tudo
campo fosse gradativameme enriquecida pelo aprofundamento era uma grande festa. QuandO voltei a Cururupu no inicio de
nas leituras e nas fomlu lações teóricas. possibmtanclo um exer. 2000. a responsal)ilidacle ele realizar uma etnografia que seria
cício de algo que caracteriza a am ropologia: a busca. através ela o resultado da minha 1)015a de 1I1iciaç;::,o Cientít1ca da UnS e <l
experiência individual. ela m icroanálise. de formular teorias que base para a clissenaç{!o de fim de curso a ser defendida no final
I pretendem uma abrangência macro . Se. por um laclo. a pesquisa do ano colocavam nesse retorno a CUI1JI1JPU uma pressão que
I feita em várias viagens de campo mais o .mas talvez peque por não Ilavi;) na minl1a primeira visita. Minll<l segunda viagem para

I ~' 266 267


CilSOS e JC<lSO:i Daniela Cordovil

CUl1Jrupu se deu num clima lensa. Na verdade, acllci ludo mUiTo f\ rOTina era acordar cedo todo dia e sair pela periferia da cida·
dificil c nem um pouco divenido. o calor não era mais mOlivo de atrás de pajés. Cururupu não é urna cidade muito grande. mas
ele piada e sair pelas ruas não era apenas um passeio. Ilá uma nítida divisão entre um centro da ddade. onde m oram as
Com cencza CSIa cobrança instiTucional influenciou a fé mio poucas pessoas com um nivel de vida mais elevado e uma zona
nha maneira de m e aproximar dos nalivos: no cmanTa. acrediT O em fomo da cidade na qual vivem as pessoas mais pobres. que
que ir a campo com eslC lipo de responsabilidade é o que pOSSi. se csTende aTé as áreas mais ru rais. Logo nas minhas primeiras
b ilita a CHsCip lina necessária para que nansfonnemos impressões incursões por esta região maiS pobre percebi o quanTO os pajés
e insigl1/s - como os que oblive na minha primeira viagem _ em eram abundantes. E como! LUeralmente Todas as pessoas que
uma p esquisa com rcsuhados palpáveis. Ela determina <Jlé os abordei na rua. e em Cun lrupu elas $i"IO muito receptivas, sou -
métodos cscoll,iclos. No meu caso. como desta vez fui a cam . b eram m e indicar pelo menos l lm pajé nas redonde7..3s. Primeiro
po com a urgênCia de escrever um Trabalho. preferi em revisTas pensei que 11C\via um em cada bairro. m as logo percebi que havia
eSIn.Huradas com o auxilio do gravador às abordagens mais vários e em cenas bairros eram aTé m ais de um em uma RLa.
informais. Buscar o equilíbriO cmre estas diferentes p ercep ções t\ grande quantidade de pajés m e estimulou a temar conhecer
elo campo é um dos desafios de pesquisas que envolvem várias mehor o universo religiOSO da cidade e a concenTrar a etnografia
idas a campo. com intervalos relat ivamente longos. neste aspeCTO. Neste momento não vi nenhum problema em mu·
Voltei a Cururupu com m eu "amiguinho" da época do PISIC. dar meu objeto de pesquisa , lembrei de Evans·PriTichard ( t978):
que depOis de tudo isso tinha se tomado meu namorado c veio ele também não se interessava por bruxaria quanclo chegou à
também para Brasília fazer m estrado em antrOpOlogia. Éramos Terra zande. no enLamo. os nativos gostavam _
um típicO casal de c tnôgrdfos. Como dessa vez não era só curtir Com o tem po percebi que as pessoas com as quaiS eu
O carilJe brasileiro e para trabalhar é preciso dormir e com er bem. conversava pensavam que eu eSLava procurandO encontrar
ficamos no Kelma. Escolhi o hotel. pois dado o pouco tempo um pajé para encom endar um /(abal/lo . t\ princípiO eu não des-
que eu tinha para pesquisa. confesso que não p ensei em tentar m emia o fato para aqueles que encontrava na rua e apenas m e
ficar na casa de algum informame. Eu não conhecia ninguém indicavam o endereço do pajé. Porém. para os próprios pajés
na cieladc e não m e imaginei em uma ou duas sem anas me que ent revis tei, sempre m e identifiquei como estudante e dei.xei
tomando tão inUma de uma família a ponto de m e m udar para claro m eus objeTivoS de pesquisa. o que provocava n eles uma
a casa cicia . t\té p orque estava acompanhada. e um casal às cena atiTude de receio. Mesmo percebendo esta atitude. nunca
vezes tencle a se tomar um grupo fechado e a tentar preservar lenTei u tilizar outra identielade para m e aproximar deles. t\ crediTo
sua própria intimieladc. ao invés de se deixar penetrar pela vicia que nilo seria ético sair encomendando Irabal/l0s para saber
nativa. Explorarei m eJllQr es te pOnto mais adiante. como é que os pajés os fazem. ou coisas elo tipo: eis um cios
De fala. o HOtel Kclma era um lugar agraelávc!. De (rente a c..:ssc Iimiles do fazer ar'llTopológiCO. O único faLO que me aproximava
/lotel fica o ljnico restaurante "grã·fino" de Cu rurupu : pcix~das. dos pajés e de seus clienlcs era eli zer que eu vinha de Belém.
camarõcs, pratos a la carte, preços comerciais. Em compensaç;-)o. 1'I'luilas pessoas cleJom, em especial vindas ele Belém e São Luís.
em 10(10 o rcsto da cidaele se encontra PFs a um preço m ódico. procuram Cururupu espccialmente para visitar pajés em busca
alguns muito goslosos. Não precisa dizer que ficam os com ti se. da cura para seus males ele corpO e de alma . Normalmente as
gunela opção e aprendemos a comer IJcm desse jeito. p essoas me p erguntavam c eu respondia que vinha de Belém.

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· -' I Casos e acasos Daniela Co.dovil

minha cidade naral. apesar de não mOfar mais lá. Achei natural ainda grandes Tradiçôes religiosas trazidas da Afriea. Essa força
djzer que vinha de Belém. POiS na época Cu eSTava há Illuilo ela tradição imemorial só teria se m antido em alguns redulOS ele
pouco rempo em Brasília (quarra semestres) e eSTranhava muito religiões africanas *puras' - o Candomblé ela Ballia. o xangô do
a cidade. Meus laços de pCrlencimenla e min/1a personalidade Heeife e a Casa das Minas de São Luís (BASTIDE. 197 1). Nesse
eram muito m ais próximos de Belém do que de Brasília. onde pensamento e em seus desdobramentos mais atuais o sincrclis·
eu eSlava apenas esruclando. Acrcrliro que esta minha idcru ida. mo religiOSO e as prálicas mágicas associavam ·se a algo impuro
de "fragmCntada~ fOi uma das coisas que faciliToU muito minl13 edesagregador lPRt'\NDI. 1990. 1992. 1996: MOi\.'TEIRO. 1994·) .
entrada em campo. principalmente em etapas posteriores da Não era isso que eu Ilavia enconlr8elo em Cururupu. onde o sino
p esquisa. Às vezes faros muito pan iculares da formação e ela crcrismo entre a pajelança cabocla e a Mina não impediam uma
história de vida do ant rOpólogo p odem ser cruciais para o resul. forle vivência coletiva desses rituais. Essa vivência. catalisaela
laelo de sua pesquisa c por mais que tcmemos ser objelivos. na figura do pajé. proporcionava aos adeptos dessas religiões
precisamos tentar lidar m elhor com esta queStão. dei.'\ando uma partiCipação poliTica. pois essas pessoas organizavam·se
claros nossos laços de pen encimenlo e OUl ros condicionames em grupos liderados pelos pajés. chamados de innandades. que
que poclem ler influenciado nossas obsclVações. votavam e elegiam candid810s a cargos públiCOS.
OUlra surpresa qllC live em Cururupu foi o lermo pajé. DepOiS de muilos relatórios e justificativas ao CNPq para
Pela IcHura ela lileratura mais difundida sobre cultos afro·brasi. explicar por que eu não ia falar do reggae. defendi minha eJisscr·
leiros no Maranl1ão. que se resumia a Silo Luis - hOje Temos tação de graduação e enTrei no mestrado. Então. voltei a visitar
o livro da p rofessora 1...lundicarmo FcrrCli (2001) sobre COdó. CURUlJpU com o objerivO de estudar mais a fundo a polirica.
1\'1'\ - confesso que esperava encomrar algo bem difen.;nlc. /\ mais precisamellle a forma como os pajés com suas irmanda·
começar pelo nome. Obviameme, clleguei perguntando pelo des influenciavam na pOlítica local.
poi ele SOf1/O. Esse termo é usado em Cururupu. mas é POuco
freqüente. Logo aprcndi que o assunTO era com o pajé. ivlas, 3 Terceira uiagem: O papel de "injorrnanres·chaue'·
seria só uma diferença de terminologia? Também percebi que
não. E a cosm ologia da paj elança m aranllense m e pareceu Como mencionei acima . nas minllas duas primeiraS via·
tão inusilada. que me l1bSOlVeu durante lodo esse trabalho de gens de campo fui acompanhada por OuTro antropólogo. que
campo. iXestc momento minlla estraTégia de pesquisa passou também escreveu sobre a cidade. Rosinaldo Sousa. e gostaria
II a ser realizar entrevistas com pajés segu indo um rOleiro mais de eUsClJ1ir aqui como o falO de estar com outro antropólogo.
ou menos estruturaelo e conversar com alguns de seu s clientes. fonnando um casal. ou esrar sozinlla. influenciou definilivamenTe
Pessoas que encontrava nas suas casas. às vezes esp eranclo na maneira como m e aproximei da cidade. Mariza Corrêa 12003)
consultas. Tambem assisti a um rirual de p<:ljelança. disCUle em seu livro ~:\n Tropôlogas e /\nlropologia" a dificulda·
:-O'linha rese principal neSTe trabaltlo de graduação p re tenclia de de mulheres assumirem papéiS relevames na academia c
criticar a ideia presenre nos textos de muilOS estudiOSOS dos aponm o f810 de que em freqüente em casais de antropólogos
cu ltos afro·brasileiros que Cssas práricas. por se tratarem dc ma· a muJller assumir um papel secundário. sendo que aquelas
gia. num semido \vcberlano do termo (\VEBEH. 1994). haveriam que alcançaram alguma proeminencia inTclectual geralmente
perdidO sua força ele coesão colcliva. presCllle quando elas eram optaram por ficar solteiras. Por m ais que hoje as coisas poss(:lm

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Casos e aC<lSOS Daniela Cordovil

Icr mudado. e Icr um m arido amropólogo provavelmenle não é procurava enfa Tizar aspecros q ue m e aproxim assem destas
mais um empecilho para um a muJl1cr desenvolver sua carreira pessoas e várias vezes aproveitei minl13s diferenles vivências
na academia . um m arido em campo pode acrapalhar baslanle. pessoais para estabelecer pon1os em comum e de diálogo.
mesmo querendo ajLIdar... vejamos o porque. Conversamos por h oras. Josias e eu. caminllando pela c ida·
Como m enCionei ameriorrnente. na minha primeira viagem de, e ele m e contou toda a sua história de vida. Um fato como
a Cururupu apenas lomei conhecimemo da cidade. e na segun· esse, de se deixar levar p elo acaso ele um encon1ro fOrTuilo na
ela. obtive os daelos sobre os pajés que fundamemararn minha rua. à noile. dificilmente Teria acontecido se eu tivesse algllém
clnografia sobre os pajés e a polilica. Por m ais quc eSlivesse me esp erandO no hotel. A própria solidão em campo. o famo·
interessada na queslão da negritude e da aUlopcrcepção racial so onrhropological blue5 (DA MAr rA. 1985). nos fa z aceiTar de
dos diferentes grupos que eSludei em Cururupu. os resullados bom grado companhias que recusaríamos caso tivéssemos no
que oblive sobre esse lema nessas duas viagens foram pratica· hOlel a presença reconfortante de oUlro elnólogo. NO discurso
m ente nulos . o que m e levou a abandonar o assunlO. de Josias enCOnTrei um relato de Cururupu cios anos 60 e 70 e
Nessas primeiras viagens. meu m élodo d e Iral)all1o resu· percebi uma cidade permeada pelo preconceitO !'(lcial. Ele disse
miu ·se a em reviStas mais ou menos formais. a maioria com o que Ilavia na Cidade os chamados boiles de primeiro. segunda
auxílio do gravador. Na segunela viagem IrabaJl,ei com muitos e lerceira. hierarquizados segunda a cor das pessoas que os
pajés . procurei ab ordá·los ele maneira sislemárica mantendo freqüentavam. Falou ele como os negros não tinham acesso a
algurtS pontos em comum na maioria das emrevislas. Desse cargos de prcslígio. Pude perceber no sell CtiSOJTSO o lugar típiCO
ripo de lrabalho resullOU uma ernografia cenlrada em aspeclOS do mulato. aquele que vem de um,l classe social humilde. foi
ritualisTicos c na cosmologia ela pajelança. cujo pOntO principal criado por uma família branca e lula p ara vencer na vida atraves
de discussão foi o papel do pajé na comunielade e na política. do esludo. supere.melo sua condição de cor.
Quando vollei a campo no m estrado. a parlir da terceira Alravés do conralo com Josias a qucsláo racial. que Ian1 0
viagem. fui sozinha. Nessa viagem 1ravei um COntaTO compleTa' havia me interessado nas minhas visitas cle campo anterio-
m enle diferente com o campo e com seus habiTantes. Conheci res. e que cu j á havia pratiCamenlc abanelonado . se rev elou
duas pessoas através das quais se revelaram novos aspeCTOS facilmenTe. Percebi. êIIrélvés das informaçôes obTielas nesse
da minlla pesquisa. O primeiro foi um senhor de m eia·idade contato mais p essoal e menos formal. c omo cerras aspeclos
cllamado Josias. EnCOnlramo·nos <.:asualmcnte na rua. à noite, da vida da c omunidade sô são acessíveis através dessa via . O
am bos à procura de um orelt, ão. Logo nos primeiros inslantes contaTO com uma outra informante·cl,avc. urna jovem negra.
de conversa elescobri ql1e ele também m orava em Brasília. confirmou essa mini,;) p ercepção.
em Planallina. mas era nativo de Cururupu e eSlava revendo a Depois da primeira conversa com Josias passei a acompa·
cidade que havia abandonaelo desde a adolcscencia. Falei que nhá.lo no seu lour com o objetivo de rever a cidaele. Ele. revendo
também morava em Brasília c logo com eçamos a conversar o local anele tinha nascido e passado sua infilncia e juven1uele .
animadamente. !\ crecHto que ncsle caso êJssumir minl,a iden· Trazia em seu discurso urna CUrun.lpU do passado que minhas
tidade brasilicnse fOi uma espécie de csTra1égia inconsciente. perguntas de etnógra fa o ajudavam a relembrar c valorizar. JO·
scmelhanre a que usava quando m e idcnrificava como paraense sias me explicava com prazer aspec tOS de CUn.In.IJ)U o~ quais
em outras situações. sempre que conversava com os nativos eu nunca havia imaginado e que talvez aparecessem para ele

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i, '
Casos c acasos Daniela Cordovil

com mais clareza por ele [er lido Oulras vivencias. difercntcs de filmagens. a1é porque elas não são Tão caras qual110 numa cida ·
pessoas da sua idade que Ilaviam perm anecido em Cururupu. de glânde. Emi!ene conhecia Toelos os pajés com suas festas.
{\pesar da felicidade deste encontro. foi nesle m omento que o carna val com seus blocos. Com ela 1ive um tipo de conversa
algumas elas dificuldades e "saias justas· inerentes à siluação com o Qual não eSTava llabituada nas minllas primeiras viagens
de uma fllulher viaj ando sozinha com eçaram a aparecer. Foi ele campo. a falar como uma amiga e ouvir sobre a viela dela
difícil não aparecer para ele como alguém disponível e clisposla na m esm a m ediela que eu con Tava sobre a minha . [\crediTo
a urna aVentura amorosa. Por mais que cu tivesse comprado que minha amizade com ela foi possível porqu e. apesar de
Lima aliança de RS [.00 na rodoviária de Belém p ara m c passar não parecer à primeira vista. tínllamos muila coisa em c omum:
por casada em C<:lmpo. JUSTamente prevendo esse Tipo de assé. éramos eluas mulheres. jovens e vínhamos de mundos sociais
dio. cle não pareceu conSTrangido pelo fato. NO final consegui não tão diSTintos. Ou seja. o fato ele eu tcr nascido e p assado
SUSTentar a minha negativa de ter qualquer envolvimento com minha infãncia c adolescência em Belém me aproximava del<:l.
ele. m as não sem alguma dificuldade. Desde a primeira vez em Que conversamos lhe falei dos meus
Lá p elo terceiro dia em que eSTávamos jUll1os . JOsias re. objetivOS de pesquisa e ela passou a falar basTame de Sllas
solveu contra tar OS serviços da lInica empresa ele filmagem d!=l experiênCias e[e viela por saber do m eu in1eresse.
cidade para fazer um vídeo de CUllJllJpu. o qual ele pretendia Nessa conversa sim aconteceu um encont ro ele dois muno
m OS1rar em Brasilia. Foi quanelo fiz amizade com a moça res. elos de que se f<:lla na clIlografia. Com o decorrer da nossa
ponsável p elas filmagens. Emilene . Somos mais ou m enos da amizade . e elas OuTras visilas que fiz a Cururupu. Tive com ela
rnesmêl idaele e logo brOTOU en1re nós uma grande empatia e muito mais afinidaeles do que com mu itas pessoas de Brasma.
imeresse reciproco. Sem eSla amizade cu poderia ler con1inuado pela minllél origem paraense e p elas muitas coisas em comum
minha pesquisa em CURlrupU. fala que não estava certo naquele entre a cultura dos dois eSTados. Trocamos endereço c ela m e
momenlO de início de m eslraelo. mas ela CCrTamente fez da mio escreveu mandando fOTOS Que havíamos Tirado juntas.
nlla pesquisa algo difereme do que seria sem Tal envolvimento. Voltei no carnaval de 2002 c não só ob servei. como dancei
i\ hiSTÓria da antropologia mostra que an tjpalia pelos nativos não com Emilene no bloco de Ria organií'..ado pela sua patroa. D.
(: um empeCilho à realização de um [raballlO de campo (vicie o Flâncisca. a dona da lOja de filmagens em que ela trabalhava. Ela
exemplO de i\.·lalinowski entre os tfobriandesesl. m as se sen tir m e apresenTou ao mundo do Carnaval de Cururupu. com direiTO
bem entre eles cerTamente ajuda; afinal. o trab alho de campo a 1aclas as inversões caracterislicas dcsle penodo ritual. /\traves
ideêllmeme deveria ser algo prazeroso e uma boa companllia é dessas relações ele arnizade e inlimidade lodo um novo universo
sempre Lun incentivo para voltarmos a algum lugar. se abriu pra mim no campo. Escassearam as fiTas gravadas e
a Josias foi embora e me encontrei com Emilene ti nOiTe. o caderno de campo passou a ~e r m eu m elhor inSTnlrnCrllO de
depois das filmagens. Taml)ém conversamos longc:unente sobre trabalho para relaTar as conversas informais. Con1inuei gravane!o
seu IrabaUlo e sua vida na cidade. Pode·se imaginar que ela entrevis tas com pajés e pOlítiCOS . pessoas com as quais nào era
realmente sal) ia tudo sobre qualquer ritual rea lizado em Curu. possível um relacionamento mais eS1reito. Nesses casos, como
rupu . j á que era sempre chamada para filmar eSTes evemos. se pode imaginar. nem eles nem eu eS1ávamos abertos areia·
Em Cururupu as pessoas adoram regiSTrar suas feslas e não ções de int im idade. acredito que pelo fa10 de virmos de mundos
11<1 oCêlsiáo mais ou menos importante que se realize sem as sociais muiTO difercntes. ao COntrário do que se dava entre eu e

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Casos c acasos Daniela Cordovil

Emilcn e . AS relaçôes pessoais não são o único m eio de coleTa e suas implicações po!iticas de cons1Rlção de urna iclentidade
de dados em campo. nem Talvez o mais e felivo . ~"as sem ele negra entre os jovens de Cururupu era um professor secundário
e a dimen~o 11um ana proporcionada por esse Tipo de contato, do qual ela Ilavia sido alun a (ela estudou até concluir o segunclo
m eu Traball10 de campo Teria sido m uito difereme e acredito alé, grau l. Emilene tinl1a um contato muiTO próximo com essa rea·
um POLTCO superficial. Para além de amropólogos. somos peso Iidade. além de tcr grande Circulação entre as reslas devido ao
soas com uma his tória de vida e uma formação esp ecifica que seu Iraball10 corno fotógrafa e realizando Iilmagens.
condicionam nossa maneira de nos aproximar do campo. o que Descobri que os regueiros tinham um discurso ideológico
faz com que Tenhamos mais acesso a determinados mundos vollado para a afinnação da negriTude e constiluíam um movi·
sociais enquanto outros. muiTas vezes. nos são velados. Aqui m ento social, no sentido eSlriTO do tenno. Percebi 1ambém que
a qUCST;jO de gênero é fundamental. 1\ mancira como C traTada os pajés p ossuiarn um discurso de afirmação de negritude.
uma mulher jovem é difereme de como se Tra taria um homem porêm esse discurso se dava de uma maneira mais velada .
ele meia idade. por exemplo . Por eu ser mulher e Ter apenas 2.~ prinCipalmente contrapondo·se ao poder politico local. por eles
ano.s n<'l época desla viagem, pude desenvolver uma relação associado aos "brancos". Esse foi o objeto de m inlm clisser·
(Ie inTimidade com uma pessoa como a Emilene, relação que [ação de meslrado. Neste Iraball10 dialoguei principalmente
dilicihnen te Teria com o vice·prefeito Ou com os pajés . com a formulação de Palmeira ( 1996 C 2002) e outros autores
Fiz m ais Três visitas a Cururupu durame o mes trado . entre (PALMElRr\ e GOLO/l.'lt\N. I 996: GOLO~-1t\N e SANTt\J'\l"r\. 1995 e
200 1 e 2002. Em julho de 200 1 estive na cidade por cerca de Mt\GALI-I:\ES. 1998) so])re o "Icmpo da polít ica". segundo esses
15 dias (quando conheci Josias e EmileneJ; depois voltei no autores, os habitantes de pequenas cidacles do interior do Brasil
Carna v<.l l e em junho de 2002. quando passei lambém uns [ 5 só se interessam por polítiCa no períodO das eleiçôes e pOlítiCa
dias de cad<l vez. AS viagens eram curtas. pois da prhneim vez para eles resume·se a acompanhar as dispUTas do faççionalismo
aproveiTei um período de férias e em 2002 . mesmo liberada das local. No meu Irdbalho de campo desco]xi que em Cururupu.
min/1ilS atividades acadêmicas. escolhi como eSTraTégia allernar " Tudo acalJa em pOlíliC<l". A polilica era um assunlo corrente no
pcriodos (Ie campo com fases em que fiquei em Brasília envol· dia·a·dia da cidade, fosse ou ni lo ano eleitoral. COm o desenrolar
vida com a pC!:iquisa teÓrica. Foi uma eStratégia de pesquisa do Trabalho de campo. percebi Que o envolvimenTo das pessoas
denTre Oulras possiveis e hoje penso que tomei esTa decisão por com politica estava muiTO ligadO à m aneira como a prereilura
uma inclinação pessoal para a pesquisa teórica e necessidade distribuia os gastos públiCOS para as feS Tas - carna val, festas
de intercalar o trabalho de campo com fases de rcllexão e leitura, juninas e fcslcjos de imlOndades ICOHDOVlL. 2002).
po is SÓ assim cu conseguia formular novas p erguntas e refleTir Esse lema de p esquisa encontrava·se latente desde minhas
sobre as respostas que havia obtido nas viagens anTeriores. primeiras invesligações na cidade. porém só consegui obTer
t\PÓS o contato c il amizade com Emilene descobri que dados a respeilo à medida que ia aprofundando meu contato
os regllciros de Cururupu tinham sim uma identidade bastante com as pessoas e com a ciclaclc. O tema do preconceito racial
(liferen tc daquela das pessoas envolvidas com o T"dmbor de é m uito sensível em CUruRLpU C não é algo sobre o qual se fala
Mina . Em ilene, corno a grande maioria dos jovens da cida(le. abertamen1e. Nas entrevis tas formais com pessoas que eu Il ~w i a
gostava de regaae e linl1a amigos ])astante envolvidos com O acabado de conhecer elas vinham com discursos promoS ou
mouimCIlIO. Umi:l das pessoas mais engajaclas com o reggae fugiam do ICma; foi apenas com uma relaçuo de imimidadc com

