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ASPECTOS POLÍTICOS DO PLENO EMPREGO (i)

Michael Kalecki

I
Uma maioria consolidada dos economistas já é da opinião de que, mesmo em
um sistema capitalista, o pleno emprego pode ser assegurado por um programa
de gastos do governo, desde que haja um plano adequado para empregar toda a
força de trabalho existente, e desde que a oferta de matérias-primas
estrangeiras necessárias possa ser obtida em troca de exportações.

Se o governo assume o investimento público (por exemplo, constrói escolas,


hospitais e estradas) ou subsidia o consumo de massa (por transferências às
famílias, pela redução dos impostos indiretos, ou subsídios para manter baixos
os preços dos bens de primeira necessidade), e se, além disso, essas despesas
são financiadas pelo endividamento e não pela tributação (o que poderia afetar
negativamente o investimento privado e o consumo), a demanda efetiva por
bens e serviços pode ser aumentada até um ponto em que o pleno emprego seja
alcançado. Este gasto governamental aumenta o emprego, note-se, não só
diretamente, como também indiretamente, uma vez que os rendimentos mais
elevados dele resultantes implicam em um segundo aumento na demanda por
bens de consumo e de investimento.

Pode-se perguntar, de onde o público vai tirar o dinheiro para emprestar


para o governo se não reduzir o seu investimento e consumo. Para entender
esse processo, é melhor, penso eu, imaginar por um momento que o governo
paga seus fornecedores em títulos públicos. Os fornecedores, em geral, não
reterão esses títulos, mas os colocarão em circulação enquanto compram outros
bens e serviços, e assim por diante, até que finalmente esses títulos atingirão
pessoas ou empresas que os manterão como ativos remunerados. Em qualquer
período de tempo, o aumento total de títulos públicos em poder (transitório ou
definitivo) de pessoas e empresas será igual ao dos bens e serviços vendidos ao
governo. Assim, o que a economia empresta ao governo são bens e serviços
cuja produção é “financiada” por títulos do governo. Na realidade, o governo
paga pelos serviços, não em títulos, mas em dinheiro, mas ele emite títulos
simultaneamente e assim retira de circulação o dinheiro; e isto é equivalente ao
processo imaginário descrito acima.
O que acontece, no entanto, se o público não estiver disposto a absorver
todo o aumento de títulos públicos? O governo os oferecerá, por fim, para os
bancos para obter dinheiro (papel-moeda ou depósitos) em troca. Se os bancos
aceitarem essas ofertas, a taxa de juros será mantida. Se não, os preços dos
títulos vão cair, o que significa um aumento na taxa de juros, e isso vai
incentivar o público a deter mais títulos em relação aos depósitos. Segue-se que
a taxa de juros depende da política bancária, da do banco central em particular.
Se esta política visa manter a taxa de juros em um determinado nível, isto pode
ser facilmente alcançado, independente do endividamento do governo. Essa foi e
é a posição na presente guerra. Apesar dos deficits orçamentários astronômicos,
a taxa de juros não mostrou qualquer aumento desde o início de 1940.

Pode-se objetar que os gastos públicos financiados pelo endividamento


causarão inflação. Para isso, pode ser respondido que a demanda efetiva criada
pelo governo age como qualquer outro aumento de demanda. Se há oferta
suficiente de trabalho, plantas e matérias-primas estrangeiras, o aumento da
demanda é atendido por um aumento na produção. Mas, se o ponto de pleno
emprego dos recursos é atingido e a demanda efetiva continua a aumentar, os
preços subirão, de modo a equilibrar a demanda e a oferta de bens e serviços.
(No estado de sobre-emprego de recursos, como o que testemunhamos
atualmente na economia de guerra, um aumento inflacionário dos preços tem
sido evitado apenas na medida em que a demanda efetiva por bens de consumo
é contida pelo racionamento e pela taxação direta). Segue-se que, se a
intervenção governamental tem como objetivo atingir o pleno emprego, mas
freia um pouco antes da demanda efetiva ultrapassar a marca de pleno
emprego, não há necessidade de ter medo da inflação.

