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Suplemento 20

R EVISTA DO MUSEU
DE
A RQUEOLOGIA E ETNOLOGIA

2015
U NIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Anais da III Semana Internacional

REVISTA DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA


de Arqueologia “André Penin”– MAE

Organizadores
Verônica Wesolowski; Camila Jácome;
Caroline Fernandes Caromano; Erêndira Oliveira;
Jaqueline da Silva Belletti; Leandro Cascon;
Pedro Henrique de A. B. Damin; Thiago Trindade

Suplemento No 20 2015

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REVISTA DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA

Comissão Editorial
Maria Cristina N. Kormikiari
Eduardo Góes Neves U NIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Martha Heloisa Leuba Salum Reitor Prof. Dr. Marco Antonio Zago
Vagner Carvalheiro Porto Vice-Reitor: Prof. Dr. Vahan Agopyan

Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária


Pró-Reitora: Profa. Dra. Maria Arminda do Nascimento Arruda
Editora Responsável
Pró-Reitoria de Pesquisa
Verônica Wesolowski de Aguiar e Santos Prof. Dr. José Eduardo Krieger

Pró-Reitoria de Pós-Graduação
Pró-Reitor: Profa. Dra. Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco
Conselho Editorial
Pró-Reitoria de Graduação
Ana Mae Tavares Barbosa Lux Vidal Pró-Reitor: Prof. Dr. Antonio Carlos Hernandes
Antonio Porro Maria Luiza Corassin
Augusto Titarelli Maria Manuela Carneiro da Cunha
Carlos Serrano Maria Margareth Lopes
Fabio Leite Niéde Guidon
Felipe Tirado Segura Norberto Luiz Guarinello MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA
Gabriela Martin D’Ávila Pedro Ignácio Schmitz Diretora: Profa. Dra. Maria Cristina Oliveira Bruno
Igor Chmyz Pedro Paulo Abreu Funari Vice-Diretor: Prof. Dr. Paulo Antonio Dantas de Blasis
Jacyntho Lins Brandão Rudolf Winkes
José Antonio Dabdab Trabulsi Solange Godoy
Kabengele Munanga
Conselho Deliberativo: Diretora: Profa. Dra. Maria Cristina Oliveira Bruno
Vice-Diretor: Prof. Dr. Paulo Antonio Dantas de Blasis
Prof. Dr. Eduardo Góes Neves
Prof. Dra. Maria Cristina Scatamacchia
Profa. Dra. Fabíola Andréa Silva
Prof. Dr. Astolfo Gomes de Mello Araújo
Prof. Dr. Levy Figuti
Prof. Dr. Camilo de Mello Vasconcellos
Ms. Duane Mota
Kleber Rodrigues Bianchi
Dimitri de Almeida

CREDENCIAMENTO E APOIO FINANCEIRO DO:


PROGRAMA DE APOIO ÀS PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS PERIÓDICAS DA USP
COMISSÃO DE CREDENCIAMENTO

Av. Prof. Almeida Prado, 1.466


Cidade Universitária – São Paulo, SP
CEP 05508-070 – Fax 3091-4977
http://www.mae.usp.br – revistamaeusp@gmail.com.br

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Capa – Logotipo de Erêndira Oliveira

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ISSN 0103-9709

R EVISTA DO MUSEU
DE
A RQUEOLOGIA E ETNOLOGIA
U NIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Anais da III Semana de Arqueologia – MAE

Organizadores
Verônica Wesolowski; Camila Jácome;
Caroline Fernandes Caromano; Erêndira Oliveira;
Jaqueline da Silva Belletti; Leandro Cascon;
Pedro Henrique de A. B. Damin; Thiago Trindade

Suplemento 20

2015

São Paulo, BraSil

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III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”
dos alunos de Pós-Graduação do
Museu de Arqueologia e Etnologia – USP

22 de Abril – 27 de Abril de 2013


Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas – USP

Coordenadora

Profa. Dra. Verônica Wesolowski

Comissão Organizadora

Agda Sardinha
Alessandro Mortaio Gregori
Alex Martire
Ana Paula Moreli Tauhyl
Camila Jácome
Débora Leonel Soares
Erêndira Oliveira
Guilherme Mongeló
Jaqueline Belletti
João Carlos Moreno de Sousa
Márcia Lika Hattori
Márjorie Lima
Mauricio Silva
Meliam Viganó Gaspar
Milena Acha
Pedro Henrique de A. B. Damin
Roberto Montenegro Perrota
Tatiana Bina
Tatiane Souza
Thiago Trindade
Tiago Atorre

Colaboradores

João Estevam de Argos


Lorena Garcia
Rodrigo Angeles Flores

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Apresentação

Veronica Wesolowski

E ste volume pretende registrar através da força da letra escrita um pouco do que foi a di-
versidade e a intensidade da III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Um
evento acadêmico construído pela atuação conjunta de alunos e docentes, e que tive o privilégio de
coordenar. Um evento acadêmico e também uma homenagem a um colega especial, André Penin,
que já não anda entre os vivos, mas que permanece nas memórias e nas histórias.
As Semanas de Arqueologia dos Alunos do MAE têm se tornado mais complexas e maiores
a cada edição, mas têm mantido a característica de unir discentes e docentes em torno de sua
organização e realização, firmemente imbuídos do propósito comum de exercitar a troca de saberes
e experiências em torno da produção de conhecimento em Arqueologia. Este suplemento organiza
um conjunto de textos apresentados por alunos e palestrantes convidados, exemplificando bem a
variedade de áreas, temas, problemas, hipóteses, abordagens teórico-metodológicas que caracteri-
zam a pesquisa feita no MAE.
Eventos como este não são possíveis sem financiamentos e apoios, de maneira que agradece-
mos ao CNPq, à FAPESP, à Capes, ao MAE e as Pró-reitorias de Pesquisa e Pós-graduação pelos
diversos financiamentos. Agradecemos também ao apoio logístico fundamental de funcionários e
alunos.

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Homenagem à Professora Maria Isabel D’Agostino Fleming

A s Comissões da II e III Semana de Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia


realizaram, durante a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”, uma ho-
menagem à Prof. Dra. Maria Isabel D›Agostino Fleming, docente desta instituição desde 1979 e
que se aposenta neste ano.
A Professora Maria Isabel Fleming, uma das mais importantes docentes no âmbito da Arque-
ologia Romana no Brasil, é coordenadora do LARP – Laboratório de Arqueologia Romana Pro-
vincial, orientadora no tema e frequentemente convidada para participação em bancas. É possível
dizer que quase todos os pesquisadores brasileiros que estudam o mediterrâneo antigo receberam
suas valiosas contribuições.
Se sua devoção pela arqueologia romana sempre foi declarada, mais recatada, mas igualmente
importante, foram suas contribuições e envolvimento em pesquisas ceramológicas de tantos ar-
queólogos brasileiros trabalhando em contextos diversos. Nem todos sabem, mas sua introdução
na arqueologia se deu em uma escavação na Amazônia, com o Prof. Ulpiano de Bezerra Meneses e
esse interesse amplo pela Arqueologia em todos os seus âmbitos nunca foi deixado de lado.
É essa capacidade de ter um olhar amplo, indo além das barreiras acadêmicas positivistas e
que hoje ainda infelizmente não estão superadas, que a tornou figura central entre os estudantes
do Museu de Arqueologia e Etnologia do MAE. Durante todos esses anos, a preocupação com os
alunos foi um aspecto marcante da sua atuação profissional, com sua destacada participação desde
o ano 2000 na organização dos Simpósios Internacionais de Iniciação Científica da USP-SIICUSP,
evento no qual os alunos de graduação de todas as áreas da USP podem apresentar seus projetos e
dar assim seus primeiros passos na produção científica brasileira.
Foi a partir de seu interesse na divulgação científica que também se tornou, em 1991, a editora
responsável pela Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia. O trabalho realizado com imenso
afinco proporciona não só a possibilidade de publicação para arqueólogos brasileiros, como também
– através da permuta com outras instituições – a troca com outras publicações que alimentam a
biblioteca do MAE-USP e permitem a pesquisa de diversos temas.
As duas edições da Semana têm uma dívida com a Professora. Salvo quem está nos bastidores
do evento, poucos conseguem imaginar o trabalho despendido pelos alunos e professores envolvi-
dos, em especial pela Professora Marisa Isabel D’Agostino Fleming.
Coordenadora da II Semana de Arqueologia, realizada em 2011, sua ajuda foi inestimável
também na III Semana de Arqueologia.
Para os alunos do MAE-USP, fazer parte da «Semana de Arqueologia» é sobretudo um grande
aprendizado: de maneira objetiva sobre a organização de um evento, mas igualmente sobre a impor-
tância e os meios do compartilhamento da pesquisa científica e a relevância da troca entre alunos
do programa de pós-graduação do MAE e de outras instituições. Lições essas das quais a professora
Maria Isabel foi uma grande mestra.
Mas é necessário destacar um outro aprendizado, fundamental para os que almejam trabalhar
com a arqueologia tanto na área acadêmica quanto no «mercado», um aprendizado sobre a serieda-
de, o profissionalismo e a maneira ética e humana de nos conduzirmos em um ambiente profissional
que o seu exemplo de conduta nos forneceu.
A Professora Maria Isabel acolheu com vigor e empolgação os anseios da II Semana de Arqueo-
logia que, como podemos perceber, gerou frutos e bases sólidas para os projetos desta terceira edição.

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Quando surgiu, a Semana de Arqueologia tinha como projeto fazer algo inédito no Museu, permitir
que os discentes conhecessem as pesquisas de seus colegas do programa de pós-graduação e assim
pudessem trocar conhecimentos e se auxiliarem no percurso acadêmico. O caminho deste pequeno
projeto em direção para o que viria a se tornar esse evento – que congrega alunos de várias institui-
ções e de diversos níveis, conta com debates entre professores e profissionais, além de palestras – foi
árduo, porém, para a surpresa geral, muito rápido. O que demonstra o espaço e a necessidade de um
evento como este. Faz-se necessário então salientar que sem o apoio de vários docentes, e entre esses
a Prof. Maria Isabel D’Agostino Fleming, a concretização desse sonho não teria sido possível.
Gostaríamos de registrar os nossos mais sinceros agradecimentos à Professora Maria Isabel
D’Agostino Fleming, pelo aprendizado de uma conduta profissional, humana e profundamente
comprometida com a divulgação do conhecimento científico.

Fig. 1. EPA 1973 – Prof. Ulpiano – Maria José – Marlene Suano – Prof. Maria
Isabel e Sr. Memésio I.

Fig. 2. EPA 1973 – Sondagem Ulpiano Maria José e Prof. Maria Isabel.

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Homenagem a André Penin

Fabiana Belém
Danilo Assunção

A ndré Penin Santos de Lima possuía graduação em História pela Universidade de São Paulo
(2000), graduação em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998),
mestrado em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (2005) e doutorado em Arqueologia
pela Universidade de São Paulo (2010). Foi Professor da Universidade Federal de Rondônia, onde
exerceu a função de vice-chefe do Departamento de Arqueologia, e onde ministrou disciplinas de
Conservação, de Gestão e Preservação do Patrimônio Arqueológico e Arqueologia Brasileira no
Curso de Graduação em Arqueologia. Foi também professor colaborador da Universidade Estadual
do Amazonas e Membro de corpo editorial da Veredas Amazônicas.
Sua paixão pela arqueologia era tão grande que o Brasil ficou pequeno, viajou o país do ex-
tremo norte ao extremo sul. Transitou pelas três esferas da Arqueologia Brasileira, a Academia, o
Contrato e como ele mesmo dizia do outro lado do Balcão, sendo técnico em arqueologia da Supe-
rintendência do IPHAN em São Paulo e da Superintendência do IPHAN em Santa Catarina, entre
os anos de 2006 e 2009. Em sua atuação, tem destaque para os temas políticos que envolvem na
atualidade a Arqueologia Brasileira.
Nascido no ano de 1976, no mês de novembro, André era paulistano, filho do Sr. Lineu e da Dna.
Nena, irmão de Guilherme. Nos momentos de lazer praticava judô e gostava de saborear diferentes tipos
de cerveja no bar Asterix. Adorava longos e bons papos e participava dos mais distintos e variados grupos
de amizade. Certamente, nem tudo que o André sabia ele aprendeu na academia, seu caráter íntegro e
generoso são de berço. O André era um cavalheiro e um amigo extremamente carinhoso e cuidadoso.
Dos trabalhos de campo, fica a lembrança do grande sorriso que ele abria ao final de cada dia
de trabalho. Cansado, desarrumado, enlameado, muitas vezes machucado pelas constantes quedas
e escorregões em meio a topografia acidentada do Vale do Ribeira, mas extremamente feliz. Sua fe-
licidade contagiava. Quanto mais difícil fosse o trabalho mais ele se divertia. E ele tinha uma regra:
uma cerveja antes do banho. Sentávamos juntos à porta do hotel e conversávamos sobre os sítios
arqueológicos e o andamento da escavação como quem comenta a vitória de seu clube de futebol
na última rodada. As pessoas que passavam e olhavam aquele jovem desarrumado, não poderiam
supor que ele se tornaria um dos mais geniais arqueólogos da nossa geração.
Desde os tempos de estagiário era perceptível a admiração que ele tinha pelos materiais
arqueológicos, admiração que transparecia em um discreto sorriso de canto de boca a cada vez que
ele pegava um artefato bifacial para analisar. Foi nessa época que conhecemos o André, éramos
estudantes com um sonho comum, sermos Arqueólogos. Todos nós fomos orientandos pelo Prof.
Paulo DeBlasis, o Paulé.
Na época seus interesses acadêmicos estavam voltados principalmente para indústrias líticas
(lascadas e polidas) e sambaquis. Foram vários campos realizados no litoral sul de Santa Catarina,
de São Paulo e no interior; várias horas em laboratório e a aproximação e identificação foi inevitá-
vel. De colega de profissão, o André se tornou um grande amigo pessoal. Foram tantos momentos
divertidos envolvendo longos cafés, almoços, jantares, cervejas, conversas sobre amenidades e
acalorados debates sobre arqueologia, trocas de e-mails, mensagens de celular e passeios.
Nos últimos dias juntos no final de 2011, foi nítido que algo o incomodava, exatamente o quê,
nunca saberemos. Apesar de amar lecionar, nutrir por seus alunos um enorme carinho, além, é

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claro, do carinho por seus amigos lá em Rondônia e o fato de estar animadamente envolvido com
Arqueologia Amazônica, ainda era muito difícil morar em Porto Velho. Apesar de tudo, André
era invadido constantemente por uma saudade de casa, de SP, dos amigos do sul e muitas vezes se
sentia solitário. E uma coisa ficou clara, ele queria voltar. Na hora de nos despedir, um abraço aper-
tado, um largo sorriso, característico do André, e um olhar cheio de brilho. Um brilho diferente,
que transpassava carinho, admiração e resignação; um brilho inquietante, algo indecifrável no ar, só
depois foi possível entender que aquele era o brilho de um difícil ADEUS.
E assim começamos o ano de 2012, com uma perda irreparável, tanto para a arqueologia quan-
to para nossos corações. Talvez, como mecanismos de defesa, de nós que éramos mais próximo, foi
preciso ressignificar seu falecimento prematuro, e enfatizar o que de fato fica de importante nisso
tudo.
Por onde Penin trabalhou ele deixou marcas de seu compromisso, dedicação, responsabilidade
e paixão pela pesquisa e pela docência. Dele ficará para todos nós a sua produção de conheci-
mentos e a sua conduta profissional marcada pela seriedade, dedicação e integridade de caráter e
atitudes! Sua partida precoce muito nos entristeceu, mas o legado de seu profissionalismo há de
ser lembrado para sempre, pois era comprometido com a ética na Arqueologia Brasileira e membro
ativo nos debates sobre esta temática.
Os fatos que culminaram na triste morte de nosso amigo e companheiro de profissão poderiam
ser rapidamente esquecidos, e, de fato, talvez serão, pois para nós que o acompanhamos de perto
não interessa manter na memória os desenlaces violentos de seus momentos finais. Contudo, cabe
aqui um sincero agradecimento aos alunos da Comissão Organizadora desta semana de Arqueolo-
gia, que, ao lembrá-lo na denominação desse evento, ressaltam o que de fato nos importa lembrar e
saber.
É cada vez mais conclamada a responsabilidade social e o posicionamento político que nós
arqueólogos devemos ter. Nossas práticas influenciam a construção da história e da memória, e a
breve, contudo intensa e coerente trajetória profissional que o André teve, essa, sim, não deve cair
no esquecimento, nos mostrando os desafios que nos esperam os próximos passos desta disciplina
nesse país. Seu exemplo nos serve de inspiração! Obrigada, querido amigo!
À sua família, oferecemos essa singela, mas genuína homenagem. “ A saudade é o amor que
fica” (autor desconhecido).

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Arqueologia em construção

Carta produzida pelo Grupo de Trabalho – “Arqueologia de Contrato”*

A III Semana de Arqueologia tem como objetivos o debate, a troca de informações e expe-
riências entre estudantes, pesquisadores e profissionais, almejando fomentar a divulgação
e a consolidação da área. Por tratar-se de uma semana organizada pelos alunos, as temáticas das
mesas foram escolhidas com base nos diferentes trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelos estu-
dantes de pós-graduação do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Um dos temas fundamentais para os estudantes era a necessidade de uma mesa que discutisse
os rumos da arqueologia no país, tendo em vista o grande número de pesquisas que estão sendo
desenvolvidas, em sua grande maioria no âmbito da arqueologia de contrato.
Como buscávamos para esta mesa um espaço de debate entre os convidados e o público, op-
tamos que esta tivesse um formato diferente das demais, em que não fossem enfocados estudos de
casos específicos e, sim, que pudéssemos discutir de maneira mais ampla questões enfrentadas no co-
tidiano das empresas, dos órgãos públicos, das universidades e dos próprios profissionais envolvidos.
Ressalta-se também o papel do Museu de Arqueologia da USP como um dos principais
centros de pesquisa que tem formado os quadros profissionais nas universidades e nas empresas
do Brasil. Além disso, temos previsto para o ano de 2015 o curso de graduação em arqueologia,
aglutinando mais estudantes e professores, o que certamente nos impõe um peso político e certa
responsabilidade.
Na II Semana de Arqueologia promovida pelos estudantes do MAE-USP foi organizada uma
mesa intitulada Arqueologia Pública & Arqueologia de Contrato: o papel do arqueólogo na gestão do pa-
trimônio, da qual participaram os professores Fabíola Silva, Paulo Zanettini e Maria Clara Migliaccio,
a qual teve, como debatedor, o professor Camilo de Mello Vasconcellos. As discussões permearam
principalmente a questão dos acervos arqueológicos e os avanços da arqueologia de contrato em
termos de crescimento de número de profissionais envolvidos e pesquisas realizadas.
Dessa maneira, para a mesa de debates organizada por ocasião da III Semana de Arqueologia,
iniciou-se um grupo de discussão aberto, formado por alunos do Programa de Pós-Graduação em
Arqueologia do MAE-USP, que tem se reunido desde dezembro de 2012 para refletir acerca das
principais questões que temos vivenciado como estudantes e profissionais de arqueologia. Tomamos
tal iniciativa com o intuito de trazer apontamentos para dialogar com diferentes agentes, comparti-
lhando ansiedades que permeiam os estudantes. Durante as discussões ficou evidente a necessidade
de mais debates como este. Isso não tem ocorrido por nossa própria falta de articulação e por certa
insegurança para expor questões e problemáticas.
É importante salientar a necessária aproximação do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP
que durante anos se manteve distante para discutir a arqueologia de contrato, mesmo tendo grande
parte das pesquisas desenvolvidas de projetos advindos deste campo, entre mestrados e doutorados.
Trata-se, além disso, de pensar o papel da universidade pública que deve ser crítica e reflexiva em
relação à sociedade de modo geral. No entanto, consideramos fundamental ir além de dicotomias
criadas entre arqueologia acadêmica e arqueologia de contrato.

* Coletivo de estudantes do PPGARQ – MAE – USP.

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É inegável que os trabalhos desenvolvidos no contrato tomaram um fôlego que representa
hoje 95% da pesquisa no país, conforme aponta Zanettini (2009). Ainda com relação ao autor, este
tipo de trabalho se encontra hoje onde está o capital, e em sua maioria, nas regiões onde a política
desenvolvimentista nacional mais tem atuado.
As primeiras discussões do grupo giraram em torno fundamentalmente de relatos, críticas e
inúmeros debates em torno da ética na profissão. Ao longo das reuniões foram se delineando as
principais temáticas que os estudantes do MAE gostariam que fossem discutidas.
Assim elencamos três eixos conforme descritos abaixo:

1. A propriedade intelectual: autoria dos trabalhos arqueológicos, seja em relação a arqueólo-


gos e comunidades, seja entre os próprios arqueólogos.

No contexto brasileiro, os direitos autorais e os que lhe são conexos são regulados pela Lei nº
9.610, de 1998, que visa a garantia do direito dos criadores de uma obra intelectual de usufruir to-
dos os benefícios proporcionados pela sua concepção. Recentemente, o Plano Nacional de Cultura
sinaliza a necessidade da publicação das pesquisas desenvolvidas no âmbito da arqueologia (Meta
40 do Plano Nacional da Cultura: Disponibilização na internet dos inventários e das ações de reco-
nhecimento realizadas pelo IPHAN).
A questão da autoria envolve as desigualdades nas relações de poder e a distribuição dos bene-
fícios da pesquisa. Compreendemos que nas múltiplas dinâmicas envolvendo a pesquisa científica
no âmbito da arqueologia, relações desiguais existem junto às comunidades que são consideradas
“matéria-prima”, e a busca por uma arqueologia descolonizante ainda está muito aquém na prática.
Por outro lado, as relações no processo de produção científica dos relatórios técnico-científicos
também são desiguais, de modo que muitas vezes o autor de determinado texto no relatório é colo-
cado como integrante de equipe técnica, sendo que a autoria do trabalho é dada exclusivamente ao
arqueólogo responsável ou empresa.
No que se refere às relações com as comunidades, durante muito tempo, arqueólogos se
apropriaram de interpretações locais a respeito de determinados contextos e estes grupos e pessoas
sequer são referenciadas e beneficiadas pela pesquisa. Por outro lado, as discussões iniciadas pela
arqueologia pós-processual nos últimos vinte anos, a nova perspectiva sobre o papel do arqueólogo
e suas interpretações como apenas UMA das leituras sobre um contexto, possibilitaram reflexões
a respeito de arqueologias mais simétricas e colaborativas. Embora muito distantes da prática,
compreendemos que as recentes discussões configuram um interessante momento para pensarmos a
questão dos direitos autorais e a relação das interpretações entre arqueólogos e comunidades.
A complexa rede que envolve os direitos autorais nos relatórios técnicos está associada à
divisão do trabalho (texto do responsável que analisa determinado tipo de material, texto daquele
que faz a parte da educação patrimonial, o relatório do curador dos acervos etc.), a qual reflete na
produção dos mesmos.
Os resultados da produção inserida nos relatórios técnicos correspondem à grande parte da
pesquisa científica realizada hoje na arqueologia brasileira. No entanto, o acesso público a estes
resultados continua limitado, detido e gerido por uma instituição federal que, na prática, por meio
de suas respectivas superintendências estaduais, delibera a quem cabe o acesso às pesquisas desen-
volvidas.
Assim, de que forma o IPHAN poderia trabalhar para a melhoria do acesso aos dados das
pesquisas? Como órgãos públicos e empresas têm pensado as metas do Ministério da Cultura para o
acesso à informação? Do ponto de vista dos que estão à frente da arqueologia de contrato, quais es-
tratégias a curto, médio e longo prazo são possíveis para a questão do compartilhamento da autoria
nas pesquisas arqueológicas?

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2. A continuidade da discussão iniciada na II Semana de Arqueologia a respeito da potenciali-
zação da dimensão da extroversão do conhecimento e do uso do patrimônio como recurso de
desenvolvimento local.

Com o crescimento exponencial da arqueologia de contrato no país nos últimos anos, impulsio-
nado pelo licenciamento ambiental e este, por sua vez, pela política desenvolvimentista, temos uma
produção de acervos (patrimônio arqueológico) que vem se espalhando pelas mais variadas regiões
do país, sendo salvaguardados nos mais diversos tipos de espaços (museus, laboratórios, centros de
pesquisa etc.).
Dessa forma, fica evidente uma problemática em relação ao patrimônio, ao território e
às comunidades que são alvo das pesquisas arqueológicas. Como tem demonstrado trabalhos
recentes (WICHERS, 2011), as instituições de endosso dos acervos criados pelos projetos de
arqueologia, em sua maioria, são distantes ou estão localizados em estados diferentes da região
pesquisada, afastando as populações de suas evidências patrimoniais. Além disso, tais espaços
muitas vezes não passam de um depósito, não permitindo o uso do patrimônio pelas mesmas
populações.
De maneira ampla, no âmbito da arqueologia, todo pesquisador precisa refletir sobre os impac-
tos das suas histórias construídas em torno do patrimônio arqueológico e como estas se refletem nas
populações do presente. Outra questão importante é que toda pesquisa arqueológica gera acervos
ou se debruça sobre os mesmos. Dessa forma, qual o papel das pesquisas arqueológicas para poten-
cializar as ações museológicas e de extroversão do patrimônio?
Tomando como partido as discussões contemporâneas sobre patrimônio, alguns pesquisadores e
autores apontam-no como recurso de desenvolvimento local (VARINE, 2012), devido às camadas
de capital simbólico, cultural e econômico que agregam. Afastar, portanto, os bens patrimoniais de
seus territórios de origem é, consequentemente, tirar a possibilidade das populações que ocupam
esse mesmo espaço de utilizarem tais bens como ferramentas de transformação local, além de outros
engajamentos e agendas.
Assim, como poderíamos lidar com a problemática do retorno dado à sociedade, para que
extrapole as famigeradas ações de educação patrimonial? Como permitir que o patrimônio arqueo-
lógico seja em si uma ferramenta de transformação local e muitas vezes de reflexão sobre as próprias
transformações do presente impulsionadas pelos empreendimentos em andamento?
Sabemos que o desenvolvimentismo tem sido uma ação imposta por políticas público/privadas
incoerentes com a diversidade de modos de vida. Dessa forma, poderíamos nos indagar se a própria
arqueologia seria capaz de apresentar ao capital (desenvolvimento a todo custo) outros modos de
vida e de relação com o espaço e com o tempo.

3. Parâmetros de qualidade e relações de trabalho

Recentes discussões têm abordado intensamente a questão da regulamentação da profissão do


arqueólogo ocupando espaços em congressos como a última reunião da Sociedade de Arqueologia
Brasileira, o VI Encontro de Teoria Arqueológica da América do Sul e, inclusive, no Ministério
Público, em reunião realizada na cidade de São Paulo, no ano de 2011.
Esta temática surgiu a partir de reflexões sobre parâmetros mínimos de qualidade e a questão
da profissionalização. Perguntamo-nos se o processo de regulamentação da profissão implicará a
melhoria da qualidade dos trabalhos.
No contexto atual, temos vivido um quadro em que técnicos de campo e laboratórios das
empresas de arqueologia são subalternizados na distribuição do capital científico. Por outro lado,
professores universitários vêm progressivamente abandonando os grandes projetos acadêmicos indi-

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cando que a “arqueologia acadêmica e a de contrato” têm partilhado de um mesmo grave proble-
ma, que é a proletarização de seus quadros, conforme Penin (2010).
Da mesma forma, não há efetiva inserção dos arqueólogos nos órgãos públicos demonstrando
uma falta de reconhecimento deste profissional. Isso tem implicado a não participação de arqueólogos
em tomadas de decisão no que se refere ao planejamento no âmbito das políticas nacionais, relegando
nosso papel a trabalhos técnicos.
Embora seja aparentemente óbvio, muitos arqueólogos julgam que seu trabalho é apenas
verificar a presença ou ausência de sítios. Segundo Penin, o arqueólogo precisa compreender que,
embora não seja ele quem em última análise toma a decisão sobre a preservação ou não de dado
patrimônio, é sua recomendação que determinará a postura do técnico do IPHAN. Portanto, é
fundamental ser claro e explícito nas suas recomendações, ou seja, assumir um posicionamento
político e agir com ética.
Nesse quadro, em que medida a profissionalização poderia contribuir para a valorização do
profissional junto à sociedade? O que seriam parâmetros de qualidade para o desenvolvimento de
uma boa pesquisa arqueológica? Qual o papel da academia e do contrato perante o aumento de
pesquisas?

Referências bibliográficas

PENIN, A.
2010. Academia, Contrato e Patrimônio. Visões distintas da mesma disciplina. Tese de Doutorado apresentada
ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Univer-
sidade de São Paulo. São Paulo.
VARINE, H.
2012 As raízes do futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local. (trad.) HORTA, Maria de Lourdes
Parreiras. Porto Alegre: Medianiz.

WICHERS, C.
2011 Patrimônio Arqueológico Paulista: proposições e provocações museológicas. Tese de Doutorado
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia
da Universidade de São Paulo. São Paulo,
ZANETTINI, P.
2009 Qual futuro desejamos para a arqueologia no Brasil? In: Jornal da Sociedade de Arqueologia Brasileira.

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Sumário
PALESTRAS
MESAS-REDONDAS

03 Marta Mega de Andrade O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem,


uma categoria de análise?

09 Loredana Ribeiro Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológi-


ca do trabalho de mulheres no garimpo tradi-
cional

17 Márcia Arcuri Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes


olhares sobre a cultura material arqueológica
Pré-Colombiana

23 Javier Nastri O estudo das ordens sociais Pré-Colombianas


por meio da iconografia: Algumas chaves
interpretativas

33 Patric Le Roux Contribuições e limites da epigrafia do mundo


romano

COMUNICAÇÕES

43 Guilherme Z. Mongeló Apontamentos sobre o Período Formativo nas


Terras Baixas

49 Jonas Gregorio de Souza Centros cerimoniais e sistemas de assentamen-


to Jê do Sul

57 Daniela La Chioma Silvestre Villalva O músico na iconografia da cerâmica ritual


Mochica do Período Médio: Uma relação entre
instrumentos sonoros e papéis sociais

65 Tatiana Bina Atributos e elementos de paramentação como


indicadores arqueológicos nas representações
de divindades em pilares e colunas de Júpiter
na Gália-Romana

71 Fabiana Terhaag Merencio A subcoleção Laming-Emperaire do lítico Xetá:


Caracterização do sistema tecnológico

77 Mercedes Okumura Desconstruindo o que Nunca foi Construído:


Astolfo Araújo Pontas Bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do
Brasil

83 Tatiane de Souza Ferramentas e Pinturas nos Abrigos Vermelhos:


Paulo DeBlasis Estudo de uma indústria lítica em contexto

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89 Rodrigo Angeles Flores Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de
Taquaraçu (MG): Resultados preliminares do
estudo de vestígios botânicos

95 Francini Medeiros da Silva Coleção de referência de macrovestígios vege-


Myrtle Pearl Shock tais carbonizados para análises arqueobotânicas
Rita Scheel-Ybert

101 Filippo Stampanoni Bassi As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Ama-
Marta Sara Cavallini zônia Central) e a formação de uma fronteira
cultural persistente no final do I milênio DC

109 Carolina Machado Guedes Pinturas geométricas no interior do Alagoas:


Considerações teóricas nos sítios rupestres no
município de Pão de Açúcar, AL

115 Thiago Berlanga Trindade Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização


morfológica e locacional com o auxílio de SIG
& métodos estatísticos

123 Rodrigo Lessa Costa Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG):


Análise Preliminar

131 Regina H. Rezende Uso de bancos de dados e SIG na pesquisa


arqueológica: Investigando a construção da pai-
sagem por meio dos santuários do mundo grego

139 Alex da Silva Martire Através da paisagem mineradora romana anti-


ga: O uso da Ciberarqueologia para a recons-
trução interativa tridimensional

145 Lorena Garcia Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-


-Tocantins: Revisão das fases Itacaiúnas e
Carapanã

153 Lucas Bond Reis Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas


subterrâneas no litoral de Santa Catarina

161 Gabriela Oppitz Armação do Sul: Continuidades e descontinui-


dades, os sítios conchíferos do litoral central
catarinense na longa duração

167 Cristiane Eugênia Amarante Arqueologia Marítima e Subaquática nos Mu-


Marília Xavier Cury seus: Casos do Brasil e da Espanha

175 Sabrina de Assis Andrade Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra


Indígena Ilha da Cotinga – litoral do Estado do
Paraná

14272 book.indb 18 26/08/2015 10:59:12


181 Virginia Marques da Silva Neta Arqueologia Histórica e patrimônio cultural no
centro histórico de Teresina – Piauí: Resgate da
memória, construção da identidade e fortaleci-
mento da cidadania

187 Mara Rodrigues Chaves Memória e patrimônio da Nigéria no Brasil

193 Agatha Rodrigues da Silva “Um sentimento de orgulho e carinho”: A Ges-


tão Patrimonial na África do Sul (1987 a1993)

199 Beatriz Lussim Mundos do trabalho e arqueologia industrial.


As fábricas têxteis Nossa Senhora da Ponte e
Santo Antônio de Sorocaba, SP

205 Virginia Marques da Silva Neta A socialização do conhecimento arqueológico


como ferramenta didática nos níveis funda-
mental e médio

211 Márcia Lika Hattori Diálogos e vínculos entre diferentes atores –


Louise Prado Alfonso por uma Arqueologia mais colaborativa

219 Leilane Patricia de Lima O estudo de público na Arqueologia: Consi-


derações sobre uma experiência educativa em
Londrina/PR

225 Bernadete Aparecida Caprioglio Castro Arqueologia na escola – patrimônio e territó-


Olívia Ricci rio: Uma proposta
Renata Cristina Zanilatto

229 Michel Bueno Flores da Silva Análise intrassítio de aldeias relacionadas à


João Darcy de Moura Saldanha Fase Aristé: Contribuições para uma Household
Archaeology da Costa Atlântica do Amapá

237 Meliam Viganó Gaspar A Cerâmica Arqueológica na T. I. Kaiabi


MT/PA

243 Erêndira Oliveira Para além dos tipos: Explorando a variabilidade


tecnológica e estilística da Cerâmica Guarita da
Tradição Polícroma da Amazônia

251 Laura Pereira Furquim Análise cerâmica do Sítio São Miguel do Cacau:
Um contexto funerário no Lago Amanã (RDSA
– AM)

257 Jaqueline Belletti Comparações entre morfologias da Tradição


Polícroma na calha do alto médio Amazonas: A
procura de diferenças nas continuidades

265 Pedro Henrique de Almeida Batista Identificação e mapeamento de antigas áreas de


Damin moradia quilombolas: Estudo de caso da comu-
nidade quilombola de Pedro Cubas/SP

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Contents
CONFERENCES
ROUND TABLES

3 Marta Mega de Andrade Gender and space: among uses and patterns, is
there a category of analysis?

9 Loredana Ribeiro Gender and collective action. Archaeological


ethnography of the women work in the tradi-
tional mining

17 Márcia Arcuri Structure, Reproduction and Transition:


Different perspectives on the studies of Pre-
-Columbian material culture

23 Javier Nastri The study of social order Pre-Columbian ico-


nography through some keys interpretative

33 Patric Le Roux Contributions and limitations of epigraphy of


the Roman world

COMUNICATIONS

43 Guilherme Z. Mongeló Notes about the Formative Period in the South


American Lowlands

49 Jonas Gregorio de Souza Southern Jê ceremonial centres and settlement


systems

51 Daniela La Chioma Silvestre Villalva Iconographic representations of musicians in


the Middle Moche period: an interelationship
between sound instruments and social roles

65 Tatiana Bina Attributes and paramentation elements as


archaeological indicators in the representations
of deities on pillars and columns in Jupiter
Gaul-Roman

71 Fabiana Terhaag Merencio The Laming-Emperaire sub collection of Xetá li-


thic: Characterization of the technological system

77 Mercedes Okumura Undoing what was never done: ‘Umbu’ bifacial


Astolfo Araújo points from Southern and Southeastern Brazil

83 Tatiane de Souza Tools and Paintings in Red Rockshelter: Study


Paulo DeBlasis of a lithic industry in context

14272 book.indb 21 26/08/2015 10:59:12


89 Rodrigo Angeles Flores Use of plant resources in Lapa Grande Taqua-
raçu (MG): Preliminary results for the study of
botanical remains

95 Francini Medeiros da Silva Reference collection of charred plants macrore-


Myrtle Pearl Shock mains for archaeobotanical analyses
Rita Scheel-Ybert

101 Filippo Stampanoni Bassi Rock art of the lower Urubu River Basin (Central
Marta Sara Cavallini Amazon) and the formation of a persistent cultural
boundary at the end of the first millennium AD

109 Carolina Machado Guedes Geometric rock art paintings from Alagoas:
Theoretic considerations on the rock art sites
from Pão de Açúcar, AL

115 Thiago Berlanga Trindade Geoglyphs, zanjas & earthworks: Morphologi-


cal and locational caracterization with GIS &
statistics

123 Rodrigo Lessa Costa Artifacts from Gruta do Gentio Site (MG):
A Preliminary Analysis

131 Regina H. Rezende Use of database and GIS in archaeological resear-


ch: Investigating the construction of the landscape
through the sanctuaries of the Greek world

139 Alex da Silva Martire Through the Ancient Roman mining landscape:
The use of Cyber-Archaeology for interactive
reconstruction

145 Lorena Garcia Archaeological sites of the Xingu-Tocantins


watersheds: The review of Itacaiunas and Cara-
panã regional phases

153 Lucas Bond Reis Notes about the occurrence of pit houses in
Santa Catarina’s coast

161 Gabriela Oppitz Armação do Sul: Continuities and discontinui-


ties – the shell middens of Santa Catarina’s
central shore under the long term

167 Cristiane Eugênia Amarante Maritime Archaeology and Underwater Archa-


Marília Xavier Cury eology: cases of Brazil and Spain

175 Sabrina de Assis Andrade Territorial occupation Mbya Guarani Indige-


nous Land Cotinga Island – coast of the state
of Paraná

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181 Virginia Marques da Silva Neta Arqueología histórica y patrimonio cultural en
el centro histórico de Teresina – Piauí: Rescate
de la memoria, construcción de la identidad y
fortalecimiento de la ciudadania

187 Mara Rodrigues Chaves Memory and Heritage of Nigeria in Brazil

193 Agatha Rodrigues da Silva “A feeling of pride and caring”: The manage-
ment of archaeological heritage in South Africa
(1987 to 1993)

199 Beatriz Lussim Worlds of work and industrial archeology. The


textile mills Nossa Senhora da Ponte and Santo
Antônio, Sorocaba, SP

205 Virginia Marques da Silva Neta La socialización del conocimiento arqueologi-


co como herramienta didactica en los niveles
fundamental y mediano

211 Márcia Lika Hattori Dialogues and linkages between different stakehol-
Louise Prado Alfonso ders – for a more collaborative Archaeology

219 Leilane Patricia de Lima The study of the public in Archaeology: Con-
siderations about an educational experience in
Londrina / PR

225 Bernadete Aparecida Caprioglio Castro Archeology in school – heritage and territory:
Olívia Ricci A proposal
Renata Cristina Zanilatto

229 Michel Bueno Flores da Silva Intrasite analysis of villages related to Aristé
João Darcy de Moura Saldanha Phase: Contributions for the Household Ar-
chaeology of the Atlantic Coast of Amapá

237 Meliam Viganó Gaspar The Archaeological Ceramic in T. I. Kaiabi


MT/PA

243 Erêndira Oliveira Beyond types: Exploring the technological and


stylistic variability on Guarita Pottery of the
Amazonian Polychrome Tradition

251 Laura Pereira Furquim Ceramical analisys of São Miguel do Cacau site: A
funerary contexto at Amanã Lake (RDSA-AM)

257 Jaqueline Belletti Comparing morphologies of Polícroma Tradi-


tion in the Upper-Middle Amazon River: The
search for differences in the continuity

Identification and mapping of maroon ancient


265 Pedro Henrique de Almeida Batista households: Case study of Pedro Cubas maroon
Damin community

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Palestras
Mesas-Redondas

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O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem, uma
categoria de análise?

Marta Mega de Andrade*

ANDRADE, M. M. O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem, uma categoria de


análise? Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20:
3-8, 2015.

Resumo: procurarei discutir as bases analíticas do conceito de gênero


e suas possibilidades para a história e arqueologia do mundo grego antigo,
focalizando a problemática do espaço organizado e do espaço “utilizado”. O
que buscamos quando colocamos em questão o “gênero” como operador de
(padrões de) usos do espaço? Trata-se de homens, mulheres e suas formas
de apropriar-se dos artefatos? Ou se trata dos padrões culturais de produção
do feminino e do masculino? Ou, enfim, desejamos, de fato, escrever mais e
entender melhor a presença e a agency das mulheres na vida social dos antigos
gregos, quando as fontes de cunho textual mostram-se por demais unívocas
e centradas nos pressupostos de uma sociedade patrimonial e patriarcal? Por
seu turno, como se aplicaria a noção de gênero, tal como elaborada diante das
problemáticas feministas no mundo moderno, às comunidades gregas antigas?

Palavras-chave: Gênero – Masculino-Feminino – Mundo grego

Q uando pesquisamos em história o


mundo antigo, percebemos rapi-
damente a inconsistência de operações que
história antiga se configuram em uma riqueza e
uma criatividade de questionamentos do pró-
prio ofício de historiador que não são comuns
visariam a buscar um discurso contínuo, uma aos especialistas em períodos mais recentes.
narrativa que atendesse aos moldes mais Falava Veyne que os historiadores acostuma-
tradicionais de uma historiografia vinculada a dos a lidar com a abundância de documen-
transformação das sociedades no tempo. Pode- tação acabam sofrendo com a “esclerose da
mos colocar aqui a questão da consistência ou problemática”1.
não das explicações globais em qualquer estudo
de história, mas em história antiga lidamos com
problemáticas ao mesmo tempo particulares e (1) Toda historiografia depende, por um lado, da proble-
muito, muito ricas em seus desdobramentos. mática que ela se formula, e, por outro, dos documentos de
Penso aqui nas palavras de Paul Veyne que dispõe. E, se uma historiografia encontra-se bloqueada,
isto se deve às vezes à falta de documentos, às vezes a uma
em sua lição inaugural no Collège de France, problemática esclerosada. Ora, a experiência prova que
para quem os imensos hiatos das narrativas em a esclerose da problemática sobrevém sempre muito mais
cedo que o esgotamento dos documentos: mesmo quando a
documentação não é pobre, há sempre problemas que não
(*) Universidade Federal do Rio de Janeiro pensamos formular. (Veyne 1983: 12)

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ANDRADE, M. M. O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem, uma categoria de análise? Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 3-8, 2015.

Pois bem, sempre fomos extremamente cultura material o estudo de certos padrões que
ciosos das questões relativas à produção de possam ser definidos pelas relações de gênero.
explicações históricas sobre o mundo antigo. De fato, isso é o que mais se apresenta nos
A crítica das fontes começa bastante cedo, de trabalhos. Mas a nossa pergunta aqui segue
fato. E desde meados do século XX, não há uma outra direção (embora apontemos que
um historiador da antiguidade que não aponte caminhos são esses da utilização do conceito de
a parcialidade embutida nos textos, como por gênero para destrinchar relações de gênero na
exemplo James Redfield, que brinca com essa cultura material). Interessa-nos problematizar
questão ao dizer que através da literatura clássi- a categoria de análise “gênero”, compreender
ca, acabamos lidando com os gregos apenas em o que estamos chamando de gênero quando
suas “roupas de domingo” (1994). diante das comunidades gregas do mediterrâneo
E ele fala isso justamente em um texto que antigo (e daí, se isso pode ser visto de forma
procura discutir a questão da vida doméstica homogênea), e, por fim, como a arqueologia
(ou a de sua desaparição) nos textos literários contribui (vejam bem, não apenas adota, mas
gregos. Ora, e o que “desaparece” nesses textos contribui) para essa problematização. Meu
literários gregos? Precisamente as histórias de interesse específico está embutido na pesquisa
amor. Ao menos a valoração positiva do amor e que realizo há mais de dez anos, sobre a “política
do casamento, e daí da relação com as mulheres. das mulheres” na Atenas Clássica. E adianto
Poderíamos iniciar aqui a discussão desse que não tenho resposta pronta para as questões
ponto, qual seja, da presença das mulheres mais centrais que colocarei aqui.
nos textos que nos são caros, com os quais nos Então, como assim? Como assim “gênero”,
acostumamos a fazer a história dos gregos ao em primeiro lugar? E como assim “gênero” e
longo dos últimos séculos da disciplina aca- “cultura material”?
dêmica. Mas este não é o nosso tema. Embora A forma mais tranquila de se utilizar a
tenha começado por aí para destacar a questão noção de gênero continua sendo aquela da
do gênero, em primeiro lugar, e depois a ques- antropologia funcionalista, gênero queren-
tão da arqueologia. do dizer simplesmente papéis masculinos e
Entre os historiadores, costuma-se lem- femininos, geralmente estabelecidos na divisão
brar sempre que a história da cultura material sexual do trabalho. Teríamos, assim, relações
(nome que nos auxilia a desculpar-nos, pois entre homens e mulheres que poderiam ser
não somos arqueólogos, não conhecemos o percebidas pelos diversos sistemas de classifica-
campo, o sítio, nem somos familiarizados com ção de artefatos para tarefas / usos masculinos
o trabalho do arqueólogo) traz uma dimensão ou femininos. O arco e o cesto; o caçador e
imprescindível para a pesquisa histórica, que é o coletor; o “fora” e o “dentro”. Buscaríamos
aquela da vida material, dos padrões de uso dos compreender, então, os diversos sistemas mate-
artefatos, dos comportamentos, vistos através riais estruturados pelas relações de gênero, mas
de testemunhos anônimos, ubíquos e quantifi- ao mesmo tempo estruturantes dessas relações,
cáveis. É claro que não se trata aqui de buscar em sua dinâmica.
empiria, não se trata de positivismo, e sabemos Desse tipo de abordagem há exemplos
que essa dimensão social que chamamos cultura bons e exemplos ruins. Tomemos a questão dos
material também tem seus polos de parcialida- padrões de uso do espaço da casa em diversas
de. Mas a pesquisa também mostra que é num comunidades gregas do período arcaico ao
certo afastamento da tradição literária clássica clássico, uma das questões mais abordadas nas
que vamos encontrar alguns caminhos para últimas décadas. Citemos dentro desse exemplo
conferir subjetividade histórica a grupos menos três estudos: o de Susan Walker (1983/1993),
favorecidos, como, por exemplo, os escravos, as o de Lisa Nevett (1999) e o de Nicholas Cahill
mulheres, as crianças etc. (2002). A primeira (“Women and Housing in
Acredito que a discussão do tema “gênero Classical Greece”) busca verificar nas plantas
e arqueologia” venha, de fato, a destacar na das casas gregas a alocação possível de espaços

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Marta Mega de Andrade

masculinos e femininos, seguindo as referências os trabalhos que partem da divisão de papeis


da literatura e do estudo comparativo com as sociais de acordo com a diferença sexual.
sociedades modernas do mediterrâneo oriental Acredito, inclusive, que a pesquisa arqueoló-
(gregas e islâmicas). Walker distribui homens gica é bastante frutífera quando mostra como
e mulheres separados a priori, e nos apresenta os sistemas espaciais, por exemplo, podem ser
esquemas que não tem nenhum fundamento capazes de reproduzir os papéis de gênero, não
que não se consolide nos pressupostos advindos apenas de refletir uma cultura que paire sobre a
da literatura (para não falar da problemática vida material dos agentes, mas, principalmente,
abordagem comparativa tomando como ponto como vetor na imposição, na conformação dos
de partida o mundo moderno). Lisa Nevett faz papéis. Mais ainda, como vetor no uso criativo,
um trabalho bem diferente, partindo do mate- ou na subversão de papéis (como podemos
rial arqueológico e tomando como referência perceber, por exemplo, quando nossas próprias
os quarteirões de casas preservados em Olinto, convicções advindas das fontes literárias são
acaba por nos convencer que não é possível desafiadas pelas evidências materiais do uso
inscrever na estrutura típica da casa grega – a mais global do espaço da casa pelas mulhe-
single entrance courtyard house – uma divisão res; ou mesmo saindo desse campo, quando
estrita de espaços masculinos e femininos; ela percebemos pela alocação das estelas funerárias
prefere falar em um “agendamento de tare- dedicadas a mulheres em uma necrópole a
fas”. Em suma: o espaço da casa seria utilizado extrema necessidade de exposição a ordenar
indiferenciadamente por homens e mulheres, a disposição do espaço, quando deveríamos
talvez através de acordos tácitos para proteger esperar sempre a relação entre mulheres e re-
as mulheres dos encontros com forasteiros. cato ou silêncio se nos ativéssemos à literatura
Nicholas Cahill, por seu turno, avança um clássica).
pouco mais e fazendo um estudo exaustivo Quero complicar mais a questão, contudo,
não apenas da estrutura das casas, mas dos trazendo o problema do uso da própria noção
materiais, e partindo da noção de “sistemas de de gênero, ou seja, do gênero como categoria
alocação”, corrobora as teses de Nevett e vai de análise. E aqui vou entrar mais na minha
além, mostrando que atividades reconhecida- própria área, como historiadora. Não tenho
mente femininas como as de tecelagem podiam exemplos da arqueologia para apresentar e
ser realizadas até mesmo no andron (aposento gostaria de dizer até que espero poder aplicar
tradicionalmente visto como masculino). essas reflexões no meu trabalho com a epigrafia
Então, sob esse ponto de vista, podemos funerária feminina da Ática.
dizer que uma profusão de trabalhos vêm sendo Com efeito, o que estamos chamando
feitos no intuito de compreender os padrões gênero? Dentro do modelo da divisão sexual
de uso do espaço e sua relação com a divisão do trabalho e da divisão de papéis como uma
dos papéis masculinos e femininos na casa. A constante na história de diversas sociedades, o
literatura comparece nesses trabalhos, auxilia problema pareceria resolvido. Mas e se assumi-
na compreensão, mas principalmente acaba mos que, visto desse modo constante, “gênero”
sendo não negada, mas modulada e colocada acaba por ser esvaziado justamente de sua
em perspectiva, quando se descortinam, nela, relação, primeiro, com a história contempo-
não as realidades do comportamento social, rânea dos embates de gênero e do feminismo
mas os projetos ideológicos e ideais normativos pós-1968; isto é, esvazia-se de seu conteúdo
dirigidos a certos grupos sociais. Nesse ponto, a político e, assim, de sua força epistemológica
pesquisa arqueológica nos ajuda a ler os textos de transformação da disciplina histórica, tal
e a reformular, como problema, a questão das como proposto por Joan Scott em Gender and
relações entre homens e mulheres, centraliza- the Politics of History (1999). Com isso, ignora-
das pela literatura na oikias, na casa. -se também a possibilidade de compreensão
Quando eu falei acima de uma visão contextual do gênero. Por exemplo, o que o
funcionalista, de modo algum estava a denegrir pensamento grego traz à tona quando se refere

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ANDRADE, M. M. O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem, uma categoria de análise? Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 3-8, 2015.

às relações homem-mulher, masculino-femini- e feminino. Poderíamos começar discutindo


no? Novamente parafraseando Veyne, pode- as implicações materiais de uma tal forma de
ríamos dizer que, como categoria de análise, classificação, por exemplo, que o génos, ou
gênero é um “continente” à espera dos sentidos “estirpe”, denota uma relação fundada na con-
históricos possíveis, um “bibelô de época” sanguinidade, mas também nos laços de família
(1998). que na Política I, de Aristóteles, são utilizados
Com isso, quero dizer que gênero não para diferenciar as esferas da oikias e da kome,
é um objeto de pesquisa a priori. Tomemos ou seja, relações de consanguinidade aparecem
como guia a definição dada por Joan Scott no ligadas a laços comunitários espaciais. A tribo
início da década de 1980: gênero como saber e o ethnos também são distribuições de povos
constituído a partir das diferenças percebi- no espaço, são, portanto, classificações que
das entre os sexos, e como forma primária de diferenciam grupos pelo território que ocupam
significar relações de poder. Então, teríamos e habitam.
que começar por nos perguntar não “quais são” E o que viria primeiro, a produção espa-
as diferenças percebidas entre os sexos, mas cial na percepção das relações de gênero, ou o
como são constituídas materialmente diferenças sentido do gênero expresso por concepções de
percebidas entre os sexos, e mais, como essa espaço? Talvez este seja o ponto, ou melhor,
constituição material das diferenças percebidas o segundo ponto da definição de Joan Scott:
consubstancia, mas ainda inflete no saber. Isto gênero como forma primária de significar rela-
para nos atermos à primeira parte da definição, ções de poder, mas aqui temos um complemen-
que, como se pode ver, é toda relacionada ao to: espaço como forma primária de significar
campo discursivo e ao sentido. relações de gênero. Um trinômio: gênero,
Não quero dar a entender que o certo espaço e poder.
é utilizar textos literários para buscar uma Com esse trinômio, revisitar as teses de
compreensão e depois “catar” por entre as coisas Lisa Nevett sobre a single entrance courtyard
reflexos do pensado. Não. Principalmente por- house. Vamos lá, e o que diz Nevett, principal-
que o “pensado” não pode ser pensado por nós mente:
como homogêneo. Aquilo que os textos dizem, a) que existe um padrão de habitação grega
dizem em um contexto. Mas também não quero que pode ser estudada pela arqueologia em
separar os textos da cultura material, como se longa duração. Ela está preocupada em fazer
pudéssemos conceber um universo das letras ver esse padrão, sem perder, contudo, a noção
separado de um outro, que seria o das coisas. de que as ocupações (os usos de um mesmo
Quem lida com textos epigráficos percebe ambiente) variam no tempo e no espaço;
bem isso, que os textos também são artefatos b) que esse padrão pode ser definido como
e muitas vezes são socialmente consumidos a casa, centrada num pátio e com uma entrada
como artefatos, antes que se busca linguagem e única. Uma estrutura habitacional centrípeta,
discurso. girando em torno do pátio central onde diversas
O nosso problema é, justamente, como atividades eram exercidas;
formular a questão, quando queremos com- c) que, apesar da presença demarcada do
preender a produção material do gênero e não andron em diversas casas, não é possível definir
o gênero como “saber”. Seria uma dimensão pelas evidências arqueológicas somente, um
anterior ao saber? Seria um reflexo do saber? padrão de reclusão feminina ou de distribuição
Como interagem as coisas com a produção espacial da casa para tarefas femininas que es-
desse saber? condam as mulheres, e para tarefas masculinas
Digamos que, como premissa, eu opte por como prolongamento de sua atividade pública;
falar de gênero a partir da noção poética de d) que a única forma de dar atenção ao que
um génos, ou de duas “phylai”, ou ainda de dois seguidamente dizem os textos gregos é colocar
ethne, como categorias existentes na tradi- como hipótese que tenha havido um agenda-
ção cultural grega para classificar masculino mento de tarefas, que de algum modo evitasse

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Marta Mega de Andrade

o encontro das mulheres da casa com homens constituísse um topos, um ideal normativo no
ou forasteiros de fora de casa; o problema não discurso. Não adianta tentar buscar reflexos
seria afastar homens e mulheres, mas afastar as ou influência direta entre o espaço físico e o
mulheres dos estranhos. ideal normativo centrado no casamento. Não os
Como podemos discutir essas teses, partin- encontraremos.
do não das conclusões sobre homens e mulhe- O que é interessante, porque todo o
res na casa, mas colocando em tela essa relação vocabulário “espacial” das distinções de gênero
entre espaço, poder e classificações de gênero? volta-se para termos que denotam comunida-
O espaço da casa é voltado para dentro, para des mais vastas que a da família. São estirpes,
um convívio interno, seja dos habitantes, seja tribos, ethne. O vocabulário do gênero nos leva,
dos visitantes. Não nos interessará aqui pensar de fato, para fora do domínio do oikos. Se nos
a pertinência ou não quer da separação, quer voltamos não mais para a casa, mas para os
do agendamento de tarefas. De fato, o que pa- espaços funerários, veremos algo interessante
rece bem demarcada é essa postura de separar e do que vou falar sem muitos detalhes que
o espaço interno do externo, a casa da rua, os seriam, de fato, importantes. Distribuem-se
que estão (são admitidos) do lado de dentro e ao longo de estradas nas entradas das cidades
os que não passam da porta. Parece colocar-se e nos passos mais movimentados dos demos,
aqui uma linha de força, o controle da passa- estelas funerárias (muitas em periboloi) de-
gem, da entrada. dicadas a homens e mulheres. Tomadas pela
Isto quer dizer que, a princípio, não parece iconografia, nem todas tinham relevos ou eram
haver na casa uma preocupação cabal com a pintadas, majoritariamente faziam representar
separação de homens e mulheres. Que o mais figuras femininas. Epigraficamente, a menção
singular na casa grega é o controle da passagem a nomes também apresenta uma quantidade
entre dentro e fora, voltado para a permissão significativa de designações femininas, ligeira-
ou não se estranhos. Por seu turno, sabemos mente menor que as masculinas; os epigramas,
que em muito poucas famílias seria possível por fim, aparecem em menor quantidade para
manter as mulheres somente dentro de casa; mulheres, mas ainda assim pontuam a paisa-
que elas transitavam entre a casa e a rua, e gem funerária, não são descartáveis em termos
que o padrão da habitação continua sendo o estatísticos.
mesmo quer tenhamos uma casa aparentemen- Em ambos os casos se coloca um impera-
te abastada e uma popular, dotada de loja, por tivo quanto ao visível e ao invisível. Na casa,
exemplo. Então, em princípio, o controle não os estranhos não veem os que coabitam, e ao
se aplicaria ao trânsito das mulheres, ao menos mesmo tempo os habitantes não olham para
não principalmente. Não me parece, portan- fora, mas para dentro. Nos espaços funerários,
to, que o controle de entrada definindo uma homens e mulheres tornam-se visíveis, em
“política” para a presença de pessoas no espaço nomes, textos, monumentos. São tornados
interno diga alguma coisa primariamente à individuais aos olhos de uma comunidade mais
constituição do gênero como saber, e que, de vasta. Em ambos os casos, espaço e poder li-
fato, o gênero como saber incidiria mais sobre dam de alguma forma com a visibilidade como
os usos do espaço do que sobre sua organização. questão, num se esconde, noutro se expõe. Eu
Mas teríamos então que lidar com os não saberia dizer ainda, ao menos não somente
textos, com a insistência com que os textos a partir da disposição desses espaços, como
estabelecem a oikias como lócus da relação ho- a visibilidade poderia constituir uma chave
mem/mulher. Os autores atenienses no período para a compreensão das relações de gênero, e
clássico centralizam na casa as distinções de ainda restaria realizar estudos mais detidos dos
prerrogativas de homens e mulheres, quer dizer, espaços funerários, estudos que já existem para
centralizam no casamento e na coabitação. o espaço da casa, em termos do espaço como
O espaço das casas não reflete essa posição sistema de alocação relacionados ao gênero.
recorrente, o que não quer dizer que ela não Mas o que quero frisar é que aqui temos um

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ANDRADE, M. M. O “gênero” e o espaço: Entre o uso e a ordem, uma categoria de análise? Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 3-8, 2015.

campo aberto, não tanto para estudar papéis nos nossos textos tradicionais. Portanto, essa
de homens e mulheres através da cultura intervenção vai ficar devendo uma resposta,
material, mas para usar a cultura material uma conclusão. Minha intenção maior é lançar
para colocar a questão do gênero como saber o problema e discutir, aqui, se é possível pensar
distintivo de dois grupos, designando posições numa produção de saber, “gênero”, a partir dos
para as mulheres que talvez não correspondam artefatos, da produção, da organização e dos
e até mesmo contradigam aquilo que lemos usos do espaço.

