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METROSUL IV – IV Congresso Latino-Americano de Metrologia


“A METROLOGIA E A COMPETITIVIDADE NO MERCADO GLOBALIZADO”
09 a 12 de Novembro, 2004, Foz do Iguaçu, Paraná – BRASIL
Rede Paranaense de Metrologia e Ensaios

POSSÍVEIS FONTES DE INCERTEZA ASSOCIADAS AO ENSAIO DE


RESISTÊNCIA À COMPRESSÃO EM CORPOS DE PROVA CILÍNDRICOS DE
CONCRETO

J.J. Rêgo Silva1, T. Andrade1, T.A.C. Pires 2, D.C.L. Duarte2, F. Rios2, T.L. Rolim3, P.M. Almeida3,
J.C.M Neto4,
1
Dept. Eng. Civil - UFPE, Recife, Brasil
2
Dept. Eng. de Produção - UFPE, Recife, Brasil
3
Dept. Eng. Mecânica - UFPE, Recife, Brasil
4
Tecomat, Recife, Brasil

Resumo: Um dos parâmetros significativos para o estimulando a proposição da NBR ISO/IEC 17025 [3]
controle tecnológico de concreto estrutural consiste na como referência. Um dos benefícios da implantação
sua resistência à compressão, normalmente obtida em de sistema de gestão da qualidade em empresas
ensaios laboratoriais com corpos de prova cilíndricos. construtoras, tomando-se com referência a indústria
Este valor atesta a qualidade de uma estrutura em da construção em Pernambuco, é a realização mais
concreto em função da sua resistência mecânica e, se sistemática e consistente do controle de qualidade do
obtido de forma não confiável, pode até inviabilizar o concreto. Constata-se, assim, uma demanda real por
empreendimento. Este artigo apresenta uma maior conhecimento técnico-científico na área de
discussão sobre possíveis fatores que podem estar metrologia, especificamente direcionado ao controle
associados a incertezas na realização de ensaios de tecnológico de concreto, em especial na determinação
resistência à compressão em corpos de prova da sua resistência à compressão (fck). Esta demanda
cilíndricos de concreto. Espera-se, com este trabalho, começa a ser generalizada pelos PSQs.
contribuir para maior confiabilidade dos resultados
Entende-se, entretanto, que a indústria da construção
destes ensaios, promovendo a difusão da cultura
apresenta características específicas que fazem com
metrológica na indústria da construção.
que princípios, conceitos e métodos relativos à
Palavras chave: incerteza, resistência à compressão, qualidade sejam assimilados de forma mais lenta do
concreto. que em outras indústrias [4]. Entre estas
características, Meseguer [5] coloca que “o grau de
precisão com que se trabalha na indústria da
1. INTRODUÇÃO construção é, em geral, muito menor do que em
Nos últimos anos a indústria da construção brasileira outras indústrias, qualquer que seja o parâmetro que
tem passado por transformações significativas, como se contemple: orçamento, prazo, resistência
resultado da introdução de programas de qualidade. mecânica, etc.” Esta afirmação talvez indique o grau
Neste sentido destacam-se dois projetos no âmbito do de dificuldade inicial para introduzir conceitos e
Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade no métodos já consagrados no campo da metrologia no
Habitat (PBQP-H) [1], a saber: a) O Sistema de controle tecnológico do concreto.
