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A QUEDA DOS ILUMINADOS DE HEBREUS 6:4-6

Daniel Miranda Gomes


1. INTRODUÇÃO

O presente estudo consiste numa análise hermenêutica de Hebreus 6:4-6, utilizando-se


de instrumentos exegéticos para analisar as hipóteses de interpretação levantadas acerca dessa
complexa passagem bíblica.
De acordo com Arthur W. Pink, esta passagem é uma das mais graves na epístola aos
Hebreus, principalmente se comparada a qualquer outra no Novo Testamento. Provavelmente,
poucas vidas regeneradas a tenham lido, refletidamente, sem terem sido tocadas pelo temor e
tremor.1
Na concepção de William Barclay, esta é uma das mais tremendas passagens da
Escritura, que começa com uma espécie de lista dos privilégios da vida cristã.2 Sem dúvida
alguma, esta é uma das porções neotestamentárias que mais tem desafiado os estudiosos.
De fato, Hebreus 6:4-6 é uma referência que tem sido causa de uma série de
articulações exegéticas. Os problemas na compreensão do texto acaloraram, ao longo dos
anos, a discussão soteriológica e uma quantidade muito significativa de interpretações do
texto surgiram durante os séculos.3
A grande questão é se esta passagem ensina, ou não, que o cristão renascido possa vir
a se perder eternamente. Basicamente, o debate se divide em dois lados: os que dizem que o
texto bíblico não toca na segurança eterna dos filhos de Deus; e os que dizem que o cristão
pode vir a se perder eternamente. E, no embate teológico entre calvinistas e arminianos, estes
versículos têm sido analisados exaustivamente com o intuito de fundamentar a possibilidade
de queda ou não de um genuíno crente.
Existem, provavelmente, mais de doze opções interpretativas a esta passagem, as quais
podem ser encontradas em centenas de comentários ou periódicos. Porém, das muitas
interpretações, ao menos umas quatro podem ser encontradas em comentaristas de renome.
Um primeiro grupo afirma que este texto ensina que o cristão renascido pode perder a vida
eterna que recebeu gratuitamente do Senhor. Um segundo grupo afirma que o texto refere-se

1
PINK, Arthur Walkington. Exposition of Hebrews. Lafayette, In: Sovereign Grace Publishers, 2002, p. 285.
2
BARCLAY, William. The letter to the Hebrews. 5. ed. Filadélfia: The Westminster Press, 1995, p. 56.
3
LAZARINI NETO Antonio. Impossível renová-los para arrependimento: exame, estudo e exegese de Hebreus
6.4-8. Theos – Revista de Reflexão Teológica da Faculdade Teológica Batista de Campinas. Campinas, v. 4, n. 2,
dez. 2008, p. 6.
2

apenas aos cristãos nominais, ou seja, não renascidos. Um terceiro grupo alega que o texto se
refere a cristãos verdadeiros que caíram; porém, não teriam caído da salvação, mas sim, do
progresso na vida cristã. Por fim, também se conhece um quarto grupo de intérpretes que
alegam que o texto usa apenas uma linguagem hipotética, referindo-se ao que aconteceria
caso fosse possível ao cristão cair da graça.
Não constitui nosso propósito interagir com estas interpretações doutrinárias. Pelo
contrário, analisaremos tão somente a terminologia empregada, pelo autor, nos versos 4 e 5 e
que conclusão podemos chegar quanto à identidade destes indivíduos ditos “iluminados”.
Assim sendo, é a exegese desta dificílima passagem que apresentaremos a seguir.

