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O Deus Solitário

“Pilgrim’s Castle”
Violet Winspear

Mesmo sendo órfã, Yvain sempre acreditou que seria feliz, que sempre
haveria alguém para protegê-la. Pois não dizia a lenda que Yvain, a heroína
tinha sido protegida pelo leão? Mas agora, depois do susto com aquele
naufrágio, de ser salva do mar e levada ao castelo de don Juan de Conques y
Aranda, ela não acreditava mais nos finais felizes das histórias. Porque don
Juan, o marques de Leon, o poderoso senhor daquela ilha espanhola, por quem
ela estava irremediavelmente apaixonada, pertencia à outra mulher. E quem
poderia libertar Yvain daquele fascínio, do desejo poderoso de entregar-se ao
próprio leão?

Digitação: Valéria
Revisão: Andréia
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

CAPÍTULO I

Sirenes soavam estridentes, pessoas gritavam, botes salva-vidas eram


lançados na água escura. Um dos botes, repleto de passageiros do navio
naufragado, desprendeu-se dos cabos e despencou numa queda vertiginosa até
o mar. Yvain Pilgrim foi atirada ao ar e poucos minutos depois as águas se
fechavam sobre ela. Desesperada, lutou com todas as suas forças até que
conseguiu voltar à superfície, graças ao colete salva-vidas.
Tudo aquilo parecia um pesadelo do qual era impossível voltar. Gritos de
pavor ecoavam no cérebro de Yvain, mas estranhamente não cessava o som da
música que a orquestra tocava no salão de bailes no momento do aciden te: uma
melodia suave e sentimental que tinha enchido de melancolia o seu coração.
Mas ninguém havia se aproximado da mocinha silenciosa, sentada em
atitude humilde ao lado da patroa. A sra. Sandell fazia aquele cruzeiro a
conselho médico e tinha decidido que Yvain devia acompanhá-la. Yvain
trabalhava para, a família Sandell desde os quinze anos, primeiro como babá e
depois como dama de companhia da intratável sra. Ida Sandell, mulher orgulhosa
e difícil. As necessidades e os sonhos de uma garota de dezenove anos
passavam muito além da sua compreensão.
Desde o princípio tinha ficado estabelecido que Yvain deveria fazer-lhe
companhia constante.
— Você é sensata — disse a mulher, num tom ríspido e seguro — e sabe
qual é seu lugar. Nem pense em participar dos divertimentos em com panhia dos
jovens passageiros. Eles não fazem outra coisa senão nadar, flertar e dançar.
Yvain não alimentava esperanças de viver um romance a bordo. Mas
passar todo o lempo lendo para a sra. Sandeli era uma verdadeira tortura, com
tantos jogos e tantos jovens rindo e se divertindo por toda parte. Seria muito
mais agradável passear pelo convés em companhia de um jovem da idade dela.
Só que a mocinha simples, de roupa humilde e óculos, não havia chama do
a atenção de nenhum dos homens a bordo. Provavelmente pensavam que ela era
muito tímida. Ou, então, não tinham coragem de se aproximar por causa da
imponência da velha senhora. Como podiam imaginar que, sob a aparência
simples, batia um coração ansioso por aventuras?
Aventuras! O movimento das águas conduzia Yvain para longe do navio
naufragado. Tinha havido uma explosão na sala das máquinas antes que o
transatlântico começasse a afundar. Alarmes soavam, ensurdecedores, enquanto
o mar furioso invadia tudo. "Todos para o convés!" No começo, Yvain tinha
permanecido ao lado da sra. Sandell, que agarrava com deses pero sua caixa de
jóias e uma frasqueira. Mas, na confusão de pessoas que tentavam conseguir um
lugar no primeiro bote, perdeu de vista a patroa. Quando o bole virou, um grito
de desespero encheu o ar — talvez um grito da velha senhora, que viveu toda
sua vida numa estufa de luxo para depois ser tragada pelo mar cruel.

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Julia no. 58

Yvain revivia mentalmente cenas passadas, terrivelmente consciente de


que estava se afastando dos demais passageiros, sendo levada para mais longe,
cada vez mais longe. Os gritos começavam a morrer na distância e um pesado
silêncio se abateu sobre ela. Durante o dia a água parecia azul e morna. Mas,
naquele momento, negra e gelada, assemelhava-se a uma mortalha.
Grite, pensou ela. Chame alguém.
— Socorro! — O grito patético perdeu-se no silêncio da noite. — Socorro!
Ninguém respondeu. Ninguém ouviu. Leve como era, estava sendo
arrastada pelas águas para longe do alcance dos ouvidos dos outros passa-
geiros. Logo estaria complelamente só no meio do oceano, entre as costas
rochosas da Espanha e o norte da África.
Que pensamento aterrorizante! A solidão dos últimos anos não significa va
nada diante do sentimento que a invadia naquele momento... recorda ções do
passado passavam por sua cabeça como um filme muito nítido.
Tinha nascido em um lugar chamado Combe St. Blaize. No meio dos
pântanos erguia-se uma pedra chamada pelos moradores de Anjo Negro, ao
redor da qual costumava brincar, quando criança, colhendo flores silvestres para
oferecer ao pai, com quem vivia desde a morte da mãe. Amava pro-fundamente
aquele homem enorme de cabelos ruivos, que a chamava de "esquilinho" e
cuidava do vasto parque pertencente à família Sandell.
Sabia que eram parentes afastados dos Sandell, por parte da mãe, e às
vezes, muito cedo, ouvia-os galopando pelos pântanos a procura de raposas
vermelhas. Por causa das raposas, Yvain odiava os Sandell, gente saudá vel,
corada e impiedosa, para quem detestava trabalhar.
Gloriosa terra, aquela! Não havia lá uma só flor que o pai não conheces se
pelo nome. um só pássaro que não conseguisse imitar.
Envolvida pela água fria, Yvain tremia como na capela, no dia do enter ro
do pai. Tão cheio de vida, tinha morrido estupidamente, escoiceado por um dos
cavalos dos caçadores.
Alguém, talvez uma vizinha, tinha amarrado um grande laço negro nos
cabelos de Yvain, cabelos da cor das folhas no outono — como dizia o pai —
cabelos lisos e finos como a chuva nas florestas.
Ninguém se preocupou em consolá-la depois do enterro, pois, afinal, ela
não passava da filha do jardineiro. Não teve um ombro amigo onde chorar sua
tristeza. As lágrimas trancadas na garganta, uma sensação horrível de
irrealidade. No dia seguinte ela foi conduzida a um quartinho nos fundos da
mansão e, em seguida, começou a trabalhar para a sra. Sandell.
Agora estava livre... perdida em pleno mar, mantendo-se viva graças a um
colete salva-vidas; enregelada e assustada, envolvida pela noite escura e
aterradora. Os óculos que Ida Sandell a obrigava a usar há muito tempo tinham
sido engolidos pelas ondas e os cabelos de folhas de outono flutua vam livres
sobre as águas, libertos do birote deselegante. Sentia-se cada vez mais fraca,
enquanto um sono estranho a invadia pouco a pouco.
Será que já estava próximo o sono do qual nunca mais acordaria? Será
que tornaria a encontrar o homem alto e forte que costumava tomá-la nos braços
e dizer-lhe que seria uma princesa em um lindo castelo, como Rapunzel? Será
que sentiria alguma dor? Eram seus pensamentos, enquanto as ondas
quebravam sobre ela e as batidas do seu coração enfraqueciam mais e mais, até
que um clarão forte trouxe finalmente a inconsciência.

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Um grito soou na noite... seria ela mesma gritando? Durante mais algum
tempo flutuou sobre as ondas, até que finalmente ouviu um ruído estranho e
sentiu que era agarrada por mãos fortes como aço. Uma voz ansiosa falava com
ela numa língua que não conseguia entender. Agarrou-se ao homem como um
náufrago que encontra uma tábua de salvação no meio do oceano.
Algum tempo depois, Yvain despertou numa pequena cabine e percebeu
que havia sido envolvida em grossos cobertores. Continuou deitada, imó vel,
sentindo o balanço suave do barco e um abençoado calor nas pernas, o que
significava que estava salva... e viva.
Arregalou os olhos quando a porta se abriu e um homem se aproximou. Ele
tinha o rosto fino e bronzeado e usava um lenço de seda no pescoço.
— Como está, menina! — perguntou, examinando-a com os olhos escu ros
e profundos.
Como não entendia as palavras dele, apenas sorriu para o jovem que a
havia salvo de morte tão horrível.
— Muito obrigada — murmurou, cheia de gratidão.
Ele também sorriu e tornou a sair, deíxando-a descansar. Como era sim -
pático, pensou Yvain; como era alto e forte... talvez mais forte que o pró prio
oceano. Concluiu que seu cavaleiro andante era espanhol e adormeceu.
O barco chegou ao porto no momento exato em que rompia a aurora.
Trouxeram para Yvain um bule de café fumegante, uma malha de gola alta e uma
calça jeans. Quando terminou de se vestir, os primeiros raios de sol já entravam
pela janela, trazendo calor e vida. Estavam ancorados no pequeno cais de uma
praia cercada de altos pinheiros, que serviam como uma espécie de forte
protetor. Um suave perfume de folhas enchia o ar.
Por um pequeno lance de escada, Yvain subiu ao convés, de onde avis tou
uma lancha a motor ancorada junto ao cais. Uma moça de lindos cabe los
cacheados, batidos pelo vento, recebeu com um abraço o salvador de Yvain. Um
sentimenlo de profunda tristeza a invadiu ao observar o encon tro carinhoso dos
dois estranhos.
Deixou que o casal gozasse mais alguns minutos de intimidade, depois
caminhou até a porta do barco, de onde saltou para o cais, ajudada pelas mãos
fortes do homem. Com os cabelos cheios de sal, caindo pesadamente sobre os
ombros, e as roupas emprestadas, parecia exatamente o que era: uma órfã da
tempestade.
A jovem espanhola, de pele bronzeada como a do seu salvador, exami -
nava-a com curiosidade. Era muito bonita e sorriu quando ele fez as apre -
sentações.
— Minha mulher, Mari Luz.
Embora ele falasse castelhano. Yvain conseguiu entendê-lo. Com as ideias
mais claras, agora, recordou com facilidade algumas palavras de castelhano
aprendidas com Ida Sandell. A linda jovem morena era, então, a esposa do
rapaz. Que decepção descobrir que seu cavaleiro andante do ocea no era um
homem casado e feliz!
Seguiu o casal até uma casa de paredes brancas, construída entre os
pinheiros, onde um bebé de cabelos cacheados dormia tranquilo num berço de
madeira trabalhada. Na lareira, chamas suaves crepitavam. Mari Luz e o marido
conversaram durante alguns minutos e, em seguida, ele pediu licen ça e saiu.
— Telefonar. — Mari Luz ilustrava as palavras com gestos — Avisar o
gran señor..

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Yvain olhou para Mari Luz com certa surpresa.


— Gran señor? — perguntou.
— Emérito contou a ele da señorita inglesa... complende?
Yvain fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ao que parecia, Emérito ia
entregá-la aos cuidados de algum homem importante do lugar. Mas, em vez de
se preocupar, comeu com apetite os ovos mexidos preparados por Mari Luz e
observou com ternura o bebê adormecido. Estava tomando uma xícara de café
quando Emérito voltou e explicou que um carro estava a caminho para levá-la até
o señor.
— Onde estou? — Apontou para a janela. — Que lugar da Espanha é
este?
Mari Luz foi até o berço e tomou o filho nos braços, deixando ao marido a
tarefa de dar explicações. Espantada, soube que estava numa ilha um pouco
afastada da costa espanhola, a ilha de Leon.
Ainda não havia se recuperado inteiramente do choque quando ouviu o
som de um automóvel que se aproximava. Emérito abriu a porta e Yvain saiu em
silêncio. O sol brilhava através dos pinheiros, provocando reflexos fortes no
carro parado diante da casa. Yvain prendeu a respiração: nem mesmo os Sandell
possuíam uma limusine luxuosa como aquela, com um leão de prata na frente e
brasões nas portas.
Um motorista de uniforme colorido desceu e abriu a porta de trás para
Yvain, que dirigiu um sorriso de despedida a Emérito e sua jovem família.
— Muito obrigada. Você salvou minha vida e eu... eu não sei como
agradecer.
— Deus te proteja, señorita — disse Emérito, estendendo as mãos com
eloquência tipicamente latina.
Deus a estava protegendo. Curvando-se, Yvain beijou os cabelos encara -
colados do bebé e entrou no carro, deixando-se afundar no assento macio de
veludo, invadida por uma sensação deliciosa. Jamais em sua vida de moça pobre
imaginou que um dia seria conduzida a um reino fabuloso por um carro com
motorista. Não faltava nada ali, nem mesmo tapetes macios e encostos estofados
para a cabeça. Confortavelmente recostada, fechou os olhos para apreciar
melhor a suavidade do movimento do carro.
A natureza bela e selvagem da ilha de Leon completava-se com o brilho
das águas claras que a rodeavam. Quem seria o Leão? Seria possível que
estivesse mesmo sentada naquele carro, sendo conduzida ao palácio dele?
Tinha ouvido dizer que alguns nobres espanhóis ainda viviam como senho res
feudais naqueles lugares afastados, e Mari Luz havia mencionado um gran
señor.
De repente, Yvain agarrou com força a maçaneta da porta, assaltada por
uma onda irracional de pânico. Queria pedir ao motorista que a levasse de volta
à casa do jovem casal, onde sentia que estaria em segurança. Mas sabia poucas
palavras em castelhano e "Pare o carro, quero descer!" não constava do seu
vocabulário.
Olhou pela janela e deparou com penhascos íngremes, pinheiros e euca -
liptos, um leve briího dourado sobre as montanhas longínquas e um azulado
suave nas águas do mar.
O mesmo mar, tão terrível e assustador algum tempo atrás, naquele
momento resplandecia em tons de safira e jade. A medida que o carro se
aproximava do alto da montanha, Yvain pensava na patroa. Será que Ida Sandell

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tinha sido retirada do mar? Estaria a salvo? Estaria naquele mo mento fazendo
perguntas a respeito da criada, Pilgrim, como costumava chamá-la?
Yvain sabia que tinha um nome bastante incomum. Muitos anos atrás, o pai
havia lhe explicado que fora retirado de um livro de contos de fadas. Ida Sandell
detestava o nome e sempre a chamava por Pilgrim, quando desejava alguma
coisa.
Yvain olhava pela janela do carro, mas não prestava atenção à paisagem.
Não queria passar toda a vida à disposição de uma mulher que só pensava no
próprio bem-estar. A ideia de acompanhar a patroa num cruzeiro por terras
ensolaradas, a princípio, tinha excitado a imaginação de Yvain. Mas. a bordo, a
vida continuou como sempre: monótona e triste... até que as sirenes começaram
a tocar e o mar arrastou-a para perto da praia, onde um marinheiro espanhol a
encontrou. A ilha de Leon!
Cravou as unhas nas palmas das mãos, os olhos castanho-dourados reple -
tos de assombro. Como pôde esquecer a história da origem de seu nome? Yvain,
a menina que teve a ajuda de um leão na sua luta contra o dragão! Pouco
depois, quando o carro dobrava uma das muitas curvas da estrada em espiral,
surgiram diante dela, brilhantes contra o céu azul, as torres do castelo como que
saídas naquele instante de um conto de fadas. O coração de Yvain se acelerou,
excitado com a beleza da cena: sobre uma rocha imensa erguia-se o castelo,
imponente, suas torres elevando-se em direção ao céu, uma bandeira com o
brasão da família tremulando ao vento.
Aos poucos, ela foi recuperando o autocontrole. Não era um sonho, caso
contrário não sentiria o perfume dos pinheiros e o cheiro de sal que enchia o ar,
nem receberia no rosto a brisa fresca. Não era um sonho, pois naquele instante
atravessavam o portão do pátio, sobre o qual descansava tranquila a enorme
figura de um leão de pedra.
O carro contornou uma fonte de pedra, localizada no centro do pátio, e
parou suavemente diante de uma escadaria que levava a uma porta em forma de
arco. O motorista desceu e abriu a porta para ela, que durante alguns segundos
permaneceu imóvel, admirando a beleza do brasão de armas que dominava a
entrada. Dividido em quatro partes, representava a coragem, o orgulho, a honra
e o amor. Examinou com atenção a rosa, que simbolizava o amor. Estava
entrando na casa de um espanhol, sem dúvida alguma. E provavelmente cheia
de afeição, crianças, e dirigida por uma mulher sorridente e feliz.
— Por favor. — O motorista apontou não na direção da escadaria, mas na
de um portão de ferro batido, localizado em uma das paredes do pátio. —
Permitir. — Abriu o portão e afastou-se para dar passagem a Yvain, que parou,
extasiada, ao ver o novo pátio. Era como entrar num quadro, tal a beleza das
flores que cresciam por toda parte, infinitas em espécies e cores.
— Muitas flores! — murmurou, mais para si mesma que para o homem.
— Sim, señorita:
— Um edifício grande — acrescentou Yvain num sussurro.
— O señor fidalgo é um homem muito rico — respondeu o motorista,
divertido com o deslumbramenio dela.
O motorista parou diante de uma porta de madeira trabalhada e baleu de
leve. Em seguida girou as maçanetas de bronze e deixou que Yvain entras se
sozinha.
Yvain deu um passo e parou na entrada da sala, tentando controlar a
emoção. Jamais imaginou ver tanta riqueza: o teto ostentava pinturas a ouro,

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brilhantes como jóias antigas; nas paredes, quadros de pintores espa nhóis, com
molduras de ouro: a mobília antiga completava-se com tapeça rias finíssimas, nas
mesmas cores que uma pintura em mosaico da Virgem e do Menino Jesus.
Adiantou-se um pouco mais, sentindo que a porta se fechava atrás dela, e
arregalou os olhos, espantada, ao deparar com a figura alta parada ao lado de
uma das janelas em forma de arco. O homem de traços aquilinos e olhos de uma
frieza intensa fumava uma cigarrilha fina, com gestos tran quilos e seguros. As
maçãs do rosto, salientes, davam ao seu olhar um aspecto satânico, bem como o
nariz bem-feito e a boca imperiosa. Ele continuou imóvel, imerso no próprio
silêncio, gozando o perfume suave da cigarrilha, os cabelos pretos, levemente
castanhos, resplandecendo ao brilho suave de uma lâmpada avermelhada,
Era realmente um nobre da Espanha — dominador, distante, sombrio — e
vestia-se com tal apuro que Yvain sentiu uma onda de vergonha por suas roupas.
O señor examinou-a em silêncio, dos pés à cabeça. Yvain, paralisada de
terror, parecia esmagada pela grandeza do homem e de seu palácio. Pensou em
fugir dali para sempre, mas não teve forças para escapar à atração do olhar
profundo e da boca bem marcada que não parecia feita para sorrir.
— Você é a moça que Emérito pescou no mar?
— Sou, — Antes que ele falasse, sabia que sua voz soaria profunda mente
magnética, mas não esperava ouvir um inglês tão perfeito. Era a voz de um
verdadeiro bruxo, dominadora como seu olhar.
— Como se chama?
— Meu... meu nome é Yvain Pilgrim, señor.
— Sente-se. — Indicou uma cadeira de encosto alto, forrada de veludo. —
Vamos conversar.
Completamente indefesa diante de tanta grandeza, Yvain obedeceu de -
pressa, temendo que suas pernas a traíssem. Jamais em toda sua vida tinha sido
possuída por uma emoção tão forte...
Só quando ele se afastou da janela e caminhou na direção da lareira é que
Yvain percebeu que havia qualquer problema com sua perna esquerda, e que ele
andava com o auxílio de uma bengala negra. Parando diante do brasão da
família, fez uma leve inclinação de cabeça.
— Sou don Juan de Conques y Aranda, marquês de Leon — disse com
voz profunda e cheia de uma força estranha.
O nome pomposo quase provocou um desmaio em Yvain. Então aquele era
o leão da ilha... o senhor feudal que governava a todos, ali do seu castelo, e cuja
palavra provavelmente era lei.
— Temos um ditado aqui, señorita Pilgrim, que diz que um espanhol pode
feri-la, mas que jamais a esfolaria imediatamente. Pare de tremer tanto.
Como consequência, ela ficou ainda mais nervosa, especialmente porque
naquele instante ele estava perigosamente próximo, os olhos negros fixan do-a
com intensidade.
— Não gosta da minha casa, señorita? Muitas pessoas a consideram bela,
com suas torres construídas sobre o mar, suas amendoeiras, suas fontes.
— Sua casa é um castelo, señor.
— Minha casa é um castelo — concordou, irónico. — Nunca esteve em um
castelo antes?
—Não, señor. — Ergueu a cabeça, cheia de dignidade. — O que uma dama
de companhia iria fazer em um castelo?

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— Tem razão... o quê? — Acariciou as rosas de um vaso dourado que


enfeitava a lareira de mármore. O perfume delicado das flores misturava-se ao
cheiro da cigarrilha. — Quantos anos tem, señorita Pilgrim?
Ela não respondeu logo, chocada com a pergunta inesperada. Ele franziu a
testa e Yvain percebeu que quando o marquês de Leon fazia uma pergun ta a
resposta devia vir sem hesitação.
— Dezenove, señor.
— Pensei que fosse mais jovem. — Percorreu com os olhos a figurinha
magra, ainda menor dentro das roupas emprestadas por Emérito. Afastou-se da
lareira e foi até uma mesinha antiga, provavelmente muito valiosa, sobre a qual
repousava um prato com um cacho de uvas brilhantes como gotas de ouro.
Apanhou o prato e estendeu-o para Yvain. — Por enquanto é muito jovem para
que lhe ofereça vinho. — Um sorriso quase imperceptível passou pelos lábios
dele. — Vamos, prove-as. São dos vinhedos do castelo.
As uvas tinham um sabor delicioso, mas Yvain não conseguiu comer mais
que três ou quatro, envergonhada diante do olhar que não se afastava dela.
— Emérito alimentou você? — perguntou, agora diante do mosaico da
Virgem e do Menino, parecendo apoiár-se com mais força sobre a bengala.
— A esposa dele preparou um desjejum para mim, señor. Eu... eu teria
morrido, se não fosse Emérito.
— Provavelmente. — Examinou-a através da fumaça da cigarrilha. — Foi
inacreditável, não foi? Um pesadelo para você. Não pense mais no assunto.
Agora está salva...
— Todas aquelas pessoas... como gritavam!
— Espero que muitas tenham sobrevivido, como você.
— Estava viajando com minha patroa, a sra. Sandell. Será...
— Que ela lambem se salvou?
— Sim. — Nunca sentira muita afeição pela patroa, mas sabia o que era
estar perdida no meio do oceano, só e aterrorizada. Por isso sofria por Ida
Sandell.
— Vou providenciar para que sejam feitas as investigações. — Olhou-a
com curiosidade. — Se tiver sido salva, quer voltar para ela?
— Não! — A rejeição foi tão instintiva que Yvain não conseguiu contro lá-
la. — Mas... acho que é preciso... não tenho nada, nem roupas, nem dinheiro.
— Prefere ficar aqui?
Por um instante Yvain achou que não tinha ouvido bem. Mas. de repente.
como uma bomba de efeito retardado, a compreensão explodiu na sua mente.
Encarou-o, incrédula. Ele era um marquês e ela não passava de uma pobre
dama de companhia... será que ele estava lhe oferecendo um empre go no
castelo?
— Está... me oferecendo um emprego, señor? — perguntou com voz
sumida.
— Todos os meus criados são homens, exceto minha governanta. — Outra
vez a sombra de um sorriso passou pelos lábios do marquês. — Não, señorita. o
convite é para que fique aqui por algum tempo.
— Mas...
— Mas o quê? Não parece muito ansiosa para voltar ao antigo trabalho.
Não prefere ficar no castelo?
— Em... em que condições? — Hesitou um pouco, torturada pela dúvi da,
mas finalmente conseguiu fazer a pergunta.

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— Como minha convidada, señorita Pilgrim. — Seus olhos brilhavam,


zombeteiros. — Imaginou que havia despertado paixão em mim?
Uma onda de sangue subiu ao rosto de Yvain, que baixou os olhos con -
fusa.
— Posso lhe garantir que não me utilizo de meu direito de senhor sobre as
mulheres que pisam nesta ilha — replicou, irónico. — Você está nas minhas
mãos e vai ficar aqui! Minha decisão é inabalável!
Yvain permaneceu imóvel como uma estátua, segurando com mãos tré -
mulas o prato com as uvas. E a família dele? Será que não protestariam contra a
ideia de terem uma pobre náufraga como hóspede?
— Qual é o problema? — Inclinou-se sobre a bengala e examinou-a como
se ela fosse um objeto estranho, que destoava do ambiente luxuoso. mas ao
mesmo tempo despertava a curiosidade do nobre.
— E sua família, o que vai dizer? — perguntou, nervosa.
— Não tenho família. — Seu rosto ensombreceu, como se Yvain tivesse
colocado o dedo numa ferida muito profunda, que ele desejava manter oculta sob
um muro de ferro. — Não tenho mulher, nem filhos, señoríta. Há alguns gatos
pelo castelo, e um cão alsaciano. Mas, como pode ver — apontou para a perna
esquerda —, sou aleijado, como Lúcifer.
Um calafrio percorreu a espinha de Yvain. Lúcifer, o anjo caído, tinha sido
expulso do céu por causa do seu orgulho. Era estranho, mas desde que pousara
os olhos naquele homem tinha sentido algo de satânico nele.
— Pretende se responsabilizar por mim?
— Será uma novidade. — Tocou um sino de prata para chamar um dos
criados. — Sei que os ingleses não gostam de dever obrigações a ninguém, mas
a ilha de Leon fica muito distante da sua terra e você não tem outra alternativa
senão aceitar minha hospitalidade.
— É muito generoso, señor.
— Generoso? — Sorriu com desprezo. — Sou prático e sou espanhol.
Minha casa é sua!
Yvain correu os olhos pela sala ricamente mobiliada, pelas tapeçarias,
pelos vasos e quadros. Sentia-se como uma indigente naquele ambiente.
— Tomarei as providências necessárias junto às autoridades do conti nente
— disse ele, no instante em que as portas se abriam e uma mulher entrava.
De rosto impenetrável e sombrias roupas negras, a mulher o ouviu em
silêncio; depois olhou para Yvain com frieza.
— Sim, don Juan. — A mulher fez uma reverência e saiu da sala.
— Disse à minha governanta que preparasse um quarto para você. O
nome dela é Alma e vai achá-la bastante prestativa.
Yvain olhou-o, desconsolada. Ele a recolhera como a um gatinho encon -
trado à porta, mas não revelava o menor calor humano.
— Obrigada — murmurou, sem repetir que ele era generoso. Suspeitava
de que não era um impulso de generosidade que o levava a hospedar no
Castelo um zero como ela. Talvez a curiosidade fosse o motivo do convite:
como uma mocinha pobre reagiria a um castelo tão luxuoso?
— Você entende nossa língua? — Os olhos de don Juan pareciam ler os
pensamentos dela.
— Algumas poucas frases.
— Quando deixar a ilha de Leon, terá aprendido muitas outras. E eu,
quem sabe, talvez aprecie o papel de guardião.

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Guardião demoníaco! Yvain levantou-se de um salto. Viu-se refletida em


um espelho, o prato na mão e as roupas estranhas, e não resistiu ao impulso de
rir. Ria e ria, num acesso de histeria incontrolável, ao mesmo tempo que sentia
as lágrimas correndo pelo rosto. Através das lágrimas, percebeu que o marquês
se aproximava e deu um grito quando ele a esbofeteou no rosto.
— Ai! — Sentiu um tremor pelo corpo todo e uma pontada no rosto. Como
uma criança indefesa, espancada e humilhada, odiou o marquês de todo
coração.
— Não quero outros ataques de histeria — murmurou, com voz contida. —
De agora em diante vai aprender a demonstrar dignidade, está me enten dendo?
— Por quê? — As lágrimas continuavam a correr. — Eu... eu já lhe disse
que não passo da criada de uma mulher mimada e egoísta.
— Você era uma criada! — Segurou-lhe o queixo e obrigou-a a olhar para
ele. — Yvain, você tem um nome raro e vai viver de acordo com ele.
Os dedos que lhe seguravam o queixo eram os mesmos que a haviam
esbofeteado... cruéis. Antes de entregá-la aos cuidados da governanta, o
marquês retirou um lenço do bolso e estendeu-o a ela, dizendo-lhe que limpasse
aquelas lágrimas tolas.
— Você vai esquecer o naufrágio, entende? Deite-se, descanse e ama nhã
vai se sentir melhor.
Ela enxugou os olhos, profundamente infeliz. Como seria bom ter al guém
que a abraçasse e a consolasse num momento de crise. Há quanto tempo não
sabia o que era ser amada.
Em silêncio, devolveu o lenço, que ele colocou no bolso do casaco de
veludo negro.
Yvain seguiu a governanta por escadas em ziguezague até o quarto que
lhe estava destinado, e que pelas paredes e janelas curvas parecia localizar-se
numa das torres do castelo. Junto ao quarto, um banheiro revestido de azulejos
verdes e dourados.
— O banheiro — disse a governanta, abrindo a porta e indicando as
torneiras de água quente e fria, bem como um armário repleto de toalhas. Numa
das prateleiras inferiores, Yvain encontrou sabonetes, sais de banho e uma
esponja. Naquele lugar, teria completa privacidade.
Sorriu para a governanta, mas a mulher permaneceu séria e hostil, o que
levou Yvain a pensar no ar esnobe dos criados da mansão dos Sandell.
— Acho... que vou tornar um banho.
A mulher fez um sinal com a cabeça, indicando que havia entendido. — A
señorita vai encontrar um roupão e uma camisola sobre a cama. O senhor
marquês mandou comprar roupas para a señorita na cidade.
— Cidade? Existe uma cidade aqui? — perguntou Yvain,
— Claro. O castelo fica isolado por causa do mar. mas a alguns quiló -
metros daqui existem lojas, um hotel e um teatro. Puerto de Leon possui muitas
casas bonitas. Don Juan tem muitos amigos lá.
Que alívio saber que não estava completamente isolada da civilização!
Yvain apanhou um sabonete de óleo de pinho e aspirou o perfume, delicia da. Um
banho, depois um bom sono naquela grande cama do outro cómo do, e voltaria a
ser a mesma de sempre.
— A señorita gostaria de tomar alguma coisa?
— Seria possível... seria possível tomar uma xícara de chá?

Livros Florzinha - 10 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Se a señoríta deseja. — Outra vez Yvain sentiu o olhar de desprezo da


mulher. — Não somos selvagens aqui na ilha. Há muitos anos que don Juan
cuida dos negócios aqui, e homens como o sehor marquês têm muita visão.
— E fazem as coisas sempre a seu modo — disse Yvain.
— Um espanhol é o senhor da sua própria casa, e don Juan mais que os
outros. Sua família e seus feitos estão registrados nos livros de história da
Espanha, señorita.
— A ilha deve ser muito bonita — disse Yvain, quase em desespero.
— A señorita vai ver por si mesma. Venha. — A governanta conduziu-a até
uma das janelas, que abriu de par em par. Imediatamente o quarto foi invadido
pelo som do mar. que soluçava como o vento entre os pinheirais, triste e
inquieto, carregando consigo um estranho encantamento.
— Veja — murmurou Alma.
Yvain olhou e viu, bem lá embaixo, o mar cor de jade e as rochas
majestosas que ele acariciava dia e noite, formando círculos de espuma branca.
Lá no alto da torre, Yvain se sentia como Rapunzel, prisioneira do bruxo do
castelo.
— O mar sussurra coisas — a governanta falou baixo, bem junto ao ouvido
de Yvain. — Qualquer noite você vai ouvi-lo e pensar que a voz pertence a um
ser humano. Sabe señorita. há muitos anos atrás uma noiva foi morta nessas
rochas.
Yvain prendeu a respiração e afastou-se da janela. Encontrou os olhos da
mulher e percebeu que a intenção dela era assustá-la.
— Ela era jovem, como você, e pertencia a uma terra estranha, como
você. Certo dia levou um dos cães para um passeio pelas rochas que rodeiam o
castelo e ambos se precipitaram nos penhascos, seriorita.
Com essas palavras, a governanta caminhou até a porta e a abriu.
— Quando a señorita estiver pronta, trarei o chá.
A porta fechou-se por trás da figura negra e ameaçadora da mulher, e
Yvain sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha ao ouvir novamente o som do
mar entrando pela janela, como a voz da moça morta há tanto tempo entre as
rochas e as ondas.,
Pela primeira vez prestou atenção ao quarto e achou-o muito bonito...
como se tivesse sido preparado para uma pessoa que chegou e partiu... ou para
uma mulher que jamais apareceu para reclamá-lo. A cama, incrivel mente grande,
estava coberta por uma colcha de renda, formada por uma centena de pequenas
flores, cada pétala detalhada com perfeição. Todas as roupas de cama tinham
monogramas em linha de seda e, sobre o criado-mudo. de madeira trabalhada
como os demais móveis, descansava um aba jur de prata. Duas poltronas
forradas de brocado, um sofá do mesmo tecido e um tapete azul como o mar
completavam a decoração.
Yvain não pôde deixar de comparar seu refúgio atual ao que ocupava na
mansão dos Sandell, escuro, mobiliado com velhas peças que os moradores não
desejavam mais.
Como que saídos de um sonho, os sinos de uma capela próxima repica -
ram, misturando-se aos murmúrios do mar.
— Há uma encruzilhada nas linhas da sua mão — tinha dito uma ciga na,
numa feira de Combe St. Btaize, uma semana antes da viagem com Ida Sandell.
Passeando sozinha pela feira, pensava que a cigana bem que pode ria ter dito
que encontraria no navio um estrangeiro alto e moreno.

Livros Florzinha - 11 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Sentiu o coração se acelerar ao pensar no estrangeiro alto, moreno e cruel


de quem era hóspede por uns tempos. Só que aquele não era o jovem atraente
dos seus sonhos... seu rosto frio, seus olhos penetrantes e sua perna aleijada a
assustavam.
Ele havia respondido com ironia quando ela lhe perguntou a razão do
convite para ficar no castelo... que espécie de sentimento havia despertado
naquele homem que vivia solitário no seu reino?

