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Interacionismo Simbólico: história, pressupostos e relação professor e

aluno; suas implicações


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Carmem Lúcia da Silva

RESUMO - O presente artigo é uma reflexão a partir dos pressupostos do Interacionismo Simbólico e de
pesquisas realizadas por diferentes estudiosos, dos comportamentos interativos de professores e alunos em
sala de aula. Como percurso metodológico, utilizou-se a pesquisa bibliográfica. Foi possível perceber que
as formas de interação simbólica, na relação professor e aluno, em diferentes situações, representam a
reprodução das desigualdades, a marginalização, o sucesso e o fracasso escolar. As expectativas dos
professores exercem influência considerável na dinâmica das relações e na aprendizagem.
Palavras-chave: Interações Simbólicas. Relação professor e aluno.

Symbolic Interactionism: history, assumptions and relationship


between teacher and student; implications

ABSTRACT - The present paper is a reflection over the assumptions from the Symbolic Interactionism and
the studies carried out by different researchers as well as teachers’ and students’ interactive behaviors in
the classroom. How route methodology, used to literature search. From which it was possible to
perceive that their ways of symbolic interaction, the relationship between teacher and student in different
situations represent the reproduction of disparities, marginalization, success and failure at school, and
teachers’ expectations influence considerably the dynamics of the relationship and the learning process.
Keywords: Symbolic Interactionism. Teacher-student relationship.

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Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.3, n.2, dez. 2012. 73


Introdução primária foi realizado por (SIROTA, 1994) a
partir da compreensão de que a dinâmica
No trabalho em tela refletiu-se acerca diária da instituição pode ser lida através de
das interações simbólicas nas relações tais aspectos. A autora considera que toda
professores e alunos em sala de aula a partir situação pedagógica é objeto de interação
dos estudos de (RIBEIRO e BREGUNCI, social. Nos processos interativos as práticas
1986) e (SIROTA, 1994). A análise dos dados recíprocas dos atores sociais em questão se
pautou-se pelos princípios da teoria do auto-determinam. Toda prática escolar é uma
Interacionismo Simbólico.
metáfora do conjunto de práticas sociais do
No livro Interações em sala de aula: indivíduo. Nesse sentido, cabe analisar
questões conceituais e metodológicas criticamente as diferentes facetas da interação
(RIBEIRO; BREGUNCI, 1986) esboçam em sala de aula.
sobre a importância da interação ser objeto No presente estudo, pretendeu-se
de estudo, na formação de professores em encontrar respostas para a questão: de que
virtude da efetiva aprendizagem se concretizar forma professores e alunos desenvolvem as
em indivíduos particulares a partir de suas interações simbólicas no contexto da sala de
interações. As autoras compreendem que se aula e quais são suas consequências? Para tanto,
encontra incluso nos aspectos interativos, em procurou-se identificar aspectos sobre como as
sala de aula a verdadeira democratização da interações simbólicas na relação professor e
escola. Apontam que a prática do professor aluno que foram desenvolvidas em sala de
encontra-se permeada em uma teia de aula.
“representações coletivas sobre o pedagógico.
Esta dimensão simbólica, porque revestida 2. Interacionismo simbólico e suas raízes
de cotidiano, está presente na consciência
No contexto histórico, o Interacionismo
como cenário, mas permanece inconsciente
Simbólico está diretamente ligado Georg
como ordem e lei” (RIBEIRO; BREGUNCI,
Herbert Mead (1863-1931), em um momento
1986, p. 14).
de plena expansão e consolidação da
Entretanto, de acordo com as autoras,
Sociologia com a implantação da
os processos interativos vêm sendo
Universidade de Chicago em 1890, havia
considerados como fatores intra-escolares e
perspectiva e objetivos de desenvolver ações
privilegiam, dessa forma, uma visão
em duas vertentes: pesquisa e ensino. Tal
unidirecional, deixando de lado a dimensão
situação era inovadora para a época.
política da educação. Chamam a atenção para
Geralmente as universidades trabalhavam
importância da prática política do professor
somente com o pilar do ensino. Nesse
que tem relação com sua competência técnica.
momento, foram realizados muitos trabalhos de
U m estudo aprofundado sobre as
pesquisa que marcaram a história. Esse
interações sociais no cotidiano da escola
conjunto de trabalhos ficou conhecido com o

