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VII COLÓQUIO INTERNACIONAL MARX E ENGELS

SÉCULO XXI E A CRISE AMBIENTAL: QUAIS AS CONTRIBUIÇÕES DE


MARX E ENGELS PARA O DEBATE?

JÚLIO CÉSAR HOLANDA ARAÚJO¹ e BRUNA SARKIS NUNES¹

GT 09: Socialismo no Século XXI

¹ Estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Ceará

1. INTRODUÇÃO
As contradições da sociedade capitalista se tornam cada vez mais evidentes e
expõem seu fracasso, aprofundando ainda mais os elementos estruturais da crise
estrutural do capital (MÉSZÁROS, 2009). Os elevados índices de pobreza e fome no
mundo, a privatização dos serviços públicos (como educação, saúde e previdência), a
precarização do trabalho humano, o desemprego estrutural e a mais recente crise
ambiental (ou ecológica) são resultados do agravamento da luta de classes.
Estamos vivendo um momento histórico de agravamento dos sérios problemas
ambientais no mundo. As diversas pesquisas divulgadas nos últimos anos comprovam
que a relação do homem com a natureza tem sido extremamente predatória, nos levando
a uma crise ecológica nunca vista antes, que além de afetar a dinâmica dos ecossistemas
em todo o mundo, coloca em risco a própria manutenção da vida humana na Terra.
A crise ambiental é endógena da própria sociedade capitalista e se gera a partir
da crescente necessidade de extração das riquezas naturais, inclusive com risco de
esgotamento das mesmas, para a produção de mercadorias. Entretanto, a produção de
mercadorias e conseqüentemente dos dejetos é superior a capacidade do ecossistema em
reciclá-los, criando um sistema em crise, que produz um número de mercadorias muito
maior que sua própria capacidade de suporte.
Para Marx (2006), em todos os momentos históricos, os homens se relacionaram
com a natureza e utilizaram-na para sua própria subsistência. Eram retirados desta
apenas os recursos naturais necessários para a produção de valores de uso, tanto para a
construção de instrumentos e utensílios domésticos como também para alimentação.
Porém, essa relação se modificou ao longo do tempo de acordo com a forma de
organização da sociedade. Na sociedade capitalista, devido o seu mecanismo intrínseco
de funcionamento, a relação do homem com a natureza passa a ser predatória, pois os
recursos naturais são retirados da natureza não apenas com a finalidade de suprir a
necessidade humana, mas, principalmente, para a produção de mercadorias. Os recursos
naturais passam a ser vistos apenas como insumos para a produção e, como se sabe, os
mesmos são finitos.
Esse ensaio teórico se insere no interior desses questionamentos e tem como
objetivo refletir sobre a necessidade do método materialista, histórico e dialético de
Marx para o entendimento das problemáticas ambientais contemporâneas e na
elaboração de propostas para superação das mesmas. Existe uma longa tradição de
denúncias à Marx e Engels por falta de preocupação ecológica. Atualmente, após
algumas décadas de debates sobre suas obras, está claro que esta visão é absolutamente
equivocada e não condiz com as evidências. Esforçaremos aqui para extrair das obras de
Marx e Engels elementos importantes para a discussão sobre as relações entre os seres
humanos e destes com os demais seres vivos da terra.

2. A NATUREZA EM MARX E ENGELS


A concepção de natureza sempre esteve presente nas sociedades humanas, desde
a antiguidade os homens precisavam explicar o mundo exterior e isso se deu das mais
diversas formas, por isso esse conceito foi se modificando ao longo dos milhares de
anos, de acordo com as idéias vigentes da época. Os filósofos da Grécia antiga, por
exemplo, resumiam a natureza aos elementos Terra, Água, Fogo e Ar. Somente a partir
de Aristóteles que o entendimento do ser humano é equacionado também ao
entendimento do seu lugar na natureza (LOUREIRO, 2007).
De acordo com Loureiro (2007), a partir de Aristóteles os conceitos de natureza
e seres humanos foram construídos dentro de uma perspectiva de identidade ou
dicotomia, ora o homem é um ser subsumido na natureza, ora o homem domina a
natureza em seu benefício próprio. O limite de ambas as visões é negar a relação
existente entre os seres humanos e a natureza, conceitos que só foram superados com a
concepção materialista e dialética de natureza.
Para Foster (2005), a concepção de natureza em Marx não correspondia a uma
forma de determinismo da “coisalidade material” sobre o espírito e vice-versa, mas sim
um processo totalizante e complexo, que estabelecia suas leis de realização a partir do
seu próprio movimento histórico.
Em umas de suas primeiras obras, nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos de
1844, Marx já afirmava que havia uma interligação entre o homem e a natureza mediada
pelo trabalho, e que as relações de produção, historicamente estabelecidas,
representavam a essência dessa relação em qualquer período histórico. Para Marx,
O homem vive da natureza, significa: a natureza é seu corpo, com o qual ele
tem que ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e
mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentindo
senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é
parte da natureza (MARX, 2004).

