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SOCIOPOÉTICA: proposta metodológica para a história do tempo presente

Gianne Carline Macedo Duarte*

Resumo: Neste trabalho, tenho por objetivo avaliar a possibilidade de se estudar o corpo,
utilizando a Sociopoética como metodologia de estudo da História do Tempo Presente. Parto
do pressuposto de que a concepção do entendimento do corpo para o estudo na História leva
em consideração aspectos como o desenvolvimento histórico e a especificidade da História
Cultural. Para o estudo do tempo presente, no que condiz com o corpo, estou propondo a
utilização da Sociopoética como aporte metodológico para captar os vários pensamentos do
grupo que se queira historiar, em especial sobre o próprio corpo. Proponho isto por ter
percebido que este método possui elementos que se afinam à História do Tempo Presente.
Nesse suporte metodológico não se busca respostas prontas ou dados a serem interpretados,
busca-se refletir sobre a experiência do grupo, pesquisando com o corpo todo. Na proposta o
grupo-pesquisador tem voz ativa do principio ao fim da pesquisa, não servindo apenas como
fonte de ilustrações ou comprovações, mas (re)inventando os argumentos definidos pela teoria
especializada, privilegiando a categoria que se quer conhecer. Em suma, a Sociopoética é
mais uma das possibilidades da pesquisa aliada a História do Tempo Presente.

Palavras-chave: Corpo - Grupo-pesquisador - Metodologia

Abstract: In this article, my objective is to study the possibility of studying the body using
the Sociopoética as a methodology of study in History of Present. This study is based on the
thought that the idea of body understanding in History study considers aspects like the
historical development and the specific area of Cultural History. For the study of History of
Present, about body, I propose the use of the Sociopoética as a methodological input in order
to capture the plenty of thoughts in the studied group, specially about their own body. I
propose this for I have realized that this method has positive elements for studies in History of
Present. In this methodological support, we don‟t search ready-made answers or data to be
analyzed, we intend to evaluate the group‟s experience, doing the research using all the body.
In the proposal, the reasearcher-group has an active voice from the beginning to the end of the
research, being not only a source of illustrations or proves, but (re)inventing the arguments
which were defined by the specialized theory, giving privilege to the category that we want to
know. In a few words, the Sociopoética is another possibility of researches in History of
Present.

Keywords: body - researcher-group - methodology.

Este texto está fundamentado nas idéias da “nova história cultural”, que nos equipa com
uma abertura de temas a serem pesquisados. O centro do estudo dessa corrente se volta para
as mentalités. Assim, o leque de assuntos é variado, pois se pode trabalhar com discurso,
representações, fatos culturais, corpo, música, entre outros temas (HUNT, 2006, p.12). Essa

*
Universidade Estadual do Piauí- UESPI. Graduanda em Licenciatura Plena em História. Agência Financiadora:
PIBIC/CNPq.
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abordagem das mentalités se preocupa com o imaginário e, mais especificamente, no caso


dessa proposta de uma nova metodologia de pesquisa: a Sociopóetica. Mas o que é
Sociopoética?
Sociopoética é uma prática filosófica de pesquisa que produz conhecimento em grupo e
com o corpo todo. No encontro com esta prática percebi a possibilidade de pesquisar com o
corpo todo. Pesquisar com o corpo todo, portanto, é desenvolver, como diz Barbier (2002)
uma escuta sensível porque o conhecimento é realizado em grupo, é partilhado, não se faz
sozinho. Nessa partilha, em grupo, o conhecimento se torna polifônico, heterogêneo visto que
produz muitos sentidos, muitos saberes na pesquisa.
Conforme Gauthier, a Sociopoética:

[…] é uma prática filosófica. Ela é uma passagem obrigatória para quem quer transformar
as práticas sociais, por paradoxalmente não visar a transformação social e ainda menos a
conscientização, e sim o conhecimento do inconsciente, através do descobrimento das
Américas (negras, brancas, indígenas e mestiças) do pensamento dos grupos-pesquisadores.
Por que uma filosofia? Por que ela:
1- Descobre os problemas que inconscientemente mobilizam os grupos sociais;
2- Favorece a criação de novos problemas ou de novas maneiras de problematizar a vida;
3- Favorece a criação de confetos, contextualizados no afeto e na razão, na sensualidade e
na intuição, na gestualidade e na imaginação do grupo-pesquisador;
4- Favorece a criação de conceitos desterritorializados, que entram em diálogo com os
conceitos dos filósofos profissionais (GAUTHIER, 2003b).

