Você está na página 1de 8

REFLEXÕES Domingo

13 de Setembro de 2020 17
o ensaísta e investigador Sebastião
Vinte e Cinco, a população do

ARMINDA FILIPE E O PROBLEMA DO MÉTODO Ebo usa a variante dialectal Ki-


bala, que na geolinguística an-
golana traduz a coexistência de
duas línguas nacionais em con-
tacto, o Kimbundu e o Umbundu.

Ondjango, um conceito Assim se explica a consagração


da instituição “ondjango” e a
relativa importância do Umbun-

da democracia deliberativa
du na vida comunitária. Trata-
se de uma unidade lexemática
da língua Umbundu equivalente
DR a “Ocoto”, em Cokwe, e “Ocota”
em Nyaneka.
Portanto, o facto de o conceito
“ondjango” ter sido adoptado co-
mo vocábulo implica conhecer
a dimensão substantiva da ins-
tituição, suas propriedades por
força dessa incorporação. Tal fe-
nómeno ocorre relativamente à
apropriação de conceitos e ins-
tituições por diferentes comu-
nidades étnicas. Uma outra
ilustração verifica-se no domínio
da “mukanda”, rituais da cir-
cuncisão e respectivos universos
simbólicos, que, sendo origina-
riamente Cokwe e Ngangela, fo-
ram adoptadas por comunidades
de língua Umbundu com uma
designação diferente, “ekwenje”
ou “evamba”.
Como se percebe, é aí que se
revela necessário explorar as vir-
tualidades do método analítico
aplicado ao esquema conceptual
do “ondjango” e seus sentidos
em contextos institucionais que
os legitimam. Mas numa pers-
pectiva comparada tal tarefa não
impede que se conheça a tradição
analítica da prática filosófica afri-
cana e os debates que mobiliza
em África, em que se destacam
filósofos anglófonos.

Tradição de discussão pública


As instituições como o “ondjango”
formam o universo das expe-
riências externas das comuni-
dades angolanas com que se
ocupa a antropologia social, po-
lítica e cultural. E uma destas ex-
periências externas é a tradição
de discussão pública a que no
mundo ocidental se chama “de-
mocracia”. Mas a génese dessa
tradição não é monopólio da Eu-
Luís Kandjimbo |* Para tal recorre à metodologia que estabelecer qualquer diálogo com esquemas conceptuais no âmbito ropa. A filósofa angolana vem
lhe parece mais adequada, desig- autores que se dedicam à “palaver” dos sistemas linguísticos africanos. denunciar esta visão monista,
nando-a por “filosofia do ondjan- e à “palabre”, respectivamente, Por isso, os limites do conceito de ao afirmar que o “ondjango é um
A filósofa angolana Arminda Fi- go ” . Intro duz a sua conversa neologismo inglês e francês para “ondjango” que Arminda Filipe modelo de organização social
lipe mereceu atenção no texto argumentativa com a etimologia e referir uma instituição como o “ond- invoca são avaliados à luz dos pa- cultural e política comunitária
que dediquei à filósofa nigeriana compreensão do conceito-chave. jango”, a filósofa angolana junta- radigmas ocidentais, quando a sua de alguns povos Bantu”. Mas ad-
Sophie Oluwole, ao tê-la integrado Segue-se uma articulação em quatro se ao debate consagrado ao espaço semântica, isto é, os seus signifi- verte que o “ondjango está longe
numa lista de autoras cujas obras capítulos dedicados à tematização público e à democracia deliberativa cados requerem um conhecimento de ser apresentado como modelo
fazem parte das minhas preocu- da política, artes, filosofia compa- e seu enquadramento no âmbito dos fundamentos antropológicos ou de ser supervalorizado face à
pações de leitura. rada e contributos da “filosofia do da filosofia do direito e da filosofia que sustentam o “ondjango” en- democracia em África”. Apesar
O ensino da filosofia e da argu- ondjango para a filosofia social e política. De resto, Arminda Filipe quanto instituição. disso, Arminda Filipe reconhece
mentação tem sido instrumental política africana”. afirma categoricamente: “na filosofia O democrata-congolês Bénèzet que o “ondjango apresenta-se
para revisitar questões respeitantes Ao formular a proposta de pro- oral do ondjango, não se concebe Bujo e o camaronês Jean-Godefroy como um contributo para a filo-
aos problemas e métodos da filosofia blematização sobre o “ondjango” o indivíduo fora da comunidade”. Bidima atribuem um valor nuclear sofia social e política africana,
no contexto africano. É uma acti- e seus equivalentes, a filósofa an- Do ponto de vista da filosofia ao uso da linguagem e à ética do porque mantém o modo de se es-
vidade regular que me permite de- golana lança as bases de uma re- comparada, devem ser convocados discurso, tendo em conta a sua tabelecer o contacto directo com
senvolver reflexões sobre a moral, a flexão filosófica concentrada em dois filósofos africanos, Bénèzet relação com a memória colectiva. o outro (…) é o espaço comum
política, a literatura, respectivas práticas torno de quatro formas temáticas Bujo, democrata-congolês, e Jean- Bujo refere como exemplo as prá- onde a pessoa aprende a verda-
e instituições. Vem isto a propósito em que se analisa a sua manifestação: Godefroy Bidima, camaronês. A ticas das comunidades Baluba da deira práxis de ter vez e voz, práxis
do debate sobre o problema e o método política, moral, arte e literatura. ética, a filosofia política e a filosofia região do Kasai. Bidima traz os político-democrática (…)”.
que suscita a abordagem do conceito do direito são três dos seus do- conceitos equivalentes das comu- Portanto, a obra da filósofa
de “ondjango”, enquanto modelo Problema do método mínios de interesse. Bujo con- nidades Beti e Fang dos Camarões angolana refuta o argumento fa-
institucional de democracia deliberativa O método com que se opera no tra- centra-se à volta da natureza ética para chamar a atenção do carácter lacioso do cientista político ita-
e da ética argumentativa que deve tamento da questão substantiva da instituição. Já Bidima desen- patriarcal da liderança comunitária. liano Giovanni Sartori segundo
orientar o comportamento dos agentes parece ser bastante ecléctico, “her- volve uma perspectiva jurídico- o qual a democracia seria ex-
que intervêm nesses processos. menêutico, expositivo-reflexivo, política, trazendo à conversa as Conceito de “ondjango” clusiva criação da cultura e ci-
Em Angola, a filósofa Arminda reflexivo-dialógico-crítico”. Pro- discussões sobre a ética do discurso O conceito de “ondjango” que deriva vilização ocidental, ignorando
Filipe é uma voz feminina que in- curando situar-se no contexto dos e a democracia. Todos esses do- da aglutinação de três termos, no- o pluralismo como pressuposto
tervém no referido debate com o seu debates filosóficos registados no mínios são campos equivalentes meadamente, “ondjo yo hango”, da condição humana. Por isso,
livro “Ondjango. Filosofia Social e nosso continente, não faz opções do “ondjango” com que se ocupa significando literalmente “casa da inscreve a sua voz na linha pro-
Política Africana”, publicado em perante as escolas que se dissemi- Arminda Filipe. conversa”, designa uma realidade blematizadora da filosofia social
2018. Trata-se de uma versão da sua nam pelas diferentes geografias No entanto, o carácter disper- institucional sistémica. Por isso, e política, sendo exemplar o de-
tese de doutoramento. Natural da linguísticas e regionais. A sua bi- sivo da abordagem não permite partindo da análise do seu esquema bate sobre a democracia con-
província do Cuanza-Sul, obteve a bliografia não revela especial co- uma exploração argumentativa conceptual à luz de um sistema sensual e deliberativa em África,
licenciatura e o mestrado em Filosofia nhecimento de autores africanos, das potencialidades do método linguístico bantu, é redutor con- animado por Kwasi Wiredu e
na Universidade Católica do Porto, mas revela preocupações que re- hermenêutico na sua vertente ana- finá-lo à experiência de uma co- Jean-Godefroy Bidima.
tendo-se doutorado pela Universidade metem para a necessidade de es- lítico-sistémica, por exemplo. A munidade do Cuanza-Sul cuja
do Porto. É certamente a primeira tabelecer uma “reconexão com a perspectiva analítica cuja vocação língua é uma variedade dialectal *Ensaísta e professor universitário.
angolana doutorada em Filosofia. tradição e a memória africana”, tal valoriza a linguagem teria permitido regional, o Muebu da região do Ebo. M.Phil (Filosofia) e Ph.D (Estudos
Arminda Filipe elege como pro- como diz o filósofo camaronês Jean- demonstrar a importância de uma Apesar de pertencer ao grupo et- Literários). Email:
blema a instituição “ondjango”. Godefroy Bidima. O facto de não filosofia africana que examina os nolinguístico Ambundu, segundo l.kandjimbo@gmail.com
18 LEITURAS Domingo
13 de Setembro de 2020