2. A DELIMITAÇÃO DO TEXTO

Sempre que desejamos interpretar corretamente uma passagem devemos ter em mente
o que pretende nos dizer o contexto no qual ela se insere. No caso, o texto de Hebreus 6:4-6
não pode ser isolado do seu contexto imediato, sob o risco de se perder o significado que o
autor desejou, de fato, transmitir.
Charles A. Trentham, ao analisar a carta aos Hebreus, colocou a passagem de nosso
interesse como fazendo parte da aplicação dos argumentos do autor a seus leitores/ouvintes
(5:11 - 6:20). E, dentro desta divisão, alocou os versículos 4 a 6, de nosso estudo, dentro de
uma subdivisão que recebe o título de “Crucificaram a Cristo novamente”.4 Semelhantemente,
Robert W. Ross analisa o mesmo bloco (5:11 - 6:20), nomeando-a com o título “Repreensão
por falta de entendimento e imaturidade”.5 Giusepe Barbaglio, por sua vez, trabalha com um
bloco mais reduzido (5:11 – 6:12), intitulando-a como “Advertência e apelo à perseverança”.6
Quando o autor da carta aos Hebreus introduz o assunto referente à impossibilidade de
tais apóstatas serem renovados para arrependimento, ele utiliza a conjunção designativa de
causa “porque” (γαρ): “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados...” (v. 4
– ACRF, grifo nosso).
Aqui o autor deixa bem claro haver íntima ligação entre o que ele está a dizer e o que
foi dito anteriormente. E não somente isso, mas também ele quer esclarecer a idéia
anteriormente expressa. Portanto, precisamos saber o que ele estava dizendo.

4
TRENTHAM, Charles A. Hebreus. In. CLIFTON JUNIOR, Allen (ed.). Comentário bíblico Broadman: Novo
Testamento, v. 12. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p. 24.
5
ROSS, Robert W. Hebreus. In. PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everett F. Comentário bíblico Moody:
Romanos a Apocalipse, v. 5. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1988, p. 297.
6
FABRIS, Rinaldo. As cartas de Paulo: tradução e comentários. São Paulo: Loyola, 1992, v. 3, p. 422.
3

Ora, o contexto da passagem em estudo demonstra que o autor faz uma repreensão
muito forte, advertindo os leitores/ouvintes sobre o fato de eles, ou muitos deles, não tinham
ainda alcançado a maturidade espiritual desejada.
O escritor declara explicitamente que seus leitores não têm condições de receber o
ensinamento que ele se sente obrigado a dar. Ele os chama de imaturos, retrógrados, indoutos
e “tardios em ouvir”. Tal constatação facilmente se vê no contexto:

A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes
tornado tardios em ouvir. Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de
que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos
haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que
ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino.
Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos
exercitados para discernir tanto o bem como o mal. (Hb. 5:11-14)

Aqui temos o problema a se corrigir: a imaturidade espiritual destes crentes.

A TRADUÇÃO DO TEXTO EM DESTAQUE

Neste momento, será apresentada uma tradução ultraliteral (palavra por palavra,
conforme aparece no texto grego). No decorrer do estudo, serão verificados alguns termos e
expressões importantes para o entendimento geral. O texto grego analisado é o Textus
Receptus (ed. 1984).
4. αδυνατον γαρ τους απαξ φωτισθεντας γευσαµενους τε της δωρεας tης
impossível pois (a)os uma vez tendo sido iluminados tendo provado e o dom
επουρανιου και µετοχους γενηθεντας πνευµατος αγιου
celestial e participantes tendo-se tornado de Espírito Santo.

5. και καλον γευσαµενους θεου ρηµα δυναµεις τε µελλοντος αιωνος


e boa tendo provado de Deus palavra poderes e de vindouro século.

6. και παραπεσοντας παλιν ανακαινιζειν εις µετανοιαν ανασταυρουντας


e tendo decaído outra vez renovar para arrependimento tornando a crucificar
εαυτοις τον υιον του θεου και παραδειγµατιζοντας.
para si mesmos o filho de Deus e expondo à vergonha.