No que diz respeito à pesquisa qualitativa, o pesquisador tem um importante papel. Não
é à toa que para Barbier, (2002), o pesquisador das ciências humanas não pode prescindir do
que ele denomina escuta sensível. Este não é um simples escutar com os ouvidos, é a
capacidade do pesquisador de sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro, para
‘compreender do interior’ as atitudes e os comportamentos, o sistema de idéias, de valores,
de símbolos e de mitos. Isso não significa identificação ou adesão às referências do outro, mas
uma fissura para compreendê-las. O referido autor ressalva também a necessidade do
pesquisador comunicar seus sentimentos, emoções e interrogações ao grupo. Mas essa
comunicação passa por uma escuta sensível que não julga, não mede e especialmente não
compara.
Na Sociopoética, outro aspecto extremamente importante da escuta sensível é o
reconhecimento que não pesquisamos apenas com a razão. Lembra-nos Barbier (2002), que só
se é pessoa „pela existência de um corpo, de uma imaginação, de uma razão, de uma
afetividade em permanente interação. Por isso a audição, o tato, o gosto, a visão, o paladar são
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desenvolvidos na escuta sensível. Além disso, essa escuta sensível é possível porque a
produção de dados é feita em grupo, o conhecimento é partilhado, não se faz sozinho”.

Quais são os procedimentos metodológicos?

1) Produção de dados:

Os dados dessa metodologia são produzidos em oficinas sociopoéticas em vez de


coletados como se estivessem nos esperando numa cesta (PETIT, 2002, p. 42). É necessário
que os dados sejam produzidos e especialmente com o corpo todo - com os nossos sentidos –
o corpo é o produtor, aquilo que fala, sente, vê, escreve. A sociopoética vem priorizando todas
essas sensações aliada à sensibilidade do facilitador e a do grupo-pesquisador. O processo de
uma pesquisa Sociopoética divide-se em: oficinas de produção e análise dos dados pelos co-
pesquisadores, perfazendo uma carga horária de 40h; após essa produção, o facilitador
(pesquisador oficial) particularmente, realiza sua própria análise, para cada técnica (são
utilizadas no mínimo duas técnicas), em busca das linhas que perpassam o pensamento do
grupo para o tema gerador. Em seguida, o facilitador leva esses resultados analíticos para os
co-pesquisadores, preferencialmente, de forma mais sintética, literária e comunicativa, como
por exemplo, em forma de poesia. Esse momento é chamado de contra-análise e permite aos
co-pesquisadores conhecer, confirmar, retificar, re-examinar e, especialmente, contrapor-se às
idéias do facilitador, tornando mais precisas as reflexões dele. Por fim, faz-se a análise
filosófica, em geral, sobre os achados das análises.
Conforme Adad (2004, p. 3), nas oficinas, utiliza-se dimensões da arte com o intuito de
causar estranhamento em torno do tema gerador escolhido pelo facilitador em conjunto com o
grupo.
Este parece ser o momento mais subjetivo da pesquisa, pois o facilitador tem a proposta,
mas a proposta deve agradar ao grupo pesquisador interferindo até mesmo para que não haja
um desestimulo do grupo-pesquisador e claro, sempre com maleabilidade, pois: “Em todo
caso, se viesse a ocorrer uma necessidade de flexibilizar a nossa escolha e escolher a escolha
do grupo-pesquisador estávamos dispostos a fazê-lo” (SILVEIRA, 2004, p. 36)
Por que estranhar o tema? Porque através da experimentação nas vivências, com
dispositivos1 – técnicas que suscitam as dimensões da arte e do corpo todo, os co-
pesquisadores fazem livres associações com o tema, produzindo conceitos heterogêneos,
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polifônicos, polissêmicos, metafóricos e até inusitados. Para Gauthier (2003b), essa produção
são conceitos desterritorializados, bem como, confetos inusitados. O objetivo é mostrar que
toda pessoa possui uma veia filosófica, sendo capaz de criar conceitos, de filosofar.
Também é feita uma observação nas oficinas. No momento da vivência, o facilitador
observará aspectos do vivido, mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que se
pretende estudar. Para essa descrição do processo, é utilizado: gravador, o diário de campo e a
fotografia. O facilitador registrará suas sensações e reações, bem como o “dito” e suas
impressões sobre o “dito”; priorizará os relatos, depoimentos, comportamentos, gestos, atos e
a relação que os co-pesquisadores estabelecem consigo e com os outros. Dados não-verbais,
cujo registro não se poderia restringir ao diário de campo, são documentados visualmente pela
fotografia.

