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“Nós somos pedras”

[Trecho da sessão de perguntas da palestra de Luiz Branco, no III Evento do ICLS, em Foz do
Iguaçu, em 16 novembro de 2019]

[Transcrição feita por Fernando Klein, não revisada pelo professor]

[Uma menina da plateia havia perguntado se Luiz Branco tinha o cristianismo do


qual falava na palestra]

Gugu: Está iludido quem acredita ter sequer uma qualidade. Se São Francisco de
Assis estivesse diante de ti, e perguntasses a ele: "Padre Francisco, o senhor tem
o cristianismo do qual fala?". Ele te responderia: "Não.". A resposta dele não seria
fingimento, mas sim a opinião sincera de um santo que olhava para dentro de si.

Crescer na religião é o mesmo que crescer na consciência de nulidade; e também


é amar todas as oportunidades em que a virtude te é concedida — ver que
ganhaste de presente, num dado momento, a vontade de amar a Deus, ou de amar
os santos, ou de fazer o bem, vontade a qual, ao olhá-la, tu logo a amas, tu a
admiras, tu te tornas apaixonado por ela, mesmo sabendo que amanhã ela poderá
te largar.

São Francisco de Assis sabia disso, bem como os apóstolos, e também São
Bernardo de Claraval. Caso perguntasses a eles se tinham o cristianismo do qual
falavam, eles te responderiam que não, porque só Deus o tem. Uma pergunta
como essa não tem cabimento, porque deriva de uma concepção errada.

Talvez [dirigindo-se à menina que fez a pergunta] porque sejas jovem, ainda não
percebeste: aquilo que pensas serem tuas qualidades são somente coisas que
passam por ti, e que vêm de um lugar que não sabes de onde é, e que num
momento crucial da tua vida, elas irão te largar, e darás com a cara no chão. Então
dirás assim: "Caramba, eu pensei que possuísse aquela qualidade; onde ela está?
Já não sei...". Então aprenderás, e pedirás a Deus: "Não me abandones, senão
darei com a cara no chão. Porque eu não tenho qualidades...".

É insensato perguntar se alguém tem o cristianismo do qual fala. Um católico


deveria saber que Santa Teresa de Ávila dizia assim: "Tu não tens nenhum bom
pensamento que seja da tua autoria.". Nenhum é teu, porque nenhum te foi dado.
O que podes fazer é aplaudi-lo e amá-lo; aplaudir uma qualidade que passa por ti
— qualidade a qual, no entanto, nunca terás.
Como ser humano, precisas aprender três coisas sobre Deus nesta vida. Primeira:
não tens nada. Segunda: aprende a gostar das coisas que não tens — as qualidades
e virtudes —, aprende a amá-las. Terceira: aprende a reconhecer de onde elas
vêm. Só isso. Não precisas pensar em ti mesmo como um canal. Não és um canal,
és uma pedra. Nós somos pedras. Essa é a melhor virtude que um ser humano
pode ter: a consciência de que ele é uma pedra.

Quantas virtudes tem uma pedra? Alguma virtude ela tem. Tanto ela tem, que
aparecem nas Escrituras passagens como: "Aquela pedra era Cristo.", ou "...a
pedra angular.", ou "Sobre esta pedra fundarei minha igreja.".

É falacioso pensar em si como um canal voluntário, um veículo. Em última


análise, isso é mentira. Mentira, mentira, mentira.

Afinal, quem te deu a vontade de fazer? Se queres fazer algo, e Deus quer tirar tua
vontade de fazer, quem ganhará? Exatamente!

O que tens de ter consciência, então: não tens nenhuma qualidade; e é bom que
ames e aplaudas todas as qualidades e virtudes dos santos e de Deus. Se amardes
e aplaudirdes essas qualidades e virtudes, toda vez que elas passarem por ti, tu te
alegrarás, e as sentirás como um presente maravilhoso: elas passaram por ti, tu,
que não tens qualidade e virtude nenhuma.

Depois que te acostumares a ser uma pedra, e a considerar esta a melhor


qualidade que tens, não te enganarás mais; e se te acostumares a amar as
qualidades dos santos, então poderás perguntar: "De onde vêm essas qualidades?
O que dá existência a elas?". Isso é tudo que tu, como ser humano, podes fazer.

Tudo isso — reconhecer que és uma pedra, amar virtudes e qualidades, e


perguntar de onde elas vêm — são apenas estados de consciência. Só existem na
tua cabeça, não existem fora de ti. Não têm valor nenhum. Tudo o que podemos
fazer não tem valor nenhum. Mas é o que Deus nos mandou fazer.

Não és um canal, ninguém é um canal. Canal é o Canal de Suez, pelo qual passa
água. Ninguém é assim. Todo santo, quando perguntado:
— O senhor tem essa virtude?
Respondia:
— Não.
— Tem a santidade?
— Não.
— Tem o cristianismo?
— Não.
— Então o que o senhor tem?
— Tenho os meus pecados.