Ou seja, para Marx a natureza é o “corpo inorgânico” do homem, não existindo,


portanto duas essências: a humana e a natural, mas somente uma, a histórica e dialética
homem-natureza, se conformando numa unidade que se modifica e se significa, num
processo de transformação da natureza: transformando-a e transformando-se.
Na Crítica ao Programa de Gotha de 1875, quase três décadas depois dos
Manuscritos, Marx faz duras críticas ao Partido Operário Alemão liderado por Lassale.
Ao formular suas críticas, estas começam justamente pela temática da natureza,
colocando que diferente do que fora apresentado no programa, dizia Marx:
O trabalho não é a fonte de toda a riqueza. A natureza é a fonte dos valores
de uso (que são os que verdadeiramente integram a riqueza material!), nem
mais nem menos que o trabalho, que não é mais que a manifestação de uma
força natural, da força de trabalho do homem. Essa frase encontra-se em
todas as cartilhas e só é correto se subentender que o trabalho é efetuado com
os correspondentes objetos e instrumentos. Um programa socialista, porém,
não deve permitir que tais tópicos burgueses silenciem aquelas condições
sem as quais não têm nenhum sentido (MARX, 2004b).
Com isso, Marx insiste em dizer que a relação homem-natureza sempre existiu,
pois “nem a natureza objetivamente, nem a natureza subjetivamente existem de modo
imediatamente adequado ao ser humano”. Portanto, a natureza é constantemente
modificada pela ação humana, através do trabalho humano, que a submete e a ajusta às
suas necessidades essenciais. Em outras palavras, a natureza é anterior ao trabalho e ao
trabalhador, mas o homem só existe na relação prática com a natureza, na medida em
que existe a transformação da mesma, pelo trabalho humano, em valores de uso.
Em 1876, um ano após a Critica ao Programa de Gotha, Friedrich Engels
redigiu a obra Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem e é
possível identificar a afinidade teórica entre Engels e Marx. Logo no começo do seu
texto o autor deixa claro o papel do trabalho como mediador da relação homem-
natureza:
O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com
efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele
converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a
condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até
certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem
(ENGELS, 2004).

É possível verificar claramente a concepção de natureza em Engels. O autor


recorre à teoria da Evolução para descrever o processo de transmutação das espécies, no
caso dos macacos ao homem, e sempre se referindo à natureza como natureza física, na
qual o homem está inserido, como elemento fundamental, mas como um ser diferente da
natureza, ou melhor, se diferenciando na natureza. Através da fala articulada, da posição
ereta, da alimentação, e, posteriormente, do desenvolvimento do cérebro humano e da
sua capacidade de percepção e raciocínio. E todas essas características se desenvolvem
a partir do trabalho e pelo trabalho.
Para Engels (2004), as sociedades humanas continuaram a se desenvolver a
partir da caça, pesca e também da agricultura. Desenvolve-se o comércio, as
navegações, as ciências e a arte. E por fim, o Estado, o direito, a política e a religião.
Percebe-se que todas essas últimas quatro criações são frutos do cérebro humano e que
os produtos mais modestos originados de suas mãos tornam-se secundários. Logo, o
rápido desenvolvimento das sociedades foi atribuído exclusivamente as criações do
cérebro humano, onde o homem passa a explicar seus atos apenas pelos pensamentos e
não mais por suas necessidades, como alerta o autor:
Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção idealista do
mundo que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do
desaparecimento do mundo antigo, e continua ainda a dominá-lo, a tal ponto
que mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais adeptos ao
materialismo são ainda incapazes de formar uma idéia clara acerca da origem
do homem, pois essa mesma influência idealista lhes impede de ver o papel
desempenhado aqui pelo trabalho (ENGELS, 2004).

