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29/11/2019 terceiraparte:delgadoemargel - lancapatricia

Terceira Parte: DELGADO EM ARGEL

Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio

INÍCIO SEGUINTE ANTERIOR

Referências:

Terceira Parte
1 Esses dissidentes eram o dr.
Marcelo Fernandes, dr.
DELGADO EM ARGEL Zulmiro de Almeida, José
Hipólito dos Santos e Helder
Veiga Pires.
2 Apêndice Documental B, 
6. QUESTÕES DE SAÚDE Docºs nºs 5, 8, 12, 13
3. Idem.  Docº nº 9.
Quando o general Delgado chegou à Argélia nesse fim de 4 Em diversas versões deste
periodo da vida do General, o
Junho de 1964, vinha directamente de um hospital, em Praga, encontro é referido como
onde esteve internado cinco meses. Quem o mandou vir foram tendo sido em  ‘Chateau
os dissidentes e não os dirigentes da Frente Patriótica1. Ao Grand’, presumivelmente
código para Praga, capital da
fim de umas escassas três semanas já o general se achava Checoslováquia..  Nunca se
incompatibilizado com todos esses dirigentes. Daí em diante explicou bem como foi que
começou uma guerra entre eles e Delgado, descrita em Delgado conseguiu
documentos e recursos para
pormenor nos documentos emitidos pelo próprio general2.Os esta viagem, nem porque
elementos dirigentes da FPLN foram acusados por Delgado de voltou para o Brasil. Ver
mentiras, fraude, ameaças e chantagem. O representante do Sertório, 1978, p. 183-4.
PCP foi acusado de, pelo menos, cometer um gravíssimo 5.Ver Apêndice Documental B,
abuso de confiança3. Em Setembro de 1964 - menos de três Docº nº
meses depois da sua chegada a Argel - o general rompia
6.Marcelo Fernandes  um dos
definitivamente com a FPLN e com o PCP. Pouco mais de dissidentes que mandara vir o
quatro meses depois dessa desavença, desapareceu. A FPLN, general, mostrou há uns anos
ao mesmo tempo que recusava a solidariedade com Delgado, na RTP, no filme de José
Eliseu, o documento que
considerando como provocadores e agentes da PIDE os que Delgado trouxe do sanatório
lhe eram fiéis, tratava de apropriar-se dos bens e dos papéis checo. Viu-se ali - e o dr.
do homem que, mal havia um ano, pelo menos, bajulava em Fernandes também o
confirmou - que o documento
público. Apenas oito meses após a sua chegada a Argel, estava escrito em língua russa.
Delgado e a sua secretária aparecem mortos perto de Na rapidez do filme poucos
Badajoz. telespectadores terão notado
a estranheza deste facto. O dr.
Marcelo Fernandes tinha
É com esta trajectória claramente presente no espírito que motivos suficientes para
devemos tentar analisar o mistério do estado de saúde do assinalar o significado desse
documento.
general.
7.  Pedro dos Santos Soares,
Entre a instalação da FPLN em Argel e a vinda de Delgado membro do Comité Central do
PCP, voltou a Argel anos mais
decorreram dezoito meses. O que ainda não se explicou foi tarde. Soares e a mulher,
por que motivo o general deixou passar tanto tempo até vir Maria Luisa Palhinha da Costa
para a Argélia, depois da adesão do seu movimento (o MNI) à Dias, encontraram morte
subita em Portugal aos 10 de
FPLN, logo na primeira conferência deste organismo, Maio de 1975 num violento
realizada em Dezembro de 1962. É de recordar que o general acidente rodoviário.
não assistiu pessoalmente a esta primeira conferência,
8. Silva Pais também os
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nomeando como seu representante Manuel Sertório Marques qualificou como tal no
julgamento do “Caso
da Silva, igualmente exilado no Brasil. Delgado”, em Outubro de
1978, na penúltima audiência
Sabemos que o general fora operado no Brasil, em Março de em que prestou declarações
(ver ‘Se é verdade o que diz
1963. Em Maio, munido de um salvo conduto, fez uma viagem Salazar, mente o director da
secreta para a Europa onde se encontrou com Álvaro Cunhal. PIDE S. Pais, se é verdade o
Segundo Manuel Sertório esse encontro teve lugar em Praga4. que diz  Silva Pais, Salazar foi
monstro de cinismo’, Expresso
O encontro resultou num acordo entre o general e o líder do 28 de Outubro 1978, pp. 6-R,
PCP. Projectaram uma segunda conferência da FPLN que 7-R).
tomaria decisões mais claramente revolucionárias do que a