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I,
Col5OS c acasos Daniel.l Cordovil

uma jovem negra ela cidade qu e pude perceber como esses Evans.Prilcllard ( 1978). os l\z.anele não conhecem a sone ou
problemas sao vivielos cotidianamen re. I\ssim como, arravés acaso. ela maneira como é elescrilo pelos ocidenlais. Para eles a
dGl ajuda dela, pude conl1ccer ourros "informanres·chave" que coincidência de duas cadeias causais é chamada ele bruxaria e
me esclareceram sol)re o tema. é um fenômeno com uma causa. a vontade de algum individuo
Quero chamar atenção que. pelo m enos no m eu caso. esse da aldeia. Nós. ocidentais. chamamos de acaso a ieléia opoSIa.
I novo tipo de relação com o cam po c com as pessoas só foi de que nâo podemos e.xplicar a causa de cenos fenômenos,
I possível quando passei a ir sozinha fazer a pesquisa. 1\ própria classificando·a com algo desconhecido. Acredito que o acaso

I
soliclElo e lil)crclade elc sal)cr que não há alguém no hOlel me na pesquisa de campo, por mais que eSleja no ambilo do não
esperando com quem poclerei te( conversas sobre o "mell muno previSível. é um elemento a ser estudado e explorado. Trala·se ele
do" me forçou a penetrar cada vez m ais no muneto de CUrun.lpU. apropriar·se do que o campo é capaz de proporcionar·nos naquele
Não acredilo que o fato de estar só em campo seja uma espéCie m om en to e sua lógica não é lão inexplicável. O campo revela·se
de "passapone instantâneo" para aelcnarar a realidade nativa. aos poucos e em cada viagem estamos aptOS a apreender par·
t\ penas p enso que ralvez se perca m enos em deixar o diálogo celas diferentes da realidade. Essa parCialidade da obsclvaçflo é
inrelectual com um OUl ro antropólogo para os m omentos em o que se mostra a nós "por acaso" e é por excelência o material
que eSlamos na academia. em Brasilia no meu caso, do que da elat){)raçãOemográfica. ;\ 55im . nossas posiÇões teóricas. que
levando esta presença para um momento no qual a dedicação dependem do quanTo nos é m ostrado no campo, podem mudar
ro tal- falo aqui de tempo físico. não só ele espíritO - aos nativos ete uma experiênCia ele campo para oUlra C são foncm ente condi·
c a seu s problemas poete ser mais procluliva. principalmenre cionadas por pequenos faIaS que, somados. formam a esséncia
quando se opla por fazer viagens ele campo por períOdOS curo ele uma etnografia: as pessoas com quem lemos cont3lO e as
ros. Claro que mais uma vez lenho que chamar at en ç~o para o experiências que vivencíam os com elas: o lipo de ser humano
fa to ele que isto é urna questão de índole p essoal e que é para que somos e que se trava eSle contato c o quanro ele nós se ex·
estas diferenças que devem os atenTar quando refletimos sobre o põe a ele. Nossas ernogr-dfias resum em ·se a um estudo dessas
que condicionou nosso trabalho de pesquisa . além das nossas configurações. urna verdadeira ane do possível.
Icil uras e inTerlocu tores leÓricos.
ReferênCias bibliográficas
4 Considerações finais
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Quero encerrar este texlo chamando atenção para o ele· Pioneira . 197 1.
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Pcirano ( 1989) j á estudou como vários anaropólogos alrilJuem ao
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, 278 279

~
.! Daniela Cordovil
Casos e acasos

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281
280
I
Capílulo 10
... ..
Ser mujer y anlropóloga en la escuela:
Una experien cia d e lrabajo de
campo con ninos y nillas I

Diana Milsrein

lnlroducción
acia fines dei mes de abril de 2004. inicié mi lrabajo ele

11 •
campo en una escuela primaria estalai argentina situada
en el Partido de Quilmes. veintlcinco kilómelros aI sur de
la ciudad de BuenoS Aires. Yo cstaba inlcresada cn encontrar
perspectivas que me permiTieran comprender las moclificacioncs
que habia sufrido la vida cotidiana escolar derivadas de la crisis
social. cconómica y política de los ai'los 90 cn I\rgcn lina. /...IC
preocupaba . especificameme. comprender las prácticas vincula·
das a pugnas por algún IiPO O forma de poder. m odos de control
y conflicToS. tal como eran protagonizadas en la cscuela por eI
conjunto ele los empleados estatales - docentes Y auxiliares - .
los integranTes de la cooperadora y los familiares aclulTOs lIe
105 niflos que partiCipaban de algún modo en la vida escolar.
EnTender a la escuela como un ~nudo c n una recl de práclicas
que se despliegan en siSTemas complcjOS que comienzan y

1 ocsco agrack:ccr la lCCIUr<l críliC<l. k, ô}'uda Y t:l ,,!lcmo ele !lil;) scga!o. !lO,
S<lna (jutx:r ~' LuiS Fcrreir<l Y los oornenlilOOS alentOS y acenadoS de soro~'a
Flci,s.cllcr Y (\linnc IJOllcni.
~ I
Ser rnujcr y antropóloga cn la escuela Di~n~ Milslein

Ic rminan fu era de la escuela" (NESPOR. 1997: Xii) . me lIevó a ViIla La F[orida hoy CuenTa con una población de aproxima·
c onsiderar que lUla pane /nU)' imponame d el lrabajo de campo d amenTe 32.000 habitanTes y ocupa 9.500 kilómetros cuadra·
d c h ía realiza ria fuera d e la cscuela. dos . Fue IlaSTa los arios 50 u na localiclad semi·rural d e 10.000
Hal)ían IlaSadO ya Ires meses y yo seguia rrabajando m ás cn habiTames. poblada en su m ayoria por inmig ran les jTalianos y
la CSOJela que afuera. La gran preocupación que eslO m e gcncró espanoles. ded icados a [ cultivo ( [e alfa[fa. no res y frUlales. a la
m e condujo a imaginar u na modificación en m is planes y me pro - cria de aves y la tenencia c[e Tam bos . Su urban ización fue de
pusc lIevar adclan lc. de m ancra experimental, lídbajo de campo origcn inmobitiario . La pol)laCiÓn se d uplicó en [a d écada deI 60.
c an un gn.lpo d e alurnnos )' alurnnas d e la escuela. Trahajarnos por la m igració n de prov incias dei interior. Ia aclividad produc·
juntos durante d os m eses y lo que sucedió rue rnucl"lQ mtls imo tiva pasó d e ser agraria a ser indus trial. Se insralaron fábricas
ponétnle e intenso que lo que halJia timidamente imaginaclo. impOrTantes. como u na papelera y una duJcera. que emplearon
En este capítulo. OJemo esTa cxperienda y consiclc ro la rele. a muchas personas. ~ I-Iabia lrobajo. erC/ un lugar prõspero ".
vanc la y 01impacto que ha (enielo cn m i etnografia la parTiCipado fue eI comentario que me hizo una vecina y que sinteliza el
ó n de ese g rupo de ninas y n irias como infonnal11cs. asislentes sentido comparTidO por quienes v iven allí d esd e hace cuarenta
de invesligación y coaUlores. E-'<pongo también un conjunto de o cincuenla anos. Desde principias d e la d écada de los 90 y
renexiones surg idas a parlir deI ana[isis de esta experienCi<l. rela. después deI cierre de algunas fábricas y la robolizaciôn de Olras.
cionac[as con el pro pio proceso d e investigació n, con el lugar en la [ocalidad cambió mucho . Empezó a habcr trabajadOreS y Ira·
que rcaJizat:>a c l lrabajo d e campo y conmigo m isma C0ll10 ll1ujer baj adoras desocupados. que vivian de ·cl1angas" y planes de
antropóloga . Asimismo. argum enTo acerca de las posibilidades subsidios de los gobiernos naCional. provincial y muniCipal. "La
que se atJren y las dificultades que se prCSCnTan cuando se realjza Florida a/lOTO. es un barrio~ obrero uenido a m enos f...' d ependió
lrabajo c lnográfico coo ninas y ninas. ~'Ie dClcngo en algunas impli. m uch o liemp o cleI rTObajo cn la /Xlpclem !:J lombién fue arruill(lclo
canCkIS éticas de esle lipo de Trabc"ljo y d csarrolJo consjclcraciones lodo en lo época de Men el n" (DirecloTa . 7/ 5 / 2(04). Ese cambio
sobre los nirios y las nirms como hacedores de PUnTOS d e viSta También a[terÓ la im agen de lugar Tranquilo que Tenía antes. "No
significaTivos de la v ida social y cullural de la que fonnan panc . es que no ' labia n ingtín (o bo. pero no lenios que eslO( I/cno de
rejas. cerrado bojO /laue. hobio mós cOllfiollza. ol1oro no conflÓs
EJ origen de una experiencio de Ilodic" (/\lIxiliar. 6 / 6 /2004 ).
1\ la escueta van nilios y niti as de diferenTes barrios d e [a

La escucla N° 40, 2 donde inicie mi Irabaj o de campo. es [a localidad. entre ellos ele [as dos v illas miscrias inslaladas en los
más anligua de las cualro escuelas públicas primarias ubicadas limites de la misma. Fuc crecienclo en cantic!ae! ele alumnos. es·
cn Villa La F[oricla. [ocalidad dei Panie[o de Quihncs cn la Pro. pacio y edificación desde S ll inSTal<.lción en los arlOS cincuema.
v incia de Buenos I\ires. y era reconocid a po r Sll ensenan za. DuranTe [a d écada dei 80 y
haslél m ediados ele los 90. la m atricula escolar asccndió a 800

2 En los sislClllas celllc.1livos r rovlnci<lles de 1<1 Argc nllnil cl!;H1do se funda


Ilnil üsclleli) nUCV<l se le COIOC<l llll numero l)<Ira idell1iticarli) . Con el correr 3 Villa La F10ridil es eI nombro:: ()fic lal (Ie la IOC<llirliltl. UI geme que vive y lri)·
de loS aflos. C<lel,) cscucla. de acucrdo a SlI modillicl<lCI digc UIl nornl>rü b<:lja alli ullli7..a I,) palillJr.l I" m io o Li.l Flori<la pilri.l rcfcnrsc il la m lsmil. pero
Pilra la m."lirllclón que clebc ser aprobado por las élUlori(lach.:s dei sisu.;lIla las villa" m iscria" ulJicad.:ls dentro dê cs ra localidacl siemprc son rcfellda::;
aI que pc m:nccen con un Iloml)re diferencmdo - el último asem<lmienlo y la Hitx:rcr"la.

284 285
Ser mujer y antropóloga en la escuela Diana Militein

alumnos. Durame los últimos cliez ar'los. Ia canridad de alumnos vecinas que no aCluobon en poli/ica y. seglln los casos y los
cJcscencJió a 500. 1\1 igua[ que e[ conjunto de escue[as eST<.l ta[es momentos. les agregaba o quitaba preStigiO y ascendencia en
provincialcs. sufri6 los cfectos cle una disminución muy consi. la vida local cn general y escolar. en parTicular. I\CTuar o no en [a
(Ierable elel presupuesTo. rebajas salariales. deTerioro imponanre polítiCa imp!icaba tener o no acceso a cienas personas y lugares
dei celificio . cambios adminisTraTivOS y legales. Esrc conjunTO y. ai mismo ticmpo. gozar o no de cierlas prolecciônes frente
de modificaciones produjo con fusión. elesorientaCión. dispuTas a situaciones cle riesgo. amenazanles. inseguras. compromeTi·
y conflicros recurrenTes que alTeraron las relaciones socialcs en das . ~ En cuanro a mi como eXlranjera en el lugar. Ia proximidad

la escuela y en Sus vínculos con la comunidad local. con quicnes actuaban cn la política poclía otorgarme acccso a
En [a escuela sabian que yo csraba interesacJa en conOccr la cienas personas e informaciones y prOtecCión. pera. ai m ismo
localidad y lomar conraCTO con [os vccinos para cntender cómo tiempo. me colocaba en un circuitO dei que no panicipaban [os
las fOrm as de organi7..aci6n y parricipaCión social. políTica. reli. docenTes. ni [os direcrivos. ni los alumnos y alllmnas. ni la mayor
giosa que se clesenvuelven en Olros ámbitos de la vida pública pane de los familiares. ni la m ayor parte der pcrsonal auxiliar.
comuniraria. aClúan e inTervienen en el cspacio cscolnr. Enlre A principios clel mes de agosto. si bien no habia recl1a·
olros ofrecimiemos. Ia direcTora me prcscnt6 a algunas m adres y zado ninguno de los ofrecimienros para rc[acionanne con
me menCionó la posibilidad de comactanne con person as de la genle elcl luga r. inTu ia que no l1abia enconuado una forma
comunidad: la presielenle de la cooperadora ofreció prescnT<.lrrnc saTisfacToria de dar conrinuidad a m i trabajo de campo y Ten ia
personalidades y geme ele la Salila:~ la asisTenTe social m e dijo una sensaci6n de tem or:
que poelia acamparia ria a alguna de Sus visiTas para conocer
Te n go la scnsación que se csfá agolanelO CSle penado elenTro
familiares y varias maestras mc sugiricron acercarme a la coci. de la escue!a. Tendriü que lograr lenc r a!guna vislón más dirccm
nera para quc me presemara gente der lugar. l'vluct,a genlc que de! barrio. de lo que ü lli suce d e y no sé cómo salir. Ctaro. dcberia
p oder no entrar. pera no 11ay caso. cuancJo bajo ele t colecT ivo. voy
trabaja en la escuela me guió hacia la cocinera y la presidcme
direçto p ara ta escuela. Y asi no aproVl.'Ctl o nada porque estoy
de la Cooperadora indicándo[as como las pcrsonas que pOdian en la cscuela pensando en cómo salir. e n TadO lo Que Icndria
o frecerm e los vinculas sociales que se suponia que yo buscaba. que CSla( haciendo. No lo !lago y lampoco CS toy arema a naela.
i..Tendré rTlieelo? <"'\-Ie habrc creielo lodo lo que me contaron )' por
La cocinera y In presiclenrc de la Cooperadora *acruaban en la
poli/ica". Con csa expresión se hace rcferencia a una forma de
Ilacer políTica n panir elel cmorno social cotidiano vincu limdose 5 t\lejülKlra Massoto cn un arliculo referido ai empowemw/l l elc tas muJercs
a asunros de imerés púlJlico. O. eficho ele o tro modo. ac;túan cn en et cspacio local cn et COl1leXIO de pobreza t81inOO111ericana. sellata qui:
tas mujcrcs ai hacer potitica en tos cspacios tocates se vinculan a tos asun·
la esfera pública adscripTéls social y culTuralmeme a los roles lOS dc InlcrCs pUbtico y ·CSla/)Tcccn relaciones de (UCr7.a y presión COf1 los
doméSTicos. EsTO prodl tcia que sus vidas fuc ran m ás públicas poderes tocales: dcmandan y gcs1iQl1an recu/sos: prOlesTan. negocian y
cjCrcen Influencia: conrribuycn at mejommic!1lo de las condiCiones de vida
y.al mismo liempo. gozaban ele m ayor rcconocimienro que las y cI dc::s..'ITotlo local: adquiercn hablTidades ele d udaclan,,"1S compcfcnlcs:
togran ilulOCSlima y presTigio SOCidt: adquiercn poder de hderazgo: reprc
SCn1;)n un efic;)z piln6n de parttcip..ICión en la viela potílica locat· (2003:44).
·1 $(Ilila rcfc rc ncia at Ce(1lro ele Salucl muntdpat. ul)ic<l(lo en ta tocariclae!. (le. En ct c<1$O que eslOy lratanelo <1 eSle cuadro d e panicipaclón cs nccesario
pcndientc det Hospimt ulJlcado en I;) tocalldad ;)!edar"l;) - san Francisco (Ie agrcgnr que cs muy comulI que 1;)llIbién scan purueras (brokc rs. cabos
Solano. En la Salim allcn(l(:n;) las personas q~H': viverl en La florida . dUr;Jnle cteuoraisl. i11lcrmediarios de Organlzaclones pal1idarias pOtíl icas y / o co un
c t ( lia. médicos ctíniCOS)' de algums espcc la1ifladcs que fratx1jan (.""Of1 la co. SlSfcm<l palfOno·die!1lc. Pl:::rsonas que rcalizan un intercambiode favO/es cn
l,iI~aclÓn ele un.a cn(Cflllera. Alli lambién se SUlnimSlr..1I1 VaCI.lrlaS. algunos un cloblc sentido: acercan un nUmero impon~me de volames y gesllomn
rll(."(hcarnenros y Il:cl)(; ele acuerdo a dIversos pk1ncs ele asislenCI<i. diversos peelidos o servidos para 1<1 geme CU}'O VOlO soIicilM .

286 287
u Ser mujer y antropóloga en la escuela Diana Milstcin

eSQ no me animo? SiCnTO descontianza. pera una dcsconfianzél 2 Por qué los ninaS
difusa. La t::SIO}' pasando un poco mal eSTOS dias. Pic nso y pienso
en las personas Que me podrian presentar gente. pera nada me
convence. tDiario de campo. l ide agoslo de 2(04) Hasta cse momento. los níri0S y las nirias no estaban en un
primer plano de mi escucha. porque mi visión parcializada Ilabia
EI mic do eslaba asociado a un conjunto de inseguridadcs ubicado el problema de invcsligación como una cucstión Mde
vinculadas ai proceso de invesligaci6n. ai lugar en que realizaba adultos" sobre la que "lOS adultos' podian informar y clarificar.
cluôbajo de campo )' a mi misma como mujer. Las incenidum· Recorri mis nOlas y regiStrOS y encontré que. cn diversas
bres propias dei tralXljo ernográfico y los miedos que surgen oportunidades. niriOs y nirias l1abian aponado impresiones sin
dei mismo e5laban pOtenCiados por un contexto que se m e disfraces. dirCCTas y 11aSta podria calificarlas corno ·crueles". 50·
prcsentaba como dificil de peneirar. ricsgoso y reducido. bre sit uaciones de la vida escolar y barrial de las que s610 habia
EI hecho d e ser mluer en esa escuela cn que la mayo ría rccibido alusiones e insinuaciones por pane de algunos a(lultos.
d e l<.ls persQnas adultas son mujeres me pcnnilió experimentar Cuando releia mis diálogos con ellos. encontraba que tenían una
durante los primeros meses una suerte de relativa confianza, aguda percepci6n de mi desconocimiento y sus explicaciones
sin elarme cuent a que cn el campo era incorporada ~ in exo ra· eran mucho más detalladas y minuciosas que las de los adultos .
blcment e, a las categorias locales de género" (GUBER, 200 I : También m e animó la mirada de Jan Nespor. cuando subraya
I t 2). r:.n eSTe semido. asumi que cu ando las maestras m e que el material de dibujos realizados por alumnos y alumnas de
orienlaban l"tacia la cocinera no lo hacían s610 por las personas la escuela y las cliscusiones que mamuvo con ellos. lienen todo
coo li:ls que me pO(!ía conccla r. sino lambién para prOteger· lipo de implicancias poliricas y. ent re ellas. menciona rres:
me. Esra prOtcCción prescmaba las venlajas y dcsvcntaJas
Una es la importancla que riene par<l los nirlOS vivir en una co·
que seliala Gullcr: "brinda seguridad y Iraza víncu lOs muy munidad que riene Urla idcnridad fucnc - por SUpUCSIO idenrid<id
próximos. pero OS ICllIa poseSividad y com rol sobre la inves· social. pera rambién idcmidad física. Olr<l puedc ser descripla
como la impormnc ia dei comp rom iso: cada nírlo nccesita Url
tig<ldora vcdándole cl acceso a cienos ámbirOs. limitándola
rol I1rOpiO cn su COlllunidad. Una Icrcera es la imponancia d e la
en 5u s lTIovimien los y modelando. en definitiva. su campo y c iudad como un scrvício educativo. (!'\E.SPOH. 1997: 94).
objeto de in vesligaciÓn " (ibid: (1 3).
Vislo asi. en parte. Ia insislente orienlaci6n 11acia las mujer~ Este conjunto de renexiones me incenrivaron para imaginar
que ClCllIO/)(I/1 en poJiIiC(I gener6 en mí un miedo especial por cl las posibilidadcs de enriquccimielllo de un lema de ~aduhos"
riesgo de ver limitado mi trabajo y porque m e senli sola y V\.dnera· incorporando la perspeCTiva ele ninos y nirias. Decidi asumir el
blc frente a mujeres ~poderosas" y con lazos gru!J<'')!es fucrtcs. Tal ricsgo de reunir a un pequeiio gnlpo en una actividad que los
vez esta sea una de las razones que operó en mL más emocional involucram como informanteS y asistcntes en mi invesTigaci6n.
quI.! racionalmente. para no seguir el rumbo que de manera tC1n Para eJlo debia pensar en c6mo lIevar a cabo un programa corno
explícita me scr"lalaban especialmente las maestras . este y en las dirlcultades que se pOdían presenrar.
Recordé que en el mes de junio la maestra secretariü de la En principiO. Ias dos elirlcultades más obvias consistían en
escucla. durante una conversación informal. m e Ilabia sugerido comunicarles el tema y el objetivO (Je mi cstudio y en discu rir
que pensara en hacer algo con los ch icos de la escuda. Yesc con c l!os su status eo el trallajo. Para enfrcmar estos dcs",fíos
fue mi hilllazgo. asumí que trararía a estos niiios y nirlas con la misma atenci6n.

288 289
Ser mujer y antropóloga en 1,1 e~ucla
Diana Milstcin

escu cl la y respclo que lenga para con las demás personas cn panicipación ele un pcqllei10 gntpo ele ninas que tuvieran enlre
mi trabajo de campo. Además, debía estar especialrncnlC alenla 10 Y 14 anos que fLLncionaria durante seiS semanas cn horario
a c6mo los ninas me percibian como investigadOra. eXlranjera extraescolar. sin ningün lipo de obligatoriedad. La idea de taller
en ese lugar. Mi presencia y las actividades que desarrollaba m e fue u til para plantcar el tipo de actividad en la que artesanal
desde Ilacía meses en la escuela habían sido mOlivo de co· y colectivamerue iríamos consTnLyendo conocimiento sobre el
mentarios de algunos alumnos y alumnas. a los que no l1abia Trabajo de campo y sol) rc lo que queriamos conocer. Mi rol como
estado suficientem ente alenta. De ahi que requeria coloc"r to · coordinadora rue presentado poniendo énfasis en que toda vez
dos rnis sentidos para apreciar las diferentes inlerpretaciones quc tuviera necesidad de lruervenir como adulto ante alguna Si·
que suscitaba o habia suscitado no 5610 mi presencia en la e5· Illación que lo requiriera. lo haria como algo pcrsonal y no como
cuela durante el horario de elases. sino tambiên en esta nueva una cuesti6n inSTitucional (FINE y SAJ\'DSTHQ:V1. 1988: 29).