Para Engels (2004), tantos os homens como os animais modificam a natureza


pela simples presença nela, porém diferentemente dos demais animais, o homem faz de
forma intencional e planejada. Em outras palavras, “o homem, ao contrário, modifica a
natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a”, e aí está em última análise, a diferença
essencial entre o homem e os demais animais, “diferença que, mais uma vez, resulta do
trabalho”.
Essa passagem da obra de Engels sofreu profundas críticas dos economistas,
pois estes alegavam que o autor colocava uma visão de dominação, onde o homem se
coloca como superior a natureza, detendo poder sobre esta, inclusive, seria o mesmo
raciocínio utilizado na apropriação da natureza no sistema capitalista. Porém, isso é
fruto de uma má interpretação da concepção de “dominação” que o autor utiliza em sua
obra. Ele coloca que ao passo que o homem desenvolve a ciência, e sua capacidade
intelectual, desenvolve também seu conhecimento sobre os fenômenos da natureza,
entendendo sua dinâmica, seus mecanismos, podendo inclusive, prevê-los ou alterá-los
de acordo com suas necessidades reais e concretas. Ou seja, o homem domina a
natureza, e, conseqüentemente, domina a si mesmo. Engels deixa isso mais claro
quando coloca:
Assim, a cada passo, os fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza
não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre o povo
conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas
que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à
natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela
consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de
conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada (...). E quanto mais isso
seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade
com a natureza, e mais inconcebível será essa idéia absurda e antinatural da
antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo,
Idéia que começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da
antiguidade clássica e que adquire seu máximo desenvolvimento no
cristianismo (ENGELS, 2004).

Para Marx e Engels a relação homem e natureza é mediada pelo trabalho, e tem
o trabalho como categoria fundante do ser social. Porém, é importante compreender que
essa relação se constrói, historicamente, com as diversas formas de organizações sociais
e relações existentes entre as forças produtivas e as relações sociais de produção.
No capitalismo a forma fundamental das relações sociais é a produção de
mercadorias e a troca delas no mercado. Na dinâmica de uma sociedade que transforma
tudo em mercadorias, inclusive as necessidades mais íntimas das pessoas, a relação
homem-natureza se insere também nessa lógica, ganhando uma forma historicamente
específica, esta passa a ter valor de troca, vista somente como algo que pode gerar lucro,
os recursos naturais são vistos como insumos para a produção.
De acordo com Marx a base de funcionamento do capitalismo como um todo se
dá pela necessidade de expansão do capital, obtida na produção de mercadorias, onde os
gastos na produção devam ser inferiores aos lucros obtidos na troca das mesmas. Por
isso, é correto afirmar que a busca pela expansão do capital é constante e inerente ao
sistema capitalista, ou seja, a circulação de capital no mercado tem finalidade em si
mesma, pois a expansão do valor só existe nesse movimento contínuo e renovado.
Nesse sentido, no processo de mercantilização da natureza, a mesma não é mais
vista como uma entidade ecológica, geradora de valores de uso, mas sim como uma
entidade econômica, com finalidade exclusivamente mercadológica. Assim, a interação
que caracterizamos nos pontos anteriores, que para Marx o homem é também parte da
natureza, se desfaz na sociedade capitalista e a natureza passa a ser tratada como algo
externo ao homem e, portanto, subjugada a ordem do capital. No capitalismo, o ser
humano sofre um brutal processo de alienação (estranhamento) ao ser roubado dos
frutos de seu trabalho. Aliena-se, portanto, das coisas, de si, de seu gênero e dos outros
seres humanos. Por isso, na atual sociedade, o homem encontra-se alheio à sua realidade
concreta, não sendo mais capaz de se enxergar como pertencente à natureza.
Por fim, se falávamos inicialmente que para Marx a relação entre ser humano e
natureza se constituía num processo onde a natureza é humanizada pela ação do
trabalho humano, a partir da transformação da mesma em objetos com valores de uso
para satisfazer as necessidades do homem, no capitalismo, ao contrário, essa relação
passa a ser desumanizadora. Ao invés de objetos de uso para o homem, se extrai os
recursos naturais da natureza e os transforma em mercadorias, vendáveis e lucrativas.
Vamos abordar no próximo ponto algumas conseqüências dessa configuração da relação
homem-natureza, que historicamente se constituiu no capitalismo.