CAPÍTULO II

Um sol glorioso despertou Yvain na manhã seguinte. Bem-disposta,


levantou-se e correu até a janela para ver o mar à luz do dia, deslumbrada como
uma criança. Debruçou-se à janela, a camisola grande demais caída de um dos
ombros.
Como a Espanha era bela, com suas montanhas distantes e seu oceano
cor de jade! Depois de uma noite de sono profundo, já refeita do choque
provocado pelo naufrágio, sentia uma necessidade urgente de explorar aquele
novo mundo.
Passeou o olhar pelo quarto e lembrou o que a governanta havia dito no
dia anterior a respeito de roupas novas que seriam trazidas para ela da cidade.
Como a roupa emprestada por Emérito havia desaparecido, Yvain, num impulso,
correu até o guarda-roupa imenso e abriu as portas de par em par, examinando
com ansiedade as peças compradas especialmente para ela. Entre um vestido
cor de laranja, um conjunto listrado de linho, um vestido florido de seda e um
conjunto de saia verde e blusa de babados, com mangas bufantes, escolheu o
último, que lhe agradou por ser uma espécie de roupa camponesa. Sem perda de
tempo, tomou um banho, vestiu-se e penteou o cabelo. Já ia arrumá-io no coque
costumeiro quando lembrou que não eslava mais sob as ordens dos Sandell e
que o marquês de Leon não era seu patrão.
Prendeu o cabelo numa trança e deixou-a cair sobre o ombro esquerdo.
Diante do espelho, admirou a própria imagem como se não pertencesse a ela
mesma.
Livre dos óculos horríveis, seus olhos revelavam-se grandes e cheios de
curiosidade. Gostou da nova aparência e sorriu, satisfeita.
Afastando-se do espelho, decidiu descer à procura de alguma coisa para
comer. Estava morta de fome, o que atribuiu ao efeito do ar marinho que havia
respirado durante toda a noite.
Desceu correndo a escada que unia a torre ao vestíbulo, que, por sua vez,
dava para um pátio. Parada diante de um dos arcos do pátio, respirou
profundamente o ar puro da manhã, deixando que o sol lhe batesse no rosto.
Sob uma árvore copada, coberta de flores, sentado a uma pequena mesa
preparada para o café da manhã, avistou o marquês descascando distraida-
mente uma tangerina. Ia se afastar quando ele ergueu a cabeça, como se
houvesse sentido a presença de alguém.
— Muito bom dia! — cumprimentou-a, — Venha me fazer companhia,
señorita Pilgrim.

Livros Florzinha - 12 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Respirou fundo, intimidada pela estatura do marquês, que se levantou para


recebê-la. Naquela manhã ele vestia uma malha de lã amarelo-ouro e calça
marrom. Esperou que ela ocupasse a cadeira e sentou-se outra vez, estendendo
a perna esquerda como se não conseguisse dobrá-la no joelho.
— Dormiu bem? — Tocou um sininho de prata e continuou a descascar a
tangerina, cujo perfume se misturava ao das flores e plantas que orna mentavam
o pátio.
— Dormi, obrigada. — Yvain sentia-se tímida e insegura diante dele. —
Por acaso teve notícias das outras pessoas do navio, señor?
— Emérito foi até o continente investigar e, também, comunicar às
autoridades que você vai permanecer aqui, como minha convidada.
Era estranho ouvir alguém se referir a ela como convidada, depois de
tantos anos de trabalho quase que ininterrupto para a família Sandell, que
parecia não considerá-la um ser humano digno de atenção. Acostumada a servir,
e não a ser servida, ficou um pouco confusa quando um criado apareceu e don
Juan lhe perguntou o que desejava para o desjejum.
— Ovos flamengos? Pãezinhos, mel e geléia? — sugeriu o marquês.
— Sim, por favor. — Uma onda de sangue coloriu o rosto dela. — Parece
tudo delicioso.
Ele se virou para o criado, que esperava as ordens em atitude atenta e
respeitosa, falando num castelhano rápido e incisivo.
— Já tomei meu café. — Don Juan examinou com atenção a roupa que
Yvain havia escolhido para aquela manhã. — Café, pãezinhos e frutas. Vejo que
minhas instruções foram seguidas. Hoje você não tem mais aque la aparência de
náufraga infeliz.
— Agradeço muito pelas roupas, don juan. Não... não sei como vou poder
pagar.
— Tenho certeza de que vai descobrir um meio — respondeu, enigmáti-
co. O sol benfazejo iluminava e aquecia tudo, menos os olhos escuros
pousados nela.
— Sua vida mudou muito depressa, e de maneira dramática, señorita
pilgrim. Não a excita a perspectiva de novas descobertas?
— Ainda me sinto um pouco assustada. — Olhou em torno, observando
com renovada admiração as paredes cobertas de flores, a fonte, os pássaros que
cantavam nas árvores do pomar, pensando que um jardim de tanta beleza podia
ocultar uma serpente venenosa. Era tudo belo demais! Impos sível que um sonho
desses não se misturasse a alguns pesadelos, por isso Yvain se mantinha na
defensiva. A vida lhe havia ensinado a ser cautelosa.
— Precisa aprender a viver o presente. O que passou está morto — falou
don Juan, grave. — Señorita, a memória pode ser uma artista bastan te realista,
mas você é suficientemente jovem para apagar as cores escuras e substituí-las
por outras mais alegres.
— No momento as lembranças estão vivas demais e não consigo apagá-
las. — Tocou uma pétala que caiu sobre a mesa. — Vou me sentir melhor
quando souber que a sra. Sandell está bem.
— Mas você não era feliz trabalhando para aquela mulher.
— Ela era um pouco egoísta, mas... morrer afogada!
— Nós, espanhóis, somos fatalistas e acreditamos que cada pessoa deve
cumprir seu destino. Ah, aí vem Luís com seu desjejum. — Don Juan levantou-se
e apanhou a bengala de castão de prata. — Tenho negócios a tratar, por isso

Livros Florzinha - 13 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

vou deixá-la sozinha. Divirta-se, explore a região, faça ami zade com os animais
e, se quiser ler, minha governanta lhe mostrará a biblioteca. Lembre-se de que
não deve ocupar sua mente com imagens escuras. Goze sua juventude e sua
despreocupação, pois o tempo das tristezas não tarda.
Ele se despediu com uma inclinação de cabeça e afastou-se mancando,
alto e moreno, até desaparecer dentro do castelo. O que o teria ferido tão
profundamente a ponto de transformá-lo num homem que jamais sorria? Como a
torre do castelo, ele parecia distante e envolto em mistério.
Luís arrumou os pratos na mesa. diante dela: ovos mexidos com mantei ga,
pãezinhos saídos do forno, um pote de mel brilhante como ouro e um bule de
chá.
— Obrigada. — Sorriu para o criado, mas, como Alma, também ele era
reservado, parecendo saber que ela não estava acostumada a ser tratada como
uma lady. O homem recolheu as pétalas caídas sobre a mesa e as cascas da
tangerina de don Juan. Yvain sentiu-se triste, o marquês havia dito que a casa
dele pertencia a ela, mas os criados pareciam considerá-la uma intrusa. Sabiam
que ela não possuía a segurança das pessoas nascidas para dar ordens e serem
servidas. Sabiam que ela não passava de uma dama de companhia.
Estava comendo as delícias trazidas por Luís quando percebeu uma enor -
me cabeça de cão surgindo do meio de um arbusto. O animal olhou para ela,
depois sacudiu a cabeça e aproximou-se para examinar a estranha. Yvain não
sentiu medo, pois estava acostumada com os mastins da mansão Sandell.
— Olá — saudou-o. — Espero que seja mais amigável que os demais
hábitantes desta casa.
O alsaciano sentou-se nas patas traseiras e cheirou as sandálias verme -
lhas de Yvain. Depois levantou a cabeça e encarou-a, em dúvida.
— Como é que você se chama? — Inclinou-se e examinou a pequena
placa que o cão trazia na coleira. — Carlos! Vamos dar uma volta?
O cachorro pareceu pensativo durante alguns segundos, depois colocou o
focinho sobre a mesa, à procura de restos de comida.
— Ah. precisa ser subornado, é?
Carlos aceitou com prazer os pedaços de pão com mel e, quando já estava
satisfeito, conduziu-a através de um corredor em forma de arco até a parte
principal do castelo. Desceram um lance de escadas ornamentadas de ambos os
lados com estátuas e grandes jarros. Salgueiros seculares erguiam-se em volta,
projetando sua sombra fresca sobre os degraus e so bre o regato de água
cristalina que corria com um murmúrio suave entre as flores.
Um jardim tão imenso e tão belo para dar prazer a um único homem...
Yvain pensou na felicidade que gozariam os filhos do marquês, se ele os tivesse,
correndo livres pelos gramados, subindo como esquilinhos pelos galhos das
magnólias... quanto desperdício!
Seguiu o cachorro por um caminho cercado de estranhas árvores de
folhagem suave como veludo, que serpenteava até uma construção de teto de
vidro. Na porta, havia uma lâmpada decorativa, presa por uma grossa corrente.
Deu um passo para dentro do edifício e parou, maravilhada: no interior sombrio,
havia palmeiras por toda parte e, no centro, um lago com peixinhos dourados. A
mobília de vime combinava perfeitamente com o clima do recanto. O ar recendia
o perfume das orquídeas e das pequenas frutas que pendiam dos lótus,
refletindo o ouro do sol que se filtrava pela cobertura de vidro.

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Carlos enfiou o focinho no lago, depois se deitou, feliz, sobre os ladri lhos
dourados. Yvain olhou em torno. deslumbrada, estendendo as mãos para tocar
as pétalas delicadas das flores tropicais.
Será que don Juan costumava ir até aquele recanto para fumar um cigar ro,
antes de dormir? Yvain quase podia vê-lo, perdido entre a fumaça da cigarrilha e
o verde mistério do lugar, como uma escultura de rosto duro como pedra.
Sentou-se em uma cadeira de vime, observada por Carlos.
— Você não passa de um carneirinho com pele de lobo, Carlos. —
Acariciou-lhe a cabeça, pensativa. Até quando don Juan pretendia mantê-
la no castelo? O que aconteceria se Ida Sandell estivesse viva e exigisse a volta
da sua dama de companhia?
Yvain aspirou o perfume das flores e sentiu-se invadida por uma estranha
paz, uma alegria infinita por estar longe de Ida Sandell e de seus desejos
egoístas. Mas, apesar de feliz, era perseguida pela dúvida: qual a verdadei ra
intenção do marquês? Ele parecia frio e prático demais para se comover com a
triste sorte de uma inglesinha pobre e perdida.
Yvain mordeu o lábio, e o cão, como que sentindo a inquietação dela,
aproximou-se e deitou a cabeça em seu colo.
— Carlos — passou os dedos pela cabeça dele —, se ao menos você
soubesse falar e pudesse me dizer o que existe por trás da máscara imper -
turbável do seu dono! Ele não se parece com ninguém que conheci até agora, e
me assusta um pouco. Os Sandell se consideravam pessoas de sangue azul,
mas a verdadeira nobreza é aquela a que pertence o marquês de Leon. Não
imagino o que ele possa esperar de mim, uma humilde criada.
A manhã voou, e Yvain voltou ao pátio, onde almoçou sozinha, pois,
segundo Alma, don Juan não voltaria antes do entardecer. Em redor, tudo era
silêncio e solidão.
— Aconselho a señorita a fazer a sesta, caso contrário o dia vai parecer
muito longo. Don Juan vai jantar com seu amigo, o señor Fonseca, e a filha dele,
dona Raquel, que moram na cidade, e depois provavelmente vão ao teatro.
— Dona Raquel... que nome bonito — comentou Yvain. curiosa.
— Posso garantir à señorita — disse a governanta, examinando a figura
infantil de Yvain —, que dona Raquel é uma verdadeira beleza espanhola. Don
Juan não podia encontrar noiva melhor. Um nobre espanhol tem a obrigação de
se casar com uma moça de estirpe, e don Juan sabe muito bem disso, pois teve
como exemplo o casamento desastroso do pai. Isso com certeza vai impedi-lo de
se casar com alguém de condição inferior à dele.
Yvain sentiu um aperto no coração. Queria fazer perguntas, mas Alma se
afastou, deixando-a intrigada com aquelas palavras misteriosas e cheias de
maldade.
Tarde da noite, quando já estava deitada, Yvain ouviu a buzina do carro do
marquês, que chamava o porteiro. Procurou imaginar a cena: uma limusine negra
deslizando suavemente pela alameda e, no banco traseiro, a figura alta e
misteriosa, talvez sorridente depois de uma noite com dona Raquel.
Havia muita coisa a conhecer sobre o senhor do castelo, e Yvain desejou
que sua permanência ali durasse o suficiente para descobrir o segredo
oculto sob a máscara de impenetrável reserva.
Passaram-se vários dias antes que ela visse o marquês novamente. O
castelo era um verdadeiro mundo; assim, durante vários dias, ela percorreu os
jardins e cada um dos cómodos imensos. Quando a noite chegava, don Juan

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saía para jantar com os amigos ou então jantava sozinho no castelo, jamais
convidando a jovem hóspede para se unir a ele. Tendo Carlos como companhia,
Yvain não se importava muito por ser ignorada.- Era melhor ter um cão como
amigo do que passar o dia à disposição de Ida Sandell, que não lhe dava um
minuto de folga.
Algum tempo depois, ela soube que Emérito havia voltado do continen te.
Andou de um lugar para outro durante lodo ó dia, inquieta, até que recebeu uma
mensagem do marquês, convidando-a para jantar com ele naquela noite, às nove
horas.
Como seu guarda-roupa não incluísse uma roupa de noite, decidiu usar o
vestido florido de seda. Estava um pouco grande, mas Yvain, com sua habilidade
com a agulha, adaptou-o em pouco tempo. As flores vermelhas combinavam
maravilhosamente com seus cabelos dourados. Mas, pensou desconsolada,
talvez don Juan nem notasse.
Chegado o momento tão temido, ela deu uma última olhada no espelho e
desceu lentamente a escadaria da torre, ansiando pelo próximo encontro e, ao
mesmo tempo, agitada e insegura. Atravessou o vestíbulo e dirigiu-se ao
aposento de don Juan, batendo à porta com os dedos trémulos.
Assustou-se com o relógio do vestíbulo, que soou naquele instante. Reu -
nindo todas as forças, entrou na sala e encontrou o marquês diante de um
belíssimo móvel antigo, vestindo um conjunto de veludo negro, impecável, tão
imponente que Yvain foi tomada por uma onda de timidez.
— Boa noite, señorita Pilgrim — falou em tom formal, a expressão
inalterada. — Vamos jantar. O salão de refeições fica aqui ao lado.
Com a ajuda da bengala, caminhou até a outra porta e a abriu, dando
passagem a Yvain. A grandiosidade do salão não contribuiu em nada para
diminuir a timidez dela. Sentaram-se, cada um numa das pontas da mesa
decorada com candelabros e vasos de cristal. Sentada naquela cadeira alta
como um trono. Yvain se sentia perdida, insegura e com medo do homem que a
observava fixamente.
— Precisamos providenciar algumas roupas mais adequadas ao seu cor -
po. — Examinou-a com desaprovação. — Mas que nenhuma delas seja
vermelha.
— Mas... — Yvain respirou fundo. — Não vou ficar aqui por muito
tempo.
— Acha que não? — Inclinou a cabeça quando Luis surgiu com uma
garrafa de vinho. — Tenho algumas notícias que podem prolongar sua
permanência aqui como minha... convidada.
— Notícias sobre a sra. Sandell — Não lhe passou despercebida a
pequena pausa antes da palavra convidada, mas estava mais preocupada com a
mulher que tantas vezes a tratara mal. — Boas notícias; señor
Ele acariciou o copo com os dedos, enquanto Luís se aproximava dela com
o vinho.
— No continente recebemos a informação de que a sra. Sandell estava
entre um grupo de passageiros recolhidos e enviados a Tangiers de navio. De lá,
suponho que tenha viajado para Londres, de avião. Sua patroa deu como certa a
sua morte, o que parece não tê-la preocupado muito, senão teria entrado em
contato com as autoridades espanholas para maiores infor mações.
Cada palavra era clara e fria como gelo... tinha sido abandonada nas mãos
daquele homem.

Livros Florzinha - 16 -
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O brilho das velas se refletia na superfície polida da mesa. dando um ar de


mistério à cena. Yvain tentou ler os sentimentos do marquês de olhos frios, mas
tudo que conseguiu perceber foi que teria que concordar com tudo que ele
decidisse.
— A sua saúde. — Ergueu o copo. como num ritual. — Você não é mais a
criada daquela mulher mimada e egoísta.
O vinho fresco e saboroso provocou uma espécie de exaltação em Yvain
que. apesar de separada de don Juan pela longa mesa parecia possuída por ele.
Depois do jantar foram para uma outra sala.
— Temos uma saleta que não é usada com frequência, mas gostaria que
você a conhecesse. — A bengala de ébano ecoava no silêncio do vestíbulo,
enquanto se encaminhavam para uma porta guardada por uma armadura
sirracena. Ele retirou do bolso um molho de chaves e abriu a porta com uma
delas.
— Damos a este cómodo o nome de quarto dourado. — Quando o mar -
ques acendeu a luz, foi como se uma caixa de jóias tivesse sido aberta e
revelasse todo o esplendor oculto.
— Entre, por favor. — Como num sonho, ela obedeceu, mal podendo crer
no que seus olhos viam. Tudo ali brilhava como ouro, desde as corti nas que
caíam do teto dourado e iam até o rico tapete, também cor de ouro. até a mobília
graciosa, os vasos cheios de rosas, os antigos afrescos.
A sala era um verdadeiro deslumbramento. Esquecida do homem som brio
que a acompanhava. Yvain andou de um lado para o outro, tocando objetos
adoráveis como um porta-jóias mourisco e um xale bordado a ouro, mantido
sobre um piano pintado em creme e ouro. Uma rosa vermelha sobre a tampa
fechada. Uma espécie de melancolia pairava sobre a sala, que com certeza devia
ter pertencido a uma mulher. Quem havia dedilhado o piano. Quem seria a
mulher que amava rosas e música?
Quando se virou para olhar para don Juan, notou um retrato e um par de
castanholas que brilhavam contra a parede forrada de seda. A moça do quadro
chamava a atenção pela beleza dos cabelos negros e pela suavidade da pele,
que contrastavam lindamente com o vestido vermelho. A figura esbelta e doce
trazia nas mãos um par de castanholas, e nos cabelos, flores cheias de vida.
como seus olhos.
— Essa era Lu Rosaltta. — Don Juan parou ao lado de Yvain, alto e
imponente, apesar de levemente inclinado sobre a bengala. — A dançarina
cigana com quem meu pai se casou.
Yvain voltou-se para ele, surpresa, e sentiu que seu coração disparava ao
impacto daqueles olhos negros e brilhantes.
— Sim. senhorita, minha mãe era uma cigana. E a família de meu pai
jamais o perdoou por ter-se casado com ela. Ele a trouxe para viver aqui e
mandou construir esta sala especialmente para ela, que era pura alegria, pura
música, simples como uma flor que, aos poucos, foi perecendo na atmosfera de
gelo e hostilidade criada pela família. Nos momentos de ale gria e de tristeza,
fugia para cá e passava longas horas ao piano, tocando as músicas flamengas
que tanto amava.
Os olhos de Don Juan estavam fixos, com expressão de profunda tristeza,
no retrato de sua mãe cigana.
— Ainda me lembro como ela costumava passar os dedos pelos cabelos
fartos e brilhantes, negros como a meia-noite.

Livros Florzinha - 17 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Estendeu a mão e pegou as castanholas, cujo som ecoou pela sala como
um grito de desespero. Colocou-as de volta onde estavam e anunciou que
tomariam ali mesmo o café e o licor. Yvain examinou-o com atenção e concluiu
que os olhos negros e a estrutura óssea do rosto assemelhavam-se muito aos da
mãe. escondendo sob a máscara de frieza a mesma força, a
mesma chama.
— Toca? — Apontou para o piano.
— Entre os deveres de uma dama de companhia não se incluem tais
refinamentos, señor, — Sentada na cadeira de encosto alto, as mãos cruza das
sobre o colo, Yvain falava com tristeza. Queria saber mais sobre a cigana, mas
não teve coragem de fazer perguntas. Em pé, apoiado à benga-la, ele parecia
compará-la às lindas moças da Espanha.
— Durante quantos anos trabalhou para aquela mulher?
— Desde os quinze anos, señor, quando meu pai foi morto pelo coice
de um cavalo.
— Ele estava cavalgando? — Imediatamente uma chama surgiu nos
olhos negros de don Juan.
— Havia uma caçada na mansão dos Sandell e ele estava ajudando na
estrebaria. — Apertou as mãos com força ao relembrar o dia doloroso. — Estava
ajustando um estribo quando... quando aconteceu. Amava tanto os animais, e foi
morto por um deles.
— E sua mãe?
— Não me lembro dela, señor. Vivi apenas com meu pai, e depois com a
família Sandell.
— Uma rebelde? — Havia malícia na pergunta, e por um momento Yvain
pensou ver um brilho de simpatia nos olhos profundos.
— Algumas vezes pensei em fugir — admitiu.
— E por que continuou lá?
— Porque as cidades são muito barulhentas e porque amava os bosques
selvagens onde havia vivido com meu pai. Amava os pássaros, as flores, os
ciganos que acampavam por lá.
— Gostava dos ciganos?
— Eles eram alegres e usavam roupas coloridas, mas meu pai cuidava do
parque de caça, por isso...
Don Juan deu uma gargalhada. Era a primeira vez que isso acontecia, e
Yvain admirou-se um pouco.
— Sim, os ciganos têm a alma indomável e amam os pavões tanto quan to
os ricos.
Luís entrou com a bandeja de café e recebeu ordens de colocá-la na mesa
ao lado de Yvain. Seu olhar cruzou com o do criado por um breve instante, e
imediatamente ela adivinhou o que ele estava pensando: era inconcebível que
uma simples criadinha se sentasse como uma grande senhora no salão dourado
e que lhe fosse concedida a honra de servir café para o marquês.
— Por favor, sirva — disse o marquês depois que Luís saiu. Sentou-se
também e estendeu a perna rígida, o moreno da pele contrastando com o
brocado vermelho e dourado da cadeira.
Yvain precisou de todo o seu autocontrole para não derramar o café, e
estendeu-o a don Juan com as mãos ligeiramente trémulas. A seu pedido, não
colocou nem açúcar nem creme na xícara.
— Está nervosa por minha causa? — perguntou ele.

Livros Florzinha - 18 -
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— Não é natural, señor? — Concentrou toda a atenção em adoçar o


próprio café. —Não estou acostumada a... a tudo isso.
— Com o tempo vai se acostumar.
Ela tremeu, como se houvesse recebido um golpe.
— Teremos outras oportunidades de estar a sós, como hoje, señorita
Pilgrim, e espero que das próximas vezes não me olhe mais como se eu
fosse o monstro do castelo.
— Mas eu não olho!
— Olha, sim. — Riu, zombeteiro. — Você tem dois grandes olhos
expressivos, señorita. E os olhos são as janelas através das quais se pode
enxergar o interior das pessoas. É como uma intromissão na alma da outra
pessoa.
Seus olhares se cruzaram e Yvain pressentiu que estava entregando a ele
parte do seu eu mais íntimo. Sim, ele era um bruxo, o bruxo moreno.
— Tome seu café antes que esfrie. — Levantou-se com o auxílio da
bengala e caminhou até uma prateleira de cristal. — Este licor é muito antigo —
disse, enquanto enchia dois cálices. — Vamos brindar à sua vida
e à sua chegada à ilha de Leon.
Yvaín recebeu o cálice que o marquês lhe estendia e teve a impressão de
estar segurando uma bolha muito leve. repleta de um líquido dourado.
— O mundo é pequeno. —Segurava o cálice como num ritual pagão. —
Um simples lenço nas mãos do destino. Ao destino, señorita Pilgrim...
senhor de todos nós.
Como efeito do licor, Yvain sentiu que seus nervos se acalmavam. A sala
adquiriu um brilho especial, um calor penetrante, e ao piano surgiu La Rosalita,
com uma rosa vermelha nos cabelos.
Como don Juan olhasse distraído para o retrato, imerso nos próprios
pensamentos, Yvain teve tempo de examiná-lo à vontade. Força e paixão
misturavam-se no seu rosto, como o castanho se misturava ao negro dos
cabelos, Mais por intuição que pela aparência, percebeu que ele era muito mais
jovem do que parecia, e que as marcas ao redor da boca e dos olhos eram obra
do sofrimento.
— Já viu uma dança flamenga?
— Não, señor, mas ouvi dizer que é linda.
— O flamengo é como um duelo entre um homem e uma mulher. — Baixou
o olhar e encontrou os olhos dela fixos nele. — Preciso providen ciar para que
veja. Os pais espanhóis consideram essa dança obrigatória à educação das
filhas, e acho que você tem muito que aprender.
— Tenho dezenove anos, señor\
— A idade das descobertas. Uma época da vida em que, apesar das
emoções estarem no seu auge, ainda são incontroláveis. — A voz magneti-zante
mantinha-a presa ao encanto daquele bruxo. — Considera-me arro gante, não é?
O homem que sabe tudo?
— O señor parece encarar as pessoas como peças de xadrez, que podem
ser manipuladas à vontade — comentou, encorajada pelo licor.
— E qual das peças você é, señorita'?
— Acho que... o peão — murmurou Yvain..
— E qual a jogada que supõe que vou fazer com o peão?
— Não tenho a menor ideia.
— Pensei que tivesse muita imaginação. — Pousou o olhar sobre o

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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cabelo dourado dela.


Yvain pensou que fosse sorrir, mas ele permaneceu sério e distante, oculto
sob a máscara de suave e satânica beleza.
— Neste exato momento sua imaginação está trabalhando. — Ele leu os
olhos dela, mas escondeu os próprios por trás de uma nuvem de fumaça. —
Nossa reação à vida pode ser intensa ou medíocre, e nossos tormentos
provêm daí. Creio que não é medíocre, señorita Pilgrim, caso contrário
teria pedido a Emérito que a levasse de volta ao continente.
— Eu... preferia ter ido para o continente. —Sentia as batidas fortes.do
próprio coração. — Não posso permanecer aqui indefinidamente. Preciso
encontrar trabalho... não tenho dinheiro...
— Eu tenho o suficiente — interrompeu ele. — Durante o jantar, notei que
come como um passarinho, e ouso dizer que a vida a condicionou a aceitar
menos do que secretamente deseja e merece. Qual é seu desejo secreto,
señorita? Tenho condições de satisfazê-lo.
— Preciso de um trabalho — respondeu, nervosa. Ele sorriu, enigmático.
— Que criaturinha pouco exigente você é! Que espécie de trabalho? Dama
de companhia de outra mulher sem coração?
— É só isso que sei fazer, señor. Conhece alguém...
— Claro, conheço muitas mulheres desocupadas que ficariam encanta das
em tê-la à disposição.
— Então...
— Não vou recomendá-la a nenhuma delas.
— Por quê?
— De uma forma ou de outra, somos todos dependentes dos outros,
señorita. — Acompanhou com a ponta da bengala um desenho do tapete,
— Deve ambicionar uma posição melhor que a de dama de companhia. O
que gostaria de fazer da sua vida?
Descobrir que ele estava interessado na vida dela, que a ouvia com aten -
ção, em vez de diminuir a timidez de Yvain. aumentou-a. Nunca havia pen sado
seriamente em seguir uma carreira. Para isso era necessário ter estudo. e ela
havia saído da escola aos quinze anos, para trabalhar. Claro que, como todas as
outras garotas, tinha sonhado em ser aeromoça, em voar para terras distantes e
coloridas. E, muito oculto no fundo do seu coração, havia o desejo de trabalhar
com objetos de arte e antiguidades. Adorava coisas antigas e belas, e muito do
encanto que aquele lugar provocava nela devia-se aos objetos espalhados em
profusão pelo castelo.
— Sua ambição é tão impossível que não tem coragem de mencioná-la.
— O señor riria de mim — respondeu, incapaz de encará-lo. Olhou para o
chão, envergonhada, e sentiu um choque quando ele se inclinou, segurou seu
queixo e obrigou-a a olhar para cima. Ao contato da mão dele, não conseguiu
controlar um leve tremor e percebeu que ele sorria, irónico.
— Não sou pessoa para deixar que os obstáculos se interponham diante
de meus objetívos. Vamos, diga-me qual é seu desejo e veremos se é possí vel
torná-lo realidade.
— Seria interessante... trabalhar com objetos de arte. — Riu, nervosa.
— Mas tal desejo não poderia ser mais impossível para alguém que como
eu, só sabe levar e trazer cachorros de madames.
— Você me surpreende. As garotas jovens geralmente sonham com ati-
vidades mais excitantes, como a de modelo, por exemplo.

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— Modelo? — Ela riu e ele demonstrou curiosidade. — Señor, não sou


exatamente o tipo para essa espécie de carreira.
— Tem uma estrutura óssea pouco comum. -— Virou o rosto dela da
direita para a esquerda, como quem estuda um objeto de arte. — Então gostaria
de manusear objetos raros e de valor incalculável, não é?
— É apenas um sonho. — Encarou-o, grave. — Não tive muito estudo.
Deixei a escola quando tinha quinze anos.
— Jovem — os olhos dele revelavam um ar divertido —, quando meni no,
eu cavalgava pelas planícies da América do Sul. Era um gaúcho, como são
chamados os boiadeiros de lá.
— Mas o señor é o marquês de Leon!
— Era apenas um gaúcho, quando tinha quinze anos. — Soltou o quei xo
de Yvain e olhou para o retrato da mãe. — Meu pai morreu lutando na guerra
civil, e minha mãe fugiu comigo, juntamente com outros refugiados que se
dirigiam à Argentina. Lá ela trabalhou como dançarina e lá me tornei um
vaqueiro, até que, arrastado pela ambição, decidi me dedicar à mineração da
prata. Tive sorte, encontrei uma mina de prata e comprei uma casa para minha
mãe em Lima, onde ela passou a viver, sem precisar mais dançar para os
desordeiros que frequentavam os cafés. Ela morreu de triste za, señorita. Com o
tempo, meu avô também morreu e acabei voltando para a ilha de Leon. Jamais
perdoei a família, que queria a mim, mas não a Rosalita. Por isso preferi ficar
com ela e cuidar de minha própria educação. O destino conspirou para me trazer
de volta ã ilha, mas deixei atrás de mim uma profunda afeição por Lima, cidade
de história selvagem e estranha beleza. — Seus olhos brilhantes encontraram os
de Yvain. — Sim, o vaqueiro vive na sela — disse, com voz tensa. — Não fui
sempre como me vé agora.
— Sofreu... um acidente, señor?
— Sim, foi um acidente. — Ele parecia não querer falar dessa passagem
de sua vida e, por um instante, suas feições se contraíram. — Quer dizer então
que deseja trabalhar entre objetos antigos...
— E bom sonhar — respondeu Yvain, sorrindo.
— Não precisa continuar sendo um sonho. Você não é uma pessoa
medíocre. Já havia percebido sua atração pelos objetos e pela mobília tra-
balhada desta sala. Claro que precisa aprender muita coisa, inclusive duas
línguas estrangeiras. Tenho um amigo aqui na ilha que conhece em profun didade
a vida dos grandes pintores e escultores e que, na juventude, foi professor de
línguas. O .señor Fonseca... ah, você o conhece.
— Sim, señor. — Pensou nas palavras da governanta, que havia dito que
o señor Fonseca tinha uma filha de rara beleza, que provavelmente se
tornaria esposa de don Juan.
— Ótimo. Vou apresentá-los e estudar a possibilidade de você ter aulas
com ele algumas horas por dia. Por que arregala os olhos de espanto? Não é
isso que quer? Aprender com um homem de cultura?
— Estou... pensando no preço, señor.
— Então pare de pensar agora mesmo. — Encarou-a, os olhos brilhan tes
e impenetráveis. — Um dia poderá me pagar. Enquanto isso, será divertido ser
tutor de uma jovem inglesa.
— Tutor?
— Não concordamos em que eu seria responsável por você enquanto
estivesse na ilha de Leon? Mesmo que o sehor Fonseca concorde em rece bê-la

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como aluna, levará algum tempo até que esteja apta a deixar a ilha e partir para
o mundo das antiguidades. Como precisa morar em algum lugar, morará aqui.
— Não... não sei como agradecer, don Juan. — Corou, desconcertada por
ele poder ler seus pensamentos.
— Ficarei recompensado se um dia entrar numa galeria de arte e encon -
trar Yvain Pilgrim lá. — Olhou-a de alto a baixo. — Amanhã peça à governanta
que tire suas medidas. Elas serão enviadas à casa de modas de Ignazio, em
Madri, juntamente com detalhes de cor, e ele nos mandará as roupas adequadas
à vida que vai levar agora como minha tutelada. — Ve? um gesto para que ela se
calasse. — Não torne a falar em gratidão. Faço isso por mim mesmo. As flores
vermelhas deste vestido não combinam com seu cabelo, señorita.
Yvain sentiu um impulso de correr até ele e abraçá-lo, cheia de gratidão,
mas ele passou sem olhá-la e abriu a porta.
— Agora va para a cama.
— Boa noite, señor.
— Boa noite, señorita Pilgrim. — Fez uma ligeira inclinação de cabeça, e
Yvain, sentindo um calafrio estranho, apressou o passo.
Como num sonho, a vida agora seria nova e excitante. ,O demónio guar -
dião tinha realizado o desejo de Yvain, e ela finalmente teria uma carreira.
Como não havia ninguém no vestíbulo, riu e fez uma reverência para ela
mesma no espelho do vestíbulo, dizendo:
— Vai aprender a se comportar como uma dama, srta. Pilgrim. — Sor riu. —
Nunca pensou que isso pudesse acontecer, não é?

