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_Artigo 006/2020 C35BA__________________________________________

UMA RIVALIDADE INVENTADA ENTRE POLICIAIS, CAÇADORES,


ATIRADORES DESPORTIVOS E OS COLECIONADORES DE ARMA DE FOGO.

Gerlon Mendes de Souza1

A legítima defesa é um bem natural que tem respaldo em nosso ordenamento


jurídico, ratificado no direito penal como uma das excludentes de ilicitude. Desta
forma, o cidadão pode utilizar qualquer instrumento para se defender de uma injusta
agressão que atente contra sua vida, podendo ser com uma pedra, uma caneta,
uma faca, um pedaço de madeira ou uma arma de fogo. Entretanto, a celeuma, há
décadas, é justamente da utilização da arma de fogo pelo cidadão de bem para se
defender. O país vem sofrendo várias mudanças significativas quanto à legislação e
ao acesso às armas de fogo para o cidadão depois de discussões acaloradas
através de referendo, planos de governo, decretos, portarias, leis “desarmamentistas
e armamentistas”.

Com isso, duas categorias estão ficando no meio de toda essa problemática,
que são os CACs - caçadores, atiradores desportivos e colecionadores e os policiais.
Frequentemente ouvimos o discurso de que os policiais estão conduzindo os CACs
às delegacias de policia, e com isso, estão sendo criticados em palestras, aulas,
entrevistas em rádio e televisão porque segundo os acusadores os policiais
desconhecem a legislação que protegem essa categoria. Diante disso, será que os
policiais são mal treinados e não instruídos por suas instituições quanto à legislação
destes? Será que os policiais são os algozes e orientados para apreender armas
dessa comunidade?

Pode-se dizer que essa narrativa de vê os operadores da área da segurança


públicos como vilãos é um tanto exagerada. Neste contexto, fica claro que o discurso

1
Autor: Gerlon Mendes de Souza; Oficial da Policia Militar da Bahia; Bacharel em Direito;
Pós-graduado em Ciências Jurídicas; Formado no Curso de Operações Policiais Especiais – Caveira
35 da PMBA.
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paira no senso comum sem nenhuma comprovação cientifica. O mais preocupante,
contudo, é constatar que existem pessoas na comunidade dos CACs que têm essa
afirmação como uma verdade absoluta. Não é exagero afirmar que há policiais que
também fazem parte desta categoria e têm o mesmo entendimento, como ocorreu
numa entrevista dada por um delegado de policia, que tambem é Deputado
Estadual, a uma rádio do estado da Paraíba que de forma leviana acusou policiais
militares de prenderem propositadamente os CACs porque o Estado paga
gratificação por arma apreendida e por isso os policiais estariam realizando este tipo
de prisão arbitrária. Contudo em nenhum momento na entrevista o policial/deputado
informou qual o motivo da condução, e é justamente esse "o X da questão de todo
esse conflito de narrativas".

Diante disso, a importância deste trabalho é orientar os operadores da área


da segurança pública que desconhecem a legislação e mostrar que as pessoas
nessa comunidade estão protegidas nos “limites” da lei para a posse e porte da arma
de fogo. Entretanto, de igual forma, este trabalho tem o objetivo de também mostrar
aos CACs que os policiais não são algozes e eles devem observar os policiais como
aliados e não como vilãos da causa.

Para o desenvolvimento do presente trabalho foram utilizadas pesquisas


bibliográficas e de campo através do formulário de pesquisa do Google Forms. A
pesquisa bibliográfica baseou-se em publicações científicas, leis e decisões dos
tribunais superiores. A pesquisa de campo foi endereçada aos policiais e aos CACs
pelos grupos de aplicativo do whatsapp que tiveram a oportunidade de descrever
ocorrências que fundamentaram ou não a condução a uma delegacia de policia.
Desta forma, podemos entender melhor qual o real motivo da "prisão", se teve má fé
de quem portava a arma ou se os policiais realizaram a condução de forma irregular.

DE QUEM É A CULPA?