ANDRADE, M. M. Gender and space: among uses and patterns, is there a category
of analysis? Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20:
3-8, 2015.

Abstract: I’ll discuss in this paper the analytical underpinnings of the


concept of gender and its possibilities for the history and archeology of the
ancient Greek world, focusing on the issue of organized space and space as
“used”. What we seek when we put in question “gender” as an operator in
(patterns of) uses the space? Shall we be talking about men, women and
their ways of appropriating the artifacts? Or shall we seek for the cultural
patterns of production of female and male theirselves? Or, finally, is it a fact
that we are aiming to write more about and better understand the presence
and agency of women in social life of the ancient Greeks, when the sources of
textual imprint show up too homogeneous and focused on the assumptions of
a patrimonial and patriarchal society? In turn, how would we apply the notion
of gender, as drawn on feminist issues in the modern world, to the ancient
Greek communities?

Keywords: Gender – Male-Female – Greek world

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Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológica do trabalho
de mulheres no garimpo tradicional

Loredana Ribeiro*

RIBEIRO, L. Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológica do trabalho de mulheres


no garimpo tradicional. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 9-15, 2015.

Resumo: Neste texto, trato de uma etnografia arqueológica do envolvi-


mento de um coletivo tradicional de garimpo com a mineração industrial a
partir de meados do século XIX em Diamantina, Minas Gerais. Dialogando
com estudos das ciências e das técnicas, uso a categoria gênero para orientar
algumas reflexões sobre encadeamentos de acontecimentos relevantes para a
experiência das mulheres no garimpo – que se traduzem, por exemplo, em re-
lações particulares com os sítios arqueológicos de mineração. Discuto também
como diferentes atores locais, humanos e não humanos, parecem ter se reor-
ganizado no novo contexto, compondo uma forma específica de garimpo que
se mantém ainda hoje, o garimpo de mulheres, e como significados de gênero se
alteraram no contexto de conflito sociotécnico.

Palavras-chave: Gênero – Tecnologia – Diamantina/MG

O meu objetivo aqui é discutir a posição


fundamental do gênero na ação
coletiva de garimpeiros e garimpeiras de três
região do quadrilátero ferrífero, tradicional zona
de exploração mineral ao menos desde o início
do século XVIII. Mas na medida em que minha
povoados vizinhos, pertencentes ao município interlocução com as garimpeiras e garimpeiros
de Diamantina, Minas Gerais. Frequentei os de Diamantina se construía, ficou claro que
povoados de São João da Chapada, Sopa e os aspectos mecânicos do garimpo estavam
Guinda entre 2008 e 2009, durante pesquisa de firmemente ligados a políticas de gênero que,
pós-doutorado1, inicialmente interessada num além de distribuir e organizar a autoridade
estudo etnoarqueológico da extração de ouro e entre homens e mulheres, adultos e crianças,
diamantes que auxiliasse na interpretação dos problematizavam a subalternidade tecnológica
inúmeros sítios arqueológicos de mineração da atribuída ao garimpo e a marginalização social
e econômica a ele associados. No garimpo,
as hierarquias de gênero e idade são atadas a
habilidades e conhecimentos pessoais e posição
(*) Departamento de Antropologia e Arqueologia, DAA/ na família, mas também a sítios arqueológicos
UFPel da época da introdução da mineração indus-
(1) Financiadas pela FAPEMIG, através de Edital
trial e capitalista na região (segunda metade
Universal, e pelo CNPq, através de bolsa de
pós-doutoramento. do século XIX) e a memórias sobre práticas

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RIBEIRO, L. Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológica do trabalho de mulheres no garimpo tradicional. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 9-15, 2015.

de garimpo em quatro ou cinco gerações mais feministas têm mostrado como, em diferentes
antigas. O recuo no tempo através das narra- momentos nas sociedades de base europeia, os
tivas garimpeiras forçava a consideração de conceitos de masculino e feminino organizaram
novos atores, aparentemente muito distantes da atividades econômicas, comportamentos reli-
vida cotidiana no garimpo, como as máquinas e giosos e sociais, legitimando relações sociais e
técnicas modernas de mineração e os cientistas orientando políticas. Nestas sociedades, gênero
e legisladores do século XIX. As assimetrias se não é o único campo no interior do qual ou por
multiplicavam na medida em que o contexto se meio do qual o poder é articulado, mas pare-
expandia, e foi nos estudos das ciências e das ce ser uma forma persistente e recorrente de
técnicas que busquei apoio para compreender possibilitar sua significação (Scott 1992, 1995).
as formas como essas desigualdades se produzi- Estudos sobre gênero e poder também têm
ram ao longo do tempo, no enredo de agencia- indicado que não é pelo consenso social que
mentos diversos relacionados com a mineração. tais relações são construídas, mas pelo conflito
Gênero, ação coletiva e rede são os con- e pela contestação dos significados de gênero.
ceitos básicos a partir dos quais eu abordo o ga- Então gênero, como qualquer outra forma de
rimpo, conduzindo a discussão em duas partes: conhecimento, é política (Butler 2007).
inicialmente um comentário introdutório sobre Em perspectiva histórica, é adequado,
as minhas escolhas teórico-metodológicas, portanto, que um estudo de gênero busque
seguido pela discussão de alguns elementos explicitar as relações e conflitos de poder basea-
constituintes de uma das redes do garimpo tra- dos no gênero. Conflito e contestação se dão,
dicional local, o chamado garimpo de mulheres, evidentemente, em interações concretas entre
tanto um mecanismo feminino de contestação e sujeitos, daí que gênero pressuponha interes-
resistência à dominação masculina, quanto uma se pela agência humana. Este interesse pode
ação coletiva contra a dominação tecnológica ser facilitado pela abrangente noção de ação
industrial. coletiva da abordagem do ator-rede (Latour
A noção de gênero, tal como a usamos 2008, Law 1992, 2008), onde ação coletiva é
hoje para destacar o caráter fundamentalmente ação que reúne diferentes tipos de forças en-
social e relacional das distinções baseadas no tretecidas justamente porque são diferentes. A
sexo, foi introduzida pelas feministas estaduni- abordagem do ator-rede recria as noções de ator
denses do final dos anos de 1960 e início dos e de agência de modo a incluir, potencialmente,
1970, a chamada segunda fase do feminismo. tudo além dos humanos como responsáveis pela
Rejeitando o determinismo biológico de termos constituição do social. Uma lei, uma máquina,
como “sexo” ou “diferença sexual”, a noção de um diamante, um sítio arqueológico ou um
gênero já destacava que personalidade e com- fantasma podem ser atores e ter agência sobre
portamento são formados no social e o próprio outros objetos e inclusive sobre nós humanos.
corpo é percebido através da interpretação de Daí o slogan proposto por Latour, “seguir os
interações sociais. Desde então se considera atores a se moverem entre objetos” para mapear
que sexo é dependente do gênero, é subsumido as redes que eles constroem e revelar do que
por ele; que homens e mulheres são definidos as assimetrias são feitas e de onde elas vêm
em termos recíprocos e não se pode compreen- (Latour 1994, 2000, 2008).
der nenhum dos dois em estudos independen- Cada um a seu modo, abordagem do ator-
tes. (Scott 1995, Nicholson 2000). -rede e teorias feministas de gênero propõem
Ao organizar socialmente a diferença a redistribuição da capacidade de ação no
sexual, gênero é o conhecimento que estabe- social. A primeira intima uma redistribuição
lece significados para as diferenças corporais. radical da responsabilidade pela constituição do
E se as percepções das diferenças sexuais são social entre vários potenciais atores, as últimas
capazes de nortear relações sociais, gênero reivindicam o reconhecimento de que esta
também pode ser concebido como uma forma responsabilidade se distribui, no mínimo, entre
primária de articulação de poder. Historiadoras outros sujeitos que não “homem” ou “mascu-

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Loredana Ribeiro

lino”. Ambas sugerem que é pela observação loca no topo da hierarquia a figura do homem
empírica de como os atores interagem entre si adulto, normalmente o pai de família – a ele,
que entenderemos a composição de simetrias e por exemplo, é reservado o posto de apuração
de assimetrias entre grupos de atores. Tanto a final dos diamantes (interditado a mulheres e
noção feminista de gênero quanto a de ator- crianças em muitas famílias).
-rede querem explicitar como as relações de Hoje se observa a presença de uma forma
dominação se estabelecem, em vez de aceitá-las particular de organização social do trabalho
como explicação. Elas compartilham um pro- no garimpo tradicional em Diamantina, onde
jeto político que milita pelo desmascaramento apenas mulheres e crianças participam das
da construção das desigualdades com o claro atividades extrativas. Nesse garimpo, chamado
objetivo de não repeti-las ou transportá-las sem de garimpo de mulheres, os homens adultos tem
modificações – projeto claramente explícito participação rara e eventual – ou simplesmen-
em Scott 1995; Butler 1993, 2007; Spector te não participam. O garimpo de mulheres é
1993; Wilkie e Hayes 2006; Tomášková 2007; conduzido por viúvas e mães que assumiram
Singleton 1996; Lagesen 2012, entre numerosos sozinhas a tarefa de sustentar a família, por
outros exemplos. mulheres solteiras ou casadas com homens que
Para historicizar alguns aspectos da cons- não garimpam (são aposentados por invalidez
tituição de gênero no coletivo garimpeiro eu e/ou têm outros ofícios) e ajudam a manter a
parto da observação de práticas de mineração casa com um trabalho independente. Qualquer
tradicional, do estudo de sítios arqueológicos que seja o caso, essas garimpeiras podem estar
e de narrativas garimpeiras. Estas narrativas sempre com suas crianças na volta: se são muito
engajam sítios arqueológicos em atuais agendas pequenas, elas brincam (inclusive de garimpar)
políticas de gênero de um modo que nega qual- ao alcance da vista; se já tem algum tamanho
quer dicotomia radical entre passado e presen- e força, elas ajudam no trabalho. Na medida
te. O passado material participa de uma mesma em que os meninos se criam eles tomam seus
rede que relaciona conhecimentos de garimpo, próprios rumos, antigamente abrindo seus ga-
organização social do trabalho, aprendizado e rimpos, mais recentemente se dedicando a uma
recursos simbólicos, entre outros. Significados variada sorte de atividades. As meninas podem
de gênero permeiam todos os aspectos da vida abandonar o grupo quando alcançam certa
sociotécnica do garimpo, do cotidiano domésti- idade, ou lá permanecer, trabalhando “lado a
co e familiar ao campo das ciências e das técni- lado”, como diz Estrela, marcando a igualdade
cas, e o protagonismo de mulheres garimpeiras entre as garimpeiras que trabalham juntas. Os
de Diamantina contesta todos os estereótipos homens não parecem ter essa opção.
de reclusão e submissão feminina em sociedades Há mulheres que se criaram em garimpos
patriarcais (Ribeiro 2014). onde toda a família trabalhava junta (pai, mãe
O garimpo se desenvolve na região desde e filhas/os) e adotaram o garimpo de mulheres
os primeiros descobertos de ouro e diamantes, depois de adultas – por exemplo, ao ficar viúva
no início do século XVIII, e é desde então –, e homens criados em garimpos de mulheres
descrita por cronistas e viajantes como modo que depois de adultos foram conduzir seu pró-
de subsistência de famílias pobres (Ribeiro prio garimpo, além de crianças que iniciam seu
2013a). O garimpo é sazonal e tradicional- aprendizado numa forma de garimpo e dão con-
mente familiar, combinado ao longo do ano a tinuidade em outra – contingências e interesses
outras atividades produtivas. As crianças são pessoais estabelecem os diferentes contextos
iniciadas muito cedo no trabalho, a partir dos possíveis. É o trânsito que mulheres e crianças
7-8 anos de idade ou ainda mais precocemen- têm entre as formas de garimpos, trânsito que
te, e, dependendo da época do ano e/ou da homens adultos não parecem ter, que faz com
necessidade, toda a família pode ser mobilizada que haja reciprocidade entre elas. Tal constata-
nas atividades extrativas. Tradicionalmente, a ção já sugere que a ação de mulheres e crianças
organização social do trabalho no garimpo co- na continuidade de uma tecnologia tradicional-

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RIBEIRO, L. Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológica do trabalho de mulheres no garimpo tradicional. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 9-15, 2015.

mente perspectivada como masculina precisa bólico no processo de aprendizado: o passado.


ser reconsiderada. O discurso dominante e Passado personificado em seres sobrenaturais
androcêntrico sobre as experiências da mine- que vivem em sítios arqueológicos da mineração
ração teima em invisibilizar a participação de industrial e capitalista que começou a se instalar
mulheres e crianças nas economias mineradoras na região a partir da segunda metade do século
e seu trabalho tanto no ambiente doméstico XIX. Fantasmas e uma criatura gigante, uma
quanto no contexto extrativo propriamento cobra com crista no topo da cabeça, povoam ao
dito (Lawrence 1998, Knapp 1998). menos quatro sítios arqueológicos bem próximos
O envolvimento das crianças com o aos povoados. Os fantasmas são bebês de colo
garimpo tem início muito cedo, logo que “cai o e mulheres e suas histórias de vida são sempre
imbigo”, como por lá se diz. Jane Baxter (2005) de abandono. Diz-se que a criança, fantasma de
e outras arqueólogas têm discutido como a rela- São João da Chapada que chora a noite inteira,
ção entre crianças e objetos e adultos é impor- foi deixada pela mãe que não a podia cuidar,
tante na dinâmica da tradição, pois é também para que fosse recolhida por algum trabalhador
no aprendizado de uma categoria de idade com da lavra – mas o bebê sucumbiu ao frio da noite.
a outra que técnicas, práticas e relações sociais Em Sopa e São João da Chapada, fantasmas de
são mantidas ou modificadas. O aprendizado mulheres aparecem na madrugada usando trajes
do garimpo se dá desde o nascimento, coti- nupciais. Uma delas espera recostada numa
dianamente, e num contexto muito particular grande pedra, um testemunho da formação ge-
do qual fazem parte agentes não humanos. O ológica local rica em diamantes; outra aparece
aprendizado no garimpo começa bem antes das pegando água de uma das nascentes do sistema
crianças começarem de fato a participar das ati- de aproveitamento hídrico de uma das mais
vidades extrativas: ele começa em brincadeiras antigas companhias de mineração da região.
infantis com ferramentas em miniatura, com as São mulheres abandonadas no altar, que nunca
histórias e canções de garimpo para fazer dormir souberam que fim levaram seus homens. A
ou botar medo. Todos estes elementos são me- Cobra de Crista, a criatura gigante de São João
diadores que reforçam mensagens culturais em da Chapada, vive presa numa misteriosa torre
sentido muito amplo. E no garimpo de mulhe- (que nós chamaríamos de chaminé), um lugar
res, o aprendizado é quase um objeto técnico sem memória, que não se sabe quem construiu,
feminino, posto que as mulheres da família são quando, ou para quê. O lugar é conhecido como
fundamentais na circulação do conhecimen- A Máquina – com artigo definido no nome – e,
to tecnológico tradicional (é com elas que se de tempos em tempos, a Cobra de Crista põe
aprende a garimpar). a cabeça pra fora da chaminé e sibila ou cospe
As narrativas locais sobre o garimpo de fumaça tentando se soltar, mas ela nunca pôde
mulheres sugerem que estas práticas se dão na sair de lá. A cobra era ouvida principalmente
região há mais de um século: meus interlocuto- por mulheres que usavam o riacho atrás das
res e interlocutoras octogenários foram inicia- ruínas para lavar roupas. Quando a cobra
dos nos mistérios do garimpo por suas mães ou sibilava corriam todas a juntar roupas, sabão e
avós, que, por sua vez, aprenderam a garimpar as crianças que as acompanhavam para fugir ra-
com mulheres da família. Estas narrativas pidamente dali. O que assustava as pessoas não
também associam, com bastante frequência, o era a aparência da cobra, que nunca era vista,
garimpo de mulheres em gerações anteriores era seu sibilo e a fumaça que cuspia enquanto se
à ausência dos homens da família, seja por debatia para se soltar da torre. O que aterroriza-
trabalharem semanas ou meses consecutivos va era a luta incessante entre a Cobra de Crista
em acampamentos distantes de mineração, seja e A Máquina (Ribeiro 2013b).
por terem se acidentado ou mesmo morrido no Os personagens sobrenaturais ensinam so-
trabalho. bre uma época passada, que parece ter sido es-
Ao longo deste tempo, o garimpo de mulhe- pecialmente difícil para a população garimpeira,
res tem mobilizado um importante recurso sim- quando a mineração industrial foi introduzida

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Loredana Ribeiro

na região, na segunda metade do século XIX, de elementos tradicionais, familiares e supos-


trazendo diferentes máquinas, técnicas, conhe- tamente estáveis, num arranjo completamente
cimentos e organização social do trabalho. A novo. No caso em questão, a inovação incluiu
legislação brasileira do século XIX (principal- ajustes no tempo do garimpo, antes guiado
mente as constituições de 1824 e 1891), criou principalmente pelas estações do ano (ativida-
os ajustes e as ambiguidades jurídicas necessá- des de extração na temporada seca, beneficia-
rias para favorecer com que os grandes mineiros mento na estação das chuvas), agora orientado
ou companhias de mineração regularizassem e principalmente pela compatibilização da dupla
centralizassem em suas mãos as jazidas precio- jornada de trabalho feminino, que lida com as
sas. Paralelamente ao esbulho das terras antes rotineiras atividades domésticas e com as ativi-
livres à exploração dos pequenos garimpeiros, dades extrativas. Outro ajuste importante diz
as novas minas de diamante que se abriam respeito à localização das jazidas em exploração,
criavam as condições para a proletarização do que necessariamente precisam ser próximas o
trabalho, sobretudo de homens adultos (Ribeiro suficiente para permitir os revezamentos ou as
2013a). Nos acampamentos de mineração, a interrupções voltadas ao retorno a casa para
presença feminina, quando havia, se restringia a atividades cotidianas como preparar as refei-
atividades domésticas, como cozinhar e limpar. ções, alimentar as crianças e cuidar da limpeza.
Inúmeros moradores da região mencionam esta- Mesmo no final do século XIX essa mu-
belecimentos longínquos onde seus pais ou avôs dança na localização das áreas de exploração
trabalharam permanecendo semanas ou meses requereria a intensificação das prospecções e
sem contato com suas famílias ou comunidades pesquisas minerais garimpeiras, pois as jazidas
de origem. mais acessíveis e próximas já eram exploradas
São numerosos os relatos de crianças há mais de um século. Só que ainda hoje as pes-
entregues aos cuidados de avós, madrinhas, tias quisas em jazidas consideradas exauridas podem
ou outra parenta, por pais que se empregavam ser bem-sucedidas, o que sugere, e indica como,
em firmas de mineração, e mesmo de mães que as mulheres podem ter contribuído com a
voltavam com seus filhos para a casa materna produção de conhecimento técnico-garimpeiro
nos períodos em que o marido se empregava sobre a exploração mineral.
nas companhias. A adoção informal e o aco- Autores interessados nas ciências e nas
lhimento de mulheres e crianças são formas de técnicas (Pfaffenberger 1998, Lemonnier
solidariedade coletiva que parecem ter se inten- 2002, etc.) defendem que os significados e a
sificado com a mobilização da força de trabalho intenção política da tecnologia que as pes-
masculina nos acampamentos. Na situação de soas praticam se expressam em suas escolhas
incremento da captação de mão obra masculina sociotécnicas. A formação do garimpo de
e adulta pelos acampamentos de mineração, o mulheres alinha várias escolhas, reorganizando
acolhimento ou criação de parentes e afilhados, a autoridade na interação entre as pessoas que
fortalecia os vínculos entre famílias e indivíduos permaneciam nos povoados e as técnicas, arte-
e favorecia outra mobilização de trabalho: o fatos, entidades, lugares e mais. Este alinhavo
feminino e o infantil. Como práticas de soli- de escolhas é uma política de gênero, uma po-
dariedade coletiva, elas fixavam as mulheres e lítica que agrupa interesses heterogêneos (em-
crianças na comunidade de origem, ajudando prego, segurança das crianças, bem-estar da
inclusive a manter numericamente o coletivo família etc.) e mediações heterogêneas (sítios
garimpeiro em situação de crise. arqueológicos, técnicas, artefatos, fantasmas
Surgido neste contexto, o garimpo de etc.) em soluções que são coerentes para todo
mulheres de Diamantina é uma das inovações o grupo (cf. Latour 2004). Ainda hoje o garim-
produzidas nas redes do garimpo – inovações po de mulheres de Diamantina segue com a
que tanto renovam o modo de vida tradicional mesma organização social do trabalho que de
que o fazem ter uma duração tricentenária na certo modo interdita a participação de homens
região. As inovações resultam de rearticulações já em idade para serem empregados pelos

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RIBEIRO, L. Gênero e ação coletiva. Etnografia arqueológica do trabalho de mulheres no garimpo tradicional. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 9-15, 2015.

acampamentos de mineração. A continuidade particular é um dos meios por onde o garimpo


desta prática, mesmo mudado o contexto geral de mulheres se expande.
do conflito e as fontes de insegurança social, Incorporação e perfomatividade em
mostra que esta política de gênero foi, e ainda materiais duráveis e o aprendizado promovem
é, capaz de mobilizar atores e forças suficientes aceitação coletiva de um tipo particular de
para gerar efeitos de poder. conhecimento (o garimpo tradicional) e da
Teóricos das redes como John Law e Bruno autoridade feminina. Os significados locais de
Latour defendem que os mediadores que inter- gênero se alteraram com a prática do garimpo
vêm para que as interações sociais durem mais de mulheres, as rígidas hierarquias do garimpo
e tenham maior alcance são justamente atores tradicional, maximamente simbolizadas na
não humanos (Law 1992, Latour 1991, 2008). reserva do posto de apuração de diamantes ao
O que faz o conjunto de interações sociais que chefe de família, se rompem com a distribuição
é o garimpo de mulheres ter a aceitação, dura- da autoridade entre homens e mulheres. O
bilidade e alcance que tem, são as formas como garimpo de mulheres é uma rede de contesta-
as relações nele estabelecidas são ordenadas. A ção e resistência, tanto à dominação masculina
incorporação de relações sociais em materiais quanto à dominação tecnológica industrial e
inanimados e duráveis – como os sítios arque- capitalista, é assim que ele gera poder feminino
ológicos que abrigam os fantasmas e a criatura no coletivo. O garimpo de mulheres ensina que
– faz com que estas relações durem mais que no coletivo garimpeiro as relações de domina-
aquelas baseadas apenas nos discursos, por ção não são regras incontestáveis, são relações
exemplo. Outras ordenações são relativas à mo- construídas, conflituosas e mutáveis – o que de
bilidade espacial e temporal e à expansão das resto vale para qualquer relação de dominação;
redes, ordenações que se dão pelos processos de qualquer que seja o tempo ou o lugar em que se
comunicação (Law 1992) – e o aprendizado em deem, elas são, sim, potencialmente reversíveis.

RIBEIRO, L. Gender and collective action. Archaeological ethnography of the women


work in the traditional mining. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 9-15, 2015.

Abstract: In this paper I deal with an archaeological ethnography of the


conflict between a traditional mining collective and the industrial mining
introduced in Diamantina, Minas Gerais, in the middle of XIX century. Dialo-
ging with science and technology studies, I use the gender category to orienta-
te some reflections about relevant chains of events for the women experience
in the traditional mining (garimpo)that translate, for example, in specific
relations with some mining archaeological sites. I also discuss how different
local actors, humans or non humans, seems to have reorganized themselves
in this new context, composing a specific form of garimpo that is still in place
today, the women’s garimpo, and how gender meanings have altered in this
context of conflict.

Keywords: Gender – Technology – Diamantina/MG

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14272 book.indb 14 26/08/2015 10:59:14


Loredana Ribeiro

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Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes olhares sobre
a cultura material arqueológica Pré-Colombiana

Marcia Arcuri*

ARCURI, M. Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes olhares sobre a cultura


material arqueológica Pré-Colombiana. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 17-22, 2015.

Nada é mais simples do que a descoberta de continuidades de categorias


culturais como modos de interpretação e de ação:
as celebradas estruturas da longue durée
Marshal Sahlins
Historical Methaphors and Mythical Realities

Resumo: Este breve texto apresenta alguns dos conceitos e fundamentos


teóricos que embasam os estudos da cultura material ameríndia, bem como
uma reflexão pontual acerca de casos contemporâneos de apropriação co-
munitária do patrimônio arqueológico Pré-Colombiano, a partir das discus-
sões apresentadas por Jürgen Golte (Freie Universität Berlin), Javier Nastri
(Universidad de Buenos Aires) e Quirino Oliveira Nunes (Museo Tumbas
Reales de Sipán) na mesa-redonda Diferentes Olhares sobre a Cultura Material:
cosmovisão e identidade na América Pré-Colombiana – III Semana Internacional
de Arqueologia “André Penin”.

Palavras-chave: Cultura Material – Ameríndia – Pré-Colombiana

E ste breve comentário foi inspirado no


debate realizado pelos palestrantes
da mesa redonda “Diferentes Olhares sobre
material arqueológica ameríndia, aproximando
referenciais teóricos dos estudos de semântica
visual (visual language) em arqueologia e da
a Cultura Material: cosmovisão e identidade antropologia da arte. As reflexões apresentaram
na América Pré-colombiana”, por ocasião da perspectivas de análise que não separam de for-
III Semana Internacional de Arqueologia “André ma binária as categorias de oralidade e “texto”1
Penin”. As apresentações propuseram aborda- (Brotehrston 1992:4), colocando em foco dis-
gens interdisciplinares aos estudos de cultura cussões sobre as transformações e permanências

(*) LINTT/MAE Universidade de São Paulo; (1) Para o autor, o conceito de texto compreende os regis-
Departamento de Museologia/EDTM – Universidade tros materiais ameríndios, cujas narrativas configuram na e
Federal de Ouro Preto. pela linguagem visual.

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ARCURI, M. Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes olhares sobre a cultura material arqueológica Pré-Colombiana.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 17-22, 2015.

das identidades e cosmovisões ameríndias, no e identidade na América Pré-Colombiana”


decurso da longa duração. reuniu especialistas que pudessem abordar o
Os três palestrantes abordaram, a partir de tema a partir de distintos eixos: metodológi-
suas respectivas pesquisas, evidências de como co, teórico e das ressignificações patrimoniais
as noções ontológicas e de identidade foram contemporâneas.
transmitidas por meio da apreensão, construção Abrindo a sessão, o Prof. Jurgen Golte
e transformação do mundo material, em distin- proferiu a palestra Entender la cosmología del
tos contextos Pré-Colombianos. Demonstraram intermedio temprano andino por la iconografía
como esses processos – que criam novas mate- Moche, apresentando um método de análise
rialidades a partir de cadeias estruturadas pela iconográfica por ele desenvolvido, construído a
ritualização, pelas noções de ancestralidade, partir da tridimensionalidade do artefato cerâ-
bem como pelas continuidades e descontinui- mico. Trata-se de um trabalho de muitos anos
dades (Descola 2005) – podem ser observados realizado sobre uma amostragem exaustiva de
nas características morfológicas e icnográficas dados que permitem a observação das unidades
dos artefatos arqueológicos. Esses traduzem, nos mínimas de significação da iconografia Moche,
dias de hoje, os princípios sociocosmológicos da suas frequências, suas variações semânticas,
herança patrimonial ameríndia. bem como a identificação de permanências e
Como apontava o resumo de apresenta- abandonos do repertório simbólico (premissa
ção da mesa elaborado pelos organizadores do básica para a realização de um estudo rigoroso
evento: da iconografia presente no material arqueo-
lógico). O resultado deste trabalho pode ser
...[a cultura material arqueológica
observado na publicação Moche Cosmología y
ameríndia apresenta] uma série de
Sociedad: Uma interpretación iconográfica (Golte
particularidades, pertinentes às condições de
2009), hoje tida como uma das principais refe-
sua formação, mas também apresenta uma
rências para o estudo da cosmovisão Moche.
série de traços e características similares,
Golte destacou a crítica que deve ser feita às
principalmente em esferas relativas à
análises iconográficas que se limitam à interpre-
cosmovisão e à mitologia [das populações a ela
tação das representações pictóricas bidimensio-
relacionadas]...Tais traços e similaridades ficam
nais (que em sua opinião derivam de um olhar
aparentes nos mais distintos meios de produção
etnocêntrico), pois “a construção de significado
material, que podem compreender processos
sobre a vasilha tridimensional mostra outro tipo
de materialização simbólica em diferentes
de relação entre os atores representados”. No
suportes, como na arquitetura ou na cerâmica.
método de Golte, questões relativas à escala de
Desse modo, entender o contexto de produção,
representações ou à linearidade da narrativa
uso, manutenção, deposição ou descarte
são colocadas em cheque, pois o vaso cerâmico
dos objetos cerâmicos permite [identificar]
assume, mais do que a função de suporte, uma
características da organização social, política,
corporalidade que encampa o entendimento
econômica e ritual dos grupos em questão...
de distintas esferas de interação entre opostos
Artefatos cerâmicos [analisados em conjunto
complementares, seres de tempos e espaços
e comparativamente] geram dados que podem
distintos, dos mundos natural e ancestral, que se
nos auxiliar a reconstruir a trajetória artefatual
encontram com o fim de reprodução:
e contribuir para o entendimento de contextos
específicos do passado. “Não apenas há construção no sentido
de yanantin2, da simetria em espelho, de
Partindo da premissa apresentada, de que
metades opostas e complementares, mas
particularidades e similaridades estruturais ob-
servadas na cultura material arqueológica Pré-
-Colombiana não devem ser entendidas como
contraditórias ou excludentes, a mesa “Diferen- (2) Termo quéchua que expressa noção de dualismo e
tes olhares sobre a cultura material: cosmovisão complementaridade de opostos.

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Marcia Arcuri

a ideia central nisso é que há, de modo para citar alguns entre tantos trabalhos que
geral, um encontro ordenado dos opostos mereceriam ser aqui lembrados.
complementares com fins de reprodução... No Brasil, Lux Vidal e os pesquisadores por
O presente deriva de uma reprodução ela formados também contribuíram de forma
constante em encontros de opostos ímpar ao avanço teórico desde a década de
complementares no passado... no ritual 1990. Não se poderia deixar de mencionar a
Moche todos os elementos do cosmos são organização de Grafismo Indígena (1992) – a
gerados apropriadamente.” (Golte 2009:59) nosso ver, um decisivo ponto de inflexão na
perspectiva acadêmica da antropologia da arte
Como aponta Golte, seu modelo está em
– ou o texto Artes indígenas e seus múltiplos
grande parte baseado nos trabalhos de Tom mundos (2001), publicado em colaboração com
Zuidema (1964, 1977, 1989, 1992), Tristan vários etnólogos3. Os autores retomam Lévi-
Platt (1976, 1986, 1992) e Anne Marie -Strauss ao definirem a arte como um meio
Hocquenghem (1989), autores que, como ele, de significar e ressignificar algo intimamente
procuraram entender a complementaridade relacionado à natureza:
das percepções de tempo circular e de cate-
gorias binárias espelhadas na relação entre os “... a arte também deve ser vista como
mundos masculino e feminino, velho e novo, um sistema de signos, algo que possui
frio e quente, natural e ancestral que regem a certa estabilidade, tradição, o que permite
organização social nos Andes Centrais, como a comunicação (...) [nesse sentido] os
em tantos outros contextos ameríndios (Arcuri artefatos – incluindo a dança, a música,
2005, 2009, 2010, 2011). as narrativas míticas e mesmo o corpo
Os temas e conceitos discutidos por Golte humano, não são vistos apenas como
remetem à contribuição que as etnografias representações... mas, sim, como réplicas
ameríndias e a antropologia da arte trouxe- de outros seres com os quais se comunicam
ram ao debate ao longo das últimas décadas, em contextos preestabelecidos...” (Vidal et.
pois estabelecem um diálogo estreito com o al. 2001:12).
referencial teórico construído desde os clássi- Em linha similar, Elsje Lagrou (2007)
cos trabalhos de Franz Boas (1955) e Marcel volta a lembrar que Geertz já afirmava (e
Mauss (1923, 1974), e, posteriormente, com complementava), nos anos oitenta, que
as incorporações do totemismo de Lévi-Strauss os símbolos não somente representam,
(1964), das categorias visuais de Nancy Munn mas transformam o mundo. Reforçando a
(1973), ou com o debate sobre as noções de necessidade de se trabalhar o relativismo de
animismo e de analogismo de Viveiros de uma arte em contexto, Geertz defendeu a busca
Castro (1992, 2002) e Descola (1992, 2005). do significado na arte como um processo que
Suas reflexões estão pautadas em amplo refe- investiga o signo na sociedade, e não o opos-
rencial sobre a subjetividade das relações entre to. Demonstrou, assim, como a arte ordena
seres de diferentes espécies, espaços, tempos e define o universo e as relações sociais. Este
ou categorias sociocosmológicas. Arcabouço é um princípio que foi também defendido
conceitual que, diga-se de passagem, ganhou por Reichel-Dolmatoff, quando observado o
força pioneira nos meios acadêmicos de países vínculo entre os signos ideográficos e a carac-
hispano-americanos, a partir das publicações terização da figura cultural (como experiência
de Reichel-Dolmatoff (1968, 1971, 1975,
1985), Johanna Broda (1971, 1982, 1991,
2001), Peter Gow (1991, 1994, 2003), Joanna
Overing (1977, 1991, 1995), Stephen Hugh (3) O texto reúne dados etnográficos resultantes dos traba-
lhos de Esther Castro, Sérgio Baptista da Silva, Regina Polo
Jones (1979, 2001, 2009), Anthony Aveni
Müller, Fabíola Andrea Silva, Aristóteles Barcelos Neto,
(1980, 1981, 1989), Richard Townsend (1992) Elsje M. Lagrou, Rafael de Menezes Bastos e Lucia H. Van
e Gordon Brotherston (1992, 1995), apenas Velthem.

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ARCURI, M. Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes olhares sobre a cultura material arqueológica Pré-Colombiana.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 17-22, 2015.

social coletiva), vínculo esse que se dá por meio pertencimento, Oliveira Nunes encerrou o
da arte e do ritual. Em outras palavras, arte e encontro com a palestra Arqueologia en la
ritual funcionam como veículo na relação com Alta Amazonia de Perú. O arqueólogo peruano
o mundo natural e com o mundo sobrenatural apresentou as estratégias de gestão patrimonial
(Reichel-Dolmatoff 1988). e vinculação social das pesquisas arqueológicas
Em diálogo com esta sólida trajetória que vêm sendo por ele conduzidas, vincula-
de construção do referencial teórico, Javier das ao Plano Binacional Perú-Ecuador, com
Nastri apresentou a palestra El estudio de los apoio financeiro da Asociación los Andes de
órdenes sociales precolombinos a través de la Cajamarca, dos governos regionais de Ca-
iconografía: claves interpretativas, colocando jamarca e do Amazonas (Peru). Seu projeto
em evidência aspectos estruturais da estética busca fomentar o turismo como alternativa de
e da plástica observadas na cultura mate- desenvolvimento social para as populações que
rial arqueológica de Santa Maria, noroeste habitam o entorno dos sítios arqueológicos
argentino. Nastri analisou a permanência das estudados e que apresentam níveis elevados de
imagens figurativas encontradas na cultura pobreza.
material de Santa Maria na longa duração, Pesquisas arqueológicas como aquelas rea-
demonstrando que “a grande profusão de lizadas por Nastri e Oliveira Nunes, em con-
motivos enraizados permite examinar as textos de ação comunitária e de reivindicação
trajetórias históricas de motivos associados patrimonial do território indígena, reforçam as
a conceitos fundamentais das cosmovisões perspectivas contemporâneas de investigação
e ordenações sociais indígenas, tais como da cultura material arqueológica, promovendo
ancestralidade, xamanismo, guerra, sacrifício, as ressignificações a partir da incorporação
prestígio e autoridade”. das narrativas êmicas e do fortalecimento das
Debatendo significados e ressignificações, identidades (Silva 2011). Em consonância
Nastri demonstrou que conceitos específicos com os estudos de coleções e os dados etno-
como a permutação, a alteração e a trans- gráficos, elas abrem caminhos sólidos e éticos
formação são acionados nos “dispositivos para a discussão dos paradigmas teóricos e me-
mnemônicos ameríndios”. Analisando a todológicos da pesquisa arqueológica, a partir
plástica das urnas de Santa Maria, o pales- de diferentes olhares sobre a cultura material
trante orquestrou uma discussão conceitual ameríndia.
e metodológica de grande contribuição aos Estrutura, reprodução e transição são,
parâmetros dos estudos da semântica visual e assim, conceitos que permearam as múltiplas
da antropologia da arte, ao mesmo tempo em “leituras” apresentadas pelos palestres da cul-
que brindou o público com uma perspectiva tura material ameríndia, matéria aqui pensada
etnoarqueológica, propondo uma reflexão enquanto registro de longos processos de expe-
sobre os múltiplos significados da herança riência, interação e manifestação social. Como
patrimonial de Santa Maria hoje acessados apontou Sahlins em Ilhas da História (1987),
pelas comunidades locais. Este foi o ponto de juntos, tais conceitos traduzem a continuidade
convergência entre as apresentações de Javier de categorias culturais como modos de inter-
Nastri e Quirino Oliveira Nunes. pretação e de ação e, assim, contemplam na
Na mesma linha de fortalecimento das contemporaneidade o olhar interdisciplinar da
identidades territoriais e das relações de pesquisa arqueológica.

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Marcia Arcuri

ARCURI, M. Structure, Reproduction and Transition: Different perspectives on the


studies of Pre-Columbian material culture. Revista do Museu de Arqueologia e Etno-
logia, São Paulo, Suplemento 20: 17-22, 2015.

Abstract: This short paper presents some fundamental concepts of the theore-
tical background related to visual language studies of Amerindian material culture.
Some specific data on contemporary appropriation of pre-Columbian patrimony
by local communities is also commented. The discussion is based on the reflexions
proposed by Jürgen Golte (Freie Universität Berlin), Javier Nastri (Universidad de
Buenos Aires) e Quirino Oliveira Nunes (Museo Tumbas Reales de Sipán) in the
round session Diferentes Olhares sobre a Cultura Material: cosmovisão e identidade na
América Pré-colombiana of the III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”.

Keywords: Material Culture – Amerindian – Pre-Columbian

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ARCURI, M. Estrutura, Reprodução e Transição: Diferentes olhares sobre a cultura material arqueológica Pré-Colombiana.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 17-22, 2015.

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O estudo das ordens sociais Pré-Colombianas por meio da
iconografia: Algumas chaves interpretativas1

Javier Nastri*

NASTRI, J. O estudo das ordens sociais Pré-Colombianas por meio da iconografia:


Algumas chaves interpretativas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 23-31, 2015.

Palavras-chave: Iconografia Calchaquí

A s propriedades e características das


ordens sociais Pré-Colombianas
constituem um problema de primeira ordem na
amplíssimo, mas sumamente ambíguo. Assim,
considero que é necessário dedicar esforços à
determinação dos elementos que explicam a
arqueologia pré-histórica americana, tanto pelo variação nos distintos níveis de significação, a
fato de que a organização social conforma um fim de reduzir aquela ambiguidade e produzir
tópico central no conhecimento de qualquer resultados relevantes para o conhecimento do
sociedade e na história em geral quanto à me- período em questão. Esse é conhecido como
dida que essa questão determina, consideravel- Intermediário Tardio, Tardio ou de Desenvolvi-
mente, as inferências que se podem fazer sobre mentos Regionais na literatura arqueológica da
o registro arqueológico, a fim de se reconstruir subárea dos vales serranos do noroeste argenti-
o panorama de um determinado momento do no, nos Andes Meridionais. Abarca o lapso de
passado. O caráter figurativo da arte de Santa tempo entre os séculos XI e XV de nossa era.
Maria, ao lado da grande profusão de motivos Trata-se da época de emergência dos centros
que a caracteriza e sua larga duração temporal, populacionais construídos em pedra, que con-
são elementos que ensejam a oportunidade de gregavam milhares de pessoas entrincheiradas
examinar as trajetórias históricas de motivos nas faldas, ao pé e ao cume das montanhas, cujo
associados a conceitos de extrema importância objetivo era defenderem-se de ataques inimi-
nas cosmologias e ordens sociais aborígenes, tais gos, uma vez que era a proximidade às zonas
como ancestralidade, xamanismo, guerra, sacri- de cultivo nos fundos dos vales que permitiam
fício, prestígio e autoridade. Meu interesse, aqui, sustentar grande parte da população.
é referir-me ao método com o qual abordamos
a evidência iconográfica calchaquí, com o fito
de expor algumas das chaves interpretativas no Vocabulários iconográficos e ontologias
estudo das imagens. Trata-se de uma evidência da práxis
que proporciona um aglomerado de informações
O recentemente falecido arqueólogo argen-
tino Alberto Rex González propôs, no estudo da
iconografia das placas metálicas da América do
(*) CONICET - Fundación Azara, Universidad Maimóni- Sul (González 1992), a confecção de vocabulá-
des / Universidad de Buenos Aires
(1) Tradução: Lúcio Menezes Ferreira. Departamento de rios iconográficos que constituem uma espécie
Antropologia e Arqueologia, UFPel; pesquisador do CNPq de inventário dos motivos e variantes que

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NASTRI, J. O estudo das ordens sociais Pré-Colombianas por meio da iconografia: Algumas chaves interpretativas. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 23-31, 2015.

implicam, para cada um deles, uma descrição dades em todos os planos. Descontinuidades que
com critérios determinados2. Tanto a defini- devem ser superadas mediante recursos como a
ção quanto a delimitação de temas e motivos plástica, na qual se desenrolam analogias formais
é matéria de opinião, e é inevitável que traga que permitem reconciliar a multiplicidade de
consigo uma boa dose de arbitrariedade. Porém, entidades que compõem o mundo.
a formulação prévia do vocabulário contribui O postulado de Descola a propósito do
para o reconhecimento de relações significativas analogismo é muito sugestivo no momento de
numa fase seguinte, dado que estas não poderão observar outras imagens de Santa Maria que não
atribuir-se a uma ação intencional do analista se encaixam no modelo do mesmo (nosso natu-
por embasarem-se numa organização prévia ao ralismo): por exemplo, o caso das sobrancelhas,
ato de compreensão final. cujos extremos terminam em cabeça de serpente
No vocabulário iconográfico empregado pela (figura 1). Esse é o caso, também, da Lança de
imagética de Santa Maria (Nastri 1999) reconhe- Chavín (Rowe 1962), em que há um uso meta-
cemos claramente serpentes, humanos, batráquios fórico de motivos ou partes de motivos, relacio-
e emas. A similitude de sua representação com nando-os com serpentes nas imagens de Santa
nossas maneiras de representar permite englobar Maria. Considerando-se a possibilidade de que
essas figuras dentro do modelo do “mesmo” (Nastri os calchaquís participaram da ontologia da práxis
e Stern Gelman 2011). De fato, tais figuras são
habitualmente descritas como formas de represen-
tação “naturalistas”, em contraste com outras de
caráter “fantástico”. Naturalista é, precisamente, o
modo de conceber a relação com a animalidade no
contexto cultural ocidental moderno, segundo a
recente formulação sintética de Descola (2012). O
naturalismo se caracteriza por conceber a fisicalidade
como contínua entre as distintas espécies animais,
enquanto existe uma descontinuidade entre o
plano da consciência ou interioridade: os huma-
nos têm consciência, os animais, não. Trata-se
do reverso do animismo, conhecido por ressaltar
a continuidade, no plano da consciência, entre
espécies cujas diferenças implicam a descontinui-
dade no plano da fisicalidade. Os animais também
têm consciência nesta visão, independentemente
de se agruparem em espécies diferentes. Continui-
dades em ambos os planos – o da fisicalidade e o
da interioridade – definem a concepção totêmica
de realidade, na qual os integrantes de um clã têm
continuidade tanto física quanto interior com a es-
pécie do animal totêmico e, simultaneamente, des-
continuidade em ambos os planos com os mem-
bros de outros grupos/espécies. Por último, Descola
define o analogismo como o reverso do totemismo,
na medida em que só se reconhecem descontinui-
Fig. 1. Peça nº 563 (doravante, p.563), reserva técnica
n° VC 5947 ou 3647 do Museu Etnológico de Berlim
(procedência desconhecida), na qual se aprecia como
(2) Como em outros aspectos de sua trajetória intelectual, as sobrancelhas da figura central apresentam, em suas
González seguiu o caminho traçado por Antonio Serrano extremidades, cabeças de serpentes, à maneira dos
em seu Manual da Cerâmica Indígena (Serrano, 1953) kennings descritos por Rowe (1962).

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Javier Nastri

analogista3, os motivos referidos encontram sua -Strauss 1992:45). Lévi-Strauss usava, às vezes,
explicação no marco da arquitetura interna dos o termo transformação para referir-se a essas
textos icônicos de Santa Maria. Pois bem, mas mudanças, contudo, para efeitos de adaptação
se tudo se parece, como ordenar o corpus de do método ao meio iconográfico, é conveniente
motivos para compreender seu significado? Aqui outorgar a cada termo um significado único e
entra em cena o método de análise estrutural específico5. Pois no marco da investigação her-
desenvolvido por Lévi-Strauss. menêutica crítica, a análise estrutural é um meio
que permite abordar a evidência sobre a qual não
se alcançou uma compreensão cabal6. Por esta
O método estrutural como instância razão, e tendo-se em conta o modo por que a
de análise cosmologia afeta a representação, é útil introdu-
zir outros termos adicionais. Se um motivo tem
A análise estrutural constitui, para Ricouer, uma variação que modifica, em parte, sua refe-
a instância de mediação entre a interpreta- rência (agregando-lhe um sentido ausente nas
ção ingênua inicial e a compreensão objetiva: versões conhecidas), diremos, com Gadamer, que
“Através do método semiótico, suspendemos as está alterado (Gadamer 1977:155). Considerá-lo
significações do texto e tentamos reconstruir uma transformação ou permutação seria, a prin-
sua arquitetura interna. Segundo Ricouer, é o cípio, um erro que se arrastaria ao restante da
conhecimento da estrutura interna, ou da coe- análise, pois poderia ser o caso, de acordo com
rência lógica do texto, que permite afirmar que a ontologia analogista, de um kenning – compa-
explicamos o texto, ainda que não o tenhamos ração por substituição (Rowe 1962) – que não
compreendido” (Uhlin 1991:171)4. implicaria a mudança de significado do motivo:
Se cada mito era dissecado em uma sucessão os pelos da Lança de Chavín não deixam de sê-lo
de motivos organizados em colunas conforme sua pelo fato de serem substituídos por serpentes.
pertença a uma categoria paradigmática (Lévi- A alteração ressaltada num motivo ao largo
-Strauss 1968:194), os motivos iconográficos de de uma séria poderia tratar-se, também, daquilo
cada peça podem ser comparados termo a termo que Lévi-Strauss chamava de “esclarecimento
com os de outras vasilhas em série, não sob a de motivo” (Lévi-Strauss 1992:189); isto é: a
base de sua posição na história mítica, mas, sim, adição de um detalhe que se omitia em outras
em seu espaço de representação na peça, dada versões por ser desnecessário para uma audiência
a repetição de um mesmo esquema geral em que conhece plenamente o significado, mas que
cada exemplar (Serrano 1953:146). Desse modo, pode ser crucial para o analista. Temos, aqui, o
comparando-se duas peças, poder-se-á atinar se caso do motivo do “cordão quebrado” (figura 2),
posições sintagmáticas homólogas dispõem de um que algumas vezes aparece alterado com uma
mesmo motivo ou o permutaram por outro (Lévi- cabeça de serpente. Sem esta cabeça, se trata de
um motivo “abstrato-geométrico”, que poderia
representar as ataduras de um fardo funerário
(Velandia Jagua 2005:117-188); pois sempre está
(3) Não esqueçamos que cada uma das ontologias da práxis
no ombro das urnas, rodeado de outros motivos
dificilmente se encontra vigente de forma exclusiva. Elas
convivem entre si, com diferente peso relativo. Uma prática abstrato-geométricos, como os que se usavam
de caráter analogista tal qual a astrologia está presente num
contexto naturalista, como no caso de nossa sociedade.
Porém, sem dúvida que a predominância de um tipo de
representação é indicativa da presença de uma ontologia (5) Por exemplo, Lévi-Strauss se interessava, particular-
da práxis particular. A identificação desta resulta crucial mente, pelo que, em certas passagens, chama de “estados
para clarificar os distintos planos de texto nos quais focar a finais de transformação”, nos quais se apreciava uma
atenção segundo nosso interesse. inversão dos valores e relações expressas na primeira versão
(4) Nesse sentido, deve-se destacar o descobrimento de do mito considerado (Lévi-Strauss 1992:197, 202 etc.).
diversos tipos de relações duais em objetos da etapa agro- (6) Para Lévi-Strauss, contudo, as estruturas mentais
ceramista do noroeste argentino, feitas por González em seu binárias constituem uma premissa que a análise estrutural
livro Arte, estructura, arqueología (González 1974) busca confirmar.

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Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 23-31, 2015.

nos têxteis que cobriam a cabeça das múmias; e


idênticos, também, aos motivos que figuram na
roupa nos corpos das urnas (figura 3). Se a cabeça
de serpente adicionada fosse, em alguns casos, um
mero kenning, então poder-se-ia manter a inter-
pretação das vasilhas fase 0 (figuras 2 e 4) como
representativas de mortalhas. Em contrapartida,
se se tratasse de um “esclarecimento de motivo”,
o sentido do mesmo poderia ser outro e a mencio-
nada interpretação poderia perder valor.

Fig. 3. p.1190, reserva técnica n° 88751 do Museu


Etnológico de Viena, no qual se aprecia o motivo de
tabuleiro no corpo da figura de largas sobrancelhas,
como provável representação do desenho de têxteis.

qual o ponto de chegada é algo completamente


diferente do ponto de partida, pois mantém
com este uma relação de complementaridade
lógica – como no caso das versões dos mitos de
Lévi-Strauss – ou de mudança histórica – como
revelam habitualmente as seriações cerâmicas em
Fig. 2. p.1228, reserva técnica n° 88753 do Museu Et- arqueologia. Desta maneira, alterações, permuta-
nológico de Viena (procedente do vale de Santa Maria), ções e transformações são relações entre motivos
na qual se observa o motivo do cordão quebrado no que podem operar em distintas escalas: campos
ombro da urna, alterado na cabeça de serpente.
de desenho, peças de um mesmo gênero, estilos
etc. Dispondo de uma terminologia para referir-se
Finalmente, reservamos o termo transforma- aos motivos e suas relações, é possível abordar a
ção7 para aludir ao estado final de uma sequência evidência empírica buscando vincular a arquite-
de mudanças (alterações, permutações), no tura interna das imagens com os valores culturais
que derivam tanto dos temas quanto dos procedi-
mentos retóricos em jogo (Nastri e Stern Gelman
(7) Lévi-Strauss usava o termo como sinônimo de permuta- 2011:30-31). A seguir, referir-me-ei a dois exem-
ção (Lévi-Strauss 1992:95, 144-145). plos, centrando-me nos aspectos temáticos.

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20 peças com decorações em tabuleiro no


ombro. O perfil do fragmento e a orientação dos
anéis de pasta permitem estabelecer, também,
que corresponde ao ombro de uma urna. Estas
20 peças8 procedem do vale de Santa Maria e da
zona oriental ou de Santa Bárbara/Pampa Gran-
de. Pois bem, se atentarmos para o fato de que
no fragmento em questão o tabuleiro não inclui
a cor vermelha e não apresenta separação entre
as fileiras diagonais de compartimentos negros,
a amostra de peças inteiras similares reduz-se a
somente 6 exemplares: 5 do vale de Santa María
(4 de procedência indeterminada dentro do
vale e uma procedente da localidade de Fuerte
Quemado)9 e uma procedente de Ayuza10, na
zona oriental de dispersão do estilo, chamada
Pampa Grande ou Santa Bárbara (Nastri 2008).
Todos os casos de urnas com tabuleiro no
ombro da variedade Yocavil – para a qual existe
uma seriação desenvolvida, inicialmente, por
Weber (1978) – correspondem ao que Podestá
e Perrota (1973) classificaram como fase 0.
Podemos associá-la, aqui, a uma data não muito
antiga como aquela assumida na seriação, mas,
Fig. 4. p.1198, repositório n° 89049 do Museu Etno- ainda assim, como antiga. Se as urnas fase 0
lógico de Viena, com o motivo do tabuleiro no ombro representam múmias, então não cabem dúvi-
da urna. das que desde o início do Intermediário Tardio
o conceito de ancestralidade tinha um papel
relevante no culto antigo. Durante o período
Ancestralidade e ornamentos cefálicos em anterior começaram a utilizar urnas antropo-
fragmentos morfas – correspondentes ao estilo Ambato
tricolor (González 1998:211) –, porém, sempre
Um fragmento indubitavelmente corres- referidas a indivíduos completos (isto é, com re-
pondente às peças fase zero em que se repre- presentação de extremidades inferiores) e com
sentaria uma mortalha (figura 5) foi achado no expressão viva. González contextualizou inte-
sítio Morro del Fraile, no interior da Sierra del ressantes peças de madeira com forma humana
Cajón, em Catamarca (Argentina). Este local foi do vale de Santa María, as quais se exumaram
ocupado desde a época da transição ao período com outras varas de madeira que as crônicas da
Intermediário Tardio, com antecedentes ainda época da conquista consignam que eram usadas
mais recentes. Restos de carvão da mesma para invocar proteção nas entradas dos povoa-
unidade estratigráfica onde se recuperou o frag- dos e nos campos cultivados (González 1983).
mento foram datados entre 1031 e 1261 AD,
calibrando-se a datação com dois sigmas (Nastri
el al 2012). O motivo que se pode reconhecer
no fragmento é o tabuleiro branco e negro no (8) p.38, p.78, p.265, p.272, p.273, p.463, p.550, p.604,
ombro. Na amostra formada a partir das peças p.617, p.641, p.660, p.760, p.813, p.819, p.831, p.838,
p.842, p.873 (Nastri et al 2009), p.1219 y p.1198.
de Santa Maria conservadas em 12 museus, em (9) p.463, p.641, p.760, p.842, (Nastri et al 2009), p.1219
outras reservas técnicas da Argentina e cinco y p.1198.
museus do exterior, contamos com, pelo menos, (10) p.842 (Nastri et al 2009).

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NASTRI, J. O estudo das ordens sociais Pré-Colombianas por meio da iconografia: Algumas chaves interpretativas. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 23-31, 2015.

a ocupação Aguada subjaz à de Santa Maria


– poderiam representar uma espécie de “escla-
recimento do motivo” antropomorfo das urnas
Ambato tricolor. Aqui, então, um conjunto de
permutações daria como resultado uma equiva-
lência de significado; sendo o último conceito
levistraussiano (Lévi-Strauss 1992:198) que
faltava introduzir em nossa análise.
Nielsen define o culto aos antepassados
como “um conjunto de práticas religiosas que
permitem a intervenção dos mortos nos assuntos
dos vivos” e que constitui “uma forma de memó-
ria coletiva que se encontra em muitas socie-
dades (Nielsen 2007:52). Isbell, por seu turno,
assinala que à medida que os mortos represen-
tam o passado estão revestidos da autoridade da
tradição (Isbell 1997:15). As urnas da fase zero,
na medida em que representam múmias, tornam
visível a importância dos ancestrais e permitem
sua vinculação, em primeiro lugar, com as re-
presentações humanas das fases seguintes e, em
segundo lugar, com as representações dos corpos
inteiros das urnas Ambato tricolor. Tendo-se
um conjunto de urnas antropomorfas, a iden-
tificação da permutação do rosto da figura de
sobrancelhas largas (Nastri 2008) por uma cabeça
coberta de têxteis pode ser bem interpretada nos
termos de uma equivalência de sentido – um
“esclarecimento” do motivo antropomorfo: o
mesmo representaria um antepassado em todos
os casos – ou como uma etapa na qual se vincu-
lava as urnas com o culto aos ancestrais, sendo
logo deixada de lado em favor da representação
de outros aspectos. O certo é que, como discu-
tido abaixo, no mesmo sítio do Morro del Fraile
temos, com uma data mais tardia, a representa-
ção da figura de sobrancelhas largas cujo rosto,
com toda probabilidade, está “desperto”.
O segundo fragmento cerâmico que conside-
ramos (figura 6) consiste numa parte da borda de
Fig. 5. Fragmento do ombro de urna de Santa Maria uma urna de Santa Maria, recuperada em outra
encontrada na parte inferior do sítio Morro del Fraile 1 quadrícula do mesmo sítio, em menor profundi-
(Catamarca, Argentina), na qual se identifica o motivo dade e associada a uma datação de 1210-1380
de tabuleiro (fragmento n° 777). dC. Neste fragmento se pode divisar um cordão
ponteado e curvo sobre a extremidade da borda,
depois um espaço branco, uma linha negra
As urnas Santa María fase zero, temporalmente completa e curva e debaixo dela dois triângulos,
contíguas às anteriores, dentro de uma área cul- também completos e de cor negra. Graças ao co-
turalmente relacionada – no Morro del Fraile nhecimento das peças inteiras sabemos que este

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Javier Nastri

é um recurso para a geração de um motivo em Da explicação à compreensão


negativo (figura 3) que, na falta de outro nome,
temos denominado como “sobrerrosto” (Nastri Da integração dos dados de fragmentos
2008). Este motivo remete à representação de achados em escavações controladas com aque-
peles de animais esfolados, excepcionalmente um les provenientes de coleções de museus com es-
puma, quase sempre uma ave e que podemos as- cassa ou nula informação contextual, resultam
sociar a um dispositivo especial, de caráter ritual, dois fatos relevantes sobre a antiga ordem social
do tipo xamânico (Nastri 2008). calchaquí: 1) há uma precedência temporal da
Ao contrário das representações de tabulei- expressão do conceito de ancestralidade na for-
ros, o motivo dos sobrerrostos não se restringe ma das imagens de múmias; 2) tais expressões
uma só fase, mas abarca as fases I a III, igual- não se limitavam ao contexto mortuário, mas
mente ao conjunto de motivos que não aborda- estavam presentes na vida cotidiana. O primei-
remos aqui por razões de espaço e que tratamos ro ponto é coincidente com o postulado pelas
em outro lugar (Nastri et al 2009): aqueles autoras que completaram a seriação de Santa
referidos a adornos faciais, tais como máscaras, Maria originalmente formulada por Ronald
narigueiras e olhereiras; elementos sumamente Weber em relação às urnas da fase 0 (Podestá y
indicativos, também, no que se refere às antigas Perrota 1973), mas não podemos assegurar que
ordens sociais aborígenes. contemporaneamente a estas não se produziram

Fig. 6. Fragmento da borda de uma urna de Santa Maria encontrada na parte inferior do sítio Morro del Fraile 1
(Catamarca, Argentina), na qual se identifica o motivo de sobrancelhas de triângulos que conformam os “sobrer-
rostos” negativos como os das figuras 2 e 3 (fragmento n° 903).