I
I
aCl ividad en la que eSlaria sola con algunos de ellos. (uem dei
horario escolar y utilizando el cspacio de la escucla de moelas
diferenles a los hal)itualcs para cHos.
Plantce etapas para el clesarrolJo dei proyeclo que. básica-
mente. eran tres: una primera dedicada ai emrenamiemo dei grupo
para ellralJajO de campo: una segunda a recoleClélr informaci6n y
o processo de aceitação. ramificação c frutificação de relações una tercera para el procesamientO de la infomlación y la produc·
de confiança entre a investigadora e as crianças do grupo é ción escrita. Esta ültima la programe comu un teXTO que lo armaria
desigual, plural e pode permanecer wnbiguo. porque llU base con la colaboraci6n de los chicos. EI TextO sistematizaria datos
da pesqu isa etnográfica estâo relações e interações sociais en·
tre adullo e crianças e entre eSTaS últimas. nas quais poderes. recogid05 por oi grupo. fonnaría pane ele la inscripción de fragmen·
mcion;)lid;)des e Subjeti vidades. a ferindo·se em perrnan(:ncia, 105 dei conocimiCnlO local }' ele divulgaci6n deI mismo. ademâs
(re)constrocm rene.xivamenre sentidos partilhados acerca do que
de constituirse en malerial relevante para mi eTnografia .
'ali se está a fazer'. pemlitindo que se vil esclarecendo. <:Ifin;)l,
'quem é quem'. (FEHREIRA. 2002: 150).
3 Relata ele lo expetiencia
En (unción de enfrentar estas dificultadcs decidi aprovechar
algunos momentos ele observación participante en clases ele LoS primeros encuenlros con los chicos fueron en la escue·
quintO y sexlo ano para coruarles a los ninos y a las niflas lo la . después de las cinco y media ele la tarde. cuando ya sólo
que eSTaba haciendo en la escuela. No era la primera vez que quedaban las personas encargadas de la limpie:zél. En la prime·
me presenTal)a y comaba lo que hacia. pero en este caso que· ra reunión partiCiparon un papá Y CUélTro mamás, la direclora y
ria comunicarles la idea de incorporar a algunos de ellos para una maeslra. adcmás ele los chicos. Para companír cl tema ele
tral)ajar un Tiempo conmigo. 1\·1;)5 adelame cuando. se confor- rni investigación les contê que estaba interesada en emeneler
mara el grupo. continuarían eSTas conversaciones y discutiria los camlJios que habia su(rido la cscuela cluraote los (tltimos
sus slalus dentro elel Irabajo. ai'los. En especial me preocupaba porqlLe. en su mayoria. ni los
Dado que eSTa Iélrea yo la organizaba cn la escucla. era ne· docenles. oi los auxílÍ(nes. oi los chicos ni las farnilias estaban
cesario institucionalizaria como pane de las instancias educalivas satisfechos con esos cambios. Comé 13mbién que durante los
para los nirios. Hequcria contar con una programaci6n aUTori zada rneses que !labía eSlado en la cscuela Trabajanclo. !labia obser·
pOr la direcci6n de la e5cuela. Por eSQ cncuadr6 la aCTiviclad como vado que eSlaba al ravesada por lo que sucedia afuera y que
proyCCIO pam la realización de un TaUer coorclinado por mi. con la para enlender lo que pasaba adentro Tcnía que conocer mâs etcl

290 291
'.
Ser mujcr y ;mtropóloga en la c~uela Diilnil Milstein

afuera. Dije: "EslOy convencida que Si se logra conocer c6mo COIl las personas y conducir a sus compancros. Daniela en un
uiuen. piensan y sienren su barrio y es/a escudo los uecinos. uo a p rimer momentO sentia vergüenza, pero luego se rue animando
ser posible enrendcr algo mós acerca de los problemas que !iene y fue una de las elllrevistadoras junto con Yanina y salll iago.
la escuela" (Olaria de campo. 7 de sept iembre de 2004). EsIQ Rodrigo muy pocas veces habló, le gustaba acompariar y tomar
generó inmediatarnemc comentarias dei papá. de una mamá y faiaS. Micaela no siempre pOdia concurrir, vivia cruzando la rura
de la directora y p rodujo u n diálogo cnlTe adultos . y solo le permitian ir y volver de la casa acompatiada, pera no
Los ninas y las nirlas m iraban CQn un gesto muy alemo, s iempre la mamá encom ral)a quien la acompariara, disfrutaba
scguían con sus m iradas los diálogos. pero no hicieron comen· los paseos y le encanraba conocer el barrio: para ella lodo era
tarios hasta cl momento en que les h ice p regumas direclameme un descubrimiemo. siempre enconlraba el modo de converlir
dirigidas a ellas para dar comienzo a nueSTrQ (rabajo. Senti que. una situacion en un juego divenido. Santiago se tomaba todas
Talvez. no habían entenclido complelam cmc m is imcnciones y las rareas eon m ucha seriedad. Un dia habiamos programado
p ropõsitOS pera 5US m iradas mostraban in rerés y curiosidad. hacer ent revistas cn la escuela y solo llegó 61: no dudó ni un
COnlé en qué consist ia la act ividad para la cual los con· inSlante en lomar la larea en sus manos y !levarla adelame. Leia
vocaba, haciendo ll incapié en que eUos lenian que decidir los con dedicacion el material escrito de las ent reVislas que yo Ics
lugares para visilar y las personas para entrevistar de La Florida llevaba im p reso y fue m u y activo en la selección deI material
y también de la escuela. Les p regunlé c uál creian ellos que era que se publicó. Marisol concurrió sólo a tres encucntros que re-
u n lugar imponanle en el barrio y loelos coincidieron en que era alizamos en la escuela. Fabián dejó de asistir después que nos
la plaza que está enfrenle a la escuela. comunico a todos que la placa recordatoria que habiamos vis lo
Lo ull imo que conversam os fue lo que ellos harian lanlO en con su apcllido ell la pared deI local de Bomberos Voluntarios
los momentos de rcunión deI grupo en la escuela como du ranlc era de su abuelo, a quien no habia conoeido.
las salidas. Les enlusiasmó mucho la ielen de grabar y grabarse, La p rimera actividad a la que se abocó el grupo despu6s
asi como la de fOlograflar. Compararan la aCl ividad con la de los de las conversaciones preliminares fue a dibujar em re todos
periodislas los que realizan notas pa ra la lelevisión por la calle un mapa de La Florida . Comenzaron por dibujar la plaza en el
~t los fOlógrafos. Yo intcntó m ost rar las d iferencias con esas ac- cenlro de la lloja. /I.'liemras trabaj aban hacian comelllarios que
tivielades. pera ellos cOlllinuaron haciendo campa raciones con e!los m ismos grababan. AI principio, estaban muy alemos aI
p rogramas periodislicos de la televisión . grabador y lo c ncendian , frenaban , rel rocedian y se escucha·
Paniciparon elel grupo c,-,al ro nillas - ''cInina. Micaela.llllarisol ban. Después lo dejaran alli. sin preocuparse más. Yo eSlaba
y Daniela - ~t Ires n inas - sallliago. Rodrigo y Fabián. Micac[a sentada aI lado de ellos y 10m aba algunas notas ademas de
era la más pequena. tenia diez anos. Fabián el mayor. tenia participar con algun comentaria sobre el dibuj o. Yo les habia
13. los ol ros tenian 11 Y 12. Yan ina. Daniela y Hoelrigo eran contado cn la reunión anterior que TOmaria notas ele lodo lo
compalleras de c lase y amigos - Daniela y Hoelrigo viven en la que conversariamos y ningu no me habia p rcgunrado nada aI
misma casa. eran tia y sobrino, y asi se prescllIaban. Entre los respcclO. Durante esta rcun ión un a nena me pidió que lcyera lo
demás nillos no habia ninguna relación previa, y parte d e la Ta· que estaba escribiendo, lo llice y les causó gracia porque era un
rea también consistió en conocerse y Irabajar cn grupo. Yanina cl1isle que u na nena le hal)ia hecllo a Ot ra sobre cómo dil)ujaba.
rue la más elllusiaSla desde el primer dia, le gustaba conversar 1\ pesar de que tamo co esa oponunidacl como cn Ot ras yo les

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I1I
Ser mujcr y ':II1!10pÓtog.l en rOI escuel.:t Diana ""Iilstcin

conté que csas nOlas las usaba para mi il1Vcsligación. observé ~ clemujeres". m e permiliÓ ver el lllgar que. corno mujer. adulta .
que no se imcrCSaban dem asiado. confiable m e hab ian oTorgaelo denTro (lei gn lpo. Esto También
Las dos reuniones siguientes las d eclicamos a continuar ayudó a ubicarmc en rni relación con [os varon es.
dibujando c f m apa y a organizar la primera salicla a la plaza. DuranTe lo s ulTimos encuemros. el rrabajo consiSlió cn orga·
c f sáb(lclo por la !arde. Tenian especial inrerés en entrevistar a nizar la p ublicación. Nunca pensé que cledicarian tamo liempo a
[os ferianlc s. PracTicamos en eJgrupo a p regu mar ~} respOllclcr. Icer las largas entrevistas y a marcar ele m anera tan col1crenlc lo
Cuando una p reguma naclic poclía responderIa , la clesecl1aban . que cons ideraban que debia ingresar en ellibro. Lo lIamaron ~El
y cuando sólo invilaba a COnTestar p or c f si o por cl no. res Libro d e los Chicos. Averiguando algo m âs: Leyendo la historia
ayu ctaba a re formu larla . Nunca vi que regiStraran las pregun. d e nuestro barrio y d e nuestra escuc la".
I las q l rc harian . pera en el mamemo . Ias plam c aban sin salir La p rim era vez que les hablé d e la pOSibilidad d e o rganizar
clc masiad o d ei libreto aCordado.
i!I En la pla za Ics daba vcrgüen za com c nzar a /lablar eon las
personas. Se (cian entre eJlos. uno mandaDa aI OlrO a hab lar
una pul)licaCi6n con ellos, les mostré el libro Voices from lhe
FieldG como estimulo para em pezar a imaginar el nueslro . i\"lien ·
tras lo hojeaban , miraban las fo tos e intercam b iaban opirliones
prim ero, IlaSta que finalmeme m e tocaba éL mi prcsemann e y las f0 105 que ponelrian . Daniela propuso incorporar el diso/io d ei
presenrarlos. t\ conlinuación elesplegaDan s us pregufuas. cspc. m apa que ellos 11al) ían dibujado. Yanina preguntó Si ibamos a
raDan a quc sc las respondic ran . insistian c uando no los d ejaba poder hacer una edic ión pareCida y Santiago p regumó: ~iYqtlé
satisfechos }' loleraban 8(111 lo que luego elecian que les habia vam os o escribirT. To dos dirigicron s us miradas hacia m í y yo
aburrielo. t\d ernà~ ele grabar las cinco em revistas que I-licieron. comé mi idea: ")'0 les /fCligo la desgrabClción ele lodos los CClse/t?S,
, escllcham os una panc de és tas sentad os c n lIn banco de la l/sledes leen 10d o !J digen lo q ue qllieren colocar en el libro".
li plaza. y esro proe[lIjo cornemarios sobre la m isl1la emrevisTa o
sobre personas que csraban allí y qLle eIJos conocian. TCimtJién
Propuse que caela uno se presemara c n el lib ro. enceneli
el g ra tJad or y com en cé a hacerles p regum as es ti mulando
sacaran fo ros a las personas entrevis radas. a c hicos que j uga. que co n mran quién es eran . Transcribi todas las grabacion es
tJan. a amigos ele algunos de cHos . a mí. enrre eJJos }' algunas . }' algunos de lo s ultimos c ncuemros cSluvieron d estinados a
a sectorcs ele la p la za sin gente y a la cscu ela. Para m i era mu}' que los c hicos selialaran los párrafos que ellos consideraban
interesame mirarlos cuando fotografialJan p orque a tra vés de importantes para que o tros leyeran y Iambi6n p ara c legir las
I eSta mirada di rigida ele c l1 os . descubria el lug ar }' la gem e.
HeaJizam os OCl10 saHelas . inTercalaelas por reuniones cn
las que c JJos convcrsaban y decieli(Jn aeló nde irian. a quicncs
6 \oces /rom de Fldds escrilO por Beth Atkin . es un hbro que recogc !c sti·
nlOJ1l0 S dc niflOs. nu'las y jó\'cncs. tlijos e!c Irabaj..dofCS ,,-,mies ll1igranrcs
Cnt revislarian y quê les pregunrarian. Ent re Otros pascos . fuim os Ilisr><, nohablarlles que vivt:o co SóJJioas "dtley. cali fo nlia. La auto ra . pcriochs ta
y fotógrafa. rc;.tf izó uo IralXljo ( te illvcstigac tóo coo prOlagooism o t lc niflOS}'
a la SaliTa. a viSitar a [os bomberos voluntarios. a entreviStar jóvcnes vLnculado a programas cOinuL'k"lles }' OOUC."lIlVOS de apo~'O para ta
maestras y auxiliares de la cscuel<J y tamlJién a pasear }' sacar radicación de tas famLlias. En cste tlbra siele ninos. on)as >' jóvencs de 9. 10.
r:!. 14. ! 5. !6 Y 18 aflos na rmn 50 hislOria emrelaZilda con la de SI.! f<lmitia.
fo tos. EStos paseos diCron lugar a momentOs inTensos d e inH. cuem an cóm o tleg,lro n a salinas \ tl tle}'. lus dificu lladcs que cncOrllra ro n
m ielad. a PUnTO lal que cios nenas m e hiCicron un com c nlélrio con cI idioma. el lipo dc <lcuvidadcs labornles y educativas que dcsarro ll,m.
anécdoms de 50 vi<:k"l famitiar. etc. Adcrnás la aulora ediló jumo con 1..'5105
ac larânclom e que se traw l)(l de un Secre to que yo no tc nia que Icshmooios un poem .., escritO pro cada uno de los ninas co est mr'lot. falOS
que et!a lo m ó de loS ctlicos. SLLS f<l m tllas. 50S <Jrn tgos. las !are<lS escot<Ires
( lifunclir. Este VOlO ele confianza c n un rem a que aclem ás era
y Olí,-,lcS y. csc nhió lIffil breve prescm ación de cada uno de ellos.

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/11
I I,
5l:>f mujer y .1ntropótOg<! cn IJ esçucla
Diana Milstein

falOS. También elab oraron un índice para organ izar los p árra . LOS invesl igadores d elx:n ser sensiblcs a la renuencia d e los
fos selccçjonados. Yo cclilé una primera vcrsió n de [a pa ne nirlos. que eUos puedcn no estar dispues tos a exprcsar (... 1
escrita, sobre la que cltus J1icieron agregndos . correccioncs y Desde el com ien zo d ebe estar garam izado para los niríos su
dc rccho a re tirarse en cualquier momen to . a suspender una
senalaron los lugares para las faIas.' emrcviSIa o a no contestar una prcguntrl. Los invCSligadores
d ebcn estar alen a a 1<1 sClÍales d e angustia o rcn uencia. (AL·
DEIl.SON Y i\lo nRO\\'. 2004: 54)
4 LOS no menores
-LoS etnógrafos occidenrales que ingrcsan a una CU/lurel Los niiios. en la m ayoría d e los estudios elnográ ficos.
radicalmenTe di/crem e se encuenrran a si mism os cn /(l no son informantes . Algunas Irabaj os que se ocu pan ele la
posidón humilde de un novicio. Pera es difieil penS(lfSe
c ult u ra d e los n illos o d e las cultu ras d e los ninos - segun
o si m iSmo como un nouicio ctloncJo esludia a oquellos
(lU!: son d efinidos como aprcndice..<; ele la prop ia cultura-. sea la postu ra c n este lem a m uy d iSCu tido - los h an incluido
(TKlIt,'E. 1993: 12 1. y esta ha abierto u n d ebate en torno a la c onsideración de
lo s niiios como aClores sociales. Juc irem a Quim eiro . c itando
Desde eJ comicn zo elel .rabajo considcré de m anera ex- a Sarm em o y Pimo . senala qu e:
p lícila a los n inos y a [as niflas com o p ersonas co n capacld 8cl I ... ) a consideraçao das crianças como i"lIorcs so cii'lis ele ph..:no
para resolver los problemas que se poclían p rescn lar en la larea dircilo . e n.:io como menores (.. .) implicn o reconhecim elllO dn
ci'lpacidade Simbólica I>or pane d as crianças e a conSl iTuiÇão das
que em p rcndimos. cu yos p UniaS de visla serian consid erados
su as represen Taçõcs c crenças em siSTem as organizados. ISIO é,
du ran le cl desarro Jlo dei p ro}'eclo y con com lX:lcncia para lJevar em cuhuras. (.. .) Os csludos da infancia. m esm o quando se reco·
adelante las acrivid adcs propueslas. EsIO incluyó que luvic ran nhece às crianças o eSI<lTUIO de alares sociais. Tem geralmcntc
negligenciado a auscultaçâo da voz d as c rianç.JS c sul>eslimado
la seguridad para decidir s i con tinuar o imcrrumpir u na aClividad
a capacidade d e a tribuição de sentido às su as ações e aos scus
en cl momen lo que lo qu isicra n sin necesielacl de dar ninguna COnTeXTOS . (QUI1\'TEIRO. 2003: 4)
explicación. asi como parTic ipar o no de las n.:uniones y salidas.
de aCllcrelo ai dcsco de cada u no. l':adic ten ia obligac iól1 de l\Jlison Jam es y Olros (2004: G). ai realizar un balô;lrlce acer·
ocu par n ingun rol en especial y ai mismo [iempo lo d os Icnian ca de lOS ~bordajes relevantes de/llro de la denominada ~ nucva
el clerc cllo de asu m ir cualquiera de elJos : entrevistad or. erll rc. sociologia de la in fancia". sclialaran la lmponanc ia dei descubri·
vislado. observ ador con o sil1 particip ación . fo tógrafo . dibujante. miemo de los ninas com o agentcs p or consideror ese hallazgo:
lcclor. com en larisla. elC.
(... ) COm o un lIamado a los nirios a ser comprenclictos com o ac·
,\ Cluar d e este modo. supone asumir una p os1ura 1córica Tores $Ocia!es que conforman. asi com o son conformad os. por
respeClO a lo s ninas y las /lirlas asi como u na aCfilud percep tiva. sus circunSlancias. Esla rep rescnla una saUda definitiva d e la im o
scnsiblc y de escuclla pennanentc: plicancla m ás o m enos incvililblc dei conccplo de socializaci6n:
que los ch icos dcben ser vis lOS com o u na forma ddc CIUOS<1de
los aclullos. socialcs sol()lllcmc en su fu lu ro pOlcn cial p cro no
en su e:..:iSlencia prcsc tllc.

7 Un~ vcrsión ant:S<ln,ll de CSIC li1)(0 (uc prcscnmd'l c n In fiCS lil de fin d e i aiio
2004 e rl la CSClICIa. EII cl afIO 200..'> ~1 dillX:IQro (;on Ima InaCS lraCO~UICron
Rcconacer a las n inas como agentes y actares sociales Ci)·
la dOlli)c;ión de la (.'<lic16n deI mismo COrl fOnTIWO cll: IIlno . paces d e d ar cuenta de sus p rap ias acciones. Significa no sólo

296
,I 297

"
Diana I\'~ ilstcin
Ser mujc r y antlOpólogJ c n Ll I!SClICl.1

de v ista no s610 respcclo a las relaciones cogniliva, emocional.


entenderias como pane de uo mundo c onSTruido socialmerne.
social y matc ria[ paniculares d e la infancia de los nitios, 5ino
sino corno conslruclores dei rnisrno.
tambien de 10 Que yo denominaria [a adultez (Ie loS adultos .
( ... ) Un foco c n la 'cultura ele la nillcz' socia!i:wncc ilumina a los Encontre dos rrabajos que rencjan una o rientación Similar y clan
nirios como co ntribuidorcs a. lilás que com o s imples espcclaclo- cuenta de la rique za que se a[canza cuando se incorporan ninos
res d e. loS procesos complejos de conrinuid<:ld y cambio c ullural
demro d e los que cllas aprenden ,OI v iv ir SlI presente )' 5u5 vidas y nir\as com o \loces ~ na l ivas".
fU luras tJ(\MES y OTBOS. 2004: H3). S. Betl1 I\tkin ( 19 9 3) rcco giÓ tcstimonios d e un grupo de
nil'los y n inas de Salinas 'vBtley. E.E.U.U., una localidad dc inmi ·
El camino recorrido por eStOS y 0lr05 invesligadore.s c n grames m exicanos agriCultOres. La lectura de los teslimonios
busca de incorporar los PltnlOS de visla d e los n inas. esTá fu n - d e los n itios. ele su s poemas y las fOlografias lomadas por la
damemalrnc ntc vinculado a [a prcOcupación "para converllr a autora , introduce aI [eClor con naluralidad en la vida social cle
la prapia nine:! cn [oeus d e inlc rés. más que verla subsumida este grupO de inmigran[Cs m exicanos. To dos [os teslim onios
bajo algún alro tópico. lal como la família o ta cclucación" tJa· son en primera persona. narrados por ninos. pera co todos los
mes Cf 01. 2003 : 22). casos etlos 11ablan acerca d e cÓtno se vive. cómo se lTabaja.
La cerleza respecto <.l que [os ninos ~' [as nirias son actores com o se rc lacionan en familia. entre ninos. entre !lc rn1anos .
i socialcs, cuya capacidae[ de agencia d c be ser tornada en cu c ma
para emend er la vi(la SOCtClI, implica apanamo s de [a idea de que
cóm o piensan y p c rc ib en su lugar. etC. De eSle modo. muesna
con elocuc nc ia la capacidad para narrar e informar acerca de la
por ser m enos altos, menos grandes y m enos viejoS que [os vida social en general que lienen estos polJlaclores . cuyas eela·
adultos, sus experic nc ias y [o que 11acen y dicen, vale menos. eles oscilan et11re [os nucve y [os dieciséis alias, inclusO teniendo
algunas elillcuhades originadas c n el b ilingüismo.
José de Souza i\ lanins, ao organizar a co]el<"Ulea de textos sobre
O maSSiJCrC dos inoce.:nll;5 , elegeu a criança como testemunha EI 011'0 estudio se realizó cn lõ Ciudad de Rio de Janeiro y
do história por recontleccr que silo elas, nos di<.ls atuais. os prin· consislió en solicitar a alutl1nos de [a red de ensenanza p ública
cipais portadores da crítica soçial. (... 1 Deste modo. eSle soció· y privada dei r-,'Iunic ip io que se expresaran sobre cucstiones
logo desafiou a tem.lcncia até e.:ntÜO presellte cntre os cicnllstas
sociais de inccrcss<tr·se por infortllnntes que CSTão 110 ccntro dos relativas a la vida en la ç iudad. t\ vogel y Olr05 t 1995). ta[ como
aCOr1lcdmentos. que têm um çe.:rtO domínio dns ocorr(:ncias, quc(la rcflejad o en el!i\)ro. se apoyaron en la convicción d e que
quc têm. SUpOSlarl'lcntc . ullla vls50 mais ampla das coisns. qll C
los nitios son aClares sociales y que son capaces de revelar a Ira·
silO os arquitetos da cen;) e da encenaç;jo social. (... ) Manins
escreve sabre o que sentem. pensam e di zem as crinnças das vés de sus discurso s y expresiones p [áslicaS la complejida(1d e
lemoms regiões das frentes de ocupaçáo da ,\mazôni<l. ;";0 en· las experienc ias urbanas ac[uales, tema de 50 investigación .
tanto. ao C,'l:plicitilr;). metodologia ele.: pcsquisa utilizad<l. o autor
f<lz qucSI[tO de frisar O mêtodo elc inveStigação e de e,'l:posiçáo En mi trabajo. tlC procurado que [os nirlOS y las nitias se
adot<ldo, sn!ientallelo: ~ I'<l lo d<l fal<'l elas crianças. que por meio cons tiluyeran como partic ipanteS en el p roceso de proclucción
delas me falmn le nos falam) do quc é ser criança te iIIJult o)~ . cle conocimiento. EI libro. como producc ión en coautoria con
(:\ I,\RTI..-S. 1993: 5 1·80) (QUINTEIRO. 2003: 11 ).
los nitios y las nirms. consli1uyó un documento que olJjelivÓ
esta panicipación . "El librO de los chicos" es una reescritura d e
Esra p erspecriva insrala una m irada sobre [os nitios corno
nOlas de campo elaborado en coau[oria con polJladorcs loca·
acrores socialrnente acrivos que apunra a jerarquizar sus punias

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298
Ser mujcr y antropóloga cu la cscucla Diana Milsteiu

les. que recoge cornen wrios y op iniones de adultos' acerca de mancras diferentes. les ímcresa a lod os: el lugar en el que
de la h istaria y la vida de u n barrio. Los aUlores locales tienen viven. pucele considerarse, u na estrategia de "auloría p[ural
la parricu laridad de tener pocos arios de eelae!. J-Iay aqui dos que acucrda a los colaboraclores no m eram ente el status de
cuesHon es cem rales. una referida a la coaUlofÍa y la olra. a cnunciad ores ind ependicmes sino el de escritores' (ibid. 1992 :
qUiéncs son los coaulores. 167). en CI pu ntO de partida de la construcción de una etnograri<l.
James Cliíford (1992) plamea que ~c ie n arnent e, rualquier ex· Es un m odo de confirmar y exp liCitar la naturaleza polifónica y
posición clnográfica de algu na eXlensión inclu ye rulinariamente m uhiau torul de las notas de cam po.
co si m ism a u na diversidad de descripciones, transcripciones e RCSpCCIO a la elccción de los coautorcs. en esle trabajo
inlerpretacion es debidas a una varic dad d e 'au tores ' indigenas" he incorporad o a p crsonas que habilua lm ente se las consiclc ·
(1 992: ( 63). EI uso de [as corn illas en [a p alabra autores indica ra intérpretes p oco o nada aUlorizados. En este sentido. esta
la faha de rcconocimiento que estas autores lienen como tares pu b licación p uede entenderse como una rorm a d e O1o rgar
cn una gran caruidacl de c tnografias. Clifford las diferencia d e legitim idacl ai punto de vista de los nirios en cuamo a la vida
olras. en las que los elnógrafos - entrc eJlo$ Malino\Vski . Boas. social y cultu ral de la que forrnan pane, no rCSlringiendo su
Leenl1ard t. TlJrncr y Rosaldo - colocaron explicitamente a po· cap acidad a lo que suele dcnominarsc como ~cuh u ra o sub·
bradares indígenas como autores. cultu ra infanl il ".
En el análisis reali zado p or Clifford d e estas c lnografias en· De esta m aneTa qued a pues la C Il entredicllo una con·
coruré rc tlexiones útilcs para considerar rni uabajo. En especial cepción occidenlal moderna d e la niriez que. por un lado ha
m e dCluvc en el concepto de p olifonío que tom a de Bakhlin ocultad o iraS el su stantivo infancia o niõez ai conj unto de
suje tos particulares p roclucicndo u n borram icnto de las in·
I~ra I3<lkhrin, preocupado por la reprcsenmclón de rowlidades
dividualicladcs. Por el Olro . l1a eSlim u lado formas ambíguas
110 tlOtnogéneas. no hay mundOs culrurales . o lengu<ljes irr le·
gr;Jdos. (.. .1 Un<l cultura cs. concretamente. un di{Jlogo abierro d e relació n y tratO vinculad as a un largo p rocCSO Ilis tórico d e
y cn.:a livo de subculturas. de propios y CX[r;Jllos, de facciones desvalo rización de los nirios y las ni[1as.
diversOlS. Un ~ Iengu njt;~ cs t;1juego Intcrdcrivo y In conricnd<l
elc elinlecros regionalcs. jergas prorcsionnlcs, lugarcs comunes l;J ambiguedad cn los comporramieo[OS hacia los nif\os (... 1 res·
genêricos, cl habla de diferenres grupos dc cdad . individuas. ponde n la COn5[rucción de un suj e[o desvalorizndo. o valorado
c[cé[cr;J. (C UFFORD. 1992: r 6 21. a través de rasgos de poco prestigio jsensillilidnd. dt:bilidad .
afccrivldnd. cmoTividadl. que [al1lO IlOr lo que rienc como por lo
que no riel1l:: . por lo que es como por lo que no es. resul[O puc·
Planteado de este m oclo . "Ellibro de los chicoS" reúne de
rillz;)(\O. (/'o II LSTEIN Y MENDES, t999: 651
Illanera polifónica un conjunto de Il is torias. comentarias, pa re·
ceres ele aduhos - m ujercs y Ilombres dc cdndes diferentes.
p rocedcncias distintas y ocupacioncs cliversas - en diálogo con 5 Consiclerociones finoles: EI saber de los ninos y
ninos. nirias y una ant ropóloga . sobre u n tellla que lam bién. m i condidón d e onfln p ólogo

La experienCia con el gl1.lpO de nirioS y nl1'1âs fu e u na ins·


fi LaS Vt:Cc..<; CIl quc sugeri que CrlIrcvLsramn <I SlIS parcs no rccibi una rcsput!St<l
ncgmi\l<l. Ix: ro nurlC:1. cscogicrOrl a ouo nir'to o n1l'a p..1.r<1 cllI reVislar. llllenré lancia en la qu e el vínculo hori zontal. claro y p reCiSO. b asac\o cn
Cri alglll'los momClllOS que me I"'lblar.:m de eslO. pero no Iogré ningun::l la confianza. sostenido cn la vô'lloración por la diferencia y cn un
c;.;pliclraclón ai respCCIO.

