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O PACTO COM DAVI

(U M A R E S P O S TA À L I T E R A L I D A D E D O S M I L E N A R I S TA S )

P O R A RT H U R P I N K

TRADUZIDO POR RENAN ABREU


Sumário

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
CAPÍTULO 1
Neste capítulo procuraremos algo além do que pontuar as relações
existentes entre os pactos Sinaítico e Davídico. Os vários pactos registrados
no Antigo Testamento, como previamente mencionamos, marcam os
principais estágios no desenvolvimento do misericordioso propósito de
Deus para com nossa raça caída. Cada um traz a luz algum aspecto mais
profundo da verdade, e isso, em estreita relação com os incidentes pontuais
das circunstâncias do povo de Deus na terra. Os pactos e a história estão
intimamente relacionados de modo que o conhecimento de um é necessário
para a compreensão do outro de tal modo que um lança luz sobre o outro.
Somente quando os pactos divinos e a história sagrada conectada a eles
estão mutuamente estudadas, estaremos em condições de traçar a divina
sabedoria em que aquelas transações foram feitas. Mas, a fim de não
estender demais este presente estudo, nossa revisão da história será
necessariamente breve e incompleta.
Os estatutos e ordenanças entregues para a regulação de Israel, o povo do
pacto, assumiram uma forma definida antes da morte de Moisés que, por
causa do pecado, não lhe foi permitido levar o povo à terra prometida. Em
vista dessa destituição, ele foi divinamente instruído a selecionar Josué
como seu sucessor, cuja liderança zelaria por todo o empreendimento que
ainda estaria diante deles. A vida prévia desse eminente homem havia lhe
fornecido um adequado treinamento para o trabalho que lhe fora atribuído e
sua conduta posterior demonstrou as qualidades que evidenciavam que ele
estava a altura de todas as exigências do seu elevado serviço. Sobre sua
administração a conquista de Canaã foi, em grande medida, completada
com êxito e a terra foi dividida por lotes para diversas tribos. Ao se
aproximar o seu fim, foi capaz de dizer: “Eis que, já hoje, sigo pelo
caminho de todos os da terra; e vós bem sabeis de todo o vosso coração e de
toda a vossa alma que nem uma só promessa caiu de todas as boas palavras
que falou de vós o SENHOR, vosso Deus; todas vos sobrevieram, nem uma
delas falhou.(Josué 23:14)”.
As palavras acima (como muitas na Escritura) não devem ser tomadas de
modo absoluto, como se toda a conquista de Canaã tivesse completada e a
herança plenamente assegurada. Não; deve ser entendido como afirmando
que nesse tempo nenhuma assistência ao propósito como povo, ou acordo
conforme o prometido, havia sido retido – negado – tendo como fim o
fortalecer sua fé e encorajar os corações a maiores êxitos nos futuros
prosseguimentos. Josué não teria sucessores, nem precisaria de qualquer
um. Embora Israel fosse uma nação como outras, com leis comuns, sobre
um Rei, ainda sim, cada tribo teria seus próprios governos, suficiente para
chegar a um ordeiro auto-governo e para tomar posse daquelas porções da
herança que a cada um foi dado. Em alguns casos, a terra ainda deveria ser
adquirida, coisa que obrigava certas tribos a realizar a conquista devida,
seja por seus próprios esforços ou com ajuda de outras tribos. Tudo isto é
suficientemente percebido a partir dos fatos da história sagrada.
Após a morte de Josué, Judá, com ajuda da tribo de Simeão, foi a primeira a
subir a fim de pelejar contra os cananeus. Durante um tempo obtiveram
êxito em seus esforços, mas cedo caíram no pecado de idolatria (juízes
2.11-13), e, em seguida, rapidamente seguiu-se a punição divina. Jeová os
entregou nas mãos dos seus inimigos para que, compadecendo-se de sua
aflição, Ele se interpôs-se para socorrê-los. O relato histórico de sua
condição durante um longo período está apenas fragmentado. O livro de
juízes não nos dá uma contínua e entrelaçada narrativa, mas, simplesmente,
nos relata as principais catástrofes que, em diferentes tempos, suas
transgressões lhe proporcionaram; e nos mostra distintos meios que Deus
empregou em sua graça a fim de libertá-los. Se o leitor consultar Juízes
2.12-18, descobrirá que o restante do livro é nada mais do que uma série de
ilustrações do que havia sido iniciado ali.
Os juízes foram oficiais extraordinários erguidos por Deus, ocasionalmente,
por designações especiais, sempre agindo com a livre concorrência do
povo. Embora seu governo, na maioria dos casos, se estendesse sobre toda a
nação, em alguns, parece ter sido confinado apenas a tribos particulares.
Mas, à medida que eram comissionados, permaneciam sob a autoridade
suprema de Deus. Usualmente, eles eram líderes em operações militares de
Israel contra seus opressores, embora em alguns casos também eram
colocados para acabar com os distúrbios existentes entre as próprias tribos.
Seu poder era real; ainda que tão pouco os registros inspirados nos falem
deles, seus hábitos continuaram simples. Não obtiveram nenhuma insígnia
distintiva, nem receberam emolumentos por seus serviços, e não gozavam
de nenhum privilégio particular capaz de ser transmitido aos membros de
suas famílias.
O livro de Juízes se limita a dar-nos, particularmente, um compêndio dos
feitos oficiais realizados por estes homens. Existem grandes intervalos a
respeito do que nos é informado – provavelmente porque estes períodos
estiveram marcados por épocas de paz e prosperidades relativas, onde a
adoração a Jeová era observada e suas benção gozadas. O livro de Rute
provê uma boa ilustração deste estado de coisas. Durante todo esse período,
as instituições levíticas proveram o povo acerca de todas as instruções
divinas e para a preservação da comunhão com Deus a qual haviam sido
admitidos. Nada novo havia sido agregado a verdade que, dada
instrumentalmente por meio de Moisés, havia sido revelado e confinado em
um registro permanente.
Ainda que nenhuma nova verdade tivesse sido dada, nem se deu qualquer
ampliação do que havia sido revelado, com tudo, Israel forneceu um tipo
impressionante de reino de Deus tal como agora nos foi revelado sob o
evangelho. Eram um povo sob o imediato governo de Deus, sujeitos a
somente a sua autoridade, unidos pelos laços formados em sua relação com
Ele e gozando do acesso privilegiado ao seu trono de misericórdia (por
meio do sumo sacerdote), em busca de conselho e ajuda ante cada
emergência apresentada. Não ocorre assim, ainda que em um sentido muito
mais elevado e verdadeiro, com os santos desta dispensação? O Senhor
Reina em seus corações, seu jugo, eles assumiram livremente sobre si
mesmos, e qualquer distinção que possa existir entre eles em outros
aspectos, são um em sua fidelidade a Deus e em adoração. Mas, Israel não
entendeu sua posição, nem apreciou seus benefícios. Eram descontentes,
desconfiados, de dura cerviz, abandonando suas próprias misericórdias.
De certo aspecto, sua condição externa ainda permanecia defeituosa:
todavia, não haviam alcançado uma possessão total de sua herança. Seus
inimigos ainda permaneciam fortes e lhes causavam problemas
continuamente. Isto, porém, era produto de sua própria infidelidade.
Tivessem eles resolutamente obedecido a voz de Deus e tivessem
prosseguido nas tarefas para as quais o Senhor os chamou e se, em humilde
dependência do seu poder e da graça prometida, tivessem cumprido as
instruções, eles certamente teriam alcançado um estado de prosperidade
semelhante ao que se lhes havia sido garantido (Salmos 81.13-16). Mas sua
própria indolência e incredulidade lhes privaram das bênçãos que estavam
ao seu alcance. Eles eram instáveis. Sua adoração era em, em certo grau,
provisória - indicado pela remoção da arca da aliança do santíssimo lugar.
Eles se contentavam que fosse assim, sendo demasiadamente carnais em
seu modo de pensar, tanto quanto em apreciar a constituição tão exclusiva
que, com privilégio, gozavam.
Samuel foi o último dos juízes e desde o seu tempo o curso da história foi
mais contínuo. Concebido em resposta a uma oração, ele foi consagrado a
Deus desde o seu nascimento. Esta consagração foi graciosamente aceita, e,
enquanto ainda criança, ele se tornou o objeto de comunicação divina.
Desse modo, cedo, o Senhor indicava a natureza do serviço ao qual deveria
se dedicar a vida. Nos é dito que "Todo o Israel, desde Dã até Berseba,
conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor (1
Samuel 3.19-20)". Em que tempo assumiu publicamente o ofício de juiz
não sabemos: provavelmente desde sua mocidade já teria sido reconhecido
como designado para a tarefa, entretanto, seria reconhecido pelas
assembleias das tribos em Mispa quando atingisse a maturidade (1 Samuel
7.6).
Desde Moisés, nada exerceu uma melhor influência sobre Israel, em cada
aspecto, que Samuel. Sua administração foi singularmente hábil e próspera.
Quando as fraquezas da idade lhe sobrevieram, ele associou seus filhos com
ele em seu ofício; sem dúvidas, com o aval do povo. Entretanto, esta
decisão não teve bons resultados. Os jovens eram muito diferentes do seu
pai em caráter e, desse modo, agiram distintamente dele: "Porém seus filhos
não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e
aceitaram subornos, e perverteram o direito. (1 Samuel 8.3)". o curso da
iniquidade deles insistia em ser sistemático e aberto; foi publicamente
sentido ser ainda mais intolerável devido ao seu alto contraste com a
integridade que marcou a conduta oficial do próprio Samuel.
Esta conduta escandalosa dos filhos de Samuel fez com que o povo
clamasse em uma só voz em sua insatisfação, seguido de uma demanda a
qual o velho servo de Deus não estava preparado: "Então, os anciãos todos
de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e lhe disseram: Vê,
já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos,
pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as
nações. (1 Samuel 8.4-5)". Várias considerações nos levam a concluir que
está proposta não foi realizada repentinamente pelo povo. Embora Samuel
não estivesse lento nem ineficaz em repelir os ataques de seus inimigos,
ainda sim, em termos gerais, seu governo foi pacífico em relação ao que o
povo requeria do seu chamado. Ainda que houvesse muito a ser feito para a
completa conquista da herança, estavam enfraquecidos pela incredulidade e
todas as suas consequências, portanto, praticamente incapazes de realizar a
obra que lhes foi designada.
Era necessário, humanamente falando, tempo e algum treinamento para que
o estado de eficiência, do qual dependia seu êxito, fosse restaurado. Este era
o resultado que a administração de Samuel apontava. Entretanto, há razões
para acreditar que sua sábia política foi alguma coisa menos agradável para
os Israelitas. Assim, entre o povo surgiu uma paixão pela conquista. Eles
ficaram insatisfeitos com os esforços militares ocasionais dos juízes e,
enamoraram com a pompa real das nações vizinhas. Criaram expectativas
extravagantes de uma vasta melhora em sua condição, expectativas estas
que o governo de uma raça proporcionaria. Isto, assumimos, foi o que
dirigiu e o que estava por trás da exigência feita a Samuel naquele
momento.
Esta demanda significava uma quebra da constituição que Deus havia
estabelecido entre eles. Jeová mesmo era seu Rei e não havia dado nenhum
indício de que as coisas não continuariam em função daqueles simples
acordos estabelecidos sobre sua condição política, de onde se garantia que o
Senhor estaria sempre com eles, pronto a lhes aconselhar e ajudar em tudo
que necessitavam. Sua história passada, apesar sua profunda indignidade,
tinha abundantemente provado quanta prontidão e graciosidade lhes havia
sido assegurado. Entretanto, o povo foi demasiadamente mundano para
apreciar este privilégio. A intenção do povo ao fazer este pedido a Samuel
era uma renúncia prática a teocracia. Então, era seu pedido, por si, errado.
Era mais repreensível ainda por causa do seu espírito e propósito.
A demanda apresentada a Samuel indicava uma irracional insatisfação para
com a benignidade divina e uma rejeição das reivindicações divinas. A luz
dessa verdade, Deus considerou esta situação. "O Senhor disse a Samuel:
Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a
mim, para eu não reinar sobre ele (1 Samuel 8.7)". Que esta mudança que
agora foi desejada seria finalmente buscada foi prevista anteriormente. Para
Moisés foi revelado certos indícios a esse respeito, junto com instruções
para a orientação das pessoas quando este evento ocorresse. "quando
entrares na terra que te dá o Senhor, teu Deus, e a possuíres, e nela
habitares, e disseres: Estabelecerei sobre mim um rei, como todas as nações
que se acham em redor de mim, estabelecerás, com efeito, sobre ti como rei
aquele que o Senhor, teu Deus, escolher; homem estranho, que não seja
dentre os teus irmãos, não estabelecerás sobre ti, e sim um dentre eles.
Porém este não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao
Egito, etc. (Deuteronômio 17:14-20)".
Há de se notar que os termos da passagem acima certamente anteciparam o
que, com segurança, aconteceria: não significa que pediram essa mudança
em si, nem expressa a aprovação dela. O pedido que Israel fez a Samuel foi
concedido, ainda que, de modo tal, se viram expostas suas verdadeiras
intenções, resultando sobre eles mesmos o castigo pelo seu pecado. Deus
lhe concedeu o seu pedido, mas zombou de suas vãs esperanças. A
dignidade real foi primeiramente conferida a Saul, alguém que que possuía
as muitas qualificações que Israel desejava: um homem segundo seu
próprio coração. Ele era agradável em pessoa, com aparência de líder,
alguém que se ajustava aos gostos carnais. A princípio, alguns mostraram
certa insatisfação com esta nomeação, insatisfação esta que logo se viu
silenciada com o êxito de suas primeiras ações e, logo depois, sua eleição
foi confirmada em Gilgal com o acordo geral do povo de Israel (1 Samuel
11.15).
Mas o reinado de Saul foi desastroso. Foi deficiente naquelas qualidades
morais e espirituais indispensáveis aos requisitos de sua alta posição. Os
defeitos de seu caráter logo cedo se tornaram aparentes: se demonstrou
apressado, obstinado, invejoso e desobediente às ordens divinas. Sua
administração foi marcada pela injustiça e crueldade; desordem e debilidade
se acentuaram até o fim de seu reinado, e, abandonado por Deus, terminou
perecendo no campo de batalha, onde os exércitos de Israel sofreram uma
vergonhosa derrota. Gravemente ferido, colocou fim a sua miserável
existência ao retirar sua própria vida. Terrivelmente humilhante, então, foi a
punição de Israel por seu presunçoso pecado. A este triste episódio aplicam-
se as palavras do profeta, que por meio dele, Deus disse: “Dei-te um rei na
minha ira e to tirei no meu furor. (Oséias 13:11)”.
CAPÍTULO 2
Quão misteriosos e quão perfeitos são os caminhos e obras do “nosso Deus,
o Todo-Poderoso. (Apocalipse 19:6)”! Ele faz todas as coisas subservientes
a sua própria glória, orquestrando todas de um modo tal que promovem
seus graciosos desígnios. Embora Ele não seja em nenhum sentido culpado
pelos pecados das criaturas, Ele fez “a ira humana” para seu louvor (Salmo
76.10). Uma tremenda, solene e abençoada ilustração disto aparece naquele
incidente da história de Israel que estamos considerando, ou seja, seu
descontentamento por ter Jeová como seu Rei e sua demanda por um
monarca humano, para que eles pudessem ser como as demais nações pagãs
(1 Samuel 8.5). Isto foi algo muito mal e perverso da parte deles, e, como
tal, algo totalmente desagradável ao Senhor, que falou a Samuel: “adverte-o
solenemente” (1 Samuel 8.9). Isto foi seguido pelo castigo de Deus ao
apontar-lhes Saul por rei, cujo reinado foi o mais desastroso para Israel.
Muito para o lado humano; mas, e para o divino? A mudança agora
produziu na constituição política de Israel, embora pecaminosa em sua
origem e desastrosa em seus efeitos imediatos, a graça de Deus, a fim de
dá-los a conhecer alguns novos aspectos do propósito divino para com este
mundo caído. Se tornou em um meio pelo qual se desenrolaria, por uma
nova série de tipos, a futura exaltação do Messias, a natureza e o alcance
dessa exaltação e os efeitos benéficos de seu governo. Quando a rejeição de
Saul foi definitivamente mostrada, em seguida, se tomaram rapidamente
uma série de passos à direção divina na escolha do seu sucessor, e, neste
instante, a visão carnal do povo foi deixada de lado. Deus escolheu um
homem segundo Seu coração, alguém que Sua graça havia preparado; e
que, em seu caráter oficial, de modo diferente de Saul, teria um respeito
incondicional a cada indicação da vontade divina.
Mas, antes de adentrarmos na pessoa de Davi, vamos adiantar algumas
palavras sobre o que dissemos anteriormente com respeito a instituição do
ofício real na constituição de Israel. Como temos visto, era pecado para o
povo buscar um rei, ainda que estivesse decretado pelo Senhor que assim se
sucederia. Este é um profundo mistério, ainda que seu princípio fundamento
nos seja exemplificado constantemente. Deus cumpre seu santo designo
mediante as livres ações do homem pecador. Segundo o propósito soberano
de Deus, Saul devia ser escolhido rei em Israel; entretanto, ao consideramos
como se sucedeu isto, vemos que somente a obra das leis naturais foram
empregadas. Do lado humano, foi por causa dos filhos de Samuel que eram
corruptos no julgamento, e, por conseguinte, o povo pediu por um rei.
Tivessem estes filhos sidos do calibre de seu pai, o povo poderia ter se
satisfeito e nenhum rei seria requisitado. Foi pelo Seu controle ordinário
providencial que Deus conduziu estes eventos.