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Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 23-31, 2015.

e consumiram também vasilhas que tiveram nicamente. Para elucidar quando as variações
a representação do rosto da figura de sobran- são meras explicitações ou simplificações de
celhas largas. Isto porque a quantidade total um mesmo significante, ou quando implicam a
de vasilhas com representações de mortalhas mudança de sentido, é que apelamos à tríade
– ainda que adotemos o critério mais vago de permutação, alteração e transformação, dada
reconhecimento do motivo no ombro – aparece a complexidade da tarefa no marco de uma
como muito baixa para cobrir o lapso temporal cosmologia analogista, na qual as variações
que se lhes atribui a uma fase. Contudo, este é metafóricas são onipresentes.
um tema que também excede os objetivos do Busquei expor uma série de chaves in-
presente trabalho. terpretativas para o estudo das ordens sociais
O segundo ponto tem importância fun- Pré-Colombianas a partir da evidência ico-
damental, pois alude às condições da situação nográfica. Esta põe de manifesto, no passado,
comunicativa em meio as quais circulavam as os conceitos de ancestralidade, xamanismo e
imagens de Santa Maria e isto é, sem dúvida, status. O refinamento do conhecimento sobre
determinante na interpretação de seu signifi- sua trajetória espacial e temporal e de seus
cado. Se as urnas eram utilizadas previamente contextos de aparição possui, sem dúvida,
na vida cotidiana, então sua função pôde ser enorme potencial para a elucidação das per-
a de armazenar algum alimento ou líquido guntas sobre a antiga ordem social calchaquí.
fundamental à subsistência, com o qual o Penso que as chaves interpretativas exploradas
personagem representado poderia vincular-se podem, também, ser úteis para o estudo de
a outros seres antes que com os parvos que outros contextos americanos, nos quais há co-
as albergariam logo num segundo uso. Desse piosas manifestações iconográficas conservadas
modo, as representações nas urnas poderiam através dos tempos.
aludir a figuras protetoras dos alimentos na
figura de ancestrais, personagens de impor-
tância como antepassados, chefes, guerreiros Agradecimentos
ou xamãs. As imagens calchaquís, assim, nos
brindam com uma via de entrada para com- Ao amigo Lúcio Menezes Ferreira, por
preender as distintas categorias de hierarquia sua gentil tradução do original em espanhol.
e função que existiram no passado. As urnas Aos organizadores da semana de arqueologia,
constituem um continuum de repetição de pelo convite para participar de tão estimulante
um arranjo de elementos, com variantes que experiência e, especialmente, à Milena Acha
lançam luz acerca dos atributos e caracterís- e Tiago. À Claudia Augustat, do Museo de
ticas das figuras centrais, as quais puderam Viena, por facilitar meu trabalho com a coleção
variar tanto sincronicamente quanto diacro- Schreiter.

NASTRI, J. The study of social order Pre-Columbian iconography through some keys
interpretative. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 23-31, 2015.

Keywords: Iconography Calchaquí

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Javier Nastri

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Contribuições e limites da epigrafia do mundo romano

Patrick Le Roux*

LEROUX, P. Contribuições e limites da epigrafia do mundo romano. Revista do Museu


de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 33-40, 2015.

O tema proposto é muito amplo. Não


é o caso de tratá-lo por completo.
Trabalhando sobre o Ocidente romano, privi-
nem evidentes. Seguindo a tradição da erudição
do século XIX, as inscrições eram sobretudo su-
postas como esclarecedoras dos grandes textos
legiei a epigrafia latina e as inscrições sobre a e confirmadoras de sua veracidade. No mesmo
pedra, mais variadas do que se pensa comumen- espírito, certas categorias de inscrições foram
te. Os aspectos metodológicos fundamentais solicitadas a melhor assentar a cronologia im-
são, entretanto, comuns às epigrafias do mundo perial e os eventos importantes dos reinos que
romano e externas a ele, tratando-se da escrita elas permitiam descobrir e melhor compreender
da história. no quadro de uma história sobretudo factual
1. Malgrado as aparências, as relações entre das dinastias sucessivas confrontadas às diversas
a epigrafia e a arqueologia nunca foram simples crises que o império atravessou (fig. 1).

Fig. 1. Inscrição de Agrippa no Pantheon.

(*) Université de Paris 13

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LEROUX, P. Contribuições e limites da epigrafia do mundo romano. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 33-40, 2015.

Em todos os casos, a epigrafia era uma em busca de relações entre os sítios explorados
disciplina auxiliar a serviço da grande história, e a grande história. Em diversas províncias do
a única importante. O interesse pela epigrafia mundo romano, as inscrições latinas e gregas
mais modesta, municipal, funerária ou voti- ganharam mais evidência que as pesquisas
va emergiu apenas lentamente na escala dos arqueológicas e, inversamente, a presença
desenvolvimentos das histórias provinciais fun- de uma inscrição foi justamente considerada
dadas sobre as inscrições e dos sítios escavados como o sinal de uma ocupação humana antiga,
ou assinalados quando das prospecções. Os vo- merecendo a atenção e desvelando progressi-
lumes do Corpus de Inscrições Latinas de Berlim, vamente indícios de organização local material,
atentos a não negligenciar esses documentos, social, econômica e cultural associados ao local
tinham, pela força das coisas, aberto a estrada, escavado. Na maioria das vezes, entretanto, no
considerando esses testemunhos antes de tudo começo, a inscrição era “caçada” para servir
como fatos linguísticos e literários (fig. 2). como identificação dos sítios, à datação de sua
Sem remontar a muito, já que não se trata promoção estatutária ou jurídica e à apreciação
aqui de escrever uma história da epigrafia, de seu grau de “romanização”, ao menos no que
notar-se-á que desde a época do Corpus, é pelo concernia às terras ocidentais, África do Norte
viés das letras, da filologia e depois da história incluída.
da arte que a epigrafia tomou corpo ou con- Desde a metade do século passado, novas
sistência como disciplina auxiliar da história gerações de historiadores e arqueólogos atraí-
e, cedo, como parte ativa de uma arqueologia ram a atenção sobre a possibilidade de fazer
falar, em contextos arqueológicos
precisos, as inscrições sobre pedra
solidárias, materialmente e cultural-
mente, ao meio social que as havia
produzido (fig. 3). Foi assim que os
estudos epigráficos desenvolveram
as descrições minuciosas implicando
o estado de conservação, do qual se
sabe melhor hoje como pode ser en-
ganador, as dimensões, os elementos
notáveis, o tamanho das letras e seu
desenho, o tipo de gravura e o grau
de precisão procurado, manifesto
também na paginação ou ordinatio.
A análise da origem dos materiais
servindo de suporte, a qualidade da
pedra, seu valor simbólico e social
entram, a partir daí, em consideração
e dão lugar a conclusões adaptadas
ao ambiente geográfico e arqueológi-
co já conhecido.
2. Como acontece com a
arqueologia, a epigrafia é local.
Convém, portanto, não confundir a
documentação epigráfica da cidade
de Roma propriamente dita, com as
Fig. 2. Retrato de Theodor Mommsen, criador do Corpus de das cidades da Itália e das provín-
Inscrições Latinas de Berlim. cias. Em primeiro lugar, é no quadro

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Patrick Le Roux

arqueologia urbana e as inscrições deram lugar


a reconstituições da paisagem e da topogra-
fia, permitindo a encenação, em termos de
imagens (relevos, esculturas, afrescos e outros
ornamentos) dos espaços do poder e sua lei-
tura política datada. Enfim, uma tal epigrafia
participava de uma estética monumental mais
colorida do que fazem crer as ruínas visíveis de
hoje em dia.
Os centros urbanizados das cidades, os
oppida das províncias ocidentais, imitaram com
o tempo as práticas romanas. As homenagens
aos imperadores e sua família, as arquitraves e os
lintéis monumentais inscritos, os pedestais das
estátuas elevadas aos evergetas e benfeitores da
comunidade e de seus cidadãos, o contradom de
funerais públicos que ornavam os lugares escolhi-
dos por sua visibilidade e importância topográfica
descreviam a cidade hierarquizada por autorida-
des, poderes protetores e juízes responsáveis por
sua segurança material e social. As inscrições
nesses contextos contribuem com um vocabu-
lário arquitetural por vezes ausente dos textos
clássicos ou mais adequado, notadamente para
as termas (em Pompeia, o destrictarium ou sala de
Fig. 3. Braga, Fonte do Ídolo fricção do corpo após o banho). As ruas e vielas,
as demarcações, as cintas em torno dos edifícios
(a lex Puteolana) e até as dimensões e medidas de
da Cidade por excelência que a arqueologia referência. As atividades de produção e de arte-
sanato recebem inscrições, sobretudo regulamen-
epigráfica nasceu, a partir de trabalhos como
tares, nomenclatura, localizações e exclusões, as
os de R. Bianchi Bandinelli, mestre fecundo
leis de Tarento e de Vrso confirmando mutua-
e prolongado por numerosos discípulos. Não
mente que o número de telhas do teto servia de
somente o solo romano forneceu painéis
padrão para delimitar a superfície das constru-
inteiros da planta sobre mármore da cidade
ções e impor uma norma inferior. Aquilo que se
dos imperadores (a forma Vrbis) e restos de
chama instrumentum contribui igualmente, em
inscrições que ornamentavam as fachadas dos menor medida, ao conhecimento das técnicas,
edifícios públicos, os fóruns imperiais, os tem- dos ofícios e dos intercâmbios comerciais.
plos, os arcos de triunfo, os teatros, as termas Certas províncias oferecem uma documen-
e outros lugares de reunião, locais ou sedes tação dita epigráfica esparsa e fragmentária
das administrações, armazéns de estocagem e relativa às atividades e produções do campo. O
pórticos (o porticus Minucia) que serviam para uso do moinho a água, mais precoce do que, por
nutrir a plebe, mas fez aparecerem numerosas muito tempo, se pensara, as formas de reparti-
indicações sobre as intervenções oficiais dos ção coletiva da água e a regulamentação da irri-
imperadores e de seus domus, dos senadores gação, a repartição das terras e sua delimitação,
e responsáveis administradores a seu serviço, as criações itinerantes transumantes ou não, os
sem omitir as dedicatórias e estátuas múltiplas calendários (o calendário Colocci do museu de
e de todas as ordens das quais o centro urbano Nápoles, CIL, VI, 2305=ILS, 8745) enumeran-
das 14 regiões era semeado. Ombro a ombro, a do festas religiosas e trabalhos mensais neces-

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LEROUX, P. Contribuições e limites da epigrafia do mundo romano. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 33-40, 2015.

sários ao rendimento e às colheitas (lavoura, princípio ao transporte do óleo da Bética sob


sementeira, vindima, por exemplo) ao longo do o Império, não saberíamos muito sobre esse
ano para os cereais, a vinha, o gado, mas a oliva produto, sua difusão e a organização de seus
pode passar em silêncio a este respeito, cons- negócios. Sem as contas de La Graufesenque
tituem um leque incompleto e limitado a um associadas aos fornos dos oleiros, nos faltariam
pequeno número de textos. Os signacula, ou se- dados detalhados sobre essas produções espe-
los metálicos, serviam para reconhecer e marcar cializadas e sobre o ambiente humano que as
os animais. Os cultos recomendados ou fixados caracterizava. O mesmo vale para as fístulas ou
constituem uma tábua de proteções divinas canos de chumbo utilizados para as canalizações
adaptadas ao mês e aos trabalhos a efetuar, urbanas.
ao mesmo tempo que à estação. As villae, ao Desde pouco os epigrafistas se interessaram
contrário, não oferecem senão ocasionalmente pelos documentos escritos a tinta sobre cacos
indicações sobre o nome e estatuto dos pro- ou sobre tabletes de madeira que iluminam o
prietários. Mais que por inscrições destinadas historiador e o arqueólogo sobre as transações
a honrá-los ou comemorá-los, é pelo viés dos variadas, o mais das vezes de ordem privada,
objetos pessoais (pedras de anéis servindo como e fornecem dados cifrados sobre os preços e as
selo) que se descobrem algumas identidades, somas em jogo. As tabletas de Vindolanda, nas
sabendo que todas as personagens assim reve- vizinhanças do muro de Adriano, trazem uma
ladas permanecem sem ecos de outras fontes. nova luz ao cotidiano dos exércitos pelo viés da
Os grafites gravados nas paredes, colunas ou correspondência dos oficiais ou soldados tra-
sobre alguns objetos em madeira, em cerâmica, tando de preocupações exteriores à vida militar
ou em metal completam as informações sem ser propriamente dita, faturas ou resumos de rações
limitados a lugares urbanos. para os homens e os cavalos, sem esquecer os
As marcas dos oleiros, os tituli picti sobre as atos oficiais ou relatórios relativos a desloca-
ânforas, as indicações pré-cocção das medidas mentos ou missões particulares (fig. 5).
de capacidade enriquecem os conhecimentos 3. As coletas epigráficas contêm, entre-
e as reflexões sobre a vida econômica e as rela- tanto, em maioria, inscrições sobre pedra, e às
ções comerciais interprovinciais ou entre Roma vezes sobre metal (bronze ou metais preciosos)
e as províncias (fig. 4). Sem a documentação de caráter cultual e votivo ou funerário. O mais
trazida pelas ânforas Dressel 20 destinadas em das vezes reutilizados e achados, portanto, fora
do contexto arqueológico,
os altares, funerários ou
votivos, as estelas e placas
funerárias constituem a
maioria das séries epigrá-
ficas na própria Roma ou
nas cidades, privilegiadas
no plano arqueológico, da
Itália ou das províncias.
Não há senão num caso
como o de Pompeia (ou Ós-
tia) em que a ligação entre
o conteúdo das tumbas e
a conservação do monu-
mento inscrito autoriza
aproximações confiáveis e
esclarecedoras. Contudo,
pelo esforço conjugado dos
Fig. 4. Ânfora Dressel 20. epigrafistas e arqueólogos,

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Patrick Le Roux

Fig. 5. Tabuleta de Vindolanda.

é possível tirar partido de numerosas informa- confecção. Certos suportes isolados indicam
ções dadas pelos epitáfios para melhor restituir uma escolha privada, afastada de aglomerações
a imagem da tumba, a observância dos rituais, de qualquer tipo, e limitam as informações a
a acolhida a diversos membros de uma família, alguns indícios da presença de um estabele-
ou sua exclusão, o isolamento, ou, ao contrá- cimento rural, de um santuário de pequenas
rio, a inserção de uma sepultura ou uma urna dimensões, sobretudo se nada na prospecção
num cemitério coletivo ou num columbarium arqueológica vem acrescentar algo aos dados
segundo as categorias sociais e os liames de disponíveis. O nome ou o estatuto do devoto,
dependência, a presença de um mausoléu ou de raramente proposto neste caso, não conduzem
tumbas monumentais. Entre os desenvolvimen- senão por acaso a conclusões frutuosas que
tos recentes, para fins sobretudo tipológicos, possam impelir a pesquisas arqueológicas apro-
nota-se a atenção dedicada às indicações de fundadas. A natureza do suporte, o trabalho de
comprimento e largura dos recintos funerários, preparação ao qual ele deu lugar, sua aparência
expressas em pés romanos. A proteção da desenham alguns delineamentos a interpretar,
sepultura e de seu entorno resulta também de contudo, com grandes precauções. O teônimo
inscrições prevendo penas de multas para toda é sem dúvida mais loquaz e pode ser aproxima-
profanação ou violação da última morada. As do a tipos conhecidos de santuários e lugares
questões assim suscitadas concernem igual- sagrados (fontes, bosques, alturas, territórios,
mente à regularidade das cerimônias funerárias grutas ou rochedos, templos construídos etc.)
de comemoração dos defuntos, o papel das ou induzir um lugar de culto de grande impor-
associações de vigilância (os colégios ou as tância para as comunidades circundantes, o
vizinhanças) e o direito relativo às concessões. que não poderá ser deduzido senão por uma
As inscrições incitam, portanto, os arqueólogos leitura precisa e completa da história arqueo-
a refinar ainda mais, o que eles sabem fazer lógica da região. Mesmo neste caso nem tudo
cada vez melhor, seus métodos de exploração é fácil de definir ou esclarecer. Pode-se propor
e de reconhecimento detalhado da duração da o exemplo do santuário rupestre de Panoias,
ocupação e da manutenção das tumbas, assim no norte de Portugal, próximo de Vila Real,
como de intervenções sucessivas, ligadas aos cujos textos gravados no rochedo exprimem o
enterramentos. caráter insólito e importante em contraposição
Os altares votivos, como os monumentos às dificuldades de leitura devidas, de uma parte,
funerários, evocam o problema do ambiente à usura do tempo e à intervenção humana. Não
topográfico e institucional que presidiu sua posso deixar de acrescentar aqui o exemplo

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Suplemento 20: 33-40, 2015.

Fig. 6. Marecos Penafiel (altar com inscrições em três faces).

da inscrição sacrificial de Marecos, Penafiel, a É necessário, entretanto, permanecer crítico


leste de Porto, cujo caráter agrário e coletivo face aos dados e ter consciência que uma facie
orienta para um santuário localizado sobre uma nominal definida culturalmente não corres-
propriedade ou villa sem excluir um elo entre ponde necessariamente aos traços dominantes
esse domínio e uma aglomeração rural de tipo do meio estudado. O exemplo mais evidente é
vicus, todavia sem certeza (fig. 6). Nota-se tam- o dos nomes ditos gregos ou de origem greco-
bém o aporte da epigrafia ao conhecimento das -oriental que correspondem a uma identidade
divindades localmente veneradas porque, sem social e não cultural, a das pessoas de ori-
essas inscrições, as numerosas divindades, de gem servil, o que tem por origem a época do
audiência restrita a setores precisos ou a regiões surgimento da escravidão no fim da República
delimitadas não existiriam mais para nós. na Itália. Os nomes convidam enfim a melhor
Os nomes divinos e humanos atraíam a demarcar fatos linguísticos mal conhecidos ou
atenção para o contexto linguístico e cul- perdidos em um passado remoto. Por este viés
tural que tinham podido dar-lhes nascença. e outros, é possível hoje em dia distinguir um
Na esteira da prosopografia, os epigrafistas ramo linguístico dito lusitano cuja realidade
montaram uma disciplina onomástica viva, e características são objetos de debate. É ver-
tornada uma especialidade da escola finlan- dade também em particular para as epigrafias
desa. Esses trabalhos permitem estabelecer ditas ibéricas ou celtibéricas cuja emergência
tendências e reconhecer, sob formas latinas, é percebida hoje como herdeira de práticas
identidades provinciais marcadas por influên- romanas e implica em datações muito mais
cias culturais precisas (célticas, gaulesas, baixas do que se havia enunciado. Qualquer
ilírias, ibéricas, africanas) que podem igual- que seja o viés pelo qual se as aborda, as
mente guiar os arqueólogos na sua procura de inscrições põem o problema de sua datação e
evoluções locais, frequentemente misturadas. de suas cronologias relativas, o que é perfeita-

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Patrick Le Roux

mente conhecido também pelos arqueólogos havia sido suposto apressadamente, mas provi-
confrontados com estratigrafias complexas. nham de um templo vizinho.
4. Um dos limites mais evidentes de uma As evoluções metodológicas levaram a não
epigrafia destinada ao estudo das sociedades e mais considerar as inscrições como documentos
dos meios provinciais destacando também so- primários que colocam o historiador diretamen-
bretudo explorações pela arqueologia, por falta te em contato com o passado. Uma inscrição,
de fontes textuais, é seguramente o problema assim como qualquer texto, propõe uma mensa-
das datações. Deste ponto de vista, foram gem que tudo o que lhe diz respeito pede para
realizados progressos a partir da atenção dada ser cuidadosamente descrito e medido. Uma
aos formulários, à gravura, ao vocabulário e à inscrição não fala sozinha, não mais do que um
paginação, uma vez que nada permite obje- pedaço de muro, nem do que uma passagem de
tivamente propor uma data. Algumas séries, Tito Lívio, Tácito ou Plutarco. É preciso fazê-la
entretanto, têm mais vantagens do que outras, falar, decifrá-la e interpretá-la tendo consciên-
sem evocar as inscrições imperiais, senatoriais cia de que o meio social, cultural, humano e
ou equestres ou as que evocam um período cotidiano nos escapa totalmente e que seria
particular como a “Era consular” na península falacioso preencher essas faltas apenas com o
Ibérica. A menção de um topônimo oficial, de recurso do presente das sociedades atuais. Em
uma unidade militar, de uma função local ou segundo lugar, as mensagens dizem respeito
provincial orienta as bifurcações e pode ajudar apenas a uma parte do real. Um mundo lido
os arqueólogos na sua procura de balizas crono- ou percebido somente através da epigrafia não
lógicas úteis. Entretanto, o mais frequentemen- pode ser nada mais que um mundo mutilado,
te, as inscrições mais modestas que demons- incompleto e em parte travestido, mesmo se em
trariam ser também as mais pertinentes na alguns campos como as instituições, os cargos
escala local, são datadas apenas com algumas e funções diversificadas de governo, as ordens
dezenas de anos aproximadamente e levam superiores da sociedade e o uso da língua latina,
a hesitar entre os últimos decênios de um esses permaneçam o instrumento mais bem-
século e os primeiros do seguinte. Este limite -sucedido, desde que se controle o conjunto
é acompanhado pela ausência de um contexto da documentação epigráfica disponível sobre
arqueológico e estratigráfico evidenciável ou o assunto. Um segundo limite relaciona-se às
convenientemente evidenciado. É necessário, séries, elas próprias desiguais segundo os perío-
além disso, ser igualmente mais comedido nas dos e a conservação dos monumentos. Nenhum
conclusões, uma vez que a aparência de um procedimento quantitativo é realmente satisfa-
monumento epigráfico é raramente fiel ao es- tório quando falta uma avaliação global do que
tado primitivo e que as marcas do tempo ou as pôde existir. A epigrafia puxa a história mais
condições de conservação do documento pro- frequentemente do lado da singularidade ou do
vocam deformações e erros de apreciação. Não particular, o que pode ser, afinal de contas, uma
é preciso dizer que um monumento epigráfico, realidade profunda do passado.
diferentemente de uma placa, escapa a toda De maneira mais geral, a epigrafia ignora
estratigrafia e que os fragmentos encontram-se ou deixa de lado uma parte importante das
nos preenchimentos e aterros que misturam os populações existentes, mesmo se pelo viés das
períodos e, portanto, não autorizam nenhuma inscrições funerárias e votivas seja possível
determinação cronológica além de, no melhor pensar que certos grupos sociais mais humildes
dos casos, um terminus a quo ou post quem. exprimam debilmente uma voz que apenas a
Recentemente uma escavação renovada de um eles pertence. A questão com a qual aqui en-
poço no forte de Maryport (Alauna, Cúmbria) tramos em choque é a do costume de recorrer a
possibilitou reconhecer uma reutilização tardia uma expressão escrita e seu respectivo grau. Os
dos altares que, assim, no início não tinham trabalhos mais recentes procuraram perscrutar
nenhuma relação com um ritual associado minuciosamente os níveis de alfabetização e de
ao lustrum do campus do Alto Império, como analfabetismo no mundo romano. Metodolo-

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Suplemento 20: 33-40, 2015.

gicamente, parece reconhecido que o número métodos e disciplinas. Não é o lugar de apro-
das inscrições não é o reflexo da capacidade da fundar esta questão, mas ela acompanha um
população de ler e escrever. O fato mesmo de fechamento identitário da disciplina destinada
recorrer a um epitáfio não era necessariamente a somente ler formas de autorrepresentação,
o indício ou o sinal de um domínio da cultura conceito ele mesmo discutível e tributário de
escrita, mas destacava o prestígio da comunica- modelizações de que as ciências humanas são
ção escrita e da capacidade de produzi-la. Seria, gulosas, mas que empobrecem parcialmente a
entretanto, simplificador e fácil demais ater-se a pesquisa. A contribuição das epigrafias à história
um esquema dicotômico que atribuísse às elites resulta da capacidade de cruzar todas as infor-
a superioridade do acesso à escrita e colocasse mações de onde quer que venham para que
a maioria da população isolada de práticas que seja permitido aprofundar o conhecimento do
não lhe diziam respeito ou apenas de maneira passado, de todo o passado não como totalidade
indireta. As inscrições exprimem a presença unificada, mas como expressão de diversidades
ativa do escrito, seus ritmos de expansão. Elas sociais e humanas indefinidas.
não são o barômetro certificado e confiável dos Neste sentido, a epigrafia é um instru-
níveis de alfabetização e de cultura das socie- mento de diálogo com os que praticam a
dades estudadas por seu intermédio. Enfim, as arqueologia. Não deveria existir entre elas nem
flutuações quantitativamente aparentes das concorrência nem opróbrio, assim como entre
práticas epigráficas (o “epigraphic habit” de R. a história fundada sobre as fontes textuais e a
Mac Mullen) não encontram sempre explica- que destaca monumentos e documentos forne-
ções satisfatórias e sobre este ponto as pesquisas cidos pelos vestígios materiais e as escavações.
e as discussões se sucedem intensamente. O passado não pode se cortar em fatias, mesmo
5. Nem a epigrafia, nem a arqueologia, nem que a história política e factual, sabe-se bem,
a história são ciências no sentido das ciências não seja a história social, cultural ou econômi-
ditas exatas, capazes de construir em axiomas ca. O que se chama a “grande história” tende,
ou em leis observações devidamente descritas na Europa e sem dúvida em outras partes, a
e analisadas. Descrever não é definir e analisar retornar às luzes da cena como o fermento de
não é interpretar. A epigrafia é um instrumento uma memória comum susceptível de soldar
para acessar a história e para propor questões as comunidades contemporâneas. Existe aí o
originais às sociedades do passado. Ela é dotada risco de apenas escrever o passado no presente
de técnicas e de metodologias próprias que auto- sabendo que a história, eu o disse, não é uma
rizam a qualificá-la como atividade de caráter ciência. As inscrições, como as escavações
objetivo e, portanto, científico. Ela não é autô- arqueológicas, exploram o passado por cami-
noma e não pode substituir a história. Pode-se nhos outros compatíveis com outras disciplinas
dizer que, como a maioria de nossas disciplinas, e outras maneiras de escrever a história. As
ela parece enfrentar uma crise de identida- verdadeiras riquezas de todas nossas disciplinas
de que, no limite, poderia ser prejudicial. Eu e, portanto da epigrafia, mantêm suas tem-
pessoalmente sou cético diante das tentativas de poralidades próprias e a necessidade de inter-
redefinição das inscrições, o que seria limitante pretar, isto é, de fazer falar a documentação,
e contribuiria para cortar a disciplina da reflexão carregando-a de sentidos, os quais não se pode
histórica global. Eu não compartilho da ideia de jamais estar certo de que sejam os únicos nem
que haveriam inscrições dignas da epigrafia e os que convêm. Aí se encontra uma forma de
escritos sobre outros suportes que iriam reunir a desafio intelectual que merece interesse e que
massa dos escritos cotidianos destacando outros se cultive o gosto do passado.

LEROUX, P. Contributions and limitations of epigraphy of the Roman world. Revista


do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 33-40, 2015.

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Comunicações

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Apontamentos sobre o Período Formativo nas Terras Baixas

Guilherme Z. Mongeló*

MONGELÓ, G. Apontamentos sobre o Período Formativo nas Terras Baixas. Revista


do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 43-47, 2015.

Resumo: Neste artigo, procura-se fazer alguns apontamentos iniciais so-


bre a aplicação do conceito evolucionista de Período Formativo para as Terras
Baixas da América do Sul. Entende-se que, durante muitas décadas, arqueó-
logos sul-americanos utilizaram esta nomenclatura de forma indiscriminada,
tomando por sentido único sua função classificatória. No texto que segue,
procurar-se-á fazer uma rápida regressão sobre as noções clássicas de Neolítico
e Formativo, idem suas utilizações nos contextos tropicais americanos.

Palavras-chave: Formativo – Amazônia – Teoria

G ordon Childe talvez tenha sido o


arqueólogo que mais tenha dado aten-
ção à possibilidade de integrar anseios teóricos
finalidade, Childe se apropria do etapismo mar-
xista, fugindo da tradicional dicotomia da luta
de classes, mas buscando, no registro, elemen-
com práticas de campo e análises laboratoriais. tos que possam caracterizar conceitos essenciais
Ligado fortemente a tendências marxistas, Chil- do marxismo pré-capitalista, como o trabalho, a
de (1965) propôs ainda nos anos 1930 teorias propriedade e mais-valia (Marx 1964).
tão generalizantes quanto o próprio marxismo, A concepção de Revolução Neolítica de
amparando conceitos teóricos nas suas pesqui- Childe vem ao encontro da dicotomia muito
sas acerca das primeiras formações urbanas e antes já estabelecida por arqueólogos europeus
estatais na Europa. A principal contribuição de (Trigger 2004), entre contextos de instrumentos
Childe às pesquisas acadêmicas, e que melhor de pedra lascada e contextos com adensamento
resume esse esforço de introduzir os preceitos de material cerâmico. No Velho Mundo, como
marxistas na construção da narrativa pré-histó- percebeu Childe, essa dicotomia não se resume
rica, é a ideia de Revolução Neolítica, conceito ao aparecimento de uma nova tecnologia, mas
que abarca perspectivas econômicas e sociais. representa uma mudança na capacidade das so-
A apropriação da ideia de Revolução por ciedades de se relacionarem com o meio e entre
Childe já denota o caráter intencional em si, a instrumentalização, isso se dá, em um dos
estabelecer determinada visão da história sob seus variados campos, na mudança tecnológica.
uma ótica marxista (Faulkner 2007:72). Ao Segundo Marx (1964:12), a “cultura é
enxergar as sociedades como sistemas coesos, o meio em que o homem se ergue em relação
constituídas por processos que possuem causa e à natureza”, e a relação entre o homem e a
natureza está intimamente ligada à relação dos
homens entre si, dialeticamente. Na gênese
(*) ArqueoTrop – MAE/USP mongelo@up.br desse pensamento, Marx acredita que é o

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MONGELÓ, G. Apontamentos sobre o Período Formativo nas Terras Baixas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 43-47, 2015.

trabalho (no princípio, a instrumentalização do em 1958, de “Method and Theory in American


homem no modo de modificar a natureza) que Archaeology (1967) de Whilley & Phillips.
se estabelece como conceito que conecta esta Oriundos de uma tradição histórico-culturalista,
complexa relação da humanidade social e da o objetivo inicial era de estabelecer um padrão
natureza. Sendo assim, o estudo das formas de classificatório que levasse em conta aspectos
trabalho estaria na base para o entendimento teórico-metodológicos para descrever os pro-
das sociedades como sistemas, e suas transfor- cessos transformativos de sociedades caçadoras-
mações teriam implicações, necessariamente, -coletoras para agricultoras, e todas os outros
em mudanças nas modalidades de trabalho. elementos que, para eles, são provenientes dessa
A visão etapista de estágios de desenvol- mudança econômica. Somado aos trabalhos de
vimento ligados a determinados modos de Ford (1969), o termo foi empregado durante boa
produção foi sendo, no desenrolar das pesquisas parte do século a partir de uma tradição funcio-
do século XX, criticada pelos revisionistas do nal-evolucionista de evolução linear de culturas
pós-processualismo, alguns deles notadamente arqueológicas, bastante generalizante.
Marxistas (McGuire 1992:130). Diferente do O estudo da mudança nos padrões de
neoevolucionismo da antropologia norte-ame- organização social e econômica é recorrente em
ricana, a visão marxista, por mais humana que diversos contextos da arqueologia no mundo,
tenha se apresentado ao colocar o homem como percebíveis frequentemente pela mudança nos
agente e protagonista da história, continuou padrões tecnológicos, refletida na dicotomia
imbuída de conceitos generalizantes de desenvol- “caçador-coletor X agricultor”, ou “lascador X
vimento linear. A historiografia soviética (Bate ceramista”. O conceito de Formativo, portanto,
1983) contribuiu para a estanquização do pensa- corresponderia a uma etapa evolutiva, que é
mento marxista no Ocidente, a forte politização semelhante em diversas sociedades e identifi-
da produção acadêmica motivada pelas contur- cada a partir de regularidades que “podem ser
badas imposições stalinistas inviabilizava leituras observadas e se mantém constante” (Schattama-
distintas do marxismo original, criando cartilhas chia 1994:142), como é o caso da cerâmica, da
e métodos passíveis de serem aplicados em agricultura e da estratificação social.
qualquer contexto. A interpretação literal e cega Portanto, nesta visão etapista clássica de
das obras marxistas inviabilizava, por exemplo, a desenvolvimento, mudanças tecnológicas seriam
existência de sociedade sem modos de produção, indícios de processos de transformações socioe-
quem dirá sem classes sociais, o que transformou conômicas, indicativos de determinado estágio
a historiografia marxista da segunda metade do cultural, a partir de uma linearidade preestabeleci-
século XX em incessantes buscas por conceitos da, e que seria inerente à historia das sociedades.
capitalistas em sociedades e contextos distintos. Meggers (1992:72) ensaiou definições mais
A ideia de Revolução Social está intima- ou menos generalistas do conceito de Formati-
mente ligada à gênese do termo. Para Childe, o vo, indicando uma origem de seu uso na Améri-
advento das novas dinâmicas sociais e econô- ca do Sul a partir dos estudos de Pré-história
micas, ao que ele atribuiu o nome de Neolítico, Peruana nos anos 1940. Para ela, o Forma-
deu-se através de uma revolução, mudança tivo é basicamente “o período durante o qual
brusca, com o surgimento de instituições, práti- começou-se a gerir o potencial inerente na adoção
cas e valores antagônicos ao que se tinha como da agricultura, que conduziu ao incremento da
estabelecido. Dessa forma, entende-se que complexidade social”, complexidade esta visível
é preciso se apropriar também dos conceitos no registro arqueológico a partir da “busca de
marxistas para discutir os conceitos imbuídos forças primordiais nas atividades que acrescen-
no emprego desta definição. tam poder e vestígio a uns poucos indivíduos,
Nas Américas em geral, o Período Formativo em diferenciação à maioria”.
é um conceito interpretativo/classificatório, que Este quadro genérico de desenvolvimen-
tomou forma e foi cunhado na historiografia da to sociocultural nas Terras Baixas foi, com
arqueologia da Américas a partir da publicação, o adensamento das pesquisas no âmbito da

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Guilherme Z. Mongeló

paleobotânica, bastante relativizado. Duas re- Assim, o período Formativo representa


ferências na área, Dolores Pipperno e Deborah um processo de transformação onde é possível
Pearsall, centraram seus estudos nos processos identificar não apenas mudanças materiais (já
de domesticação de plantas, pensando através que estas podem ser ou não indicativos), mas
do viés clássico do conceito de Formativo, a principalmente por mudanças nos sistemas
domesticação de alimentos, isto é, o surgimento econômicos que constroem novas formas de
da agricultura como um dos elementos básicos regime de trabalho, alterando dialeticamente as
para a caracterização deste período. relações socioculturais.
Pearsall entende que os processos de Nas Terras Baixas, o Período Formativo
domesticação de plantas nas Terras Baixas ainda é visto sob uma perspectiva cultural-
não é ligado diretamente às mudanças socio- -evolucionista, não só pelo emprego da etimo-
econômicas nas sociedades. A partir de uma logia (formar algo?), mas também pela forma
visão já levantada por Rindos (1984), ela crê em que se pensa esses processos de aquisição de
em uma mudança lenta, um “processo evolutivo recursos nas sociedades ameríndias, com uma
com muitos estágios”, resultado de uma relação dicotomia grande entre caçadores-coletores
mútua, na qual tanto a planta como o ser hu- e agricultores. Mesmo que haja evidências
mano se beneficiam. Tanto ela quanto Pipperno arqueológicas de mudanças tecnológicas, como
levantam pontos importantes para pensar esse a cerâmica, a terra preta, aldeias circulares etc.
Formativo principalmente como um processo é de se pensar se há correspondência entre essas
(e não um evento), processo esse que se deu inovações e mudanças nas formas de relação de
no cenário Amazônico de forma dialética, pois trabalho e dos meios de produção.
é percebível em diversos contextos através Neste mesmo caminho, Hastorf (2006:189),
do tradicional traço “agricultura+cerâmica”, ao discorrer sobre as origens da agricultura nas
mas que ao mesmo modo parece indicar uma Terras Baixas da América do Sul, afirma ser o
complexidade de síntese muito grande, tendo processo de domesticação um “ato cultural”. Ao
ocorrido de diversas formas e por diferentes analisar os centros de domesticação de certos
motivos. Citando Pearsall (1998:44): “as defi- alimentos cultiváveis, e onde são possíveis de
nições de formativo podem estar de acordo com as serem percebíveis no registro arqueológico,
especificidades locais”, e isso corresponde a uma Hastorf crê que tanto a existência de migrações
diversidade de formas de manejo e domestica- de plantas quanto seu know-how implicam
ção distinta em várias partes do Novo Mundo. em grande interação social, e, principalmente,
O arqueólogo peruano Luis Guillermo intencionalidade. Dessa forma, a domesticação,
Lumbreras (1981), um dos primeiros a utilizar o um dos principais elementos relacionados ao Pe-
conceito de Formativo para a América do Sul, ríodo Formativo, se dá muito mais por motivos
difere dos tradicionais aportes do histórico-cul- culturais e políticos do que estritamente ecoló-
turalismo, através de uma perspectiva marxista, gicos ou adaptativos: “I am proposing that across
para explicar estes processos de transformação. South America, the reasons for plant domestication,
Pensando inicialmente que é impossível tratar movement and adoption of cultivens were as such
o período de forma generalizada, uma vez que o cultural as economic or ecológical”.
desenvolvimento dos povos é necessariamente Utilizando-se destes conceitos de Formativo
desigual. Lumbreras vê a cerâmica como um Cultural, e tendo em mente principalmente o
marcador histórico, e que se desenvolve mais ou conceito marxista de “trabalho” como elemento
menos por volta do III Milênio a.C., mas com- sintetizadores da ações cotidianas e dos valores
preende que o Formativo é marcado fortemente subjuntivos (cosmologia, ideologia etc.), entende-
não só pelo advento de tecnologias, mas, sim, -se que este processo, recorrente em diversos con-
pelas novas formas que as sociedades passaram a textos arqueológicos distintos na Amazônia, deva
se relacionar com os meios de produção, o reco- ser estudado de acordo com suas especificidades
nhecimento do direito das pessoas sob o produto sociorregionais. O emprego de um termo genérico
de seu trabalho, a noção de propriedade. como o de Formativo generaliza transformações

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MONGELÓ, G. Apontamentos sobre o Período Formativo nas Terras Baixas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 43-47, 2015.

que se deram por distintos motivos e em diferentes que atendam às especificidades do contexto
lugares, embora tenham traços em comum. tropical. Diferente do que pensa Souza (Cata-
Ao contrário da historiografia marxista clás- festo 2002:13), que afirma que em “sociedade
sica (Marx 1977), mudanças na instrumentaliza- caçadoras-coletoras a terra é apenas um objeto de
ção do trabalho são indícios de mudanças socio- trabalho, convertendo-se em meio de produção em
econômicas, nas relações do modo de produção. sociedades economicamente baseadas no cultivo
Acredita-se que o caso da Amazônia talvez seja agrícola intensivo”, acredita-se que na Amazônia
único, porque, a partir desta perspectiva, mu- não há mudança nos modos de produção com
danças tecnológicas não fletiram em mudanças a transformação agrícola, talvez uma mudança
nos modos de subsistência. Em outras palavras, o grande no modo de subsistência, à medida que
surgimento da cerâmica e seu uso recorrente não se criam novas formas de acesso aos recursos,
indicam modificação nos modos de subsistência. mas mantiveram-se as estruturas de trabalho.
Há o argumento de que, além das mudanças O desafio, partindo desse ponto de vista,
tecnológicas, é possível ver no registro arqueoló- é pensar se existem meios materiais no registro
gico das Terras Baixas outros processos que pa- arqueológico que indiquem uma mudança neste
recem estar interligados no sistema e que fazem padrão sociopolítico-econômico que é o modo
parte desta transformação. A Terra Preta, de de produção, e de que forma as relações de
fato, é um marcador interessante para se pensar trabalho se inserem nesse emaranhado sistema.
na intensificação do uso de solo e de recursos or- É preciso pensar constantemente no registro ar-
gânicos. Segundo Neves (2007) , é possível que queológico como representativo de um sistema
sua formação tenha sido resultado de “diversas orgânico, mas também de forma consciente das
ações sociais e históricas”, e que tenha ocorrido ideologias e na parcialidade da construção das
de forma mais rápida, relacionada à densidade narrativas históricas. A visão marxista da for-
populacional Pré-Colombiana. De fato, não há mação das sociedades possuiu grande influên-
duvidas sobre o caráter antropogênico da Terra cia na formação do conceito de Formativo (ou
Preta, e de como ela está relacionada a esse uso neolitização), e é perspectiva interessante e pro-
excessivo do solo, fogo e alimentos, mas, do missora para desconstruir a concepção etapista
mesmo modo que a cerâmica, não parece indicar e linear deste processo da história indígena. A
uma mudança nas formas de trabalho. citação de Lumbreras (2006:12) parece ser um
Diferente do Neolítico Europeu, ou do For- bom início de debate: “El desarollo de los pueblos
mativo Andino, as transformações ocorridas na es necessariamente desigual, dado que cada pueblo
Amazônia por volta de 3000 AP não origina- debe resolver condiciones materiales diversas, y
ram mudanças drásticas nas formas de trabalho, sostiene que la historia registra la permanente arti-
daí a necessidade de criar conceitos novos culacion de tales processos particulares.”

MONGELÓ, G. Notes about the Formative Period in the South American Lowlands.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 43-47, 2015.

Abstract : In this article, We will make some appointments about the ini-
tial application of the evolutionist concept of Formative Period for the Lowlan-
ds in South America. It is understood that during much decades, archaeologist
have been used the term by indiscriminate form, taking as the only function
the classificatory one. In this text, we will discuss the classic notions of Neoli-
thic and Formative, and their utilizations in the tropical American contexts.

Keywords: Formative – Amazon – Theory

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Guilherme Z. Mongeló

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Centros cerimoniais e sistemas de assentamento Jê do Sul

Jonas Gregorio de Souza*

SOUZA, J.G. Centros cerimoniais e sistemas de assentamento Jê do Sul. Revista do


Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 49-55, 2015.

Resumo: Neste trabalho exploro as relações espaciais entre sítios ceri-


moniais e domésticos Jê do Sul. Proponho que sítios funerários (montículos
cercados por pequenos aterros anelares) se encontram nas proximidades
imediatas de sítios de habitação, ao passo que centros cerimoniais regionais
(aterros anelares com mais de 50 m de diâmetro) se localizam nas fronteiras
de unidades territoriais mais amplas. Estes possivelmente teriam servido à
congregação de unidades sociais e políticas distintas para a performance de
rituais. Sugiro ainda que esses territórios estariam organizados a partir de
um padrão hierárquico, tendo como epicentros sítios densos regularmente
espaçados e cercados por sitios-satélites com pequeno número de estruturas
habitacionais.

Palavras-chave: Sistemas de assentamento – Jê do Sul – Sociedades


complexas.

Introdução funerários e estão próximos de sítios de habi-


tação; já estruturas grandes, com mais de 60 m

D entre os sítios associados à ocupação


Jê no planalto meridional, aqueles
com arquitetura em terra despertam especial
de diâmetro, podem ou não conter montícu-
los, e possivelmente teriam uma função ritual
não mortuária, servindo de centros cerimo-
interesse. Nessa categoria se encontram sítios niais regionais a uma população mais ampla
domésticos (comumente denominados casas (De Masi 2005, 2009; Müller 2008; Saldanha
subterrâneas) e cerimoniais. Os últimos são 2005, 2008; De Souza e Copé 2010; Iriarte et
constituídos por montículos funerários e aterros al. 2013).
anelares – muros de terra circulares ou retan- Neste artigo, apresento um modelo para a
gulares. relação espacial entre os centros cerimoniais re-
Os aterros anelares podem ser classifica- gionais e os sítios domésticos, considerando que
dos conforme suas dimensões: estruturas com estes últimos estariam divididos em territórios
15 a 30 m de diâmetro cercam montículos amplos organizados ao redor de assentamentos
densos – de forma análoga à organização dos
cacicados Kaingang descritos no século XIX
(Mabilde 1899). A análise apresentada é parte
(*) Mestre em arqueologia pelo MAE/USP. Doutorando
da dissertação de mestrado do autor defendida
em Arqueologia pela Universidade de Exeter, Reino Unido.
Bolsista CAPES, processo 1802-13-5. em 2012 no MAE/USP com a orientação do
jonas.gregorio@yahoo.com.br Prof. Dr. Paulo DeBlasis.

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SOUZA, J.G. Centros cerimoniais e sistemas de assentamento Jê do Sul. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 49-55, 2015.

Hierarquia dos assentamentos 102) são da opinião de que os sítios com


aparência de aldeias de casas subterrâneas
A existência de hierarquia entre os tipos são resultantes da construção e uso de pou-
e dimensões dos assentamentos é há muito cas estruturas em diferentes momentos de
considerada um dos correlatos arqueológicos de ocupação. Por outro lado, Saldanha (2005:
sociedades complexas (Peebles e Kus 1977: 431- 73) argumenta que sítios densos parecem
432). No caso do planalto meridional, pode-se ter sido planejados e construídos como um
utilizar o número de casas subterrâneas como conjunto sobre um único nivelamento prévio
um parâmetro para classificar os sítios confor- do terreno. Em Anita Garibaldi, SC, o sítio
me sua densidade (Reis 2007: 116-118; Beber SC-AG-107, composto por nove casas subter-
2004: 200-201; Saldanha 2005: 125-126). Os râneas, apresentou datas distintas para o início
gráficos da Figura 1 foram construídos com base da ocupação nas várias estruturas, embora um
em publicações nas quais estavam disponíveis breve período de contemporaneidade pudesse
informações sobre o número de estruturas em ser notado (Müller 2007). Uma situação simi-
sítios pesquisados nas bacias dos rios Canoas, lar é apresentada por Copé (2006: 248-253)
Pelotas e das Antas, constituindo uma amostra para o sítio RS-AN-03 em Bom Jesus: as duas
de 291 sítios (Corteletti 2008; Schmitz et al. casas datadas foram construídas em períodos
2002; Rogge e Schmitz 2009; Copé 2006; Kern distintos, mas sua ocupação é largamente
et al. 1989; Caldarelli 2008; De Masi 2005; Reis contemporânea. Portanto, pode-se supor que
2007; Schmitz et al. 2010; Wagner 2002). a habitação simultânea de todas ou da maioria
Antes de prosseguir, é necessário um das casas teria ocorrido em algum momento da
comentário de cautela: Schmitz et al. (2002: ocupação de cada sítio.
No gráfico da Figura 1a,
nota-se que a maioria dos
sítios é composta por conjun-
tos de uma a três estruturas,
e são raros os sítios com mais
de 18 estruturas. Na Figura
2, os sítios estão plotados
conforme o número de casas
subterrâneas. A análise de
vizinho mais próximo entre os
sítios com mais de 18 estru-
turas revelou que estes estão
separados por uma média de
56 km em um padrão disperso
regular (p < 0.01). Isso im-
plicaria em um catchment de
28 km para cada sítio denso –
uma distância sugestivamente
próxima dos 25 a 40 km
(meio dia de caminhada) a
que se estende o controle dos
centros de cacicados (King
2003: 11; Spencer 1994: 36).
Esse padrão é evidente
quando reduzimos a escala da
Fig.1. a) Número de casas em sítios de casas subterrâneas das bacias dos
rios Canoas, Pelotas e Das Antas, SC e RS; b) Distribuição log-normal do análise: os gráficos da Figura
número de casas por sítio em três sub-regiões do RS. Elaborado pelo autor. 1b mostram a distribuição

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Jonas Gregorio de Souza

log-normal do número de estruturas por


sítio em três sub-regiões no planalto do
RS: Vacaria, Bom Jesus e Caxias do Sul.
Nota-se que os três são lineares ou primo-
-convexos, ou seja, as dimensões de cada
sítio dependem de sua posição na hierar-
quia, com o maior sítio apresentando o
dobro do tamanho do segundo, o triplo do
tamanho do terceiro e assim por diante
(Johnson 1977: 494-501). Tal distribuição
é típica de sistemas de assentamento cen-
tralizados. Na Figura 3, esse padrão está
representado espacialmente. Surpreenden-
temente, percebe-se que os dois maiores
sítios de cada região estão muito próxi-
mos, o que indica um grau ainda maior de
centralização.
Os sítios densos também se diferenciam
por sua organização interna. As informa-
ções compiladas para 291 sítios de casas
Fig.2. Sítios de estruturas semissubterrâneas (casas sub-
subterrâneas indicam que 60% possuem
terrâneas) plotados conforme o número de estruturas,
3 ou menos casas; excluindo-se as casas com buffers de 28 km e localização dos grandes aterros
isoladas, 38% compõem-se de 2 ou 3 casas anelares. Elaborado pelo autor.
razoavelmente do mesmo tamanho, com
uma média de 6,5 m de diâmetro. Em contras-
te, sítios densos invariavelmente apresentam pequenas (Tabela 1; ver também Beber 2004:
combinações de casas grandes e/ou médias e 203-205 e Reis 2007).

Fig.3. Sítios de casas subterrâneas em Caxias do Sul, Vacaria e Bom Jesus, RS, representados conforme
a posição na hierarquia dos assentamentos. Elaborado pelo autor.

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SOUZA, J.G. Centros cerimoniais e sistemas de assentamento Jê do Sul. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 49-55, 2015.

Como se pode observar na Tabela 1, especializada para cocção. Plantas publicadas


algumas estruturas possuem menos de 2 m de para os sítios densos (Ribeiro e Ribeiro 1985;
diâmetro; pequenas estruturas escavadas em Corteletti 2008; Reis 2007) mostram estruturas
alguns sítios revelaram vestígios distintos das grandes cercadas por aglomerados de pequenas
estruturas maiores, sem artefatos e feições co- depressões, sugerindo o uso destas como anexos
muns em estruturas de habitação (e.g. Schmitz das habitações. Possivelmente trata-se de silos
1988: 36). Em ao menos um caso (Corteletti para estocagem, o que implicaria em uma fun-
2012) tratava-se claramente de uma estrutura ção especializada para os sítios densos.

TABELA 1

Número e dimensões das estruturas nos sítios de habitação densos


Sítio Número de Diâmetro da Diâmetro da Fonte
estruturas maior estrutura menor estrutura
(m) (m)
SC-CL-71 68 8 2 Reis 2007
RS-37/127 40 11 1,6 Corteletti 2008
RS-A-29 40 14,5 1,7 Schmitz et al. 2002
SC-CL-70 36 8 2 Reis 2007
RS-UP-253 25 6 2 Kern et al. 1989
SC-CL-14 23 6 2 Reis 2007

Na Figura 2 foram acrescentados buffers de originalmente para explicar a distribuição da


28 km como sugestão dos territórios dos sítios arquitetura monumental Hopewell do perío-
com alta densidade de casas subterrâneas. Um do Woodland Médio nos Estados Unidos:
padrão interessante observado na Figura 2 diz cada monumento seria o lugar central de um
respeito à localização dos grandes aterros anela- território formado por assentamentos dispersos
res, cuja função sugerida é a de centros cerimo- (Dancey e Pacheco 1997). Recentemente,
niais regionais (De Souza e Copé, 2010; Iriarte esses pressupostos foram revisados: Bernardini
et al. 2013). Tais sítios parecem se situar nos (2004) propõe, no caso Hopewell, que a peque-
limites dos territórios. Haveria paralelos para na distância entre os monumentos e a escala
tal disposição da arquitetura ritual em relação dos mesmos implicariam a construção e uso
aos assentamentos? de mais de um monumento para cada sítio de
habitação, e no compartilhamento dos mes-
mos monumentos por habitantes de mais de
Relações espaciais entre os centros cerimo- um assentamento – o que equivale a situar os
niais e os assentamentos sítios cerimoniais nas fronteiras dos territórios,
e não em seus centros. Precisamente o mesmo
Renfrew (1973) propõe serem os mo- é notado na Europa Ocidental durante a Alta
numentos funerários do Neolítico britânico Idade Média, com monumentos funerários
uma expressão de comportamento territorial, localizados nas fronteiras de unidades políticas
com cada monumento ocupando o centro de emergentes, como o Reino Franco (Pearson
um território. O mesmo modelo foi sugerido 1999: 134-135).

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Jonas Gregorio de Souza

Conclusão naria como uma unidade política autônoma,


possivelmente interagindo com as demais
É possível propor que os territórios Jê nos centros cerimoniais localizados em suas
meridionais estariam estruturados a partir fronteiras. A interação entre unidades sociopo-
de (1) conjuntos densos de casas subterrâneas líticas autônomas e próximas é o fenômeno de-
que funcionariam como lugares centrais, com nominado peer polity interaction em um estudo
estruturas para estocagem, em um raio de 28 clássico de Renfrew (1986). Essas interações
km ou (meio dia de caminhada) por onde es- podem incluir a “emulação competitiva”, que
tariam dispersos (2) conjuntos com poucas casas costuma envolver a competição pela realiza-
subterrâneas e casas isoladas, além de (3) aterros ção de rituais de comensalidade conspícua e a
anelares de pequenas dimensões com montícu- construção de arquitetura monumental, com
los funerários servindo de cemitérios para os cada polity tentando superar as demais. É possí-
conjuntos de casas subterrâneas vizinhos e (4) vel que esse tipo de interação tenha resultado
aterros anelares de grandes dimensões servindo na disseminação da mesma linguagem arquite-
como centros cerimoniais nas fronteiras destes tônica para os centros cerimoniais por grande
territórios. Cada um desses territórios funcio- parte do planalto meridional brasileiro.

SOUZA, J.G. Southern Jê ceremonial centres and settlement systems. Revista do Mu-
seu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 49-55, 2015.

Abstract: In this paper I examine the spatial relationships between cere-


monial and domestic Southern Jê sites. I propose that funerary sites (mounds
surrounded by small enclosures) are located in the immediate proximity of
habitation sites, whereas regional ceremonial centres (enclosures with more
than 50 m of diameter) are located at the borders of territorial units. The
last would possibly have served the aggregation of distinct social and political
units to perform rituals. I also suggest that these territories were organised
in a hierarchical pattern, whose epicentres were regularly spaced dense sites,
surrounded by satellite sites with a small number of habitation structures.

Keywords: Settlement system – Southern Jê – Complex societies.

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O músico na iconografia da cerâmica ritual Mochica do Período
Médio: Uma relação entre instrumentos sonoros e papéis sociais

Daniela La Chioma Silvestre Villalva*

LA CHIOMA, D.S.V. O músico na iconografia da cerâmica ritual Mochica do Período


Médio: Uma relação entre instrumentos sonoros e papéis sociais. Revista do Museu
de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 57-63, 2015.

Resumo: Pretende-se discutir como personagens que tocam instrumentos


sonoros na iconografia da cerâmica ritual Mochica se relacionam, por meio de
seus atributos e características, com outros personagens importantes da icono-
grafia, encontrados, por sua vez, em enterramentos escavados nas últimas três
décadas e que concentram poder político-religioso. Estes dados se inserem
cronologicamente no período conhecido como Mochica Médio, marcado
pela ascensão das elites dos vales mochicas do sul, contexto em que surgem,
na iconografia da cerâmica ritual, muitos músicos portando atributos destes
indivíduos de elevado status social.

Palavras-chave: Moche – Música – Cerâmica ritual – Iconografia.

Introdução e orientações teóricas em razão tanto de seus


atributos estilísticos quanto de sua sofisticada

O s Mochicas ocuparam a costa norte


peruana e formaram o maior grupo
cultural socialmente organizado da região
tecnologia de produção, mas principalmente de-
vido à sua iconografia figurativa e extremamente
informativa, repleta de personagens humanos e
andina durante o período Intermediário Inicial1. sobrenaturais envolvidos em atividades das mais
As ocorrências arqueológicas associadas a esta diversificadas. Estas características proporcio-
tradição situam-se, aproximadamente, entre nam à arte Mochica um apelo estético inques-
100 a.C e 600 d.C. tionável, que, juntamente à enorme quantidade
A cerâmica e a metalurgia ocuparam papel de artefatos disponíveis para investigação, levou
de destaque na produção material Mochica, à criação de um campo de estudos fértil e uma
tendo estes artefatos se convertido em objeto de abundante produção bibliográfica a respeito de
estudo para um grande grupo de estudiosos de suas temáticas iconográficas.
diversas nacionalidades, campos disciplinares

Produção iconográfica e poder político-reli-


gioso na sociedade Mochica
(*) Doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da
USP e bolsista FAPESP.
(1) De acordo com a terminologia de John Rowe A produção artefactual e a arte Mochica
(Roweapud Joffré, 2005) estiveram vinculadas a grupos específicos de

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LA CHIOMA, D.S.V. O músico na iconografia da cerâmica ritual Mochica do Período Médio: Uma relação entre instrumentos
sonoros e papéis sociais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 57-63, 2015.

poder, os quais configuravam a elite político- O Período Mochica Médio


-religiosa, em cada um dos vales da costa
norte peruana no período Intermediário De acordo com os estudos mais recentes
Inicial, (Quilter, 2008: 214; Jackson, 2008: (Billman, 2010: 181) entre os anos 200 e 400
133; Benson, 2012: 10). Esta arte estava d.C ocorreu uma série de transformações sociais
presente nos murais policromos dos grandes que alteraram profundamente a vida dos habitantes
centros de poder, como as Huacas del Sol y de do Vale de Moche. Neste período se construíram
la Luna, Cao Viejo e Pañamarca, caracteriza- os grandes centros de poder, como as grandes
dos por uma arquitetura monumentalizada. A huacas dos vales de Moche e Chicama, estrutu-
iconografia da cerâmica ritual, encontrada em ras arquitetônicas muito diferentes das primei-
centros de poder e associada a enterramentos ras huacas da região. Enquanto as huacas mais
de indivíduos de alto status, apresenta uma antigas não comportavam, por exemplo, gran-
série de personagens, tanto humanos quanto des grupos de indivíduos, a Huaca del Sol, bem
sobrenaturais, participando de intrincadas como a Huaca de la Luna e a Huaca Cao Viejo,
narrativas. foram construídas com grandes pátios, permi-
Tais temáticas iconográficas estiveram subor- tindo a concentração de milhares de pessoas
dinadas, neste período, a rígidas normas de com- (Billman, 2010: 186). A iconografia também
posição fundamentadas na cosmovisão e ditadas mudou: enquanto as huacas do período Mochi-
por estas elites. A influência política das autorida- ca Inicial apresentavam murais com motivos
des teria certa propensão a empregar os conheci- mais abstratos ou geométricos, os das novas
mentos cosmológicos comuns à sociedade para a huacas apresentavam divindades recorrentes na
conservação de linhagens específicas em posições iconografia dos vasos rituais, assim como grupos
de chefia, bem como a ditar os rumos da produção de prisioneiros com cordas amarradas ao pesco-
agrícola, arquitetônica e artefactual da sociedade ço, dançarinos e narrativas visuais complexas
e alterar a distribuição de bens aos indivíduos. A (ibid.). A construção daqueles edifícios exigiu,
arte configurava uma forma de comunicação e sem dúvida alguma, um significativo aumento
constituía um dos alicerces do poder que, longe na mobilização da força de trabalho.
de ser unicamente temporal, estava integrado aos Ainda segundo Billman (ibid.), as grandes
cultos e seus oficiantes. transformações deste período, visíveis em uma
O termo de Moseley, corporate styles, variedade de registros arqueológicos2, indicam
traduz com propriedade esta dinâmica, pois se uma alteração nas relações entre os habitantes
refere a estilos de arte produzidos dentro de do vale e as elites soberanas, bem como a as-
um contexto, se não estatal, ao menos com censão de um grupo específico ao poder, levan-
condições ideais para experiências políticas do à formação de uma organização política que,
comparáveis a estados e confederações. Essa posteriormente, se expandiu por todos os vales
arte era produzida com fins políticos e reli- ao sul de Jequetepeque, denominada por alguns
giosos, com um forte controle do trabalho especialistas o “Estado Mochica-Sul” (Castillo
dos artesãos por parte das elites (Silverman & Donnan, 1994). As evidências arqueológicas
& Proulx, 2002). Moseley’s (1992: 73-74) também sugerem que, a partir daquele período,
formulation of corporate styles is particularly tornava-se mais acirrado o controle dos câno-
relevant to the material culture approach. Moseley
(1992: 73) argues that corporate styles were the
outcome of political and religious organizations
(2) Billman baseia suas inferências na análise de diferentes
that supported artisans, comissiones their work, tipos de registro arqueológico: a utilização dos espaços
controlled distribution, and dictated aesthetic públicos e da performance ritual, as práticas mortuárias
canons and iconography. His conceptualization of com base em dados recolhidos em cemitérios, rituais
state art can be expanded to encompass art that domésticos com base em dados recolhidos em sítios de
ocupação doméstica, transformações visíveis na produção
was produced in complex but non-state contexts cerâmica do período e a transformação no sistema de
(Silverman & Isbell, 2002: 11). irrigação.