300 301
Ser mujcr y an uopóloga cn lil escuclõl Diana Mil5tein

inlc rés genuíno y diverso. m e peml ilió acceder a perspeCtivas También era la m anifeslación deI adelanlo. a la vez que se
que me enriquecieron cn diSTintas climcnsiones impOrran1eS había convertido en c\ espaciO verde de una localidad que !"Iabía
p ara rni investigación.
I: Por un lado. eJmodo c n que los niflOS miraban SUl'::nTorno
elejadO a Trás su flsonomía rural.

Y buer10 la plaza cambi6 CI1 el semido que la plaza ahora cs cl


rue generanc!o cn mí un p roceso de eXlrar'lamienlQ ant ropo- pulm6n deI barrio. I... ) En si la plaza cambi6 aI banio. cambió
lógico. una des·naluralizació n dei espacio y liempo urbanos. lodo. haSTa que lleg6 cI asfalto. Poslerior a la plaza IIcgó el a~.
1vlient ras la mirada adulTa liende a Transmi tir cierr3 clausura de lo f<:lho. que picnso que la plaza fue lambién como un pu.nraPlé
para que se pudicra Imccr cl asfalro )' lJucno ya ~amblo .. fue
ya conocido en IantO no requiere esfuerzo por aprcllcnclerl0. Ia cl sefl or barrio la Florieln. no vill<l la Florida. Ia Flonda. iSenora
mirada cle los ninos trans mite la ap c nura propia ele ql lien eSTá puesrera. 25/ 09/ 2004)
realizando un esfuerzo por aprel1ender lo próximo. t\dcmás la
diferencia cn la dimcnsión física Cnlre los nir'los y los aclullos Era un espacio dei que se habían apropiado mujcres y
provoca que la pcrspecliva dei Oj O aumenTe el espacio. a la hombres desocupados para organizar un medio de SUSTentO
vez que su agllidad y velociclad corporal comprimen las diSlan· que combinaba el paseo. el esparcimicntO y la compra·venla.
cias Ilori zontales c n esc cspacio. Un claro ejemplo es el de la
La fc ria liene una <:lntlgúedad de un poco más de dos arios y
plaza. En eSTe sentido. quiero deslacar la diferenc ia de alTura cs como que Ic hutJicse dado un poço mfls de vida a nueSIr<l
desde la que enfoc<Jtx lIl. los objeTOS y p ersonas que coloca · plaza. i ...) En esla fcria. no se comercializan cosas caras. a~á es
una fcria vccina!. acá los componentes sornas lodos VCCLl IOS.
ban en primer plano y los lugares que fuc ron reiteradamCnTC vendemos nueslras cosas que hilcemos. arlcsanias o bijoUlcrle
fOlografiados. j unTO a lOs argumentos que esgrimían cuan do o comidas. Nadie se lIeva grandes canTidades de dinero. Fue
no se ponían de acucrclo y las risas companielas desp u(:s de la palanca para sobrcvivir. hoy en dia eStamos sobreviviendo.
el que viene a la feria cs porque no riene lrabajo. Y la p.asarnos
Tomar algunas faIaS. bien. perfeclo, bucnisimo. nos respewmos . nos csltmarnos
Por Olro lado. el conocimiento sociul deI grupo d e ninos rnucho. Iray muclrisimo rcspelo sobre lodas las cosas . (Coar·
y Ilir"las. me perm ilió apresa r la cornbinación compleja de dinadora de la Feria . 29/09/200·H
percepciones. semimienTos. op inioncs e intcrprclación rcla Ti·
r\ panir de eSlO y como produ CIO de mi análisis entendi que
vos. entre OlroS aspecTos. a los cambias de la p laza. t\dvcrrí
la hiSloria ele los cambios de la plaza tenia una relcvancia. hasta
elllonces que csas cambios no se idenlificalJan 5610 eon el
el rnOITlcnl0. insospechaela. para cornprenclcr las modificaciones
pcligro y el riesgo. seg(m la imagcn de lé:l p laza que me l"labi·
que 11alJía sufrido la vida COTidiana escolar derivadas d e la c ris is
an TransmiTielo alglll"los adu lTos en la escucla. De acuerelo a
social. económica y política ele los anos 90. La plaza y la escuc·
la sclcceión d e párra fos de "EI Libro d e los CI"licos· . Ia plaza
la . se me prcsenTaron corno cios espaCiOS sociales que poclian
inSpirabé:l disfruTe y placer:
ilurninarse mUluarnemc . caracTcrieé a la plaza. como u n espacio
Y los chicos mias cuando cran chiquiloS )' vcnían a jugar <I la pia· público alravcsado por u n conjunl0 de inicialivas y esuô legias
Z<I. los nieTOS taml)i(:n. al10ra Icngo bisniCIOS. lenga ocho. <lhorn
vinculadas a la supcrvivencia que lteval)an a cabo personas deI
vicnCr1 <I la plazn ajllgar. asi que Olr;) sC\lisf;)cción no pucdc ser.
1"<In cs ;)sl que)'o k:s dije a Illis hijos que cuando me muera. Ille lugar. con mayor a m enor nivel d e organización políTica y social.
crcrnen y me Ir':ligan mis ccnizas a la plaz<l. acá quiero estar acá Establcci relaciones enlre esas iniciativas y eST!'âlegias y algunas
donde CSIlLve Illuchos allos. (:\buda Sabina. 25/09/200· ~ )
aeciones que se lIcvaban a cabo en la escucla pard lograr con·

302 303
Diana Milstcin
Ser mujer y antropóloga e n la escuela

FINE. Gal)' y SAl'1DSTRO:-"I. Ken[ . Knowing children. Participam


diciones m ínimas de funcionamic nlo y de algún m odo 13m b ién . obscruQ/iO/l wil l1 minors . Sage Publicalions: Londres. 1988.
d e supcrvivcncia c n condiciones de c risis inccsante .
FERREIHA. ~ Ianuela. -Os estranhos 'sabores' da perplexidade.
En olra dimc nsión analítica. eSIa experiencia m e 5uScitó Numa e tnografia com ciranças em j ardim de infânc ia". In:
algunas rcflexioncs sobre mi condici6n d e mujer antropóloga cn CARlA. Telmo H . (org.). Experiencia ernogrófica em Ciências
un cspacio social con fu enc presencia de m ujcres y d e nírios . Sociais. Po rTO: Edições Afrontamento. 2002 .
Experimenlé en carne p ropia la sensación de vulnerabilidad GUBER. Rosana . Lo ernografia. j" 'érodo. camp0!J reflcxiuiclod .
que sienlcn mUC/1as veccs las mujeres clocentes en la escuc la. Buenos Aires: Norma. 2001 .
ante la presencia de olras mLJ.jcrcs que OSTentan poder sOSlc nido JAMES. Allison. JENKS. Ch ris e PROLfI'. Allan . TI1Corizing
por grupoS asociados ai poder polítiCO. ajcnos ai ám bilo escolar. dlildhood. cambridge: Polity. 2004 t 19981·
Esto m e pcrmili6 idc mificar en c l período inicial de mi Irabajo M/\SSOLO. I\lejandra. "EI espacio local y las m lticres:
de campo algunos de m is temores e inseguridades y utilizarlo s PoI) reza. paniCipac ión Y empoderamiento en La Aljaba"
In: Revisra de Esludios de la J\'lujCr . vol. VIII . Santa Rosa:
para alimentar positivamen te mi trabajo . Fue asi que p ude ac·
Universidad Nacional de La Pampa. 2003.
ceder a ámbitos ele la vida social por afuera de los limites que .
MA ITHEWS. Garelh. "/\ c riatividade no pensam ento filosó fico
d e u n m o do u Olro. m e hubieran sid o impueStos si aceptaba la das crianças". In: KOHt\ N. Waller Omar y KENNEDY. David
pro tecCión de las rnujcres que aCluClban en polilica. (org.). Filosofia e infância. Possibilidades de um CIlcomro. VaI.
La condición de mujer. en lugar d e dcbilitarme. m e fonale· 111 . pelrópo lis: vozes. 19 99 .
c i6 cuando descllbri la p roxim iclad de los ninas. Construir con M1L5TEIN. Diana y MENDES. Héctor. La esClleIa en cl CllCrpO.
ellos una relación horizontal. diferente ü la que tc nian con las Esludios sobre el orden escolar !J lo consrrucción social d e 105
alumnos en escu e/as primarias . t-.·ladrid: Miõo y lJávila . 1999.
m aestras y con las adultas de sus familias . fu e muy difícil. p era
inconmensurable para mi c recimiento com o antropóloga c n NESPOR. Jan. 1bnglecl up in school poli/les. Sp oce. bodies.
O/lr) signs in lhe educo,iOl1u/ p rocesso New Jersey: L<:l\ovrence
tan to pude desnm uralizar los roles interiorizados de maeslra
Erlbaum ASsociates. 19 97 .
y de madre evitando de eSte modo la c reencia cn la supuesla
QUINTEIRO. Jucircm a. "t\ emergcncia de lima so ciologia da
familiaridacl ele lo rcaUdacl escolar. 0
infância no Brasil" . TTaballlo aprescnwdo na 26 Reunião
t\ nual da .'\ NPED. Poços de caldas. 5 a 8 ele oLllubro d e 2003 .
Referências bibliográficas Disponib le in hltp://w"vw.anpCd.org.br126/tpgTI4.l1tnl
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Essex: Barnardo·s. 2004.
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farmworkcrs 'elll11cir hislories . ToronTO: Unle. Brown and
company. 1993.
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REVt\:OSO. Carlos (comp .]. El surgim icmo d e la amropología
posm oclema . Barcelona: Gedisa. 1992.

305
304

"
capítulo 11
_. I • • _

Ritual de iniciação:
Quando o cam po euoca o próprio
II'I o bjeto atraués da experiência
'I
I
i!
Pa/fícjQ de Araújo Brandão couro

t\ emo/agia supõe duas viagens . das qtlOiS (I primeira deue


teuar.nos ao outro. enquanto (/ segunda impõe trazê·Io
para j untO de nós. o mais p ossiuel viuido. /la sua diferença
e humanidade. por(] que posso servir à compreensão
e Qcciroçào conslnlliu(I d essa m esma humanidade e
diferenças em nós. Por isSO. Ia/vez haJo em cado ernogrofla
um qUI! de inicjoção. como d esejava Griaule.
1~ I EU.O . ] 995: 5 1)

Inrrodução
presente capitulO rem por objeTivO enfocar a experiênCia

O que p ropiciOu a escolha ele m eu objetO ele csludo para


iJ lese (Ie doutoramento *0 direiTo ao lugar: situações
processuaiS de conflito na reconfiguração social c tcrril0rial d o
municípiO de uacaré _ 8 /\" . ESta escolha deu-se a partir de "uma
experiênCia- vivenciada no própriO campo. sem que cu ainda
pudesse imaginá·]o como tal. Digamos então que o capitulO
aboTcla uma condição de -pré·campo·. ou seja. aquilo que noS
despena e mobiliza através da inspiração. irllerferindo e m esmo
determinando nossas escoll"laS no que diz respeito ao objelO
Ritual de inidilç.10 Patricia de Araujo Brandão Couto

de eSludo. Sendo assim. corno tud o que ganha semido e por de que a experiência Tem u m Significado. e o aspecto prátiCO
algum privilégio faz-nos fluir de algo a algo. me proponho are. indica a imcraçâo com os ObjeTOS. seres ou pessoas. Logo. o
fletir solJre a seqüência de eventos que se const ituíram como que diStingue uma experiência corno eSTé tica é o fa to de que as
um acontecimento diferenciado, despcnando o meu olhar e tensões e excitações responsáveiS pela dispersão inconclusiva.
proporcionando-me eSI(l iniCiação. neste caso. convergem de moelo cumulativo para algo que se
finaliza (ibid: 249·252).
IO conceiro de experiéncia como referência para Assim como J . Dewey. Wilhehn Dilthey. segundo Victor l ur·
! a construção do objeto ner. também observa a mesma Clistinçâo enTre o que considera
! com o mera experiência e lima experiência. ,\ mera experiência
i Em MA ane como experiência". J. Dcwey faz uma p recIosa adquire sua fonna aTravés da consciência como uma experiênCia
J diStin ção entre o que é o experiênCiQ em si e o que vem a ser individu al no tempo fluido: a segu nda. na qual estamos parti·
lima experiênCia. A experiência ocorre em qualquer processo culannen te in teressados. re fere·se a uma articulação imersu b·
de imeração "da crimura viva com as coisas que a rodeiam", j etiva da experiência. com começo e fim. porém Iransfonnada
, Nessa relação do "eu com o mundo", emoções e idéias fazem em expressão. l\5sim . pode ser definida como aquela que lem
emergir a imenção consciente. mas as cQnSlamcs dispersões "um p rocesso estrutu ral. ou uma seqüênCia Temporal. consti·
:1 presentes na vida de qualquer ser fazem com que esse tipo Tuíd a aTravés de distintos estágios. nos quais cada um envolve
de experiência se caracterize por sua incomple tude (1974: um grande repertório de pensamen tos. desejas. sen timentos e
247). "Há começos e cessações. m as não há genuínos inícios ações que se interpenetram em m u itos níveiç ( 1986: 35). I
1I e conclusõeÇ (ibid: 25 1). Edward Bruner. ao re ferir·se ti concepção de experiencia
Já O que é por Dewcy quali fica d o como uma experiencia. em W. Dillhey. destaca a seguinte rellexão do autor: " .. ,\ rea·
:1
defi ne·se por urna unidade referida ti p ropriedade dom inam e lidade exiSte para nós somente nos fa tos da consciéncia que
que lhe confere seu nOme . Tem corneço. meio e fim. num nos são transmil idos através da experiência" (DILTI-IEY apucl
fluxo que vai de algo a algo. diversificando·se pela sinuosida. BRUNER. t 986: 4). Desse modo. quando falamos ele experiên·
de de suas fases sucessivas c apresentando·se em variados cias. devemos incluir não somente ações c sentimentos. mas
matizes. AS pausas somente poruuam a qualidade do movi . também reflexões sobre essas ações e senTimentos encontra·
memo. evitanclo . desse modo. a "diSSipação e a evaporação". das em nossas expressões. ASSim . a interaç[lo entre experiên ·
Tarno pOde se dar em aContecimen tos o rdi nários quan to cias e expressões forma um circulo hermenêut ico. posto que
extraOrdinários (jbid: 248). "experiências eSTruturam expressões e expressôcs eSTruturam
Sejam de ordem p rática. intelectual Ou artíStica. os acon. experiênCias· (BRUj\;ER. 1986: 6).
tecimentos possuem uma qualidade esté tica. pOStO que sem· Como podemos observar. seguindo a mesma linha de
pre cumprem a curva clrarnática que prOmOve o acabamento pensamento de W. Dilthey (apud TURl'\lER. 1986) e J. Dewey
de uma experiencia até torná·[a complc ta e cmocionalm ente ( 19 74). tanto V. l t lmer ( 1986) quanto E. Bru ner (1986) ressaltam
una. Se as emoções consolidam uma experiencia integral por
proporCiOnarem unieladc qualitativa a materiais externamente
díspares e dessemelhantes. o aspecto intelectual nomeia o faTO I Tr<lduçõ".lo da autora.

)08 )09
......
- < Ritual d e inici.lção Patrícia de Ar,l1Jjo Brandão Couto

o significado valoraTivo da experiência cnquamQ una p ara o 2 Da condiçao ele uiajanle à condiçaO de IL/(is /Q
Ira tJalho 3mropológico. apontando. d este modo. a impo rtância
de trazermos à lona o processo constitutivo da experiência CI· Em Tris les Trópicos . Lév j·Strauss imroduz seus relatos
nográflca posto que. ao apresentarmos someme os resullados. de viagem com uma frase impac tante: ~Ode io as viagens e
ficam excluidas as tensões. os dilemas e os conflitos pelos quais os exploradores e eis que m e preparo para contar as minhas
passamos até chegarmos a um resultado clefinilivo. expediçõeS" (LÊVI-STRAUSS. 2001 : 15). Para seus leitores.
Segundo a rc llexão de J. Dcwey, no obrar an iSliCO, o ar- esta afinnaTiva revela·se no minimo surpreendcnte. se consi·
tisla incorpora a si próprio a aTiTude do que perceb e enquanl o derannos que a I\ntropologia. em sua perspecTiva clássica . ao
trabalha. ao passo que o imcleclual concenTra-se nos resulta· tomar.se reconhecida por sis temaTizar a pesquisa ( Ie cempo
dos 11974: 262). Por que emão não conciliar tais d iferenças? tCUFFORD. 1998: 23·25). quese sempre exigiu de seu s profis·
Aprecio o work in progrcss das artes e ereto que a antrOpologia sionais disposição para o deslocam enTo e para o enfrcntamcnto
da experiência. inspirada no pcnsamcnlO /lcrmeneulico (te de situações desconhecidas.
I,-vithelm Dilthey~ c propOSTa por ViCTor Tl.Jrner. (lá margens p ara Sem querer afrontar o grande anTropólogo. (Ie minlla parte.
Traçarmos um camintlo similar. sempre gostei das viagens c de suas possibilidades explorató'
A escolha do Obj eTO (te eSTudo que será apresenTado resulTa rias. Beneficiada como herdeira das conquiStas feministas dos
de um curioso inicio. altlcio a m eus propóSitos. quando alguns anos 70. pude incluir em meus projeTOS pessoais "a condição
valores pessoais foram pOSTOS à pro va e CnTraram em ebuliçflo do aventurar·se": um problem átiCO projeto para o modelo hege·
aré produzirem um significado. Esse Significado TratOu de acllar m ônico de trajetória feminina das gerações anTeriores .
O própriO cam inho. Ouindo de algo a algo. ar1iculamlo ·se de t-••Toclli1eira na adolescênCia. a Bahia foi. para mim e para
forma inrerSubjeriva através desta exp erienCia emográfica que. minlla geração. um território de vaSTas em oções e aventuídS. Fiz
sem sornt) ra (IC duvidas. abriu uma p orra para a estruturação longas caminhadas em suas praias deser1as. acam pei em po-
das etapas processuais do dOutoramento. ConsiderO o presen te voados reTirados. siTuados cm cenários paradisíacos. nos quais
capitulo um exercício . no senTido (Ie recapiTular o momento da n cm sempre a b eleza dos coqueirais podia ocultar as dificeis
., iniciaçào que m C levou a construir este objeto para dar proso condições de subsiStência da população litorânea. A disponibi ·
seguim enTo a eSTa experiência. lidade de tempo. a necessidade de poucos recursos. a curiosi·
dacle e o estado de espírito eram dispositivos fundamentaiS para
superar as dificuldades e desfrutar dos prazeres proporcionados
I pela "experiência do estar lá- (GEERl-L. 1988) .
2 NO ano de 1980. VICiar Turn er c Bárbi.lm Myerhorf organlzardm um simpósio Digamos enlào qLle. na condição de viajante "alternativa" e.
!I na ,\merlcan Am hropologlcal ASsoci,ulon. com o propósilO clc (liSCUI,r o que
foi Cl1It'Io denominado com o iUUJopologia da cxpcricncia. IIIUlo. incklsive. porTanto. oposiCionisTa confessa à "careTice do turismo'. conheci
do cvcwo. IX)( furldarnemar-S(; nos pnJlcípios IlCrmcnl.'Ulicos de w. Odrhey.
dlíercnCian<IO'SC dCSIa fOlOllJ c!os p rincipios organizadores do fUllciOnalls-
a Ball ia, na década de 1980, e as "outras Bahias- que fo ram se
mo·c$rrururil l o(lOOoxo. ainda cnráo. l lilSl<lnlC c m vog<l. Como resullanh! <la formando aTé a primeira m etade da década de 1990. quando dei·
rcncx;"Jo pmduzlc1i.1 dureln!C o referido simpósio. foi lançado. pel<l primeira
vcz. em 1983. o livro ' nlC Amhropolo~W of ExpcIlCncC'. o rganizado fX.Jf xel de freqüenTa·la. talvez seduzida pela encantam ento de OUtrOS
VIClOf l \Jmcr c Eduard Uruncr. ,\ colcl<'Inca rcúne <.IltlgOS dos confercncisras. sítios. mais próximos e convenientes ti recenTe vida faf'niliar que
para Cl1<lr. dentlc eles. H<.:niJlo Hosal(lo. FrcdcriCk. l\.1mcr. Edllard I3runcr c
Clilfor{1Gcclll. II3f'l.UNER. 198G: 2·3). se renovara com o nascimento de meu filho no ano de t 994 .