E, de modo algum a santidade divina foi comprometida: o decreto divino
foi cumprido, não obstante, o povo agiu livremente e a culpa de sua ação foi
a justa retribuição. Alguém, todavia, poderia dizer: “Por que a Providência
não evitou esta ocasião do pecado para Seu povo? Porque Sua Providência
colocou este obstáculo diante deles? Se Deus planejou dar-lhes um rei, por
que ele não lhes deu um rei de modo que pudesse apresenta-lo a eles sem
que o povo rejeitasse o Senhor como o Rei? Deus se propôs a mostrar que a
rebelião estava neles e sua providência manifestou isso, então, os propósitos
imediatos de Deus coincidiram com os do seu povo. Aqui está a soberania”
(Alexander Carson). Sim, e aqui também a sabedoria infinita, que pode
fazer com que suas preordenações se sucedam sem violentar a
responsabilidade do homem, pode guiar as más inclinações, sem ser
cúmplice do homem. Mas, voltemo-nos ao nosso estudo imediato.
A seu tempo, Davi foi selecionado como sucessor de Saul; ele estava na flor
da juventude, era o filho mais novo da casa de seu pai. Embora o indício
dado a respeito da alta honra que lhe aguardava, não foi sem nenhum efeito
adverso. Continuou servindo a Saul como se ignorasse por completo o que
Deus havia determinado. Não se viu orgulhoso por suas expectativas, nem
deu mostrar de ambição egoísta. Nunca presumiu antecipar por qualquer
esforço próprio o cumprimento do propósito divino, mas deixou isto com
Deus, a fim de que Ele efetuasse seus propósitos. Do próprio Saul recebeu
suficiente provocação para ver-se tentado a tomar o caminho da rivalidade,
mas, sobriamente se submeteu a soberania de Deus e esperou nEle o
cumprimento da promessa. Deus nos deu graça para imitar tal exemplo de
paciência e mansidão.
No devido tempo, Deus cumpriu sua palavra. Quando Saul morreu, a tribo
de Judá ungiu Davi como rei em Hebrom (2 Samuel 2.4), e, sete anos mais
tarde, quanto todo obstáculo providencialmente foi removido, todas as
outras tribos concordaram com sua eleição (2 Samuel 5.3). Durante a
primeira parte de seu reinado, a atenção de Davi foi para suprimir os
ataques filisteus e de outros inimigos. Suas campanhas militares tiveram
muito êxito e os inimigos de Israel foram humilhados e subjugados. Ao
estabelecer a paz por todo o reino, os pensamentos de Davi foram
direcionados a realocação da arca para o lugar definitivo em Jerusalém
porque ela era levada de um lado a outro. Esta cidade, em toda sua
extensão, tinha recentemente entrado em sua possessão e sido escolhida
como a residência real e o lugar da adoração divina. A conquista da terra
prometida, através da benção divina de sua administração, agora estava em
grande parte completa; e Davi concluiu que o tempo de erguer uma
habitação fixa e permanente para a adoração de Jeová havia chegado.
Davi elaborou a resolução para construir a cada do Senhor, e a fez
conhecida ao profeta Nathan, por quem, a princípio, ele foi encorajado.
Mas, embora Deus aprovasse os pensamentos do coração de Davi, ele não
permitiu dar a Davi os efeitos de suas intenções. Esta honra particular foi
reservada a seu filho e sucessor, Salomão, embora ele ainda não tivesse
nascido. A razão para isto é claramente expressa: Deu disse a ele: “Tu
derramaste sangue em abundância e fizeste grandes guerras; não edificarás
casa ao meu nome, porquanto muito sangue tens derramado na terra, na
minha presença. (1 Crônicas 22:8)”. Isso não quer dizer que as guerras que
Davi se viu envolvido foram sem autorização e pecaminosas; pelo
contrário, foram realizadas pela ordem divina e suas vitórias foram
asseguradas pelo sinal que manifestava a interposição de Deus. Mas, este
aspecto do caráter divino revelado naqueles eventos era muito distinto
daqueles outros, sobretudo daqueles revelados na sua adoração; portanto,
havia uma incongruência evidente se aquele que derramou muito sangue
edificasse uma cada para o Deus de graça e misericórdia.
Para a pretendida casa de oração, foram dadas instruções simbólicas e, para
que fosse construída, seria necessário a condição de paz. Desse modo, em
conformidade com isto, Natan foi enviado a Davi a fim de proibir a
construção. A mensagem divina, porém, foi acompanhada com as muito
mais notáveis favores de Deus. Depois de recordar Davi da condição
humilde da qual foi tomado e posto como rei sobre Israel, e das provas
invariáveis da presença e benção divina em todos os seus assuntos, o
profeta lhe disse: “desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu
povo de Israel. Dar-te-ei, porém, descanso de todos os teus inimigos;
também o SENHOR te faz saber que ele, o SENHOR, te fará casa. Quando
teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar
depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu
reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre
o trono do seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a
transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de
homens. Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de
Saul, a quem tirei de diante de ti. Porém a tua casa e o teu reino serão
firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre.
(2 Samuel 7:11-16)”.
É lamentável que, uma vez que não é expressado nenhum “pacto” aqui,
alguns digam que não podemos considerar este evento como um. É verdade
que não tem qualquer explicação formal, nenhum sacrifício sendo oferecido
em conexão com ele, nenhuma ratificação figurativa dele, tal como
encontramos em outras transações similares mencionadas na Escritura.
Mas, o silêncio observado neste ponto não é prova que nenhuma
formalidade tenha existido nesta ocasião. A inferência legítima antes, é que
esta observância e formalidade eram tão usuais nestas ocasiões, e, como
algo já pressuposto, não era necessário fazer alguma alusão a elas. Portanto,
que isto foi um verdadeiro pacto, é evidente a partir da distinta e frequente
menção dele em outras passagens.
Que a grande transação narrada em 2 Samuel 7, foi, portanto, considerada
pelo próprio Davi como um pacto, é claro a partir de sua própria
declaração:” Não está assim com Deus a minha casa? Pois estabeleceu
comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura. Não me fará ele
prosperar toda a minha salvação e toda a minha esperança? (2 Samuel
23:5)”. Quando foi que Deus fez este pacto eterno com Davi, senão no lugar
que estamos, neste momento, considerando? Mas, o que confirma
definitivamente esta questão, é que o Senhor mesmo refere-se ao mesmo
pacto quando, respondendo a oração de Salomão, disse: “Quanto a ti, se
andares diante de mim, como andou Davi, teu pai, e fizeres segundo tudo o
que te ordenei, e guardares os meus estatutos e os meus juízos, também
confirmarei o trono do teu reino, segundo a aliança que fiz com Davi, teu
pai, dizendo: Não te faltará sucessor que domine em Israel. (2 Crônicas
7:17-18)”. Com esta declaração diante de nós, não podemos duvidar que
esta transação divina com Davi foi verdadeiramente um pacto, mesmo
quando não existiu um registro formal de sai ratificação.
O pacto Davídico constituiu outra daquelas revelações notáveis que, em
tempos distintos, distinguiram a história do povo judeu, como o exame
anterior, contudo, suficientemente mostrou. Assim como toda transação
ocorrida no período vetero-testamentário, ela possui certos aspectos típicos
que seriam figuras das realidades espiritual mais elevadas. Estas tinham
referencias especiais a Davi e sua família. Ele foi, por exemplo, assegurado
que o templo seria construído por seu sucessor imediato e que sua família
estava destinada a ocupar um lugar proeminente no porvir da história
israelita; ademais, a dignidade real que foi conferida seria perpetuada em
seus descendentes, e assim foi que, eles não perderam estes benefícios
terrenos por causa de seus pecados. Essas promessas temporais eram a base
sobre a qual descansava o pacto e que, no futuro distante, se expandiram
em bênçãos espirituais mais ricas.
Vendo o pacto em relação aos efeitos mais espirituais, Davi afirmou que o
pacto era “definido e seguro”( 2 Samuel 23.5). Contra toda contingência
possível foram feitas provisões; nada jamais deveria prevalecer contra o
cumprimento dessas promessas. Mesmo os pecados dos individuais de seus
descendentes não poderiam anula-las, embora, sem dúvida haveriam de
receber o justo castigo, podendo terminar em sua própria ruína e em uma
depressão permanente para sua família, como de fato aconteceu. É destes
aspectos mais elevados do pacto Davídico que nos ocuparemos em primeiro
lugar. A partir deles, poderemos reunir a verdadeira natureza dos acordos
solenes que compreende-o, e também apreciar as adições propícias a soma
da verdade revelada até este momento, ou seja, o grau maior de luz eu foi
concedido ao esquema da misericórdia divina no processo de revelação.
A substância da informação proporcionada por este pacto fazia referência a
exaltação, reinado e glória do Messias. Indícios de um tipo similar, ainda
que pouco, obscuro e isolado certamente são encontrados em porções
anteriores da Escritura, dos quais o mais notável foi dado a Jacó que disse:
“O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que
venha Siló; e a ele obedecerão os povos. (Gênesis 49:10)”. Mas, por estes
indícios eram compreendidos muito imperfeitamente, antes do tempo de
Davi, mesmo para os mais espirituais do povo. Não pareciam ter chamado
muita atenção; portanto, foram concentrados e amplificados com grande
distinção através das promessas do pacto com Davi. Pela primeira vez a
dignidade real do Messias era exibida, o qual, especialmente quando
ampliado pelas representações proféticas posteriores, os judeus não
demoraram a interpretar de acordo com suas ideias carnais.
Até agora tudo foi, comparativamente, simples; mas, quando vamos para a
interpretação atual das promessas feitas a Davi em 2 Samuel 7, dificuldade
real é encontrada. Aquela que fala particularmente do último propósito do
pacto precisa ser examinada de modo mais minucioso; e, nesta tarefa, será
essencial recorrermos a outras passagens que falam do mesmo assunto.
Mas, antes de adentrarmos nestas águas profundas, deixe-me pontuar que,
pelos termos deste pacto, uma futura e distinta limitação foi dada em
relação à linhagem real, a partir da qual a semente prometida deveria
nascer. No progresso da revelação divina, por meio de sucessivos períodos,
o canal por meio do qual o futuro Libertador viria reduziu
consideravelmente. Embora isto seja algo que foi suficiente traçado por
outros, com tudo, é muito importante e interessante para nós a ponto de
ignorarmos tal assunto.
A primeira predição, registrada em Gênesis 3.15, foi ensaiada em sua forma
mais geral, indicando que o Vencedor da serpente assumiria a forma
humana, ainda que de modo sobrenatural. Na destruição do mundo antigo, a
promessa foi renovada com Noé, junto com uma indicação de que seria
através de Sem que o cumprimento das profecias teria seu lugar (Gênesis
9.27). Um passo maior ocorreu quando Abraão foi eleito como o progenitor
daquele em quem todas as nações seriam abençoadas. Seus descendentes,
na linhagem de Isaque, estavam vinculados a promessa, foram, porém, tão
numerosos que não se podia dizer de qual grupo em particular se esperaria o
cumprimento. Em seguida, a tribo de Judá foi apresentada, mas, ao ser uma
das tribos mais numerosas, existia a mesma falta de definição a respeito de
qual família em particular seria concedido semelhante honra.
O tempo seguiu e agora a família de Davi foi selecionada como o meio
através do qual a promessa tomaria efeito. Para aquela família, os anseios
de todos os que procuravam a esperança de Israel eram doravante restritos,
e, por conseguinte, maior facilidade para obter a prova necessária das
reinvindicações do Messias quando ele aparecesse. Então, por uma sucessão
de passos, Deus definiu o curso através do qual Seus graciosos propósitos
seriam forjados, e com a crescente distinção, concentrou a atenção dos fieis
à verdadeira direção nas qual a promessa divina seria realizada; a última
limitação, gozando de uma definição, que nenhum dos outros poderiam
reivindicar.
(Nestes dois capítulos temos seguido rigorosamente John Kelly em sua
Obra [1861] sobre Os Pactos Divinos)
CAPÍTULO 3
Fechamos o capítulo anterior pontuando os sucessivos passos pelos quais
Deus gradualmente fez conhecido os conselhos de Sua vontade que
resultariam no advento e encarnação do Seu Filho. Sob o Pacto Davidico, a
dignidade real do Messias foi pela primeira vez definitivamente revelada.
Embora, deva ser pontuado, que uma notável antecipação disto foi dada
através do cântico inspirado de Ana em 1 Samuel 2.1-10. Ali encontramos
uma bendita mistura do típico com o profético, onde o primeiro apontava
para as coisas de uma natureza similar, mas, com uma relevância
muitíssimo maior. O futuro foi antecipado por incidentes presente, então
ordenados por Deus a fim de prenunciar verdades evangélicas. O histórico
serviria desse modo como um modelo para dar forma profética as coisas
futuras do reino de Deus.
O cântico de Ana foi evocado sob o mover do Espírito Santo, na ocasião do
nascimento de Samuel. A vida espiritual de Israel estava em grande queda.
A esterilidade natural que tinha previamente caracterizado Ana, deixava
entrever a esterilidade da nação de Deus. A provocação que ela recebia de
“sua adversária” e que lhe provocava dores (1 Samuel 1.5) era figurado
desprezo que os adversários tinham por Israel: as nações vencidas. A
debilidade de Eli e sua falta de discernimento, descreviam a caducidade dos
líderes religiosos em geral: “Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui
rara; as visões não eram frequentes. (1 Samuel 3:1)”. A corrupção dos
filhos de Eli e o costume do povo em oferecer subornos indicava
claramente o triste nível em que estava a situação. Isto é um breve esboço
histórico da situação daquele tempo, tipicamente caracterizada pelos itens
que nós temos mencionado.
A gratidão e alegria de Ana quando o Senhor abriu seu ventre serviu como
uma ocasião idónea para que o Espírito falasse através dela neste cântico
profético. Profundamente comovida por ter recebido a criança de suas
esperanças e orações – que havia dedicado ao serviço do Senhor como
Nazireu desde seu nascimento –, sua alma se viu impulsionada
profeticamente e sua visão a levou perceber que sua experiência em ser mãe
era um sinal da fecundidade espiritual do Israel de Deus no futuro distante.
Sob este impulso profético, ela alcançou reconhecimento exaustivo no
esquema geral de Deus, observando aquela soberana graça a qual se deleita
em exaltar a humilde piedade, mas que despreza o rebelde e soberbo, até
que chegando ao final ela exclamou: “Os que contendem com o SENHOR
são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga as
extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido. (1
Samuel 2:10)”.
Esta é uma linguagem notável. A palavra final “seu ungido” é literalmente
“seu Messias” ou “Cristo”. Esta é a primeira vez que na Santa Escritura que
encontramos esse bendito título em seu sentido mais distintivo, embora,
como bem sabemos, ele ocorra centenas de vezes mais tarde como
sinônimo para o Rei consagrado, ou, o Cabeça do reino divino. A outra
expressão nesse mesmo verso “Os que contendem com o SENHOR são
quebrantados” e “O SENHOR julga as extremidades da terra” mostra que o
Espírito Santo havia movido Ana a fim de que ela falasse sobre o reino do
Messias. Quão notável, então, as coisas vistas nas realizações históricas dos
dias de Ana. Possuíam, sem dúvida, significado típico, que constituíram a
base de uma profecia que haveria de cumprir-se no futuro distante! Isso
fornece uma chave valiosa para as muitas predições Messiânicas
posteriores.
Qualquer possível dúvida que pudesse surgir quanto ao significado do
cântico profético de Ana é removida quando comparamos com o
“Magnificat” proferido por Maria ao anunciar o nascimento do Messias
(Lucas 1:46-55). É realmente ver como a virgem reescreveu os mesmos
sentimentos e, em algumas partes, repetiu as mesmas palavras empregadas
pela mãe de Samuel, mil anos antes.
“Por que o Espírito Santo, pousando naquele momento sobre a
alma de Maria, haveria de dirigir seus pensamentos para aquilo
que, em séculos atrás, havia sido retratado pela mente da piedosa
Ana? Ou, por que deveriam as circunstâncias relacionadas ao
nascimento do filho Nazireu de Ana, dar lugar a certas
qualidades que, de forma tão distintiva, apontavam para a
manifestação do Rei da Glória e que tão bem harmonizavam com
as coisas cantadas na celebração daquele evento? Sem dúvida,
foi para enfatizar a conexão existente entre ambos. São indícios
que o mesmo Espírito deu, nas transações passadas, o mesmo
testemunho quanto ao seu propósito último – a saber, a ordem de
anunciar o advento do Messias e familiarizar os filhos do reino
com o caráter essencial da dispensação que viria” – Fairbairn.
A combinação da história típica coma a declaração profética que
observamos no cântico de Ana corre uma outra vez na Escritura onde o
elemento profético é mais extenso e o elemento típico das transações que
dão lugar ao mesmo, é mais definido. Assim como é, especialmente, o caso
com os salmos Messiânicos, que sendo de um caráter lírico, proporcionam
um curso mais liberdade para as emoções do que uma profecia formal.
Entretanto, dessa vez, sua base estava na intima conexão que existia entre o
presente e o futuro de modo tal que os sentimentos despertados em um
naturalmente se incorporaram nas delineações do outro. Foi na instituição
do reinado temporal da pessoa e família de Davi que se constituiu tanto o
fundamento como a ocasião para as predições concernentes ao reino futuro
do Messias, e será nosso prazer observar de que forma tão bela o tipo
prefigurou o antítipo.
A introdução do cetro real nas mãos de uma família Israelita produziu uma
mudança radical na teocracia, que foi proposta a fim de chamar atenção do
povo para algo mais terreno e visível, e remover suas mentes do celestial e
eterno. A constituição sobre a qual Jeová, por meio de Moises, deu a eles,
embora não proibisse abertamente a nomeação de um rei, ainda assim, era
de uma natureza tal que, permitir a intromissão do elemento humano no
governo, parecia algo que mais prejudicaria do que complementaria. Até o
tempo de Samuel, era estritamente uma teocracia: uma comunidade que não
possuía um líder como cabeça, mas o próprio Senhor. Tudo concernente a
vida e o bem-estar ficava debaixo do seu governo imediato. A capacidade
de manter essa estreita relação com Deus, foi a glória distintiva de Israel
como nação; como disse Moisés: “[Israel]O Deus eterno é a tua habitação e,
por baixo de ti, estende os braços eternos; [...] Feliz és tu, ó Israel! Quem é
como tu? Povo salvo pelo SENHOR, escudo que te socorre, espada que te
dá alteza. (Deuteronômio 33:27,29)”.