II
A descrição acima é uma definição muito simples e incompleta da doutrina
econômica de pleno emprego. Mas é, penso eu, suficiente para familiarizar o
leitor com a essência da doutrina e assim permitir-lhe acompanhar a discussão
posterior dos problemas políticos envolvidos na realização do pleno emprego.

Em primeiro lugar deve se afirmar que embora a maioria dos economistas


agora concordem que o pleno emprego pode ser alcançado pelos gastos do
governo, este de modo algum foi o caso, mesmo no passado recente. Entre os
opositores dessa doutrina existiam (e ainda existem) proeminentes e
autointitulados “especialistas econômicos” estreitamente ligados à banca e à
indústria. Isso sugere que há um fundo político na oposição à doutrina do pleno
emprego, mesmo que os argumentos apresentados sejam econômicos. Isso não
quer dizer que as pessoas que desenvolvem essas teorias não acreditam em sua
economia, por mais lamentável que isso seja. Mas a ignorância obstinada
geralmente é uma manifestação de motivações políticas subjacentes.

Há, no entanto, indicações ainda mais diretas de que uma questão política de
primeira categoria está em jogo aqui. Na grande depressão na década de 1930,
as grandes empresas sempre se opuseram aos experimentos de aumento do
emprego pelos gastos do governo em todos os países, exceto a Alemanha
nazista. Isto pôde ser visto claramente nos EUA (oposição ao New Deal), na
França (o experimento Blum), e na Alemanha antes de Hitler. A atitude não é
fácil de explicar. Claramente, uma maior produção e emprego beneficia não só
os trabalhadores, mas também os empresários porque seus lucros aumentarão.
E a política de pleno emprego descrita acima não colide com os lucros, porque
não envolve nenhuma tributação adicional. Os empresários diante de uma
recessão anseiam por uma retomada; porque é que eles não aceitam de bom
grado a retomada sintética que o governo é capaz de oferecer-lhes? É esta
questão difícil e fascinante que pretendemos tratar neste artigo.

As razões para a oposição dos “líderes industriais” ao pleno emprego


alcançado via gastos do governo podem ser subdivididos em três categorias: (i)
não gostam da interferência do governo no problema do emprego como tal; (ii)
não gostam da direção dos gastos do governo (o investimento público e o
consumo subsidiado); (iii) não gostam das mudanças sociais e políticas
resultantes da manutenção do pleno emprego. Vamos examinar em detalhe cada
uma dessas três categorias de restrições a uma política governamental
expansionista.

Vamos lidar primeiro com a relutância dos “capitães da indústria” em aceitar


a intervenção do governo na questão do emprego. Cada alargamento da
atividade estatal é encarado pelo mercado com suspeita, mas a criação de
emprego via gastos públicos tem um aspecto especial que faz com que a
oposição seja particularmente intensa. Sob um sistema de livre mercado, o nível
de emprego depende, em grande medida, do chamado estado de confiança. Se
isso se deteriora, reduz-se o investimento privado, o que resulta numa queda da
produção e do emprego (tanto diretamente como através do efeito secundário
da diminuição dos rendimentos sobre consumo e investimento). Isto dá aos
capitalistas um poderoso controle indireto sobre a política governamental: tudo o
que pode abalar o estado de confiança deve ser evitado porque isso causaria
uma crise econômica. Mas uma vez que o governo descobre o truque de
aumentar o emprego por suas próprias compras, este dispositivo de controle
poderoso perde a sua eficácia. Daí déficits orçamentários necessários para
realizar a intervenção do governo devem ser considerados perigosos. A função
social da doutrina das “finanças saudáveis” é fazer com que o nível de emprego
dependa do estado de confiança.