310 311
Ritual de iniciação Patricia de Ar.lujOllrandão Couto

Anos depOiS. durante o verão de 200 I . enquanto finalizava contrarempo na antevéspera da panida impOSSibilitou m inlla
minha dissertação d e m estrado. J trancafiada em casa. à sombra amiga de viaj ar. Ela aind<:l tentou demover·m e da façanha (Ic
do calor de 40 graus da cidade do Rio de Janeiro. sofrendo com partir sozinha. mas aquele incidente rornara a aventura ainda
o desconfOrlo da alia tem peratura e (lo isolam ento necessário à mais atraenre e desej ada. TCilvez refugiada no samuáriO de mi o
reOexão. fui acom etida por um breve delírio que m e transporlou nha individualidade, eu pudesse fazer novas descobertas para
repentinamente p ara o frescor idilico dos coqueiraiS baianos. A além da paisagem que prQOJr'd va.
I)risa deste pequeno sobrevôo nostálgico renovou de lal modo Embora nâo viajaSSe sozinha há muito rempo e estivesse
meu ânimo frente à monástica tarefa, que ali m esmo fi z um paCtO um pouco tensa com a Situação pelO falO de ser mulher e estar
comigo: asSim que realizasse o rilO de passagem da -(Iefesa". só nesra empreitada. a cidade de Salvador acolheu·me caloro-
arrumaria as m alas e p artiria "back to Bahia-. samente. AOS poucos. a rens::lO foi dissipada pelo aprendiza(lo
Em jUll10 de 200 I . eu já p odia cumprir minha "jura secreta" anteriormente acumulado tanro nas Viagens de avemura quanto
c retornar àquelas p aragens. Uma amiga dos "velhos tempos naquelas exigidas pelo Irabalho de campo que já fizera . Con·
(Ie m ochila" se diSpôS a participar da nova empreirada e. com o forme comprovava m inha experiênCIa em tempos idos, quem
se enconlrava mais arualizada em relação aos ro reiros baianos. viaja 56 p ode e51ar m uito bem acompanhado desde que se
sugeriu que fôssemos para [!acaré, um lugarej o que ela conhe, sa1isfaça com as "práticas de si" \FOUCAULT. 1985: 69) e com
cia desde a infância e onde sua irmã ora residia casada com os encanramemos da socializaçãO necessária àqueles que se
um ex·surfisla carioca. que lá aportara JO anos antes q uando locomovem nesla condição.
viajava seguindo o "faro das ondas". O lugar m e fom descrito Em ourras palavras, à medida que recuperava minha au·
com o paradisíaco e ain( la "fora do circuilO rurísrico". Embora nilO toconfiança nesse tipo de siruação. as coisas iam ficando m ais
conhecesse nenhum recanto da Bahia próprio para a prática do fáceis. Afinal de con tas. era corno andar de bicicleta: uma vez
surf, fui compleramen te sedu zida pela quimera promelida. que se aprende, não se esquece. Mas SaIVCl(lor. cida(le que eu
Sem gran(les planejamenros - e de m inha parte qualquer já conl1ecia. com tOda a complexidade cios grandes cenlros ur·
conhecimento ou informação préVia - m arcam os a viagem para banos. não era o ápice da procur'd. algo mais adianle acenava
I
o final do m ês. Seguiríamos para Salvador no vôo m ais barato em m inl1a direção ... Novamenre o desconl1ecido. EnCOraj ada
I que encontrássemos. onde permaneceriamos por cinco dias .
De lá part iríamos (Ie avião para Ilhéus. onde tomaríam os um
com o primeiro pouso. renovei as (orças e parti para l1acaré.
O c aminllo con firmava o desrino desejado. embora me
ônibus rumo à cidade de Itacaré, localizada a 70 km cIo gran· causasse um certo estranhamcnro. Besringas. m angues e
de cenrro de escoamento da produção cacaueira. TOdavia um coqueirais de um ver(le exuberal1le clavam a exata tonalida·
de da procura , m as no ins tante em que com eçamos a subir
urna serra - que depois vim a sal)er cllamar·se Serra Grande
:! o !ema da disscrwç[IO que me dcu o títuro de mcslre em Antropologia pelo - anunciou ·se para mim uma geografia complc tamenre des·
'I Programa de Pós ·Gr<ldU<Jç:to da universidade Fe(!erarFrlllnincnSt: no ano de
200 1. /Cfere-Se ti Cong,!da da Fcs!a de Nossa Senhora do RostlrJo. rcah7.acra conl1ecida e inesp erada.
.' :!
, lodos os anos. dur<Jnle o Ines de agoSIO. na cid<Jde de Bom Despacho. De um m odo geral. as praias do Eslado da Bal1ia tem por ca·
slluacJ<'l n<'lS cal)Ccell'i.ls c/o rlio Si'io FrancL'ioCO em Minas GeraiS. A Icferida
tliSsel1aç:lo pOStcriOffilCn!e ganhou o prcmio Sílvio Homero 200 I e foi pu- r'dcteóslicas grandes extensões c poucos recones. conseqüentes
hricada pclêl EdUFF em 2003 com o títuro: "Fcsta do Elosário: rconografia c cIo baixo rclevo predom inanre em sua faixa litorânea. Portanto.
poética (te um ritO" (B!1A.....oAo COLfro. 20031.

312 313
• 'I
Ritual de inkiaçtio f'atticiõl de Araújo Brandlio Couto

algo bem diSTimo do cenáriO que se descortinava à minl"la fren te. lmecliaTamente Todos os recusados se tomaram adversá·
1\ MaTa ATlârllica debruçava·se sobre a eSTrada na qual haviam rios do senll or escolhiclo e começaram a xingá·lo. O taxista. ao
sido consTruídas pomes e canaletas para os animais passarem . mesmo tempo em que providenciava seus serviços. disclllia
AS curvas eram acen tuadas e grandes inclinações indicavam a com OS demais. Surprcenclicla pela situação, caminhei para o
presença delerm inanTe de um relevo litorâneo bas Tamc reCOrTa· carro, um avariado Farei Corcel vennelho dos anos 70. cercada
elo. cllfcrenciando·se assim das rcgiões litorâncas da Bahia quc. de carregadores revolTados. No pomo de Táxi. Ilavia somente
no passado. eu Tivera a oportunidade de conhecer. um Outro carro vazio da \\'olkswagen nas mesmas condições
Enquanto adminiSTrava m inha perplexidade diante daquela e idade, um fusca, do taxiSTa rival que liderava a pequena rebe·
paisagcm. ainda podia percel)er que o asfallo era perfeiTo. o Ôni· lião. 1\ discussão era acalorada e agressiva: acusavam o TaxiSTa
bus confOrTável e a estrada hamloniosa. Além do mais. eu havia escolhido de ser "ele fora". de ntlo respeitar as regras e de eSTar
feito reserva em uma pousada pelo Telefone ... Na chegada ele roubando a freguesia elos demais.
ITacaré. um plano incllnado descendo cm direção ao mar, suas Em dCTenllinado momento. observando a balbúrdia. me dei
casinhas coloridas e já amontoadas Sinalizavam OUTras chega· conta da gravidade da siluação: eu eSTava só, numa cidade que
das . Conclui que não estava indo para um "paraiso perdido". e elesconhecia. cercacla por um grupo de homens e adolescentes
sim para um "paraiso encontrado". exalTados, decidiclos a Tirar a forra de uma anTiga contenda. na
Na pcquena rodoviária. ainda em êXTase com a bclcza da qual. devido às circunSlancias. cu fora envolvida. l\ medrOnTada
viagem. fui surpreendida pelo excesso de possíveis carrcgaclores com as possíveis conseqüências daquele conflito cresceme do
para minha bagagem: uma dúzia de homens - aclolescemcs e qual não dominava os cÓdigos. meu inSTinto falou ma is alTo e
adultos de idades variadas - Tentava vender·me seu s SClViÇOS sem pensar uma segllncla vez imetvi. dizenelo·1I1es. em alto e
TuríSTicos . t\ principio. recusei a ofena. pensando enconl rar·me bom 10m. que eSTavam assusTanclo·me e fazenelo uma p éSSima
próxima de m eu deslino. Contudo. quando os próprios Céme· propaganda do lugar. além do mais a escolha era clefiniliva .
gaclores informaram·me sobre a clisTância da pousada. resolvi SurpreendidOS com m inl"la intervenção. calaram·se de ime·
negOCiar elllre tanTas o fertas insiSTenTes: carregaTiam minha mala diaTO e. perplexos. abriram o caminho para que pudéssemos
a pé. em carrinllo ele mão ou ele Táxi? Táxi? passar. Só assim conseguimos entrar no carro c partir.
Um lal senhor alegou que cu linlla uma mala grande e 1\0 sairmos da rodoviária. pegamos uma aveniela um Tania
pesada. que estava longe do endereço de deSTino e que pro· quamo grande para o balneário que havia imaginado. EnquanTO
vavelmen Te . após uma longa viagem. eu devia eStar canSêlcla observava o percurso. pensava em como as coisas haviam
!I clemais para caminhar a pé naquele sol quente. acompanllanclo Tomado proporçõcs inesperadas. Eu não encomrara o peque·
o carregador que tranSpOrtaria meus pertences num carrinllu de no lugarejo que imaginara , jamais havia presenciado lamanlla
mflo. t\lém do mais. a corrida era muiTO ba raTa para dispensar clispu ta numa roeloviária c minha bagagem Também não era a
Tamanho conforlo. Sua argumenlação foi Tflo eficienTe. que decidi simples mochila dos Tempos ele OUlrora. pois. caso fosse. eu
i pegar O veíCulo. FeiTa a escolha. presumi ver·me livre dos Suo Teria salT aclo do ônibus. peclido informações e procurado um
I POSIOS assistemos. Tflo semelhames aos "nanelinhas" do cSTáclio lugar I)em baralo para ficar. já que o despojamento. o gOSTO pelo
Maracanã em dias de grandes jogos. Tamanha a dC!:ioriemação improviso e os parcos recursos leriam orienTado a siluaçâo.
que C3Llsavam à preTensa clienTela.

314 315
Ritual de iniciação PJtricia de Ar.1ujo Brandão Couto

QJ/lando pelo rClrovisor. O taxista perccbeu minha pcrplexicla· errado da praia. se o pôr·do·sOI aCOJlteCia justamente na direção
de e iniciou conversa . Com uma fala mansa e clesprovida de so· contrária. Dial1le de meu embaraço com sua intromissão. enga·
taque, o tal senhor pediu desculpas explicando as circunstâncias. tou novas perguntas: se ell queria comprar brigadeiros. se eu já
Disse que. inrelizmente, era assim: o pessoal da rodov iária não conhecia [tacaré. quando chegara e se preCisava de um guia.
gostaVa cicie porque era pauliSta. aposentado. recém ·chegado. Guia para que? Então ele explicou·me que havia muitos passeios
tinl'\él um tá,<i. um celular e que com seus ~bons m odos" rapida· e praias distantes e seus serviços poderiam ser uteis.
mente conquistara a confian ça dos donos de pou5acla que, cada Enquan to ele falava, fui acometida por um ceno mal·estar
vez mais, o requisitavam para transponar seus hóspedes. porque ali comecei a me dar conta ele que a Bahia romântica
Sua j ustificativa serviu somente para aumentar rneu em · de m eu passado e minha au to·representação sobre a condiçflo
baraço: eu havia sido o pivô de uma situação de conflito em de viajante estavam sendo forçosamente desconstl1Jídas. Equa·
funçao da concorrência enrre os nativos e um morador recenre. cionando·se a perfeição da estrada. o incidente na rodoviária. a
OIJViam ente que a desigualdade na prestação de serviços estava procedência do taxista. a ambi6ncia da praia. com as informa-
preju clicando os primeiros. ASsim corno eu. oUlras pessoas já ções de Deu - este era o seu apelic!o . conforme fui informada
estavam optando por maior supone, em dClrimenro da qualidaclc em seguida - , o somatório resultava numa série de externa[i·
de vida daqueles que sempre moraram ali. dades decepcionantes, uma vez que eu Ilavia prOjetado n este
Meu ponto ele referênCia era a Pousada Navegantes . locali"..a· reencontro o desejo de uma paisagem quase intocada ou pouco
da na Praia da Concha. cujO dono era BetO, o ex·surfista casado ferida pelos embales entre natureza e cultura. O turismo havia
com Ua.~ a irmã da referida amiga que não pôde realizar a em· cllcgado a lIacaré bem ant es de mim ... m as eu tambem h avia
preitada. O lugar eícl bem mais aprazível do que eu esperava: mudaclo de condição. Que condiç~o era esta? Viajanle? T\.Iris·
seis bangalôs. ladeados por um belo jardim com duas suítes la? Apesar da paisagem. o choque era definitivo. cu realmente
c ada. O casal não se encontrava. de modo que me instalei e fui estava caminhando na direção contrária ao [:>6r·(\o·sol.
pegar o rC5tO de sol daquele dia.
" praia. de águas calmas. era pequena e repleta de bares 3 AS condições da experiência:
charmosos em toda a sua orla. Barracas de m adeira. com me· O que Jaz a diferença
sinhas e espreguiçadeiras espalhadas às sombras das árvores.
compunham o cenário dCSCOl1lraido e. ao m esmo tempo. mo· Em seu anigo -From traveler tO touris!: The 1051art of traVer .
demo do lugar. Um certo misto de gente jovem. familias em férias Daniel Boorstin faz uma análise comparativa entre a imagem
e estrangeiros impregnava aquela atmosfera desconhecida na paradigmática do viajante e a figura do turista americano mo·
qual o reggae dava a tônica musical ao ambiente. demo . Embora o autor esteja preocupado com a criaçãO dos
(\os poucos. a agradável temperatu ra fo i baixando e o sol pseudo·euemos nas realicladcs cncantatórias da vida americana.
também ... No final da praia havia um forre. Resolvi caminhar mó sua renexão fornece·nos Sllbsidios suficientes para pensarmos
," lá e no percurso fui al)ordi'lda por um adolescenre que vendia algumas distinções estruturais entre estes lipos polares .
brigadeiros. Perguntou·me porque eu estava indo para o laclo Para Boorstin. o lipo genuino de viajante e aquele que
busca o conhccimento. Tem o principia ativo em si porque se
" Os lIomes <lqlli ci lCt([ns s.'"Io ncricios
empenlla no "ir" que este dcslocamel1lo implica. no "estar" e no

316 317
Ritual de inici;u;jo Poluída de Araújo Br.mdão Couro

"reTo rnar" Trazendo algo consigo. 1\ viagem é concebida com o francesa trauai/. cujO Significado remeTe·se a "traballlo . prO)J[C-
aprendizaelo porque exige a relação com o não familiar e o con- ma. tornlenta". sendo a origem latina da p alavra rrepalium. um
TatO direto com o OUTro cio qual muitas vezes o viajal1le depende antigo ins trumen to de TOrtUra. 1\ idéia ele viagem estaria então
para prosseguir: 6 fonTe de aUToconhecimeoto porque provoca associada à ação laboriosa. tral:>alhosa. incÓmoda. Já a palavra
re·elalJOrações internas produzidas pelas novas e.xpcriências c lourlsl - iniciahnente grafada como lour·isr- dc:riva da j:>alavra lour
exige do viajame uma prcelisposição para a avemura devido aos elo francês. que por sua vez se remeTe à palavra laTina rOrrtus .
riscos eminentes do elcsconhecido ( 1992: 78 ·80) . empregada para elesignar um circulo. Sendo assim. conclui o
Mas esse viaj ante. segundo o aUlor. es tá siT uado no Tempo autor. se fourisl originalmente vem a denom inar o indivícll.lO que
e no espaço como o ViajanTe das antigas viagens. Ele é o prOTél' faz um lour. iSTO Significa que ele gira num espaço delimitado
gonisla elas cxpedições ele descobena dos novos cominemes no e pré·cleterminaclo. no caso. p or um Outro que lhe anteccele: o
século ).,'VI. fornecendo conhecim enTO e inspiraçào. tanto para o agente de viagem (ibiel : 84·85).
período renascenTista Cllropeu. quamo para a prOdllção iluminis. verifica·se. desse modo. uma reviravolta no significado da
Ta do SéCUlO XVIII. referendada nos grandes deslocamentos. Nes. viagem . pois quando o Traoo[ho dei:"a de ser um elemento cons·
se mesmo século. no continente eu ropeu. monarcas exilados. tiTUTivO do eles[ocamcnTo. moelifica·se por compleTO o sentielo
ariSTocra Tas entediaelos e estudiOSOS passaram a cultivar o hábiTO das ações ir. estar e re/omar. Quer dizer. enquanto o viaj anTe.
de viajar. Fosse por necessidade ou para "se tornar um homem como sujeito da açãO. "ia" pard um determinado lugar. o turista
do mundo" . escapar ao T6elio ou buscar o aUTo·aprim oramento. "é condu zido por": se a experiência do "esTar lá" era concretizada
ainda assim o deslocamento implicava em riscos e desconfortos nas relnções diretas do viajante com o ambiente do percurso. o
que. pOSterio rmentc. os aranels tüurs. siSTemaTizaelos no século turis ta. ao servir·sc de in Term eeliários. poupa-se do contato com
XIX. acabaram por elisSipar (ibid: 78·83). a realidade visitaela. Fina[mcI1IC. se o retorno do viajante impli·
DuranTe o Século XIX. com o surgimento elos agentes e cavn no auto·aprimoramen to proveniente de Tais experiências.
agênCias destinados ta organizaçãO de viagens para um número o turista. cnquanto mcro espectador de "miragens culturais".
gradativamente maior de pessoas. com eça a!:õc dGsenllar uma coleciona os anificios dos pseuclo·euen/os que presencia.
outra figura radicalmente opOSTa ao ant igo viajanTe: o Turis ta. Em)Jora a análise bipo[ar ele BoorSTin cncerre viajante c
compreendi elo por Boorstin como o prOtÓTipo elaquele que será turiSta em tipos e Tempos históricos determinados. penso que
o viajantc do século XX. captaelo pelas agências. o turista 6 não devemos entendê·la por uma perspectiva redUCioniSTa . Sa·
definido pelo autor corno um ser p assivo. que segue iTinerários IJcmos que entre um eXTremo e outrO exis te uma gama baSTanTe
planCj3elOS por Terceiros. porque prefere comprar um (Jockage variada de tipos de turistas e viajantes que ora:-;e mesclam. ora
10 tlr a partiCipar das a Tivielacles e prOv!<I(:ncias necessárias ao se sep aram. T~ l como Zygmunt Bauman estabelece a diStinção
deslocamento. Corno um espectador. ele quer desfn.uar do prd' entre sociedode ele prodlllorcs c sociedade de consumidores
zer da avetllura. porém se exime elo trabalho necessário a este t 1999: 87·931. para diferenciar a condiçâo de elesempenllo de
em preendimento (ibid: 82·9 t ). nossos predecessores da dita sociedacle m oelcrna em relação
1\ propóSito do esforço empreendido na exp eriência da via. à sociedade aTuai. Boorstin prOCura identificar como o sujeito
gemo BOors tjn fa z uma inTeressante eligressào eTImOlógica das que Viaja é atingido em sua subjetividade pela divisa0 entre
palavras trauel e lourlsl . !\ palavra lraue! é associada à expressão a produ ção e o consumo. EnquanTO a prOdução implica em

318 319
Ritu.lI de iniciação P,ltrícia de Af,lUjO Ur,lnd;io Couto

t;xpansào C, ponamo, em at ividade. o consumo implica na por naTureza um conquiS!aelor. que segue o faro de seu instinto
dispon ibilidade para a recepção . numa relação imediata com a vida como um todo. Sua predis,
Todavia. mesmo levando em conta todas as c ondições fa· posição para lidar com o imponclerável faz com que carregue
cilimdoras da viagem . que surgiram a parlir do século XIX. p ara consigo um a certeza sonâmbula na forma de lidar com a vida.
l3oorslin. o foco está no sujeito e não no entorno. O desloca· po iS enquanto insere as incerTezas em sua conduta. sal)e que
m ento como valo r é o divisor ele águas em sua análise. ASSim. a os demais s0 consicleram o calculável. Como um vêrTice das
const rução da subjelividade daquele que viaja está diretamenTe po laridades dos aspeCTOS subjetivOS da existência. perrnile·se
associada à disponibilidade que se tem pard avançar em direção articular atividade e iX,ssividade. senso de oportunidade e de·
ao desconhecido. ao que está fora de controle. ao risco. à aven· sapego. ccn eza c incerteza. Sua forma de expcrirnCll1ar a vida
tura que. na concepção do aUTor. foi esvazia ela de seu conTeúdo acontece numa extrema fruição entre as externalidadcs e o eixo
ao se transformar no símbolo das exagcradas expectalivas que central do indivíduo. Existem vários tipos de avcnlureiros e o
a socieclade de consumo projeta no inesperada. viajante é um deles! t 971 : 193· t 97) .
Se por um lado a perspeCtiva de Boorslin pode parecer um
tania quanlo fa Talista. por OUTro se encaixa perfeitamenTe em iniciação: Compreendendo O cenãrio e
4 Ritual de
dc terminadas concepções de viagem . Não Ilá como negar o a papel em questão
fenómeno social do Turismo corno o maior fenômeno de deslo·
cam cnTo voluntário da história da humanidaele (&\J....;DUCCI . 200 t : Naquela noite. retomei à pousada bastante confusa com a
8). mas se superarmos a bipolaridade do modelo de BoorSTin. sucessão de acontecirncntos em minha chegada. Por que aqueles
constaTamos que existem muitos Tipos de viajantes e o que os pequenos evenTOS haviam me causado tamanha tormenta? VlctOr
eliferencia são caractensticas como o objetivo da viagem. o tempo Turner explica·nos que cenas experiências ganllClm significado
ele pennanencia fora de casa c o estado de espírito. Digamos. justamente a parlir da prOdução de Cll oqUes "evocativos" I t 986:
cnt;:) o. que a aventura não pcrdeu seu significaclo original. mas 35). Estes clloqUCS S<lO resultantes elo enCOntro elllre os novos
ganhou novos sentidos com a redução das distãncias e dos fatos da consciencia . prOduzidos pela experiênCia. c elementos
ol)stáculos espaciais do mundo aTuai e ainda pode f() zer parte do passadO inconsciente que emergem numa dada siTuaçejo .
do criTêrio de deslocamento ele muitos viajanteS e turistas. Tal encontra provoca·nos ansiedade. uma vez que procuramos
Segundo G. Simmel (1971 I. a aventura. por eSTar livre do a todo CUStO encontrar um Significado para aquilO que nos des·
elo das formas. aelquire um significado em si prôpria porque. Tal concerta e do qual ainela não temos consciência efeTiva.
I! como os sonl"los. foge ao sentido ordináriO do cot idiano . Ê uma Para V. Tumer. é justamente nesse momenlO que a expe·
forma Temporal com expressão precisa em seu prôprio sentido. riência difercnciaela. C que por sua vez qualifica a experiência
Como eSTá orientada para O presente. tem um significado imo alll ropológica. começa a ser produzida . EStrlllurahn ente o
plícito. independente do antes e do depOiS: mas se o futuro ê passada pode ser real. mltico. moral ou amoral c. perante a
obliterado pelo momento. como acont ecimenTo ext raorelinário. nova exp ericncia. surge na forma de va lores que nos bombar·
a aventura 6 incorporada à existência . deiam. provocando discórdia pelo falO de eSTarem elispersos e
Própria das experiências particulares. Cl aventura implica em desTiluídOS de significado. Este significaelo será produzido ;)0
condiçócs peculiares ao espírito. Sendo assim. o avemureiro é longo ele um processo quando ICllI amos estabelecer as rela·

320 321
Ritual de iniciaç~o Pillrióa de Araú jo Brand.kJ(ouIO

çócs cnrre OS valores aleaToriam cntc acio nados no momcnto ou ti própria escollla desla condição para uma viagem de lazer.
dO clloque inicial ( 1986: 35·36) . não tlá como negar que. prinCipalmente em lugares pequenos.
Na no ite de min tla c/legada. enCon trava·me atordoada a inelagação a1l1eia. m esmo silenciosa. é constante : Por qLIC
com a série de eventOs sucessivos qL1e me chamaram para uma l1lultlcr viaja sozinlla. scm amigos ou família se não está
uma realidade que eu não esperava encontrar. Diante do cc· tlâbalhando? E se está lraba1l1ando e é mulher. por que esco1l1cu
nário inesperado. minha proj eção rom ântica da ~ ta / v iagem~ estC cstranllo o ficio? Se eSlá viaj ando sozinha por lazer. o quc
foi sendo aniquilada ao longo do dia. ao m esmo tempo em está procurando? i\'ão percebe o perigo ou gosta dele?
que percebia eSlar se ndo convocada para um papel no qual Postcriorm ente. quando j á havia feit o amigos em lIacaré.
não csperava aluar! os laços decorrentes da intimieladc cstalJclecicla permit iram que
Erv ing Goffman ( 1999). ao abordar os processos de inte· estas qucslõcs fossem e.xplicitadas. gerando muilas alitudes de
ração social. discute a m ultiplicidade dos pap éiS sociais que prOtcção por pane dos amigos e m esmo de ad venência . para
desempenhamos na vida de acordo com nossas necessidaeles. não anelar sozinha em lugares erm os ou afa.slados j á que os
opOrtunidades e público. Preocupaelos com a impressão que casos de estupro lomaram ·se m ais freqüentes com a cllegada
causam os . de moclo con sciente e com muiTO m ais freqüência do Turismo. após a conclusão da Estrada·Parque ltacaré·Serra
inconscientem ente. acionamos fuI/lime elem en tos quc estab e· Grande no ano ele I 9 98.
leçam uma coercncia expressiva de nossas atitudes e linllas Som ente com o processo cumulativo das viagens poso
de conclUla. de acOrdo com as silU<Jções sociais com as quais teriores foi que pude perceber que minhas represcnlaçõcs
n os deparamos . na localidaele dependiam de varian tes vinculadas à interoção
Ê o que se pod e c/lamar de ~fachad a~. ou seja . um eSlado social. Vollando a Goffman. se um indivíduO é desconllecido.
ritual lcmporário do ind ivieluo. o qual p oele inclusive apresentar seus otJscrvadores podem buscar. em experiências anleriores.
um conjunto de eqLlipamenros assinalaclores da repreSentação referências que o lipifiquem num determinado papel ou repre·
si tuacional t i 975: 9·34-). f\ lilUlo ele exemplo. provavelmente se senwçf\o j á conllecido. portanto eSlereoripado ( 1975: 1 I).
eu estivesse com uma m ochila nas costas. não seria abordada Na situação em qucswo. indcpendentc de minlla própria
peJos carregaelores da rodoviária. pOiS. conforme pude ob ser· projeçflo moral. em que m e pensara n a condição de viajan.c.
var poSteriormente. a freqüênCia ele m ocll ileiros na localiclaele eu estava inserida num cenáriO já explorado pelo turismo no
era grande c não faziam parte ela clientela. Pon amo . cstavam qual os alorcs com OS quais estava inlc ragindo esperavam qu e
acostumados a este perfil de consumidor e m inha mala parecc cu desem penhasse o papel de turista independcmc de mintla
ter indicado out ras posses e imenções. von tadc. Assim. de forma imposi.iva. a cxpecta.iva dos empre·
Já na situação em que fui ab ordada p or Déu na praia. cu endedorcs locais estava sc SObrepondo à minha. e a pressão
cstava sozinha e céJminhava na direção con trária à elireçflo de des.as cxternalidades. de fonTta ainda subjeliva. acabou por clc ·
loelos os -cSt range iros~ qu e iriam assislir ao pôr·do·sol. para um sen CaelC()Tum oulro tipo ele inTcresse por aquela realidade. que
lugar anele não Ilavia ninguém . Por m ais que tenlla aprendido a em princípiO eu não esperava manifCSlar. ou sej a. resgal0u·m c
relevar os olhares curiosos. desaprovaclores ou desconfonantcs. cio ielílio e da condiçãO de antropóloga em férias para a re tlexão
nlUilas vezes intrínsecos às condições do trabalho ele campo sobre as condiçôes da diferença.