Entretanto, Israel foi demasiadamente carnal para apreciar o favor peculiar
que Deus havia mostrado para eles, tal como ficou evidenciado quando
procuraram ser como os Gentios desejando um rei humana sobre eles. Isso
era equivalente a dizer que Jeová não exercesse sua imediata soberania, de
modo que eles anelavam a autonomia. Mas este não era o único mal que
resultou desse proposta de mudança. ” Todas as coisas sob a Antiga Aliança
manteriam relação com a futura e mais perfeita dispensação do Evangelho.
E, a razão última de toda característica relevante ou mudança substancial no
primeiro, jamais poderá ser entendido sem considerar a incidência que isso
pode ter no estado futuro dos homens debaixo do Evangelho. E, como
poderia ser introduzido uma mudança na constituição de Israel,
especialmente uma como o que pretendia, desejando um rei segundo o
costume dos gentios, sem provocar uma pior alteração substancial?”.
“A dispensação do Evangelho haveria de ser, em um sentido
peculiar, o ‘Reino do céu’, tendo como seu fim principal o
estabelecimento de uma relação próxima e abençoada entre Deus
e o homem. E a visão de João, descrita segundo o padrão e
modelo apresentado no deserto, falava de seu cumprimento
consumado, quando ‘o tabernáculo de Deus está entre os homens
e Ele habita com eles.’ Desta realidade se deu uma
exemplificação notável e impressionante na estrutura original da
comunidade israelita, onde o mesmo Deus ocupava o ofício de
rei, possuía sua residência e efetuava suas manifestações
gloriosas no meio do seu povo. Mas, quando eles pediram um rei,
em seu desejo carnal de querer uma instituição como a do
mundo, não apenas demonstraram indiferença para com a
gloriosa constituição da qual gozavam, mas também revelaram
uma falta de discernimento e fé quanto ao propósito futuro e
último de Deus em conexão com aquela economia provisória” –
P. Fairbairn
A vista do que foi dito anteriormente, não se deve surpreender-se de que
Deus manifesta seu desgosto contra o pedido carnal de um rei humano da
parte do povo. Nem que Deus declarou a Samuel que a nação tinha, através
daquela atitude, rejeitado virtualmente o próprio Deus (1 Samuel 8:7). Por
isso, é natural que perguntemos: Por que Deus permitiu aquele mal para o
povo? Ah! Maravilhosos são os caminhos do Senhor onde devemos andar: a
mesma coisa que o povo, em seu pecado, cobiçou, serviu para suprir um
plano interno; um impressionante esboço da natureza e da glória do reino de
Cristo, que deveria assumir o plano mais elevado. Estava no eterno
propósito de Deus entregar definitivamente o governo do universo ao
Homem, e coloca-Lo a Sua própria mão direita! Então, o divino proceder
nesta ocasião fornece um dos exemplos mais impressionantes encontrados
em todo o Antigo Testamento a respeito da providência de Deus, pela qual
Ele é capaz de tirar uma coisa limpa do impuro.
Deus não apenas evitou os sérios danos que as exigências de Israel
ameaçavam fazer à teocracia, mas Ele a transformou em bem, ao
familiarizar as mentes das gerações futuras com aquilo que havia de
construir a grande característica do reino messiânico: que o Filho de Deus
assumiria a natureza humana. Depois que o povo foi solenemente
admoestado por sua culpa na designação de um rei segundo seus princípios
mundanos, eles foram autorizados a elevar um deles ao trono, embora não
como um soberano absoluto e independente, mas como o vice regente de
Jeová, governando no nome e em subordinação à vontade de Deus. Por essa
razão, seu trono era chamado o trono do Senhor“ (1 Cr 29:23). Mas, para
tornar seu propósito mais evidente para aqueles que tinham olhos para ver,
o Senhor permitiu que o trono terreno fosse primeiro ocupado por alguém
que estava pouco disposto a se submeter a autoridade do céu, e foi,
portanto, suplantado por outro que, como representante de Deus, é mais de
trinta vezes chamado Seu “servo”.
Foi nesta segunda pessoa, Davi, que a administração real de Israel
começou, propriamente dito. Ele foi a raiz e fundamento do reinado terreno
– como “reino”, de fato - onde, o humano e o divino se viram oficialmente
unidos, tal como se estivessem em uma união pessoal e hipostática. O mais
extraordinário foi que a providência de Deus fez com que o preparativo e
típico obscurecesse o supremo e antitípico, fazendo vários testes pelos quais
Davi passou antes que ele alcançasse o trono. E os conflitos nos quais ele
esteve engajado sub sequencialmente, a fim de prefigurar, através do
sofrimento, o reino do Messias. Um volume inteiro poderia ser dedicado ao
completo desenvolvimento dessa afirmação mostrando como, nos contornos
gerais, toda história de Davi possuía um significado típico, de modo que era
realmente um panorama profético. O mesmo princípio se aplica com igual
fora a muitos de seus salmos, onde encontramos eventos históricos
transformados em cânticos sagrados de tal modo que se tornaram predições
do seria realizado por Cristo em uma escala maior.
Foi isto – que de outro modo tendia a obscurecer o propósito de Deus e
obstruído o designo principal sob o antigo pacto – que se converteu em um
dos meios mais eficazes para a revelação e promoção do mesmo.
“A cabeça terrena, que agora sobe Deus, estava sobre os
membros da comunidade, em vez de ofuscar a autoridade divina,
apenas apresentou isso mais distintamente à sua visão, e serviu
como um trampolim para a fé, permitindo que ela se aproximasse
da apreensão daquela habitação pessoal de Deus, que deveria
constituir o fundamento e a glória da dispensação do Evangelho.
Desse modo, foi levada a desenrolar o futuro mais glorioso em
suas características práticas com um ar de individualidade e
distinção, com uma variedade de detalhes e vivacidade de
coloração, para não ser encontrado em quaisquer outras partes
da Escritura profética.” – P. Fairbairn
Como ilustração desta combinação de história típica e a profecia, nos
referimos aos Salmos 2 – que esperamos consultar novamente em um
capítulo posterior. Foi denominado com um “hino inaugural” utilizado para
celebrar a nomeação e triunfo do Rei de Jeová. As nações pagãs são
colocadas como figuras opostas (v 1,2), jurando entre eles que, se tal
compromisso fosse consumado, eles o desafiariam (v 3). Não obstante, o
mais Alto Deus desdenha das ameaças porque seus adversários são
insignificantes (v 4), e, assim, cumpre-se o seu propósito. O decreto eterno
segue seu curso e o Rei ungido é estabelecido em Sião; e, porque Ele é o
próprio Filho de Deus, é feito herdeiro de todas as coisas, até os lugares
mais distantes da terra (v 5-9). O salmo, então, termina com um chamado a
todos os governantes da terra para render-se ao cetro do Rei dos reis,
advertindo-os contra a maldição irrevogável que seguirá no caso de
rebeliões.
Antes de pontuar as relações obvias desse salmo com a vida e história de
Davi, notemos cuidadosamente a ausência total de tora literalidade
escravizante. Em sua ascensão ao trono de Israel, Davi não sofreu oposição
por parte das nações pagãs e seus governantes porque, seguramente,
conheciam pouco sobre ele ou isso não lhes era de seu interesse. Outra vez,
sua unção como rei certamente não foi sincronizada com seu
estabelecimento no santo monte de Sião, porque houve um intervalo de
alguns anos entre estes dois atos. Além disso, quando seu reinado foi
estabelecido, não há registro de que ele tenha pressionado reinvindicações
de seu domínio sobre outros monarcas, exigindo que eles lhe prestassem
lealdade. Enfatizamos estes pontos, não para sugerir que exista qualquer
falha no tipo, mas como uma advertência contra as espécies modernas de
literalismo que tantas vezes reduzem a Escritura a uma absurdidade.
Devemos, então, ir a um extremo oposto, e dizer que não há relação real
entre esse salmo messiânico e a vida e o reino de Davi? Seguramente que
não. É certo que existe uma relação tão próxima que suas experiências
foram o começo daquilo que, num plano superior, e em uma escala maior,
deveria ser realizado em seu Filho e Senhor. Enquanto a linguagem ali
empregada para celebrar o Rei Messiânico e Seu Reino se eleva acima das
experiências que pertenceu ao seu protótipo, ainda assim, carrega a
impressão delas. Nos dois aspectos vemos a determinação soberana da parte
de Deus para o ofício real. Em cada caso, há oposição do tipo mais violento
e pagão para resistir a essa designação – no caso de Davi, primeiro da parte
de Saul e depois de Abner e Isbosete. Em cada caso, vemos a lenta, mas
segura remoção de todos os obstáculos levantados contra o propósito de
Deus e a extensão de esfera do império até alcançar os limites da concessão
divina. As linhas da história são paralelas, o acordo entre o tipo e antítipo é
inconfundível.
CAPÍTULO 4
Recentemente vimos um artigo intitulado “humildade e o Segundo
Advento”, mas, depois de ler o mesmo, nós o deitamos com um sentimento
de decepção. Nós esperávamos de seu título que o escritor (bastante
conhecido entre nós) enfatizasse a profunda necessidade de humildade de
coração ao assumir as Escrituras proféticas. A Santa Palavra de Deus deve
sempre ser abordada com grande reverência e sobriedade, mas,
particularmente este é o caso da profecia, pois em nenhum outro assunto
(exceto a questão do governo da igreja) os servos de Deus diferem mais do
que em suas visões de profecias de coisas que hão de vir. Parece que Deus
colocou um pouco em Sua Palavra com o propósito expresso de murchar o
orgulho humano. Certamente, o dogmatismo doente não nos conduzirá,
senão, para o lugar onde muitos tem errado.
Não nos atrevemos a dizer que tomamos nossa caneta em um espírito de
verdadeira humildade, porque o coração do homem é muito enganoso e, em
geral, segue-se que, quando nos julgamos humildes, o orgulho está em ação
em sua forma mais sutil. É, no entanto, com considerável desconfiança que
continuamos esses capítulos sobre o Pacto Davídico, pois ele apresenta-me
o aspecto mais fácil de todo o assunto. Possivelmente, isso se deve ao meu
treinamento inicial, pois nunca é fácil se afastar de nossos primeiros
pensamentos e impressões sobre um assunto. Durante os anos de nossa
infância espiritual, ouvimos e lemos apenas a intepretação pré-milenista da
profecia e, naturalmente, (como criança espiritual), aceitamos prontamente
tudo o que nossos professores diziam. Mas, na última década, procuramos
examinar cuidadosamente o que nos foi ensinado e descobrimos que, pelo
menos, alguns deles eram apenas “conto de fadas”.
A justiça comum nos compeliu a pesar a visão pós-milenista. Ao fazer isso,
reconhecemos um perigo muito real de permitir que nossa mente corra para
um extremo oposto. Somos livres para admitir que, em uma série de pontos
importantes, esse sistema de interpretação profética não é mais satisfatório
para nós do que o “pré”, e, portanto, no presente momento não estamos
preparados para nos comprometer com a posição de um ou de outro. Nem o
que é conhecido como amilenismo resolve completamente os problemas.
Em outras palavras, afora não temos ideias definidas sobre eventos futuros,
aplicando a nós mesmos as palavras do Senhor: “Não vos compete conhecer
tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At
1.7). Mas isso torna mais difícil escrever sobre o assunto, e só podemos
fazê-lo de acordo com a medida de luz que Deus nos concedeu, exortando
os leitores a “provar todas as coisas; reter o que é bom” (Ts 5:21).
Parece que estamos plenamente justificados em dizer que o que serve para
dividir os intérpretes da profecia, mais do que qualquer outra coisa, é se sua
linguagem deve ser tomada literal ou figurativamente. Isso, é claro, abre um
amplo e importante campo de estudo, no qual, não devemos entrar agora.
No entanto, não podemos deixar de assinalar que - certamente me parece -
temos uma advertência muito solene na perversão papista da Ceia do
Senhor, do perigo real de deduzir as Escrituras no exato momento em que
parecemos honrá-la (por fé "infantil" e simplicidade) em tomá-lo em seu
valor nominal. Se a insistência de Roma de que "este é o meu corpo"
significa exatamente o que diz, nos mostra a quão graves conclusões se
chega ao confundir o símbolo com a realidade que ele representa. Isto não
deve servir como uma verdadeira advertência contra as terríveis
interpretações carnais do quiliasmo (milenarismo) que literaliza o que é
espiritual e torna mundano o que é celestial?
As observações acima foram motivadas pelas promessas contidas no pacto
davídico, registradas em 2 Samuel 7: 11-16. Em vista de tudo o que foi
antes de nós em conexão com os pactos precedentes, é razoável esperar que
este também tenha um significado de "literal" e outro "espiritual". Essa
expectativa é, acreditamos, possível de, claramente, se provar: em seus
aspectos primários e inferiores, essas promessas se referiam a Salomão e
seus sucessores imediatos, mas em sentido último e superior, apontavam
para Cristo e a Seu reino. No relato que Davi deu aos príncipes de Israel
sobre as comunicações divinas que recebeu em relação ao trono, afirmou
que Deus lhe disse: " Teu filho Salomão é quem edificará a minha casa e os
meus átrios, porque o escolhi para filho e eu lhe serei por pai"(1Cr 28: 6).
No entanto, a aplicação das mesmas palavras ao próprio Cristo - " Eu lhe
serei Pai, e ele me será Filho" (Hb 1: 5) - não nos deixa dúvidas quanto à
sua importância espiritual mais profunda.
A ocorrência de "para sempre" em 2 Samuel 7:13, 16 nos obriga a olhar
para além da posteridade natural de Davi para a realização final dessas
promessas. Deus realmente colocou a semente carnal de Davi no trono de
Israel e estabeleceu seu reino, embora certamente não para todas as
gerações. Aqueles que alegam que este pacto de realeza garantiu a Davi a
ocupação de seu trono por um de seus descendentes até a vinda do Messias,
assumem uma posição que é impossível defender - os fatos da história os
contradizem categoricamente. Davi transmitiu o reino de Israel a Salomão,
e ele, por sua vez, a Roboão, mas ali o reino da família de Davi sobre todo o
Israel, na verdade (e até onde percebo, para sempre) cessou. Vamos ampliar
isso um pouco mais.
Roboão, pela altivez de seu porte e pela crueldade de suas medidas, perdeu
o apego de seus súditos. Com Jeroboão, dez das tribos se revoltaram, sendo
completamente dissidentes de seus irmãos, e nunca mais foram recuperadas
para seu governo. Assim, o reinado da família de Davi sobre todo o Israel
durou, do começo ao fim, no máximo, mas três gerações, ou cerca de um
século. Somente sobre Judá, seus descendentes continuaram a reinar por
vários séculos, até que, finalmente, Nabucodonosor invadiu e conquistou a
nação, destruiu Jerusalém, queimou o templo, levou o povo ao cativeiro e
desolou toda a terra. Com essa derrubada, ocorrida cerca de seis séculos
antes do nascimento de Cristo, terminou o reinado de Davi mesmo sobre a
tribo de Judá. Seu trono literal não existe mais!
É verdade que depois do cativeiro babilônico, que continuou por setenta
anos, um remanescente do povo retornou e por outro século Judá foi
governado por Zorobabel, Esdras e Neemias. O primeiro destes foi da casa
de David, mas ambos os outros pertenciam à tribo de Levi! Nenhum deles,
no entanto, eram reis em qualquer sentido, mas apenas governadores sob
autoridade estrangeira. Durante os dois séculos seguintes, Judá foi
governado por seus sumos sacerdotes, todos pertencentes à casa de Arão!
Enquanto isso, a nação era tributária sucessivamente dos persas, gregos,
egípcios e sírios. Desde o final deste período, até que a Judéia se tornou
uma província romana sob Herodes, quando Cristo nasceu, os judeus
estavam sob o governo da família Asmonia, conhecida como os Macabeus,
todos pertencentes à tribo sacerdotal. A história, então, refuta
manifestamente a interpretação da aliança davídica que afirma que Deus
prometeu a Davi que sua semente natural deveria reinar sobre seu trono
literal até que Cristo aparecesse. Somos, portanto, forçados a buscar outra
interpretação.
Antes de considerar a importância espiritual e superior das promessas
divinas no pacto davídico, deve-se dar mais atenção à sua aplicação aos
descendentes naturais de Davi e particularmente em conexão com seus
fracassos; e aqui não podemos fazer melhor do que citar P. Fairbairn.
"Nessa profecia (2 Sam. 7: 5-17), como em um fundamento
seguro, toda uma série de previsões começou a ser anunciada, na
qual o olho da fé foi apontado para as brilhantes visões em
perspectiva, e, em particular, para aquele Filho da promessa, em
quem a sucessão dos herdeiros de Davi terminaria, e que reinaria
para sempre sobre a herança de Deus, mas enquanto a nomeação
em si era absoluta, e a profecia original era tão distante do
mesmo caráter, que não indicava suspensão na soberania da casa
de Davi, ou ruptura real na sucessão ao seu trono, o próprio
Davi sabia perfeitamente que havia uma condição implícita, que
poderia tornar tal coisa possível, e que a profecia requeria ser
lida a luz desses grandes princípios que permeiam toda a
economia divina.