A antipatia de líderes empresariais para uma política de gastos do governo se


torna ainda mais aguda quando eles consideraram o objeto em que o dinheiro
seria gasto: o investimento público e o subsídio ao consumo de massas.

Os princípios econômicos da intervenção governamental exigem que o


investimento público deva limitar-se a objetos que não concorram com os
equipamentos das empresas privadas (por exemplo, hospitais, escolas,
autoestradas). Caso contrário, a rentabilidade do investimento privado pode ser
prejudicada, e os efeitos positivos do investimento público sobre o emprego
neutralizados pelo efeito negativo do declínio do investimento privado. Essa
concepção se adapta muito bem aos empresários. Mas o espaço para o
investimento público deste tipo é bastante estreito, e há o perigo de que o
governo, na prossecução desta política, pode, eventualmente, ser tentado a
nacionalizar os transportes ou serviços de utilidade pública, de modo a ganhar
uma nova esfera de investimento.

Poderia se esperar, portanto, que os líderes empresariais e seus especialistas


fossem mais favoráveis aos subsídios ao consumo de massa (por meio de
transferências às famílias, subsídios para manter baixo os preços dos bens de
primeiras necessidades, etc.) do que ao investimento público; uma vez que
subsidiando o consumo o governo não embarcaria em qualquer tipo de
empreendimento. Na prática, no entanto, este não é o caso. Na verdade, a
oposição feita por esses especialistas ao subsídio ao consumo de massa é muito
mais violenta que ao investimento público. Por aqui um princípio moral da maior
importância está em jogo. Os fundamentos da ética capitalista requerem que
“você deve ganhar o seu pão no suor”, a menos que você tenha meios privados.
Nós consideramos as razões políticas para a oposição à política de criação de
emprego vias gastos governamentais. Mas, mesmo que esta oposição fosse
superada – como pode muito bem ocorrer sob a pressão das massas – a
manutenção do pleno emprego causaria mudanças sociais e políticas que dariam
um novo impulso para a oposição dos líderes empresariais. Com efeito, sob um
regime de pleno emprego permanente, a demissão deixaria de desempenhar o
seu papel enquanto “medida disciplinar”. A posição social do patrão seria
prejudicada, e a autoconfiança e consciência de classe da classe trabalhadora
cresceria. As greves por aumentos salariais e melhorias nas condições de
trabalho criariam tensão política. É verdade que os lucros seriam mais elevados
sob um regime de pleno emprego do que são, em média, nos termos do livre
mercado, e até mesmo o aumento dos salários decorrente do maior poder de
barganha dos trabalhadores é menos propenso a reduzir os lucros do que para
aumentar preços, e, portanto, afeta negativamente apenas os interesses
rentistas. Mas a “disciplina nas fábricas” e a “estabilidade política” são mais
apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais. Seu instinto de classe
lhes diz que um pleno emprego duradouro é inaceitável a partir do seu ponto de
vista, e que o desemprego é uma parte integrante do sistema capitalista
“normal”.

III
Uma das funções importantes do fascismo, como tipificado pelo sistema
nazista, foi remover as objeções capitalistas ao pleno emprego.

A aversão a política de gastos do governo, como tal, é superada sob o


fascismo pelo fato de que a máquina do Estado está sob o controle direto de
uma parceria das grandes empresas com o fascismo. A necessidade do mito das
“finanças saudáveis”, que servira para impedir o governo de causar uma crise de
confiança devido aos gastos públicos, é removida. Em uma democracia, não se
sabe como será o próximo governo. Sob o fascismo não há próximo governo.

A antipatia aos gastos do governo, seja em investimento público ou


consumo, é superada pela concentração dos gastos governamentais em
armamentos. Finalmente, a “disciplina nas fábricas” e a “estabilidade política”
sob o pleno emprego são mantidas pela “nova ordem”, que varia de supressão
dos sindicatos aos campos de concentração. A pressão política substitui a
pressão econômica do desemprego.

