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Da Entrevista Narrativa à Entrevista

Narrativa Mediada: definições,


caracterizações e usos nas pesquisas
em desenvolvimento humano
Juliana Eugênia Caixeta 1

Fabrícia Teixeira Borges 2

RESUMO

O objetivo deste artigo é definir e caracterizar a entrevista narrativa mediada a partir das experiências de
pesquisas em desenvolvimento humano, realizadas pelo grupo de pesquisa em Pensamento e Cultura,
da Universidade de Brasília. Para tanto, foram analisados doze textos: quatro dissertações de mestrado,
cinco teses de doutorado e três artigos. A entrevista narrativa mediada é uma técnica de pesquisa que
favorece o estudo de fenômenos em desenvolvimento humano por permitir o aprofundamento das
narrativas, com a inclusão de novos personagens e relações entre eles; além de vozes e posicionamentos
específicos, gerados pelo contexto de interação do/a participante com o artefato mediador.

Palavras-chave: Entrevista Narrativa Mediada; Entrevista Narrativa; Psicologia do Desenvolvimento.

1 Faculdade UnB Planaltina, Universidade de Brasília. eugenia45@hotmail.com


2 Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília. fabricia.borges@gmail.com

Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science • http://revistas.unievangelica.edu.br/index.php/fronteiras/


v.6, n.4, Edição Especial 2017 • p. 67-88. • DOI http://dx.doi.org/10.21664/2238-8869.2017v6i4.p67-88 • ISSN 2238-8869
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Da Entrevista Narrativa à Entrevista Narrativa Mediada: definições, caracterizações e usos nas
pesquisas em desenvolvimento humano

Juliana Eugênia Caixeta; Fabrícia Teixeira Borges

O
objetivo deste artigo é definir e caracterizar a entrevista narrativa mediada a partir das
experiências de pesquisas sobre desenvolvimento humano realizadas pelo grupo de
Pesquisa Nome, vinculado à Universidade Nome, Brasil.

Nosso grupo se interessa por estudar os fenômenos mentais socialmente construídos,


especialmente, os significados que as pessoas constroem de si e de seu cotidiano em entrevistas
narrativas. Para tanto, nos últimos 15 anos de pesquisas sobre identidade, memória, inclusão,
desenvolvimento adulto, adolescente e infantil, nosso grupo tem desenvolvido um conjunto de
estratégias metodológicas que privilegiam o uso associado de diferentes tipos de entrevistas narrativas,
dentre as quais a entrevista narrativa mediada. Caracterizamos a entrevista mediada, como sendo uma
entrevista de caráter livre ou semi-estruturada em que a interação entre participante e entrevistado/a
está mediada por objetos, fotografias, filmes, vídeos, entre outros elementos. Entendemos que toda
relação com o mundo é mediada simbolicamente (Vigotski 2001), no entanto, a especificidade desta
entrevista é o uso de um artefato que não é apenas a linguagem, mas um produto cultural, que orienta a
entrevista em seus objetivos. Entendemos que o uso destes artefatos amplia a possibilidade de
interlocução com o/a entrevistado/a, já que o contexto semiótico que circunda tais objetos podem
sugerir, conduzir, completar e propiciar novos processos mnemônicos na construção das narrativas.

PSICOLOGIA CULTURAL, PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E NARRATIVAS


A psicologia cultural, como representante do interacionismo, compreende que os processos
psicológicos são adquiridos no processo de mediação eu-outro, eu-mundo, propiciados pela cultura.
Sheweder (1991) a define como o estudo dos modos subjetivos do ser humano, como o estudo das
tradições culturais e práticas sociais que regulam, expressam e transformam a psique humana. Portanto,
a psicologia cultural favorece as pesquisas em desenvolvimento humano por compreender a cultura
como essência do humano (Geertz 1978). Em síntese, podemos sistematizar que a psicologia cultural
postula que:

a) os fenômenos psicológicos são culturais, ou seja, são mediados por artefatos sociais na
medida em que seus conteúdos, modos de operação e relações dinâmicas são criados e
partilhados socialmente por um número de indivíduos, integrados com outros artefatos
sociais;
b) a explicação do desenvolvimento humano passa pela compreensão de como os sujeitos
humanos produzem significados por meio de múltiplas vozes, que se encontram
imersos em contextos interacionais variados;

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c) três fatores culturais organizam a psicologia: a) os artefatos, constituintes da cultura,


são, simultaneamente, material e simbólico: materializados na forma de objetos,
palavras, rituais e outras práticas que mediam a vida humana; e simbólicos, porque são
ferramentas que apresentam significados prévios para nosso uso cotidiano, inclusive, na
resolução de problemas; b) as atividades: evidenciam a forma como os sujeitos
interagem com o mundo dos objetos, outras pessoas e consigo mesmo. Bruner (1997)
define atividade como aquela “ação embasada em crença, desejo e comprometimento
moral” (p.21) e c) os conceitos.
d) a mediação cultural é um processo que acontece através do tempo, que se divide em
quatro: filogênese (história da nossa espécie), histórico-cultural (história do grupo
cultural ao qual pertencemos), ontogênese (história do sujeito individual) e microgênese
(tempo das interações aqui-agora);
e) princípio da polifonia: toda forma de interação humana contém em si muitas vozes,
arranjadas de formas múltiplas, inclusive, não harmoniosas entre si; que podem
produzir tensões, conflitos ou congruências. Tais vozes são expressões das experiências
sociais e interlocutivas com os diversos grupos a que pertencemos.
f) a herança biológica coloca restrições às atividades humanas que podem ser alteradas
pelos contextos interacionais;
g) é a cultura, enquanto produto humano e produtor do humano, que molda a vida e a
mente humanas e confere significados à ação. Rubinstein (1965) enfatiza que os
fenônemos psicológicos surgem e existem no processo de interação constante que se
estabelece entre o indivíduo e o mundo;
h) a psicologia cultural compreende que as narrativas organizam as experiências humanas
“um sistema pelo qual as pessoas organizam sua experiência no mundo social, seu
conhecimento sobre ele e as trocas que com ele mantêm” (Bruner 1997, p.41). Nesse
processo, a experiência é compreendida como aquilo que “nos passa, o que nos
acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca”
(Bondía 2002, p. 21) .

Como animal narrador, toda cultura é tecida pelo contar histórias. A possibilidade de contar
histórias enfeitiça o ser humano, porque elas permitem a comunicação de emoções, idéias e lógicas de
pensar (Brockmeier & Harré 2003; Jovchelovitch & Bauer 2003). O gênero da narração é o que traduz
esta íntima relação do ser humano com a possibilidade de participar de histórias, modificá-las e recontá-

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las. E é sobre este fato, o de produzir histórias que pensamos as entrevistas narrativas mediadas por
artefatos.