CAPÍTULO III

Era impossível dormir até tarde no castelo, pois o sol invadia o quarto da
torre às primeiras horas do dia, inundando-o de luz e calor. Yvain tomava um
banho, se vestia e dava um passeio até a praia, deixando o café para mais tarde,
a fim de evitar a companhia de don Juan. Depois da refeição matinal, o marquês
costumava subir para o escritório, ou então ia até a cidade tratar de negócios.
Podia ter feito perguntas à governanta a respeito do escritório, mas desde
o dia em que a mulher lhe tirara as medidas e don Juan as enviara à famosa
casa de modas de Madri, Alma mantinha uma atitude ainda mais reservada e fria
que no início, talvez pensando que a protegida do patrão não passasse de uma
caça-dotes.
Yvain não seria menos feliz com roupas mais simples. Mas don Juan era
um homem refinado e não concordaria em conviver com uma moça mal vestida,
especialmente sendo sua protegida.
A caminho da praia, Yvain apanhou uma flor e colocou-a no cabelo. Não se
cansava nunca de admirar as águas espumantes que vinham beijar a areia
dourada. Parecia incrível que aquelas mesmas águas tranquilamente azuis, uma
certa noite, quase a tivessem levado para sempre.
Um latido soou ao longe e poucos minutos depois Carlos, o alsaciano,
juntava-se a ela numa brincadeira pela areia. Yvain jogava um pedaço de
madeira e o cão corria para apanhá-lo, e nesse jogo acabaram se aproxi mando
do caminho que conduzia ao chalé de Emérito. Decidiu visitar Mari Luz, e pensou

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mesmo em ficar lá durante toda a manhã, cuidando do meni no, enquanto a mãe
ia até a pequena vila de pescadores fazer algumas compras.
Ouvindo os acordes de um violão. Yvain se virou e percebeu que um rapaz
caminhava na sua direção, cantando uma Canção com voz tão macia quanto
seus olhos. O cantor desconhecido usava uma camisa de seda e um lenço
vermelho no pescoço. Era jovem, tinha cabelos negros e, como num passe de
mágica, conseguiu acalmar o bebé com sua serenata.
O rapaz cantou e tocou até que o bebé dormisse, depois se aproximou
devagar e olhou as feições tranquilas da criança que dormia nos braços de
Yvain.
— Muito obrigada, señor— disse Yvain, tímida.
Ele respondeu em castelhano, mas ela não conseguiu entender nem uma
palavra-
— Desculpe — olhou para ele e reparou que era muito bonito —, não falo
castelhano.
— Ah! — Seus olhos brilharam. — Seu bebé tem um belo par de pul mões,
señora. Vai ser um cantor, como eu — disse em inglês.
— O bebé não é meu, señor. — Sorriu do engano. — Estou cuidando dele
enquanto a mãe foi fazer compras.
— Entendo. — O brilho dos olhos dele ficou ainda mais radioso. —
Quando a vi, momento atrás, pensei cá comigo: Rique, infelizmente che gou tarde
outra vez! Cabelos como os da Madona... e, como a Madona, é mãe! Mas
felizmente estava enganado... Por acaso, sehorita, pertence a algum outro
homem?
— Não, não pertenço — respondeu, meio sem jeiio, tentando evitar
aqueles olhos penetrantes. Estendeu no chão o cueiro e deitou o menino sobre
ele; quando levantou novamente os olhos para o jovem cantor, ele fez uma
inclinação de cabeça e apresentou-se como Manrique Cortez y Esteban, uma das
atraçôes do Clube Hidalgo, em Puerto de Leon, residente na ilha duranle seis
semanas, enquanto durasse seu contrato.
— Permite que me sente a seu lado? — Apontou para a areia e segundos
depois estava sentado junto dela, muito à vontade, um sorriso nos lábios. — A
señorita não vai me dizer seu nome? Podemos conversar durante uma hora e
depois nos separarmos, mas se souber seu nome conseguirei encon trá-la outra
vez.
— Você gostaria de me ver outra vez? — Nunca havia flertado antes na
vida e estava admirada com a facilidade.
Para algumas pessoas, uma hora basta para se conhecerem; para outras,
é necessária toda uma vida. — Pousou os olhos na trança que caía suave pelo
ombro de Yvain. — Seu nome deve ser muito especial, pois é uma pessoa
incomum. Você é diferente das outras moças com quem conversei na Espanha.
— Fala muito bem o inglês, señor.
— É inglesa, señorita?
— Claro.
— Existe alguma coisa especial na sua voz. — Sorriu, revelando dentes
muito alvos. — Você me intriga.
Yvain gostou do elogio, mas não pôde deixar de pensar em como aquele
romântico jovem teria reagido se a visse com as velhas roupas, os óculos
antiquadas e o cabelo preso num coque sem graça.

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Quando ele se inclinou para olhá-la mais de perto, Yvain não sentiu aquele
impulso incontrolável de se afastar, como acontecia sempre que don Juan se
aproximava dela.
—Até mesmo seu sorriso é misterioso — murmurou Rique. — Veio de
algum lugar encantado das florestas?
— De um castelo, talvez — brincou ela. — Com um cão de guarda para
me proteger.
— Que criatura imensa! — Olhou para Carlos, cuja cabeça repousava no
ombro de Yvain. — Não tem medo dele?
— Nem um pouco. — Acariciou o focinho de Carlos. — É um verda deiro
cordeirinho.
— Parece mais um lobo.
— E se eu disser o mesmo do senhor?
— Touché! — Riu, divertido com a observação. — Os espanhóis são
pessoas de sangue quente, señorita, que apreciam o mistério e o romance.
Espanhol algum é frio. O bom Deus nos deu olhos, sentimentos fortes, braços
fortes, que sabemos usar muito bem, sejamos jovens ou velhos.
— Isso não é um pouco difícil, com as barras de ferro que separam o
casal espanhol? — Sorriu, um pouco triste.
— Não existe esta barreira entre nós — garantiu Rique.
— Existe Carlos e o fato de que mal o conheço, señor Cortez.
— Essa observação me dá esperanças, señorita mistério. Vai permitir que
nos tornemos... amigos?
— É sempre bom ter amigos,
— Uma moça atraente como você deve ter vários.
— Ao contrário. — Acariciou a cabeça de Carlos. — Só Emérito e a
esposa. Quanto ao marquês de Leon... bem, não tenho certeza.
— Conhece o marquês?
— Será que alguém pode dizer que o conhece? — Correu os olhos pelo
mar azul que rodeava a ilha. — Vivo com ele... meu Deus, como isso parece
escandaloso! É meu tutor, señor.
— Tutor? Quer dizer que é a moça que foi recolhida no mar? Todo mundo
em Puerto de Leon está falando em você. Estão todos muito curio sos, mas
ninguém ousa fazer perguntas ao marquês. Então é assim que ele se intitula...
seu tutor!
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— Exatamente! — Yvain levantou-se de um salto, assustando o cachor ro e
fazendo o bebé chorar. — O que é que todo mundo está dizendo, señor Cortez?
Que sou uma caça-dotes?
— Você? — Levantou-se num movimento ágil e seguro, parando ao lado
dela, alto e forte, os cabelos batidos pelo vento. — Como é que alguém poderia
olhar para você e pensar tal coisa? Além disso, o marquês não é nenhum tolo.
Tem a reputação de ser muito generoso, mas mulher alguma... pelo menos é o
que dizem... conseguiu conquistá-lo.
— Ele é espanhol até os ossos — observou Yvaín. — Não foi você mesmo
quem disse que os espanhóis são homens de sangue quente, sejam eles jovens
ou velhos?
— Estava falando dos homens comuns.
— Entendo. — Seus olhos se encontraram por alguns instantes. —
Emérito, que trabalha para o marquês, foi quem me encontrou perdida no mar e

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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me levou para o castelo. Ficou combinado que eu ficaria aqui até sabermos do
paradeiro da minha patroa, mas ela partiu e me deixou sozi nha. Não tenho
ninguém no mundo além do marquês. A maneira dele, é muito gentil comigo.
— Nunca pensou no risco que corre, señorita?
— Você disse que mulher alguma...
— O outro don Juan costumava destruir muitos corações, embora o dele
permanecesse intacto.
— Acha que meu coração está em perigo?
— O marquês é um homem de posição elevada.
— E eu era uma criada até duas semanas atrás, señor Cortez.
— Não quer me chamar de Rique?
— Ainda quer ser meu amigo, señor?
— Mais do que nunca. — Sorriu, suplicante. — Se não me disser seu
nome, vou chamá-la de Soledad.
— Que nome triste!
— Não pretendo deixar que continue solitária.
— Você confia muito em você!
— Não quer ser arrancada da sua concha?
— Parece um processo muito doloroso...
— Prometo que não será doloroso. — Estendeu a mão, como se fosse
tocar a trança de Yvain, mas apenas retirou a flor que ainda estava lá. — A vida
é como esta flor: uma mistura de doçura e amargor. Até a vista. Soledad. Ainda
vamos nos encontrar novamente.
Foi embora como havia chegado: silenciosamente, pelo meio das árvo res.
Mas minutos depois Yvain ouviu o ruído de um carro que se afastava
velozmente. Imaginou o carro se afastando, ficando cada vez menor, me nor, até
desaparecer de vista.
Pegou ò bebe e dirigiu-se ao chalé. Mari Luz já estava de volta e havia
trazido com ela alguns melões enormes. Tomaram café juntas e, quando Yvain
disse que já era hora de partir, Mari Luz insistiu em lhe dar um melão. O
presente era tão tentador que Yvain não resistiu, e foi assim que chegou ao
castelo: com um melão nas mãos e um sorriso nos lábios.
Entrou pelo portão de ferro do pátio e se admirou de encontrar o marquês
já em casa... e acompanhado de uma belíssima mulher, de olhos negros e
pestanas espessas contrastando com a pele clara e suave.
Yvain ficou ali parada, o melão nas mãos, desejando que a fruta fosse
suficientemente grande para ocultar sua figura, queimada de sol e suja de areia,
do casal que conversava animadamente sob uma árvore copada, cujas flores
tinham a cor do vestido da amiga de don Juan.
Don Juan levantou os olhos e por um longo momento observou a figura
frágil de Yvain, com toda sua juventude e deselegância. Ele usava um traje
imaculadamente branco e seus cabelos espessos brilhavam como as asas de
um corvo. ;
Com sua habitual polidez, e um traço de leve divertimento nos olhos,
levantou-se com a ajuda da bengala e cumprimentou Yvain.
— Por favor, venha conhecer dona Raquel Fonseca. Estive falando a ela
de meus planos de fazer de você uma aluna do pai dela.
Yvain — ainda segurando o melão — aproximou-se, obediente, sentin do-se
observada por um penetrante par de olhos.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Que prazer conhecê-ia, srta. Pilgrim. — Dona Raquel tinha a voz


quente e um sotaque encantador. Virou-se para o marquês, um riso alegre nos
lábios. — Juan, você não tinha me dito que sua protegida era uma verdadeira
criatura da natureza! Que tocante... com o melão e tudo. Agora entendo por que
quis tomá-la sob suas asas protetoras.
Ele inclinou a cabeça, como se concordasse com cada palavra daqueles
lábios vermelhos, suaves como seda... palavras que atingiram duramente Yvain,
com seu tom de zombaria. Com melão e tudo! Quis jogá-lo entre as árvores, mas
lembrou de Mari Luz e da alegria com que ela o havia ofere cido. Ficou
envergonhada por se preocupar tanto com o que aquela moça tão segura de si
pensava dela.
— Estou ansiosa para conhecer o señor Fonseca — disse, levantando a
cabeça, cheia de dignidade. — Pelo que me disse o señor marquês, seu pai é um
homem de grande cultura.
Foi uma tentativa deliberada de vingança, e Yvain percebeu que don Juan
contraía o rosto.
— Dona Raquel vai ficar para o almoço — disse, frio. — Tem meia hora
para vestir alguma coisa apresentável, Yvain.
— Quer que almoce com vocês? — Yvain alimentava a esperança de ser
dispensada da tortura de se sentar à mesa com dona Raquel, cujo vestido
era adorável, a maquilagem era perfeita e os cabelos não traziam o cheiro
do sal da praia.
— É esse o meu desejo — respondeu seco, e Yvain percebeu o sorriso
malicioso nos lábios da outra mulher.
— Seus desejos são ordens para sua protegida, não, Juan? — Pronuncia -
va o nome dele com perfeição, como se o acariciasse.
— Vou me vestir. Com licença. — Yvain praticamente fugiu do seu
guardião e da convidada, as unhas penetrando na casca macia do melão, que
atirou com raiva sobre a cama quando chegou ao quarto. Olhou-se no espelho do
guarda-roupa: parecia uma garotinha, uma órfãzinha de asilo de caridade. Seria
de estranhar que Raquel Fonseca quisesse usá-la como cobaia de suas
investigações?
Abriu o guarda-roupa, retirou a saia verde-água e a blusa de mangas
bufantes com babados, e enquanto se banhava imaginou quando chegariam as
novas roupas encomendadas em Madri. A princípio tinha relutado em aceitá-las,
mas agora estava feliz por poder dispor de vestidos novos. Como protegida de
don Juan, teria que conhecer seus amigos. E ele, natu ralmente, não queria se
envergonhar dela, como ela não desejava ser humi lhada por moças ricas que
não sabiam o que era ser órfã e trabalhar de manhã até a noite sob as ordens de
uma patroa sem coração.
Foi um almoço muito alegre para dona Raquel, mulher bastante versada na
arte da conquista. Era coquete e tímida, altemadamente, e o distante marquês
parecia encantado com ela. Ouvia-a com um sorriso nos lábios e chegava a rir
quando ela descrevia a festa a que havia comparecido a bordo do iate de um
famoso toureiro.
— Ele usava pulseira de brilhantes e disse que, na próxima vez que eu
fosse a Madri, mataria um touro em minha homenagem e me ofereceria a orelha.
— Que horror! — As palavras escaparam sem que Yvain se desse conta.
— Isto é... o touro, não a pulseira!
Dona Raquel lançou-lhe um olhar frio, pousando o garfo sobre o prato.

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— É uma ironia que os ingleses nos considerem cruéis por causa das
touradas. Seus conterrâneos não costumam caçar? O que preferem, a rapo sa ou
o veado?
— Também detesto a caça. — O rosto de Yvain empalideceu, diante da
lembrança da noite em que seu pai foi morto por um coice de cavalo nos
estábulos da mansão Sandell. — Pessoas que consideram matar animais
indefesos um esporte não sentem nada além da emoção de ser cruéis. Gos taria
que a caça fosse declarada ilegal em meu país.
— As touradas são um espetáculo desprezível — don Juan falou em voz
baixa, mas havia sentimento nas suas palavras. — Sempre detestei a ma tança
de touros.
— Você diz isso, Juan, mas foi um cavalo...
— Não vamos mais falar sobre o assunto, Raquel. — Ele sorria, mas seus
olhos tinham o negror das profundidades misteriosas de um poço. — Vai haver
um concerto no Clube Hidalgo. Acho que minha protegida gosta ria de ir, não?
Dona Raquel examinou com olhos críticos a roupa quase camponesa de
Yvain, seus cabelos presos em uma trança e o pescoço sem adornos. Pas sou os
dedos pelas pérolas do próprio colar, deliberadamente, e perguntou, séria:
— Tem certeza de que a srta. Pilgrim vai gostar da nossa música, Juan? É
muito diferente das guitarras barulhentas dos conjuntos pop da Inglaterra.
— Gosta de música pop? — perguntou o marquês, olhando para Yvain.
— Não tive tempo de descobrir, señor.
Ele sorriu, e por um desconcertante momento Yvain chegou a penetrar
naqueles olhos escuros e profundos e lá encontrou uma promessa de sim patia.
— Acho que podemos ficar tranquilos, Raquel. Minha protegida ainda não
perdeu a inocência. A música de Manrique Corte? não será estranha para ela.
Yvain sentiu que seu coração saltava no peito. Então, em companhia de
don Juan, veria outra vez o jovem que a chamara de Soledad, a garota solitária.
A perspectiva era excitante!

CAPÍTULO IV

A estufa das flores era como uma gruta de sombra e aroma, era lá que
Yvain buscava refúgio quando queria ler um livro ou mesmo gozar o prazer de
não fazer nada.
O amor ocupava algumas vezes seus pensamentos, mas de forma nebulo -
sa. Seria bom ser amada e protegida com paixão, mas o homem que o destino
lhe reservava ainda era apenas um sonho, que poderia jamais se tornar
realidade.
Passeava pelos penhascos e pelo pequeno porto pesqueiro, onde às vezes
encontrava estrelas-do-mar e medusas, quando a maré estava baixa. As ostras
faziam ruídos leves dentro das conchas fechadas e as algas marinhas
enrolavam-se nos pés nus de Yvain, provocando uma sensação esquisita. O
vilarejo chamava-se San Cáliz e lá ela passava horas observando os pesca dores
lançando suas redes e vagando por vielas tortuosas completamente cobertas por
tetos abobadados.
A fumaça dos fogões a lenha flutuava pelo ar, e os moinhos usados na
irrigação acrescentavam um encanto ainda maior ao clima legendário da ilha.

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Escondida do mundo, ocultava as ruínas de um antigo monastério, de onde,


muitos anos atrás, os monges haviam defendido os habitantes da região com
canhões, quando os navios piratas aportavam na praia.
Tudo isso atraía Yvain, que jamais havia sido uma garota da cidade. Corria
pela praia, deixando sulcos na areia, os cabelos ao vento, o olhar maravilhado
com o castelo, suas paredes curvas, suas torres que brilhavam à luz do sol como
que saídas de um sonho.
E lá em cima vivia don Juan, o senhor do castelo que era agora seu
refúgio. O homem distante e dominador que gostava de parecer livre de
sentimentos. Yvain às vezes pensava se ele teria sido ferido em Lima: no
dia em que dona Raquel havia mencionado os cavalos dos picadores, ele tinha
mudado de assunto. Tinha sido ferido enquanto cavalgava... seria por isso que
as cocheiras do castelo estavam vazias?
Quando voltou ao castelo naquela tarde, Yvain descobriu que na sua
ausência tinham chegado os presentes encomendados para ela. Caixas lon gas,
quadradas e redondas estavam empilhadas sobre a cama e as cadeiras, e num
impulso infantil de curiosidade ela começou a rasgar os embrulhos, emocionada.
Deparou, deslumbrada, com tecidos macios em cores suaves, do branco
mais puro ao verde-água mais límpido. Acariciou com os dedos os vestidos de
seda, a lingerie de sonho, as roupas de noite de veludo macio, as roupas de
banho e os vestidos mais simples, para o dia, em cores vivas alguns, em cores
suaves os outros, mas todos combinando com o dourado dos seus cabelos.
Havia calçados para todas as ocasiões... e dentro de uma caixa longa algo que
ela mal ousava tocar.
Com as mãos trémulas acariciou o casco de mink, marrom-dourado. Com
certeza aquilo tinha vindo por engano. Don Juan não havia menciona do casacos
de pele, e no entanto um tinha sido enviado: suave como um sonho, fechado por
um enorme botão forrado com a mesma pele e com aberturas para os braços.
Num impulso irresistível, vestiu-o e parou diante do espelho, incrédula.
Pilgrim com um casaco de mink. Pilgrim, a criadinha, vestida como uma
princesa!
Sentiu que o sangue lhe subia ao rosto. Será que tinha interpretado mal as
palavras de don Juan, quando ele disse que ia fazer dela sua protegida?
Manrique Cortez tinha dito que a cidade falava nela. Será que ela, na sua
inocência, tinha levado o marquês a pensar que, em troca de coisas tão
adoráveis, estaria disposta a concordar com todos os desejos do senhor do
castelo?
Tirou o casaco, jogou-o sobre a cama e saiu correndo do quarto, só
parando quando chegou ao escritório do marquês, no alto da torre do mar. Bateu
na porta antes que perdesse a coragem: precisava dizer a ele que as roupas
eram finas demais, que queria apenas coisas simples. Precisava es clarecer bem
sua posição... era uma moça decente, não alguém que podia ser comprada com
um casaco de pele!
Uma voz forte convidou-a a entrar e ela respirou fundo antes de girar a
maçaneta da porta oval. Deu alguns passos para dentro da sala redonda, e por
um instante quase não reconheceu a figura magra sentada por trás de uma
escrivaninha de madeira trabalhada. Ele vestia uma camisa de seda. aberta no
peito, e tinha os cabelos despenteados, como se estivesse passan do os dedos
por eles. Envolvendo-o como numa aura, o perfume das cigar rilhas que ele tanto
amava.

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Era sempre perturbador estar na presença dele, mas naquela ocasião o


nervosismo de Yvain atingia o máximo.
— Até que enfim encontrou o caminho do meu atalaya. — Levantou-se e
índicou-lhe uma cadeira forrada de veludo negro. — É uma palavra que significa
torre de vigia. Nos velhos tempos, os homens costumavam se postar aqui para
vigiar a aproximação de navíos-piratas. Na verdade, um dos descendentes da
família Leon chegou a ser um famoso pirata. A histó ria da minha família sempre
me fascinou e agora decidi escrevê-la. — Sorriu, mostrando os dentes muito
brancos. E, apontando para uma pilha de papéis e livros de anotações
espalhados em torno dele, continuou: — A tarefa é absorvente, pois os Leon
foram soldados, exploradores, piratas e poetas.
Yvain olhava, fascinada, para as feições intensameme atraentes do mar -
quês, mais encantador que nunca com a camisa de seda e os cabelos em
desalinho. Sentiu que seu coração se acelerava... aquele homem parecia
carregar nas veias o sangue do seu ancestral pirata! Confusa diante do olhar
dele e perturbada por aquele pensamento, desviou os olhos.
— As roupas chegaram... de Madri — disse, quase cuspindo as pala vras.
— Espero que sejam do seu gosto.
— Don Juan...
— Sim, Yvain?
A maneira dele dizer seu nome, a inflexão aveludada de sua voz. seu jeito
de olhar fizeram Yvain entrar em pânico outra vez.
— Ignazio mandou... um casaco de mink, señor. O señor não tinha
encomendado...
— Claro que encomendei. — Seus olhos brilharam. — Um casaco de mink
apropriado para uma moça da sua idade... não gostou, señorita? Não fica bem
em você?
— É lindo, mas não posso aceitar!
— E por que não?
— É muito caro.
— Se o casaco agrada a você, então o preço não importa.
— A mím importa!
— Importa, señorita? — Levou a cigarrilha à boca e deu uma tragada
lenta. — Tem intenção de pagar pelas roupas também?
— Geralmente os casacos de pele custam bem mais do que valem. — O
coração de Yvain batia loucamente, pois, embora ele se mantivesse impas sível,
seus olhos intensos pareciam penetrá-la. Ela agarrava com força os braços da
cadeira, como se a qualquer momento fosse saltar dali para a porta.
Foi então que ele deu uma risada divertida.
— Então, menina, adivinhou minhas maléficas intenções e não pretende
deixar-se comprar por um casaco de peles, não é? Que decepção para o
senhor do castelo! O que ele fará agora para atrair a inocente criadinha para
seus braços? Será que no próximo e emocionante capítulo ele conseguira vencer
os escrúpulos dela?
Yvain corou até a raiz dos cabelos quando ele deu outra gargalhada.
— Que romances absurdos a sra. Sandell pedia que a señorita lesse para
ela? — Bateu a cinza do cigarro num cinzeiro de prata. — Criança, eu lhe dei as
roupas porque você precisa delas, e porque uma jovem deve ter algumas coisas
bonitas. Acho que não recebe presentes há tanto tempo que suspeita de
qualquer pessoa que lhe ofereça um. Não tenha receio. Vai precisar de um

Livros Florzinha - 29 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

casaco quando formos ao teatro ou a casa dos amigos. Como minha protegida,
espero que não me envergonhe.
— Desculpe... por ter sido tola, señor. — Sentia-se mortificada.
— Não condeno, criança. Você trabalhou para uma mulher tola que sem
dúvida incutiu na sua mente a ideia de que o amor é um jogo de interesses,
algo que pode ser comprado e vendido. Sei que existem pessoas que acreditam
nisso. Meus avós, por exemplo, jamais compreenderam que meu pai preferisse o
amor em vez de uma união brilhante e fria com uma jovem de fortuna. E não o
perdoaram até o dia da sua morte.
Os olhos de don Juan pousaram, pensativos, na peça de prata escavada
na terra selvagem da sua juventude.
— Eles diziam que eu era filho de uma bruxa, que minha mãe havia
lançado um feitiço em meu pai... e a culparam pela morte dele.
Os olhos negros do filho de Rosalita encontraram os de Yvain. Eram
profundos como o mar e contrastavam com a seda branca da camisa. Então ele
se levantou e caminhou até a janela da torre do mar.
— Venha ver o sol mergulhando no mar — disse, abrindo a janela e
deixando entrar o ar fresco da tarde. Yvain, envergonhada por causa de sua
atitude infantil, temerosa de qualquer contato com aquele homem, inclinou-se e
admirou o pôr-do-sol. Uma chama flamejante descia sobre as águas, -lançando
reflexos coloridos na crista das ondas.
— Tão belo e tão cruel — suspirou Yvain.
Também o cabelo de Yvain recebia os reflexos do sol, e de repente ela
sentiu uma mão pousar sobre ele.
— Vai conseguir escapar, Rapunzel? — Havia um toque de humor na voz
dele e um brilho diferente nos olhos.
— Meu pai costumava me chamar assim — disse Yvain. — Ele costu mava
dizer que um dia eu... señor, seu castelo está muito bem conservado, embora
seja tão antigo!
— Tem apenas cem anos, señorita. — Ele parecia se divertir com a ideia
de ser considerado um sedutor de adolescentes. — O antigo castelo era uma
construção irregular erguida sobre as rochas... deve haver uma
pintura por aí... mas acho o atual mais atraente e compacto. E você?
— Eu o adoro. — As palavras explodiram, quentes, de seus lábios. —
Jamais pensei que fosse viver em um castelo... parece que estou vivendo
um sonho.
— E eu sou o ogro? — brincou o marquês.
— Não...
— Vamos, acho natural que uma jovem da sua idade me considere um
pouco sinistro, com essa perna aleijada e minha melancolia.
Virou-se, sem esperar pela resposta de Yvain, e voltou para a escriva -
ninha.
— Amanhã à noite vamos jantar no Clube Hidalgo com o señor Fonseca
e filha. Gostaria que usasse uma das roupas novas.
— Sim, señor. — Percebeu que ele queria ficar só e caminhou na direção
da porta, onde parou e olhou para ele. — Obrigada pelas coisas adorá veis que
me ofereceu, don Juan. Agradeço de coração.
— São necessárias à sua nova vida — falou com voz ríspida, sem olhar
para ela, a atenção presa a um manuscrito que tinha nas mãos. — Vou trabalhar
até tarde esta noite, por isso vaya com Dios.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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As lindas palavras castelhanas a acompanharam até o quarto, onde come -


çou a desembrulhar as roupas e guardá-las nos cabides e gavetas do guarda-
roupa, cheia de excitação.
As roupas eram reais... o castelo era real... não precisava mais acordar
assustada com o ruído irritante do despertador e correr durante todo o dia
para satisfazer os desejos de Ida Sandell. O passado estava morto... tinha
agora uma nova vida pela frente.
Jantou sozinha e depois sentou-se à janela do quarto, observando o bri lho
das estrelas que cintilavam sobre o mar. Aspirou o perfume suave de flores que
subia até ali e imaginou o que pensaria Manrique Cortez ao vê-la usando uma
das lindas roupas que ganhara.
Seu coração batia, excitado. Manríque Cortez a achava atraente e isso lhe
dava infinito prazer. Pensou nos rapazes do navio, que passavam por ela sem ao
menos um olhar. Como tinha sido doloroso! Quantas e quantas noites tinha
chorado no silêncio do seu camarote, pensando nas moças que dançavam,
felizes, nos braços de jovens sorridentes. E ela... sem ninguém que a envolvesse
nos braços e lhe dissesse coisas bonitas...
Mas Manrique tinha dito coisas bonitas e talvez a convidasse para dançar
quando se encontrassem novamente.
Na noite seguinte, decidiu usar o vestido de veludo. Adorava o dourado
macio do tecido, e principalmente o coletinho bordado que completava o traje.
Fez uma longa trança nos cabelos brilhantes e enrolou-a no alto da cabeça. Em
seguida passou pó de arroz, batom e um pouco de sombra nos
olhos, pois tinha recebido um farto estoque de maquilagem juntamente
com; as roupas. Diante do espelho, sentiu um tremor de excitação com a imagem
adulta que via refletida.
Agarrava com ansiedade a bolsa bordada enquanto descia a escada. Já se
aproximava dos últimos degraus quando se deu conta da figura alta e more na
parada no vestíbulo. Uma lâmpada lançava reflexos sobre ele, que não se moveu
nem falou até que os olhos de Yvain encontraram os dele.
— Oh! — Parou de repente, apertando a bolsa de encontro ao peito. —
Boa noite, señor.
Ele estendeu a mão e Yvain caminhou, hesitante, na direção dele.
— Parece mais adulta — disse, e por um momento Yvain pensou que ele
fosse erguer sua mão e beijá-la. Mas não. Trouxe-a para perto da luz e
examinou-a com cuidado. — Passou muito batom... venha! — Puxou-a pela mão
até a sala.
Apontou para um espelho na parede.
— Tire o batom — ordenou.
Fez o que ele mandava, mas por dentro estava trémula. Como tinha sido
tola em pensar que aquele homem fosse achá-la bonita com as roupas novas.
Tudo que ele queria era que ela se apresentasse decentemente diante dos
amigos.
— Assim está melhor, señor? — Virou-se para olhá-lo e sentiu-se jovem e
desajeitada sob o olhar penetrante do marquês. Sem ao menos um sorriso, ele
se apoiou sobre a bengala e estudou-a como se ela fosse apenas uma pintura, e
não uma jovem de carne e osso cujo coração palpitava sob o vestido que
brilhava à luz das lâmpadas.
Os olhos dele pousaram sobre o pescoço nu de Yvain.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Colocar jóias nas jovens é como querer enfeitar uma flor — disse —
mas achei que gostaria de usar isto.
Retirou do bolso uma pequena caixa de jóias e estendeu-a a ela. Yvain
abriu com as mãos tremulas e quase desfaleceu ao ver o colar de ouro trançado,
com pequenas flores de diamantes e esmeraldas incrustradas aqui e ali.
— Que beleza! — sussurrou, quase sem voz. — Mas tenho medo de
perdê-lo.
Já ia fechar a caixa quando ele estendeu a mão e retirou o colar do seu
leito de cetin.
— Venha aqui — ordenou, e ela não ousou desobedecer, prendendo a
respiração ao sentir contra o pescoço o roçar leve dos dedos dele, que prendia o
fecho do colar. — Vire-se, Yvain.
— Se a sra. Sandell me visse agora! — exclamou, virando-se.
— O que acha que ela diria?
— Acho que perderia a fala, señor. Eu...
— Sim, Yvain?
— jamais tive uma roupa bonita... usava sempre o mesmo vestido cre me e
aqueles óculos horríveis.
— Mas não me parece que seus olhos tenham algum problema. — Fran ziu
a testa, tomou o rosto dela entre as mãos e ergueu-o como se faz com um cálice
ou uma flor. — O que aconteceu com os óculos?
— Perdi no mar.
— E lá devem ficar também as lembranças tristes, menina. Prometo-lhe
que jamais usará uma roupa creme enquanto viver em meu castelo.
— Obrigada pela sua bondade, señor.
—Não quero agradecimentos e não sou bondoso. — Seus olhos se encon -
traram por alguns instantes, depois ele a soltou. — Vamos, temos um lon go
caminho até Puerto de Leon e não quero deixar Raquel e o pai à nossa
espera.
Yvain foi à frente e entrou primeiro no automóvel, cuja porta o motorista
mantinha aberta, à espera deles. Don Juan entrou em seguida, um tanto
desajeitado por causa da perna, e deixou cair a bengala no chão do carro. Yvain
abaixou-se imediatamente para apanhá-la e sentiu o coração disparar quando
suas mãos se encontraram. Ele agradeceu com secura, o rosto
impassível. Yvain encolheu-se contra um dos cantos do assento traseiro,
assustada como um animalzinho acuado.
Sentia que jamais conseguiria entender aquele homem, que ora parecia
quase humano, ora orgulhoso e distante. Ele havia lhe dado um lar, roupas e
comida, mas parecia proibi-la de retribuir como quer que fosse... muito menos
com simpatia e afeição.
Ao seu lado, o marquês parecia duro e frio como uma estátua de pedra.
Yvain não imaginava que o clube Hidalgo fosse tão grande. Muitos car ros
chegavam e estacionavam diante das janelas iluminadas por lustres de cristal. Lá
dentro, um perfume caro enchia o ar, e a orquestra tocava músi cas sofisticadas.
O marquês de Leon e sua protegida foram saudados com inclinações
reverentes e sorrisos, e acompanhados pelos olhares curiosos até chegarem à
mesa onde já estavam um homem de cabelos grisalhos e barba bem apa rada e a
bela Raquel Fonseca.
— Que graciosa! — O sr. Fonseca se levantou com um sorriso tão gentil
que imediatamente Yvain se sentiu mais à vontade. Beijou-lhe a mão quan do

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foram apresentados, e Yvain pensou que o pai era muito mais simpático que a
filha. Raquel por sua vez, examinava o vestido de veludo e o colar de ouro com
expressão enigmática.
— Juan — disse com sua voz quente e sensual —, quase não reconheci
sua protegida. Papai, foi tão divertido! Essa garota veio da praia carregando um
melão e eu pensei que não passasse de uma colegial. Está muito bonita esta
noite... é incrível o que as roupas de Ignazio podem fazer por uma mulher.
Sorriu para don Juan, coquete, quando se sentaram. Ele se virou para
consultar o maitre.
— Sei que você adora champanhe, Raquel. Vamos celebrar com uma
garrafa?
— Seria maravilhoso, mas o que é que estamos celebrando? — Olhou
para Yvain. — É seu aniversário, minha querida?
— Não. — Yvain cerrou as mãos sobre o colo e seus olhos procuraram o
sr. Fonseca. Ele parecia bom, tolerante, e transmitia a ela uma sensação de
segurança. — Mas é como se tivesse renascido. Tudo isso é completa-mente
novo para mim.
Raquel brincava distraída com o leque, cuja estampa de rosas combinava
com a cor de seu vestido.
— Você trabalhava como acompanhante, não é?
— Dama de companhia — corrigiu Yvain, sabendo muito bem que a
intenção da outra era forçá-la a dizer diante de todos a própria profissão.
— Não admira que tudo isso seja novo para você — O sr. Fonseca sorriu
para ela. — Juan quer que eu ensine a você castelhano e um pouco de arte, e
acho que vai ser um prazer dar aulas a uma jovem tão encanta dora.
— Estou ansiosa por aprender, señor. — Yvain sentiu vontade de abra çá-
lo. — Prometo que vou ser uma aluna aplicada.
— Meu Deus! — Raquel riu e flertou com don Juan por cima do leque. —
Papai vai adorar despejar sobre ela uma avalanche de saber, mas, quan to a
mim, prefiro gozar a vida e namorar.
— Está vendo, Juan — o señor Fonseca riu —, o que acontece quando um
espanhol permite que a filha se torne emancipada? Não pensa em mais nada a
não ser em namorar.
— E existe alguma coisa mais bela que o amor? — Rachel perguntou,
olhando para o marquês, que parecia apreciar o humor da jovem. — Claro, para
uma moça simples, é melhor ser esperta. Eu nunca fui muito esperta.
Yvain percebeu a insinuação; sabia que, para a espanhola, parecia ingé -
nua e desajeitada, incapaz de usar com classe um vestido de Ignazio. Pen sou na
trança enrolada no alto da cabeça e achou-a ridícula. Será que don Juan via os
lábios de Raquel como pétalas de rosa iluminando o dourado suave do seu
rosto?
A chegada do garçom com a garrafa de champanhe foi um alívio. A rolha
saltou com tamanho ruído que Yvain deu um salto, fazendo Raquel rir.
— É a primeira vez que toma champanhe?
— Sim. é a primeira — concordou Yvain, olhando com admiração o líquido
dourado e borbulhante.
— Saúde, amor e tempo! — Sorriu o señor Fonseca. — Um brinde
tipicamente espanhol, señorita Yvain. Amor e tempo... com habilidade. pode-se
aproveitar ao máximo tanto um quanto outro.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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Depois daquele incidente o jantar correu alegre, com pratos de sabor


picante e uma conversa agradável, da qual Yvain pouco participou. A orquestra
tocava, casais dançavam, e dentro em pouco Manrique Cortez surgiria no palco,
fazendo maravilhas com sua voz e seu violão.
A ideia de ver Manrique outra vez trouxe um brilho especial aos olhos de
Yvain, o que não passou despercebido a don Juan.
— Gostou da champanhe? — perguntou ele.
— É relaxante. — Ousou até sorrir para ele, depois do que sua atenção se
desviou para o palco, onde acabava de surgir uma figura alta e esguia, de calças
negras, muito justas, e camisa de babados, saudada pelo público com um
aplauso caloroso. Ele se inclinou em agradecimento, olhou em tomo, e seus
olhos encontraram os de Yvain, que tremeu de excitação. Manrique sorriu e ela
teve a impressão de que todos sabiam que ele estava sorrindo apenas para ela.
— Senhoras e senhores, vou apresentar uma antiga canção de amor de
Sevilha. — Encostou-se a um pilar e começou a tocar, ao mesmo tempo em que
as luzes começavam a brilhar. — Imaginem um balcão e uma moça, e lá em
baixo, oculto na noite, um jovem apaixonado mas conscien te de que um outro
homem se interpõe entre ele e seu desejo.
Quando Manrique tocava, o instrumento parecia vivo nas suas mãos: na
sala não se ouvia o menor ruído, nem um murmúrio, nem um pequeno tilintar de
copos. Quando o encontrara na praia, Yvain já havia sentido sua mágica, e
naquela noite, estimulada pela bebida, imaginava-se a própria moça do balcão.
Uma moça desejada e dividida entre dois homens que a adoravam.
Terminado o número, o público aplaudiu com entusiasmo e dona Raquel
comentou que o cantor era muito atraente. Yvain percebeu o brilho nos olhos
dela e sentiu um desfalecimento, como se a espanhola pudesse des truir um
sonho lindo.
— É um excelente músico, não. Juan? — O señor Fonseca inclinou-se para
acender o cigarro do amigo, e seus olhos brilhavam. — Mas parece que nossas
duas jovens estão mais interessadas no charme do artista que no seu talento.
Don Juan fumava, pensativo, e observava Yvain. Manrique começou a
tocar uma música de Málaga, que falava do preparo do vinho, canção ale gre,
cheia de amor e insinuações. Afastou-se do pilar e começou a cami nhar entre as
mesas, parando diante de Yvain e cantando um trecho especi-
almente para ela, antes de voltar ao palco.
— Sabiam — disse o señor Fonseca, rindo — que só às jovens inocentes
era permitido entrar nos vinhedos?
— Não admira que ele tenha vindo a esta mesa. — O leque de Raquel
agitava-se como a asa de um pássaro raivoso. — Yvain não afastou os olhos
dele desde que começou a cantar.
Por um instante Yvain ficou sem fala, depois olhou para a outra moça e
sentiu um impulso violento de puxar seus cabelos.
— Acontece que eu o conheço — retrucou. — Encontrei Manrique Cortez
na praia e nos tornamos amigos.
As luzes se acenderam naquele instante e o ruído dos aplausos cortou
qualquer possibilidade de conversa, mas o olhar de Raquel falava com mais
eloquência que suas palavras. Yvain percebeu que os olhos do seu guardião
tinham uma expressão aborrecida.