O fato do armamento ser a espinha dorsal da política de pleno emprego


fascista tem uma profunda influência sobre o caráter desta política econômica.
Armamentos em larga escala são inseparáveis da expansão das forças armadas
e da preparação de planos para uma guerra de conquista. Eles também induzem
o rearmamento competitivo de outros países. Isso faz com que o objetivo
principal do dispêndio mude gradualmente do pleno emprego para maximizar o
rearmamento. Como resultado, o emprego se torna excedente. Não só é o
desemprego abolido, mas uma aguda escassez de mão de obra prevalece.
Gargalos surgem em todas as esferas, e estes devem ser tratados através da
criação de inúmeros de controles. Tal economia tem muitas características de
uma economia planificada, e às vezes é comparada, ainda que ignorantemente,
com o socialismo. No entanto, este tipo de planejamento tende a aparecer
sempre que uma economia se estabelece uma alta meta de produção numa
esfera particular, quando se torna uma economia especializada da qual a
economia armamentista é um caso especial. Uma economia armamentista
envolve uma redução do consumo em comparação com o que poderia ocorrer
sob o pleno emprego.

O sistema fascista começa a partir da superação do desemprego,


desenvolve-se numa economia de armamentista de escassez, e termina,
inevitavelmente, em guerra.

IV
Qual será o resultado prático da oposição a uma política de pleno emprego
pelos gastos do governo em uma democracia capitalista? Vamos tentar
responder a esta questão com base na análise das razões para essa oposição
dadas na seção II. Nós discutimos lá que podemos esperar a oposição dos
líderes do setor em três planos: (i) a oposição por princípio aos gastos do
governo com base em um déficit orçamentário; (ii) a oposição ao
direcionamento deste dispêndio tanto para o investimento público – o que pode
prenunciar a intromissão do Estado em novas esferas da atividade econômica –
ou no sentido de subsidiar o consumo de massa; (iii) a oposição a manutenção
do pleno emprego e não apenas a prevenção de depressões profundas e
prolongadas.

Agora deve-se reconhecer que a fase em que “os líderes empresariais”


poderiam se dar ao luxo de ser oposição a qualquer tipo de intervenção do
governo para aliviar a depressão é mais ou menos passado. Três fatores
contribuíram para isso: (i) muito pleno emprego durante a presente guerra; (ii)
desenvolvimento da doutrina econômica do pleno emprego; (iii) em parte como
resultado desses dois fatores, o slogan “O desemprego nunca mais” agora está
profundamente enraizado na consciência das massas. Esta posição reflete-se nos
recentes pronunciamentos dos “capitães da indústria” e seus especialistas. A
necessidade de que “algo deve ser feito na depressão” é consensual; mas a luta
continua, em primeiro lugar, quanto ao que deve ser feito na depressão (ou
seja, o que deveria ser a direção da intervenção do governo) e em segundo
lugar, que isso deveria ser feito apenas na depressão (ou seja, apenas para
aliviar recessões em vez de garantir permanentemente o pleno emprego).

Nas discussões atuais destes problemas surge, uma vez ou outra, a


concepção de se combater a depressão estimulando o investimento privado. Isto
pode ser feito através da redução da taxa de juros, pela redução do imposto de
renda, ou subsidiando o investimento privado diretamente nesta ou em outra
forma. Que tal esquema deva ser atraente para o mercado não é surpreendente.
O empresário continua a ser o meio através do qual a intervenção é conduzida.
Se ele não sentir confiança na situação política, ele não vai ser subornados para
investir. E a intervenção não envolve o governo, seja na “brincadeira com” o
investimento (público), seja no “desperdício de dinheiro” com subsídios ao
consumo.