Convenhamos que é fácil realizar uma análise fria da lei e de forma literal pelo
policial durante uma abordagem a este tipo de público, mesmo porque a norma foi
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taxativa ao dizer como eles devem se comportar quando estiverem portando uma
arma de fogo. Já que ficou claro que os mesmos poderão portar uma arma de fogo
curta municiada, alimentada e carregada, pertencente a seu acervo cadastrado
no Sinarm ou no Sigma, sempre que estiverem em deslocamento para
treinamento ou participação em competições; para abate autorizado de fauna;
ou para exposição do acervo de coleção, por meio da apresentação do
Certificado de Registro de Colecionador, Atirador e Caçador, do Certificado de
Registro de Armas de Fogo e da Guia de Tráfego, válidos, nos termos do art. 5º
do Decreto nº 9.846/2019. (ASSOCIAÇÃO DOS PROPRIETÁRIOS DE ARMA DE
FOGO DO BRASIL, 2020).

Conforme explicado acima, percebe-se que se for para realizar apenas o


famoso "cara crachá" é uma tarefa muito fácil como vem sendo questionado por
muitos. Contudo, e se um dos registros estiver vencido? E se ele estiver portando a
arma de terceiros, mas registrada? E se o CAC estiver em outro destino que não o
trajeto normal? E se ele se envolver em alguma ocorrência que nada tem a ver com
seu porte de tráfego? Ou até mesmo portar a arma ostensivamente? Desta forma, o
que se deve observar é o caso concreto, ou seja, o que motivou a condução a uma
delegacia de policia.

Como bem nos assegura Fiúza (2008), pode-se dizer que para que a Lei
vigore plenamente, para que seja aplicada com justiça é preciso decifra-la. É mister
que a mens legis, ou vontade, intenção da Lei seja conhecida. Neste contexto, fica
claro que este processo de conhecimento da mens legis, de aplicação adequada da
norma jurídica ao caso concreto, chamamos de interpretação. O mais preocupante,
contudo, é constatar que em ocorrências envolvendo CACs o que se é divulgado "é
a condução ilegal pelo policial, já que geralmente é um público de classe média alta
e influente no seu meio, e nunca é informado o motivo da condução". O autor deixa
claro que para a aplicação correta da lei devemos entender o caso concreto, já que
é fundamental que fique claro que, por Lei, deve entender-se não só a norma
escrita, mas toda e qualquer norma jurídica, seja qual for sua fonte: a lei escrita, os
costumes, os princípios gerais não escritos, os valores, a doutrina, a jurisprudência,
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a dogmática. Segundo a Associação dos Proprietários de Arma de Fogo Do Brasil
(2020).

O presente requerimento se dá com o objetivo de evitar maiores dissabores,


como algumas apreensões ilegais e abusivas que tem ocorrido, chegando
ao clímax da ilegalidade na condução do atirador desportivo devidamente e
legalmente portador dos documentos autorizadores do seu trânsito, para a
delegacia, e em alguns casos inclusive com lavratura de boletins de
ocorrência.

Conforme mencionado pelo autor é interessante diferenciar os que estão com


todos os seus documentos corretos e cumprindo o que manda a lei e os que estão à
margem da lei, mas há um fato que se sobrepõe a esta narrativa, que justamente é
os que andam irregulares e querem jogar a responsabilidade para o policial que o
conduziu por supostamente imputar às forças policiais o desconhecimento da lei.
Como já percebemos há várias dificuldades para o policial no terreno fazer
uma avaliação do caso concreto das ocorrências envolvendo os CACs, já que
muitas vezes não é só analisar a documentação, que é a parte fácil, e sim o contexto
da ocorrência. Desta forma, muitos policiais realizam o que é de praxe e
encaminham os envolvidos para a delegacia. De acordo com Leitão Junior e
Oliveira (2013, p. 30):

"É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas


circunstancias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação
legitima. Não a isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é
punível como crime culposo". Ou seja, se ficar comprovado pelas
circunstancias do caso concreto que o agente acreditava firmemente que
estava conduzindo coercitivamente alguém em uma situação legal ( ou seja,
no estrito cumprimento de um dever legal), ficará caracterizada a
discriminante putativa por erro de tipo, tendo por consequência a exclusão
do dolo e por via de consequência o próprio crime.