9. Ver Manuel Sertório.
primeira. Não se sabe se estiveram presentes mais elementos Humberto Delgado, 70 Cartas
da oposição. De regresso ao Brasil Delgado passou por Paris e Inéditas, Lisboa, Praça do
Marrocos mas não visitou então Argel, pois se tivesse feito, Livro, 1978.
talvez ficasse prevenido e o futuro teria sido outro. Mas não 10. Conhecido no PCP com o
foi assim. pseudónimo de ‘Campos’,
Rodrigues depois conheceu
um futuro conturbado. Ver rol
O Delgado voltou ao Brasil e ali esperou, irreequieto, de Personagens.
queixando-se da ineficácia dos seus novos aliado em lhe      
arranjar passaporte e meios financeiros5. Esperou até     
11.A 22 de Novembro de
Dezembro de 1963, cada vez mais impaciente. 1976.
Cuidado com Eles’, artigo do
Avante de Dezembro de 1964.
Em Argel, também impacientes estavam os portugueses    
descontentes da JAPPA. Finalmente,em Outubro de 1963, 12 Francisco Martins
quatro dissidentes mandaram um apelo urgente ao general Rodrigues e Ruy d’Espiney
para que ele viesse para Argélia o mais rápido possível6. eram personagens apenas
conhecidas dentro dos
círculos restritos dos
Delgado saiu definitivamente do Rio para assistir à segunda maoistas.portugueses.
conferência da FPLN, em Praga em Dezembro de 1963. Mas 13.Ver no Apêndice B
em vez de partir imediatamente para Argel, onde os ‘Comunicado de 5 de
dissidentes da FPLN o esperavam, o general deixou-se Dezembro de 1964’, alínea  
convencer por Cunhal a sujeitar-se a novo tratamento em Apêndice Documental B, Docº
nº 5
Praga que o poria fisicamente em forma e o capacitaria a
participar numa próxima luta armada. 14 Ver Apêndice Documental,
Docº nº 12.
Porquê a demora de Delgado em Praga? 15.Ibid.  Docº nº 5.
16.Neurologista, Amilcar
Delgado entrou no Statní Sanatorium em Praga, em Janeiro Cardigos Castanhinha e  sua
de 1964, e lá permaneceu cinco meses! Foi submetido a duas mulher, a ginecologista
intervenções cirúrgicas, nos dias 21 de Janeiro e 3 de Fernanda Castanhinha, ambos
então adeptos do PCP,
Fevereiro, que ele próprio categorizou como «fora dos partiram para a Argélia com
cânones». Recebeu no leito de doente a visita de Ben Bella os cinco filhos à sugestão de
que o tratou como chefe do Estado português e lhe prometeu Carlos Lança, seu familiar.
Cedo desencantaram-se com
acolhimento na Argélia. Esta visita do presidente argelino os dirigentes da FPLN  e
não parece ter ficado a dever-se a qualquer intervenção dos tornaram-se fieis apoiantes de
membros da Comissão Delegada, mas sim à própria iniciativa Delgado.
do general que, meses antes, tinha escrito directamente a 17.Ver Apêndice B Docº nº 4.
Ben Bella. Outra visita ao general acamado foi a de Mário
Soares7. 18.Ver Apêndice B Docº nº 5.
19.Ver Apêndice B Docº.nº 6.
Nunca ficou bem claro se Delgado dispunha ou não de meios
financeiros para sair da Checoslováquia. Na Argélia foi-me 20.Adolfo Ayala era, desde a
infância, deficiente físico,
afirmado por um dos dissidentes que assinou o apelo ao sofrendo de uma acentuada
general, terem sido eles a cotizar-se para pagar a sua curvatura da coluna dorsal.
viagem.  
21.Ver Apêndice Documental
B, Docº nº 7. O teor deste
De qualquer forma, o general saiu da cama e do sanatório, artigo mostra quão falsas
ainda com pensos numa ferida de 25 centímetros no eram as acusações posteriores
de que os adversários de
abdómen, e meteu-se no avião rumo a Argel. Quando os Piteira e do PCP se colaram ao
dissidentes souberam que ele ia chegar, ficaram delirantes e general no intúito de se
os adversários visivelmente perturbados. Mas estes insinuarem na sua
organização.  Na realidade,
recompuseram-se e tentaram fazer entender que acolhiam o passaram a ser conhecidos
general com agrado. Emitiram-se comunicados na imprensa como ‘delgadistas’ por ter-lhe
argelina. Formou-se uma comitiva para receber o general no dado o seu apoio contra os
abusos do grupo de Piteira.
aeroporto. Combinou-se com as autoridades argelinas uma
recepção condigna e o general pisou solo argelino com as 22 Desertor da Força Aérea
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honras de quase um chefe de Estado. Conduzido aos Portuguesa  tinha combatido