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significativo nome de Escola de Chicago, que contempla a perspectiva de um trabalho
tem sua marca na pesquisa empírica, voltada com foco na transformação pela ação social, a
para resolver os problemas sociais concretos da partir da realidade dada. Em outras palavras,
sociedade. Vários estudos sobre os problemas conhecer, fazer parte da realidade na qual está
sociais da cidade de Chicago foram realizados, inserido e de posse desse conhecimento
dando especial atenção as questões relativas à empírico, promover ações para transformação
imigração. social, conhecida também como “filosofia da
Chicago reunia um quantitativo Intervenção Social”.
considerável de estrangeiros que tinham A teoria do Interacionismo Simbólico se
problema de adaptação à cidade. Nesse traduz na micro-análise3 das interações, ações
contexto, Georg Herbert Mead propôs que e reações entre os indivíduos em dada
pesquisadores fossem às ruas conversar com as realidade. No que tange às correntes teóricas,
pessoas e a partir daí, numa espécie de insight fica fácil reconhecer a inspiração
entenderiam como as ideias se davam nesses fenomenológica, pois “a análise vai incidir
grupos. mais sobre os modos de pensamento
É nessa realidade que nasce o construídos pelos atores – e sobre os termos
Interacionismo Simbólico. A partir do utilizados para interpretar o mundo, e a partir
entendimento de Georg Herbert Mead que “a dos quais atuam no mundo – do que as
consciência dos indivíduos se elabora por meio restrições estruturais e culturais.” (FORQUIM,
das interações e dos processos sociais” 1995, p. 268).
(COULON, 1995, p. 18). Dessa forma, para
compreender as causas que levam o indivíduo 2.1. Interacionismo Simbólico: questões
implícitas
a ter determinada conduta deve-se saber como
ele entende, lê, percebe a realidade.
Interação - reciprocidade é a palavra
Assim, Georg Herbert Mead2 nos anos
chave na definição de interação (Johnson,
20 e 30, organiza os quadros teóricos do
1997) e (Bueno, 1965). Assim, as dinâmicas
Interacionismo Simbólico, referenciado pelas
interativas4 verbais e não verbais do cotidiano
ideias do pragmatismo de John Dewey, que
do ser humano, que são permeadas de troca e
pressupõe uma “Filosofia da Ação” e
3
A primeira obra interacionista direcionada para a
educação é a de Willard Waller, publicada em 1932
2 (COULON, 1995).
Embora seja Mead o inspirador das ideas do
4
Interacionismo Simbólico, e por isso, tem seu nome De acordo com Watzlawick, Beavin e Jackson
ligado à sua fundação. O grande disseminador, (2002) “todo comportamento numa situação
considerado também referencial desse pensamento foi interacional, tem valor de mensagem, isto é,
Herbert Blumer (1900 - 1986). É ele quem designa à comunicação (...) por muito que o indivíduo se
teoria o nome pela qual ela ficou conhecida - esforce lhe é impossível não comunicar.” (p. 44-
Interacionismo Simbólico. Ele usou o termo pela
45). Em outras palavras, não existe o não
primeira vez em 1937 e “para muitos ele era o
Interacionismo Simbólico” ( FINE, 2005, p. 86). Para comportamento, toda e qualquer atitude possibilita
Blumer, o ser humano conhece as coisas pelos seus interpretações, nesse sentido, se o indivíduo decide
significados e esses são criados e modificados pela não conversar com alguém, está de toda maneira
interação social. enviando uma mensagem.