Assim, além de tudo o que ele escreveu em seus salmos, deu em
seu testemunho de morte, para o benefício especial de sua
semente, uma descrição do governante, como a Palavra da
promessa contemplada, tal que deveria ter pelo menos, em parte,
realizada naqueles que ocuparam o trono de seu reino: 'Aquele
que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor
de Deus,' (2 Sam. 23: 3). Não apenas isso, mas em seu último e
ainda mais específico encargo, entregue ao seu sucessor imediato
no trono, ele expressamente descansou sua expectativa do
cumprimento da aliança feita com ele, na fiel adesão daqueles
que deveriam segui-lo à lei e ao testemunho de Deus. Depois de
ordenar a Salomão que andasse nos caminhos e guardasse os
estatutos de Deus, Davi acrescenta, com razão, para persuadir a
tal procedimento: ‘para que o SENHOR confirme a palavra que
falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho,
para andarem perante a minha face fielmente, de todo o seu
coração e de toda a sua alma, nunca te faltará sucessor ao trono
de Israel.’(1 Reis 2: 4).
Mas quando essa condição fundamental foi violada, como
começou a ser no tempo do próprio Salomão, a palavra profética
tornou-se, de certa maneira, responsiva à mudança; de modo que
agora falava quase na mesma língua a respeito da casa de Davi,
que anteriormente havia sido endereçada à de Saul: ‘ tirarei de ti
este reino e o darei a teu servo.' I Reis 11:11 em comparação com
1 Samuel 15:28; juntamente com a reserva de que ainda havia
muito a ser deixado para a casa de Davi, como era necessário
para manter as provisões essenciais do pacto. Mesmo isso, no
entanto, por um momento pareceu sucumbir-se; a perversidade e
a iniquidade da linhagem real atraíram visitas de julgamento,
que a casa majestosa e gloriosa de Davi, como aparece na
profecia original, surgiu para se mostrar como um tabernáculo
frágil, permanecendo assim até tempos futuros, derrubados e
prostrados em terra – conforme a figura de Amós 9:11.
Em consequência dessas mudanças, as trevas se estabeleceram
nos corações do povo de Deus, e receios medrosos surgiram em
suas mentes a respeito da fidelidade de Deus aos Seus
compromissos de aliança. A pergunta dolorosa foi agitada em
seus peitos: "Sua promessa falhou para sempre?" O pensamento
até escapou de seus lábios: "Ele anulou o pacto de Seu servo."
Todo o Salmo de onde essas palavras são tiradas (o 89 ), é um
registro impressionante da maneira pela qual a fé teve que lutar
com tais dúvidas e perplexidades, quando a casa de Davi foi (por
um tempo) expulsa de sua excelência, e a palavra da vontade de
Deus, como a arca de Sua aliança, parecia ser entregue nas mãos
de Sua inimigos.
Deus, no entanto, vindicou no devido tempo a veracidade de Sua
palavra, e a certeza do resultado a se esperar dela. A profecia
permaneceu firme em todos os seus termos – até sua realização,
tinha que passar por aparentes defecções e atrasos prolongados,
que dificilmente poderiam ser antecipados dos termos de seu
anúncio original, os quais eram, em certo sentido, forçados pela
incredulidade humana e obstinação. E assim, dentro de certos
limites definidos - aqueles que conectam a promessa Divina com
a esfera da responsabilidade do homem, e suportam o tempo e o
modo de seu cumprimento, pode-se dizer que a promessa carrega
um elemento condicional em seu seio, em respeito àqueles que a
conheciam de modo mais imediato. Enquanto isso, do primeiro
ao último, o grande propósito que ele consagrou não variou e
continuou a ser, como um determinado conselho do Céu, sem
sombra de mudança.
Não devemos aqui antecipar muito o que esperamos ainda abordar em
detalhe, mas ao encerrar este capítulo é pertinente salientar que, em vista do
que estava diante de nós no capítulo anterior - sobre os termos d profecia
Messiânica sendo lançada, mais ou menos, nos moldes da típica história de
Israel - nós certamente não deveríamos repetir o erro dos judeus carnais,
que esperavam que Cristo sentasse em um trono terreno. Quando a previsão
do Antigo Testamento anunciou que o Messias deveria ocupar o trono e o
reino de Davi, não foi indicado que Ele deveria governar a herança de Deus
e realizar espiritualmente e perfeitamente o que Seu protótipo fez, mas
temporalmente e parcialmente, trazer libertação, segurança? e benção eterna
ao povo de Deus? Em vista da personalidade divina do Rei Messiânico e da
extensão mundial de Seu reino, toda a necessidade eleva-se a um plano
superior, o reinado de Emanuel deve ser de outra ordem que a do filho de
Jessé - espiritual, celestial, eterna.
Deveria ser bastante óbvio para aqueles que estão realmente familiarizados
com as Escrituras anteriores que, de acordo com o caráter e os tempos da
antiga aliança, qualquer representação feita do trono e reino de Cristo seria,
pelo menos no essencial, uma figura e de natureza simbólica, exibida sob o
véu das imagens típicas fornecidas pela comunidade e história de Israel. Foi
assim que todas as coisas "melhores" da nova aliança foram obscurecidas.
A incomensurável superioridade da pessoa de Cristo sobre todos os que
eram Seus tipos, nos obriga a procurar um mais grandioso e mais nobre
desempenho de seus ofícios do que o que lhes pertence. É verdade que há
uma semelhança entre Cristo como profeta e Moisés (Deuteronômio 18:18);
no entanto, o contraste é bem mais evidente (Hb 3:3,5). É verdade que há
semelhanças entre Cristo como sacerdote, Melquisedeque e Aarão (Hb 5: 1-
5; 7:21); no entanto, o antítipo é muito superior (Apocalipse 5: 6, etc.).
Assim, o trono em que Ele está sentado e o reino que Ele administra é
infinitamente mais alto do que qualquer um que Davi ou Salomão já
ocuparam (Hb 2: 9; 1: 3). Cuidado com a degradação do divino rei ao nível
dos humanos!
O Senhor da glória não mais estava (ou ficava) na necessidade de qualquer
entronização externa ou sede local do governo na terra, a fim de provar Seu
título ao reino de Davi, do que Ele requeria qualquer "unção" física para
constituí-lo sacerdote para sempre, ou um altar material para a devida
apresentação de Seu sacrifício a Deus. Como alguém disse bem:
"Sendo o Filho do Deus vivo e, como tal, o herdeiro de todas as
coisas, possuía desde o princípio todos os poderes do reino e
provava que Ele os possuía por cada palavra que pronunciava,
obra de libertação que Ele realizou, todo julgamento
pronunciado, todo ato de clemência e perdão dispensado, e o
controle irresistível que Ele exerceu sobre os elementos de
natureza e os reinos dos mortos. Estes eram os sinais de realeza
que trouxe consigo ao mundo. E, embora maravilhosos,
eclipsando em verdadeira grandeza toda a glória de Davi e
Salomão, ainda eram apenas os prelúdios anteriores daquela
majestade inigualável que Davi descreveu de longe quando o viu,
como o Senhor, sentado no estado real em a mão direita de seu
Pai”.
CAPÍTULO 5
No capítulo anterior, salientamos que, em vista de tudo o que foi exposto
em relação aos pactos anteriores, é razoável esperar que o davídico também
tenha um significado de "carta" e "espírito". Essa expectativa é,
acreditamos, capaz de demonstração com clareza: em seus aspectos
primários e inferiores, as promessas de 2 Samuel 7: 11-16 se referiam a
Salomão e seus sucessores imediatos, mas em seu significado mais elevado
e definitivo, apontavam para Cristo e Seu reino. E esse fato não é evidente a
partir da sequência imediata? Não é o que está registrado em 2 Samuel 7:
18-25 que o próprio Davi foi capaz de perceber o significado espiritual
daquelas promessas, a saber, que elas tinham a ver com o próprio Cristo?
Não tenho a menor dúvida de que tal era o caso, e agora nos esforçaremos
para deixar isso claro para o leitor.
"Então, entrou o rei Davi, e ficou perante o SENHOR" (2 Samuel 7:18).
Sua postura era, acreditamos, indicativa da consideração séria que David
estava dando à mensagem que acabara de receber. Enquanto ponderava as
promessas divinas e examinava as maravilhosas riquezas da divina graça
para ele, irrompeu em linguagem discreta e consternadora: "e disse: Quem
sou eu, Senhor JEOVÁ, e qual é a minha casa, que me trouxeste até aqui?
(v. 18). Ora, sua "casa" pertencia à tribo real: ele era o descendente direto
do príncipe de Judá, de modo que estava ligado a uma das famílias mais
honradas de todo o Israel. Sim, mas tais distinções carnais eram agora
realizadas muito levemente por ele. "Trouxe-me até agora": ora, ele havia
sido levado ao próprio trono e dado descanso a todos os seus inimigos (7:
1). Sim, mas estes se desvaneceram em absoluta insignificância diante das
coisas muito maiores que Nathan havia profetizado.
"E ainda foi isso pouco aos teus olhos, Senhor JEOVÁ, senão que também
falaste da casa de teu servo para tempos distantes; é isso o costume dos
homens, ó Senhor JEOVÁ? E que mais te falará ainda Davi? Pois tu
conheces bem a teu servo, ó Senhor JEOVÁ."(v. 19, 20). Aqui, novamente,
vemos o efeito que a mensagem do Senhor operou na mente de Davi.
"Ele viu em espírito outro Filho além de Salomão, outro Templo
do que um construído de pedras e cedro, outro Reino que o
terrestre, em cujo trono ele se sentou. Ele percebeu um cetro e
uma coroa da qual a sua, no monte Sião, era apenas fraca
manifestação sombria"(Krummacher’s David and the Godman).
É evidente, a partir de sua próxima declaração, que o patriarca Davi
entendeu que o conjunto dessas promessas receberia o cumprimento no
Senhor Jesus Cristo.
"Por causa da tua palavra e segundo o teu coração, fizeste toda esta
grandeza, fazendo-a saber a teu servo." (v. 21). A referência era à Palavra
pessoal, Aquele de quem é declarado: "No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava com
Deus, e a Palavra era Deus "(João 1: 1); e "segundo o teu próprio coração"
significava segundo os conselhos da graça de Deus. Que Davi não estava se
referindo da Palavra falada ou escrita de Deus é evidente pelo fato de que
nada disso havia sido dito antes, não se havia dito nada a respeito dessas
coisas, enquanto da Palavra escrita não havia nada que predisse Cristo, seja
pessoal ou místico, sob a similitude de uma "casa". Note-se que todas as
referências posteriores nas Escrituras a Cristo sob esta figura são
emprestadas e baseadas nesta mesma passagem. Então, em visão, foi
entregue a Davi, pela primeira vez, a revelação, e é por isso que, naquele
maravilhoso Salmo 89, temos outras grandes características dela e,
particularmente, marcantes.
"As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; com a minha boca
manifestarei a tua fidelidade de geração em geração. Pois disse eu: a tua
benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até
nos céus, dizendo: Fiz um concerto com o meu escolhido; jurei ao meu
servo Davi: a tua descendência estabelecerei para sempre e edificarei o teu
trono de geração em geração."(Sl 89: 1-4). Desse juramento, Deus, o
Espírito Santo, graciosamente teve o prazer de contar à igreja pela boca de
Pedro no dia de Pentecostes: "Sendo, pois, ele profeta e sabendo que Deus
lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a
carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono, "(Atos 2:30).
Aqui, então, está a mais decidida e expressa prova de que não o filho de
Davi, Salomão, nem qualquer semente de Adão segundo a carne, mas a
Cristo mesmo 2 Samuel 7: 11-16 definitivamente aludiu. Davi entendeu
plenamente que era de Cristo e somente a Ele as promessas se referiam, e
foi isso que dominou sua mente e levou-o a irromper com tais expressões de
humildade.
O que acaba de ser apresentado nos fornece uma ilustração do fato de que
todos os patriarcas e santos da época do Antigo Testamento viveram e
morreram na fé de Cristo: "sem terem recebido as promessas, mas, vendo-
as de longe, e crendo nelas, e abraçando-as" (Hb 11:13). Por isso, foi pela
fé, olhando para Cristo, que Abel ofereceu a Deus um sacrifício aceitável.
Por isso, pela fé, Noé preparou uma arca, como contemplando nela Cristo
como um esconderijo seguro contra o vento e a tempestade. Daí também,
pela fé, Abraão ofereceu seu filho unigênito, projetando-se para a oferta do
Filho unigênito de Deus na plenitude do tempo. Portanto, Davi olhou para
Cristo nas promessas de Deus para lhe construir uma casa, e foi nessa
confiança que se confortou em meio as tristes circunstâncias de si mesmo e
de seus filhos (2Sm 23: 5).
Esses homens santos de antigamente e todos os fiéis em cada geração da
igreja antes da vinda de Cristo, viviam na bendita segurança daquela fé.
Eles viram as promessas de longe, mas isso não teve o menor efeito em
diminuir sua convicção na veracidade delas. Sua fé deu a eles uma
subsistência presente: os concretizaram e os concretizaram, como se esses
santos tivessem o cumprimento na posse real, a semelhança de um poderoso
telescópio que levará para perto dos objetos oculares muito remotos. Sua fé
deu uma garantia tão grande da realidade do que Deus prometeu como se
tivessem vivido nos dias em que o Filho de Deus encarnou e habitou entre
os homens. Da mesma forma, é somente pelo exercício de uma fé
semelhante que podemos, agora, ter um conhecimento real de Cristo pela
união e comunhão com Ele.
Antes de considerarmos mais o conteúdo do Salmo 89 - que fornece uma
exposição divina das promessas feitas a Davi em 1 Samuel 7 - devemos
primeiro voltar ao Salmo 2. Como CH Spurgeon disse em suas observações
introdutórias sobre o assunto:
não erramos em nosso resumo deste salmo sublime se o
chamarmos de “O Salmo do Messias, o Príncipe”, pois expõe,
como em uma visão maravilhosa, o tumulto do povo contra o
Ungido do Senhor, o propósito determinado de Deus de exaltar
Seu próprio Filho e o supremo reino daquele Filho sobre todos os
Seus inimigos. Leia-o com os olhos da fé, vendo, como num vidro,
o triunfo final de nosso Senhor Jesus Cristo sobre todos os Seus
inimigos.
Este Salmo 2 é dividido em quatro seções de três versos cada. A primeira
fala da oposição difundida ao reino e governo de Cristo: Seus inimigos não
podem suportar Seu jugo e se rebelam contra Seus mandamentos; estes
versículos (1-3) foram aplicados por Pedro sob a inspiração imediata do
Espírito Santo, à oposição que Cristo encontrou e às indignidades que Ele
sofreu nas mãos dos judeus e gentios (veja Atos 4: 24-27). . A segunda
seção revela o absoluto desprezo de Deus por aqueles que procuraram
frustrar Seu propósito: Ele ridiculariza seus conselhos tolos e seus esforços
insignificantes, e torna conhecida a realização de Sua vontade. Ele não os
feriu, mas anuncia veementemente que realizou o que eles procuravam
evitar.
"Enquanto eles estão propondo, Ele já havia decidido a questão.
A vontade de Jeová é feita, e assim a vontade do homem se
enfurece e queima em vão. O Ungido de Deus é designado e não
deve se desapontar" (C. H. Spurgeon).
"Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte Sião." (Salmos 2: 6).
É a investidura de Cristo em Seu ofício real que está em vista. Assim como
Jeová derrotou os esforços de todos os seus inimigos e colocou o filho de
Jessé no trono, tornando-o rei em Jerusalém sobre todo o Israel, também
Ele ressuscitou o seu próprio Filho dentre os mortos, exaltou-O como
cabeça da igreja e assentou-O como o rei vitorioso em seu trono mediador,
e, portanto, o Redentor ressuscitado declarou: "É-me dado todo o poder no
céu e na terra" (Mateus 28:18). Estudiosos nos dizem que "Sião" é derivado
de tzun, que significa "monumento levantado". Tal é de fato a igreja de
Deus: um monumento de graça agora, e de glória a seguir; levantado para
toda a eternidade. Foi lá que Davi construiu sua cidade, um tipo da Cidade
de Deus em Cristo. Foi lá que Salomão construiu o templo, um tipo também
do corpo místico de Cristo. Por isso, quando lemos: "Que o SENHOR
fundou a Sião, para que os opressos do seu povo nela encontrem abrigo"
(Isa. 14:32), quando o ouvimos dizer: "Eis que eu assentei em Sião uma
pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme
e fundada"(Isaías 28:16 - o Espírito Santo movendo um apóstolo para dizer
à igreja que este é Cristo: 1 Pedro 2: 6-8), e quando os olhos da fé nós
vemos "um Cordeiro estava no monte Sião, e com ele cento e quarenta e
quatro mil, tendo o nome de seu Pai escrito em suas testas" (Apocalipse 14:
1), que pode se abster de exclamar: "A ti, ó Deus, espera o louvor em Sião"
(Sl 65: 1).
Parece estranho que alguém questione o fato ou, digamos, desafie a
afirmação de que, mesmo agora, o Senhor Jesus é Rei e está cumprindo Seu
ofício real. Todo o fardo da Epístola aos Hebreus é o oferecimento de prova
de que Ele é Sacerdote "segundo a ordem de Melquisedeque": isto é,
Sacerdote-Rei. Confirmação adicional é encontrada na declaração de que os
crentes são "um sacerdócio real" (1 Pedro 2: 9), e eles são tão somente por
causa de sua união com o antitípico Melquisedeque. Cristo já foi "coroado",
não com um diadema terreno ou material, mas "com glória e com honra"
(Hb 2: 9). Ele "sentou-se à direita de Majestade nas alturas", e por isso Ele
está" sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder "(Heb. 1: 3). O
"cetro de justiça "é exercido por Ele (Hb 1: 8)," embaixadores" foram
enviados por Ele (2Co 5:20), e ambos os homens e anjos estão sujeitos a
ele.
Cristo é o Rei dos Seus inimigos e Ele reinará até que tenha colocado o
último deles sob Seus pés. "Quem não temeria a ti, ó rei das nações" (Jer.