É preciso, porém, ir mais além e mostrar que os operadores da segurança


pública devem seguir os ditames das normas jurídicas, mesmo não as achando
corretas ou que seu viés político ideológico seja contrário. O policial deve ter bom
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senso nas suas ações e agir com o máximo de cautela nas ocorrências sem pender
para lado A ou B, atuando com imparcialidade.

Por todas essas razões, seria complicado para a sociedade se cada policial
agisse sem o controle das normas jurídicas e atuasse de acordo com seu
entendimento ideológico particular. É notório que isso resultaria em um caos ainda
maior do que já vivemos. O que importa, portanto, é modificar essa percepção da
comunidade dos CACs de vê os policiais como vilãos e algozes. Essa, porém, é uma
tarefa que pode ser mais fácil do que imaginamos de se resolver através de
diálogos, estudos, seminários, workshop, aproximação, sem procurar culpados ou
algozes e entender os dois lados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foi realizada uma pesquisa de campo através de um questionário pelo


aplicativo Google Forms e enviado aos grupos de whatsapp de policiais e de CACs,
sendo que o formulário serviu para entender os questionamentos da comunidade em
estudo sobre os supostos tratamentos que vêm recebendo das policiais durante as
abordagens. Salientamos que o questionário foi respondido por operadores da área
da segurança pública, bem como pelos caçadores, atiradores desportivos e
Colecionadores de arma de fogo.

Desta forma, podemos começar a entender as causas desses ruídos de


narrativas e o presente estudo visa buscar soluções viáveis para que não mais
existam ou diminuam esses conflitos, já que os CACs são cidadãos protegidos por
lei, enquanto legislação específica da posse e porte de arma de fogo. Contudo, os
policiais devem ser ouvidos quanto ao "CASO CONCRETO" que contribuiu para
conduzi-los a uma Delegacia de Policia.

É importante ressaltar que os policias devem saber quais os documentos a


serem cobrados durante uma abordagem, em cima disso, como postado acima os
policiais devem solicitar a apresentação:
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 Documentos pessoais;
 Certificado de Registro;
 Certificado de Registro de Arma de Fogo;
 Guia de Tráfego;
 Certificado de Regularidade do Cadastro Técnico Federal do IBAMA. (para
caçadores).

Finalmente, após identificar o que o policial deve cobra nos parece que é uma
atividade muito fácil. Ora, e porque tanto mal estar e reclamações? Nesse
sentido, buscamos com essa pesquisa identificar as causas desses ruídos.

A pesquisa foi respondida por 240 pessoas entre os operadores da área da


segurança pública e os CACs. Sendo elas de vários estados do país como da Bahia,
Sergipe, Piauí, Pernambuco, Maranhão, Ceará, Paraíba, Rondônia, Roraima, Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e São
Paulo. Vale ressaltar que a pesquisa realizada foi a qualitativa. De acordo com Stake
(2013, p. 43): “Um relatório de pesquisa qualitativa. Ele enfatiza as experiências
pessoais, a situação especifica e o conhecimento da turma, como um professor pode
observa-lo. Os dados estão lá para uma microanálise e interpretação”.

No questionário foi perguntado aos operadores da área da Segurança pública


em qual força os mesmos trabalham e o resultado foi extremamente significativo
porque praticamente obteve-se respostas de integrantes de todas as forças com PM,
PC, PRF, PF, GCM, FFAA e Policia Penal. Um dado que nos pareceu bastante
positivo foi que 89,3% dos que responderam eram policiais militares, já que são,
geralmente, os que mais abordam esse público nas vias.

Foi dado espaço para quem respondeu a pesquisa para fazer algum tipo de
colaboração ou sugestão e dos que responderam 40% informaram ser caçador,
atirador desportivo ou colecionador. Um dos contribuiu da seguinte forma:

"Acredito na compreensão com os CACs por parte das


forças militares, pois não somos bandidos, temos um
armamento para nossa diversão na prática esportiva e
consequentemente nos dá uma forma de defesa, pois
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sabemos que as polícias não tem como estar presente em
todo lugar. Mas vai dar certo cremos nessa evolução."