LIVRO “ALJUBE SEM ÁLIBI”

Anselmo Vasco medita


sobre a liberdade e a paz
“Aljube sem Álibi” é o título do livro de meditações de Anselmo Vasco que já está no mercado da cidade
do Lubango. O foco da obra, segundo o autor, está na liberdade, “cuja chave é o pensamento e toda a
atitude positiva para encontrar e preservar o que se entende por paz”
| EDIÇÕES NOVEMBRO

Arão Martins | Lubango pela revolução tecnológica e des-


preocupadas com a humanização
e a dor do próximo. No seu dizer,
“Os desastres, as catástrofes, a cor- está-se preso pela falta de dinheiro
rupção, a infidelidade, a ambição e pela sua abundância cega que
humana, entre outros males, são leva à inexplicável necessidade
cada vez mais crescentes e presentes de querer comprar o mundo. “Es-
no dia-a-dia e requerem inteligência tamos presos ao conformismo de
e sabedoria para serem contornados. uma sociedade hipócrita e ganan-
Não somos criaturas más por na- ciosa em si mesma”, acentuou.
tureza, pois acredito, conforme des- “A ambição é visível até mesmo
crito nas ‘Sagradas Escrituras’, que nas sociedades religiosas, trans-
somos feitos à imagem e semelhança formadas em mercados da fé, que
de Deus”, disse Anselmo Vasco ao parecem autênticos fundos de in-
Jornal de Angola, acrescentando: vestimento, onde quanto mais de-
“parece que algum mal inundou o positares mais receberás em troca,
nosso ser, afectando negativamente sem juros e com ‘payback’ garan-
todo um sistema individual e social, tidamente curto”.
dividindo-nos. Em nós facilmente
se percebe que temos uma metade Pensar a vida
do bem e outra do mal”. Inúmeras vezes, disse Anselmo
No livro, explicou o autor, o leitor Vasco, o livro pára no tempo e,
jamais encontrará um mundo de em monólogos, coloco-me a
ideias novas. “Pelo contrário, en- pensar na vida, no mundo, nas
contra verdades que às vezes não teorias e filosofias da existência
queremos saber delas, porquanto humana, na lógica da humani-
somos prisioneiros de nós mesmos dade e do Universo.
e de todo um sistema global que Sobre o mistério do princípio
nos tem como marionetas”. de tudo, da vida, do mundo e de
O mundo, referiu o escritor, pa- toda existência, salientou Anselmo
rece estar dividido entre os senhores Vasco nas vestes de filósofo, alguns da fonte da nossa vida, mas tam- crimes de lesa humanidade são A edição inicial do livro “Aljube
do bem e os carrascos. “Vivemos buscam resposta na religião, outros bém a família que nos gerou, nossa roubar, retirar, impedir, amputar sem Álibi” tem uma tiragem de 1000
num mundo que é uma autêntica na mitologia e outros ainda nas origem, nossa história”. e matar a infância. “É na infância exemplares e 76 páginas. Anselmo
prisão, de gente complexa, pessoas diferentes teorias científicas. “No Para Anselmo Vasco, a vida é onde tudo é mais simples e as dores Vasco, que é economista de formação,
narcisistas sem misericórdia e sem livro, não pretendo apresentar “uma luta constante pela sobre- se curam com um beijo de afecto, docente universitário e conferencista,
compaixão, encarecidas na fofoca, uma nova teoria sobre o princípio vivência neste aljube sem álibi”. mimo, carinho e palavras bonitas”. tem uma forte propensão para a re-
inverdades, amizades interesseiras. do universo, pois a religião, a mi- Mas, “independentemente de toda Precisou que quando se é crian- flexão filosófica sobre a vida e o
Procurei reflectir em tudo isso no tologia e os grandes pensadores a negatividade envolta na nossa ça, as diferenças ideológicas, a mundo. Publicou também os livros
livro, como forma de cultivar o já o fizeram. Na verdade, temos a existência, o princípio acaba sendo cor da pele, a bandeira partidária, “Fiscalidade angolana – Funda-
amor ao próximo”. plena noção de que nascemos de um momento especial, único e o credo religioso e a situação po- mentos teóricos e práticos”; “Finanças
Anselmo Vasco frisou que, ac- uma mulher, somos fruto de um talvez o de maior felicidade em lítica, económica e social são ir- Públicas – A ciência e a arte de gerir
tualmente, as pessoas estão mais processo de gestação, e o cordão nossas vidas”. relevantes. “O que importa são os o erário público”; e “E entendendo
presas às redes sociais, tomadas umbilical marca não só a cicatriz O autor salientou que os maiores sonhos”, concluiu. o tempo – Mestre silencioso”.

EQUÍVOCOS DE BAR
Da curiosidade que mata o gato
ou do gato que mata a curiosidade
Pedro Kamorroto manas mais bem consentidas luz e as trevas, qual das duas da imbecilidade e do lado chofre disse-lhe que não era adulto, pagar as contas é já
pelo senso comum, muitos é mais democrática? Quem mais sombrio e seboso do o único. Fui mais longe, di- viver o fogo intenso do inferno.
têm usado e abusado da pa- tu preferes? ser humano, devemos estar zendo que quando há doen- Gostaria de ser gato ou um
De que insumo ou matéria- lavra como artefacto da língua “Conhecerás a verdade e atentos a todos aqueles que ças do género os iluminados, outro animal de quatro patas
prima é feito o inquietante escrita ou de um outro arte- a verdade te libertará”. Qual procuram espalhar o pânico em nome de Deus vêm com para saber dos seus dilemas
bicho homem senão à ima- facto - a linguagem verbal - verdade é uma arma poderosa mediante seus preconceitos, aquele discurso da praxe, e contradições”.
gem, semelhança e à medida para espalharem as suas cren- de libertação e de emanci- crenças e ideologias. de que estamos nos dias do O velho amigo, apesar da
das suas manias e grandezas? ças, mitos e ideologias como pação? A verdade eivada de Num dia como se fosse fim e que as profecias estão sua caturrice, acabou sendo
É no acto de inquirir que ele verdades absolutas ou uni- dogmas (ortodoxos ou estói- hoje, numa das minhas re- a ser cumpridas. domado e pediu-me para
busca a compreensão e a in- versais. Mas quem detém a cos) e de crenças que, de per ligiosas andanças pelas terras Um outro velho amigo, em não lhe estragar a fé que está
compreensão de si mesmo e verdade? O crente, o descren- si, excluem quem decidiu ir santas do São Markos de Zuc- tom de brincadeira, disse o com ele. Fim de citação, fim
do céu que orbita sobre a sua te, o ateu, o agnóstico, o deísta, para o altar na contramão? kerberg, um velho amigo per- seguinte: “Seu ateu incorri- de conversação.
cabeça lunática o pirrónico céptico? Deus- Nos tempos que correm, guntou para todos aqueles gível”. De seguida, desatei às Caros leitores: como não
No princípio era o Verbo diabo ou Diabo-deus? Será de quase entorpecimento ge- que fazem parte da sua rede gargalhadas. E o velho amigo gosto que a curiosidade mate
e o Verbo não tardou a se que alguma vez a luz vestiu neralizado, onde a mídia in- de contactos se ele era o úni- retruca: “Vais arder no fogo o gato ou que o gato mate a
transfigurar em palavra o fato da escuridão e a escu- ternacional de minuto a co que via que algumas pes- eterno”. E eu como não tenho curiosidade, por motivos não
humana. ridão idem? minuto, de segundo a segun- soas, mormente os crentes, mbora papas na língua ou lín- alheios à minha vontade nem
Com o eclodir da demo- A alteridade não é a re- do, dá carona a um vírus que tiravam proveito da pande- guas na papa, retorqui nos à do velho amigo, não vos
cracia, uma das utopias hu- ligião dos homens. Entre a muitos alegam ser o produto mia que assola o mundo. De seguintes termos: “Viver, ser direi de quem se trata.
LEITURAS Domingo
13 de Setembro de 2020 19
PROJECTO ARTÍSTICO “UM ARQUIVO ANGOLANO”