A narrativa é um tipo especial de discurso porque pode ser contada e re-contada, interpretada
e re-interpretada (Benjamin 1983). Ela organiza os fatos encadeados numa seqüência temporal: início,
meio e fim, porém, essa ordem não é rígida, podendo ser alterada pela vontade do/a autor/a em sua
relação com o/a interlocutor/a-ouvinte ou a audiência (Bakhtin 1992). As características que mais
qualificam o discurso narrativo, segundo Brockmeier and Harré (1997), são os personagens e um
cenário no tempo. Bruner (1997) concorda, destacando além da seqüencialidade e da narrativa ser um
espaço para a negociação de significados, a indiferença factual, ela pode ser real ou fictícia, e a
canonicidade. Por canonicidade, entende-se o fato de as narrativas focarem o comum, o usual, o mais
freqüente e aceitável na cultura.

Linguisticamente, a narrativa pode se organizar em um conto, uma novela, um romance, uma


epopéia, uma fábula, uma autobiografia, uma história de vida, uma crônica, uma história em quadrinho
etc. Assim, seus personagens podem ser: reais ou fictícios; animados ou inanimados. As histórias
podem ainda ser narradas em primeira ou terceira pessoa, como fala de narrador/a, de personagem, ou
mesmo, de observador/a, utilizando descrição e comentários sobre os fatos, além das vozes do EU e
dos outros em discurso direto, indireto e indireto livre (Bakhtin 1992; Brockmeier & Harré 2003).

Brockmeier and Harré (1997) são autores que ampliam a definição de narrativa por trazerem o
contexto social, histórico e cultural de sua produção. Para eles, as narrativas são um conjunto de
estruturas lingüísticas e psicológicas, transmitidas e transformadas pela cultura, construídas pelo nível
de conhecimento do indivíduo e suas características pessoais. A cultura constrói a narrativa e vice-versa.

Brockmeier and Harré (2003) complementam a definição acima, afirmando que:

as narrativas são formas inerentes em nosso modo de alcançar conhecimentos que estruturam
a experiência do mundo e de nós mesmos. Em outras palavras, a ordem discursiva através da
qual nós tecemos nosso universo de experiências emerge apenas como um modus operandi do
próprio processo narrativo (p. 10)

Apesar de os autores tentarem apresentar uma definição estruturada sobre o que é uma
narrativa, eles e outros (Amatuzzi et al. 1994; Brioschi & Trigo 1987; Bruner 1997; Queiroz 1987)
apontam, por outro lado, a dificuldade de defini-la. As dificuldades dizem respeito à:

 variabilidade de estilos e discursos nas narrativas;


 variabilidade de estrutura e formas de apresentação;

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 dificuldade em estabelecer a autoria, como diz Bakhtin (1981), toda história é


multivocal, assim, a narrativa também não é fruto de uma única voz;
 o modo narrativo é escolhido e ensinado para nós, pela cultura, desde pequenos/as
como uma forma privilegiada de organizar a existência do pensar e do agir (Bruner
1997; Geertz 1978; Geertz 1998).

Considerando as narrativas, interessam, neste artigo, as narrativas de si-mesmo/a e seu uso na


pesquisa em desenvolvimento humano.

A ENTREVISTA NARRATIVA NA PESQUISA QUALITATIVA SOBRE O DESENVOLVIMENTO


HUMANO
Na abordagem qualitativa de pesquisa em desenvolvimento humano, a produção do
conhecimento se estabelece numa relação dialógica entre o/a pesquisador/a e o/a participante, onde,
na interação, eles/as produzem sentidos, que podem ser definidos como a compreensão que esses/as
interlocutores/as negociam durante o ato da fala, na semiosfera. A semiosfera é o espaço de
significação que compõe a cultura onde os/as interlocutores/as estão e que é compartilhado por
ambos, no caso do diálogo, ou por todos numa conversação mais ampla (Lotman 2001). Assim, a
semiosfera é um espaço gerador de informações, inclusive, no sentido de apontar o que é adequado ou
não para aquela cultura (Barbato-Bloch 1997). Portanto, é neste espaço de possíveis negociações que as
compreensões do que eu sei e do que eu penso e de como eu me posiciono em relação a você é
construído (Harré & Van Langenhove 2003).

Na psicologia do desenvolvimento, as informações de pesquisa são resultados de construções


sociais, que expressam as transformações de processos psicológicos, em contínua criação. Portanto, a
metodologia de pesquisa precisa primar por descrever os processos de desenvolvimento que estão
acontecendo no momento da interação e não apenas o produto deste desenvolvimento (Valsiner 1994;
Mey 2000).

Devido a esta especificidade interativa das informações construídas em pesquisas sobre o


desenvolvimento humano, desde meados do século XX, as técnicas de pesquisa que envolvem as
narrativas tem sido priorizadas. Diários, cartas e histórias orais (Mey 2000) são técnicas de pesquisa
importantes, porque valorizam a reflexão no sentido apresentado por Crawford and Valsiner (2002), ou
seja, como um "processo psicológico de análise e avaliação que envolve trabalhar a experiência e
impressões, relacionando o self ao mundo social" (p.113). Por meio dos relatos, temos a oportunidade
de ter acesso aos significados preponderantes que a pessoa constrói sobre si no ato interativo e,
também, às dinâmicas que os produzem ao longo de sua história (Stryker & Burke 2000).

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Dentre as diferentes técnicas para a construção de informações em pesquisa qualitativa sobre


o desenvolvimento humano, destacamos, neste texto, as histórias de vida, também conhecidas como
relatos de vida, narrativas de si ou narrativas autobiográficas, em um plano, e a entrevista narrativa
mediada, em outro.

ENTREVISTAS NARRATIVAS
Entrevistas são técnicas de pesquisa que prevêem, obrigatoriamente, a produção de
informações por meio da interação entre o/a pesquisador/a e o/a participante (Yin 2016), tratando-se,
portanto, de uma técnica fundamentada no relacionamento social em um determinado contexto. Para
Linell (1998), os contextos são fenômenos semióticos, repletos de significados construídos nas relações
sociais dos indivíduos e de seus grupos. Trata-se de um conceito multifacetado composto por aspectos
perceptivos, ligados ao espaço físico e abstrato, ao conhecimento prévio, às pessoas envolvidas, ao tipo
de encontro e de atividade e ao conhecimento geral sobre o mundo. São resultantes de um dialógico e
histórico em-sendo (Bakhtin 1995) e tornando-se de uma dada sociedade; são fluidos, estão sempre em
mudança, habitados por diferentes instrumentos, linguagens e jogos de construção de significados, e
diferentes relações de poder na consolidação desses significados. Neste sentido, contextos são
construídos e transformados pela ação social dos atores que também se transformam nas interações que
aí se processam.

