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METODISMO
Categoria: Discipulado

Copyright @ Angular Editora, 2018

Direitos cedidos à Associação da Igreja Metodista e publicado pelo


Departamento Editorial da Igreja Metodista - Angular Editora.

É proibida a reprodução total ou parcial do livro, Art. 184


do Código Penal e Lei 9610, de 19 de fevereiro de 1998.

Secretária Editorial:
Joana D´Arc Meireles

Editor:
Emilio Fernandes Junior

Capa, projeto gráfico e diagramação:


NLopez Publicidade

Revisão:
Mauren Julião

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

T689m

Torres, Hideide Brito


Metodismo origem, desenvolvimento e estratégia / Hideide Brito Torres,
1ed. São Paulo, SP: Angular Editora, 2018.
96 p.
978-85-8046-064-3
1. Religião 2. Tempos, Lugares e Práticas Religiosas 3. Missão I. Titulo

200 CDD
263/266 CDU

CDU Edição-Padrão Internacional em Língua Portuguesa, 1997.

Esta obra tem como base a revista Em Marcha METODISMO: Origem e Desenvolvimento, publicada em
1999 - 2º quadrimestre, através da Coordenação Nacional de Ação Docente, para Adultos das Escolas
Dominicais, sob responsabilidade do Colégio Episcopal da Igreja Metodista.

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SUMÁRIO

Parte I — O Metodismo: origem e desenvolvimento


1. O Metodismo em Oxford....................................................................... 11
2. O Metodismo na Geórgia....................................................................... 17
3. O Metodismo em Londres..................................................................... 23
4. O valor da Bíblia na tradição wesleyana............................................... 27
5. O Metodismo e o Evangelho Integral................................................... 31

Parte II — O Metodismo: princípios e valores


6. João Wesley e sua Bíblia.......................................................................... 37
7. A dinâmica do equilíbrio no pensamento wesleyano.......................... 43
8. Unidade e conexidade na tradição wesleyana...................................... 47
9. A disciplina pessoal e comunitária na Igreja Metodista...................... 53

Parte III — O Metodismo e as cinco fontes do conhecimento de Deus


10. Conhecendo a Deus pela Bíblia........................................................... 59
11. Conhecendo a Deus pela experiência pessoal.................................... 63
12. Conhecendo a Deus pela razão........................................................... 67
13. Conhecendo a Deus pelos ensinos da Igreja...................................... 71
14. Conhecendo a Deus através da criação............................................... 75

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6 METODISMO

Parte IV — O Metodismo e as experiências em discipulado


15. As sociedades e classes metodistas de Wesley...................................... 81
16. Grupos pequenos, uma prática metodista.......................................... 85
17. Discipulado pessoal, uma experiência metodista............................... 89

Referências................................................................................................... 93

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APRESENTAÇÃO

A história, a teologia, a doutrina e a prática wesleyana são temas que


precisam ser estudados, ampliados e aprofundados sempre. Diante de
muitas interpretações bíblico-teológicas surgidas no decorrer dos anos, é
importante que, como metodistas, conscientes do nosso chamado e com
convicção de nossas raízes, nos preparemos para viver e divulgar nosso
modo de ser. Somos um povo cujo fundamento teórico e prático se encontra
na Bíblia, na história e na tradição e é a partir daí que respondemos aos
desafios da missão no tempo que se chama Hoje. Tal fundamento nos
permite encontrar, em cada geração, as estratégias sólidas e atualizadas
para desenvolver a missão recebida da parte de Deus.
Esta obra aborda a história do Metodismo, destacando seus princípios,
valores, e fontes doutrinárias, iniciando-se com uma apresentação dos
três momentos que marcam o surgimento do movimento metodista, re-
lacionando-os com a Bíblia e a visão missionária do metodismo primitivo.
Segue-se uma série de capítulos sobre temas diretamente ligados a Wesley
e ao povo metodista, à utilização da Bíblia, à dinâmica do equilíbrio, à

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8 METODISMO

questão da unidade e conexidade e a um tema muito atual: disciplina.


Trazemos ainda as clássicas cinco fontes do conhecimento de Deus, de-
senvolvidas por João Wesley e os metodistas no século XVIII e finaliza-
mos com capítulos sobre como o metodismo trabalhou o discipulado em
grupos pequenos, em nível pessoal e resgatando o papel transformador
na sociedade de seu tempo.
Que esta ferramenta possa fundamentar nossa reflexão bíblica, histórica
e teológica, dando-nos, ainda, subsídios práticos para o crescimento na fé e
no conhecimento de Deus para a proclamação de sua Palavra ao mundo.

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Parte I

O METODISMO:
ORIGEM E
DESENVOLVIMENTO

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1
O METODISMO
EM OXFORD
Ê xodo 2.1-10

João Wesley nasceu em Epworth, Inglaterra, localidade em que seu


pai era pastor, em 1703. Ele faleceu em 1791, antes de completar 88 anos.
Viveu, portanto, praticamente todo o século XVIII, sendo testemunha das
profundas mudanças que, com base na chamada Revolução Industrial,
alteraram radicalmente o panorama social da Inglaterra. Nesse contexto,
juntamente com outras pessoas, procurou compreender a vontade divina
e responder aos desafios que as exigências do Evangelho e as necessidades
do povo suscitavam.
Com ele, nasceu o Metodismo. No entanto, como movimento dinâmi-
co, sensível aos sinais dos tempos, ele não nasceu pronto! Os seus contornos
foram, aos poucos, sendo construídos e refeitos, com a participação de
muitos homens e mulheres. O próprio Wesley via no surgimento do Meto-
dismo o resultado da ação providencial de Deus a dirigir os acontecimentos,
com a participação humana. Aliás, quando Wesley recorda as origens do
movimento, ele destaca três momentos significativos: Oxford, Geórgia e
Londres. Este capítulo e os próximos tratarão desse assunto. Antes, porém,

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12 METODISMO

vamos analisar brevemente como o agir de Deus manifesta-se, segundo a


Bíblia. Nosso ponto de partida é o livro de Êxodo.