Percebam que esse é um argumento utópico e talvez ele desconheça a


responsabilidade real das instituições polícias e que elas não podem agir de acordo
com a compreensão de cada instituição. Pois quanto mais isso acontecer mais
injustiças os policiais praticarão, já que vão compreender uns e "descompreender"
outros, pois a polícia não tem bola de cristal para saber quem é do bem ou do mal.
Contudo, é sempre bom dizer que o policial nunca dará "jeitinho", como alguns
querem, utilizando o eufemismo do bom senso, para com quem está com seu porte
de forma legal, já que estes estarão corretos e não precisarão de compreensão,
apenas que o policial o libere para seguir seu caminho porque esta conforme a lei.

Outro dado surpreendente da pesquisa é que mais de 95% dos CACs


afirmaram que nunca foram conduzidos a uma delegacia. Isso mostra que é um
público ordeiro e que respeita as leis, todavia os que foram encaminhados até a uma
delegacia devemos analisar o contexto e entender o real motivo da condução.
Entretanto, no espaço destinado aos mesmos nada foi informado sobre as
conduções.

Nas varias áreas do saber como da medicina, engenharia e economia existem


dentro da profissão os especialistas em ramos específicos e estudam bastante para
aquele fim, isso não é diferente para juristas, magistrados e doutrinadores. Mas o
engraçado é que o policial é cobrado pela sociedade para ser o "resumo" de todos
eles, caso contrário é chamado vulgarmente de “policial despreparado”. A
responsabilidade do policial é gigantesca, pois ele acaba sendo o juiz, o promotor, o
doutrinador e o policial naqueles poucos minutos ou segundos para resolver a
ocorrência. E ao realizar a pesquisa destacamos que as instituições estão falhando
na formação quanto ao assunto, já que apenas 19% dos pesquisados responderam
que já tiveram instrução ou orientação para proceder em abordagens com o público
pesquisado. Depois de quase duas décadas na atividade policial entendemos que
além de boa estrutura e bons instrutores, a grade curricular dos cursos de formação
deve ser pautada em legislação aplicada a atividade policial, defesa pessoal,
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abordagens, tiro policial e balística terminal, além das instruções continuadas que o
policial deve ter após sua formação.

Toda essa narrativa de conflitos à amostra realizada na pesquisa nos mostrou


que estão se fazendo um “cavalo de batalhas", pois quase 90% dos operadores da
área da segurança pública responderam que nunca conduziram nenhum CAC ou
esteve em ocorrências relacionada. Com isso, mais uma vez reforça-se a ideia que
nada tem a ver com os procedimentos de conferência da legalidade dos
documentos, provavelmente, outros motivos estão ocorrendo e alguns estão
tentando justificar ao discurso que a polícia atua de forma irregular.

A partir deste parágrafo vamos analisar os relatos de ocorrências que foram


postados pelos operadores da área da segurança pública na pesquisa e a primeira
que nos chamou atenção foi:

"A guarnição foi chamada para verificar um homem


armado que estava ameaçando pessoas em um bar. Ao
chegar ao local à guarnição se deparou com a situação e
ao abordar o individuo ele "informou" que era policial civil,
mas não quis se identificar através dos documentos. Foi
chamado o Oficial de Operações que veio com uma
segunda guarnição e o individuo continuou sem querer
mostrar sua identificação não restando outra opção aos
policiais militares usar a força necessária para desarma-lo
e ao verificar a documentação do cidadão se constatou
que era apenas CAC e não policial. É bom que se diga
que tudo foi gravado por um dos policiais da guarnição
quando o individuo começou a se recusar a se
apresentar, bem como era visível seu estado de
embriaguez".

O que essa ocorrência tem a ver com as prerrogativas dos CACs? Nenhuma!
Mas o mesmo certamente quis usar sua situação de CAC e utilizar a arma de fogo
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em local indevido para ameaçar pessoa. O que os policiais deveriam fazer? Nada
mais do que cumprir a lei. Segundo Capez (2020), “A ameaça pode ser praticada
mediante o emprego de palavras, gestos, ou mediante o porte ostensivo de arma.
Assim, basta tão somente o porte ostensivo da arma de fogo para que se configure
grave ameaça”.