Pode ser demonstrado, no entanto, que o estímulo ao investimento privado


não fornece um método adequado para evitar o desemprego em massa. Há duas
alternativas a serem consideradas aqui. (i) Ou a taxa de juros ou o imposto de
renda (ou ambos) são reduzidos drasticamente na recessão e aumentados no
crescimento. Neste caso, tanto o período quanto a amplitude do ciclo de
negócios serão reduzidos, mas o pleno emprego pode estar distante não só na
depressão, mas mesmo durante o crescimento, ou seja, a média de desemprego
pode ser considerável, embora suas flutuações sejam menos notadas. Ou a taxa
de juros ou o imposto de renda são reduzidos em uma recessão, mas não
aumentam no crescimento subsequente. Neste caso, o crescimento vai durar
mais tempo, mas deverá acabar em uma nova crise: uma redução na taxa de
juros ou de imposto de renda não eliminam, é claro, as forças que causam as
flutuações cíclicas em uma economia capitalista. Na nova recessão será
necessário reduzir novamente a taxa de juros ou o imposto de renda e assim por
diante. Assim, em um futuro não muito distante, a taxa de juros teria que ser
negativa e o imposto de renda teria de ser substituído por um subsídio de renda.
O mesmo ocorreria se se tentasse manter o pleno emprego estimulando o
investimento privado: a taxa de juros e imposto de renda teriam de ser
reduzidos de forma contínua.

Além dessa fraqueza fundamental da luta contra o desemprego através do


estímulo ao investimento privado, há uma dificuldade prática. A reação dos
empresários às medidas descritas é incerta. Se a desaceleração é aguda, eles
podem ter uma visão muito pessimista do futuro, e a redução da taxa de juros
ou do imposto de renda pode, então, por um longo tempo, ter pouco ou nenhum
efeito sobre o investimento e, portanto, sobre o nível de produção e emprego.

Mesmo aqueles que defendem o incentivo ao investimento privado para


enfrentar a recessão frequentemente não confiam exclusivamente nisso, mas
preveem que este incentivo deve ser feito conjuntamento com o investimento
público. Olha-se para o presente como se os líderes empresariais e seus
especialistas (pelo menos alguns deles) tendessem a aceitar como um mal
menor o investimento público financiado pelo endividamento do Estado como
forma de aliviar recessões. Eles parecem, no entanto, ainda se oporem
consistentemente à criação de emprego através de subsídios ao consumo e à
manutenção do pleno emprego. Este estado das coisas é talvez sintomático do
futuro regime econômico das democracias capitalistas. Na recessão, quer sob a
pressão das massas, ou até mesmo sem ela, o investimento público financiado
por endividamento do Estado serão realizados para evitar o desemprego em
grande escala. Entretanto, se forem feitas tentativas de aplicar este método com
o propósito de manter o alto nível de emprego alcançado com a retomada do
crescimento posterior, é bem provável que seja encarada uma forte oposição
dos líderes empresariais. Como já foi discutido, pleno emprego duradouro não é
de todo o seu grado. Os trabalhadores sairiam do “controle” e os “capitães da
indústria” ficariam ansiosos para “ensinar-lhes uma lição”. Ademais, o aumento
de preços na retomada é uma desvantagem dos pequenos e grandes rentistas, e
torna-os “cansados de crescimento”.

Nesta situação, uma poderosa aliança é provável de se formar entre as


grandes corporações e os interesses rentistas, e que provavelmente há de se
encontrar mais de um economista para declarar que a situação era
manifestamente frágil. A pressão de todas essas forças, e em particular das
grandes corporações – como regra, influentes em setores do governo – muito
provavelmente induzirá o governo a voltar para a política ortodoxa de reduzir o
deficit orçamentário. A recessão se seguiria quando a política de gastos do
governo voltaria a ser valorizada.

Este padrão de um ciclo de negócios político não é totalmente conjuntural;


algo bastante similar ocorreu nos EUA em 1937-8. A derrubada do crescimento
na segunda metade de 1937 foi na realidade causada pela drástica redução do
deficit orçamentário. Por outro lado, na recessão aguda que se seguiu, o
governo imediatamente reverteu para uma política de gastos.