Qualificação de Empresas de Serviços e Obras (SiQ), Em recente trabalho Rêgo Silva, Pires e Regis [6]
que tem estimulado a implantação de Sistema de abordam este assunto, relatando a situação de alguns
Gestão da Qualidade em empresas construtoras, laboratórios da Região Metropolitana do Recife com
tomando-se como referência o modelo ISO 9001 [2] e base nas normas técnicas brasileiras [7-9] para a
b) Programas Setoriais de Qualidade de Materiais realização de ensaio de resistência à compressão de
(PSQ) que promovem o combate à não-conformidade concreto. Este trabalho foi motivado por resultados
intencional dos materiais de construção, com base nas discrepantes entre laboratórios e teve como objetivo
normas técnicas nacionais vigentes. direcioná-los às exigências técnicas normativas,
Percebe-se a fundamentação metrológica necessária procurando compatibilizar seus futuros resultados em
ao sucesso destes programas, que, em conseqüência, programas de comparação interlaboratorial.
induzem melhoria de qualidade em laboratórios, A literatura técnica referente à confiabilidade
exigindo maior confiabilidade dos seus resultados, e metrológica nos ensaios laboratoriais de materiais de
construção civil ainda é bastante resumida. Neste sua aplicação no topo do corpo de prova seja
sentido, a American Association for Laboratory uniforme, evitando concentração de tensões.
Accreditation (A2LA) disponibilizou um guia para
Neville [15] comenta a necessidade de lubrificação do
estimativa da incerteza de medição, direcionado a
assento esférico, como condição padronizada para
ensaios laboratoriais em materiais de construção [10].
possibilitar a comparação de resultados. Aitcin [14]
No Brasil, os recentes trabalhos de Inácio et al [11,12]
enfatiza ainda a importância do tamanho da rótula
mostram avanços importantes na aplicação de
esférica em função das dimensões do corpo de prova
conceitos metrológicos à indústria da construção.
utilizado e acredita que algumas diferenças
Este artigo discute possíveis fontes de incerteza significativas nos valores de resistência à compressão,
associadas ao ensaio de resistência à compressão em relatados na literatura, podem ser atribuídas ao
corpos de prova cilíndricos de concreto, de modo a emprego da rótula incorreta, por não proporcionar
proporcionar maior confiabilidade a estes resultados. confinamento adequado do corpo de prova.
O contexto em que se desenvolve o presente trabalho
A influência da rótula esférica é também verificada
é o de contribuir para o estabelecimento de uma base
com base nos resultados de ensaios realizados em 06
de conhecimento técnico e científico que possibilite,
corpos de prova (150 mm x 300 mm). Observou-se
posteriormente, a quantificação da estimativa de
uma redução na dispersão dos resultados na ordem
incerteza da medição por laboratórios que realizam
de 76% após adequação e lubrificação da rótula
controle tecnológico de concreto.
esférica e maior aproximação do valor médio obtido
em um laboratório de referência (Tabela 1). A
2. FONTES DE INCERTEZA ASSOCIADAS AO adequação consistiu no aumento da amplitude do
ENSAIO DE RESISTÊNCIA A COMPRESSÃO movimento do prato em torno do assento esférico.
Procedimentos padronizados para ensaios de Observou-se ainda uma forma de ruptura mais
resistência à compressão em corpos de prova uniforme e próxima da forma cônica, (Figuras 1 e 2)
cilíndricos de concreto com baixa resistência estão após a adequação da rótula esférica, confirmando as
bem fundamentados na literatura técnica observações de Aitcin [14].
especializada. Porém, ainda são escassas referências Tabela 1. Resultados antes e depois da adequação.
específicas relativas à estimativa de incerteza da Antes Depois
medição. No caso de concreto de alta resistência esta CP
Fck Ruptura Fck Ruptura
limitação é ainda mais significativa [13,14].
1 38,9 Cônica e cisal. 33,5 Cônica e cisal.