I. R efletindo sobre Ê xodo 2.1-10


Quando nos voltamos para o texto sagrado, percebemos que Deus sempre
age a favor da vida. Ali, onde as dificuldades multiplicam-se, o sofrimento
transforma-se em experiência diária e a opressão parece reinar, o Senhor
intervém, fazendo renascer a esperança e despertando a solidariedade. Não
era fácil a situação do povo hebreu no Egito. Escravos sem quaisquer direitos,
submetidos a duros trabalhos, contemplavam agora mais uma medida de
força: o extermínio puro e simples de seus filhos (Êx 1.16). Não havia meios
ou condições para resistir. Mas o temor a Deus no coração das parteiras, o
gesto ousado e inteligente da mãe e da irmã de Moisés, e a compaixão da
filha de Faraó começaram a mudar essa história. Nenhuma dessas mulheres
poderia imaginar o curso que as coisas tomariam.
O menino, cuja vida foi preservada, seria cuidadosamente educado
como neto de Faraó. Desse modo, foi preparado para desempenhar a missão
de conduzir o povo de Deus nos caminhos da liberdade, no respeito à Lei
do amor a Deus e ao próximo (Êx 20.1-17). Como podemos observar na
narrativa do Êxodo, o Senhor revela- se como Aquele que liberta e con-
cede a vida, como Aquele que convoca servos e servas e capacita para a
missão, como Aquele que deseja instaurar verdadeiros laços de comunhão
e fraternidade na sociedade humana.

II. R etomando a questão inicial


Por que João Wesley considerou Oxford o primeiro começo do me-
todismo? O que de importante aconteceu no longo período em que ele
viveu nessa cidade? O que podemos aprender sobre a herança metodista,
analisando essa época?
Oxford destacava-se, desde a idade média, entre as mais importantes
Universidades da Europa. Para lá muitos jovens dirigiam-se a fim de se
preparar para o exercício da Medicina, do Direito e da Teologia, tornan-
do-se aptos para ocupar postos no governo ou na Igreja. Wesley tinha 17

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O METODISMO EM OXFORD 13

anos quando ingressou no Christ Church (junho de 1720), a faculdade de


maior prestígio entre as que compunham a Universidade. Com exceção dos
anos em que auxiliou seu pai nas atividades paroquiais (1727-1729), ele
permaneceu o tempo todo em Oxford até o ano de 1735. Logo se destacou
nos estudos acadêmicos. Alcançou os graus de Bacharel e Mestre em Artes,
e decidiu preparar-se para receber a ordenação na lgreja da Inglaterra.
Foi ordenado diácono, eleito como membro integrante do corpo de uma
faculdade com responsabilidades específicas, como o ensino e a pregação
ocasional do Lincoln College e, finalmente, recebeu a ordenação como
presbítero.
É impossível subestimar a importância desses anos de formação. A
aplicação aos estudos, a disciplina intelectual e a agudez de raciocínio se-
rão características marcantes dos irmãos Wesley, e também do movimento
metodista. Aliás, João não apenas exigiu dos pregadores dedicação à leitura
(pelo menos 5 horas diárias), como publicou obras de caráter e preço po-
pulares, visando exatamente expandir o interesse pelo conhecimento e o
saber. Gostava de repetir que “renunciar à razão” equivalia a “renunciar
à religião”. Para ele, o cultivo da piedade não poderia ser desculpa para
a ignorância. Afinal, não é certo que nós, cristãos e cristãs, devemos estar
sempre prontos para responder a quem indagar sobre a razão da esperança
que há em nós (cf. 1Pe 3.15)?
Também foi em Oxford que Wesley convenceu-se de que a vida em
santidade pertence à própria essência da fé cristã (1Ts 4.1-8). Nutrido
pela leitura de autores ligados à tradição do viver santo, como o místico
medieval Thomas Kempis (que escreveu A Imitação de Cristo), Wesley
decidiu conjugar todos os seus esforços para alcançar essa meta. Ele esta-
va totalmente persuadido de que “a verdadeira religião tem sua sede no
coração e que a Lei de Deus estende-se a todos os nossos pensamentos,
bem como às palavras e ações”. Seguindo, então, os conselhos do anglicano
Jeremy Taylor, ele concluiu que um passo fundamental nesse processo
deveria ser o cuidado com o tempo. Por isso, passou a registrar, na forma
de um diário, todo progresso que obtinha no caminho da santificação,
submetendo-se a severo e constante autoexame. A sua firme resolução

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14 METODISMO

nessa direção, associada à sua decisão de seguir a carreira eclesiástica, tem


levado muitos biógrafos a descreverem essa experiência como a “primeira
conversão” de Wesley.
Sem entrar em discussão sobre essa afirmação, é correto dizer que o
que aconteceu, especialmente no ano de 1725, deu direção e sentido à
sua vida bem como à sua teologia. Doravante, a busca da santidade, tanto
interior como exterior, será a força motriz a orientar todos os seus esforços.
Entre as atividades regularmente realizadas, destacavam-se a leitura e
o estudo conjunto do Novo Testamento em grego, bem como da literatura
clássica e de obras teológicas. Além disso, os membros do grupo eram assí-
duos nos cultos dominicais e participavam com frequência do sacramento
da Ceia. Observavam o jejum, em conformidade com a Igreja Primitiva,
nas quartas e sextas-feiras, e estavam sempre dispostos a avaliar a sua vida
à luz dos propósios de Deus. Visando dar orientações à vida devocional
do gupo, João Wesley publica o seu primeiro trabalho: uma coleção de
orações para cada dia da semana.
Engana-se, no entanto, quem imagina que a prática dos primeiros
metodistas estava restrita a tais exercícios de piedade pessoal e edificação
mútua. Logo o grupo percebeu que a verdadeira santidade nos leva ao
encontro do próximo. O amor e a misericórdia são inseparáveis do viver
santo.Visitas regulares a prisioneiros, o trabalho realizado junto às pessoas
enfermas das paróquias da cidade e arredores, o cuidado dispensado às
famílias pobres, e a alfabetização de crianças (pessoalmente ou através da
contratação de professoras com os recursos que dispendiosamente o grupo
economizava) são apenas algumas ações que constituíam o programa dos
metodistas de Oxford. Para justificar-se, João Wesley, lembrando-se de
Mateus 25.31-46, perguntava: “Não devemos imitar, até onde seja possível,
Àquele que passou a vida fazendo o bem?” (At 10.38).

