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DIALOGISMO: CONCEITOS, PRÁTICAS E REFLEXOS NA

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Fabrícia Teixeira Borges


Juliana Caixeta
Angélica Piovesan

PARTE I – A teoria dialógica

1.1 Introdução
Neste texto pretendemos trabalhar o conceito de dialogia nas práticas da educação
à distância. Precisaremos constantemente de vocês como nossos leitores, pois estaremos, ao
longo, desta leitura convocando-os a pensar e a dialogar conosco. Pretendemos construir um
texto dialógico. E ai? Vamos começar? Leiam o trecho abaixo:

O texto acima refere-se a um trecho do conto “Memória do subsolo” de Dostoieviski,


publicado em 1964, na Rússia, na revista literária Época, fundada por Dostoievski e seu
irmão Mikhail. O romance conta a história de um homem que não revela seu nome, isso não é
necessário no texto. Ele é uma pessoa desencantada, angustiada e pessimista que decide
escrever o romance na intenção de ter feito alguma coisa em vida. É um romance que faz
criticas à sociedade moderna. O livro retrata idéias de um personagem que se expressa em
diálogo com o leitor.
Observem como o escritor, neste trecho, chama o leitor para participar de suas
angústias, de suas dúvidas. Ele conversa com o leitor e o insere em seus pensamentos. Este é
um exemplo de romance dialógico. A prática dialógica implica em um diálogo constante em
que um discurso ou enunciação (BAKHTIN, 1981) convoca o outro a responder a proposta
(responsividade) e assim constantemente, construindo um diálogo. Isso implica dizer que
todo nosso conhecimento é construído nas interações que estabelecemos uns com os outros
pelos diálogos que travamos! Então, convidamos você para travar conosco o diálogo sobre a
dialogia na educação a distância! Sejam bem-vindos!

1.2. Dialogia e dialogismo

O dialogia é um conceito estudado por muitos teóricos da lingüística, da


psicologia, da filosofia e também da pedagogia, merecendo destaque, o professor Paulo
Freire.

Você conhece as obras de Paulo Freire? Não?!


Então, acesse os livros dele no site: www.dominiopublico.gov.br
Paulo Freire constriuiu sua teoria tendo por base ideias dialógicas:
“ O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se
confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permantente movimento na História” (Paulo Freire em
Pedagogia da Autonomia, 2003, p.136)

Cada autor, em sua posição epistemológica1, concebe o conceito de dialogismo e


de dialógico de uma forma, porque cada autor vive em um contexto sociocultural e
ideológico específico que influencia a construção de sua teoria. Neste capítulo, escolhemos
apresentar e dialogar com você sobre a proposta do filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin.
Você conhece Bakhtin? Já ouviu falar nele?

Mikhail Bakhtin (1895-1975) nasceu em Oriol, localizado no sul de Moscovo ou Moscou, capital da Rússia. Estudou na
Universidade de Odessa, depois na de São Petersburgo, onde se formou em História e Filologia (é a área do conhecimento
responsável por estudar textos literários) em 1918. Pertenceu a um pequeno círculo de intelectuais e de artistas onde
conheceu V.S. Volochinov que se tornou admirador ardoroso de Bakhtin. Em 1923, Volochinov e Medviédiev
ofereceram seus nomes para Bakhtin divulgar suas idéias, possibilitando a publicação de suas primeiras obras: O
Freudismo (1927) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929) sob o nome de Volochinov, O Método Formalista
Aplicado à Crítica literária, Introdução Crítica à Poética Sociológica (1928) sob a assinatura de Medviédiev.
Em 1929, Bakhtin publicou o primeiro livro com o seu nome denominado de Problemas da poética de Dostoievski. Nos
anos 30, Volochinov e Medviédiev desaparareceram. Em 1936, Bakhtin vivia na fronteira da Sibéria e do Casaquistão em
Kustanai. Defendeu sua tese sobre Rabelais em 1946. A partir de 1963, houve a reedição da sua obra sobre Dostoievski
(1963) e de sua tese sobre Rabelais. Morreu em 1975 em Moscou.
Na obra Problemas da poética de Dostoievski, reeditada em 1963, Bakhtin trabalha como tema central a literatura de
Dostoievski, discutindo o romance como gênero relacionada à linguagem literária ou não. Nesta obra, surge o conceito de
polifonia, termo que se tornou criado para representar uma nova construção literária. Dostoiévski foi o criador de um
novo gênero literário, denominado romance polifônico. As vozes que ressoam no seu texto não se sujeitam ao narrador
como acontece em outros modelos de romance, essa multiplicidade de vozes é o que marca os textos de Dostoievski.