A determinação da incerteza de um processo de 2 40,3 Cônica 33,4 Cônica
medição requer a avaliação da repetitividade e da 3 38,0 Cônica e cisal. 35,4 Cônica
parcela de erros sistemáticos não corrigidos nos seus
4 24,2 Não identif. 32,9 Cônica
resultados, na qual devem ser consideradas todas as
5 41,3 Cônica e cisal. 36,3 Cônica
variáveis que contribuem para a incerteza da medição
de forma isolada [10]. Esta seção discorre sobre 6 31,8 Não identif. 36,3 Cônica e cisal.
alguns possíveis fatores que podem acarretar Média 35,8 MPa 34,6 MPa
dispersão nos resultados de fck, tomando-se como s 6,01 1,43
referência as normas brasileiras e dados disponíveis Ve 18,9% 3,9%
na literatura [14-16], confrontando-os, quando Ref. 39,0 MPa 34,3 Mpa
possível, com resultados obtidos em ensaios
laboratoriais. São considerados apenas aspectos Nas tabelas é indicado o coeficiente de variação Ve
referentes ao equipamento e procedimento de ensaio como padrão de controle sugerido pelo ACI-214 [16]:
e preparação do corpo de prova, conforme comentado
a seguir. Foge ao escopo deste trabalho a análise da Ve < 3% ............ Excelente 3% < Ve< 4% .. Muito Bom
dispersão dos resultados decorrente dos materiais, do 4% < Ve < 5% .. Bom 5% < Ve < 6% .. Razoável
método de dosagem e da técnica de mistura Ve > 6% ............ Ruim
empregados na produção do concreto.

2.1. Prensa
a) Distribuição uniforme da carga de compressão –
Rótula esférica
O ensaio de resistência à compressão baseia-se no
modelo de estado uniaxial de tensão [17]. A NBR 5739
recomenda que a máquina de ensaio disponha de
uma rótula esférica para compensar qualquer falta de
paralelismo entre as duas faces do corpo de prova, de
modo a permitir o auto-alinhamento da carga e que
calibração, o limite de leitura (função da resolução) e a
repetitividade da medição da carga de ruptura.

2.2. Procedimento de ensaio


a) Velocidade de aplicação da carga:
A velocidade de aplicação da carga, dentro do
intervalo em que pode ser aplicada, pode influenciar
os resultados dos ensaios. Quanto menor a
velocidade de aplicação menor a resistência à
compressão. Segundo Helene e Terzian [16] a
variação máxima na resistência a compressão devido
à velocidade de aplicação da carga é de 5% para mais
ou para menos. De acordo com Neville [15] esta
Figura 1 – Forma de ruptura de cps ensaiados antes (à variação é na ordem de 3%.
esquerda) e após a adequação da rótula (à direita)
A NBR 5739 estabelece um intervalo para a
velocidade de aplicação da carga, que deve ser
reproduzida pelo equipamento do ensaio. Esta
padronização é fundamental para a comparação de
resultados.
A tabela abaixo mostra resultados obtidos para
velocidade de aplicação da carga igual 0,5 MPa/s,
dentro do intervalo especificado pela NBR 5739, e
para velocidade igual a 6,5 MPa/s.
Tabela 2. Resultados para diferentes velocidades.
0,5 MPa/s 6,5 MPa/s
CP
Figura 2 – Formas de ruptura dos cps ensaiados após a fck Ruptura fck Ruptura
adequação da rótula 1 40,2 Cônica 37,9 Cônica e cisal.
2 45,5 Cisalhada 46,4 Cônica e cisal.
b) Rigidez da prensa e do prato 3 45,2 Cisalhada 42,8 Cônica e cisal.
A rigidez do conjunto de ensaio pode influir nos 4 41,9 Cônica e cisal. 45,8 Cônica e cisal.
resultados de resistência à compressão, não só em 5 44,2 Cônica e cisal. 47,5 Cisalhada
virtude da quantidade de energia liberada na ruptura, 6 40,4 Cisalhada 41,0 Cônica e cisal.
como também da relação deformação da máquina – 7 41,1 Não identif. 46,5 Cônica e cisal.
corpo de prova [14,15]. Desse modo, é importante 8 43,3 Cisalhada 40,2 Cônica e cisal.
observar a rigidez longitudinal e transversal deste 9 40,5 Cônica e cisal. 41,6 Cônica e cisal.
conjunto como possível fator de incerteza.