10: 7). É verdade que muitos deles não possuem o seu cetro, sim, alguns
negam o Seu próprio ser; não obstante, Ele é seu soberano, "o príncipe dos
reis da terra" (Ap. 1: 5), e isto porque Deus já "exaltou-o altamente e lhe
deu um nome que está acima de todo nome" (Fp 2: 9). Esta foi a
recompensa por seus sofrimentos: a cabeça que uma vez foi coroada de
espinhos é coroada de glória agora: um diadema real adorna a testa do
poderoso vencedor. "Ele tem no seu manto e na sua coxa um nome escrito:
Rei dos reis e Senhor dos senhores" (Ap 19:16). Ali, meu leitor, quais são
todos os grandes, os poderosos e honrados homens da terra em comparação
com Aquele que é "o único Poderoso" (1 Timóteo 6:15).
Outra vez: Cristo é o Rei da igreja: "O Rei dos Santos" (Ap 15: 3). Ele é o
Rei do mal e o Rei do bem: Ele é o Rei do primeiro, Ele é o Rei do último.
Cristo rege sobre os ímpios por Sua força e poder; Ele governa nos justos
pelo Seu Espírito e graça. Este último é o Seu reino espiritual, onde Ele
reina nos corações dos Seus, onde Sua soberania é reconhecida, Seu cetro
beijado, Suas leis atendidas. Isto é provocado pelo milagre da regeneração,
através do qual os rebeldes sem lei são transformados em súditos leais.
Como o Rei de Sião, Cristo exerce Sua autoridade real ao nomear oficiais,
tanto ordinários quanto extraordinários, para a Sua igreja (ver Efésios 4:11,
12). É da prerrogativa do rei nomear e chamar aqueles que o servem no
governo do seu reino: este Cristo o faz. Ele também exerce Sua autoridade
real ordenando a Seus oficiais que governem Seus súditos, para que não
ensinem outras coisas além daquelas que Ele ordenou (Mateus 28:19). Oh,
que escritor e leitor possam render-lhe a fidelidade e fidelidade que lhe são
devidas!
Finalmente, note-se que Cristo é o Rei do Pai, e isso em pelo menos três
aspectos. Primeiro, pela designação do Pai: "Designo-vos um reino, como
meu Pai designou para mim" (Lucas 22:29). Cristo é eminentemente
qualificado para sustentar o governo O ombro dele; e sendo infinitamente
querido ao Pai esta é a honra que Ele se deleitou em conferir ao Filho.
Segundo, pela investidura do Pai: "Pus o meu rei no meu santo monte de
Sião". Deus confiou a Cristo a única administração do governo e do
julgamento: "E deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem"
(João 5:27). Terceiro, porque Cristo governa para o Seu Pai: para cumprir o
Seu propósito, para glorificar o Seu nome. Que Cristo governa para o Seu
Pai é claro, "Então vem o fim, quando ele entregar o reino a Deus, o Pai" (1
Coríntios 15:24). É o reino do Pai; e, portanto, oramos: "Venha o teu reino",
isto é, na sua manifestação mais aberta. No entanto, é o reino do Filho (Cl
1:14) porque administrado por Ele o poder de Cristo como o Rei de Sião é
absoluto e universal. Infelizmente, isso agora é tão vagamente percebido e
tão debilmente apreendido por muitos daqueles que levam Seu nome. Os
dispensacionalistas terão muito a responder no próximo Dia, pois ao
negar Seu atual reinado, adiando Seu governo para "o milênio", ambos
roubam Suas honras pessoais e nos privam de precioso conforto. Cristo é
soberano, supremo sobre todas as criaturas. Ele refreia os homens e os
demônios, dizendo-lhes, como faz com as orgulhosas ondas do mar, "Até
aqui virás, mas não mais". Como o Rei de Sião, Cristo tem sua corrente
sobre os pescoços de Satanás e todos os seus maus instrumentos; e quando
eles terminam, são obrigados a parar. Vemos isso no caso de Jó: quando o
diabo foi permitido assediá-lo, foi apenas até onde sua corrente permitiu. O
mesmo ocorre agora.
Esse poder real e absoluto de Cristo está sendo exercido para a proteção de
Sua igreja no meio de perigos graves e iminentes. Um retrato vívido disto
foi feito a Moisés quando Cristo apareceu a ele na sarça ardente. Ele viu a
sarça queimando no meio do fogo; no entanto, sem consumi-la. Isso
representava a situação da igreja no Egito naquela época: sob a tirania dos
mais cruéis feitores, dominados pelo faraó que os odiavam e ansiavam por
sua aniquilação. No entanto, sob os cuidados de Cristo, foram livres de
serem engolidos por seus inimigos. Isto Ele fez em todas as eras,
protegendo Seu povo quando os inimigos ameaçaram engoli-lo.
Na terceira seção do Salmo 2, Cristo é ouvido declarando seus direitos
soberanos, com a resposta do Pai a ele. Recomendamos aos que têm acesso
às obras de John Newton que leiam seu sermão sobre o Salmo 2: 9. Nisso
ele mostrou como, uma vez que os inimigos de Cristo não se submeterão ao
cetro de ouro de Sua graça, eles estão sob sua vara de ferro. Este domínio
de ferro sobre eles consiste, em primeiro lugar, na conexão certa e
inseparável que Ele estabeleceu entre o pecado e a miséria: onde o Senhor
não habita, a paz não habita. Segundo, em seu poder sobre a consciência:
que terríveis pensamentos e medos às vezes os despertam nas horas
silenciosas da noite! Terceiro, nessa terrível cegueira e dureza de coração à
qual alguns pecadores são abandonados.
CAPÍTULO 6
No capítulo de abertura deste estudo, assinalou-se que as várias alianças
com as quais Deus entrou com os homens, de tempos em tempos,
esboçavam diferentes características da aliança eterna que Ele fez com o
Mediador na época em que começou. Conforme seguimos a corrente
histórica, foi demonstrado que os pactos Adâmico, Noéico e Sinaítico
obscureceram as características essenciais daquele pacto eterno que
constituiu a base da salvação dos eleitos de Deus. Em conexão com o
davídico é observável que há uma ausência daqueles detalhes que marcaram
os anteriores, o que torna menos fácil determinar o propósito e propósito
exato do mesmo no que diz respeito à "carta" dele. No entanto, a razão para
isso não está longe de ser procurada: como o último dos pactos do Antigo
Testamento, o tipo fundiu-se mais definitivamente com o antítipo. Isso se
torna mais patente quando examinamos cuidadosamente as passagens da
Escrituras que contêm relação direta com o mesmo, pois em algumas delas
é quase impossível dizer se o tipo ou o antítipo está diante de nós.
Um exemplo notável disso é fornecido pelo Salmo 89. Embora não
possamos ter certeza do tempo exata em que foi escrito pela primeira vez,
parece haver uma boa razão para concluir que ele deve ser datado do
reinado de Roboão. Seus versos finais deixam bem claro que foi escrito no
período que honra e o poder da linhagem real de Davi foram reduzidos a
um declínio muito baixo; ainda antes da destruição de Jerusalém e do seu
templo - pois nenhum indício dessa calamidade é aqui dado. Foi nos dias de
Roboão que dez daquelas tribos se rebelaram, ao sofrer sob um poderoso
adversário, enquanto o rei do Egito o enfraqueceu e humilhou de tal forma
que, a princípio, dá-nos impressão de que reteve seu reino pela clemência
de Sisaque. Uma triste condição havia chegado, pois as fortunas da família
de David haviam caído a um grau deplorável.
Foi sob tais circunstâncias que o Salmo 89 foi composto. Que seu escritor
estava terrivelmente agitado aparece em seus últimos catorze versos,
embora talvez ele estivesse expressando o sentimento geral que obteve.
Tudo parecia que as promessas divinas a David tinha falhado e estava na
véspera de serem completamente invalidadas. Foi então que a fé teve a sua
oportunidade, e ignorando as nuvens negras que cobriam o firmamento,
refugiou-se nAquele que mora acima dela. Foi na fidelidade da aliança do
Pai das misericórdias que o salmista encontrou agora consolo. "Eu cantarei
para sempre as misericórdias do Senhor: com a minha boca farei conhecer a
tua fidelidade por todas as gerações. Pois eu tenho dito: A Misericórdia será
edificada para sempre; a tua fidelidade estabelecerás nos céus. "fiz um
pacto com o meu escolhido, jurei ao meu servo Davi: a tua semente
estabelecerei para sempre e edificarei o teu trono de geração em geração."
(Sl 89: 1-4).
Apenas uma única visão foi obtida entre os de mente espiritualizada. Disse
o Puritano Brooks,
"Há muitas passagens no Salmo que evidenciam claramente que
é para ser interpretado a partir de Cristo, sim, existem muitas
coisas neste Salmo que não podem ser clara e pertinente
aplicada a qualquer outro, mas Cristo".
Toplady (autor do hino "Rock of Ages") perguntou:
"Você acha que isso foi dito sobre Davi apenas em sua própria
pessoa? Não, na verdade, mas para Davi como tipo e precursor
de Cristo".
"Toda a contextura do Salmo descobre que o projeto deve ser o
de estabelecer alguma pessoa superior a Davi, pois parece ser
magnífico e elevado demais para um príncipe terreno" (S.
Charnock). "
“Todo o Salmo 89, que é totalmente dedicado ao pacto, é
expressamente considerado uma visão na qual Jeová falou ao
Seu Santo (v. 19), e todo o significado disso é mostrar como
Jeová havia entrado em compromisso de aliança com Cristo para
a redenção do Seu povo "(Robert Hawker).
O Salmo 89, então, é a chave para 2 Samuel 7: 4-17. Ele não apenas revela
para nós o significado da aliança davídica, mas também fixa a interpretação
daquelas passagens nos profetas que obviamente remontam e são baseadas
na mesma.
"O pacto é feito com Davi, o pacto da realeza é feito com ele,
como o pai de sua família, e toda a sua descendência através
dele, e por sua causa, representando a Aliança da Graça feita
com Cristo como Cabeça da Igreja, e com todos os crentes nEle.
As bênçãos do pacto não estavam apenas garantidas ao próprio
Davi, mas estavam vinculadas à sua família. Foi prometido que a
família dele deveria continuar - 'a semente estabelecerei para
sempre', de modo que 'Davi não desejará que um filho reine'
(Jeremias 33:17). E que deveria continuar uma família real: "Eu
construirei o seu trono para todas as gerações. 'Isto tem a sua
realização somente em Cristo" (Matthew Henry).
"Fiz uma aliança com o meu escolhido, jurei ao meu servo Davi" (v. 3).
"Davi foi o eleito do Senhor, e com ele foi feito um pacto, que
correu na linha de sua semente até que recebeu um cumprimento
final e sem fim em 'o Filho de Davi'. A casa de Davi deve ser
real: contanto que como havia um cetro em Judá, a semente de
Davi deve ser a única dinastia legítima, o grande 'Rei dos
Judeus' morreu com o título acima de Sua cabeça nas três
línguas atuais do mundo então conhecido, e neste dia Ele é de
propriedade como rei por homens de todas as línguas O
juramento juramentado a Davi não foi quebrado, embora a coroa
temporal não seja mais usada, pois no próprio pacto se dizia que
seu reino era duradouro para sempre. Em Cristo Jesus há um
pacto estabelecido com todos os escolhidos do Senhor, e eles são
por graça levados para serem servos do Senhor, e então são
ordenados reis e sacerdotes por Jesus Cristo. Depois de ler isto
(2 Sam. 7: 12-16), vamos nos lembrar que o Senhor nos disse
pelo Seu servo Isaías: 'Eu farei um pacto eterno com você, até
mesmo as misericórdias de Davi "(C. H. Spurgeon).
"A tua semente estabelecerei para sempre e edificarei o teu trono para todas
as gerações" (v. 4).
"Davi deve sempre ter uma semente, e verdadeiramente em Jesus
isso é cumprido além de suas esperanças. Que semente Davi tem
na multidão que brotou Daquele que foi tanto seu Filho como seu
Senhor. O Filho de Davi é o grande Progenitor, o último Adão, o
eterno Pai, Ele vê a sua semente, e neles vê o trabalho da Sua
alma. A dinastia de Davi nunca se decompõe, mas pelo contrário,
é sempre consolidada pelo grande Arquiteto do céu e da terra.
Jesus é um rei bem como um progenitor, e Seu trono está sendo
edificado sempre - Seu reino vem - Seu poder se estende. Assim o
pacto é executado: e quando a Igreja declina, é nossa
responsabilidade interceder diante do sempre fiel Deus, como o
salmista faz nos últimos versos desta canção sagrada. Cristo
deve reinar, mas por que seu nome é blasfemado e seu evangelho
é tão desprezado? Quanto mais graciosos os cristãos são, mais
eles serão levados à inveja pelo triste estado da causa do
Redentor, e mais eles discutirão o caso com o grande Criador do
Pacto, clamando dia e noite diante dEle, 'Venha o teu reino'. "
(CH Spurgeon).
Não prosseguiremos mais com um comentário em verso a verso deste
salmo, mas antes procuraremos chamar a atenção para suas características
mais essenciais, pois elas servem para elucidar a aliança davídica. A
primeira seção do salmo termina com a declaração: "Justiça e juízo são a
morada do teu trono". Isto se refere ao trono medianeiro de Deus em Cristo,
como fica claro a partir do restante do verso e o que segue: justiça e
julgamento são o estabelecimento (margem) de Seu trono - as fundações
mais firmes sobre as quais qualquer trono pode ser estabelecido. O Filho de
Deus, como a garantia de seus eleitos, comprometeu-se a satisfazer a justiça
divina, prestando perfeita obediência aos preceitos da lei e sofrendo sua
penalidade, por meio da qual Ele introduziu a justiça eterna. A
administração da graça de Deus, então, é fundamentada na completa
satisfação de Sua justiça por Cristo como o patrocinador de Seu povo
(Romanos 3: 24-26; 5:21).
Tendo louvado de algum modo o Deus de Israel, celebrando Suas
perfeições, o salmista declarou a felicidade do verdadeiro Israel de Deus,
encerrando com a afirmação abençoada: "Porque o Senhor é nossa defesa, e
o Santo de Israel é nosso rei" "(v. 18). As pessoas que "conhecem o alegre
som" (v. 15) são aquelas cujos ouvidos foram abertos pelo Espírito para
receber as boas-novas do evangelho, para que eles entendam as promessas
da aliança e percebam o interesse pessoal nelas. Eles andam na luz do
semblante de Jeová, pois são aceitos no Amado. Na justiça de Deus, eles
continuarão a ser exaltados, pois a justiça divina está do seu lado e não
contra eles. Em favor de Deus, seu chifre ou espírito será elevado, pois nada
excita o coração como uma realização da livre graça de Deus. Como o Rei
deles, o Santo de Israel os governará e os protegerá.
No versículo 19, o salmista volta a considerar o pacto que Deus fez com
Davi, ampliando sua referência anterior a ele; e implorando diante de Deus
por Seu favor para a família real, agora quase arruinada. No entanto, basta
pesar as coisas aqui para perceber que elas vão muito além do típico David;
sim, algumas delas dificilmente poderiam aplicar-se em absoluto a Davi,
mas em Cristo e em Sua semente espiritual. O pacto que Deus fez com o
filho de Jessé era um esboço externo daquele pacto eterno que Ele havia
celebrado com o Mediador em nome de Seu povo: foi uma publicação na
terra do que aconteceu nos concílios secretos do céu. A referência final em
"Então falaste em visão ao teu santo" é o intercurso do Pai com o Filho
antes do tempo começar (veja Prov. 8:22, 23, 30; Mateus 11:27; João 5:20).
"A um herói concedi o poder de socorrer" (v. 19). Quão plenamente
demonstrado isso na vida, morte e ressurreição de Cristo! Ele era poderoso
porque Ele é o Todo-Poderoso (Apocalipse 1: 8). Como Deus, o Filho, em
união pessoal com o Filho do Homem, Ele estava em todos os sentidos
qualificado para o Seu estupendo empreendimento. Ninguém, senão Ele,
poderia magnificar a lei e torná-la honrosa, fazer expiação pelo pecado,
vencer a morte, ferir a cabeça da serpente e assim preservar Sua igreja na
terra, de modo que as portas do Hades não prevalecessem contra ela. Como
este poderoso, "o Leão da tribo de Judá", o apóstolo João o viu nas visões
de Patmos (Ap. 5: 5). Porque Ele é assim, portanto "ele é capaz de salvar
perfeitamente os que vêm para Deus por ele" (Hb 7:25).
"do meio do povo, exaltei um escolhido" (v. 19). É isto, essencialmente, o
que qualifica Cristo para ocupar o trono medianeiro, pois ele não é apenas
"o poderoso Deus" (Isaías 9: 6), mas como a semente da mulher (Gênesis
3:15) Ele tomou para Si mesmo nossa própria natureza: "or isso mesmo,
convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para
ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para
fazer propiciação pelos pecados do povo" (Hb 2:17). Um dos títulos pelos
quais Deus se dirige ao redentor é: "Eis aqui meu servo, a quem sustenho;
meus eleitos [ou escolhidos] em quem minha alma se deleita" (Isaías 42: 1).
E este Deus abençoador o exaltou à Sua própria mão direita.
"Encontrei Davi, meu servo; com o meu santo óleo o ungi." (v. 20).
"Isto também deve ser exposto do Príncipe Emanuel: Ele se
tornou o Servo do Senhor por nossa causa, o Pai tendo
encontrado para nós em Sua pessoa um poderoso Libertador,
portanto, sobre Ele descansou o Espírito sem medida, para
qualifica-Lo para todos os ofícios de amor para os quais foi
separado. Nós não temos um Salvador autonomeado e
desqualificado, mas um enviado de Deus e Divinamente dotado
para o Seu trabalho. Nosso Salvador Jesus também é o Cristo do
Senhor ou Ungido. O óleo com o qual Ele é ungido é o óleo de
Deus e o óleo sagrado; Jesus é divinamente dotado do Espírito
de santidade - cf. Lucas 4:18 "(Spurgeon).