O regime do ciclo de negócios político seria uma restauração do artificial da


posição existente no capitalismo do século dezenove. O pleno emprego só seria
alcançado no topo do crescimento, porém as recessões seriam relativamente
suaves e curtas.

V
Deveria um progressista ficar satisfeito com o ciclo de negócios político da
forma como descrito na seção anterior? Acho que a isto deveríamos nos opor
em dois níveis: (i) que isto não assegura um pleno emprego duradouro; (ii) que
esta intervenção governamental está associada ao investimento público que não
abarca o subsídio ao consumo. O que as massas demandam agora não é a
mitigação da recessão, mas sua abolição total. Nem deveria a consequente
utilização mais completa dos recursos ser feita em investimentos públicos não
desejados apenas para gerar emprego. O programa de gastos governamentais
deveria estar dedicado apenas ao investimento público de fato necessário. O
resto do gasto público necessário para manter o pleno emprego deveria ser
usado para subsidiar o consumo (através de transferências às famílias, pensões
e aposentadorias, redução dos impostos indiretos e subsídios aos bens de
primeira necessidade). Os opositores deste tipo de gasto governamental alegam
que o governo não terá, então, nenhuma contrapartida ao seu dinheiro. A
resposta é que a contrapartida deste dispêndio é o maior padrão de vida das
massas. Este não é propósito de toda a atividade econômica?

“O capitalismo do pleno emprego” claramente evoluirá para novas


instituições políticas e sociais que refletirão o crescente poder da classe
trabalhadora. Se o capitalismo puder se ajustar ao pleno emprego, uma reforma
fundamental terá sido incorporada nele. Caso contrário, se mostrará um sistema
ultrapassado que deverá ser descartado.

Entretanto, lutar pelo pleno emprego pode levar ao fascismo? Talvez o


capitalismo se ajuste ao pleno emprego no caminho? Isto parece extremamente
improvável. O fascismo surgiu na Alemanha diante de um cenário de
desemprego tremendo, e se manteve no poder assegurando o pleno emprego
enquanto a democracia capitalista fracassou neste objetivo. A luta das forças
progressistas pelo emprego de todos é ao mesmo tempo uma maneira de se
prevenir a reincidência do fascismo.

Notas:

(i) Este artigo corresponde aproximadamente a uma palestra dada à Sociedade


Marshall em Cambridge na primavera de 1942.

(ii) Outro problema de natureza mais técnica é o da dívida nacional. Se o pleno


emprego é mantido por gastos do governo financiados por empréstimos, a dívida
nacional aumentará continuamente. Isso não precisa, no entanto, envolver
quaisquer perturbações na produção e no emprego se os juros da dívida forem
financiados por um imposto anual sobre o capital. A renda corrente, após o
pagamento do imposto sobre o capital, de alguns capitalistas será menor, e de
outros maior, do que se a dívida nacional não tivesse aumentado, mas o seu
rendimento global permanecerá inalterado e seu consumo agregado não será
suscetível a mudanças significativas. Além disso, a propensão para investir em
capital fixo não é afetada por um imposto sobre o capital, porque ele é pago
sobre qualquer tipo de riqueza. Se uma determinada quantia está em dinheiro
ou títulos do governo ou investida na construção de uma fábrica, o mesmo
imposto sobre o capital é pago sobre ela e, assim, a vantagem comparativa é
inalterada. E se o investimento é financiado por empréstimos é evidente que não
é afetado por um imposto sobre o capital se não significar um aumento da
riqueza do empresário investidor. Assim, nem o consumo capitalista nem o
investimento é afetado pelo aumento da dívida nacional se seus juros forem
financiados por um imposto anual sobre o capital. (Veja mais em Kalecki, M. “A
Theory of Commodity, Income, and Capital Taxation” in: Kalecki, M. Selected
Essays on the Dynamics of the Capitalist Economy 1933-1970, Cambridge
University Press, 1971)

(iii) Deve-se notar aqui que o investimento em uma indústria nacionalizada pode
contribuir para a solução do problema do desemprego apenas se for realizada
em princípios de retorno diferentes daqueles da iniciativa privada, ou deve
deliberadamente temporizar o seu investimento de modo a mitigar aqueles da
iniciativa privada. O governo deve estar satisfeito com uma menor taxa líquida
de falências.