1
Epistemologia tem a ver com a concepção de cada autor/a sobre o mundo e os fenômenos que
o/a cercam e como ele/ela vai estudar esses fenômenos a partir das concepções que tem. Em outras palavras,
epistemologia significa teoria do conhecimento ou, de forma mais fácil, o conhecimento que produzimos sobre
o conhecimento. (Ver CHAUÍ, 1999)
Para Bakhtin (2005; 2000; 1992), a produção linguística é essencialmente
dialógica, formada na interação social, pelos processos de comunicação. No entanto, nem
sempre os teóricos pensaram assim, especialmente, na cultura ocidental. Os ingleses, por
exemplo, desenvolveram uma teoria univocal, onde a comunicação humana seria uma
transmissão de informações, ou seja, o falante (ativo) impregnaria suas palavras com
pensamentos e sentimentos, cabendo ao ouvinte (passivo) extraí-los, ou seja, uma única
mensagem é falada e entendida. (BAKHTIN, 1992a; MARKOVÁ, 1990).
Porém, na proposta de Bakhtin o sujeito é interativo e está em constante relação
com o outro social. O termo dialogismo que é compreendido como o espaço interacional
entre o EU e o TU ou entre o EU e o OUTRO. Ou ainda, nas palavras de Marková (1992):
“dialogismo é uma abordagem interindividual e intertextual de estudar a mente e a linguagem
humanas” (p.45). Daí, deriva-se a dialogia que é o processo de construção de conhecimento
que acontece na interação EU-OUTRO, mediada pelo processo de comunicação.
Nesta perspectiva, a comunicação é um fenômeno social, isto é, está sempre
dirigida a um outro, podendo esse outro ser você mesmo (BAKHTIN, 1992a; 1992b; 1981;
MARKOVÁ, 1990, 1992; WERSTCH,1991, LOTMAN, 1990). Por exemplo, quando você
vai a uma festa de formatura, você se arruma todo/a: passa perfume, escolhe uma roupa
elegante, apropriada para a ocasião, calça um sapato especial e aí, você olha no espelho e fala
com você mesmo/a ou pensa: “Nossa, como estou elegante!”, ou ainda, “Uhm, preciso ajeitar
meu terno aqui”, ou então, “Uhm, preciso colocar um alfinete para assentar esse vestido um
pouco mais”. Esses são exemplos de diálogos direcionados a nós mesmos.
Para Bakhtin (2005; 2000; 1992), mesmo que o diálogo aconteça para nós
mesmos, ele é fruto de interações sociais. Vamos entender? Para Bakhtin, o diálogo se
concretiza entre duas ou mais pessoas ou personagens. Quando conversamos conosco
mesmo, realizamos um diálogo entre um EU e um outro EU, que faz parte de mim também,
já que nossa identidade é formada por um conjunto de posicionamentos que nós ocupamos no
mundo (CAIXETA & BARBATO, 2004; CAIXETA, 2006). A idéia de um “outro Eu” está
relacionada ao conceito de vozes, desenvolvido por este autor. Voltemos ao exemplo da
formatura em que nós falávamos conosco mesmos diante do espelho, quando eu me pergunto
se estou elegante, eu já tenho algumas informações sobre o que é, dentro do meu grupo
social, estar elegante para uma festa de formatura. Assim, eu estou conversando comigo
mesmo/a, mas sei que o conceito “estar elegante para formatura” não foi criado por mim, mas
por meu grupo social em uma determinada época! Por exemplo, se eu estivesse indo para
uma festa na Belle Époque, certamente, usaria chapéu, mas, atualmente, o chapéu não é
acessório nas nossas festas!
Atividade:
Assista ao filme Meia noite em Paris, de Woody Allen, que retrata a Belle Époque.

Assim, temos que as pessoas compartilharam conosco, ensinaram-nos, o que é “estar


elegante para a formatura”, por meio dos diálogos que travamos com elas! Então, para
explicar esse fenômeno, Bakhtin criou o conceito mais importante da teoria dialógica dele: a
polifonia! Polifonia significa diferentes sons.
Nossas palavras não são ‘nossas’ apenas; elas nascem, vivem e morrem na fronteira
do nosso mundo e do mundo alheio; elas são respostas explícitas ou implícitas às
palavras do outro, elas só se iluminam no poderoso pano de fundo das mil vozes
que nos rodeiam (TEZZA, 1988, p. 55).

Bakhtin construiu o conceito de polifonia por meio da arte musical. Percebam que
interessante! Ao ouvir os coros medievais, Bakhtin percebia que o coro monofônico foi, aos
poucos, transformando-se em polifônico em que as vozes e sons ora se encontravam, ora de
desencontravam, formando sonos harmônicos e desarmônicos na execução dos corais, mas na
busca de um som que fosse múltiplo em sua unidade:

Idade Média. Período da multiplicidade das vozes ligadas a uma principal (estilo
do organum com execução do mesmo texto por várias vozes ao mesmo tempo, e
sílaba por sílaba, dependendo do ritmo do texto, e, no século XIII emancipando-se
violentamente do domínio do ritmo da linguagem, em motetos a várias vozes)
(REIMANN, 2000)

Assim, a comunicação é um encontro de diferentes vozes que se alternam numa


relação de poder, mas que definem juntas e, ao mesmo tempo, um contexto social e subjetivo.
Nesse momento, há o estabelecimento do eu sou, tu és e o nós somos (Barbato-Bloch, 1997).
Vamos ver como isto acontece na música, para podermos aplicar este conhecimento novo em
nossas relações verbais, certo?

1.3. O Conceito de Vozes – a polifonia na música

A música é composta dentre outras coisas pela melodia. No exemplo abaixo


podemos perceber 4 melodias (Soprano, Contralto, Tenor e Baixo) que são distintas e
independentes. Seguindo horizontalmente cada uma delas, pode-se perceber o que se chama
de desenho melódico. Quando estas 4 diferentes vozes (Soprano, Contralto, Tenor e Baixo)
são cantadas simultaneamente entram em harmonia formando uma outra unidade a qual
chamamos harmonia. No exemplo da música “Aleluia” podemos notar claramente as quatros
vozes independentes e sobrepostas formando o que se chama polifonia, ou seja, várias vozes
cantadas simultaneamente. Aprofundando ainda mais nossa análise, podemos citar outras
vozes o ritmo, o tempo e a duração que também podem ser considerados como as vozes da
música (LINS DE BARROS, 2008).