10 44,5 Cônica e cisal. 47,2 Cônica e cisal.
c) Planeza, nivelamento e paralelismo dos pratos de Média 42,7 43,7
compressão s 2,08 3,41
A NBR 5739 prescreve tolerâncias para planeza, Ve 4,0% 7,1%
nivelamento e paralelismo das superfícies dos pratos Considerando que a velocidade de aplicação da carga
de compressão. Deve-se verificar a possibilidade é uma variável que normalmente motiva polêmicas
destes itens contribuírem na estimativa de incerteza. adotou-se um valor significativamente diferente
d) Efeito de segunda ordem no pistão daquele prescrito pela NBR 5739 para verificar a sua
influência nos resultados. O valor 6,5 MPa/s
Apesar de não ser abordado na literatura apresentada corresponde à velocidade máxima que pode ser
neste trabalho, chama-se a atenção para o efeito de aplicada pela maioria das prensas empregadas nos
segunda ordem em pistões esbeltos devido às altas laboratórios em Pernambuco. Observa-se que apesar
cargas impostas, e assim, a possibilidade de da média dos resultados não sofrer grande variação a
influências nos resultados. Este efeito tende a ser dispersão aumentou de forma significativa,
mais significativo em concreto de alto desempenho. modificando o padrão de controle do ensaio de muito
e) Calibração, Resolução e Repetitividade da medição bom para ruim.
Complementando este grupo, lembra-se de fontes de b) Confinamento dos topos do corpo de prova
incerteza clássicas da metrologia como a da Ao analisar o mecanismo de ruptura do corpo de
calibração da prensa, fornecida no certificado de prova de concreto em função do real estado de tensão
resultante do ensaio de compressão axial nominal (Para situação de maior rigor, pode ser feita correção
Neville [15] observa que na interface com os pratos da em relação à temperatura da realização do ensaio e a
prensa o corpo de prova tem sua expansão de calibração do paquímetro).
transversal reduzida em função do atrito (alteração do
Neste aspecto é importante ressaltar a atenção com o
efeito de Poisson) e comenta que ao eliminar este
molde empregado na confecção do corpo de prova
atrito a expansão transversal é acentuada e que o
para evitar maiores distorções no diâmetro. A NBR
corpo de prova pode romper por fendimento, com
5738 propõe uma diferença máxima entre os
redução dos valores de resistência à compressão.
diâmetros ortogonais de 1,5 mm para corpos de prova
Portanto, nas condições normais de ensaio, as
150 mm x 300 mm, por outro lado Aitcin [16] sugere
tensões decorrentes do atrito criam zonas horizontais
uma ovalização máxima de 0,5 mm.
de tensões de compressão nas duas extremidades do
corpo de prova, que diminuem com o afastamento dos e) Umidade do corpo de prova
pratos e são responsáveis pela ruptura do corpo de
Um outro aspecto que influencia o resultado do ensaio
prova na forma de dois cones opostos [14].
de resistência à compressão do concreto é a umidade
c) Centralização da carga de compressão do corpo de prova durante a realização do ensaio. A
NBR 5739 orienta a realização do ensaio com corpo
Excentricidade na aplicação da carga afasta o
de prova na condição úmida. Esta imposição
procedimento de ensaio da consideração do estado
proporciona melhor repetitividade e reprodutibilidade
uniaxial de tensão e, portanto, influencia nos
dos resultados, uma vez que a condição seca é mais
resultados. Segundo Neville [15], uma excentricidade
difícil de ser uniformizada. Neville [15] afirma que a
de 6mm, em um corpo de prova 150 mm x 300 mm,
secagem completa do corpo de prova antes do ensaio
não acarreta grandes diferenças de resultados em
aumenta os resultados em cerca de 10% e com
concretos de baixa resistência. Aitcin apud Lessard
menos de 06 (seis) horas de secagem este aumento
[14] observa que em concreto de alta resistência este
cai para 5%. A tabela abaixo mostra resultados
limite é de 4 mm. Aitcin [14] comenta ainda que o
obtidos com corpos de prova úmidos e completamente
modo de ruptura do corpo de prova se afasta da forma
secos, com o objetivo de verificar a diferença entre
cônica e se aproxima da forma colunar (fendimento)
eles e a dispersão nestas duas condições. A
com o aumento da excentricidade, reduzindo os
motivação para esta verificação baseia-se no fato de,
valores obtidos no ensaio.