em Angola.  Mais tarde
aposentos do palácio presidencial, passou a ter automóvel e abandonou Delgado e aderiu
motorista à sua disposição. ao grupo de Piteira.
23 Ver em Apêndice B, Docº 
Passado pouco tempo, o general consultou o dr. Marcelo nº 8.~«»~~
Fernandes. Os exames acabariam por se revelar muito pouco
lisonjeiros8.  
Os comunistas e a ética hipocrática

O PCP, como já vimos, foi o último componente da FPLN a


mandar um representante para Argel: o Pedro Soares9. Este
ficou pouco tempo e não participou nos acontecimentos que
se seguiram à chegada de Delgado. Foi substituído por Pedro
Ramos de Almeida, figura que, em breve, iria desempenhar
um papel de relevo nos acontecimentos.

Pedro Soares deixou várias recordações desagradáveis na


colónia portuguesa. Uma delas teve a ver com a curiosa
atitude dos comunistas para com a ética médica, e que viria
depois a ser muito citada quando os médicos amigos de
Delgado se deram conta do lamentável estado físico deste
último.

Pedro Soares foi-se embora da Argélia doente. Porém, antes


de partir, o dr. Marcelo Fernandes, cirurgião altamente cotado
pelos colegas e o mais indicado para o seu caso específico,
ofereceu-se para o tratar. Pedro Soares recusou
terminantemente a oferta por este médico ser dissidente do
partido. Preferiu ser tratado por médicos do PCP, não
especializados no assunto. Marcelo Fernandes, homem
cândido, ficou abalado com esta experiência. Pela primeira
vez, se questionou: «se eles pensam que um médico,
politicamente adversário, possa prejudicar um doente por
motivos políticos, qual será então a seriedade deles próprios
nesta matéria?». Pouco tempo depois, ao ver o papel que
Delgado trazia do hospital checo, faria de novo esta mesma
pergunta sinistra.

A Checoslováquia regia-se por duas línguas oficiais: o checo e


o eslovaco, ambas escritas no alfabeto latino. Não se tratava
de um país subdesenvolvido. Tinha uma medicina e hospitais
avançados herdados da época pré-comunista. Por que motivo
o documento foi passado em russo? Teriam sido médicos
russos a operar Delgado? Ou será que o domínio soviético da
Checoslováquia exigia que as certidões médicas fossem
escritas em russo? Estas perguntas nunca encontraram
resposta.

Em 1964, em Argel, o dr. Marcelo Fernandes não escondeu de


ninguém a sua estranheza e indignação pelo estado clínico do
general, pela descrição pouco ortodoxa do documento e pelas
intervenções a que fora sujeito. Não eram, de maneira
alguma, o que ele esperava. Mais tarde, afirmou que o estado
do general era tal que se sentia tolhido para poder intervir. E
isso, depois da sua triste experiência com Pedro Soares. Disse
que, ao examinar o abdómen de Delgado, lhe veio
insistentemente ao espírito o medo expresso por Soares.

Sabe-se, finalmente, que Delgado foi operado mais do que


uma vez, em Outubro de 1964 em Itália, pelo famoso médico
dr. Pietro Valdoni (que operou Paulo VI e o secretário do PCI,
Palmiro Togliatti). Parece que os serviços deste médico foram
conseguidos através do dr. Ernesto Maria Bisogno e de Mário

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Alexandre de Carvalho, ambos qualificados pelo PCP e seus


aliados como agentes da PIDE10.

O que desde já se pode perguntar é se alguém, até hoje, se


deu ao trabalho de inquirir junto das autoridades
hospitalares, em Itália, sobre o dossier do paciente Delgado?
O dr. Valdoni já morreu,11 mas não haverá fichas no hospital
descrevendo o estado de Delgado quando lá entrou? Até para
anular suspeitas inevitáveis que surgem, quanto à estadia do
general no sanatório checo, um inquérito na Itália deveria ser
a primeira iniciativa de um investigador sério.

7.  OS PROBLEMAS POLÍTICOS DE CUNHAL


 

Evidentemente que os factos atrás narrados, por si só, teriam


um significado reduzido. Podiam explicar-se de várias
maneiras «inocentes», por exemplo, pela incapacidade
organizativa dos «patrióticos» em Argel, ou do PCP, de
arranjarem os meios para o general se deslocar do Brasil; e,
também, pela inferior qualidade da cirurgia dos países
comunistas.

Com este aviso é necessário, contudo, tentar localizar o


«puzzle» das demoras de Delgado no panorama das
dificuldades políticas que o PCP enfrentava entre 1962 e
1965. A tentativa é justificada porque todos os intervenientes
no caso Delgado, inclusive os juristas, têm insistindo na
hipótese de uma conspiração. O problema parece ser, pois:
quem foram os conspiradores? E quantas foram as
conspirações? E de que natureza?

Conspiração houve certamente em Rabat quando Piteira,


Pablo e certos nacionalistas da CONCP projectaram o que veio
a ser a FPLN. A pergunta que fica é se não houve, a seguir,
uma contra-conspiração por parte de Cunhal, desta vez em
Praga, para anular qualquer possibilidade de Piteira e seus
amigos virem a tomar a liderança da oposição anti-
salazarista. Já vimos que a incompetência e a própria
personalidade de Piteira, em poucos meses em Argel, levaram
virtualmente à extinção das suas esperanças de ali construir
uma praça forte independente do PCP. Vimos também como o
PCP muitos meses antes hesitou em enviar um representante
seu para Argel. O PCP teria preferido Roma como sede da
FPLN e dizia-se que foram Piteira e Tito de Morais que, sem o
acordo prévio do PCP como componente da Frente,
precipitaram as coisas, indo independentes para a Argélia e
pondo assim o PCP perante um facto consumado. Também
parece evidente que uma vez introduzidos na Argélia já não
precisavam da presença física de Delgado. Piteira e os seus
amigos estavam bem cientes que a proximidade e a
convivência diária com ele seriam sempre factores
incómodos. Conheciam a sua personalidade; do Brasil já
tinham vindo bastantes notícias das suas desavenças com
outros sectores da oposição anti-salazarista. Mantê-lo longe e
desactivado na Checoslováquia - mas sempre como bandeira
honorária - seria para a direcção da Frente bastante mais
conveniente. Neste sentido, os interesses de Piteira e Cunhal
pareciam convergentes.

No fundo, Piteira Santos, Tito de Morais e Ruy Cabeçadas -


todos de medíocre capacidade executiva - dependiam da
ajuda do PCP. Sozinhos mostravam-se incapazes, até de fazer
propaganda, quanto mais acções revolucionárias. Através de
Pablo, a FPLN arranjara uma sede com tipografia que, depois,
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por desleixo, perdera. Não conseguiram sequer editar um


boletim e ainda menos iniciar as famosas emissões de rádio,
utilizando as facilidades concedidas pela Rádio Televisão
Argelina. Estas só começaram a sério depois da chegada de
Pedro Soares.