Nos profetas, Cristo é chamado "David" muitas vezes, o nome significa "o
Amado", pois Ele é o mais amado do Pai. "Ele me invocará, dizendo: Tu és
meu pai, meu Deus e a rocha da minha salvação."(v. 26). Onde há algum
registro de que Davi tenha se dirigido a Deus por este termo cativante?
Obviamente, a referência é àquele que, na manhã de Sua ressurreição,
declarou: "Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. "
(João 20:17). "Fá-lo-ei, por isso, meu primogênito, o mais elevado entre os
reis da terra"(v. 27). Isso também é inteligível apenas do verdadeiro Davi,
que deve ter a preeminência em todas as coisas, Cristo foi feito superior aos
reis da terra quando Deus O assentou à sua direita nos céus, "acima de todo
principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa
referir "(Ef 1:20, 21).
"Farei durar para sempre a sua descendência" (v. 29). Aqui, novamente, o
tipo perde-se no antítipo. Literalmente, a semente de Davi vive para sempre
na pessoa de Cristo, que veio de Davi de acordo com a carne (Rm 1: 3).
Mas espiritualmente, é a semente do verdadeiro Davi, ou seja, os crentes;
porque somente eles possuem o seu cetro e são Seus súditos.
"Os santos são uma raça que nem a morte nem o inferno podem
matar" (Spurgeon).
Antigamente era declarado de Cristo: "Ele verá a sua semente ... Ele verá do
trabalho de sua alma e ficará satisfeito" (Isaías 53:10, 11). Em um dia
vindouro, Cristo exclamará: "Eis que eu e os filhos que Deus me deu" (Hb
2:13). "E o seu trono como os dias do céu" (v. 29). Note-se que tanto aqui
como no verso 36 a "semente" de Cristo e o seu "trono" estão unidos como
se o seu trono não pudesse resistir se a sua semente falhasse. Charnock
perguntou: "Se Seus súditos perecessem, de quem Ele seria o Rei? Se Seus
membros forem consumidos, de quem seria Ele o cabeça?" É Seu trono
mediador e sua perpetuidade que estão em vista aqui: na nova terra haverá
"o trono de Deus e do Cordeiro" (Ap 22: 1).
Se alguma dúvida permanecer na mente do leitor quanto à exatidão ou
verdade de nossa interpretação acima, o que está registrado nos versículos
30-37 deveria removê-la completa e imediatamente. Nada poderia ser mais
claro do que os filhos crentes do antitípico Davi que estão à vista. Naquela
passagem anterior, Deus torna conhecidos Seus caminhos - os princípios
segundo os quais Ele lida com os redimidos: princípios presentes e
operantes em todas as dispensações. Os filhos de Cristo ainda têm uma
natureza pecaminosa e, portanto, estão sempre propensos a abandonar a lei
de Deus, embora, mesmo assim, isso não anule as promessas que Deus lhes
fez em Cristo. É verdade que Deus é santo e, portanto, não deixará de ver
seus pecados; Ele é justo, e assim os castiga por suas iniquidades; mas
também é fiel e gracioso, e por isso não quebrará a sua palavra a Cristo,
nem tirará a sua benignidade daqueles por quem o seu Filho morreu.
Deus havia declarado: "Fiz um pacto com o meu escolhido; jurei ao meu
servo Davi: a tua semente estabelecerei para sempre" (vv. 3, 4). Sim; mas
suponha que a semente de Davi seja totalmente indigna e infiel - o que
então? Deus os expulsará de Sua aliança? Não, de fato: é por isso que os
versos 30, 31 começam com "Se": uma objeção é antecipada, o fantasma
arminiano de cair da graça e ser perdido é aqui cortado pela raiz. Se a
semente do antitípico Davi quebrar os estatutos de Deus e não guardar Seus
mandamentos, a rejeição divina e a destruição eterna serão sua parte
inevitável? Não; Deus os afligirá duramente por suas iniquidades,
entretanto, é a vara disciplinar que Ele usa, não a espada ou o machado do
carrasco. Deus não é inconstante: a quem ele ama, ama para sempre; e,
portanto, nem homem nem Satanás jamais destruirão qualquer semente do
verdadeiro Davi.
CAPÍTULO 7
No capítulo anterior, foi indicado como o relato histórico da aliança
davídica carece da plenitude dos detalhes que marcaram os anteriores: a
razão para isso está no fato de que quanto mais próximo do advento de
Cristo, mais o tipo se fundia ao antítipo. Também foi explicado como o
Salmo 89 nos fornece a interpretação divina das promessas dadas pelo
profeta Natã ao filho de Jessé. Não é possível insistir na importância
excepcional deste fato, pois resolve a questão inquietante quanto ao caráter
e localização do trono e do reino de Cristo. É aqui que recebemos respostas
claras e conclusivas às questões e disputas que foram levantadas sobre os
termos encontrados em 2 Samuel 7: 11-16.
O que mais ansiamos deixar claro para o leitor é isto: a semente prometida a
Davi em 2 Samuel 7:12 é carnal ou mística? O Seu reino (v. 12) é um reino
terrestre ou celestial? Sua casa e trono são materiais ou espirituais? Se uma
dessas questões puder ser definitivamente e finalmente resolvida, então as
outras serão, pois é óbvio que a passagem deve ser tratada de forma
consistente por toda parte. Tudo deve ser entendido literalmente ou tudo
misticamente, carnal ou espiritualmente. Agora toda a dúvida é removida
quanto à resposta à primeira questão: a semente prometida a Davi, como a
semente prometida a Abraão (Gálatas 3: 7, 16) é mística; isto é, encontra
sua realização não em Cristo pessoalmente, mas em Cristo misticamente,
isto é, Cristo junto com os membros de Seu corpo - a igreja da qual Ele é
a cabeça. A prova disso é encontrada no Salmo 89.
Em 2 Samuel 7 Deus prometeu a Davi: "farei levantar depois de ti o teu
descendente, [...]Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a
transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de
homens. "(vv. 12-14). No Salmo 89, Deus declarou: "Eu encontrei Davi,
meu servo (...) Ele clamará para mim: Tu és meu pai ... meu pacto
permanecerá firme com ele ... Se seus filhos deixarem minha lei, então eu
visitarei a sua transgressão com a vara, e a sua iniquidade com açoites ”(vv.
20, 26, 28, 29, 31). Nada poderia ser mais claro do que isto: "se vier a
transgredir, castigá-lo-ei com vara" de 2 Samuel 7:14 é aqui mudado para
"Eu vou visitar suas transgressões com a vara." Assim, a semente de Davi é
Cristo e Seus filhos. A sua identificação absoluta é ainda mais enfatizada
em "Visitarei as suas transgressões com a vara; todavia, não me apartarei a
minha benevolência" (vv. 32, 33). Assim, o Redentor e os redimidos estão
inseparavelmente ligados, pois juntos formam um corpo (místico).
A grande promessa feita a Davi em 2 Samuel 7 era que, apesar de sua
semente cometer iniquidade, a misericórdia de Deus "não se afastaria dele",
mas que sua casa e reino deveriam ser "estabelecidos para sempre" (vv. 14-
16). Não foi uma bênção carnal ou terrena, mas uma bênção espiritual e
eterna. Disto difere radicalmente do que foi antes. Tanto Adão no Éden
como Israel em Canaã havia perdido sua herança, mas a herança que Cristo
garantiu para o Seu povo é inalienável. Isto é tão proeminente no Salmo 89:
de Cristo, Deus declarou: "A sua semente, também eu, farei para durar para
sempre" (v. 29). Este é o compromisso da aliança de Deus com o Mediador,
e nenhum fracasso ou pecado da parte de Seu povo fará com que Deus o
cancele. É verdade que Ele irá severamente castigá-los por suas
transgressões - pois na família de Deus a vara não é poupada nem as
crianças são mimadas - mas Ele não as rejeitará como rebeldes
incorrigíveis. A expiação de Cristo satisfez plenamente todas as suas
responsabilidades; e como Ele goza do favor de Deus para sempre, assim
também aqueles vitalmente unidos a ele gozarão.
A mesma grande característica marca o trono e o reino de Cristo,
distinguindo-o de tudo o que pertence à terra: "estabelecerei para sempre o
trono do seu reino" (2Sm 7:13). Para que não haja incerteza sobre este
ponto, Deus repete: "O teu trono será estabelecido para sempre" (v. 16).
Não é um trono temporário e temporário que o verdadeiro Davi ocupa,
perdurando apenas por mil anos; como o Novo Testamento declara
expressamente: "Do seu reino não haverá fim" (Lucas 1:33). A mesma
grande verdade é enfatizada no Salmo 89; "E o seu trono como os dias do
céu" (v. 29) não "como os dias da terra". "Sua semente durará para sempre,
e seu trono como o sol diante de mim; será estabelecido para sempre como
a lua" (vv. 36, 37): os objetos mais duradouros da natureza são selecionados
como a figura e a prova do caráter absoluto a perpetuidade afirmada. Que o
reino de Cristo é celestial e não terrestre é visto em "e como uma
testemunha fiel no céu" (v. 37).
Outro salmo que lança luz sobre o caráter e o conteúdo da aliança davídica
é o 132, sobre o qual devemos fazer algumas observações. Ele possui duas
divisões. No primeiro (vv. 1-10) há um pedido a Jeová para ser
misericordioso para com o seu povo "por amor de Davi" (v. 10); na segunda
seção (vv. 11-18) temos Sua resposta, prometendo: "farei florescer o chifre
de Davi, sobre ele floresça sua coroa" (vv. 17, 18). No primeiro, Deus se
lembra da profunda preocupação de Davi em fornecer uma casa permanente
para a arca sagrada; no segundo, o Senhor declara que encontrou um lugar
de descanso satisfatório e eterno em Sião. Na primeira, é feita a oração para
que os sacerdotes de Deus sejam "revestidos de justiça"; no segundo, Deus
afirma que Ele vestirá Seus sacerdotes "com salvação". A segunda metade
responde e se corresponde de modo estrito a primeira parte.
Agora, no Salmo 132, nos interessa, por agora, o que é encontrado a
respeito do lugar de descanso de Deus e a relação disto com o pacto
Davídico. Será lembrado que 2 Samuel 7 abre com um relato da ansiedade
de Davi para fornecer uma residência adequada para a arca, e que foi em
resposta a isso que Nathan fez uma revelação tão maravilhosa e graciosa
para ele. Note-se que entre as promessas da aliança que Deus fez a Davi em
relação ao herdeiro que (segundo a carne) deveria vir dele, estava tal
declaração: "Ele edificará uma casa ao meu nome"; e a ele Deus diz: "Tua
casa e teu reino serão estabelecidos para sempre" (v. 13, 16). Como o trono
e o reino mencionados na mesma passagem, esta casa não é material,
terrena e temporal, mas espiritual, celestial e eterna; não é um mero templo
judeu para "o milênio", mas uma morada divina para os séculos dos séculos.
O tabernáculo, como é bem conhecido, era o símbolo de Deus residindo
entre o povo do pacto e da comunhão divina a qual Jeové graciosamente os
admitira. Esse significado simbólico foi transferido para o templo, com a
ideia adicional - sugerida por sua própria estrutura - de durabilidade e
permanência. Com este local de culto, o trono de Davi estava
indissoluvelmente ligado. A destruição do templo só se tornou possível
como o efeito da apostasia confirmada dos ocupantes do trono de Davi, e
sua restauração era de se esperar como a obra de alguém da raça real sendo
trazido para uma comunhão renovada com Deus. Isto é verificado na
reconstrução do segundo templo por Zorobabel. O símbolo, no entanto, era
o tipo de algo mais elevado: o verdadeiro templo de Deus é o coração
santificado de seus santos. É com a Sua igreja espiritual que o trono de
Davi, ocupado pelo Redentor, está permanentemente e inseparavelmente
unido.
O reino de Cristo e a casa de Deus são um e o mesmo, vistos de diferentes
ângulos. São os redimidos que constituem os verdadeiros súditos do reino
de Cristo, pois somente eles possuem o seu cetro: onde não há súditos, não
pode haver reino. E são os redimidos que fornecem a Deus um lugar de
descanso satisfatório. Nos profetas posteriores foi expressamente previsto: "
E dize-lhe: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo
nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR.
Ele mesmo edificará o templo do SENHOR e será revestido de glória; "(Zc
6:12, 13). Agora a verdadeira casa em que Deus habita é espiritual,
composta de pedras vivas, almas convertidas, que são "edificados sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a
pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário
dedicado ao Senhor,"(Ef 1:20, 21).
Voltando ao Salmo 132. " O SENHOR jurou a Davi com firme juramento e
dele não se apartará: Um rebento da tua carne farei subir para o teu trono.
Se os teus filhos guardarem a minha aliança e o testemunho que eu lhes
ensinar, também os seus filhos se assentarão para sempre no teu trono.” (vv.
11, 12). Esses versículos deixam claro, sem sombra de dúvida, que nosso
salmo tem a ver diretamente com o pacto Davídico. Em seu significado de
"carta", eles respeitavam o trono de Davi na Terra e a condição que
determinava sua continuação - uma condição que não foi satisfeita por
seus descendentes. Em seu significado espiritual, eles dizem respeito ao
antitípico Davi e Seus filhos, Seus infinitos méritos assegurando que Deus
concederia a graça necessária para eles renderem a Deus aquela obediência
que a nova aliança requeria, real e sincera, embora não perfeita. (Isso será
cuidadosamente considerado por nós quando explicarmos a nova aliança.)
Tais Escrituras, como as que se seguem, devem ser consideradas para o
cumprimento desta promessa dos filhos de Cristo ocupando Seu trono:
Lucas 22:29, 30; 1 Cor. 6: 2, 3; 1 Pedro 2: 9 ("um sacerdócio real");
Apocalipse 3:21.
"Pois o SENHOR escolheu a Sião, preferiu-a por sua morada" (v. 13).
"Não era mais do que qualquer outra cidade cananéia até que
Deus a escolheu, Davi a conquistou, Salomão a construiu e o
Senhor habitou nela. Assim a Igreja era uma mera fortaleza
jebusita até que a graça a escolheu, conquistou, reconstruiu e
Jeová escolheu o Seu povo e, portanto, eles são o Seu povo, Ele
escolheu a Igreja e, portanto, é o que é. Assim, no pacto, Davi e
Sião, Cristo e Seu povo, caminham juntos. Sião e Sião para Davi;
os interesses de Cristo e Seu povo são mútuos "(CH Spurgeon).
Em Hebreus 12:22, o reino de Cristo é expressamente denominado "Monte
Sião".
"Este é para sempre o lugar do meu repouso; aqui habitarei, pois o
preferi.”(v. 14).
"Mais uma vez ficamos maravilhados com o fato de Aquele que
enche todas as coisas habitou em Sião - habitar em Sua Igreja.
Deus não visita os seus escolhidos sem querer; Ele deseja habitar
com eles; os deseja. Ele já está em Sião, pois diz aqui, como um
sobre o local. Não só ocasionalmente irá à Sua Igreja, mas
habitará nela, como Sua morada fixa. Ele não se importava com
a beleza do templo de Salomão, mas determinou que no lugar de
misericórdia seria encontrado por suplicantes, e dali brilharia
em brilho de graça à nação. Tudo isso, no entanto, não passava
de um tipo de casa espiritual, da qual Jesus é o fundamento e a
pedra angular, sobre a qual todas as pedras vivas são enxertadas
para uma habitação de Deus através do Espírito. Oh! A doçura
do pensamento de que Deus deseja habitar em Seu povo e
repousar entre eles! "(C. H. Spurgeon).
Se for necessária mais uma prova de que a igreja é a morada de Deus, ela
está próxima " fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que
é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade. "(1 Tim. 3:15). Aqui,
então, está a realização final daquelas promessas que Deus fez através de
Natã. O antitípico Davi construiu a casa para o nome de Deus (2 Sam. 7:13;
cf. seu uso da palavra "edificar" em Mt 16:18). Para Ele, Deus disse: "
Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu
trono será estabelecido para sempre." (2 Sam. 7:16); porque o Pai e o Filho
são um. Nesta Casa o Senhor Jesus preside, pois lemos: " Cristo, porém,
como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até
ao fim, a ousadia e a exultação da esperança." (Heb. 3: 6). Quando o
primeiro céu e a primeira terra forem passados, será dito: "Eis que o
tabernáculo de Deus está com os homens, e ele habitará com eles, e eles
serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles, e seja o seu Deus "
(Apocalipse 21: 3). O Senhor Deus então " renovar-te-á no seu amor,
regozijar-se-á em ti com júbilo" (Sf 3:17).
Nem o próprio Davi foi deixado em ignorância quanto ao significado
superior e espiritual das promessas da aliança que o Senhor lhe fizera. Isto
aparece primeiro nas expressões de sua profunda admiração e gratidão
esmagadora no momento em que foram feitas a ele (2 Samuel 7: 18-29):
"Tu também falaste da casa de teu servo para um grande futuro,", ele
declarou, linguagem que conota um período de grande extensão, muito
além do que é coberto pela mais longas dinastias humanas. Então
acrescentou: "Este é o caminho [ou" lei "] do homem, ó Senhor Deus?" O
reino de Cristo será ordenado por um princípio que lhe assegure uma
perpetuidade totalmente inaplicável a qualquer regra humana, e, portanto,
todos os pertencentes ao Seu reino obviamente estão em marcante contraste
com a ordem estabelecida das coisas que pertence a todas as dinastias
meramente humanas.