por descuido, alguns ensaios serem realizados com
Pode-se concluir que a forma de ruptura do concreto corpos de prova secos.
está associada ao confinamento dos topos do corpo
Tabela 3. Resultados para diferentes umidades no ensaio.
de prova e à centralização da carga de compressão.
Úmido Seco
Portanto, uma forma de monitorar a influência destas CP
fck Ruptura fck Ruptura
variáveis na dispersão dos resultados pode ser
através da observação da forma de ruptura dos corpos 1 42,5 Cônica e cisal. 40,2 Cônica
de prova, que ao se afastar da forma cônica e se 2 41,5 Cônica e cisal. 45,5 Cisalhada
aproximar da forma colunar (fendimento) deve, a 3 37,3 Cônica e cisal. 45,2 Cisalhada
princípio, apresentar valores de resistência à 4 42,5 Cônica e cisal. 41,9 Cônica e cisal.
compressão reduzidos. Deve-se observar ainda que a 5 35,9 Cônica e cisal. 44,2 Cônica e cisal.
forma de ruptura também é influenciada pela rótula 6 40,8 Cônica e cisal. 40,4 Cisalhada
esférica, responsável pelo confinamento adequado do 7 39,7 Cônica e cisal. 41,1 Não identif.
corpo de prova em função do seu diâmetro. A ASTM
8 41,7 Cônica e cisal. 43,3 Cisalhada
C39 admite que a utilização de uma rótula adequada
leva o corpo de prova a romper na forma de dois 9 36,9 Cônica e cisal. 40,5 Cônica e cisal.
cones opostos. 10 -- --. 44,5 Cônica e cisal.
Média 39,9 42,7
d) Medição do diâmetro do corpo de prova
s 2,56 2,08
Para o cálculo da resistência à compressão a NBR Ve 4,2% 4,0%
5739 estabelece que a área da seção transversal do
corpo de prova deve ser obtida com a média de duas Observa-se que apesar de não influir
medições do diâmetro, no meio do corpo de prova e significativamente na dispersão dos resultados, a
em posições ortogonais. Portanto, uma fonte de umidade durante o ensaio influencia os resultados,
incerteza consiste na repetitividade da medição do elevando a média em torno de 7%.
diâmetro do corpo de prova.
2.3. Preparação dos corpos de prova
Uma outra fonte de incerteza associada à obtenção do
diâmetro do corpo de prova provém da calibração do De acordo com a American Association for Laboratory
instrumento de medição (paquímetro, por exemplo), Accreditation (A2LA) [10] a variabilidade nas amostras
cujo valor de incerteza é fornecido no certificado de é, talvez, quem mais contribui para a incerteza do
calibração e do limite de leitura, função da resolução. resultado de um ensaio e afirma que, para a maioria
dos ensaios de materiais de construção civil, as comparáveis ao concreto do corpo de prova. Segundo
demais contribuições para a incerteza são geralmente Neville [15], o capeamento com alta resistência resulta
pequenas (podendo até ser desprezíveis) quando valores de fck 7% a 17% mais altos do que
comparadas à variabilidade das amostras. capeamento mais fraco. Aitcin [14] comenta que o
capeamento apresenta desvio padrão maior do que o
Independentemente de validar ou não esta afirmação
esmerilamento do corpo de prova em concretos de
para ensaio de resistência à compressão em concreto,
alta resistência (acima de 75 MPa) e recomenda
a preparação dos corpos de prova em três etapas
nestes casos adotar o esmerilamento.
distintas (adensamento, cura e preparação dos topos)
comentadas a seguir, sem dúvida, pode contribuir de b) Cura do concreto
forma significativa para a variabilidade das amostras.