Táctica soviética para a ocasião

Com a vinda do representante do PCP em meados de 1963, a


FPLN passou a dispor do apoio do Partido Comunista Argelino,
banido oficialmente, embora de novo muito activo a partir
desse Verão. Apesar deste partido não existir legalmente, o
seu jornal diário, Alger Républicain, continuava a publicar-se
e gozava agora do influxo de jornalistas do Partido Comunista
Francês. A União Soviética, depois de reticências iniciais, logo
após a independência, estava plenamente empenhada em
conquistar as simpatias do regime de Ben Bella. E este bem
precisava de todos os amigos disponíveis. Sabia que andava
permanentemente numa corda bamba e que os seus
adversários argelinos não cessavam de planear a sua queda.
Uma indicação segura da crescente influência soviética foi o
afastamento súbito de Jacques Vergès, 'maoista' da direcção
da Révolution Africaine e a sua substituição por um jovem
argelino, Mohamed Harbi, tido como próximo dos trotskistas.
Vergès foi também corrido do seu lugar como conselheiro de
Bel Bella e saiu apressadamente da Argélia com destino
incerto.

É interessante notar que os soviéticos não tiveram qualquer


problema em aceitar a existência do trotskista bem
conhecido, Michel Raptis-Pablo, no gabinete do presidente
Ben Bella. Do mesmo modo que Cunhal fez as pazes com
Piteira, também os patrões soviéticos (na época de
Khrushtchev) estavam prontos a aproveitar Pablo. Uma
delegação oficial da Embaixada da URSS visitou a bonita
moradia do Pablo em El Biar (bairro residencial chique de
Argel) e entregou-lhe uma placa com o busto de Lenine em
reconhecimento da luta de Pablo a favor dos argelinos. O
dirigente trotskista aceitou, todo baboso, a oferta dos
representantes do regime que, anos atrás, assassinara Leon
Trotsky.

Esta colagem soviética ao regime de Ben Bella suscitava vivas


críticas nos meios anti-marxistas argelinos - especialmente
no meio militar. Não lhes passava despercebido que os
principais apoios da FPLN dimanavam de meios marxisantes,
que eles sabiam, por experiência própria, opôr-se à luta
armada.

Se Piteira, depois de se servir do nome de Delgado para se


introduzir na Argélia, tencionava realmente levá-lo para a
África do Norte, só ele o sabia. Certamente não o quereria lá
numa altura em que as bases da FPLN em Argel estivessem
em revolta aberta. De qualquer forma, o facto é que Delgado,
ainda no Brasil, se queixava amargamente nas suas cartas da
inactividade forçada e perguntava constantemente por que
seria que a FPLN, com os vastos recursos do PCP e da Argélia,
não lhe conseguia os meios necessários para se deslocar12 .

Quando finalmente o general, como vimos, saiu do Brasil, não


foi para ir ter com Piteira Santos, mas com Álvaro Cunhal.

A viragem do PCP

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Parece evidente que até meados de 1963 o PCP não se


empenhou a fundo na aventura de Argel, todavia, a partir
desta data, fez uma viragem. Com a sua velha táctica de
apoderar-se do que não conseguia destruir, decidiu então
tomar conta da FPLN e da sua bandeira: Humberto Delgado.
Vários factores condicionaram a decisão do PCP. A Comissão
Delegada da FPLN começava a ser criticada não só pelos
portugueses, mas também por alguns argelinos, pelo menos
em círculos políticos não afectos a Pablo e a outros
conselheiros estrangeiros. A ausência comunista da FPLN em
Argel prejudicava as relações de Cunhal com os dirigentes de
certos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas.
Não convinha ao PCP que Piteira e os amigos socialistas
monopolizassem a bandeira do anti-colonialismo, ainda que
fosse demagogicamente. Também a dissidência ia crescendo
dentro do próprio partido. Lembremo-nos de que,
precisamente em Dezembro de 1963, quando a FPLN
consagrou a sua viragem a favor da luta armada, já havia a
primeira cisão pró-chinesa dentro do PCP; a formação do
Comité Marxista-Leninista; a expulsão de um importante
dirigente e membro do secretariado do PCP, Francisco Martins
Rodrigues13, e a formação da FAP.

No campo internacional, as críticas chinesas à política de


coexistência pacífica amontoavam-se. Tanto a URSS como
Cunhal estavam a mostrar-se muito sensíveis às acusações de
terem atraiçoado os povos em luta, a favor da política externa
soviética de compromissos com os EUA.

Tornava-se imprescindível fazer qualquer coisa para abafar as


críticas. Mas como? O PCP, como ficou provado ao longo dos
anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, não estava de
maneira nenhuma interessado em precipitar uma mudança
súbita em Portugal que escapasse ao seu controlo e que não
fosse do agrado da União Soviética. Tinha um plano, a longo
prazo, de penetração nas estruturas do Estado Novo e nas
forças armadas. Este plano estava a ser ameaçado em quatro
frentes: pelo imprevisível e impetuoso general, com o seu
prestígio no interior de Portugal; por Piteira em Argel onde
poderia ganhar o prestígio de dirigente anti-salazarista;
pelos jovens activistas, agora liderados por Martins
Rodrigues, exilado em França; e, sobretudo, pelo facto de o
mais influente dos movimentos nacionalistas (a UPA de
Holden Roberto) ser profundamente anti-marxista. O perigo
terrível para o PCP seria o do primeiro aliar-se aos dois
últimos.