Sandra Poulson
premiada em Londres | EDIÇÕES NOVEMBRO

A artista foi anunciada numa cerimónia em Londres, com transmissão


online, na última quinta-feira, como vencedora do Prémio Mullen Lowe
Nova 2020 com o projecto “Um Arquivo Angolano”, que reúne um
conjunto de cerca de 200 peças sob a forma de textos escritos, imagens de
investigação, vestuário, gravações de voz, desenhos, artefactos de madeira,
instalação, fotografia, performance e vídeo

Sandra Poulson foi uma entre os 14 finalistas do concurso, seleccionados


de duma lista final de 46 apurados num total de 1.300 alunos recém-
formados na Central Saint Martins. O prémio garante aos estudantes
formados uma plataforma de reconhecimento que os pode catapultar
a uma carreira profissional no mundo da arte, da moda e do design.
Segundo o website da Central Saint Martins, uma Faculdade
do Reino Unido de artes e design, considerada uma das melhores
do mundo, Sandra Poulson apresentou uma seleção de itens do-
mésticos comuns angolanos para discutir a relação entre a família
e a memória social herdada da Angola colonial e da guerra civil.
“Esta obra é um arquivo de informação explorado através de do-
cumentos, artefactos, vestuário, momentos, manchetes, tradição
oral e dados históricos que definem a paisagem sociocultural,
económica, política, étnica e cultural de Angola”. No conjunto,
os itens são estudados “não apenas num nível material, mas
principalmente numa perspectiva de cultura material”.
“Este projecto começou com uma viagem de pesquisa a Luanda,
minha cidade natal, onde passei um mês capturando e me en-
volvendo com a vida quotidiana da cidade, desde os assentamentos
informais até a baixa de Luanda”, disse Sandra Poulson.
O projecto evoluiu para a elaboração de protótipos e a confecção
de artefactos em oficinas de madeira, fundição, metal e serigrafia.
“É uma sensação interessante, especialmente por ser um
projeto que foi terminado depois da Covid-19 ter começado e de
ficar a trabalhar em casa, a criar tudo. É interessante e muito
gratificante saber que há mais pessoas que valorizam aquilo em
que tenho vindo a trabalhar e que têm interesse na nossa cultura
e na nossa vida e em como podemos continuar a progredir”, su-
blinhou a artista, citada pelo jornalista Raimundo Salvador na
página do Facebook “Conversas à Sombra da Mulemba”.
Os vencedores foram encontrados online por um universo de
votantes global. Os estudantes premiados foram contemplados
com um montante em dinheiro para os ajudar na sua pós-
graduação prática.

Praticante de moda e pesquisadora


Sandra Poulson apresenta-se como uma artista visual, praticante
de moda e pesquisadora.
“O meu trabalho discute a paisagem política, cultural e socioe-
conómica de Angola como um estudo de caso para analisar a
relação entre História, tradição oral e estruturas políticas globais”,
afirmou a artista, numa comunicação. “Minha prática utiliza a
família e a memória social herdada da Angola colonial e da guerra
civil para desmantelar a Angola contemporânea por meio de
estudos semióticos de objectos (culturais) comuns (...). O que
atrai, inerentemente, as questões colocadas pela obra para a tarefa
de descolonialidade”, acrescentou.
Sandra Poulson disse ainda que o seu corpo de trabalho revisita,
recorrentemente, o corpo como espaço liminar de discussão,
operando de forma interdisciplinar por meio de meios como a
escrita, a fotografia, a hipernotação e a documentação, a mídia
mista, a colagem, o desenho, a impressão, a performance e o vídeo.
“Tendo a moda como uma forma de investigação que reconhece
os artefactos em estreita proximidade com o corpo, a minha prática
se aprofunda na confecção e no extravio de roupas”, concluiu.
A artista cresceu em Luanda e mudou-se para Lisboa em 2013
para estudar Design de Moda na Faculdade de Arquitectura da
Universidade Técnica de Lisboa. Em 2014 foi para o Reino Unido
estudar no London College of Fashion. Em Junho deste ano (2020)
concluiu a formação em moda na Central Saint Martins. O seu
trabalho criativo já foi exposto na Nigéria e no Reino Unido.

“O meu trabalho discute a paisagem política, cultural


e socioeconómica de Angola como um estudo de caso
para analisar a relação entre História, tradição oral e
estruturas políticas globais”
20 ENTREVISTA Domingo
13 de Setembro de 2020

EDIÇÕES NOVEMBRO

ADRIANO MIXINGE

“Escrevo para
despertar
a consciência
dos leitores”
A sensibilidade apurada de Adriano
Mixinge para o universo feminino faz do
livro “A flor de Mazozo ou a Festa dos
Pássaros” um produto literário recheado
de interminávei s emoções, sobretudo,
para quem procura uma narrativa
ousada e reflexiva. O autor demonstra,
no seu quinto livro, em que reúne 11
relatos em 103 páginas, que o âmago
feminino lhe fascina. Adriano Mixinge,
como ele próprio o diz na entrevista que
se segue, pertence a uma linha de
escritores angolanos “para quem a
literatura não é um meio para atingir
outro objectivo que não seja conseguir
espoletar no leitor um conjunto de
reflexões e abordagens que lhe
permitam analisar a realidade
em que está imerso e, sobretudo,
contribuir para que a literatura
ajude a transformar positivamente
a consciência do leitor”