Todos eles, sem exceção. Se queres ser um bom cristão, um bom católico, enfia
isso na tua cabeça.

Há aquela passagem em que dizem ao Cristo "Somos filhos de Abraão.", e Jesus


replica "Não, vós sois filhos do demônio. Deus pode fazer destas pedras filhos de
Abraão, porém não pode fazer o mesmo de vós.". Do que Ele estava falando nessa
passagem?

A pedra não tem pretensão de ter qualidade nenhuma, de ser o que ela não é. O
ser humano tem que adquirir isso. Se chegares num mosteiro, achando que há
um monte de santos lá, e perguntares a um dos monges: "O senhor é santo?" —
perguntarás a ele, esperando que ele te responda: "Não."; para que possas dizer:
"Está bem, não tenho que te seguir, portanto; não tenho que te admirar. Pois se
não és santo, és como eu.".

Não me interessa saber, quando olho para o Luiz Branco, se ele tem o cristianismo
do qual fala. Porque eu também não o tenho. Interessa-me o seguinte: tudo o que
ele está me falando sobre a arte cristã tem muito sentido. Devo observar a arte
cristã que ele está fazendo. E se eu reconhecer que a arte que ele está fazendo é
melhor do que a minha, então tenho alguma coisa para aprender com ele. Se ele
tem o cristianismo do qual fala, ou a teoria da arte, etc., é melhor deixar que Deus
o julgue no Juízo Final.

Existe um engano nessa pergunta — e já a vi ocorrer muitas vezes. É como o


sujeito que chega a um padre que considera melhor do que outros para lhe
perguntar se ele é santo — não tem cabimento isso. Se acreditas que ele é santo,
que o Espírito Santo está passando por ele, deves amá-lo, perguntar-lhe como se
deve fazer as coisas, seguir seus conselhos e observar os resultados em ti mesmo.
Não perguntes a ele se ele tem a santidade. São João Evangelista, caso
perguntado, diria: "Não, meu filho, não tenho nada, sou só um pobre diabo.".
Todo e qualquer santo, em toda a história da humanidade, bem como toda pessoa
de virtude, caso perguntados se eram generosos, diriam que não. Se tens
consciência, dirás que não. Porque esta é a verdade sobre a nossa vida.

Não sei o que há no teu coração, não tenho "cardiognosis" [risos], o discernimento
para dizer o que guiará tua vida espiritual, estou aproveitando essa lição como
um benefício para todos.

Isso é de utilidade para todos. Tu, como ser humano, precisas aprender estas
coisas: primeira, que não tens nada, não sabes nada, não tens qualidade
nenhuma; a única coisa que podes ter é a consciência de que se te tornares como
uma pedra, caso Deus queira Ele te tornará um filho de Abraão; mas enquanto
fores tu mesmo, serás filho do demônio; segunda: que mesmo não tendo essas
qualidades, podes amar e admirar as qualidades santas e divinas; tu podes amá-
las com toda a tua força.

O sujeito não pode amar uma mulher que ele não tem? Ou ela amar um homem
que não tem? Pode. Não pode amar uma riqueza que não tem? Pode. Não pode
amar um conhecimento que não tem? Pode. Então tu podes amar uma santidade
e uma divindade que não tens.

Podes te acostumar e te treinar para fazer isso. Como? Lê as Escrituras, e sobre


as vidas dos santos, e fica a pensar e a compará-las com o teu comportamento —
aquilo irá gerando um amor em ti. Só não podes confundir com o seguinte, pensar
o seguinte: "Este amor irá vir, e eu irei tê-lo.". Não, não, não. Não tenhas ilusão.
Teu amor não é amor criativo, tu não és o criador. Mas talvez Deus olhe para o
teu amor e pense que seja bom passar por ali. Talvez Deus goste quando Ele olhar
para o teu amor. E talvez Ele passe uma qualidade por ali. E então farás algo
muito belo, algo muito virtuoso, piedoso, às vezes até mesmo algo santo, às vezes
até um milagre. Mas será algo que está passando por ti, passeando.

Não és um canal para aquilo. Ocasionalmente, Deus pode te usar como um canal,
porém não és um canal. Se fosses um canal, Deus estaria o tempo todo passando
por ali, e serias o tempo todo maravilhoso, santo e divino. Então, não és um canal.

Tu és, na melhor das hipóteses, uma pedra. Esse é o estado humano. Não deverás
mais te deixar confundir ou enganar a esse respeito; deverás amar todas as
virtudes dos santos, os milagres, as coisas divinas, os mistérios. Tanto o fará, que
cada vez que essas coisas se aproximarem de ti, tu te alegrarás, por terem
acontecido, pela tua mão ou pela mão de outro.
Se pensas ser um canal, ficarás chateado quando o outro for um canal melhor. Se
amas a virtude, não te importas se ela apareceu na tua vida pela tua mão ou pela
mão do vizinho. Porque é ela, a virtude, que tu amas. E se tens o hábito de vê-la e
de amá-la toda vez que tens a oportunidade, então poderás fazer a pergunta: "De
onde ela vem? Se tudo é pedra, de onde essas coisas vêm?". Aí começarás a
entender um pouco o que é Deus, santidade. Porque Deus, santidade, é a fonte do
que é bom, a fonte misteriosa do que é bom.