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Daniela La Chioma Silvestre Villalva

nes da produção artefatual e, possivelmente, elaborado com penachos e com um aplique


sobre as práticas rituais (Billman: 2010: 198). frontal, além de uma capa amarrada no
No auge do período mencionado por pescoço (fig. 1). Este personagem participa de
Billman (200 a 450 d.C), conhecido como um dos temas mais estudados da iconografia
“Mochica Médio”, figuras de poder, sejam elas Mochica, o Tema de Apresentação da Taça
pertencentes ao mundo natural ou sobrenatural (Donnan, 1978).
assumem maior destaque na iconografia dos va- Como se observa na imagem, as figu-
sos rituais e dos centros cerimoniais. Em geral, ras de status elevado representadas podem
elas aparecem paramentadas com uma série de ser identificadas na iconografia a partir de
atributos que, hoje, nos permitem identificar uma composição de determinados elemen-
suas respectivas posições nas narrativas icono- tos iconográficos ou atributos de poder, na
gráficas. configuração de seus toucados, capas, objetos
que portam, como a taça – artefato que foi
encontrado na tumba do sacerdote que a
As representações de músicos na cerâmica apresenta ao Senhor de Sipán, nas escavações
ritual Mochica no Período Médio da Huaca Rajada – bem como elementos que
lhes conferem uma identidade “supranatural”
Dentre a diversidade de temáticas ico- como as presas. (Makowski, 2000:279, Alva
nográficas que compõem a cerâmica ritual 2006:27, Alva-Meneses 2006:148). Os vários
Mochica no Período Médio, estão representa- elementos dotam os seres com qualidades e
dos os músicos, que podem constituir tanto os poderes que estão presentes em divindades
protagonistas das cenas apresentadas quanto conhecidas do repertório iconográfico Mo-
personagens secundários, tocando seus instru- chica e bastante discutidas na bibliografia
mentos sonoros ao redor de personagens de alto especializada (Donnan, 1978, Donnan & Mc
status, paramentados com atributos de poder Clelland, 1999; Castillo, 2000; Golte, 1994,
político-religioso. 2009; Makowski, 1994, 1996, 2000; Bour-
Há uma coerência de atributos entre get, 2006; Jackson, 2008), como a Divindade
grupos de músicos representados na icono- Intermediadora, o Ajudante Iguana, o Guerreiro
grafia Mochica desta época, de acordo com a Coruja etc. Neste sentido, divindades com-
categoria de instrumento sonoro que tocam. A partilham seus atributos e poderes mágicos
constatação destes grupos nos levou à hipótese com seres humanos de posição hierárquica
de que havia uma relação importante entre os importante que comandam os rituais públicos
músicos e as elites de poder político religioso da encenados nas huacas, pois os eventos cerimo-
região Mochica. niais deveriam estar atrelados a uma narrativa
Partimos, para esta análise, de três pre- mítica que sustentasse e legitimasse o poder
missas: dessas elites (De Marrais et.al., 1996: 17):
1. Há uma coerência interna de atributos Nas cerimônias Moche cada segmento da
entre os tipos de músicos, o que possibilita sociedade detinha um papel que refletia sua posição
formar grupos; no panteão Moche de divindades e seres sobrenatu-
2. Há uma relação entre os atributos e as rais. Apenas elites de alto status poderiam assumir
elites de poder do período; os papéis centrais, os quais legitimavam seus privi-
3. Há uma relação entre a iconografia e a légios e posição na sociedade (ibid.).
morfologia dos vasos (com base na premissa de Ao longo das últimas três décadas, a arqueo-
Golte, 2009). logia Mochica tem encontrado cada vez mais
Por exemplo, o personagem conheci- evidências da relação intrínseca entre os rituais
do como Senhor Noturno (Segundo Arcuri, encenados por essas elites e as representações
comunicação pessoal) tem como atributos iconográficas desses personagens. Os indivíduos
principais a camisa de placas quadradas com representados na iconografia dos vasos rituais,
barra de pingentes triangulares e o toucado como exemplificado na imagem anterior, têm

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LA CHIOMA, D.S.V. O músico na iconografia da cerâmica ritual Mochica do Período Médio: Uma relação entre instrumentos
sonoros e papéis sociais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 57-63, 2015.

sido paulatinamente encontrados em contex- fig. 2 encontramos associações plenas, em nível


tos de escavação, exatamente com a mesma de atributos iconográficos, com o personagem
associação de atributos de poder e as mesmas assinalado na fig. 1, identificado como o Senhor
indumentárias. São os casos dos enterramentos Noturno. Os elementos que os caracterizam são
de Sipán, San Jose de Moro, El Castillo, Pampa a túnica com motivos quadriculados, o toucado
Grande, Huaca Cao Viejo etc. (Donnan, 2010: semicircular com duas hastes e as orelheiras
47-66, Arcuri, 2012). circulares. Neste sentido, os músicos da fig.
Estas associações levaram Makowski 1 estão associados de alguma forma a este
(1996: 17) a usar o termo “personalidades personagem de poder e à sua função político-
iconográficas”, referindo-se a personagens -religiosa oficial.
específicos identificáveis na iconografia por É importante relacionar os personagens
uma associação muito coerente entre atribu- da iconografia com os indivíduos encontra-
tos, visível também nos indivíduos enterra- dos em contextos de escavação. A fig. 3, por
dos. Esses personagens podem estar represen- exemplo, mostra os fragmentos de metal que
tados em forma escultórica em vasos de alça conformavam a túnica do Senhor Noturno,
estribo, cântaros e instrumentos musicais, encontrada com um indivíduo que apresen-
ou pintados em narrativas muito complexas tava exatamente os mesmos atributos do per-
ao redor de bojos de vasos de alça estribo ou sonagem do Tema de Apresentação na tumba
alça lateral. 14 de Sipán, e que foi encontrado com um
É precisamente no período Médio que as par de antaras (fig.4), mesmo instrumento
representações de músicos tornam-se recorren- tocado pelos “Senhores Noturnos Músicos”
tes na cerâmica ritual. No caso dos músicos da da fig. 1.

Fig. 1. Cena da iconografia Mochica do Período Médio conhecida como O Tema de Apresentação da Taça
(Makowski, 2000).

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Daniela La Chioma Silvestre Villalva

Fig. 2. Vaso de alça estribo em cerâmica com pintura em linha fina em redor do bojo representando
antaristas e trombeteiros com atributos de poder. Mochica. Fowler Museum of Cultural History, Los
Angeles. Foto do vaso: Donnan, 1999: 53. Reprodução por Donna McClelland: Alva & Donnan,
1993: 18.

Fig.3. Fragmentos das placas de metal que conforma- Fig.4. Vitrine do Museu de Sítio de Sipán mostrando
vam a túnica do personagem conhecido como Senhor atributos encontrados com o personagem denominado
Noturno. Museu de Sítio Sipán, Lambayeque. Foto “Senhor Noturno”, entre eles instrumentos musicais:
da autora. antaras e pututos. Foto da autora.

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LA CHIOMA, D.S.V. O músico na iconografia da cerâmica ritual Mochica do Período Médio: Uma relação entre instrumentos
sonoros e papéis sociais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 57-63, 2015.

Comentário final diadora”3, os “Chocalheiros Xamãs”, as “Aves


Marinhas Percussionistas” etc.
Expusemos neste breve artigo apenas um Uma das grandes lacunas nos estudos sobre
exemplo da clara associação entre um perso- a música no Peru Pré-Colombiano é exata-
nagem de elevado status Mochica e músicos mente o papel dos responsáveis por manter e
que reproduzem seus atributos à exatidão. Há, tocar os instrumentos entre as elites de poder
entretanto, uma série de outros exemplos que político-religioso. A partir dos exemplos citados
poderiam ser citados, de personagens relevantes neste artigo podemos supor que músicos não
que aparecem nas mais variadas temáticas ico- têm, no termo de Makowski, “personalidades
nográficas, oficiando rituais e cujas associações iconográficas” exclusivas, mas estão sempre as-
de vestimentas e atributos aparecem em outros sociados a outras funções sociais já conhecidas
personagens que tocam instrumentos sonoros. e estudadas na iconografia Mochica. Podem,
É o caso dos personagens conhecidos como o inclusive, ser representantes de linhagens bem
“Tomador de Coca”, a “Divindade Interme- estabelecidas no poder.

LA CHIOMA, D.S.V. Iconographic representations of musicians in the Middle Moche


period: an interelationship between sound instruments and social roles. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 57-63, 2015.

Abstract: This paper intends to present and discuss how the characters
portrayed playing sound instruments in Moche ritual ceramic’s iconography
show attributes related to many others important individuals found in the ico-
nography and in burials excavated in the last three decades. These attributes
and characteristics would identify these “musicians” as specific individuals who
concentrate political and religious power. Our data is chronologically inserted
in the Middle Moche period, known for the ascension of southern valley’s
elites. In this context many musicians appear broadly in the ritual ceramic’s
iconography carrying the exact same attributes of high status individuals.

Keywords: Moche – Music – Ritual ceramics – Iconography.

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Daniela La Chioma Silvestre Villalva

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14272 book.indb 64 26/08/2015 10:59:26
Atributos e elementos de paramentação como indicadores
arqueológicos nas representações de divindades em pilares
e colunas de Júpiter na Gália-Romana

Tatiana Bina*

BINA. T. Atributos e elementos de paramentação como indicadores arqueológicos nas


representações de divindades em pilares e colunas de Júpiter na Gália-Romana. Re-
vista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 65-70, 2015.

Resumo: Arqueólogos que trabalham com conjuntos de vestígios icono-


gráficos com evidências contextuais limitadas, frequentemente precisam lidar
com atributos e elementos de paramentação, fazendo-se necessário ir além
da análise do discurso narrativo para utiliza-los como evidências de datação,
espacialidade e identificação. Contudo, a gama de possibilidades interpretati-
vas pode ser ampliada para status, elementos culturais, entre outras. Preten-
demos discutir as contribuições da bibliografia contemporânea para o estudo
do tema, identificado constantemente com uma abordagem arqueológica
histórico-cultural. Para tanto, utilizaremos como ponto de partida as represen-
tações de divindades em pilares e colunas de Júpiter na Gália-Romana, objeto
de estudo do nosso doutorado.

Palavras-chave: Iconografia – Religião – Império Romano

Introdução Assim, nosso objetivo era apresentar e


debater a questão: serviriam os atributos e

O presente artigo é fruto da apresen-


tação realizada na III Semana de
Arqueologia, e nos atemos ao objetivo primeiro
elementos de paramentação como indicadores
arqueológicos? A partir dessa primeira inter-
rogação, as subsequentes são múltiplas. Em
deste evento tentando propor uma discussão termos teóricos, no que tange a nossa aborda-
que fosse pertinente a colegas que estudam a gem, o que efetivamente seriam os atributos
relação entre a arqueologia e os estudos icono- e elementos de paramentação, bem como os
gráficos em outros recortes espaço-temporais. indicadores arqueológicos?
Procuramos abordar questões e problemas A questão vem no esteio de um problema
comuns nesse tipo de pesquisa. Salientamos bastante complexo: como tratar os objetos
aqui as dificuldades, esforços e propostas para remanescentes do passado arqueologicamente
esse tipo de trabalho na atualidade. quando eles não têm um contexto bem definido.
O problema dos objetos sem contexto, sejam
monumentos reconfigurados, sejam coleções
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de
São Paulo. Doutoranda, bolsista CAPES. de museus, tem sido deixado de lado e, assim,
tatiana.bina@gmail.com muitos dos nossos conhecimentos permanecem

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BINA. T. Atributos e elementos de paramentação como indicadores arqueológicos nas representações de divindades em pilares
e colunas de Júpiter na Gália-Romana. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 65-70, 2015.

estagnados, na medida em que não se estabele- os problemas dessa abordagem se destaca a


cem propostas para esse campo de estudo. consideração da imagem como algo equivalente
Mais do que qualquer abordagem interpretati- ao texto escrito, o que como sabemos traz em
va, a arqueologia atual tem uma única grande ob- si uma anulação de propriedades, capacidades
sessão: o contexto arqueológico. Mesmo o survey comunicativas e representativas únicas.
e a fotografia aérea que poderiam indicar novas Assim como outras comparações necessárias,
possibilidades de pesquisas têm se mantido grosso entre os objetos estudados, é necessário identifi-
modo como técnicas de prospecção. O enfoque car a imagem representada, se é possível verificar
contextual é legítimo e facilmente compreendido. alguma relação entre as imagens representadas
As atuais técnicas de escavação e registro se mos- nas quatro faces, bem como as diferenças e
tram cada vez mais detalhadas, um exemplo é a semelhanças estilísticas. O que se procura saber
nova possibilidade da fotografia em três dimensões através dessa análise é quem são as divindades
das camadas arqueológicas. Também em termos representadas, qual a sua datação, se há diferen-
teóricos houve avanços notáveis na percepção de ças e semelhanças regionais em diversos níveis
que o contexto é uma composição e deve, por- e como se dá a organização e o estabelecimento
tanto, ser compreendido de maneira ampla. Ou dos monumentos em diferentes locais.
seja, o contexto pode e deve ser estendido tanto Perceber se há uma composição narrativa
espacialmente quanto socialmente. O contexto – que remeteria a uma história, ou episódio, ou
que, dependendo de como foi estabelecido, pode a um conjunto certo e recorrente de divindades
fornecer indícios não só da função do objeto, mas – nos monumentos seria incorrer em uma das
de seu uso, o qual pode variar, dependendo das questões essenciais hoje nos estudos da religiosida-
condições culturais, sociais e identitárias. de romana: a existência e o funcionamento de um
Na arqueologia romana esse tipo de refle- panteão, se não geral, pelo menos local. A questão
xão foi bastante propagada pela historiografia se coloca como um problema, na medida em que
inglesa na década de 1990 e nos anos 2000 a ideia de panteão seria helênica e não romana, as
(Webster 1996, Green 1998 etc.) e, por mais supostas divindades greco-romanas não encontra-
que hoje não se trate de uma novidade, existe vam na antiguidade a similitude que se quis atri-
um lapso entre a produção dessas reflexões e buir a posteriori, mas como é bem sabido, entre o
sua incorporação na academia. fim da República e o começo do Império Romano,
a literatura e a cultura helênica foram apreendidas
pelos romanos em proporções que o contato que
Análise imagética já existia entre os romanos e as cidades helênicas
nunca tinha antes deixado antever. A dificuldade
Nossa pesquisa se organiza a partir de duas é mensurar qual o impacto de tal fenômeno na re-
vertentes de análise. A primeira através de ligiosidade romana, e mais ainda na religiosidade
análises de contexto em suas múltiplas escalas propagada pelo império, recebida pelas províncias
espaciais; em segundo lugar, na análise imagé- e articulada com as religiosidades locais.
tica, outra abordagem que só aparentemente O conceito de panteão, a princípio, não
se limitaria à História da Arte. Os estudos faria parte dos preceitos religiosos romanos nem
imagéticos dentro da Arqueologia têm sofri- gauleses. A religiosidade primordial romana
do modificações na sua maneira de abordar era composta de uma série de entidades com
e trabalhar com a questão. Partindo de uma fins precisos e limitados, que não se organiza-
perspectiva histórico-culturalista, passando pela vam dentro de uma estrutura “familiar”. Pos-
influência da antropologia e do estruturalismo teriormente, quando os romanos começam a
entre as décadas de 1960 e 1970, pela semiótica representar a figura humana, são as narrativas
na década de 1980, ainda as pesquisas cogniti- históricas que irão constituir a mitologia romana.
vas da arqueologia pós-processualista, hoje boa Os gauleses, antes do contato com o mediterrâ-
parte das pesquisas se encontra ligada à ideia neo, também não representariam seus deuses.
foucoultiana da imagem como discurso. Entre Aparentemente, cada grupo, conhecido como

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Tatiana Bina

tribo, teria seu grupo de divindades, mas, ao que Entre os problemas principais levantados
se sabe, eles também não teriam o mesmo tipo de estão: a) Esquemas iconográficos femininos
relação que a do panteão helênico. limitados na arte romana. Isso significa que há
Os pilares e “colunas de Júpiter”, o tema de um grupo muito limitado de elementos que
pesquisa do nosso doutorado, são constituídos podem ser atribudos para várias divindades
tanto num caso quanto no outro, por blocos femininas, como, por exemplo, a cornucópia.
prismáticos (Fig. 1) sobrepostos, contendo em As vestimentas raramente revelam diferenças
cada um dos seus lados uma ou duas divinda- significativas e muitas vezes estão mais associa-
des. A representação é simples: é uma figura das à moda do que a personagens. A exceção é
humana “de pé”, vista frontalmente, cujos rostos a representação de Minerva, guerreira, munida
não têm expressões. A suposição de que essas de capacete.; b)Atributos supostamente étnicos
imagens seriam divindades ocorre por conta de podem servir para mais de uma situação, como
uns poucos casos – tanto em Germânia, como na os torques podem ser usados pelos celtas,
Gália, onde há inscrições com seus nomes e da sacerdotes do culto de Magna Mater ou jovens
associação dessas figuras humanas com atributos aristocratas que participavam da Iusus Troiae; c)
constantemente associados a figuras divinas. a importância de Júpiter e sua posição dentro
As especulações em torno dessas repre- desse panteão: já que estes monumentos seriam
sentações e tentativas de interpretação se dão dedicados a Júpiter, o que se acreditava por
através dos esforços de compreensão dessas conta das inscrições I.O.M. presentes, sobretu-
representações aparentemente tão simples, do, nos exemplares germânicos e das estátuas
buscando a atribuição correta das divindades, de Júpiter que coroariam o monumento. Isso
por meio das vestimentas e paramentação, da poderia indicar uma construção de um pan-
datação e da indagação sobre como se daria a teão, com a figura de Júpiter em uma posição
visualização desse monumento a partir das qua- central. Ou seja, todas as divindades estavam
tro faces, procurando compreender se haveria subordinadas a ele e se ou não essas divindades
alguma possibilidade de menção a um episódio galo-romanas ou gaulesas associadas ocupam
narrativo antigo, particularidades dos atribu- um lugar menor (Van Andriga 2001); e d) há
tos na religião romana, diferenças regionais, a também uma série de elementos iconográficos
partir da distribuição espacial. que remetem a outras esferas, como, por exem-

Fig. 1. Blocos pertencentes ao pilar dos Nautes, que está no Museu Cluny, em Paris. Este é
o exemplar mais famoso pelo seu estado de conservação, por ter divindades gaulesas entre
as representadas e porque deveria constituir um único monumento. Depois de anos sendo
apresentado no museu com os blocos sobrepostos, hoje cada um pode ser visto separadamente,
dada a dificuldade de saber qual seria a ordem correta de “montagem”. Acervo pessoal – 2012.

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BINA. T. Atributos e elementos de paramentação como indicadores arqueológicos nas representações de divindades em pilares
e colunas de Júpiter na Gália-Romana. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 65-70, 2015.

plo, a iconografia triunfal, que contém sempre dação medieval, outros em poços, por exemplo.
elementos de tempo e perpetuidade, como Assim, como entender a espacialidade desses
as quatro estações, sol e lua, alfa e ômega no blocos pertencentes a monumentos e diferentes
começo do cristianismo, o próprio imperador, do resto da Gália? Em primeiro lugar, é necessá-
anéis do zodíaco, personificação do tempo etc. rio dizer que mesmo que não haja uma precisão
Como citado acima, as informações contex- exata do local de uso, os blocos eram locais:
tuais são bastante limitadas e só existem em feitos de granito, um material menos nobre e
alguns casos. Isso porque em grande parte dos facilmente encontrado na Gália e na Germânia
casos estamos constantemente lidando com e constantemente com sinais claros de não
um contexto secundário, uma parte dos blocos terem sido esculpidos por ateliês importantes ou
foi reutilizado em contextos funerários, outros muito especializados, dada a sua rudimentarida-
foram encontrados embaixo de igrejas de fun- de (Fig. 2 e 3).

Fig. 2. Exemplo comparativo de Mercúrio, mostrando que os atributos


costumeiramente associados ao deus – o caduceu, a bolsa e o pétaso – po-
dem ser encontrados em blocos de várias formas e qualidades de trabalho.
ESPÉRANDIEU, É. 1907-1981.

Fig. 3. Em oposição, a figura de Júpiter é muito mais complexa e às


vezes sua representação é reconhecida justamente pela associação
com divindades gaulesas, como, por exemplo, Júpiter com a roda, um
elemento comum a Taranis. ESPÉRANDIEU, É. 1907-1981.

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Tatiana Bina

É sabido que até a ocorrência deste tipo de tatio romana, ou seja, a compreensão de fenôme-
objeto é limitada a leste da Gália. A notícia de nos, representações e práticas estrangeiras aos
que antecipamos em nossa pesquisa é que talvez romanos por meio de seus critérios e concepções.
essa regionalização foi mais ampla do que se Esse viés de apreensão e compreensão do estran-
pensava antes. Graças às recentes descobertas geiro é própria do período e se encontra em uma
arqueológicas foram encontrados blocos de fora ampla literatura latina, sendo a mais famosa o
destes limites, em alguns casos com diferenças trecho de Júlio César da Guerra Gálica (César. De
estilísticas, mas, sobretudo, quanto mais longe Bello Gallico VI, XVII), o qual apresenta em curta
das Germânias mais diversos são os deuses passagem os deuses gauleses sob nomes romanos.
representados. Só este fato, sem considerar o Em se tratando de iconográfica isso signifi-
contexto específico das peças, traz um grande caria que há uma maneira “romana” de enxer-
problema de interpretação para aqueles que gar as representações gaulesas, mas também o
consideram esses blocos como um fenômeno contrário. Uma interpretatio gálica já foi sugeri-
particular da Gália Bélgica e Germânias, com da há bastante tempo (Benoit,Fernand. Art et
suas teorias posteriores de um substrato comum dieux de la Gaule. Arthaud, 1969: 91).
religioso e menos permeável, ou como dedica- A partir dessas reflexões, e considerando
tória de soldados nas regiões fronteiriças. as dificuldades e implicações, destacamos como
Acreditamos que a extensão da área dos nossos objetivos avaliar as integrações culturais e
vestígios é maior do que a prevista anterior- tentar perceber se há evidencias de um substrato
mente, e isso faz com que este fenômeno não se religioso local, na medida em que o fenômeno é
limite apenas a uma região entre Gália Bélgica circunscrito espacialmente, levando em conta que,
e Germânias – mesmo que ainda tenha a maior tão importante quanto, a forma desses monumen-
concentração – , mas em toda a Gália , o que tos é particular e incomum no mundo romano.
altera significativamente a forma como tais Efetivamente, a iconografia aqui nesse caso
fenômenos haviam sido estudados e sua relação é um meio de buscar compreender melhor o
com um grupo de supostos monumentos sobre- funcionamento religioso-político de uma popu-
viventes como um vestígio de crenças anterio- lação conquistada, em sua relação de alteridade
res; no entanto é impossível negar a existência a qual compõe o quadro histórico e arqueológi-
de tais monumentos recorrentemente como co do Império Romano. Procuramos apresentar
pertencentes a gauleses e germânicos. algumas das questões da análise que propomos
Os estudos de arqueologia provincial romana realizar, evidenciando os desafios de lidar com
lidam com um conceito fundamental: a Interpre- um mundo tão complexo.

BINA. T. Attributes and paramentation elements as archaeological indicators in the


representations of deities on pillars and columns in Jupiter Gaul-Roman. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 65-70, 2015.

Abstract: Archaeologists, who work with sets of iconographic traces with


limited contextual evidence, often need to deal with attributes elements and pa-
ramentation. Making it necessary to go beyond the analysis of narrative discourse
to use use as dating evidence, and spatiality identification. However, the range of
interpretive possibilities can be enlarged to status, cultural factors, among others.
We intend to discuss this bibliography contributions for the contemporary study
of the subject, constantly identified with an archaeological cultural-historical
approach. To this end, will use as a starting point representations of deities pillars
and “columns in Gaul-Roman Jupiter, the object of study our doctorate.

Keywords: Iconography – Religion – Roman Empire

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BINA. T. Atributos e elementos de paramentação como indicadores arqueológicos nas representações de divindades em pilares
e colunas de Júpiter na Gália-Romana. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 65-70, 2015.

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A subcoleção Laming-Emperaire do lítico Xetá:
Caracterização do sistema tecnológico

Fabiana Terhaag Merencio*

MERENCIO, F.T. A subcoleção Laming Emperaire do lítico Xetá: Caracterização do


sistema tecnológico. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suple-
mento 20: 71-76, 2015.

Resumo: Entre 1956 e 1961 o Setor de Antropologia da Universidade Federal


do Paraná (UFPR) coletou informações sobre a cultura material dos índios Xetás,
localizados na Serra dos Dourados, noroeste do estado do Paraná, resultando na
coleção do lítico Xetá depositada atualmente no Museu de Arqueologia e Etno-
logia (MAE-UFPR), com 160 artefatos lascados e polidos. Este artigo apresenta
os resultados preliminares do sistema tecnológico identificado para os artefatos
coletados por Annette Laming-Emperaire durante a expedição realizada em 1961.
Os tipos identificados, como choppers e chopping-tools, também podem ser associa-
dos a outras tradições arqueológicas definidas para a região sul do Brasil.

Palavras-chave: Lítico Xetá – Sistema Tecnológico – Sequência Reducional.

Introdução distribuídos em pequenos núcleos familiares


(Fernandes, 1959; Laming-Emperaire et al.,

O s Xetás foram localizados oficialmente


em 1954 na região da Serra dos Dou-
rados, no noroeste do Paraná. No momento do
1978; Silva, 1998). Em estudos recentes, o
Xetá foi associado ao sub-ramo I da família
Tupi-Guarani, intimamente ligado ao Mbyá
contato, os Xetás foram apontados como um (Vasconcelos, 2008). Foram realizadas diversas
grupo de caçadores-coletores com alta mobili- expedições de pesquisa e estudo entre os anos
dade e ocupavam uma área que é comumente de 1956 e 1961 pela equipe do professor José
associada aos Guaranis, entre os rios do Veado, Loureiro Fernandes da Secção de Antropolo-
da Anta, Indovaí, Tiradentes e os córregos 215 gia da Universidade Federal do Paraná, com o
e Maravilha, na margem esquerda do rio Ivaí intuito de recolher informações da cultura ma-
(Silva, 1998:120). terial, ritos, informações linguísticas e registro
Estima-se que a população Xetá era de de imagens e vídeos dos Xetás.
aproximadamente de 100 a 300 indivíduos,

A coleção do lítico Xetá do MAE-UFPR


(*) Mestranda do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da Universidade Federal do Paraná O material coletado nestas expedições
(PPGAS-UFPR), bolsista CAPES, pesquisadora associada do
Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE/UFPR). resultou na coleção do lítico Xetá, que atual-
< f.terhaag@gmail.com> mente está depositada na Reserva Técnica do

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MERENCIO, F.T. A subcoleção Laming Emperaire do lítico Xetá: Caracterização do sistema tecnológico. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia,São Paulo, Suplemento 20: 71-76, 2015.

MAE-UFPR, sendo composta por 160 peças. A tipológica, constituída em quatro séries: seixos
partir das informações do contexto de coleta, é sem marcas de uso; seixos com marcas de uso;
possível subdividir a coleção em dois subgrupos: pedra lascada (lascas, objetos de bloco, núcleos,
os artefatos coletados por Annete Laming- resíduos de lascamento, fragmentos e seixos
-Emperaire e os coletados por José Loureiro lascados) e pedra polida (Laming-Emperaire et
Fernandes. al., 1978:44-54).
A falta de informações referentes às coletas A principal crítica a esta metodologia
de José Loureiro, assim como a inexistência de centra-se na impossibilidade de se compreender
um catálogo das peças, dificulta a correlação a natureza da variabilidade das indústrias líticas
direta desse material à presença Xetá, sendo ne- somente a partir das características morfológi-
cessário dados sobre o contexto das coletas. Por cas, sem considerar a dinâmica do processo de
outro lado, a subcoleção de Laming-Emperaire produção lítica, como a aquisição de matéria-
apresenta informações de contexto divulgadas -prima, produção, uso e função, reciclagem e
em uma publicação, onde também consta uma descarte (Fogaça, 2003).
pequena sistematização do catálogo do material Os estudos de tecnologia lítica, denomina-
coletado (Laming-Emperaire et al., 1978). Atra- dos sequência reducional (Shott, 2003), foram
vés desses dados é possível indicar como local impulsionados a partir de conceitos vinculados
de proveniência para o material coletado na à antropologia social, filosofia da ciência e
expedição de 1960, e que constitui a subcoleção pré-história, visando a explicar a evolução da
Laming-Emperaire, o acampamento número 18, tecnologia (Viana, 2005; Sellet, 1999). Leroi-
próximo à Fazenda Santa Rosa (Figura 1). -Gourhan (1985[1965]) difundiu o conceito de
A análise do lítico Xetá realizada por cadeia operatória, apontando que a produção
Laming-Emperaire seguiu uma classificação de instrumentos técnicos é resultado de três

Fig.1. Mapa apresentando localização dos acampamentos Xetás e sítios arqueológicos na região.

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Fabiana Terhaag Merencio

grandes processos: aquisição (matéria-prima), pelos Xetá como mais úteis para o trabalho em
fabricação e consumo. Nos EUA, estudos pau- madeira.
tados na proposta conductal de Collins (1975)
consideram as seguintes etapas: aquisição de
matéria-prima, redução inicial, modificação O problema das tradições líticas no sul
primária e secundária, uso, reciclagem/manu- do Brasil
tenção, e abandono do artefato.
O desenvolvimento de estudos tecnoló- A definição de tradições arqueológicas no
gicos na análise de lítico implica a existência Brasil baseou-se na identificação de artefatos-
de um sistema tecnológico e buscam compre- -guias, análises tipológicas, e correlação entre
ender a organização e funcionamento deste morfologia e função. Quando considerado a defi-
em sociedades pretéritas. Os estudos de estilo nição das tradições “pré-cerâmicas”, o lítico Xetá
tecnológico estão vinculados à percepção de aparece como um complicador, pois a caracteri-
sistema tecnológico estruturalista/idealista, e zação tipológica do material existente (Laming-
há dois pontos centrais: o estilo corresponde -Emperaire et al., 1978) não fornece subsídios
ao modo de se fazer algo, e o estilo corres- claros para sua identificação em campo, já que os
ponde a uma escolha dentre as alternativas tipos descritos, como raspadores, rabotes, chopper
(Hegmon, 1992: 517-518). Assim, a escolha e chopping -tools, também são associados a outras
de determinadas matérias-primas, as técnicas tradições arqueológicas (Figura 2). Os trabalhos
utilizadas, a escolha de determinadas sequên- sobre lítico Xetá focaram ou uma análise tipo-
cias de produção e os resultados obtidos nestas lógica, associando morfologia à funcionalidade,
escolhas, indicado pelas categorias de artefa- ou uma análise técnica com foco nas técnicas
tos, representam os estilos tecnológicos (Dias, utilizadas no lascamento (Laming-Emperaire et
2003: 45). al., 1978; Miller Jr., 1979, 2009).
Sob uma perspectiva de análise tecnológi-
ca, Tom O. Miller Jr. (1979, 2009) descreveu
a técnica de lascamento dos Xetá, a partir Resultados preliminares – Subcoleção
das atividades realizadas pelos seus informan- Laming-Emperaire
tes Kwe e Nheengo, como o “lasqueamento
espatifado”, onde são obtidos fragmentos e Com o objetivo de se fornecer dados
lascas com ângulos abertos (45°-95°), tidos para análises comparativas entre conjuntos

Fig.2. Comparativo de artefatos líticos pré-cerâmico Humaitá e Itararé com lítico Xetá: tipos morfologicamente
semelhantes.

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MERENCIO, F.T. A subcoleção Laming Emperaire do lítico Xetá: Caracterização do sistema tecnológico. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia,São Paulo, Suplemento 20: 71-76, 2015.

líticos Humaitá, Itararé e Guarani, optou-se cional, também há a possibilidade de utilizá-


por combinar abordagens qualitativas (cadeia -los como núcleo para extração de um suporte
operatória) e quantitativas (proposta conduc- que atenda uma determinada atividade (Hay-
tal). Pesquisas recentes apontam que a utili- den et al., 1996).
zação de somente uma abordagem qualitativa Na estratégia de uso, as lascas resultantes
pode mascarar uma variabilidade interna ao se do processo de façonagem dos instrumentos
buscar uma simplificação para construção dos podem ser reincorporadas no sistema tecnológi-
esquemas de redução de cada conjunto. Por co, de acordo com seu potencial de uso, sendo
conseguinte, o emprego combinado de abor- utilizadas diretamente ou com a adição de
dagens quantitativas e qualitativas resulta em retoques. Os instrumentos bifaciais e unifaciais
uma poderosa ferramenta para compreensão são utilizados para cortar e raspar madeira,
da variabilidade de conjuntos líticos (Tryon & enquanto os instrumentos sobre lasca, além do
Potts, 2011). trabalho em madeira, também são utilizados
A subcoleção Laming-Emperaire é compos- para cortar alimentos.
ta por 54 peças, das quais 33 são instrumentos, Com relação à manutenção, instru-
sendo 18 bifaces, 1 uniface, 1 percutor, 10 mentos foram reincorporados no sistema
lascas com marcas de uso e 4 lascas retocadas; tecnológico sem a adição de modificações
somam-se ainda 12 lascas unipolares, 1 núcleo, secundárias, enquanto outros instrumentos
1 detrito e 6 peças sem marcas de uso. receberam reconfiguração da parte preensi-
A figura 3 esboça as etapas do sistema va/receptiva após a quebra. Assim, a recicla-
tecnológico do lítico Xetá. Na aquisição de gem, no sentido de uma nova reconfigura-
matéria-prima predomina o silexito, com 47 ção/adequação, só ocorreria quando uma das
peças (98%), tendo apenas 1 instrumento Unidades Tecno-Funcionais (UTF’s)1 não
em arenito (2%). A proveniência do silexito estivesse apropriada para o uso. No descarte,
é em sua maioria terrestre (rugoso) com 31 a situação é complexa, pois há a reutilização
peças (65,95%). Na região ocupada pelos Xetá de lascas oriundas do processo da façonage
do instrumento, e não há possibilidade de se
predominam arenitos da Formação Caiuá;
afirmar se estas lascas são mantidas sepa-
contudo, devido à ampla escala utilizada em
radamente para um uso futuro, ou se são
levantamentos geológicos, a presença de sílex
descartadas e depois reinseridas no sistema
local não é totalmente excluída. Em mapea-
tecnológico. Todavia, indica-se que muito
mentos geológicos realizados na foz do rio Ivaí,
provavelmente ambas as opções possam ter
notou-se a presença discordante de seixos de
sido empregadas pelos Xetá.
calcedônia e sílex na Formação Caiuá (Santos
et al., 2008).
A estratégia de produção está focada
na obtenção de instrumentos bifaciais. Os
suportes recebem poucas retiradas de façonage,
formando gumes irregulares, convexos e côn-
cavos, e possuem a parte cortical como zona
preensiva/receptiva. Há também instrumentos
bifaciais, com pequenas dimensões e retiradas (1) Um instrumento é formado por três partes: receptiva,
recebe a energia para o funcionamento do objeto,
extensivas, mas que não chegam a configurar
preensiva, permite o instrumento funcionar, e pode se
retoque, e pouca zona cortical. A existência sobrepor a primeira, e transformativa, responsável por
desses instrumentos pode ser justificada pelo alterar outra superfície. Para Boëda (2000) cada uma
potencial de uso que bifaces possuem dentro dessas partes pode ser formada por uma ou mais Unidades
Tecno-Funcionais, que são definidas pela coexistência de
de sociedades com mobilidade alta/média, pois elementos técnicos que proporcionam o funcionamento
além de seu uso como instrumento multifun- sinergético de uma parte do instrumento.

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Fabiana Terhaag Merencio

Fig.3. Organização do sistema tecnológico Xetá.

MERENCIO, F.T. The Laming-Emperaire sub collection of Xetá lithic: Characteriza-


tion of the technological system. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 71-76, 2015.

Abstract: Between 1956 and 1961 the Departament of Anthropology


from the Federal University of Paraná (UFPR) collected informations about
the material culture of the Xetá Indians, located in Serra dos Dourados, nor-
thwest of Paraná state, resulting in the lithic collection from the Xetá curren-
tly deposited at the Museum of Archaeology and Ethnology (MAE-UFPR),
with 160 chipped and polished artifacts. This article presents the preliminary
results about the technological system identified for the artifacts collected by
Annette Laming-Emperaire during the expedition held in 1961. The types
identified, as choppers and chopping-tools, also can be associated with others
archaeological traditions defined for Southern Brazil.

Keywords: Xetá lithic, technological system, reduction sequence.

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76

14272 book.indb 76 26/08/2015 10:59:28


Desconstruindo o que Nunca foi Construído: Pontas Bifaciais
‘Umbu’ do Sul e Sudeste do Brasil

Mercedes Okumura*
Astolfo Araújo**

OKUMURA, M.; ARAÚJO, A. Desconstruindo o que Nunca foi Construído: Pontas


Bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 77-82, 2015.

Resumo: Pontas bifaciais têm sido usadas como fósseis-guia da Tradição


Umbu, presente em parte do sudeste e em todo o sul do Brasil desde 10.000
anos AP. A grande amplitude temporal, o vasto território e a ausência de
estudos sistemáticos das pontas em nível regional são os principais fatores que
sugerem a existência de uma diversidade até então não reconhecida pelos
arqueólogos. Este artigo testa a hipótese de que há diferenças morfológicas
importantes nessas pontas. Análises estatísticas multivariadas foram aplica-
das a quatro medidas tomadas em 654 pontas de oito regiões. Os resultados
mostram fortes afinidades entre os grupos do Rio Grande do Sul e diferenças
importantes entre as pontas de São Paulo e do sul do Brasil.

Palavras-chave: Líticos – Métodos quantitativos – Tradição Umbu

Introdução Uma característica importante das pontas


bifaciais reside no fato de as mesmas se consti-

A rtefatos líticos lascados em formato


de ponta são bastante comuns nas
Américas, sendo denominados genericamente
tuírem em artefatos formais, ou seja, instrumen-
tos cuja manufatura visa à obtenção de uma
forma específica. Arqueólogos têm analisado
“pontas de flecha” ou “pontas de projétil”. Em- pontas bifaciais a partir de abordagens tecnoló-
bora sua função perfurante seja óbvia, podem gicas, experimentais, morfológicas e funcionais.
ser vários os meios pelos quais a perfuração é A enorme diversidade de tamanhos e formas
produzida, daí os sistemas de lança, propulsor das pontas bifaciais no registro arqueológico
de dardos ou arco. Neste artigo, devido à falta
permite testar diversas hipóteses sobre a pre-
de informações suficientes sobre esse assunto,
sença ou a ausência de mudanças na morfologia
designaremos tais artefatos como “pontas bifa-
desses materiais, sendo que tais mudanças
ciais” (Cf. Okumura, submetido).
podem estar ligadas a tempo, função, tecnolo-
gia, fatores demográficos ou culturais (Bettinger
(*) PPGArq, D.A., Museu Nacional, Universidade Federal
& Eerkens 1997). Desse modo, devido à sua
do Rio de Janeiro, mercedes@mn.ufrj.br
(**) Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de grande importância social, econômica, política
São Paulo. astwolfo@usp.br e simbólica, pontas bifaciais seriam veículos

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OKUMURA, M.; ARAÚJO, A. Desconstruindo o que Nunca foi Construído: Pontas Bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do
Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 77-82, 2015.

muito apropriados para carregar informações sítios onde foram observadas pontas bifaciais
sobre grupos e fronteiras (Wiessner 1983). foram associados à Tradição Umbu. Até mesmo
No Brasil, sítios que apresentam pontas os sítios descritos por Miller Jr. (1972) como
bifaciais são comumente associados à Tradi- sendo distintos da Tradição Umbu tiveram o
ção Umbu. Sua criação remonta aos estudos mesmo destino (Prous 1991:154).
desenvolvidos pelo Pronapa, cujos pesquisado- Há dois grandes problemas relativos ao
res tentaram entender a diversidade do registro uso do termo Tradição Umbu, que seriam a
arqueológico através de tipologias e da criação extensa distribuição geográfica dos sítios e o
de tradições e fases arqueológicas. Miller (1967, enorme período abarcado por estes. Ou seja,
1974), enquanto trabalhava na região do Vale a manutenção dessa tradição implicaria em
dos Sinos e do Maquiné, no Rio Grande do grupos humanos espalhados por áreas muito
Sul, criou três fases pré-cerâmicas cujos sítios grandes durante um enorme período. Outro
apresentavam pontas bifaciais: Camuri, Umbu fator complicador seria a escassez de indicado-
e Itapuí. Enquanto a Fase Camuri era caracte- res cronológicos identificados nessa Tradição
rizada por sítios a céu aberto, as fases Umbu e (Schmitz 1987).
Itapuí foram associadas a abrigos rochosos. A Embora não pensemos que o termo “tra-
Fase Umbu seria a mais antiga (6.000 a 4.000 dição Umbu” precise ser totalmente banido,
anos AP) que a Itapuí e predominariam pontas propomos um estudo cuidadoso da morfologia
bifaciais pedunculadas e com corpo triangular, dessas pontas bifaciais a fim de verificar a pre-
assim como pontas lanceoladas. A Fase Ita- sença de importantes variações morfológicas,
puí seria mais recente que a Umbu (4.000 a seja em termos cronológicos ou espaciais.
1.000 anos AP), caracterizada por pontas com Além das coleções particulares de Afonso
pedúnculo bifurcado e corpo, algumas vezes Paseto, Cinira Mülk, Dinan Rogério, João Boer
apresentando bordas serrilhadas. Com base e Silézia Pinto, foram visitadas as seguintes
nesses estudos, a Tradição Umbu foi criada instituições cujas coleções continham pontas
(Dias 2007). bifaciais de interesse:
Inicialmente, essa tradição encontrava-
-se distribuída no sul do país, desde o fim do • Museu Histórico e Pedagógico “Amador
Pleistoceno até o período histórico (Schmitz et Bueno da Veiga”, Rio Claro, SP
al. 1980; Schmitz 1999; Noelli 1999/2000). Nos • Museu da PUC de Campinas, Campinas,
anos seguintes, alguns pesquisadores criaram SP
novas tradições relacionadas a novas desco- • Museu de Arqueologia e Etnologia
bertas de sítios com pontas bifaciais no país. (USP), São Paulo, SP
No Paraná, Chmyz (1981) criou a Tradição • Museu Arqueológico de Sambaqui de
Bituruna, caracterizada pela presença de pontas Joinville, Joinville, SC
foliáceas pedunculadas e de tamanho grande.
Em São Paulo, na região de Rio Claro, Miller • Museu Universitário “Professor
Jr. (1972) definiu a Tradição Rio Claro, que Oswaldo Rodrigues Cabral” (UFSC),
incluía, em algumas fases, sítios com pontas bi- Florianópolis, SC
faciais. No entanto, com o passar dos anos, essa • Universidade do Extremo Sul
tentativa de nomear a diversidade morfológica Catarinense (UNESC), SC
das pontas bifaciais acabou dando lugar a uma • Universidade Federal do Rio Grande do
hegemonia do uso do termo “Tradição Umbu”. Sul (UFRGS), RS
Assim, sítios arqueológicos contendo pontas
• Instituto Anchietano de Pesquisa
bifaciais foram descritos como pertencendo à
(Unisinos), São Leopoldo, RS
Tradição Umbu, independentemente da região
ou da morfologia das pontas. Na região sudes- • CEPA, UNISC, Santa Cruz do Sul, RS
te, nos estados de São Paulo (Prous 1991:154; • Museu Arqueológico do Rio Grande do
Juliani 2012) e Minas Gerais (Koole 2007:40), Sul (Marsul), Taquara, RS

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Mercedes Okumura
Astolfo Araújo

A fim de caracterizar a morfologia das A Tabela 1 apresenta a amostra incluída


pontas bifaciais, foram tomadas as seguintes nas análises e a Figura 1 apresenta a proveniên-
medidas lineares com paquímetro: comprimen- cia de cada grupo.
to máximo medial, comprimento medial do cor-
po, comprimento medial do pedúnculo, largura
aleta-aleta, largura pescoço, espessura metade TABELA 1
corpo, espessura pescoço, espessura metade
pedúnculo, espessura máxima medial (qualquer Amostra incluída nas análises
ponto) e comprimento do ápice até o local de
Estado (região) N
espessura máxima medial. Devido ao fato das
medidas apresentarem alguma correlação entre São Paulo (Rio Claro) 70
si e também para maximizar o número de exem- Paraná (Reserva) 129
plares que pudessem ser incluídos nas análises, Santa Catarina (Taió) 66
foram escolhidas variáveis cuja correlação em
RSS (Vale dos Sinos) 53
relação a outras fosse pequena e que represen-
tassem algumas das dimensões de interesse. RST (Vale do Taquari) 106
Assim, as análises foram realizadas a partir de RSC (Vale do Caí) 135
quatro medidas lineares fracamente correlacio- RSL (Litoral Norte) 76
nadas: comprimento do corpo, comprimento do RS (Miscelânea) 19
pedúnculo, largura do pescoço e espessura do
Total 654
pescoço.

Fig. 1. Locais de proveniência dos materiais analisados.

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OKUMURA, M.; ARAÚJO, A. Desconstruindo o que Nunca foi Construído: Pontas Bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do
Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 77-82, 2015.

Resultados superior do eixo (especialmente SP, RS e RST)


apresentam pedúnculos maiores em relação
A Figura 2 apresenta a Análise de Compo- ao corpo da ponta. O inverso se observa nos
nentes Principais. A partir da análise do primei- grupos localizados na parte inferior do eixo (SC,
ro componente, que explica 85% da variação RSL e PR).
observada, pode-se verificar que as pontas Os resultados da Análise de Agrupamento
oriundas de São Paulo (SP) são maiores que as (Figura 3) mostram que os materiais de São
demais, sendo que as pontas do Rio Grande do Paulo são morfologicamente distintos dos
Sul (RST, RSS e RSC: grupos de Taquari, Sinos demais da amostra. Também é possível verificar
e Caí) são as menores da amostra. Já o segun- uma semelhança morfológica entre as pontas de
do componente, que explica 13% da variação Paraná e de Santa Catarina, além de uma proxi-
observada, verifica-se que as pontas na parte midade já observada na Análise de Componen-

Fig. 2. Análise de Componentes Principais

Fig. 3. Análise de Agrupamento (ligação simples, distância euclidiana)

80

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Mercedes Okumura
Astolfo Araújo

tes Principais entre os grupos do Rio Grande do Cultural (p. ex.: O’Brien et al. 2008; Eerkens &
Sul: Vale dos Sinos, Caí e Taquari. Verifica-se Lipo 2007).
que os grupos do sul são mais semelhantes entre Futuras análises pretendem explorar em
si em relação ao grupo de São Paulo. maior detalhe questões regionais sobre a morfo-
logia das pontas, assim como aspectos relacio-
nados à cronologia desses grupos associados às
Conclusões pontas bifaciais do sudeste e sul do Brasil.

Há diferenças importantes entre as pontas


de São Paulo em relação aos grupos do sul do Agradecimentos
Brasil em termos de sua morfologia. Miller Jr.
(1972) considerou as pontas bifaciais da região Agradecemos à Comissão organizadora
de Rio Claro (Estado de São Paulo) como da 3ª. Semana Internacional de Arqueologia
sendo diferentes daquelas associadas à Tradição “André Penin” MAE-USP pelo convite e tam-
Umbu. Nossos resultados preliminares apoiam bém a todas as pessoas que contribuíram para
essa ideia. o desenvolvimento deste projeto (em ordem
Em termos geográficos, parece haver uma alfabética): Adriana Dias, Adriana Pereira dos
semelhança morfológica entre as séries de Santos, Afonso Paseto, Cinira Mülk, Daiza
Reserva (PR) e de Taió (SC). Outro resultado Lacerda, Dária Barreto, Dinan Rogério, Dione
importante é a semelhança entre os grupos dos Bandeira, Jefferson Dias, João Boer, João Mes-
Vales do Taquari, do Caí e do Sinos. Estes três seti, José Donizeti de Souza, Juliano Bitencourt
grupos encontram-se geograficamente próxi- Campos, Maria Antonieta Cassab, Maryzilda
mos, o que permitiria que tais grupos pudes- Campos, Marisa Afonso, Natália Zanella, Paulo
sem manter um nível importante de contato Jacob, Pedro Ignácio Schmitz, Ricardo Coelho,
entre si. Esse contato, por sua vez, permitiria Sérgio Klamt, Silézia Pinto, Teresa Fossari e
a manufatura de pontas de morfologia seme- Waldomiro Malaguti. Apoio financeiro CNPq
lhante. Tais resultados se coadunam com o que (159776/2010-4) e FAPESP (09/54720-9,
seria esperado segundo a Teoria de Transmissão 2010/06453-9).

OKUMURA, M.; ARAÚJO, A. Undoing what was never done: ‘Umbu’ bifacial points
from Southern and Southeastern Brazil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnolo-
gia, São Paulo, Suplemento 20: 77-82, 2015.

Abstract: Bifacial points have been used as guide fossils of Tradition


Umbu, which has been described in Southeastern and Southern Brazil since
10,000 years BP. The large temporal range, the vast territory, and the absence
of systematic studies of these points are the main factors that suggest the exis-
tence of a hitherto unrecognized diversity by archaeologists. This article tests
the hypothesis that there are important morphological differences in such
points. Multivariate statistical analyzes were applied to four linear measure-
ments taken from 654 points from eight regions. The results show a strong
affinity between the groups of Rio Grande do Sul and important differences
between the points from São Paulo in relation to southern Brazil.

Keywords: Lithics – Quantitative methods – Umbu Tradition

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OKUMURA, M.; ARAÚJO, A. Desconstruindo o que Nunca foi Construído: Pontas Bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do
Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 77-82, 2015.

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82

14272 book.indb 82 26/08/2015 10:59:29


Ferramentas e Pinturas nos Abrigos Vermelhos:
Estudo de uma indústria lítica em contexto

Tatiane de Souza*
Paulo DeBlasis**

SOUZA, T. & DEBLASIS, P. Ferramentas e Pinturas nos Abrigos Vermelhos: Estudo


de uma indústria lítica em contexto. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 83-87, 2015.

Resumo: O sítio Abrigos Vermelhos faz parte de um quadro cronológico


determinado a partir de 5.000 BP, localizado no baixo curso do rio Vermelho,
MT. Este sítio apresenta áreas com grande densidade de material lítico, estru-
turas de fogueiras e cerca de 540 unidades gráficas de arte rupestre. Tendo em
vista que o repertório artefatual lítico coexiste com outros vestígios arqueoló-
gicos, é legítimo perguntar porque é discretamente transformado dentro deste
contexto.

Palavras-chave: Lítico – Arte – Contexto

A área de pesquisa e o abrigo rupestre microambientes de cerrado antes de encontrar


Abrigos Vermelhos o rio São Lourenço no limite setentrional do
Pantanal (Vialou 2006:51).

E m macroescala, a região da Cidade de


Pedra corresponde ao bordo noroeste da
bacia sedimentar do Paraná onde a acumulação
O sítio Abrigos Vermelhos faz parte de um
quadro cronológico melhor determinado a par-
tir de 5.000 AP (Fontugne et al. 2006: 47-48),
de sedimentos detríticos quaternários é uma for- no baixo rio Vermelho, MT. Este sítio, desde
mação já bem conhecida (Aubry 2006:21). Per- 1991, foi gerando um gradual de conhecimento
tence ao município de Rondonópolis, localizado ao longo desta década, até que as pesquisas se
a sudeste de MT, em altitudes que variam de 176 encerrassem em 1999. As sucessivas campa-
a 565, numa área aproximada de 16 000 ha, com nhas evidenciaram um repertório artefatual
coordenadas 16º 30´e 16º 35´de latitude sul, e lítico expediente1, desde níveis acerâmicos,
as coordenadas 54º 45’ e 55º 55´ de longitude
Greenwich Oeste (Toledo 2006:28). Distinções
em função da rugosidade topográfica ou índice 1 Expediência faz parte de uma classificação cunhada
de dissecação do relevo conforme o percurso por Lewis Binford ao longo da década de 1970 para
do rio Vermelho são avistados ao atravessarmos lidar com a formação de conjuntos artefatuais em sítios
arqueológicos, interpretando-os como índice de mobilidade
de grupos dentro de um território. A expediência está
melhor definida em um artigo de 1979, como artefatos
(*) Mestranda em Arqueologia do Museu de Arqueologia e com pouca especificidade formal e de pouca elaboração
Etnologia/USP técnica, que daria lugar à produção e uso circunstancial
(**) Professor doutor do Museu de Arqueologia e de objetos conforme a necessidade, disponibilidade e
Etnologia/USP reaproveitamento de matérias primas.

83

14272 book.indb 83 26/08/2015 10:59:29


SOUZA, T. & DEBLASIS, P. Ferramentas e Pinturas nos Abrigos Vermelhos: Estudo de uma indústria lítica em contexto.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 83-87, 2015.

Fig. 1. Abrigos Vermelhos no perímetro da Cidade de Pedra.

prosseguindo sua presença até níveis cerâmicos que se enquadra no período de coexistência
superficiais. Por meio de uma série de decapa- em relação a outras indústrias líticas antigas da
gens evidenciou-se áreas com maior ou menor América do Sul (Dillehay 1999:208). Embora
densidade de material lítico e estruturas de a Tradição Itaparica seja um tema de maior
fogueiras. Além disso, este sítio possui cerca relevância para as pesquisas arqueológicas que
de 540 unidades gráficas de arte rupestre com se debruçam sobre a transição do Pleistoce-
diversos temas e tratamentos técnicos já par- no/ Holoceno no Brasil, o de interesse são as
cialmente estudados (Paillet 2006:91). indústrias líticas que se inserem dentro de um
horizonte de transição entre o Holoceno médio
e recente.
Problematização de pesquisa Percebe-se que indústrias líticas do Ho-
loceno médio e recente recebem ainda pouca
É fato indiscutível a existência de sítios atenção a partir do estudo de sua própria
arqueológicos localizados no rio Vermelho em composição artefatual e de seu contexto ime-
MT, Serranópolis, em GO, e médio São Francis- diato de deposição, de modo que explicações
co, em MG, em abrigos sob rocha inseridos em ambientais ou focadas em mudanças no padrão
paisagens ruiniformes e relacionados a um bio- de subsistência (Kipnis 2003:583-591) oferece
ma de Cerrado com arte rupestre e indústrias hipóteses parciais para a existência e caracteri-
líticas a partir de 10.000 AP (Vilhena Vialou zação destas indústrias.
& Figuti 2013:37; Prous 1987a:18, 1987 b: 65; Tendo em vista que a caracterização deste
Schmitz 1987b:35; Kipnis 2003:581). tipo de material é por vezes difícil, pela apa-
Este comportamento humano inserido em rente falta de normatização técnica e cadeias
um vasto período temporal e uma vasta am- operatórias curtas ou incompletas, estabelece-
plitude territorial, abriga a Tradição Itaparica, mos alguns procedimentos classificatórios. Em

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14272 book.indb 84 26/08/2015 10:59:29


Tatiane de Souza
Paulo DeBlasis

primeiro lugar, optou-se por uma classificação ção, enquanto lascas alocadas em alguma etapa
baseada em atributos macroscópicos petrográ- da Cadeia Operatória somam 52,7%;
ficos das rochas sedimentares e sedimentares Não existem todas as etapas de lascamento
criptocristalinas (Sgarbi 2012:315), visando a dentre aquelas que foram alocadas em alguma
agrupar pequenas sequências de lascamento etapa da cadeia operatória. A maioria apresenta
(subconjuntos) em conjuntos que englobassem lascamento proveniente de etapas interme-
estas microsequências. diárias de preparo de núcleo e de finalização
Para o tratamento estatístico, efetua- de artefatos, fato que constitui uma situação
mos análise de agrupamento (cluster). Como de cuidado das atividades técnicas e suscitam
exemplificação dos resultados de análise, são questões sobre o uso do espaço do abrigo.
apresentados a seguir os resultados da matéria- Estes resultados dependem de outras
-prima (silexito – sílex), gerando dois conjuntos relações entre a tecnologia lítica, o sítio arqueo-
bastante contrastantes, os subconjuntos (2 e 5) lógico e o contexto da Cidade de Pedra. Não
e os subconjuntos (1,3 e 4). obstante, por ora, permite-se indagar se são as
Depois de lidarmos com a heterogeneidade mesmas ou diferentes atividades executadas
da matéria-prima, lidamos com a tecnologia. pelo mesmo grupo? Se este lascamento detecta-
Optou-se pela metodologia das Cadeias Ope- do é compatível com algum processo de redu-
ratórias líticas por tratar-se de um instrumento ção conhecido? E com o que pode ser associado
descritivo eficaz. Neste sentido, o uso desta este procedimento técnico, que varia consi-
metodologia é adequada aos estudos que visam deravelmente em níveis de elaboração, indo
a estabelecer um reconhecimento e descrição da modificação da matéria-prima quase não
das características dos artefatos e das etapas de perceptível, até aqueles modificados e inseridos
lascamento em material lítico. Tendo em vista em alguma etapa da cadeia operatória lítica.
o resultado de análise tecnológica dos vestígios Tendo em vista que o material lítico
líticos de Abrigos Vermelhos até o momento, há conecta-se com outros vestígios arqueológicos
indicações de que: dentro do abrigo, tais como uma série de fo-
Estabelece-se um equilibrio entre lascas gueiras sobrepostas e que mantém um impor-
não alocadas em alguma etapa de alguma tante contexto de produção de arte rupestre, é
cadeia operatória que totalizam 47,3 % da cole- legítimo perguntar por que o repertório artefa-

Fig. 2. Dendrograma de agrupamento do sílex.

85

14272 book.indb 85 26/08/2015 10:59:30


SOUZA, T. & DEBLASIS, P. Ferramentas e Pinturas nos Abrigos Vermelhos: Estudo de uma indústria lítica em contexto.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 83-87, 2015.

tual lítico é discretamente transformado dentro sobre o óxido de ferro e compará-lo com outras
deste contexto. matérias-primas. O resultado de análise até o
Deve-se lembrar que a simplificação técni- momento não aponta para nenhum procedi-
ca do padrão tecnológico lítico ocorrido a partir mento técnico diferente daquele adotado para
de 9.000/8.000 AP, associada por ora à Tradição outras matérias-primas ou rupturas técnicas
Itaparica (Lourdeau 2006:690), compartilha significativas de fabricação.
o mesmo local de uma longa sequência de Assim sendo, não é possível arguir se são
produção de arte rupestre em 9.000 e 8.000 AP grupos caçadores coletores ou ceramistas ocu-
em abrigos como a Lapa do Boquete, MG, e pando estes espaços, mas é possível inferir que
Pedra Furada, no Piauí, embora haja evidências provavelmente é o mesmo grupo que manipula
da preparação de pigmentos desde 11.000 AP a arte rupestre e o óxido de ferro usado para
em vários sítios de Minas Gerais, notadamente produzi-la. Este fato é curioso, dado que na
Santana do Riacho (Prous 1997:18), e Santa aplicação da arte rupestre se expressa a virtuo-
Elina, MT (Martins & Kashimoto 2012:39). sidade dos procedimentos técnicos, enquanto
Perante esta constatação, uma aborda- que na produção lítica isto não ocorre. Neste
gem profícua é considerar a interação e não a caso, a pergunta que nos devemos fazer é se os
dissociação entre registros em solos de ocu- mesmos virtuosos produtores de arte seriam os
pação e dispositivos parietais. Dado o registro poucos ortodoxos produtores de expediência
arqueológico dos Abrigos Vermelhos, a proposta lítica e por que haveria esta assimetria de pro-
em vigor é analisar o lascamento efetuado cedimentos tecnológicos?