Foi então que Cunhal jogou a sua cartada. Chamando a si o


general, Cunhal podia mostrar-se o homem forte da FPLN e
anular a influência de Piteira. Quanto aos dissidentes e à FAP,
Cunhal tinha para eles outros projectos. Através do Avante,
órgão clandestino do PCP, denunciou-os abertamente à
PIDE14. E podia fazê-lo impunemente: eram indivíduos
desconhecidos no plano internacional e mesmo nacional15 .
Com esses, o PCP podia arriscar-se, utilizando métodos
brutalmente abertos.

Mas que iria Cunhal fazer com essa figura impetuosa e


imprevisível que era o general Humberto Delgado? Deixando-
o ir para a Argélia, mesmo sendo um aliado do partido? Como
o controlar nesse ambiente confuso? Ou o manteria inactivo,
mas útil como fachada, num país de leste? Como?

Em primeiro lugar, como foi que Cunhal conseguiu convencer


Delgado a aliar-se ao PCP?
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Para Delgado ver!

Para responder a esta última pergunta, teremos que analisar


a diferença entre as resoluções das três conferências da
FPLN, em 1962, 1963 e 1964. Na primeira, impulsionada por
Piteira, falava-se na preparação do levantamento nacional
popular. Na segunda, impulsionada por Cunhal, depois da sua
reunião com Delgado em Maio do mesmo ano, foi-se mais
longe - longe suficiente para convencer o general de que o
PCP abandonara realmente o seu «pacifismo». Na terceira,
em 1964, depois da ruptura irremediável com Delgado, o PCP
já voltara à sua linha tradicional, embora com ajustes
demagógicos. Como a posição tomada nessa terceira
conferência correspondia exactamente à linha adoptada pelo
PCP durante anos, divulgada na sua imprensa clandestina e
até em entrevistas públicas de Cunhal, só podemos concluir
que as posições radicais subscritas pelo PCP, na segunda
conferência, foram-no apenas 'para Delgado ver'.

Quando o general voltou ao Brasil, após o seu encontro com


Cunhal, ia convencido que tinha obtido do PCP o acordo para
um trabalho em conjunto, com vista à preparação, a curto
prazo, de uma acção revolucionária. Delgado nunca se
converteu ao marxismo - aceitou a aliança com o PCP porque
até ao Verão de 1964, quando começou a abrir os olhos, era
vítima da propaganda salazarista que pintava o PCP como o
pior inimigo do regime.

E assim, convencido das 'boas intenções' de Cunhal e dos


comunistas (isto é, intenções de preparar uma revolução a
curto prazo) deixou-se induzir a entrar num hospital checo e
a submeter-se ali a longo e doloroso tratamento cirúrgico.

Pelos documentos publicados por Delgado, depois da ruptura


com a FPLN, ficamos cientes de que ele foi enganado pelo
PCP. Mas a pergunta fica: o PCP enganou-o conscientemente?
Ou foi o PCP que se enganou na sua avaliação incorrecta do
general? Teria Cunhal pensado que, reconhecendo Delgado
como chefe da oposição e fazendo uns gestos demagógicos
em favor de uma acção armada, ele ficaria domesticado para
uso do partido? Como hoje conhecemos melhor Cunhal, do
que em 1963, somos forçados a levantar fortes reservas à
possibilidade de Cunhal ter sido, nessa altura, enganado,
quanto às intenções e ao feitio do «General sem medo».
Apenas dois anos antes, em 1961, o partido estava em plena
campanha para denegrir Delgado: o general putschista, que
era necessário eliminar politicamente! Se nos lembrarmos
dessa campanha e das tentativas de aliciar Galvão, temos que
alvitrar a hipótese de o encontro com Cunhal e a segunda
conferência da FPLN terem sido montados de propósito para
ludibriar Delgado.

Enquanto não houver prova em contrário, fica-se com a


impressão que Cunhal descobrira uma maneira segura de
inutilizar o general, não fosse a visita de Ben Bella ao hospital
checo e a iniciativa dos dissidentes - esses dissidentes de
esquerda dos quais Cunhal nunca mais conseguiria livrar-se e
que vieram sempre estragar os seus projectos. Tinham
apelado ao general de deixar o Brasil e ajudaram a custear a
sua deslocação até a Europa.

Depois ajudaram Delgado a sair da Checoslováquia, e


trouxeram-no até Argel. Ali esses portugueses rebeldes
começaram a contar-lhe as suas queixas: da tirania de Piteira,
do nepotismo de Tito de Morais, do pacifismo inerente do PCP
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- enfim, da total ausência dos tão pregados projectos de uma


acção revolucionária. Delgado percebeu então que tinha sido
enganado.

8. A CHEGADA DE DELGADO
Quando o general Delgado chegou a Argel em Junho de 1964,
vinha na qualidade de presidente da Junta Revolucionária
Portuguesa e também do «Comando Operacional», o órgão
militar da JRP. Sobretudo estava convencido que vinha como
presidente eleito pelos portugueses e, portanto, com
indiscutível autoridade sobre quaisquer outras personalidades
políticas que se encontravam em Argel16 .