Há diferentes tipos de entrevista: aberta, semi-estruturada, estruturada, como proposto por Gil
(2008), ou ainda, estruturada e qualitativa, como proposto por Yin (2016), entre outros. Neste artigo,
focamos as entrevistas narrativas, especificamente, a entrevista de história de vida e a entrevista
narrativa mediada. Usaremos entrevista de história de vida, por entendermos sua abrangência a este
contexto.

As entrevistas de histórias de vida constituem uma técnica de pesquisa que é histórica,


dinâmica e dialética, na qual as informações são construídas por meio da relação de comunicação entre
entrevistador/a-entrevistado/a (Jovchelovitch & Bauer 2003). A investigação social tem apresentado
três variações principais da técnica de entrevista narrativa de história de vida, conforme apresentadas
por Brioschi and Trigo (1987), a saber:

a) primeira variação: trata-se da entrevista totalmente aberta, na qual a pessoa entrevistada


é solicitada a dizer sua vida, através do comando: "fale de sua vida", havendo o mínimo
de interferência possível do/a entrevistador/a. Yin (2016) explica que o/a
entrevistador/a pode usar expressões como: “ah”; “sim”; “ohhh”; em caso de pausa,

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pode usar: “você estava falando sobre tal assunto”, ou ainda, movimentar a cabeça e
usar a linguagem gestual para indicar que está atento/a à narrativa. A análise da
narração se atém ao dito pela pessoa, considerando a forma e o conteúdo como ela
disse, suas categorias e ordem cronológica apresentada;
b) segunda variação: parece com a primeira exceto que se faz uma delimitação, ou seja,
pede-se à pessoa que narre sua história sobre um aspecto específico da vida, que pode
ser o trabalho, a família, o estudo, enfim, depende do objeto que se quer investigar. Um
comando para esta variação seria: "fale sobre o seu trabalho". A análise é idêntica à
anterior;
c) terceira variação: neste caso, há um misto entre um relato mais livre e um mais diretivo
porque se pretende obter o testemunho, o relato da pessoa sobre sua vivência em
alguma instituição. Assim, o relato de suas vivências é livre, porém ele deve estar ligado
a dados sobre as entidades. Esta técnica é um misto de história oral com relato de vida.
Um exemplo seria: "fale de suas vivências no sindicato X".

Todas as variações são válidas, sendo que o objetivo da pesquisa guiará a escolha de uma ou
várias delas, a depender do delineamento da pesquisa. O uso de diferentes estratégias de construção de
informações na pesquisa qualitativa é valorizado porque possibilita a triangulação de informações,
técnicas e delineamentos (Flick 2009) e, na pesquisa em desenvolvimento, esta valorização se dá pela
oportunidade que a pessoa entrevistada pode ter de se colocar em diferentes posicionamentos no
contexto da entrevista, entendendo por posicionamento as características, as funções e o lugar social
que a pessoa constrói e assume para si e para o outro ou os outros na interação interpessoal e/ou
intergrupal (Harré & Van Langenhove 1999). Dessa maneira, por exemplo, em uma entrevista narrativa
aberta, a pessoa pode narrar sobre como brincava de ser professora na infância e, num segundo tipo de
entrevista, mais diretiva, ela pode narrar como compreende, atualmente, como se sente e atua como
professora (Góis 2017).

A PESQUISA BIBLIOGRÁFICA
A pesquisa bibliográfica da qual tratamos neste artigo foi realizada a partir da seleção de
quatro dissertações de mestrado: Caixeta (2001), Carlucci (2008), Forcione (2013), e Gois (2017); cinco
teses de doutorado: Caixeta (2006); Borges (2006), França (2007), Carlucci (2013) e Sousa (2011) e três
artigos Caixeta and Barbato (2001) e Alves et al. (2016), Borges (2012) de pesquisadoras e de
pesquisadores participantes do Grupo de Pesquisa Nome, que utilizaram e desenvolveram a técnica da
entrevista narrativa mediada.

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Para a análise, considerou-se o uso das entrevistas narrativas mediadas por artefatos utilizadas
nos trabalhos acadêmicos listados.

DA ENTREVISTA NARRATIVA À ENTREVISTA NARRATIVA MEDIADA


A partir do estudo e utilização da entrevista narrativa no início dos anos 2000, nosso Grupo
Nome desenvolveu a entrevista narrativa mediada como uma técnica de pesquisa que fomenta a
narrativa do/a entrevistado/a a partir da interação dele/a com um artefato mediador.

Inicialmente, nosso grupo fez a utilização do artefato mediador como um procedimento de


pesquisa. Por exemplo, na pesquisa de Caixeta (2001), sobre a identidade feminina, as mulheres
participantes foram convidadas a tirarem 3 fotografias sobre o que elas achavam sobre o ser mulher. A
partir dessas fotografias, elas eram convidadas a narrar os motivos que as levaram a tirar aquelas
fotografias e quais significados estavam concretizados naquelas imagens (Caixeta & Barbato 2004).
Neste método, a situação problema: fotografe 3 situações/objetos sobre ser mulher apresentava um
produto: a fotografia, que era, novamente, utilizada para fomentar um outro procedimento: falar sobre
as fotografias.

Na geração de doutorandos/as de 2002-2006, o grupo estudou os delineamentos anteriores


das pesquisas feitas e, a partir do estudo de novos fenômenos, como: o olhar (Borges 2006), a memória
(Caixeta 2006) e a identidade (França 2007), percebeu que seria produtivo, para a pesquisa em
desenvolvimento humano, utilizar diferentes tipos de entrevistas narrativas, inclusive, entrevistas
narrativas que previssem a utilização de artefatos mediadores para a sua realização. O objetivo do
grupo, com a utilização dos artefatos mediadores, era e é construir contextos de interação que
possibilitem o/a entrevistado/a se posicionar de maneira específica no ato da conversação. Então,
definimos entrevista narrativa mediada como aquela entrevista cuja interação pesquisador/a -
entrevistado/a é mediada por um artefato que gera contexto para a construção de narrativas de si, do
outro e de diferentes momentos no tempo e no espaço sejam eles físico e/ou sociais (Caixeta 2006).
Para tanto, os procedimentos delineados para as pesquisas poderiam variar desde a solicitação para
os/as participantes escolherem e levarem os artefatos para o momento da entrevista (Caixeta 2006;
França 2007; Carlucci 2008, 2013), como eles poderiam ser escolhidos pelos/as pesquisadores/as
responsáveis pela pesquisa (Borges 2006; Alves et al. 2016).