SOUZA, T. Tools and Paintings in Red Rockshelter: Study of a lithic industry in


context. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20:
83-87, 2015.

Abstract: Red Rockshelter is part of a chronological framework deter-


mined since 5.000 BP, located on the lower course of the Red River, MT. This
site has areas with high density of lithic material, bonfire structures and about
540 graphic units of cave painting. Considering that the lithic artifactual
repertoire coexists other archaeological remains is legitimate to ask why is it
quietly transformed within this context.

Keywords: Lithic – Art – Context

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Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu (MG):
Resultados preliminares do estudo de vestígios botânicos

Rodrigo Angeles Flores*

ANGELES FLORES, R. Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu


(MG): Resultados preliminares do estudo de vestígios botânicos. Revista do Museu
de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 89-94, 2015.

Resumo: Neste artigo, são apresentados de maneira breve alguns resul-


tados do projeto de mestrado em andamento intitulado “Uso de recursos
vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu (MG)”, orientado pelo Dr. Astolfo
Gomes de Mello Araujo e coorientado pelo Dr. Gregório Ceccantini. No
projeto de mestrado, procura-se complementar os estudos arqueobotânicos da
região, analisando micro e macrorrestos vegetais no sítio arqueológico Lapa
Grande de Taquaraçu. Para conseguir isso, foram pesados os vestígios carbo-
nizados de madeira, frutos e sementes recuperados durante as escavações do
sítio arqueológico. Adicionalmente, foram desenvolvidos protocolos para a
detecção de amidos e sangue em artefatos líticos. Esses protocolos serão testa-
dos no material lítico recuperado dessas escavações durante a segunda parte
do trabalho de laboratório.

Palavras-chave: Arqueobotânica – Sementes –Vestígios Carbonizados

Introdução Wesolowski, 2007), o estudo de microrrestos


botânicos dentro de um contexto arqueológi-

O alto grau de conservação de vestígios


vegetais na região cárstica de Lagoa
Santa (MG) tem tido como consequência
co tem sido deixado de lado nessa região. O
projeto de mestrado “Uso de recursos vegetais
na Lapa Grande de Taquaraçu, MG,” procura
uma ampla gama de estúdios paleobotânicos e responder a isso realizando um estudo de micro
arqueobotânicos na região (Freire, 2011; Naka- e macrorrestos nesse sítio arqueológico.
mura, 2011; Nakamura et al., 2010). Porém,
embora trabalhos com fitolitos e amidos estejam
ganhando força no território brasileiro (Boyad- O sítio arqueológico
jian, 2012; Cascon, 2010; Corteletti, 2012;
O sítio Lapa Grande de Taquaraçu está
localizado na parte central do estado de Minas
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP)
Gerais, aproximadamente a 20 km ao leste do
rodrigo.angelesf@usp.br carste de Lagoa Santa, na borda do Rio Taqua-
rodrigo.angelesf@gmail.com raçu, um afluente do Rio das Velhas (Fig. 1).

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ANGELES FLORES, R. Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu (MG): Resultados preliminares do estudo de
vestígios botânicos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 89-94, 2015.

Fig. 1. Localização do sítio.


A: Localização da área de
Lagoa Santa, modificado de
Freire (2011). B: foto satelital
do sítio. Imagem obtida por
Google Earth.

Trata-se de um pequeno abrigo de roca 2. Material lítico


cárstica, com medidas aproximadas de 30 me- Correspondente aos líticos plotados du-
tros de comprimento por 9 de largura. Foi esca- rante as escavações. Foi escolhido o material
vado pelo Dr. Astolfo Gomes de Mello Araujo não lavado, pois se parte do pressuposto que
entre os anos 2003 e 2008 no projeto arqueo- esse material é mais propenso a conter os restos
lógico intitulado A Lapa Grande de Taquaraçu: orgânicos originais.
Análise Geoarqueológica de um Sítio Abrigado do
Período Paleoíndio no Sudeste Brasileiro. O sítio 3. Sedimento
apresenta uma cronologia de 10,000 AP-1,100 Amostras sedimentares recuperadas duran-
AP com um hiato compreendido entre os anos te a escavação serão utilizadas como controle,
8,000 AP-1,100 AP (Araujo, [s.d]: 7). para garantir que os restos orgânicos presentes
nos artefatos líticos não sejam os mesmos que
os presentes no sedimento circundante.
Materiais e métodos

Os materiais analisados no projeto de mes- Resultados


trado podem ser divididos em três categorias:
1. Material de peneira Durante a pesagem e separação dos mate-
Correspondente a sementes e materiais riais carbonizados (material de peneira) foram
lenhosos carbonizados e (na sua minoria) não definidos 9 tipos de sementes ou frutos, nomea-
carbonizados, recuperados da peneira durante dos com as letras do alfabeto. A seguir, uma
as escavações. descrição breve desses tipos (Fig. 2):

Fig. 2. Tipos de frutos e sementes identificados.

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Rodrigo Angeles Flores

Frutos e sementes têm presença importante


no registro, ocupando perto da quarta parte da
massa carbonizada total (Fig. 3).
Dentre esses frutos e sementes, é notória
a dominância no registro do tipo A (possi-
velmente coquinho), sendo a quantidade de
massa muito maior do que quaisquer outros
tipos de frutos ou sementes carbonizados
(Tabela I).

Fig. 3. Frutos, sementes e material lenhoso carbonizado.

TABELA 1

Massa das sementes ou frutos carbonizados


Tipo de semente ou fruto Massa (gr.)
A 156.813
B 0.146
C 2.96
D 3.602
E 0.157
F 0.325
G 0.172
H 0.087
I 1.098

Protocolos para a detecção de amidos e Protocolo para a extração de amidos em líticos


sangue
Etapa A: Extração de sedimentos dos artefatos
Como parte dos resultados, foram desen- líticos
volvidos um par de protocolos para detectar Com o fim de minimizar o risco de conta-
vestígios de amido e sangue nos restos líticos do minação por amidos modernos, o material de
sítio. O protocolo para a detecção de amidos vidraria e de plástico usado é imerso por 8 horas
fundou-se nos protocolos criados por Cascon numa solução de dimetilsulfóxido (DMSO). A
(2009, 2010) e Acosta (s.d.); mas adaptados área de trabalho é limpa com limpador multiuso
para os materiais líticos de Lapa Grande de após a análise de cada peça. A manipulação
Taquaraçu. Para o desenvolvimento do proto- do material arqueológico é feita com luvas de
colo para a detecção de sangue foram utiliza- nitrila sem talco.
dos como base os mencionados por Malainey 1. A totalidade da peça é escovada, usando
(2011), e desenvolvidos por Loy et al. (1993, uma escova de dentes descartável.
apud Loy e Dixon, 1998), Williamson (2000) e 2. O sedimento resultante destas escova-
Matheson et al.(2009). ções é guardado à parte para trabalhos futuros,
A seguir, ambos são apresentados numa em sacos de plástico tipo “ziploc®” devidamen-
versão resumida. te etiquetados.

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ANGELES FLORES, R. Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu (MG): Resultados preliminares do estudo de
vestígios botânicos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 89-94, 2015.

3. O sedimento proveniente de uma fissura 15. A contagem das lâminas começa desde
das partes ativas do artefato é raspado usando a esquina superior esquerda em um sentido de
uma vareta de plástico e é guardado para sua esquerda à direita e direita à esquerda (zigue-
pesagem. -zague) até alcançar o final da lâmina e é feita a
4. Depois destes passos, o artefato lítico fica 400X com luz polarizada.
guardado num saco plástico limpo.
Protocolo para a detecção de sangue em artefa-
Etapa B: Separação dos amidos e sedimento tos líticos
nos artefatos líticos
5. O sedimento recuperado no passo 3 é 1. O artefato é colocado dentro da placa de
colocado numa folha de alumínio sobre uma petri para a sua observação no microscópio de
balança de precisão. luz incidente.
6. O sedimento que pese um mínimo de 2. Uma revisão superficial é feita tanto
0,006g é introduzido num tubo eppendorf de nas bordas quanto no corpo do artefato lítico,
1,5 ml para depois adicionar uma solução de procurando manchas aparentes de sangue.
cloreto de césio (CsCl), com uma gravidade 3. Estas revisões são usadas também para
específica de 1,79 g/cm3. identificar o crescimento de algas e de bacté-
7. A amostra é agitada por 30 segundos, rias, pois estas podem afetar a reação das fitas
utilizando uma ferramenta de plástico limpa, de de uranálise.
preferência descartável. 4. No caso de achar uma mancha aparente,
8. Depois disso, as amostras são pesadas em indica-se a sua posição dentro do artefato por
balança e colocadas na centrífuga a 2.500 rpm por meio de um desenho e a amostra de sedimento
12-15 minutos. Os amidos com um peso específico é removida dessa mancha utilizando uma vareta
inferior a 1,79g/cm3 ficam então no sobrenadante. de plástico limpa.
9. Feito isso esta solução é vertida em mais 5. No caso de não achar uma mancha
um tubo para centrífuga, para adicionar nele aparente, a amostra do sedimento é removida
0,5 ml ou 1 ml de água destilada. Esta mistu- de uma parte ativa do artefato utilizando uma
ra é agitada por 10-15 segundos, deste jeito vareta de plástico limpa, sendo esta área indica-
eliminam-se os cristais salinos, reduzindo assim da por meio de um desenho.
o peso específico. 6. O sedimento é dissolvido com 50µL de
10. A amostra é centrifugada por mais 20- água destilada.
25 minutos a 3.200 rpm, recuperando-se nesta 7. Este sedimento é misturado com um
ocasião o sedimento. volume igual de 500 mM de sal de ácido de
11. O passos 9 e 10 devem ser repetidos sódio etilenodiaminotetracético (Na-EDTA),
mais duas vezes, porém, com menos água em por um minuto.
cada ocasião. 8. 20 µL são aplicados na fita para exame
12. O sedimento resultante deste processo de urina.
é montado sobre uma lâmina, e adicionada uma 9. A presença de compostos hemes é
gota de glicerol. A lamínula é selada com esmal- medida seguindo a intensidade da coloração na
te de unhas para sua observação no microscópio. almofadinha teste.
13. Caso o sedimento recuperado das par-
tes ativas dos artefatos não alcance os 0,006 g, a
centrifugação não é realizada, pulando os passos Discussão e conclusões
seguintes até chegar ao 14.
O projeto de mestrado ainda está em anda-
Etapa C: Avaliação mento, razão pela qual é difícil fazer conclusões.
14. Uma gota de lugol é agregada a cada As etapas de laboratório ainda não estão concluí-
uma das lâminas resultantes das etapas ante- das e a viabilidade dos protocolos será evidente
riores. quando forem usados na segunda etapa do proje-

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Rodrigo Angeles Flores

to de mestrado. No entanto, ainda em esta etapa em dar falsos positivos (Custer et


é possível fazer as observações seguintes: al.,1988; Manning, 1994). Respon-
dendo a isso, Loy et al. (1993 apud
• A identificação de espécies escapa
Loy e Dixon,1998, p.25) adicionaram
aos objetivos deste trabalho. Porém,
uma solução de sal ácido de sódio eti-
não se pode deixar de notar a seme-
lenodiaminotetracético (Na-EDTA).
lhança dos tipos A, D e G com os
Isso teve resultados positivos em
definidos por Nakamura, Melo Junior
estudos mais recentes (Matheson et
e Ceccantini (2010) no sítio Lapa
al., 2009; Williamson, 2000), o que
das Boleiras. Se esta semelhança for
mostra a fiabilidade da técnica.
traduzida numa identificação per se,
os tipos corresponderiam a Araca- Enquanto isto está sendo escrito, a segun-
ceae sp.(coquinho), ou ao gênero da parte de laboratório está sendo realizada.
Hymenaea (casca do fruto de jatobá Uma vez terminada, a conjunção de dados
ou alguma semelhante), e Syglarus heterogêneos (macrorrestos, microrrestos e
flexuosa, respectivamente. A razão sangue) terá como resultado uma imagem mais
dessa presença, seja como evidência clara da utilização dos recursos vegetais por
de fontes alimentares ou como com- parte dos habitantes antigos da Lapa Grande
bustível, ainda está em discussão. de Taquaraçu.

• A parte de detecção de sangue está Agradecimentos


sendo utilizada para ser contrastada
com a identificação de amidos nos Quem isto escreve quer agradecer ao Dr.
artefatos líticos e assim ajudar a Astolfo Gomes de Mello Araújo e ao Dr. Gre-
esclarecer a utilização da indústria gório Ceccantini, pela sua orientação constan-
lítica de Lagoa Santa. A utilização de te; assim como ao pessoal do Laboratório de
fitas de uranálise foi escolhida por ser Anatomia Vegetal e do Laboratório de Estudos
simples, relativamente barata e por Evolutivos Humanos (LEEH) no Instituto
não atrapalhar a análise de amidos. de Biociências da Universidade de São Paulo
Esta técnica tem sido criticada pela (IB-USP), pela sua ajuda desinteressada na
alta propensão das fitas de uranálise realização deste trabalho.

RODRIGO ANGELES FLORES.Use of plant resources in Lapa Grande Taquaraçu


(MG): Preliminary results for the study of botanical remains. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 89-94, 2015.

Abstract: This article contains some results of the Master’s project cur-
rently in progress: “Use of plant resources at Lapa Grande Taquaraçu (MG)”
directed by Dr. Astolfo Gomes de Mello Araujo and co-directed by Dr. Gregory
Ceccantini. This project seeks to complement the archeobotanical studies of
the region, analyzing micro and macro plant remains at the archaeological site
of Lapa Grande Taquaraçu. To achieve this, the remains of charred wood, fruits
and seeds recovered during excavation of the archaeological site were weighed.
In addition, protocols for the detection of blood and starches on stone artifacts
have been developed. These protocols will be tested in the lithic material reco-
vered from these excavations during the second part of the lab work.

Keywords: Archaeobotany – Seeds – Charred Remains

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ANGELES FLORES, R. Uso de recursos vegetais na Lapa Grande de Taquaraçu (MG): Resultados preliminares do estudo de
vestígios botânicos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 89-94, 2015.

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Coleção de referência de macrovestígios vegetais carbonizados
para análises arqueobotânicas

Francini Medeiros da Silva*


Myrtle Pearl Shock**
Rita Scheel-Ybert***

SILVA, F.M.; SHOCK, M.P.; SCHEEL-YBERT. R. Coleção de referência de macro-


vestígios vegetais carbonizados para análises arqueobotânicas.Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 95-100, 2015.

Resumo: Neste artigo são apresentados os procedimentos utilizados na


elaboração de coleções de referência de exemplares botânicos carbonizados
capazes de viabilizar o processo de identificação dos vestígios vegetais recu-
perados em sítios arqueológicos. A relevância deste tipo de instrumento para
análises arqueobotânicas é exemplificada através do estudo realizado com
restos vegetais carbonizados em sítios arqueológicos localizados na Amazônia
Central.

Palavras-chave: Arqueobotânica – Coleção de Referência – Carbonização.

Os vestígios vegetais e sua preservação em Os vestígios vegetais arqueológicos podem


sítios arqueológicos ser caracterizados, de acordo com o seu tama-
nho, em microvestígios, cuja identificação so-

R estos vegetais em sítios arqueológicos


podem oferecer informações acerca
dos usos diversificados das plantas por suas po-
mente é possível com o auxílio de um microscó-
pio, e os macrovestígios, que são visíveis a olho
nu (Ford 1979; Pearsall 2000; Jones & Colledge
pulações – como aqueles relacionados à alimen- 2001; Price 2007).
tação, combustível, ferramentas e vestimentas Os microvestígios botânicos são divididos,
(Popper & Hastorf 1988), domesticação e a partir de sua natureza específica, em grãos de
origem da agricultura, período de ocupação do pólen e esporos, fitólitos e grãos de amido e, em
sítio, reconstrução do paleoambiente, escolhas razão de suas particularidades, cada uma destas
humanas (Price 2007), entre outros. categorias é recuperada a partir de técnicas
diferenciadas (Pearsall 2000; Price 2007).
Os macrovestígios botânicos incluem frag-
(*) Laboratório de Arqueologia dos Trópicos, Museu de mentos de madeira e frutos, sementes, fibras,
Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. folhas, entre outros (Ford 1979). A presença
E-mail: fran_historia@hotmail.com. destes vestígios no sítio arqueológico varia
(**) Museu Amazônico, Universidade Federal do
Amazonas.
conforme o contexto de preservação e as ca-
(***) Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de racterísticas particulares de cada planta, sendo
Janeiro. mais comumente encontrados carbonizados ou

95

14272 book.indb 95 26/08/2015 10:59:31


SILVA, F.M.; SHOCK, M.P.; SCHEEL-YBERT. R. Coleção de referência de macrovestígios vegetais carbonizados para análises
arqueobotânicas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 95-100, 2015.

dessecados (Jones & Colledge 2001). Fatores niente, geralmente, da madeira utilizada como
ambientais, como a aridez, encharcamento combustível. Com menor frequência ocorrem
do solo, acidez e congelamento favorecem a estruturas de outros órgãos – sementes, cascas
preservação dos vegetais em sítios arqueológi- e tubérculos – que, devido ao tipo de processa-
cos, e, em algumas circunstâncias, os vestígios mento da planta, foram carbonizadas intencio-
vegetais não carbonizados podem sobreviver em nal ou acidentalmente (Ford 1979).
sítios a céu aberto devido a efeitos químicos em Neste sentido faz-se necessário recorrer à
microescala (Miksicek 1987). carbonização de diferentes órgãos de vegetais
Em regiões áridas ou semiáridas, a ausência atuais a fim de constituir coleções de referência,
de umidade propicia a dessecação dos materiais tornando mais viável e fidedigna a identificação
orgânicos, preservando-os da ação de micro-or- dos restos botânicos carbonizados recuperados
ganismos (Ford 1979; Piperno & Pearsall 1998). nos sítios arqueológicos.
Da mesma forma, ambientes extremamente Com este objetivo foi realizada a carboni-
encharcados ou anaeróbicos impedem o desen- zação de frutos, sementes, raízes tuberosas e
volvimento de micro-organismos responsáveis tubérculos que se encontravam nas coleções de
pelo apodrecimento dos materiais orgânicos no referência do Laboratório de Arqueobotânica
solo (Ford 1979; Popper 1988; Willey 1995). e Paisagem1. Todo o processo foi assistido e
Nos trópicos, o baixo índice de preservação registrado de modo a garantir a seguridade das
de restos botânicos e faunísticos é atribuído à informações.
combinação de diversos fatores, como o excesso A carbonização foi realizada em um forno
de umidade, temperatura e a acidez do solo mufla (Fig. 1) a temperaturas que variaram
(Stahl 1995). Nestas regiões, os macrovestígios entre 250 e 300 ºC por, no máximo, 3 horas. As
vegetais sobrevivem no registro arqueológi- amostras foram dispostas em areia, permitindo
co, principalmente, através da carbonização a uniformidade da carbonização, e fechadas em
(Pearsall 1995). A carbonização dos tecidos cadinhos cerâmicos ou embrulhadas em papel
orgânicos inibe a atividade de micro-organis- alumínio, de forma a dificultar a entrada de
mos, protegendo os remanescentes vegetais da oxigênio.
decomposição (Hillman et al. 1993). Os órgãos carbonizados foram armazenados
em potes acrílicos com tampa plástica. Cada
pote recebeu uma etiqueta contendo nome
Coleção de referência para análises arqueo- científico, nome popular, tipo e estado do órgão
botânicas/paleoetnobotânicas (seco ou fresco), data da carbonização, proce-
dência e número de identificação para posterior
As coleções de referência podem ser utiliza- consulta. Órgãos diferentes de uma mesma
das como instrumento para a identificação dos espécie botânica foram armazenados separada-
macro e microvestígios vegetais arqueológicos mente.
através da observação e comparação destes com
seus exemplares atuais. Os herbários apresen-
tam coleções de referências constituídas por Identificação dos vestígios vegetais arqueo-
órgãos de diferentes espécies botânicas. Outros lógicos carbonizados: o caso da Amazônia
tipos de elementos botânicos, como fitólitos, Central
grãos de pólen e amido carecem de procedi-
mentos mais elaborados para sua obtenção, e as Ainda que os fragmentos de carvões sejam
coleções de referência destes vestígios são nor- categorizados como macrovestígios, a análise
malmente produzidas por seus pesquisadores.
A presença de restos vegetais varia confor-
me o contexto arqueológico, como observado
(1)Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de
anteriormente. Entretanto, o carvão representa Janeiro. O laboratório é coordenado pela Prof(a). Dr(a).
um dos vestígios mais abundantes sendo prove- Rita Scheel-Ybert.

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Francini Medeiros da Silva
Myrtle Pearl Shock
Rita Scheel-Ybert

cas, e dependendo de seu estado de conserva-


ção, podem ser classificados ao nível de espécie,
gênero ou família. Algumas características são
singulares de determinadas plantas, contribuin-
do para a identificação da espécie, enquanto
outras são gerais e caracterizam categorias
amplas de vegetais tais como lenho, tubércu-
los, coquinhos (Arecaceae), parênquima não
identificado ou sementes/frutos.
A identificação das sementes e frutos
carbonizados pode ser realizada a partir de sua
morfologia, quando estão inteiros ou apresen-
tam características singulares que permitam sua
identificação ainda que fragmentados, ou por
sua anatomia, quando encontram-se partidos.
Os fragmentos carbonizados não identificados
que apresentam células de parênquima em sua
estrutura anatômica podem ser incluídos na
categoria de parênquima não identificado.
Fig. 1. Carbonização de material botânico (frutos e O parênquima está presente em todas as
sementes) para a coleção de referência. partes das plantas funcionando como respi-
ração, digestão e fotossíntese, reserva e con-
dução (Raven et al. 2010). Geralmente, suas
anatômica destes requer o auxílio de um micros- células apresentam forma poliédrica (Fig. 2),
cópio óptico de luz refletida (Scheel-Ybert 2004), podendo aparecer sozinhas (nas sementes),
enquanto que a análise morfológica pode ser ou em associação a outras estruturas como os
beneficiada com o uso de um estereomicroscópio feixes vasculares (nos tubérculos) (Fig. 2), e
ou uma lupa simples (baixo aumento), depen- vasos (nos lenhos). Desta forma, a categoria
dendo do estado de conservação do fragmento. de parênquima não identificado engloba vários
Os fragmentos de carvões arqueológicos tipos de órgãos e pode ser utilizada quando não
podem ser identificados a partir da observação é possível incluir os restos vegetais nas demais
de suas características morfológicas e anatômi- categorias, que são mais específicas.

Fig. 2. Fragmentos de parênquima não identificado (a) e tubérculo (b) recuperados de contextos arqueo-
lógicos. Os dois apresentam células poliédricas, e apenas no tubérculo observa-se um feixe vascular.

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SILVA, F.M.; SHOCK, M.P.; SCHEEL-YBERT. R. Coleção de referência de macrovestígios vegetais carbonizados para análises
arqueobotânicas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 95-100, 2015.

Os fragmentos de coquinho apresentam (Scheel-Ybert 2004) entre outros (Fig. 3). Po-
parede celular bastante lignificada conferindo dem ser inseridos em uma categoria ampla, como
rigidez, impermeabilidade e resistência a ata- a de carvões lenhosos, ou, em uma análise mais
ques microbiológicos e mecânicos aos tecidos específica da sua anatomia, podem ser identifica-
vegetais, permitindo uma maior sobrevivência dos ao nível de espécie, gênero e família.
destes vegetais nos sítios arqueológicos. Quan- Carvões lenhosos menores que 2 mm
do carbonizados, os coquinhos apresentam raramente fornecem elementos anatômicos
superfície brilhante (Fig. 3), uma característica suficientes para sua identificação. Entretanto,
bastante singular que permite sua identificação. sementes carbonizadas extremamente pequenas
Os carvões de lenho são facilmente distin- de diversas espécies podem ser identificadas
guidos dos demais vestígios vegetais por apresen- através da sua morfologia, justificando o uso de
tarem caracteres qualitativos, como a presença peneiras com aberturas de 500 ou 325 µm na
de vasos e parênquima, raios, pontoações recuperação destes vestígios vegetais em sítios
intervasculares e radiovasculares, corpos silicosos arqueológicos.

Fig. 3. Fragmento de coquinho (Butia sp.) atual pertencente à coleção de referência (a) e fragmento de
lenho recuperado em contexto arqueológico (b).

A pesquisa com macrovestígios vegetais dos restos vegetais carbonizados e não carboni-
recuperados em sítios arqueológicos localizados zados, e sua distribuição entre as categorias de
na Amazônia Central2 é um exemplo concre- parênquima não identificado, lenho, tubérculos,
to do emprego de coleções de referência na coquinhos e sementes/frutos.
identificação dos restos botânicos arqueoló- As informações obtidas demonstraram uma
gicos. Neste caso foram utilizadas as coleções maior contribuição dos elementos de parên-
de referência constituídas no Laboratório de quima não identificado, coquinhos, tubérculos
Arqueobotânica e Paisagem, conforme descrito e sementes/frutos em relação aos de lenho na
no item anterior, que permitiram a identificação constituição dos restos botânicos carbonizados.
Além disso, indicam que diversas atividades
culturais, incluindo as alimentares, contribuí-
ram para a composição do conjunto dos carvões
(2) VerSILVA, F. M. Paleoetnobotânica na Amazônia nas áreas amostradas dos sítios analisados.
Central: um estudo dos macrovestígios vegetais de três
Estas informações associadas ao contexto
sítios arqueológicos. 2012. 203 f. Dissertação (Mestrado
em Arqueologia), Museu Nacional – Universidade Federal arqueológico podem, inclusive, contribuir para
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ. a interpretação dos usos espaciais dos sítios

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Francini Medeiros da Silva
Myrtle Pearl Shock
Rita Scheel-Ybert

arqueológicos pelas populações pré-históricas, estas fontes seja facilitado pelo meio virtual, é
além de ser útil para as demais pesquisas arqueo- importante que o pesquisador disponha de par-
botânicas/paleoetnobotânicas que abordem te do seu tempo para a constituição de coleções
questões diferenciadas. de referência que contribuam na sua pesquisa.
Deste modo, a identificação dos vestígios
vegetais pode fornecer informações a respeito
Considerações finais da utilização das plantas pelas populações que
habitaram os sítios arqueológicos, e contribuir
As coleções de referência são instrumentos para o entendimento acerca das diferentes ati-
essenciais para a identificação dos vestígios vidades desenvolvidas no decorrer do processo
vegetais arqueológicos. Ainda que o acesso a de ocupação destes.

SILVA, F.M.; SHOCK, M.P.; SCHEEL-YBERT. R. Reference collection of charred


plants macroremains for archaeobotanical analyses.Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 95-100, 2015.

Abstract: This article presents the procedures used to create a referen-


ce collection of charred botanical specimens that facilitates the process of
identifying plant remains recovered in archaeological sites. The relevance of
this type of tool for archaeobotanical analyses is demonstrated by the study of
charred macrobotanical remains from sites in the Central Amazon.

Keywords: Archaeobotany – Reference Collection – Carbonization.

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SILVA, F.M.; SHOCK, M.P.; SCHEEL-YBERT. R. Coleção de referência de macrovestígios vegetais carbonizados para análises
arqueobotânicas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 95-100, 2015.

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As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Amazônia Central)
e a formação de uma fronteira cultural persistente
no final do I milênio DC.

Filippo Stampanoni Bassi*


Marta Sara Cavallini**

STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. As gravuras rupestres do baixo rio


Urubu (Amazônia Central) e a formação de uma fronteira cultural persistente
no final do I milênio DC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 101-108, 2015.

Resumo: Esse artigo pretende contribuir para a interpretação do con-


texto arqueológico regional da Amazônia Central, no final do I milênio DC.
Mais especificamente, será proposta uma associação cronocultural do registro
rupestre da bacia do baixo rio Urubu (Itacoatiara/AM), a partir da datação
radiocarbônica e por LOE de uma camada de sedimentos fluviais que cobre
uma rocha gravada no sítio arqueológico AM-IT-31 Caretas. Enfim, através
de uma abordagem microrregional, procurar-se-á discutir se o fenômeno da
confecção de petróglifos, no baixo rio Urubu, possa ou não ser entendido
como um correlato do processo de intensificação da ocupação regional e de
formação e manutenção de uma fronteira cultural.

Palavras-chave: Arte rupestre amazônica – Rio Urubu – Fronteira cultural

Introdução ideal para amadurecer a reflexão sobre a relação


entre as culturas arqueológicas e a dinâmica dos

O contexto cronocultural da Amazônia


Central atualmente conta com uma
das mais robustas bases de dados arqueológicos
sistemas que as criaram e as reproduziram. As
culturas arqueológicas são conjuntos recorren-
tes de tipos de artefatos que coocorrem em uma
disponíveis para a região amazônica (Neves dada região durante um determinado período
2012). Portanto, pode ser considerado o terreno e devem ser consideradas, antes de tudo, como
ferramentas heurísticas, propedêuticas ao pro-
cesso de explanação.
(*) Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Devido à resolução macrorregional e à
de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo perspectiva de longa duração com a qual foram
(PPGRArq-MAE/USP)
definidas tais categorias analíticas na Amazô-
(**)Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do
Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São nia, poderia se esperar a ocorrência de limites
Paulo (PPGRArq-MAE/USP) culturais fluidos. No entanto, algumas áreas

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STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Amazônia Central) e a formação
de uma fronteira cultural persistente no final do I milênio DC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 101-108, 2015.

mostram o desenvolvimento e a persistência Nesse cenário, as gravuras rupestres do


de fronteiras culturais durante séculos, cujo baixo rio Urubu são consideradas como parte
significado é ainda objeto de estudo. É possivel- do processo de intensificação da ocupação e
mente esse o caso da região do rio Urubu, onde, de domesticação da paisagem, além de poder
no final do primeiro milênio AD, se cruzam três tornar-se uma fonte de tradição para patentear
das quatro grandes tradições cerâmicas pré- novos símbolos, reafirmando uma continuidade
-coloniais (Lima, 2013) e o maior estilo de arte entre passado e presente.
rupestre da Amazônia (Pereira 2012).
Este artigo pretende oferecer alguns subsí-
dios para a interpretação do contexto arqueo- Área amostral
lógico da Amazônia Central, a partir de uma
perspectiva teórica que procura sintetizar os A bacia do rio Urubu, afluente da margem
conceitos de fronteira persistente e etnicidade ins- esquerda do médio curso do rio Amazonas,
trumental (Barth 1969a; Cohen 1974), inseridos situa-se na região centro-oriental do Estado do
em um discurso que considera a história como Amazonas, próximo à confluência desse curso
uma construção cultural que se dá através da de água com os rios Uatumã, a NE, e Madeira,
prática (Pauketat 2001). ao S.

Fig. 1. Área de pesquisa (Autor: F. Stampanoni)

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Filippo Stampanoni Bassi
Marta Sara Cavallini

Essa área foi descrita como o limite da O complexo arqueológico Caretas-Pedra


dispersão de duas tradições cerâmicas contem- Chata
porâneas durante o período pré-colonial tardio,
a Polícroma e a Inciso Ponteada, inaugurando a O sítio rupestre Caretas (3°04’50.90’’S,
hipótese de tratar-se de uma fronteira cultural 58°34’25.28’’W) é constituído por 182 rochas
(Lima 2013). areníticas que afloram em uma área de 2060
Após quatro anos de pesquisa na região, m2 durante os meses de outubro e novembro
a análise da variabilidade do registro cerâmi- (estação da seca), expondo a maior densidade
co ainda não oferece dados suficientes para de petróglifos da região1, sinais de oficina lítica
entender as dinâmicas de formação de tal e áreas picoteadas que indicam possível proces-
hipotética fronteira. Todavia, um preliminar es- samento de matérias-primas.
tudo dos padrões de assentamento sugere uma Devido aos processos naturais de erosão e
associação espacial recorrente entre sítios de sedimentação, o sítio sofreu ao longo do tempo
ocupação multicomponenciais com terra preta, uma significativa dinâmica de movimentação das
afloramentos ribeirinhos de arenitos portadores rochas, à qual está evidentemente relacionado o
de petróglifos e uma rede de canais sazonais ciclo de atividade gráfica: de fato foram documen-
que conectam, atravessando a várzea, o baixo tados petróglifos confeccionados sobre a mesma
curso do rio com o médio Amazonas. De fato, rocha, apresentando diferentes graus de intempe-
esse trecho do rio, chamado Paraná do Urubu, rismo e em posições mutuamente excludentes.
apresenta uma brusca inflexão do canal, que A concentração de diversas atividades an-
cria um cotovelo de 90º, acerca de 12 quilôme- trópicas, sem solução de continuidade no sítio,
tros do Amazonas, prosseguindo então paralelo possibilitou relacionar cronologicamente, graças
a esse último, até desaguar no lago Saracá. às sobreposições, a oficina lítica com algumas
Tal mudança abrupta é devida ao fato que sua gravuras realizadas sobre superfícies polidas
antiga foz foi assoreada pelos sedimentos depo- precedentes. Em muitos casos, as marcas
sitados pelo rio Amazonas, depois de sua leve antrópicas relacionadas ao ciclo de produção
translação segundo o eixo N-W devida a ajustes de ferramentas líticas, participam também do
tectônicos holocênicos (Lima da Silva 2005). processo de realização das morfologias gráficas,
Vestígio do seu antigo curso é o “furo” que o se tornando parte das mesmas.
liga ao Amazonas próximo da vila de Mura, que Esses elementos sugerem tratar-se, portan-
já foi sua foz (vide mapa 1). to, de um sítio estruturado ao longo do tempo,
Essa microrregião, sugerimos, poderia ter durante o qual processos naturais e antrópicos
sido uma área-chave de conexão entre as duas de longa duração interagiram na construção
bacias, além de ser estratégica para o acesso aos reiterada da paisagem rupestre.
recursos da várzea. Portanto, um contexto onde Uma análise preliminar dos petróglifos apon-
se assume maior intensidade de práticas relati- ta para outros elementos de continuidade na
vas à construção e negociação cultural. Não é construção dessa paisagem: o universo temático
acaso que aqui se encontra a maior concentra- cefalomorfo é homogêneo no sítio inteiro, assim
ção de arte rupestre regional, que é uma rica como a presença de tipologias gráficas recorren-
fonte de informações produzidas com intento tes, apesar da grande variabilidade morfológica
simbólico, caracterizada por exprimir um desejo interna às gravuras na realização desse tema.
de permanência no tempo. Essa dimensão temática do fenômeno gráfico
Para dar visibilidade a tais práticas reite- (Pessis 1992) reflete evidentemente uma escolha
radas, que são a arena onde se materializam compartilhada pelas autorias e, apesar de não
as disputas à base dos modelos de interação permitir o estabelecimento de parâmetros para
e identidade, decidimos focar no complexo
arqueológico formado pelo sítio rupestre AM-
-IT-31 Caretas, em associação espacial com o (1) O sítio compreende 229 unidades gráficas e 54 painéis
sítio de terra preta AM-IT-30 Pedra Chata. reconhecíveis.

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STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Amazônia Central) e a formação
de uma fronteira cultural persistente no final do I milênio DC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 101-108, 2015.

caracterizar uma tradição cronocultural, pelas presença de quatro caminhos que conectam as
inúmeras variáveis que podem ter influenciado duas componentes; tais evidências, apesar de
tais escolhas, sugere a persistência de um traço necessitarem ainda de um teste cronoestratigrá-
formal comum no código de comunicação social, fico, sugerem uma utilização pré-colonial das
que é o registro rupestre. duas áreas em conjunto. Outro indício da pos-
Outra característica persistente no sítio Ca- sível relação cultural entre os sítios foi obtido
retas é o reaproveitamento das feições rochosas durante uma sondagem de 2 m2 realizada por
(fendas, orifícios, protuberâncias, arestas) na níveis artificiais no setor de maior concentração
realização das gravuras, incorporando as formas de vestígios do sítio Pedra Chata. A escavação
naturais como parte das figuras mais realísticas. evidenciou um contexto estratigráfico de matriz
Essa relação entre os petróglifos e o suporte cria antrópica com 1 m de profundidade, composto
a impressão visual de imagens cefalomorfas na- por seis camadas arqueológicas, sem solução de
turalmente contidas na matéria viva da rocha continuidade. A análise do material cerâmico
e reitera a conexão entre paisagem cultural- aponta para uma intensa e provavelmente con-
mente construída e arte rupestre: de fato são tínua ocupação do lugar (possivelmente séculos
essas feições micropaisagísticas do painel que, II-XVI DC); inclusive, demonstra a presença de
fazendo parte do gravado, permitem o completo pelo menos dois conjuntos artefatuais associa-
reconhecimento das figuras. dos à fase Itacoatiara (tradição Borda Incisa)
Tal redundância na forma de apresentação e à tradição regional Saracá, que vem sendo
gráfica, mais ainda da homogeneidade temática, interpretada como um correlato material da
pode refletir escolhas culturalmente determi- interação entre povos produtores das cerâmicas
nadas por padrões de comportamento social Polícroma e Inciso Ponteada. Associada a esse
(Pessis ibidem). último conjunto foi encontrado um aplique
Com o objetivo de explorar a relação cerâmico modelado em forma de rosto. O tema
espacial existente entre os sítios Caretas e Pedra coincidente e o estilo semelhante entre tal de-
Chata, foi elaborada uma estratégia de prospec- coração e o registro rupestre cefalomorfo típico
ção e mapeamento georreferenciado do comple- do sítio Caretas são um índice de uma associa-
xo arqueológico. Os resultados apontam para a ção iconográfica entre os dois conjuntos.

Fig. 2. Aplique cerâmico cefalomorfo encontrado na escavação do sítio Pedra Chata e gravura rupestre
do sítio Caretas, espacialmente associado. Fotos: M. Paiva e M. Cavallini.

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Filippo Stampanoni Bassi
Marta Sara Cavallini

As primeiras datações da arte rupestre do dispunha de algum parâmetro cronológico para


rio Urubu inserir tais manifestações gráficas no contexto
arqueológico. Com o intento de preencher pelo
Como vimos, existem diversas classes de menos em parte essa lacuna, apresentamos aqui
dados apontando para uma possível relação cul- os resultados de uma escavação realizada a par-
tural entre os petróglifos e a ocupação ceramista tir de uma rocha gravada, inserida na estrutura
regional; porém, devido ao nível ainda incipien- sedimentar do terraço aluvial do rio Urubu no
te das pesquisas sistemáticas sobre as gravuras sítio Caretas, que evidentemente tem se forma-
rupestres amazônicas, até hoje em dia não se do após a confecção dos petróglifos.

Fig. 3. Autor: F. Stampanoni

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STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Amazônia Central) e a formação
de uma fronteira cultural persistente no final do I milênio DC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 101-108, 2015.

Foi realizado um corte estratigráfico de 4 sedimentar, embora as camadas X e IX eviden-


m de comprimento por 3 m de profundidade ciem a presença de bioturbação recente, asso-
máxima, escavado por níveis naturais, que ciada à ação de raízes. Foram coletadas duas
evidenciou a superposição de 10 camadas de amostras de carvão provenientes da camada
sedimentos de colúvio e de aluvião (fig. 3). A II, que recobre a rocha gravada, cuja data-
matriz sedimentar preponderante é areno-ar- ção radiocarbônica (AMS) sugere uma idade
gilosa, sendo que foram individuados também mínima compreendida entre 1110±30 BP (Cal.
três horizontes lateríticos (camadas IV, V e VII) AD 880 - 990) e 1170 ±30 BP (Cal. AD 780 -
de origem coluvial, que demonstram o relativa- 900 e Cal. AD 910 - 970) para a confecção das
mente baixo grau de perturbação da estrutura gravuras rupestres.

Fig. 4. Autor: M. S. Cavallini

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Filippo Stampanoni Bassi
Marta Sara Cavallini

Acerca de 1 m da rocha gravada, na cama- ecossistemas similares na calha do Solimões


da VII, foi coletado um fragmento de cerâmica, (Behling et al. 2001), época em que são datados
cuja datação pela técnica de Luminescência os primeiros sítios sedentários na região do
Opticamente Estimulada (LOE) aponta para Urubu, associados à fase Itacoatiara (Machado
uma idade de 900 ± 140 BP, dado que nos per- 1991). Portanto, não parece inverossímil hipo-
mite contextualizar cronologicamente o proces- tetizar que a formação dos sítios de arte rupes-
so de formação de parte do pacote sedimentar tre da região possa estar associada à ocupação
depositado acima dos petróglifos. ceramista.
Conforme proposto anteriormente, o pro-
cesso de formação do sítio Caretas pode ter sido
Conclusões de longa duração; portanto, não é de se excluir
uma pluralidade de autorias gráficas, corrobo-
De acordo com as datações produzidas, rada também pela alta variabilidade inerente
foi possível estabelecer somente um parâmetro ao ciclo de confecção dos petróglifos. É de se
ante quem para os petróglifos, faltando ainda ressaltar, porém, que a homogeneidade temática
definir a antiguidade máxima de tal fenômeno. e a redundância em alguns aspectos da apre-
O estudo do processo morfogenético do rio sentação gráfica possam representar a intenção
Urubu pode, porém, oferecer alguns elementos de produzir a aparência de uma persistência
analíticos úteis para formular uma hipótese cultural, se tornando símbolos políticos efetivos
sobre tal limite temporal. De fato, a distribuição que podem ter sido utilizados e manipulados,
dos sítios arqueológicos ao longo do Paraná por meio da reconfiguração dos referentes.
do Urubu demonstra, como vimos, certo grau Esses elementos, no âmbito do processo de
de estruturação com umas feições naturais (os formação de comportamentos ligados à territo-
furos de captura) que remetem a uma paisagem rialidade, associados ao aumento da interação
não muito diferente daquela atual. Recentes com diversos grupos, podem ser interpretados
estudos em áreas limítrofes sugerem a data de como uma estratégia para reforçar elementos de
2000 BP para o estágio final da formação de identidade no âmbito de uma fronteira cultural.

STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. Rock art of the lower Urubu River
Basin (Central Amazon) and the formation of a persistent cultural boundary at the
end of the first millennium AD. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 101-108, 2015.

Abstract: This article contributes to the interpretation of regional archa-


eological patterns in the Central Amazon at the end of the first millennium
AD. Specifically a chrono-cultural association is proposed for the rock art
record of the lower Urubu River Basin (Itacoatiara, Amazonas State) based
on the radiocarbon and OSL date for fluvial sediments that cover an engra-
ved rock at the archaeological site of Caretas (AM-IT-31).
A micro-regional approach is used to discuss if the phenomena of making
petroglyphs in the lower Urubu River Basin can be understood as related to
the process of intensification in regional occupation and to the formation and
maintenance of a cultural boundary.

Keywords: Amazonian rock art – Urubu River Basin – Cultural boundaries

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STAMPANONI BASSI, F.; CAVALLINI M.S. As gravuras rupestres do baixo rio Urubu (Amazônia Central) e a formação
de uma fronteira cultural persistente no final do I milênio DC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
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Pinturas geométricas no interior de Alagoas: Considerações teóricas
nos sítios rupestres no município de Pão de Açúcar, AL

Carolina Machado Guedes*

GUEDES, C.M.Pinturas geométricas no interior de Alagoas: Considerações teóricas


nos sítios rupestres no município de Pão de Açúcar, AL. Revista do Museu de Ar-
queologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 109-114, 2015.

Resumo: Apresentamos algumas considerações teóricas acerca das análi-


ses dos sítios da região de Pão de Açúcar, visando a compreender a utilização
de formas universais, a partir de um estudo comparativo intersítios. Propõe-
-se que o diálogo entre os conceitos de universalidade de expressões simbó-
licas e categorias cognitivas, oferece uma oportunidade de discussão sobre a
relação entre natureza humana e cultura. A análise evidencia a originalidade
de cada sítio, evidenciando culturas e organizações simbólicas próprias. Po-
rém, ao trabalhar com sinais geométricos, percebemos também categorias de
representações universais.

Palavras-chave: Arte Rupestre – Cognição – Universalismos

A presente pesquisa de campo foi


desenvolvida a partir dos trabalhos de
diagnóstico e conservação dos sítios rupestres
experimental, ações educativas e inventários
turísticos, com uma proposta de uso qualitativo
das áreas em questão (Zanettini 2009).
inseridos no projeto realizado pela Zanettini Dentro do projeto denominado “Programa
Arqueologia em interação com o IPHAN-AL1. de mapeamento, cadastro e conservação dos
No ano de 2008, a empresa Zanettini Ar- sítios de arte rupestre do Baixo São Francisco,
queologia, com o apoio do IPHAN-AL, iniciou Etapa 1”, foi realizado, no ano de 2009, um
um trabalho de localização, registro e avaliação trabalho de levantamento, localização e ins-
dos sítios rupestres no sertão alagoano com a peção dos sítios rupestres do município de Pão
proposta de fornecer depoimentos sobre o uso de Açúcar, a 230 quilômetros de distância da
qualitativo desses espaços, objetivando uma
capital do Estado de Alagoas, Maceió.
conservação dos sítios, a criação de circuito
A partir de dados advindos dos trabalhos
realizados na região, foi proposto pelo progra-
ma ampliar esse conhecimento por meio de
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia – USP. prospecções extensivas (Ibidem), favorecendo
cmguedes@gmail.com a criação de um novo quadro sobre o estado
(1) Esse trabalho integra a minha pesquisa de atual de conservação dos sítios rupestres em
doutoramento e foi elaborado durante a vigência da mesma.
Trabalho realizado com o financiamento da Fundação de questão. Assim, os trabalhos de localização,
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). registro e análises qualitativas realizados nessas

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GUEDES, C.M.Pinturas geométricas no interior de Alagoas: Considerações teóricas nos sítios rupestres no município de Pão
de Açúcar, AL. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 109-114, 2015.

áreas visaram principalmente à formulação de Elementos da construção gráfica


propostas no que concerne à conservação a
curto, médio e longo prazo (Ibidem), bem como De maneira geral, analisamos os sítios a
seu uso qualificado, de acordo com as análises partir de algumas categorias do ponto de vista
feitas pela equipe coordenada por Antônio de processos cognitivos, como a seleção, a orga-
Cavalheiro. nização e a percepção. Os espaços são escolhi-
Entre os resultados apresentados no relató- dos intencionalmente, bem como intencional é
rio Zanettini (2009), destaca-se o cadastro de a escolha e a divisão temática neles presentes.
quatro novos sítios de arte rupestre localizados Essa observação nos aponta para a percepção
no município supracitado, realizados a partir de de um espaço próprio, organizado pelos povos
levantamentos oportunísticos de campo. Com pretéritos, indicando assim como os signos e
o intuito de apresentar um diagnóstico sobre o sinais, abstrações de significados.
estado de conservação dos sítios, foram reali- Podemos perceber nesses sítios que, além
zados trabalhos de registro e caracterização dos da particularidade temática de cada nicho, exis-
sítios com a atenção voltada especialmente para tem também preferências por locais distintos,
os processos químicos, bióticos e antrópicos como os de fácil visualização, e também locais
responsáveis pela degradação dos mesmos (Ibi- difíceis de visualizar.
dem). Os resultados finais presentes no relató- O que se percebe é que os locais foram
rio Zanettini (2009) concernem às observações estrategicamente escolhidos e a intenção da
feitas em campo sobre o estado de conservação escolha está diretamente relacionada com
dos sítios e propõem medidas acauteladoras a o diálogo, a articulação entre local/temáti-
respeito da conservação dos registros rupestres. ca. E são esses dados que concedem ao sítio
Esses resultados, no entanto, não serão uma importância no que tange às expressões
aqui pormenorizados. cognitivas dos grupos responsáveis por sua
Nosso objetivo aqui é apresentar uma criação. No caso presente, a seleção tipológica
articulação de nosso corpo teórico, com os das unidades gráficas são importantes teste-
dados coletados em campo na região de Pão de munhos das estruturas cognitivas desses povos
Açúcar, no sertão alagoano. Para tanto, parti- pretéritos. De 276 unidades gráficas presentes
mos da seguinte premissa: tudo aquilo que está nos 10 sítios estudados pela equipe, apenas
gravado nos suportes rochosos é testemunho 22 são pinturas figurativas, as 254 restantes
do processo mental dos responsáveis por aquele foram classificadas como registros não figura-
comportamento simbólico. Esse processo se dá tivos ou geométricos, como podemos ver nas
através da união entre mente e cultura. figuras 1, 2 e 3.
Partimos das seguintes propostas: a pri- O que podemos observar é a criação de
meira é a compreensão de que os grafismos conjuntos extremamente estruturados, mas
rupestres, sejam pinturas ou gravuras, foram que advêm de uma variação de formas geomé-
criados e dispostos de maneira consciente e tricas bastante simples, como o traço, o ponto,
estruturada, apresentando relações coerentes o círculo, e suas diversas declinações. A
e culturalmente significativas. Dessa forma, os partir de formas simples houve, por um lado,
registros rupestres são testemunhos irrefutáveis a permanência dessas formas e, por outro, a
da criatividade, poder de abstração e da inte- reelaboração de novas formas articuladas e
ligência humanas. São para nós, dessa forma, complexas.
demonstração vital de um sistema cognitivo As pinturas em vermelho dominam quase
complexo e extremamente evoluído. O interes- que totalmente a paleta, com nuanças no tom,
sante sobre a maneira que opera nossa mente como o laranja e o violáceo. Foi verificado
não é apenas a habilidade de gravar e recriar ainda a utilização de alguns tons em branco,
imagens as quais já vivenciamos ou observamos preto e amarelo, fato esse que implica, em ter-
tempos atrás, mas, fundamentalmente, de dar mos interpretativos do painel, em uma escolha
sentido a essas imagens (Wilson 1999: 121). deliberada do autor ou autores.

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Carolina Machado Guedes

Fig. 1. Sítios Cosmezinho, painel 7, e Morro do Lampião, painel 1 – unidades geométricas.

Fig. 2. Sítios Bom Nome I, painel 1, e Pedra do Tanque, painel 1 – unidades geométricas.

Fig. 3. Sítios Carcará II, painel 1, e Bom Nome II, painel 6 – unidades geométricas.

Discussão teórica ao mesmo tempo uma íntima relação entre


as pinturas, os homens e seu meio ambiente
Dentro desse quadro, a arte rupestre, (Vialou 2000: 381-396). As representações
entendida também como marcador social, rupestres, sejam elas desenhos, pinturas, gra-
territorial e de identidade, implica e demonstra vuras, carregam consigo uma carga de conhe-

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GUEDES, C.M.Pinturas geométricas no interior de Alagoas: Considerações teóricas nos sítios rupestres no município de Pão
de Açúcar, AL. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 109-114, 2015.

cimento e exigem determinadas ações mentais a ideia de que existe uma base física, inata, por
que antecedem sua representação, isso implica trás de nosso pensar, nosso aparato cognitivo,
em construções simbólicas compartilhadas por e que presume também um caminho inverso, a
grupos e dentro deles são atribuídos sentidos. cultura, linguagem e sistemas representacionais
São manifestações inteiramente abstratas que são também responsáveis por moldar nossa
trazem em si uma carga de significação, uma mente (Sampaio et all. 2011: 778). Durante o
construção estruturada de um tipo de discur- período evolutivo do Homosapiens, o cérebro
so, onde forma e conteúdo estão conectados foi se adaptando tanto a exigências internas
(Pinker 2007: vii) e juntos fazem sentido. São quanto externas. Ou seja, tanto o cérebro faz o
regras conceituais construídas coletivamente homem quanto o homem faz o cérebro. A nossa
(Vialou 2006) e por isso envolvem invariavel- capacidade intelectual desenvolvida como
mente a cultura. Por sua vez, essas conjunções hoje, uniu uma composição biológica formada
são produtos únicos da interação entre neurolo- a partir de milhares de anos de evolução, a uma
gia humana e cultura (Lewis-Williams & Pearce composição cultural, sempre diversificada, que
2005: 46). Essa proposta está presente no dá sentido aos nossos atos, moldam as nossas
trabalho de diversos estudiosos. Renfrew (1998: ações, estruturam o nosso pensamento. Nesse
1) trabalha com a ideia de que o desenvolvi- contexto, Donald (Ibidem: 5)apresenta que
mento das culturas e da mente são inseparáveis, a mente possui uma arquitetura advinda dos
Malafouris (2004) trabalha com a mesma pro- milênios de evolução, e por causa dessa constru-
posta de Donald (1993) e Mithen (1994), que a ção evolutiva, somos predispostos a produzir e
mente e a cultura constroem-se mutualmente. a inventar o nosso mundo material. Assim, de
Essa é uma das principais linhas de trabalho acordo com o referido estudioso, o que distin-
da psicologia evolutiva que trabalham Tooby gue nosso cérebro dos outros animais é represen-
e Cosmides (1990), onde existe uma troca de tação (Ibidem: 3).
mão dupla entre características mentais inatas É o que trabalha o cientista cognitivo Jerry
do Homo sapiens moderno e as transformações Fodor (1993), sobre a modularidade da mente,
culturais. Por sua vez, Pinker (2002) demonstra onde existem mecanismos mentais específicos,
que somos formados pela intrínseca conjunção estabelecidos na evolução humana. São estru-
entre as qualidades inatas de nosso cérebro, e a turas inatas moldadas pelo meio ambiente e o
cultura que nos cerca. Donald (1993: 737) de- meio cultural.
bate sobre o conceito de sistemas de memória, Estamos trabalhando, aqui, com uma das
onde houve uma coevolução entre mente, cé- características universais do comportamento hu-
rebro e cultura. Muito presente nessa discussão, mano, observadas nos grafismos puros, estabele-
Renfrew (Ibidem) apresenta que a construção cidas empiricamente pelas culturas no mundo.
da mente humana está intrinsecamente conec- Assim, Lewis-Williams e Pearce argumentam
tada com a manufatura e o desenvolvimento de que essas semelhanças podem ser explicadas
artefatos materiais, visto que sem eles muitas também através do “funcionamento do sistema
formas de pensamento não teriam sido desen- nervoso universal humano” (2005: 41).
volvidos. Por fim, Chomsky (2005) acredita que Os estudos da neurofisiologia, psicologia
somos fisiologicamente predispostos a aprender evolutiva, linguística, nos ensinam que existe
(ou a inventar) uma linguagem e compreende uma base fisiológica para os nossos comporta-
que nosso cérebro é subdividido em módulos, mentos simbólicos, assim como qualquer outro
cada qual responsável por um tipo de faculdade órgão de nosso corpo, as capacidades mentais,
mental. De acordo com Steven Mithen (1998: e, por assim dizer, nossas capacidades cognitivas
24), esse modelo assume que a marca biológica são ativadas por funcionamentos físicos e quí-
do cérebro exerça uma “função marcante na micos de nosso organismo, e, portanto, podem
nossa maneira de pensar”. ser observados e medidos.
Essa é uma importante linha que vem O que os autores acima citados querem
sendo muito bem trabalhada nas neurociências, mostrar é que o nosso cérebro processa vínculos

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Carolina Machado Guedes

fisiológicos responsáveis por engendrar proces- Considerações finais


sos subjetivos. Assim, temos em nossa consti-
tuição conjuntos de neurônios responsáveis por Estamos trabalhando num contexto o qual
criar nossa percepção sobre os outros. São enca- se apresenta para nós a partir de manifestações
deamentos fisiológicos que revelam a tendência simbólicas. São manifestações inteiramente
humana de ser social e perceber o comporta- abstratas que carregam em si toda uma carga
mento de outros seres humanos (Sampaio et de significação, de estruturação, de construção,
al. ibidem). Antes de nossos pensamentos e baseadas em tradições e em culturas. Num sítio
ações se materializarem, existe uma caracterís- rupestre podemos perceber toda uma relação
tica inconsciente pré-reflexiva, pré-linguagem, entre o homem, a cultura e a natureza. São
automática, fisiológica, interna, responsável esses os três fatores essenciais responsáveis pela
pela construção de todo conhecimento e ações formação e pelas distintas criações de sítios
cognitivas. rupestres espalhados por todo o mundo.
A maneira como elas são externadas, A discussão proposta aqui não é sobre uma
porém, é o que faz a grande diferença. É o que preponderância da base fisiológica na expres-
transforma estruturas inatas do cérebro em são humana. Tratamos aqui que a linguagem,
cultura, em diversidade. a cultura e a transmissão do conhecimento,
Nesse contexto, Anati (2003: 103) apre- a escolha do que transmitir, as tradições, são
senta um interessante ponto. Apenas podemos inteiramente responsáveis pela produção do
nomear, classificar, aquilo que faz parte de comportamento que vemos gravados nos sítios
nossa experiência, de nosso cotidiano. Nossa rupestres. Assim, acreditamos que a mente é
referência é construída sobre aquilo que existe tanto produtor de culturas quanto também é
em nossa realidade, que é responsável por produto delas. Pensar arqueologicamente sobre
estruturar a nossa mente, relativizada, portanto, as manifestações das faculdades cognitivas
culturalmente. humanas é avaliar também e necessariamente
Dessa forma, cada instância histórica será suas características e diferenças culturais. É
um produto único da interação entre neurolo- uma relação intrínseca, de via dupla entre
gia humana e cultura (Lewis-Williams e Pearce cérebro, mente e cultura (Sampaio et al.
Ibidem: 46). ibidem).

GUEDES, C.M.Geometric rock art paintings from Alagoas: Theoretic considerations


on the rock art sites from Pão de Açúcar, AL. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia,São Paulo, Suplemento 20: 109-114, 2015.

Abstract: We present some theoretical considerations about the analysis


of rock art sites in Pão de Açúcar region, aimed at an understanding on the
use of universal forms, from a comparative study inter-sites. It is proposed
that the dialogue between the concepts of universality of symbolic expres-
sions and cognitive categories, provides an opportunity for discussion on the
relationship between human nature and culture. The analysis highlights the
uniqueness of each site, showing particular symbolic cultures and organiza-
tions. However, when working with geometric signs we also identify universal
categories of representation.

Keywords: Rock Art – Cognition – Universals

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GUEDES, C.M.Pinturas geométricas no interior de Alagoas: Considerações teóricas nos sítios rupestres no município de Pão
de Açúcar, AL. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 109-114, 2015.

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114

14272 book.indb 114 26/08/2015 10:59:35


Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e
locacional com o auxílio de SIG & métodos estatísticos

Thiago Berlanga Trindade*

TRINDADE, T. B. Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e loca-


cional com o auxílio de SIG & métodos estatísticos. Revista do Museu de Arqueolo-
gia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

Resumo: Este trabalho traz um extenso levantamento dos sítios arqueoló-


gicos conhecidos como “geoglifos” (ou ainda “zanjas circundantes”, “ditches” e
genericamente “earthworks”) tão abundantes no sudoeste da bacia amazônica.
Aqui é ainda apresentado o levantamento de quatro atributos físicos (área,
elevação, distância ao próximo e distância à água) de uma amostra do total das
estruturas encontradas sendo, na sequência, exposto o resultado da análise
da distinção estatística destes atributos a partir do agrupamento das referidas
estruturas em formas poligonais predominantemente circulares e formas predomi-
nantemente quadrangulares.

Palavras-chave: Geoglifos – SIG – Estatística

Introdução truídas e ocupadas entre 2.500 a 500 AP (cf.