A FPLN tinha, desde a primeira conferência, prestado


homenagem ao «valoroso dirigente da Oposição». Na
segunda conferência o próprio Delgado propôs a designação
da Junta Revolucionária Portuguesa como organismo máximo
da FPLN e a conferência elegeu-o presidente desse
organismo. A criação do 'Comando Operacional' tinha sido
votada por maioria, com Piteira Santos contra.

Delgado sabia muito bem que, com excepção do


representante do PCP, os restantes membros da direcção da
Frente eram personagens que, no fundo, só se representavam
a si próprias. Todo o comportamento público do PCP, e dos
outros, parecia confirmar a sua convicção de que era aceite
como chefe incontestável. O Presidente Ben Bella não o tinha
visitado no hospital de Praga, em Maio de 1964? Não fora a
Moscovo a convite dos russos na altura da segunda
conferência? E agora na Argélia, não era recebido como Chefe
de Estado e alojado no palácio do presidente argelino?

O grupo de Piteira, enquanto Delgado estava longe, cantava-


lhe louvores constantemente. Para vencerem a sua própria
condição de ilustres desconhecidos, invocavam o nome de
Delgado, dando a impressão de que não eram mais do que
seus fieis representantes. Já vimos, aliás, que foi através
dessa invocação que conseguiram a entrada da FPLN na
Argélia.

Assim, Delgado, acima de tudo um militar, tinha todos os


motivos para se considerar o chefe hierárquico da oposição,
escolhido pelo povo como presidente da República Portuguesa
e consagrado como principal lutador pela sua participação na
acção de Beja. Toda a sua actuação no ano de 1964, na
Argélia, tem de ser entendida nesta óptica. Se a Junta a que
ele presidia existisse realmente para organizar uma
revolução, então era evidente que esse organismo não podia
funcionar em moldes parlamentares. Quem se mostrasse
pouco disposto a aplicar as resoluções tomadas na segunda
conferência, de preparar uma revolução a sério, teria
forçosamente que ser afastado da Junta. Não condenar tais
pessoas teria sido para Delgado, no máximo, uma traição aos
compromissos que ele assumira; no mínimo, uma
demonstração de tibieza, imprópria dum chefe militar.

Não nos cabe, nesta narrativa dos acontecimentos de Argel,


avaliar objectivamente as pretensões de Delgado, nem
analisar se existia ou não, nessa altura, uma situação
favorável aos seus projectos dentro de Portugal. O importante
é descrever o comportamento dos personagens e tentar medir
a distância entre as suas declarações de intenção e respectiva
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actuação, a fim de julgar a sua 'moralidade' política e não o


seu 'realismo' político.

Guerra Fria

O que iria ser o comportamento de Delgado em Argel ficou


logo indiciado no aeroporto, à sua chegada. Quando uma
pequena multidão composta por entidades oficiais argelinas,
exilados portugueses e jornalistas o rodeou para ouvir as
suas palavras, Piteira tentou, em vão, impingir ao general um
discurso escrito, o qual Delgado soberanamente ignorou.

No dia 2 de Julho, o general convocou uma conferência de


imprensa em que se apresentou aos jornalistas argelinos e
estrangeiros. Falou dos seus projectos, do problema colonial,
das suas relações com os 'países socialistas'. Foi a única vez
que apareceu em público, unido aos elementos da Comissão
Delegada.

Seguiram-se cinco semanas de 'guerra fria' até ao dia 4 de


Agosto, data em que se desfez irremediavelmente essa união,
quando o general dirigiu aos membros da Junta uma carta
explosiva pormenorizando os numerosos delitos dos que se
diziam seus colaboradores17.

A Junta que, segundo a conferência de Praga, substituía agora


a antiga Comissão Delegada, era composta por Piteira Santos,
Tito de Morais, Ruy Cabeçadas e o representante do PCP,
Pedro Ramos de Almeida, que fora substituir, havia pouco
tempo, Pedro Soares. Ramos de Almeida já era conhecido do
general, por residir em Praga na altura da hospitalização
deste. Havia ainda um quinto membro da Junta, ausente no
Brasil, Manuel Sertório Marques da Silva. A cada um dos
quatro presentes na Argélia o presidente da Junta iria imputar
graves faltas.

À parte os pecados individuais de cada um, o general


descobriu logo que os vastos recursos que lhe tinham dado a
entender ir encontrar na Argélia eram extremamente
reduzidos.

As instalações da FPLN eram decepcionantes. As


preocupações dos seus novos colaboradores estavam bem
longe do que o general esperava. Piteira, e depois Ramos de
Almeida, eram os mais insistentes em exigir que o general
tomasse medidas junto dos argelinos para conseguir que os
elementos relacionados com a publicação Revolução
Portuguesa e a FAP fossem expulsos18.

Também Piteira insistia com o general para usar da sua


autoridade e exigir 'pesadas contribuições pecuniárias,
coercivamente em regime de chantagem…» aos exilados19.

O general Delgado, revoltado, chamou-o à ordem. Mas


Piteira, cioso dos seus poderes e às escondidas do general,
continuava a escrever ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros argelino em nome da (agora extinta) Comissão
Delegada. Ora, com a chegada de Delgado, a Comissão
Delegada, segundo decisão da conferência de Praga, deixara
de existir. De molde a sanar a situação, Delgado nomeou
então como seu agente de ligação com o MNR argelino o
médico dr. Amilcar Castanhinha20.