Do ponto de vista das narrativas, o grupo percebeu que o uso de artefatos nas entrevistas
narrativas em pesquisas sobre o desenvolvimento humano permitem aprofundamentos da narrativa,
que podem ser sucessivos, a depender do delineamento dos procedimentos, de forma que o/a

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pesquisador/a, na interação com o/a participante e, na análise das informações construídas, pode
identificar os pontos de mudança do processo de desenvolvimento, exemplo: casamento, nascimento e
morte de filhos (Caixeta 2006; Góis 2017) ou assinatura de contrato de trabalho (Carlucci 2008; Góis
2017). Tais aprofundamentos da narrativa são possíveis porque provocam o/a entrevistado/a a pensar
sobre si e sobre o seu cotidiano, em tempos passado, presente e futuro, por meio de artefatos que vão
além do próprio artefato. Assim, por exemplo, uma entrevistada, guardiã da memória, na pesquisa da
Caixeta (2006), escolheu uma roupa de batizado para mostrar e para conversar sobre a peça. Nesse
encontro, ela se lembrou de como os filhos estranhavam o fato de terem sido batizados com roupas
que lembram roupas de mulheres:

Olga: Quando eu mostro pra eles, eles diz assim: - Mas mãe a gente batizava... a gente vestia
era essas roupinha de mulher? Eu falei: - É! Porque antigamente era tudo... a, os menino é...a
parte era azul né?! As menina, rosa. Mas era tudo igual. É, é, camisolinha, é! Era tudo assim.
Hoje em dia não, cada... a... também hoje em dia é, é assim. Cada um veste um macacãozinho,
quando é menina veste rosa né?! (risos) (Caixeta 2006 p. 158).

Em síntese, o aprofundamento das narrativas diz respeito a/ao: a) aparecimento de novos


personagens nas narrativas; b) construção de novas relações entre os personagens das narrativas; c)
detalhamento de eventos narrados em entrevistas anteriores; d) construção de novas posições-EU no
processo de identificação; e) construção de novos significados para a história de si e para os próprios
artefatos mediadores e f) construção de novas emoções, afetos e valores no processo narrativo (Caixeta
2010).

Durante 15 anos de pesquisa, utilizando entrevistas narrativas mediadas, os/as


pesquisadores/as do grupo Nome concluíram que a entrevista narrativa mediada possibilita a
construção de um delineamento de pesquisa qualitativo que é multimétodo (Góis 2017), ou seja, a
entrevista narrativa mediada pode e deve ser utilizada associada a outros tipos de entrevistas, por
exemplo, entrevista episódica (Flick 2003; Caixeta 2006; Góis 2017) ou semi-estruturada (Góis 2017),
ou ainda, com outras técnicas de pesquisa como diários ou cartas (Forcione 2013; Góis 2017).

Do ponto de visto dos artefatos mediadores, eles são bem variados, podendo ser fotografias
(Caixeta 2001; 2006; Borges 2006), objetos (por exemplo, caixas, roupas, bonecas etc) (Caixeta 2006;
França 2007; Carlucci 2008; Góis 2017), filmes (Borges 2006; França 2007) e letras de RAP (Alves et al.
2016). Mas, independente de sua natureza, os artefatos, neste tipo de entrevista, tem a possibilidade de
provocar narrativa, porque situa a pessoa num contexto novo de resolução de problema: conte-me sua
história sobre este objeto ou esta fotografia, ou ainda, pode me explicar melhor sobre tal evento, ou
ainda, o que esta letra de RAP tem a ver com sua vida aqui na periferia? Os artefatos geram contextos
específicos de fala e cada contexto permitirá uma construção narrativa específica àquele momento

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específico (Linell 1998; Brockmeier 1999), perpassando pelo cronotopo passado, presente e futuro, a
partir das lembranças e dos posicionamentos dos/as participantes na interação (Bruner 1987).

Quando, por exemplo, as participantes escolhem uma fotografia do álbum de família (Caixeta
2006) ou quando as próprias participantes produzem uma fotografia (Caixeta 2001; Borges 2006) e são
estimuladas a falar sobre elas, elas são colocadas num contexto de resolução de problemas porque são
estimuladas a falar de si, a construir significados por meio de imagens que se referem a sua própria vida
e, nesse momento, não é uma simples fotografia, é uma história que se concretiza e se sintetiza na
imagem impressa no papel fotográfico, no caso de nossas pesquisas, mas que ganha novos
entendimentos com a possibilidade da narrativa. Além disso, o próprio artefato mediador, como a
fotografia, está presente em uma história que faz parte da narrativa das entrevistadas. O ato de
fotografar é em si um momento ontogenético e filogenético, que compõe parte das narrativas. É
ontogenético, pois aconteceu em um momento vivenciado por aquela narradora; e filogenético porque
existe uma história da fotografia que regula comportamentos e valoriza o momento do fotografar,
mudando conforme as épocas. Todo esse entrelaçar de tempos e contextos gera significados
importantes para a pesquisa em psicologia do desenvolvimento humano.

As entrevistas narrativas mediadas contribuem para a inserção de artefatos mediadores que


provocam o/a participante a resolver, aparentemente, o mesmo problema: fale-me sobre sua vida,
sobre seu cotidiano, sobre a sua escola, por exemplo, mas em contexto diferente. A presença do
artefato, escolhido ou não pelo/a entrevistado/a, situa-o/a em um outro lugar de fala, que se relaciona
àquele objeto ou àquela fotografia ou àquela carta. Assim, quando uma participante, por exemplo, traz
o sapato para uma entrevista de pesquisa e fala sobre a importância dele na relação entre escola-
trabalho (Carlucci 2008), temos o sapato, não mais como instrumento que a permite caminhar, mas
como símbolo que engendra, em si mesmo, uma narrativa sobre o significado de sapato na cultura e na
vida daquela participante específica. O sapato deixou de ser instrumento e passou a se tornar símbolo.
Nesse contexto, a narrativa congrega um conjunto de vozes que vem de diferentes posicionamentos e
que nos permite, enquanto psicólogas e psicólogos do desenvolvimento, construir redes complexas de
significados que tecem identificações e posicionamentos de diferentes pessoas e os resultados desses
estudos nos permitem construir indicadores de como podemos gerar contextos melhores de
aprendizagem e de vida na escola (Góis 2017), na universidade (Carlucci 2013), no hospital (França
2007), em grupos de mulheres (Borges 2006; Caixeta 2006) e de voluntários (Sousa 2011).