Manuel Albano estimular as capacidades de que interessaria actuar de uns tios meus, que marcou imortalizar no sentido lite- estudar a possibilidade de
reflexão dos leitores, sem outro modo. a memória da família. rário a história da protago- se fazer uma apresentação
Como define os relatos que percam a oportunidade Ao passo que, se a literatura Há, também, elementos no nista da obra. pública do livro, respeitando
autobiográficos de uma para deleitar-se. Pertenço a servir para rememorar o pas- livro que abordam a transição as normas de biossegurança
mulher no seu mais recente uma linha de escritores an- sado, quer seja no seu lado do passado colonial para a O espaço em que se move a em tempo de pandemia da
livro? O que nos traz o livro golanos para quem literatura mais nobre quer no menos independência, a recons- protagonista tem uma carga Covid-19. Não sou muito de
“A Flor de Mazozo”? não é um meio para atingir nobre, isso nos faz estar cons- trução literária de um de- nostálgica para o escritor. fazer cerimónias públicas,
O livro é um conjunto de outros objectivos - de ca- cientes daquilo que aconteceu terminado contexto até aos Por que razão? mas o livro já está disponível
onze relatos diversos escritos rácter político-partidário, e não ficarmos estupefactos tempos actuais e destaca o Essa carga nostálgica tem ao público na livraria da Fa-
antes de 2002. Através deles, por exemplo - para além da a tentar perceber o que real- papel da mulher, com a pro- muito a ver com o espaço culdade de Direito da Uni-
o leitor pode estabelecer um literatura em si mesma. A mente aconteceu. tagonista a reivindicar um em que eu e a narradora do versidade Agostinho Neto e
diálogo imaginário com a literatura deve conseguir es- As coisas que acontecem são melhor posicionamento da livro nos movíamos. Nos no Memorial Dr. António
mítica figura do livro “Ocaso poletar no leitor um conjunto sempre consequência de um mesma no tecido social. Nes- anos que estive ausente do Agostinho Neto. Por exemplo,
dos Pirilampos”, que, como de reflexões e abordagens passado e esse conjunto de te sentido, apresento uma país, se existiram lugares o meu anterior livro, “O Beijo
se recordarão, é uma figura que permitam analisar a rea- textos tem essa importância: visão do que herdei dos meus que eu recordava muito bem da Madame Ki-zerbo”, não
masculina poderosa. “A Flor lidade em que está imerso, há histórias que remontam pais e, muito particularmen- e de que sentia inúmeras foi apresentado publicamen-
de Mazozo ou Festa dos Pás- e, se possível, o ajude a trans- aos anos imediatos ao pós- te, da minha mãe e a impor- saudades eram as zonas do te, apenas foi posto a venda.
saros” é também uma figura formá-la. O texto deve ter a Independência Nacional tância que eles tiveram no Rangel, as Bês, as Cês, o Ca- Neste momento, quem quiser
poderosa - no caso uma mu- capacidade de desfazer a (1975), como o relato “Com seio familiar para a educação puto, o largo do Cine N’gola, adquirir outros dos meus li-
lher - que no fim da sua vida barreira entre a realidade e o Mundo nas mãos”, que re- de todos os seus filhos. os Blocos, lugares onde cresci vros pode fazê-lo através do
olha para a história do país a utilidade da literatura, con- trata um incidente familiar entre os oito e 11 anos: foi site da livraria Kiela, do es-
dos últimos 45 anos. O ele- tribuindo para criar e ou con- quando uma granada explo- O fenómeno migratório do naquele espaço, diferente critor Ondjaki, livraria essa
mento que articula a história solidar as bases para uma diu dentro da nossa casa, interior para Luanda está do que é hoje, que começou que também tem um serviço
tem a ver com retratos au- cidadania consciente. para, através dele, falar sobre muito patente no livro. Há a minha adolescência. E, ao domicilio para a zona cen-
tobiográficos da protago- a importância dos militares, uma razão especial? claro, tudo isto participa da tro de Luanda.
nista, que confrontada com Podemos sentir que o na época. Trago no livro a localidade visão que tenho hoje sobre Evidentemente, no caso da
o facto de ter sido acusada escritor consegue de Mazozo por ser onde a a vida.Por outro lado, tenho obra “A Flor de Mazozo”, a
de feitiçaria pelos filhos e apresentar vários pontos O livro não fala somente das minha mãe nasceu. Colo- igualmente uma relação editora Mayamba acha im-
sobrinhos, decide fingir- analíticos no livro. Um dos memórias da protagonista. cando-me no lugar dela, de- muito especial com a natu- portante a realização de um
se de maluca para sobre- aspectos da obra é a Fala-nos também de amor... ve ter sido importante essa reza, porque sempre cresci encontro com o público
viver. Então, é “a louca rememoração do passado O livro apresenta-nos, igual- viagem que fez na década e vivi em ambientes rurais. para provocar leitura ao
lúcida” que reconstrói os para corrigir o presente... mente, a reconstrução da de 60, para a capital do país, Daí esta relação muito forte texto e uma conversa entre
factos do passado. Insisto: a literatura deve servir história de amor entre Jacinto quando aconteceu o movi- no sentido literário com os autor e leitor que acho que
para ajudar a sociedade a e Florinda, que se conhece- mento populacional do in- relatos da obra: em Cuba, pode ser interessante, na
O objectivo do autor foi criar pensar e a agir. Pensar no ram no antigo musseque Re- te r i o r pa ra o c e nt ro e a eu estudei em escolas se- medida em que pode ajudar
momentos de reflexão entre sentido de que, quando não bocho Vaz, actual Kassequel periferia de Luanda. O livro cundárias básicas, no cam- a conhecer melhor tanto o
os leitores? contamos as coisas como fo- do Lourenço, num dia em traz essa espécie de viagem po, e a “Flor de Mazozo” autor como a obra publi-
Efectivamente! Do mesmo ram bem feitas, podemos que havia cinema ao ar livre, de peregrinação, iniciática, vem do mato. cada. Este é o melhor pré-
modo que acho que um es- muito rapidamente esque- no areal situado no fundo de um âmbito rural para o mio que um autor pode ter.
critor deve ser um activo ca- cê-las e se não se tiver cui- das ruas em que viviam. Nes- urbano. O livro também é O livro já está disponível Não escrevo para prémios,
tali sador da lib erdade dado repeti-las, quando às se conto, em particular, rein- uma reflexão sobre a vida e para os leitores? mas sim para despertar a
individual, procuro também vezes foram tão mal feitas ventei a história de amor de a morte. No fundo, quero A editora Mayamba está a consciência dos leitores.
ENTREVISTA Domingo
13 de Setembro de 2020 21
“A Flor de Mazozo” e a literatura
PERFIL
como forma de emancipação social Adriano Mixinge
(Luanda, 1968) é
historiador, curador
Manuel Albano na própria realidade, na vida e crítico de arte.
e na história. Licenciado, em
Neste sentido, Adriano Mi- 1993, pela
Todas as semanas, quando xinge “ancora-se” muitas Universidade de
Adriano Mixinge escreve as vezes em relatos detalhados Havana (Cuba). Foi
crónicas que publica na co- para falar do processo mi- investigador no
luna “Na alva das ideias” gratório do campo para a ci- Museu Nacional de
deste jornal, parece trans- dade, nos anos 60 do século Antropologia, em
portar os leitores para os passado, da continuidade hu- Luanda, editor
passados mais misteriosos, mana e da transmissão de cultural do Jornal
menos sistematizados, ainda valores entre várias gerações. de Angola e
por descobrir, para as vidas Ou seja, o livro aborda os de- comissário na I
que mais se metamorfo- sejos intermináveis do passado Bienal de Arte de
seiam e para os aconteci- de uma mulher vinda das zo- Joanesburgo (1995).
mentos e as análises mais nas rurais para a grande ci- Desde 2003 é
disruptivas: e nesse exercício, dade: este é o pretexto utilizado membro da
ele traz e refaz também o pelo autor para reinvindicar Associação
presente e o futuro, o que já a valorização do contributo Internacional de
chegou - como se fossem da mulher na sociedade. Críticos de Arte
um puzzle de palavras, ideias No entanto, as lembran- (AICA).
e universos que vibram ao ças do passado permanecem Autor do romance
ritmo das nossas pulsações intercaladas nos relatos co- “Tanda” (Edições
mais íntimas. A realidade é mo, em todas as manhãs, a Chá de Caxinde.
dissecada em cada parágrafo: flor precisa de estar ao sol 2006). No ano de
inesperados fluxos de refle- para sobreviver. Os lugares, 2014 publicou o
xão e de questionamento se na memória da personagem livro “O caso dos
abrem estimulando o leitor. principal, mantêm-se sem- Pirilampos” com a
Ao analisar os relatos da pre presentes: ora no des- chancela da editora
obra literária “A Flor de Mazozo pertar efervescente de uma (Guerra e Paz.
ou a Festa dos Pássaros” de juventude ávida de “tudo” Lisboa), com o qual
Adriano Mixinge, notamos que experimentar, ora para fazer recebeu o prémio
não se propõe a um exercício uma analogia entre o mundo literário Sagrada
simples: na sua narrativa, os virtual e o mundo real. Esperança em 2013.
localismos e a visão cosmopolita Nos relatos, o autor traz Publicou
andam de mãos dadas. É isso para os amantes da literatura igualmente o livro
que torna surpreendente a nar- uma narrativa testemunhal, de ensaios sobre
rativa do autor. quase biográfica, destacando arte “Made in
Assim, quem se atrever vários contextos da história Angola: arte
a ler este livro pode ter a do país: os conflitos armados contemporânea,
certeza que estará “tramado” antes e após a independência; artistas e debates”,
- e ainda bem: porque será o empoderamento feminino pela editora
transportado, seguramente, num mundo dominado pelo L’Harmattan, Paris,
para uma viagem infinita, machismo faz, no livro, a em 2009, onde
com múltiplos aconteci- sua desforra; a procura de reúne 35 ensaios
mentos e realidades anta- relatos do livro terminam nos aconselhar a ler o quinto socorrendo-se tanto de uma um lugar na sociedade e a sobre a arte
gónicas, em que cada um sendo um único relato, um livro de Adriano Mixinge: linguagem “arrojada” como busca da satisfação carnal e africana
pode ou não se rever. Cada espaço de emancipação in- nele, o autor mergulha no de uma “narrativa plurivocal” espiritual ajudam a carac- contemporânea e a
relato pode ler-se por si só, dividual e colectiva. íntimo da mulher, apelando – com vários narradores, para terizar e a compreender a propósito da obra
mas, seguramente, todos os Inúmeras razões fazem- a um sentido estético apurado, fazer acontecer as coisas como personagem principal. de alguns dos mais
importantes artistas
angolanos. Com a
editora Guerra e Paz