C onclusão
Em todo o tempo, mas especialmente em meio a crises e mudanças
profundas, Deus manifesta-se, convocando homens e mulheres para co-
laborarem com Ele na promoção da vida e da santidade. Assim ocorreu

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O METODISMO EM OXFORD 15

com Moisés, na história bíblica, e com os primeiros metodistas, no século


XVIII. O Senhor não apenas chamou, como capacitou para a missão.
Ainda hoje, temos o desafio de cooperar com Deus no anúncio do Evan-
gelho que traz vida abundante para todas as pessoas, em particular, para
as mais pequeninas. Nós, metodistas, herdamos uma abençoada tradição,
que encara, com equilíbrio, a experiência da santidade, numa combinação
criativa entre fé e razão, aspecto pessoal e responsabilidade social, piedade
e misericórdia, ação de Deus e participação humana. Precisamos reavivar,
nesta época marcada por contradições, a nossa memória, e nos dispor a
cooperar com Deus na construção do futuro. O momento é agora!

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2
O METODISMO
NA GEÓRGIA
T iago 1.2-4

Cada vez vão tornando-se mais triviais os discursos que apresentam


a vida cristã como uma sequência ininterrupta de sucessos. A pessoa
abençoada por Deus desconhece o fracasso e a frustação em todos os seus
empreendimentos. Êxito e prosperidade a cercam em todo o tempo. Será?
De modo similar, muitos apresentam a história do povo de Deus como
uma escalada progressiva de realizações. Em tais narrativas, não há lugar
para sofrimento, difìculdades ou rejeição. Na verdade, essas experiências
são interpretadas como expressões de pecado e, portanto, do silêncio de
Deus dirigido a pessoas cujos corações são impenitentes. A dor sempre
corresponde à impiedade! Será que a revelação bíblica e o testemunho
humano confirmam essa interpretação?

I. R efletindo sobre T iago 1.2-4


As comunidades cristãs dos primeiros séculos tiveram de conviver
cotidianamente com a hostilidade e incompreensão. Um preço bastante
elevado foi cobrado por sua adesão a Cristo e ao Evangelho: perseguição,

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18 METODISMO

açoites, prisão, confiscos dos bens, martírio. O próprio Paulo descreve, de


forma minuciosa, as privações e ameaças que enfrentou na missão apostó-
lica (2Co 11.23-33). Se Cristo não foi poupado, antes, sofreu a ignomínia e
a vergonha da cruz, por que razão seus seguidores e seguidoras deveriam
esperar melhor sorte (Jo 15.18-25)?
É preciso, pois, desfazer qualquer ilusão! Ser cristão e cristã não é o
caminho mais fácil para se alcançar a felicidade e o bem-estar. Crer no
Evangelho não nos protege contra os males que, eventualmente, atingem
a criatura humana em virtude de sua fragilidade natural ou de enganos
pessoais; muito menos nos livra de assumir os custos que a fidelidade a
Cristo e a seu Reino geralmente acarretam.
Nesse sentido é que se pode entender a recomendação da carta de Tia-
go: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias
provações” (Tg 1.2). O texto é claro: a fé é submetida a múltiplas provas. É
bastante provável que o autor pense, sobretudo, nos desafios que a pessoa
fiel tem de enfrentar ao sustentar as suas convicções em tempos difíceis.
Também não se deve descartar infortúnios que, às vezes, surpreen-
dem o ser humano. Tais episódios, com frequência indesejáveis, levam à
murmuração e à dúvida, isso quando não semeiam o ódio contra Deus e
contra o próximo. Nessas condições, não é fácil alegrar-se. Apesar disso,
os cristãos e cristãs são convidados à alegria, obviamente não por enfren-
tarem provações, e sim porque a comprovação da fé supera o entusiasmo
ingênuo e sem compromisso, gera a perseverança e, por fim, alcança a
perfeição (Tg 1.3-4). Na realidade, nenhuma atitude masoquista é es-
timulada! Pessoas cristãs não amam o sofrimento, embora não temam
enfrentá-lo (Rm 5.3-5). A história do povo chamado metodista concorda
com o ensino bíblico.

II. O segundo começo do M etodismo


Wesley considerou o seu trabalho pastoral na colônia britânica da
Geórgia, na América do Norte, o segundo surgimento do movimento me-
todista. A menção causa surpresa, principalmente, se considerarmos que
muitos historiadores fazem uma avaliação predominantemente negativa