Com isto, temos que a entrevista narrativa mediada supõe um delineamento metodológico
multimétodos (Góis 2017) ou multitécnicas, permitindo a triangulação de informações na pesquisa

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pesquisas em desenvolvimento humano

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qualitativa em desenvolvimento. Para Flick (2009), a triangulação é uma estratégia para se aprofundar o
estudo de determinado objeto. Dessa forma, os/as pesquisadores/as podem triangular teorias, métodos
de construção de informações e até eles/as mesmos/as no processo de construção de informações.

Em nosso grupo, utilizamos e valorizamos a triangulação (Flick 2009), ou seja, usamos vários
tipos de entrevistas, com uso de artefatos mediadores para que os/as participantes possam aprofundar
suas narrativas. O uso dos artefatos mediadores costuma trazer informações imprevisíveis para o
processo de investigação dos significados, como aconteceu no estudo de Borges(2006), em que uma das
participantes escolhe trabalhar com uma foto que queimou no ato da relevação, mas cuja imagem-
imaginária ou imagem-pretendida estava presente, para a participante, no ato da narração de um evento
da sua história em que aquela imagem (não)aconteceu. Tal objeto pode significar um ícone mnemônico
de um fato que já não existe mais, como o fenômeno que a participante escolher fotografar. Ou ainda,
quando um participante traz um pincel de quadro branco e explica que aquele pincel representa a sua
voz, a sua voz como professor, que é seu instrumento de trabalho (Góis 2017). Nestes casos, por
exemplo, os participantes se relacionam com um artefato que é não-artefato, ou seja, não é,
necessariamente, o que queriam interagir naquele momento, mas foi o que conseguiram compor para a
interação e nesta intencionalidade aprofundaram suas narrativas, tecendo novos significados de si no
estudo sobre os processos psicológicos socialmente construídos.

Na pesquisa qualitativa do desenvolvimento humano, a construção e a análise das informações


devem trazer a polissemia e polifonia das situações interativas (Bakhtin 1992). Nesse sentido, os
artefatos mediadores são essenciais em nossas pesquisas por permitirem que os/as participantes
possam enunciar as diferentes vozes que os/as constituíram e os/as constituem e, também, construir,
com as pesquisadoras e os pesquisadores, novas possibilidades de significados de si e dos outros que
os/as rodeiam. Além disso, podem provocar uma expansão da consciência no sentido de propiciar um
campo semiótico que expande para além da memória natural, mas que passa a ser mediada. A relevância
de técnicas de pesquisa que possibilitem a polifonia está, certamente, no fato de otimizarem os
processos mentais das pessoas, na interação social e na interação consigo.

A seguir, detalhamos exemplos de diferentes pesquisas narrativas mediadas desenvolvidas por


pesquisadoras do grupo GPCULT.

ENTREVISTA NARRATIVA MEDIADA POR FOTOGRAFIAS


Os primeiros elementos mediadores utilizados nas pesquisas em desenvolvimento humano no
nosso grupo foram fotografias. As fotografias foram escolhidas por serem, decididamente, um material

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pesquisas em desenvolvimento humano

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produzido a partir de um tempo que ficou no passado. Assim, ao descreverem as fotografias, as/os
participantes trazem para o presente um fato passado. Ao rememorar o que aconteceu, constroem
novos significados que dizem respeito ao que foi e ao que ocorreu no momento, mas também ao que
está ocorrendo no presente, com a perspectiva do que poderá ocorrer no futuro. A imagem funciona
como mediadora de uma narrativa presente para um fato que esteve no passado e, desse modo,
colabora para a construção de novos significados sobre o que já havia sido construído. Falar de algo
que já foi indica uma construção dialética entre presente, passado e futuro em que cada fato possui
novas representações diferenciadas e transforma constantemente o pensamento verbal. Para Barthes
(1984), o registro fotográfico é a presentificação do morto: “O efeito que ela reproduz em mim não é o
de restituir o que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de atestar que o que vejo de fato
existiu.” (p.123). Nesse sentido, sua função é dialética, porquanto através do registro do que já não
existe, há a possibilidade de presentificação, de manter vivo o instante passado. E, na captura do
instante, capturam-se também emoções e episódios completos, pois toda foto tem histórias e
interpretações possíveis. O instante apreendido na foto é mediador de uma memória abrangente e
contextualizada do que é apresentado. “A imagem traz informações (visuais) sobre o mundo que pode
ser conhecido de diferentes formas, inclusive em alguns de seus aspectos não-visuais” (Aumont 1993,
p.80).

A pesquisa de Caixeta (2001) buscou identificar os posicionamentos que compunham a


identificação feminina. Para isso, usamos entrevistas narrativas de história de vida e entrevistas
narrativas mediadas por serem um tipo discursivo privilegiado na organização das vivências humanas.
O estudo foi desenvolvido com 12 mulheres, estudantes de um curso de alfabetização para adultos, de
uma cidade satélite do Distrito Federal. As mulheres tinham idade entre 45 e 74 anos. Os dados foram
construídos, em sala de aula do Programa de Alfabetização Solidária, durante treze sessões, que
aconteciam uma vez por semana. Nelas, as estudantes eram incentivadas a conversar sobre o tema
mulher. Em uma das sessões, elas foram convidadas a fazerem três fotografias sobre o ser mulher. Para
isso, elas aprenderam a usar máquinas fotográficas analógicas. Com as fotografias feitas e reveladas,
inclusive, com a ansiedade que cercava esta produção da imagem: será que prestou?, cada mulher
contava o significado das fotografias para as colegas. Nem todas as mulheres tiveram as três fotografias
solicitadas reveladas, porque, em alguns casos, as fotografias haviam queimado. No entanto, cada
mulher tinha, pelo menos, uma fotografia para apresentar no grupo; outras mais que três. Cada sessão
tinha a duração aproximada de uma hora e meia, totalizando 12 horas de gravação em áudio. A análise
temática. dialógica possibilitou a construção de um modelo de identificação feminina, composto por
seis posicionamentos distintos, mas interligados, que foram construídos e assumidos por estas

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Juliana Eugênia Caixeta; Fabrícia Teixeira Borges

mulheres, nas diversas interações sociais que tiveram ao longo das suas histórias e ao longo do processo
de construção de dados. Os posicionamentos foram: esposa, dona-de-casa, mãe/avó, filha, velha e
funcionária, onde existe uma forma de execução para cada posicionamento bem como conseqüências
para cada um deles e para o conjunto deles, sendo a maior consequência dos posicionamentos
femininos o cansaço.