“Uma borboleta com a idade publica “O beijo da


Madame Ki-zerbo”
(Lisboa), que reúne
36 crónicas

da história de Angola” publicadas no


Jornal de Angola
entre 1999 e 2007.
Foi Conselheiro
Ao atribuir a responsabilidade consagrada visão do mundo traz- Cultural nas
de escrever o posfácio do seu nos em ‘A Flor de Mazozo ou a embaixadas da
quinto livro “A Flor de Mazozo Festa dos Pássaros’ o olhar pas- República de Angola
ou a Festa dos Pássaros” à jovem sivo, que deambula por um pas- em França (2002-
escritora Cíntia Gonçalves, mem- sado ressentido e com indefinidos 2011) e no Reino de
bro do Círculo Literário e Lin- sentimentos de culpa. Com a Espanha (2011-
guístico Litteragris, Adriano sua mais recente proposta lite- 2018): nessa
Mixinge procura partilhar expe- rária, o escritor que se tem mos- condição organizou
riências literárias geracionais. trado obser vador e crítico, em Novembro de
“Dentro dos condicionalismos vagueia por um universo alheio, 2008 os projectos
impostos pelas particularidades mesclando-se com a idade da “Angola, mon
do texto literário”, Cíntia Gon- História de Angola”. amour”, no Museu
çalves, que decidiu intitular o Com os seus relatos, segundo do Quai Branly, em
posfácio “Uma Borboleta com Cíntia Gonçalves, o escritor “mos- Paris e “Angolana”,
a idade da História de Angola”, tra-nos um tópico erótico ou, uma apresentação
refere o seguinte: “A obra literária simplesmente, a visão substantiva da arte e da cultura
que vislumbramos enche-nos da relação íntima e ideológica angolana, em
de satisfação por ser das poucas, da mulher com os seus desejos Madrid.
na literatura angolana, que se aprisionados, trazendo à tona Actualmente
centraliza na pessoa da mulher, todo o potencial sexual criativo, é um dos
trazendo a presença de perso- isto é, o poder de criar uma nova administradores
nagens femininos com opiniões maneira de nos relacionarmos executivos do
contrastantes e cheias de matizes, connosco”. O autor, diz a posfa- Memorial Dr.
e a exposição de dialécticas con- ciadora, deixa transparecer “li- António Agostinho
traditórias, o que representa nhas de pensamento perversas Neto. Assina todas
uma tocha acesa sobre a valo- e de suculentas orgias” através as terças-feiras a
rização do pensamento feminino da figura da Flor de Mazozo”, coluna “Na alva das
na literatura angolana”. sendo “a primeira vez que na li- ideias”, neste jornal.
Adriano Mixinge – continua a au- teratura angolana se dizem as
tora do posfácio – “com a sua já coisas que estes relatos dizem”.
22 LIVES Domingo
13 de Setembro de 2020

DR

P. GILROY, A. MBEMBE, B-H. LÉVY, S. SANDFORD E H. BHABHA


Diálogos sobre a pandemia
A pandemia Covid-19 para além de nos ter concentrado no auto-cuidado e no cuidado do próximo, colocou-nos perante
alguns desafios existenciais e novas oportunidades comunicacionais. Dentre estas destacam-se as conversas ‘live’ através
de diversas plataformas digitais que nos permitem a interacção à distância