Erickson 2006, Saunaluoma 2010, Schaan et

O s sítios referidos neste estudo abran-


gem locais em que são encontradas
estruturas arqueológicas construídas a partir
al. 2012). A maneira como estas estruturas
foram construídas e os motivos pelos quais
foram criadas é ainda motivo de debate entre
da retirada de grandes volumes de terra, os principais pesquisadores voltados para
formando valas que se estendem linearmente esta temática, sendo a defesa/organização da
por mais de 1 km ou circunscrevendo áreas área de habitação (Erickson, Álvarez & Calla
de até 82 ha (cf. Erickson, Álvarez & Calla 2008) e o uso como cemitério/área cerimonial
2008). Estas estruturas se distribuem majori- (Schaan et al. 2007) comumente apresenta-
tariamente por três estados brasileiros (Acre, dos como algumas das possíveis funções que
Amazonas e Rondônia), bem como em outras tais estruturas teriam assumido dentro do seu
duas regiões do departamento do Beni (na contexto sistêmico.
Bolívia) e estima-se que tenham sido cons- De maneira mais simplista, este estudo pre-
tende analisar atributos físicos referentes a estas
estruturas tentando determinar: a) se existe
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de
São Paulo, ARQUEOTROP (Laboratório de Arqueologia relação entre as características de implanta-
dos Trópicos). Mestrando em Arqueologia, bolsista CAPES ção geográfica destas estruturas; e b) se existe

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TRINDADE, T. B. Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e locacional com o auxílio de SIG & métodos
estatísticos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

Fig. 1. Mapa geral de localização dos sítios levantados com estruturas do tipo “zanja’ ou
“geoglifo” no sudoeste amazônico.

relação entre as formas geométricas apresen- ras previamente levantadas (66% do total),
tadas por estas estruturas e sua implantação excluindo-se aquelas que: a) não puderam ser
geográfica. Para tanto, foi realizado um extenso verificadas a partir das imagens distribuídas
levantamento das estruturas conhecidas até gratuitamente pelos softwares Google Earth
o momento, através das fontes bibliográficas 5.1 (Google Inc.) ou World Wind 1.3 (NASA);
disponíveis. Tal levantamento resultou na b) não apresentavam ou apresentavam falhas
verificação de 269 sítios que, juntos, somaram em uma ou mais das informações referentes
322 estruturas – variando de 1 a 5 estruturas aos atributos acima citados; e c) apresentavam
por sítio. Este levantamento contou com a formas lineares, não poligonais (i.e. abertas).
observação de 16 atributos que correspondem, Tanto na obtenção de alguns destes atributos
fundamentalmente, a características de registro quanto com o intuito de organizar tais informa-
(e.g. número, nome, fonte bibliográfica etc.), ções nos agrupamentos sugeridos, ajudando a
forma (e.g. forma principal, área, diâmetro etc.) quantificar e qualificar a diversidade observa-
e localização (espacial e temporal – e.g. datas da, esses atributos foram dispostos e analisados
radiocarbônicas, coordenadas geográficas, re- a partir de um modelo de distribuição geográ-
gião de domínio ecológico etc.). Neste estudo, fica – convencionalmente chamado de SIG
no entanto, serão apresentados os resultados (Sistema de Informação Geográfica) –, criado
estatísticos referentes à análise de apenas cinco e gerido com o auxílio do software ArcGIS 9.0
desses atributos: (ESRI Corp.). As duas questões iniciais foram
Para a análise estatística propriamente então analisadas segundo métodos estatísticos
dita, foram selecionados 214 das estrutu- detalhados a seguir.

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Thiago Berlanga Trindade

TABELA 1

Atributos utilizados na análise estatística e apresentados neste trabalho


Atributo Medição Descrição
Forma - O atributo forma contou com 6 categorias distintas (Circular, Semicir-
cular, Elipsoide, Quadrangular, Retangular e Trapezoidal) agrupadas
em duas categorias mais amplas (circulares, para as três primeiras, e
quadrangulares, para as três últimas).

Área Metros Para calcular a área interna dos polígonos formados por cada uma das
quadrados estruturas foram utilizados os cálculos de área referentes a cada uma
das formas acima citadas.

Elevação Metros acima Para o cálculo da elevação foi utilizada a ferramenta ‘Extract values to
do nível do Mar points’ (Spatial Analyst toolbox) do software ArcGIS sobre um Mode-
lo Digital de Elevação (DEM, na sigla em inglês) distribuído pelo
Serviço Geológico dos Estados Unidos (United States Geological Survey
– USGS)1.
Distância ao Metros Para o cálculo da distância entre uma estrutura e seu vizinho mais
próximo próximo foi utilizada a ferramenta ‘Distance between points’ (do pacote
extra Hawths Tools) do software ArcGIS, utilizando-se das informações
sobre localização absoluta das estruturas (coordenadas geográficas)
para determinar as suas distâncias relativas.
Distância à água Metros Para medir a distância ao corpo hídrico perene mais próximo de cada
estrutura recorreu-se novamente à ferramenta ‘Distance between
points’ juntamente às informações sobre localização absoluta das estru-
turas. A informação sobre localização dos rios e córregos foi recolhida
do sítio eletrônico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE)2 em base hidrográfica com escala de 1:250.000.

Existe relação entre as características de im- trabalho, a autora elenca uma série de dados,
plantação geográfica destas estruturas? tais como os atributos relacionados acima, mas
também outros, como a especificação detalhada
Em dissertação de mestrado defendida da implantação geográfica (inclinação, relevo
em 2011, I. Rampanelli (Rampanelli et al. etc.) e a orientação cardeal das estruturas. Os
2012) apresenta uma detalhada quantificação dados obtidos pela autora são apresentados em
e qualificação de 254 estruturas encontradas médias aritméticas3 e expostos no quadro a se-
exclusivamente no estado do Acre – de um to- guir, de maneira comparada aos dados colhidos
tal de 291 registradas pela pesquisadora. Nesse pelo trabalho ora apresentado:

(1) Disponível em: http://earthexplorer.usgs.gov/ – Acesso


em 21 de novembro de 2012, mediante cadastramento.
(2) Disponível em: ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapeamento_ (3) Soma dos valores obtidos de todas as observações
sistematico/base_vetorial_continua_escala_250mil/ – de uma variável divido pelo número total de estruturas
Acesso em 18 de agosto de 2012 observadas para tal variável.

117

14272 book.indb 117 26/08/2015 10:59:35


TRINDADE, T. B. Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e locacional com o auxílio de SIG & métodos
estatísticos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

TABELA 2

Comparação entre as médias obtidas por


Rampanelli et al. (2012) e este trabalho4

Amostra Amostra Amostra


1 2 3

Área 17.491 17.649 23.049

Elevação 194,4 192,8 185,9

Distância ao próximo 2.807 2.506 2.425

Distância à água 724 2.051 2.130

Número de estruturas 256 178 214

Os números acima apontam para uma esta deve estar relacionada à impossibilidade de
realidade muito próxima no tocante aos ele- verificação visual de vários destes sítios median-
mentos área, elevação e distância ao próximo te imagens disponibilizadas pelas plataformas
para os sítios encontrados no Acre em ambos gratuitas, que nem sempre apresentam resolu-
os estudos, enquanto distância à água parece ção satisfatória.
apresentar uma diferença bastante significativa. O trabalho de Rampanelli traz ainda um
Esta diferença deve relacionar-se à precisão mapa com a distribuição dos sítios divididos
dos métodos utilizados: enquanto Rampanelli em “Polígonos de Thiessen”5 e os coeficientes
utiliza um modelo de elevação digital próprio de correlação6 entre as dimensões espaciais de
(DEM, em inglês) aliado à observação de cór- tais estruturas. Quanto aos graus de correlação,
regos através de inúmeros trabalhos de campo, o valor mais significativo apresentado pela
os dados apresentados por esta pesquisa foram autora (0,55) corresponde à correlação entre
colhidos a partir da base hidrográfica fornecida largura e profundidade da vala, o que significa
pelo IBGE, bem menos precisa. Enquanto a dizer que as valas mais largas são também mais
diferença observada quanto ao número de sítios profundas. Para o trabalho ora apresentado
verificados no estado do Acre (256 contra 178) também foram realizados testes de correlação

(5) Construção geométrica que permite a partição da área


de um plano euclidiano a partir de pontos predeterminados.
(4) Amostra 1: refere-se às estruturas encontradas (6) Mede o grau de correlação (e o sentido da correlação)
por Rampanelli et al. (2011) apenas para o estado do entre duas variáveis métricas tendo valor máximo de |1|.
Acre; Amostra 2 refere-se às estruturas encontradas Medido pelo coeficiente entre o desvio padrão (distância
por este trabalho apenas no estado do Acre; e Amostra média que os elementos de uma amostra se distanciam da
3 corresponde ao total de estruturas observadas neste média aritmética total da amostra) e a média aritmética de
trabalho. uma amostra.

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Thiago Berlanga Trindade

para os atributos verificados, tendo-se obtido maior do que o obtido por Rampanelli (-0,02),
os resultados abaixo: olhando apenas para estruturas encontradas
no estado do Acre. Enquanto isso, a variável
distância ao próximo parece obter os menores
TABELA 3 coeficientes, praticamente não se relacio-
nando às variáveis área (0,03) e distância ao
corpo hídrico (-0,07) – embora apresente uma
Coeficiente de correlação das razoável relação negativa quanto à variável
variáveis espaciais elevação (-0,27).
dist. dist.
elev.
próx. água
Existe relação entre as formas geométricas
área -0,336 0,027 0,143 apresentadas por estas estruturas e sua im-
elevação - -0,273 0,208 plantação geográfica?

dist. próx. - - -0,070


Como mencionado em trabalhos anteriores
(Pärssinen, Schaan & Ranzi 2009, Trindade
2010), tais estruturas em vala apresentam-se de
maneira bastante diversificada, indo desde for-
TABELA 4
mas muito precisas, sobrepostas ou interligadas
por outras estruturas, até estruturas bastante ir-
Coeficiente de determinação das regulares – e, em alguns casos, quase disformes.
variáveis espaciais No entanto, duas formas geométricas elementa-
res podem ser verificadas a partir da definição de
dist. dist.
elev. linhas curvas (i.e. formas predominantemente
próx. água
circulares: incluindo formas circulares precisas
área 0,113 0,001 0,020 e pouco precisas, além de elipses, semicírculos e
elevação - 0,075 0,043 semielipses) e linhas retas ou majoritariamente
retilíneas (i.e. formas predominantemente qua-
dist. próx. - - 0,005
drangulares: incluindo formas quadrangulares,
retangulares, trapezoidais e losangulares). Nesse
sentido, as formas mais comuns parecem ser
as circulares, correspondendo a cerca de 61%
Tais números mostram uma correlação
do total de estruturas observadas, enquanto as
pequena entre os elementos espaciais de uma
formas quadrangulares somam 38% – estruturas
forma geral (abaixo de 0,3) e coeficientes de
que apresentaram vala exclusivamente retilínea
determinação7 ainda menores. Nesse sentido,
(i.e. forma aberta, não poligonal) somam 1% do
a relação entre elevação e área parece ser a
total de estruturas observadas.
mais representativa, com um coeficiente nega-
Não há estruturas com formatos quadran-
tivo (ou seja, inversamente proporcional) no
gulares ou com linhas predominantemente
valor de 0,34 – o que significa dizer que quan-
retas em Rondônia ou na Bolívia e, ao menos
to mais elevada a localização de uma estrutura
aparentemente, estas parecem estabelecer-se
menor será sua área e vice-versa. Embora
preferencialmente na porção norte do estado do
pareça pouco significativo, este número é bem
Acre e sul do Amazonas, a partir de uma linha
meridional que passa próximo à capital Rio
Branco; e de forma mista – com a observação
de formas circulares e quadrangulares alterna-
(7) Indica em que medida uma variável é determinada
pela outra – resultado da potenciação do coeficiente de damente – na área de interflúvio entre os rios
determinação. Acre e Iquiri – relação já previamente observa-

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TRINDADE, T. B. Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e locacional com o auxílio de SIG & métodos
estatísticos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

Fig. 2. Exemplos de estruturas circulares: (C) circular, (E) elipsoide, (S) semicircular / semielipsoide8.

Fig. 3. Exemplos de estruturas quadrangulares: (Q) quadrangular, (R) retangular, (T) trapezoidal9.

da por Pärssinen, Schaan & Ranzi 2009, bem quanto aos quatro atributos supracitados. A
como por Rampanelli et al. 2012. hipótese nula testada foi de semelhança entre
Para testar estes dois tipos de agrupamen- os pares de atributos das categorias mencio-
tos (estruturas de forma predominantemente nadas (i.e., para cada atributo, H0 circular
circular e estruturas de forma predominante- = quadrangular), tendo sido realizado teste
mente quandrangular) lançou-se mão do teste bicaudal com nível de confiança de 95% e grau
paramétrico conhecido como teste t de Stu- de liberdade estipulado em 200). A análise es-
dent, que permite a análise comparada entre as tatística foi realizada com o auxílio do software
médias obtidas para pares de variáveis métricas PASW Statistics 17.0 (SSPS Inc.) e apresentou
contínuas – neste caso, a partir de informações os seguintes resultados:

(8) C (sítio Faz. Colorada), E (sítio Riozinho do Rola),


S (sítio Eletronorte) – todos encontrados no Acre.
(9) Q (sítio Sapucaí), R (sítio Aeroporto), T (sítio
Nascentes do Quinauá) – todos encontrados no Acre.

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Thiago Berlanga Trindade

TABELA 5

Médias aritméticas e resultados do teste t, de Student, para os


conjuntos morfológicos circulares e quadrangulares
circular quadr. valor t signif.
Área 23.174,8 22.849,5 0,102 sim
Elevação 188,6 181,6 1,712 sim
Distância ao próximo 2,3 2,6 -0,687 sim
Distância à água 2,4 1,7 4,427 não
Número de estruturas 131 83 - -
Percentual 61,2 % 38,8 % - -

Sendo t o valor da diferença entre as Conclusões


médias obtidas para cada atributo e p o valor
máximo permitido para significância estatística, O levantamento geral das estruturas
na tabela acima, um valor t elevado significa estudadas aliada à análise estatística levou às
maior probabilidade de que a diferença na dis- seguintes conclusões:
persão dos elementos dentro de cada categoria
• De forma geral, não existe deter-
não tenha ocorrido ao acaso e “sim” (i.e. t < p)
minação entre os atributos físicos
corresponde a uma resposta afirmativa quanto à
testados (área, elevação, distância
significância estatística da hipótese nula testada
ao próximo e distância à água) para
(i.e. os atributos assim classificados apresentam
as estruturas estudadas;
média geral significativamente semelhante para
o agrupamento proposto). As médias obtidas • Também de forma geral existe pouca
desta maneira mostram que ambas as categorias correlação entre os atributos físicos
(circular e quadrangular) são bastante seme- acima citados – com um pequeno
lhantes na maioria dos atributos, com exceção destaque para a correlação negativa
apenas quanto à distância ao corpo hídrico. entre elevação/área (-0,34) e eleva-
Neste caso, “sim”, é o mesmo que dizer que há ção/distância ao próximo (-0,27).
uma confiança de 95% ou mais em se afirmar • Entre os quatro atributos físicos
que a diferença entre os pares de atributos testados neste estudo, apenas há
decorre simplesmente do acaso – de maneira distinção estatisticamente significante
ainda mais simplista, é dizer que para os três para o agrupamento de estruturas que
primeiros atributos testados o agrupamento pro- apresentam forma predominantemen-
posto entre estruturas circulares e quadrangu- te circular e aquelas que apresentam
lares não apresenta diferenças estatisticamente forma predominantemente quadran-
significantes. gular no tocante à distância à água.

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TRINDADE, T. B. Geoglifos, zanjas & earthworks: Caracterização morfológica e locacional com o auxílio de SIG & métodos
estatísticos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

TRINDADE, T. B. Geoglyphs, zanjas & earthworks: Morphological and locational ca-


racterization with GIS & statistics. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 115-122, 2015.

Abstract: This work brings the results of a bibliographical survey for


archaeological sites called “geoglifos” (a.k.a “zanjas circundantes”, “ditches”
or “earthworks”), found extensively in the southwest of the Amazon basin. It
also presents the data of four physical attributes (area, elevation, distance to
neighbor and distance to water) acquired for each known structure and the
statistical difference between them by grouping the structures in predominan-
tly circular shapes and predominantly square shapes.

Keywords: Geoglyphs – GIS – Statistics

Referências bibliográficas

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Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG): Análise Preliminar*

Rodrigo Lessa Costa**

COSTA, R.L. Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG): Análise Preliminar.


Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 123-129,
2015.

Resumo: Devido às condições ambientais, materiais perecíveis como


cestos, cordas e roupas quase não se preservaram em sítios arqueológicos
brasileiros. Os poucos materiais resgatados têm sido preteridos pelos pesqui-
sadores que optaram por estudar extensivamente as tecnologias comumente
encontradas: cerâmica e líticos. Todavia, na Gruta do Gentio (MG) foram
encontrados fragmentos de corda e cestos. Esta pesquisa trata de uma análise
preliminar de seis fragmentos resgatados neste sitio e que apresentavam con-
dições mínimas de conservação.

Palavras-chave: Arqueologia Mineira – Artefatos Perecíveis – Cestaria.

Introdução do por conta das condições climáticas pouco


propensas à sua preservação. Grande parte das

O estudo de objetos trançados em


fibras vegetais, também denominados
cestarias, tem sido posto à margem da pes-
ocorrências de cestarias e demais têxteis no
Brasil ocorre em abrigos rochosos secos. De-
terminados sítios espalhados pelo Brasil, como
quisa arqueológica no Brasil. Como chamou a Gruta do Gentio, em Minas Gerais, graças à
a atenção Adovasio (1977), os pesquisadores proteção de camadas calcárias, conservaram
têm apenas relatado a existência e admirado a alguns desses vestígios.
sua beleza. Contudo, logo após a sua descober-
ta, esses materiais têm sido “esquecidos” nas
reservas técnicas dos museus. Isso se deve à A Gruta do Gentio
maior atenção dispensada a outras tecnologias
pré-históricas, como a confecção de cerâmicas e Na cidade de Unaí, no Oeste mineiro, foi
sistemas de redução de artefatos líticos. escavado durante as décadas de 1970 e 1980
Vestígios de objetos de cestaria são escassos um importante abrigo calcário com 2,5 km de
em sítios arqueológicos brasileiros, sobretu- extensão, a Gruta do Gentio. Lá foram encon-
trados dezenas de sepultamentos primários e
secundários, entre eles um jovem indivíduo
(*) Este texto apresenta parte da pesquisa de doutorado do mumificado envolvido em tecidos, faixas e pele
autor desenvolvida sob orientação da Dra. Tania Andrade de cervídeo, além de dezenas de sepultamentos
Lima, no Museu Nacional – UFRJ.
(Dias Júnior 1993).
(**) Professor do Colegiado de Arqueologia da UNIVASF.
Doutorando do Museu Nacional – UFRJ. Aparentemente, o sítio teve duas longas
rodrigolessa2@ig.com.br ocupações, embora não seja descartado que

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COSTA, R.L. Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG): Análise Preliminar. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 123-129, 2015.

sua principal função tenha sido a de cemitério, não haver nenhum espaçamento entre as linhas
sobretudo na segunda ocupação. O quadro da trama, de modo a ocultar totalmente os
cronológico traçado para este sítio situa a ocu- elementos da urdidura, o que seria um trançado
pação mais recente entre 1.000 e 3.500 AP e a torcido fechado. Por último, a técnica torcida
mais antiga, dividida em três camadas, distribui- pode ser executada na variedade simples, onde
-se da seguinte forma: Camada II – entre 5.350 um elemento da urdidura é engajado em cada
e 6.250 A.C; camada III – entre 6.945 e 8.090 cruzamento da trama e todas as linhas da trama
A.C; e camada IV – 8.245 A.C. engajam da mesma forma. Os elementos da
Dentre uma série de materiais perecíveis trama aparecem paralelamente, lado a lado.
que se preservaram na Gruta do Gentio desta- Na variedade torcida em diagonal, um par de
cam-se pelo menos seis fragmentos de cestarias elementos da urdidura é engajado alternada-
que apresentam integridade suficiente para mente em cada cruzamento da trama, criando
permitir uma análise tecnológica. A coleção um efeito diagonal na superfície. A partir da
de cestarias do Gentio possui ainda pequenos identificação e combinação destas quatro
conjuntos de palhas desagregadas, porém, como propriedades na estrutura da peça, se consti-
estas não apresentam trançados, e, consequen- tuem as classes da taxonomia estabelecida por
temente, os atributos exigidos pela metodologia Adovasio (1977). Logo os seguintes “tipos” são
abordada, foram desconsiderados para efeitos enumerados: torcido aberto em “S”; torcido
de análise. aberto em “Z”; torcido fechado em “S”; torcido
Infelizmente, grande parte das etiquetas fechado em “Z”, e assim por diante. Uma última
que continham registros de proveniência exata variação para a técnica torcida, que Adovasio
foi perdida, o que dificulta inferências que (1977:16) considera uma subclasse do torcido
relacionem espaço e função/técnica, sendo simples, é o torcido com urdiduras cruzadas, no
assim, trabalhamos apenas com as indicações qual dois elementos da urdidura se sobrepõem
de Dias Júnior (pesquisador que coordenou transversalmente formando um “X” enquanto
a escavação), de que todos os fragmentos de são cruzados por linhas de trama espaçadas
cestaria encontravam-se na camada I e estavam (Fig. 1).
associados a enterramentos. Outros atributos também são relaciona-
dos por Adovasio, embora ocupem um papel
secundário na classificação, logo, como esta
Metodologia se trata de uma caracterização preliminar, não
foram considerados. São eles: tipos de emenda
De acordo com Adovasio (1977), todos na trama e na urdidura, decoração, reparos e
os objetos confeccionados a partir do entrela- flexibilidade. Para efeitos de classificação, é
çamento de fibras vegetais se agrupam em três considerada a parede ou corpo da peça que cor-
grandes classes: torcido (twined), costurado responde à parte principal da mesma. Todavia,
(coiled) e cruzado (plaited). outras partes como centro e borda ou arremate
A técnica torcida consiste da sobreposição (selvage) – são importantes em descrições mais
de elementos ativos denominados de trama, aprofundadas de cestarias. Basicamente, no
horizontalmente dispostos, a elementos pas- arremate (que geralmente ocorre em objetos
sivos denominados urdidura, que se dispõem bidimensionais, por exemplo, esteiras e abanos)
no sentido vertical. De acordo com Hurley ou borda (objetos tridimensionais, como cestos
(1979), o movimento da torção pode ser feito e bolsas) as linhas da urdidura podem ser corta-
da direita para a esquerda, também chamado das, dobradas ou reinseridas no corpo da peça
de torção em “S” ou da esquerda para a direita, e trançadas (quando dois ou mais elementos
também chamado de torção em “Z”. Pode haver são unidos e trançados, em geral terminando
espaçamento entre as linhas de trama, de modo em nós). Ribeiro (1987:71) representa vários
a deixar visíveis os elementos da urdidura, outros tipos de arremate ou borda, sobretudo
representando um trançado torcido aberto, ou para cestos e peneiras, onde outros elementos

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Rodrigo Lessa Costa

Fig. 1. Diferentes tipos de torcido: a) torcido simples fechado em “Z”; b) torcido simples aberto em “Z”;
c) torcido diagonal fechado em “Z”; d) torcido com urdiduras cruzadas. (Fotos: Rodrigo Lessa – coleção
de referência R.L. Andrews Center for Perishable Analysis – Mercyhurst University).

podem ser inseridos na estrutura como um ou longo da peça. Os padrões mais comuns são 1/1,
múltiplos aros, em geral, enlaçados pelos ele- ou seja, os elementos se sobrepõem num inter-
mentos da estrutura do corpo da peça. Alguns valo de uma vez por cima e uma vez por baixo,
dos acabamentos mostrados por Ribeiro (op.cit) e 2/2, ou sarjado (twill), onde a sobreposição
ocorrem tanto para artefatos torcidos quanto formada produz um efeito diagonal na peça.
para artefatos cruzados. Não necessariamente o padrão se repete por
A técnica costurada (coiled) refere-se ao todo o objeto, há variações e elementos de cores
procedimento onde um fio (stitch) envolve uma diferentes os quais podem ser utilizados forman-
estrutura fixa ou suporte com ajuda de uma do padrões gráficos que simulam a aparência
agulha. Ao contrário do torcido, o elemento de animais, por exemplo. Berta Ribeiro (1987)
vertical é o elemento passivo e o horizontal é chama essa técnica de marchetado.
o ativo. Trata-se de uma técnica relativamente
mais recente e que não está representada no
corpo dos artefatos descritos da Gruta do Gen- Resultados
tio, apenas em alguns arremates.
A técnica denominada cruzada (plaited) de Artefatos torcidos
forma similar ao torcido acontece pela sobreposi-
ção de elementos, no entanto, não há elementos Tipo1: Torcido diagonal fechado em “S”
passivos ou ativos como no torcido. Num objeto Número de espécies: 1
ou fragmento acabado é impossível observar a Descrição das espécies: Pequeno fragmen-
ordem de sobreposição dos diferentes elementos. to com trama sobre urdiduras em formato de
A classificação para essa técnica é pautada no corda. Dois elementos da urdidura são protu-
padrão de sobreposições que se desenvolve ao berantes, como algum tipo de alça ou presilha.

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COSTA, R.L. Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG): Análise Preliminar. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 123-129, 2015.

A peça exibe um autoarremate lateral onde o No arremate lateral é difícil visualizar a mesma
elemento é simplesmente dobrado e novamente haste e aparentemente apenas o autoarrema-
inserido no trançado. Não há emendas visíveis, te em 90o ocorre. Possui algumas variações
nem decoração. A matéria-prima é bastante acidentais 2/3/2. Outra espécie possui também
macia e se divide em vários fios tratando-se, autoarremate lateral e final. E a terceira espécie
provavelmente, de algum tipo de planta das não possui arremates. As faixas possuem entre
famílias Poacea ou Bromeliaceae (Figura 2). 0.5 e 1.0 cm (Fig. 2).
Número de formas individuais: 1 – sandália (?) Número de formas individuais: esteiras (2)
Tipo 1.1: Torcido diagonal fechado em “S”/ Tipo 3 – Cruzado 3/3
Cruzado simples 1/1 Número de espécies: 1
Número de espécies: 1 Descrição das espécies: utensílio trançado
Descrição das espécies: Apenas alguns sobre folhas de palmeira in natura com alça de
elementos da urdidura aparecem acidental- corda. Os elementos são engajados num inter-
mente ou devido ao desgaste da peça. Trama valo de 3 faixas acima e 3 faixas abaixo. Possui
e urdidura não são cordadas e aparentemente arremate costurado (coiled) e espaçamento de
são compostas de diferentes matérias-primas, média de 1 cm entre cada elemento (Fig. 2).
enquanto a urdidura é de algum tipo de palha, Número de formas individuais: cesto bolsi-
a trama é feita da mesma matéria-prima macia forme.
do tipo 1 (Poacea ou Bromeliaceae). Na trama
ocorre uma emenda do tipo presa sem laço
ou nó (laid-in). Emendas na urdidura não são Discussão e considerações
visíveis. O objeto tem uma orientação que
poderia indicar um formato circular. Uma Foram observadas e descritas seis peças
pequena parte do fragmento é confeccionada coletadas na escavação da Gruta do Gentio.
com a técnica cruzada simples 1/1, pelo menos Devido às diversas transformações a que se
três dos elementos cruzados se transformam em submete a fibra no momento da confecção do
elementos da urdidura na parte trançada do cesto, como a descorticagem e aplicações de
fragmento. Não há qualquer tipo de decoração, resinas, a identificação da matéria-prima com
e o fragmento encontra-se bastante desgasta- base na observação direta é impraticável. Algu-
do (Fig. 2). Possui etiqueta que o associa ao mas plantas, como a palmeira – ouricuri (Sya-
“enterramento 22”. grus coronata), pertencente à família Arecaceae,
e plantas das famílias Poaceae e Bromeliaceae,
Artefatos cruzados podem ser relacionadas como possíveis maté-
rias-primas para as cestarias do Gentio, uma
Tipo 2 – Cruzado 2/2 (Sarjado) vez que são matérias-primas recorrentemente
Número de espécies: 3 utilizadas em outros sítios brasileiros (ver, por
Descrição das espécies: Artefatos rígidos exemplo, Lima 2012).
com padrão de engajamento de 2 elementos Os artefatos podem ter sofrido processos
acima e 2 elementos abaixo. Uma das pe- deposicionais, como achatamentos provocados
ças apresenta algumas variações (2/3/2) que pelo peso do sedimento depositado na camada
parecem corrigir a orientação da estrutura do que os sobrepunha, dificultando a identifica-
trançado. Duas espécies possuem arremates. ção definitiva das formas dos objetos. Todavia,
Uma destas possui um fragmento do arremate a única espécie relacionada ao tipo 3 apre-
lateral e o arremate final em toda a extensão senta uma forma semelhante ao que Ribeiro
do inferior da peça. No arremate final ocorre (1988) descreveu como “cesto bornaliforme”,
uma combinação de costurado (coiled selva- o qual, segundo definição da autora, seria:
ge) com autoarremate onde os elementos são Cesto-recipiente e/ou cargueiro em forma
dobrados em 90o envolvendo uma haste (rod) de bornal. Feito geralmente de duas folhas
e posteriormente reinseridos no corpo da peça. flabeliformes com o respectivo pecíolo da

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Rodrigo Lessa Costa

Fig. 2. Tipologia das cestarias da Gruta do Gentio.

palmeira-buriti. Apresenta-se bojudo de varia- fragmento com 10 x 6 cm e pequenas “alças”


dos tamanhos. Usado para guardar e transpor- ou presilhas de cerca um centímetro, algumas
tar provisões, implementos etc. (Os Xavante hipóteses podem ser levantadas. A primeira é
empregam-no também como berço) (Ribeiro, que se trataria de um fragmento de sandália,
1988:45). hipótese esta reforçada por algumas ilustra-
É possível constatar que a referida peça é ções famosas de grupos Tapuias e Cariris de
confeccionada a partir do entrelaçamento de Debret e Albert Eckhout nas quais a figura
duas folhas de Arecaceae (embora não saiba se representada aparece fazendo uso de sandá-
as folhas são de buriti, como na descrição de lias. Por outro lado, poderia se tratar ainda de
Ribeiro). Como relatado na descrição da peça, uma parte de um adorno maior ao qual estava
a mesma possui um espaçamento hexagonal de preso pelas pequenas alças ou presilhas que
em média 1 cm, que poderia dificultar a arma- possui, ou que seria algum tipo de brinquedo
zenagem e transporte de determinadas provi- ou objeto lúdico, mas que dificilmente teria
sões, sobretudo grãos ou frutas muito pequenas. sido confeccionado por uma criança, pois
Com relação ao uso como berço do utensílio, seria necessária grande habilidade na técnica
como se dava entre os Xavantes, acredito ser para executar um trançado bem feito num
pouco provável devido ao pequeno tamanho e objeto tão pequeno.
fragilidade do objeto. A busca por continuidades na longa
A mesma forma é confeccionada ainda duração tem importantes limitações, sobretudo
para espécies fabricadas por grupos indígenas no contexto brasileiro onde o período pós-
atuais, como o cesto baquité representado na -colonização trouxe malefícios tão devastado-
Figura 3. res, diminuiu consideravelmente as populações
Por último, sobre a única espécie refe- nativas, desmantelou ideologias e culturas.
rente ao tipo 1 que se trata de um pequeno Entende-se quão arriscado é fazer correlações

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COSTA, R.L. Artefatos Trançados da Gruta do Gentio (MG): Análise Preliminar. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 123-129, 2015.

Fig. 3. Cesto bornaliforme recente (Fonte: http://cana-acucar.blogspot.com.br/).

de nível linguístico, como as propostas por arqueológicos é necessário um estudo mais


Ribeiro (1987), uma vez que uma parte desses aprofundado e ao mesmo tempo extensivo que
grupos tinha intensa movimentação e fronteiras envolva outros sítios e também estudos etnoar-
territoriais bem mais fluidas do que a concepção queológicos, que podem mostrar em detalhes a
ocidental. Para fazer generalizações que envol- execução de técnicas de trançado e não apenas
vam essas relações linguísticas e os vestígios o objeto acabado.

COSTA, R.L.Basketry Artifacts from Gruta do Gentio Site (MG): A Preliminary


Analysis. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20:
123-129, 2015.

Abstract: Because of environmental conditions perishables like baskets,


cords and clothes almost haven’t kept it preserved in Brazilian archaeological
sites. The few recovered basketry have been ignored by researchers. They
chose more common artifacts such as ceramics and lithics to study deeply.
However, in Gruta do Gentio Site (MG) were find strings and baskets shre-
ds. This research intends to do a preliminary analysis of six more preserved
recovered artifacts.

Keywords: Archeology of Minas Gerais – Perishables – Basketry.

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Rodrigo Lessa Costa

Referências bibliográficas

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Uso de banco de dados e SIG na pesquisa arqueológica: Investigando a
construção da paisagem por meio dos santuários do mundo grego

Regina H. Rezende*

REZENDE, R. H. Uso de banco de dados e SIG na pesquisa arqueológica: Investigan-


do a construção da paisagem por meio dos santuários do mundo grego. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 131-137, 2015.

Resumo: Esta comunicação busca apresentar de que maneira as ferramen-


tas de banco de dados e SIG foram usadas como mecanismos de sistematiza-
ção e apresentação das informações coletadas em nossa pesquisa de doutora-
do, em que estudamos as estruturas usadas pelos gregos na antiguidade para
o culto às divindades: os santuários. Nossa investigação se concentrou nos
santuários estabelecidos nas pólis que ocuparam territórios da Sicília e Magna
Grécia entre os séculos VII e IV a.C., abrangendo os períodos arcaico e clássi-
co da história dessa civilização. Procuramos colocar na pauta da discussão as
dificuldades enfrentadas, bem como as vantagens e desvantagens da escolha
dos métodos adotados para a investigação arqueológica no estudo de caso
apresentado.

Palavras-chave: SIG – Banco de dados – Santuários – Grécia Ocidental

N ossa proposta é apresentar de que ma-


neira usamos as ferramentas tecnoló-
gicas – alguns softwares – em nossa pesquisa de
dente: organização física e inserção de estrutu-
ras de culto no espaço”, e a sua proposta:
“Realizamos um levantamento e um
doutorado para sistematizar o corpus documen-
estudo dos vestígios de santuários construí-
tal e produzir material gráfico que nos auxiliasse
na interpretação do conjunto de dados reunido. dos nas apoikias do Ocidente, analisando
Antes de abordar o tema desta comunica- aspectos referentes à sua organização física
ção gostaríamos de fazer uma breve introdução e inserção no espaço urbano e no território
do nosso projeto de pesquisa para a realização ligado a ele para, a partir daí, procurar
da tese de doutorado, recém-finalizado. Foram entender a relação do culto religioso com
as questões suscitadas no decorrer desse traba- esse espaço construído. O período estudado
lho que nos levaram a fazer uso das ferramentas compreende o intervalo entre os séculos VII
tecnológicas para o seu desenvolvimento. Seu e III a.C., quando identificamos movimen-
título foi “Os santuários nas apoikias do Oci- tos de expansão e retração na frequentação
das áreas sacras estudadas. A compreensão
em profundidade da dinâmica de instalação
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de
São Paulo. Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga e uso desses santuários nos proporcio-
(LABECA), bolsista Fapesp. reginahr@usp.br nou um melhor entendimento de como a

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REZENDE, R. H. Uso de banco de dados e SIG na pesquisa arqueológica: Investigando a construção da paisagem por meio
dos santuários do mundo grego. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 131-137, 2015.

sociedade grega estruturava a religião no te determinado destinado ao deus ou ao herói,


espaço e como esses lugares serviam como isolado do espaço dos homens. Os vestígios
mecanismos políticos de posse e controle do materiais ligados ao culto religioso e que acu-
território, usados pelos gregos para se esta- sam a existência de um santuário são: o templo,
belecerem nessas novas áreas já ocupadas o altar, a estátua de culto e os depósitos votivos
por populações autóctones ou por gregos (de oferendas) (Rezende 2013: 11).
provenientes de outras regiões” (Rezende Os softwares utilizados para se trabalhar
2013: I). os dados levantados foram: o FileMaker, para a
elaboração do banco de dados, o Quantum GIS
Antes de prosseguir, cabem aqui alguns
– software de SIG – para a elaboração de mapas
esclarecimentos sobre termos importantes
e o Excel, na elaboração de gráficos e tabelas a
utilizados, uma vez que o público não é neces-
partir dos dados reunidos no banco de dados.
sariamente conhecedor do assunto:
O FileMaker é o software utilizado pelo
Apoikia: cidade fundada por grupo de imi-
Labeca – Laboratório de estudos sobre a a cidade
grantes gregos, sobretudo a partir do século VIII
antiga – desde 2007 para a organização de dados.
a.C. As apoikias mantinham relação religiosa e
Já tínhamos uma experiência na utilização desse
moral com as cidades que as haviam fundado,
programa por conta do trabalho dentro do labo-
mas eram completamente independentes do
ratório. Portanto, a escolha por esse programa
ponto de vista político e econômico1.
para organizar os dados veio de uma experiência
Apoikia vem do verbo em grego apoikízo,
anterior na utilização desse software e pela possi-
que indica o ato de se separar. É uma nova pólis
bilidade de disponibilização do catálogo produzi-
que nasce a partir do destacamento, da sepa-
do para consulta dentro do laboratório.
ração de um grupo de cidadãos de sua pólis de
Além disso, o FileMaker é um software de
origem. Uso o termo apoikia para essas cidades
banco de dados que apresenta algumas van-
e não colônias porque ele define melhor a situa-
tagens em relação a outros programas da sua
ção desses estabelecimentos. No termo colônia,
categoria, destacamos duas delas aqui: a primeira
a dependência da primeira em relação à cidade
é que ele possui uma estrutura de fácil com-
de referência já está colocado desde o início, e
preensão e utilização e a segunda vantagem é a
não é esse o caso dessas pólis.
facilidade com que conseguimos inserir imagens
Pólis: cidade; comunidade dos cidadãos que
na ficha de dados. Com ele foi possível criar
se distribui no espaço sobre o qual é soberana
com facilidade a ficha de dados. Ele também se
politicamente e no interior do qual distinguem-
mostrou eficiente para visualizar e buscar dados
-se uma área habitacional principal (ásty) e
específicos, bem como para exportar os dados
o território (khóra), sede das atividades pro-
reunidos em tabelas que puderam ser usadas
dutivas primárias (aquelas agrárias). Na pólis,
tanto para a produção de mapas em GIS quanto
cidade e território são compartilhados pelos
para a criação de gráficos no Excel. Procuramos
cidadãos livres e suas famílias, pelos escravos e
criar no FileMaker, ainda no início da pesquisa,
pelos estrangeiros2.
uma ficha descritiva que reunisse e sistematizasse
Enfim, pólis é o termo adotado pelos pesqui-
as informações que conseguimos reunir a respei-
sadores do Labeca para denominar a cidade
to dos santuários estudados. Os campos da ficha
grega, com suas características e especificidades.
de dados foram criados de maneira a organizar
– Santuário: espaço construído destinado
as informações a respeito dessas estruturas que
ao culto religioso. No mundo grego este espaço
fossem relevantes para a nossa pesquisa. Ao final
encerra um terreno sagrado, o témeno, um limi-
da pesquisa reunimos 219 santuários nesse banco
de dados, distribuídos em 27 apoikias, onde 15
localizam-se na Sicília e 12 na Magna Grécia.
Nesse projeto uma parte do tempo dedica-
(1) Definição retirada do glossário do Labeca, disponível
em: www.labeca.mae.usp.br, aba glossário. do à pesquisa foi investido no estudo e treina-
(2) Idem. mento para uso de ferramentas de GIS (Geo-

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Regina H. Rezende

graphic Information Systems), ou em português Inventory of Archaic and Classical Poleis, onde a
SIG – Sistemas de Informação Geográfica, e referência adotada foi o The Barrington Atlas of
também na formatação e adaptação do seu uso the Greek and Roman World, editado por R. J. A.
a partir do corpo documental já consolidado. Talbert (cf. Princeton 2000; Hansen & Niel-
O trabalho com o SIG foi realizado em vá- sen 2004: 6-7). A adoção de coordenadas em
rias etapas, a primeira delas foi a escolha de um latitude e longitude em número decimal exigiu
software compatível com a plataforma Machin- que convertêssemos as coordenadas levantadas
tosh (Mac), que foi a plataforma que usamos no em campo, onde adotamos latitude e longitude
desenvolvimento desse projeto em função de expressas em graus, minutos e segundos para
sua ligação com o Labeca, que adotou o sistema número decimal (Rezende 2013: 46). Para o
Mac em sua estrutura em função de diversas sul da Itália, as coordenadas dos santuários
demandas que não nos cabe aqui detalhar. Sen- que não foram visitados in loco foram levanta-
do assim, o uso do ArcView (ESRI), o software das com o auxílio do Google Earth, e estavam
de SIG tradicionalmente utilizado nas referên- anotadas como no GPS, em latitude e longitude
cias que consultamos a esse respeito, e entre expressas em graus, minutos e segundos.
elas destacamos Pellini (2005), Veronese (2006) As informações sobre muitos dos santuários
e Weathley & Gillings (2002), não foi a nossa da Sicília que não foram visitados e que são
escolha por ser um programa que funciona ape- apresentados no nosso repertório provêm da
nas em ambiente Windows. Apesar do ArcView obra Lo Spazio e la Dimensione del Sacro (2006),
ser um programa mais completo, que apresenta onde a autora Francesca Veronese utiliza o
melhor usabilidade e oferece uma ampla gama sistema UTM (Universal Transversa de Mer-
de mapas, optamos por adotar o programa cator), pois essa autora utiliza como fonte para
Quantum GIS para a realização do trabalho em seus mapas o sistema cartográfico usado pelo
SIG na nossa pesquisa. Essa escolha foi emba- governo italiano, que adota esse mesmo sistema
sada em vários aspectos, entre eles destacamos de coordenadas. Esse sistema UTM emprega-
a possibilidade de usar esse software em plata- do por Veronese usa a projeção planificada do
forma Mac e o fato deste ser um software “open globo terrestre, o que pode gerar diferenças na
source”, portanto, sua licença de uso é gratuita. conversão das medidas para outros sistemas
Apesar do Quantum GIS apresentar algumas métricos. Para a compatibilização do sistema
desvantagens em relação ao ArcView, tais como usado por Veronese ao sistema de coordenadas
disponibilidade de mapas mais restrita e uma que adotamos, permitindo assim o seu uso na
complexidade maior na execução de certas fun- nossa produção em SIG foi necessária a utiliza-
ções, foi um programa que atendeu plenamente ção de um método trigonométrico na conversão
às nossas expectativas para o uso que fizemos de coordenadas UTM para latitude e longitude,
dele nesse projeto (Rezende 2013: 45). portanto, esse não foi um processo tão simples
Uma vez escolhido o software de SIG a e direto quanto o que usamos para a conversão
ser utilizado, havia a necessidade de definir o de latitude e longitude de graus para unidades
sistema de coordenadas a ser usado, pois os da- decimais. Para isso usamos uma fórmula de con-
dos levantados a respeito dos santuários gregos versão de unidades (Dutch 2012). A adoção
estudados nessa tese apresentavam o uso de dessa fórmula apresentou uma margem de erro
diferentes sistemas de coordenadas. Adotamos de aproximadamente 200 m, que consideramos
o sistema de coordenadas de latitude e longi- aceitável para a escala que adotamos na produ-
tude, expressas em número decimal, por ser ção dos nossos mapas (Rezende 2013: 46-47).
um sistema simples e bastante utilizado como Com o software SIG intencionamos
padrão no Quantum GIS e em aplicativos de produzir alguns mapas e aqui apresentamos
grande escala, como o GoogleMaps, por exem- dois exemplos do que foi produzido: um mapa
plo. Esse é o sistema de coordenadas adotado, de localização das pólis estudadas, e um mapa
por exemplo, por Hansen, para identificar a pontuando os santuários de uma das regiões
localização das pólis no globo terrestre em seu estudadas: a Sicília (Figs. 1 e 2).

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REZENDE, R. H. Uso de banco de dados e SIG na pesquisa arqueológica: Investigando a construção da paisagem por meio
dos santuários do mundo grego. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 131-137, 2015.

Fig. 1. Mapa de localização das pólis pesquisadas3 (Rezende 2013: Pr. I).

Fig. 2. Mapa dos santuários estudados na Sicília4 (Rezende 2013).

(3) A imagem original é colorida e parte integrante de


nossa tese.
(4) Idem

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Regina H. Rezende

O uso de software SIG possibilita a organi- de análises a partir do nosso objeto de estudo e
zação dos dados em vários níveis de informação que dentro do sistema de informação geográfica
e em várias escalas. A partir de um conjunto de podemos posteriormente trabalhar com outras
informações reunidas e inseridas em um sof- escalas, como as escalas regionais e escala do
tware SIG é possível, dependendo da acurácia território das apoikias. Enfim, uma vez que as in-
dos dados, visualizá-la tanto em uma escala do formações já estão inseridas no programa temos
território quanto na escala do lugar. No caso da a possibilidade de fazer análises mais detalhadas
nossa tese usamos o SIG de maneira introdu- sobre o território ocupado pelos gregos nessa re-
tória, mas mesmo assim foi possível perceber a gião, sua relação com outros grupos, as apoikias
grande capacidade que esse tipo de ferramenta e os santuários que nela foram criados.
tecnológica tem de processar a informação que Com a organização das informações a res-
nela foi inserida. Dessa maneira inserimos os peito dos santuários estudados em nossa pesquisa
dados reunidos no banco de dados que havia em um banco de dados foi possível a criação de
sido elaborado no início de nossa pesquisa no tabelas e gráficos no Excel, o que auxiliou na
FileMaker, tomando o cuidado de compatibilizar interpretação dos dados e embasou a construção
algumas informações, como, por exemplo, as de nossas análises sobre o nosso objeto de estu-
coordenadas, conforme mencionamos anterior- do. Apresentamos aqui, a título de exemplo do
mente, para sua inserção no programa de SIG que nos foi possível fazer com o Excel, um gráfico
adotado, o Quantum GIS. A partir desses dados que relaciona a atribuição às divindades gregas
produzimos mapas em grande escala, na escala com as duas áreas de ocupação grega escolhidas
do território. O que percebemos ao final do para o estudo: Magna Grécia e Sicília (Fig. 3).
projeto é que os nossos dados sobre os santuá- Trabalhar com esse tipo de informação sistema-
rios gregos, uma vez inseridos no programa de tizada em um gráfico nos auxiliou a encaminhar
SIG, nos permitem realizar uma ampla gama algumas de nossas conclusões na tese.

Fig. 3. Exemplo de gráfico gerado na pesquisa a partir do uso do Excel5 (Rezende 2013).

(5) Idem

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REZENDE, R. H. Uso de banco de dados e SIG na pesquisa arqueológica: Investigando a construção da paisagem por meio
dos santuários do mundo grego. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 131-137, 2015.

Ao final da pesquisa, a opção de lançar tipo de tecnologia exigiu de nós a dedicação de


mão desses diferentes softwares – o FileMaker, um tempo importante para pesquisa e apren-
o Quantum GIS e o Excel – na sistematização e dizado na nova ferramenta que não estavam
análise das informações levantadas mostrou-se diretamente relacionados à temática da pesqui-
realmente útil e de extrema importância para sa proposta para a tese.
o encaminhamento de nossas interpretações Gostaríamos, para finalizar, destacar que
a respeito da temática estudada. Esta opção a experiência no uso de todas as ferramentas
pessoal por usar diferentes ferramentas tecno- tecnológicas elencadas nessa breve apresenta-
lógicas em alguns momentos não apresentou ção nos mostrou a importância de sistematizar
dificuldade, como no caso do uso do FileMaker, o dado arqueológico em estado bruto. No nosso
pois já tínhamos uma experiência prévia no uso entender, a sistematização dos dados com o
desse programa no Labeca, e também do Excel, uso desses programas é essencial em estudos de
programa que usamos para gerar gráficos a par- arqueologia, pois isso nos permitiu elaborar uma
tir do catálogo organizado na nossa dissertação interpretação bem embasada de nosso objeto
de mestrado (Rezende 2008), porém, em outros de estudo: os santuários das apoikias da Magna
momentos, como no uso do software de SIG, foi Grécia e Sicília, apoiada em um corpus docu-
mais penosa, no sentido que optar por usar esse mental bem organizado e documentado.

REZENDE, R. H. Use of database and GIS in archaeological research: Investigating the


construction of the landscape through the sanctuaries of the Greek world. Revista
do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 131-137, 2015.

Abstract: This paper aims to present how the tools of database and GIS
were used as mechanisms of systematization and presentation of information
collected in our research for the realization of the PhD thesis, in which we
study the structures used by Greeks in antiquity for the worship of deities: the
sanctuaries. Our research concentrated on the sanctuaries established in the
territory of the polis that occupied Sicily and Magna Grecia between the VII
and VI centuries BC, covering the archaic and classical periods of the history
of civilization. We were looking to put on the agenda for discussion the diffi-
culties as well as the advantages and disadvantages of choosing the methods
adopted for archaeological research in the case study.

Keywords: GIS – Database – Sanctuaries – Western Greece

Referências bibliográficas

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14272 book.indb 138 26/08/2015 10:59:38
Através da paisagem mineradora romana antiga: O uso da
Ciberarqueologia para a reconstrução interativa tridimensional

Alex da Silva Martire*

MARTIRE, A. Através da paisagem mineradora romana antiga: O uso da Ciberarqueo-


logia para a reconstrução interativa tridimensional. Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 139-144, 2015.

Resumo: Este trabalho – que atualmente é desenvolvido e aprofundado


na pesquisa de doutorado no Laboratório de Arqueologia Romana Provincial
do MAE/USP – faz uso da teoria e metodologia da Ciberarqueologia para
a reconstrução de uma paisagem de mineração romana hipotética baseada
em duas regiões da Hispânia, que agora pertencem ao território de Portugal:
Tresminas e Aljustrel. A partir do que foi observado em campo durante as
escavações, reconstruiu-se um ambiente interativo de uma paisagem mineira
com todos os seus elementos-chave, tais como o processamento mineral e
fornos de refino, fórum, locais de entretenimento e administração local das
minas. Para isso, foi feito uso de softwares 3D para modelar os objetos e criar
interatividade do usuário dentro do ambiente visual.

Palavras-chave: Ciberarqueologia – Mineração – Realidade Virtual – 3D

Apresentação de artigos, pormenorizou os conceitos-chave


e a metodologia de trabalho da ciberarqueo-

N a primeira década do século XXI,


o arqueólogo e professor Maurizio
Forte foi o principal colaborador na criação
logia. De acordo com suas ideias principais,
há diferenças entre aquilo que foi produzido
em finais dos anos 1980 e a década de 1990
de um corpo teórico-metodológico novo – a chamada Arqueologia Virtual – e o que é
no âmbito arqueológico, a Ciberarqueologia
(Cyber-Archaeology)1. O autor, em uma série

acerca da psicologia e do sistema nervoso, e uma nova


teoria conjetural do método científico” (Wiener 1984: 15).
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de O termo cybernetics deriva do grego kubernetes, “palavra
São Paulo. Pós-graduação em Arqueologia; utilizada para denominar o piloto do barco ou timoneiro,
alex.martire@usp.br aquele que corrige constantemente o rumo do navio
(1) Segundo o matemático Norbert Wiener, criador para compensar as influências do vento e do movimento
do termo cibernética, ela seria: “(…) um campo mais da água. Além do sentido de controle, reforçado pela
vasto que inclui não apenas o estudo da linguagem, mas correspondência que kubernetes tem com o latim
também o estudo das mensagens como meios de dirigir a gubernator, a máquina de leme utilizada em navios seria
maquinaria e a sociedade, o desenvolvimento de máquinas um dos mais antigos dispositivos a incorporar os princípios
computadoras e outros autômatos (...), certas reflexões estudados pela cibernética” (Ho Kim 2004: 200).

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MARTIRE, A. Através da paisagem mineradora romana antiga: O uso da Ciberarqueologia para a reconstrução interativa
tridimensional. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 139-144, 2015.

realizado atualmente: a Arqueologia Virtual primeira, ao norte, em Tresminas (Via Real),


é um processo de conversão dos dados ana- grande região produtora de ouro durante o Im-
lógicos obtidos em campo em dados digitais, pério Romano, e a segunda, ao sul, em Aljustrel
demandando muito tempo, enquanto a Cibe- (Beja), denominada Vipasca pelos romanos,
rarqueologia conta com o uso de escâner 3D, produtora de cobre que recebeu grande desta-
SIGs, tecnologias de sensoriamento remoto, que no Império devido à quantidade de minério
entre outros, fazendo com que a comunica- extraído.
ção entre os dados se dê apenas no domínio Em Tresminas, há galerias de extração e
digital, diminuindo o tempo gasto para a sua escoamento mineral que atravessam toda a
obtenção e de seu uso nas fases de pré-proces- região – que tem, aproximadamente, 150 km²
samento, processamento e pós-processamento. – e estão intimamente ligadas às três trinchei-
Sendo a ciberarqueologia um ciclo cibernéti- ras de obtenção de minério de ouro: a Corta
co2, ela também está baseada no papel ativo de Covas (46 m de comprimento por 113 m
do usuário como ator principal do sistema e de largura e uma altura de aproximadamen-
interação; do mesmo modo, o ciclo cibernéti- te 100 m), a Corta de Ribeirinha (480 m de
co produz um processo que tem por objetivo comprimento por 140 m de largura e 65 m de
a simulação do passado, não apenas a sua profundidade) e a Corta dos Lagoinhos (60 m
reconstrução. O foco central da ciberarqueo- de comprimento por 4 m de largura e 12 m de
logia, então, não é reconstruir ou reproduzir o altura). No ponto mais elevado do complexo
mundo antigo – pois isso é impossível – mas, mineiro está localizada uma domus do século
sim, recompor o seu contexto por meio de II d.C. dentro de uma área de povoamento
codificações de relações que foram canceladas romano, sendo provavelmente o escritório de
pelo conjunto espaço-tempo. Nas palavras algum procurator metallorum (representante do
de Maurizio Forte, “a ciberarqueologia está Estado romano para resolver questões jurídi-
centrada na construção de relações espaciais cas e econômicas dentro da zona de minera-
e temporais capazes de reconectar o território ção). Construção semelhante pôde ser obser-
com o ‘mapa’, a paisagem arqueológica com a vada no território de Aljustrel, onde existe
paisagem antiga, seguindo um caminho meto- uma domus que foi denominada “Casa do
dológico de validação e transparência” (Forte Procurador” devido à sua morfologia caracte-
2011: 11). rística, embora ainda não se tenha encontrado
vestígios que confirmem ali ter vivido, de fato,
um procurator. Em Aljustrel, sob a coordena-
A reconstrução-simulação de uma paisagem ção e supervisão do arqueólogo e professor
mineira antiga Juan Aurelio Péres Macias (Universidad de
Huelva), do arqueólogo e diretor do Museo
Durante o desenvolvimento de minha Minero de Riotinto Aquilino Delgado-Domín-
dissertação de Mestrado, foi produzida uma gues e do arqueólogo e diretor Artur Martins,
paisagem tridimensional interativa (www.larp. do Museu Municipal de Aljustrel, trabalhei na
mae.usp.br/landscape.html) baseada nos dados oficina metalúrgica (officina aenaria, neste
recolhidos em campo durante duas campanhas caso) romana que fica em Azinhal, dentro da
de escavação em 2010, ambas em Portugal: a atual área mineradora de Algares. O edifício
da officina aenaria até o momento evidenciado
já ultrapassa 40 m de comprimento e 20 m de
(2) Ciclo cibernético conta com (Forte 2011: 8): trabalho largura e tende a continuar, uma vez que a
de campo, entrada de dados, processamento, interpretação, campanha de 2010 mostrou que os muros da
validação, interação, retroalimentação (feedback),
transmissão cultural, comunidades virtuais e corporificação
oficina vão além da área escavada. A estra-
(de uma pessoa em um ambiente interativo 3D). tigrafia do edifício mostra que aconteceram

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Alex da Silva Martire

três fases de utilização: 1) uma inicial em e queima de minérios que lembram muito as
que ainda não é possível saber a funcionali- fundações romanas encontradas em Aljustrel.
dade; 2) corresponde a um edifício utilizado A consulta à obra de Agricola também auxi-
para armazenamento de minério de cobre e liou na escolha do material para texturizar o
a queima de minério em fornos circulares; 3) modelo tridimensional, optando-se por pedras
fase em que, depois de abandonado, o edifício retangulares largas. Embora o modelo tenha
é utilizado como local de depósito de escórias, contado com um alto número de polígonos du-
sendo soterrado. rante sua construção, principalmente devido à
Tendo por base o material recolhido modelagem de cada telha ao invés de se textu-
em campo por meio de fotos e filmagens, as rizar um plano ou um cubo, quando exportado
conversas com os especialistas e a bibliografia dentro da Unity não alterou significativamente
consultada sobre a temática, começou, então, o desempenho da paisagem, mantendo a taxa
o processo de trabalhar todo o conjunto de de frames aceitável.
modo que se apresentasse, ao mesmo tempo, A domus, por sua vez, foi modelada no
novo (em relação à área da mineração antiga) e Autodesk Maya. A opção pelo software da
auxiliasse no processo cognitivo das pessoas que Autodesk se fez pelo fato de poder exportar o
não estivessem diretamente ligadas à arqueolo- modelo como arquivo com extensão FBX, que é
gia. Foi feita a opção de interatividade do ponto
importado com facilidade e sem muitos proble-
de vista da primeira pessoa, algo semelhante aos
mas dentro da Unity. O material de referência
jogos da categoria FPS (First-Person Shooter; tiro
para domus é abundante na internet, há muitas
em primeira pessoa). Dentre as engines (motores
ilustrações e até mesmo recriações tridimen-
gráficos) disponíveis no mercado, a opção pela
sionais já realizadas. Para a minha paisagem
Unity 3D se deu ao fato de ser muito utilizada
interativa, foi modelada uma domus genérica,
para diversas aplicações que não sejam apenas
oriunda de plantas da cidade italiana de Pom-
jogos eletrônicos.
peia, por falta de material descritivo e foto-
Basicamente, a produção da paisagem in-
gráfico de melhor qualidade: tanto a domus de
terativa centrou-se nos três componentes me-
lhores observados no campo: a trincheira de Tresminas quanto a de Aljustrel não ofereceram
obtenção mineral, a oficina de refinamento e bom material de registro para que se pudesse,
queima de minérios, e a domus administrativa. a distância, reconstruir o elemento. Os demais
A partir das fotos de campo e da bibliografia objetos presentes na paisagem interativa foram
consultada, esses objetos foram modelados em todos modelados e texturizados no Autodesk
3D com os softwares Blender e Autodesk Maya. Maya, com exceção dos andaimes e dos fornos
A oficina metalúrgica, modelada e texturizada de redução e de copelação, feitos no Blender a
no Blender, foi reconstruída digitalmente não partir de pesquisa bibliográfica e da consulta à
apenas a partir de fotos obtidas em Aljustrel, obra de Agricola.
pois somente restam alguns vestígios de suas A trincheira onde ocorria a obtenção de
fundações, mas que mostram perfeitamente minérios foi baseada nas cavas (cortas, em por-
em qual compartimento ocorria a queima tuguês de Portugal) observadas em Tresminas.
de minérios e qual era a área dedicada ao A sua modelagem se deu diretamente sobre o
armazenamento do material trabalhado: foi terreno criado por ferramenta própria da Unity
necessário consultar o tratado de mineração e 3D, com a inserção dos andaimes de madeira
metalurgia redigido por Georgius Agricola em distribuídos em seu interior. As árvores espalha-
1556, De re metallica, no qual constam inúme- das pela área e as partículas de poeira também
ras descrições e desenhos de todas as etapas foram feitas a partir da ferramenta inclusa na
de mineração que aconteciam no século XVI Unity. Nas Figuras 1, 2 e 3 podemos observar
europeu, dentre elas, fornos de refinamento os resultados finais.