3. O METABOLISMO ENTRE SOCIEDADE E NATUREZA


Para entender a contribuição das idéias marxistas para a atual crise ambiental da
sociedade capitalista é imprescindível compreender o conceito de metabolismo
(Stoffwechsel) em Marx e o subseqüente conceito de falha metabólica. Para Marx existe
uma relação indissociável entre o homem e a natureza que se estabelecem numa relação
metabólica. Como relatado nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos: “o homem vive
da natureza, isto é, a natureza é o seu corpo, e ele precisa manter com ela um diálogo
para não morrer”.
O conceito de metabolismo permitiu à Marx expressar melhor e de forma
científica a relação de troca que existe entre os homens e a natureza em decorrência do
trabalho humano. De acordo com Foster (2005), a partir da década de 1840 esse
conceito tem sido usado como categoria-chave na abordagem da interação dos
organismos com o seu meio ambiente. Nos dias de hoje o conceito de metabolismo é
utilizado para se referir a todos os níveis biológicos, desde uma célula isolada até os
ecossistemas. Esse conceito capta o complexo processo bioquímico da troca metabólica,
através do qual um organismo (ou uma célula dependendo do nível biológico abordado)
se utiliza dos materiais e da energia a sua volta no meio ambiente e os converte por
meio de várias reações metabólicas nas unidades constituintes do crescimento.
Ou seja, o conceito de metabolismo é utilizado para se referir a processos
regulatórios que administram essa complexa troca entre os organismos e o seu meio
ambiente. No caso da sociedade humana esses processos são regulados pelo trabalho
humano.
Marx se referiu ao “metabolismo humano natural” para descrever o processo
bioquímico, interdependente, entre a ingestão de alimentos pelo homem e a subseqüente
produção de excrementos ou dejetos. Essa análise também era empregada no processo
de troca material entre campo e cidade.
O conceito de metabolismo e a critica de Marx à agricultura capitalista teve uma
forte contribuição dos trabalhos sobre fertilizantes e ciência dos solos do químico
alemão Justus Von Liebig. Em 1840 Liebig publicou a obra Organic chemistry in its
application to agriculture and physiology que forneceu as primeiras explicações
convincentes do papel dos nutrientes do solo (nitrogênio, fósforo e potássio) no
crescimento das plantas. A partir desse trabalho e de outros estudos de Liebig e também
do agrônomo inglês J.B. Lawes foi comprovado que a fertilidade do solo é limitada e
que existe um significativo esgotamento dos minerais do solo à medida que avançam as
técnicas agrícolas capitalistas (FOSTER, 2005). O que levou Marx, em 1860 enquanto
escrevia O Capital, a se convencer da natureza insustentável da agricultura capitalista.
Nesse sentido, para Marx, surge uma falha na relação metabólica entre os
homens e a natureza em decorrência das relações de produção capitalistas e da
separação antagonista entre cidade e campo. Em uma passagem importante do O
Capital, Marx descreve:
A grande propriedade fundiária reduz a população agrícola a um mínimo
sempre declinante e a confronta com uma sempre crescente população
industrial amontoada nas grandes cidades; deste modo, ela produz condições
que provocam uma falha irreparável no processo interdependente do
metabolismo social, um metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria
vida (MARX, 2006).

Ao longo de sua obra fica evidente a visão de Marx sobre a falha metabólica e
também sua crítica à agricultura capitalista. Em outra passagem de O Capital, que tem
importância fundamental, pois defronta as criticas feitas à Marx de que este ao elaborar
suas idéias sobre a sociedade humana não teve nenhuma preocupação com a questão
ambiental. Pelo contrário, Marx se antecipava ao debate da degradação ambiental do
pensamento ecológico de hoje e defende que a produção capitalista não só empobrece o
trabalhador, mas também o solo, que para ele, são as fontes de todas as riquezas:
A produção capitalista congrega a população em grandes centros e faz com
que a população urbana tenha uma preponderância sempre crescente. Isto tem
duas conseqüências. Por um lado, ela concentra a força-motivo histórica da
sociedade; por outro, ela perturba a interação metabólica entre o homem e a
terra, isto é, impede a devolução ao solo dos seus elementos constituintes,
consumidos pelo homem sob a forma do alimento e do vestuário; portanto,
ela prejudica a operação da condição natural eterna para a fertilidade
duradoura do solo... Mas, ao destruir as circunstâncias em torno desse
metabolismo ela impele a sua restauração sistemática como uma lei
reguladora da produção social, e numa forma adequada ao pleno
desenvolvimento da raça humana... Todo progresso na agricultura capitalista
é um progresso da arte de roubar, não só do trabalhador, mas do solo; todo
progresso no aumento da fertilidade do solo por um determinado tempo é um
progresso em direção à ruína das fontes mais duradouras dessa fertilidade... A
produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e o grau de
combinação do processo social da produção solapando simultaneamente as
fontes originais de toda riqueza – o solo e o trabalhador (MARX, 2006).