(iv) Uma demonstração rigorosa encontra-se no artigo publicado em Kalecki, M.,


“Full Employment by Stimulating Private Investment?” In: Oxford Economic
Papers. (1945) os-7 (1): 83-92

RESUMO PARA APRESENTAÇÃO

III
Uma das funções do fascismo é eliminar as objeções capitalistas ao pleno
emprego. Porque neste caso o estado tem controle direto das parcerias com
grandes empresas.

Então, o governo mantem a disciplina das fábricas acabando com sindicatos,


criando campos de concentração. Acaba que a pressão política substitui a
pressão econômica do desemprego.
A política econômica do fascismo é dominada pelo armamento em larga escala,
isso faz com que os gastos do governo vão mudando gradualmente do pleno
emprego para uma maximização do rearmamento, isso faz com que o emprego
se torne excedente, começa a ter falta de mão de obra.

Uma economia armamentista acaba envolvendo redução do consumo geral da


população, se comparado ao pleno emprego.

Então basicamente a economia fascista começa superando o desemprego, vira


uma economia armamentista de escassez e acaba terminando em guerra, estar
em guerra é o que mantem de certa forma o sistema fascista.

IV
A autor analisa qual como os empresários reagiriam numa política de pleno
emprego propsta pelo governo numa democracia capitalista durante uma
recessão

A necessidade de que algo deve ser feito durante a recessão é consensual, mais
tem debates sobre o que deve ser feito e se deveria ser feito somente na
depressão (Ou se deveria se garantir pleno emprego permanentemente)

Um dos métodos apresentados pelo autor pra combater a depressão


estimulando investimento privado, com redução da taxa de juros, ou redução do
imposto de renda, ou subsidiando o investimento privado.

Isso é atrativo pro mercado, porque o empresário continua sendo o meio pelo
qual a intervenção acontece, pq se ele não sentir confiança no governo ele não
vai investir.

Só que o investimento privado não oferece um método mto bom para evitar
desemprego em massa. Ai o autor dá um exemplo com duas situações:

(1) ou a taxa de juros ou o imposto de renda são muito reduzidos na recessão e


depois eles aumentam quando a economia cresce. Neste caso, o período e a
amplitude dos ciclos de negócios seriam reduzidos, mas o pleno emprego
poderia estar distantes não só na depressão, mas mesmo durante o crescimento
(2) ou a taxa de juros e o imposto de renda são reduzidos na recessão, mas não
aumentam quando ocorre o crescimento econômico. Neste caso, o crescimento
vai durar mais tempo, mas vai levar a uma nova crise, porque essa redução na
taxa de juros ou do IR não vão eliminar as forças que causam flutuações cíclicas
no capitalismo. Então na nova recessão teriam que diminuir de novo a tx de
juros ou o IR. O mesmo aconteceria se se tentasse manter o pleno emprego
estimulando o investimento privado: a taxa de juros e o investimento teriam de
ser reduzidos continuamente.

Outro método seria o investimento público que seria financiado pelo


endividamento do estado pra evitar o desemprego, mas só durante o período da
recessão, por que pleno emprego permanente não é do interesse dos
empresários, pq os trabalhadores sairiam do controle, o fato de existir o
desemprego, faz com os trabalhadores trabalhem mais exijam menos direitos,
com medo de serem demitidos.

No fim, a pressão de grandes corporações, influentes em setores do governo,


muito provavelmente induzirá o governo a voltar uma política mais ortodoxa de
diminuir o défict orçamentário (que é o que acontece no brasil atualmente, no
meio da pandemia a um lobe enorme pra retomada das atividades economicas
em cima do governo)

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