O próprio entendimento de Davi sobre a importância mais profunda do
conteúdo da aliança também aparece naqueles salmos messiânicos dos
quais ele era o autor. Como já vimos, no Salmo 2, Davi declara daquele a
quem Deus estabeleceria Rei em Sião, que Ele possuiria o domínio de toda
a terra, sendo que os reis receberiam o mandamento de reconhecê-lo sob
pena de incorrer em Seu desfavorecimento - algo que Claramente denota
um maior que Salomão estava em vista. Das muitas coisas que ele
profetizou no Salmo 89 de sua semente, é evidente que Davi deve ter sabido
que, em nenhum sentido apropriado, poderiam ser aplicadas a seus
sucessores imediatos no trono. Enquanto no Salmo 110 o próprio David
chama seu descendente prometido de seu Senhor: "Assenta-te à minha
direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés." (v. 1).
Não só aparece nos salmos que a mente de Davi estava livremente ocupada
com as promessas da aliança e que Deus lhe concedeu muita luz, mas
também aprendemos das Escrituras que eles formaram o principal consolo e
alegria na perspectiva de sua dissolução, pois quando o mundo estava
rapidamente se afastando de sua visão, ele se agarrava a eles como "toda a
sua salvação e todo o seu desejo". Ao contemplar a morte, o futuro de sua
família envolveu seriamente seus pensamentos. Sofreu muito de e por seus
filhos, e poucos pareciam ter o temor de Deus. Ele provavelmente indagou
sobre quem deveria sucedê-lo no reino. Então ele exclamou: "Ainda que a
minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo um
concerto eterno, que em tudo será ordenado e guardado. Pois toda a minha
salvação e todo o meu prazer estão nele, apesar de que ainda não o faz
brotar."(2 Sam. 23: 5).
"Embora minha casa não seja assim [ou seja, como descrito nos versos 3, 4]
com Deus, ainda assim ... embora ele faça com que não cresça", isto é, ela
diminui e diminui naturalmente. Absalão estava morto; Adonias, outro de
seus filhos, seria morto (1 Reis 2:24, 25); todavia Deus preservaria a ele
uma semente da qual Cristo viria. O rei moribundo estava convencido de
que nada poderia prevalecer para impedir o cumprimento das promessas
divinas, e que a provisão era feita para todas as possíveis contingências.
CAPÍTULO 8
Dos Salmos, voltamo-nos agora para os Profetas, nos quais encontramos
uma série de predições divinas baseadas nas promessas feitas a Davi em 2
Samuel 7. Antes de nos voltarmos para algumas das mais importantes delas,
seja novamente indicado que novas coisas do reino de Cristo foram
retratadas sob o véu do antigo, que quando o Espírito Santo fez menção dos
tempos do evangelho, elas necessariamente participaram de uma coloração
judaica. Em outras palavras, as coisas e instituições existentes foram
empregadas para representar outras coisas de ordem superior e natureza
mais nobre, de modo que o cumprimento daquelas predições antigas deve
ser procurado no espírito e não na letra, em substância e não em relação à
forma real. Somente quando este princípio claramente estabelecido for
mantido, seremos libertos da carnalização dos judeus do passado e da
literalização grosseira dos dispensacionalistas de hoje.
Muitas passagens poderiam ser citadas para ampliar o que acabou de ser
dito a fim de fornecer provas de que é "um princípio claramente
estabelecido". A pessoa, o ofício e a obra de Cristo, bem como as bênçãos
que Ele comprou e adquiriu para Seu povo, foram amplamente preditas na
linguagem do judaísmo. Mas o fato de que o antítipo é falado nos termos do
tipo não deveria nos fazer confundir um com o outro. O Antigo Testamento
deve ser interpretado à luz do Novo - não apenas seus tipos, mas também
suas profecias. Quando lemos que "Cristo, nossa Páscoa, é sacrificado por
nós" (1 Co 5: 7), entendemos o que se quer dizer. Quando nos é dito que os
cristãos são a semente e os filhos de Abraão (Gálatas 3 e 4), percebemos o
cumprimento da promessa de Deus ao patriarca, a saber, de que ele deveria
ter uma numerosa semente. À luz das epístolas, não temos dificuldade em
reconhecer que uma limpeza espiritual foi denotada por "então eu borrifarei
água limpa sobre vós, e vós sereis limpos" (Ezequiel 36:25).
Tome novamente os eventos maravilhosos do dia de Pentecostes. Pedro
explicou-lhes, declarando: " Mas o que ocorre é o que foi dito por
intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que
derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas
profetizarão, vossos jovens terão visões"(Atos 2:16). O apóstolo não queria
dizer que a profecia de Joel tivesse recebido uma realização exaustiva nos
fenômenos daquele dia em particular, pois eles eram, em medida, repetidos
em ambos os Atos 8 e 10; no entanto, houve uma realização real nos dons
espirituais maiores que os Doze. Mas note cuidadosamente que não foi um
cumprimento literal. As comunicações mais livres do Espírito foram
preditas sob a forma peculiar de visões e sonhos, porque tal era o modo
quando Joel vivia, no qual os dons mais especiais do Espírito eram
manifestados. O dom prometido do Espírito foi conferido, mas com um
novo modo de operação muito mais alto do que aquele do qual o profeta
do Antigo Testamento estava ciente.
Deixe o que foi dito acima ser cuidadosamente lembrado em conexão com
tudo o que se segue. " Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu;
o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que se
aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre
o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde
agora e para sempre." (Isaías 9: 6, 7). A relação entre esta passagem ilustre
e seu contexto mostra que o escopo do Espírito Santo no todo era intimar o
caráter do reino de Cristo. No capítulo anterior, o profeta havia falado de
dias sombrios de angústia, e então consolava e encorajava os corações dos
verdadeiros crentes anunciando as boas e grandiosas coisas que o Messias
proporcionaria. Três bênçãos do Novo Testamento são mencionadas nos
termos do Antigo Testamento.
A primeira era que a grande luz deveria surgir em um mundo perdido: " O
povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da
sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz."(v. 2). Não nos restam dúvidas
sobre o significado disso, pois o Espírito Santo o explicou no início do
Novo Testamento. Em Mateus 4, lemos que o Senhor Jesus veio e habitou
em Cafarnaum "para que se cumprisse o que foi dito por Isaías", citando
exatamente este verso. Os seguintes fatos foram assim estabelecidos
inequivocamente: que a profecia de Isaías 9 não se refere a um "milênio"
distante, mas a esta dispensação cristã; que sua realização não está em
alguma época remota, mas no presente; que não se tratava de judeus como
tais, mas "os gentios"; que a bênção predita não era carnal ou material, mas
espiritual.
A segunda bênção aqui anunciada foi uma ampliação e regozijo no Senhor:
" Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste; alegram-se eles
diante de ti, como se alegram na ceifa e como exultam quando repartem os
despojos." ( v. 3). O "povo" é aquela "nação santa" de 1 Pedro 2: 9 -
compare Mateus 21:43. Por meio da promulgação da luz do evangelho
(mencionada no verso anterior), a nação santa da igreja do Novo
Testamento seria multiplicada, como registra o livro de Atos. Aqueles que
são sobrenaturalmente iluminados pelo Espírito se tornam participantes de
uma alegria espiritual, para que eles "se regozijem com a alegria
indescritível e cheia de glória". A cláusula "não aumentou a alegria"
significa que não é uma felicidade carnal que está em vista (como os judeus
sonhavam), mas "eles se alegram diante de ti". Sua sorte neste mundo é "tão
triste, mas sempre alegre" (2Co 6:10).
A terceira bênção é liberdade espiritual e liberdade: " Porque tu quebraste o
jugo que pesava sobre eles, a vara que lhes feria os ombros e o cetro do seu
opressor, como no dia dos midianitas; porque toda bota com que anda o
guerreiro no tumulto da batalha e toda veste revolvida em sangue serão
queimadas, servirão de pasto ao fogo.”(vv. 4, 5). Como Gideão era um
instrumento nas mãos de Deus para quebrar o pesado jugo de opressão que
Midian tinha colocado sobre o pescoço de Israel, assim Cristo, em Sua
vinda, livraria os pobres pecadores das mãos de todos os seus inimigos -
pecado, Satanás, o mundo, e a maldição de uma lei quebrada, para a qual
eles estavam em cativeiro (cf. Lucas 1:74, 75; 4:18).
"Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado". A abertura "para"
mostra a conexão definitiva com o contexto e anuncia quem é que
asseguraria essas grandes bênçãos para o Seu povo. "Porque um menino
nasceu" refere-se não aos descendentes carnais de Abraão, mas a toda a
eleição da graça. O "governo" em seu ombro não é mera regra sobre a
Palestina, mas está sobre todo o universo; porque todo poder é dado a
Cristo no céu e na terra (Mt 28:18). Nem é Seu reinado temporário apenas
por mil anos, mas "até para sempre" (v. 7). Aquilo que o trono e o reino
do Davi natural, vagamente prefigurado, agora está sendo cumulativamente
e será cada vez mais realizado pelo Davi espiritual num plano infinitamente
mais elevado e de um modo muito mais grandioso.
" Naquele dia, recorrerão as nações à raiz de Jessé que está posta por
estandarte dos povos; a glória lhe será a morada. " (Isaías 11:10). O tema
deste capítulo abençoado é o ministério do Senhor Jesus, e os infinitos e
eternamente gloriosos e maravilhosos efeitos dele. Seus detalhes devem ser
entendidos de acordo com sua principal tendência, de modo que suas
metáforas e símiles sejam tomadas em seu sentido próprio e figurado. Levá-
los literalmente seria como transformar o sacerdócio levítico no o
sacerdócio de Cristo, enquanto o primeiro era destinado apenas a
representar o último. Seria como tomar a terra de Canaã por aquela herança
incorruptível, incontaminada e que não se apaga. Como seu conteúdo foi
tão gravemente corrompido, oferecemos algumas observações sobre ele.
"E sairá uma vara do tronco de Jessé, e um galho brotará das suas raízes" (v.
1). Assim, as palavras de abertura do capítulo indicam claramente que sua
linguagem não deve ser tomada literalmente. A vara é o símbolo da regra e
poder governante de Cristo, como em " O SENHOR enviará o cetro [vara]
da tua fortaleza desde Sião, dizendo: Domina no meio dos teus inimigos."
(Salmos 110: 2). "E um Ramo crescerá de suas raízes" significa a
fecundidade de Cristo (cf. João 15: 2), cuja fecundidade é o resultado do
Espírito ser dado a Ele sem medida (vv. 2, 3). Em seguida, segue nos versos
4, 5 uma descrição do ministério de Cristo e os princípios que o regulavam -
justiça, equidade e fidelidade. Então, temos uma descrição figurativa dos
efeitos de Seu ministério na conversão de pecadores. Aqueles a quem o
ministério de Cristo é enviado - isto é, aqueles a quem o evangelho vem em
seu poder salvador - são aqui comparados às feras do campo.
Estamos tão distorcidos e degradados pela Queda que somos
apropriadamente comparados a feras e coisas rasteiras (vv. 6-8). No entanto,
estes foram submetidos a tal transformação que Deus declara: "Eles não
ferirão nem destruirão em todo o meu santo monte" (v. 9). Tudo isso deve
ser entendido espiritualmente. Uma montanha é uma elevação local da
terra, e estar em uma montanha é ser elevado e exaltado. Assim a conversão
nos leva a um estado de elevação diante de Deus, conduzindo-nos de nosso
baixo e depravado estado de natureza e elevando-nos à santidade que temos
em Cristo. Observe que esta montanha é chamada "meu santo monte",
sendo a mesma descrita em "o Senhor te abençoe, ó habitação de justiça e
montanha de santidade" (Jer. 31: 231: chamado de "habitação de justiça"
porque o Mediador está lá, uma "montanha de santidade" porque Ele fez
fim todos os nossos pecados.
Mas não se deve supor que os crentes só alcancem este "monte santo"
quando chegam ao céu. Não, eles são levados para lá experimentalmente
nesta vida, ou nunca alcançarão o céu; porque está escrito: " Mas chegastes
ao monte Sião" (Hb 12:22). E quem é que vai para lá? Aqueles que por
natureza são comparados pelo profeta a lobos e cordeiros, leopardos e
crianças. Em Atos 10 eles são comparados a “toda espécie de feras
quadrúpedes da terra, e feras, e répteis, e aves do céu” (v. 12), o que torna
inequivocamente claro que a linguagem usada por Isaías deve ser entendida
espiritualmente e não literalmente, como os dispensacionalistas sonham em
vão. Vamos usar os termos da visão de Pedro para interpretar as figuras de
Isaías 11, observando a classificação quádrupla.
Os "quadrúpedes da terra", isto é, ovelhas e bois, distinguem-se dos
"animais selvagens". Há uma diferença entre os homens, não na natureza,
mas na conduta exterior - a consequência da disposição, civilização ou
criação religiosa: alguns sendo mais refinados, morais e conscienciosos do
que outros. "Para que as nossas ovelhas produzam milhares e dez mil nas
nossas ruas" (Sl 144: 13) refere-se a esta primeira classe; e não foi
realmente o caso no tempo dos apóstolos, quando milhares foram
convertidos (Atos 4: 4). Um retrato solene dos "animais selvagens" é
encontrado no Salmo 22, onde o Salvador sofredor exclama: "Muitos touros
me cercaram: fortes touros de Basã me cercaram. Abriram contra mim com
suas bocas, como um rugido e rugido de leão "(vv. 12, 13). Não era Saulo
de Tarso um desses touros selvagens e leões vorazes (ver Atos 9: 1; 22: 4);
e ainda a graça domou ele.
Em Miquéias, temos uma bela descrição da terceira classe, ou "coisas
rastejantes". "As nações [os gentios] verão e serão confundidas com toda a
força" (v. 16). Sim, quando a graça funciona, humilha-nos, de modo que
ficamos envergonhados com o que uma vez nos gabamos como nossa
justiça e confundidos com nossa antiga autossuficiência. "Eles colocarão a
mão sobre a boca", não tendo mais nada a dizer em auto vindicação. "Seus
ouvidos serão surdos" para qualquer coisa que Satanás disser contra o
evangelho. "Eles lamberão o pó como uma serpente", humilhando-se sob a
poderosa mão de Deus. "Eles sairão dos seus buracos como vermes da
terra", como "coisas rastejantes"! Sim, o evangelho nos desenterra, fazendo-
nos definir nossa afeição pelas coisas acima. "Eles terão medo do Senhor
nosso Deus e temerão por causa de ti" - quando a Sua santa lei é aplicada
aos seus corações. E qual é o efeito produzido? Ouça seu bendito
testemunho: "Quem é Deus semelhante a ti, que perdoa a iniquidade e passa
pela transgressão dos remanescentes de sua herança" (Mq 7:18).
E qual das "aves do ar"? Não os vemos lindamente retratados em Ezequiel
17? O "cedro" era a tribo de Judá, e "o maior ramo dele" (v. 2) era a casa
real de Davi. O "ramo do concurso" no versículo 22 é Cristo (cf. Isaías 53:
2), de quem foi prometido: "Na montanha do cume de Israel eu o plantarei;
e ele produzirá os ramos e dará fruto, e seja um bom cedro, e debaixo dela
habitará todas as aves de todas as asas, à sombra dos seus ramos, elas
habitarão "(v. 23). Mas notemos que, agora, embora deva ser muito
brevemente, a abençoada transformação que é produzida quando essas
criaturas, tão intratáveis por natureza, são convertidas a Deus.
" E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o
bezerro, e o filho de leão, e a nédia ovelha viverão juntos, e um menino
pequeno os guiará." (Isaías 11: 6). Quão maravilhosa é a graça que traz o
rebelde lupino à brandura e mansidão do cordeiro! Quão poderoso é a força
que muda a ferocidade do leão para que uma criança o conduza! Sua
inimizade contra Deus e Sua verdade é subjugada; eles são levados aos pés
de Cristo. Quanto mais eles crescem em graça, menor é a estimativa que
eles têm de si mesmos. " A vaca e a ursa pastarão juntas, e seus filhos
juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi." (v. 7). O leão passa
dos carnívoros aos granívoros: leve isso literalmente e isso equivale a
pouco, entenda-o espiritualmente e signifique muito - quando nascemos de
novo, não podemos mais encontrar satisfação em coisas de criatura, mas
anseia por comida celestial. " E brincará a criança de peito sobre a toca da
áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco." (v. 8); isso é
a vitória sobre o inimigo (cf. Sl 91:13, 14; Lucas 10:19).
"Eles não devem ferir nem destruir em todo o meu santo monte" (v. 9).
Aqui está a perfeita segurança do povo do Senhor. Comparando novamente
o Salmo 144, o versículo 13 do qual citamos acima, o que se segue
imediatamente? Isto, "que os nossos bois sejam fortes para o trabalho; que
não haja quebra nem saída" (v. 14). Eles estão absolutamente seguros neste
aprisco místico: nenhuma ovelha de Cristo perecerá. E o que garante a
segurança deles na montanha sagrada de Deus? Isto, "porque a terra se
encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar" (v. 9)
- não o globo material, mas a "terra" espiritual, a igreja. "Todos os teus
filhos serão ensinados do Senhor" (Isaías 54:13). É a nova aliança "terra" ou
família: "Porque todos me conhecerão, do menor ao maior" (Hb 8:11). "E
naquele dia haverá a raiz de Jessé, a qual deverá representar um estandarte
do povo; a ela procurarão os gentios; e o seu descanso será glorioso" (v.
10). E assim concluímos o círculo - é o antitípico Davi cujo estandarte
ondula sobre toda a eleição da graça.
CAPÍTULO 9
"Porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis
misericórdias prometidas a Davi. " (Isaías 55: 3).
"Como tivemos muito de Cristo no capítulo 53 e grande parte da
Igreja de Cristo no dia 54, também neste capítulo temos muito do
pacto da graça feito conosco em Cristo" (Matthew Henry).
O capítulo apresenta um convite gracioso para aqueles que sentem a
necessidade de participar das bênçãos espirituais. O profeta parece
personificar os apóstolos quando eles saíram em nome do Senhor chamando
Seus eleitos para a ceia das bodas. Então ele se opõe àqueles que estão
trabalhando por aquilo que não satisfaz, ordenando-lhes que deem ouvidos
a Deus e assegurando-lhes que Ele então se colocará sob os laços do pacto e
concederá ricas bênçãos.