EXEGESE DO TEXTO

O conteúdo demonstra que há dois sérios problemas. O primeiro, no verso 4, é


identificar quem são “aqueles que uma vez foram iluminados”. O segundo, no verso 6, é
4

descobrir por que é impossível a restauração ou renovação para os que caíram. O texto diz que
é “impossível renová-los para arrependimento”.
Analisemos o verso 4: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram
iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo”.
O verso 4 se inicia com a expressão “impossível” (gr. αδυνατον), para compor uma
frase consideravelmente longa que se estende até o verso 6. É por essa razão que as versões
em português trazem diferenças no modo de construção dessa extensa passagem. A versão do
Almeida Revista e Atualizada (ARA) precisou repetir a expressão “impossível” no verso 6
para facilitar ao leitor a compreensão: “É impossível, pois...” (v. 4), “... sim, é impossível
outra vez renová-los para arrependimento” (v. 6). A Nova Versão Internacional (NVI), por
sua vez, jogou a expressão “impossível” para o verso 6, reorganizando totalmente a forma em
que o texto grego se expressou: “Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados...” (v. 4),
“... é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento” (v. 6). A versão do Almeida
Revista e Corrigida (ARC) preservou como no texto grego, mantendo “é impossível” apenas
no verso 4.
O importante nesse caso é a compreensão de que αδυνατον aparece uma vez apenas
no verso 4 e trata-se da primeira palavra da passagem e que o complemento ou a exposição
acerca do que o autor da carta aos Hebreus considera “impossível” está no verso 6.7
A palavra grega αδυνατον (impossível – v. 4) significa: “1) sem força, impotente,
fraco, sem poder, incapaz; 2) incapaz de ser feito, impossível”.8 Este adjetivo pertence à
família de palavras gregas que tem sua origem em δυναµις (poder), tendo o sentido de
“impotente”, “sem poder”, utilizada para apontar para um fato insólito e improvável na
natureza. Por quatro vezes o autor de Hebreus se utiliza dessa expressão (6:4, 18; 10:4 e 11:6).
Dentro do mesmo capítulo 6, no verso 18, αδυνατον foi usada em contraste a “não
permanência” dos iluminados (6:4) e denotando a impossibilidade de haver em Deus tal “não
permanência”, por ele se mostrar sempre fiel. Portanto, esta palavra transmite a idéia de uma
total impossibilidade, aplicada à paralisia ou enfermidade que anula qualquer desempenho de
força, e é uma expressão comum para fraqueza (cf. At 14:8; Rm 8:3; Rm 15:1). Isto indica,
em uma primeira análise, que não há nenhuma possibilidade de que estes que caíram se
levantem novamente e sejam restaurados.

7
TAYLOR, William Carey. Introdução ao estudo do Novo Testamento grego. 9. ed. Rio de Janeiro: JUERP,
1990, p. 220.
8
STRONG, James. Dicionário bíblico Strong: léxico hebraico, aramaico e grego. Barueri, SP: Sociedade Bíblica
do Brasil, 2002, p. 1.927.
5

O adjetivo αδυνατον está ligado ao infinitivo ανακαινιζειν (renovar), separados tanto