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permutabilidade são formas de interação. Há (OUTHWAITE e BOTTOMORE, 1996, p.
mecanismos subjacentes aos processos de 391). A interação social pode ser entendida
interação e assim uma distinção entre como parâmetro, matéria prima, para a
comportamento e ação é oportuna. De acordo definição da personalidade e da sociedade. A
com (Johnson, 1997), comportamento é algo “concepção interacionista considera a
amplo, geral, diz respeito a tudo que o personalidade e a sociedade como produtos da
indivíduo faz. Já ação é mais específica, pois interação social.” (SEMINÉRIO, 1986, p. 591)
se refere às atitudes que o indivíduo tem Mente - o termo mente é uma palavra
diante das situações, onde há intencionalidade, que tem sua origem no Latim “mens, mentis” e
tendo como referência o possível pensamento seu significado está relacionado ao intelecto à
que as demais pessoas possuem a seu respeito. compreensão, seria a “Faculdade da alma”
Assim, há uma tendência de o indivíduo agir a (BUENO, 1966, p. 2305). A concepção do
partir da ação realizada pelo outro. Interacionismo Simbólico “trabalha a mente
Processos interativos envolvem como o processo ou atividade interna que se
diferentes aspectos, indo além, das formas de baseia em símbolos (...). O pensamento se
comunicação verbal entre as pessoas. torna interação simbólica de si para si – daí a
Atividades e movimentos inter-relacionados importância dada aos processos simbolização,
de dois ou mais indivíduos, animais, rotulagem, definição (de si, de situação, etc.) e
objetos, máquinas, atos, ações, gestos, palavras atribuição de identidade.” (RIBEIRO e
e símbolos com que as pessoas „reagem umas BREGUNCI, 1986, p. 83). A mente seria o
as outras‟. Nesse sentido, a interação social veículo que interpreta as atitudes de outrem e
pressupõe a influência exercida entre os planeja através do processo reflexivo baseado
indivíduos em suas dinâmicas de comunicação nas ações e comportamentos (dos demais
(Outhwaite e Bottomore, 1996). A psicologia indivíduos) internalizados nas relações sociais.
social considera importante para a Dessa forma,
compreensão da interação social, a
comunicação não verbal, expressões faciais, mente é a inteligência reflexiva do animal
humano... Falamos de um ser humano pensando
troca de olhares, movimento corporal, uma coisa, ou tendo uma mente... Este é o ponto
em que aparece a mente ou, se preferirem,
comportamento espacial, extralinguístico etc. emerge, (...) quando o organismo pode mostrar
Interacionismo – é possível dizer que o significados para os outros e para si
próprio... a mente é essencialmente um
interacionismo está diretamente ligado às fenômeno social ... (MEAD, 1934 citado por
DEWEY, 1986, p. 743)
causas e consequências, dos comportamentos,
ações e reações interativas do cotidiano da A mente se revela no indivíduo pela sua

sociedade. A palavra “refere-se a um grupo de capacidade de compreensão, apreensão

teorias que tratam dos efeitos interativos, por reflexiva dos mecanismos simbólicos da

exemplo, do corpo e da mente, indivíduo e interação de outrem para “si” e de “si”5 para

sociedade, organismo e meio ambiente”


5
O conceito de “si” é trabalhado no ítem 2.2

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outrem. é o fator que pode desencadear outras ações.
Símbolos – palavras essenciais para a
Simbólico – representações do nosso
definição de símbolo são: significado e
cotidiano que denotam algum significado. A
representação. Logo, uma “pessoa, gesto,
palavra é proveniente do Latim “symbolicus” e
palavra, fórmula, sinal gráfico ou objeto
do grego “symbolikòs” e sua definição está
material” podem ser considerados símbolos
atrelada ao que “representa um símbolo, uma
desde que “tenha adquirido significado
figura, um sinal.” (BUENO, 1967 p. 3.746).
especifico e represente em um contexto
E sse sinal pode ser definido como as
cultural, um sentimento, ato ou atitude”
diferentes ações do indivíduo. Para (SILVA,
(WILLEMES, 1961, p. 306). Os símbolos
1987, p. 1.599) o termo simbólico nos remete
podem ser considerados de elevada
ao que “alegórico; metafórico”. Logo,
importância para uma sociedade, pois, neles
diferentes interpretações e relações podem ser
encontram-se implícitos, valores e cultura da
estabelecidas a partir dos comportamentos do
sociedade. Em outras palavras, trata-se de um
indivíduo. (BOUDON e BOURRICAUD,
patrimônio que guarda determinados valores e
1993, p. 489) esclarecem que “o termo
propicia a perpetuação da cultura da sociedade.
“simbólico” é empregado para designar os
“El símbolo está ligado por uma
aspectos muito diversos da vida social.”
correspondência analógica natural e por
Interacionismo Simbólico - pode-se
significación social com la realidad (...) mental
dizer que, o simbólico são as representações
o moral6.” (BIROU, 1968, p. 82).
metafóricas, hipotéticas que o indivíduo faz
Compreende-se, dessa forma, que os símbolos
das relações sociais. Os pressupostos básicos
possibilitam a construção dos significados a
dessa teoria são que os indivíduos agem com
partir das relações mentais estabelecidas,
base nos significados representativos de suas
em virtude de reflexões realizadas a respeito
interações sociais. O indivíduo através das
do comportamento dos diferentes indivíduos
leituras que faz de determinada atitude, ação
que convivem em determinado espaço.
ou comportamento de outrem, elabora
estratégias para seus comportamentos. Dessa
Mead vê no símbolo a mediação pela qual vários
indivíduos podem compreender-se, comunicar-se. forma, as conclusões daquilo que o indivíduo
A comunicação é definida inicialmente como
uma interação (...) entre atores sociais como um “vê” e “percebe” podem ser parâmetros
processo que cada um é capaz de colocar-se no
determinantes para as atitudes que ele terá em
lugar do outro. (BOUDON, 1993, p. 494)
determinado grupo social. Para compreender
Assim, a ação entre os atores torna-se os comportamentos desse indivíduo faz-se
repleta de sentidos para cada indivíduo e a necessário conhecer como ele enxerga a
capacidade de se situar na condição do outro sociedade, o que compreende como obstáculos
e como alternativas. Sem utilizar a expressão
6
O símbolo está ligado por uma correspondência
analógica natural e por significação social com a Mead elabora o conceito de interação
realidade (...) mental e moral”. (Tradução nossa) simbolicamente mediada (...) enfatizando o