Ana Koluki |* lismo no Ocidente, que tipo abordam-na a partir da obra mim. E também as reflexões ao lado, pode ser o que está ção pluralística de outroridade,
de intervenção se pode esperar de Senghor, que várias décadas filosóficas sobre o que chamo no fim do planeta e você tem mas reconhece a diferença
Ao longo dos últimos meses, da Filosofia e das Humani- atrás convocava o mundo para a ‘impreparação’. Sobre o es- que tentar, é muito difícil dentro do próprio eu e dentro
sem termos que sair de casa, dades? Essa questão foi pre- o ‘rendez-vous du donner et tado de impreparação em que mas tem que tentar, tratá-lo de um grupo.”
muitos quartos, salas, portas dicada nas perguntas que o recevoir’ (o encontro, ou com- nos encontramos para algo como se ele estivesse tão perto
e janelas se abriram ‘online’ filósofo francês Michel Fou- promisso, de dar e receber) que tem uma longa história, como o da porta ao lado – O vírus como questão
para conversas sobre os mais cault formulou e tentou res- com África, que se tornou im- sobre a pandemia ou sobre esta é a dificuldade que ten- metafísica
diversos, entre pessoas situa- ponder em 1982: “O que está perativo durante esta pande- mortes pela polícia, especial- demos a esquecer.” “O vírus é apenas um vírus
das em cidades, países e con- a acontecer neste preciso mo- mia, especialmente perante mente a de George Floyd – “Claro que nós estamos – não tem outro significado
tinentes diferentes, quebrando mento? O que nos está a acon- o movimento BLM. Para aqueles oito minutos foram impreparados”, replica Bhab- ou função senão propagar-
virtualmente o confinamento tecer? O que é este mundo, Mbembe, a relevância da obra muito especiais sobre peque- ha, “mas devemos ser muito se, contagiar e matar. O vírus
a que fomos submetidos. Das este período, em que estamos de Senghor para a abordagem nos momentos no tempo e o específicos, no sentido de desferiu um golpe na nossa
muitas conversas a que pu- a viver?”. Então, como pen- do momento presente provém seu significado na História.” Foucault, sobre o que significa metafísica mais profunda,
demos aceder durante este sadores contemporâneos res- da sua dimensão estética e Essas questões da ‘impre- estar “impreparado”: cada mas o vírus não é uma questão
período excepcional da vida pondem às mesmas perguntas espiritual na concepção do paração’ e da ‘alteridade’ (vista momento e evento deve ser metafísica”, afirma Levy, que
da Humanidade, duas me pa- em 2020 e como nos podem que significa ser negro: “Ela como uma projecção das nos- pensado na sua singularidade tende a ver essas questões de
receram especialmente re- guiar na miríade de incertezas é ainda mais necessária nestes sas necessidades individuais e especificidade, mas o tempo uma forma, diríamos, mais
levantes para este momento com que nos confrontamos tempos em que vivemos, nas do vizinho, da comuni- histórico, ou filosófico, de re- prosaica, menos dramática.
histórico e merecedoras de neste momento? quando o negro e o seu corpo dade, ou da sociedade) pro- flexão, tende frequentemente Já para Bhabha “a dualidade
um registo impresso e tradução Stella Sandford sugeriu- estão novamente na cruz. As- vocaram um interessante a tratar momentos de emer- vida/morte tornou-se parte
para partilha mais ampla – nos dois tipos de abordagem sim, gostaria de me apegar a debate entre Bhabha e Lévy. gência simplesmente como do discurso público. Usar uma
quanto mais não seja porque dessa questão: 1. A abordagem essa dimensão poética e ao Para este, que acaba de pu- protestos e subitamente a máscara não é apenas sanitário
uma barreira comunicacional anglo-americana da filosofia, aspecto insurreccional da blicar a sua mais recente obra velha história do reformismo é também ético. Não estou a
ainda não completamente ul- a filosofia aplicada – adop- poesia de Senghor, que não (‘O Vírus em Tempo de Lou- ressurge. Penso que este pe- dizer que deveríamos usar
trapassada a nível global é a tando modelos existentes aos foi levado em consideração cura’) – uma abordagem da ríodo em que temos estado este momento metafísica-
linguística. Ambas envolveram problemas com que nos con- tanto quanto deveria (ofuscada pandemia como um fenóme- em isolamento focou-nos em mente, mas este é um grande
filósofos conversando sobre frontamos, e.g. em ética dos que foi pela sua trajectória no social, que diz ter escrito pensar nos momentos de momento para o pensarmos
os desafios existenciais que cuidados de saúde; 2. A tra- política enquanto presidente num impulso de ‘raiva’ contra emergência. Há duas formas metafórica e sintomatica-
esta pandemia colocou a todos dição filosófica europeia- do Senegal). Então temos que duas ‘loucuras’: a da ‘negação’ de pensar isto: 1. Existencial mente, porque o BLM se tor-
nós. Separadas no tempo por continental, que é mais fazer esse trabalho de recu- do vírus (neurose) e a da ‘ul- – o momento (e.g. de tristeza, nou parte desta pandemia.
algumas semanas, a primeira abrangente e preocupada com peração e o conceito de ‘le tra-reacção’ a ele (psicose) – como em Platão), e esse mo- Em relação ao distancia-
ofereceu-nos uma reflexão o significado: qual o signifi- rendez-vous du donner et du “Não há um antes e depois da mento existencial/fenome- mento social, a alteridade em
entre Paul Gilroy na Inglaterra cado da pandemia para nós, recevoir’ deve ser entendido pandemia, não se trata aqui nológico tem que ser Levinas não tem que ser geo-
e Achille Mbembe na África como seres humanos, como de dentro dessa perspectiva própriamente de um antes e reconhecido; 2. Político – gráfica – é uma alteridade éti-
do Sul, enquanto a segunda seres histórico-sociais, fun- mais ampla - sobre o com- depois de Cristo, nós estamos este é um momento de et- ca, tal como aconteceu nos
nos propiciou um debate entre damentalmente dependentes partilhamento do mundo, co- sempre impreparados para no-nacionalistas, muitos de- protestos: nós estamos a viver
Bernard-Henri Lévy (BHL) uns dos outros e das nossas mo podemos moldar o nosso eventos remarcáveis, porque les homens que não têm num contexto, quando so-
em França, Stella Sandford comunidades? Neste caso, mundo compartilhado e viver sempre que algo novo acon- carisma, mas apenas criam mos instados a distanciar-
na Inglaterra e Homi K. Bhab- como é que este episódio, es- na terra uns com os outros. E tece não estamos preparados. miasma e esse miasma cria nos socialmente, em que a
ha nos EUA. sencialmente contingente e isto é, parece-me, absoluta- Por outro lado, uma das coisas uma cidadania que é conti- questão de vida e morte se
Centrar a conversa em am- em si próprio insignificante mente crucial para os tempos que aprendi com Foucault nuamente mantida em estado torna constante. Este é um
bas as ‘salas’, foi a questão em termos históricos, nos leva em que vivemos.” quando fui seu aluno, foi sobre de impreparação. A ideia de grande momento para se
de, perante esta conjuntura a reflectir sobre como criamos Na outra sala, Bhabha diz- a especificidade de cada luta, risco entre a vida e a morte é pensar precisamente sobre
(‘conjuncture’, no sentido do significado a partir dos eventos. nos que a pandemia e o distan- de cada combate, a não mis- central à noção de imprepa- como a vida pública e a morte
teorista cultural Brit-Jamai- Sendo que, nesse processo, a ciamento social colocaram-no turar as coisas. Eu apoio o ração, quando pensamos em pública se intersectam de
cano Stuart Hall: “um conjunto pandemia também propicia num estado de indagação, tanto BLM, mas temos que resistir relaxar o isolamento. O risco uma forma muito mais grá-
de tendências convergentes as condições nas quais o tipo filosófica como poética, que o à ilusão de convergência, ou é simultâneamente propicia- fica e errática. Portanto, qual-
e divergentes moldando a to- de impulso filosófico demótico levou a reflectir na metáfora de comunalidade, de lutas, se dor e problemático, e Fanon quer abordagem filosófica ou
talidade das relações de poder pode tomar o controlo e qual- Levinas sobre a vida e a morte queremos ser sérios na luta falou sobre isso, Baldwin tam- política tem que se basear
num dado campo social du- quer pessoa interessada na sua como o ‘cuidado do vizinho’ contra o racismo, contra a bém: você tem que assumir nessa questão. Foucault falou
rante um particular período própria vida passa a fazer essas – passando a cozinhar tendo pandemia, ou contra a vio- o risco. A questão do cuidar em especificidade, mas tam-
de tempo, que se expressa por perguntas, pelo que todos nos sempre em mente os seus vi- lência sobre as mulheres. E é muito importante, entre o bém falou em epistemia: esta
uma configuração específica tornamos filósofos acidentais. zinhos, ou outras pessoas que para Levinas, na sua filosofia eu e o outro. Os refugiados ‘conjuncture’, segundo Hall,
de eventos políticos, econó- poderiam precisar de ajuda, da visão ética do mundo, têm vindo a viver isto desde ou esta particular convergência
micos e psicológicos, com- Evocando Senghor de uma forma que não fazia quando estamos a cozinhar sempre: vida e morte, espe- do momento da pandemia e
pondo uma intersecção de Para uma outra abordagem, antes, assim ecoando o ‘com- para os nossos vizinhos, não rança e desesperança tor- do momento do BLM – no-
emoções e identidades”) cons- mais africana, da mesma promisso do dar e receber’ de devemos esquecer os outros nam-se muito próximas. A te-se que o inquérito global
tituída pela pandemia, o mo- questão, voltamo-nos para a que falavam Gilroy e Mbembe: vizinhos que estão muito lon- noção do paradoxo entre pro- Pew mostrou que exactamente
vimento ‘Black Lives Matter’ sala em que conversam Paul “A partilha de comida tor- ge, o vizinho para quem co- ximidade e alteridade não a mesma quantidade de pes-
(BLM) e a ascensão do popu- Gilroy e Achille Mbembe. Eles nou-se muito importante para zinhamos não é só o da porta significa aqui apenas uma no- soas que estavam preocupadas
LIVES Domingo
13 de Setembro de 2020 23
com um, estavam preocupa-
das com o outro –, se você
não vê aqui a convergência
entre os dois, então você está
Direito Universal à Respiração
a perder a singularidade e es- Assim, pensando no direito universal ainda protestam aqui na África do Sul,
pecificidade do evento. O à respiração como um direito humano, não apenas contra o que aconteceu
evento é global e temos que regressamos à outra sala, onde Bhabha com ele ali, mas também aqui neste
vê-lo dessa forma. Vemos nos lembra que a Declaração Universal momento neste país. E tudo começou
murais feitos por pessoas à dos Direitos Humanos é baseada na com um testemunho – não sei se te-
volta do mundo falando não noção de nascimento: “Dignidade é ríamos o que está acontecendo sem o
apenas de morte física, mas algo que todo o ser humano adquire vídeo gravado por aquele jovem. Então,
de morte social, como ataques em virtude de ter nascido. a questão de um direito universal de
aos migrantes, etc.” No meu novo livro eu pergunto: e respirar, provavelmente começa com
Neste ponto, voltamos à se invertéssemos isso, se pegássemos coisas assim, como testemunhar todos
conversa entre Mbembe e Gil- na morte, de certa maneira, e obtivés- aqueles pequenos casos em que alguns
roy, onde este retoma Senghor semos através dessa ‘ontologia negativa’ são, por assim dizer, expropriados da
e a sua preocupação funda- (como Fanon o colocou, ou ‘moção ne- sua respiração. Continua depois com
mental com o ritmo: “Para gativa’, como o colocou Baldwin) o que a demanda por justiça. Mas quero
ele, a particularidade do ritmo emergiria? O que teria a morte a ensi- insistir nesse elemento de testemunhar,
na vida dos negros é atribuída nar-nos sobre a vida? Porque normal- porque é muito difícil alguém negar
não apenas a um mundo ex- mente nós pensamos essa questão ao que o racismo existe. Em algumas partes
terno – às marés, ao ritmo do contrário.” Lévy nota, a esse propósito, do mundo, a negação do racismo ainda
dia e da noite, à existência de que a partir dos seus estudos de pan- estava viva, as pessoas não acreditavam
duas estações no ambiente demias passadas, a ideia de que ‘a vida que ele existisse. Portanto tornamos
africano – mas também ao é sagrada’ nunca foi expressa tão for- impossível, através de certas formas