322 323
Ritual de iniciação p,l[r1ôa de Araú jo Brolndoio Couto

'" 1\ experiência anlropo/ógica e slIa p erspecliuCl licos. por um largo período ele tempo. atravessou a discip lina
com relClção CiO Ilirismo anrropológica. estabelecendo·se deSTe m odo urna oposição ra·
dical enrre a experiência de viagem do antropÓlogo e do turista .
Gr~ndes Ou pequenas. m elafóricas ou reais. as dislâncias ..\inda que de modo inconscienTe. minlla posição na experiência
sempre fizeram pane do universo anrropológiCo . Para c itar 50- aqui narrada não diferia muiTO dél perspectiva d e Lévi·S1rauss.
meme alguns exemplos clássicos. Bronislaw ~lalino\Vski inau - Duranre minha eSlaclia em lTacaré procurei elar vazão a eSla
gu rou na Anr ropologia a observ ação parricipame intensiva com renexividade sobre o processo de interação elllre m eus v alores
sua VCnlurosa viagem às Ilhas Trobriand; Mareei Griaulc. em pessoais ~de viaj ante" c ~a nr rop6loga" e o papel de "Iurisra" no
suas expedições ctnográficas. invemariou a Âfrica subsaariana qual fora soliciTada a aluar. Em princípiO. eu pensara na viagem
p ara pOSlcriormCnlc concenTrar-se nos Dogan : Evans·Pritchard. com o urna poSSibilidad e d e resgarar minha condição de viajan·
em condições oc[vcrsas. permaneceu entre os Nuer on ze me· 1e e. por que não dizer. ele avemureira. m as no passado eu só
ses para realizar sua etnografia (CLlFFORD. 1998). Podem os andava de ônibus, a pé ou de carona: acampava ou dormia na
etizor qllC. a partir da primeira m eTad e do século XX. o lrabclJllQ casa cios amigos que fazia pelo caminho ou . quando muito. em
ele campo . ao cons tiTuir-se como método antropológiCO . fez da pensões baratas. Dosla vez eu viera de avião para Salvador. linha
viagem UIll recurso essencial da c onslrução e tnog ráfica. Um reservado um quarTo numa pous3c[a ele ltacaré e já acumulava
deslocamen to que implica no ir. no estar e no re tornar. em minha bagagem exislenc ial muitas oulras Situ ações. condi·
Diante ela própria l1istória d os alllropóJogos e da <llllropo. ções e papéiS. Ent reTanro , n8.o havia paradO para reflet ir sol)(c a
logia. pernlito·mc pen sar que Lévi·Slrauss. ao iniciar TriS tCS condição d e turista. nem tampouco 118via m e in1 eressado sobre
Trópicos com uma fra se tão impactante. provavelm ente cstava os impactos causad os pelo turismo .
c labori:lrlclo suas experiências d e viagem em oposição à dita 1\ 05 poucos p ercebia que os redutos ~ idílicos" dos viajan ·
frivolidade comum ck"lS atividacles turísticas. quase sempre caraç. tes "ahernaliv o s". rastreados pela col)iça empresarial. lama·
tc riZ8clas por um conl1ccimel1to superfic ial dos locais vis il<)clos. mm·sc u m mOle para o clesenvolvim enlo tu ris ti co~ em grandes
Pelo m enos é o que demonstra nas páginas seguintes ao crit i. dimensões. apresenlando ·se. a partir dos anos 90. com a nova
car o l1ábito comum. 'fio em voga à época. de promoverem.se roupagem d o "ecoturism o." da sofisticação e dos preceitos
I apresentações glam ourizadas sobre as viagens explora tórias: ambienralislas. Numa posição reativa. ten tei entender a ordem
d aquela equ ação aTravcs dos elos sociais que procurei esta-
Ser exptorador. agora é um ofíciO; ofício que nào consiSTe. con lO se
poderia acn.:ditar. em dcscol)rir ao cabo de anos de csludos, fa10S I)elecer durante minha eSlada que êJcalJou sendo prorrogada
"Ié elllf.lO desconhecidos. mas em percorrer elevado numero de para um 10lal d e 15 d ias.(I
quilôm e1ros c em acumular projeções de fOl os ... gmças às quais
se encherá urna sala. \lúrios dias seguidos. COlll uma n lu l!icl;~I O
d e ouvimcs para quem as IriviaJieladcs C IJ'Jnillicladcs parccerf.l0 5 Vcr o CSfUOO rcati1.aCtO por K. KoffaK f t 0831 no Qual o autor analisa as twns·
ll1i!agrosam cmc 1ransmudadas em reveliJçõcs. pCl3 úniça r3 ZÚO fOml<lçÕCS ocorridos rI<l illcleiil do,; Arémtx:pe. 8i\. com il chesado di! es trada
ele..: que. em vez d e produzi·las em sua Terr<!. seu aUTor as terá e elo turism o .
ü !';CSte período iniciei uma pequen;) Invcs ttgaçt\o sobre <1 tliStóriil dil IOCi!ti·
San tiflCi.1 elo por um pc rc urso de 20 111[1 quilorncrros (200 t : J fi ).
dilde. f'o l osslm que vim <l S<lbc r que o município. si Tuado num dos úl1illlos
redulos d<1 Mara AtlClnlica. fora um imponanrc porto de cscO<lmc nro da pro·
eluç.1o cucaucira du sul do cstueJo da lSiltlia entre os i!n05 ele r 920 a T960.
[;>çJ(lc·sc dizer qllC a avaliação negat iva d e Lêvi·STmuss com
A poputaçtlo traeliclonut toC;}t era composta por ribcirint"lOS. pescadores e
rc l aç[l o~) q ualidéldc da cxpericncia cios empreendi m c ntos turís- aSricullores de SlIlIsistênc ia. que VIViam em relativo isolamento por decoro

324 325
Ritual de iniciação Patricia de t\raújo Brandjo COUIO

6 Consiclerações finais: Fluinclo de algo a alga meu interesse pela queSTão linha alguma pertinencia anTropoló·
para cons rruir a objero da pesquisa gica. Emllora tenha feito ressalvas quanto à pOSSibilidade elesTe
inTeresse se dispersar em algo infrUl ifero. e m esm o quan to à
É cerTO que as viagens Trazem em si o dom da renovação. posição deste tema na hierarquia dos objetos ele estudo da dis-
Illas nem tOdas nos proporcionam "uma experiência" diferen. Ciplina antropológica. sai de seu bureotl com um livro de Hans J.
ciada. Digamos emão que eSIa viagem condu ziu-me à reOexão Kneebe sollre Sociologia do l\.lriSmo e um estudo precursor ele
sobre uma temática amropológica que cu jamais pensara en- K. KOllak sobre os impaCtOs do turismo na aldeia de Arembepc.
quanto lal. Como nos velllos Tempos. eu eSlava em busca de localizada ao nOrTe cio eSlado da Bahia.
uma experiência ~au l ênlica" . cnlrClamo meu oltlar Ilavia muda- I\S o llscrvações cio professor foram asseni vas. Como
do, seja devido ao processo cumulativo de todas as experiências eu havia m e eleelicaelo elurantc o mestrado à área de Ritual c
vivenciMas. seja devido à própria percepção antropológica que Simbolismo. portantO. uma seara completamenTe diSTinta da
já naquele momento se consolic!av(l. hipólese que agora aventava . seria preciso introduzir-m e nas
Betamci da viagem repleta ele questões e curiosidades com reflexões teóricas relalivas ao novo tem a. bem como decan o
relação ao lem a. Procu rei então o amigo. professor e conscll mi· Tar o "excesso ele c mpolgaçâo~. ponderar sobre a diSTância
ro ~'Ia rco Antonio da Silva Mello com o propósilo de conferir se geográfica do oll j etO elevido aos CuStOS financeiros e m esm o
afelivos do projc to e ver o que reslava de tamanho interesse.
rcncla do enttlo baixo valor das rerras lirortllleas e do dificil aCl;5so terrcsrre .
Foi o que fiz . Esperei que o tempo me desse a resposta e ele
Duranre os anos 80. com a quc<la do preço do cacau no m<::rcado interna. confirmou a direção anunciada.
CiOfk:l1 devido à praga da vassoura de Bru.xa nas plalllaçÕCs. a l."COflornia do
csra(lo el1lrou em colapso. provocando o endividaml.'f1to dos faz<::ndeiros Com o novo OlljCtO inicialmente pensado corno um ~estudo
e o desemprego de grunde pane dos rrallall1OC1orcs rurais. Dentre as novas sobre o impac to do turism o no municípiO de Itacare". prestei
dllcrrizcs govcmamenrais para SOlucionar a Crise. fOi criado. em 190 I. o
f'rO<lc rur/ l3ahia - Plano de Descrwoh'irnenro do nJfislllO da Bahia - com o concurso para o doutorad0 7 no ano de 2002 . Desde entao.
propÓSitO de desenvolvcr O TUriSmo no esTado. redcscnhando·o a parTIr de fi z trés viagens" ele campo à localidade, com o propósito de
uma pcrSfX.'CINa turisrica e cmpresarial. 1.'f11 que lIacare Siruou·se rk:l enrt'lo
denomin.ada COsia do cacau. Em 1993 é im planrad.."l a Área de p'I'OH,:çao ( Ielimitar os conTornos dt) pesquisa. uma vez que o fenômeno
AmlliCnml ,APA) lIacaré·SCna Grande e. em 1996. através de um fLll<.tlCl;). turístico é em si bastante com plexo e dinâmico para tentarmos
menTO do Banco Inrcrarnencano lJc Desenvolvimento. inicia·se;:o COllSlruÇtlO
da Esrmda Parque Uhêus·lr<JCar(: Q\IC será conchJida em I 998.COnstruida com dôr conta ele sua tOtalidade.
iil"''IlicI<lclcs a IJriori l."COrlÓmicas. a esTrada rapid<rrncnre atingiu SCu o bjetivo.
poiS. se anrcs lIacaré era frl."QOenrada somente por veraniStas baianos.
l al como nLtm work in progresso as experiências üOJmuladas
viajantes altemativos e SUrfIStas em busca de paraisos naJur..ris e ondas ao longo da constn lçâo cio objelo me levaram a considerar como
pcrt'd t<ls. a panir de enrao. est<l tocalidade tornou·se acessível naclonat e
,
.,,
inrernacionalmente. A facilidade de ncesso. além d e poSSibiliTar a plescnçn
de fluxos populacionaiS sazonaiS. acarretOlJ uma OIlda mlgrmórta em ellrcçt\o
problemas rclevantCS c convergentes ao lema: a) O turismo como
modo ele reorganizaç[lo Simbólica e m aterial da localidade: ]l) t\
ti regltlo t<1I1!O por panc elas populações ci rcunvizinhas em IXlsca ele novas
oporrunidaeles econômicas. quanto por pane de pequenos c mflresârlos e questão aml)ierual. dcvielo ao impacto de sua legislação c elas
grandes cspcculadores imobiliáriOS vindos da regiiID sudeSte. Além rUsso.
cinco assentamentos foram efetivados na regl<"lo dur.:mrc a eléca(ja (Ie 00.
Como poelcmos observar. urna con iigulaç<1o social. cconómica. <lmblcnwl
c espacial bem mais hcrcrogcnca se com parada ao pcriodo anterior à clla. 7 ""o Progmma elc pÓs·Gr<lduaçao em An tropologl<r da Universidade Federal
Çao da APA c ti construção da estrada. quando o município se encontrava Fluminense sot)re a orienmçao de Marco Antonio da Silva Mello.
em rel<llivo isolamen to . Tamanha complexidade despcf10u atnda mais meu 8 t\ prirneim cleias 1:111 janeiro ele 2002 quandO Ix:m l<oncci por trinta dias na
Interesse sobre a tClllatlca do rurismo. produzindo uma nova coftscil:ncia localidaclc. a segllllda em selembro de 2003. por um tora! de 15 dias e a
com relação às suas difc/Cntcs dimensócS e sentidos. terceira em 2QO.1. (lur<lntC o IneS ele fevcrelfo .

326 327
<,
Ritual de iniciação PJtriciJ de Araújo Urnndão Couto

ações reguladoras do governo local. estadual e federal na viel", BOORSTIN. D. "From Iraveler lO 10llrist: The 10ST an of TraVer.
social e económica do município: C) A relação entre Local e Glo- In: The image: 1\ guide 10 pseuclo·evellls in l \rnerico. i\"ova
York: FirSTv illlagebooks Edilions. 1992.
bal. por lornar possível a comprecnsào do processo ele imcração
entre a rea lidade loca] e os fmores eXTernos que vêm comrit)uindo BRt\i\U.Ã..O couro. P Feslo cio Hosário: Iconografio e poéTica
de W l1 rira. Niterói: EdUFF. 2003 .
para a lransfonnação do município . AS referidas questões estão
sen(lo analisad as a parlir das arenas p ú blicas (CEFf\l . 2002). -:;-:-,.,-,=' Iracaré: Uma onólise sobre os processos sociais
de mudança em curso nesre lfiunicipio sob a persp ectiva
conSliluidas pelas associações e pelo Conselho GesTor da t\P,\ das asso ciações e do Consel/lo Gesror do A P/\ /Iacorê-5erro
llacaré-Serra Grande (BRi\i" lDÃO courO. 200·~: I ). Grande. Projeto para Bolsa·Sanduíche na Un iversidade de
AO m e remelcr às viagens que fiz p ara o campo. posso Paris X Nalllerre. Programa de Pesquisa CAPES·COFECUB. Rio
vis[uml)rar o aprendizado de cada um a deJas com o etapas pro- de Janeiro: Universidad e Federal Fluminense. 2004 . mimeo .
cessuais elesla cxpericncia que espero Tornar-se "uma" no I1n(ll BRUNER. E. (\'1. "E:..:periencc and ils e:..:pressions" . In: TUHNER.
de 2006. Da exall ação à anguslia. queStiOnei·m e em diversos V c BRUNER, ~.1. (org). Tlle anrl1ropology oi experience.
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CEFAI. D. "Qu·csl·ce une arene publique? Quelques piste pour
que lidar nas condições ele viajanTe. lurista . eSlrangeira. amropô·
une approcllc pragmaTiStC". In: L'llerirage (lu pragmOlisme.
,, Ioga. mulller e m ije. j á que m eu fill10 é direlamenle afeTaelo pelos conjlirs d'urbaniré cr cpreuve de Civisme. Paris: Presse
deslocamenlOS implicados no Iral)81110 de campo. lenelo inclusive Universila irc ele Francc. 2002.
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PessoalmenTe . ao reflelir sobre os diSTinTOS papéiS. lenlO J. R. 5 {org). / \ experiênCia ernogrójica: l \nlfopologia e li/eraruro
idenTificar suas partiCularidaeles. mas não c reio que no momenlO no século XX. Rio de Janeiro: UFRJ. 1998.
das ações que nos levam a fluir ele algo a algo. Tenha clomínio DEWEY. J. A arre como experiência. coleção "OS pensadores".
sobre os mesmos. Sim ullaneamemc. de macio illlu itivo c refle:..:i· São Paulo: . .\bril Culturdt. 1974.
vo. prO<..1.ITO idenlificar e respeilar os côdigos necessários a cada FOUCAULT. M . t-lis rório da sexualidade: O cuidado d e si. Hio
sÍluação p ara dançar na corda bamb a das e:..:igcncias. mas (; de Janeiro: Graat. 1985.
GAUDENZI. P . "Evoluçuo do economia do Itlflsmo no ao/lia".
'i, claro que as e:..:pcricncias acumuladas regem os proccelirnel1los.
Deu. por exemplo. de "esTranho" 10rnOu·se m eu gu ia e amigo hllp:// \v\v\v.bahia.ba .gov.br / SCl/panc3. hlm. capturado em
< 12 / 1/ 2004.
c. alualmente. quanelo eSTOU em campo. não me afaSTO para
lugares "ermos " sem meus aliados. GOr-FMAN. E. 1\ represenroçeio do eu no vida cOlidiana.
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328 329
I
I.
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! (org l . The anlhropology of cxperience. Urbana: Universily of


JIIinais Press. J 986.

Inrrodução
Isabel Santana ele Rose

~
aOlo Daime é u ma expressãO m u ltivocal. ou sej a. pod e
ler vários sign ificaclos. Refere·se a u m movim ento re·
ligioso que leve início entre as d écadas de 20 e 40 no
eSlad o do t\crc C a panir da década de 80 expandiu-se por lodo
o Brasil e poslcrio nnente para o exterior. Este termo referencia
também dois grupos religioso s: A ltO Santo c Centro Eclético de
Fluente Luz Un iversal r~ airnu ndo lrineu Serra o u CEFLUHIS.'
,\Iém disso. Santo Daime é o nome que os panicipaol es deste
movimen to religioso dão à bebida que consomem em seus rilu·
a i s.~ O daime é pro du zido pela cocç80 ele duas plantaS nativas
da t10reSTa amazônica : o cipó Banisreriopsis caapi e a folha do

I o AJrO 5<mto permancceu pr.ltk:amemc rcstrilo ao cs tado do Acre. Esta


denominaçilo refe re·se a um conjumo ele (;crmOS que se diStinguem c fun·
cionam de manclra autônoma. cmoor.l reivindiquem uma origem comum e
tenham retaçOcs de proximidade. Jj o CEFLUR1S ê a principal 0I&3I1Izaç<'io
responsável pela exp.ansi)o nacional e imcmacionaJ da doutrina d.."1lrniSta.
2 Par.. fins dCS1e teX10. vou me Icfcrir ô'l rcligJtlo como Santo Daime e à bebida
COlllO dairne.

330
Entre co linas verdes Isabel Sant;lt1a de Rose

arbusto PsychOlria uiridis. chamados pelos panicipanteS do Sano fundada a "dOUTrina" dai miSla.~ (\0 retomar. me fardei. 5 marcando
to Daime de "j agubc" e "rainha". respeCtivamente. Esta bebida meu fascínio e também ligação pessoal ao Santo Daime.
é considerada corno um "ser divino" . dotad o de personalidade t\o mesm o tempo em que O SantO Daimc d espertou o
própria e capaz de Curar c de transmitir conhec imenlo. m eu interesse pessoal. também Trouxe ti tona um in teresse
O Sanlo Daimc congrega em seus siSTcmas d e rituais e antropológiCO. prin cipalmente quando comecei a ter conlato
crenças c lemCnlOS provenientes das tradições indígenas. do com a liTeratu ra exis tente a rc SpeitO. Foi então que comecei a
catolicismo popular. do espiritismo kardec ista. d os cultos afro· ter vontade de fazer u m a pesquisa para poder compreender
IJrasilc iros. d o esoterismo europeu e do universo (la Nova Era . melhor este universo novo para m im . que m e despertava tanto
Segun(lo t\lberto Groisman. estes elemenTos têm um "sent ido fascínio e que. ao m esmo tempo. levantava uma série de ques·
d e busca e exploração d e dimensôes dcsconllecidas da vida" tionamentos. (\$Sim. in1eresse pessoal e interesse amrolXllógico.
í 1991 : 88·9). quc conferem ao grupo "urna espécie de Plura· no m eu caso. estão indissoluvelmente ligados.
lidade d e int erpretações acerca do mundo espirituar (] 99 t : Não é raro que os antrOpólogos que pesquisam religiões se·
89). Es te aUTor prop õe o conceito de "ecle tismo evolutivo" j am panicipanlcs ou simpmizames elas religiões que constituem
para d eOnir este movimento religioso. Esta noção foi retirada seu ObjetO de estudo . No Cc:'\SO das "religiÓCS oyallUOSCjueiras )Jra·
do eSta tUTO (lo CEFLUHlS. que se aUlodefin e corno uma inSli · sileiras".6 e TamlJém de outrOS contextos nos quais se utiliza enteó·
tUi Ç~I O cclêlica. Para Gro isman. é o "eclet ismo evolutivo" que genos. freqüentemente é enfatizada a imponância da panicipação
perm itC (.I conviv6nc ia entre diversos sistemas cosmológicos do pesquisador (O que pode envolver a ingesTão da substância).
que vão se inlegrando . t\ anTropóloga Bia Laba tc (2000) chamou a atenção para
Procurei este m ovimento religioso motivada por um inte· o fa lO d e que os participanteS d o Santo Daime e também dos
resse por esta(los m odificado s de consci6ncia e por "planTas de g Tl11XlS " neo'Clyalluosque;ros~ pesquisa dos por ela consideram
poder".;! t\pós freqüentar os rituais daimistas p or alguns meses. fundamental que o pesquisador lome a oyolluasco1 nos rituais.
fiz uma viagem ao t\ crc para conhecer melllOr esta regi;jo consi·
d erada pelos Pélnicipõntes do Santo Daime como o lugar an(lc foi
4 De acordo com Groisrnan c $CII I J 996l. n:lO é possívt:1 ddllllr ex~ualllCn1e o
que signirlCa a "(Ioulnna' claimiSla. ES1C lcnno pode se refem ao m OVImentO
retigioSO: pode abronger o s signlrrcaclos dos Illnos cJ."limisras e pode definIr
a inlerpl el<IÇ;XJ q~1t:: uma pessoa fa z elo conhecimCntO religioso e moral que
adquire ao tomar·se um partICIpante cio Santo tJaim e ( t 996. 2.19). l"aro estes
:I Sul>s1f1ncias que rnodificam a consçiência dos que as ll!rti7.arn. ,\ pesquiS.."\ <lutores. o COnl Cltc!o dil cosmologia dillmiSta é sinteli zado dUl<lm icamCflIC
ciCn1irlC<"\ oficial elos anos 30 e 50 chamava eSlas SUbSlâtlCla5 de "i.llucinÓ· na expresst.o genéric<l "dourrina" .
gcnos ". AIê hoje, !:Sl e ê o lermo considerado científico (l<"\r"d d esclevcr seus 5 Os panicip<l1l1cs do santO Dalme lem a opção de 'SC faldar·. o que sigrnrlCa
deil 0S filrmacológicos (C"\m ciro . 2(05). ESle l erm o. porém . inc o rporou ·se usar urna "rarro' durante os muals . NO plano simbó lico . o fardalnerrlO é ViS10
ao senso cormlm e C<lrrega consigo uma série <1<.: [JreconceUos. Freme ó.1 como um co mpromisso com <l doulrina.
isso. pes<p I I~dores (Ia <'I rea vêm se esforçando para cl escllvotvcr (lcnOlnl· 6 ca1egoria proposta [Xlr I3la 1...')[).."\le (2002). refcre ·se às 'rc ligi0es" brasileir..ls
naçócs mais adequó.1clas que rdJi ram. em re outros. o C<Jr<'lu.: r sagrado que que têm como uma de suas bases o liSO ritU<l\r 7.a(!0 ela 1:>ebida o!JohuoscCl:
esta s subSl<'l ncias costumam lcr l)fIra os grupos que as utiliza m e lilrnbérn santO Dalrne . Uniflo do vege tal c RmquinlLa.
a scnsaç<'lo ( Ie comunt1OO cOln o divino ou com O cos lnos que COStllma 7 A!Jolw(lsca é uma llalawa que vem d<l língua quéchu<\ e significa h,:rn<l ou
ser re latada com o um de seus efei10s (WINKEL\I ,\N. t \)96). A cle ll0 1l11naçtlo cipÓ d os morros. d;:l alma, dos cspirilos ILUN A. t 086). Es1e lermo pode ro.:·
"plrulll.iS clt: poder" procllla renclir !:SfaS (limenSÓCS. No reSlame da 111I1JiJ1110. ferir.se ir umo bel)lcliI c wm!)ú n é o no mc pOj)utilr (lo compo nente p rincipal
opl,uei por usar o termo e1l1eógeno . O uso (leste le/l110 foi prO!')OSlQ po r dCSla bebic!a. o cipó Bl1niSrcriopsis SI). EmJ)()r<l as l>ct)idas produzidas co m
wnsson. Hofn Kln c HUCK (1980). Ele ve m do grego e significa ajJtn.~lIni.ld;l · o OOniSll'liOpSiS sp sejam conhec idas pelo n01lle genérico de oyolwosc(l .
mCll1c "(I(.'I IS dentro ele si" 0\ I "açáo de vir iI ser. cle se tornar ". ctitS recebem m i'l ts (Ie .10 nomes {Iisrimos lI'EHlCGLA 19971