A padronização da cura do concreto é imprescindível
a) Preparação dos topos dos corpos de prova para a comparação de resultados. A NBR 9479
estabelece procedimento para cura de corpos de
Esta etapa consiste no ajuste da planeza dos topos do
prova de concreto em laboratórios, no qual são
corpo de prova, mantendo o paralelismo entre eles e a
controladas temperatura e umidade da câmara úmida.
perpendicularidade com o seu eixo vertical.
Segundo Helene e Terzian [16] a cura inadequada é
Irregularidades na planeza dos topos do corpo de
responsável por uma variação no resultado de
prova impedem a distribuição uniforme da carga e
resistência a compressão de cerca de 10% (efeito aos
induzem concentração de tensões que minoram o
28 dias).
resultado do ensaio. Neville [15], Helene e Terzian [16]
comentam que topos com superfícies convexas c) Adensamento do corpo de prova
resultam em maior redução do que as côncavas.
A NBR 5738 estabelece procedimento para
Segundo Helene e Terzian [16] a redução máxima é
adensamento do concreto. Entretanto, é comum
estimada em 30% para a concavidade e 50% para a
atribuir ao adensamento, a responsabilidade por
convexidade.
baixos resultados de resistência a compressão,
A NBR 5738 propõe duas formas de preparação dos principalmente por ser uma atividade que pode ser
topos dos corpos de prova: capeamento com fortemente influenciada pela experiência do moldador.
argamassa a base de enxofre e a retificação Neville [15] e Aitcim [14] observam ainda que molde
(esmerilamento). A ASTM C617 define procedimento de corpo de prova com baixa rigidez causa perda de
para capeamento e estabelece limites de tolerância energia de adensamento e reduz os valores do ensaio
para a planeza os topos do corpo de prova. de resistência a compressão.
A tabela abaixo retrata o efeito de um capeador com Com a finalidade de verificar a magnitude deste
problemas em sua planeza comparado a outro em problema, a tabela abaixo mostra valores de
conformidade com as exigências. resistência à compressão obtidos com corpos de
prova adensados segundo a norma e moldados
Tabela 4. Resultados para diferentes capeadores
apenas com o lançamento do concreto, sem qualquer
Planeza dentro dos Planeza não
limites conforme tipo de adensamento mecânico ou manual.
CP
fck Ruptura fck Ruptura Tabela 5. Resultados para diferentes adensamentos.
1 33,7 Cônica e cisal. 38,3 Cônica e cisal. Adensamento Simples lançamento
2 34,5 Cônica e cisal. 38,5 Côn. bipartida CP conforme a Norma na fôrma
3 34,5 Cônica e cisal. 36,2 Cônica e cisal. fck Ruptura fck Ruptura
4 35,7 Cônica e cisal. 38,6 Cônica e cisal. 1 34,3 Cônica 30,1 Cônica e cisal.
5 35,0 Cônica e cisal. 40,5 Côn. bipartida 2 34,2 Cônica e cisal. 30,9 Cônica e cisal.
6 34,2 Cônica e cisal. 38,0 Cônica e cisal. 3 34,3 Cônica e cisal. 31,9 Cônica e cisal.
Média 34,6 38,4 4 34,5 Cônica 32,8 Cônica e cisal.
s 0,63 1,25 5 34,1 Cônica e cisal. 30,6 Cônica e cisal.
Ve 2,3% 4,4% 6 33,3 Cônica 31,2 Cônica e cisal.
Ref 34,3 49,0 7 34,3 Cônica 31,1 Cônica e cisal.
8 34,5 Cônica e cisal. 32,3 Cônica e cisal.