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O METODISMO NA GEÓRGIA 19

desse incidente. Alguns falam, inclusive, num verdadeiro fiasco! Por isso,
é preciso analisar o que, de fato, ocorreu.
João Wesley deixou a Inglaterra em fins de 1735, enfrentando, pela
primeira vez, os perigos do mar que, desde a meninice, ele havia te-
mido. Numa correspondência, datada pouco antes de sua partida, ele
revelou as suas intenções naquele momento: “Meu principal objetivo é a
esperança de salvar minha própria alma. Espero compreender o verdadeiro
sentido do Evangelho de Cristo, pregando-o aos pagãos...”. Wesley acre-
ditava, sinceramente, que os indígenas pudessem, como crianças, ou seja,
sem opiniões preconcebidas, acolher a mensagem cristã na sua simplici-
dade. Porém, já em seus primeiros contatos com nativos, tais ideias foram
se desfazendo. Atos de violência, desrespeito pela cultura, e mecanismos
de exploração praticados pelos colonos europeus, identificados pela pro-
fissão de fé cristã, predispunham aqueles corações a se afastarem o quanto
pudessem do Evangelho.
Em certa ocasião, um chefe indígena declarou: “Os cristãos mentem,
roubam e espancam os homens. Eu não quero ser cristão”. Diga-se de
passagem que o próprio navio em que Wesley e seus companheiros ha-
viam embarcado, trouxera barris de aguardente para “presentear”, isto é,
corromper os nativos. Esses acontecimentos, somados aos poucos contatos
que Wesley conseguiu estabelecer com os primeiros habitantes do conti-
nente, deixaram um saldo desfavorável. Aliás, ele não hesitou em empregar
expressões como “glutões, beberrões, ladrões, mentirosos” e outras mais
graves, para descrevê-los. O que Wesley não compreendeu, naquela situa-
ção, foi a total incompatibilidade entre a missão evangelizadora e o projeto
colonialista de dominação. Posteriormente, com veemência profética , ele
condenaria a ação dos ingleses: “também nossos compatriotas têm brincado
com sangue, exterminando nações inteiras, e com isso provando eloquen-
temente qual o espírito que habita e opera nos filhos da desobediência”
(Sermão: Advertência Contra o Sectarismo, I, 10).
De qualquer modo, as dificuldades em aproximar-se dos nativos obriga-
riam Wesley a repensar os seus planos iniciais. Além disso, o atendimento
pastoral aos colonos em Savannah e, mais tarde, em Frederic, consumia

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20 METODISMO

quase todas as suas energias. Wesley mostrava-se zeloso com o cresci-


mento espiritual dos seus paroquianos e paroquianas e especialmente
dedicado à direção dos cultos, ao trabalho de visitação, às conversações
com pequenos grupos e pessoas em particular, e à educação de jovens.
Não tardou para que ele procurasse organizar, à semelhança de suas
experiências em Oxford, uma pequena sociedade religiosa com os mem-
bros mais dedicados do seu rebanho, para o cultivo da piedade. Contudo,
os grupos que se formaram como resultado do seu empenho nem sempre
persistiram em seus compromissos, causando desapontamento para o seu
pastor. Apesar disso, Wesley identificou esses momentos como expressões
autênticas do metodismo.
A preocupação pastoral de Wesley ia bem além dos limites da popula-
ção de fala inglesa. Ele Já havia aprendido alemão suficientemente para
comunicar-se com os morávios — cristãos de origem luterana marcada-
mente influenciados pelo movimento pietista. Já na viagem a caminho
da Geórgia, ele ficou impressionado com a fé e a serenidade que eles
demonstraram durante uma intensa tempestade em alto-mar. Agora, em
terra firme, Wesley reconhecia e admirava outras qualidades: a confiança
em Cristo, a vida comunitária, o estilo dos seus cultos (sobretudo de seus
cânticos), o fervor de suas devoções e a seriedade com que encaravam a
prática cristã no dia a dia. Como resultado parcial desse convívio, João
Wesley publicou uma coleção de Salmos e Hinos em 1737 — o primeiro
hinário editado na América do Norte, incluindo versões de cânticos mo-
rávios, cujos temas revelam preocupações teológicas que o ocuparam até
a experiência de Aldersgate. Ademais, Wesley, valendo-se de sua aptidão
para o aprendizado de outras línguas, colocou-se à disposição para aten-
der pastoralmente colonos franceses e italianos em seu próprio idioma.
O desejo de conversar com judeus procedentes da Espanha também o
levou ao estudo do espanhol. Mais: Wesley entusiasmou-se tanto com a
possibilidade de alcançar a população negra que elaborou um cuidadoso
plano de evangelização que, infelizmente, não foi posto em prática. A
escravidão, contra a qual Wesley escreveu com a indignação própria dos
profetas, invalidava qualquer esforço para anunciar a Boa Nova.

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O METODISMO NA GEÓRGIA 21

Durante quase um ano e dez meses Wesley exerceu seu ministério à


semelhança do apóstolo que se fez “tudo para com todos” (1Co 9.19-23).
Entretanto, a maneira como dirigia a vida paroquial foi, lentamente, dei-
xando um rastro de insatisfação. Em diversas circunstâncias, ele demons-
trou inflexibilidade e forte apego às normas eclesiásticas. Parecia-lhe que
os fiéis não cultivavam a mesma seriedade de seu pastor. Ao contrário,
fugiam da disciplina.
Realmente, Wesley demonstrava pouca habilidade em contornar
essas situações. A recusa em receber à mesa da comunhão a jovem se-
nhora Sophy Hopkey e seu esposo, por não cumprirem as determinações
canônicas, foi interpretada como a desforra de um pretendente despeitado,
surpreendido pelo recente casamento da amada. O conflito desemboca na
apresentação de uma série de acusações e num processo contra Wesley.
Embora as acusações não constituíssem, nas palavras de um historiador
atual, “um forte caso legal contra ele”, Wesley deixa a Geórgia antes
que qualquer julgamento fosse realizado, sacudindo o pó de seus pés. 

C onclusão
A passagem pela Geórgia deixou marcas profundas em Wesley. Ele teve
a oportunidade de colocar em prática as suas concepções sobre a vida cristã,
agora, como missionário e pastor, numa realidade social bastante diferente
daquela que conhecera na Inglaterra. Obteve um êxito relativo, porém,
mergulhou numa grave crise, envolvendo tensões pessoais e políticas.
Muitos de seus planos não saíram de sua mente. Em compensação, as
suas convicções foram duramente provadas.
Depois da experiência na Geórgia, Wesley desenvolveu uma visão
mais clara do que havia em seu coração (Dt 8.2). Também encontrou
novos amigos que o acompanhariam em sua busca de santidade. Wesley
cresceu em seu autoconhecimento. O sofrimento trouxe-lhe maturidade
e fortaleceu a sua fé!