ritmo dos batimentos cardía- temente como neste momento: junto de orgãos, óbviamente, mas localmente configuradas que é difícil de testemunho, para muitos negar que
cos, ao pulso da vida no corpo “Pela primeira vez na história das também de sentimentos, de sociedade, avançar ou sair daí para uma configu- o racismo existe, dizer que é apenas
e ao ritmo da respiração. Por- pandemias, a preocupação com a vida de interação com os outros, etc. O ração mais diaspórica, um movimento um acidente, que não faz parte de uma
tanto, esta questão do ritmo tem estado na linha da frente em de- papel do filósofo aqui é dizer: o dis- vagante, com uma possibilidade pla- estrutura. Para mim isso faz parte da
do respirar, o ritmo da vida, trimento da economia e isto é novo, tanciamento social é aceitável de mo- netária.” Ao que Mbembe responde: prevenção de que muitos sejam ex-
o ritmo do sangue no corpo, é certamente um progresso. Agora o mento, mas não para sempre.” “Se entendermos o que está a acontecer propriados da sua respiração. E esses
o ritmo das marés e assim por que o filósofo tem que fazer é invocar Na outra sala, Gilroy indaga “como enquanto falamos, é claro que tudo pequenos actos são tão importantes
diante, esse é um componente a ideia de que ‘a vida é sagrada’ quando construímos ou contribuímos para a isso é muito local, mas também tem quanto o que Fanon estava fazendo
fundamental do seu imagi- não é só a vida que está em causa: vida de formações políticas adequadas necessariamente uma dimensão trans- através da sua própria prática médica;
nário. Então, da mesma ma- nós não somos animais ou flores, à tarefa do universal – de exigir o direito nacional. Floyd foi morto numa calçada de facto, parece-me muito difícil, nesta
neira que ele convoca, como somos seres humanos e a vida para universal de respirar e actualizá-lo; no Minnesota, mas a sua morte rever- nossa era, desvincular actos médicos
muitos da sua geração, uma um ser humano significa todo o con- porque essas coisas costumam ser tão berou por todo o planeta; as pessoas de actos políticos.”
concepção diferente de po-
litica, pergunto o quanto essa
ênfase na respiração é im-
portante para você em seu Brutalismo, objectificação e afro-pessimismo
pensamento no momento?”
Mbembe: “Isso está sub- Gilroy acentua que “A Covid-19 não é dimensão racial existe uma genealogia, o que queremos dizer com um objecto? detectar a ascensão da luz e da esperança
jacente no meu trabalho. Eu o primeiro evento planetário, porque há uma longa história de remodelação Como repensamos a morte politica- do mais fundo da escuridão, não mais
encontrei pela primeira vez os seres humanos convivem com epi- pela força, de exaustão, de esgotamento mente, bem como, a esse respeito, depois do vírus do que antes dele, e re-
esta questão da respiração demias por um período muito longo e das energias físico-psíquicas e de, bá- teológica ou espiritualmente?” cuso essa metafisicação, essa transfor-
através da minha própria mãe, elas moldaram a história do colonialismo, sicamente, reinventar o humano – ou Gilroy: “Hoje em dia muitas pessoas mação do vírus em uma espécie de
de quem entendi que, no con- do imperialismo e a dominação europeia as formas humanas em geral. Essa é a têm relido Camus, pensando em ‘La evento maiúsculo que rasga a nossa
texto africano, o ar ou a res- do planeta de uma maneira muito pe- trajectória do meu uso do brutalismo.” Peste’, mas talvez estejam menos sen- vida em duas.”
piração está no começo e no culiar que, às vezes, é negligenciada. Gilroy: “Para que o duplo movimento, síveis às suas provocações sábias e – Bhabha: “Nós pensamos sobre o futuro
fim da vida. Eu também o en- Mas parece ter havido um limiar pla- então, do devir artificial da humanidade ponderadas em relação ao valor do fu- repensando o presente, penso que este
contrei no trabalho de Fanon netário na maneira como esse espec- e do devir-humano das máquinas seja tebol – isto a propósito do que parece é o tipo de momento em que estamos.
– Fanon fala constantemente táculo de crueldade e horror e o seu contrastado no trabalho, como eu o en- uma súbita tomada de consciência po- Trazemos o futuro eticamente para o
sobre respiração, e as últimas carácter sistemático – o facto de se es- tendi, com uma sensibilidade diferente litica por parte de futebolistas inter- presente político e reestruturamos o
palavras de Eric Garner, de tender à vida de tantas populações que a formas simbióticas ou complexas de nacionais africanos nesta conjuntura. presente por forma a pensarmos pro-
George Floyd e inúmeras ou- normalmente não estão num tipo de interdependência estabelecidas entre Antes de morrer no acidente de carro, veitosamente o futuro.”
tras vítimas da violência po- relacionamento em rede para além dos o tipo humano e todas as variedades uma das últimas coisas que Camus es- – Sandford: “Não é possível não pensar
licial parecem repetir quase prazeres da cultura de consumo – des- de vida. É uma linguagem que me parece creveu foi que ‘tudo o que sabia com sobre o futuro. É possível estarmos
palavra por palavra esse léxico cortinou essa resposta muito vívida, infundida de uma certa espiritualidade certeza sobre moralidade, sobre dever, em desespero sobre o futuro que ima-
eólico: ‘Não Consigo Respirar’. muito visceral, é algo notável. Pelo que africana, que nos leva, suponho, de devia-o ao futebol’.” ginamos mas, como disse Lévy antes,
E esse é um tema que sustenta sei do seu novo trabalho sobre essa volta a Senghor e onde começámos. nós não somos flores, não somos
a poesia de Senghor, na qual questão do ‘brutalismo’, talvez você Lembro-me também de que ele e Levinas Camus e Beauvoir pedras, somos criaturas constitutiva-
está profundamente corre- tenha antecipado algumas dessas pos- nasceram no mesmo ano, portanto, O que nos leva de novo à sala onde está mente pensadoras do futuro, não po-
lacionado estruturalmente sibilidades. Para mim, a questão do muito do selo em seus pensamentos Sandford, que também fala do confronto demos não pensar no futuro. Há uma
com a temática do ritmo, e ‘bruto’ é uma questão fundamental, ou da ressonância que vemos nos seus de Camus com a morte e explora o que frase nesta conjuntura que se tornou
por trás do ritmo do curso da porque no idioma inglês ‘bruto’ é uma trabalhos, por mais que desejássemos acontece a uma sociedade quando um slogan para muito mais pessoas
música, do que ele chama de palavra que pode ser aplicada aos seres criticar os dois, é em certo sentido uma temos todos que pensar globalmente do que em Janeiro deste ano: ‘Um
participação. Parece-me que humanos, à vida animal e também ao espécie de manifestação da sua expe- sobre a morte: “Em termos da filosofia Outro Futuro é Possível’.”
a idéia de ritmo, respiração e que Du Bois chamou de ‘tertium quid’, riência geracional e exposição aos hor- existencial clássica, nós temos que con- Paul Gilroy - Director do ‘Sarah Parker
participação em Senghor, em a terceira coisa, que fica em algum lugar rores do século XX. Então, vamos falar frontar a ideia de morte em vez de a Remond Centre for the Study of Racism
particular, nos levam a uma alojada entre os dois. Essa figura do um pouco da africanização desse evitarmos – a vida é melhor vivida and Racialisation’ do University College
compreensão da vida em geral ‘bruto’ como essa entidade ambígua, sentido simbiótico? perante a admissão da sua finitude. Si- London. Autor, entre outras obras, de:
como, por definição, ‘bio- para o problema que você está explo- Mbembe: “Sim, e de como não apro- mone de Beauvoir questionou o que é ‘The Black Atlantic’ (1993) e ‘Anti-Racism
simbiose’ – bio-simbiose no rando, reporta-nos a uma história mais veitamos os recursos provenientes do ser mulher e transformou críticamente & Planetary Humanism’ (2018)
sentido de uma ênfase nos longa – a da objectificação do negro. E continente africano, os ricos recursos aspectos existenciais e fenomenológicos Achille Mbembe - Research Professor
pontos em comum que todos isso – acho que temos que lidar com conceptuais que a África ofereceu ao da ontologia, desafiando ângulos do do ‘Wits Institute For Social and Economic
os seres humanos comparti- isso por causa da importância desse mundo em geral, em muitas disciplinas existencialismo em direcções não antes Research’daUniversidadedoWitwatersrand,
lham um com o outro, mas argumento de objectificação no mo- diferentes. O que seria ‘fetichismo’ no contempladas mesmo por Heidegger Johannesburg. Autor, entre outras obras,
também com outras espécies. mento – é tão poderoso e fundamental pensamento marxista da antropologia ou Sartre. Ela pensou sobre a ontologia de: ‘Critica da Razão Negra’ (2013) e ‘Bru-
Eu escrevi uma peça in- para a análise da visão afro-pessimista sem o continente? Qual seria o ‘fetiche’ da existência racializada: o que significa talismo’ (2020)
titulada ‘O Direito Universal desses processos. Agora, a sua ênfase na psicanálise sem o continente? Então, ser negro – a experiência vivida do que Bernard-Henri Lévy (BHL) – Nascido
à Respiração’ pouco antes da no ‘brutalismo’ parece romper com isso o ponto é que ainda há muito a extrair significa ser um homem negro num na Argélia, o mais proeminente e con-
morte de George Floyd, e no de uma maneira interessante – estou a partir daí.” Gilroy: “E não menos im- contexto colonial e racista. A questão troverso filósofo francês contemporâneo
contexto da Covid, porque o levando isso longe demais ou há con- portante, já para não falar do fetichismo é: haverá aspectos neste momento é também cineasta, jornalista e intelectual
que estamos testemunhando, tinuidade aí também?” das estátuas.” Mbembe: “Exacto, já que precisam de ser pensados de público. Foi um dos lideres do movimento
ou o que se tornou ainda mais Mbembe: “Comecei com a idéia do para não falar do fetichismo das está- formas novas, ou seremos capazes de ‘Nouveaux Philosophes’ em França, nos
claro para a nossa mente desde brutalismo, como foi exposto no mo- tuas!... Mas há um capítulo em ‘Crítica os pensar de maneira diferente, mesmo anos 70. Autor, entre outras obras, de:
a morte de Floyd, é o entre- vimento arquitectónico da Inglaterra, da Razão Negra’, que para mim é real- que ainda não tenhamos tido tempo ‘Reflexions sur la Guerre, le Mal et la Fin
laçamento, a combinação, em particular, mas também em outros mente o capítulo fundamental de todo de o fazer?” Ou, colocado de outro de l’Histoire’ (2001) e ‘The Virus in the
eu diria, de duas histórias: lugares, durante a segunda metade do o livro, chamado “Réquiem para o Es- modo: é possível pensar no futuro em Age of Madness’ (2020)
a da Covid e a disparidade sec XX. Eu estava muito interessado nas cravo”, que é uma tentativa de repensar momentos de crise como este? E como Stella Sandford, Directora da ‘Society
racial de mortes que provo- maneiras pelas quais nesse movimento de maneira dinâmica o que a objecti- pensamos sobre o futuro? for European Philosophy in the UK’. Autora,
cou, e histórias de violência a ‘matéria’ era central; o termo em ficação pode significar. Esse capítulo entre outras obras, de ‘How to Read
racialmente motivada – am- francês é ‘le beton’ (o betão, o concreto). foi realmente uma tentativa de debater Um outro futuro Beauvoir’ (2006) e ‘Platão e Sexo’ (2010)
bas as histórias têm, em todo E nas várias tentativas de se definir os com os chamados afro-pessimistas Tendo registado as abordagens dessa Homi Bhabha, ‘Anne F. Rothenberg Pro-
o lado, me deixado ainda tempos em que estamos, parece-me sobre a questão da morte social ou da questão por Gilroy e Mbembe, volta- fessor of the Humanities’ da Universidade
mais consciente sobre a im- que, ao redireccionar o termo brutalismo, objectificação, mas neste caso, em pri- mo-nos, para finalizar, para as respostas de Harvard. Autor, entre outras obras,
portância da luta pelo ar, a talvez possamos estender essas deci- meiro plano, usando recursos concep- dos filósofos nesta sala: de: ‘The Location of Culture’ (1994) e ‘Our
luta pela respiração, que faz frações clássicas do momento e dar- tuais vindos do continente para – Lévy: “Eu tenho passado toda a minha Neighbours, Ourselves – Reflections on
parte da nossa tradição e das lhe uma arca. E claro, também na sua responder a questões nucleares como: vida pensando no futuro e tentando Contemporary Survival’ (2011)
nossas reivindicações.”
24 ARTES Domingo
13 de Setembro de 2020