Para Ouvir e Curtir:


http://www.youtube.com/watch?v=ZwCMYh5KeUo

1.4 Para resumir: então, o que é Polifonia?


A polifonia é a composição de vozes que dão sentido ao que se quer representar.
Também é ela quem dá vida às palavras, são as vozes que tornam as palavras Polifônicas.
Estas vozes são representadas pelo discurso interior e o exterior (BAKHTIN, 2000).
O dialogismo de Bakhtin se fundamenta na certeza de que muitas vozes estão
influenciando a comunicação. Brait (1994) define vozes como diferentes pontos de vistas,
vindos de diferentes lugares sociais que se misturam na produção de conhecimento. Na
verdade, essas vozes não são apenas aquelas físicas, concretas, presentes no momento da
conversação, mas todas aquelas imaginárias e vindas do grupo ao qual pertencemos. Nesse
sentido, a geração de novos significados perpassa os planos inter e intramental, ou seja, a
mensagem enviada e recebida não tem um sentido único, pelo contrário, é fruto da
negociação na interação entre locutores e entre indivíduo-coletividade (Wertsch, 1991).
O poema de Paulo Leminski expressa um pouco do que queremos dizer, vejam:
vozes a mais
vozes a menos
a máquina em nós que gera provérbios
é a mesma que faz poemas,
somas com vida própria
que podem mais que podemos
(Paulo Leminski)

1.5 De ouvintes-passivos a locutores – ser participante da palavra

O impacto de tudo isto é no sentido de considerar como se dão as comunicações


entre as pessoas, entre si mesmo, e consequentemente, na forma de conceber a si mesmo e na
construção do conhecimento sobre si, o outro e o mundo em que vivemos. O dialogismo vem
mudar, então, a visão do ouvinte-passivo e falante-ativo, tanto um como o outro são
chamados de locutores. Esta não se trata apenas de uma mudança de nomenclatura, mas de
postura já que o ouvinte apresenta uma reação diante daquilo que lhe é falado, tornando-se,
portanto, locutor também: “ a compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre
acompanhada de uma atitude responsiva ativa (...); toda compreensão é prenhe de resposta e,
de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se locutor” (BAKHTIN,
1992, p.290).
E nesse jogo de diferentes vozes e poder, os locutores vão definindo suas
realidades sociais e verificando suas idéias sobre quem são e sobre como o mundo é,
construindo e modificando vários significados e conhecimentos. Mas para que isto ocorra,
vale lembrar que os locutores estão num contexto onde cada um tem certo entendimento
sobre a cultura e as possíveis perspectivas assumidas no processo comunicativo. Em outras
palavras, os locutores encontram-se numa semiosfera, ou seja, num espaço de significado que
compõe a cultura onde eles estão e que é compartilhado por ambos, no caso do diálogo, ou
por todos numa conversação mais ampla. Assim, a semiosfera é um espaço gerador de
informações, inclusive, no sentido de apontar o que é adequado ou não para aquela cultura
(BARBATO-BLOCH, 1997; LOTMAN, 1990).
Retornando ao nosso exemplo, quando chegarmos à festa de formatura, iremos
parabenizar os formandos pela conquista, conversar sobre como foi árduo concluir o curso de
graduação. Todo esse contexto da formatura gerou a construção de uma semiosfera, ou seja,
de um conjunto de conhecimentos possíveis de serem compartilhados com as pessoas durante
o evento. De forma que você e seus parceiros de diálogo não precisavam explicar um ao
outro, o tempo todo, o que é uma formatura e como se comportar. Essas informações já eram
sabidas por todos, naquele contexto sociocultural da formatura.
Por exemplo, leia o diálogo que foi travado por Júlia e pela atendente Ágatha:

A: _Alô, boa noite! Aqui quem fala é Ágatha.