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3
O METODISMO
EM LONDRES
L ucas 24.13-35

Em meio às dificuldades aparentes, ou de fato insolúveis, temos a


propensão de fazer como o salmista, e nos perguntamos: “De onde nos
virá o socorro?”(Sl 121). Parece-nos relativamente fácil falar de Deus e
exaltar-lhe o nome quando todas as coisas transcorrem como esperamos,
sem sobressaltos. Contudo, quando a crise se aproxima, ameaçando nossa
segurança, sentimos o chão escapar de nossos pés.
Algo semelhante aconteceu com o fundador do metodismo. Demolido
o castelo da autoconfiança em que havia se instalado, Wesley interrogava-
-se, com toda a honestidade, sobre o valor da sua fé, ou mesmo se possuía
a fé verdadeira, capaz de transpor montes e caminhar sobre as ondas (Mt
14.22-33). Ainda a bordo do navio que o trazia de volta à Inglaterra, ele fazia
um rigoroso exame de si mesmo: “Fui à América para converter os índios;
porém, oh! quem me converterá? Quem, quem será aquele que me livrará
deste coração vil de incredulidade?”. O registro, datado em seu Diário no
dia 24 de janeiro de 1738, prossegue com constatação: “Tenho boa religião
de verão; posso conversar bem, sim, e sinto-me seguro quando não há perigo
perto; mas basta a morte olhar-me o rosto, meu espírito fica perturbado”.

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24 METODISMO

I. R efletindo sobre L ucas 24.13-35


Apenas o evangelista Lucas conservou com detalhes a memória do
encontro do Jesus Ressurreto com seus discípulos na estrada de Emaús.
É justo pensar que isso se deve ao fato de que a situação dos seus primei-
ros leitores e leitoras identificava-se com aquele momento vivido pelos
seguidores de Cristo, após os trágicos episódios que se consumaram na
crucificação de seu Mestre.
Eles estavam cabisbaixos e irremediavelmente entristecidos. Não
conversavam sobre outro assunto senão os acontecimentos daqueles dias.
Afinal, Jesus havia despertado em seus corações expectativas que estavam
quase adormecidas. O modo como Jesus anunciava a Boa Nova, lembrando
o amor do Pai que recebe o filho que se julgava perdido (Lc 15.11-32); a
liberdade que demonstrava diante da Lei; a firmeza com que apontava os
erros das autoridades, chamando-as à conversão e a ternura que dirigia aos
pequeninos, eram sinais de que Deus estava com Ele. A sua justiça seria
implantada e o seu Reino inauguraria uma nova era de paz! Os discípulos
e discípulas estavam convencidos de que Jesus era o Messias, o Ungido de
Deus, através do qual a redenção de Israel, finalmente, concretizar-se-ia. 
A morte de Jesus, no entanto, sepultou consigo essas esperanças. Não
é exagero dizer que os próprios discípulos e discípulas sentiam-se mor-
tos, pois viver sem esperança é morrer! Na época em que Lucas redige o
seu Evangelho, a comunidade cristã também experimentava dissabores
terríveis. Pregava-se que Cristo estava vivo e caminhava entre os seus.
Mas, onde encontrá-lo? A sociedade romana tratava as pessoas cristãs com
hostilidade, reservando-lhes a prisão e a morte, como se fossem criminosas.
Se o Senhor havia derrotado as forças da morte, como elas se mostravam
agora tão potentes? Como renovar a fé e a esperança diante do caos?
O encontro com o Ressurreto reacendeu a confiança e transformou
o abatimento diante da realidade em coragem para agir. Os discípulos e
discípulas também recobraram a vida e o alento! Ao relembrar essa his-
tória, Lucas certamente quis chamar a atenção dos seus leitores e leitoras
para os lugares onde o encontro com o Cristo Vivo poderia ser renovado,
convertendo-a em impulso a favor da vida. Três caminhos são indicados:

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O METODISMO EM LONDRES 25

Jesus se faz presente como Aquele que se junta a nós em nossa Jornada
(Lc 24.15-16); na proclamação da Palavra (Lc 24.32); na partilha do
pão que celebra a comunhão na mesma fé e no mesmo ideal (Lc 24.30-31)!

II. O terceiro começo do M etodismo


A forma drástica com que Wesley interrompeu a sua missão na Geórgia,
como vimos, deixou, de imediato, um forte sentimento de frustração em seu
espírito. Contudo, ele não ficou paralisado, subjugado por uma sensação
amarga de derrota, com pena de si mesmo. Ao contrário, os acontecimentos
o levaram à autocrítica e serviram como estímulo na busca daquilo que
ele ainda não possuía. Não lhe faltou o companheiro que o acompanhou
e foi solidário em sua peregrinação.
Uma semana após desembarcar em Londres, Wesley encontrou-se
com Pedro Böhler, um pastor morávio que se preparava para seguir
para as colônias inglesas na América. Nas conversações que regular-
mente mantiveram, Böhler o fez notar que o seu grande problema não
era uma fé deficiente e frágil, mas unicamente a descrença. Wesley pre-
cisava abraçar a fé viva, que, como dádiva de Deus, implicava em dois
frutos inseparáveis, provenientes do senso de perdão: o domínio sobre
o pecado e a paz constante. Wesley não se deixou convencer facilmen-
te. Procurou a orientação do ensinamento bíblico e ouviu o testemunho de
quem afirmara ter alcançado essa experiência. Decidiu, então, renunciar
a toda confiança em suas “próprias obras de justiça” e diligentemente
interceder a Deus por esse dom. Posteriormente, Wesley irá dizer que,
nesse período, ainda vivia “debaixo da lei”, sob o “espírito de escravidão”, 
obedecendo a Deus antes por temor servil do que por amor filial. 
De modo semelhante aos discípulos de Emaús, Wesley também vivenciou
a alegria da comunhão e da partilha. No primeiro dia do mês de maio de
1738, nasceu a chamada Sociedade de Fetter Lane, que Wesley considera-
ria mais tarde “o terceiro surgimento do metodismo”. A sua organização
combinava elementos anglicanos e morávios e se inspirava na epístola
de Tiago: “Confessai, pois, uns aos outros, os vossos pecados e orai uns
pelos outros, para que sejais curados“ (Tg 5.16). O grupo, entre 40 e 50