Mais: no dia 26 de Julho, publicou na imprensa argelina um


comunicado anunciando a cessação de funções da 'comissão
https://sites.google.com/site/lancapatricia/terceiraparte%3Adelgadoemargel 9/13
29/11/2019 terceiraparte:delgadoemargel - lancapatricia

delegada'. Os termos do comunicado não deixavam margem


para dúvidas de que entre o general e o grupo de Piteira havia
surgido um grave diferendo. As palavras …
Consequentemente: ditadura, despotismo e favoritismo serão
excluídos das decisões do seu órgão em Argel … eram
claramente dirigidas aos membros do extinto órgão21.

No dia 31 de Julho, após o regresso de Ramos de Almeida do


estrangeiro, o qual, sem dúvida, fora consultar Cunhal,
Humberto Delgado convocou uma reunião da Junta. Ramos de
Almeida aparecia então como o primeiro a insistir na expulsão
de portugueses, onde se incluiam também, desta vez, o dr.
Amilcar Castanhina e Adolfo Ayala. Exigia o despejo dos
habitantes da casa-abrigo, fazendo acompanhar tais
exigências de ameaças veladas de retirar a Delgado o apoio
financeiro do partido e a caução da FPLN junto do governo
argelino.

A expulsão de portugueses, exilados políticos, muitos deles


indocumentados, implicaria, como é óbvio, obrigá-los a voltar
para Portugal onde, como anti-salazaristas declarados, seriam
presos. A ameaça de retirar apoio financeiro a Delgado era
igualmente grave. Delgado não tinha emprego nem recursos,
embora tivesse insistido muitas vezes querer garantir «a sua
vida vegetativa» pelo trabalho.

Apesar disso, o general não se deixou intimidar e mostrava-se


confiante. Não se apercebera ainda que Piteira tinha altos
apoios no próprio gabinete de Ben Bella e que o PCP se
encostava à crescente influência do ilegal PC argelino. Tentou
iniciar contactos que lhe permitissem arranjar emprego e,
durante algum tempo, teve esperanças de ser nomeado
conselheiro técnico do presidente da República, com um
ordenado de 2200 dinars (equivalente a francos franceses da
altura).

No dia 4 de Agosto, por forma a tornar as coisas bem claras,


escreveu uma carta aos outros membros da Junta em que
descreveu, pormenorizadamente, o clima que se vivia na
direcção da FPLN. Falou da passividade revolucionária do
grupo de Piteira e da sua concentração nos «ódios locais».
Por fim, anunciou a suspensão destas figuras «em férias de
Verão22.

9. GUERRA ABERTA

Dois dias mais tarde, a 6 de Agosto, Ruy Cabeçadas entrou na


sede da FPLN e apoderou-se da chave da secretária e da
chancela da Frente. Delgado emitiu um comunicado e o
Boletim da JAPPA publicou um número especial sobre o
assunto, descrevendo o sucedido. O Boletim denunciava em
termos violentos os dirigentes da FPLN, chamando-lhes
'vulgares ladrões' e auto-nomeados, … que, durante ano e
meio, aterrorizaram a colónia portuguesa de Argel23.

O Boletim também noticiava:

… que há poucos dias esse mesmo indivíduo [Ruy Cabeçadas]


levou a sua cobardia ao ponto de ameaçar fisicamente o
nosso camarada Ayala, anti-fascista há mais de 30 anos,
veterano das prisões salazaristas. O Cabeçadas pretendia
utilizar precisamente os mesmos métodos que a PIDE já tem
exercido inúmeras vezes contra o nosso camarada Ayala: as
sevícias, a violência cobarde e a intimidação fascista24.
https://sites.google.com/site/lancapatricia/terceiraparte%3Adelgadoemargel 10/13
29/11/2019 terceiraparte:delgadoemargel - lancapatricia

A notícia do Boletim concluia com um apelo aos antifascistas


para formarem … piquetes de segurança tanto no bureau
como na Casa-abrigo. Delgado mandou fazer chaves e
chancela novas e ordenou a constituição de piquetes. Armou
os desertores com varapaus e deu ordens para responderem à
violência com violência, caso houvesse um assalto ao bureau.

O ambiente na colónia portuguesa tornou-se assim mais


escaldante. Previndo esta situação, o mesmo número especial
do boletim da JAPPA publicou também um artigo propondo
medidas para a democratização da vida interna da colónia
portuguesa e o fim da 'luta fratricida'25. Reiterando a
«confiança moral» no General, o artigo também chamava
atençao ao facto que isso não impedia que muitos tivessem
posições políticas diferentes das de Delgado. Do lado dos
delgadistas havia agora euforia. Do lado dos membros
suspensos da Junta e dos seus clientes medo e intriga.
Meteram-se em casa e, a partir dessa data, não foram vistos
nos cafés de Argel onde, antes, cultivavam o hábito de passar
grande parte do tempo.

Como Piteira recebera ordens que não cumpriu, de devolver


ao bureau os bens da Junta, uma delegação, acompanhada
pelos desertores 'armados', foi a sua casa. Piteira escondeu-
se e vizinhos portugueses do andar do lado contaram que ele
e a esposa gritavam histericamente, apesar da delegação nem
sequer ter entrado.