Observa-se que o ensaio com o capeador correto 9 33,8 Cônica e cisal. 32,8 Cônica
obteve um coeficiente de variação (Ve) menor e 10 35,2 Cônica e cisal. 31,1 Cônica
resultados condizentes com o laboratório acreditado
Média 34,2 31,5
pelo INMETRO (Ref.), diferentemente dos valores
S 0,50 0,92
obtidos com o outro capeador.
Ve 1,8% 2,8%
A influência do material empregado no capeamento é
mais significativa para concretos com resistência à O procedimento definido pela norma NBR 5738 de
compressão médias e altas, uma vez que sua moldagem aumenta os resultados em cerca de 8,6%,
resistência e propriedades elásticas devem ser além de diminuir a dispersão entre os valores obtidos.
Dois outros aspectos relativos à preparação do corpo no procedimento de ensaio e possam, em seguida,
de prova e que podem acarretar dispersão de quantificar sua estimativa de incerteza da medição.
resultados consistem na perpendicularidade e na
vedação do molde empregado na confecção do corpo
AGRADECIMENTOS
de prova. A ausência da perpendicularidade entre a
base do molde e seu eixo tende a reduzir os valores Os autores agradecem a TECOMAT por disponibilizar
dos ensaios e vazamento da água de amassamento seus resultados para apresentação neste trabalho.
tende a aumentar os resultados dos ensaios [15]. A
NBR 5738 recomenda vedar os moldes antes da
confecção dos corpos de prova. REFERÊNCIAS
[1] www.cidades.gov.br/pbqp-h.
3. COMENTÁRIOS FINAIS [2] ABNT, “NBR ISO 9001 – Sistema de gestão da
qualidade – Requisitos”, 2000.
A identificação de fontes de incerteza consiste no [3] ABNT, “NBR ISO/IEC 17025 – Sistema de Gestão da
primeiro passo para estimativas da incerteza de Qualidade – Laboratório”, 1999.
medição [18]. Estas estimativas devem ser da mesma
[4] D. Arditi e M. Gunaydin, “Total quality management in
ordem de magnitude que cada componente de
the construction process”, International Journal of
incerteza e algumas delas podem ser desprezíveis. Project Management, vol. 15, nº 4, pp 235-243, 1997.
Com base no entendimento dos princípios do ensaio e
[5] A. G. Meseguer, “Controle e garantia da qualidade na
na experiência prática em executá-lo é possível
construção”, SindusCon-SP, São Paulo, 1991.
estabelecer uma abordagem sistemática dos fatores
que influenciam os resultados e quantificar estimativas [6] J. J. Rêgo Silva, T. A. C Pires e P. Regis,
de incerteza de medição, caracterizando cada ”Considerações sobre laboratórios de controle de
concreto para confiabilidade dos resultados”,
componente como incerteza do tipo A ou B. A
Metrologia 2003, Recife, Setembro, 2003.
modelagem matemática para estimativa da incerteza
da medição em ensaio de resistência a compressão [7] ABNT, “NBR 5739 – Concreto – Ensaio de compressão
em corpos de prova cilíndricos”, 1994.
em concreto é objeto de estudo dos autores nos
Departamentos de Eng Civil e Mecânica da UFPE e [8] ABNT, “NBR 5738 – Concreto – Procedimento para
deverá ser apresentada em trabalho futuro. moldagem e cura de corpos de prova, 2003”.
[9] ABNT, “NBR 9479 – Câmaras úmidas e tanques para
Convém ressaltar que ensaios em concreto de alta cura de copos-de-prova de argamassa e concreto”,
resistência têm exigido corpos de prova menores que, 1994.
mesmo mantendo a relação h/d igual a dois, podem
[10] A2LA, “Estimation of uncertainty of measurement
apresentar comportamento diferente [19] e talvez results for calibrations and test in construction materials
possam induzir contribuições maiores em algum and geotechnical testing”, 2004.
componente de incerteza do que corpos de prova
[11] J. J. Inácio et all, “Ensaios interlaboratoriais com o
maiores, usualmente empregados.
concreto”, Metrologia 2003, Recife, Setembro, 2003.