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— Por que não convida o señor Cortez para ir até o castelo? — pergun tou,
quando os aplausos cessaram. — É costume entre os espanhóis que o rapaz se
apresente formalmente ao pai da moça ou a seu guardião.
— Sou inglesa — replicou Yvain. — Esse costume está fora de moda em
meu país.
Uma chama brilhou nos olhos de don Juan.
— Vai seguir nossos costumes enquanto for minha hóspede. Da próxima
vez que um rapaz se aproximar de você...
Deixou a frase pela metade, pois quando a orquestra recomeçou a tocar
Manrique Cortez se aproximou da mesa. Tinha trocado de roupa e vestia um traje
de noite. Parando diante deles, inclinou-se num cumprimento ao marquês e seus
convidados.
— O señor marquês permitiria que eu convidasse a señorita inglesa para
dançar? — perguntou, educado. Já nos conhecemos, mas aproveito esta ocasião
para me apresentar formalmente a seu guardião.
Para Yvain, era como se estivesse assistindo à representação de uma
peça, apenas como integrante da plateia, e não como uma das estrelas. Viu don
Juan bater a cinza do cigarro e Raquel escondeu o rosto por trás do leque.
— Señor Cortez, congratulações por sua perícia como instrumentista —
disse don Juan. — Se soubesse que é amigo de minha protegida, já o teria
convidado para tomar uma taça de champanhe conosco. Aceita uma agora?
— O señor marquês é muito gentil. — Manrique olhou para Yvain com
olhos sorridentes. — Mais agradável que o vinho seria dançar com a seno-rita.
— Quer dançar? —Don Juan olhava diretamente nos olhos de Yvain.
— Gostaria muito — respondeu, confusa. — Mas... não sei dançar mui to
bem.
— Deixe-me ensiná-la, señorita. — Manrique tomou-a pela mão e con -
duziu-a à pista de dança, onde a envolveu nos braços. — Alo, Soledad. Santo
Deus, retirá-la de perto do seu guardião foi como entrar na jaula de um leão!
— Entendo o que quer dizer. — Riu com timidez, ajustando-se ao ritmo da
música, e sentindo que Manrique era um parceiro perfeito. Os braços dele a
envolviam com energia e delicadeza e seus ombros tínham a altura perfeita para
protegê-la dos olhares de don Juan e de Raquel.
— Você disse que não sabia dançar — brincou Manrique — señorita
misteriosa... vamos, diga-me, com quem dançou antes?
— Com o açougueiro — Yvain riu —, numa festa de Natal realizada para
os criados da mansão. Dançar com Higgins era uma honra para todas as moças,
e depois de alguns tragos ninguém conseguia segurá-lo.
Dançou com Manrique durante quase uma hora. Saindo do salão, foram até
o terraço, e sob aquele céu estrelado Yvain sentiu o coração e a cabeça num
redemoinho. Riu com suavidade.
— Jamais passei momentos tão bons em minha vida! Já é meia-noite?
Será que preciso fugir correndo para que meu vestido não se transforme na
pobre roupa creme de sempre?
— Como você me deixa curioso! — Manrique segurou seu queixo como se
fosse beijá-la, e Yvain afastou-se depressa, descendo até o jardim. Ele a seguiu
e poucos minutos depois caminhavam entre as árvores e as flores. onde ela se
sentia menos nervosa, já que a escuridão e as rosas serviam de proteção contra
a autoridade de don Juan sobre ela.

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— Você é muito sensível, não é? — Manrique prendeu-a de encontro a


uma árvore, os olhos brilhantes como estrelas. — Mas gosto do seu jeito... uma
garota generosa demais com seus beijos não é sincera no amor.
— Não é um pouco cedo para começarmos a discutir este assunto? —
Embora seu coração batesse apressado por causa do vinho e da dança, Yvain
não sentia diante de Rique a mesma ansiedade que don Juan provo cava nela.
— Não. Os casais espanhóis falam de amor o tempo todo.
— Não sou espanhola, señor — respondeu, séria.
— Quer dizer que nunca falou de amor com um homem?
Ela balançou negativamente a cabeça e sorriu, pois na verdade não havia
nem mesmo dançado com alguém em toda sua vida; jamais havia sentido a
emoção de estar a sós com um homem atraente e ousado. A flecha do amor
jamais a havia atingido.
— Foi muito protegida — comentou Rique.
— Obscuridade seria uma palavra melhor. — Passou os dedos de leve
pelo veludo macio. — Ainda me sinto tão estranha vestida assim... como se
estivesse fantasiada com as roupas de outra pessoa.
— Mas você não está usando roupas de outra pessoa. — Os olhos de
Rique brilharam na semi-obscuridade. — O marquês é um homem rico e
fez de você sua protegida. Esse colar que você usa é de brilhantes e
esmeraldas.
Seus dedos tocaram as pedras e Yvain tremeu.
— Sou grata a ele, mas sinto-me como um objeto que pertence a ele.
— O que quer dizer? — As mãos de Rique se contraíram em torno dos
braços dela. — Ele a trata como uma filha, não trata?
— Sim... -
— Então por que diz que pertence a ele? — O rosto de Rique estava muito
próximo do de Yvain, e seus olhos não sorriam mais. — Usamos esta palavra
com outro sentido. Eu te quero! Não como filha, mas como mulher!
— Não! — Afastou-se dele. — Não quis dizer isso... Don Juan é meu
protetor e leva a sério sua responsabilidade. Mandou buscar uma dama de
companhia para mim na Espanha e quer que lhe apresente todos os meus
amigos.
— Ah, agora eu entendo! — Rique deu uma risada. — É isso que faz um
pai ou guardião. Não se admire com essa atitude do señor marquês, pois agora é
protegida dele e, como tal, haverá muitos homens interessados no seu dote.
— O que quer dizer? — Sentia-se perplexa. — Dote implica em casa mento.
Asseguro-lhe que...
— Agora ficou aborrecida. — Rique acariciou-ihe o rosto, como para sentir
o calor provocado pela exaltação. — Minha cara, como protegida do marquês,
terá todos os benefícios que ele pode proporcionar. Sabe disso, não? Um
espanhol leva a sério suas responsabilidades.
— Mas tudo que eu quero é receber uma boa educação!
— Como você é inocente. — Rique riu e tomóu-a nos braços. — O que
você precisa é ser educada nos assuntos do coração. Deixe-me ser seu
professor, deixe-me mostrar-lhe como um beijo pode ser excitante.
— Não, Rique! — Lutou com todas as suas forças, depois contraiu-se,
imóvel, ao ouvir sons de passos e o ruído de uma bengala vindo naquela direção.
— É ele!

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— Yvain? — Os ouvidos atentos do marquês devem ter adivinhado o


sussurro aterrorizado dela. — Onde você está?
Não teve forças para responder, e Rique parecia tão abafado quanto ela.
Continuaram ali parados, os braços dele enlaçando a cintura de Yvain, quando o
marquês surgiu através dos arbustos.
— Já vamos embora — disse, a voz tão inexpressiva quanto o rosto. —
Solte minha protegida, por favor, señor. Ela já teve emoções demais para uma
única noite.
Rique soltou-a, e Yvain percebeu que ele estava tão pálido e se sentia tão
culpado quanto ela própria. Don Juan esperou que ela se afastasse um pou co e
disse a Rique:
— No futuro, lembre-se de que Yvain é minha protegida. Se tentar bei já-la
novamente eu a proibirei de vê-lo.
Ela se virou para protestar, mas don Juan parecia tão alto, tão severo e tão
distante que não ousou desobedecer. Segurou as pontas do vestido de veludo e
correu para o terraço. Sentia-se como uma garotinha apanhada em flagrante
durante uma travessura.
No carro, a caminho de casa, tentou se defender.
— Não estávamos nos beijando — disse, os olhos fixos no painel de vidro
que os separava do motorista.
— Mas estou certo de que estariam. se eu chegasse alguns minutos de -
pois.
— Como um tio antiquado!
— É essa sua opinião? — Sorriu de leve, suavizando um pouco a
expressão irónica. — Você é muito inocente, Yvain, más conheço meus
conterrâneos e sei como são peritos na arte da conquista. Não quero que
confunda as palavras ardentes de um cantor simpático com sentimentos mais
profundos, que não podem ser expressos com palavras. Gostaria que você
conhecesse os latinos e seu modo de viver, assim não precisaria da proteção de
um tio antiquado.
— Desculpe se sou um peso, señor. — Yvain mordeu o lábio.
— Está empregando palavras que eu não disse, sehorita.
— Mas sugeriu...
— Está se referindo à minha atitude quando a encontrei nos braços
daquele jovem.
— Estava nos braços dele enquanto dançávamos... qual é a diferença?
— Minha querida criança, se acha que não existe diferença, então preci so
cuidar também de outros aspectos da sua educação.
Nos olhos dele, surgiu outra vez aquele desconcertante brilho de humor,
tão pouco frequente no rosto normalmente impenetrável. Yvain teve a sen sação
de estar vendo, o antigo Juan de Leon, aquele que ainda não tinha um defeito na
perna.
— O señor age como um tirano... — disse ela, o rosto afogueado —
apenas para me provocar.
— Não exatamente. — Contraiu as mãos sobre o castão de prata da
bengala. — Quanto a Manrique Cortez, eu falava sério. Ele pode ser seu amigo,
já que você precisa de um amigo jovem com quem conversar e dançar... mas não
vou tolerar um romance de amor. Está entendido?
— Sim, señor. — Analisou a mistura de vigor e maturidade que emana vam
dele e desejou não sentir aquela estranha excitação. Gostaria que o

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marquês pudesse ser como um pai para ela.— Vou tentar obedecê-lo, mas
e meus sentimentos?
— Seus sentimentos? — Olhou-a admirado, como se ela não tivesse o
direito de ter sentimentos.
— Não pode me proibir de amar.
— Se está se referindo a um fogo de palha, acho que todos nós temos de
passar por isso quando começamos a nos fomar adultos.
— Eu me tomei adulta quando tinha quinze anos — disse num murmú rio,
cravando as unhas nas palmas das mãos. — De qualquer jeito, acho que Rique
não vai mais querer minha amizade depois da maneira como o senhor falou com
ele.
Don Juan encarou-a, as sobrancelhas erguidas, a expressão satânica.
— Os espanhóis não são assim tão sensíveis. Ao contrário, são extrema -
mente persistentes na busca de um ideal.
— Como Don Quixote? — Sorriu.
— Exatamente. — Sustentou com os olhos escuros o olhar dela. — Já leu
as aventuras de Don Quixote?
— Sim, quando não estava lendo romances de amor para a sra. Sandell.
— Minha biblioteca possui vários livros em inglês. São seus. — Sorriu
também.
Ela agradeceu, mas não deixou de notar a sutileza com que ele a afastou
dos pensamentos românticos e a levou de volta à sala de aula. Então o marques
não a considerava pronta para o amor.
O que era o amor? Seria como um tremor incontrolável, um abraço sem
fim, um beijo ardente que silenciasse todas as dúvidas?
Com o murmúrio macio do carro, Yvain dormiu e sonhou, No sonho, uma
mão tocava seu cabelo e dizia:
— Chegamos em casa, Yvain.
— Em casa? — murmurou sonolenta, e só então percebeu que sua cabe ça
repousava no ombro do marquês, tão próxima da dele que poderia até atraí-lo
para si e sentir seus lábios quentes.
O pensamento não durou mais que um instante, mas perturbou-a tanto que
no momento seguinte estava longe dele.
— Vamos — disse ele, ríspido. — Está com sono por causa da champa nhe
e por ter dançado tanto tempo com o belo Manrique. Não se esqueça de que
amanhã começa a ter aulas com o señor Fonseca.
De volta às aulas, pensou, descendo do carro e seguindo don Juan até a
porta do castelo.
— Boa noite, menina — cumprimentou don Juan, seco, e se afastou.

CAPÍTULO V

A vila dos Fonseca ficava acima do aveludado azul do mar, na baía.


Pequenos barcos de pesca flutuavam em torno dos paredões visguentos que
sustentavam as rochas sobre as quais erguiam-se punhados de casas brancas
como flocos de algodão. No mercado, pessoas faziam compras: na capela o sino
soava, alegre; por toda parte o sol brilhava, quente, iluminando as flores que
cresciam em cada balcão.

Livros Florzinha - 38 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Don Juan levou Yvain até a casa, onde dona Raquel os esperava, fria e
adorável como uma flor, usando um vestido imaculadamente branco e, na
cabeça, um chapéu também branco, enfeitado apenas com uma rosa. Ela e don
Juan iam até o continente, onde passariam o dia. Raquel tinha com pras a fazer,
e o marquês, negócios a tratar.
Antes de partirem, todos tomaram chá de limão no pátio da vila. Era um
lugar delicadamente romântico, repleto de oliveiras, por onde pairava uma
espécie de encanto mágico. Sentada em um dos bancos que rodeavam algu mas
oliveiras, Raquel sorria, contente por ter só para si, durante um dia inteiro, o
homem moreno e misterioso.
— Você parece um quadro de Renoir — ele disse a ela.
Ela sorriu e olhou para Yvain, vestida com uma roupa amarela, muito
simples, tendo como único adorno um colar branco. O vestido sem mangas
deixava à mostra seus braços esguios e revelava um pouco as pernas jovens e
bem-feitas. Caindo por um dos ombros, uma trança dourada, presa na ponta por
uma fita verde.
— Juan, que artista pintou sua protegida? — Os olhos de Raquel brilha -
vam, parecendo transmitir ao marquês uma mensagem cifrada, que só um
homem apaixonado poderia entender.
O marquês estava em pé, apoiado ao tronco de uma árvore, e o señor
Fonseca descansava numa poltrona de vime, tendo na boca uma cigarrilha.
— Degas. — Quem respondeu foi o dono da casa, pois don Juan parecia
não ter uma opinião a respeito. — Só ele podia ter desenhado essas pernas
esguias e esses olhos imensos. As modelos de Degas tinham sempre uma
expressão levemente mágica, como se pudessem desvanecer-se a qualquer
momento, tal qual as nuvens de verão.
— Quer dizer, minha querida — Raquel deu uma risada e levantou-se
entre um murmúrio de rendas — que não pertence a esta terra, como nós?
Papai, ofereça-lhe outra fatia de torta... não queremos que ela saia flutuan do
pelo ar e desapareça, não é mesmo?
— Vá logo fazer suas compras! — ordenou o pai, rindo. — Juan leve daqui
essa minha filha mimada e deixe-me a sós com essa criança cuja mente jovem
ainda não foi contaminada pela mania da moda. dos coquetéis e do prazer!
Don Juan sorriu, apoiou-se à bengala e aproximou-se de Yvain. Parou
diante dela. numa atitude tão dele: meio inclinado, observando-a com olhos
penetrantes. — Seja uma aluna atenta, menina, pois vou fazer perguntas, mais
tarde.
Yvain sustentou o olhar do marquês, sentindo que ele era novamente o
guardião severo. Só mesmo num sonho aquelas mãos poderiam acariciar com
suavidade.
— Espero que tenha um dia tão bom quanto o que espero ter, señor. —
Sorriu de leve para o mestre, pois don Juan parecia apreciar sorrisos apenas
quando esses vinham de dona Raquel. Quanto a ele, guardava muito bem a
chave do próprio enigma.
— O que quer que lhe traga? — perguntou don Juan inesperadamente.
Yvain arregalou os olhos, até que não via mais nada diante de si. a não ser
o rosto moreno, digno e discretamente inquisitivo. Raquel observava a cena, fria
e divertida, os dedos apoiados de leve sobre o fecho da bolsa.
— Eu... não quero nada, don Juan — gaguejou Yvain.

Livros Florzinha - 39 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Nem mesmo uma caixa de doces? — insistiu ele, um leve sorriso no


olhar.
— Doces? Está bem... — concordou e sorriu também. — Não muito
açucarados, por favor.
— Caramelos? — sugeriu, e virou-se para o señor Fonseca. — Vamos
voltar tarde, meu amigo, mas prometo não deixar que sua encantadora filha se
afaste muito de mim,
— juan, não comece a agir como se fosse o meu guardião... não há .
necessidade disso. — Raquel riu com entusiasmo e tomou o braço que ele lhe
oferecia. — Não sou uma adolescente.
— Sei disso, Raquel. — Sorriu para ela e para Yvain, parecendo muito
mundano naquele instante. — Melhor nos apressarmos se não queremos
nos atrasar.
— Como você quiser — respondeu Raquel.
Yvain percebeu o suspiro aborrecido do señor Fonseca, que parecia
desaprovar a atitude da filha. Ela admitia abertamente aceitar a posição de
escrava obediente do nobre da Espanha.
Don Juan cumprimentou o dono da casa, olhou um momento para Yvain e
saiu com Raquel. O som da bengala batendo no ladrilho foi sumindo aos poucos,
até morrer completamente.
Por um ou dois minutos, tanto Yvain quanto o tutor pareceram gozar a
sensação de paz que desceu sobre o pátio. Era como se, após uma luta de
emoções em conflito, a tranquilidade retomasse: só se ouvia o chitrear dos
pássaros e o murmúrio suave da fonte. A vila era uma construção barroca de
sólidas paredes, e a poucos passos de Yvain erguia-se um oleandro que
espalhava pétalas e perfume pelo pátio. As flores eram adoráveis, pensou Yvain,
mas continham um veneno perigoso.
— Então, minha menina, você tem sede de aprender, — O homem esta lou
os dedos e observou Yvain com um interesse amistoso. — Foi ideia sua ou de
don Juan. Ele é um jovem de vontade forte e me parece pouco comum uma
garota bonita como você desejar estudar arte e literatura com um professor velho
e rabugento como eu. A maioria das moças prefere namorar.
Ela acariciou uma flor de oleandro e sorriu, tímida.
— Nunca tive uma verdadeira educação, señor, e parece um milagre que
don Juan tenha me proporcionado um mestre como o señor. Quero aprender
muito e crescer através do saber.
Um brilho apareceu nos olhos do señor Fonseca.
— Pode parecer estranho que um solteirão tenha uma protegida, mas vejo
que ela é que é incomum. Juan não é um homem sentimental. Se você fosse
uma tola, tenho certeza de que ele a teria enviado de volta à Inglater ra com
algum dinheiro e uma reverência educada. Ele me disse que você não tem
família.
— Não tenho mais, señor.
— Deve ser triste para você. Todas as pessoas deviam ter alguém na
vida. Como vê Juan... como uma espécie de tio?
— Não... — Deu um sorriso, que se transformou numa risada. — Não
consigo me imaginar chamando-o de tio Juan. Ele é tão sério e tão impor tante...
é o leão da ilha.
— Considera-se um dos caprichos dele?
— Sim.

Livros Florzinha - 40 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Sabia, minha menina, que o homem espanhol é solitário e cruel?


— Agora já sei.
— Foi Juan quem a ensinou? — O señor Fonseca inclinou-se, atento às
reações de Yvain. — Como fez isso?
— Ele faz alguma objeção à minha amizade com Manríque Cortez. Acho
que me considera imatura para manter uma relação com um homem sofisticado
como Rique.
— Você gosta da companhia daquele jovem?
— Não tenho muitos amigos, señor, por isso me alegro por ter encontrado
um. Rique é alegre e bonito e...
— Você está se sentindo lisonjeada. — O homem sorriu. — É natural.
Como tenho uma filha, sei o que representa para uma mulher sentir-se desejada
e atraente.
— Dona Raquel é muito bela — Yvain falou com sinceridade, embora
duvidasse da beleza interior da moça. — Deve ter muitos admiradores.
— Desde criança — admitiu o pai, com um leve brilho de orgulho no olhar.
— É muito parecida com a mãe, mas Anna era doce e meiga, e nossa vida em
comum foi extremamente feliz. Minha Raquel, ao contrário, tem uma
personalidade forte e dominadora, o que me faz ter um pouco de pena do homem
com quem ela se casar.
Yvain retirava as pétalas de uma flor, distraída, pensando na bela Raquel
apoiada ao braço de don Juan. Raquel Fonseca tinha decidido que seria
vantajoso e mesmo excitante ser a noiva do marquês de Leon. Se isso se
tornasse realidade, o que aconteceria à protegida do marquês?
— Em que está pensando, minha menina, com esses olhos tão misteri -
osos?
Yvain olhou para o professor e sorriu.
— A vida é que é misteriosa. Será verdade que nosso destino está traça do
antes mesmo de nascermos?
— O destino? — Ele ficou pensativo. — Estou inclinado a crer que todos
nós temos uma encruzilhada na vida... ah, por que arregala esses olhos
dourados? Eu disse alguma coisa significativa, señorita?
— Sim... é estranho. — Deixou cair a flor e olhou para a palma da mão,
onde certa vez uma cigana havia visto uma encruzilhada. Contou ao professor da
cigana, esperando que ele sorrisse, mas ele continuou sério.
— O verdadeiro cigano tem o dom da clarividência. A mãe do seu guar dião
era uma cigana, e às vezes fico imaginando se ela não sabia desde o início que
seu casamento terminaria em tragédia. Como o velho marquês não a aceitaria,
depois da tragédia ela fugiu com o bebé para a América do Sul. Juan cresceu lá,
e, sendo forte e ambicioso, fez fortuna sem a ajuda da família do pai. Isso foi em
Lima... — O señor Fonseca calou-se e analisou o rosto atento de Yvain. — Você
tem o dom de saber ouvir em silêncio...
alguma vez Juan já retirou a máscara diante de você e revelou um pouco
da sua dor?
— Dor? — repetiu, pensando nos momentos em que ele parecia perdido
em pensamentos tristes, momentos em que conseguia ser assustador e man-tê-
la afastada.
— A perna doente ainda o atormenta. No começo os médicos de Lima
quiseram amputá-la, mas ele não concordou e viajou para a Inglaterra, onde se
colocou aos cuidados de um cirurgião que reconstruiu a perna pouco a pouco,

Livros Florzinha - 41 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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numa série de operações dolorosas. Foram meses de tortu ra, os quadris


imobilizados pelo gesso, os nervos dia a dia mais tensos. Pode-se dizer que só
um milagre salvou-lhe a perna, esmagada quando o cavalo que montava quebrou
uma das patas durante um galope. Juan gosta va de velocidade, o que,
juntamente com o fato de estarem subindo a encosta de uma montanha,
contribuiu para a gravidade do acidente.
Yvain tremeu ao imaginar a cena: o cavalo caindo com todo o peso do
corpo, a perna do marquês presa sob a massa bruta do animal.
— Deve ter se sentido muito só... — disse com a voz trémula de emo ção
— caído na imensidão das planícies.
— Algumas horas depois os vaqueiros o encontraram delirando sob o sol
inclemente, e ao seu lado o cavalo morto, pois Juan ainda conseguiu forças para
dar o tiro de misericórdia que acabou com o sofrimento do animal. Ele me contou
que só pensando no revólver que trazia no cinturão conseguiu forças para
suportar as horas de espera. Sabia que poderia colo car um fim no próprio
sofrimento quando a agonia se tornasse insuportável.
— Só uma pessoa com vontade de ferro conseguiria suportar tamanho
pesadelo — sussurrou Yvain. — A dor, o sol quente, a consciência da própria
solidão e desamparo...
— Don Juan é espanhol e cigano, minha menina, raças acostumadas à
conquista de novos mundos, acostumadas a sofrer e praticar torturas. Só por
isso, sobreviveu ao acidente, à longa exposição ao sol, aos longos meses de
tratamento. De volta à Espanha, viveu todo o tempo sozinho naquele castelo
assombrado. Assombrado pela lembrança do sofrimento suportado lá dentro pela
mãe.
— Vi o retrato dela — disse Yvain com suavidade. — Deve ter sido difícil
para ele perdoar aqueles que a feriram, Como é que foram capazes de maltratar
uma flor adorável como La Rosalita?
— Sim, Rosalita. — Os olhos do homem pousaram com tristeza sobre as
rosas que cresciam numa das paredes do pátio. — Eu a conheci numa breve
visita que fiz à ilha. Naquela época eu dava aulas num colégio de Madri e ainda
não havia fixado residência na ilha de Leon. Vi Rosalita poucas vezes, antes que
ela e o filho deixassem a ilha para nunca mais. Havia uma espécie de aura, um
estranho encanto naquela mulher. A marquesa, avó de Juan, tinha uma
pretendente para o filho, mas ele recusou a moça para se casar com uma cigana,
e a família jamais o perdoou por isso.
— Quanto preconceito e insensibilidade! — exclamou Yvain. — Consi derar
a posição e a fortuna mais importantes que o amor!
O señor Fonseca sorriu com o ceticismo próprio das pessoas de idade.
— As paixões da juventude, minha criança, têm pouco valor aos olhos das
pessoas que jamais as conheceram. Na família de juan, era natural que dinheiro
se juntasse a dinheiro, que prestígio se casasse com prestígio. O pai dele
quebrou uma regra estabelecida há muitas gerações, e às vezes me pergunto...
— Sim, señor?
— Juan... o filho do nobre e da adorável cigana. Se não fosse pelo
acidente, que matou a inquietude própria da natureza dele, não acredito que
tivesse assumido o título e a posição que ostenta hoje. Juan de Leon é dois
homens. Às vezes seus olhos deixam entrever um leão enjaulado; às vezes
aceita o destino com o humor irónico dos espanhóis.

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Fazia calor no pátio, mas Yvain sentiu um tremor. O destino era cruel
demais com certas pessoas, e ela desejou do fundo do coração que o mar quês
encontrasse a felicidade como recompensa por todo o sofrimento suportado
durante a vida. A dor havia deixado marcas no rosto jovem: tinha roubado as
alegrias a que um nobre como ele tinha direito; cavalgar um cavalo ágil, jogar
ténis, tomar nos braços uma mulher para gozarem juntos o ritmo alegre de uma
dança.
— Quantos anos têm don Juan? — perguntou sem pensar.
— Trinta e dois, menina.
— Pensei que fosse muito mais velho! Ele me trata como a uma criança!
— Creio que Juan a considera muito jovem e inocente. — O tutor riu.
— Don Juan — murmurou Yvain. — O grande amante cujo coração jamais
foi tocado.
— Diz a lenda que ele se apaixonou... apenas uma vez.
— É mesmo? — Imaginou outra vez a bela Raquel apoiada ao braço dele.
O marquês havia olhado para a espanhola com admiração e talvez estivesse a
ponto de entregar o coração.
— Já é hora de começarmos as lições. O señor Fonseca levantou-se. — A
sala está mais fresca e possui objetos e livros que você pode estudar.
A sala tinha sido decorada com móveis antigos e de estilo. Escura e
pesadamente entalhada, fazia ressaltar a coleção de arte do dono da casa. Yvain
recebeu autorização para manusear com cuidado umas figuras de terracota,
representando crianças.
— Você deve amar os objetos de arte com todo seu coração — aconse -
lhou o tutor.
— Estes são encantadores — comentou, sem contudo sentir mais que
o interessada. Olhou para as pinturas e teve a sensação de estas terem
olhos reais, e não apenas pintados. Sentiu um tremor involuntário na coísas
inanimadas, não importa quão belas fossem, jamais conseguiriam emocioná-la
como seres humanos.
— Lindas — repetiu, sentindo o olhar penetrante do tutor.
— Vamos começar com a história de Ticiano. - O professor retirou um
grande livro da estante. - Creio que vai simpatizar com ele... so daqui. a muito
tempo vai estar preparada para o mestre.
Os olhos de Yvain deixavam entrever a pergunta que ela não fez
— Leonardo da Vince. — O señor Fonseca falou, e Yvain teve a impressão
de que havia malícia nos olhos dele.

CAPÍTULO VI

Era domingo... nada de lições. Um bilhete de Manrique a convidava para


um passeio pela ilha.
Como a carta foi entregue durante o café da manhã, Yvain foi obrigada a
pedir o consentimento de don Juan. Ele levantou os olhos da correspondên cia
que lia.
— Já lhe disse que não faço objeções ao rapaz... como amigo, Yvain.
Claro que pode ir passear com ele.
— Obrigada.

Livros Florzinha - 43 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Acho que vamos precisar esquecer a ideia de uma dama de compa nhia
para você. Recebi uma carta de dona Augusta recusando meu convite, pois
iniciou um pequeno negócio e não pode abandoná-lo por um trabalho temporário.
— Sorriu quase que imperceptivelmente. — Acha que pode continuar no castelo
sem uma acompanhante?
— E por que eu ia precisar de uma?
— De fato, por quê? É que você parecia estar em dúvida quanto às
minhas intenções quando as roupas chegaram de Madrí.
— Agora já o conheço melhor, don Juan.
— Conhece mesmo? — Encheu mais uma vez a xícara de café. — Che gou
à conclusão de que não sou perigoso como meu homónimo?
— Ele era um conquistador.
— E o que é que eu sou?
— O senhor é um homem refinado — riu, confusa —, e deve ter-se
divertido muito comigo por ter interpretado mal sua gentileza...
— Por que insiste em dizer que sou bondoso? — Tomou um gole de café.
— Minhas ações raramente são motivadas pelo sentimento. Sou um
homem prático, como todos os espanhóis, e não gosto de ver juventude e
inteligência desperdiçadas. Estou feliz com os progressos que vem fazendo com
o señor Fonseca. Ele me disse que você tem muita facilidade para aprender
nosso idioma. Vamos, diga alguma coisa em castelhano!
— Não tenho coragem.
— Não tenha medo de mim..— Riu, zombeteiro. — Faça de conta que sou
Manrique Cortez.
— Isso é impossível!
— Por quê? Porque ele é da sua geração e eu tenho idade bastante para
ser seu tio?
— Eu... não o vejo como um tio — protestou Yvain.
— Mas tem medo de mim, por isso não quer dizer algumas palavras em
castelhano.
— Tenho vergonha...
— Quer que eu fique de costas? — brincou don Juan. — Francamente,
Yvain, você vive dizendo que sou bondoso, mas age como se me conside- rasse
um monstro. Sim, Luís? — Olhou para o criado, parado ao lado dele. — O señor
Cortez espera pela señorita, señor.
— Obrigado, Luís. — Don Juan olhou para Yvain. — Como deve estar
ansiosa para se encontrar com seu admirador, continuaremos nossa conver- sa
num outro dia, Yvain, não se esqueça do que eu lhe disse: agora está sob meus
cuidados e não gostaria que as pessoas pensassem que o jovem Cor tez está
cortejando você.
— Terei cuidado, señor. — Seus olhos brilhavam de ansiedade pelo
passeio, e ela praticamente saltou da cadeira. — Não sei a que horas estarei de
volta...
— Isso não é problema meu. — Seu tom era frio. — Também vou sair.
— Espero que se divirta, señor.
— Pois eu tenho certeza de que você vai se divertir muito, Yvain. — Fez
uma pequena inclinação de cabeça, — Corra, menina. Não faça o rapaz esperar.
— Não... até logo.
— Até a vista.