As " misericórdias prometidas a Davi" eram as coisas prometidas ao
antitípico Davi no Salmo 89:28, 29 e assim por diante. Que não é o típico
Davi ou filho de Jessé que é aqui intencionado fica claro a partir de várias
considerações. Primeiro, o Davi natural havia morrido séculos antes.
Segundo; esse Davi cujas misericórdias são certas ainda estava por vir
quando o profeta escreveu, como é claro nos versos 4, 5. Terceiro, ninguém
além do Messias, o Senhor Jesus, responde ao que é aqui profetizado.
Finalmente, todo espaço para a incerteza é completamente removido pela
citação do apóstolo dessas mesmas palavras em " E, que Deus o ressuscitou
dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o
disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi."
(Atos 13:34). Assim, "as misericórdias prometidas" do verdadeiro Davi
significavam que Deus O levantaria dos mortos para a vida eterna.
Estas "misericórdias prometidas" são estendidas por Isaías a todos os fiéis
como as bênçãos do pacto, e, portanto, podem ser entendidas como
denotando todos os benefícios salvadores conferidos aos crentes nesta vida
ou que estão por vir. Esta necessidade não ocasiona dificuldade alguma.
Essas "misericórdias" eram de Cristo pela promessa do Pai e por Sua
própria obra, e em Sua ressurreição elas se tornaram Suas em possessão
real, estando todas assentadas nEle (2 Coríntios 1:20); e dEle nós os
recebemos (João 1:16; 16: 14-16). As promessas descem através de Cristo
para aqueles que creem e, portanto, são "prometidas" para toda a semente
(Rm 4:16). Foi o pacto que forneceu um firme fundamento de misericórdia
à família do Redentor, e nenhuma de suas bênçãos pode ser lembrada (Rom.
11:32).
Aquelas "misericórdias prometidas" que Deus jurou outorgar à semente
espiritual ou à família de Davi (2Sm 7:15, 16; Sl 89: 2, 29, 30), eles foram
cumpridas no aparecimento de Cristo e no estabelecimento de Seu reino em
Sua ressurreição, como Atos 13:34 mostra claramente, pois Sua saída da
sepultura foi o passo necessário para a suposição de poder soberano. Deus
não apenas disse: "Eis que eu o dei por testemunho ao povo", mas também
"líder e comandante do povo" (v. 4). Como a "testemunha" Cristo é visto
em Apocalipse 1: 5 e 3:14, e novamente em João 18, onde Ele declarou a
Pilatos: "O meu reino não é deste mundo, senão os meus servos lutariam"
(v. 36). Não se baseia no uso de armas como o de Davi, mas na força da
verdade (ver v. 37).
Cristo se tornou "comandante" em Sua ressurreição (Mateus 28:19); como
os apóstolos expressamente anunciaram: "Deus a exaltou com a mão direita
para ser príncipe e salvador" (At 5:31). É o manejo do seu cetro real que
garante ao seu povo o bem de todas as promessas que Deus fez a Ele - "as
misericórdias seguras de Davi". "Eis que tu [isto é Deus falando ao
antitípico Davi, designado no verso 4" testemunha "e" comandante "]
[mostrando que isto ainda era futuro no tempo de Isaías] chamará uma
nação que tu não conheces", que é referido em "O reino de Deus será tirado
de vós e dado a uma nação que produz os seus frutos" (Mateus 21:43) - a
"nação santa" de 1 Pedro 2: 9. "E nações que não te conhecem correrão até
ti" (v. 5), que manifestamente tem referência ao presente chamado dos
gentios.
" Suscitarei para elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é
que as apascentará; ele lhes servirá de pastor" (Ezequiel 34:23). Esta é a
língua judaica com um significado cristão. A referência aqui, como também
no Salmo 89: 3, Jeremias 30: 9 e Oséias 3: 5, é para o antitípico Davi.
"Davi está nos profetas muitas vezes colocados como ponteiro
para Cristo, em quem todas as promessas feitas a Davi são
cumpridas" (Lowth).
Uma razão tripla pode ser sugerida porque Cristo é assim chamado Davi.
Primeiro, porque Ele é o homem segundo o coração de Deus - Seu
"Amado", que é o que "Davi" significa. Em segundo lugar, porque Davi,
particularmente em seu reinado, manifestamente o antecipou. Terceiro,
porque Cristo é a raiz e a descendência de Davi, aquele em quem o chifre e
o trono de Davi são perpetuados para sempre.
"O livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão"
(Mateus 1: 1). Estas palavras devem ser entendidas não apenas como uma
introdução ao Evangelho de Mateus, mas como o resumo divino de todo o
Novo Testamento. O Redentor é aqui apresentado em Seus personagens
oficiais e sacrificais: o verdadeiro Salomão, o verdadeiro Isaque. Visto que
o amado Filho de Deus voluntariamente se submeteu ao altar e ressuscitou
dos mortos, Ele está sentado no trono. Foi para Ele como o Filho de Davi
que a pobre mulher cananéia apelou. Os dispensacionalistas nos dizem que
ela não foi atendida a princípio porque, sendo gentia, não tinha direito sobre
Ele naquele caráter - como se nosso Senhor compassivo fosse (como outro
já o expressou) "um defensor do cerimonial, da etiqueta da corte!" O fato é
que ela evidenciou a fé na graça associada a esse título que infelizmente
faltava aos judeus, pois uma das coisas relacionadas especialmente com
Salomão era sua graça para os gentios.
"Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de
Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor,
lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de
Jacó, e o seu reinado não terá fim."(Lucas 1: 31-33). Primeiro, deixe-se
notar que isso é registrado por Lucas, o Evangelho essencialmente gentio.
Segundo, aqui foi expressamente anunciado que Cristo deveria reinar
"para sempre", e não meramente por mil anos; e seu reino "não deveria
haver fim", em vez de terminar no final do "milênio". Terceiro, a profecia
do versículo 32 já foi cumprida, e a do versículo 33 está agora em curso de
cumprimento. Cristo já está no trono de Davi e agora reina sobre a casa
espiritual de Jacó. Uma prova clara disso é fornecida em Atos 2, para onde
voltamos.
O argumento usado por Pedro em seu sermão pentecostal é facilmente
seguido e suas conclusões são decisivas. O propósito central desse sermão
era fornecer provas de que Jesus de Nazaré, a quem os judeus haviam
crucificado perversamente, era o prometido Messias e Salvador. Não
podemos agora analisar todo o discurso inspirado de Pedro, mas vamos nos
limitar à parte que é pertinente ao nosso assunto atual. No versículo 24 é
feita a declaração de que Deus havia libertado Jesus das dores da morte. Em
seguida, segue uma citação do Salmo 16. Após essa citação, o apóstolo fez
alguns comentários. Primeiro, Davi não estava se referindo a si mesmo (v.
29). Segundo, era uma previsão messiânica, pois Deus tendo feito saber que
sua semente deveria sentar em seu trono, fez Davi escrever seus salmos de
acordo (isto é, com um olho para o Messias); e, portanto, o Salmo 16 deve
ser entendido como se referindo ao próprio Cristo (vv. 30, 31); os próprios
apóstolos foram testemunhas oculares do fato de que Deus havia
ressuscitado Cristo (v. 32).
Em Atos 2: 33-36 o apóstolo aplicou seu discurso. Primeiro, ele mostrou
que o que acabara de expor explicava a maravilhosa efusão do Espírito
Santo nos dons extraordinários que concedera aos Doze. No versículo 12, o
povo perguntou: "O que significa isto?" - os apóstolos falando em línguas.
Pedro responde que este Jesus foi exaltado à destra da Majestade nas
alturas, e tendo recebido o Espírito prometido do Pai, tinha agora
"derramado" o que ambos viram e ouviram (v. 33). Segundo, isso era
evidente, pois Davi não havia ascendido ao céu, mas seu Filho e Senhor
tinha, como ele mesmo predisse no Salmo 110: 1 (vv. 34, 35). Terceiro,
portanto, isto provou no que todos nós somos obrigados a crer, a saber, que
Jesus de Nazaré é o verdadeiro Messias e Salvador dos pecadores, porque o
banho de Deus O fez "Senhor e Cristo" (v. 36).
É com o verso 30 de Atos 2 que estamos aqui mais especialmente
preocupados: que Deus jurou a Davi que Cristo deveria sentar em seu trono.
Vamos considerar o lado negativo primeiro: não há uma sugestão ou uma
palavra nos comentários de Pedro de que Cristo ascenderá ao trono de Davi
no futuro, e quando no versículo 34 ele citou o Salmo 110: 1 em
cumprimento da ascensão de Cristo "O Senhor disse ao meu Senhor,
assenta-te à minha direita”, e não acrescentou, até que assuma o trono de
Davi, mas “até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”.
Chegando agora ao lado positivo, vimos que o escopo do argumento do
apóstolo era mostrar que Jesus de Nazaré era o Messias prometido, e que
Ele ressuscitara dos mortos, ascendera ao céu, e agora acrescentamos,
estava sentado no trono de Davi.
Aquilo que confirma a última declaração feita é o "portanto" do versículo
36. O apóstolo ali tira uma conclusão, e a menos que sua lógica fosse falsa
(o que seria blasfêmia afirmar), então ela deve ser coerente com sua
premissa, a saber, a posse atual de Cristo do trono de Davi em cumprimento
ao juramento que Deus havia jurado ao patriarca. Com o propósito de
clareza, parafraseamos: a premissa era que Cristo deveria sentar-se no trono
de Davi (v. 30): a conclusão é que o batismo de Deus fez de Jesus "tanto
Senhor como Cristo" (v. 36). Ninguém, exceto aqueles cujos olhos estão
fechados pelo preconceito, pode deixar de ver que, em tal conexão, ser
"feito Senhor e Cristo" pode significar nada mais do que estar agora
sentado no trono de Davi. Os ouvintes de Pedro não poderiam chegar a
outra conclusão possível a não ser que a promessa de Deus ao patriarca, a
ocupação de seu trono, tivesse recebido seu cumprimento.
Nem a passagem acima está sozinha. Se o leitor consultar cuidadosamente
Atos 4:26, 27, descobrirá que os apóstolos estavam se dirigindo a Deus e
que citavam os versículos iniciais do Salmo 2, que falava daqueles que
estavam na autoridade governamental, unidos contra Jeová e Seu Cristo,
que o apóstolos (por inspiração) aplicavam ao que havia sido feito
recentemente ao Redentor (v. 27). Eles se referiram ao Salvador assim: "
porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo
Jesus, ao qual ungiste" (v. 27). Agora, em tal conexão, a menção de Jesus
como aquele a quem Deus havia ungido só poderia significar o que é mais
plenamente expresso no Salmo 2, "meu ungido rei" - "contudo ungi [meu
rei em meu santo monte de Sião] "(Sl 2: 6). De outro modo, a aplicação do
Salmo 2 à crucificação havia sido ajustada apenas para induzir em erro.
"Naquele dia levantarei o tabernáculo de Davi, que está caído" (Amós
9:11). Esta é outra promessa da antiga aliança que possui um novo
significado de aliança, como aparecerá pela interpretação inspirada dela em
Atos 15. Notemos primeiro seu tempo: "naquele dia". O contexto imediato
explica isto: era para ser o dia em que "o reino pecaminoso" de Israel seria
destruído por Deus "de fora da face da terra" (v. 8, salvando que Ele não
destruiria totalmente a casa de Jacó). - o remanescente piedoso), quando Ele
"peneirar a casa de Israel entre todas as nações" (v. 9), quando "todos os
pecadores do seu povo devem morrer pela espada" (v. 10). O que segue nos
versículos 11, 12 previu o estabelecimento do reino do Messias. Segundo,
vamos agora observar sua citação em Atos 15.
Nos versículos 7-11, Pedro falou da graça de Deus ter sido estendida aos
gentios, e no verso 12 Paulo e Barnabé davam testemunho do mesmo fato.
Então, nos versículos 13:21, Tiago confirmou o que disseram por referência
ao Antigo Testamento. "E a isto [isto é, a salvação de um povo dos gentios e
adicioná-lo aos salvos de Israel: ver v. 8, 9, 11] concorda com a palavra dos
profetas" (Atos 15:14). Sim, porque o prometido reino do Messias, no
Antigo Testamento, não foi colocado em oposição à teocracia, mas como
uma continuação e ampliação do mesmo. Veja 2Samuel 7:12 e Isaías 9:6,
onde foi dito que o Príncipe da paz deveria sentar-se no trono de Davi e
prolongar Seu reino para sempre; enquanto em Gênesis 49:10 foi anunciado
que o Redentor deveria brotar de Judá e ser o ampliador de seu domínio.
Então Tiago citou Amós: "Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o
tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.
Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios
sobre os quais tem sido invocado o meu nome,"(Atos 15:16-17). O"
tabernáculo de Davi "era apenas outro nome para o reino terrestre de Deus
(note como em 1 Reis 2:12 lemos: "Então assentou Salomão no trono de
Davi, seu pai", enquanto em 1 Crônicas 29:23 é dito: "Então Salomão
sentou-se no trono do Senhor", pois durante os últimos mil anos da história
do Antigo Testamento, Seu reino na terra foi indissoluvelmente identificado
com o trono de Davi, mas agora a sombra foi deslocada pela substância, e é
o "tabernáculo" do antitípico Davi. O militante da igreja é apropriadamente
designado um "tabernáculo" em alusão ao tabernáculo no deserto, pois é
(como isto era) a habitação de Deus, o lugar onde o testemunho divino é
preservado e onde Ele é adorado.
A criação do reino de Cristo foi designada como uma elevação do
tabernáculo caído de Davi, primeiro, porque o próprio Cristo era a Semente
de Davi, aquele através do qual as promessas de 2 Samuel 7 deveriam ser
feitas. Segundo, porque Ele é o antitípico e verdadeiro Davi: como o Davi
natural restaurou a teocracia, livrando-a de seus inimigos (os filisteus, etc.)
e estabeleceu-a em uma base firme e bem-sucedida, Cristo retira o reino de
Deus de seus inimigos e estabelece-o em uma fundação segura e
permanente. Terceiro, porque o reino e a igreja de Cristo são a continuação
e consumação dos santos da Teocracia do Antigo Testamento - Novo
Testamento são acrescentados ao Antigo (Efésios 2: 11-15; 3: 6; Hebreus
11:40). Assim, a profecia de Amós recebeu seu cumprimento, primeiro, no
levantar de Cristo (em Sua encarnação) das ruínas da casa real de Judá;
segundo, quando (em Sua ascensão) Deus deu a Cristo o trono antitípico de
Davi - o trono meditativo; terceiro, quando (sob a pregação do evangelho) o
reino de Cristo foi grandemente aumentado pelo chamado dos gentios.
Assim, Atos 15:14-17 nos forneceu uma chave certa para a interpretação da
profecia do Antigo Testamento, mostrando-nos que ela deve ser entendida
em seu sentido espiritual e místico.
"E novamente Isaías diz: Haverá a raiz de Jessé, e aquele que se levanta
[grego no tempo presente] para governar [o reino] sobre os gentios: nele os
gentios esperarão" (Rom. 15:12, RV). Isto foi citado aqui pelo apóstolo com
o propósito expresso de demonstrar que o verdadeiro Davi era o Salvador e
Rei dos gentios. Se o reino Davídico ou reino de Cristo ainda fosse no
futuro, essa citação seria bastante irrelevante e nenhuma prova. No
versículo 7, o apóstolo havia exortado à unidade entre os santos hebreus e
gentios em Roma. Nos versículos 8 e 9, ele declarou que Cristo encarnou
para unir os judeus e gentios crentes em um só corpo. Então, nos versículos
9-12, ele cita quatro passagens do Antigo Testamento em textos que
multiplicam provas, porque esse era um ponto no qual os judeus eram tão
preconceituosos.
" Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi,
que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá" (Apocalipse 3:
7). Isso não precisa nos deter por muito tempo, pois o significado dessas
palavras é óbvio. Na Escritura, a chave é o símbolo bem conhecido da
autoridade, e a chave de Davi significa que Cristo é investido de dignidade
e poder reais. A um daqueles que prefiguraram a Cristo, Deus disse: " lhe
entregarei nas mãos o teu poder, e ele será como pai para os moradores de
Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre o seu ombro a chave da casa de
Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.” (Is
22:21,22). Note bem, querido leitor, que Apocalipse 3:7 foi dito por Cristo a
uma igreja cristã, e não aos judeus! O uso do tempo presente repudia
completamente as ideias daqueles que insistem que a entrada de Cristo em
Seus direitos Davídicos ou reais ainda é futuro.
"Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e
os seus sete selos." (Apocalipse 5: 5). Não podemos agora entrar em um
exame detalhado da cena abençoada apresentada em Apocalipse 5, mas
devemos nos contentar com o resumo mais breve possível. Primeiro,
consideramos que o livro selado é o título de propriedade para a terra,
perdido pelo primeiro Adão (cf. Jeremias 36: 6-15). Segundo, Cristo como
o Leão de Judá "prevaleceu" para abri-lo: Ele garantiu o direito de fazê-lo
pela conquista do pecado, de Satanás e da morte. Terceiro, é como o
"Cordeiro" que Ele toma o livro (vv. 6, 7), pois como tal redimiu a
possessão adquirida. Quarto, Ele é visto aqui "no meio do trono",
mostrando que agora é dotado de autoridade real. Não há nenhuma sugestão
no capítulo de que seu conteúdo respeite o futuro e, portanto, consideramos
a visão como um retrato de Deus colocando Seu Rei na colina (montanha)
de Sua santidade, e dando a Ele as extremidades da terra para Sua posse. O
trono de Cristo é celestial e espiritual: "Assim também reinasse a graça pela
justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor."(Rm 5:21).