332 333
Entre colinas verdes 1s.1bcl Santana de Rose

Também o médico francês Jacques ~labiT (2002) enfaliza o onde fiz minlla pesquisa. t\ ingestão do daime lambém constilui
fmo de que a auto,experimentação por pane elo pesquisaelor uma forma ele respeitar o ponlo ele visla emico. que vê a bebida
é uma fome ele dados essencial no que diz respeilo às investi . como um ser divino. capaz ele transmitir conhecimemo.
gações cientificas sobre eSta bebida. Para o autor. neste caso. Realizei meu lrabalho de campo no Céu da ~ tantiqueira. uma
~a informação nâo pode ser recolhida de fora. mas procede comunidade do Santo Daime filiada ao CEFLURIS e localizada
cio imcrior do suje i l o~ (2002: 172). De acordo com ~ Iabil. a no sul de ~tinas Gerais. Esla coml1nidade foi fl1ndada em t 997
subje tividade seria fundamental para se enfocar de maneira e coma aluahneme com 150 miados. além elos participanteS
adequada o uso da ayalluasca. pois "a abolição da diSTancia eventuais. Essas pessoas residem em diferentes cidades. nos
entre observaelor e objeto conStiTui o nó cenTrai ela Técnica te· estados de "'Iinas Gerais e São Paulo. sendo que uma grande
rapêutica tradicional (ibid)."" parte dos partiCipanteS mora na cidade de São Paulo. Apesar da
Micllael Taussig (1993). em sua descrição sobre a região relativa dispersão geográfica. é enfatizada a ieléia de que existe
do P'utumayo. nos mostra uma maneira imeressante de lidar urna "comunidade". A noção daimista de comunidade não (: ne·
com a questão da subjetividade nas Ciências Sociais. ESte autor cessariamente definida pelo fato ele seus membros co·habitarem
opta por assumir completam ente sua inserção no teXTO - sua o mesmo espaço geográfico: pacle ser lambém uma "comunida·
SubjeTivielade como dimensão constitutiva da análise. Dessa de simbólica" caracterizada pelo compan illlamenlo de crenças.
maneiru. ele privilegia a sua observação c a interpretação que valores e experiências em comum \GROtSo\·IA.."I e SELL. 1996) .
faz a panir dela como maneiras de tentar apreender a experiência O céu da "'I antiqueira é definido pelos seus própriOS
allleia. TauSSig afirma que isto se loma mais necessário quando panicipames como um "cemro de cura". 1\ lemática da cura
cSlamos lidando com experiências relacionadas ti ingestão da Tem. ponal11o. urna imponáncia fundamental para eSle grupo.
aValluel5ca. De acordo com ele. corno nela existe uma experi· constiluinelo um elos eixos que conslrói sua idelllidade e sua
ência padr'do com a o!johllG5ca. "em algum momento é precisa especifiCidade. t\Tualmenlc são realizados loelos os meses dois
assumir a lliStória c descrever as noites em que se torna o !joge' rituais considerados como sendo direcionados especificamente
em lermos de sua própria experiênCia~ ( 1993: 383). É dessa para a cura. que têm um papel muito importame na dinâmica
maneira que a experiência elo próprio autor aparece como uma do grupo. Além disso. os participantes do Cêu da Mantiqueira
dimensão constitl uiva fundamemal de sua análise. utilizam urna ampla gama de procedimen tos terapêuticos pro·
Considero que fOi imporlame lornar o daime nos riTUélis venienTes de diferelllcs campos. corno a biomedicina. tradições
eluramc a pesquisa de campo. t\ ingestão da b ebida neste indigenas. oulras tradiçôes religiosas e as "terapias altemalivas" .
conlexto facilitou a imcraçao com os participantes da pesquisa. Também cllama a c:uençflo a presença ele um grupo expressivo
r\lém disso. minhas próprias experiencias com a subslância de pessoas que trabalham profissionalmcme na área da saúde
forneceram luna base importante para que eu pudesse procurar entre os participanteS da comunieladc.
comprCC!leler as experiênCias dos panicipantcs da comllnielaclc Meus primeiros contatos com o Céu da Mant iqueira foram
em 2000. quanclo eu eStava começando a conllecer o universo
daim isla. Esta aprox im aç.~io inicial foi m Olivada por intcresscs
8 Aqui o ;)l!1or está se referindo às lécnicas de curei encontmdas n;) Atm ,\mil'
7.Ónlil peruana. onde. de acordo com cte. -a u!Jolll.wsca 1(;J)lcsel1la a t,a-;c pessoaiS. porém. a idéia ele fazer urna pesquisa relacionada ao
(to c(tificio lcrapéwico' 41>IAI3!T. 2002: 1461.
o Tcnno ll<lllVO !"><I/i) denominar il o!Juhllasca .
Santo Daime veio logo elepois . Assim. cm 200 1 eu comecei a

334 335

í
Entre col inas verdes tsabel ~l1fa n a de Rose

fazer !rabaUlo de campo lá pam minha monografia d e conclusão em que m e encontro exige da m inl1a pi:.lnC um lrabalho constante
do c urso de graduaç ão em Ciencias Sociais {Bosc. 2002) 1U e de clisfanciamentO e autocriTica. É n esse senlido que liz o esforço
em 2004 dei continuidade a esta pesquisa para escrever minha de explicilar e problem atizar as conclições de pesquisa.
clisscnação de mestrado [Rose . 2(05)" .
j\'linha inserção no campo foi marcada por uma relação ex- I Sobre a imponôncia do lrabaUla cle campa
IrCIl'\amc mc dinâmica de sucessivas aproximaçõ es c diSTancia·
menTos, conflitos e Tensões imcrnas. LevanlOlI quCStiOnamentos .Alualmeruc o s anlropólogos passam por um período de
a rcspeilo de como seria minlla relação com o Samo Daime fonnação acadêmica durante o qual aprc nclem as bases teóricas
I como pesquisadora e quaiS seriam as implicações da minha da diSCiplina. muitilS vezes antes de ter qualquer experiênCia
I ligaçi10 pessoal para a p esquisa . Eu m e dirigi para o campo com de trabalho de campo. (\prendem. entre OUlras coisas. solxe
II estas perguntas todas em aberto (e muiTas oulras também). a importánCia elo trabalho d e campo. tema constantemente re·
'I Durame a elaboração da clisscnação. a sistematização dos afirmado por aUJores cláss icos e contemporâneos. O tral)alho
I m eu s dados de campo me mostrou a importância da experi· dc campo torna·se, então . uma irnportanle motivação para os
ênc ia im ensa clt;: im ersão no campo . Percebi que. m esmo j á in iciandos na antropologia. COntribuem para criar esta aura as
! freqüenlanclo o Santo Daimc há qUaTro anos e sendo fa rdada afirmaçôes ele que o trabalho de campo constllui uma especie
11á três . 113vla mui tas questões e conceitos com os quais m e de rito de passagem (D/\ MArli \ . 1987) ou d e estado alterado
deparei durante o tral)alho de campo . a respeito dos qllaiS eu de consciência (CHlOS/vl/\!\'. 199 ] I e de que o pesquisador difi ·
ilpcnas tinha um conhec imento preliminar c mui tos outros cilmente passa por esta experiênCia sem sair (muitaS vezes pro·
dos quais c u sequer imaginava a existência. Assim. mesmo fundamenteltransforrnado (CARV/\LHO. 1993: DA ,,·II\Trt\. 1987:
estando num universo que poderia. à primeira vista. scr consi· EVANS·PRlTCI-IARD. 1978: GONy\LVES DA SILVA. 20001.
d erado como send o ~fall1i liar- para mim (até por mim mesma). Aprendemos sobre a importãnCia de ir para campo muni·
a imersão no campo e a con viven cia (Iiária com as p essoas d os de uma bagagem teórica e cle perguntas - pois é isso que
m e m OStraram o quanto na verdade u m a grande pane d c le possibilila dirccionar o olhar e também torná ·lo p ropriamenl e
era nebulosa c desconhecida. antropológiCO (OLIVEIRA, 2000). Por Outro lado. t1á grande
Por OUtro lado. qualquer posição na qual nos colocam os para enfase tambem na necessidade de "deixar o campo falar".
fazer uma pesqui5() tcri, suas vantagens c desvamagens. l\Ssim. ou seja. estar sensível às questões "colocadas pelo campo ~.
o fato de ser fardacla trouxe também seus desafios. Enfim. o lugar Assim, considera·se que o trab a1l10 d e campo tem uma inl1u ·
ência decisiv a nas perguntas que são colocadas e no (Iescn·
volvimemo da p esquisa IEVt\NS·PRITCHt\RD. 1978). Tudo
10 "'(;,.<;11.: rrnbi:.ltlo. Inr.:u objcllvu pnncip<'\l foi fa zer unIa an<'rliS<.: sobn;; a noçlro dé
l;1Ir.) P: 'r::l os pilrticirxl!I!cs do C(.·ll da ,\ I<lnliqllc ira. buscando cs ratx: tccer rcln· iSto con tribui para c riar uma grande expecta!iva relacionada à
ÇÕCS Cl urC <.l noção de curo c us noções de saúele. clocnça e corpor<lIldade.
experiênCia elo trabalho ele campo .
I I Neste 1«11)1.11110. a pa nir rIa análise elas expresSOCs elas (;,~ pctit1nclas dos
p;:lrliclpi1l11eS do Céu ( Ia Mé\fUiqueir::l. eu procurci Icvall1 ar e definir ôS princi· No m eu caso . j á tinha contato com a comunidacle na qual
pais cntegorias culturais envolvlelas niJ c xperic nc ia elos processos de cura.
realizei o tral)alho de campo pélra a (liSSenaçi lo. d esde o ano
s3úcle e (locnçiJ Dara os particlp(lllIeS dcsl8 COlnunlcliJele c compreender
t'!';lil$ c;" l e~Q rias em suas rcl,Jçües co m OS proccchlllCnlOS tcr.:rpcu ticos 2000. c j á havia reali,ad o pesquisa de campo lá anles. Minl1aS
grlllxlis. J)Usc"n{lo Idenlificar os m odelos Que motivam e sus!I.: nmm es tes
prOCl:d llllCnrOS c C:lI("gnrms ullrurais. primeiras e xpericncias de pesquisa de campo. porem. foram

336 337
Entre colin<lS verdes ts.lbel Santan,l de R()5(!

inClJrsões iniciais realizadas na forma de visiras esp orádicas. O formuladas a partir desla invesligaçãO" {VIVEIROS DE CAST RO.
Iíclbalho de campo para a minha disscnaçáo de meslrado foi a 1999: 153) e inlluenciam lodas as ou lras etap as de produção
primeira oponunidaelc que eu live de reali7..ar uma experiência do conllccimel1l o al1lropológiCO.
de campo intensiva. lendo permanecido cerca de rrês meses no Concorelo com os aulores que afirmam que é necessário
e
Céu da t-.'lanliqueira. E acho quc impossível não se leml)rar de Ter laOlo urna bagagem leórica quanto um planejamento préviOS
1\<lalinowski c Ter a vaga sen sação de eSTar sozinl10 numa praia ao campo. Gostaria. porém. de chamar a atenção paícl alguns
desena. mesmo quanclo se esrá muiTO elisranTe da Polinésia e aspcclos que considero impOrtanres tania para o trabalho de
aré do mar: no meu caso. no sul de t-.!inas Gerais. na serra da campo quanlo para a própria produção do conllecimenro: tíclTa·
ManTiqueira. cercada por colinas verdes. se dos cl1amados "imponderáveis da vida real" (MALlNOWSKI.
Concordando com os aurores que afirmam que é neces· 1976) quc. sem dúvida. lambém se encontram presenTes neslas
sário esrar arento às queslões colocadas pclo campo. defini experiências. DOSla maneira. mesmo mcdiante lodo plancjamen·
o enfoque em cura e proccdimentos terapt:wicos a panir de tO préviO. O fluir dos aconrecimenlOS e as sincronias {aqueles
questões que pareciam ser imponantes para os partiCipanTes acasos quo Invariavelmente aconlecemf sempre nos reservam
da comu nidade ondo realizei meu nabalt10 ele campo. Como surpresas. e é assim que nos deparamos com questões e silu·
desdc o inicio de rninlla pesquisa para o Trabalho de conclu- açàes que nunca imaginaríamos enCOntrar e que passam a ser
são de Curso da graduação essas pessoas demonstra ram fundamentais para nossa análise.
inTeresse pelo m eu trabalho. Cu me dirigi para o campo com a Durante a análise dos daelos e redação da dissenação.
propOSTa de construir uma etnografia dialógica e cOmpaniJha· percebi o quanro o enfoque escolllido. a propoSla de buscar
ela. wilizando o diálogo enl re pesquisadora e parTicipantes ela urna relação de diálogo com as pessoas que participaram ela
pesquisa como uma fOnTe de dados e um /OClIS ele produ ção pesquisa e a al)orclagem teórica ulilizada - que desde o inicio
do conhecimenlo. cu procurei mant cr estreitamenre ligada com a mClodologia
_ conlril)uiram para que eu pudesse compreender questões
2 Da relação entre os diuersas etopos ele fundamenrai s para os parlicipanles do grupo no qual realizei
uma pesquisa meu trabalho ele campo. InversarnenlC. elernenlos importantes
da visão de mundo do grupO me ajudaram a compreender e
Podemos pensar nas relações enlre as diversas c lapas refletir a respcilo da abordagem leórica que fundamenla eSla
envolvidas na realização de uma pesquisa - elaboraçào do pesquisa. me levando a notar que existe uma coerência COlre
projelo. Irabalho de campo. análise dos elados e rcdaçáo a abordagem leórica cem rada na expressão da cxperiencia'2
- como relações espi raiS {GONÇ/\LVES DA S ILVA. 2000). na e alguns aspcclos ela visão de mundo dos partiCipantes do
qual todas estas erapas se influenciam e inlercomunicam mu- céu da ~'l an1iqueira.

luamcOlC. Há assim Lima "circu[aridaclc" ermc a al)ordagem


ICórica e a experiência ele campo !ibiC/). Também é importan·
l2 05 eSludos centmdos na cxperit"!ncia c na ptÓx/s nos oferecem uma nova
te lembrar quc "as sociedades e culTuras que conStituem o pcrsfX:CJiV<I par<l se (X:l15<lr a Jeoria antropológica e a pesquiSa elnogrártca.
objelo da invcs rigaçiio aOlropológica influenciam. de modos A partir (te um olhar dln~mico. diacrônico e processual. procura·se crlxerg<1r
dimcll5Óc5 da cxpcrtt':ncia que antes r1M eram enfmizadas c imegRlr as
variados e decisivos. as leorias sobre a sociedade c a cultura vánas (timcnsl'K:s da cxpertt"!ncia na antJbsc.

338 339
Entre colinas verdes ISJbeJ SanlJna dc Rose

3 Trabalhos espirituais. plantas e culinária semana e m uitas vezes mais. t\lém disso. Tive a oportunidade
de partiCipar de algumas atividades espeCiais que conTribuíram
CllegLJei ao Céu da Mantiqueira em j aneiro de 2004. um muito p ara a pesquisa.
pouco preocupada. pois prerenclia resolver a quest8.o da eSfaela Uma destas at ividades foi um leitiO que durou LIma sema·
durante o Trabalho de campo. Para meu grande alivio. ludo se na. O lemo é o ri tual de preparo elo daime. É conSiderada uma
decidiu numa conversa rápida. Fui convidadé.! p ela "maelrinha" atividade m uito importante. Este foi um leilio especial. POiS foi
do grupo'3 para ficar hospedada na "casinha das ervas- o14 Dessa realizado em comemoração ao aniversário de sete anos do céu
maneira. uma semana depois Cu volrei para lá para ficar, munida da Mantiqueira. Além disso. tomei parte no preparo coletivo de
de duas mochilas enormes que. além de umas pOucas roupas Tinturas de ervas para serem asp ergidas na igreja durante os
e coisas pessoais . continham loda minha parafernália de peso rit uais ou adminiSTradas por via oral em caso ele necessidade .
quisa : cadernos, canClas. matcriais de desenho, papéis. livros. Essas Tinturas são usadas no Céu da Mamiqucira há cerca de
gravador. firas. rnáquina fOlográfica, filmes, etc. um ano em cará ter experimental. Seu uso lem como base as
Meu lrabalho de campo durou cerca de Ires meses. Duramc propriedades das planTas que as compõem . :\Ssim, plamas
esle periodo. parlicipei de um 10lal de 22 riluais. sendo cinco consideradas estimulan tes. como o alecrim. são u tili7.adas em
Hinários:' 5 seis Con celllraçóes: ' 6 Ires Trabalhos de In icianres:' 7 momentOS nos quais se sente que a "corrente"11es rá precisan·
Ires Troballlos de ClIfo: "' Tres Trabalhos de Mesa Branca'f} c duas do de um estímulo:já plantas consideradas calman tes, como o
Missas. ~ POde·se. assim, ler uma idéia da intensidade ela vida honelã c ri menta são utilizadas para lrazer tranqüilidade.
riTual elessa comunidade. pois se realiza cerca de um rilual por Qut ro evento importante que aconteceu durante minha per-
manência em campo foi a inauguração da igreja nova que está
sendo const ruída no Céu da Mantiqueira. A lé m disso. participei
J3 Os gl1JlX'ls d nlmistas COStUr1),Ult ser c! nigiclos por pClo Illt,:nos lIllla "lI1f1dri.
(lha" c um ·p(ldnnho· . ESt;:lS pcsSO<'s COSIUnlalll ler considerável influencia das orações reali zadas todos os dias pela manl1il no espaço
nas comunidill.!es uaimisms. freqOentemell!e sendo responsávcl', pelo onde eu eSlava hospedada e de atividades comunitárias como
"comando' cios 'rrat)illhos esp irituais' .
I" ·Casinl "\,.. daS 1:r.'3S" é o nome cJado pelos p;:Lrlicipames do CC'" da Mamiquclf<) terços;~ ~ ensaios de hinários: festas de aniversários e aulas de
a um espaço Or)(1(: são rcahz". das auvid<w:1es como omçO(.'s c nabaltlOs eom
plõJnt<lS m edicinais. yoga que estavam sendo m inis tradas gratuilamente uma vez
15 OCa'iIOO em que se canr;:, um delcrtninado hin."'trio j<:onjurllO de hinos em por seman<:l na cornunielaele.
geral 'reccl)idos ' pdil meS!ll;l pcsso;'). seguinrJo o cillcndário o~c i;:]1 (lo
CEFLUR IS. Coslu,na ser COnsl(lcra(l<) uma ocasi<'lo {cstiva . No cotidiano me engajei ativamente no lral)3lho com as
c
I G O tml)illllO de.: COnce!lfraçc1o rcaliw( lo todos os dias 15 t! 30 cte cada m es . plantaS m edicinais coordenado pela madrinha e do qual part ici·
, "CS tC riru;;1! os pilrlicipanres fiCilm SCrlr:tdos . Ele COSlumil ser caraCIt:ri7..iJdO
por periodos de siléncio que pcx!cm clurar lImil ho ra Oll mais. pam algumas moradoras das redondezas . EsTe era um espaço
17 Esrc ~ um trab...1l1O realizado u,'", veZ po r mês no Céu rta Manriqllcira sendo
?neaOll."ldo CS/x:cialmcme para os ·,nicianres · . ou seja. pessoas que eslOO
LllcIo rOO"li..r daim e jx:la primdm \<ez. 2 I Os paniclp...nles do sanro O"...imc acreditam que ctur.:lllll; os rillJiliS a unoo das
18 Corno inr/Í(;ól o nome . o TmlXllhoc/c Cvm ê um rilual (hrigido espeeificafllc n. pessoas tOnlla uma 'correnle" de energia. Esl<! 'COIT<!flle cspm lLk.1" COrlSUIUI
le para Cllm. (111<.; pode ser (tos P;:'fllcip..'/lICS. cio "CQrrell1e espiritual" ou de U!1l.a esp(""Cic de cntidi.lde COICII\l(l. <l quem rxxx:m ser arnbuidi.ls CamClerisricas
pessoas n\.senles. como tlanllonl;Vdcsarmonia. fOlç<v(raquew. etc. ,""esse sentido. Ixxlc·se
J9 O lr<thalJll) deJ\J..:.sa Bronca (: dircciona(lo Jklõ<.l o desc nvolvinlenlO mediunico pensar na -COlrc nle esplrilual" como uma melt1fora (lO próprio grupo.
clc .seus particlp..' ll!cs. Tcm gmnde innuencia do espiritismo IQIrdcciSlil 22 No Cêu da MantIqueira rodas as segundas·feiras é rca lizado um "rerço pari.!
20 "': M~ e um rilual rCilli7.ado nas d .nas das 'P<'"lSsagCtlS" unonesl d,L'i ;Jrin. as almas'. O terço designa ao m esmo rempo um ot>JC to e lImél scqüCncia
opalS h(ler<Irl(,'as d....imiSla'i; em tlUl ras di.l1as corno a Semana Silnla; e nas de preces que cOSluma ser marcada por esre obj(:'o . Oepois (le rezado o
primeiras scgunctilS feiras de Iodos o s m eses. para as alm;lS. Tcrço. sOO call1ados alguns "pom os' jXlra as almas.

340 341
~, Entre colinas verdes tsabet Santana de Rose

que me pOSSilJi litava a convivencia diária com eSlas pessoDs da experiência ~lumana para a emografia. através da inTeraçâo
e o acesso aos seus conhecimenros sobre plantas medicinais. dinâmica enTre TCXTO e imagem .
OUlro espaço que se tornou privilegiado para a imeraçào com :\ utilização da fotografia mrnbém levantou uma reflexão
as pessoas foi o p reparo das re feições. Como eu (azia m inhas interessante sobre a relação enTre a fotografia e a interdição
refelções ditlrias na casa da madrinha. nós sempre cozin háva. riTual. p rinCipalmente em duas ocasiões. :\ primeira delas foi
mos jUnTas - muitas vezes acompanhadas de mais parlicipantes durante o jeifio. Eu Ilavia estal)elecido o propóSito de regiSTrar
da comunidade - c este se tomou um momemo especial para todas as elapas do preparO do daime : colheiTa das folhas e do
o inlcrcâmbio de informações. Notei neste comexto um inegá. Cipó. limpeza das folllas. -raspagem- e -bateção- do -jagube".23
vel caráTer social pemlcando toda a questão da alimenração. cozimenTO e "apuração· do daime.
t\ culinária constituiu lambém uma oponunidade para que eu Para compreenclermos a. relação enTre a interdição riTual e
puelesse Icnlar estabelecer uma reciprOCidade com as pessoas a minlla intenção de fOTografar todas <JS eTapas do feiTio. é ne-
da comuniclade. Assim, procurei comparTilhar o que pude dos cessário examinarm os alguns aspeCTOS da cosmologia do Santo
m eus conhecim entos e, enquanto aprendi a usar um fogão i:~ Daime. 1\ clOU lrina cli:limista ê funetamenTaela numa polaridade
lenl1a e fazer pamonlla e bolo de milllo. ensinei como se faz masculino/feminino e acredita·se que estas duas "energiaS"
granola, gersal. TOrU e bifes ele SOja. sejam complementa res (GROISMAJ'\l". t 991; MACR1\E . 1992).
Assim. o "salão". espaço no qual são realizados os rituais. é
4 Fotografia e interdição IÍtual dividido em dois laclos ou "alas". masculina e feminina.
Segundo Ee!ward l\'lacRae ( t 992). a separação entre sexos
Uli!izei a fotografia corno um inSTnlmemo de regislfo de é comum também na "vida profana- (ibicl: 77). Para ele. exiSTe
rituais. procedimenlos IcrapêuHcos e alividades cornunilárias no Santo Daime uma tcnd6ncia de reforçar os papéiS de gênero
importames c relevantes para a pesquisa. :\ fOlografia foi um considerados "Tradicionais-, "enfaTizando·se a responsabilidade
falar importame no esmbelecimento de relações de reciprocida. das mult1eres por atividades como cozinhar. COSTurar. cuidar de
de. pois muitas fOlografias foram p resellleadas c, além disso. crianças. enquanto cabem aos homens os TrabaU10s que exigem
fiz alguns regiSTros fOlograficos alcndendo a pedidos. mais força fisica e grande parTe das posições de maior poder
O uso da imagem fotográfica na pesquisa antropológica de decisão e prestígiO" (iIJid). NeSTe COnteXTO. valores como
abre novas POSSibilidades de represemação que vão além da família. casamento c castidade 5[10 considerados impOrTantes.
voz do Outro. permiTindo que os relaTOS etnograficos incluam MacRae afirma que esta "segregação ele papéis" (ibid: 76) favo-
Também -os corpos. faces. gestos. símbolos e olh<'lres do OUl ro" rece o estabelecimento de laços de solidariedade entre pessoas
(BlrI'ENCOURT ] 99'k 23 t ). Assim. utilizo a fotografia como do mesmo sexo. t\ssim. seria marcante no âmbito daimiSTa a
um inSTrumentO que pode ajudar Tamo a olhar p ara as várias existência de um "mundO de mullleres" (ibid: 77). Este autor
dimensões ela experiência . quanto a regisTrálas e pensar sobre ressalta. porém. que aTualrnenlc esses princípiOS costumam
elas. Considero também que a fo tografia pode contribuir pa r~ ser qucstionac!os e m enciona a existência de centros daimis ·
eSTimu lar a renexão dos p arTiCipantes ela pesquisa a respeiTo dc
suas experiênCias. Além disso. a fotografia consiSTe em mais 2:::S o cipó 8oniSrcriopsis coC/P/ c as foth,-'\s do art>uslo Psichorria uiridiS sao as
plantas usadas para confCl:clonar o clairnc. Stio chamados de -jagul:>e- c
uma manciri:l de tenTar transpor esse caráter vivo e mulTifacemc!o -rainlla".lcspcCllvamcnlc.