Toda e qualquer abordagem dos policiais devem ser fundamentadas no


mínimo através da suspeita fundada, pois os policiais não podem sair abordando
indistintamente pessoas sem nenhuma fundamentação, inclusive já existe
jurisprudência que algumas prisões de indivíduos com ilícitos que tiveram a prisão
relaxada pelos tribunais porque os policiais realizaram abordagens sem fundada
suspeita, “abordaram por abordar”, com isso é imprescindível na condução a
delegacia e em juízo que a guarnição seja extremamente técnica nos seus
argumentos e no que motivou a abordagem. Vejam o relato da postura técnica
dessa equipe como foi postada na pesquisa:

"Certa feita recebemos denúncia de que havia um homem


armado em determinada localidade. Deslocamos,
procedemos a abordagem e constatamos que se tratava
de um CAC que estava com sua arma de calibre permitido
guardada no carro dentro de uma maleta e com os
documentos de porte obrigatório, tudo dentro da lei.
Explicamos para o CAC que o motivo da abordagem foi
uma denúncia anônima e o liberamos."

Outra fato que nos chamou atenção nessa ocorrência foi os termos "dentro de
uma maleta". É bom mais uma vez que se diga que os CACs podem portar a arma
curta e municiada, alimentada e carregada no itinerário para o treinamento,
competição, exposição ou local de caça. Contudo, outros fatos foram relatados
que devem trazer preocupação tanto para os policiais como para a comunidade
estudada.
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"O operador estava portando armamento em momento de
lazer e fazendo manobras perigosas com veículo
automotivo."

"Um CAC foi pego por uma guarnição conhecida minha


em um bar, com a arma na cintura. Segundo o CAC ele
só estava passando pelo bar para cumprimentar uns
amigos e não deixou a arma no carro por se tratar de um
carro conversível o que facilitaria o furto da arma.
Contudo uma colega de faculdade minha, estava no bar e
por coincidentemente viu tudo, me relatando a situação e
disse que na verdade ele estava bebendo e exibindo - se
com a arma."

"O mesmo foi conduzido por não estar portando a


documentação obrigatória"

Percebe-se mais uma vez que todos os fatos existem ilegalidade. Mas porque
a polícia está sendo tão criticada pela comunidade? Será que a polícia está os
perseguindo? Estas são afirmações perigosas que quando não provadas cabe a
aplicação do art. 399 de denunciação caluniosa do Código Penal que está elencada
entre os crimes contra a administração da justiça. Pois dar causa a instauração de
investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação
administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra alguém,
imputando-lhe crime de que sabe inocente pode culminar em até 08 anos de
reclusão. (MARTINELLI. 2016).

“Por volta das 22h10min, a guarnição à bordo da viatura


tal, em rondas ostensivas pelo pela Av. Luis Eduardo
Magalhães, recebeu o alerta geral do CICOM, via rádio,
que um indivíduo à bordo de um Jeep de cor escura, na
região da praça Vítor Brito, em frente à City Car, acabara
de efetuar vários disparos de arma de fogo em via pública
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e evadiu sentido o bairro Candeias, após rondas, um
veículo Jeep Compass, de cor marrom, placa tal, passou
no cruzamento da Av. Olívia Flores com a Av. Luis
Eduardo, sentido Supermercado Santo Antônio, em alta
velocidade, de pronto a guarnição seguiu em
acompanhamento com sinais sonoros e luminosos, sem
sucesso, o veículo seguiu até a rua Pastor Valdomiro
Oliveira, aonde parou na porta da garagem, momento em
que a guarnição desembarcou e deu voz de abordagem,
Fulano de Tal, 31 anos, desembarcou do veículo
completamente embriagado, em seu poder foi encontrada
um pistola Taurus modelo 838C, calibre 380mm, n.º Tal,
com 02 (dois) cartuchos intactos, foi apresentada à
guarnição uma cópia colorida e plastificada do CRAF da
referida arma, levando a guarnição a entender que se
tratava de uma arma devidamente registrada, arguido
sobre o fato, afirmou trabalhar na localidade dos disparos
e que tinha acabado de vir da loja. Ato contínuo, a
guarnição foi até o local dos disparos e encontrou 06
(seis) cápsulas deflagradas de calibre 380mm, todas ao
chão em via pública, em frente à loja City Car, na praça
Vítor Brito, que foram recolhidas, então o autor foi
conduzido ao posto da PRF para se submeter ao teste de
alcoolemia, se negou, foi autuado pela infração,
conduzido então ao DISEP, solicitada guia para
realização do exame pericial de alcoolemia e corpo de
delito, a guarnição deslocou até o complexo e realizou o
exame, de retorno, foi apresentado à autoridade policial
competente, juntamente com as cápsulas deflagradas,
que lavrou o auto de prisão em flagrante, sendo a
ocorrência registrada sob o n.º tal, após, a guarnição
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apresentou o veículo envolvido ao pátio da CIRETRAN
em virtude da não apresentação da CNH, conforme
TRAVE.”