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MARTIRE, A. Através da paisagem mineradora romana antiga: O uso da Ciberarqueologia para a reconstrução interativa
tridimensional. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 139-144, 2015.

Fig. 1. Visão geral do terreno dentro da engine Unity.

Fig. 2. Oficina metalúrgica dentro da Unity.

Fig. 3. Fornos de redução dentro da Unity.

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Alex da Silva Martire

Ciberarqueologia em Vipasca: pesquisa em textos explanatórios sobre determinadas áreas


desenvolvimento ou objetos vistos em tela. A reconstrução-
-simulação virtual da paisagem antiga passa
A experiência adquirida durante a produ- por dois processos que ocorrem simultane-
ção da paisagem interativa no Mestrado serviu amente e são complementares: o processo
de base para o aprofundamento dessa questão que vai do fundo ao topo (bottom-up), que é
na pesquisa de Doutorado em desenvolvi- a fase de coleta de dados em campo a partir
mento, trabalhando-se, também, com o sólido de observações e escavações e levantamentos
embasamento teórico-metodológico oriundo da bibliográficos (ou seja, em sua maioria, forma-
Ciberarqueologia (e a Realidade Virtual, que da por registros 2D e analógicos), e o processo
está intimamente relacionada a ela). inverso, do topo ao fundo (top-down), no qual
A reconstrução-simulação 3D da paisagem a interpretação/reconstrução dos dados é 3D e
mineira de Vipasca (em Aljustrel) está centra- digital (Forte 2010: 12).
da em duas etapas: 1) modelagem de objetos; A metodologia que vem sendo empregada
2) a sua inserção em um ambiente interativo. na pesquisa de Doutorado em desenvolvi-
A modelagem 3D consistirá em reconstruir, mento é fundamentada nos seguintes seg-
a partir do que for observado arqueologica- mentos: a) apresentação e discussão teórica
mente in situ, as estruturas relacionadas ao e metodológica da ciberarqueologia, e seu
povoamento e área mineradora/metalúrgica enquadramento nas teorias da cibernética,
de Vipasca: nessa etapa, serão testados – virtualização e cibercultura; b) levantamento
juntamente com os demais pesquisadores bibliográfico e cartográfico sobre Vipasca; c)
envolvidos – possíveis métodos de constru- pesquisa de campo em Aljustrel (Portugal)
ção romanos, além de texturas e iluminação para recolhimento de dados (GPS, medição,
interna e externa; também serão produzidas fotografias, estudo arqueobotânico) a fim
curtas animações em vídeo para a obtenção de de se elaborar o SIG e reconstruir tridimen-
renderização fotorrealística. Uma vez constru- sionalmente os modelos das estruturas; d)
ídos os modelos tridimensionais – e junto com reconstrução-simulação 3D interativa da pai-
os dados espaciais obtidos do SIG elaborado –, sagem romana de Vipasca a partir do material
eles serão exportados para o software Unity 3D obtido/observado/modelado. Toda a metodo-
a fim de posicioná-los no terreno pré-moldado logia é calcada na leitura de fontes textuais
(a partir da topografia real de Aljustrel e seu fornecidas por autores antigos, na bibliografia
paleoambiente reconstruído) para se construir específica do tema, no uso de técnicas de geo-
a interação. A interação na paisagem 3D será processamento e de sensoriamento remoto, e
feita sob o ponto de vista de primeira pessoa, na modelagem de objetos e sua interatividade
onde comandos simples no teclado do compu- tridimensional.
tador farão com que o usuário se movimente Desse modo, com meu trabalho pretendo
livremente pelo ambiente e interaja com colaborar para o estudo de uma área até então
objetos ao seu redor. Na tela, o HUD (Head não examinada de modo geral pelos pesquisa-
Up Display) – informações que estão sempre dores de Roma Antiga – e ainda recente dentro
presentes para o usuário, sem que ele tenha de do campo da Arqueologia: a complexidade da
acessar qualquer menu – indicará o mapa da paisagem mineira sob a ótica do corpus teórico-
paisagem para facilitar a sua navegação e trará -metodológico da ciberarqueologia.

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MARTIRE, A. Através da paisagem mineradora romana antiga: O uso da Ciberarqueologia para a reconstrução interativa
tridimensional. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 139-144, 2015.

MARTIRE, A. Through the Ancient Roman mining landscape: The use of Cyber-
-Archaeology for interactive reconstruction. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 139-144, 2015.

Abstract: This work - which is currently developed and deepened in PhD


research at the Laboratory for Roman Provincial Archaeology at the Universi-
ty of Sao Paulo / Brazil - makes use of the theory and methodology of Cyber-
-Archaeology for the reconstruction of a hypothetical Roman mining lands-
cape based on two regions of Hispania which now belong to the territory of
Portugal: Trêsminas and Aljustrel. From what was observed in the field during
excavations, we tried to reconstruct an interactive environment of a mining
landscape with all its key elements, such as mineral processing and refining
furnaces, forum, entertainment venues and local administration of the mines.
For this, has been made use of 3D softwares in order to model the objects and
create user interactivity within the visual environment.

Keywords: Cyber-Archaeology – Mining – Virtual Reality – 3D

Referências bibliográficas

FORTE, M. (ED.) HO KIM, J.


2010 Cyber-Archaeology. Archaeopress, Oxford, 2004 Cibernética, ciborgues e ciberespaço:
2177. notas sobre as origens da cibernética e sua
reinvenção cultural. Horizontes Antropoló-
FORTE, M. gicos, Porto Alegre, 10 (21): 199-219.
2011 Cyber-Archaeology: notes on the simu- WIENER, N.
lation of the past. Virtual Archaeology 1984 Cibernética e sociedade: o uso humano de
Review, 2 (4): 7-18. seres humanos. São Paulo: Cultrix.

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Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins:
Revisão das fases Itacaiúnas e Carapanã

Lorena Garcia*

GARCIA, L. Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: Revisão das fa-


ses Itacaiúnas e Carapanã. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, Suplemento
20: 145-152, 2015.

Resumo: O artigo resume a pesquisa de mestrado desenvolvida entre os


anos de 2008 e 2012. A pesquisa trata do longo histórico de ocupação indí-
gena na região dos interflúvios Xingu-Tocantins registrado através dos sítios
arqueológicos associados à expansão dos povos Aruak e Tupi-Guarani. Parte
desse quadro é sustentado pelos resultados do estudo da variabilidade formal
da cerâmica dos sítios Onça Puma 3 e Ourilândia 2, e pela revisão das fases
Itacaiúnas e Carapanã.

Palavras-chave: História indígena – Cerâmica – Fases arqueológicas


Itacaiúnas e Carapanã – Interflúvios Xingu-Tocantins.

Introdução res diversos (ver Figueiredo 1965; Simões et al


1973).

A análise das coleções arqueológicas dos


sítios Onça Puma 31 e Ourilândia 2
integram uma primeira fase de pesquisas sobre o
Para o estudo dessas coleções, tivemos
como objetivo o mapeamento das proprieda-
des formais da cerâmica a partir das questões
contexto arqueológico da região do rio Cateté, inerentes à sua variabilidade formal (Schiffer;
afluente do rio Itacaiúnas, baixo Tocantins. Skibo 1997). As características formais da
Esse contexto foi ampliado com a revisão das cerâmica foram entendidas como parte do estilo
coleções cerâmicas que deram origem às fases tecnológico, o qual reside, não apenas na forma,
Itacaiúnas e Carapanã, provenientes da região mas também nas escolhas e habilidades técni-
do rio Itacaiúnas e rio Fresco, médio Xingu, cas, nos diferentes usos dos objetos e na rede
cujas coletas foram realizadas por pesquisado- de sociabilidade onde esses objetos estiveram
inseridos. Talvez o que seja mais importante
frisar é que, a partir dessa perspectiva, o estilo
é resultado de escolhas que repousam sobre o
(*) Aluna doutorado PPGArq/MAE-USP conhecimento da tradição tecnológica do indi-
(1) O sítio Onça Puma 3 é popularmente conhecido no viduo como membro de um grupo social, e por
local como sítio Mutuca devido à sua localização no sopé isso é reconhecido como elemento de identida-
da Serra de mesmo nome. Na dissertação de mestrado,
sobre a qual me referi no presente artigo, adotou-se o nome
de cultural (Sacket 1977; Stark 1998).
popular do sítio. A título de publicação mantivemos a Essa abordagem buscou atender algumas
denominação de registro constante no CNSA/IPHAN. perguntas iniciais, como por exemplo: quais

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GARCIA, L. Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: Revisão das fases Itacaiúnas e Carapanã. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, Suplemento 20: 145-152, 2015.

Fig. 1. Mapa com indicação da localização dos sítios e locais de proveniência das coleções arqueológicas estudadas.
IBGE, 2006. Adaptação: Sérgio da Silveira.

os atributos estilísticos que caracterizavam as Os sítios arqueológicos


coleções cerâmicas estudadas? Qual o signifi-
cado e representatividade das fases arqueoló- Os sítios arqueológicos Onça Puma 3 e
gicas Itacaiúnas e Carapanã perante o estudo Ourilândia 2 estão localizados nos municípios
dos sítios Onça Puma 3 e Ourilândia 2? Tais vizinhos de Água Azul do Norte e Ourilândia
questões estiveram permeadas por um mosaico do Norte, respectivamente. Ambos situados no
arqueológico que começou a se configurar entre sudeste do Pará2.
as décadas de 1960 e 1970, a partir do reconhe-
cimento da tradição Tupiguarani na Amazônia
Oriental, cujas fases arqueológicas apresenta- (2) As escavações arqueológicas foram realizadas entre os
anos de 2005 e 2007 no âmbito do Projeto de Arqueologia
riam ‘influências’ da tradição Inciso Ponteado Preventiva na Área de Intervenção da Mineração Onça Puma,
(Simões et. al 1973). sob a responsabilidade da Scientia Consultoria Científica.

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Lorena Garcia

O sítio Onça Puma 3 está localizado no contexto de ocupação do sítio Onça Puma 3
sopé da Serra do Mutuca, sobre terreno elevado um palimpsesto arqueológico, com evidência
de encosta que se estende até a margem esquer- de ocupações mais antigas abaixo das camadas
da do rio Cateté. Esse sítio atingiu a dimensão com tpa.
de 200 m no eixo N/S e 198 m no eixo E/W, e Como parte da contextualização dos regis-
está associado à oficina lítica de polidores fixos tros materiais vinculados à ocupação mais anti-
em forma de ‘bacias’. ga, incorporamos à pesquisa o sítio arqueológico
As diferentes datações evidenciaram Ourilândia 2, localizado nas proximidades do
que o sítio Onça Puma 3 se configurou como sítio Onça Puma 3, em colina de topo aplaina-
lugar de habitações sucessivas, com terra do. Esse sítio atingiu as dimensões de 300 m no
preta arqueológica (tpa) associada a unidades eixo N/S e 240 m no eixo E/W. As escavações
residenciais, cujas ocupações se dariam de identificaram duas áreas de maior concentração
forma alternada. As diferenças estratigráficas e de material arqueológico, e camada de deposi-
espaciais associadas às camadas arqueológicas ção entre 15cm e 27cm de profundidade, sem
e espaços com tpa e sem tpa representam no ocorrência de tpa.

TABELA 1

Datações (C14) Beta Analytic, Scientia Consultoria Científica. Datações (TL) University
of Washington – UW, Luminescence Dating Laboratory, Dr. James K. Feathers.
Código da
Sítio Unidade Nível Tipo de amostra Datas
amostra
Ourilândia 2 S1-137N499E 30-40 Carvão Beta 236418 190+/- 40 AD
Ourilândia 2 120N480E 60-70 Carvão Beta 236417 1060+/- 70 AC
Ourilândia 2 120N480E 60-70 Cerâmica (TL) UW2296 774 +/- 91 AD
Onça Puma 3 TPA1-180N530E 10-20 Cerâmica (TL) UW2297 1249 +/- 42 AD
Onça Puma 3 TPA2-210N560E 50-60 Carvão Beta 236412 1190+/- 40 AD
Onça Puma 3 TPA1-180N544E 30-40 Cerâmica (TL) UW2295 1104 +/- 61 AD
Onça Puma 3 TPA2-210N560E 30-40 Carvão Beta 236413 1030+/- 40 AD
Onça Puma 3 S5-141N480E 30-40 Cerâmica (TL) UW2293 932 +/- 70 AD
Onça Puma 3 TPA2-194N560E 10-20 Carvão Beta 236414 760+/- 40 AD
Onça Puma 3 S5-142N480E 50-60 Carvão Beta 236415 4150+/- 40 AC 3

As fases Itacaiúnas e Carapanã revistas

A fase Itacaiúnas é constituída por traços A preferência pela escolha das fontes de
estilísticos que são elementares à cerâmica as- matéria-prima com “argila ideal”, que não
sociada aos povos Tupi-Guarani. A cerâmica do
sítio Onça Puma 3 apresenta similaridades com
os conjuntos da fase Itacaiúnas, e pode ser con- (3) A quarta amostra de carvão não condiz com o contexto
textualizada regionalmente dentro dessa fase. arqueológico estudado, mas optamos por divulgá-la.

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GARCIA, L. Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: Revisão das fases Itacaiúnas e Carapanã. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, Suplemento 20: 145-152, 2015.

A coleção do sítio Onça Puma 3 é forma-


da por fragmentos de vasilhas confeccionadas
por cordéis de argila. O alisamento, ao mesmo
tempo em que cumpriu com o seu objetivo, que
é a junção entre os roletes e homogeneização
da superfície corpórea do vasilhame, também
alterou a forma cilíndrica dos roletes, não
permitindo muitas vezes a visualização do limite
entre um rolete e outro.
Dentre os acabamentos plásticos, destacam-
-se o corrugado, o roletado e as incisões. As
Fig. 2. Forma 3C – sítio Onça Puma 3. Forma 9 – fase incisões associadas à fase Itacaiúnas apresentam
Itacaiúnas (Coleção Frikel, sítio Aldeia Nova dos grande variedade na combinação dos traços geo-
Xikrin). Desenho: Erêndira Oliveira. métricos. Os traços horizontais foram aplicados
no contorno externo dos lábios e bordas. Essas
incisões seriam feitas a partir de traços finos, es-
demandam uso de aditivos para serem pro- paçamento regular e, às vezes, cobertas por en-
cessadas, aliada à ausência de temperantes gobo vermelho. As incisões e os motivos incisos
orgânicos, confirma uma escolha tecnológica enfeitavam a face externa dos recipientes. Não
que caracteriza a produção cerâmica entre as há uma relação unívoca entre forma e motivo.
populações Tupi-Guarani da região dos interflú- Os motivos parecem ficar a cargo da oleira e
vios Xingu-Tocantins, desde o período pré-co- remetem à criatividade e à habilidade individual
lonial até os dias de hoje (Silva et al 2004:58). que variam dentro de um mesmo estilo.
Nesse sentido, o primeiro aspecto a ser notado As pinturas também foram expressas a par-
refere-se à existência de um padrão na escolha tir de traços geométricos semelhantes àqueles
da matéria-prima para confecção da cerâmi- observados nos recipientes com incisões. A
ca. A aparência grosseira da pasta cerâmica é pintura apresentou um padrão decorativo, que
superada pelos acabamentos de superfície, que possui como pano de fundo a bicromia – verme-
resultaram em alisamentos finos. lho e preto –, a reprodução de desenhos geomé-

Fig. 3. Cerâmica com acabamento plástico corrugado, sítio Onça Puma 3, fase Itacaiúnas. Foto: Val Moraes.

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Lorena Garcia

tricos e a localização dos motivos pintados, os Essas miniaturas evidenciam um mesmo padrão
quais se encontram, na sua grande maioria, na produtivo das grandes vasilhas, com associação
face interna dos recipientes. Essa padronização entre forma e acabamento de superfície.
é mais perceptível através dos traços e no modo Os padrões que constituem a cerâmica do
como eles se apresentam, do que através dos sítio Ourilândia 2 são uma das características
motivos, em virtude de esses últimos, além de mais notáveis na coleção, não apenas porque são
serem resultado de combinações variadas de mais visíveis, mas, principalmente, pela repro-
traços, serem parcialmente visíveis, devido à dução mais restrita de determinadas variáveis
fragmentação das vasilhas arqueológicas. formais. Nesse caso, assinalam-se tanto a apa-
rente homogeneidade da pasta cerâmica – que é
corroborada apenas pelo resultado de queima de
oxidação completa, ainda carecendo de análises
arqueométricas –, quanto os acabamentos de
superfície – que giram em torno: 1) dos moti-
vos incisos (triangular e horizontal) aplicados
através de técnicas muito similares; 2) a seleção
de determinadas morfologias que acompanha-
riam figuras zoomorfas; 3) a localização dessas
últimas nas vasilhas; 4) e a confecção de lábios
planos ou com flange para compor as vasilhas.
Obviamente há variações na forma como esses
Fig. 4. Cerâmica com pintura, (traços em vermelho), elementos são combinados, mas, a maneira
sítio Onça Puma 3, fase Itacaiúnas. Foto: Val Moraes.
como são aplicados, acabados e reproduzidos, é
comum a toda coleção do sítio Ourilândia 2, e
A localização do corrugado nas vasilhas coleções associados à fase Carapanã.
apresenta-se tanto em áreas restritas do corpo Podemos agrupar as técnicas aplicadas
dos potes quanto cobrindo toda a sua superfície. ao acabamento de superfície dessas coleções
A presença desse atributo formal no registro a partir dos diferentes níveis de alisamento
arqueológico demarca diferenças estilísticas e e polimento; banhos de argila com ou sem
identifica os conjuntos cerâmicos associados à pigmentação (engobo vermelho e barbotina);
fase Itacaiúnas. acabamentos realizados com o enegrecimento
Quanto aos roletados, talvez um dos da superfície interna (esfumarado e brunidura).
aspectos mais notáveis seja o que chamamos de O uso do engobo seria o único tratamento crô-
“roletado e suas variações” em que, nesse caso, mico identificado nas coleções da fase Carapa-
inserimos o acanalado e o entalhado. Com isso nã e, ainda assim, com baixa visibilidade.
não queremos dizer que se trata de técnicas Mais do que qualquer outro atributo for-
semelhantes, mas, sim, de técnicas recorrente- mal, os modelados zoomorfos têm dado visibili-
mente combinadas. dade à ‘cerâmica da fase Carapanã’ no contexto
Os dados relacionados às formas mostraram arqueológico regional, sendo facilmente nota-
que a maior parte das vasilhas eram compostas dos na identificação dos sítios ou coleções da
por lábios arredondados e planos. As bases eram região. Os modelados figurativos compunham
planas com extremidades abauladas. Outras o corpo das vasilhas, e apesar de os apêndices
bases apresentam forma convexa. Observa-se, zoomorfos se restringirem à representação de
dentre as formas cerâmicas, que há uma maior determinados animais, variando entre morce-
variabilidade morfológica entre as categorias que gos, aves e peixes, não há nenhuma peça que
correspondem às formas abertas e fechadas com seja igual à outra. Como exemplo, constata-se
contorno composto. A espessura das paredes dos que não há duas figuras de morcegos iguais,
vasilhames varia entre 0.7 cm e 1 cm. Ocorrem mas variações da representação do elemento
miniaturas com diâmetros entre 3 cm e 7 cm. morcego.

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GARCIA, L. Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: Revisão das fases Itacaiúnas e Carapanã. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, Suplemento 20: 145-152, 2015.

Fig. 5. Modelados zoomorfos, fase Carapanã. Desenho: Erêndira Oliveira.

Os vasilhames cerâmicos da fase Carapanã


possuem formas abertas e, com menor recorrên-
cia, formas fechadas. O delineamento do corpo
das vasilhas possui curvas suaves que quebram
os contornos contínuos entre a base e a borda.
Em contraposição, os ângulos associados à adi-
ção de flanges labiais, à extroversão das bordas
e à presença de ombros, são acentuados.
Aparentemente, não estamos lidando com
a produção de potes de maiores dimensões
Fig. 6. Sítio Onça Puma 3: Projeção peça 6858, fase
(largos e/ou profundos), trata-se de recipientes
carapanã. desenho: Erêndira Oliveira.
menores. Contudo, a maior variabilidade desses
últimos pode estar associada à demanda de
uso e reposição (Rice 1987). A espessura das Carapanã. Simões et al (1973) associou a fase
paredes dos vasilhames varia majoritariamente Carapanã à tradição Tupiguarani. Os sítios aqui
entre 0,5 cm e 1,1 cm. As bases apresentaram tratados permite-nos indicar que ao contrário
morfologia plana e convexa, com o predomínio do que foi inicialmente assinalado, a fase Cara-
da primeira. panã apresenta traços estilísticos que a vincula
à tradição Borda Incisa e abrange, no contexto
regional, as áreas drenadas pelas bacias dos
Considerações finais rios Itacaiúnas, médio Xingu e baixo Araguaia.
As similaridades e proximidade temporal com
O estudo dos sítios Onça Puma 3 e Ouri- a fase Ipavu, identificada nos sítios alto xin-
lândia 2, e das coleções cerâmicas, nos permitiu guanos de ocupação Aruak e Karib, também
rever comparativamente a classificação da fase demonstram que a fase Carapanã está relacio-

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Lorena Garcia

nada ao estabelecimento dessas populações na como observado entre os sítios arqueológicos


bacia do rio Xingu. estudados.
Com o decorrer das pesquisas regionais,
é possível que se verifique que a expansão da
população Tupi-Guarani suplantou os sistemas Agradecimentos
regionais que existiam na região dos interflúvios
Xingu-Tocantins, cujas mudanças serão visíveis À Fabíola A. Silva e Chico Noelli pela
através das rupturas observadas nos padrões orientação, à Solange B. Caldarelli, Renato
identificados no registro arqueológico, onde os Kipnis, Dirse Kern, Eduardo G. Neves por
sítios da fase Carapanã possivelmente deixam suas contribuições ao longo da pesquisa de
de existir na região, por volta de 700 d.C., tal mestrado.

GARCIA, L. Archaeological sites of the Xingu-Tocantins watersheds: The review of


Itacaiunas and Carapanã regional phases. Revista do Museu de Arqueologia e Etnolo-
gia, Suplemento 20: 145-152, 2015.

Abstract: The article summarizes a master’s degree research developed


between 2008 and 2012. The research approaches the longstanding history
of indigenous settlements located in the Xingu-Tocantins river watersheds
recorded on the archeological sites associated with the expansion of Aruak
and Tupi-Guarani indigenous people. This analysis is partially based on the
results from formal variability studies of fragments of pottery found in the
archaeological sites of Onça Puma 3 and Ourilândia 2, and also by the review
of regional archaeological phases: the Itacaiunas and Carapanã phases.

Keywords: Indigenous history – Pottery – Itacaiúnas and Carapanã archa-


eological phases – Xingu-Tocantins river watersheds

Referências bibliográficas

BROCHADO, J. Arqueologia e Etnologia, Universidade de


1984 An Ecological Model of the Spread of São Paulo, São Paulo.
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151

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GARCIA, L. Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: Revisão das fases Itacaiúnas e Carapanã. Revista do
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152

14272 book.indb 152 26/08/2015 10:59:40


Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas subterrâneas
no litoral de Santa Catarina

Lucas Bond Reis*

REIS, L. B. Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas subterrâneas no litoral de


Santa Catarina. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 153-159, 2015.

Resumo: Sítios arqueológicos estruturas subterrâneas são depressões


no solo em forma de calota de esfera, construídos naturalmente ou
artificialmente, com feições e dimensões variadas. No Brasil, a maior parte dos
registros foi efetuada no planalto meridional, em topos ou encostas de morro,
próximos a pequenos cursos d’água, em ambiente de Mata de Araucária ou
Mata Atlântica. Entretanto, exclusivamente em Santa Catarina, conta-se
também com o registro deste tipo de evidência no litoral. Neste texto, são
apresentados dados compilados acerca das estruturas subterrâneas localizadas
em terras próximas à costa, bem como algumas considerações. Ao final,
propõe-se um estudo cujo enfoque seja compreender os processos de formação
destes sítios arqueológicos.

Palavras-chave: Estruturas Subterrâneas – Ocupação do Litoral de Santa


Catarina – Processos de Formação do Registro Arqueológico.

A presenta-se neste texto uma parte dos


dados compilados em uma pesquisa
desenvolvida enquanto Trabalho de Conclusão
partir de uma revisão bibliográfica na literatura
etno – histórica e arqueológica, bem como de
um levantamento de dados in loco em caráter
de Curso1, visando à obtenção do título de não interventivo.
bacharel em História pela Universidade Federal Sítios arqueológicos estruturas subterrâneas
de Santa Catarina (UFSC), cujo objetivo foi são depressões no solo em forma de calota de
problematizar a ocorrência de estruturas subter- esfera, construídos naturalmente ou artifi-
râneas em terras próximas à costa catarinense a cialmente com feições e dimensões variadas
(Araújo 2001; Reis 2002; Reis 2007). De um
modo geral, as datações obtidas nas pesquisas
(*) Universidade Federal de Santa Catarina, Laboratório de
desenvolvidas em sítios compostos por estrutu-
Estudos Interdisciplinares em Arqueologia (LEIA/UFSC).
Programa de Pós-graduação em História, bolsista CAPES. ras subterrâneas situam a ocupação destes lo-
lucasbondreis@gmail.com cais entre 1400 AP e 100 AP, ainda que existam
(1) REIS, L. B. 2011. Subsídios para o estudo das Estruturas datas mais antigas – 2860 a. C. (De Masi 2006).
Subterrâneas no Litoral de Santa Catarina. Universidade
Federal de Santa Catarina. Trabalho de Conclusão de Curso No que remete ao padrão de assentamento
(Graduação em História). dos grupos que ocuparam preteritamente as estru-

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14272 book.indb 153 26/08/2015 10:59:41


REIS, L. B. Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas subterrâneas no litoral de Santa Catarina. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 153-159, 2015.

turas subterrâneas, propostas diferenciadas vêm subterrâneas, em sua maior parte, estão situadas
incorporando outros tipos de sítios como parte de em altitudes elevadas – geralmente acima de
uma mesma dinâmica de ocupação territorial, tais 600 m –, em topos ou encostas de morro, pró-
como: aterros, galerias subterrâneas, sítios líticos ximos a pequenos cursos d’água, em ambiente
superficiais, sítios litocerâmicos a céu aberto, de vegetação de Mata de Araucária ou Mata
estruturas anelares e abrigos sob rocha –, atribuin- Atlântica, sobretudo nos seguintes estados: Rio
do-se funções específicas a cada um deles. Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São
Aliás, a ocupação destes contextos vem Paulo. Entretanto, também há, em solos catari-
sendo associada aos antepassados dos povos nenses, registros de estruturas subterrâneas em
Kaingang e Xokleng, ambos falantes de línguas municípios litorâneos.
Jê. Tal entendimento calca-se em estudos et- Especificamente para o caso das estruturas
nolinguísticos que propõem uma continuidade subterrâneas registradas em território paulista,
histórica entre Guaianases, Guayanás, Guala- Araújo (2001) questionou a natureza destas
chos, Botocudos, Coroados e os Jê meridionais, formações, entendendo que as concavidades
bem como devido à associação das tradições poderiam ter se constituído artificialmente ou
arqueológicas Taquara, Itararé e Casa de Pedra naturalmente. De modo semelhante, Kama-
a uma só população – esta que corresponderia se (2004) reuniu dados que lhe permitiram
aos grupos Jê do Sul2 . categorizar as estruturas subterrâneas – de
As primeiras informações arqueológicas acordo com o processo de formação –, em
acerca da ocorrência de estruturas subterrâneas quatro categorias distintas: naturais, antrópicas
na porção meridional do país foram produzi- arqueológicas, antrópicas recentes e antropiza-
das na década de 1960, quando Alan Bryan das (construídas naturalmente, mas ocupadas
observou a ocorrência de uma destas evidên- preteritamente).
cias em Caxias do Sul, no nordeste gaúcho. Considerando a excepcionalidade de
Neste município, inclusive, foram realizadas ocorrência e também as observações em campo,
as primeiras escavações neste tipo de sítio por tomou-se como orientação os entendimentos
equipes do Instituto Anchietano de Pesquisas e de Araújo4 (2001) e Kamase (2004) a fim de
da Universidade de Caxias do Sul (Schmitz & problematizar o processo de formação das estru-
Becker 2006: 66). Daí em diante, vários outros turas subterrâneas no litoral catarinense.
registros de concavidades arqueológicas foram
efetuados no sul brasileiro.
Em Santa Catarina, Reis (2007)3 apresen- Estruturas subterrâneas no litoral de
tou os resultados do primeiro levantamento Santa Catarina
sistemático de sítios com tal morfologia no pla-
nalto catarinense e forneceu uma síntese acerca As informações contidas na literatura
das características da implantação ambiental arqueológica indicam que em Santa Catarina
deste tipo de evidência. existem registros de estruturas subterrâneas em
Levando-se também em consideração pes- quatro municípios litorâneos: Florianópolis, Ja-
quisas recentes, constata-se que as estruturas guaruna, Joinville e Palhoça. Entretanto, apesar
de registrados, estes sítios jamais foram objeto
de estudos sistemáticos.
(2) Para maiores informações acerca dos estudos
etnolinguísticos citados, ver Wiesemann (1978) e Urban
(1992). Sobre a correspondência entre as tradições (4) Araújo (2001: 318-319) mostra que a formação natural
arqueológicas e os Jê meridionais, cf. Silva & Noelli (1996), de concavidades no solo pode estar relacionada à dissolução
Noelli (1999,1999/2000, 2004) e Fossari (2004). de material mineral por água que, com o abatimento, gera
(3) Originalmente a dissertação de mestrado desenvolvida uma feição doliniforme, bem como ao piping, um tipo de
pela arqueóloga Maria José Reis foi defendida em 1980. erosão em que os grãos são carreados por condutos abertos
Utiliza-se aqui uma edição publicada pela Sociedade de pela força da água em zonas mais permeáveis dentro das
Arqueologia Brasileira em 2007. rochas.

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Lucas Bond Reis

Em Florianópolis, Rohr (1971: 15) men- encontrou cerâmica no fundo das estruturas.
cionou que em um morro no sul da Ilha de Farias & Kneip (2010, p. 181) relataram que
Santa Catarina existiam três “buracos de bu- o proprietário do terreno informou que as
gre” semelhantes a “casas subterrâneas”. Rohr concavidades haviam sido soterradas quando da
(1977) reafirmou o relato anterior e ressaltou abertura de uma estrada.
que no local observou três estruturas afunila- No sítio Morro da Cruz (UTM
das escavadas em solo de argila vermelha, com 693425/6834796), verificou-se que ainda é pos-
aproximadamente 4 metros de diâmetro e 2 sível perceber parcialmente o contorno de duas
metros de profundidade, sendo que duas delas estruturas subterrâneas, no entanto, em virtude
interligavam-se por um canal subterrâneo. das diversas atividades antrópicas recentes
A partir da análise das informações da que assolaram as evidências, tornou-se dificul-
literatura arqueológica e de imagens de satélite, toso determinar o tamanho de cada unidade.
constatou-se a existência de formações no solo Segundo Sr. Manoel Venceslau, antigo morador
no topo de um morro entre a localidade de da área e proprietário do terreno, os “fornos de
Rio das Pacas e da Caieira da Barra do Sul, na bugre” eram mantidos limpos pelos seus avós,
porção meridional da Ilha de Santa Catarina, estes que chamavam o local de “igreja dos
que poderiam ser os tais “buracos de bugre” índios”. Informou, apoiado por relatos dos seus
que Rohr (1971) registrou. Complementou-se filhos, que um arqueólogo do Rio de Janeiro
a busca por estruturas subterrâneas na área a realizou escavações no sítio na década de 19805.
partir da realização de entrevistas com morado- Demais moradores da localidade informaram
res do entorno, sendo que foi verificado que os que foram encontrados machados líticos nas
moradores mais antigos tinham conhecimento proximidades do sítio.
da ocorrência das depressões. Em Joinville, Brochier (2004) registrou
Na área indicada pelos moradores, denomi- três áreas de ocorrência de concavidades no
nada Morro dos Índios (UTM 741599/6923856 solo, semelhantes a estruturas subterrâneas
S), constatou-se a existência de formações no registradas no planalto, sendo que algumas
solo semelhantes às estruturas subterrâneas estavam associadas a amontoados de terra.
registradas no planalto e condizentes com Na primeira delas, denominada OC-01 (UTM
os relatos feitos por Rohr (1971, 1977). No 716286/7079082), encontrou conjuntos de
entanto, observou-se um agrupamento de nove concavidades no solo associadas a pequenas
concavidades, ao contrário das três descritas na elevações – que podem ser aterros – e a ter-
literatura, sendo que algumas delas interligam- racetes (“patamares aplainados em encostas
-se por túneis subterrâneos. Além das concavi- de maior declividade” (idem: 23). Na segunda
dades, observou-se a existência de pelo menos ocorrência registrada, nomeada de OC-02
dois pequenos amontoados de terra (aterros?) (UTM 716933/7078974), assinalou um con-
de formato elíptico a jusante das estruturas. junto de três concavidades no solo. Na área da
Em Jaguaruna, Rohr (1969: 22-23) regis- terceira ocorrência, denominada OC-03 (UTM
trou três “casas subterrâneas” na localidade de 718066/7078697), evidenciou “abaulamentos
Morro da Cruz. Estas concavidades possuíam de e elevações sugestivas no terreno e (...) formas
2 a 4 metros de diâmetro e 3 metros de profun- bem pronunciadas e características de casas
didade e estariam interligadas entre si. Nenhum subterrâneas” (idem: 27).
material arqueológico foi coletado, mas um Em campo, as ocorrências OC-01 e OC-026
informante afirmou ter encontrado cerâmica foram visitadas. Além disso, foram efetuadas
no interior das depressões no solo. Rohr (1971: entrevistas com moradores de comunidades
15) relatou novamente o registro das “casas
subterrâneas”, no entanto, mencionou apenas
duas unidades. Rohr (1984: 84) acrescentou
(5) Nenhum registro escrito sobre esta pesquisa foi
que uma pedra foi rolada para dentro de uma localizado.
das concavidades e que o dono da propriedade (6) OC-03 não foi localizada.

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REIS, L. B. Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas subterrâneas no litoral de Santa Catarina. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 153-159, 2015.

próximas, sendo que apenas alguns relataram dolinas e que, deste modo, tenham se formado
ter conhecimento sobre a existência das conca- naturalmente. Se for o caso, seguindo Kamase
vidades no solo, mas que nunca encontraram (2004), este sítio poderia ser enquadrado na ca-
material arqueológico nas imediações. tegoria de estruturas subterrâneas antropizadas.
Em Palhoça, conforme a descrição e o ma- Das estruturas subterrâneas abordadas,
peamento dos sítios situados na área do Parque as evidências registradas em Jaguaruna são as
Estadual da Serra do Tabuleiro e no entorno, únicas que encontram-se devidamente regis-
apresentados por Eble & Reis (1976: 26), a tradas no IPHAN. Apesar das concavidades
“casa subterrânea” e os montículos estavam terem sido impactadas por atividades antrópi-
localizados na localidade de Massiambu. A cas recentemente, ainda é possível perceber o
área de interesse arqueológico possuiria 100 x contorno das mesmas em alto-relevo. Relatos
100 m, onde nenhum material arqueológico foi orais dão conta apenas da presença de artefatos
coletado. líticos nas proximidades das estruturas subter-
Esta ocorrência não foi localizada e ne- râneas, ao contrário das informações de Rohr
nhum dos moradores entrevistados relatou ter (1969), que soube da presença de material cerâ-
conhecimento sobre a ocorrência de concavida- mico no interior das concavidades.
des no solo – semelhantes a estruturas subterrâ- Em campo, observou-se a existência de
neas – nesta localidade ou no entorno. feições côncavas semelhantes às estruturas
subterrâneas e um amontoado de terra – pos-
sível aterro – na margem oposta a vertente
Apontamentos e considerações onde estão as unidades que integram o sítio
arqueológico. Deste modo, acredita-se que seja
A partir da consulta às publicações que necessária a realização de estudos específicos
fazem referência a estruturas subterrâneas para avaliar a possibilidade destas concavidades
situadas no litoral catarinense, tomou-se terem se formado naturalmente.
conhecimento da existência de informações a A partir dos dados obtidos, o sítio Morro
respeito de ocorrências localizadas em quatro da Cruz, em Jaguaruna, é o que mais possui
municípios. Excetuando-se os registros feitos elementos para ser classificado enquanto
por Brochier (2004) em Joinville, as demais antrópico arqueológico (Kamase 2004) entre as
informações sobre os sítios foram efetuadas estruturas subterrâneas localizadas no litoral de
nas décadas de 1960 e 1970 e careciam de Santa Catarina.
informações precisas acerca da localização das Em Joinville, constatou-se que as conca-
evidências. vidades de OC-01 estão localizadas em uma
Em Florianópolis, algumas ocorrências que área de pasto onde o solo, em baixa e média
condizem com a localização mencionada na vertente, apresenta muitos sinais de erosão.
literatura arqueológica foram localizadas. Dada Tal evidência pode ser um indicador de que as
a inexistência de outro registro de sítio arqueo- depressões tenham se formado naturalmen-
lógico com tais feições na Ilha de Santa Catari- te. Entretanto, deve-se considerar que nas
na, acredita-se que o local vistoriado e descrito prospecções realizadas por Brochier (2004)
anteriormente seja o mesmo mencionado por foram encontrados vestígios de carvão em uma
Rohr (1971, 1977, 1984). unidade.
Antigos moradores da comunidade relata- Na OC-02, evidenciou-se uma concavida-
ram que outrora fora coletado pontas de flechas de semelhante àquelas dos registros de estru-
e machados líticos no interior das concavidades turas subterrâneas feitas no planalto, contudo,
e/ou no entorno da área. Infelizmente não foi informações orais dão conta que o local pode
possível registrar os artefatos, visto que nenhum ter sido escavado por descendentes de imi-
deles foi conservado pelos informantes. Por grantes germânicos para ser utilizado enquanto
outro lado, como aponta Tomazzoli et al (2012: forno para fabricar carvão ou como armadilha
81-82), há indícios de que as formações sejam para a caça de animais em período recente.

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Lucas Bond Reis

Deste modo, conforme os dados obtidos, por Araújo (2001) e das categorias utilizadas
existe a possibilidade de que as ocorrências por Kamase (2004), considerando ainda as
registradas em Joinville possam ser classificadas informações obtidas acerca das diferentes
nas quatro categorias utilizadas por Kamase evidências, sugere-se que a utilização dos
(2004): naturais, antrópicas arqueológicas, postulados de Schiffer (1972, 1988, 1996)
antrópicas recentes e antropizadas. Somente como orientação teórica acerca dos processos
pesquisas interventivas poderão elucidar tal de formação do registro arqueológico seja
questão. indispensável. Isso não somente para investi-
Em Palhoça, o sítio arqueológico registrado gar e discutir o modo pelo qual as estruturas
por Eble & Reis (1976) não foi localizado e ne- subterrâneas foram construídas – naturalmen-
nhum dos antigos moradores relatou conhecer te ou artificialmente –, mas, sobretudo, para
as estruturas subterrâneas. Entretanto, há que se compreender qual o significado em termos
se considerar que a comunidade do Massiambu culturais desta diferenciação. Neste sentido,
Pequeno, onde foram realizadas as entrevistas, entender também o que isso acarreta para as
localiza-se próxima a duas Terras Indígenas em discussões acerca do processo de ocupação
processo de demarcação, daí a possibilidade e movimentação territorial entre o planalto,
de que informações sobre sítios arqueológicos encosta de serra e litoral, pelos Jê meridionais
tenham sido omitidas propositadamente. Por – grupos que teriam ocupado as estruturas
outro lado, os indígenas entrevistados também subterrâneas.
relataram não ter conhecimento acerca da Parte desta proposta está sendo realizada
existência deste sítio. enquanto pesquisa de Mestrado em Histó-
Assim, faz-se imprescindível realizar ria Cultural na UFSC a partir do estudo das
pesquisas que tenham como objetivo com- estruturas subterrâneas registradas no Morro
preender os processos de formação destas dos Índios, em Florianópolis, bem como através
estruturas subterrâneas localizadas no litoral da análise de documentação etno-histórica e
catarinense. Partindo da problematização feita etnográfica acerca dos grupos Jê.

REIS, L. Notes about the occurrence of pit houses in Santa Catarina’s coast. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 153-159, 2015.

Abstract: Pit Houses archaeological sites are depressions in land in


spherical calotte’s form, naturally or artificially constructed, with features
and varied dimensions. In Brazil, most part of these records was accompli-
shed in the Southern Plateau, on hillsides or on hills’ edges, close to little
watercourses in Mata de Araucária or Mata Atlântica. Nevertheless, exclu-
sively in Santa Catarina, there is also this type of record in the coast. In
this text, it is presented compiled data about the pit houses nestled in lands
close to the coast, as well as some considerations. At the end, it is propo-
sed a study whose aim is to comprehend the formation processes of these
archaeological sites.

Keywords: Pit Houses – Occupation of Santa Catarina’s Coast – Forma-


tion Processes of Archaeological Record.

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REIS, L. B. Apontamentos sobre a ocorrência de estruturas subterrâneas no litoral de Santa Catarina. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 153-159, 2015.

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14272 book.indb 159 26/08/2015 10:59:41


14272 book.indb 160 26/08/2015 10:59:41
Armação do Sul: Continuidades e descontinuidades – os sítios
conchíferos do litoral central catarinense na longa duração

Gabriela Oppitz*

OPPITZ, G. Armação do Sul: Continuidades e descontinuidades – os sítios conchífe-


ros do litoral central catarinense na longa duração. Revista do Museu de Arqueologia
e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 161-166, 2015.

Resumo: A partir da análise das razões isotópicas 87Sr/86Sr presentes no


esmalte dentário dos indivíduos sepultados no sítio Armação do Sul e análises
das razões 13C/12C e 15N/14N presentes no colágeno, em associação a uma cro-
nologia estratigraficamente referenciada com base na distribuição dos esquele-
tos, pretende-se dimensionar os significados e implicações da descontinuidade
que ocorre na estratigrafia e nas práticas mortuárias do sítio. Entendendo o
sítio Armação do Sul como elemento-chave para a compreensão do processo
de ocupação do litoral central catarinense, tentar-se-á extrapolar à realidade
arqueológica regional os resultados obtidos, sob uma perspectiva de longa
duração que o insere no contexto maior dos sítios conchíferos catarinenses.

Palavras-chave: Sítios conchíferos – Santa Catarina – Isótopos – Mudança.

S ituado em praia de mesmo nome, na


porção sul da Ilha de Santa Catarina, o
sítio da Armação do Sul foi escavado por Rohr
se assemelhe a sítios conchíferos rasos como Ta-
pera e Base Aérea, tampouco se enquadra junto
a eles, uma vez que não apresenta cerâmica.
em duas etapas, uma em 1969, com a participa- Além disso, sua estratigrafia apresenta uma
ção de Andreatta (Rohr e Andreatta 1969), e descontinuidade, que é acompanhada por uma
outra em 1974 (Rohr 1974). mudança nas práticas mortuárias relacionadas
Datado em 2.670 +-90 A.P. (Schmitz et aos 86 sepultamentos escavados – embora,
al.1992: 27), este sítio apresenta característi- de acordo com Schmitz et al. (1992: 169), o
cas especiais dentro do quadro arqueológico mesmo não aconteça com relação à tecnologia
conhecido para o litoral central. Ele não é o lítica e óssea – tornando possível vislumbrar
que costumeiramente se denomina sambaqui, dois momentos diferentes em sua ocupação.
devido à pouca quantidade de conchas e peque- O primeiro momento estaria associado
na espessura da camada arqueológica e, embora aos níveis de areia marrom-escura e areia
marrom-clara, sendo estratigraficamente mais
antigo e apresentando sepultamentos envoltos
em pigmentos vermelhos e abundantemente
(*) Mestranda do Programa de Pós-Graduação em
Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia
acompanhados de adornos e outros artefatos.
(MAE-USP). Bolsa CAPES / Auxílio FAPESP. O segundo momento estaria associado ao nível
E-mail: gabrielaoppitz@gmail.com de terra preta, sendo estratigraficamente mais

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OPPITZ, G. Armação do Sul: Continuidades e descontinuidades – os sítios conchíferos do litoral central catarinense na longa
duração. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 161-166, 2015.

Fig. 1: Localização do sítio da Armação do Sul, na Ilha de Santa Catarina.

recente e apresentando sepultamentos sem O sítio da Armação do Sul não apresen-


presença de pigmentos vermelhos e raramente ta cerâmica, mas a descontinuidade em sua
acompanhados de adornos ou qualquer artefato estratigrafia aparentemente se assemelha com
inteiro, com exceção de abundantes pontas esta descontinuidade no padrão deposicional
ósseas (Schmitz et al.1992: 151-152). dos sambaquis catarinenses, passando de areia
A primeira coisa que percebo ao voltar-me marrom-clara para terra preta com manutenção
para a questão da mudança no sítio da Armação das características das indústrias lítica e óssea.
do Sul é sintonia. Se pensado em termos crono- A segunda coisa que percebo ao pensar a
lógicos, o processo de ocupação pré-colonial do mudança no sítio da Armação do Sul é peculia-
litoral de Santa Catarina é bastante semelhante ridade. Embora tal sintonia cronológica aponte
para as porções litorâneas norte (região da baía para um único e grande processo de ocupação
da Babitonga), central (ilha de Santa Catarina, para o litoral catarinense inteiro, um olhar mais
ilhas adjacentes e continente próximo) e sul atento sobre os contextos arqueológicos das três
(região de Laguna, Tubarão e Jaguaruna); e esta porções litorâneas permite entrever diferenças e
semelhança cronológica vem acompanhada particularidades que levam à ideia de processos
por alguns fenômenos que são recorrentes ao de ocupação distintos, porém condicionados
longo da costa catarinense. Por volta de 2.000 e pelos mesmos eventos primordiais. Processos de
1.500 A.P., ocorre uma mudança aparentemente ocupação que se interseccionam em determi-
repentina nos padrões deposicionais dos sam- nados pontos – ou nós – no tempo e no espaço,
baquis, período em que passam a ser formados porém que se desenrolam de forma desigual
por um sedimento escuro, com enorme presença quanto à direção, intensidade, atores envolvi-
de carvão e outros materiais orgânicos (Nishi- dos e outros elementos, diferenciando-se para,
da 2007; Villagran 2008). Apesar da variação em longo prazo, diferenciar também cada um
composicional, nesta camada escura mantêm-se dos contextos e suas texturas.
os processos construtivos associados às estrutu- Este processo de diferenciação, no entanto,
ras funerárias, bem como as características das parece ter decorrido de forma mais intensa no
indústrias lítica e óssea (DeBlasis et al. 2007). litoral central, onde o panorama arqueológico
No momento seguinte, a partir de 1.500 A.P., pré-colonial atualmente conhecido apresenta-se
começa a aparecer cerâmica nos horizontes mais acentuadamente peculiar se comparado
superficiais de alguns sambaquis e em sítios àquele conhecido para as porções litorâneas que
conchíferos rasos, cerâmica esta que costuma ser lhe são adjacentes ao norte e ao sul. Tal peculia-
atribuída a grupos da família linguística Jê. ridade é denunciada por aspectos como as me-

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Gabriela Oppitz

nores dimensões dos sambaquis, que possuem, contribuindo para o estudo do processo de ocu-
em média, de 1 m a 2 m de altura; a maior pação pré-colonial que diferenciou sobremanei-
ocorrência de sítios conchíferos com presença ra a porção central do litoral catarinense.
de cerâmica; a maior ocorrência de oficinas Perspectiva de longa duração que entende
líticas; e, sobretudo, a ocorrência de inscrições sambaquis e sítios conchíferos com cerâmica
rupestres, especificidade do litoral central de como pertencentes a uma mesma e única ca-
Santa Catarina no contexto litorâneo nacional. tegoria, “sítios conchíferos”, que engloba todos
Esta peculiaridade é intensificada se nos os sítios litorâneos com presença significativa
debruçarmos sobre o sítio da Armação do Sul. de conchas. Pensar em “sítios conchíferos” é
Embora as características da indústria óssea e desvelar as continuidades existentes em meio
lítica nas diferentes camadas permaneçam as às descontinuidades e fazê-las prevalecer, é
mesmas em meio à mudança no padrão deposi- aproximar os diferentes sítios numa intersecção
cional, tal continuidade, como já mencionado, de conchas – em maior ou menor quantidade
não é observável nas práticas mortuárias, o que –, peixes como fonte principal de subsistência,
confere peculiaridade ao sítio da Armação do implantação em ambientes estuarinos e, ainda,
Sul, tanto num contexto regional quanto local. semelhanças na indústria lítica, óssea e práticas
E essa peculiaridade se intensifica ainda mais se mortuárias; intersecção esta que, aparentemen-
atentarmos às suas outras características: até o te, vem a findar somente com o predomínio de
momento ele é o único sítio sem cerâmica com sítios associados a grupos Guarani.
evidência de violência (Lessa e Scherer 2008); De forma a compreender melhor toda a
trata-se de um sítio ambíguo, de difícil classifi- sintonia e peculiaridade envolvida na mudança
cação segundo as categorias comumente utiliza- do sítio da Armação do Sul, pretendo:
das; foi um sítio fundamental para o estudo de
• Realizar análise de isótopos de
Neves (1988), no qual ele desenvolveu a ideia
estrôncio (87Sr/86Sr) provenientes
de que o litoral central teria sido ocupado por
do esmalte dentário dos indivíduos
uma população biologicamente distinta.
sepultados, em busca de informa-
Assim, o sítio da Armação do Sul incorpora
ções sobre migração e mobilidade
as continuidades e descontinuidades dos sítios
humana. As mudanças que ocorrem
do litoral catarinense, mostrando-se sintoni-
no sítio podem estar associadas à
zado com aquilo que estava acontecendo em
migração e incorporação de indiví-
nível regional, e, ao mesmo tempo, apresenta
duos não locais por sua população?
características particulares que remetem ao
caráter peculiar do panorama arqueológico do • Realizar a datação de alguns indi-
litoral central e àquelas relações que estavam víduos sepultados, estabelecendo
sendo empreendidas em nível local. E, por esse uma cronologia estratigraficamente
motivo, está sendo tomado por mim como ele- referenciada com base na distribui-
mento-chave para entender tanto as mudanças ção dos sepultamentos e situando
que se deram a nível regional, a partir de 2.000 diacronicamente as mudanças que
A.P., quanto as particularidades do processo de ocorrem no sítio. Estas mudanças
ocupação do litoral central. estão em sintonia cronológica com
A ideia é dimensionar – em termos even- as mudanças que ocorrem no padrão
tuais, conjunturais e estruturais; numa tensão deposicional dos sambaquis no con-
positiva entre agência e estrutura – os signifi- texto maior do litoral catarinense?
cados e implicações da mudança que ocorre na • Analisar a paleodieta dos indivíduos
estratigrafia e nas práticas mortuárias cristaliza- sepultados a partir de isótopos de
das no sítio da Armação do Sul, numa perspec- carbono (13C/12C) e nitrogênio
tiva de longa duração que o insere no contexto (15N/14N). A paleodieta apresenta
maior dos sítios conchíferos do litoral central e, descontinuidades que acompanham
mesmo, do litoral catarinense como um todo, a mudança na estratigrafia e práticas

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OPPITZ, G. Armação do Sul: Continuidades e descontinuidades – os sítios conchíferos do litoral central catarinense na longa
duração. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 161-166, 2015.

mortuárias? É possível observar próprio está no mundo assim como o coração no


diferenças entre as paleodietas de organismo [...]”.
diferentes indivíduos? A Arqueologia surgiu pela mudança, e con-
• Analisar os contextos funerários. tinuou se ocupando dela – e mudando – até os
É possível identificar elementos dias de hoje. Passou de uma cultura normativa
das práticas mortuárias do sítio da que muda fluidamente por estímulos externos
Armação do Sul como pertencentes causados por contato, migração ou difusão;
a uma tradição regional de longa para uma cultura que muda sistemicamente
duração que permanece – ou não – como forma de adaptar-se ao meio; para uma
em meio a elementos que aparecem cultura situacional que muda historicamente na
como manifestações locais? relação entre indivíduo e estrutura.
O sítio da Armação do Sul também mudou,
Trata-se de uma biografia do sítio da e é possível que tenha mudado devido ao esta-
Armação do Sul, pautada numa cronologia belecimento de contato com grupos do interior,
fina e numa textura densa de dados isotópicos o que estaria associado às ideias de migração e
87Sr/86Sr, 13C/12C e 15N/14N, que vai ao difusão. Pesquisas como a realizada por Bastos
encontro daquilo que Morris (2000: 24) enten- (2009) no sítio Forte Marechal Luz, situado no
de como sendo História Cultural: “[...] a shift litoral norte, apontam nesse sentido: dentre os
away from grand theory, toward more prosaic 30 indivíduos que tiveram suas razões isotópicas
concerns – creating the densest possible texture de estrôncio analisadas, despontaram três indi-
of data and the tightest chronology”. víduos não locais – possivelmente provenientes
Vai, também, no sentido da Arqueologia do planalto – um deles no horizonte sem cerâ-
como História de longa duração de Hodder mica do sítio e dois no horizonte cerâmico.
(2009) que, em outro lugar (Hodder e Hutson E – por que não? – é possível também que
2003: 30), coloca que suas descontinuidades estejam associadas a
since action in the world partly depends alguma mudança ambiental. O trabalho de Cas-
on concepts, and since concepts are learnt tilhos (1995) sobre a evolução paleogeográfica
through experience in the world, in which da planície costeira da praia da Armação mostra
one is brought up and lives, it is feasible that que o local onde se encontra o sítio – um terraço
marinho holocênico coberto por areias eólicas –
longterm continuities in cultural traditions
formou-se por volta de 5.000 A.P., situando-se
exist, continually being renegotiated and
à beira de uma paleolaguna que existiu até mais
transformed, but nevertheless generated
ou menos 3.600 A.P. e, a partir daí, começou a
from within. Part of the aim of archaeology
fechar para, mais tarde, deixar de existir. Penso,
may be to identify whether such long-term
entretanto, que não basta compreendermos por
continuities exist, and how they are trans-
que as coisas mudam, mas também como mudam.
formed and changed.
A mudança, para mim, se faz cotidiana-
Esta aproximação com uma História cultu- mente no engajamento com o mundo e na
ral, ou História de longa duração, vem acompa- negociação com os elementos – humanos e
nhada por um quadro teórico que promove a as- não-humanos – que constituem esse mundo. O
sociação entre os três tempos de Braudel (2005), que me interessa é entender como um suposto
a teoria da prática de Bourdieu (1989, 1996) e a contato com grupos do interior ou uma mu-
teoria da estruturação de Giddens (1979), numa dança ambiental pode engendrar mudança nas
tensão positiva entre agência e estrutura, curta práticas mortuárias de uma população e, por
e longa duração, local e regional, o que envolve conseguinte, no registro arqueológico. Como
também uma relação de cumplicidade ontológi- determinados eventos se desenrolam, reper-
ca com o mundo, no sentido do ser no mundo de cutem e são interpretados; como a mudança
Heidegger (2008) e da noção de incorporação é vivida e percebida contextualmente – no
de Merleau-Ponty (1999: 273), em que “o corpo passado e no presente.

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Gabriela Oppitz

OPPITZ, G. Armação do Sul: Continuities and discontinuities – the shell middens of


Santa Catarina’s central shore under the long term. Revista do Museu de Arqueolo-
gia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 161-166, 2015.

Abstract: From the analysis of 87Sr/86Sr isotopic ratios presented


on the tooth enamel of individuals buried at the Armação do Sul shell
midden site and analysis of 13C/12C and 15N/14N ratios presented on
collagen, in association with a stratigraphically oriented chronology ba-
sed upon the skeletal distribution, we intend to scale the meanings and
implications of the discontinuity which occurs in the stratigraphy and
mortuary practices of the site. Understanding the Armação do Sul site as
a key element towards the comprehension of the occupation process at
Santa Catarina’s central shore, we shall try to extrapolate the obtained
results to the regional archeological reality, under a long term perspective
which inserts the Armação do Sul site in the larger context of the Santa
Catarina’s shell middens.

Keywords: Shell middens – Santa Catarina – Isotopes – Change.

Referências bibliográficas

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2009 Mobilidade humana no litoral brasileiro: GIANINNI, P.C.; GASPAR, M.D.
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de Janeiro. 3: 29-61.
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1949 Contribuição ao estudo da planície sedi- 1979 Central problems in social theory: action,
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BOURDIEU, P. 2008 Ser e tempo. Petrópolis: Vozes.
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BRAUDEL, F. HODDER, I. & HUTSON, S.
2005 Escritos sobre a História. São Paulo: Pers- 2003 Reading the past: current approaches to
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1995 Estudo evolutivo, sedimentológico e mor- LESSA, A. & SCHERER, L.Z.
fodinâmico da planície costeira e praia da 2008 O outro lado do paraíso: novos dados e
Armação – Ilha de Santa Catarina, SC. reflexões sobre violência entre pescadores-
Dissertação de Mestrado. Universidade -coletores pré-coloniais. Revista do Museu
Federal de Santa Catarina, Florianópolis. de Arqueologia e Etnologia, 18: 89-100.

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OPPITZ, G. Armação do Sul: Continuidades e descontinuidades – os sítios conchíferos do litoral central catarinense na longa
duração. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 161-166, 2015.

MERLEAU-PONTY, M. ROHR, J.A.


1999 Fenomenologia da percepção. São Paulo: 1974 Armação do Sul: três mil anos de Histó-
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NEVES, W. ROHR, J.A. & ANDREATTA, M.
1988 Paleogenética dos grupos pré-históricos 1969 O sítio arqueológico da Armação do Sul
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Catarina). Pesquisas, Antropologia, 43. 20.
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2007 A coisa ficou preta: estudo do processo de LAVINA, R.; JACOBUS, A.L.
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lógico Jabuticabeira II. Tese de doutorado. Pesquisas, Antropologia, 48.
Museu de Arqueologia e Etnologia, VILLAGRAN, X.S.
Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008 Análise de arqueofácies na camada preta
MORRIS, I. do sambaqui Jabuticabeira II. Tese de
2000 Archaeology as Cultural History: words doutorado. Museu de Arqueologia e Et-
and things in Iron Age Greece. Oxford: nologia, Universidade de São Paulo, São
Backwell Publishers. Paulo.

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Arqueologia Marítima e Subaquática nos Museus:
Casos do Brasil e da Espanha

Cristiane Eugênia Amarante*


Marília Xavier Cury**

AMARANTE, C.E.; CURY, M.X.Arqueologia Marítima e Subaquática nos Museus:


Casos do Brasil e da Espanha. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São
Paulo, Suplemento 20: 167-173, 2015.

Resumo: O artigo traz uma explanação sobre a Musealização da Arqueo-


logia Marítima nos museus do Brasil por meio de uma pesquisa no sítio virtual
do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus). Um levantamento mostrará em
que cidades se encontram observando a descrição dos seus acervos e tentando
identificar o tratamento dado ao tema da Arqueologia Marítima. Além dos
museus brasileiros haverá uma análise sobre quatro instituições da Espanha.
A intenção é comparar as duas realidades para agregar novos olhares sobre a
temática e refletir a respeito dos desafios nessa área museológica.

Palavras-chave: Arqueologia Marítima – Musealização da Arqueologia –


Arqueologia Pública.

