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POR QUE COLETE À PROVA DE BALAS NÃO É EPI?

O novo texto da NR 6, inserido no ordenamento jurídico através da Portaria SIT/DSST nº 25, de


15.10.2001 (DOU 17.10.2001) apresentou algumas novidades. Dentre essas seus anexos, e
destacamos, em especial, o anexo 1, que listou os equipamentos de proteção individuais, e para
surpresa de muitos, principalmente da categoria dos trabalhadores que exercem a profissão de
vigilantes e agentes de fiscalização, o colete a prova de balas não foi incluído como EPI neste
anexo.
Para estas profissões e outras similares, este é um equipamento de proteção individual
essencial, que muitas vezes pode salvar a vida do trabalhador.
Vamos fazer uma breve análise da legislação, NR 6, onde em seu primeiro item está expresso a
definição, transcrita literalmente:

Para os fins de aplicação desta Norma Regulamentadora - NR, considera-se Equipamento de


Proteção Individual - EPI, todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo
trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no
trabalho.

Dissecando esta definição:

1. Colete a prova de balas é um dispositivo ou produto? Sim, é um produto, como um capacete,


óculos, protetor auditivo ou outro qualquer.
2. Colete a prova de balas é de uso individual utilizado pelo trabalhador? Sim, é de uso
individual, como outra vestimenta qualquer (avental, calçado ou luvas).
3. Colete a prova de balas é destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança
e a saúde no trabalho? Sim, muito mais do que qualquer outros, pois, com toda a certeza um
calçado, luva, avental, protetor auricular, dedeira, creme protetor, calça, macacão, meia e
outros não salvam a vida do trabalhador, e sim quando muito podem evitar uma lesão, ou até
nem isso, como seria o caso de uma meia, creme protetor e outros.

Nenhum dos equipamentos declinados no anexo 1, aplica-se à definição em sua íntegra, pois a
analisando temos a impressão que foi feita para o colete à prova de balas. Então, por que a
teimosia de não aceitá-lo como EPI?
As desculpas apresentadas são as mais esdrúxulas e estapafúrdias possíveis, como por exemplo,
apenas citando algumas mencionadas pelo grupo que não quer aceitar o colete a prova de balas
como EPI.

a) Não ter como fiscalizar: é muito mais complicado fiscalizar calçados, meias, cintos e outros,
porque qualquer empresa pode fazer estes equipamentos, e coletes a prova de balas, não é
qualquer empresa capaz de fabricá-los, além da responsabilidade civil e penal, destes seria
muito maior.

b) Não poder inchar a lista de EPI, também não tem sentido, pois se esta relação não pode ser
aumentada, então que se faça utilizando o critério fundamental da norma, que é a proteção ao
trabalhador. Alguém se atreve a afirmar que uma calça ou meia pode proteger mais do que um
colete a prova de balas?

c) Trabalhadores não aceitam bem o uso de coletes a prova de balas: com certeza não são os
verdadeiros trabalhadores e muito menos aqueles que têm necessidade de utilizar.

d) Empregadores não aceitam bem o uso de coletes a prova de balas: os maus empregadores
com certeza não aceitam bem, por não tratar de proteger a sua vida ou talvez por terem que
gastar mais alguns tostões. Felizmente a maioria dos empregadores não pensam e agem assim.

e) Ter que incluir a vestimenta do corpo de bombeiros: também não serve como desculpa, pois
a esta categoria profissional, infelizmente não se aplicam as normas de segurança e saúde, pois
são servidores públicos ou voluntários. E mesmo que tivesse que ser incluído, seria mesquinho e
imoral não fazer apenas por tratar-se de um equipamento destinado a apenas uma categoria
profissional.

f) Pressão de fabricantes: ora, qual o fabricante que não faz pressão para classificação de seu
produto como EPI? Os calçadistas não fizeram? Os fabricantes de creme foram os últimos a
fazer, e obtiveram êxito. Estavam eles errados? Não, naturalmente estavam defendendo seus
interesses, como qualquer um faz.

Com certeza, ainda há mais desculpas para não incluir este legítimo equipamento de proteção
individual na relação do anexo 1, da NR 6, porém todas sem fundamento científico ou legal.
É um direito constitucional previsto no inciso XXII, art. 7o da nossa Constituição Federal de
1.988, a redução dos riscos inerentes ao trabalho, e o EPI é uma das formas de fazer-se
prevenção, assim como também há dispositivos legais, com relação à fabricação, especialmente
no Código de Defesa do Consumidor, além de diversos outros dispositivos legais existentes em
nosso ordenamento jurídico.
E pior ainda, são aqueles maus empresários que não fornecem colete a prova de balas a seus
empregados, vigilantes, agentes de fiscalização e outros, sob a alegação que não é obrigatório,
pois colete a prova de balas não é EPI. É lamentável quando se escuta esta desculpa e deixam-
se expostos trabalhadores a sorte para viver ou morrer no exercício de sua profissão. É a
completa inversão de valores: a vida em proteção ao bem material. Felizmente não são todos os
empresários que agem assim.
O que está faltando para os responsáveis enxergarem o óbvio, que colete a prova de balas é
EPI?

Somente desta forma, os auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego poderão exigir
dos empregadores o fornecimento de coletes a prova de balas aos vigilantes e outras categorias
similares.
Esperamos que a comissão tripartite, recentemente criada pela portaria SIT/Departamento de
Segurança e Saúde no Trabalho - DSST no 11, de 17/5/02, com o objetivo de avaliar as
solicitações dos produtos que não foram relacionadas no anexo 1, tenha bom senso e inclua o
coleta a prova de balas como EPI. Vamos ficar de olho nesta comissão e ver se realmente os
trabalhadores estão bem representados.

Boletim ANEST no 25 (jul/2002) – Nelson A. Burille


CREA/RS 12.039 – OAB/RS 42.446

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