Entretanto, o general, depois de ter suspenso os membros da


Junta, queria agora assegurar as emissões da Rádio Voz da
Liberdade. Com a ajuda do dr. Castanhinha, Delgado gravou
um programa para a emissão de sábado, dia 8 de Agosto, mas
não tinha contado com os adversários. Eles, embora
suspensos, continuavam a ter contactos com as autoridades
argelinas da rádio. Conseguiram organizar o seu próprio
programa, com seis pessoas, e foi esta a emissão a ir para o
ar - falando em unidade.

O general começou também a encontrar dificuldades na


imprensa. Mandou vários comunicados para os jornais,
anunciando a suspensão da Comissão Delegada. Não foram
publicados. Redigiu um novo comunicado, anunciando a
expulsão da Junta dos membros da antiga Comissão
Delegada. Também este foi ignorado.

Os membros da colónia portuguesa que continuavam a apoiar


o grupo de Piteira resumiam-se agora à família Tito de Morais
e a militantes do PCP, cujo número aumentara nessas
semanas, com um súbito influxo de cunhalistas, incluindo o
poeta Manuel Alegre. Estes não falavam aos delgadistas. Até
nos hospitais os médicos do PCP cortaram relações com os
médicos delgadistas.

Pedro Ramos de Almeida, enquanto intrigava contra Delgado,


que o suspendera, fez publicar no Alger Républicain do dia 11
uma declaração a regozijar-se de ter vindo para Argel e ter a
honra de trabalhar ao lado do general Delgado, de Piteira
Santos, Tito de Morais e Ruy Cabeçadas.

A fraude de Pedro Ramos de Almeida

Não obstante isso, Delgado continuava com os trabalhos do


seu comando operacional. Já no dia 30 de Julho tinha tido
conversações com Ben Bella referentes à preparação duma
https://sites.google.com/site/lancapatricia/terceiraparte%3Adelgadoemargel 11/13
29/11/2019 terceiraparte:delgadoemargel - lancapatricia

acção, partindo do exterior. É natural que os inimigos de


Delgado tivessem vindo a saber, através de Pablo, que
Delgado fizera algumas diligências secretas. Então Ramos de
Almeida resolveu descobrir do que se tratava.

Delgado nomeara como seu executivo, encarregado do


Comando Operacional, o major Ervedosa, um piloto militar
português recém-chegado26, que ficou incumbido de tratar
com os argelinos de todas as questões relacionadas com
operações, inclusive as emissões de rádio. Ervedosa
substituía Tito de Morais, até aí temporariamente
encarregado da questão da rádio.

No sábado, 15 de Agosto, de manhã, Pedro Ramos de


Almeida, apresentou-se ao director do serviço argelino
respectivo, dizendo que ele era o major Ervedosa. E para dar
verosimilhança à burla, fazia-se acompanhar de Tito de
Morais.

O falso Ervedosa informou o alto funcionário argelino que


pertencia ao grupo do general e avisou-o que os argelinos
deviam tomar previdências contra o grupo adversário que
poderia querer intrometer-se no «delicado serviço». O
cinismo de Ramos de Almeida foi até ao ponto de fazer crer
ter sido militar em Portugal.

Conseguiu deste modo apoderar-se do material preparado


pelos delgadistas para a próxima emissão. A fraude de Ramos
de Almeida foi descoberta na própria tarde desse dia quando
o general teve a oportunidade de falar com o funcionário
argelino em questão.

A carta que Delgado enviou a Ramos de Almeida, descreve em


pormenor o incidente27.

Com este abuso de confiança do representante do PCP que,


nessa altura, era tido como delfim de Cunhal, Delgado tinha
agora razões de queixa gravíssimas contra todos os membros
da antiga Comissão Delegada. À sua certeza quanto à falta de
idoneidade moral desses indivíduos, juntava-se também a
prova de que nenhum deles tinha a mínima intenção de
colaborar nessa «revolução a curto prazo», que era a razão
de ser do general.

A ruptura total estava consumada.

Embora não iremos, de momento, adiantar sobre o


comportamento ainda mais desleal que se verificou da parte
do grupo de Piteira, seis meses mais tarde, depois do
desaparecimento de Delgado - e que fica para outro capítulo -
convém dizer algumas palavras sobre a personagem que
Delgado habitualmente chamava de 'rato branco'.
Pedro Ramos de Almeida, cuja qualidade moral ficou
classificada pelo episódio acima relatado, é o mesmo
indivíduo que, depois do 25 de Abril, se erigiu em especialista
do 'caso Delgado'. É o mesmo indivíduo que se deu ao luxo de
histericamente caluniar e acusar pessoas honestas. Veio à
televisão, no filme de José Eliseu , com uma convoluta e
ridícula história de agentes e espiões 'do imperialismo' sem
qualquer fundamento. Ao mesmo tempo escondeu
cuidadosamente como foi que ele próprio tratou Delgado e
como este o retratou. Igualmente deixou de aparecer como
membro do Comité Central do PCP para passar a dirigente do
MDP, sem explicar nunca como entrou em Portugal antes do
25 de Abril e conseguiu de Marcello Caetano autorização para
https://sites.google.com/site/lancapatricia/terceiraparte%3Adelgadoemargel 12/13
29/11/2019 terceiraparte:delgadoemargel - lancapatricia

cá viver legalmente28 .
Densos mistérios cobrem a figura política de Ramos de
Almeida, competindo portanto aos historiadores tirar estas
coisas a limpo29.

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