Essa é mais uma ocorrência comum que a polícia enfrenta diariamente e que
nada tem a ver com as prerrogativas de um CAC. Será que ele realizou os disparos
em via pública para legitima defesa? Mas ele poderia portar a arma naquele local? E
o estado de embriaguez? O policial poderia ter o “bom senso” e libera-lo porque o
individuo era caçador, atirador desportivo ou colecionador? Conforme Caetano
(2017. p.35) "O policial diferente do cidadão civil, tem o dever de agir sempre em
qualquer circunstância e está proibido de se omitir diante de um crime em situação
de flagrância”.

Os profissionais da área da segurança pública vivem uma guerra diária para


proteger o cidadão do crime e não é fácil, como muitos imaginam e que estão
avaliando a postura do policial da sua poltrona confortável no seu ar condicionado,
pois resolver questões como essas postadas acima são extremamente delicadas. A
melhor maneira de compreender esse processo é considerar que o policial deve agir
conforme as normas jurídicas vigentes. Não se trata de demonizar quem quer que
seja, mas percebe-se que os conflitos começam a surgir, seja porque muita gente
mal intencionada está se filiando aos clubes de tiros para apenas ter acesso a armas
de fogo, seja porque alguns clubes de tiro estão querendo lucrar com o cadastro de
novos associados e não estão realizando o devido filtro. Julgo pertinente trazer á
tona que as mudanças constantes da legislação não estão favorecendo aos
policiais, já que só no ano de 2019 foram publicados dez decretos alterando o
acesso às armas de fogo (BORBA. 2020).

É nítido que o discurso inicial de que os policiais perseguem a hj categoria


não procede. Vale salientar que as corporações policiais têm uma parceria amistosa
com a comunidade dos CACs, já que muitas instituições não possuem stand de tiro
para treinamentos e nem armeiro suficiente disponível para manutenção das armas
do seu paiol e muitas vezes são socorridos por aqueles. Contudo, alguns mal
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intencionados estão deixando essa relação tensa, que pode causar consequências
graves. O exemplo são ocorrências como estas relatadas na pesquisa:

"A ocorrência se deu quando o Cac chegava em casa, e


estava portando sua arma, o mesmo foi confundido com
um criminoso e os PM's começaram a atirar. O CAC de
imediato empreendeu fuga e tentou sair da situação, mas
foi capturado, e tentou se explicar, ligou pra advogado,
dono de clube de tiro onde o mesmo era cadastrado. Mas
não foi, digamos ouvido, foi levado a DP, foi preso e teve
que pagar pra ser solto..."

Ao analisarmos este relato temos vários pontos que devem ser questionados.
Já que os detalhes da ocorrência não foram postados de forma clara. Mas se toda
abordagem da polícia deve ser embasada na fundada suspeita porque este cidadão
foi confundido com um criminoso? Porque ele tentou ligar para o dono do stand de
tiro? Já que ele estava "certo" por que foi preso e teve que pagar fiança? Nesses
nossos quase 18 anos de policia militar, atuando boa parte do tempo na rua e após
passar por dezenas de confrontos a nossa experiência nos diz que provavelmente
este CAC desceu com arma em punho e pode, desta forma, ter sido confundido com
um marginal.