J: _ Oi, Ágatha, boa noite. Querida, eu estou precisando de um táxi para ir a uma
festa de formatura.
A: _ PRONTO, Vou chamar.
J: _ Pronto? O táxi já está aqui?
A: _Não, não senhora. Eu disse que vou chamar.
J: _Ah, tá certo! É que você disse: pronto?!
A: _ Pronto, que vou chamar um táxi.
J: _ Ah, tá certo. Obrigada!
A: Por nada!
Percebam, no exemplo acima, como a mensagem teve que ser construída pelas
locutoras do diálogo. Júlia não sabia que a palavra pronto no lugar em que ela estava,
significava “certo”, “ok”, assim, ela se confundiu quando a atendente disse, ao mesmo tempo,
“pronto” e “vou chamar”. Para resolver o problema, elas continuaram conversando para
compartilhar os significados que “pronto” tinha para uma, para a outra e para o contexto da
interação. Após o compartilhamento de significados, elas conseguiram solucionar o problema
de compreensão.
Bakhtin (2005; 2000) explica que todo diálogo que travamos é polifônico e apresenta
a necessidade de negociação. Para explicar esse fenômeno, ele se vale da física. Ele explica
que quando a linguagem é usada duas forças entram em ação: a centrípeta e a centrífuga.
Enquanto a primeira tende para o centro, ou seja, para a manutenção do conhecimento tal
como ele está; a centrífuga tende para a transformação, a mudança de sentido. A este embate
de diferentes vozes e cultura, Bakhtin chama de intertextualidade.
Como Linell (1990) enfatiza, os contextos são fenômenos semióticos, ou seja, repletos
de significados e co-construídos nas relações sociais dos indivíduos e seus grupos. Em nosso
exemplo a formatura é repleta de significados sociais, que foram construídos pelos vários
grupos humanos, no decorrer da história.
Ainda para este autor, não cabe falar em contexto e sim em contextos na medida em
que este é um conceito multifacetado composto por aspectos perceptivos (espaço físico) e
abstratos (conhecimento prévio sobre o assunto do diálogo; sobre as pessoas envolvidas; tipo
de encontro e atividade; e conhecimento geral sobre o mundo, incluindo o senso comum).
Então, uma coisa é conversar com as pessoas sobre a formatura no salão em que ocorre o
baile com os pais do/a formando/a e outra é conversar com as pessoas da sua família sobre o
baile no dia seguinte. Os contextos são muito variados e eles oportunizam o
compartilhamento de determinados significados em detrimento de outros.
Resumindo, temos que a teoria dialógica de Bakhtin é composta por quatro
elementos: interação verbal, responsividade, enunciação concreta e ideologia dos grupos.
Sempre que nos comunicamos com outra pessoa ou grupos, estamos em interação verbal. A
interação será sempre mediada pela palavra, pois é ela que nos permite ao ver um quadro,
pensar sobre ele e responder ao estímulo que nos provoca. Ex. Como é bonito!
A responsividade implica em construir uma resposta ao processo comunicativo.
Esta resposta pode ser ou não em forma de enunciado concreto, ou como dizemos também,
em forma de um discurso externo. “Percebe-se que a relação dialógica não acontece somente
entre discursos interpessoais (seja escrito ou verbal), embora tenha se originado dentro dessa
concepção; ela abarca a diversidade das práticas discursivas de maneira mais ampla e
aberta.” (SOERENSEN, 2009, p.2);
Já a enunciação concreta refere-se em um direcionamento ao outro: “a
enunciação, como concretização (nas falas externa e interna ou na escrita) de um movimento
interno potencial, tem sua origem no Outro e é endereçada sempre a ele” (BARBATO-
BLOCH, 1997, p.15). A enunciação envolve um processo comunicativo com sentido
completo, ou seja, que o outro nos entenda, envolvendo desde um texto completo a um aceno
de mão, significando “Tchau”.
E a ideologia dos grupos? O que podemos dizer sobre ela? As pessoas são
organizadas de forma ideológica através dos signos construídos em suas culturas. A língua é
um conjunto de signos que refletem esta ideologia. Ex. ter um diploma de graduação significa
ter passado por uma universidade, construído um conhecimento relativo a uma profissão e
estar apto a usar alguns conceitos teóricos e que regulam a forma de pensar de agir deste
profissional.
Estes elementos são conceitos muito interessantes que nos provocam, vejam: a
interação entre as pessoas acontece apenas de forma verbal? O que é uma interação verbal?
Existem outras formas de interações? O que implica para nós falarmos de uma interação
verbal?
Claro que temos muitas formas de interação: a gestual, a sensorial e por aí vai...,
mas o que nos interessa aqui é como a linguagem participa e promove esta interação:

No movimento de interação social os sujeitos constituem os seus discursos por meio


das palavras alheias de outros sujeitos (e não da língua, isto é, já ideologizadas), as
quais ganham significação no seu discurso interior e, ao mesmo tempo, geram as
réplicas ao dizer do outro, que por sua vez vão mobilizar o discurso desse outro, e
assim por diante. A noção de interação verbal via discurso é gerada pelo efeito de
sentidos originado pela seqüência verbal, pela situação, pelo contexto histórico
social, pelas condições de produção e também pelos papéis sociais desempenhados
pelos interlocutores. Ou seja, além dos aspectos lingüísticos as condições de
produção do discurso são definitivas para compô-lo; e isso não se aplica somente à
interação verbal face a face, mas adentra o discurso romanesco. [e outros]
(acréscimo nosso) (SOERENSEN, 2009, p. 4-5).

Cada enunciação está direcionada para um grupo específico, o que garantirá que
estas pessoas entendam o que estamos dizendo. Ou seja, a minha fala contém o outro e ele
participa ativamente de como me organizo para escrever ou falar. Existe sempre um eu-para-
o-outro, um eu-para-mim e um outro-para-mim. Todos estes aspectos participam de um
diálogo. Sempre que falo é para outro, é a partir do que ele representa para mim, do que eu
penso de mim, do que eu penso que ele pensa sobre os temas que estamos conversando. Por
isso, a interação verbal exige negociação de significados, para que, juntos, possamos
construir espaços de compartilhamento que permitam a comunicação, que, para Bakhtin é
construção interativa e, também ideológica.
Na interação verbal, nós inserimos o outro em nosso discurso. O que dizemos não
é para qualquer pessoa, mas é direcionada a uma pessoa que possui certo saber sobre as
temáticas que estamos dialogando. Este saber sobre o que estamos falando poderá ser
diversos níveis, por exemplo, um professor e um aluno conversando sobre o que é educação.
Os dois possuem conhecimentos específicos sobre o tema, e em níveis diferentes, podemos
inferir que um possui um saber mais cotidiano sobre o que é a educação e o outro mais
acadêmico. Percebemos que em um diálogo temos hierarquias diferentes que se revezam
conforme o diálogo oscila entre os locutores e são negociados por eles. E é assim que o
conhecimento é construído e compartilhado.
Neste texto, por exemplo, queremos encontrar com pessoas que pensam a EaD,
que constroem seu conhecimento em uma perspectiva que não estão face-a-face. Mas, o fato
de não estarem face a face não impede que tenhamos uma interação verbal e,
consequentemente, um diálogo.
Este é um ponto importante. O diálogo não acontece apenas na conversa face-a-
face, ou seja, presencialmente. Ele acontece sempre que temos uma enunciação concreta e
uma responsividade a ela (BORGES, 2008; BORGES e LINHARES, 2008). Esta enunciação
pode ser uma fala, um email, um texto, uma imagem, um gesto, uma música. A
responsividade implica em construir uma resposta ao processo comunicativo. Esta resposta
pode ser ou não em forma de enunciado concreto, ou como dizemos também, em forma de
um discurso externo. No romance de Dostoievski, no início de nosso capítulo, não
necessariamente, estaremos respondendo diretamente ao escritor sobre o que nos foi
perguntado como seus leitores, mas o diálogo travado será entre o texto lido e nossos
pensamentos e imaginação, o que aqui chamaremos de discurso interno.
Para refletir:

Imagine um professor ao planejar e ministrar sua aula. Quando ele está


planejando, ele necessita saber: quem são seus alunos, qual a idade deles, qual a
etapa educativa em que se encontram – isto é o Outro.
Precisa saber o seu papel, quem é ele como professor e como ele
poderá exercer esta atividade de ministrar esta aula – isto é o eu-para-mim.
E pensa em atender as expectativas do que os alunos esperam dele –
isto é o eu-para-o-outro.
Pensa, também, em qual a melhor forma de mediar aquele
conhecimento e que tipo de informações os alunos já têm sobre o assunto que ele
mediará na aula – isto é o outro-para-mim.
Então, quando ele for para a sala de aula, presencialmente, estará
promovendo o encontro em que acontecerá a enunciação do discurso planejado.
Que claro, modificará a cada interação concreta com os alunos. A cada pergunta,
cada gesto, cada intervenção dos alunos e do professor – isto é dialogia!
E, na educação à distância como fica isto se o encontro presencial não é
sua principal caraterística? Que tipos de encontros temos na EaD? Você já pensou
sobre isso? Já pensou também em quais ferramentas viabilizam a interação verbal
na EaD?

Agora, vamos ver se você entendeu esta primeira parte?

Tente responder as questões abaixo com base no que foi lido.

1. Como você conceituaria o termo “dialogia”?


2. Qual a importância da dialogia para a construção do conhecimento?
3. Você saberia explicar como o processo dialógico pode acontecer quando
olhamos um álbum fotográfico?
4. Procure outros textos literários ou não que poderiam ser caracterizados
como dialógicos. Dê exemplos.
5. No texto, que você selecionou acima, diga como observamos a interação
verbal, a responsividade, a enunciação e a idelogia do processo
comunicativo.
PARTE II - Educação a Distância e Dialogismo

Vimos anteriormente, as definições de enunciação concreta e responsividade


utilizadas para explicar as formas de comunicação no texto. Agora precisamos entender como
ocorrem os processos de comunicação na EAD, quais são as formas de comunicação
existentes nas relações professor-aluno na Educação a Distância, sejam elas através do
discurso verbal ou não.

Lembra-se da pergunta lançada anteriormente sobre como acontecem


os encontros não presenciais? Vamos falar sobre isso daqui a pouco.

2.1 Educação a Distância e Dialogismo: caminhos percorridos e caminhos a percorrer...

A Educação a Distância teve seu reconhecimento e foi validada para o uso em


todos os níveis de ensino com a Lei nº 9.394/96. Pelo Artigo I do Decreto 5622/2005, a
Educação a distância (EAD) “caracteriza-se a educação a distância como modalidade
educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem
ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes
e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos” (SILVA e
HADDAD, 2005, p.1).
Por ser uma modalidade educacional, a EaD fundamenta-se nos princípios dos
processos de ensino e aprendizagem que, para nós, acontecem nas e pelas interações sociais,
mediadas pela linguagem e pela cultura. Portanto, alunos, professores e tutores utilizam
novas formas de se presentificarem na relação com o outro, via, atualmente, ambientes
virtuais de aprendizagem, possibilitada pelas tecnologias de informação e comunicação, as
chamadas TICs.
Em outras palavras, defendemos que o processo educacional a distância é
relacional tanto quanto o presencial. A diferença se dá nas estratégias de comunicação que
são construídas entre professores e alunos:
(...) a linguagem utilizada no material e nas ferramentas mediacionais da EaD não
podem ser concebidas como mero instrumento de informação, mas como caminho
privilegiado de interação. Não se trata mais de apenas transmitir, mas de construir
ou reconstruir o conhecimento; não se trata mais de pôr no centro o professor e,
sim, a interação professor-aluno e aluno-aluno e seus contextos sócio-culturais, para
atender e gerar novidades para a educação e sociedade contemporâneas (SCHIER,
2008, p.41, com adaptações de CAIXETA, 2010)

A Educação a Distância possibilita uma nova perspectiva de ensino-


aprendizagem, onde o conhecimento é construído a partir das relações dialógicas entre quem
conhece os conteúdos, quem deseja conhecê-los ou conhece menos, utilizando interfaces
oriundas das TIC que sustentam e possibilitam a interação entre os participantes, além de
serem as próprias mediadoras, quando, por exemplo, um estudante assiste ao vídeo sobre um
tema específico de seu estudo por vontade própria. Nesse contexto, entendemos que as TIC
favorecem a aprendizagem do aluno que não acontece de forma isolada, mas através das
interações múltiplas que emergem ou são provocadas nos ambientes virtuais de aprendizagem
(AVA), permitindo a Interatividade e a aprendizagem colaborativa.

Mas o que é Interatividade e Aprendizagem Colaborativa?