Musealização da Arqueologia Marítima Procuramos observar se os museus tinham al-


no Brasil guma interface com as questões culturais, e que
não se limitasse somente à questão ambiental.

P ara fazermos um levantamento sobre


a musealização da arqueologia marí-
tima no Brasil recorremos ao portal virtual do
Nesta pesquisa obtivemos o seguinte
resultado para as palavras: marítima e aquá-
tico – nenhum resultado encontrado; para a
IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) que palavra mar foram encontrados 198 registros,
possui um cadastro nacional de museus de todo mas somente 4 eram ligados à temática; para
o país onde é possível realizar pesquisas nas a palavra marinha obtivemos 10 registros com
instituições utilizando palavras-chaves. Para 3 museus relacionados ao tema; para a palavra
a tarefa utilizamos as seguintes palavras: mar, marítimo encontramos 1 registro e 1 museu li-
marítimo, marinha, náutico, naval, porto, nave- gado ao tema; no caso da palavra náutico foram
gação, pesca, subaquática, aquático e marinho. 3 registros e 3 museus relacionados ao tema; na
busca pela palavra naval obtivemos 9 registros
(*) Mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e e 3 museus ligados ao tema; para a palavra
Etnologia da Universidade de São Paulo. subaquática encontramos 1 registro e 1 museu
cristiane_eugenia@hotmail.com ligado ao tema; para a palavra navegação en-
(**) Doutora em Comunicação pela Escola de contramos 1 registro com 1 museu relacionado
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Professora titular nos cursos de pós-graduação em
ao tema; para a palavra pesca obtivemos um
Arqueologia e Museologia do Museu de Arqueologia e total de 4 registros e 3 museus; para a palavra
Etnologia da Universidade de São Paulo. maxavier@usp.br porto obtivemos 23 registros com 6 museus

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AMARANTE, C.E.; CURY, M.X.Arqueologia Marítima e Subaquática nos Museus: Casos do Brasil e da Espanha. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 167-173, 2015.

relacionados à temática cultural marítima. Essa sobre a arqueologia subaquática para contextua-
lista possui um total de 25 museus, sendo que lizar parte de seu acervo. O material escrito traz
desses apenas 9 museus registraram possuir algumas explicações sobre a escavação submersa
acervo arqueológico em suas coleções. do Galeão Santíssimo Sacramento na década de
Em relação às cidades obtivemos um total 1970 e acrescenta que parte dos artefatos de sua
de 18 localidades que possuem museus voltados coleção são provenientes desse naufrágio do sécu-
para a temática marítima. A cidade de Belém lo XVIII, soçobrado na Baía de Todos os Santos.
no estado do Pará possui 4 museus, a cidade O Memorial do Porto e Arqueologia e
de Santos no estado de São Paulo possui 4, e Restauro, em Belém (PA), se dispõe a “contar a
a cidade do Rio Grande no Rio Grande do Sul história da navegação no Pará por meio de tex-
possui 2. As demais cidades possuem apenas tos, fotos e peças”. Há pouquíssimas informa-
1: Manaus, no estado do Amazonas; Natal, no ções em relação ao acervo arqueológico manti-
estado do Rio Grande do Norte; Florianópolis, do por essa instituição. As informações são de
São Francisco do Sul, e Bombinhas, no estado que sua origem se deu no processo de pesquisa
de Santa Catarina; Cabo de Santo Agostinho, da Estação Docas de Belém e de uma fortale-
no estado de Pernambuco; Vitória, no estado do za próxima. Na internet é possível encontrar
Espírito Santo; Porto Alegre, no estado do Rio textos sobre a revitalização do espaço em 2013.
Grande do Sul; Salvador e Ilhéus, no estado da O museu não possui sítio virtual próprio.
Bahia; Rio de Janeiro, Arraial do Cabo e Nite- A Fundação Museu de História Pesquisa e
rói, no estado do Rio de Janeiro; São Paulo, São Arqueologia do Mar, São Sebastião (SP), abriga
Sebastião e Ilhabela, no estado de São Paulo. um museu voltado aos naufrágios da região de
Em relação aos 9 museus que declararam São Sebastião, que possui entre 25 e 30 em-
possuir acervo arqueológico temos: Memorial barcações. A arqueologia nesse caso é ligada à
do Porto e Arqueologia e Restauro, em Belém história tráfego marítimo da região e as peças
(PA); Casa do Homem do Mar, em Bombinhas arqueológicas são provenientes desse contexto.
(SC); Fundação Museu História Pesquisa e Ar- O museu possui também modelos em miniatura
queologia do Mar, São Sebastião (SP); Museu de embarcações naufragadas de diferentes perío-
do Mar e da Capitania, Ilhéus (BA); Museu dos históricos e de variadas culturas.
Oceanográfico do Instituto de Estudos do Mar No Museu do Mar e da Capitania, Ilhéus
Almirante Paulo Moreira, Arraial do Cabo (BA), o acervo é dividido em cinco temáticas,
(RJ); Espaço Cultural da Marinha (Museu sendo uma delas o mar. Não foi possível en-
Naval), Rio de Janeiro (RJ); Museu Marítimo, contrar as informações sobre o acervo arqueo-
Santos (SP); Museu Náutico da Bahia, Sal- lógico. O museu não possui sítio virtual, o que
vador (BA); e Centro de Visitação Projeto de dificulta pesquisa mais aprofundada.
Arqueologia Subaquática, Florianópolis (SC). O Museu Oceanográfico do Instituto de Es-
O Espaço Cultural da Marinha (Museu tudos do Mar Almirante Paulo Moreira, Arraial
Naval), Rio de Janeiro (RJ), contextualiza a sua do Cabo (RJ), embora possua sítio virtual não
coleção em relação à arqueologia marítima. Ao encontramos as especificações sobre o acervo
expor artefatos oriundos de naufrágios explicita a arqueológico pertencente à sua coleção.
origem dos objetos e também a pesquisa arqueo- O Museu Marítimo, Santos (SP), possui
lógica que o trouxe à tona. Há painéis com materiais resgatados do mar por mergulhado-
explicações sobre a pesquisa em arqueologia sub- res. Há peças de diferentes naufrágios da costa
aquática. O museu possui canhões provenientes brasileira.
de sítios arqueológicos submersos, além de outros O Centro de Visitação Projeto de Arqueo-
objetos. O enfoque da coleção como um todo logia Subaquática, Florianópolis (SC), foi
gira em torno da história bélica e de conquista criado por uma Organização Não Governamen-
do litoral brasileiro, porém há uma preocupação tal fundada por um grupo de mergulhadores. Os
em apresentar os aspectos da vida no mar e a bens expostos vêm do resgate de uma embarca-
relação do homem com o ambiente marítimo. ção naufragada próximo à praia.
O Museu Náutico da Bahia, Salvador (BA), A Casa do Homem do Mar, em Bombinhas
apresenta em seu sítio virtual uma explanação (SC), é um museu que possui um Projeto de

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Cristiane Eugênia Amarante
Marília Xavier Cury

Arqueologia Subaquática (PAS) com labora- A seguir uma tabela com informações sobre
tório para tratamento de peças retiradas de os museus marítimos com material arqueológico
naufrágios. Na exposição de longa duração há em seus acervos no Brasil, contendo a denomina-
painéis explicativos sobre estudos submersos ção, ano de fundação, vinculação e os objetivos
em duas naus, porém, as palavras arqueologia e interpretados por esta autora após leitura dos
resgate convivem no mesmo texto. materiais escritos nos sítios virtuais (Tabela I).

TABELA 1

Museus marítimos do Brasil com acervos arqueológicos


Denominação Ano de fundação Vinculação Objetivos
Espaço Cultural da 1868(ano de criação) Destacar a participação do
Marinha (Museu Naval), Pública Federal Poder Naval na História do
Rio de Janeiro (RJ) 1884(ano de abertura) Brasil.

Museu Oceanográfico
do Instituto de Estudos
Divulgar as Ciências do Mar e
do Mar Almirante Paulo 1982 Pública Federal
de Mentalidade Marítima.
Moreira, Arraial do
Cabo (RJ)

Desenvolver projetos
Fundação Museu de
ONG Fundação Mar relacionados à Educação
História Pesquisa e
1992 Ambiental, preservação do
Arqueologia do Mar, Privado Meio Ambiente e do patrimônio
São Sebastião (SP)
arqueológico.

Reunir acervo de achados


arqueológicos submarinos. Uma
Museu Náutico da Bahia, mostra permanente relativa à
1998 Privado
Salvador (BA) geografia, história, antropologia
e cultura da Baía de Todos os
Santos.

Memorial do Porto e Organização Social Mostrar a Estação das Docas


Arqueologia e Restauro, 2000 Pará 2000 como portadora da história da
em Belém (PA) Privado navegação da região.
Contar a história do Sul da
Fundação Maramata Bahia, através de livros, fósseis
Museu do Mar e da
2001 e animais empalhados, além de
Capitania, Ilhéus (BA) Privado objetos usados para mergulho e
navegação.
Possibilitar que o público tenha
Centro de Visitação
2002(ano de criação) ONG Barra Sul um contato direto com os
Projeto de Arqueologia
trabalhos de pesquisa de uma
Subaquática, 2004(ano de abertura) Privado embarcação soçobrada próxima
Florianópolis (SC)
a praia.
Sociedade Museu do Apresentar a história dos
Museu Marítimo, Mar
2005 naufrágios do Brasil por meio de
Santos (SP)
Privado acervo relacionado.

Resgatar, desde os primórdios


Instituto Soto da humanidade até nossos dias,
Casa do Homem do Mar, Delatorre
2009 a relação do homem com os
em Bombinhas (SC)
Privado oceanos em seus mais variados
aspectos.

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AMARANTE, C.E.; CURY, M.X.Arqueologia Marítima e Subaquática nos Museus: Casos do Brasil e da Espanha. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 167-173, 2015.

A partir do levantamento observamos que para as questões culturais. O Museu possui um


boa parte dos museus relaciona a arqueologia centro de pesquisa em arqueologia subaquática
marítima e subaquática aos sítios de naufrágios. desde 1992, o CASC (Centre d’Arqueologia
Em alguns poucos vemos a preocupação com a Subaquàtica de Catalunya), que desenvolve
cultura marítima de uma região. Também não projetos e oferece suporte técnico ao Museu e a
há menção a outros sítios submersos, tais como outros órgãos com equipamentos e profissionais.
localidades que foram submergidas, gravuras O CASC mantém um inventário do patrimônio
rupestres submersas, ou sambaquis, sítios esses submerso da Catalunha, além de possuir estru-
já pesquisados pela arqueologia subaquática tura administrativa, uma biblioteca, laborató-
nacional. Destacamos alguns exemplos: Bava rios de restauração e conservação e uma loja.
de Camargo (2009) pesquisou ambientes O Museu Marítimo de Barcelona con-
portuários; Calippo (2010) destacou a relação centra exposições bastante contextualizadas.
de povos sambaquieiros com o mar; Guima- Há um esforço na busca de uma expografia
rães (2009) apresentou a importância de sítios que dialoga com o cotidiano do visitante. Na
depositários; Torres (2010) e Santos (2013) exposição temporária Viatge mar enllà (Viagem
realizaram estudos sobre a maritimidade de ao exterior) as seções seguem a lógica de quem
populações distintas; e Rambelli (2003) citou a vai realizar uma viagem. Os temas são: fazendo
diversidade de tipologias para sítios submersos. as malas, alimentação na embarcação, dia a
Outra questão é a qualidade das pesquisas dia no mar, rotas de viagem, e, por meio dessas
arqueológicas que originaram esses acervos. temáticas, são expostas peças do acervo, como
Não há clareza quanto aos métodos científicos instrumentos de navegação, cartografias náu-
utilizados e muitas vezes a palavra resgate é ticas, modelos de barcos, pinturas temáticas e
utilizada no lugar de pesquisa arqueológica. outros. Na exposição de longa duração observa-
Essa constatação nos faz refletir sobre as ações mos algumas peças arqueológicas e modelos de
de mergulhadores não arqueólogos na costa embarcações. Há uma preocupação em expor
brasileira ao longo do tempo, que resgataram a vida no mar e a cultura marítima espanhola.
artefatos de naufrágios sem a devida contextua- Para aprimorar as pesquisas, nesse museu foi
lização. Em última instância, a musealização criado em 2007 o Observatório Permanente de
desse acervo traz ao público uma informação História e Cultura Marítima do Mediterrâneo,
equivocada do que é arqueologia marítima. com o objetivo de conhecer o passado mais e
melhor vinculado ao mar e às manifestações de
ontem e hoje que essa relação tem gerado.
Musealização da Arqueologia Marítima na O Museo Nacional de Arqueología Suba-
Espanha cuática ARQUA define como missão a tarefa
de fazer com que os cidadãos conheçam o
Para a reflexão sobre a musealização patrimônio submerso espanhol. Suas finalida-
da arqueologia marítima na Espanha foram des são: o estudo, valorização, investigação,
escolhidos quatro casos em que os museus são conservação, difusão e proteção dos bens
ligados a instituições de pesquisa em arqueolo- arqueológicos provenientes do ambiente úmido
gia subaquática. na Espanha. O Museu foi criado em 1992
O Museu d’Arqueologia da Catalunya juntamente com o Centro Nacional de Inves-
possui parte de sua exposição de longa duração tigaciones Arqueológicas Submarinas. Estas
voltada para as questões marítimas do Medi- instituições desenvolvem um amplo programa
terrâneo. A preocupação expositiva é contex- de pesquisas arqueológicas subaquáticas no lito-
tualizar a região da Catalunha culturalmente ral do país. Além disso, oferece cursos na área
em relação ao ambiente marítimo. Nos textos e possui laboratórios de restauração e conser-
observamos a apresentação de diferentes rela- vação de materiais provenientes dos ambientes
ções, não se limitando às corriqueiras facetas aquáticos. O Museu foi reinaugurado em 2008
bélicas e econômicas, todavia há uma atenção com amplo espaço para exposições, biblioteca,

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Cristiane Eugênia Amarante
Marília Xavier Cury

auditório, midiateca, salas para cursos e setor Considerações finais


administrativo.
O Museu Naval de Madri existe desde Os desafios são numerosos nessa área no
1843. O acervo e as exposições mudaram de Brasil. Ao nos debruçarmos sobre esse tema re-
endereço ao longo do tempo até se instalarem fletimos que ainda há muito a ser feito. A come-
no prédio atual em 1930. A sua última refor- çar por conhecer o que já existe. Na Espanha há
ma aconteceu em 1992, mantendo caracte- um mapeamento de 15 museus com a temática
rísticas de evocação romântica. Diferente dos marítima só na Catalunha (ARGO, 2008), ao
anteriores, o foco desse museu é o contexto passo que no Brasil encontramos 25 museus
com a temática marítima para o país todo, com
bélico e econômico, também há uma preocu-
um território muito maior. Além disso, esse
pação com a tecnologia de construção naval.
catálogo ainda não existe sistematicamente,
Há na exposição de longa duração diferentes
sendo necessário pesquisar por palavras-chaves
modelos de embarcações de variadas épocas
no sítio virtual do Instituto Brasileiro de Mu-
expostos, juntamente com os armamentos e
seus para chegar a este número e as buscas nem
as moedas dos períodos correspondentes. Em
sempre traziam só os museus com a temática.
relação à arqueologia subaquática há uma sala
Dessa forma, o primeiro passo é organizar um
voltada especificamente para o tema, com
mapeamento com fácil divulgação.
artefatos provenientes de um naufrágio. Há
Por outro lado, pensar sobre esses desafios
uma atenção ao cotidiano vivido na embarca- nos leva a reconhecer que nós temos a oportu-
ção. Do lado de fora da sala, um vídeo mostra nidade de reinventar os temas, sair da questão
como foram as pesquisas arqueológicas nesse da navegação e dos naufrágios somente e avan-
sítio. Há também um texto falando sobre çar para a musealização dos diferentes sítios
arqueologia subaquática e sobre o naufrágio submersos que possuímos.
especificamente. O Brasil possui grande potencial para a
O levantamento sobre museus da Espanha pesquisa em arqueologia de ambientes aquáticos.
nos faz refletir sobre alguns pontos, entre estes Além do que já se pesquisou e ainda não foi mu-
o fato de que só na Catalunha há mapeado e sealizado há também novos sítios arqueológicos
divulgado 15 Museus com a temática marítima. a serem descobertos. Esses sítios, se investigados
Outra questão é que os museus citados dão por meio de pesquisas arqueológicas sérias e cri-
importância ao contexto marítimo, fazendo o teriosas, poderão aprimorar a musealização dos
objeto ser o portador de uma história maríti- acervos arqueológicos marítimos, fazendo o país
ma maior que o artefato em si. Assim sendo, alavancar o desenvolvimento de técnicas pró-
a cultura marítima é bastante explorada nas prias de restauro, conservação e expografia. Aos
exposições. Por fim, há profundidade na apre- museus atuais que possuem acervo arqueológico
sentação dos projetos arqueológicos com temas e não possuem equipe de arqueólogos, indicamos
pertinentes e claros, tais como: mapeamento que exista essa correção, para que se aprofundem
de bens submersos em grandes áreas; pesquisas os estudos a respeito de artefatos já musealiza-
sobre técnicas de restauro e conservação dos dos. Além disso, é necessário esclarecer o público
materiais provenientes de ambientes aquáticos; sobre os procedimentos das pesquisas arqueológi-
e investigação sobre aspectos da maritimidade cas em ambiente úmido, substituindo o discurso
espanhola. Isso acontece porque os museus do resgate pelo conhecimento científico.
espanhóis são ligados a centros de pesquisa em Podemos avançar também na musealização
arqueologia subaquática com equipes especiali- com o viés da nova museologia e da arqueologia
zadas, sempre com a presença de arqueólogos. pública, realizando uma política de musealização
Por esse motivo o público entra em contato inclusiva socialmente, de planejamentos parti-
com pesquisas arqueológicas sérias e aprofunda- cipativos e da atuação das populações locais na
das, conhecendo procedimentos e métodos por elaboração de exposições, gerando sustentabilidade
meio de recursos expográficos que contextuali- e cooperação entre as comunidades acadêmicas e
zam a ciência arqueológica. não acadêmicas na gestão dos patrimônios.

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AMARANTE, C.E.; CURY, M.X.Arqueologia Marítima e Subaquática nos Museus: Casos do Brasil e da Espanha. Revista do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 167-173, 2015.

AMARANTE, C.E.; CURY, M.X. Maritime Archaeology and Underwater Archaeology:


Cases of Brazil and Spain. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 167-173, 2015.

Abstract: This paper presents a theoretical explanation of the musealiza-


tion Maritime Archaeology. A data about these museums situations in Brazil
will be presented through a research on the virtual site of IBRAM (Brazilian
Institute of Museums). An enrollment shows the cities where these museums
are found observing the description of their collections and trying to identify
the treatment given to Maritime Archaeology. Besides the Brazilian institu-
tions there will be an analysis of four institutions in Spain. The intention is
to compare the two realities in order to add new perspectives on the subject
proposal and to reflect about the challenges in musealization.

Keywords: Maritime Archaeology – Musealization of Archaeology – Public


Archaeology.

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Cristiane Eugênia Amarante
Marília Xavier Cury

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Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra Indígena
Ilha da Cotinga – litoral do Estado do Paraná1

Sabrina de Assis Andrade*

ANDRADE, S.A. Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra Indígena Ilha da


Cotinga – litoral do Estado do Paraná. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 175-180, 2015.

Resumo: Este artigo apresenta discussões de uma análise etnoarqueoló-


gica realizada com o povo Mbya Guarani na Terra Indígena Ilha da Cotinga,
litoral do Estado do Paraná. Objetivou-se compreender qual a relação estabe-
lecida entre os indígenas e este local, sob o ponto de uma pesquisa que inte-
grasse estudos arqueológicos e etnológicos buscando novos referenciais para
a reflexão sobre a cultura material remanescente nessas áreas. Segundo os
nativos, este território é reconhecido como terra tradicional indígena devido,
entre outros motivos, à presença de vestígios de seus ancestrais, incluindo um
conjunto de elementos e disposições que marcam as relações entre este lugar
e o modo de ser guarani.

Palavras-chave: Etnoarqueologia – Terra Indígena – Mbya Guarani

A Terra Indígena Ilha da Cotinga ou


Tekoa Pindoty (em guarani terra
de muitos coqueiros) é formada pelas ilhas
As ilhas estão localizadas a 2 km a leste do
município de Paranaguá, em frente à foz do Rio
Itiberê, faixa litorânea paranaense, localizada
Cotinga e Rasa da Cotinga (Fig. 01), oficial- a leste da Serra do Mar, abrangendo a planície
mente homologada em 16 de Maio de 1994. A litorânea e a zona montanhosa.
demarcação administrativa da TI promovida Levantamentos arqueológicos e estudos
pela Fundação Nacional do Índio – FUNAI é etno – históricos e etnográficos realizados
caracterizada como de posse tradicional indíge- durante a presente pesquisa constataram a
na pertencente ao grupo étnico Mbya Guarani. presença de sítios arqueológicos pré-históricos
(sambaquis e inscrição rupestre), históricos
(cerâmica, louça, ruínas de alvenaria), porém
nenhum deles relacionados diretamente à cul-
(*) Mestre em Antropologia Social pela UFPR –
Universidade Federal do Paraná.
tura indígena ceramista pré-histórica ou etno –
(1) Este artigo é parte da dissertação de mestrado histórica Mbya Guarani. Muitos desses vestígios
“Etnoarqueologia Mbya Guarani no Tekoa Pindoty (Ilha estão dispostos nas áreas das atuais moradias
da Cotinga), litoral do Estado do Paraná”, defendida no
indígenas, nos locais de abandono temporário
departamento de Antropologia Social na Universidade
Federal do Paraná. Pesquisa realizada com bolsa CAPES, e nas vias de circulação. Esta condição de “so-
sob orientação do prof. Dr. Laércio Loyola Brochier. breposição”, ou acumulação palimpsestual no

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ANDRADE, S.A. Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra Indígena Ilha da Cotinga – litoral do Estado do Paraná. Revista
do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 175-180, 2015.

Fig. 1. Mapa com a delimitação da TI Ilha da Cotinga (Ilhas da Cotinga e Rasa da Cotinga).
(Fonte: Sema e Diretoria do Serviço Geográfico, ano 2002).

sentido de Bailey (1983, 2007), remete à noção material e da paisagem, levantados durante
de uma contínua transformação no registro ma- as pesquisas de campo. Entre esses elemen-
terial da ilha por diferentes grupos e atividades tos, destacam-se as estruturas de habitações
humanas e em diferentes escalas temporais. contemporâneas, os sambaquis, a casa de reza,
A ocupação territorial recente das ilhas o cemitério indígena e o campinho dos xondaro.
pelo grupo Mbya Guarani se deu em meados Para tanto, foi realizado um trabalho de campo
da década de 1970, devido ao reconhecimento que contou com a presença dos Mbya na identi-
deste território como terra tradicional indígena. ficação e interpretação dessas materialidades
Este sentimento de pertencimento se dá, segun- e lugares significativos, que juntos formam um
do os Mbya, pela presença de vestígios de seus conjunto de elementos essenciais para que os
ancestrais e da confirmação de Nhanderu (Deus indígenas vivam de acordo com os preceitos
verdadeiro) que ali poderiam viver conforme estabelecidos pela cultura e tradição Mbya
seus ensinamentos. Dessa forma, buscou-se Guarani, a intenção foi demonstrar que os
compreender a relação simbólica presente na indígenas possuem suas próprias interpretações
apropriação deste território de acordo com a sobre a cultura material e a paisagem, inter-
percepção de mundo própria dos Mbya, através pretação esta criada a partir de suas próprias
da significação de alguns elementos da cultura percepções de mundo.

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Sabrina de Assis Andrade

Estruturas habitacionais: o pindó e a Opy ou casa de reza


proteção de Nhanderu
A casa de reza ou opy (como chamam os
Atualmente, há na Ilha da Cotinga, casas Mbya) da TI Ilha da Cotinga possui algumas
residências e locais de uso comum (ex. escola, conotações simbólicas presentes na cosmologia
casa de reza) feitas de pau a pique, de madeira e Mbya. Esta casa de reza foi construída em uma
de alvenaria. O pau a pique é a construção tra- colina de aproximadamente 24 m de altura
dicional guarani que consiste numa armação de onde do seu alto é possível avistar toda a aldeia
bambus, encostados uns aos outros, preenchida e vice-versa. Na área de encosta adjacente ao
por barro, geralmente sem repartições internas. topo da colina onde se dispunha a opy foi pos-
A habitação tradicional se completa pela cober- sível identificar alguns vestígios resultantes da
tura feita de palmeira ou pindó, como chamam produção de materialidade dos próprios Mbya,
os Mbya. Segundo a Mbya Juliana Kerexu2, os estes registros compreendem mudanças no uso
xondaros (deuses – filhos de Nhanderu) quando atual do solo (área de roça), instrumentos (fa-
estão aborrecidos se aproximam das comunida- cões), marcas em blocos de rocha e até vestígios
des Mbya provocando tempestades com raios de corte de barrancos decorrentes das ‘antigas’
e trovões, sendo que as casas que não possuem moradias dos Mbya.
cobertura de pindó ficam suscetíveis aos raios, A casa de reza é considerada o centro
pois Nhanderu não as reconhece como casa de social da aldeia por sua definição de espaço co-
Mbya. Do contrário, as casas cobertas por estas munal. Segundo um dirigente espiritual, “a opy
palmeiras estão livres desta ira de Nhanderu. é feita onde o sol nasce, o amba (altar) é onde o
Inclusive, Juliana me disse que sua mãe, Rosa- sol (Kuaray) coloca o seu raio. “Nhanderuvixa,
lina, reluta em morar em casas com cobertura nossos dirigentes, vão rezar frente o lugar onde
que não sejam de pindó, por medo da reação de o sol nasce” (Ladeira 2008: 166).
Nhanderu. Entre outras características presentes na
análise de Ladeira, esta pode ser identificada
na TI Ilha da Cotinga, a qual tem seu amba po-
Mbya Guarani e os sambaquis sicionado em direção a leste, onde o sol nasce.
Ainda no topo da colina é possível observar
Sobre a relação simbólica entre os indí- que há um solo completamente limpo, ‘quase’
genas contemporâneos com os sambaquis, propositalmente, destoando dos arredores das
segundo o cacique Dionísio3, num passado demais casas da aldeia. Outro aspecto que
distante, talvez em algum ritual ligado à morte corresponde à passagem de Ladeira é quanto
indígena, possa estabelecer uma ligação de à fertilidade do solo na colina; neste local se
ancestralidade, não genética, mas sim, uma encontra um dos poucos espaços ocupados por
relação marcada pela ocupação comum destes plantações na comunidade nos dias de hoje.
locais. Ao que parece, há uma distinção feita
entre o que foi construído pelo branco ou juruá
(como chamam os Mbya) e o que foi construído Morte Mbya Guarani – cemitério indígena
antes da chegada destes, ou seja, tudo o que foi
construído num período pré-histórico, de certa O local que os Mbya usam como cemitério
forma, pertence à memória e à ancestralidade fica na Ilha Rasa da Cotinga, distante das casas
guarani. dos indígenas, as quais se concentram na Ilha
da Cotinga. Segundo o cacique Dionísio, o
acesso ao cemitério só costuma acontecer quan-
do há um falecimento na comunidade, ou se al-
(2) Juliana Kerexu foi uma das informantes no processo da gum membro do grupo sonhou com um parente
pesquisa de campo deste trabalho.
(3) Dionísio foi um dos informantes no processo da falecido; do contrário, esse local deve permane-
pesquisa de campo deste trabalho. cer isolado e desconhecido pelos juruás.

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ANDRADE, S.A. Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra Indígena Ilha da Cotinga – litoral do Estado do Paraná. Revista
do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 175-180, 2015.

Segundo Daniel Kuaray4, “o guarani possui local onde os xondaros (deuses – filhos de Nhan-
três almas, sendo que após a morte uma das almas, deru) vinham jogar e brincar, este é um espaço
a boa, vai para a Terra Sem Mal5 com Nhanderu; sagrado muito significativo para os Mbya.
outra pode ir para o mundo das sombras e passar Disseram-me também que, hoje, além da
o resto dos tempos vagando, e mais uma, a alma vegetação nativa que cerca o campinho, há
má, que pode voltar em forma de um animal”. muitos pés de uma frutinha amarela, pareci-
Tal acontecimento recebe o nome de ejepotá, e da com a gabiroba, e que anos atrás, em suas
revela um guarani que ao mesmo tempo é bom visitas quase diárias a este local, eles encontra-
e mal. Segundo a cosmologia indígena, para vam diversas bolas de gude, segundo Juliana,
que este corpo morto não se transforme em um chegavam mesmo a encher pacotes dessas
animal e fuja através do ejepotá, quando um bolas que tinham uma aparência muito antiga.
guarani morre, realiza-se um ritual e o indígena É provável que no momento em que se deu
morto é posto dentro de uma urna funerária a ocupação recente Mbya no Tekoa Pindoty
que vai servir como proteção, não deixando (década de 1970), este local já estivesse mar-
esta alma-animal escapar. Ressalte-se que nem cado na paisagem, e através de um processo de
todos os falecidos eram sepultados dentro das ressignificação os Mbya acabaram incorporando
urnas, isso geralmente acontecia quando uma esta materialidade como parte do processo
pessoa estava ainda em vida agindo em desacor- cosmológico indígena.
do com os ensinamentos de Nhanderu.

Considerações finais
O Campinho dos Xondaros
Diante dos relatos sobre a significação
Em uma conversa com os jovens irmãos e ressignificação de alguns componentes da
Mbya Juliana, Ronildo, Marcio, Juliano e Ri- materialidade e da paisagem existentes na TI
vair6 questionei o que seria um campo desma- Ilha da Cotinga, foi possível perceber que os
tado presente bem no meio da ilha, cercado por indígenas possuem suas próprias interpretações
densa vegetação por todos os lados. sobre o passado. Segundo Hodder (2000: 10),
Eles me disseram que aquele local, conhe- “na medida em que o arqueólogo reconhece
cido como o campinho dos xondaros, lembrava que sua interpretação do registro arqueológico
muito a infância deles ali na ilha, pois era o é apenas uma das interpretações possíveis,
local preferido para brincar. Segundo Juliana, ele expande as fronteiras da disciplina e a
os mais antigos contavam que este campo era o torna verdadeiramente social”. As palavras de
Hodder dão margem para o discurso que prima
pela existência de um passado criado a partir
(4) Daniel Kuaray foi um dos informantes no processo da da percepção de mundo de cada pesquisador
pesquisa de campo deste trabalho. ou informante. Aceitar essa possibilidade é
(5) Terra Sem Mal ou Ivy Marã Ei: Yvy Mara Ey ou Terra aceitar que existem diferentes usos do passado
Sem Mal diz respeito a uma terra sagrada preparada por
ampliando as possibilidades interpretativas da
Nhanderu ao povo Guarani. Em tempos pretéritos, os
indígenas realizavam migrações no sentido oeste\leste em arqueologia.
busca desta terra. Assim, estabelecer moradias próximas Mesmo populações nativas que sofreram
ao mar, sobretudo nas ilhas, era a possibilidade de estar fortes influências do mundo moderno, caso da
mais próximo desta terra que se encontra para além das
águas. Essas migrações eram geralmente dirigidas por líderes
Mbya Guarani, possuem particularidades que os
espirituais, os quais poderiam revelar pontos de parada e fazem singulares, e dar voz às suas interpreta-
lugares para os indígenas formarem seus tekoas. Segundo os ções não limita a importância do conhecimento
indígenas, nestes locais não haveria doenças nem guerras e científico moderno; pelo contrário, ambas
onde tudo que se plantasse renderia bons frutos.
(6) Juliana, Ronildo, Marcio, Juliano e Rivair foram
interpretações são válidas, de acordo com o
informantes no processo da pesquisa de campo deste significado e contexto de cada pesquisador ou
trabalho. informante. Compreender como esse contexto

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Sabrina de Assis Andrade

age no cotidiano indígena faz com que seja pos- cultura material quando se referem aos vestígios
sível perceber como se dão as relações entre as dos ancestrais, mas, muitas vezes, esta relação
pessoas e as coisas, assim como a relação entre deles com tais lugares se dá em outra percepção
tempo passado e tempo presente, ao mesmo da realidade, como já previsto por Viveiros de
tempo em que prioriza o resgate da memória e Castro (2012). O autor propõe que para que
afirmação da ancestralidade Mbya Guarani. possamos interpretar a cultura nativa de acordo
De fato, quando o povo Mbya sustenta com seus conhecimentos, é necessário que seja
que a ocupação recente da Ti Ilha da Cotinga considerado o aspecto subjetivo das ativida-
se deu devido à presença de vestígios de seus des que resultaram na cultura material, pois o
ancestrais, falam de um tempo longínquo, que conhecimento nativo depende de outros fatores
revela que estas populações têm suas próprias para explicar as coisas que existem no mundo,
interpretações sobre esses locais. De acordo ou seja, eles têm de orquestrar o conhecimento
com os dados levantados em campo, foi possível deles com o conhecimento das demais coisas que
perceber que nem sempre eles estão falando da existem no cosmo.

ANDRADE, S.A. Territorial occupation Mbya Guarani Indigenous Land Cotinga


Island – coast of the state of Paraná. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, Suplemento 20: 175-180, 2015.

Abstract: This article presents a discussion ethnoarchaeology analysis


conducted with the Mbya Guarani Indigenous Land Cotinga Island, of the
coast of Paraná. This study aimed to understand the relationship established
between the Indians and this local, from the point of research that in-
tegrates archaeological and ethnological studies seeking new reference for
reflection on the material culture remaining in these areas. According to the
natives, this territory is recognized as traditional indigenous land due to
the presence of traces of their ancestors includes a set of elements and
arrangements that mark the relations between this place and the guarani way
of being.

Keywords: Ethnoarchaeology – Indigenous Land – Mbya Guarani

Referências bibliográficas

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ANDRADE, S.A. Ocupação territorial Mbya Guarani na Terra Indígena Ilha da Cotinga – litoral do Estado do Paraná. Revista
do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 175-180, 2015.

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Federal Fluminense. Rio de Janeiro. Dispo-
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180

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Arqueologia Histórica e patrimônio cultural no centro histórico de
Teresina – Piauí: Resgate da memória, construção da identidade
e fortalecimento da cidadania

Virginia Marques da Silva Neta*

DA SILVA, V. Arqueologia Histórica e patrimônio cultural no centro histórico de


Teresina – Piauí: Resgate da memória, construção da identidade e fortalecimento
da cidadania. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 181-185, 2015.

Resumo: O presente artigo consiste em refletir sobre a Preservação


Patrimonial da cidade de Teresina – PI, em se tratando de imóveis localizados
no centro considerado histórico, que trazem em sua composição elementos
da arquitetura clássica, neoclássica e eclética. Pretendemos alertar a popula-
ção e os órgãos responsáveis quanto à preservação do patrimônio edificado
para as problemáticas e consequências ao meio em que estamos inseridos, de
modo a intervirmos nesse contexto histórico como seres construtores de nossa
identidade.

Palavras-chave: Patrimônio – Memória – Identidade.

A o longo da história do Ocidente,


a vida urbana tem recebido uma
avaliação diferenciada. Ora é tida como espaço
da década de 1950, quando as construções
arquitetônicas, que antes eram feitas com a
utilização de pedra ou tijolo cru, telhas cerâmi-
de progresso, ora é percebida como espaço de cas e paredes em taipa, passaram a utilizar em
desordem. Por muito tempo se pensou a cidade larga escala o concreto, desenvolvendo estilos
como lugar de modernidade e progresso em como o clássico e neoclássico. Atualmente, os
oposição ao mundo rural, considerado o locus exemplares desse tipo de construção estão em
da tradição e do atraso. A cidade passa a ser processo de demolição ou já não existem mais.
identificada como campo da racionalidade e do
“A grande transformação, entretanto,
planejamento, atraindo populações em busca de
podemos constatar a partir da década de
novas oportunidades de vida.
1950. Em virtude da influência de outras
Em Teresina, a transformação do espaço
regiões do país, multiplicaram-se pelas
pode ser percebida com mais atenção a partir
ruas de Teresina as construções de um
ou dois pavimentos, com o uso intensivo
(*) Arqueóloga e Conservadora de Arte Rupestre pela do concreto, nos mais variados estilos. A
Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Historiadora pela
Universidade Estadual do Piauí. (UESPI). Professora da
partir daí, a descaracterização vem sen-
rede particular de ensino em Teresina (PI). do uma constante. [...] Restam poucas
vikaneta@gmail.com construções do século passado e do iní-

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DA SILVA, V. Arqueologia Histórica e patrimônio cultural no centro histórico de Teresina – Piauí: Resgate da memória,
construção da identidade e fortalecimento da cidadania. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 181-185, 2015.

cio do atual, concentrando-se o acervo estão em processo de demolição ou já não


nos prédios do Estado e do Município. existem mais.
Os particulares, quase todos se foram A escolha por determinados lugares porta-
através da especulação imobiliária. A dores de toda uma referência histórica nos faz
picareta desenfreada destruiu prédios de utilizar a categoria de “lugares de memória”,
linhas arquitetônicas de várias épocas. definida por seu criador Pierre Nora, como
A falta de sensibilidade vem destruindo sendo o “patrimônio arquitetônico e seu estilo,
a memória da capital piauiense através que nos acompanham por toda nossa vida, as
da demolição dos prédios e da desfigura- paisagens, as datas e personagens históricas de
ção de antigos logradouros e praças.[...] cuja importância somos incessantemente relem-
Infelizmente, a preservação de conjuntos brados, as tradições e costumes.” (Pollack 1989:
urbanos não vem sendo possível, em 3). Ao elencarmos determinados lugares como
virtude das dificuldades encontradas merecedores de nossa atenção no que tange à
pelos órgãos pertinentes. O abandono preservação patrimonial, estaríamos definindo
e o descaso a que é submetida a cultura os mesmos como lugares de memória.
nacional é um fato inconteste. Apenas Com a divisão da cidade, proposta pela
alguns prédios isolados vêm merecen- lei de zoneamento nº 1939/88, em zonas de
do proteção e os cuidados devidos. O preservação – ZP’s, Teresina é composta por
tombamento de conjuntos arquitetôni- oito ZP’s, onde para definição de nosso objeto
cos, de incontestável importância para de estudo analisaremos somente a zona de pre-
a memória das cidades, em Teresina não servação 01, que engloba a região da cidade,
tem ressonância.” (Barbosa 1994: 72) considerada como centro histórico, portadora
de referências e memórias para os habitantes
Desde sua fundação, a paisagem urbana citadinos.
da capital piauiense vem sofrendo modifica- A referida lei municipal foi sancionada 136
ções acentuadas, os casarios de palha foram anos após a Transferência da Capital da cidade
desaparecendo na medida em que as residên- de Oeiras para a Chapada do Corisco, local
cias adotavam estilos arquitetônicos baseados compreendido atualmente na Praça Marechal
nas moradas, casas térreas com composições Deodoro – Praça da Bandeira – e adjacências.
simétricas de fachadas e de plantas, que, Uma cidade ainda muito jovem se comparada
dependendo do tamanho, poderiam ser classi- em relação a outras, como, por exemplo, Sal-
ficadas como meia-morada ou morada e meia. vador e São Luís, que contam com um estágio
Os prédios destinados a instituições públicas muito mais avançado no que tange à preserva-
adotaram o estilo arquitetônico conhecido ção de monumentos históricos e possuem ainda
como neoclássico, simbolizando assim o poder um centro histórico bem definido.
público. Em seguida, percebemos a presença do As primeiras construções realizadas na
estilo eclético que se caracteriza principalmente capital piauiense contaram com a participação
pela mistura de diversos elementos, permane- efetiva, segundo o historiador Fonseca Neto
cendo nas edificações teresinenses até meados (2002), de dezenas de escravos, que serviam
da década de 1940. como pedreiros e serventes, desempenhando
Na capital piauiense, a transformação do outras funções. Não consta dos documentos
espaço pode ser percebida com mais atenção oficiais nenhum dado sobre esses escravos,
a partir da década de 1950, quando as cons- os verdadeiros construtores da nova capital
truções arquitetônicas, que antes eram feitas piauiense. No entanto, é mencionado nos
com a utilização de pedra ou tijolo cru, telhas registros a figura de João Isidoro França, o
cerâmicas e paredes em taipa, passaram a utili- primeiro mestre de obras a trabalhar na edifi-
zar em larga escala o concreto, desenvolvendo cação dos primeiros prédios públicos da capital,
estilos como o clássico e neoclássico. Atual- indicado pelo presidente da província, Conse-
mente, os exemplares desse tipo de construção lheiro Saraiva.

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Virginia Marques da Silva Neta

“Ninguém reteve o nome desses estará proibida nesta região da cidade. Como
escravos-pedreiros. Continuam anôni- vantagens oferecidas ao proprietário, a legisla-
mos enquanto personagens centrais da ção concede a isenção no pagamento do IPTU
construção da nova cidade. Até já se e da taxa de licença para construção. Como
conhece registros sobre um mestre de podemos perceber nos artigos seguintes:
obras, João Isidoro França, mas quanto
Art. 4º – Na Zona de Preservação
àqueles trabalhadores simples, apenas se
Ambiental 1 – ZP1, serão mantidas as
sabe que derramaram suor, e talvez lá-
características arquitetônicas, artísticas
grimas, para, naquele contexto, erguer a
e decorativas das fachadas voltadas para
Teresina dos sonhos de poucos brancos”
logradouros públicos das edificações
(Fonseca Neto 2002:18).
nela situadas e, a critério do Conselho
A partir deste momento, temos o início das de Desenvolvimento Urbano, também a
construções públicas na capital, como podemos sua volumetria, incluindo o telhado.
citar, o Cemitério São José, conhecido antes por Art. 14º – Será vedado o uso de
Cemitério Velho, em especial a Capela, o Mer- “outdoors” ou qualquer outra forma de
cado ou Feira Pública, o Quartel (1855), hoje, publicidade na Zona de Preservação
Central de Artesanato Mestre Dezinho, que Ambiental 1 – ZP1, [...]
abriga lojas onde são comercializados produ- Art. 19º – O proprietário ou possui-
tos artesanais de todo o Estado e ainda possui dor de imóvel tombado ou relacionado
um porão onde os visitantes podem perceber em um dos anexos desta Lei que promo-
a tortura aos escravos, o prédio da Prefeitura ver a sua conservação ou restauração
Municipal, que abrigou a Escola Normal de integral ou parcial, será beneficiado com
Teresina (1924), Palácio do Governo, hoje, o a isenção do Imposto sobre Propriedade
Museu do Piauí (1857/1858). Predial e Territorial Urbana – IPTU,
O prefeito Raimundo Wall Ferraz, demons- assim como da taxa de licença para
trando grande sensibilidade, inicia o processo construção.
de formulação da primeira lei que viria a for-
necer embasamento legítimo à questão preser- Art. 20º – As partes dos imóveis
vacionista dos imóveis e locais mais represen- protegidos por esta Lei e constantes dos
tativos da memória da cidade, buscando aliar a seus anexos não poderão ser destruídas,
valorização com a identificação da imagem da demolidas ou mutiladas sem prévia auto-
cidade. rização especial do órgão competente da
Prefeitura Municipal e a aprovação do
A justificativa produzida para explicar a op-
Conselho de Desenvolvimento Urbano
ção de fazer uma preservação parcial de alguns
– CDU. (Legislação 1988).
imóveis foi estratégica – “permitir a conciliação
de novos usos com um maior aproveitamento Apesar da isenção do pagamento de
de imóvel, resguardando parte do ambiente impostos, o que se percebe é total inanição dos
urbano.” (Legislação 1988). Percebemos, assim, proprietários perante o problema da descarac-
que objetivo primordial não seria a conservação terização e demolição dos imóveis. Quanto
do imóvel como um todo, mas sim, conservar a cobrança de multas a quem desobedeça ao
somente a fachada, parte integrante do apare- estabelecido na legislação, como não há um
lho arquitetônico ao qual estava inserido. Razão departamento específico nos órgãos públicos
esta que também pode ser encarada como uma para tratar dessa questão, também não existe
forma de não limitar tanto o proprietário do um setor específico para efetuar a cobrança das
imóvel quanto ao uso de sua propriedade. possíveis multas.
A lei é bastante específica: a preservação A questão patrimonial no Estado do Piauí
será feita apenas das fachadas voltadas para os possui um tratamento pouco sistematizado, já
logradouros públicos, quanto à publicidade, esta que alguns bens imóveis recebem prioritaria-

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DA SILVA, V. Arqueologia Histórica e patrimônio cultural no centro histórico de Teresina – Piauí: Resgate da memória,
construção da identidade e fortalecimento da cidadania. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 181-185, 2015.

mente ações restauradoras, o que representa houve a necessidade de elaboração do Inven-


apenas uma parcela de todo o processo de tário de Proteção do Acervo Cultural do Piauí
preservação do patrimônio. Dessa forma, – IPAC-PI, com a colaboração de três institui-
privilegiando-se apenas essas estruturas isola- ções públicas: A SPHAN – Pró-Memória, a
das, outras formas de manifestações culturais Secretaria de Cultura e a Universidade Federal
são deixadas à margem do processo, como, do Piauí, por meio do Núcleo de Antropologia.
por exemplo, os conjuntos urbanos e as ma- Realizado no ano de 1998 sob a coordenação
nifestações arqueológicas. Os órgãos públicos dos arquitetos Olavo Pereira da Silva e Maria
detinham conhecimento sobre o acervo, porém Cristina Cairo Silva, o IPAC-PI é de fundamen-
as informações não eram esclarecedoras e tal importância para conhecermos as caracte-
não estavam organizadas metodologicamente. rísticas dos imóveis, tais como: dados jurídicos,
“Apesar do conhecimento da existência deste físicos, tipológicos e descritivos.
rico acervo, as informações não eram de caráter O IPAC-PI é uma preciosa fonte de
técnico e não estavam organizadas de maneira informação sobre as construções antigas de
a subsidiar qualquer pesquisa ou medida de Teresina, visto que traz de uma forma detalha-
proteção.” (Cadernos de Teresina 1987: 8) da as características técnicas necessárias para
Em Teresina, os tombamentos realizados o entendimento da necessidade de preserva-
durante a gestão de Wall Ferraz funcionaram ção. Passados 11 anos de sua realização, esse
mais como uma afirmação da necessidade da documento encontra-se desatualizado. É o
criação da Fundação Cultural Monsenhor Cha- que nos afirma Pedrazzani, quando menciona
ves, entidade de nível municipal, responsável que “esse inventário encontra-se hoje com
por realizar os tombamentos e pela fiscalização algumas partes defasadas: o número de bens
dos mesmos. Assim, Teresina possui sete bens tombados alterou-se; na época, alguns imóveis
imóveis tombados em nível municipal, são eles: estavam em obras, e assim foram registrados,
o Antigo Palácio dos Bispos, a Antiga Inten- estando hoje já reformados; e bens que foram
dência de Teresina, o Edifício-sede da Bibliote- demolidos ou descaracterizados.” (Pedrazzanni
ca Cromwell de Carvalho, a Capela de Nossa 2005: 107)
Senhora do Amparo, a Sede da Justiça Federal, É muito mais lucrativo manter um es-
Escola Normal Antonino Freire e o imóvel da tacionamento do que um imóvel antigo, em
Antiga Fábrica de Fiação e Tecidos Piauiense, situação precária de conservação. Já que para
onde atualmente é de propriedade de um gran- manter uma edificação é necessário dispender
de grupo empresarial da região1. recursos financeiros e materiais. Sabemos da
O que nos chama a atenção é que todos necessidade de estabelecimentos deste porte
esses tombamentos foram realizados no ano no centro, porém muito mais imprescindível
de 1986, ano da criação da Fundação Cultu- é manter as características arquitetônicas de
ral Monsenhor Chaves. Para Pedrazzani, essa toda uma época da história piauiense. Dessa
prática teve mais um “caráter inaugural” do
forma, concordamos com Santos, quando
que uma política de resultados efetivos na área
afirma que:
de preservação patrimonial da cidade, já que
se limitaram ao ano de 1986. (Pedrazzanni “não podemos ser ingênuos a ponto
2005: 97) de acreditar que as cidades não devem
Diante de um quadro lastimável dos bens mudar no curso da História e desconhe-
imóveis do centro histórico de nossa cidade, cer a existência de imaginários superpos-
tos e de concepções em conflitos. A luta
pela preservação do patrimônio cultural
não pode estar associada ao congela-
(1) Os decretos de tombamento do município de Teresina
podem ser acessados no site oficial da Prefeitura Municipal:
mento da cidade, à sua imobilização,
www.teresina.org.br, ou ainda na sede da Fundação Cultural não é esta a luta que nos cabe. Mas o
Monsenhor Chaves. direito à memória precisa ser respeitado

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Virginia Marques da Silva Neta

por aqueles que têm como tarefa gerir a ser preservado parcialmente ou tombado em
as intervenções no espaço urbano e este uma das esferas públicas, adquire uma questão
direito deve estar associado ao direito à ainda maior – o fato de não poder ser modifi-
identidade.” (Santos in Schiavo; Zeetel cado é visto, muitas vezes, como um entrave
1997: 26) ao desenvolvimento local por proprietários,
empresários de empresas privadas, gestores imo-
Quem escolhe a luta pelo patrimônio biliários e, ainda, por que não dizer, pela própria
deve estar ciente dos obstáculos que terá em sociedade, que, pela ausência de conhecimento,
seu caminho, pois lidar com imóvel já envolve não compreende a real importância da preser-
interesses diversos. E quando esse imóvel passa vação daquele imóvel.

DA SILVA, V. Arqueología histórica y patrimonio cultural en el centro histórico de


Teresina – Piauí: Rescate de la memoria, construcción de la identidad y fortaleci-
miento de la ciudadanía. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo,
Suplemento 20: 181-185, 2015.

Este artigo consiste en hacer un reflejo acerca de la Preservación Patri-


monial de la ciudad de Teresina – PI, tratándose de inmóviles ubicados en el
centro considerado histórico, que traen en su composición elementos de la
arquitectura clásica, neoclásica y eclética. Pretendemos alertar la población
y los órganos responsables para la preservación del patrimonio edificado para
las problemáticas y consecuencias para el medio en que estamos inseridos, de
modo a nos intervenimos en este contexto histórico como seres constructores
de nuestra identidad.

Palabras claves: Patrimonio – Memória – Identidad.

Referências bibliográficas

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Memória e patrimônio da Nigéria no Brasil

Mara Rodrigues Chaves*

CHAVES, M.R.Memória e patrimônio da Nigéria no Brasil. Revista do Museu de Ar-


queologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 20: 187-192, 2015.

Resumo: Ressaltamos a importância dos estudos de coleções de museus,


procurando estimular a discussão sobre a cultura material da chamada África
Negra, revelada e estudada pela arqueologia, etnologia e história, consideran-
do seu contexto de origem e o contexto museológico em que se insere. Nosso
recorte é a cultura material de Ife e Benin, ambas na Nigéria, estabelecendo
relações com a coleção Ogboni do acervo do Museu de Arqueologia e Museo-
logia – MAE/USP.

Palavras-chave: Arqueologia Africana – Coleções em Museus – Patrimô-


nio – Nigéria.

O s antigos gabinetes de curiosidades,


ecléticos e com coleções diversifica-
das, deram origem a diferentes tipos de museus.
rei de Benin, a sua revelia, e atacada. Nessa
emboscada quase todos foram mortos e os
sobreviventes avisaram o ocorrido.
Outros surgiram como resultados de guerras e Temeroso das consequências o rei ofereceu
de exibições coloniais, fundados para ostentar sacrifícios aos deuses e quando a expedição
os objetos, ou mesmo usá-los como propaganda punitiva europeia chegou a Benin, viu muitas ví-
colonial. timas humanas e pensaram que este era o modo
Destacamos um fato importante ocorrido tradicional de vida do povo local. A cidade foi
no ano de 1897, que ilustra o que acabamos de subjugada, objetos de extraordinária beleza con-
afirmar. Neste ano, o vice-cônsul britânico J. R. siderados como ‘presas de guerra’ foram levados
Philips enviou uma mensagem ao rei de Benin, para a Europa e o palácio do Obá foi destruído.
na Nigéria, dizendo que gostaria de visitá-lo, e Essa expedição confiscou 2.500 objetos de
ele respondeu que não poderia recebê-lo porque arte que foram distribuídos entre os oficiais e
participaria de uma cerimônia chamada Igue, soldados. Muitos foram vendidos para comer-
período em que o corpo do rei é sacralizado ciantes de Lagos e grandes museus, entre eles,
tornando-o uma pessoa divina. o British Museum e os museus de etnologia de
O cônsul decidiu ir mesmo assim e sua Viena e Berlim. Alguns colecionadores particu-
expedição foi interceptada por dois chefes do lares também ficaram com uma parcela. (Eyo &
Willett 1980: 18; Cornevin 1998: 265-266).
Esse incidente explica por que a arte de Benin
(*) Aluna de pós-graduação em arqueologia, mestrado. é ricamente representada nos museus europeus
Especialista em museologia. Museu de Arqueologia e
Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/ USP. enquanto nos museus nacionais da Nigéria a cole-
marachaves@usp.br ção é modesta (Cornevin 1998: 265-266).

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CHAVES, M.R.Memória e patrimônio da Nigéria no Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 187-192, 2015.

Na foto abaixo(Fig. 1), podemos ver a Observem que na parte superior há uma
missão punitiva posando com os artefatos enorme serpente de cobre decorando o telhado
apreendidos. da sala de audiência do palácio.

Fig. 1. The Punitive Expedition, 1897. British Museum, London. Fonte: Dark 2003: prancha 9, fig. 19.

No final da década de 1954 até 1957 o ar- to do rei Ovonramwen em Calabar (Goodwin:
queólogo A.J.H. Goodwin liderou escavações 1963).
na área do antigo palácio dos reis de Benin e Um dos achados mais importantes foi uma
em seus relatórios de pesquisa constam que ampla cabeça de cobra fundida em bronze, de
cor metálica em pátina verde-escuro, con-
essa área foi abandonada em março de 1897
feccionada pelo “processo de cera perdida”, e
após um incêndio ocorrido em Benin, mesmo estima-se que seja do século XVII ou mesmo
período da presença da missão punitiva britâ- do final do século XVI. As suas medidas são de
nica na cidade e da deportação e confinamen- 41,91 cm X 33,07 cm (Fig.2).

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Mara Rodrigues Chaves

Embora não tenham sido obtidas de esca-


vações arqueológicas, remetem à tradição da
metalurgia e à técnica de fundição, refletindo
o mesmo grau de elaboração formal e técnica
atribuída à arte de Ifé ou à de Benin (cujos
territórios se encontram hoje na atual Nigéria),
podendo-se até inferir uma relação dela com
esta última (Salum 2005-2006: 310).
Essa tecnologia é complexa e descrita de
maneira resumida – confecciona-se uma fôrma-
-base de barro modelada sob uma haste de
metal, a qual é o eixo que dá estrutura à peça.
Fig.2. Cabeça de píton, frente. Foto- Depois de seca, essa fôrma é envolta por uma
grafia: K. C. Murray. Fonte: Goodwin: camada de cera onde decorações e detalhes são
1963 esculpidos.
A peça seca é novamente envolta com argi-
Supõe-se que a intenção na época era la friável (fácil de quebrar), e entre essa base e
prender a cabeça da cobra, com quadrados a camada de argila são fixas pequenas varetas
de ferro ou pinos, ao telhado do palácio em que têm por função segurar as duas fôrmas, pois
posição descendente acima do vão da porta da o metal fundido é despejado em um orifício
entrada principal do palácio e ao lado das tor- e solidifica no lugar da cera que sai por outro
res. Segundo a interpretação de alguns autores, orifício na parte debaixo. Por último, após o res-
essa maneira de colocar a peça representaria a friamento, quebra-se o molde revelando a peça
ligação entre o céu e a terra. em bronze (Carneiro da Cunha 1983: 985).
Na figura 3 (Fig. 3), temos um exemplar do
As serpentes, consideradas provavelmente
acervo do MAE/USP.
símbolos de poder, são conhecidas e expostas
Os pares de imagens masculinas e femi-
em vários museus, e embora nenhum culto a
ninas são conhecidos como Edan, quando
serpentes deste tipo tenha sido relatado em
fundidos pelos membros da sociedade ogboni,
Benin, sabe-se que os cultos eram comuns
e como Onile, quando utilizados pelo conjunto
e importantes entre os Ijo e outras etnias do da realeza, sendo cada par considerado uma
Delta Niger do sul e sudeste de Benin.(Blier peça única. Os iniciados cultuam a mãe-terra,
1997: 24). nomeada Ilê ou Onilé.
Essas serpentes, bem como outros artefatos As imagens são presas simetricamente
em metal, foram confeccionadas pelo processo a uma corrente de ferro e usadas por alguns
de cera perdida, técnica ensinada pelos artesãos membros desta sociedade em torno do pescoço,
de Ifé aos artesãos de Benin. revelando a importância do número três: duas
O que nos leva a coleção de objetos de realidades superpostas suscitam uma terceira
bronze da associação Ogboni do acervo africano (Neyt; Vanderhaeghe 2000: 85).
do MAE, considerado um dos mais importantes As figuras variam de tamanho conforme o
conjuntos da instituição. uso, sendo que as pequenas podem ser levadas
A associação Ogboni é uma instituição io- como amuletos protetores em viagens enquanto
ruba importante no poder religioso, administra- que as maiores são propriedade coletiva. Todas
tivo, político e judicial, e até mesmo controlou são confeccionadas pelo processo de cera perdi-
antigos reinados (Fagg 1982; Neyt & Vanderha- da (Salum [s.d]).
eghe 2000; Ribeiro Junior 2008). Dentre os objetos sagrados desta socieda-
A coleção Ogboni do MAE é composta de de, apenas os pares de imagens masculinas e
objetos de ligas metálicas de cobre, fundidos femininas podem ser vistas pelo público, mas
pela mesma técnica das serpentes. somente aquelas que possuem espetos. E por

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CHAVES, M.R.Memória e patrimônio da Nigéria no Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento
20: 187-192, 2015.

Fig.3. Coleção Ogboni. Tombo 77/d.4.343 m,n. Acervo MAE/USP. Foto Mara Chaves: 2012.

serem vistas por não iniciados, há uma biblio- na vertical, razão pela qual, presumivelmente,
grafia que menciona o seu uso em contexto são usadas em altar, sendo chamadas de onilé ou
etnográfico (Ribeiro Junior 2008: 2). ajagbo.
Vimos um exemplar com espetos, entretan- Essa coleção do MAE nos remete ao pro-
to, não são todas as peças que possuem corrente cesso de manufatura de uma tecnologia com-
ou pino de ferro, embora apresentem caracterís- plexa, imbuída de rituais e de uma sociedade
ticas semelhantes. politicamente organizada, além das tradições
Algumas possuem uma base plana, pés transmitidas oralmente entre os artesãos e seus
grandes ou pernas ajoelhadas, o que as sustenta aprendizes.

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14272 book.indb 190 26/08/2015 10:59:44


Mara Rodrigues Chaves

Conclusão tos produzidos pelas diversas culturas da África.


O site consta na bibliografia referenciada.
Neste breve artigo percebe-se a riqueza da Ressaltamos a importância do acervo
cultura material da chamada África Negra, que africano do MAE, que nos remete a culturas
durante muito tempo foi exposta nas insti- complexas, organizadas socialmente e politica-
tuições museológicas como espólio de guerra, mente, suas tecnologias e tradições.
troféu do colonizador, ou mesmo como peças E que as pesquisas da arqueologia, etnolo-
exóticas. gia, história têm desmistificado ideias precon-
Nas páginas da internet há um site da cebidas, entre as quais, a de que o africano era
UNESCO que denuncia a venda ilícita de peças incapaz de confeccionar peças de a