Outra prática comum é depois de serem conduzidos eles ligam para o dono
ou presidente do stand de tiro para que os tenha como álibi para afirmar que o
associado estava em trânsito do stand ou competição para casa. Mas com isso o
dono ou presidente do clube de tiro esta criando um mal para si e para sua
instituição, pois outros começarão a fazer a mesma coisa e o clube será conivente
como o erro. Conforme o Vademecum POLICIAL (2020) "O titular de porte de arma
de fogo para defesa pessoal não poderá conduzi-la ostensivamente".

Os resultados dos questionários aplicados foram focados em obter dados


sobre as ocorrências que envolveram os policiais e os CACs e os resultados foram
ricos e reveladores, pois conseguimos ter uma noção básica do que vem ocorrendo
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e jogou por terra todo esse argumento que os policiais são perseguidores ou
algozes. Ao realizar a pesquisa quantitativa, deixamos os pesquisados livres para
argumentarem o que bem entendesse do assunto ou relatar experiências vividas, e
com isso, conseguimos relatos interessantes que demonstraram situações que
extrapolaram as prerrogativas daqueles que "fazem parte" da comunidade estudada.
Além da pesquisa qualitativa utilizamos os conhecimentos bibliográficos das
doutrinas, artigos científicos, monografias, leis e jurisprudência. Desta forma, não há
o que dizer de perseguição quando temos ocorrências como a abaixo relatada:

"80ª CIPM, DPM Encruzilhada, BA. Informe de que havia


um caminhão de bebidas fazendo descarga em um
distribuidor, sobre os quais suspeitavam de
enriquecimento ilícito. Houve apoio da GCM. Checada a
placa e documentação dos dois caminhões envolvidos,
ficou constatada a fraude da documentação. Veículo
roubado e clonado meses antes, no Ceará. Ao fazer
busca pessoal nos motoristas e ajudantes foi encontrada
relevante quantia em dinheiro em espécie (ordem de
milhar), CR de atirador e Pistola nova e munições cal
380ACP. O registro de CAC não estava no nome de
nenhum dos abordados, mas de um suposto proprietário
dos veículos, o qual, segundo relatos, evadiu do local em
outro veículo antes das GUs de serviço chegarem.
Conduzidos ao Disep, flagranteados também por posse
ilegal de armas. Envolvidos já com passagem".

Sendo assim, temos que saber diferenciar os erros cometidos pelos CACs
com os erros cometidos pelos policiais durante as abordagens, que provavelmente já
pode ter existido, principalmente, devido a pouca instrução que vêm recebendo das
suas instituições como constatado na pesquisa, como também pelas constantes
mudanças da legislação. Porém, podemos perceber conforme citado acima que esse
quadro remete a um duelo de narrativas exageradas, mas que todos, infelizmente,
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saem perdendo. Não é exagero afirmar que esse tema cada vez mais ganha
contornos políticos, pois para aqueles que não são a favor da liberação da posse ou
porte da arma de fogo para o cidadão comum vão se apegar a temas como esse.
Contudo, os que são a favor, e principalmente policiais, não aceitarão que denigrem
a imagem das suas instituições pela má fé de alguns indivíduos que estão inseridos
na comunidade dos CACs e portam a arma à margem da lei, induzindo a culpa a
erro de atuação policial.

CONCLUSÃO

O desenvolvimento do presente estudo possibilitou compreender que existem


falhas dos dois lados e que podem trazer consequências graves como a liberdade
ou a vida das pessoas envolvidas. Os resultados desse quadro são devido a
insegurança jurídica de constantes mudanças na legislação, a falta ou pouca
instrução realizada pelas instituições policiais quanto ao assunto, o pouco controle
de alguns clubes de tiro com seus associados, já que têm interesses de arrecadar
dividendos para a sua instituição e a má índole de pessoas que querem apenas a
posse e o porte da arma de fogo para tentar dissuadir a lei e em tese andarem
armados e legalizados. Por isso, fica evidente que o Estado deve preparar melhor
seus operadores e os clubes de tiro, por exemplo, devem ser responsabilizados
também pela conduta dos seus associados.