pela descrição daqueles aos quais é impossível uma renovação, quanto pela causa em que
existe tal impossibilidade, ou seja, é porque caíram. Tudo isso eleva a importância de
αδυνατον na passagem, pois ao que parece, o autor de Hebreus ao escrever desse modo quis
de forma enfática chamar a atenção para tal impossibilidade.
O verbo ανακαινιζειν que junto à µετανοιαν (v. 6) compõe a expressão “renovar para
arrependimento”, sendo este o escopo do que é impossível, ocorre tão somente aqui em 6:6
em todo Novo Testamento. Este verbo é um composto de ανα, preposição que forma 26
compostos em todo o Novo Testamento com o significado de “outra vez”, “de volta”, “para
trás”. Portanto, a idéia desse termo único em Hebreus, primariamente, é de uma “re-novação”,
uma volta ao estado anterior. Esta compreensão é reforçada pelo termo παλιν, “de novo”,
sintaticamente e imediatamente relacionado a “restaurar”.
O verbo mais próximo deste é anakainoo que ocorre no Novo Testamento apenas em
duas passagens e, em ambas na voz passiva. No caso de ανακαινιζειν, o verbo está no
infinitivo presente e na voz ativa, fazendo com que a melhor opção de tradução permaneça
assim: “renovar para arrependimento”; e não: “ser renovado para arrependimento” ou
“renovar-se para arrependimento”.
A identidade daqueles que o autor de Hebreus tem em mira na passagem precisa ser
identificada. Eles são descritos “em cinco orações subordinadas consecutivas”.9 Sobre estes
de quem se diz ser “impossível renová-los para arrependimento”, primeiro se diz que “foram
iluminados” (τους απαξ φωτισθεντας). Também se diz deles que “provaram o dom celestial”
(γευσαµενους τε της δωρεας tης επουρανιου), e que se “tornaram participantes do Espírito
Santo” (µετοχους γενηθεντας πνευµατος αγιου), e “provaram da boa palavra de Deus”
(γευσαµενους θεου ρηµα), e ainda dos “poderes do mundo vindouro” (δυναµεις τε µελλοντος
αιωνος). Assim, o problema está em saber a quem se refere a expressão “iluminados”. Qual a
identidade deles? Há necessidade de um entendimento desta palavra.
A palavra grega φωτισθεντας aqui significa “receber luz ou conhecimento através do
ensino”. É assim traduzida na Septuaginta em Juízes 13:8, II Reis 12:2, 17:27. O apóstolo
Paulo a utiliza como “manifestar”, ou “trazer à luz” em I Coríntios 4:5, II Timóteo 1:10.
Satanás cegou os entendimentos dos incrédulos, “para que lhes não resplandeça a luz do
evangelho” (II Co 4:4), que é, dar conhecimento dele. Então, “iluminado” aqui significa ser
instruído na doutrina do evangelho, tendo desta forma uma clara compreensão dele. Na

9
HAGNER, Donald A. Novo comentário bíblico contemporâneo: Hebreus. São Paulo: Vida, 1997, p. 107.
6

passagem paralela em Hebreus 10:26 as mesmas pessoas são citadas como tendo “recebido o
conhecimento da verdade”, confronte também em II Pedro 2:20-21.10 Portanto, os
“iluminados” de Hebreus 6:4 são aqueles que ouviram e compreenderam as verdades acerca
do evangelho, mas não necessariamente se converteram.
Após o texto alvo de nosso exame aqui, o autor se volta novamente de forma mais
direta aos destinatários de sua parenética: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos
persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta
maneira” (Hb 6:9).
O verbo grego γευσαµενους significa “provar, sentir o gosto ou experimentar”.
Levando-se em conta a semântica deste verbo no próprio escrito de Hebreus, verifica-se que
às vezes geuomai traz esse sentido de um experimento parcial e não completo (Mt 27:34).
Mas em Hebreus 2:9 o mesmo verbo é utilizado para afirmar que a Jesus convinha que, “pela
graça de Deus, provasse a morte por todo homem” e, evidentemente, a morte é um estado
impossível de ser pensado como um experimento de modo parcial (cf. Jo 8:52).11
Além disso, deve-se considerar que geuomai, segundo Champlin (citando Moffatt), é
uma “metáfora grega helenista contemporânea para indicar experiência” e “o termo provar,
nos escritos rabínicos, significa ‘participação’, ‘experiência em’”.12 Ou, ainda, segundo
Wayne Grudem, “pode significar simplesmente que a compreenderam e tiveram alguma
vivência do poder espiritual”.13
Um último termo a ser considerado na composição da descrição da experiência
daqueles a quem o autor de Hebreus se refere em 6:4-5 é “participantes”. É dito que eles “se
tornaram participantes do Espírito Santo”. Como já mencionado acima, a expressão grega
utilizada é µετοχους, um termo quase exclusivo de Hebreus que conta com cinco ocorrências
(2:14; 3:1, 14; 6:4 e 12:8), havendo apenas mais uma em todo Novo Testamento, em Lucas
5:7, traduzida como “companheiros”.
Os exegetas afirmam que esta palavra possui “uma ampla gama de significados e pode
sugerir participação e apego bem íntimos, ou então meramente uma associação mais tênue
com a outra pessoa ou pessoas citadas”.14 Em Lucas 5:7 ela aparece com o sentido de sócio.
Além de 3:1 onde se considerava os leitores “participantes de uma vocação celestial”,