2) O universo e os sujeitos da pesquisa:

Na Sociopoética, a pesquisa se desenvolve com a formação de um grupo composto


pelo facilitador (pesquisador oficial) e pelos co-pesquisadores. O grupo deve conter no
máximo 20 (vinte) co-pesquisadores.

3) Os sujeitos / atores da pesquisa

Neste momento, formam-se grupo e é negociado os dias e o local das oficinas. Serão
selecionados, para cada grupo, até (20) vinte pessoas. “Eles [os sujeitos da pesquisa] são,
portanto, a ponte entre o pesquisador e a realidade que se quer conhecer” (SILVEIRA, 2004,
p.36). A formação de grupos heterogêneos tem como intuito produzirmos conceitos
diversificados sobre o tema gerador da pesquisa. O interesse é mostrar, segundo Gauthier
(2003a, p. 3), que “a produção do conhecimento é infinita, inacabada e aberta, pois nunca
acaba de atrair significados heterogêneos para uma palavra ou expressão dada”. Para realizar
a pesquisa em História, utilizando a metodologia da Sociopoética, contudo, é necessário
entender alguns conceitos relacionados ao estudo sobre o corpo e a História do Tempo
Presente.
Com o aporte dessa metodologia e dos estudos de Le Goff em Uma História do
Corpo na Idade Média (2006) o autor nos diz que os estudos sobre o corpo iniciaram na
confluência da sociologia e da antropologia, quando Marcel Mauss se interessa pelas técnicas
do corpo em 1934, como diz Le Goff:
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Pois, se a história foi freqüentemente escrita do ponto de vista dos vencedores, como
dizia Walter Benjamin, também – denunciava Marc Bloch – foi por muito tempo
despojada de seu corpo, de sua carne, de suas vísceras, de suas alegrias e desgraças.
Seria preciso, portanto, dar corpo à história. E dar uma história ao corpo (LE GOFF,
2006, p.10).

Para este autor a história tradicional estuda uma história desencarnada, fora do próprio
corpo, onde está disjunto o corpo: “o modo de vestir, de morrer, de se alimentar, de trabalhar,
de morar, de habitar sua carne, de desejar, de sonhar, de rir ou de chorar não atingiu o
estatuto de objeto digno de interesse histórico” – grifo meu (LE GOFF, 2006, p.15).
Le Goff nos mostra ao longo de seu texto como o corpo foi visto no período da Idade
Média e o esquecimento histórico dessa categoria, a partir da evolução dessa categoria de
pesquisa e a importância da antropologização da História para a fundamentação da mesma,
salientando a necessidade de se entender sobre o corpo já que para o autor compreende uma
das maiores lacunas da história.
Outra abordagem escolhida foi a que Eric Hobsbawm fala no texto O presente como
história (1998). Ele afirma que “toda história é uma história contemporânea disfarçada”
(HOBSBAWM, 1998, p.243). Contudo, Hobsbawm destaca que é diferente se pesquisar um
tema da História Antiga ou Medieval e se pesquisar algo do seu próprio tempo. Assim, ele
cita alguns problemas de se trabalhar com a História do Tempo Presente, entre eles:

[…] o da própria data de nascimento do historiador, ou, em termos mais gerais, o


das gerações; os problemas de como nossa própria perspectiva do passado podem
mudar enquanto procedimento histórico; e de como escapar às suposições da época
partilhadas pela maioria de nós (HOBSBAWM, 1998, p.243).