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Mais do que depressa, saiu correndo dali, como se a presença do mar quês
a assustasse. Ao passar pelo criado que segurava a porta para ela, notou que
nos olhos dele já não havia a antiga desconfiança. Talvez a presença de uma
pessoa jovem na casa o estivesse agradando, por ser uma novidade
— Tenha um bom dia, señorita — murmurou Luís.
— Obrigada, Luís. — Sorriu para ele, — Na Inglaterra, normalmente os
dias ensolarados como este terminam com uma tempestade.
— Acho que a señorita não precisa se preocupar — garantiu Luís, depois
de examinar o céu.
— Yvaín! — Manrique a esperava ao pé da escada, com um sorriso amplo
nos lábios.
Ela correu para ele, que lhe segurou as mãos e examinou-a com admi -
ração.
— Cada vez que a vejo — disse ele, sorrindo — parece mais crescida.
Você é como uma flor que estivesse fechada por causa da sombra: o sol da
Espanha está fazendo desabrochar a beleza oculta.
— Não seja bobo — protestou Yvain. — Não sou nem um pouco bonita!
— Você é linda. — Ajudou-a a entrar no carro, um modelo creme com
estofamento cor de caramelo. Apesar da capota aberta, uma proteção de linho
impedia os assentos de ficarem muito quentes.
— Todos os homens latinos são aduladores — brincou Yvain.
— Até mesmo don Juan? — Rique olhou-a fixamente enquanto entrava no
carro.
— Meu protetor é um homem de responsabilidade...
— É espanhol e tem olhos muito vivos. — Rique deu partida no carro e
virou na direção dos portões e da estrada ensolarada. O mar lá embaixo tinha um
brilho azul de prata e no ar sentia-se uma delicada fragrância. — Ele ainda é
jovem... para ter uma protegida.
— Espero que não esteja pensando que...
— Claro que não. — Deu uma risada. — Não tenho a menor dúvida de que
ainda não fez amor com homem algum.
— Não sabe falar de outro assunto que não seja amor?
— Não existe assunto mais fascinante. Faz parte do mistério da vida; é o
que faz da vida uma coisa digna de ser vivida.
— Deve ter se apaixonado muitas vezes, Rique, para falar com tanta
segurança.
— E que latino não é antes de tudo um amante, se não com atos, ao
menos com palavras e músicas? Será que tem medo do amor, chica?
— Você confunde amor com um simples flerte.
— Será que posso flertar com você?
— Flerte não combina com amizade.
— Se seu protetor espera que eu a trate como uma garotinha, então por
que não a tranca na torre? Quer que a leve de volta para ele?
— Não... ele vai sair.
— Com a exótica Raquel?
— Acho que sim.
— Toda a ilha comenta que ele vai se casar com ela. O que você acha?
— Ele não me faz confidências.
— Acho que você não vai ficar muito feliz se eles se casarem, não é?
— Por que eu iria me importar? — Olhou para Rique, espantada.

Livros Florzinha - 45 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Se Raquel se tornar a senhora do castelo, pode não gostar da presen ça


da atraente protegida do marido.
— Don Juan não precisa continuar sendo meu protetor para sempre. Vou
permanecer no castelo até que o señor Fonseca me ensine o suficiente para eu
poder iniciar uma carreira.
— Está falando sério? — Rique diminuiu a velocidade do carro para olhar
para ela. Com os cabelos agitados pelo vento, Yvain parecia ainda mais jovem e
atraente, embora não tivesse consciência disso.
— Claro. Quero ter um trabalho mais agradável que o de dama de com -
panhia.
— Existe uma ocupação mais agradável... pode se casar.
— Só darei esse passo quando estiver apaixonada.
— Mas você tem medo do amor — brincou Rique.
— Tanto quanto qualquer outra moça, mas sou cuidadosa. Rique. veja o
mar! E tão lindo que mal consigo acreditar que um dia ele me aterrorizou.
O carro deslizava suave sob o sol e Yvain observava cada detalhe da
paisagem, atenta e maravilhada, ansiosa por ter tudo registrado na memória para
quando fosse embora da ilha. A distância, a Espanha parecia cor de violeta, e a
paisagem de olíveirais e moinhos de vento parecia saída das páginas do Don
Quixole.
— A Espanha se parece com a ilha? — perguntou Yvain.
— Muito. É como se alguém houvesse roubado um pedaço da Andalu zia e
jogado no mar. Sou do sul, mas adoraria viver aqui.
— Sua vida é nas cidades. — Sorriu. — Sua música vai levá-lo a todas as
partes do mundo e você sabe disso.
— Pode ser — admitiu ele.
— Será que um dia nos lembraremos deste passeio ao sol da ilha? Será
que nos lembraremos daquela casa de paredes brancas, coberta de flores
vermelhas? Da criança que recolhe conchinhas na praia? Sinto o cheiro das
algas e das flores e talvez um dia consiga senti-lo outra vez, apenas fechan do os
olhos. — Olhou para Rique, admirando seu belo perfil latino. — E você, vai se
lembrar?
— As lembranças são muito vagas. Prefiro tudo que é vivo e respira.
— Isso porque você é homem. Acho que os homens só lembram daquilo
que os magoou. — Pensou em don Juan, que não teria voltado à ilha para
assumir seus títulos se não fosse aquele acidente horrível. Até hoje, segun do o
señor Fonseca, ele ainda sofria com o passado.
— Em que está pensando? — Rique parou o carro no alto de um roche do;
o sol e o som do mar os envolviam como um manto. Yvain aspirou o perfume do
ar, deliciada, sentindo-se segura ali. Não pensava mais na força terrível do mar
que quase a matara um dia.
Rique segurou sua mão com delicadeza.
— Nesse instante você parece estar sonhando. Quem é que vive e respi ra
nos seus sonhos?
— Muitas pessoas. — Yvain riu, mas sentiu que seu pulso se acelerava e
desejou que Rique não tivesse percebido.
— Você é uma coísinha perturbadora, Yvain. Muitas moças gostam de
flertar com os homens, mas você nem sabe como fazer isso. Deve ter sido muito
protegida até hoje.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Uma vida restrita, o que é diferente. Uma órfã não tem ninguém para
protegê-la, Rique, por isso pare de me tratar como se eu fosse uma criança.
— Gostaria de tratá-la como namorada. — Aproximou-se, os olhos bri -
lhantes, obrigando-a a encolher-se no assento.
— Rique...
— Os tabus costumam tentar os homens.
— Por favor, não estrague nosso dia.
— Vou fazer o possível para que nosso dia seja o melhor possível. Olhe
em volta: a não ser pelo menino que recolhe conchinhas, estamos comple-
tamente sós. Seu protetor provavelmente está cortejando a bela Raquel com a
distinção de um verdadeiro fidalgo.
— Não sabe se controlar? — pediu Yvain. sentindo que as mãos dele lhe
acariciavam o cabelo dourado. Mas, estranhamente, não o afastou, pois o toque
dos dedos dele não despertava nela aquela esquisita sensação de corrente
elétrica, como acontecia toda vez que seu guardião a tocava sem querer.
— Pensei que fôssemos almoçar numa finca — disse Yvain.
— Daqui a pouco. — De repente ele a abraçou e beijou seu pescoço nu.
— Sua pele é suave como a de uma menina, macia como uma pétala...
Tenho que beijá-la!
Beijou-a, mas Yvain permaneceu fria e passiva. Ele se afastou e olhou-a,
perplexo.
— As moças inglesas são todas assim, frias como gelo.
— Sim... quando são beijadas contra a vontade.
— Devo concluir que não me acha atraente? — Afastou-se dela.
— Não, Rique. Só quero conhecê-lo melhor. Quero que sejamos
amigos...
— Amigos... um homem e uma mulher? — Riu com desprezo. — Você não
estaria no meu carro se não me atraísse.
— É só nisso que pensa? — Abriu a porta do carro e saltou, indignada.
— Obrigada pelo passeio...
— Yvain, sua idiotazinha...
Ela tirou os sapatos e desceu correndo a encosta, até a praia. Percebeu
que Rique vinha atrás e se sentiu perdida, pois o garoto que catava conchi nhas
havia desaparecido. Estava sozinha na praia com um homem furioso a persegui-
la.
— Yvain... está se comportando como uma criança... Talvez estivesse, mas
mesmo assim tinha deixado de gostar de Rique e não queria que ele a tocasse
outra vez. Apressou o passo, correndo livre pela areia, sem o sapato para
atrapalhá-la. Viu uma cerca de madeira e! saltou-a, achando-se em seguida
diante de uma escada que conduzia a um pequeno cais. Quase sem fôlego,
subiu os degraus de dois em dois, desco brindo, aliviada, que algumas pessoas
tomavam sol a pequena distância.
Calçou os sapatos e juntou-se aos banhistas. De longe viu que Rique a
observava durante alguns instantes, depois virava-se e caminhava na dire-ção do
carro. Não se sentiu triste por ele ter ido embora; sentou-se ao lado de um
garoto que pescava, muito compenetrado,
— Já pegou alguma coisa? — perguntou, num castelhano inseguro.
— Logo vou pegar um peixe enorme — garantiu o menino.

Livros Florzinha - 47 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Ela não cometeu a indelicadeza de rir, mas, para sua surpresa, pouco
tempo depois ele fisgou mesmo um peixe de tamanho razoável e convidou-a para
uma refeição à beira do mar.
Apesar do desentendimento com Rique, Yvain aproveitou cada momento
do dia. O pequeno Fernando tinha numa sacola um pão caseiro, tomates e todos
os utensílios necessários para o preparo de um peixe.
Recolheram madeira, fizeram uma fogueira e puseram o peixe para as sar.
Depois de pronto, comeram-no com o pão e os tomates, sem deixar um só
pedacinho. Descansaram um pouco na areia para fazer a digestão e em seguida
jogaram vôlei.
Foi tudo tão divertido que só quando Fernando avisou que precisava ir
embora é que Yvain se deu conta de que estava a muitos quilómetros do castelo.
Seu jovem amigo indicou-lhe a direção que devia seguir.
— Vai ser uma longa caminhada, señorita.
— O peixe estava esplêndido. Muito obrigada, Fernando.
— Foi um prazer, señorita. — Ele a olhou com estranheza, pois o cabe lo
de Yvain, molhado e embaraçado, colava-se ao pescoço dela, e o vestido
ensopado da água do mar não tinha uma aparência muito fina. — É sério que
vive no castelo do señor marquês?
— Serissimo. — Sorriu e estendeu a mão para ele. — Até breve. Fernan do.
Espero que nos encontremos de novo.
Ele não apertou a mão de Yvain. como ela esperava, mas inclinou-se
galante, e beijou-a.
— Até a vista, señorita.
Yvain sentiu-se solitária quando a pequena figura desapareceu. Logo o sol
desapareceria e ela ficaria sozinha naquele lugar estranho. Como ficar ali
parada, sentindo piedade dela mesma não ia ajudá-la a voltar ao castelo, tomou
a estrada da praia, como Fernando havia indicado, e enquanto cami nhava notou
distraída que as montanhas estavam praticamente ocultas na névoa, à exceção
dos picos, A cena, apesar de um pouco sinistra, não deixava de ter uma beleza
misteriosa, e só depois de meia hora Yvain decidiu parar para descansar um
pouco, percebendo que o sol começava a desaparecer no horizonte. Olhou para
o mar e sentiu um calafrio. Logo seria noite e a névoa parecia estar penetrando
na ilha. Começou a correr... e de repente o salto de um dos sapatos quebrou e
ela sentiu uma dor no tornozelo. Esfregou a perna e olhou para o sapato,
desconsolada,
— Este não é o seu dia — murmurou para si mesma. Enquanto cami nhava
envolta pela névoa, olhava esperançosa para as torres distantes do castelo,
esperando vê-las surgir por entre as nuvens a qualquer momento.
A umidade começou a tomar conta dos cabelos e da roupa de Yvain, que
ouvia ao longe o som fantasmagórico dos apitos dos navios que chegavam ao
porto. Apressou o passo, mas a névoa a seguiu. Até então estava apre ensiva,
mas não assustada. Uma ou duas vezes já se havia perdido nos pântanos de
Combe St. Blaize, mas sendo uma garota do campo, não se deixara dominar pelo
pânico. O importante era evitar o pânico, caso contrá rio ficaria mais difícil
encontrar o caminho de volta.
Procurou reunir toda sua frieza, pois sabia que dentro de pouco tempo
estaria andando às cegas no meio da neblina e que teria que depender ape nas
dos seus instintos para conseguir voltar ao castelo. Sabia da existência de

Livros Florzinha - 48 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

chalés ao longo do caminho, mas todos eles se localizavam em lugares bem


protegidos. Se saísse da estrada, seria muito difícil encontrá-la outra
vez.
Lembrou-se de ter dito a Luís naquela manhã que um dia de sol, na
Inglaterra, costumava significar tempestade. Jamais imaginou que o sol bri lhante
da ilha pudesse se transformar naquela neblina cerrada. Mas ali esta va ela,
presa no nevoeiro, impotente como uma mosca presa num pote de mel. Sentia
frio e uma enorme solidão, e desejava ter um agasalho com que se proteger. De
repente, um som chegou até ela. fazendo-a olhar para trás com novas
esperanças.
Pela primeira vez na última hora um automóvel vinha na direção dela, os
faróis fortes cortando a névoa. Sentiu que o coração lhe saltava no peito.
Precisava a todo custo fazer o carro parar e pedir uma carona... precisava!
Correu para o meio da pista, e o motorista, que só a viu quando os faróis
iluminaram o vestido branco, precisou frear bruscamente para não atropelá-la.
Yvain ouviu o ruído dos pneus, o som de vidros que se quebravam contra uma
árvore... e depois um silêncio pesado.
Apavorada, correu até o automóvel e começou a lutar com a porta, que não
queria abrir. Alguém abriu por dentro e apesar da escuridão. Yvain reconheceu a
figura alta e esguia que parou diante, do único farol que restou intacto. O olhar
negro e penetrante num instante transformou o frio que ela sentia numa onda de
calor sufocante. Olharam-se em silêncio por um instante.
— Está... bem? — gaguejou Yvain.
— Graças a você, não — ele respondeu, cortante. — Suponho que esta va
perdida na neblina?
— Sim, señor. — Estava a ponto de chorar, por causa do choque, mas ao
mesmo tempo se sentia aliviada por vê-lo são e salvo. A parte dianteira do
automóvel estava bastante danificada e, apesar das inúmeras tentativas, o motor
recusou-se a funcionar. Ela sabia que âs vezes don Juan dirigia sozinho o carro
construído especialmente para ele, onde podia manter a perna esticada.
Ao pensar na perna já ferida em outro acidente terrível, Yvain sentiu uma
súbita tontura e precisou apoiar-se à porta para não cair.
— Sua perna ficou ferida? — perguntou, trémula.
— Está tudo bem, exceto meu carro e meu humor. Por que não ficou no
acostamento e simplesmente acenou para que eu parasse? Quando os faróis
iluminassem seu vestido branco eu a teria visto.
— Estava tão transtornada que não pensei em nada. Sinto muito pelo
carro... o motor ficou muito danificado?
Ele tentou novamente dar a partida no motor, mas este simplesmente fez
um ruído seco e o silêncio voltou a envolvê-los.
— Parece que o motor está avariado — disse ele, seco. Olhou para ela
longamente, depois entrou no carro, estendeu a mão e puxou-a para dentro
também. — Feche a porta, senão a neblina vai tomar conta do carro.
Ela obedeceu, enquanto ele retirava do porta-luvas uma garrafa com um
líquido dourado.
— Tome um pouco deste conhaque. — Tirou a tampa do frasco e esten -
deu-o para ela. — Está tremendo, Yvain.
Ela agarrou a garrafa e tomou pequenos goles da bebida reconfortante.
Os olhos dele brilhavam à luz fraca do interior, meio preocupados, meio
irritados.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Vocês, mulheres... Só porque o dia é de sol, saem sem um agasalho,


esquecendo-se de que o tempo é imprevisível. O conhaque que tomou foi
suficiente?
— Sim... — Devolveu-lhe a garrafa. —Já não estou tremendo tanto.
— Há um casaco no assento traseiro, se conseguir alcançá-lo.
Ela ajoelhou no banco para poder alcançar o agasalho e deu uma excla -
mação de prazer quando seus dedos tocaram o tecido: o mais macio dos
arminhos.
— Vista-o — ordenou don Juan. — Seu vestido não tem mangas e a saia é
muito curta.
Yvain sentiu uma onda de sangue subir a seu rosto por causa da maneira
como ele a olhava quando se inclinou para a frente e a envolveu no casaco. Os
dedos quentes do marquês lhe tocavam o pescoço.
— Vi Cortez no Clube Hidalgo, esta manhã. Perguntei onde você estava e
ele me disse que havia voltado ao castelo. O que aconteceu, Yvain? Teve uma
discussão com ele?
— Tivemos uma divergência de opinião — admitiu, presa pelas mãos e
pelo olhar dele.
— Sobre o que divergiram?
— Nada de importante. As discussões às vezes nascem de bobagens.
— O rapaz me pareceu um pouco mal-humorado. Ele tentou... fazer amor
com você?
— Não...
— A verdade, Yvain, por favor.
— Ele quis me beijar... eu não estava com vontade. — Tentou rir, para
demonstrar que não estava dando importância ao problema. — Não antes
do almoço...
— Quer dizer que esteve andando por aí durante todo o dia? Sem
almoçar?
— Almocei maravilhosamente — protestou. — Fiz amizade com Fer nando.
Ele estava pescando e me convidou para almoçar. Ele mesmo assou o peixe
numa fogueira e serviu-o com pão e tomates.
— Fernando? Espero que tenha sido menos ardente que seu outro cava -
lheiro.
— Era muito mais galante e encantador. — Riu, divertida. — Beijou
minha mão, quando nos despedimos.
— Os dois teriam sido muito mais galantes se tivessem ido acompanhá-la
até o castelo.
Don Juan parecia tão zangado que Yvain não conseguiu conter outra
gargalhada. Ele a segurou pelos ombros e sacudiu-a.
— Por que está rindo? O que aconteceu de tão divertido?
— Só que meu amiguinho da praia tinha onze anos, señor.
— Diabinha! — Apertou os ombros dela com mais força. — Então esta va
brincando comigo...
Olhou para ele e parou imediatamente de rir, perturbada pela proximida de
dele. Estava fechada dentro de um carro, perdida na neblina, com um homem
que lá em Lima tinha sido um conquistador tão ardente quanto o outro don Juan.
A consciência disso assustou-a. Desviou o olhar e olhou
pela janela.
— Será que a névoa vai desaparecer, señor?

Livros Florzinha - 50 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Não até a madrugada.


A voz dele a atraía como um imã.
— Quer dizer que teremos que... passar a noite aqui?
— A perspectiva a assusta? — Seus olhos brilharam, maliciosos. —
Vamos esperar mais um pouco e talvez passe outro carro. Caso contrário,
teremos que encontrar um abrigo apropriado para passar a noite. O vidro
quebrado não consegue conter a neblina, está vendo?
Sentindo as pequenas rajadas que entravam pelas rachaduras do vidro,
Yvain fechou o casaco e aconchegou-se dentro dele. Don Juan abriu a cigarreira
de ouro e estendeu-a a ela.
— Fume um. Vai ajudá-la a aceitar o tormento de passar a noite comigo.
— Agora é o señor quem está brincando comigo, don Juan, —Aceitou um
cigarro; não apreciava o hábito de fumar, mas infelizmente tinha adqui rido o vício
durante os anos em que trabalhara para Ida Sandell.
Inclinou-se sobre o isqueiro do marquês e sentiu com toda a intensidade
como aquelas últimas semanas tinham sido estranhas. Tudo que havia
acontecido antes do acidente tomava agora a forma de um sonho distante.
Naquele momento, estava mais viva que nunca. A fumaça dos cigarros, que se
misturava, o vidro estilhaçado, os olhos profundos do homem... tudo era
dolorosamente real.
— Gosta de crianças? — perguntou ele, inesperadamente.
— Sim. — Sorriu. — Fernando é divertido e foi por isso que acabei me
esquecendo da hora de voltar para casa.
— Vê o castelo como sua casa?
— De certa forma. — Seus olhos encontraram os dele. — Isso o abor rece?
— De maneira nenhuma. O castelo esperou durante longos anos por uma
pessoa jovem que afastasse as sombras que o cercam. Quando chegar o
momento...
— De eu partir? — interrompeu-o, ansiosa.
Ele demorou para responder, os olhos impenetráveis,
— É... no princípio vou achar estranho. Mas agora precisamos pensar no
que vamos fazer esta noite. Aqui dentro vamos sentir muito frio, pois a batida
avariou o aquecedor do automóvel. Podíamos fechar as rachaduras do vidro com
alguma coisa, mas acho que nenhum dos dois vai se sentir muito confortável
aqui dentro.
— Sua perna esta doendo, señor?
— Um pouco. Algumas vezes me arrependo de não ter permitido que me
amputassem a perna, mas sou obstinado e detesto tudo que é artificial.
— O señor Fonseca me falou do seu acidente — disse ela, um pouco
temerosa de demonstrar simpatia. — Deve ter sido terrível.
— Tanto quanto para um soldado em combate, mas eu me recusei a
perder minha perna, por isso devo suportar a dor e considera-la resultado da
minha própria escolha. — Sorriu, triste. — Os espanhóis não são com placentes;
nem com os outros, nem consigo mesmos, nina. Veja nossas pinturas, leia
nossos livros, lembre-se de nossos conquistadores.
— Eles são feitos de aço e fogo — murmurou Yvain. — Sente-se isso
aqui na ilha, está estampado na face das pessoas. São rostos como os
pintados por Diaz, olhos como os de El Greco.
— El Greco compreendia a Espanha, embora fosse grego. Talvez um
estrangeiro seja capaz de nos conhecer melhor do que nós mesmos.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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Nos olhos de don Juan, naquele instante, Yvain viu todo os elementos que,
combinados, fizeram da Espanha um país tão cruel e fascinante. Seu povo tinha
sido moldado a partir das rochas, do sol inclemente, de sombras profundas.
— O señor Fonseca está me ensinando tudo a respeito da Espanha. —
Sorriu.
— Você gosta do que está aprendendo?
— Estou fascinada, señor.
— Pelo povo, pela história ou pela geografia?
— Por tudo. O que é o povo, senão sua história e sua terra?
— Que mistura de sabedoria e ingenuidade vejo em minha protegida!
— Isso é ser jovem, señor.
— Claro. — Ele se inclinou e estudou os olhos grandes e ardentes de
Yvain, seu corpinho delgado, quase perdido dentro do imenso casaco de
arminho. — Você é tão jovem, mas agora compreendo por que Cortez estava tão
abalado quando falei com ele. O que foi que você fez? Esbofe-teou-o?
— Não. — Sorriu, nervosa. — Desci do carro e fugi dele.
— Ele a perseguiu?
— Até que cheguei ao cais. Lá eu estava segura, pois havia muita gente.
— Segura contra as atenções índesejadas de Cortez?
— E. — Seus dedos se contraíram sobre o arminho macio. — Os homens
parecem pensar que o fato de estarem sozinhos com uma mulher lhes dá o
direito de serem... ousados.
— Estamos sozinhos, nina. — Don Juan sorriu, malicioso. — Não tem
medo dos meus instintos amorosos?
— O senhor é meu protetor.
— Não sente o impulso de fugir de mim?
Ela olhou para ele, sem palavras, mas consciente da força e da beleza
morena daquele homem com cada fibra do seu ser. A obscuridade suaviza va as
linhas da boca do marquês, e seus cabelos estavam em desalinho. Por um
instante perturbador, foi como se ela estivesse em companhia do jovem e ousado
don Juan, que amava os cavalos velozes, que descobrira minas de prata em
regiões selvagens, que apreciava mulheres exóticas.
Jamais o ser jovem e inexperiente de Yvain sentira por um homem aque la
emoção que don Juan lhe provocava.
Aliviada, Yvain viu que ele voltava a atenção para o porta-luvas, de onde
retirou um farolete de mão.
— Sugiro que procuremos refúgio em um dos chalés da região. Proteja-se
bem com o casaco.
Saíram do carro e penetraram na névoa densa. Yvain olhou em torno.
apreensiva: o silêncio era absoluto; as árvores agitavam-se como fantasmas na
escuridão.
— Não seria melhor ficarmos no carro, señor?
— Não. — A voz dele era firme. — Você estaria se arriscando a pegar
uma gripe, e, além disso, há essa minha perna. Venha, fique junto de mim e
prometo que logo estaremos ao lado de uma lareira, tomando um café bem
quente.
O facho de luz cortava a escuridão e em pouco tempo achavam-se numa
trilha de terra batida, que com certeza devia levar até alguma habitação. Yvain
manteve-se bem próxima de seu guardião, que mancava mais que de costume.
Certamente era a umidade que penetrava nos ossos reconstruídos com tanto

Livros Florzinha - 52 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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sofrimento e lentidão... Sentiu vontade de tomar o braço do marquês, como


Raquel costumava fazer, para transmitir-lhe um pouco de conforto. A dor parece
ser maior quando é suportada sozinha.
Ele parou de repente, com uma exclamação de alívio, e a ansiedade de
Yvain acalmou-se um pouco quando o farolete iluminou as paredes rudes e
brancas de uma casinha.
O foco de luz voltou-se para Yvain, coberta até o nariz pelo arminho.
— Pois bem, Maria, encontramos um chalé. Acha que João deve bater?
Ela deu uma risada, pois gostava de ver don Juan bem-humorado.
— Os pés de Maria estão gelados!
— Notei que você estava mancando um pouco,
— Perdi o salto de um dos sapatos.
— Então vamos lá.
Ele levantou a aldrava e bateu uma, duas, três vezes, o ruído ecoando na
noite. Depois de alguns minutos de expectativa, ouviram o ruído de uma janela
que se abria. Uma voz fantasmagórica desceu até eles:
— Quem é? — Parecia a voz de uma velha.
— Señora, viemos pedir abrigo por uma noite. Nosso carro quebrou na
estrada e estamos perdidos na neblina.
— Desculpe, señor, mas não tenho um quarto...
— Pagaremos bem, señora.
A mulher hesitou: depois de um momento de silêncio ouviram o ruído da
janela que se fechava.
— As pessoas do campo ficam temerosas em noites como esta — don
Juan falou. — A velha señora vai nos receber, se pagarmos bem.
— Diga-lhe quem o senhor é — sugeriu Yvain.
— Prefiro que ela não saiba quem somos. — Sorriu.
Enquanto Yvain pensava na resposta do marquês, a porta se abriu e surgiu
no batente uma mulher muito velha, com uma lâmpada na mão. O
lampião foi erguido a uma altura suficiente para que a mulher visse o rosto
dos recém-chegados. Olhou primeiro para don Juan, de ar distinto apesar das
roupas encharcadas, e depois para a figurinha pequena de Yvain, es condida sob
o grosso casaco. Aparentemente ela não reconheceu o mar quês, pois falou em
tom pouco amigável:
— Não sei se devo deixar que estranhos entrem em minha casa. Como
posso ter certeza de que são pessoas honestas?
Don Juan retirou a carteira do bolso e estendeu várias notas para a
mulher.
— Isto é suficiente para pagar o abrigo que nos dará por esta noite? A
señorita está tremendo de frio.
A mulher guardou o dinheiro no decote do vestido e abriu a porta apenas o
suficiente para que don Juan e Yvain se esgueirassem pela fresta. A porta foi
fechada, os trincos ajustados e os visitantes conduzidos até a cozinha. onde um
fogo baixo lançava sombras avermelhadas nas paredes e no teto.
A dona da casa colocou o lampião sobre uma mesa e alimentou o fogo com
mais alguns pedaços de madeira. Assim que as chamas cresceram um pouco,
ela se virou para os hóspedes, os olhos escuros e penetrantes como os de uma
bruxa, impressão acentuada ainda mais pela roupa negra. Ela olhou para Yvain e
disse alguma coisa em castelhano. Yvain olhou para don Juan à procura de
auxilio, pois não compreendia o díaleto da mulher.

Livros Florzinha - 53 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— A señora pergunta se você gostaria de tomar um prato de sopa.


— Sim... por favor.
Ele traduziu as palavras para a mulher, que pegou uma panela negra e
colocou-a no fogo. Enquanto preparava a sopa, a velha fazia observações.
Depois de algum tempo deixou o fogão e foi até a mesa, onde arrumou dois
pratos de barro, colheres e pão.
— O que ela está dizendo? — O cabelo deYvain, muito úmido, colava-se
ao pescoço, iluminado pela luz do lampião, que retirava dele reflexos dourados.
A velha cozinha tinha como mobiliário uma mesa de madeira, banquetas rústicas
e um armário repleto de objetos pobres e vasos de flores
artificiais.
A sombra de don Juan projetava-se no teto... uma figura elegante, deslo -
cada naquele ambiente rústico. Para Yvain, era uma novidade, pois estava
acostumada a vê-lo em ambientes luxuosos, entre tapetes dourados, mobília de
estilo, perfume de rosas e de charutos finos.
Ele hesitou, como se receasse ferir os sentimentos de Yvain, o que não
deixava de ser uma novidade.
— Ela diz que só há um quarto... ela vai dormir aqui, ao pé do fogo. Yvain
olhou para ele, desconcertada. Percebia que a perna doía muito...
e não havia outro lugar onde pudesse repousar, a não ser naquele único
quarto!
Quando a sopa fumegante foi despejada nos pratos, um cheiro de lenti-
lhas e ervas se espalhou pela cozinha. Yvain recebeu seu prato e comeu
em silêncio, sem ousar olhar para don Juan. Sentia os joelhos estranhamente
trémulos. O instinto lhe dizia que uma velha espanhola jamais permitiria que um
casal ocupasse o mesmo quarto, a menos que acreditasse que fos sem casados.
Subiram até o quarto por uma escada estreita de pedra, a chama da vela
que Yvain levava nas mãos iluminando as paredes cobertas de limo.
No quarto de teto baixo havia apenas uma cama, uma cómoda e uma
cadeira. O dormitório assemelhava-se muito ao seu frio quartinho da man são
Sandell... só que lá jamais tinha dormido em companhia de um homem alto.
moreno, de brilho diabólico no olhar.
Encontrou os olhos dele e temeu que o ruído das batidas do seu coração
ultrapassasse os limites do seu corpo.
— Você parece agitada — murmurou ele.
Encarou-o e descobriu nos olhos dele a razão para sua inquietação: tinham
aquele brilho satânico que a deixava tão insegura diante dele.
— Sempre tremo assim quando estou cansada. Não estou preocupada
porque vamos dormir no mesmo quarto.
— Temos que dividir a cama também. — Olhou-a, curioso. — Eu poderia
ser cavalheiro e passar a noite naquela cadeira desconfortável, mas acho que
seu coração é terno demais para permitir que sofra tal martírio.
— Claro que não. — Sentiu as pernas bambas outra vez e desejou poder
estender-se na cama rustica. Examinou cada detalhe do cómodo, apenas para
não olhar para don Juan, que. à luz da vela. tinha um fascínio que ela não
ousava notar. Precisava manter o autocontrole para não agir como uma tola, só
porque iriam dormir no mesmo quarto... na mesma cama!
— Eu podia dormir na cadeira! — sugeriu Yvain, esperançosa.
— Nina. — A voz dele era perigosamente suave. — Pensei que se sen -
tisse segura ao meu lado, criança.