As fotografias foram mediadoras importantes, porque permitiram, nesta pesquisa: a) o registro


da família, haja vista que, por serem de baixa renda, elas aproveitaram a oportunidade para registrar
num produto significado como prova da existência dos/as filhos/as, netos/as, plantas, trabalhos
artesanais que produzem e seus animais de estimação; b) apresentaram os espaços de atuação delas em
suas residências e nas ruas onde vivem; c) apresentaram as atividades que desenvolvem nos diferentes
espaços público e privado e, por fim, afirmaram a dicotomia mulher cuidadeira e mulher cansada. Por
outro lado, elas também apontaram as tensões presentes na identificação feminina, no momento em
que teceram o envelhecimento como uma saída para os posicionamentos tradicionalmente assumidos
por elas. Posicionar-se como mulher velha trouxe uma alternativa para o processo de identificação
feminina e para novas possibilidades de atuação na sociedade. As fotografias foram mediadoras
importantes para o processo de construção de conhecimento de si como mulheres, nesta pesquisa.

Em um outro estudo sobre os significados do “ser professora” (Borges 2012), Joana, nossa
participante, trouxe para nós uma fotografia sobre um momento vivenciado na escola em que trabalha.
Neste estudo, o objetivo era de identificar os significados que as professoras possuíam em relação ao
que entendiam sobre ser professora, nesta interface investigou-se também como as relações entre o ser
mulher, o ser professora e o ser mãe interagiam. Como metodologia deste estudo, fizemos entrevistas
narrativas de histórias de vida e, logo após, foi pedido para que as participantes retratassem, por meio
da fotografia, quais os significados do ser professora. Foi escolhida uma das fotografias de nossas
participantes, Joana, para discutirmos como a fala mediada pela presença da fotografia pode construir
novos significados num jogo entre entrevistadora e entrevistada. O que se observou foi uma ampliação
das informações ocasionada pelo contexto semiótico da imagem apresentada.

ENTREVISTA NARRATIVA MEDIADA POR FOTOGRAFIAS E FILME CINEMATOGRÁFICO


Os resultados das pesquisas com fotografias foram inspiradores para que o grupo optasse por
avançar na utilização de artefatos mediadores nas entrevistas. Por isto, algumas pesquisas, feitas por
nós, utilizam fotografias e filmes comerciais e/ou de arte, num processo multimétodo, como
mediadores na produção de informações, justamente pelo caráter polissêmico da imagem.

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A pesquisa de doutorado de Borges (2006) cujo objetivo foi analisar a construção do conceito
de Olhar em mulheres. Neste estudo, defendemos que os significados são construídos histórica e
culturalmente nas atividades sociais em uma dinâmica polifônica em que estão em jogo as relações entre
os conhecimentos contextualizados anteriormente e as atividades de co-construção de novos
conhecimentos. Para se alcançar esse objetivo, utilizamos a fotografia, o filme “Janelas da Alma” (2001)
e entrevistas narrativas, episódicas e mediadas. Os procedimentos de construção dos dados e a análise
dos dados seguem o paradigma qualitativo, utilizando-se a análise temática dialógica da conversação
para tratamento das entrevistas de história de vida e mediadas por fotografias e pelo filme. Participaram
do estudo quatro mulheres de Goiânia (Sol, Dama-da-Noite, Estrela e Lua), sendo duas casadas e duas
separadas e com pouco hábito de ir ao cinema. As mulheres que participaram do estudo trabalhavam e
eram mães. A exibição do filme foi designada como atividade principal, porque era uma atividade
diferenciada que introduziria novas informações sobre o conceito de Olhar, uma vez que o
documentário discute esta questão. Um outro fato é que a atividade do filme permitiu investigar quais
aspectos pontuariam as mudanças sobre o conceito discutido. Apesar do foco do trabalho partir da
leitura que as participantes teriam do documentário, toda atividade propiciou modificações do
indivíduo. Assim, as entrevistas e a feitura das fotos, mesmo sendo instrumentos para se entender o
objeto de estudo, o Olhar, também eram atividades que participaram da construção, modificando e
reforçando o significado do Olhar nessas mulheres. Foi solicitado às participantes que fizessem
fotografias antes e depois de assistirem ao filme. Após as fotografias feitas, procedeu-se à entrevistas
mediadas por elas.

Os resultados indicaram que as atividades sociais exercidas pelas mulheres orientavam seus
conceitos iniciais sobre o Olhar. Houve uma íntima relação entre suas atividades principais e sua
concepção do que é o Olhar. Mesmo que não exercessem o posicionamento de esposa, como Sol e
Dama da Noite, este posicionamento foi constantemente abordado como característica feminina. Da
mesma forma, a sensibilidade, a religiosidade e o sexto sentido também foram atribuídos à
individualidade feminina. As características da “nova mulher” misturaram-se com os valores antigos,
destacando-se a circularidade da cultura.

Assistir ao filme “Janelas da Alma” foi uma atividade que possibilitou a mudança dos
significados que compõem o conceito de Olhar. As mudanças não são descontextualizadas das
experiências das participantes, ao contrário, foram suas vivências que possibilitam uma nova
composição dos significados que incluiu significados aprendidos na atividade de assistir ao filme. O
fotografar também possibilitou uma nova reflexão sobre o Olhar mediada pela máquina de fotografia.

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A fotografia é a possibilidade de ver um mundo selecionado e mediado por um instrumento que


registra. O fato de ficar registrado altera a forma de olhar. A pose, tal como Barthes (1984) comenta, é
o que fica registrado, não em uma folha de papel, mas em um momento do pensamento. A pose é o
Olhar apreendido pela câmera de fotografia, mas também é o Olhar internalizado pelo registro do
pensamento na atividade de fotografar. O momento imortalizado em sua forma estática serve como
mediador de uma futura memória. As mudanças nas fotos, após assistirem ao filme, aconteceram de
uma posição individualizada para um universo social mais amplo. As fotos iniciais permitiam a fala
principalmente do que as participantes eram e do que gostavam, enquanto aquelas tiradas depois do
filme permitiram uma reflexão por parte das participantes acerca do mundo e sua abrangência passou a
ser mais social e reflexiva envolvendo discussões sobre os valores, as dificuldades do mundo
contemporâneo e o melhor jeito de se viver.

Uma das preocupações de se usar filmes e fotografias como mediadores em entrevistas é de se


entender que estes mediadores são culturalmente produzidos e, portanto, com significados e histórias
próprias. Assim, é importante que se compreenda como estes artefatos aparecem em cada cultura, e
como os grupos e os/as participantes interagem com estes significados.