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Entrc colinas vcrdes Isabel Santana de Rose

tas liderados por mulileres. Para ele. este queslionamento das Com o eu queria fOTografar lambém e.sla etapa do feitio. expli·
normas e valores ~t racliciona is~ estaria relacionado ti influência quei ao padrinl10 minl"las inTenções e pedi autorização para lirar
clas cam adas m édias urbanas no Santo Daime. as fotografias. E foi assim que eu . antropóloga. de saia e máquina
Esta polaridade entre masculino e feminino é estendida às fOlográfica em punho. pude Ter acesso a este espaço exclusi·
plantas que compõem o dai m e: o Cipó ~jagul1e" é iclentificado vam ente masculino. É claro que uma presença como a minha
com o masculino. com "Ju ramidam"~4 e com a "força". enquanto naquele lugar. naquele momento. dificilmente passaria desperce·
a folha ~ra i nha" é idenlificada com o feminino. com a Hainha t)ida . e repetidameme tive de explicar o que Cu eslava fazendo
cla Floresta ou a Virgem da Conceição c com a "luz" ou a "mio ali e afirmar que já havia pedido aUlorização. t-,'Iesmo medianTe
ração" . ~s Dessa maneira. as várias etapas do feitio citadas são eSTas explicações. senli o ambiente tenso. e fui expliCitamente
distribuidas entre os panicipantcs da comunidade. sendo que a solicitacla a realizar m inha tarefa o m ais rápido possivel.
parte relacionada com o jagube - colheita. "raspagem" e "bale. Outra oponunidade que tive para vivenci;)r esta relação entre
ção" - c também o cozimento do daimc são carefas realizadas fotografia e interdição ritual foi quando quiS fotografar o wendi·
exclusivamente pelos home ns .~6 menta mediúnico que acontece durame o trabalho de A4cso Bran·
Eu j á havia iniciado o lrabalho de registro fOlográfico cio jcilio co. 27 O otendimenro mediúnico consiSle num m amemo bastante
quanclo começou a "bateção" do "jagube". Este é um momen to denso do ritual de ,'vlesa Bronco. pois é quando alguns "médiuns"
l)asTante imenso do ritual. POiS o cipó deve ser batido até ser considerndos corno sendo ~mais desenvolvidos" rCTiram·se para
transformado em fibras fina">. Este trahalho é feito manualmente um recimo separado onde "recebem" os "dou l ores~ da "falange"
com marretas de madeira. Os homens posicionam·se em filas. de Bezerra de Mcnczes2 6 para poderem "aTender" às pessoas.
uma na frente da outra. c batem com as marretas no "jagube" Com o no caso do jeilio. neste caso Também havia pedido aulO'
compassadamente. i\ "baleção" pode durar vórios dias e os rização prévia para forografar. Apesar dislo. na hora em que m e
homens vão se revczi:!ndo cm turnos. dirigi para a "sala dos arendimentos" para fazer as fotografias. os
responsáveiS pela coordenação deSTe espaço me pediram para
voltar em outro momento. Senti·me conStrangida em insistir mais
201 Do.: ilc;ordo co m Groisman 1199 I I. "Jur<lmidam - é -uma e.~prcsstlo simé ricn e acabei opl8ndo por não fOlografar este aconlccimento.
qLlc reune o lodo rcoslllos·jlJra-p<lil . ou sejn. <I fome de po<lef espirilUill . c o
colelivo tsocic(ladc·midi:lIll·fllllOS) . il forçil dalul<l d<.os c spírnos encilrnadoS" I\mbas as siTuações descril8S silo momentos rituais car-
<ibld: 162). Juramldatn Iwnhém é idCnliflC<ldo com ú .\lcslrC Irinc u . Esle regados de dramaliclclade e imensidade. É impOrtante lembrar
aUl o r afirma ainda q ue Juratnid<lm e a Rainha da Floresta correspondem
a ( luas enlidades do plilno eSplnllLill que fundame nlilm a co smologia que as pessoas envolvidas nelas jinclusive a pesquisadora) es·
daimisla liblcl. '9911.
25 "Miração- corrcspon dc "tI scnS<.lÇó'lo rlSiCa e espirill.k'll J)fO(\u1.id<l pela ingestão tavam sob os efeiTOS do daime. com sensações e sensibilidades
d o daimo.: aniculada com a pró'ltica dos ensinamenlos Ooumnários. na quat o
individuo e.....pcrirnenlalllTh.'l nova pc rcepçó'lo do mundo" tGHOIS~I:\.'1. '991 -
t 131. 1\ miraçó'lo 1r<l7. SCIlS<iÇÕCS (le lranscendcnda e revela ao iJJ(!ividuo as 27 ESIC é um dos riluaiS dairnislas considerados como semlo direcionados cs·
eXIx:ri,;ncias mais profundos (1<.1 esplrilu;Jlidadc 0/.11(/. 10911. pcClflC<\JllCnt C I:><lRl a <-""URI. É voll<l(\O para o desenvolv imemo mediúniCO de
2G De ilcordo com I;Slillógica. p()(leria se pensar quc as 1,'lc f<lS liga(las ti fOlh<, seus partlclpanlCSC Icm grande in!1u(:naa docsplril(sn"\() kardedslil. Enquanto
scri,ull ( le rcsponsabllida(le exclllSIVamCnlc feminina. porém. c mbora c!ilS os rituais dilimtsta5 costumam ser cüractcri7..<1(los pek'l disclplinil c pelo co·
sejam consideradas uma auil)uiç[Io feminina. é pemlilido '11'(: os ho mens mcdimCnlO das açOcs. o ritual dc Mesa 81aflCa é marcado por l ima rClmiva
panlc ipcm. Fiquei imrigild<'l com este filiO e ICIllci compreendê·lo. porém llcXlbilida{lc e pe la llIaior ül>enura para uma exprcssOO IndiVidual mais livre.
as minlk'lS perguntas sobre esle assunlO foram 10<l.,S respondld.'ls com :!S I3eZCIT'<l de Menc zes é unl<l entidade de deslaque no cspiritismo kardecisla.
afirmações que d il..larn que as coisas erdm assim. com base no - trd{liçáo". 1"0 Céu da Manli(~lclr.l. I3ezeIT'<l de i\.ICIIC7.CS é considerado lllll impormnlc
o (~,e /":10 Ix:rmiliu eSC\.1rcccr minhõJs dliviclas. -mcmor cspiriluat".

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EntlC colinas verdes lsabet Santana de Rose

à flor da pele. Desta maneira. qualquer m ovimemo e especial· Tamllém é impon ante "recuperar esse lado extraorcliná·
mente acof'lIecimemos não usuais. como o aiO de fOlografar. rio e eXfático" das relações entre pesquisador e pessoas (lo
adquiriam um Significado especial nesses contextOs. grupo no qual o Iraball10 ele campo foi realizado (01\ 1\'lATr:\.
I\pesar de não ter pergumado explicilamente a razão des· 1987: 173). levando em conta a imponância do sentimento e
ses conStrangimentOs. a reOexão p OSlerior sobre eSles dois da emoção e considerando a subjetividade e a carga a feTiva
acontecim entos m e levou a pensar que a sensibilidaele das que as acompant1am como partes conSTitutivas da pesquisa
pessoas com relação à fotografia nestes momentos pode eSlar amropológica (ibid. 1987).
relaCionada à seriedade com a qual são encarados os rituais Como já afirmei, dirigi·m e para o campo com um a propoSta
daimislas. Esta seriedade pode ser um dos elementos que faz de construir relaçõcs de diálogo e interlocução com os panici·
com que em determinadas siTuações a fo tografia seja alvo de panles do Céu da Mantiqueira. De cena maneira. esta proposta
interdições ritllais. NeSlas ocasiões durante as quais acredita·se foi facilitada pelo falO ele tratar·se de pessoas que eu já conhecia.
que seja possí~el estabelecer urna ponle enlre o lado "mate· Assim. foi um pouco am enizada a sensação cle ser uma estra·
rial" e o lado "espiritual" da realidade. uma comunicação com nha em um lugar elesconhecido. Mesmo assim . não se pocte
o "mu ndO aStral". é recomendado que todas as ações sejam ign orar o fato de se eSTar entrando na vida elessas pessoas e
comedidas e controlaelas . em seu (;otidiano. morancto em suas casas, part icipando de
seus tralJalllOS espirituais e muitas vezes panilllando as suas
5 Negociações e amizades experiências m ais intimas. Também não se pode ignorar o fato
de que passado um tempo. talvez justamenTe quando elas já
É impOrtante lembrar que as relações estabelecidas du o eSTivessem se acostumando com a sua presença ali. você sim·
rame a pesquisa de campo são relações enlre seres 11umanos. plesmente vai embora. levando Séludades e muitas lembranças
com emoções e Subj etividades. Como em qualquer Outro (e regiSt ros emográficos) dos momentos v ividos ali .
contexto. também neste caso estas relações são fundamemal · Penso que o fato de eSlar fa zendo urna pesquisa facilitou as
menTe relações de negociaçãO [VELHO. 19 78) : negocia·se tanlO coisas duranle o Iraball10 de camp o. contrilJuindo para j ustificar
significadOS. quanto lugares. físicos e simbólicos. nos quais as e legiT imar perante o grupo a m inha presença ali. No geral. os
pessoas [no caso o pesquisador ou pesquisadora) se colocam partiCipanTes do céu ela Mantiqueira demonstraram interesse pela
e são colocados. Sem duvida. as relações eSlabelecidas entre minl1a pesquisa. procurando colaborar para sua realização. Em
as pessoas durante o trabalho de campo Terão um a inOuência pane. esta aceiTação pode ler sido motivada por um interesse
decisiva na coleta de claclos e. conseqüememente. no texto na divulgação do SantO Daime e dos traballlOS realizados no
etnográlico. Desla maneira é imponante problemat izarmos céu da :vtantiqueira. A realização de pesquisas acadêmicas 50'
e re fletirmos a respeito das relaçóes que construímos c dos bre Santo Da ime é estimulada. POiS se consiclera que iSIO pocle
lugares em que nos colocamos e somos colocados eluran te ajuda r no esclarecimento dos preconCeitOS que ainda existem
a pesqu isa d e campo para se ter clareza a respeito das con · com relação ao asSun to.
dições cle prOdução do conhecimento. Entre outtaS coisas. Se . por um laelO. ell era vista pelOS partiCipanTes do Céu
devemos nos perguntar o que levou as p essoas eleste grupo da i\'!i:l tltiqueira como antropóloga c pesquisadora, por outro, eu
a nos aceiTarem (SEEGER , t 980). também era encaraela como daimista e fardada. Havia. portanto.

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EnLrc coli nas verdes Isabel Sanlilna de Rose

por pane ela comunidade. uma eXpeCTaTiva de que eu cumprisse ReneT indo sobre o caráter iniciálico da antropologia. José
meus "deveres" como fardada: parTicipar dos riTuais e Tomar o Jorge de Carvalho (1993) sugere que a vocação críTica desla
daime. Depois de passar uma boa parTe de dois Trabalhos de d isciplina seja eSlendida ao próprio anl ropólogo num sentido
Curo deiT ada nos colcllÕes do "quarTo de cura " . 29 aTravessando compleTo: pessoal. biográfico e espiriTual. Para ele. esta vaca ·
momemos não Tão agradáveis. porém profundameme inSTruTivos çãO cri1ica eSTá relacionaela à capaCidade que a anTropologia
da experiência com o daime e sem m e senTir em condições de tem de . aTravés da experiência iniciál ica do traballlo de campo.
m e mover e muito menos de retomar m eu lugar na "corrente-. 3O gerar urna crise no sujeito que exerce a atividade de antropó·
foi preciso reunir m inlla coragem e conversar com o p adrinllo. logo. Ele cllama a atenção para o lado "subje tivo. m eTafísiCO .
O padrinllo era em geral o responsável por servir o daime para emocional, enigm áTiCO. supersensívcl. sobrenatural" ( 1993: 76)
as mulheres. de maneira que nCSTC caso m inha negociação era da anTropologia e afirma que as teorias cienTíficas devem ser
exclusivameme com ele. "Padrinho. acho que eSTOU precisando vinculadas aos impactOs recebidos pelo anTropólogo em sua
tomar menos daime- eu disse a ele. pois era necessário con· cond ição Ilum ana particular.
seguir obTer um mínimo de controle sobre a minha experiência Fazendo uma analogia enTre a antropologia e a tradição
para poder realizar a observação dos rituais. eSOTérica ocidenTal. Carvalllo sugere que ambas estão fundadas
na busca do outro para resgaTar algo que teria sido perdielo pelas
6 Consideraçõe.s finois: Transformoções civilizações ocidenTais. /\ diferença da anlropologia seria negar a
introelução dc uma "gnosis pessoar nas eTnografias. corno resul-
Sem dúvida. o traballlo de campo é uma experiência de taelo das andanças etnográficas ( 1993: 80). Assim. enquan to para
profunda transfo rmação. POiS se abandona casa . amigos, os buscadores da Tradição esolérica o verdadeiro objet ivo das
namorado. hábiT OS . rOT ina e (com Treinamen to e sOrTe) p re· viagens externas seria a reali zação de uma viagem inlerna que
conceit os e paelrões m entais e ele com portamento para se possibililasse o auto·aperfeiçoamento enquanlo seres Ilumanos.
ingressar em um mundo novo e desconllecido (POis. por maiS na ant ropologia esTa Transformação inTerna scria negada devido à
con lleciclo ou familiar que ele possa parecer à prim eira v is ta. a ligação com uma detenninada Tradição acadêmica ainda bastante
imersão nele e ;) renexão a seu respeiTo sempre Trarão à Tona ancorada nos valores da m odernidade c do pOSiTivismo.
m iStérios e surpresas . revelando faceTaS ocu ltas e in imagina· DeSTa maneira. para Carvalho, granele pane da produção
das) . Como mOSt rou Roberto da 1\:lalla . a viagem ao campo anTropológica seria caraCTerizada por uma dupla negação: por
penni!e ao antropólogo vivenciar a diversidadc Ilumana para um lado . nega·se a exiSTência das dimensões extra·empíricas
poder relaTiviza r·se c tcr a esperança ele transformar·se num da realidade. reduzindo·as ao elominio simbólico: por OUTro lado.
ser "verdacleirameme Ilumano- ( 1987: 150). alravés da defesa da ausênCia de sentimenTO ou de inTUiÇão por
parTc dos anl ropólogos. julga·se que estes - e por exten$<;lo toelos
os out ros seres humanos - sejam incapazes de fazer COnTaTO
29 o ' quano de CUr.)- é UIll espaço no qU;)t ficam alguns colchões pam o caso
das pessoas preciSarem se deirar duranre o s rrõb'.llhos. com eSlas climensôes e m anejá-Ias.
30 A ingo;;sr<'to do claime freqüenrcmcnro;; gera 'cmars~ ~siológicas - WE'-'\EZ.
1996: 8·1). taiS como vômiros. Cho ros. diarréras. enrre outros. Estas experi·
segundo este autor. pOrTamo. é necessário reTomar a cri·
éncias podem ser muito inrer\.'xIS. 00 pomo de visra emico. rem uma cono· fica à lradiçao acadêmica na qual a antropologia se insere e
raçilo positiva . po is são c xpericnciaclas corno -vias viSíveis e COrlCrt..:I[lS ele
dimill(lç("ro ( tas impurezas fíSicas . menrais e esririru ais- fillidl . levar a séria a sua vocação ele ir ao fundo etas experiências

349
Entre colinas verdes Isabel Santana de Rose

enigmáTicas e desafiadoras da razão objetiva vivenciadas p e. modificados de consciência vivenciaclas p elo antropólogo em
105 anrropÓlogos. enfrcnTando a dupla dimensão do empirico campo, incluindo es ta reflexão nas elnografias. assim com o é
e elo m esafísico e !ornanelo o que Roberto Cardoso de Oliveira imponante incluir também as Iransformaçóes decorrentes n a
11990 oplId Ct\IWALHO. 1993) definiu com o "choque cultural" pessoa do annopólogo a panir desTas experiênCias.
- a experiência vivenciaela Ol..lramc o TrabaJllO de campo _ uma t\o mesmo tempo em que nos transformamos no decorrer
fonte real de conhecimenros e não apenas a acumulação de do tralJaltlo de campo. também contribuímos para transformar
um saber especializaclo. ou ao m enos influenciar momentaneam ente o que eSTá ao nosso
Enquamo CarvaJllo faz uma reflexão sobre a aOl ropologia redor, pois é ingenuidade pensar que podemos simplesmeme
enquanto experiência iniciática. Da 1\'lalla r 1987) estabelece uma atravessar a vida das pessoas sem deixar nenlll..una marca. assim
analogia entre o IraballlO ele campo e os ritos de p assagem . como é ingenuidade pensar que a presença do antropÓlogo ou
a firmando que em ambos os casos acomece -uma passagem antropóloga em campo não terá nenhuma influência na dinâmica
m aior que aquela determinada por um simples deslocamento no do grupo que escolheu para realizar seu traballlo de campo .
espaço" ( 1987: 153). Esla passagem possibiJilaria a mudança do ACrescento que esla transformação vivenciada pelo antropó'
pomo ele viSTa e um alcance ele uma nova visão do ser humano logo não se encerra com o fim do trabaltlo ele campo. p elo con·
e da sociedade. 1\ imponãncia ela ant ropologia enquanto ciência trário. continua duranle a análise dos dados e redação, at ravés
sCria. enTão, a partir da experiencia de campo e da posteriOr ela reflexão sobre as experiências vividas durante o período de
reflexão sobre ela. possibililar o deslocamcnto da nossa própria imersão no campo e de sua repercussão na vida do pesquisador.
SUIJj eTividade (0/\ r...IAr rt\. (987). É assim que podemos perce. que ineviTavelmente passará a ser viSta com outros olhos, sentida
ber que exiSTem muitas Outras (1alvez pOtCncialmente infiniTaS) com Outras sensações. vivenelada com novas emoções .
maneiras de perceber. sent ir e exprcssar as experiên cias e é Como indica Hoben o cardoso de Oliveira 12000). a partir
isso que pod e perm itir alcançar o obj e/ivo de alargar o discurso da diferenciaçãO estabelecida p or Clifford Gecrtz entre o traba-
le não apenas o discurso) humano. 1110 de campo , "being l!lere-, e a elapa de análise dos dados c
Talvez essa transformaçào seja ainda mais imensa num redação. -being llere-. "é o escrever 'eslando aqui', portanto.
mundo em que as experiências - principalmemc as experiências fora da Situação de campo, que cumpre sua mais alta função
rituais com eStC;lelos modificados de consciência - são paUlaelas cognitiva" (2000: 25). Para Oliveira. isto se deve à exiSlênCia de
pela intensidaele e onde a própria noção ela transformação apare. "uma relação dialética entre o comunicar e o conhecer" 12000:
cc corno um tema importanTe e reCOrreme. Como indiCOu Carva. 26). Também cumprem uma importante funçflo nesta etapa da
lho ( 1993). silOjustamente estas experiências de profunda trans. pesquisa o relacionam ento com o "idioma da diSCiplina" (OU-
formação que os amropólogos COSTumam relUTar a incluir em VElHA. 2000: 26) e com os colegas antropólogos como "uma
su as reflexõcs e etnografias. ?"dra ele. da m esm a maneira que é comunidade de comunicação e de argumel1lação" IK-\RL on'O
preciso rever a tradição acaelêmica que suslcnla a antrOpologia. t\PEL apud OLlVEIHi\. 2000: 26) . Desla m aneira. é durame a
ti:lmbém ê preCiso repensar os cànones ela subj elividaele e da escrita. ou a "textualização" do que foi olJservado em campo
consciência com os quais a diSCiplina vem IJuscando legitlmar. (OLIVEIRA. 2000). que rCnetimos sobre as exp eriências viven·
se acaelcm icam ente. Deslêl m aneira , seguindo a reflexão <leste ciaelas durante o Trabalho de campo e nos damos conJa das
autor, é imponanlc refletir a respeito das experiênCias de cSlados lransformaçóes pelas quais passamos.

350 351
Entre colinas verdes lsal.>cl Santana de Rose

FOi a partir das questões levantadas por estes ant ropólo· FERICGLA. Josept'l 0\-1. AI lrasluz ele la oyo/luasCCl. An/rop%gia
gos quc eu pude refletir sobre as profundas transformações cognitiuo. onirotlloncio y conciencias olrernO/iuas. Barcelona:
que tiveram lugar na minha vida depois da experiência de três Los lib ros de la liebre de marzo. 1997.
intensos m eses de pesquisa de campo no Céu da 1I.-lantiqueira. GONÇALVES DA SILV/\. vagner. O anlropó/ogo e suo magia:
Algo dificil de pôr em palavras. POiS vai m uilo além delas. Scm Trabalho d e campo e leXlO emográjico nos pesquiSas
anrropo/ógicos sobre religiões afro·brasileiras. São Paulo:
dúvida esta expCricncia serviu para confinnar minha ligação com
Edusp. 2000.
a espiritualidadc. num sentido mais amplo. e também com o
GROISM/u"'l. Alberto. ~Ell uenllo elo floresla": Ecletismo e praxis
SantO Daime. I\ssim. ao regressar do campo me propus a me
xamân ica daimista no "Céu do Mapiá". Florianópolis : UFSC.
reaproximar da comunidade daimista de ROrianópolis. da qual eu 1991. Dissertação (r., lcstrado) . Universidade Federal de Santa
havia permanecido afastada por mais de um ano. t\ experiência catarina. 199 1.
do tralJalll0 de campo e o processo de elaboração da minha GROISMAl"'l. t\lberto & /\ri SeU. "Healing Power : CuI1ura]·
elissertação de mestrado - o processo do escrever ~estan do aqui" neurophenomcnological 1l1erapy of Sall10 Daime" . In:
- também ajudaram a reforçar minha convicção de que é poso WINKELMAN. M . & W. Andrltzky (eds.) . Yt:orbook of cross·
cullurol medicine anel psychOtllerapy. Berlin: Verlag. 1996.
sível procurar transcender essa dicotomia entre espiritualidacle e
ciência. buscando incluir as preocupações com a espiritualidade LA BATE. Beat riz . A relnuenção do uso da ayahuasca nos
cenrros urbanos. Campinas : u nicamp. 2000. Dissenação
no campo da ciência e - por que não? - as preocupações com (Mestrado em Antropologia Social) , Unicamp. 2000.
a ciência no campo da espiritual idade.
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ayat'luasquciras". In: Labatc. B. C t\raújo. wladim ir Sena.
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352 353
" Entre colinas verdes
II

PELAEZ. Maria c.ri.stina. No mundo se curo luclo. IllIerpre/Clçõe5


sobre a ~U((l esp"lnlual no Somo Daime. Florianópolis: UFSC,
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catanna. 1996. c

HO.SE. Isabel Samana de. A cura na dalllrina do SoIllO


Da,/me - Um esludo sobre o céu da Momiqueira . cam pinas: POSJáCiO
UN ICr\MP, 2002. Monografia (Graduaçâo em Ciências SOCiais)
UNICt\iI.-IP, 2002. c • ------_.-._._._.-._-----
-=-______.~ Espirilualidode. terapia e cura: Um esludo sobre
o expressa0 do experiéncio no Somo Daime. FlOrianópolis'
UFSC. 2005. DisserTaçâo (1'\'l eslrado em AnTropologia SOCi~l)
UFSC.2oo5. .
SEEG I~H . .A . "pesqu isa de cam po: Uma criança no mundo·. Caras Alinne e Soraya.
In: ~s !ndlos .e n6s. Es ludos sobre as sOdeda(les tribais
braSileIras . HIO de Janeiro: campus. 1980. cabo d e ler o manuscritO pela segunda vez. COnTrariando
-I/\USS IG. Mich ael. Xamonismo. colonialismo e o homem
se/uagem: Um esruclo sobre o rerror e a Cura, Rio de Janeiro '
Paz c Terra, 1993. - .
f{ as moclestas oricnmç6cs que recebi de vocês . não deu
para ler o livro "em diagonal". Quer dizer, fui me dand o
conta de que havia muito mais lá do que eu Tinha previs to. Era
VELHO. Gilberto. "Observando o fam iliar". In: /ndiuidua/ismo só parando. pensando. adentrando os textos que pude realmen-
e cu/rura. Noras poro uma anrropologia der sociedade
conremporónea. RiO (le Janeiro: zahar. 1978 . te comt::çar a extrair Iodo o valor desse volume. Afinal. o estilo
ensaístico engana pela SimpliCidade. É só depois de acordar
':1VE,I RO~ D~ Ct\STHO.