Esta contradição se desenvolve através do crescimento simultâneo da indústria e


da agricultura em larga escala sob o capitalismo, ocorrendo uma exploração intensiva
do solo e do trabalhador. A falha metabólica entre os seres humanos e a natureza se
desenvolve dentro da sociedade capitalista através do processo de alienação dos homens
das condições naturais que formaram a base da sua existência. E nesse caso, as
condições de sustentabilidade impostas pela natureza são desfeitas.

É possível afirmar então enfaticamente: Marx possui uma análise ampla de


sustentabilidade ambiental e ecológica. Para este, os seres humanos e a natureza
possuem uma relação harmônica fundamentada num metabolismo completo, com o
intercâmbio de nutrientes. Porém, essa relação é quebrada e a sustentabilidade antes
defendida, sob a égide do capital, torna-se insustentável por natureza. Pode-se dizer
então, que a defesa de uma sociedade ecologicamente equilibrada e sustentável é
também, e necessariamente, defender à superação da sociedade do capital.
Essas idéias captam a verdadeira essência da noção atual de desenvolvimento
sustentável, formulada em 1987 no Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), como
“o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a
capacidade das futuras gerações” (BRUNDTLAND, 1991). De acordo com Marx e
Liebig, para que as futuras gerações desfrutem de um meio ambiente ecologicamente
equilibrado, é necessário que todo o excremento produzido pelo metabolismo humano,
como os dejetos da produção e consumo industrial, sejam devolvidos ao solo, num
processo cíclico, equilibrado e harmônico. Como pode ser evidenciado na obra de Marx:
Do ponto de vista de uma formação socioeconômica superior, a propriedade
da terra por determinados indivíduos vai parecer tão absurda como a
propriedade privada de um homem por outros homens. Nem mesmo uma
sociedade inteira, ou uma nação, ou um conjunto simultâneo de todas as
sociedades existentes é dono da terra. Eles são simplesmente os seus
posseiros, os seus beneficiários, e precisam legá-las em melhor estado às
gerações que as sucedem como boni patres famílias [bons pais de família]
(MARX, 2006).

E também em Engels,
A abolição da antítese entre cidade e campo não é meramente possível. Ela se
tornou uma necessidade direta da própria produção industrial, assim como se
tornou uma necessidade da produção agrícola e, além disso, da saúde pública.
O presente envenenamento do ar, da água e da terra só pode cessar com a
fusão da cidade com o campo. E só essa fusão vai alterar a situação das
massas que agora definham nas cidades, e permitir que o seu excremento seja
usado para produzir plantas em vez de doenças (ENGELS, 2004).