Contudo, Hobsbawm não tem por objetivo convencer os historiadores a não estudar o
presente, e sim refletir sobre os problemas para assim poder superá-los. Ele mostra que passa
a existir uma grande quantidade de fontes disponíveis para o estudo, pois se passa a utilizar
várias metodologias, entre elas a da História Oral. A História do Presente também é defendida
por Antonio Germano Magalhães Junior, no texto O Historiador: suas escolhas teóricas e a
utilização da oralidade e da memória como linguagens da História:

As pegadas daqueles que construíram o cotidiano do tempo que se passou são


novamente repisadas pelos que fazem as trilhas do hoje, mas estas pegadas dos seres
humanos do presente são marcadas pelos condicionantes de seu tempo e os sonhos
de um amanhã; são construções e reconstruções das ações humanas engendradas
pela relação que o ontem, o hoje e o amanhã proporcionam e nos fazem viver o
presente, construindo o dia seguinte. Esta relação existencial humana constitui um
devir, que é construído e constrói ao mesmo tempo. Somos seres que vivemos uma
espécie de influência temporal mutante, pois, dependendo do contexto e das forças
de uma determinada situação em que vivemos, podemos nos guiar por ações mais
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marcantes de um ontem, de um hoje ou vontades de um amanhã, mas normalmente,


estas ações estão de tal modo fortemente correlacionadas que determinar esta
fronteira de influências é como determinar quais formações de cores se
estabelecerão em um caleidoscópio ao olhá-lo pela primeira vez (MAGALHÃES
JUNIOR, 2003, p.33).

E prossigo com os questionamentos de SILVEIRA (2006, p.18):

No processo de ruptura em curso, algumas perguntas vêm sendo formuladas: o que


delimitaria as fronteiras? Quais seriam as datas que informariam ser o objeto de
nossas pesquisas pertencentes as passado ou ao presente? Não seria o passado
simplesmente aquilo que já aconteceu? Quais seriam as metodologias para o estudo
do tempo presente enquanto historia?

Com muito do que está descrito neste texto e desses questionamentos percebi que são
necessários atrevimentos investigativos para que a Ciência enriqueça ou busque enriquecer.
Ora, se vivemos em uma construção sócio-histórica e afirmamos que historia é movimento,
temos que pensar em novas maneiras de fazer história – sensibilizando o conceito e/ou o
objeto para melhor compreender as manifestações da existência histórica. Penso que aportes
como: vídeos, filmes, oficinas artísticas, formam um rico saber histórico e afirmo que na
proposta da Sociopoética o grupo-pesquisador tem voz ativa do principio ao fim da pesquisa,
não servindo de comprovação, mas privilegiando a categoria que se quer conhecer. Afirmo
que diante das dificuldades metodológicas para se pesquisar com a História do Tempo
Presente, enunciadas por Hobsbawm, Silveira e Magalhães Junior, acredito que é possível
utilizar a Sociopoética, ou se inspirar nesta metodologia idealizada pó Gauthier e ressalto que
a mesma é mais uma das imensas possibilidades de pesquisa.

Referências

ADAD, Shara Jane Holanda Costa. Jovens e Educadores de Rua: Itinerários que se cruzam
pelas ruas de Teresina. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica. 243f. Tese
(doutorado em Educação). Universidade Federal do Ceará – UFC; 2004.

BARBIER, René. A pesquisa-ação. Brasília: UNB, 2002. Tradução de Lucie Didio.

GAUTHIER, Jacques. Notícias do rodapé do nascimento da sociopoética. Mimeografado,


2003.

LE GOFF, Jacques. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2006.
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HOBSBAWN, Eric J. Sobre História – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HUNT, Lynn. A nova história cultural – 2°ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2001

PETIT, Sandra. Sociopoética: potencializando a dimensão poética da pesquisa. In: MATOS,


Kelma Socorro L. de & VASCONCELOS, José Gerardo. Registros de Pesquisas na
Educação. Fortaleza: LCR, 2002. (Coleção Diálogos).

MAGALHAES JUNIOR, G.A. O historiador: suas escolhas metodológicas e a utilização da


oralidade e memória como linguagens da história, In, Linguagens da História.
VASCONCELOS, José Geraldo: MAGALHAES JUNIOR, A. G. (orgs.). – Fortaleza: UFC,
2003.

SILVEIRA Lia. Do corpo sentido aos sentidos do corpo: socipoetizando a produção de


subjetividade. Programa de Pós-graduação em Enfermagem. 2004. 169f. Tese (Doutorado em
Enfermagem). Universidade Federal do Ceará – UFC, Fortaleza; 2004.

1
Conceito criado por Michel Foucault, e que na Sociopoética, as técnicas utilizadas são considerados
dispositivos, no sentido do que se espera que façam emergir não-ditos e/ou elementos novos, dimensões pouco
aparentes (PETIT, 2002).

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