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26 METODISMO

pessoas, assumia o compromisso de se reunir todas as quartas- feiras, para


confissão, encorajamento e mútua edificação, abrindo e encerrando as
reuniões com cânticos e orações.
Foi num encontro similar a esses, na Rua Aldersgate, em 24 de maio
de 1738, ouvindo a leitura do Prefácio de Lutero à Carta aos Romanos,
exatamente quando se descrevia “a mudança que Deus opera no cora-
ção pela fé em Cristo”, que Wesley sentiu o seu “coração aquecido de
forma singular”: “Eu senti que acreditava em Cristo, apenas em Cristo
e uma segurança me foi dada que Ele havia levado meus pecados, sim,
os meus, e me salvado da lei do pecado e da morte”. De imediato, ele
testemunhou o fato aos presentes. Agora, a fé, como confiança e certeza,
era uma realidade palpável e experimental para Wesley, e não apenas um
conceito defendido — com base em argumentos intelectuais — como ver-
dadeiro. Ele se apropriou pessoalmente da fé justificadora e experimentou
a santidade que procede, não do esforço humano, mas da graça de Deus.
O que ocorreu em Aldersgate dá um novo sentido à vida cristã e
reorienta a prática pastoral de Wesley. A energia que, até então, ele havia
empenhado para obter a santidade pessoal, a partir desse momento será
canalizada para o serviço ao próximo. Mais do que com a própria salva-
ção Wesley vai se ocupar, doravante, com a missão para a qual se sente
especialmente vocacionado, cujos propósitos, mais tarde, resumirá na
conhecida expressão: “Não formar uma nova seita, mas reformar a Nação,
especialmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a Terra”. 

C onclusão
Em sua trajetória, no ano de 1738, Wesley refez o caminho dos viajan-
tes de Emaús. Repetiu a passagem da tristeza para o júbilo, do desânimo para
o alento, da morte para a vida. Foi a presença do Senhor na solidariedade
dos que se juntaram a ele, no estudo da Palavra e na celebração da vida e da
comunhão, sobretudo partilhando o pão, que possibilitou essa transforma-
ção e a vitória sobre a crise. Como aqueles discípulos, Wesley sentiu o seu
coração arder e, superando a excessiva preocupação com a própria salvação,
descobriu que a santidade desejada por Deus passa sempre pelo próximo.

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4
O VALOR DA BÍBLIA NA
TRADIÇÃO WESLEYANA
I saías 8.9-22

Vivemos em uma época de notáveis avanços tecnológicos. Queiramos ou


não, recebemos essas influências e temos que nos adaptar a novos modos de
vida. Na Igreja, reconhecemos que a expressão de fé — nos cultos públicos, no
testemunho e no comportamento pessoal — modificou- se profundamente. 
Estamos pensando como metodistas. Em se tratando dos ensinos
de João Wesley (que viveu na Inglaterra no século XVIII), como faría-
mos: abandonaríamos ou seguiríamos à risca suas orientações sobre a
prática cristã? Não se trata de abandonar ou assumir integralmente os
ensinos de Wesley, mas de rever a história de seu testemunho e avaliar a sua
importância e contribuição para entender o presente e planejar o futuro.
Assim fazem os luteranos, com Martinho Lutero; os presbiterianos, com
Calvino e Zwinglio, entre outras igrejas cristãs.
O que queremos aqui é promover uma reflexão sobre algumas práti-
cas wesleyanas que possuem valor e importância para o nosso testemunho.
Em nosso caso, queremos encontrar um jeito correto e prazeroso que nos
possa ajudar e incentivar o estudo da Bíblia.

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28 METODISMO

I. C ontribuições de ontem e hoje


Wesley tinha um jeito próprio de estudar a Bíblia, que mostra certas
afinidades com os estudiosos do seu tempo. Fontes como a Palavra de Deus,
a sabedoria dos Pais da lgreja e a razão, e ferramentas como os Manuais
e Manuscritos Bíblicos são, ainda hoje, instrumentos imprescindíveis à tare-
fa de interpretação bíblica. Mas Wesley restabeleceu alguns caminhos para o
estudo da Bíblia que poderíamos avaliar, sem exagero, como sendo definitivos.

II. Contribuição de Wesley na interpretação da Bíblia


De formação, João Wesley foi biblista, especializado em Novo Tes-
tamento e professor da matéria. Quem se aprofunda na pesquisa bí-
blica, apaixona-se por ela. Certamente isso ocorreu com Wesley, pois
grande parte de sua obra escrita foi dedicada à interpretação da Bíblia.
Mas eis algumas boas novas que Wesley semeou no seu tempo e que
ainda têm produzido frutos:
1. Unir a razão e a experiência na interpretação. Wesley viveu numa In-
glaterra grandemente influenciada pelo pensamento racionalista. Uma pessoa
racionalista é aquela que acredita nas soluções vindas das idéias, da razão, e
nunca da experiência. Isso significa que um(a) racionalista nega qualquer
autoridade ou credibilidade à fé religiosa. Com grande habilidade, Wesley
enfrentou esta realidade. Não negou a importância da razão, tampouco
supervalorizou a experiência. Enfrentando exageros de ambos os lados, e
convicto de que experiência e razão podem contribuir para o bem-estar das
pessoas e, particularmente, para o estudo bíblico, ele escreveu: “Vamos unir
estas duas há tanto tempo separadas: ciência e piedade vital”. O resultado dessa
união entre razão e fé é uma interpretação bíblica clara, verdadeira e voltada
para o aprendizado profundo do propósito de Deus. É uma espécie de lógica
(razão) do coração (amor) que atinge a emoção e provoca no homem e na
mulher uma nova vitalidade no testemunho. Foi com esse jeito de interpretar
que Wesley revolucionou o modo de pensar da lnglaterra daquele tempo, e
nos legou uma contribuição de valor para a interpretação bíblica.
2. Realidade da vida. Para Wesley, Deus criou o ser humano com corpo
e espírito, à sua imagem e semelhança: ele ama e raciocina. Entretanto,