Interatividade é um conceito utilizado para associar o uso de mídias de
comunicação nas relações entre as pessoas. A interatividade propicia a troca de
conhecimentos, gerando novas aprendizagens. (SILVA, 2006)
A Aprendizagem Colaborativa ocorre através das relações dialógicas com
os professores, tutores e alunos por processos de comunicação Síncronos e
Assíncronos. (LISBÔA, JUNIOR, COUTINHO; 2010)

Em outras palavras, a EaD se fundamenta na certeza de que a educação é um


processo dialógico pela sua natureza, ou seja, por se realizar no encontro entre as pessoas e
entre elas e o conhecimento culturalmente construído e sistematizado, ao longo da história da
humanidade, e naquele, inovador, que emerge da construção coletiva. A EaD, para nós, só se
concretiza por meio dos inúmeros diálogos que são tecidos no espaço de aprendizagem
formal e informal, haja vista que nossas experiências são para além dos espaços formais de
aprendizagem. Quando assistimos a um filme no YouTube ou lemos uma poesia também
estamos construindo conhecimento, inclusive, sobre o curso que estamos cursando, ainda
que, aparentemente, não se relacione a ele. Por exemplo, se eu estudo engenharia e assisto ao
vídeo “A Morte do Cisne”, numa leitura da street dance, aparentemente, esse conteúdo não
tem a ver com o curso que estudo, mas, pode contribuir para um diálogo interno e externo
sobre as artes, a miséria, o preconceito, os padrões de estética. Logo, oportunizará a minha
formação humana e não só técnica (CAIXETA, SOUSA E OLIVEIRA, 2011).
Para contextualizar o que estamos falando, assistir ao vídeo: “A Morte do Cisne” -
http://www.youtube.com/watch?v=klOc0tCsD1Q

Com isso, defendemos que “é indispensável a compreensão de que a educação a


distância não significa “estar distanciado do outro” (Emerenciano, Sousa e Freitas, 2001,
p.6), mas, ao contrário, significa oportunizar espaços para a interação de professores-alunos,
alunos-alunos, tutores-alunos, tutores-professores e até alunos-objetos de aprendizagem,
como um vídeo, uma música, um texto, por exemplo. Quando falamos de responsividade no
dialogismo, não estamos falando que obrigatoriamente a pessoa tenha que emitir uma
vocalização ou um texto da sua idéia. Estamos entendendo que, por exemplo, aquele aluno
que lê os debates do fórum e trava diálogo consigo mesmo ou com a namorada ou com a
família também está sendo responsivo e participante do processo educacional e construindo
conhecimento. Portanto, a EaD é espaço rico para falarmos de polifonia, uma vez que as
vozes são oriundas e construídas de tão diferentes espaços sociais e semióticos quanto as
interações dos personagens que participam dela: professores, alunos, tutores, entre outros.
A educação a distância utiliza-se do AVA para a produção de conteúdos que
podem ser disponibilizados através de canais variados de comunicação (fórum, chat, email),
utilizando as interfaces síncronas e assíncronas. As interações entre os personagens
(professores, alunos, tutores, entre outros), que participam da EAD podem ocorrer através de
modalidades de comunicação enumeradas abaixo:

1. um-um: este tipo de comunicação pode ser exemplificada na relação professor-aluno,


no envio de email a uma pessoa, no uso do chat para comunicar-se com uma
pessoa.
2. um-todos: podemos exemplificar através do uso de material impresso, como livros,
pdf, aulas por vídeo conferência, rádios e TV, ou mesmo através da interação
professor com os alunos.
3. todos-todos: podemos nos relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo, ou seja,
utilizando o ambiente virtual de aprendizagem (AVA) para o acesso aos
fóruns, via chats quando estamos falando com o professor, tutor e outros
alunos, são exemplos que podemos dar para facilitar o entendimento.
4. todos-um: quando, na relação alunos-professor, podemos pensar numa aula por vídeo
conferência quando os alunos estão tirando dúvidas via chat. Todos teclam
suas perguntas e o professor vai gradativamente no decorrer da aula
esclarecendo as dúvidas.

Portanto, são nestes momentos que os participantes da EAD (docentes, discentes,


técnicos) se encontram. O encontro acontece na palavra que é o lugar comum dos locutores,
seja ela escrita, verbalizada, desenhada, colorida, musicalizada ou pensada. Mas quando estes
encontro acontecem? Ao abordamos a temporalidade com que as interações acontecem na
EAD, percebemos que elas pode ser:

Ø síncrona: corresponde à interação entre as pessoas em tempo real, online, ou seja, há


necessidade de estar conectado para haver interação naquele momento em que outros
também estão conectados. Como exemplo, podemos citar os bate-papos via chats, as
conversas por telefones, as aulas videoconferência e as aulas presenciais.

Ø assíncronas: pode ocorrer a qualquer momento conforme a disponibilidade de tempo


do aluno, do professor, do tutor e de outros colaboradores, se for o caso. A interação
não ocorre em tempo real (online), mas offline, ou seja, é possível se comunicar
deixando um recado, respondendo um email, participando do fórum sem que haja
interação com outras pessoas naquele momento exato. A pessoa escreve, faz sua
postagem e em outro momento acessa a resposta solicitada, lê o que foi postado por
outros. Essa modalidade permite flexibilização do tempo, porque o acesso não precisa
ser feito no mesmo tempo com outras pessoas. O tempo dos locutores são diferentes,
mas ainda assim é possível que o encontro exista, pois ele corresponderá ao lugar da
palavra.