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significado da autopercepção e da previsão do interior consigo mesmo, incluindo comentários
comportamento e demonstrando como essas sobre aquilo que experimenta de forma mais
coisas transformam meras expressões vocais em direta (JOHNSON, 1997 p. 144).
símbolos significativos. Sobre essa base ele
introduz uma visão transformada da estrutura da
personalidade e um novo conhecimento de mente. De outra forma, o mim é relacionado ao
A capacidade do indivíduo indicar algo de si
próprio e de interagir consigo mesmo é crucial aspecto do self no que tange aos
em ambos os casos. (OUTHWAITE e comportamentos do indivíduo na base social.
BOTTOMORE, p. 393)
Trata-se da dinâmica desenvolvida pelo ser
A abordagem do Interacionismo humano em interação com as pessoas, onde ele
Simbólico é pautada no entendimento de que é capaz de colocar-se como objeto, distanciar-
as atitudes diárias dos indivíduos na sociedade se de seu „comportamento‟ e compreendê-lo do
instalam “a ordem social como o resultado da ponto de vista do outro. Assim, o indivíduo
improvisação regulada”, marginais à conduz suas atitudes de acordo com as
compreensão de que as “estruturas sociais expectativas dos grupos a que pertence. A
pesam sobre os comportamentos cotidianos de partir desse princípio, controla esses
cada membro da sociedade” (FORQUIM, comportamentos e assume papéis de outras
1995, p. 267). pessoas. Para tanto, é indispensável possuir
autocontrole e a autoconsciência.
2.2. Principais pilares do Interacionismo Mead aborda o “si” como processo de
Simbólico: “self”, “mim”, “si” e “eu”. interiorização, trazer para dentro de si os
Self: é compreendido como um aspectos sociais de interação dos indivíduos
“processo dinâmico de ver e responder o com os grupos e, ao termo “mim” aspectos
próprio comportamento; supõe então, espelhar- relacionados a questões culturais e de valores
se como objeto e como objeto para o outro” e é que propiciam, aos agentes, definir seu
através da compreensão das categorias que desempenho, seu papel, na sociedade. O “eu”
englobam sua definição que se delineia o seria a percepção que se tem de si mesmo
esclarecimento do processo de “auto-colocação como um todo. Mead definiu que “o „eu‟ é a
humana em suas relações interpessoais.” resposta do organismo às atitudes dos outros, o
(RIBEIRO; BREGUNCI, p. 82) „mim‟ é o conjunto organizado de atitudes que
Em sua tradução para o português, self empresto aos outros. As atitudes dos outros
quer dizer indivíduo. Na concepção de Mead o constituem o „mim‟ organizado, e reagimos
self possui dois aspectos distintos: o eu e a perante isso como „eu‟”. (COULON, 1995, p.
mente. 20)
Observa-se que esses aspectos estão
O eu é pré-verbal e experimenta as coisas sem interligados e formam um espiral, ou um
a reflexão e o pensamento que a linguagem
são possíveis. Fome e sede, medo, dor, saciedade, círculo de interação. A partir de uma atitude há
quente, frio, desejo de contato humano.
uma reflexão e uma possível reação. O
[...] O aspecto do self que usa a mente para
refletir sobre si mesma Mead denominava de pensamento de Mead expõe o quanto os
mim. O mim usa a mente para conduzir o diálogo