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O VALOR DA BÍBLIA NA TRADIÇÃO WESLEYANA 29

ele sofreu as consequências da queda: ele também odeia, cobiça e comete


violência. Assim, a Bíblia foi escrita para este povo cuja realidade é cheia de
conflitos. Wesley não vê o homem e a mulher somente no plano espiritual.
Ambos foram criados à imagem e semelhança do Criador, mas, também
estão sujeitos a conflitos, paixões e esperanças. Wesley vê o ser humano de
modo total, completo, e de modo realista, vivendo em sociedade. Por outro lado,
Wesley interpreta a Bíblia a partir da realidade humana, preocupado em tirar
lições dos textos para lançar luzes sobre a nossa realidade torcida e complicada,
encontrar a orientação necessária e animar o povo para encontrar a vida plena e
abundante. Fazendo assim, os trabalhadores nas minas de carvão, os prisioneiros,
os agricultores, as mulheres e as crianças de rua puderam compreender que a
leitura da Bíblia ajudava na tarefa de enfrentar e superar as dificuldades da vida.
3. A Bíblia é linguagem de fé. Esta é uma redescoberta de Wesley
que devemos saudar festivamente. Existe uma forte tendência a ler a Bíblia
com olhos científicos. Embora isso seja possível até certo ponto, temos
de considerar que em todo processo de formação da Bíblia estava a fé e o
testemunho da pessoa crente, seja ela do campo ou da cidade, pobre ou
rica, analfabeta ou não. Wesley entendeu isso, como poucos em sua época,
e passou esta verdade em suas pregações, cartas, comentários bíblicos,
etc. Não abandonando o uso da razão, Wesley valorizou a experiência
pessoal e comunitária de crentes, bem como redescobriu o uso positivo da
emoção na tarefa de interpretar e comunicar os ensinos da Bíblia.

III. O propósito pastoral na interpretação da Biblia


Para João Wesley, a interpretação da Bíblia e a tarefa pastoral são ativi-
dades interdependentes. Sempre voltado para a finalidade pastoral, ele dei-
xou marcadas algumas ênfases:

ƒƒ A interpretação bíblica deve fornecer a necessária orientação e


alento para a prática do testemunho cristão.
ƒƒ O estudo da Bíblia não deve visar ao acúmulo de conhecimento,
mas proporcionar o equilibrado alimento para o serviço e teste-
munho da pessoa crente.

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30 METODISMO

ƒƒ O esforço de orientação no estudo da Bíblia destina-se, especial-


mente, às pessoas simples e sem letras, que conhecem somente sua
língua-mãe, que reverenciam e amam a Palavra de Deus (como
registra no prefácio ao Comentário do Novo Testamento).
ƒƒ Deve-se facilitar, ao máximo, o entendimento das Escrituras para
leitores e leitoras comuns, pois estes possuem muita capacidade de
serviço e muita fome de conhecimento da Palavra de Deus. 

C onclusão 
Alguns detalhes da prática wesleyana parece que ficaram perdidos pelo
caminho do esquecimento ao longo dos anos de nossa história. Diante
disso, a finalidade maior de uma pesquisa é procurar a verdade original
daquilo que se estuda. Nesse caso, ao tirar a poeira depositada sobre a his-
tória de João Wesley, descobrimos ensinos e práticas valiosas para nós hoje. 
Primeiro: de origem, o metodismo praticou a fé popular: seja na
evangelização popular de massa, seja na edução cristã (especialmente
entre as crianças de rua), seja no esforço ecumênico para o bem-estar
das pessoas, seja na preocupação com prisioneiros, seja na missão entre
trabalhadores. A história nos deixa a convicção de que Wesley dedicou-se,
principalmente, a levar as boas novas ao povo carente de seu tempo. Esta
preferência ele também encontrou na Bíblia.
Segundo: o metodismo primitivo nos revela uma surpreendente preo-
cupação pela defesa da dignidade humana. Em defesa dos direitos de
vida que cada ser humano possui, Wesley mostrou-se aberto ao diálogo e
disposto a caminhar junto com os homens e mulheres pacificadores. Esta
é uma herança que ninguém poderá esconder ou eliminar.
Terceiro: também não se pode arrancar do metodismo sua característica
pela busca de santificação. Wesley chegou a estabelecer um novo conceito
de santificação: só se alcança a santidade pela prática do amor ao próximo.
A verdade é que Wesley ressalta a importância do andar com Deus e conhe-
cê-lo de perto. Para ele, não bastava interpretar as Escrituras com perfeição
e acerto, era também necessário conhecer bem de perto o Senhor que inspi-
rou a formação desse livro. Isso, também, ele aprendeu no estudo da Bíblia. 

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5
O METODISMO E O
EVANGELHO INTEGRAL
M ateus 28.16-20

A Igreja existe para a missão. A missão pertence a Deus e é expressa


pela Igreja, Povo de Deus e Corpo de Cristo. Em especial para nós, me-
todistas, há uma compreensão muito rica sobre a visão missionária, en-
tendida como uma vocação: “Reformar a Nação, particularmente a lgreja,
e espalhar a santidade bíblica sobre toda a Terra”. 
O Metodismo primitivo caracterizou-se por uma ação evangelizadora
dinâmica. Uma ação que buscava alcançar o ser humano em todas as suas
necessidades com a Boa Nova da Salvação em Cristo Jesus.

I. E vangelismo dinâmico
A certeza, a segurança, a alegria e o gozo da fé fizeram do povo me-
todista um grupo de evangelistas dinâmicos. A grande bênção do amor
divino revelado e experimentado de forma pessoal e comunitária seria
partilhada através do testemunho cristão. 
A ação evangelizadora foi uma ação de amor – amor a Deus e ao pró-
ximo – expressa das mais diversas formas, procurando levar o poder
do Evangelho às pessoas e à sociedade como um todo.