Livros Florzinha - 54 -
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— Eu me sinto... só que...
— O quê?
— Só que não sou uma criança.
— Então é isso! Acha que não é uma criança e tem medo que eu perca o
autocontrole e invista apaixonadamente sobre você.
Insegura como estava, demorou alguns segundos até perceber que ele
estava sendo sarcástico.
— Não... não estou acostumada a situações como essa. Talvez o senhor
esteja...
— Como você não é mais criança, não posso lhe dar uma surra por isso —
disse, tranquilo, — Mas existem outros meios para lidar com uma moci nha tola...
sabia?
Yvain afastou-se dele o mais possível, a chama da vela refletindo nos seus
olhos dourados e cheios de terror. Só o pensamento de ser beijada por don Juan
era suficiente para fazé-la perder o controle; lágrimas de emoção
e cansaço brilharam nos seus olhos.
— Não quero brigar com o senhor — respondeu, tremula. Ele percebeu as
lágrimas e a tensão do corpinho jovem.
— Acho que você não se conhece. Não vou atormentá-la ainda mais esta
noite. Durma sob as cobertas, e eu dormirei sobre elas. Acredite, ne nhuma
barreira é tão poderosa quanto a inocência e o medo, e você é a imagem de
ambos.
O sorriso do marquês foi breve, mas enquanto durou revelava bondade. E
outra vez ela se sentiu invadida por sentimentos que não entendia e não
conseguia controlar. Ora queria fugir dele, para bem longe; ora sentia um desejo
bem diferente. Se ele tivesse aberto os braços para ela enquanto sorria, Yvain
teria corrido para ele.
Ela tremeu... talvez seus pensamentos o tivessem atraído, talvez fosse o
frio do quarto, mas ele percebeu e veio andando na direção dela. Segurou a mão
de Yvain e sentiu-a gelada.
— Seus pés estão frios como suas mãos?
— Sempre tive muito frio nos pés... a mansão Sandell era um lugar muito
grande e gelado.
— E não havia lareira no seu quarto, não é? — Ele a levou com delica -
deza até a cama e obrigou-a a deitar-se. — Tire os sapatos e eu esquentarei
seus pés.
Não adiantaria protestar. Mas sem os sapatos ela se sentia infantil, inde -
fesa, e quando ele tomou seus pés entre as mãos e os esfregou até esquentá-
los, sentiu-se ao mesmo tempo envergonhada e agradecida. Aquilo era o que um
pai faria pela filha, só que aquele homem alto, de olhos enigmáti cos, não tinha
nada de paternal. À medida que o calor das mãos dele passa va para os pés de
Yvain. o sono foi descendo sobre ela. Quando ele puxou as cobertas e ajeitou-as
sobre ela, Yvain o via como num sonho.
— Assim está melhor? — perguntou, suave, inclinando-se e afastando
com delicadeza os cabelos que caíam sobre o rosto de Yvain.
— Muito melhor... e quentinho — respondeu, sentindo a respiração pre sa
na garganta quando ele lhe acariciou o rosto. Sentiu vontade de virar o rosto e
beijar as mãos dele, mas sabia que se o fizesse acabariam um nos braços do
outro... ela à mercê dos lábios, da solidão e da paixão controlada do marquês.
Afastou o rosto e ele imediatamente levantou-se. Com o cora ção descontrolado,

Livros Florzinha - 55 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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observava a sombra projetada contra a parede: ele tirou os sapatos, depois o


casaco, a gravata e a camisa e colocou-os sobre o encosto da cadeira. Em
seguida apagou a vela. Yvain cravou as unhas nas palmas das mãos quando
sentiu que ele se deitava ao lado dela, cobrindo-se com o casaco de arminho.
A princípio ele respirou com dificuldade, depois deu um pequeno suspi ro,
como quem se sente bem onde está. Seus corpos estavam separados apenas
pelas cobertas da cama, e, sentindo essa proximidade, Yvain tremeu
interiormente.
Ninguém poderia saber sobre aquela noite, muito menos Raquel, com
quem ele havia passado o dia. Ela jamais acreditaria que uma moça pudes se
passar a noite com don Juan sem se atirar nos braços dele.
Yvain pensava nos braços fortes estendidos ao lado dela quando ele mur -
murou:
— Feche esses olhos enormes, nina, e durma. Esta noite é um segredo
nosso. Amanhã vamos rir de tudo que aconteceu hoje.
— O que disse à señora, señor? — perguntou Yvain depois de muita
hesitação.
— Não disse nada... sobre nós.
— Quer dizer que deixou-a pensar que nós tínhamos o direito de... dor mir
juntos?
— Ela tirou as conclusões que quis.
— O señor é mesmo terrível, don Juan!
— Se quer pensar assim... — falou com tranquilidade. — Mas tem que
admitir que a cama é mais confortável que aquela cadeira dura.
— E... acho que sim.
— Então não se atormente, senõrita Pilgrim. Faça de conta que sou um
fantasma e durma.
Ela teve vontade de rir... amava-o quando ele dava vazão ao seu lado
bem-humorado...
Amava-o?
Continuou deitada, imóvel, e ouviu-o respirar e mover a perna para uma
posição mais confortável. "Como eu o amo?" As palavras da canção lhe vieram à
mente. '"Eu o amo com a paixão das antigas tristezas e com minha fé infantil. Eu
o amo com os suspiros, os sorrisos e as lágrimas de toda minha vida."
Yvain finalmente fechou os olhos e adormeceu ao lado de don Juan de
Leon.

Ela acordou antes dele, quando o sol já brilhava e os pássaros cantavam


no telhado. Recordou os acontecimentos da noite anterior, analisou o ho mem
adormecido ao seu lado, de cabelos tão escuros, nariz bem-feito, e pensou que
ao lado dele estaria segura.
Levantou e foi até a janela, abrindo-a de par em par e respirando o ar puro
da manhã ensolarada e quente. Os últimos vestígios da névoa da vés pera ainda
podiam ser vistos ao longe, entre os pinheirais, e o perfume de grama molhada
subia até o quarto.
Se pudesse fazer com que aquele momento durasse para sempre! A ma -
nhã era linda e ela era a única mulher da vida de don Juan. Nenhuma palavra,
nenhuma promessa já feita a outras poderia quebrar a magia daquele instante.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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CAPÍTULO VII

Nos dias seguintes. Yvain agiu com cautela, como se não tivesse nada
mais importante em que pensar do que as lições do señor Fonseca. Todas as
manhãs o motorista a levava até a vila dos Fonseca, onde às vezes via Raquel
no jardim, ou saindo para o clube.
A elegante Raquel mantinha sempre um ar divertido ao dirigir-se à aluna
do pai.
— Você é muito dedicada —comentou certa manhã, quando encon trou
Yvain estudando no pátio. — Manrique Cortez perguntou por você ontem, e eu
lhe disse que seria bem-vindo se quisesse visitá-la aqui.
— Espero que não aceite o convite — respondeu Yvaín. — Ele iria me
distrair e levo a sério minhas lições.
— Estou vendo. — Raquel apanhou uma rosa e prendeu-a à gola do
vestido. — Não acharia mais divertido casar-se com um jovem simpático, em vez
de passar os dias estudando bobagens?
— Gosto de estudar, e seu pai é um professor maravilhoso.
— Ele é um amor — concordou Raquel, com um sorriso possessivo. — Só
existe um outro homem capaz de igualar-se a ele em sabedoria e encan to. Acha
nossos homens encantadores, señorita Pilgrim?
Yvain ergueu os olhos e percebeu que Raquel observava seu vestido
simples e seus cabelos dourados, presos num rabo-de-cavalo.
— Os latinos são muito bonitos e cavalheirescos.
— Fico admirada que não tenha ainda se apaixonado por um deles,
señorita Pilgrim. E verdade que os ingleses são frios e não revelam seus
sentimentos?
— O que está querendo me dizer, señoriia Fonseca? — Yvain procurou
sorrir com naturalidade. — Seja franca comigo.
— Don Juan não pode ser eternamente responsável por você... fui bas -
tante franca? Você não é mais uma criança, embora Juan pense que sim.
— Não, señorita. — Yvain sustentou o olhar da outra. — Não tenho a
menor intenção de impor minha presença a don Juan por mais tempo que o
necessário. Seu pai conhece o diretor de uma galeria de arte em Madri. e espero
que breve consiga um emprego para mim lá,
— Madrí? Seria bom para você, assim poderia ver Manrique Cortez com
frequência. Ele sente uma grande curiosidade em relação a você, mas siga meu
conselho e não leve o jogo muito longe. Os homens gostam da emoção da
conquista, mas desistem quando a espera é longa demais. — Raquel acariciou
as luvas que trazia nas mãos. — Tem medo dos homens?
— Não sou uma frágil violeta — protestou Yvain.
— Manrique acha você muito tímida e pensa que a assustou na ultima vez
que saíram juntos.
— Ele me aborreceu.
— Minha querida — Raquel a olhava com curiosidade — o que foi que
ele fez?
Yvain tentou relembrar os detalhes daquele passeio, mas tudo que conse -
guiu foi recordar a noite passada no chalé com don Juan. Se Raquel sou besse
daquela noite! Certamente pensaria o pior, pois não era do tipo capaz de
acreditar que uma moça continuasse inocente depois de passar a noite com um

Livros Florzinha - 57 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

homem. E como sentiria seu orgulho ferido ao saber que don Juan se interessava
por outra mulher além dela.
Yvain tremeu ao recordar a noite passada ao lado de don Juan, ao mes mo
tempo que se apossava dela uma pontinha de rebelião. Raquel era tão
superficial, se comparada a don Juan! Passava os dias entretida em diverti -
mentos vazios e não estava realmente apaixonada por ele.
Foi um alívio avistar o señor Fonseca, que se aproximava trazendo um
livro de gravuras.
— Vai ficar e assistir à nossa aula? — perguntou à filha, malicioso. —
Pensei que fosse almoçar no Clube Hidalgo com um dos seus inúmeros
admiradores.
— Ele não se importa de esperar por mim, papai. — Raquel sorriu para
Yvain. — É uma pena que tenha que trabalhar, minha querida. Devia seguir meu
conselho e procurar um marido.
— Já encontrou um para você? — perguntou o pai, seco.
— Já, papai. Existe alguém especial. — Sorriu, misteriosa, enquanto
beijava o pai, e continuou sorrindo ao acenar para Yvain, caminhando gra -
ciosamente para fora do pátio. O perfume da outra permaneceu no ar por muito
tempo, e suas palavras perseguiram Yvain durante a resto do dia.
Esse alguém especial devia ser don Juan, que precisava se casar para ter
um filho que levasse avante o domínio da ilha de Leon.
Yvain e o tutor almoçaram à sombra de uma árvore, ouvindo o chilrear dos
pássaros e vendo o reflexo do sol nas flores.
— Parece um pouco triste, Yvain. Preocupada.
Ela levou um pequeno susto e esqueceu os próprios pensamentos.
— Estava pensando, señor, que não posso permanecer indefinidamente
no castelo. Quando acha que estarei pronta para trabalhar na galeria de arte, em
Madri?
Ele se levantou e cortou um pêssego da árvore, com um canivete de cabo
de marfim.
— Por que será que os jovens são tão impacientes por novas aventuras?
Já está cansada do seu tutor barbudo e dos livros que a faço ler?
— Não, não é isso — apressou-se em explicar. — Adoro todos os
momentos que passo aqui. Seus ensinamentos me fascinam, mas quero ser
independente... não posso continuar me alimentando e morando às custas de
don Juan.
— Tenho certeza de que para ele é um prazer. — Partiu o pêssego ao
meio e colocou metade diante de Yvain. — Juan é um verdadeiro espanhol e
muito generoso. Sente-se muito só no castelo e sua presença o ajuda a esquecer
a solidão. Vamos, coma seu pêssego e não pense que representa um peso para
ninguém.
— Quando ele se casar, señor,..
— Não acho que o grande dia esteja muito próximo, minha querida. .
— Mas quero ir embora, quando chegar esse dia.
— E compreensível. — Olhava-a fixamente. — Quando Juan se casar, a
vida vai mudar para você. Mas, enquanto isso, aproveite ao máximo o tempo em
que é sua protegida.
— Cest Ia vie — murmurou Yvain, sorrindo e dando uma mordida no
pêssego.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Sim, minha menina, o que será, será. Precisamos aceitar nosso desti -
no, seja ele qual for.
— Isso me faz sentir insegura como uma folha de outono.
— Sente-se assim, nina, porque é joven. Os jovens precisam sonhar, ter
esperança e sentir às vezes um pouco de melancolia. Os melhores poe tas e
pintores eram jovens para quem o amor representava mais sofrimento que
felicidade. O amor é a base de tudo... não se pode escapar dele.
— Nunca estive apaixonada. Como é que alguém pode saber...
— Morremos um pouco cada vez que dizemos adeus à pessoa amada...
partindo quando tudo que desejamos é ficar. O amor é uma coisa básica, nina. É
o desejo de ser parte da outra pessoa, não por uma hora, mas por todas as
noites e todos os dias. Quando se apaixonar, saberá, acredite.
Você é sensível, e por isso pertence à classe das pessoas que se
apaixonam verdadeiramente.
Ele riu da maneira como Yvain o olhava, os olhos dourados muito aten tos e
brilhantes.
— Vai encontrar ou uma grande alegria ou um pouco de tristeza —
predisse. — Não há meio termo para a mulher que se entrega totalmente a um
homem.
— O señor fala como se eu fosse a própria dedicação — disse ela, rindo
um pouco.
— Sem essa dedicação — tomou-lhe a mão e beijou-a de leve —, não
seria a aluna perfeita que é.
— Obrigada pelo elogio, señor. Quando vai me dar o diploma?
— Na hora apropriada, nina. — Apertou a mão dela com mais força. — Se
o casamento de don Juan for iminente, serei dos primeiros a saber.
Yvain procurou manter o sorriso. Claro, o pai de Raquel seria o primeiro a
saber que sua filha ia se tomar a senhora de Leon, numa cerimónia reali zada na
catedral barroca da ilha, com suas torres imponentes e suas paredes
ensolaradas. A noiva entraria vestida de branco da cabeça aos pés, carre gando
um buque imaculado. As pérolas da família Leon lhe enfeitariam o colo e um
sorriso lhe iluminaria os lábios suaves. Os sinos soariam e have ria celebrações
em toda a ilha. Todos se alegrariam pelo marquês, todos concordariam em que a
escolha não podia ter sido melhor.
Só alguns minutos mais tarde Yvain percebeu que o señor Fonseca já
havia ido fazer a sesta. A conversa a deixara inquieta, e ela começou a desenhar
perfis no caderno... Depois de alguns minutos, deixou de lado o lápis e, num
impulso repentino, decidiu que não ia mais estudar naquele dia.
Desceu pelas ruas íngremes até a praia, onde barcos pesqueiros flutua -
vam, suaves, ao sol da tarde. Havia poucas pessoas no cais, e as janelas
fechadas protegiam os moradores contra o calor; apenas alguns gatos passe -
avam, preguiçosos, por ali. O ar marinho cheirava a peixes e rosas. Uma
palmeira projetava sua imagem contra uma parede branca, e Yvain a obser vava,
solitária e pensativa-
Alguns degraus conduziam à areia branca, onde um barco descansava ao
sol. Yvain sentou-se. Tudo estava imóvel: o mar murmurava, suave, e as
montanhas da Espanha brilhavam ao longe, como uma corrente azulada.
Dentro de pouco tempo estaria penetrando nas sombras daquelas monta -
nhas, cruzando estradas de areia branca até chegar a Madri, onde iria traba lhar.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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Tentou se alegrar com a perspectiva, mas quando pensou na solidão das


grandes cidades tremeu como se sentisse frio.
Era triste ser sozinha. mas esse parecia ser o destino dela: deixar tudo que
amava e partir para outros lugares. Amava o chalé de Combe St. Blaize, mas não
pôde permanecer lá depois da morte do pai. Amava aquela ilha
e o castelo, mas quando seu guardião se casasse teria que partir
novamente para o meio de estranhos.
Piscou e sentiu que lágrimas lhe corriam pelo rosto. Sentia-se solitária e
qualquer voz amiga seria bem-vinda.
Sem precisar se virar, reconheceu a voz e a guitarra.
— Estava pensando em você, Yvain. Meus pensamentos devem ter me
trazido até você.
Estendeu a mão para ele, esperando que o aperto caloroso a libertasse
das ideias tristes.
— Alô, Rique. Nós e os gatos somos os únicos por aqui.
Ele segurou a mão dela com carinho. O cabelo de Rique era negro como
as sombras; seu sorriso, branco como o reflexo do sol nas paredes caiadas: seu
contato, suave e reconfortante. Dessa vez ela não tremeu ante a ousada
franqueza do olhar dele.
— O que trouxe lágrimas aos seus olhos? — perguntou. — O reflexo do
sol sobre a água ou a maneira como fugiu de mim sem razão.
— Como se eu chorasse por você! — protestou, a voz áspera, mas no
fundo sentindo-se feliz por vê-lo. — Sente-se e converse comigo. Rique.
— E o que pretendo fazer. — Sentou-se ao lado dela no barco. Vestia uma
camisa azul, aberta no peito, onde brilhava um medalhão. Tão colori do e tão
latino! Animou um pouco o coração de Yvain.
— O que fez depois que fugiu de mim no domingo? Espero que não tenha
ficado na praia por muito tempo, por causa da neblina.
Como podia esquecer a neblina?
— Não vamos falar sobre aquela discussão tola — pediu Yvain, o cora ção
batendo forte.
— Foi tola mesmo, Yvain. O que foi que eu fiz de tão terrível?
— Por favor, vamos fazer de conta que este é o nosso primeiro encon tro.
Você foi tão romântico... como um trovador de antigamente!
— Prefiro que sejamos simplesmente jovens, pequena. — Deu um sorri so
brincalhão, — O que foi que o marquês lhe disse? Que devia estudar suas lições
e desencorajar as atenções dos rapazes?
— Meu maior sonho é estudar.
— E o que está estudando neste momento? Pretende escrever um ensaio
sobre barcos de pesca?
— Estou enforcando a aula — confessou. — Como não conseguia me
concentrar, resolvi fugir dos livros por uma hora.
— Lições, livros! — Rique apertou sua mão com força. — Você devia estar
se divertindo, e se eu fosse o marquês ia lhe dar lições bem dife rentes.
— Rique! Ele riu muito.
— Nunca viu um casamento espanhol, pequena? Então vou levá-la a
um. Às seis horas o casal e os parentes vão para a igreja, e depois da
cerimónia vai haver uma festa. Prometi tocar para eles e me disseram que podia
levar uma moça. — Fez uma pausa. — Terei grande prazer se você for comigo
ao casamento.

Livros Florzinha - 60 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Gostaria muito, Rique, mas o carro vem me buscar às quatro horas,


para me levar de volta ao castelo.
— Pode dizer ao motorista que vai para casa mais tarde.
— Posso — concordou —, mas don Juan...
— Ele tranca você na torre depois das quatro da tarde? — Acrescentou,
zombeteiro: — Está tão fascinada que não ousa agradar a ninguém mais a não
ser a ele? Quero tratá-la como uma mulher, Yvain, não como uma criança. Quero
lhe oferecer música e alegria, não as paredes sombrias de um castelo e jantares
assombrados pelas recordações do passado. Por que ele não pode dançar, vai
impedi-la de dançar também? Quer fazer de você uma criança durante todo o dia
e uma solteirona durante a noite!
— Rique, que absurdo! Don Juan não é assim. Ele não me impediria de ir
ao casamento, se eu quisesse.
— Então não há problema. — Rique sorriu. — Voltaremos à vila às quatro,
para que você possa mandar a mensagem pelo motorista. Depois iremos até o
Clube Hidalgo apanhar minha guitarra. Não trabalho no clube esta noite, assim
estamos ambos livres para nos divertir. Não acha românti co comemorar um
casamento sob as estrelas?
— Vocês latinos têm o romance no sangue — concordou Yvain.
— A mulher espanhola vive para agradar o homem que ama.
— Duvido que eu me transforme numa espanhola.
— Está enganada. — Aproximou-se, o olhar brilhante. — Se se casar com
um espanhol, vai se transformar numa espanhola.
— Mas o coração será sempre inglês. Nunca serei uma verdadeira espa -
nhola.
— Você tem sua magia própria. — Acompanhou com os olhos os traços
suaves do rosto de Yvain e os cabelos dourados. Suavizando o olhar, pres sionou
a mão dela contra o rosto e murmurou: — Mão fria, coração quente. Na semana
passada, queria só flertar com você, mas agora vou tratá-la de forma diferente.
— Não, Rique... — Seu coração batia, forte. — Não vamos levar as coisas
muito a sério.
— Leves como sinos, música e luar,
— Rique — pediu, quase em pânico — não me tente. Talvez eu não seja
capaz de resistir e, nesse caso, sairemos ambos machucados.
— A vida é para isso mesmo, para nos machucarmos, para amarmos, para
sermos felizes. Yvain, não se feche!
Como tudo seria mais fácil se o destino tivesse feito com que ela se
apaixonasse pelo guitarrista de olhos negros! Ela sorriu, mas na verdade
desejava chorar.
— Os espanhóis são perigosos exatamente por causa da sua simpatia.
Vou ao casamento dos seus amigos. Será uma lembrança para quando eu for
embora da ilha.
— Não pretende ficar aqui?
— Desde o começo estava decidido que eu ficaria aqui temporariamen te.
Dentro de pouco tempo vou trabalhar em Madri.
— Madri? Há muitas coisas lá que quero lhe mostrar. O antigo e o
moderno, o estranho e o belo. Seremos felizes lá.
Ela desejou poder ser feliz longe da ilha de pinheiros aromáticos, de
oleandros, de sol e mar, de torres recortadas contra o azul do céu.
— A ideia de deixar a ilha parece entristecê-la, Yva.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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Ela olhou as redes e os mastros espalhados pela areia da praia, depois


virou-se para ele, espantada.
— Você me chamou de Yva.
— Não gosta?
— Gosto, é carinhoso.
— É mais do que isso, Yva. Quando um espanhol usa um diminutivo, é
porque a aceitou e gosta muito de você.
— Você me enganou! — Deu uma risada. — Desde o começo me levou
a chamá-lo de Rique!
Ele a olhou com ternura e Yvain quase lhe pediu que não fizesse aquilo.
Seu medo deve ter sido percebido por Rique, pois no mesmo instante ele
começou a falar sobre outros assuntos. De sua infância nas montanhas da
Espanha, de sua ânsia em ser mais que um lavrador de azeitonas. Tinha fugido
de casa aos quinze anos, indo para Barcelona, onde trabalhou como garçom, ao
mesmo tempo em que aprendia a tocar guitarra com um amigo.
— Não tenho nem a metade do talento daquele homem, mas aproveito ao
máximo o que tenho e sou ambicioso. Pretendo ganhar muito dinheiro para
comprar uma casa enorme, cheia de árvores, flores e fontes. Serei um homem
realizado, Yvain, terei uma esposa e filhos.
— Você me surpreende, Rique. — Yvain sorriu.
— Pensou que eu fosse um play-boy? Sou antes de tudo um espanhol, e
nós espanhóis levamos a vida a sério, mesmo quando cantamos e nos diver -
timos. Esta noite você vai ver nossa alegria e vai aprender a dançar como
uma espanhola.
— Vamos à igreja para a cerimónia? — perguntou, contagiada pelo
entusiasmo dele.
— Cara nina, claro que vamos.
As velas altas brilhavam sobre o altar, iluminando o casal que fazia seus
votos diante do padre. As tapeçarias coloridas davam à igreja um ar festi-
vo; e as imagens de Maria e José, curiosamente reais, pareciam abençoar
com doçura o jovem casal.
Yvain observava, num silêncio maravilhado, o ritual simbólico: o véu de
renda branca usado pela noiva foi colocado sobre os ombros do noivo, como uma
promessa de que ela se submeteria a ele com amor. Em seguida ele colocou a
aliança sobre a mão da moça, que com um olhar tímido repetiu o gesto,
provocando suspiros de satisfação entre os convidados que lotavam a igreja.
O cheiro das velas misturava-se ao perfume do incenso, e foi nesse clima
que o padre os declarou marido e mulher. O jovem moreno sorriu e apertou a
mão que segurava um buque de flores de laranjeira, um rosário e um missal de
madrepérola. Apaixonados, mas muito tímidos, não ousaram se beijar em
publico, e Yvain percebeu que a mãe da noiva levava o lenço aos olhos. Para a
jovem noiva, os votos seriam eternos. Os dois estavam uni dos para sempre e se
olhavam com alegria e esperança.
O sol poente lançava reflexos vermelhos e dourados sobre os convidados
que deixavam a igreja, alegres, e tomavam as carruagens brilhantes aluga das
pelo pai do noivo. Sininhos tilintavam, festivos, no espaço dos cavalos que
conduziam os carros até a casa da família, onde seria realizada a festa. Era uma
velha fazenda nas montanhas, de paredes cobertas de hera e um pátio imenso
iluminado por dezenas de lanterninhas coloridas, pendentes dos ciprestes e dos
oleandros.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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As saias rodadas das moças farfalhavam quando elas desciam das carrua -
gens, rindo muito, carregadas pelos acompanhantes de roupas negras e cha péus
de abas largas. Alguns dos convidados chegavam a cavalo, e Yvain sentiu-se
transportada a um outro século: a velha e romântica Espanha dos sombreros e
dos cabalteros ousados.
Rique, sorrindo feliz, envolveu a cintura de Yvain com o braço e condu ziu-a
até os pais do alegre casal. Com um lenço de seda sobre os cabelos — um lenço
perfumado e fino, que seu tutor havia pedido emprestado a Raquel — foi muito
admirada pelas duas senhoras vestidas com exóticas mantilhas e enormes
pentes no cabelo alto.
Em ocasião como aquela, as mulheres espanholas retiravam dos porta-
jóias os broches e colares guardados durante todo o ano e adornavam-se com
mais esplendor que as jovens noivas. Os leques agitavam-se por toda parte e os
olhos brilhavam. Os homens inclinaram-se sobre a mão de Yvain, respeitosos,
murmurando seu prazer em conhecer uma inglesa. Com o coração batendo em
feliz excitação, ela respondia num castelhano hesi tante, recebendo como
recompensa sorrisos deliciados.
— Sua língua, sua musica e seus casamentos são cheios de encanto —
dizia, sorrindo, pensando que ali entre aquela gente era como se estivesse outra
vez em Combe St. Blaize. O pai jamais a deixava sozinha no chalé; quando ia a
festas, carregava-a nos ombros para que pudesse se divertir com as outras
crianças.
Ali na festa de Doretta e Alvarez, as crianças corriam pelas árvores ilu -
minadas, chupando sorvetes e laranjas, vestidas com seus melhores vesti dos e
seus terninhos mais novos.
Vendo tanta alegria, Yvain pensou no seu guardião, que provavelmente
estava jantando sozinho. Estaria sozinho no castelo ou teria a companhia da bela
Raquel, que aos poucos tentava envolvê-lo com seu encanto? Quando seria a
vez dele receber os cumprimentos ao lado da noiva?
— Venha, vamos comer alguma coisa antes que me chamem para tocar e
cantar. — Rique segurou-a peto braço e arrancou-a dos seus pensa mentos.
Ela sorriu e acompanhou-o até a mesa longa, provida de dezenas de
pratos diferentes: pão, presunto, camarões gigantescos, molhos diversos, queijos
do campo, fatias recheadas de carne de porco, frango e lagostas,
Escolheram o que mais lhes agradava e serviram-se de vinho. Enquanto
isso, sob o céu enluarado, um casal dançava o fandango.
Yvain sentiu que seus pulsos se aceleravam. Sobre os ombros, a força
suave do braço de Rique; junto ao cabelo, a respiração quente do compa nheiro.
Ela não queria pensar em nada a não ser naquela noite; não queria enfrentar a
realidade do amanhã.
— Excitante? — murmurou Rique ao ouvido dela.
— Muito. — Tomou um gole rápido de vinho. — Obrigada por me trazer...
eu não gostaria de ter perdido isto por nada no mundo.
— Fala como se jamais fosse assistir a outro casamento espanhol.
— Pode ser que ainda veja outros, mas a primeira vez tem uma espécie
de magia diferente.
— Como quando a gente se apaixona pela primeira vez?
Sentiu os olhos dele pousados sobre ela, profundos e intensos à luz das
lanternas.
— Espero que a primeira vez seja emocionante, mas ainda não sei como

Livros Florzinha - 63 -
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é.
— Eu imagino. — Fez com que ela se virasse para ele e tentou ler o que se
passava naqueles olhos brilhantes como o luar. — Todas essas pessoas pensam
que estou cortejando você. Para eles não existe amizade entre um rapaz e uma
moça... só amor ou paixão.
— Mas nós somos amigos!
— Não seja ingénua, Yvain. Para o espanhol, amigo é aquela pessoa com
quem se discute política e touradas.
— Você me trouxe aqui de propósito, para que todos vissem que somos
mais que amigos?
— Acha que comprometi você? Riu e acariciou de leve o rosto dela.
— Seria preciso um pouco mais que isso, chica. Se eu passasse a noite
com você, por exemplo, e alguém soubesse, então, como espanhol, eu teria que
me casar com você, caso contrário seu nome estaria manchado para sempre e
nenhum outro homem a quereria para esposa.
— Quer dizer — seu coração batia furiosamente — que ninguém acredi -
taria na... nossa inocência?
— Acha possível que uma noite assim seja inocente?
— Sim, se o homem é uma pessoa honrada.
— Ele teria que ser um homem de ferro. — Riu. — De qualquer forma, não
faria a menor diferença se ele e a moça não tivessem feito amor. Ainda assim ele
seria obrigado a se casar com ela.
— Os latinos são realmente tão impiedosos com uma moça que, por forças
superiores à sua vontade, precisasse passar a noite na companhia de um
homem?
— Os latinos têm um rígido senso de honra, e não se esqueça de que foi
Eva quem primeiro tentou o homem. Os homens são livres e felizes até que uma
moça os enfeitice.
— Pobres homens! — Yvain levantou a cabeça, cheia de dignidade. —
Deve ser muito duro para vocês estarem constantemente sob esse risco. Talvez
fosse melhor se a operação na costela de Adão não tivesse dado resultado.
— Talvez. — Riu. divertido. — Mas pensa nas coisas boas que estaría mos
perdendo. Apesar do perigo, é agradável... não acha?
— Acho que Eva nos fez um grande mal tomando a iniciativa. Levou Adão
a pensar que era um prémio a ser conquistado pelas mulheres, e desde então os
homens agem como se representassem o prémio maior que uma mulher pode
tirar na loteria.
— Para a maioria das moças, eles são — concordou Rique, sem se
envergonhar. — Escute, quer passar toda sua vida sem um homem que a ame?
Yvain virou-se para olhar o jovem casal, rodeado pelos amigos risonhos e
tão índescritivelmente felizes naquela noite, fazendo um voto secreto de que as
realidades do casamento jamais apagassem as estrelas que brilhavam nos seus
olhos. Eles se amavam... a maioria das pessoas desejava ser ama da, pois sem
amor a vida era vazia e sem sentido.
Naquele momento começaram a chamar por Rique, para que ele cantasse
e tocasse. A magia da sua música era intensificada pelo perfume dos corpos que
dançavam e pelo brilho das lanternas coloridas espalhadas pelo pátio. Os dentes
muito brancos de um homem brilharam quando ele se inclinou para cumprimentar
uma moça com flores no cabelo negro.

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Yvain se sentia parte daquela gente, mas ao mesmo tempo uma estranha.
Eram como figuras de uma antiga tapecaria, sem a máscara de cinismo que
a vida moderna moldava nos rostos das pessoas. Tinham olhos alertas e
ardentes, e pareciam pôr todo seu entusiasmo e seus corações no simples
prazer da música. Bebiam aqueles acordes como se bebessem bom vinho,
davam-se as mãos e formavam um círculo e dançavam a sardana. Tudo era novo
para Yvain e ela amava cada instante. Todos, homens e mulheres, estavam
prontos a ensiná-la como dar passos pequenos e depois passos mais largos, até
que ela pegou o ritmo e sentiu-o correr como o vinho
dentro das veias.
Passaram-se quase duas horas antes que pudesse ficar um pouco a sós,
abanando-se com um lenço e ouvindo os acordes finais de delito Lindo, que se
filtravam entre as árvores. Naquela noite tinha conhecido um peda cinho do céu,
ao mesmo tempo que a invadia a certeza dolorosa de que breve estaria longe da
amada ilha de corações calorosos, dias ensolarados e
noite de magia.
Aspirou fundo o perfume do cipreste contra o qual se apoiava, deixando-se
possuir pelo encanto da lua e da música.
Logo a música cessaria e Rique viria à procura dela. Procurou não pen sar
nele, pois naquela noite a beleza da festa de casamento a tomara vulne rável, e
talvez não conseguisse resistir se ele a beijasse,
Ele chegou como uma sombra, como uma pantera leve e ágil que salta
sobre a presa, e envolveu-a com os braços, imobilizando-a de encontro ã árvore.
Não conseguiu fugir dos olhos brilhantes nem dos lábios quentes, que lhe
deixaram um calor suave no pescoço.
— Preciso estar atento o tempo todo, senão você desaparece — murmu -
rou junto ao ouvido dela. — Você é irreal como um sonho... Parece até um
sacrilégio pensar em você com paixão.
— Agora há pouco estava me falando de paixão...
— Mas agora gostaria de colocá-la num vaso de cristal para poder admi rá-
la melhor.
— Na prateleira do alto? — Riu, divertida.
— Vamos. — Riu também. — Os noivos já vão distribuir os doces da
árvore decorada para eles.
De mãos dadas, juntaram-se ao demais convidados, que se aglomera vam,
curiosos, em torno do jovem casal. Yvain estava tão fascinada com o espetáculo
que surpreendeu-se quando Doretta lhe ofereceu um doce. enquanto Alvarez
oferecia outro a Rique. Houve uma explosão de riso. Ninguém, além de Yvain,
parecia surpreso. Virou-se para Rique e viu, à luz de uma das lanternas, o rosto
inconfundível da mulher que dera abrigo a ela e a don Juan na noite da neblina.
A surpresa e o medo a imobilizaram: não podia ser... aquela velha não passava
de um sonho...
A mulher carregava uma bandeja e servia vinho aos convidados. Devia ter
sido contratada para ajudar na festa, e Yvain, entretida como estava
com cada detalhe do casamento, não a tinha notado até aquela hora.
Tentou sorrir quando encontrou o olhar da velha.
— Não fique envergonhada, señorita — gritavam todos. — Coma o
doce!
Mas ela não conseguiu. Sentia a boca seca e o coração disparado; não
conseguia ver nada além da figura vestida de negro.

Livros Florzinha - 65 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Posso lhe oferecer um pouco de vinho, señora? — A mulher havia se


aproximado e olhava para Yvain com malícia. — Seu marido está bem? Que
cavalheiro! Ele me pagou bem pela noite que passaram no chalé...
— A senhora está enganada — interrompeu Rique, enquanto as pessoas
mais próximas assistiam à cena com curiosidade. — A jovem não é casada.
— Não? Então não é de admirar que o cavalheiro tenha me oferecido
tanto dinheiro.
— Do que está falando, mulher? — Rique estava a ponto de explodir.
— Por que não pergunta à señorita, señor? — E como um espírito maligno
das sombras, a mulher desapareceu. Yvain gemeu de dor quando Rique lhe
agarrou os pulsos com violência.
— Entendeu o que ela disse?
Yvain compreendeu, pela expressão do rosto dele, que o segredo —
segredo dela e de Don Juan — já era do conhecimento de todos.
— Entendi... alguma coisa.
Com o olhar em chamas, ele a arrastou do meio da multidão para um lugar
afastado do pátio.
— Gostaria de ter uma explicação, se não se importa. — Seus olhos
brilhavam perigosamente. — Com quem você passou a noite no chalé da mulher,
e por que se fizeram passar por marido e mulher?
Yvain livrou-se das mãos dele e esfregou os pulsos doloridos.
— Não posso lhe dizer...
— Vai me dizer! Exijo que me diga!
— Pois eu me recuso. — Estava trémula, tinha perdido todo o interesse
pela festa e só desejava voltar ao castelo. — Aquela noite no chalé foi totalmente
inocente e aconteceu por circunstâncias que estavam fora do meu controle...
Ele a interrompeu bruscamente, gritando o nome que não devia ser men -
cionado... o nome de don Juan, Ninguém devia saber, pois apenas algumas
horas atrás Rique havia dito que o espanhol que desonra uma moça devia
reparar o erro casando-se com ela!
— Gostaria de ir embora — pediu, tensa.
— Não! — lmpediu-a de se afastar, prendendo-a entre um grupo de
árvores. — Precisamos esclarecer isso, Yvain. Não podemos ir embora e fingir
que não aconteceu nada. Quero saber o nome desse homem... só assim posso
saber se a noite que passou com ele foi realmente inocente.
Quero acreditar na sua pureza.
— Você é generoso. — Sentiu a brisa fria da noite tocá-la e tremeu. —
Mas antes de provar que é generoso precisa demonstrar uma arrogância
tipicamente masculina. Desculpe, Rique, mas não posso dizer o nome do meu
companheiro de adversidade, por isso pense o que quiser...
— Era don Juan, por acaso?
Ela quase se traiu com um grito, mas o terror a havia petrificado. Preci sou
fazer um esforço supremo para falar,
— Francamente, Rique! Se don Juan quisesse me seduzir, não precisaria
fazê-lo na casa de outra pessoa. — Afastou-se de Rique, magoada pelas
palavras que ele a obrigara a dizer.
— Então quem? — A voz de Rique soava áspera e ele parecia prestes a
saltar sobre ela e obrigá-la a revelar o nome do homem a quem ela prote gia. —
Quem mais você conhece na ilha? Que outro homem além do señor
Fonseca?