Nesse sentido, as análises de Marx e Engels sobre a degradação ambiental


estavam centradas numa percepção de sustentabilidade na relação entre os seres
humanos e a natureza. Embora suas análises tenham foco maior na divisão antagônica
entre o campo e a cidade, em suas obras os autores fazem referência a outros problemas
ecológicos como o esgotamento das reservas de carvão e a destruição das florestas. De
acordo com Foster (2005) o próprio Marx se referia aos efeitos devastadores da
destruição das florestas, e percebia que essa devastação tinha efeito histórico à longo
prazo e que afetaria as futuras gerações, escreveu ele: “o desenvolvimento da
civilização e da industria em geral, sempre se mostrou tão ativo na destruição das
florestas que tudo que foi feito pela sua conservação e produção é completamente
insignificante na comparação”.
Ainda de acordo com Foster (2005) não existe em nenhuma obra de Marx e
Engels alguma indicação de que estes acreditassem que uma relação sustentável com a
natureza ocorreria nos marcos do capital ou automaticamente com a transição para o
socialismo. Muito pelo contrário, era sempre lembrada a necessidade de planejamento
ambiental para a construção de outra sociabilidade, adotando medidas que eliminassem
a divisão antagônica entre o campo e a cidade, onde a população estivesse mais
adequadamente distribuída nas regiões do globo, a integração de indústria e agricultura
e a restauração e melhoria do solo através da reciclagem dos nutrientes. E, para isso,
Marx e Engels defendem que não só é possível, mas urgentemente necessário a
emancipação do homem da sociedade das mercadorias e do sistema sócio-metabólico do
capital.
Tudo isso obviamente exigia uma transformação revolucionária na relação do
homem com a natureza, e para eles um dos desafios fundamentais para as sociedades
pós-capitalistas é que os produtores livremente associados da nova sociedade
“governassem o metabolismo humano com a natureza de modo racional”. Para Marx a
superação do capital exigia não só a derrubada das suas relações específicas de
exploração do trabalho, mas também a transcendência da alienação da terra, através da
regulação racional da relação metabólica entre os seres humanos e a natureza.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os problemas ambientais são complexos (envolvem diversos aspectos e áreas de
conhecimento) e a resolução destes problemas exige de nossa parte a formulação de
respostas também complexas, à altura desses problemas. Portanto é preciso quebrar o
mito de que vamos resolver tais problemas sócio-ambientais com ações simples,
individuais e pontuais. Precisamos denunciar essa farsa que tem se massificado na
mídia, em ONGs, cursos de graduação, partidos políticos, coletivos e movimentos
sociais. As propostas alternativas colocadas como promissoras na grande mídia e
divulgadas massivamente como solução do quadro sócio-ambiental, sequer chegam
perto ou apontam os reais problemas.

É um erro também reduzir a questão ambiental a um problema “técnico”, que a


resposta está na elaboração de novas tecnológicas, agora denominadas “verdes” ou no
“mercado verde”, com os mais diversificados produtos ecologicamente corretos, sem
danos ambientais. Esses argumentos deixam de lado o aspecto decisivo do problema: a
relação do homem com a natureza é, em primeiro lugar e acima de tudo, um problema
na relação dos homens entre si. É na esfera das relações sociais, e não em nenhuma
outra instância, que temos a gênese do problema ambiental e, por conseqüência, apenas
nela podemos encontrar a sua solução.
Logo, o Desenvolvimento Sustentável divulgado na mídia e pelo Governo como
resposta à crise ambiental é uma contradição por si só, impossível de ser construído nos
marcos do capital e representa uma grande farsa. Uma verdadeira resposta à questão
ambiental requer uma concepção revolucionária de desenvolvimento humano
sustentável, que tenha como fio condutor a superação do auto-estranhamento humano
(alienação do trabalho) e também do estranhamento do mundo (alienação da natureza).
Como relatado nas obras de Marx e Engels. É só através de uma mudança fundamental
no centro do sistema capitalista, de onde se originam todas as problemáticas já
relatadas, é que haverá a possibilidade de evitar uma destruição ecológica irreversível.
É possível observar que as denúncias de negligência à questão ambiental por
Marx e Engels não se confirmam. Desde os primeiros escritos e ao longo de suas obras
é possível observar uma visão revolucionária de ecologia. É recorrente nas obras de
ambos os autores criticas à agricultura capitalista e os problemas causados aos
trabalhadores e ao solo pela relação predatória dos homens com a natureza.

Nesse sentido, os partidos de esquerda, coletivos e movimentos sociais precisam


atualizar seus programas políticos e colocar na agenda do dia a questão ambiental. Essa
atualização não é a criação de algo novo ou de uma nova ideologia. Muito pelo
contrário, é preciso resgatar na tradição marxista o que há de contribuição para esse
debate, como foi demonstrado nesse artigo.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRUNDTLAND, Gro Harlem. Nosso futuro comum: comissão mundial sobre meio
ambiente e desenvolvimento. 2.ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991.

ENGELS, F. Sobre o Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem. In:


RICARDO, Antunes (org). A Dialética do Trabalho – Escritos de Marx e Engels. São
Paulo: Expressa Popular, 2004.

FOSTER, J. B. A Ecologia de Marx. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

LOUREIRO, C. F. B. (org.). A questão ambiental no pensamento crítico. Rio de


Janeiro: Quartet, 2007.

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004a.

MARX, K. Crítica ao Programa de Gotha – Observações sobre o Programa do Partido


Operário Alemão. In: RICARDO, Antunes (org). A Dialética do Trabalho – Escritos de
Marx e Engels. São Paulo: Expressa Popular, 2004b.

MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 2006.

MÉSZÁROS, I. A Crise Estrutural do Capital. 1ª. ed. São Paulo: Boitempo, 2009.