Ou seja, podemos dizer que as relações professor-alunos-tutor podem ocorrer de


forma síncrona ou assíncrona, nos modelos um-um; um-todos; todos-todos; todos-um. Isso
quer dizer que os encontros sempre ocorrem, seja virtual ou presencial. Essas interações são
todas marcadas pelo dialogismo, haja vista que atendem os quatro elementos Bakhtinianos:
Ø interação verbal - já sabemos que ela pode ser explícita ou não, oral, escrita,
imagética ou gestual, já que na web, temos os emoticons, a expressão através da
grafia das palavras, como “aff”, “rsrs”, kkk, J;
Ø responsividade - sabemos que ela pode ocorrer de forma explícita ou não para os
outros, mas que ela é condição necessária para que haja a comunicação. Na Ead,
um texto poderá convocar o aluno a pensar sobre determinado assunto o que
poderá impeli-lo a fazer uma pergunta em um fórum, ou a algum colega, ou
ainda a algum amigo fora do contexto educacional, ou mesmo a pesquisar sobre
o tema na internet.
Ø enunciação concreta – sabemos que ela se refere ao direcionamento ao outro
como concretização do pensamento ou de intenção de comunicação.

Bom, por ai vemos que estamos constantemente em processo de construção do


conhecimento. Ele pode não depender do tempo, nem do espaço em que dialogamos com o
outro, mas se localiza no momento de enunciação das palavras, seja em um texto, em um
“oi”, em uma imagem ou em uma música. E é por estas características do conhecimento que é
possível a educação não presencial acontecer ainda que não tenhamos um encontro físico
com as pessoas que estão participando do processo.
Mas, será que estes momentos de educação interferem em nossas formas de ser e
de agir? Como será que estas comunicações influenciam na construção da identidade do
aluno e dos personagens da EAD (Professores, tutores, gestores, técnicos).

Então, o que tem marcado as identificações construídas pela e na


interação web na EaD?

2.2 A constituição identitária na EAD

A EaD é uma modalidade educacional que gera posicionamentos, comunicação


por meio de diversas linguagens: oral, escrita, imagética, enfim, linguagens múltiplas que
criam existências, ou seja, formas de existir e compreender a realidade.
E o que é posicionamento?
“(...) um grupo complexo de atributos pessoais genéricos, estruturado de vários
modos, e que tem um efeito limitante sobre as possibilidades de ações interpessoais,
integrupal ou mesmo intrapessoal, através de algumas designações de direitos,
deveres e obrigações a um indivíduo, conforme sustentado pelo grupo“ ( HARRÉ E
VAN LANGENHOVE, 1999, p.1)

Nesse contexto, entendemos que identidade é o conjunto de posicionamentos


(DAVIES E HARRÉ, 2001) que a pessoa assume nos espaços de diálogo e, nas
especificidades da EaD, ainda temos que considerar que esses espaços são mediados pelas
tecnologias de informação e comunicação de diferentes naturezas. Neste sentido, estes
posicionamentos também são ideológicos, o que explica, por exemplo, que a atuação dos
professores possam refletir a instituição a que pertencem, influenciando e sendo influenciados
por ela.
Sobre as identificações dos professores, Ponte, Oliveira e Varandas (2009) e
Ponte (2001) discutem a relação entre a identidade profissional de professores e as TICs. Para
os autores, esta discussão é crucial na contemporaneidade porque as tecnologias de
informação e comunicação têm oportunizado mudanças significativas na forma de o ser
humano ser e atuar no mundo. Para eles, as principais mudanças dizem respeito a novas
concepções de tempo e espaço, por exemplo, com as comunicações síncronas e assíncronas;
novas relações de poder; a construção de culturas híbridas, que articulam o local com o global
e com a grande mobilidade e construção de conhecimentos. Apesar dessa descrição, os
autores Ponte, Oliveira e Varandas (2009) são enfáticos ao concluir que a grande influência
das TICs na história da humanidade e, consequentemente, na história de cada um/a como
pessoa e profissional é a possibilidade que elas abrem para as interações sociais.
No espaço educacional, os autores afirmam que a identidade do/a professor/a,
impactada pelas TICs, está sofrendo modificações: a) na concepção de si enquanto
profissional, ou seja, esse profissional passa de (re)transmissor de conhecimento para
produtor e co-aprendente; b) na atuação mediacional, em que os professores vislumbram:
• novos recursos pedagógicos;
• novas metodologias de ensino centradas nos alunos, como desenvolvimento de
projetos;
• a construção de novos valores para si e para os alunos, baseados na autonomia e
cooperação;

e c) na certeza de quem ser na sua profissão: as TICs têm desafiado os professores, por serem
e transformarem espaços educacionais em espaços de diversidade e multiplicidade.

Com isso, Ponte, Oliveira e Varandas (2009) explicam que os professores


contemporâneos precisam ampliar suas atuações e posicionamentos para incluir as TICs tanto
no próprio processo de formação docente quanto na mediação dos conteúdos em salas de
aula. No caso da EAD, as TICs podem ser a única ferramenta instrumental que possibilita o
diálogo entre os participantes, no entanto, ser ferramenta instrumental não significa ser
ferramenta mediacional. Em outras palavras, quem vai atuar para que as TICs se tornem
instrumentos mediadores de aprendizagem são as pessoas envolvidas no processo: alunos,
professores, tutores. São eles que intencionalmente escolhem e selecionam os conteúdos e
estratégias que permitem a ação na e a criação de zonas de desenvolvimento proximal. Isso
porque a EAD se assenta na educação a distância, o que não significa estar distante do outro
ou, em outras palavras: “É indispensável a compreensão de que a educação a distância não
significa “estar distanciado do outro” (Emerenciano, Sousa e Freitas, 2001, p.6)

Para nós, a descrição feita por Ponte, Oliveira e Varandas (2009) é interessante, mas
reduzida toda vez que remete a mediação das TICs a algo centrado no aluno e não na relação.
Entendemos que até a dita educação centrada no aluno é relacional, porque não é possível
uma educação fora do contexto social e de troca cultural. Assim, a atuação do professor de
EAD é importante não só como orientador das atividades educacionais dos alunos, mas para
além disso, os professores de EAD são problematizadores de conceitos, fomentadores de
posicionamentos, são desafiadores dos processos mentais superiores, processos esses que
podem ser realizados via ambientes virtuais de aprendizagem e outras plataformas da
internet.