Livros Florzinha - 66 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Agora está acusando meu tutor? — O frio da noite agora estava pre -
sente na voz dela. — Rique, o que importa isso? Não aconteceu nada de
errado, acredite.
— Por que protege o homem tão obstinadamente?
— Você é que é obstinado, Rique. — Suspirou. — No domingo em que
saímos de carro e discutimos... conheci outra pessoa. Um homem que você
não conhece. Encontrou o olhar de Rique e viu refletidas nele a raiva e a
desilusão.
— Perdoe-me por desfazer suas ilusões a meu respeito — tentou falar
com tranquilidade. — Precisa acreditar. Tudo o que aconteceu foi que nos
perdemos na neblina e pedimos abrigo na primeira casa que encontramos. Ele foi
honesto e gentil, e serei sempre grata a ele.
— Está apaixonada por ele?
A pergunta deixou-a sem fôlego... precisou se controlar para não
demonstrar sua agitação.
— Não se pode amar um estranho. — Tentou rir. — Teria sido uma
experiência estranha, mas não vai ser fácil esquecê-lo.
— Não compreendo como pôde permitir que um desconhecido agisse
como... seu marido!
— A mulher presumiu que fôssemos casados... e ele achou que isso não
tinha muita importância, naquelas circunstâncias.
— Que falta de bom senso da parte dele — observou Rique. — A velha a
viu de novo e traiu seu segredo. Todos os meus amigos vão pensar que
você é uma aventureira.
— Está preocupado com a opinião dos outros? — O rosto de Rique,
jovem, sério e ferido, parecia o de um menino que ganha um brinquedo e
descobre que ele tem um defeito. — Sob esse seu ar de conquistador, você
é um latino inflexível, não é, Rique? Parece que já não mereço mais ser
exposta num vaso de cristal...
— Não brinque!
— É divertido... — Sorriu, triste. — Ser considerada uma aventureira
quando apenas algumas semanas atrás vivia presa dia e noite junto de uma
mulher que não pensava senão em si própria. O que será que ela diria? Com
certeza, que eu devia ter continuado usando o antigo birote e os óculos.
— Yvain — agarrou-a pelos ombros e a sacudiu —, o escândalo se
espalha como fogo num palheiro aqui nesta ilha, e logo todos estarão fazendo
comentários sobre você. Será que não se importa?
Preocupava-se muito mais em que ninguém descobrisse que don Juan
tinha sido o homem com quem ela compartilhara a cama. Ele havia sido
estranhamente bondoso, e agora tinha chegado a hora de retribuir por tudo o que
ele lhe havia dado, em especial aquelas semanas de estudo com o pai de
Raquel...
— Gostaria de ir para casa. Já é mais de meia-noite e os outros convida -
dos estão começando a sair.
Por um instante Rique esteve a ponto de dizer qualquer coisa, mas conte-
ve-se ao encontrar o olhar um pouco triste de Yvain. Há apenas poucos minutos
estavam dançando a sardana e recebendo, alegres, os doces ofere cidos pelos
noivos... e agora... tudo acabado. A doçura dos lábios de Rique havia se
transformado em amargor.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Despediram-se das famílias e foram embora no carro de um amigo. Yvain


sentiu um profundo alívio quando viu surgirem as torres do castelo, prateadas
pelo luar. Sentia-se como Cinderela, que havia saído tão alegre para o baile e
que voltava em prantos.
— Boa noite... — As palavras a seguiram enquanto abria a porta do
castelo, e logo em seguida Rique e o amigo se afastavam, velozes.

CAPÍTULO VIII

Algumas lâmpadas brilhavam, fracas, quando Yvain atravessou o pátio em


direção ao castelo. Mariposas voavam em tomo das luzes e sapos coa-xavam na
fonte. Os raios frios do luar iluminavam uma pérgola coberta de flores, dando ao
lugar um aspecto fantasmagórico e misterioso como a
noite.
Contemplava a cena notuma quando ouviu sons de piano que desciam de
uma das salas do castelo, suaves, tristes e cheios de encanto mágico. Como que
atraída pela musica, foi subindo até chegar diante da porta do salão dourado,
onde parou, indecisa. Era tão tarde, o castelo estava tão silencio so, que Yvain
imaginou que um fantasma estivesse lá — no salão de Rosa-lita — tocando o
prelúdio de Chopin. A música era tão triste que Yvain hesitou antes de entrar.
Finalmente criou coragem, e com o coração batendo de ansiedade cami -
nhou em direção ao pianista. O candelabro iluminava fracamente a parte superior
do piano e o perfil do marquês.
Ele tocava como se estivesse longe do mundo, mas Yvain sabia que os
instintos alertas do seu guardião já deviam tê-la pressentido. Sentiu que estava
aborrecido com ela e que a estivera esperando todo aquele tempo. Embora
vestisse um roupão, os cabelos bem penteados indicavam que ele ainda não
havia se deitado.
À medida que o prelúdio ia chegando ao fim, o pulso de Yvain se acele rava
e ela se sentia a ponto de desfalecer. Queria sair dali, mas não conse guia se
mover; queria falar, mas as palavras lhe faltavam. Faria qualquer coisa, até se
ajoelharia aos pés dele, se ele não a tratasse como uma criança
que chega tarde em casa e merece ser castigada.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala, e instantes depois ele se virou
lentamente para olhar para ela, moreno, severo, fazendo-a tremer. O rosto tenso
parecia um pouco pálido em contraste com o negro da roupa, mas olhar era tão
firme que Yvain não conseguiu evitá-lo. Encararam-se em silêncio e Yvain
percebeu que havia raiva nos olhos do marquês.
— Sabe que horas são? — perguntou, cortante.
— Sei... que estou atrasada. — Sua voz tremia um pouco. — Estive num
casamento... a cerimonia foi tarde, e depois houve uma festa... nós só saímos
de lá à meia-noite...
— Nós? — Falava num tom perigosamente suave. — Suponho que tenha
ido com Manrique Cortez?
— Sim, señor.
— O casamento estava tão alegre que você não conseguiu vir embora
antes? Havia vinho, música e dança, não é? Vejo pelo seu rosto que esteve
dançando.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Adorei a festa. — Levou os dedos aos lábios, como para acalmar o


tremor da voz. — Há alguma coisa de errado, don Juan, em me divertir numa
festa de casamento? Me acha tão jovem e tola, que só mereço confi-anca
quando estou aqui estudando minhas lições?
— É jovem demais para ficar fora até tão tarde. Agora, por favor, entre e
feche a porta. Quero saber que casamento é esse. Os noivos eram amigos de
Cortez?
— Era um casal tão simpático! — Fechou a porta, obediente, e parou
diante dele, o rosto vermelho. — A festa foi na quinta do pai de Alvarez, o señor
Velarde.
— É um homem respeitado na ilha. Fico satisfeito que Cortez a apresen te
a pessoas de bom nome. Ouvi dizer que ele nem sempre escolhe tão bem as
amizades.
— Não está sendo paternal demais? — perguntou Yvain. — Não sou
nenhuma garotinha ingénua, criada em convento de freiras, que precisa ser
protegida contra a vida. Está se esquecendo, señor, de que fui uma criada e que
era eu quem atendia os convidados nas recepções dos Sandell? Foi agradável
poder me sentir convidada também, ao menos uma vez na vida!
— Fico satisfeito por saber que se divertiu. Mas, como seu guardião, não
consigo deixar de sentir certa ansiedade quando volta tarde para casa.
Só que o que Yvain via no rosto dele não era ansiedade, mas seriedade e
aborrecimento.
— Não precisava ficar me esperando — respondeu, zangada, — A não
ser que pretendesse me repreender.
— Não a estou repreendendo, menina.
— Mas parece. — Forçou um sorriso. — Está tão carrancudo que me
deixou com as pernas trémulas. Se continuar me olhando assim, sem dúvi da vou
desmaiar no tapete!
Ele sorriu de leve, já um pouco mais calmo.
— Acho que já me esqueci do que é ser jovem e perder a noção do tempo
por causa dos amigos. Devia ter pensado que para você, que nunca viu um
casamento espanhol, o espetáculo é fascinante. — Mudou a posição da perna,
apoiando-se à bengala. — De que parte da festa gostou mais?
Pensou nas velas que iluminavam o altar, no véu de renda branca esten -
dido sobre os ombros do noivo, na troca das alianças.
— Da cerimónia na igreja, don Juan. — De repente, com graça juvenil, ela
se ajoelhou e colocou uma banqueta sob a perna esquerda do marquês. Ele a
olhou, espantado, e ela se sentiu perdida diante da negra profundida de daqueles
olhos.
— Por que fez isso? — perguntou ele.
— Acho que sua perna está doendo — respondeu com suavidade, o rosto
erguido para ele, pálida e tímida, um pouco temerosa por ter ousado tocar
naquele assunto.
— Você é observadora.
— E o senhor é orgulhoso demais para admitir que está sentindo dor.
— Acabaria me tornando aborrecido, Yvain, se gemesse cada vez que
minha perna resolvesse doer. Aprendi a viver com a dor, e você não deve me
mimar.
— Todos nós gostamos de ser mimados às vezes. — Sorriu. — Quer que
lhe sirva um pouco de vinho?

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Yvain — ele se inclinou e a segurou pelo pulso, provocando uma


reação instantânea, uma espécie de corrente elétrica que quase a paralisou —
não deve servir ninguém mais em sua vida. Não pense que me deve alguma
coisa, muito menos simpatia, está entendendo?
— Estou. — Deu um suspiro trémulo. — Eu posso aceitar coisas do
senhor, porque tem dinheiro, mas você recusa o pouco de gratidão que eu posso
dar em troca. Não é muito, mas é tudo que tenho para oferecer.
Ele sorriu de maneira estranha.
— Quando seus olhos brilham, parece uma espanholinha. No armário ao
lado da janela vai encontrar uma garrafa de vinho branco. Ficarei feliz se nos
servir um pouco.
— Claro! — Levantou-se de um salto e correu para o armário. As portas
eram adornadas com dragões dourados, e depois de abertas revelaram várias
prateleiras de vinhos muito antigos e taças de cristal. Tentando se acalmar,
Yvain demorou um pouco para servir a bebida.
Pensou, com uma sensação quase de choque, que don Juan de Leon era
um homem capaz de amar uma mulher além da razão. Não acreditava que
ele amasse Raquel daquela maneira, caso contrário ela não seria uma pes soa
tão inquieta, sempre à procura de novas sensações, sempre buscando a
admiração de outros homens no Clube Hidalgo. Se tivesse o amor do leão da
ilha, não precisaria de mais nada; seria feliz como mulher alguma no mundo já
foi.
— Aqui está, señor. — Estendeu o cálice e observou os dedos longos e
ágeis que o seguraram com delicadeza. Aquelas mãos amavam a beleza e
sabiam criar beleza. Yvain sentiu desejo de ouvi-lo tocar piano outra vez. —
Gostaria de ouvi-lo tocar mais alguma coisa antes de ir para a cama —
murmurou.
— Ainda não ouviu o suficiente por hoje? Tenho certeza de que Cortez
cantou e tocou guitarra para você, e não existe nenhum outro instrumento que
case tão bem com o temperamento espanhol.
Observou a guitarra pendurada ao lado do retrato de Rosalita e imaginou-o
criança, sentado no colo da mãe, ouvindo-a tocar e cantar canções da terra da
qual haviam fugido...
— O que gostaria de ouvir?
— Alguma coisa de que o señor goste muito — pediu, sabendo que jamais
esqueceria aquela música.
— Está bem, Yvain. — Ele depositou sobre a mesa o cálice de vinho e foi
até o piano. O coração de Yvain batia apressado, consequência do vinho e do
momento de intimidade com don Juan. Fechou os olhos quando ele começou a
tocar, e pensou que teria escolhido aquela mesma música, tão triste como a
tristeza de dois amantes que precisam se separar.
A música foi morrendo suavemente, e só quando cessou por completo foi
que Yvain percebeu que tinha lágrimas nos olhos. Enxugou-a depressa quando
don Juan se virou para ela, os olhos tristes como os da mãe.
— Gostou da música que escolhi para você?
— Linda, señor, como o momento em que o véu da noiva foi colocado
sobre o ombro do noivo, na cerimónia da igreja. Vou relembrar esses dois
momentos para sempre.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Sabe qual é o significado daquela parte da cerimónia? — A luz fraca


das velas, o rosto e os olhos dele estavam obscurecidos, por isso ela não
conseguiu ler o que se passava neles.
— Acho que significa que a esposa se submete à autoridade do marido.
Parecia significar qualquer coisa assim, e foi tão belo! O véu branco os uniu para
sempre.
— Os votos latinos são eternos, Yvain: na terra, no céu, juntos ou sepa -
rados. Por isso o homem deve estar muito seguro da escolha que faz. E a moça
não deve se deixar cegar por fatores exteriores ao amor. Ela deve
sentir mais que admiração ou afeição pelo homem; mais do que gratidão
pela bondade com que ele possa tê-la tratado, O amor é mais sofrimento que
prazer... no começo.
Yvain não conseguiu ler a expressão dos olhos dele, pois naquele instan te
uma das velas se apagou, como se tivesse sido soprada por alguém. Mas se ele
falava do amor como um sentimento de prazer doloroso, então era porque ele
sentia realmente isso. Nesse caso, não se casaria apenas para ter um filho que
levasse adiante as tradições da família; se casaria por ele mesmo, por desejar a
mulher mais que qualquer outra coisa no mundo.
A sala de repente pareceu muito fria e Yvain tremeu. A chama das velas já
estava morrendo e algumas pétalas das rosas de Rosalita caíam sobre a mesa.
Yvain fez um esforço e se levantou.
— Já deve ser muito tarde, señor! Amanhã vou dormir sobre os livros.
— Sim, já é hora de irmos para a cama. — Estendeu a mão para pegar a
bengala, mas esta, como que atraída por uma força estranha, escorregou e rolou
para longe dele. Yvain correu para pegá-la e entregou-a com um sorriso, que lhe
morreu imediatamente nos lábios ao notar a expressão com que ele a recebeu.
Uma expressão sombria, selvagem, quase de ódio.
Ela se afastou, admirada e temerosa.
— Vá para a cama. — Agarrando a bengala com os dedos contraídos,
ele se levantou.
— Não vai me dizer boa noite? — ela falou com voz trémula, pois ele
parecia furioso.
— Boa noite. — Deu as costas a ela. — No futuro, controle sua piedade e
não corra para pegar as coisas que eu derrubo, como se estivesse diante de um
inválido!
— Desculpe. — Aquelas palavras a haviam ferido profundamente, e
lágrimas lhe corriam pela face quando subiu as escadas em direção ao quar to.
Ele não era bondoso! Era orgulhoso e cruel, e ela queria ir embora daquela casa.
Queria estar a quilómetros de distância dali! No dia seguinte pediria ao señor
Fonseca que lhe conseguisse um emprego em Madri o quanto antes. Lá
trabalharia e seria independente e tentaria esquecer seu
diabólico guardião.
Dormiu mal e ficou contente quando a manhã chegou. Para seu alívio, don
Juan não tomou o café da manhã no pátio. Às nove horas ela estava a caminho
da vila dos Fonseca.
Assim que chegou à casa do tutor, Raquel veio até ela, parecendo muito
agitada.
— Papai não está bem. O médico está com ele. Yvain, peço que volte para
o castelo, pois preciso cuidar de meu pai e não posso perder tempo com você.

Livros Florzinha - 71 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Sinto muito, Raquel. Notei que ele parecia muito cansado ontem, mas
como o dia estava muito quente atribuí seu estado ao calor.
— Ele tem se queixado de uma dor no peito. — Raquel fez um gesto
significativo com as mãos. — O médico já o havia prevenido para não se cansar
retirando aqueles livros pesados da biblioteca, mas ele não o ouviu e agora
precisa repousar por uma semana ou mais.
— Pobre señor Fonseca! — Yvain estava sinceramente preocupada. —
Posso ajudar em alguma coisa? Gosto muito dele e...
— Minha querida — Raquel assumiu um tom suplicante —, gostaria que
me fizesse um favor. Leve um bilhete para a señora Grayson, a ameri cana que
me convidou para almoçar com ela a bordo do seu iate. Detesto deixar uma
pessoa esperando por mim, especialmente uma pessoa tão sim pática quanto ela.
Raquel foi até uma elegante escrivaninha, e Yvain ficou esperando
enquanto ela escrevia um bilhete pedindo desculpas. Parecia mais preocu pada
com a quebra do compromisso que com a saúde do pai, e Yvain teve vontade de
lhe dizer que um pai é uma pessoa muito especial, que nada pode substituir.
Nenhum homem jamais amaria e compreenderia tão bem a filha quanto o pai, O
amor paterno, entre todos, era o mais sincero e des prendido.
— Aqui está. — Raquel entregou-lhe um envelope selado. — O iate da
seúora Grayson é o Blue Dolphin. Está ancorado a mais ou menos um quilómetro
da ilha e qualquer pescador poderá lhe indicar o local. É um barco muito
elegante, e eu estava ansiosa para conhecê-lo. A señora Gray son falou até em
um cruzeiro...
— Um cruzeiro faria bem a seu pai — murmurou Yvain.
— Sim... claro. — Raquel olhou para o alto da escada. — Preciso ir vê-lo.
— Por favor, Raquel, diga a ele que desejo que sare logo e que sentirei
falta das nossas aulas.
— Ele não devia estar dando aulas. — O tom de Raquel era ríspido. — Foi
isso que provocou a crise.
— Não vou mais tomar o tempo de seu pai. — Yvain mordeu o lábio,
ofendida. — Ia mesmo conversar com ele hoje sobre um emprego em Ma-dri.
Acho que já estou preparada para começar.
— Quer deixar a ilha? — Os olhos de Raquel brilharam. — Não se sente
feliz no castelo? Juan tem sido muito generoso, mas acho que isso não significa
muito para uma moça quando ela sabe que essa bondade não foi motivada por
nenhum sentimento pessoal. Juan é caridoso por natureza:
Yvain sentiu um choque, pois a última coisa que desejava na vida era a
caridade de don Juan. Guardou o bilhete de Raquel no bolso da calça com prida e
tentou parecer despreocupada.
— Posso telefonar amanhã para saber se o señor Fonseca está melhor?
— Se quiser... — respondeu Raquel, fria. — Diga à señora Grayson que
lamento muito por precisar quebrar o compromisso, mas que como filha preciso
ficar ao lado de meu pai.
— Poucas moças têm um pai como o seu — disse Yvain, numa espécie de
repreensão velada. — Desejo-lhe rápidas melhoras, señorita. Até amanhã.
Saiu novamente para o dia ensolarado e desceu pelas ruazinhas tortuosas
até o porto. Quando cruzou a praça barroca, sentiu calor e resolveu com prar uma
fatia de melão para matar a sede; saboreando a fruta gelada e cheia de suco,
caminhou em direção às redes e mastros que se erguiam na praia.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Olhou em torno, à procura de um barqueiro que aceitasse levá-la até o iate


por pouco dinheiro. Ainda bem que tinha trazido algum dinheiro na bolsa, pois
Raquel havia se esquecido completamente desse detalhe.
Avistando um jovem apoiado contra uma palmeira, ao lado de um barco
ancorado na praia, aproximou-se e perguntou se podia levá-la até o Blue
Dolphin, cuja beleza azul e branca podia ser avistada dali.
Ele examinou as roupas de Yvain e seus cabelos caídos sobre os ombros.
— A señorita tem amigos no iate?
— Tenho um recado para entregar à dona do iate — explicou. — E preciso
voltar à praia assim que o entregar.
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça e começou a empurrar o barco na
direção da água, segurando-o para que Yvain entrasse e se acomodasse no
banco. Ela sentiu uma pontada de medo quando os remos tocaram a água e o
barco começou a se afastar da segurança da praia, mas logo esque ceu o temor
para admirar a beleza da bafa e a frescura da brisa que lhe batia no rosto. A
água restava tão azul que mais parecia feita de safiras; gaivotas voavam contra
o céu azul e o rosto bronzeado do belo pescador tinha leves traços de areia e
sal.
— Não temos muitos turistas na ilha — comentou o rapaz. — O mar quês
não encoraja o turismo, pois deseja que a ilha permaneça intocada.
— Espero que o marquês não pense que estou contaminando a ilha —
disse Yvain, com um sorriso.
— Não! — Os olhos do rapaz brilharam, cheios de admiração. — Se todos
os turistas fossem como a señorita, acho que o marquês ficaria encantado.
— Será? — Deu uma risada um pouco triste. Estavam se aproximando do
Blue Dolphin, de onde um marinheiro os observava.
— Alô! — gritou ele, inclinando-se sobre a amurada quando a canoa se
aproximou.
Yvain acenou com a carta, indicando que queria entregá-la.
— Suba a bordo!
Ela hesitou, pois havia um espaço razoável entre o iate e a canoa, que
balançava bastante. Levantou-se com cuidado e subiu a escadinha de ferro com
passos cuidadosos, temendo cair na água.
— Suba e não olhe para baixo — aconselhou o marinheiro.
Como um dia precisaria perder o medo do mar, Yvain decidiu que seria
naquele momento; agarrou as barras frias de ferro e subiu. Quando estava quase
no alto, mãos fortes a puxaram até o convés. Ela riu, aliviada, e encontrou um
par de olhos azuis como o mar.
— Mas que surpresa! — Ele a examinou. — Não me diga que a corres -
pondência da ilha é entregue por señoritas tão bonitas.
Ela sorriu, divertida, pois ele parecia não ter reparado que ela, embora
sendo também inglesa, havia se apresenlado com algumas palavras tímidas em
castelhano.
— De dona Raquel? — Olhou para o envelope como se estivesse ansio so
por abri-lo. — Para minha mãe?
— O sr. Fonseca não está passando muito bem e Raquel achou melhor
ficar com ele, mas ficou muito triste por perder o passeio no iate.
Ele olhou para Yvain e riu.
— Então não é uma señoriía' É turista, como eu?

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A frase a atingiu como uma punhalada, mas era verdade... ela era apenas
uma turista que havia se apaixonado pela ilha. Não poderia permanecer ali. como
o pescador, como as mulheres que recolhiam algas na praia, como os alunos do
convento.
— A ilha de Leon é um lugar e tanto. — O filho da sra. Grayson obser vou
com deslumbramento a areia branca, as casas brancas que se erguiam à
distância, as palmeiras que bordeavam a linha da água. — Está hospedada na
casa dos Fonseca? Raquel não nos disse que tinham uma convidada...
Para alívio de Yvain, naquele momento surgiu uma mulher no convés. Era
alta, tinha cabelos grisalhos e usava um vestido cor-de-rosa.
— Kent, quem está à nossa procura? — Aproximou-se com um sorriso
simpático, e arregalou os olhos ao ver Yvain. — Quanta honra! Eu a vi outro dia
e me disseram que é a protegida do marquês de Leon... a moci nha com nome de
conto de fadas.
Yvain sentiu um impulso de sair correndo pelo convés e saltar na água.
— Yvain e o Leão! — disse a sra. Grayson, triunfante. — Estou encan tada
em conhecê-la, minha querida. É amiga de Kent?
Kent observava a cena, divertido, e entregou o bilhete de Raquel à mãe.
— A jovem veio trazer isto.
Ela abriu o envelope, leu a mensagem, expressou sua tristeza pela doen ça
do señor Fonseca e anunciou que, se Raquel não podia almoçar com eles, então
Yvain tomaria o lugar dela.
— Mas eu não posso... — Yvain queria evitar as perguntas, pois perce beu
o olhar curioso da sra. Grayson.
— Faço questão, minha querida. — Bettina Grayson não era uma mulher
que gostasse de ser contrariada. —- Só a deixarei ir se acaso já tiver um
compromisso com o senhor marquês para o almoço.
Yvain foi tentada a dizer uma pequena mentira, mas a honestidade pre -
valeceu e ela confessou que não era esperada para o almoço.
— Mas tenho algumas lições para estudar.
— Lições? Aulas de castelhano, minha querida?
— Sim.
— Ora, as aulas podem esperar. Kent e eu ficaremos encantados se acei -
tar nosso convite, e não vou aceitar uma recusa. — A sra. Grayson olhou para o
filho com um olhar cheio de significação. — Peça que tragam uns drinques para
nós, Kent. Quero conhecer melhor nossa mocinha de contos de fadas.
— Um pescador me trouxe de canoa. — Yvain evitou o olhar divertido de
Kent. — Ele está esperando para me levar de volta à ilha.
— Vou dizer a ele que você não vai voltar... pelo menos agora — anun ciou
Kent, sorrindo.

CAPÍTULO IX

Nos dias seguintes, Yvain encontrou-se várias vezes com Kent Grayson.
Como o señor Fonseca continuava de cama, aproveitou o tempo na compa nhia
agradável do rapaz. Ele era um excelente fotógrafo e, juntos, desco briram muitos
lugares interessantes para fotografar.

Livros Florzinha - 74 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Ele demonstrou curiosidade a respeito do castelo, mas Yvain não quis


levá-lo até lá para conhecer seu guardião.
— Don Juan não considera o castelo uma atração turística. Ele gosta de
manter sua privacidade.
— Tem medo dele? — perguntou Kent, enquanto tirava uma foto dela.
— Claro que não!
— Pois parece ter, querida. Ele é feroz e inflexível como os guardiães
tradicionais?
Ela deu uma risada e arrancou uma flor da árvore sob a qual estava
sentada.
— É o homem mais simpático do mundo. E, se tem um humor um pouco
difícil, é porque sofreu muito na vida e sente uma dor torturante em uma das
pernas, que quase perdeu em um acidente.
— Quantos anos ele tem agora? — Kent encostou-se a um muro e acen -
deu um cigarro.
— Mais ou menos trinta e cinco. — Yvain afastou com a mão a fumaça do
cigarro de Kent, sentindo-se insegura e incerta a respeito do futuro. Enquanto o
señor Fonseca não melhorasse, não podia conversar com ele sobre o emprego
em Madri.
— Tinha a impressão de que ele era mais velho. — Kent sorriu, malicio so.
— Então ele é simpático, hein? E de admirar que você tenha se
apaixonado por ele. Ouvi dizer que os homens latinos são muito sensuais.
— Sensuais? — Yvain sorriu,
— Sabe muito bem o que quero dizer, srta. Pilgrim. — Kent se inclinou e
acariciou a trança de Yvain, que se lembrou de Rique e ficou um pouco tímida.
Kent sorriu. — Tem medo dos homens, Yvain?
— Gosto de ser amiga deles — explicou ela.
— Por quê? É mais fácil?
— Não vejo razão para flertar com cada homem que conheço.
— Acha que certos aspectos do relacionamento entre um homem e uma
mulher devem permanecer sagrados? — Os olhos de Kent brilharam, iróni cos. —
Será que estou diante de uma mocinha antiquada e romântica, capaz de amar
um homem sem pensar na segurança financeira que ele pode lhe oferecer?
— Kent, nem todas as mulheres são mercenárias!
— As que conheci até agora preferiam encontrar um ninho seguro, mais
que um ninho de amor.
— Já que conseguiu escapar delas, Kent, deve ser um pássaro esperto.
Sabe o que quer.
— Talvez eu queira alguém como você — falou em tom de brincadeira,
mas havia seriedade nos olhos dele. — Seu coração está livre, Yvain?
— Sim, e vai continuar assim. — Afastaram-se em direção a uma taber na
da praia, com mesinhas protegidas por guarda-sóis coloridos.
A caminhada ao sol deixou-os sedentos e Kent pediu ao garçom dois
enormes sucos de frutas gelados e alguns petiscos leves. A poucos metros de
onde estavam, o mar reluzia, muito azul, e gaivotas faziam evoluções no ar,
mergulhando em seguida na água clara.
Era agradável estar ali sentada, tomando uma bebida gelada em compa -
nhia de um jovem simpático e atraente. Gostava de Kent e o considerava boa
companhia. A sra. Grayson, por sua vez, era um mulher encantadora, bondosa e
curiosa. Na noite anterior, enquanto gozavam a brisa suave da noite e o luar de

Livros Florzinha - 75 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

verão, Yvain se deu conta de que, breve, mãe e filho partiriam para a Espanha,
depois para Portugal e, finalmente, para a Amé rica... Bem que podia ir com eles!
— Desça das nuvens — disse Kent, apertando suavemente a mão de
Yvain. — Estou me sentindo terrivelmente solitário, pois sei que não faço parte
dos seus pensamentos.
— Mas eu estava justamente pensando em você, —- Sorriu, pensativa. —
Vou sentir sua falta, Kent, quando for embora.
— Venha comigo. Mamãe gosta de você. Por que não aceita o emprego
que ela lhe ofereceu e não deixa que nosso relacionamento se aprofunde? Se
não gostar de mim... não por falta de estímulo dá minha parte, o que vai perder?
Você me disse que de qualquer forma pretende deixar a ilha de
Leon para ir trabalhar em Madri... mas sozinha? Uma moça como você?
Uma gatinha bronzeada de olhar perdido? Às vezes, Yvain, fico imaginan do de
onde vem essa tristeza dos seus olhos.
— E que estou morrendo de vontade de comer aqueles deliciosos cama -
rões aqui da ilha. — Riu, um pouco nervosa. — Estale os dedos como um
espanhol, e vamos dar uma olhada no cardápio.
— Não sou espanhol, querida.
Ela examinou os cabelos loiros de Kent, muito curtos, seus olhos azuis, os
lábios finos.
— Não, Kent, não há nenhum traço latino em você.
— Isso tem muita importância?
— Ao contrário, faz com que me sinta... segura.
— Em terreno sólido, sem vulcões por baixo, não é?
Ela riu de novo, tentando ignorar a dor que lhe provocava a lembrança do
vulcão que se agitava em don Juan: a raiva que demonstrou quando ela apanhou
a bengala caída, a ordem ríspida para que ela não demonstrasse piedade.
Piedade? Jamais pensaria em sentir piedade por um homem tão forte, tão
maduro, tão independente. Queria apenas lhe transmitir um pou co de calor
humano.
— As pessoas mais sólidas podem oferecer mais que os homens misteri -
osos, com os quais você não vai jamais conseguir se comunicar realmente. Acho
que, se vier conosco, se abandonar esta ilha sem olhar para trás, vai encontrar a
felicidade.
Olhou primeiro para Kent, depois para os picos cor de violeta das distan tes
montanhas da Espanha, perdidas no horizonte.
— Ir para Madri era um plano tão certo, antes de conhecer você! O pai de
Raquel me deu aulas sobre arte e antiguidade. Gostaria de seguir uma
carreira.
— Existem galerias de arte na Califórnia... e eu estarei lá, Yvain.
— Vocês americanos são muito persistentes.
— Existem imensos vales cobertos de laranjeiras e casas de paredes
brancas. Você adoraria.
— Você e sua mãe vivem numa casa de pedras brancas, Kent?
— Vivemos. — Sorriu, sedutor. — A casa tem dois pátios e muitas
camélias rubras. O contraste com as paredes brancas é magnífico.
— Eu... — suspirou, indecisa — não posso decidir nada antes de con -
versar com meu guardião.
— Guardião apenas temporário, Yvain. Ele não é dono da sua vida.
— Não...

Livros Florzinha - 76 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— Ele age como se você pertencesse a ele?