ERNESTO LARA FILHO E LUÍS FERNANDO


Cronistas angolanos
merecem estudo em revista internacional
Consta do número 1, Volume 12, referente ao mês de Agosto de 2020 da revista “Literary Journalism Studies” – “Estudos
de Jornalismo Literário – da Associação Internacional para os Estudos de Jornalismo Literário, um estudo (“Memória e
Trajectória: Crónica no Mundo de Língua Portuguesa”) da académica portuguesa Alice Trindade, dedicado ao labor
cronístico de Ernesto Lara filho e de Luís Fernando. O número em referência da “Literary Journalism Studies” é dedicado
ao jornalismo literário na lusofonia. A seguir, condensamos e adaptamos o referido artigo

O jornalismo literário é um A sua família havia chegado lêncio na Aldeia”. Em 2011 e Lara Filho, devido ao seu seja um desafio. Enquanto centrado principalmente em
género que narra aconteci- do norte de Portugal duas ge- ganhou o Prémio Maboque envolvimento político, teve Lara Filho se debruçou sobre si mesmo, seus problemas,
mentos verificáveis usando rações antes. Morreu num de Jornalismo. Luís Fernando de ir para o exílio - primeiro a vida dos seus compatriotas dúvidas e sentimento de ser
técnicas e estratégias cultu- acidente de carro aos 45 anos escreve sobre uma Angola Paris e depois Brazzaville, pelas lentes da sua própria um desajustado, enquanto
ralmente significativas para de idade, em 1977, deixando contemporânea e indepen- onde trabalhou com o Mo- vida, o ponto de vista de Luís Luís Fernando trabalha para
o seu público leitor. Este es- para trás uma aclamada mas dente, curando as feridas de vimento Popular para Liber- Fernando veio de dentro, formular histórias do presente,
tudo se concentra em crónicas também polémica carreira décadas de guerra e seguindo tação de Angola (MPLA). Foi considerando os assuntos de o que ele e seus conterrâneos
escritas por dois jornalistas de jornalista e escritor. os seus próprios caminhos forçado a regressar a Angola uma forma mais igualitária. testemunham todos os dias
angolanos, Ernesto Lara Filho O jornalismo de Lara Filho num mundo agora globali- após a morte da irmã – a poe- Décadas e duas guerras se- em seu redor. Esta é a forma
e Luís Fernando, que, apesar retrata a crise de identidade zado, como exemplificado tisa Alda Lara - em 1962. param a obra desses autores. antiga mas renovada de cró-
de trabalharem com déca- dos angolanos brancos, que na sua colectânea de crónicas Luís Fernando sente-se No entanto, um tom coloquial nica na sua versão Sul Global
das de diferença, demons- muitas vezes se sentiam pou- “Três Anos de Vida”. totalmente à vontade no seu de narrativa é encontrado em / Angolana, uma peça escrita
tram claramente como o co à vontade por causa desta Os textos de ambos autores papel de cronista do ango- ambos. A observação, a pes- que se preocupa principal-
jornalismo literário se adap- dupla pertença. Escreveu so- permitem situar a relevância lano contemporâneo e não quisa e a descrição de eventos mente em contar os factos da
ta às mudanças nas circuns- bre as suas próprias dúvidas de uma variedade específica partilha das questões exis- contemporâneos e actuais em vida real e em que os eventos
tâncias políticas, sociais e e sobre as necessidades dos de jornalismo literário, aquele tenciais ou dos sentimentos relatos detalhados de dentro, e as pessoas são retratados
económicas. angolanos. Ele muitas vezes que se preocupa com os de- de mal-estar de Lara Filho. tão característicos do jorna- dinamicamente, como se os
As crónicas angolanas no se sente um desajustado. De talhes e descreve os feitos e Relata a vida do seu povo, lismo literário, também estão leitores pudessem vê-los.
presente mostram uma rea- 1956 a 1962 escreveu os textos as peripécias do angolano como voz da memória par- presentes em ambos. Os pon-
lidade africana definida por recolhidos na antologia ‘Cró- comum ao longo de décadas. tilhada, da observação viva tos de vista diferem por causa A autora do estudo
personagens e estilos de vida nicas da Roda Gigante’, uti- A escolha do assunto, mais do presente e da esperança da postura autoral, tempo e Alice Trindade é professora
africanos, não europeus: o lizada para este estudo. O do que as características in- no futuro. circunstância, mas em ambos associada do Instituto Superior
género pode ser global, mas período de seis anos é crucial: trínsecas das pessoas e dos Ernesto Lara Filho lidou há a riqueza de detalhes. de Ciências Sociais e Políticas
as personagens, situações e este é o período de transição acontecimentos, é o melhor com a sua própria postura A linhagem dos seus res- da Universidade de Lisboa. É
tom dos escritores são locais. do fim da era colonial para indicador da paisagem me- dilacerada e atormentada em pectivos estilos de escrita pode membro fundadora da Asso-
Os dois escritores escolhi- o início da luta aberta pela diática contemporânea desses relação à sua Angola natal: variar - Lara Filho prossegue ciação Internacional para os
dos para esta análise viveram independência. autores e de seus textos. amava o seu país, mas não numa linha existente em Por- Estudos de Jornalismo Literário
e trabalharam separados por Politicamente engajado, conseguia se reconciliar com tugal há séculos, mas espe- (International Association for
mais de um quarto de século, Luís Fernando (1961) é um Ernesto Lara Filho criticava muitos aspectos do seu tem- cialmente nos tempos Literary Journalism Studies),
são ambos bem publicados e escritor contemporâneo, do o regime colonial, mas tam- po. Mais recentemente, Luís modernos, enquanto Luís Fer- de que foi presidente entre
bem-sucedidos. final do século XX, início do bém era um boémio que vivia Fernando olhou atentamente nando segue claramente as 2010 e 2012. O texto original
século XXI. Nasceu em To- uma vida de dissipação em à sua volta e gostou de retratar influências latino-americanas. e completo do seu estudo em
Ernesto Lara Filho (1932– messa, uma pequena aldeia desacordo com seus ideais os tempos de paz recente- Contudo, ambos têm como referência pode ser encontrado
1977) escreveu na segunda perto da cidade do Uíge. Ele sociais. Os movimentos de mente conquistados pelos tema a vida dos angolanos, em https://ialjs.org/wp-con-
metade do século XX. Ele homenageia a sua terra natal libertação angolanos lança- angolanos, ainda que o quo- no mesmo género jornalístico. tent/uploads/2020/08/1-LJS-
nasceu em Benguela em 1932. num dos seus romances, “Si- ram-se à ofensiva em 1961 tidiano das pessoas comuns Ernesto Lara Filho escreve v12n1_Complete.pdf

Você também pode gostar