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comportamentos do indivíduo podem ser existentes nos alunos que podem levar a efeitos
determinados pelo comportamento de outros na indesejáveis.
grande teia social. O hiper-reativo é aquele que, em sua
prática evidencia comportamentos de forma a
3. Expectativas dos professores e interações na ampliar as diferenças nos alunos. Em virtude de
prática pedagógica
tratá-los como se fossem mais diferentes do que
Segundo (LAPLANE, 2000), a visão do poderiam ser, efetivam ações em que visam à
professor sobre a sua função e sobre como a autorrealização. Evidencia-se, uma prática
criança aprende é parâmetro para sua expectativa arbitrária, pois, há uma tendência em desistir dos
a respeito do desempenho escolar dos alunos e alunos que não apresentavam bom desempenho
suas possibilidades de sucesso. ou conduta „desejável‟ e a favorecer os demais.
Na perspectiva de detectar quais são os Além da tendência de rotular os alunos,
efeitos das expectativas dos professores, Brophy apresentam comportamentos possíveis de serem
e Good citados por Ribeiro e Bregunci (1986) interpretados como a defesa do ego, tal aspecto
apontam três tipos de professores: pró-ativo, pode justificar sua vulnerabilidade a ações
reativo e hiper-reativo. respaldadas pelas expectativas.
O pró-ativo pauta-se por suas Ao se pensar na efetiva aprendizagem do
expectativas, que são flexíveis, e assim aluno é preciso se ter clareza de que o
suscetíveis de mudanças a partir do movimento
grande determinante do desenvolvimento
dos alunos, um referencial para sua prática intelectual seria mais uma questão de tipo de
interação entre os professores e seus alunos –
pedagógica. Planejam atendimento pelo tom de voz pela expressão oral, pelas
individualizado e adequado para os alunos e não posturas e pelo contato em geral, os professores
comunicam aos alunos (provavelmente de modo
possibilitam que tais expectativas interfiram em não intencional) suas expectativas de melhoria
de desempenho. (RIBEIRO e BREGUNCI, 1986,
seu trabalho de forma a distorcê-lo. p. 63)
O „reativo‟ pauta-se por suas expectativas
Ou seja, as expectativas que o professor
organizadas com muito cuidado. Elas são
tem com relação à melhoria de desempenho do
flexíveis. O reativo reage de acordo com o
aluno podem conduzir a “alterações do auto-
comportamento dos estudantes. Nas interações
conceito do aluno, de suas expectativas em
iniciadas por eles, há tratamento preferencial, de
relação ao próprio comportamento, de sua
acordo com sua expectativa e poucas diferenças
motivação e de suas habilidades cognitivas”.
nos contatos realizados pelo professor. O
(RIBEIRO e BREGUNCI, 1986 p. 52).
aluno é o fio condutor das interações, já que o
A “educação é, antes do mais, o meio pelo
controle ou padrão de interação é conduzido por
qual a sociedade renova perpetuamente as
eles, não há tentativa de compensar as diferenças
condições de sua própria existência.”
de comportamento dos alunos, em contrapartida,
(DURKHEIM, 1984, p. 69). Dessa forma, há de
não mostra uma reação excessiva às diferenças
se ter cuidado para que não haja privilégios pois,