— Não, mas tem sido muito bom para mim. Eu não tinha nada quando fui
salva do mar e trazida para cá por um pescador. Foi ele quem conseguiu
das autoridades que eu permanecesse como turista, foi ele quem mandou
buscar lindas roupas para mim em Madri, foi ele quem convenceu o sr. Fonseca
a me dar aulas. Eu... eu era apenas uma dama de companhia, mas ele me trata
quase como... uma sobrinha.
— Por que não como filha?
— Não tem idade suficiente para isso. — Sorriu de leve. — Embora fosse
muito precoce quando era jovem.
— Gostaria de conhecê-lo, Yvain. Nas atuais circunstâncias, acho que
devo conhecê-lo. — Kent falou com muita seriedade. — Você está meio inclinada
a aceitar o emprego que mamãe lhe ofereceu, e acho que se eu falar com o
marquês posso tranquilizá-lo a respeito das pessoas com as quais você vai
conviver. A outra mulher para quem você trabalhava era muito dura?
— Inflexível. — Yvain sorriu e deu de ombros. — Talvez a culpa fosse
minha, por me deixar dominar. Mas o contato com os espanhóis me ensi nou que
o orgulho é um direito comum a todas as pessoas, e que todos nós somos iguais.
Durante o tempo que permaneci no castelo, jamais ouvi pala vras desagradáveis
de don Juan para com os criados.
— Vai me levar para conhecê-lo?
— Vamos esperar mais um ou dois dias, Kent...
— Mas nos partimos no sábado! Só vamos ficar até lá para assistir à festa
de sexta-feira. Precisa se decidir, Yvain. Tenho a impressão de que se o senhor
marquês disser não, você aceitará a decisão dele.
— Não todas as vezes — protestou.
— Alguma vez o desafiou?
— Sim, por causa de Rique... meu guardião não concordava com nossa
amizade, e só mais tarde percebi que ele tem a visão muito mais aguda que a
minha. Mais aguda ou talvez mais mundana...
— Quem é Rique? — Kent ficou sério.
— Ele toca e canta no Clube Hidalgo.
— As mulheres o consideram atraente — comentou Kent, mal-
humorado.
— É verdade. — Ela riu, nervosa, relembrando o último encontro com
Ríque e o motivo da separação. Olhou para Kent, seu companheiro cons tante de
tantos dias, e teve um pouco de medo: talvez as pessoas pensassem que era ele
o homem com quem ela havia passado a noite. E se os comen tários chegassem
ao ouvido de Kent, será que ele reagiria da mesma manei ra que Rique?
— Com fome? — Sorriu para ela. — Vamos pedir aqueles camarões
deliciosos?
Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça e ele chamou o garçom. Sen tia-
se bem ao lado de Kent, e a Califórnia ficava bem distante da ilha,
suficientemente distante para que o tempo a fizesse esquecer don Juan e
mesmo aceitar o casamento dele com Raquel.
Os camarões eram imensos, fresquinhos e rosados, e foram servidos com
torradas e vinho branco. Em seguida Kent pediu um filé e Yvain aceitou uma
salada de presunto.
Depois do almoço, descansaram sob a sombra de uma palmeira frondo sa,
quase sem falar. Kent parecia compreender que ela estava se despedin do da ilha

Livros Florzinha - 77 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

do seu coração, preparando-se para dizer adeus a don Juan e receber como
resposta um "Vaya con Dios".
Kent a convidou para passar aftesia a bordo do iate, que já estava sendo
decorado com luzes coloridas para a ocasião festiva.
— Acha que o senhor marquês aceitaria um convite para participar de
nossa pequena festa de despedida? — perguntou a sra. Grayson, esperanço sa.
— Encontrei Raquel esta manhã e ela me disse que o pai está bem melhor. Don
Juan poderia vir com ela.
Yvain compreendeu que não poderia manter os Grayson afastados de don
Juan por mais tempo.
— Acho que aceitaria... se Raquel vier.
— Então vou lhe enviar um convite formal agora mesmo. — Bettina
Grayson saiu alegre para preparar o convite, e Yvain inclinou-se sobre a
amurada, observando a água tão azul que não veria nunca mais.
— É verdade o que comentam as pessoas? — Kent falou com voz suave
junto ao ouvido de Yvain. — A bela Raquel tem ambições de se tomar
marquesa?
— Não acha que ela seria a marquesa ideal? — Yvain não desviou o olhar
das águas tranquilas. — É linda e muito graciosa. Seria a senhora ideal para o
castelo, a mais encantadora e elegante das marquesas.
— Será que um homem não merece mais que isso? — Tocou de leve o
cabelo de Yvain. — Mesmo um fidalgo deseja ser amado com paixão.
— Não acredita que Raquel seja apaixonada?
— Tanto quanto uma estátua de mármore.
— Kent, você mal a conhece!
— Conheço o tipo, querida, Essa espécie de mulher não é exclusividade
das ilhas espanholas.
— Conheceu muitas mulheres, Kent?
— Algumas — admitiu, rindo —, como todos os americanos. Mas sei muito
bem qual a mulher que quero para toda a vida. Tenho um presente para você —
disse ele em seguida, segurando Yvain pelos ombros e fazen do-a olhar para ele.
— Encontrei numa pequena loja da praça, ao lado do cavaleiro de pedra. — Tirou
do bolso um embrulhinho em papel de seda. — Merece um presente por ter sido
minha guia e modelo esta semana.
Yvain ficou sem palavras ao ver o bracelete de ouro com pequenos talis-
mas incrustrados: uma ferradura, um galo, uma maçã, um coração... havia
uma dúzia deles, pequenos objetos delicados, cuja beleza era realçada pela
alvura da pele de Yvain.
— Kent!
— Bonito, não é?
— Não devia me dar isso.
— Por que não? — Sorriu, um pouco embaraçado. — Na América, as
moças gostam de receber pequenas lembranças como sinal de estima dos
rapazes.
— Não estamos na América. — Acariciou os talismãs e depois sorriu, pois
o bracelete era realmente muito lindo e porque o sorriso de Kent era tão terno.
Num impulso, beijou-o no rosto.
— Muito obrigada, Kent. Vou guardar com muito carinho o seu pre sente.
— Gostaria que também sentisse carinho por quem lhe deu o presente. —
Sem que ela esperasse, Kent envolveu-a nos braços e beijou-a na boca. Os

Livros Florzinha - 78 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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lábios dele eram quentes, carinhosos, e Yvain aceitou-os para descobrir se um


beijo dele a faria esquecer tudo o mais no mundo.
— Yvain...
— Ela escondeu o rosto no ombro de Kent, abalada com a própria
insensibilidade, desejosa de uma paixão tempestuosa como só se tem em
sonhos. Será que toda moça devia deixar o sonho pela realidade?
Foram até a praia numa pequena lancha e Kent acompanhou-a até o
castelo. Algumas luzes ainda estavam acesas, mas a torre estava mergulha da na
escuridão.
— Que lugar sombrio —- observou Kent, segurando-a pela mão, como se
temesse deixá-la sozinha naquele lugar.
— Porque agora é noite — explicou Yvain. — À luz do sol as paredes
brilham com reflexos dourados e os pátios ostentam todas as cores das flores. A
torre, dando para o mar, não pode ser mais romântica.
— É de lá que ele reina? O Leão na sua jaula?
— Ele não ruge — brincou Yvain. — É muito humano e bastante solitá rio.
Às vezes sente muita dor na perna, mas, como é orgulhoso, não quer que
ninguém perceba e sinta piedade. Os homens fortes não gostam de admitir suas
fraquezas, não é? Como são tolos!
— E qual a intensidade do seu amor por ele? — Os dedos de Kent se
comprimiram em torno do pulso de Yvain. — Yvain, sua tolinha, não sabe que um
nobre só se casa com uma mulher que também pertença à nobreza?
— Pensa que sou alguma idiota romântica? — Livrou-se das mãos de
Kent. — Só mesmo num romance barato um marquês se apaixonaria por uma
pobre dama de companhia! —
Estamos falando dos seus sentimentos por ele.
— Sinto-me grata, Kent. Isso é um crime, só porque ele não tem cabe los
brancos e barba?
— Yvain — Kent murmurou e depois riu —, acho que sou um idiota. Você
é tão diferente das outras moças que conheço! Ao mesmo tempo que gostaria
que continuasse sempre assim, sinto um imenso desejo de acordá-la. Não posso
suportar a ideia de que outro homem... você me entende?
— Quer dizer que os homens podem tudo, mas as mulheres devem man-
ter-se intactas?
— Sei que é um sentimento egoísta, mas os homens pensam assim, e
quando encontram uma moça...
— Quer uma garantia de que minha pureza ainda não foi tocada?
— Sua voz é toda pureza, Yvain.
— Como sabe? — Estendeu a mão para a maçaneta da porta. — Por
favor, Kent, agora deixe-me ir. Amanhã, na festa, teremos esquecido tudo isso.
— Não me convida para entrar? — Kent inclinou a cabeça e falou em tom
suplicante, — Prometo ser um bom rapaz.
— Eu... estou cansada. — E era verdade; era como se as emoções con -
fusas do dia tivessem retirado todas as suas forças.
— Pobrezinha — murmurou ele. —Está muito confusa, não está? Mas,
querida, precisa se decidir...
— Amanhã você terá minha decisão — garantiu. — Prometo.
— Precisa conversar com o guardião espanhol, não é?
— Acho... que sim, Kent.

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Não deixe que ele a convença a não ir conosco. Afinal, de qualquer


maneira vai mandá-la para Madri, não vai?
— Vai. — Um calafrio desceu pela espinha de Yvain. — Boa noite,
Kent.
— Boa noite, Yvain. — Com delicadeza, Kent segurou as mãos dela e
beijou-lhe as pontas dos dedos. — É assim que fazem os espanhóis?
— Acho que sim.
— Don Juan já beijou sua mão.
— Por que ele deveria?
— Talvez por ter o mesmo nome do famoso don Juan. o homem que
amava as mulheres.
— Kent, garanto-lhe que meu guardião ama apenas uma mulher...
Raquel, e que só irá à festa de sua mãe porque ela também estará lá.
— Você é encantadora.
— Gracias, señor, e boa noite. — Livrou-se dele com uma risada e
fugiu pela porta do pátio.
— Hasta mañana. — Ele riu. — Mocinha de contos de fadas!

CAPÍTULO X

Yvain tinha um sorriso nos lábios quando depositou sobre uma bandeja de
prata o convite de Bettina Grayson. Ali ele veria o envelope assim que chegasse.
Provavelmente o marquês tinha ido jantar com o sehor Fonseca e com Raquel, e
ela devia ter-lhe falado a respeito da festa a bordo do iate dos Grayson. Sem
dúvida iria à festa para estar com Raquel, e assim conheceria Kent.
Seu coração se acelerou ao passar diante do salão dourado, a caminho do
quarto. Lembrou-se da musica que don Juan tinha tocado para ela e das palavras
cheias de raiva com que a havia prevenido para não tratá-lo como a um inválido.
Naquele momento o salão dourado estava imerso na escuri dão, e o piano,
silencioso. O marquês estava, naquele momento, em com panhia da mulher que
breve teria o direito de manter a decoração do castelo como estava ou de mudá-
la de acordo com sua própria personalidade. Ele não interferiria; aceitaria de
bom grado os desejos da mulher que iria tomar sua vida menos solitária.
Yvain subiu correndo as escadas, uma profunda sensação de solidão na
alma. Decidiu naquele instante que aceitaria a oferta de Kent para viajar com ele
e a mãe, pois ficando em Madri teria maiores possibilidades de encontrar-se com
don Juan e a esposa. Lá na América, distante, não corria esse risco.
Antes de se deitar, abriu o guarda-roupa e tornou a examinar o deslum -
brante vestido que havia escolhido para a festa do dia seguinte: uma combi nação
de negro, vermelho e creme, do mais fino veludo. Colocou sobre os ombros a
mantilha que usaria como complemento e olhou-se no espelho. Emoldurava
maravilhosamente o rosto claro e pensativo de Yvain, desta cando os cabelos cor
de mel; o bracelete brilhava suavemente à luz das lâmpadas de cabeceira.
Passou a mão sobre a ferradura, para dar sorte; tocou a maçã, símbolo da
tentação; demorou o olhar sobre o coração de ouro e pensou no significado do
amor. Todas as pessoas desejavam ser amadas, mas para cada uma o amor
tinha um significado diferente: paixão ou segurança; companheirismo

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O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

— para afastar a solidão; ou compreensão — um ombro para se apoiar na


alegria ou na tristeza.
Yvain viu refletidos no espelho seus próprios desejos. "E o amor que eu
busco, mas um amor tão belo como nunca se viu." As palavras do poeta
traduziam bem o que ia no coração de Yvain: um amor maior que todos os
outros, um amor romântico que maravilhasse, que a enchesse de medo e
encantamento; um amor que a elevasse da terra e a conduzisse até as nuvens.
—Sua romântica idiota! — Riu ao murmurar essas palavras, mas o desejo
não a deixou e ela se afastou depressa do espelho.
Já era tarde quando ouviu o ruído do carro do seu guardião que chegava.
Imaginou-o descendo do carro com dificuldade, subindo a escada, parando
diante da mesa onde se achava o convite. Com certeza demoraria alguns
instantes para abrir o envelope, saboreando a surpresa ali contida. Inclinan do-se
um pouco sobre a bengala de ébano, leria a mensagem e pensaria um pouco
sobre a conveniência de ir ou não à festa, mas por fim se decidiria, pois Raquel
estaria lá. Iria à festa também para satisfazer sua curiosidade a respeito da
americana e do filho, com o qual sua protegida vinha saindo com frequência.

O dia da festa amanheceu brilhante e ensolarado. Yvain ouviu os sinos que


bimbalhavam na igreja, ao lado do porto: um som gostoso de feriado, que se
misturava ao barulho do mar. Num misto de alegria e ansiedade, colocou o
vestido e desceu para o desjejum. O cabelo, arranjado numa trança, tinha sido
enrolado no alto da cabeça.
Parou diante de um espelho para admirar a própria imagem: com a roupa
típica da ilha, parecia uma figura saída de um quadro pintado muitos sécu los
atrás. Distraída como estava, sentiu o coração disparar quando viu a figura alta
que surgiu por trás dela.
— Bom dia, Yvain. — A voz soava profunda, e os olhos dele a fita vam,
extasiados. — Está linda, nina. Quase uma señorita da ilha. Venha, vamos
apanhar uma flor para o seu cabelo.
Estendeu a mão para ela. O contato provocou em Yvain uma reação
imediata e intensa, uma espécie de corrente, quente e fria ao mesmo tem po.
Enquanto caminhavam, ela arriscou um olhar tímido para ele.
— Vai à festa, señor?
— Claro. — Os olhos de ambos se encontraram e ele sorriu. — Tenho uma
predileção especial pela festa de Adão e Eva. Foi introduzida aqui na
ilha muitos e muitos anos atrás pela noiva de um dos meus ancestrais,
moça natural da Galícia. Como sentia imensas saudades da sua terra, con venceu
o marido a recriar a procissão tradicional da Galícia, e desde então tradicional
também na ilha de Leon.
— Que emocionante! — Yvain levantou as pontas do vestido longo en -
quanto desciam até o pátio rescendente a perfume das flores que cresciam em
profusão por toda parte.
Don Juan retirou do bolso um canivete de cabo de madrepérola e cortou
um botão ainda coberto pelo orvalho da noite. Com uma reverência, entre gou a
flor de pétalas rosadas a Yvain, cuja mão tremeu ao prendê-la no
cabelo.
— Que dia maravilhoso para a festa — disse ela, escondendo o rosto no
meio de um cacho de flores para ocultar o rubor. O que estaria acontecendo com
ela? Ele não ia agredi-la ao saber que ela passaria o dia com Kent

Livros Florzinha - 81 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Grayson.
— Ficou combinado que veremos a procissão do balcão da prefeitura, que
fica bem diante da praga. O desfile vai fazer uma parada ali e os dançarinos
dançarão ao som da banda. — Don Juan conduziu-a até uma mesa. circular,
preparada no jardim para o desjejum.
— Don Juan... — Alegrou-se por estar sentada, pois sentia as pernas
trémulas.
— O que, nina? — Ele encheu um copo de suco de laranja e colocou-o
diante dela.
— Eu... — Tomou um gole de suco, desejando que ele não estivesse tão
gentil naquela manhã; tão belo, tão seguro de que ela acataria os planos que
havia feito para ela.
— Tem alguma coisa para me dizer, Yvain? — Olhou-a daquela manei ra
que sempre a assustava.
— Como as flores estão perfumadas esta manhã. — Sorriu para Luís,
muito nervosa, quando ele colocou diante dela um prato com ovos mexi dos.
Ficou ainda mais tensa quando Luís saiu, deixando no ar um silêncio só
quebrado pelo zumbido das abelhas e dos sinos da igreja. Sem coragem de olhar
para o marquês, pegou uma fatia de torrada e demorou-se a passar manteiga
nela. Por que era tão difícil falar com ele? Por que aquela sensa ção de
constrangimento? Mas não era só ela que estava inquieta; também ele parecia
pouco à vontade, como se já desconfiasse de que ela ia passar a festa ao lado
de Kent Grayson.
— Yvain... — Ele levou o guardanapo aos lábios e encarou-a, firme. —
Parece estar com medo de mim. Se quer me dizer que tem outros planos para a
festa, diga. Não vou bater em você por isso, nem vou prendê-la na
torre.
Olhou para ele, numa espécie de deslumbramento. Quando sorria daque-
la maneira, sentia um desejo imenso de agradá-lo, mas sabia que quando
chegassem à festa ele não teria olhos a não ser para a beleza de Raquel.
— Eu... tinha feito outros planos — admitiu, nervosa. — Prometi pas sar o
dia com outra pessoa.
— Um rapaz?
— Sim. — Tomou um gole de café para ocultar o nervosismo. — Acho que
já ouviu falar dos Grayson... Raquel deve ter comentado. São america nos e
muito simpáticos, e nos tornamos muito amigos... espero que não se importe.
— São eles que vão dar uma festa no iate? Ouvi dizer que vão partir
amanhã à noite.
— Señor, faz objeção a que eu passe o dia com Kent?
— De qualquer maneira, nina, você tem passado todos os dias com ele
ultimamente. Detestaria privá-lo da sua companhia hoje. último dia em que vai
permanecer na ilha.
Percebeu o sorriso irónico nos lábios do marquês e esteve a ponto de lhe
dizer que ia embora com eles. Tinha mesmo que contar a ele... então, por que
não naquele momento?
Já havia criado coragem para falar, quando notou que o olhar dele estava
pousado sobre o bracelete de Kent, que ela resolvera usar para dar sorte.
— Não conhecia essa pulseira. — Pegou o pulso de Yvain, com força. —
Foi você quem comprou?
— Kent me deu...

Livros Florzinha - 82 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
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— Sei. — Nos olhos dele brilhava uma chama de raiva. — Conheceu este
rapaz há menos de uma semana e, mesmo assim, aceitou um presente, que aos
olhos dos espanhóis significa um compromisso?
— Kent é americano, señor. — Os talismãs brilhavam com os raios do sol.
— Acho que ele não conhece os costumes espanhóis.
— Você sabia, Yvain, que aqui na ilha é comum que um homem ofere ça à
mulher amada um bracelete para que todos saibam que ela pertence a ele?
— Já ouvi falar dos braceletes usados pelos escravos. — Magoada e
assustada, respondeu com voz segura, já não se importando com a reação dele
diante da notícia de que sua protegida partiria em companhia de Kent.
— De certa forma o bracelete simboliza a escravidão dos corações dos
amantes. — A pressão dos dedos dele sobre o pulso de Yvain diminuiu um
pouco, sem desaparecer completamente. Os olhos negros pareciam penetrar
nela. — Isso é amor, minha pequena romântica. Os braços do amante nem
sempre são gentis, e a mulher que não está preparada para isso ainda não passa
de uma criança. — Correu os dedos por cada figura do, bracelete, examinando
uma a uma com cuidado. — Esse jovem americano gosta do incomum, do
encantamento. Será que é um presente de despedida, e não uma declaração de
amor, como eu pensei?
— Quando um americano ama uma moça, oferece a ela um anel. —
Livrou-se das mãos do marquês e levantou-se. — Já vou, señor. Kent está me
esperando.
— Onde ele vai esperá-la, Yvain? — Serviu-se de mais um pouco de café
com as mãos tão suaves para a música, mas tão indelicadas ao tocar uma
mulher.
— Na árvore grande da praia, onde ancora sua lancha.
— Vejo que escolheu um lugar romântico. — Olhou-a com um sorriso
suave como veludo. — Chamamos aquela árvore de "árvore do céu". Divirta-se,
nina. Vai à festa de despedida no iate?
— Vou, señor. — Cravou as unhas nas palmas das mãos. — Vai estar lá,
señor?
— A señora Grayson me convidou gentilmente. Vou sim, Yvain... que ro
conhecer seus amigos.
— Espero que o señor e Raquel gostem da festa. — Virou-se e correu
para encontrar Kent. O sol estava quente e a flor oferecida por don Juan exalava
um perfume delicioso. Yvain queria vestir a mantilha, como havia planejado, mas,
como tinha pressa de sair do castelo, desistiu da ideia. Estava ansiosa pela
companhia de Kent, tão simples, tão diferente dos espanhóis. Queria aproveitar
cada momento da festa, rir, brincar e não pensar no futuro.
Kent a esperava no lugar combinado, apoiado à árvore e fumando um
cigarro. Ela disse a si mesma que o ardor que sentia nos olhos era conse quência
do ar marinho, mais nada.
Desceu correndo a pequena trilha que conduzia à praia e atirou-se nos
braços abertos de Kent, que a abraçou com carinho.
— Esperou muito? — perguntou quase sem fôlego, os olhos marejados de
lágrimas.
— Esperaria todo o dia — respondeu ele, apaixonado. — Você parece ter
saído de um conto de fadas... está parecendo Rapunzel, que fugiu da torre para
se encontrar com o namorado. — Ele a envolveu nos braços e olhou-a nos olhos.

Livros Florzinha - 83 -
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— Temos só o dia de hoje, Yvain, ou teremos também amanhã e todos os outros


dias que virão?
— Vamos à festa e aproveitemos ao máximo o dia. — Não conseguia
expressar em palavras sua decisão, embora já houvesse decidido. — Não quero
perder nada.
Todos os balcões da cidade estavam enfeitados com flores e tapeçarias
bordadas e, de lá, as famílias assistiam ao desfile, vestidas com suas melhores
roupas de festa, rindo, tocando guitarras e jogando flores sobre a multidão que
se reunia nas ruas.
Os barcos pesqueiros, ornamentados com flores e fitas coloridas, flutua -
vam alegres na água tranquila. As mulheres e as moças ostentavam encan -
tadores vestidos azuis ou vermelhos e usavam colares e longos brincos que
cintilavam ao sol. Os leques agitavam-se como asas de seda ou renda, nas
mãos das mulheres que acompanhavam, cheias de admiração, seus homens de
roupas escuras e chapéus de abas largas. Alguns dos mais jovens usa vam
calças azuis ou vermelhas, e seus dentes muito brancos brilhavam como as
camisas imaculadas.
Os sinos continuavam tocando em meio aos risos e cantos da multidão. As
crianças corriam carregando buques de flores que mais tarde jogariam sobre as
moças escolhidas para a procissão de Adão e Eva. Em pequenas bancas,
vendiam-se doces, churros e a horchata, bebida típica da região.
A um canto da praça, ciganos dançavam ao som de seus instrumentos e,
da montanha, desciam carroças enfeitadas de flores, trazendo camponeses
vestidos com roupas alegres.
Tudo parecia um sonho brotado do passado, e Yvain, maravilhada, não
queria perder nenhum detalhe. Kent a colocou sobre a mureta de uma das casas,
de onde poderia avistar melhor o espetáculo. Ela sentia sob a mão o calor do
ombro de Kent, mas ao mesmo tempo seus olhos eram fortemente atraídos para
um dos balcões floridos do palácio da praça.
Lá estava don Juan, alto e belo, ao lado de Raquel e do señor Fonseca.
Raquel usava um vestido delicado de renda azul-clara e trazia sobre a cabe ça
uma mantilha bordada com pequeninas pedras brilhantes. O coração de Yvain
saltou no peito. Seu guardião tinha uma flor na lapela e Raquel parecia uma
noiva.
— É ele?
Ela olhou para os olhos azuis de Kent, desconcertada.
— É ele o seu guardião, aquele nobre tão imponente ao lado da bela
Raquel?
Ela fez um sinal afirmativo.
— É muito mais jovem do que eu imaginava. Ele e Raquel formam um
casal magnífico... mas quem é o outro espanhol ao lado deles, vestido como um
matador?
Yvain analisou o espanhol simpático, que realmente usava roupas de
toureiro, e acenava para a multidão. Lembrou-se de que Raquel certa vez havia
falado de um famoso toureiro que às vezes costumava visitar a ilha... para
cortejá-la, é claro.
Don Juan inclinou a cabeça e disse qualquer coisa ao ouvido de Raquel,
que sorriu, olhou para o toureiro e colocou a mão de leve sobre o braço do
marquês. Um raio de sol iluminou o bracelete de diamantes que Raquel trazia no
braço.

Livros Florzinha - 84 -
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Yvain afastou o olhar. Ainda naquela manhã o marquês lhe havia dito que
os homens da ilha costumavam oferecer à mulher amada um bracelete para que
todos soubessem que ela pertencia a ele. Raquel certamente havia escolhido um
de diamantes, porque ficavam bem nela, e don Juan devia tê-lo oferecido sem
hesitação.
De repente uma banda começou a tocar e um murmúrio de expectativa
correu pela praça. A procissão vinha vindo, e os pais colocavam as crian ças nos
ombros para que pudessem ver o desfile. Moças dançavam diante dos rapazes...
eternas Evas tentando os homens.
Yvain sentiu que lhe tocavam o bracelete de talismãs, mas não ousou olhar
para Kent. Aquela festa era a celebração do amor. A tentação pairava no ar e
sussurrava ao ouvido de Yvain que ela devia dizer a Kent que estava pronta a
partir com ele.
Estava a ponto de pronunciar as palavras decisivas quando foram chama -
dos por Bettina Grayson, que estava em companhia de vários amigos.
— Meus queridos, já faz horas que estamos procurando por vocês. Não é
linda a festa?
A procissão chegou até eles e uma chuva de pétalas caiu sobre Adão e
Eva e sobre os dançarinos. O que mais impressionou Yvain foi que o homem
escolhido para representar Adão já era maduro, ao contrário do que ela
esperava. A jovem Eva carregava um buque de flores brancas e uma cesta de
laranjas, frutas que o povo daquela região acreditava ser o símbolo da tentação.
Sorria para Adão e oferecia a ele uma laranja. Ele recusava enfaticamente e
sorria para a multidão, que caía na risada.
Quando Yvain olhou outra vez na direção do balcão do palácio, o prefei to e
seus acompanhantes já haviam entrado. À medida que a procissão se afastava, a
multidão começava a se desfazer em pequenos grupos. Yvain acompanhou os
Grayson e seus amigos, e o resto do dia foi como um sonho para ela.
Participou dos risos, das danças, comeu melões e churros e deixou que a
alegria tomasse conta dela, como numa tentativa de esquecimento. As ho ras
voaram e, quando as luzes coloridas começaram a brilhar, no porto, os Grayson
anunciaram que era hora de voltarem ao iate.
— Lá está o Blue Dolphin! — A caminho da lancha, Kent segurou o braço
de Yvain e apontou para o barco. As luzes coloridas já haviam sido acesas, e o
iate balançava na água escura como uma figura de sonho. Por um instante Yvain
deixou-se invadir pelo encantamento da cena, mas em seguida percebeu que
não teria forças para suportar mais música, mais vinho, mais alegrias falsas.
— Desculpe, Kent! — Puxou o braço com força e sentiu que o bracelete se
abria. Correu sem olhar para trás, até unir-se à multidão que assistia ao
espetáculo de fogos de artifício. Tinha ouvido Kent chamá-la, mas não se virou
nem por um instante. Não parou nem mesmo ao bater com força contra a mureta
do porto; continuou correndo, apesar da dor, sentindo que o bracelete já não
estava mais no seu braço. Já não ouvia mais a voz de Kent e desejou que ele a
perdoasse um dia por aquele comportamento irracional. Queria estar só! A ideia
de continuar sorrindo e demonstrando des preocupação por mais três ou quatro
horas parecia insuportável. Queria
sentir a brisa do mar batendo em seu rosto, mas não a bordo do iate.
Queria um pouco de alívio para o coração que havia doído durante todo o dia,
sob a máscara de despreocupação.

Livros Florzinha - 85 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Por fim parou, quase sem fôlego, e percebeu que estava sozinha na praia.
As luzes da cidade pareciam uma corrente de diamantes, à distância. Logo
começariam os fogos e ela poderia vê-los dali.
As estrelas brilhantes lançavam reflexos prateados sobre o mar, e a bele za
da noite tocou-a profundamente. Caminhou até a beira da água, onde as ondas
despejavam na areia pequeninas conchas e algas marinhas.
Sentiu um impulso súbito de sentir a carícia fresca da água na pele; tirou
os sapatos e as meias e entrou na água prateada. Mais calma, pensou na tolice
de preferir a solidão à dança, à música e à alegria.
Estava ali sozinha, na praia, quando poderia estar a bordo de um iate
deslumbrante, cortejada por um lindo jovem de olhos azuis. Ele sem dúvi da
ficaria zangado com ela por ter fugido sem uma explicação, e don Juan se
aborreceria quando as taças de champanhe se erguessem para desejar
felicidades a ele e a Raquel.
Tocou o ferimento do braço e perdeu-se outra vez em pensamentos tris tes.
Sentada de costas para as rochas escarpadas que subiam em direção à estrada,
não ouviu o ruído de um carro que se aproximava. À luz dos faróis, o motorista
avistou a moça de pés descalços parada à beira da água, triste e solitária.
O silêncio foi rompido por uma voz conhecida.
— Yvain... é você, nina?
Por um instante ela teve a impressão de que era o mar que a chamava,
como num sonho. Virou-se devagar e avistou uma figura alta parada atrás dela,
Ninguém mais no mundo tinha o poder de acelerar seu coração daquela maneira;
ninguém mais era capaz de dominá-la sem palavras, sen tindo seus desejos
ocultos antes mesmo que ela os percebesse.
— Don Juan!
Ouviu o ruído da bengala que batia nas rochas e percebeu que ele vinha
descendo na direção dela. Pensou que ele poderia perder o equilíbrio e cair nas
pedras, e sem pensar no que fazia correu para ele. Ele a esperava de braços
estendidos e envolveu sua cintura, ansioso; Yvain pousou as mãos de leve sobre
os ombros do seu protetor.
— É você!
— Sim. — Ela riu. — Quem mais podia ser, senão a doidínha da sua
protegida?
— Foi o que pensei. Quem mais pensaria em andar sozinha pela praia,
sem se importar com festas e com a ansiedade do seu protetor?
— Não pensei que fosse deixá-lo ansioso. — Seus olhos se encontra ram,
brilhantes. — Pensei que tivesse coisas mais importantes em que pen sar,
especialmente esta noite. Por que se preocuparia comigo?
— É mesmo, por quê? — o marquês brincou. Acariciou o cabelo de Yvain,
que tremeu de emoção àquele contato. — Está com frio, nina? Deve estar, assim
descalça. Onde estão seus sapatos e suas meias?
— Devem estar por aí. —- Apontou para um lugar vago da praia. —
Raquel não vai ficar zangada por tê-la deixado sozinha na festa?
— Por que Raquel se importaria? — Com as mãos sob os cabelos doura -
dos de Yvain, ele lhe acariciava a nuca.
— O bracelete que ela usava. Eu a vi na festa com o senhor... parecia
uma noiva.
— Logo ela será uma noiva.

Livros Florzinha - 86 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

Um calafrio desceu pela espinha de Yvain. Tentou se afastar dele, mas era
impossível.
— Sente ciúmes porque Raquel vai se casar? Gostaria de estar no lugar
dela?
— Não...
— Não? Meu ouriço-do-mar... — Um brilho divertido apareceu nos olhos
dele. — Raquel vai se casar com um toureiro que a perseguiu com tamanha
insistência que ela não foi capaz de resistir. Não lhe disse que mulher alguma
resiste ao ouvir de um espanhol a frase "te quiero"? Você
resiste?
— E quem me quer? — Yvain estava a ponto de desmaiar a qualquer
instante. Então era com o matador que Raquel ia se casar! Não era com o
marquês! Ele estava ali ao lado dela... provocando-a como se soubesse dos
sentimentos que ela alimentava em relação a ele. Sentiu raiva do tom brin calhão
com que era tratada.
— Fugi de Kent na frente dos amigos dele. E Rique descobriu que pas -
samos a noite juntos... melhor dizendo, descobriu que passei a noite com um
homem.
— Não contou a ele que esse homem era eu?
— Claro que não! Toda a ilha esperaria que o señor... se casasse
comigo.
— E você não gostaria disso... de se casar comigo?
— Don Juan... — De repente não conseguiu suportar mais o tormento. —
Quero ir embora... por favor, deixe-me ir!
— E para onde vai?
— Para Madri. Ou para a América, em companhia da sra. Grayson.
— É uma mulher muito simpática, mas depois de algum tempo você
estaria fazendo para ela os mesmos serviços que fazia para a señora San-dell, e
cada vez que o filho olhasse para você ela sentiria ciúme. Logo exigiria que a
pequena dama de companhia prendesse os cabelos num biro-te e usasse óculos.
Não! — Envolveu-a num abraço de ferro. — Não enquanto eu viver! Fique
comigo, Yvain. Sou obrigado a fazer de você uma mulher respeitada, lembra-se?
— Mas ninguém sabe... que era o senhor que estava comigo na casa da
mulher.
— Se não concordar em se casar comigo, farei com que toda a ilha saiba.
— Mas... por quê? — Mal conseguia falar, tamanha era a emoção.
— Como você é inocente! — Riu baixo. — Porque eu a quero. Porque para
mim você é tudo no mundo. Amo seu rosto inocente, a maneira como às vezes se
aproxima de mim e às vezes foge. No começo disse a mim mesmo que não tinha
o direito de querê-la, porque sou mais velho, porque tenho esta perna manca...
mas se não ficar comigo vai cair nas mãos de outra mulher dominadora. Não é
muito melhor ser dominada por um homem que a ama até a loucura?
— Eu? — sussurrou, sentindo que a terra tremia sob seus pés.
— Você, Yvain. Posso até aceitar que não me ame, no princípio, mas
pretendo ensiná-la a me amar. — Abraçou-a com mais força e passou à primeira
lição: um beijo apaixonado. — Te quiero, querida. Quero que seja minha
companheira. Para sempre. Para um espanhol estas palavras são absolutas.
— Mas um marquês não se casa com uma dama de companhia.
— Pois este faz exatamente o que quer. — O velho tom de arrogância
voltou à voz dele. — Você nasceu para viver em um castelo, Rapunzel... o

Livros Florzinha - 87 -
O Deus Solitário (Pilgrim’s Castle) Violet Winspear
Julia no. 58

castelo e eu esperamos durante muito tempo que você surgisse para nos
iluminar com sua juventude e alegria. Yvain, vai condenar o Leão a conti nuar
solitário?
— Não! — Abraçou com força e descansou o rosto de encontro ao peito
dele. — Se me quer, então sou sua. Não precisa me ensinar a amar... Juan. Se
às vezes fugi, foi porque queria muito me aproximar.
— Pensou que Raquel e eu íamos nos casar? — Acariciou os cabelos
dela.
— Vocês pareciam ter muito em comum.
— Muito, mas não amor, nina. — Ergueu o rosto dela e olhou-a daque la
maneira que sempre a deixava tonta. — Vamos voltar para o nosso castelo, nina
mia?
Ela fez um sinal afirmativo, sem falar, pois a emoção calava todas as
palavras. Pensou em Kent, que partiria no dia seguinte... sozinho. Ela con tinuaria
ali onde seu coração ansiava por estar, para sempre. Finalmente chegava ao lar,
e o lar era o castelo do amado don Juan,

FIM

Livros Florzinha - 88 -

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