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32 METODISMO

Os cânticos renovadores, a pregação enfática, as novas formas de co-


municação do Evangelho; a pregação dos leigos e leigas, os ajuntamentos
de pessoas em pequenos grupos, o contato com o povo pobre e sofrido,
revelam a natureza e a dinâmica da ação evangelizadora na tradição me-
todista. O Evangelho encarna-se na realidade em que se encontram as
pessoas e a sociedade. A Graça e o Amor divinos são proclamados amorosa
e vigorosamente. A confiança na ação do Espírito Santo e o cumprimento
do mandato missionário de Jesus levaram o povo chamado metodista a
expressar, das mais diversas maneiras, a encarnação do amor divino.
Proclamando, anunciando, sinalizando, vivenciando e dando o testemu-
nho coerente da nova vida, uma diferente dimensão do Evangelho foi sendo
espalhada por toda a parte. Um sentimento profundo de amor a solidarie-
dade para com as pessoas e as suas condições de vida cercou os membros
envolvidos no movimento metodista, caracterizando assim aquele grupo. A
realidade e as necessidades de homens e mulheres e da comunidade sempre
foram levadas em consideração, possibilitando uma interação dinâmica entre
as boas novas de salvação e quem as recebia. Esta paixão evangelizadora,
característica do metodismo primitivo, manifestava-se concretamente através
do compromisso com o total bem-estar das pessoas e da visão de que todas
elas são chamadas a servir ao Senhor através da dedicação ao próximo.
Observamos esta realidade dinâmica da missão na maneira como Jesus
responde aos enviados de João sobre o seu ministério, quando o Senhor
responde: “lde e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo”. A resposta
vem com a prática, com a ação de Deus restaurando as pessoas, livrando-as
de todas as barreiras físicas, emocionais, culturais e religiosas (Mt 11.2-6).

II. A prendendo com o texto bíblico


No texto de Mateus 28.16-20, encontramos o princípio básico para a
tarefa evangelizadora correspondente ao ministério de Jesus, a chamada
Grande Comissão. O Evangelho de Mateus apresenta Jesus Cristo como
vindo da linhagem de Davi, reconhecido como o Rei dos Judeus pelos
visitantes do Oriente, exercendo seu ministério, observando e restaurando
a Lei, resgatando o seu sentido de instrução e ensino, sendo levado à cruz

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O METODISMO E O EVANGELHO INTEGRAL 33

e considerado como alguém altamente perigoso. Os últimos versículos do


Evangelho apontam para a autoridade de Jesus, que foi crescendo jun-
tamente com seu ministério. Autoridade para perdoar, restaurar a vida,
libertar os oprimidos, curar os enfermos e anunciar profeticamente o fim
dos tempos. Com muita autoridade Jesus foi ao Calvário, recebeu sua
sentença e padeceu na cruz, ressurgindo da morte após três dias, comple-
tando a sua obra, concedendo autoridade aos discípulos e discípulas – que
teriam a responsabilidade de prosseguir com a missão: 
Fazendo Discípulos [e Discípulas]: ao chamar, orientar e caminhar ao
lado de quem for alcançado(a) pela graça e misericórdia de Deus, a fim
de que aprenda a andar como Jesus andou.
Batizando: o sinal público de compromisso comunitário com o Reino
de Deus, a prática que evidenciava o envolvimento sincero e consciente de
todo aquele e aquela que crê e espera no Senhor.
Ensinando: a prática do ensino precisava ser mantida, resgatada e
exercitada, pois era o fundamento básico de toda a Palavra de Deus. O
ensino ocupa lugar central na Bíblia, sendo restaurado com profundo
brilhantismo por Jesus Cristo.

C onclusão 
Observamos a evangelização dinâmica na vida e ministério Jesus. Ao
mesmo tempo que as pessoas eram tocadas por suas palavras e se arre-
pendiam, eram estimuladas a ir, anunciar e servir a outras pessoas. Isto
ocorreu com Zaqueu (Lc 19.1-19), com a mulher samaritana (Jo 4.1-18),
com o apóstolo Paulo (At 9.1-19) e com muitos outros homens e mulheres.
Precisamos enfatizar uma evangelização que destaque a conversão a Jesus
Cristo e que transforme as pessoas em servos e servas dispostos a promo-
ver mudanças, tanto em suas vidas como na sociedade em que vivem. Esta
é a visão de um evangelismo integral que precisamos ter, repartir e praticar. 
É importante lembrar que a ação missionária do metodismo, desde
a Inglaterra, inclui o anúncio da Palavra, o ensino e a responsabilidade
social, que envolve o socorro, a preservação da natureza, a promoção da
vida de forma integral. Estes três aspectos são indissociáveis.

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REFERÊNCIAS

COMISKEY, Joel. Fundamentos bíblicos para a igreja baseada em células/grupos


pequenos: lições do Novo Testamento para a igreja do século 21. Curitiba: Mi-
nistério Igreja em Células, 2017.
HENDERSON, Michael. Um modelo para fazer discípulos: a reunião de classe de
John Wesley. Curitiba: Ministério Igreja em Células, 2012.
HEIZENRATER, Richard P. Wesley e o povo chamado metodista. Tradução: Clei-
de Zerlotti Wolf. São Bernardo do Campo/Rio de Janeiro: Editeo/Pastoral
Bennet, 1996.
KLAIBER, Walter; MARQUARDT, Manfred. Viver a graça de Deus: um compêndio
de teologia metodista. São Bernardo do Campo: Editeo,1999.
RUNYON, Theodore. A nova criação: a teologia de João Wesley hoje. São Bernardo
do Campo: Editeo, 2002.
WESLEY. John. Sermões. São Paulo: Imprensa Metodista, 1954, volumes I e II.
BURTNER & CHILES (Compiladores). Coletânea da Teologia de João Wesley.
Rio de Janeiro: Colégio Episcopal da Igreja Metodista, 1995.
COLÉGIO EPISCOPAL da Igreja Metodista. Manual de Disciplina. Biblioteca
Vida e Missão, 1998. Disponível em: http://www.metodista.org.br/content/
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Acesso em 19/05/2018.
LOPES, Nicanor. Identidade missionária metodista: Responsabilidade social, pre-
gação e educação. Disponível em:  http://portal.metodista.br/fateo/noticias/
identidade-missionaria-jornal-expositor-cristao-destaca-artigo-de-professor-
-da-fateo. Acesso em 19/05/2018.

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