A EAD tem trazido a oportunidade de os professores repensarem sobre si mesmos e


sobre suas atuações na classe presencial e virtual e, igualmente, têm trazido oportunidades e
desafios para os alunos:

Para o aluno, a partir do momento que a EAD apresenta possibilidades concretas


para o aprendizado (...), pois há uma transformação positiva da realidade
agregando-lhe novos valores aos já presentes, bem como criando novos valores que
antes não eram comuns a esses alunos. (VITORINO, 2007)

Nesse contexto, os professores não podem se furtar de atuarem de forma mediacional,


porque da sua ação depende, também, o sucesso dos alunos. Não é atribuir ao professor a
responsabilidade de toda a EAD, mas é atribuir ao professor o lugar que é seu de direito, o
lugar especial de quem ensina. Sabemos, pelas pesquisas, que esse lugar está em crise, porque
há: a) uma multiplicidade de nomes e funções para esse profissional: tutor, professor,
supervisor na EAD; b) diferentes atribuições: conteudista, facilitador da aprendizagem,
mediador, entre outros; c) diferentes recursos mediacionais que implicam em decisões do
tipo: que recurso usar para otimizar a aprendizagem de tal conteúdo, ou ainda, que ações
executar quando nem todos conseguem compreender o conteúdo a partir do recurso
mediacional que foi escolhido para a intervenção, ou seja, como ser múltiplo e atuar para a
diversidade de alunos de uma turma de EAD: nativos digitais, imigrantes digitais, semi-
analfabetos digitais; d) a vivência da afetividade no espaço virtual de aprendizagem; e) o
medo de não saber e de não conseguir e f) as mudanças cognitivas que as diferentes
mediações pela tecnologia traz para si e para o outro: multifuncionalidade cognitiva
(LALUEZA, CRESPO e CAMPS; 2010; MONERO e POZO; 2010)
Sobre a identidade dos alunos, a pesquisa de Caixeta, Guedes e Barbato (2010)
evidencia que um dos posicionamentos mais significativo que a EaD tem oportunizado é o da
inclusão na medida em que possibilita que alunos até então excluídos do contexto
educacional passam a fazer parte de grupos universitários, grupos de formação continuada,
entre outros:
Para o aluno, a partir do momento que a EaD apresenta possibilidades concretas
para o aprendizado (...), pois há uma transformação positiva da realidade
agregando-lhe novos valores aos já presentes, bem como criando novos valores que
antes não eram comuns a esses alunos. (VITORINO, 2006, web)

Então, entendemos que a construção da identidade é dinâmica e constante,


envolvendo os posicionamentos de si na relação com os grupos a que pertencemos e as
atividades que desenvolvemos. Portanto, a identidade refere-se a um pertencimento e a uma
organização de si como forma de se construir a partir das relações dialógicas. A inclusão em
um grupo determinado, como o de professores, implica no distanciamento de outros, como o
de alunos. Embora percebamos um movimento dialógico, em que o professor, para se
diferenciar do aluno, necessita estar incluído na relação com ele, ainda que seja uma relação
não presencial. É na relação com o aluno que o professor consegue se perceber em sua
atividade, regulando suas ações e, consequentemente, orientando e negociando seus
significados nas trocas intersubjetivas, assim isto também acontece com o aluno.
A partir de um estudo com professores (BORGES, LINHARES e CAIXETA,
2011) que atuavam tanto no ensino presencial como na EaD foi observado que a mediação
pela tecnologia impactava diretamente sua construção identitária por alguns motivos: 1) pela
“ausência” do contato direto com o aluno, modificando a relação professor-aluno e o
processo de comunicação, 2) pela ênfase em outras atividades que não o de dar aulas para
identificá-lo como professor (função administrativa e função técnica), 3) por uma mediação
hipermidiática na construção do conhecimento, 4) por um vivência da temporalidade
diferenciada do ensino presencial.
Na tentativa de definir quais as diferenças entre o atuar presencialmente e na
EaD, foi possível perceber a dinâmica identitária entre uma e outra forma de ser professor. O
que parece ser importante no professor de EAD, é considerar os aspectos do ser professor,
como: a relação com os alunos, a didática e os outros processos da construção de sua
identidade a partir de mediadores tecnológicos. O professor presencial estabelece a relação
com o aluno em um tempo e um espaço definido, enquanto o de ead, vivencia nesta relação
outras formas de temporalidade e de encontro, que na maioria das vezes são mediados pela
tecnologia.
Portanto, participar do desenvolvimento tecnológico e ser impactado por ele, não
é exclusivo da educação, mas implica em um processo cultural que temos sentido em vários
níveis e atividades, principalmente o das interações. Assim, entendemos que a tecnologia
impacta consideravelmente no desenvolvimento psicológico humano, influenciando
diretamente nas formas de ser e agir. Portanto, a EAD traz reflexões de nossa própria
vivencia histórica contemporânea e de constituição identitária globalizada, mediada pelas
tecnologias e pelo advento da internet, onde namoramos pela internet, temos amigos pelo
MSN, mas não deixamos de vivenciar os afetos e os processos dialógicos que envolvem todas
as relações humanas.
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