10
PINK, Arthur Walkington. Op. cit., p. 290.
11
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova,
1995, p. 496.
12
CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium,
1986, p. 539.
13
GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 667.
14
GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 664.
7

encontramos em 3:14 o autor dizendo que “temos tornado participantes de Cristo” (metochoi
toû christoû). Em suma, ser participante do Espírito Santo pressupõe que esta participação
acontece em comunhão com outros crentes (Fl 2:1).
O grande problema com a exegese deste texto é que ela não ajuda a afirmar que o
autor aos Hebreus estava falando de uma fé temporal, ou de uma pseudo-regeneração e
pseudo-conversão. Calvino refere-se à queda desses hebreus como “fé temporal”, mas ele não
se baseia na exegese do texto. Não conseguiremos encontrar pistas para descobrir se eles eram
de fato regenerados ou não estudando o estado anterior deles, e sim estudando o estado
posterior daqueles hebreus.
O autor da carta aos Hebreus escreve que há uma impossibilidade de renovar para
arrependimento “aqueles que uma vez foram iluminados” porque os tais experimentaram uma
queda, isto é, “caíram” (gr. παραπιπτω). Esta palavra também é traduzida por “cair, cair
para fora, desviar-se”.15
Kistemaker considera que este composto no aoristo ativo particípio (παραπεσοντας, de
παραπιπτω) ocorre uma vez no Novo Testamento e é um sinônimo do verbo apostenai
(desviar-se) em Hebreus 3:12, aparecendo na LXX duas vezes em Ezequiel 14:13 e 15:8,
sendo traduzido geralmente nas versões em português por “rebeldia” ou “graves
transgressões”.16 Por se tratar de uma ocorrência única, é natural encontrar certa dificuldade
por entender o uso do verbo aqui.
Uma vez que parapipto é usada como equivalente de apostenai – de onde se deriva
nossa palavra apostasia – entender a queda como “deserção da fé” parece ser consensual entre
os estudiosos do Novo Testamento.
Nesse sentido, Champlin diz que o “verbo usado também para indicar ‘cometer
apostasia’. É este último sentido que deve ser entendido aqui”.17 De igual modo, Russel
Shedd comenta: “é claro que esta queda se trata de apostasia, a renúncia total da fé em
Cristo”.18
Todavia, tal queda não deve ser tomada numa esfera hipotética, traduzindo o particípio
grego como condicional, mas seguir a forma como o autor se expressa mediante uma série de
particípios por todo o texto (“foram iluminados, provaram, tornaram”, etc.) que comumente se
traduz no passado. A razão dessa queda era de ordem doutrinal e litúrgica. Possivelmente,

15
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Op. cit., p. 506.
16
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 233.
17
CHAMPLIN, Russel Norman. Op. cit., p. 540.
18
SHEDD, Russel. Bíblia vida nova. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 262.
8

alguns crentes estavam querendo voltar, ou voltaram de fato, às práticas sacrificiais do


Levítico.19
Arrependimento vem do grego µετανοιαν. Wayne Grudem arrazoa sobre a questão
demonstrando que “‘arrependimento’ (gr. metanoia) não implica necessariamente
arrependimento íntimo do coração para a salvação”. Ele cita como exemplo as passagens de
Hebreus 12:17; Lucas 17:3-4, onde, respectivamente, a palavra metanóia e o verbo cognato
metanoeo aparecem indicando não um arrependimento íntimo, profundo, do coração para a
salvação.20 É necessário, pois, que haja um entendimento de que metanóia não precisa ser
tomada rigidamente, relacionando-a a experiência salvífica.