Mas enquanto atribuíres a qualquer coisa boa uma fonte que não é Deus, não
poderás conhecê-Lo. É disso que o Cristo estava falando quando dizia: "Por que
me chamas bom? Só Deus é bom.".

Ser um canal é bom. É bom ou não é? Ser um canal da virtude. Quem acha que
ser um canal da virtude é bom levanta a mão. Quem acha que ser um canal do
esgoto é ruim levanta a mão. [risos] Então, ser um canal é uma qualidade positiva,
é um bem, é algo bom. E o que Jesus Cristo falou sobre o que é bom? "Só Deus é
bom.".

Esse negócio de ser um canal é Deus quem está te dando também. Não és tu quem
é um canal. Está passando por ti o ato de ser canal. Tu és uma pedra. Não te
enganes. A tua real identidade é mineral. Não há nada de vergonhoso nisso,
porque é a nossa condição: Deus nos criou com essa identidade. Deus não nos
criou como anjos para então virarmos pedras, que ficaram assim por olhar para
a Medusa.

Deus nos criou como pedras. E criou os anjos também. Porém nos criou como
pedras. Aceita essa condição. Se queres ser maior, sê menor. As pedras,
consideras que elas são menos do que tu. Não há nenhuma pedra a qual pensas
que vale mais do que tu. Pensas que ela vale menos. Aceitar tua condição de pedra
é psicologicamente um rebaixamento. Na realidade, não é um rebaixamento,
porque é uma aceitação da verdade. Mas tu o sentes como um rebaixamento,
como uma humilhação, como uma diminuição.

E qualquer qualidade positiva, qualquer coisa boa, que seja melhor do que pedra
— por exemplo, a flor, que é bonita —, então é Deus que a está fazendo. É obra de
Deus, não é tua. Não te preocupes se ainda não vês que seja de Deus. Não te
preocupes, pois isso é a terceira coisa que podes fazer.
Primeiro aprende a amar e a aplaudir — que é o segundo estágio. O que acontece
é que, por amar e aplaudir os santos, ficas tu próprio envergonhado, porque não
tens aquelas qualidades. Então começas a inventar um jeito, uma teoria, segundo
a qual possas ter um pouco daquelas qualidades. Então te enganas quanto a ti
mesmo. E te afastas da santidade. Porque começas a acreditar que estás entre a
pedra e o santo, na metade do caminho.

Presta atenção: tu sempre serás uma pedra. É por isso que a Jerusalém que desce
do Céu é feita de pedra — como está no Apocalipse. Ela é toda feita de pedra. As
pedras de que a Jerusalém é feita são as pessoas que estão no Céu.

Então, me desculpe [dirigindo-se à menina que fez a pergunta], mas tu foste o


canal para que eu desse a resposta a todos.

Menina da plateia: Estou de acordo que somos pó, e ao pó iremos voltar. Só que
ao mesmo tempo é mencionado que Deus nos fez à Sua imagem e semelhança...

Gugu: "A pedra era Cristo", "Cristo é a pedra angular". Estás vendo? A pedra é a
imagem e semelhança do Cristo. São Paulo não havia dito: "A rocha que se guia
era o Cristo."; "O Cristo é a pedra angular."?

Não é na tua identidade psicológica, na tua vontade, no teu pensamento, que está
a imagem divina. É na tua identidade de pedra. A identidade mineral é a melhor
coisa que há em ti. Ela é o que Deus fez. O resto é, mais ou menos, tu que estás
fazendo. Quem achas que é melhor: Deus ou nós? Deus, exatamente. O que Deus
faz em nós é melhor do que aquilo que fazemos em nós.

Menina: Qual é o sentido de essa pedra estar ali?

Gugu: O sentido dessa pedra estar ali é aceitar que ela é pedra. O sentido da pedra
é ser pedra.

A aceitação da nossa condição diante de Deus é a única virtude que podemos ter.
Porque ela é um estado psicológico mais semelhante à identidade mineral — que
mais se parece com a pedra.
Todas as outras qualidades nos são dadas porque Deus pensa assim: "Ah que
chato que eles sejam só pedra, então tomem uma generosidade aí, tomem uma
humildade aí, tomem uma gratidão aí.". Ele nos passa essas qualidades porque
Ele é rico em qualidades, e generoso. Mas isso é algo gratuito, não faz parte da
nossa condição. Ele o faz porque Ele é bom.

É como na parábola: "Vocês são filhos de demônios. Essas pedras são filhos de
Abraão.". Tu não irás avançar na direção de ser filho de Abraão enquanto o teu
ponto de partida não for ser pedra.