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o espaço escolar não deve ser apenas o local sendo endossados pelos demais professores,
para que o rico possa aprender, mas promovendo-se um circulo vicioso.
principalmente para promover a horizontalidade Em pesquisa realizada por (SIROTA,
do edifício social. E, nesse processo o professor 1994) a autora detectou que os pedidos dos
tem papel fulcral. alunos considerados bons eram respondidos, pela
professora, três vezes mais do que para os
4. Interacionismo Simbólico: aspectos considerados "maus" alunos, que, por outro lado,
implícitos no contexto da sala de aula
eram mais provocados pela professora. O
professor ao agir dessa forma “não somente não
Rist citado por Ribeiro e Bregunci (1986)
estabelece o equilíbrio entre bons e maus alunos,
faz referência ao estudo realizado com as
mas acentua mais as diferenças de
mesmas crianças, desde o pré-primário até a
comportamento entre eles” (SIROTA, 1994, p.
segunda série em escolas de guetos americanos.
60). Os considerados maus alunos apresentavam
Foi detectado que desde os primeiros dias de aula
comportamentos diversos, saiam da sala de aula
a professora já demonstrava preferência por um
duas vezes mais, desligavam-se três vezes mais,
determinado grupo de alunos. De acordo com o
e conversavam mais. Os pedidos de intervenção,
autor, pelo menos quatro aspectos podem ter sido
por parte desses alunos, eram duas vezes menos
referência para a discriminação dos demais
frequentes, menos insistentes e raramente
alunos: a aparência física da criança, interações
espontâneos. Em contrapartida eles eram
entre as crianças e com a professora (eram
provocados por ela com maior frequência.
levados em conta a liderança e iniciativa em
Apesar de (SIROTA, 1994) indicar que o
contraposição dos mais retraídos), uso de
provocar mais os alunos o único indicador
linguagem com padrão adequado, em detrimento
referente às tomadas de palavra que seriam
ao uso de dialetos e, ainda, o conhecimento
favoráveis a esses alunos, faz-se necessário
antecipado pela professora de fatores sociais da
pontuar que, no contexto apresentado, o provocar
vida dos alunos.
do professor pode ter sido negativo, pois os
Ainda de acordo com Rist citado por
alunos não são respondidos em suas questões
Ribeiro e Bregunci (1986) a professora pertencia
pela professora, dessa forma, o diálogo não se
à (classe média) e esse aspecto era um referencial
efetiva e a construção do conhecimento a partir
para que ela privilegiasse determinados
das interações fica a desejar.
comportamentos dos alunos. Todas as
A autora analisa também, os
orientações da professora tiveram como
comportamentos interativos tendo como
parâmetro, as expectativas que tinha de
referência as classes sociais, partindo da
determinado grupo, com relação à sua
indagação: como nossos alunos se situam na
aprendizagem. Nesse processo, foi constatado
escola em função de suas classes sociais de
que os padrões de tratamento foram seguidos nos
origem? Constatou, em sua pesquisa que há uma
anos subsequentes e aqueles alunos que eram
diferença de comportamento dos filhos das
considerados bons, desde o início, continuaram

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classes populares e as demais. Tal aspecto fica respeito das conseqüências de suas ações. Ou
evidente na estatística de pedidos de intervenção seja, não se distanciam de seu comportamento,
de tomada de palavras, dos filhos, de quem não colocam suas ações como objeto de
possui condição social melhor, chega a ser o compreensão. Não praticam a ação, reflexão,
dobro. Da mesma forma, são respondidos em ação. Sequer fazem uma leitura crítica com o
alguns casos duas vezes mais que os demais. escopo de compreender as nuances da sociedade
Observa que, conforme sua origem social, os sala de aula. Dessa forma, ha uma aparente
alunos adotam comportamentos diferentes e dificuldade ou desinteresse em perceber que o
após análise profunda de diversos aspectos aluno proveniente da classe popular pode sentir-
conclui que “a fraca participação das crianças das se marginalizado mediante suas ações e, por isso,
classes populares e seu apagamento não reage e resiste. O aluno, que se sente
traduzem (...) um desinteresse, um marginalizado, não encontra significado para
desenvestimento em relação à escola primária acatar as normas, pois as ações do professor
(...), mas uma atitude reativa de defesa...” demonstram que esse aluno não faz parte da
(SIROTA, 1994, p. 106) sociedade.
Entretanto, o comportamento que esses Por outro lado, os alunos considerados
alunos apresentam pode prejudicá-los de maneira bons fazem uso do “mim” em suas interações,
significativa, pois, “na escola a interação é vista, pois conduzem suas atitudes de acordo com a
muitas vezes como indicador de sucesso ou do expectativa do professor e dos colegas da classe a
fracasso de propostas metodológicas e de que pertence. Esses alunos acatam as normas e
estratégias de ensino” (LAPLANE, 2000, p. 56). conduzem suas atitudes como em um movimento
Os resultados menos satisfatórios eram daqueles pré-estabelecido, para atingir as expectativas dos
alunos que participavam menos da aula. professores, que estão claras nas formas de
Tais questões podem indicar o “papel interação. As ações dos alunos considerados
catalisador do professor, promovendo uma série bons, são motivadas pelas ações dos professores
de interações, a partir das quais o aluno passa a que acabam por acentuar as diferenças.
realizar dentro da sala de aula, as expectativas Os considerados "maus" alunos fazem uso
que foram definidas em relação a ele” do self para refletir sobre, o que acontece na
(RIBEIRO; BREGUNCI, 1986 p. 69). interação do professor com o grupo a que
Entretanto, adverte que as questões pertinentes às pertence: parte marginalizada da classe e
expectativas não podem ser consideradas como elaboram estratégias de defesa. Fazem uso
determinante exclusivo do fracasso escolar. também do “eu”, em virtude de usarem a
À luz dos aspectos dos “self” apresentados percepção que têm deles mesmos a partir das
por Mead é possível dizer que os professores formas de interação que o professor utiliza. Indo
citados na pesquisa realizada por (RIBEIRO; além, perpassam também por um processo de
BREGUNCI, 1986) e (SIROTA, 1994) agem interiorização dos aspectos sociais dos
baseados no “eu” sem a devida reflexão a indivíduos da sua classe, com os outros grupos (a