COMPARAÇÃO DAS VERSÕES

À luz do que já foi visto até aqui, serão comparadas algumas versões atuais. As
versões comparadas, pela ordem de apresentação, são as seguintes: 1) versão Almeida
Corrigida e Revisada Fiel; 2) versão Almeida Revista e Atualizada; 3) Nova Versão
Internacional; 4) versão Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
ACRF
Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom
celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e
as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois
assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério.21

ARA
É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom
celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os
poderes do mundo vindouro, e caíram; sim, é impossível outra vez renová-los para
arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e
expondo-o à ignomínia.22

NVI
Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-
se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes
da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois
para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.23

19
STERN, David H. Comentário judaico do Novo Testamento. São Paulo: Didática Paulista; Belo Horizonte:
Atos, 2008.
20
GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 667,668.
21
BÍBLIA SAGRADA. Edição corrigida e revisada fiel. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1997.
22
BÍBLIA SAGRADA. Edição revista e atualizada no Brasil. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
23
BÍBLIA SAGRADA. Nova versão internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2000.
9

NTLH
Como é que as pessoas que abandonaram a fé podem se arrepender de novo? Elas já
estavam na luz de Deus. Já haviam experimentado o dom do céu e recebido a sua parte do
Espírito Santo. Já haviam conhecido por experiência que a palavra de Deus é boa e tinham
experimentado os poderes do mundo que há de vir. Mas depois abandonaram a fé. É
impossível levar essas pessoas a se arrependerem de novo, pois estão crucificando outra vez o
Filho de Deus e zombando publicamente dele.24

CONCLUSÃO

O texto é bastante difícil, mas seguem abaixo algumas conclusões:


O Autor da carta aos Hebreus não está querendo ensinar com aquelas qualidades dos
iluminados que elas são superficiais. A exegese do texto não aponta para este caminho. As
qualidades que ali estão (iluminação, dom celestial, provar a Palavra e os poderes celestiais,
ser participante do Espírito Santo) são as qualidades que devem ser encontradas em todos os
que são verdadeiramente regenerados.
Mesmo não tendo aqueles hebreus, de maneira profunda e eficaz, aquelas qualidades,
a prova disto é que vieram a negá-las mais tarde, o autor da epístola estava dizendo que era
impossível, depois da queda, para eles, o restaurar para o arrependimento. Neste ponto, o
verbo ανακαινιζειν (“restaurar ou renovar”) está no infinitivo ativo, não trazendo nenhuma
idéia passiva de “serem renovados ou restaurados por Deus”. Tanto αδυνατον (“impossível”)
quanto ανακαινιζειν (“renovar”) referem-se aos iluminados, tirando-lhes qualquer
possibilidade deles mesmos chegarem à graça salvadora de Deus. Então a melhor tradução do
texto seria: “É impossível a estes iluminados, por suas próprias obras, voltarem ao caminho
da graça”.
A queda dos iluminados de Hebreus 6 refere-se também a uma total renúncia de
Deus, da Sua Palavra, do Seu dom e do Seu Espírito. Esses iluminados alienaram-se do
Evangelho de Cristo e da graça salvadora, e foram totalmente excluídos do perdão. Este tipo
de pecado somente pode ser cometido pelos não eleitos, pois àqueles que violam a segunda
tábua da Lei de Deus é-lhes dado o perdão, mas àqueles que caem da graça são deixados por
Deus permanecer neste estado.

24
BÍBLIA SAGRADA. Nova tradução na linguagem de hoje. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
10

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARCLAY, William. The letter to the Hebrews. 5. ed. Filadélfia: The Westminster Press,
1995.

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Brasileira, 1997.

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Brasil, 2000.

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Brasil, 2000.

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exegese de Hebreus 6.4-8. Theos – Revista de Reflexão Teológica da Faculdade Teológica
Batista de Campinas. Campinas, v. 4, n. 2, dez. 2008.

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bíblico Moody: Romanos a Apocalipse, v. 5. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1988.

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Broadman: Novo Testamento, v. 12. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987.