[12] J. J. Inácio et all, “Determinação da estimativa da
4. CONCLUSÃO incerteza de medição nos ensaios de absorção, índice
de vazios e massa específica do concreto endurecido”,
Neste artigo o procedimento de realização de ensaios Metrologia 2003, Recife, Setembro, 2003.
de resistência à compressão em corpos de prova
[13] S. A. Mirza e C. D. Johnson, “Compressive strength
cilíndricos é revisto, identificando-se e discutindo-se
testing of high performance concrete cylinders using
possíveis fontes de dispersão de resultados. confined caps”, Construction and Buildings Materials,
Observa-se que na literatura técnica, específica para vol. 10, nº 8, pp 589-595, 1996.
concreto, ainda não é comum ser discutido estimativas [14] P. C. Aitcin, “Concreto de alto desempenho”, PINI, São
de incerteza de medição para ensaios de resistência à Paulo, 2000.
compressão. Apenas são apresentados valores [15] A. D. Neville, “Propriedades do Concreto”, PINI, São
máximos de variação de resultados, normalmente Paulo, 1997.
expressos em porcentagem, sem o rigor dos princípios [16] P. R. L. Helene e P Terzian, “Manual de dosagem e
metrológicos. Nem sempre todas as fontes de controle do concreto”, PINI, São Paulo, 1992.
incerteza são estimadas e são relatadas magnitudes
[17] S. P. Timoshenko e J. N. Godier, “Teoria da
de variação que, a princípio, parecem inviabilizar a Elasticidade”, Guanabara Dois, Rio de Janeiro, 1980.
confiabilidade nos resultados caso não sejam
[18] UKAS, “The expression of uncertainty in testing”, UKAS
reduzidas. Resultados apresentados neste trabalho
Publication Ref LAB12, Edition 1, UK, October 2002.
confirmam estas altas variações caso procedimentos
padronizados não forem obedecidos. [19] Jin-Keun Kim e Seong-Tae Yi, “Application of size effect
to compressive strength of concrete members”,
Espera-se que este trabalho contribua para que Sãdhanã, Vol. 27, Part 4, pp. 467-484, 2002.
laboratórios de controle tecnológico de concreto José Jéferson Rêgo Silva1: PhD, jjrs@ufpe.br.
identifiquem as fontes de incerteza de maior influência
Tibério Andrade1: MsC, tiberioandrade@uol.com.br.
Tiago Ancelmo Carvalho Pires2: Eng° Civil,
tacpires@rce.neoline.com.br.
Dayse Cavalcanti Lima Duarte2: PhD, duarte@ufpe.br.
Felipe Rios2: Eng° Civil, rios3@terra.com.br.
Tiago Leite Rolim3: Prof. Dr. Eng., tlr@ufpe.br.
Paulo Marcelo Almeida3: MsC., pmarcelo@ufpe.br.
José Maria Cruz Neto4: Eng° Civil, neto@tecomat.com.br.
1
Dept Eng Civil/UFPE, Av. Acad Hélio Ramos, s/n, Várzea,
Recife/PE, 55.740-530, Brasil, (81) 21268220, 21268219.
2
RISCTEC/Dept Eng Produção/UFPE, Av. Acad Hélio
Ramos, s/n, Várzea, Recife/PE, 55.740-530, Brasil, (81)
21268728.
3
Dept Eng Mecânica/UFPE, Av. Acad Hélio Ramos, s/n,
Várzea, Recife/PE, 55.740-530, Brasil, (81) 21268231.
4
TECOMAT – Tecnologia da Construção e Materiais LTDA,
Rua Serra da Canastra, 391, Torrões, Recife/PE, 50640-
310, Brasil, (81) 3445-6144