Diante desses dados, cabem alguns questionamentos: Se as corporações


policiais tem um bom relacionamento com as entidades, principalmente as
desportivas, por qual motivo, constantemente, surgem esses questionamentos que
os policiais perseguem a comunidade? Se em praticamente todas as agremiações
de tiro existem policiais que participam e são filiados porque surgem essas
narrativas? Se as corporações utilizam os stands das agremiações para cursos e
capacitação por qual motivo os policiais iriam prejudicar os associados daquele
clube? Não cabe, portanto, traçar respostas com base no "achismo" sem o mínimo
de comprovação cientifica como vem ocorrendo por vários grupos de militantes pró
armas.
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Conforme explicado acima, o que importa, portanto, é que conseguimos
alcançar o objetivo da pesquisa, que foi mostrar que os policiais não tem nenhum
interesse de prejudicar nenhuma categoria que tem a posse ou porte de arma de
fogo. Essa, porém, é uma tarefa que não vai adiantar muito na visão de alguns. Vê-
se, pois, que os presidentes de algumas agremiações por motivo financeiro e os
associados mal intencionados pouco se importará com a opinião da polícia. É
preciso ressaltar que esse pensamento é de uma minoria e que na comunidade dos
CACs a maioria esmagadora são pessoas sérias, responsáveis, comprometidas e
cumpridoras dos seus deveres e obrigações, pois é só verificar na amostra da
pesquisa que mais de 95% nunca foram conduzidos a uma delegacia de policia.
Infelizmente, uma minoria esta causando esse ruído e de certa forma acaba
arranhando a imagem da comunidade. Todavia é bom deixar claro que se a
abordagem policial for arbitrária todo cidadão tem o direito ao acesso a justiça ou a
se deslocar a corregedoria da força policial para denunciar a guarnição. Contudo,
respaldado juridicamente e com provas para não ser alcançado por denunciação
caluniosa, conforme nosso regramento jurídico.

Portanto, torna-se evidente que o excesso de normas, jurisprudências e


decisões não estão contribuindo para ajudar o policial que está na ponta do
processo. Vê-se, pois, que na própria pesquisa bibliográfica encontramos diversas
normas confusas sobre o assunto, necessitando de regulamentação, além dos
julgamentos controversos.

Embora vários estudos tenham abordado a posse e o porte de arma de fogo


pelo cidadão sobre o tema, este estudo se concentra em pesquisar o discurso de
alguns CACs de que a polícia não tem bom senso nas abordagens e prejudicam
aqueles que estão de acordo com a lei, mas o que foi visto nos relatos da pesquisa é
que alguns deles estão usando suas prerrogativas de forma equivocada e tentando
se vitimizar com a atuação dos policiais.

Dada à importância do tema, torna-se necessário um maior aprofundamento


nas discussões e o surgimento de novos artigos e trabalhos institucionais. Não seria
o caso de sugerir novas leis, que como vimos não estão ajudando nenhum dos
_Artigo 006/2020 C35BA__________________________________________
lados, mas sim uma maior intensificação na parte educacional pelas instituições,
como por parte das agremiações para que todos conheçam as prerrogativas,
direitos, deveres e obrigações de todos os envolvidos. Já que o policial numa
abordagem mal realizada ou venha a se omitir em realiza-la poderá responder
jurídica e administrativamente, podendo ser penalizado com prisão ou demissão.

Por fim, podemos chegar à conclusão de que não há conflitos entre os


policiais e a comunidade dos colecionadores, atiradores desportivos e caçadores.
Todavia, é indiscutível que há ruídos de alguns mal intencionados. Contudo,
entendemos que qualquer cidadão tem o direito a legítima defesa contra uma injusta
agressão, podendo utilizar qualquer instrumento para se defender, e caso o
Congresso Nacional venha votar uma lei dando direito que todos os cidadãos
possam portar arma de fogo ela será cumprida da mesma forma pelas instituições
policiais. Já que os operadores da área da segurança pública devem agir conforme o
regramento jurídico sem agir com seu entendimento pessoal ou viés político. A
polícia é uma instituição mantedora da lei e da ordem sem espaço para extremismos
de nenhum lado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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20 Agosto 2020. Dissertação de Mestrado Profissional em Administração Pública.

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publica dos estados, quanto ds arbodagem a atirador desportivo, caçador e
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