ENTREVISTA NARRATIVA MEDIADA POR OBJETOS


A primeira pesquisa desenvolvida no grupo GPCULT com a mediação de objetos foi a
pesquisa de doutorado de Caixeta (2006), que teve por objetivo compreender, por meio da oralidade,
imagens e de objetos guardados, como mulheres guardiãs da memória narram sua história de vida e
constroem esta identidade, entendendo por guardiãs da memória mulheres que têm a prática de guardar
objetos que compõem os museus familiares (Barros 1989; Gomes 1996; Pereira 2003), por exemplo:
desenhos, bonecas, terços, fotografias, boletins, umbigo, cachinhos de cabelo, entre outros.

A construção dos dados aconteceu em quatro encontros:

a) no primeiro encontro, antes de se iniciar qualquer conversa e gravação, foi lido o termo
de consentimento para participação em pesquisa. Após este procedimento e a aceitação
formal da participante, demos início à construção dos dados propriamente ditos, por
meio da técnica do relato de vida. Neste momento, pedíamos a cada senhora que nos
contasse a sua vida, da forma como desejasse.
b) O segundo encontro foi destinado para a entrevista episódica, que tinha o objetivo de
conhecer a função de guardiã da memória da família e os guardados de cada senhora.
Para tanto, foi utilizado o roteiro de entrevista. Apresentamos, aqui, as perguntas

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realizadas: a senhora me disse que guarda algumas coisas (como: fotografias, roupas,
objetos, cartões, cachinhos de cabelo, citar, se necessário). Que coisas a senhora
guarda? A senhora pode me mostrar? (Caso a senhora faça coleção de fotografia, será
pedido que ela mostre o álbum, se possível, e escolha 10 fotografias para serem
estudadas com mais detalhamento); 2- Quando a senhora olha para o passado, a
senhora se lembra de quando foi a primeira vez que guardou essas coisas? A senhora
pode me contar como foi?; 3 – A senhora pode me dizer como é que escolhe se vai
guardar ou não determinada coisa. A senhora pode relatar uma situação em que teve
que fazer essa escolha?; 4 – Com quem a senhora compartilha esses guardados? A
senhora mostra para alguém? Em que ocasiões?; 5 – A senhora gostaria de acrescentar
alguma coisa? Como a senhora está se sentindo?; 6 – A senhora quer passar esses
guardados para alguém? Quem?
c) o terceiro encontro foi destinado à entrevista mediada propriamente dita. Nela, foi
priorizada a fala sobre as imagens e os objetos escolhidos. Neste momento, a
pesquisadora pedia para que a guardiã falasse sobre as suas escolhas: por que este
objeto/esta imagem e não outro/a? e, ainda, o que significa este/a objeto/imagem,
para você?
d) No último encontro, as guardiãs eram convidadas a acrescentar o que quisessem as suas
narrativas e processo de construção das informações com as guaridas era encerrado.

Para a análise das informações, utilizamos para a análise das fotografias: a análise dialógica da
imagem parada (Penn 2003) e, para as informações linguísticas, a análise temática dialógica (Caixeta
2001; Caixeta & Barbato 2004; Fávero & Mello 1997; Amatuzzi et al. 1994).

Os objetos mediadores tiveram triplo impacto sobre a atividade narrativa das guardiãs.
Primeiro, eles funcionaram como mapas de eventos, orientando as narrativas de si nos diferentes
tempos da narrativa: tempo do ciclo de vida, tempo das gerações, tempo da vida e da morte e nos
diferentes espaços: geográfico, social e afetivo (Caixeta 2006). Segundo, funcionaram como provas da
existência de pessoas e eventos vividos. Terceiro, acrescentaram novas experiências de vida, incluindo
diferentes práticas de colecionar, portanto, diferentes posicionamentos como guardiã, informações
relevantes para um estudo sobre identidade e memória e 4º. demonstraram que o posicionamento
guardiã da memória é dinâmico, intencional e criativo. As narrativas a seguir tem o objetivo de
exemplificar essas conclusões:

Júlia: levei e arrumei [as coisas do meu pai] (...), depois eu trouxe tudo de volta, comprei as
pastas, aí trouxe de volta e mostrei pra cada um, cada um teve uma reação super legal. (...)

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Juliana Eugênia Caixeta; Fabrícia Teixeira Borges

[Meu irmão] teve uma reação surpreendente que ele começou a chorar assim a coisa abalou
mais que todo mundo porque eu por ter esse todo esse material assim já a gente vai se
acostumando. Eu trouxe as pastas organizadas do meu pai do álbum da minha mãe, fica ali no
quarto de TV e qualquer um que sentar ali, sempre fica mexendo já viu mais está sempre
vendo o álbum, remexendo porque ta próximo, então, senta e gosta de ver, né.” (Caixeta 2006
p. 162).

Ana: Uma vez eu descobri um desenho que um tio meu fez quando era adolescente, um
desenho mais maravilhoso do mundo, ele desenhava bem pra caramba. Mandei enquadrar mas
alguém veio: “Como esse desenho foi parar com a Ana?”; eu não faço ideia! Não sei se eu
roubo porque era um desenho muito famoso na família e porque que eu o tinha. Não me
pergunta porque eu não sei, acho que eu vou olhando e vou me encantando, de repente, acho
que ele é meu. Faz parte de mim (Caixeta 2006 p.163)

E continua...

Ana: momento de decidir, ah, este eu não sei não. É um momento assim do meu lado frio,
determinado que eu posso me desfazer de alguma coisa. Term a ver com a minha capacidade
de guardar mesmo, espaço, não tenho muito espaço, e às vezes não é isso não, às vezes é
capítulo, esse capítulo eu quero mudar, sabe. Ficar muito apegada a algum objeto que às vezes
me remete a uma falta de vontade de mudar, de tomar outros rumos (...). É que eu coleciono
tanta coisa que acho difícilimo, a parte mais difícil é desfazer, não é só com o espaço, mas é
principalmente vontade de mudar. Então, eu vejo que alguns objetos são estruturantes, estes
têm que ficar, são estruturantes da minha história, da minha pessoa: cartas; algumas dessas
coisas estão guardadas de forma aleatória, não estão organizadas bonitinhas não. Eu só
organizado quando pego um desafio. Como eu nunca peguei o meu, ainda está assim. Imagens,
fotos, pra mim, são fundamentais. (Caixeta 2006 p. 175).