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esse aspecto Mead chama de “si”) para
concluírem que são marginalizados.
Os comportamentos apresentados pelos Considerações finais
professores pesquisados representam parte
significativa do insucesso dos alunos em que se A sala de aula é um espaço onde o
revelam as interações simbólicas simbólico está presente de diferentes maneiras.
discriminatórias. A esses professores caberia, a Certamente há um desconhecimento ou a
reflexão sobre suas ações, entendida como resistência (por parte dos professores que tiveram
processo, assim como fazem os alunos das suas formas de interação, na relação com os
classes populares, que foram capazes de refletir a alunos analisados neste estudo) a respeito da
partir do tripé “eu”, “si” e “mim”. Contudo, os influência das interações no processo
alunos das classes populares estabeleceram pedagógico. Indo além, encontram-se implícitas
formas de interação que os prejudicam, pois nas interações realizadas, as relações de controle
interagiram de acordo com o esperado pelos e poder, já que o professor tem um papel a
professores e não com o que é desejável como desempenhar, objetivo e metas a conquistar.
desempenho e aprendizagem. Os alunos Assim, aspectos subjetivos das interações foram
provenientes das classes mais favorecidas deixados de lado.
interagem de acordo com o esperado e desejável Nos diferentes papéis de professor e aluno,
como desempenho e aprendizado. estão implícitas questões culturais e as ações dos
Os professores que fizeram parte da indivíduos, implicaram em reações. Cabe ao
pesquisa em questão, desenvolveram suas professor um olhar analítico às reações dos
interações baseadas nas percepções que possuem alunos, sejam verbais ou não-verbais, pois elas
dos alunos(as) que compõem o espaço da sala dizem muito e, ao professor atento e aberto,
de aula. Assim, a partir de suas expectativas, poderão servir de subsídio para a prática
sobre os alunos, acabam por endossar, uma pedagógica, no sentido de propiciar a
prática de privilégios para alguns e a legitimação aprendizagem de todos os alunos, indiferente de
das desigualdades para outros. Os símbolos classe social, raça, credo etc.
propiciam a perpetuação de determinados valores A formação continuada do professor é
e da cultura de uma sociedade. Dessa forma, as necessária e os aspectos simbólicos das
ações interativas apresentadas na relação interações na sala de aula, precisam ser objeto de
professor e aluno endossaram, reforçaram que a estudo e compreensão para que se possa ter
escola e a aprendizagem não é para todos. efetivamente uma educação igualitária e para
Apresentou-se o papel catalisador do professor. todos.

Referências Estela: I.E.P.A.L. 1968 p. 82.

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BIROU, Alain. LEXICO DE SOCIOLOGIA. François. Dicionário crítico de sociologia. São

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dicionário etimológico-prosódico da língua
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Artigo submetido em maio de 2012


Aceito em dezembro de 2012

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