Os objetos guardados e escolhidos para serem compartilhados na entrevista mediada, com


cada participante, foram os mais variados possíveis: casa, móveis, brinquedos, bordados, roupas,
documentos, desenhos, entre outros. No entanto, um dos guardados especiais das guardiãs foram as
fotografias. Elas parecem ter um valor especial por possibilitarem a visão do outro em uma imagem que
possibilita a projeção de sentimentos, valores, enfim, significados que vão ser construídos no momento
da visão da imagem. As fotografias pareciam reforçar a idéia da comprovação. Ficou evidente, na fala
das guardiãs entrevistadas, o valor afetivo e social conferido às imagens fotográficas, principalmente
àqueles álbuns fotográficos herdados da família. O material imagético é um convite à narração e à visita
da história de suas famílias.

ENTREVISTA NARRATIVA MEDIADA POR LETRAS DE RAP


A pesquisa de Alves et al. (2016) teve como objetivo compreender os significados
relacionados a gangues e seus impactos nas vivências de professores e moradores de um bairro
periférico de Brasília, Distrito Federal, Brasil, a partir da análise de narrativas, mediadas por trechos de
letras de música de RAP. Optamos pelas letras do RAP como mediadoras das narrativas, por conta de
ser um ritmo reconhecido como “a voz da periferia” (Andrade 1999). Foram selecionados 13 trechos
de letras de RAPs que mais apresentaram relação com os conceitos estudados na teoria, tais como
ações, representações e modo de relação das gangues (Zilli 2015). Participaram da pesquisa nove

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moradores de bairro periférico e duas professoras. Como técnica de pesquisa, utilizou-se a entrevista
narrativa mediada por letras de RAP, cujo roteiro de entrevista foi composto por apenas uma pergunta,
antecedida pela leitura de trechos de músicas de RAP: Qual a relação desta letra de RAP com suas
vivências? Para a análise das narrativas, usamos a análise temática dialógica (Fávero & Melo 1997).

O uso de trechos de letras de música de RAP nesta pesquisa foi essencial para: a) aproximar
os/as pesquisadores/as da realidade vivida pelos/as entrevistados/as, especialmente, porque os/as
entrevistados/as, moradores/as da periferia, foram abordados/as na rua e não conheciam previamente
os/a pesquisadores/a; b) apresentar o objeto da pesquisa que se trata de um tema delicado: gangue; c)
permitir o contexto narrativo adequado para a narração de experiências complexas vividas na periferia,
como, por exemplo, a submissão à lei silenciosa das gangues, haja vista que a análise identificou que o
lugar periferia apresenta especificidades quanto a sua construção sociocultural que só pode ser
entendida a partir das relações humanas que lá se estabelecem. O lugar não é simplesmente um espaço
físico, senão um espaço social de construção de si e do outro, numa relação contínua de troca. Nestas
relações, as leis são tecidas de forma a orientar comportamentos neste espaço periférico, com base em
razões que são construídas pelas próprias gangues. Desta forma, a periferia experiencia, num estado de
direito, a contradição de viver sob a égide da lei marginal que define territórios, crenças e
comportamentos; que, por outro lado, reage por meio da arte, a arte da rua, do RAP, que denuncia a
exclusão social e as possibilidades de transformação social que emergem do confronto e do encontro
com as pessoas marginalizadas e não somente marginais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando a entrevista como um momento privilegiado de construção de conhecimento
sobre um tema específico entre participante e pesquisador/a, defendemos o uso dos artefatos
mediadores como elementos capazes de fomentar a reflexão e o posicionamento das pessoas sobre as
diferentes temáticas da pesquisa em desenvolvimento humano. Para isso, defendemos a entrevista
mediada como aquela que possibilita o aprofundamento das narrativas de si, porque problematizam a
situação narrativa, apresentando novos contextos que estimulam falar de si.

Além disso, entendemos que a técnica da entrevista narrativa mediada pressupõe o uso de
diferentes técnicas de pesquisa, garantindo a triangulação referente à utilização de uma variedade de
estratégias de construção de informações, o que favorece a construção de conhecimento em psicologia
do desenvolvimento. A expansão da consciência, provocada pelo contexto dos artefatos mediadores
das entrevistas, faz com que a produção de informações seja ampliada e traz novas polarizações nas

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discussões estabelecidas entre os/as interlocutores/as. Este processo é favorecedor das investigações
sobre o sujeito na construção de si mesmo/a e sobre o outro.

As entrevistas mediadas propiciam um avanço das técnicas de entrevistas uma vez que vem
ampliar a possibilidade de informação e ao mesmo tempo um aprofundamento dos contextos
informativos através dos quais os/as interlocutores/as interagem e geram novos significados. Portanto,
vem ao encontro de solucionar um dos maiores problemas das pesquisas humanas e, em especial, as de
psicologia, que é o acesso a conteúdos subjetivos que nem sempre aparecem nas entrevistas narrativas
apenas pela linguagem, sendo necessária a presença de artefatos, que são capazes de mediar a interação
pela ampliação de contextos que viabilizam e enriquecem a produção de significados sobre si mesmo/a,
os outros e suas relações.

AGRADECIMENTOS
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; CAPES -
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; FAPITEC – SE – Fundação de Apoio
à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe; Instituto Bancorbrás de Responsabilidade
Social.

REFERÊNCIAS
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um estudo sobre concepção de gangues. Anais. 5º Congresso Iberoamericano de Investigação Qualitativa,
Investigação Qualitativa em Ciências Sociais, 3(1):544-553.

Amatuzzi MM, Bonito AM, Echeverria DF, Brisola EBV, Neubern L 1994. Relatos de acontecimentos
marcantes da vida: uma via de acesso a identidade pessoal. Psicol. Relfex. Crit., 7(2): 93-123.

Andrade CC 2007. Entre gangue e galeras: juventude, violência e sociabilidade na periferia do Distrito Federal. Tese
de Doutorado, Universidade de Brasília, Brasília, 276 pp.

Aumont A 1993. A imagem. Papirus, Campinas, 336 pp.

Bakhtin M 1981. Problemas da poética de Dostoiévski. Forense-Universitária, Rio de Janeiro, 366 pp.

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From the Narrative Interview to the Mediated Narrative Interview:


definitions, characterizations and uses in human development
researches

ABSTRACT

The purpose of this article is to define and characterize the narrative interview mediated from the
experiences of research in human development, carried out by the research group in Thought and
Culture, University of Brasilia. For that, twelve texts: four master's dissertations, five doctoral theses
and three articles were analyzed. The mediated narrative interview is a research technique that favors
the study of phenomena in human development by allowing the deepening of the narratives, with the
inclusion of new characters and relationships among them; In addition to specific voices and positions,
generated by the interaction context of the participant with the mediator artifact.

Keywords: Mediated Narrative Interview; Narrative Interview; Psychology of Development..

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