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Direito Comercial

Manual do Curso de Licenciatura em

Direito

ENSINO ONLINE. ENSINO COM FUTURO

i
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ii
Este manual é propriedade do Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED),
e contém reservados todos os Direitos. É proibida a duplicação ou reprodução parcial ou
total deste manual, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico,
gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora (Instituto
Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED).

A não observância do acima estipulado o infractor é passível a aplicação de processos


judiciais em vigor no País.

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Agradecimentos

iii
Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância − Coordenação do Programa das
licenciaturas e o autor que elaborou o presente manual, Dra. Isolda da Conceição Guite,
agradecem a colaboração dos seguintes indivíduos e instituições na elaboração deste
manual:

Pelo design e revisão final Prof. Dr. Horácio Emanuel N’Vunga e

Prof. Dr. Zacarias Medeiro

Financiamento e Logística SCA – Consultores; com especial destaque à


pessoa do Dr. Robert Filimon Cambine.

Elaborado Por:

Nelson dos Santos Gonçalves Muzambue, Mestrado em Direito Empresarial.

1ª Revisão:

Diana Filipa Sousa Pinto, Mestrada em Direito Administrativo.

2ª Revisão, Reelaboração e Restruturação:

Félix Bernardo Húo, Mestrado em Ciências Jurídico-Forenses.

iv
ÍNDICE

Visão geral 1

Benvindo ao Módulo de Direito Comercial ...................................................................... 1


Objectivos do Módulo....................................................................................................... 1
Quem deveria estudar este módulo ................................................................................. 2
Como está estruturado este módulo ................................................................................ 2
Ícones de actividade ......................................................................................................... 4
Habilidades de estudo ...................................................................................................... 4
Precisa de apoio? .............................................................................................................. 7
Tarefas (avaliação e auto-avaliação) ................................................................................ 8
Avaliação ........................................................................................................................... 8

PARTE I 11

INTRODUÇÃO AO DIREITO COMERCIAL 11

TEMA – I: NOÇÃO, ORIGEM, EVOLUÇÃO, FONTES E CARACTERÍSTICAS DO DIREITO


COMERCIAL 11

UNIDADE Temática 1.1. Noção, Autonomia e Características do Direito Comercial .. 11


Introdução....................................................................................................................... 11
1.1.1. Noção básica e Conceito do Direito Comercial .................................................... 12
1.1.2. Autonomia do Direito Comercial .......................................................................... 13
1.1.2.1. A Especialidade do Direito Comercial ................................................................ 15
1.1.2.2. Direito Comercial ou dos comerciantes ............................................................ 16
1.1.3. Características do Direito Comercial .................................................................... 16
Sumário ........................................................................................................................... 19
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 20
Exercícios ........................................................................................................................ 21
UNIDADE Temática 1.2. Origem e evolução histórica do Direito Comercial (Direito
Comparado) .................................................................................................................... 21

v
Introdução....................................................................................................................... 22
1.2.1. Evolução Histórica do Direito Comercial .............................................................. 22
1.2.2. Direito Comparado ............................................................................................... 23
Sumário ........................................................................................................................... 26
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 27
Exercícios ........................................................................................................................ 28
UNIDADE Temática 1.3. Fontes do Direito Comercial e Relação com outros Ramos de
Direito ............................................................................................................................. 28
Introdução....................................................................................................................... 28
1.3.1. Fontes do Direito Comercial ................................................................................. 29
a) Fontes internas ...................................................................................................... 30
b) Fontes externas ..................................................................................................... 32
c) Os usos e costumes ............................................................................................... 33
1.3.2. Interpretação e integração de lacunas no Direito Comercial ............................... 34
Sumário ........................................................................................................................... 38
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 39
Exercícios ........................................................................................................................ 40
UNIDADE Temática 1.4. Exercícios do Tema ................................................................. 40
Introdução....................................................................................................................... 40
Exercícios ........................................................................................................................ 40

TEMA – II: O EMPRESÁRIO COMERCIAL E OS ACTOS DE COMÉRCIO 42

UNIDADE Temática 2.1. Actos de Comércio e sua Classificação .................................. 43


Introdução....................................................................................................................... 43
2.1.1. Noção geral de actos de comércio ....................................................................... 43
2.1.2. Classificação dos actos de comércio ..................................................................... 44
a) Actos de comércio subjectivo ..................................................................................... 44
b) Actos de comércio objectivo ...................................................................................... 45
c) Acto unilateral ............................................................................................................. 45
d) Acto Bilateral .............................................................................................................. 46
e) Actos de comércio absoluto ....................................................................................... 47

vi
f) Actos de comércio por conexão .................................................................................. 47
g) Actos de comércios casuais ........................................................................................ 48
h) Actos de comércio abstratos ...................................................................................... 48
i) Actos de comércio puro ............................................................................................... 49
j) Actos de Comércio misto ............................................................................................. 49
k) Actos de comércio formalmente comerciais .............................................................. 49
l) Actos Substancialmente comerciais ............................................................................ 49
Sumário ........................................................................................................................... 50
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 50
Exercícios ........................................................................................................................ 51
UNIDADE Temática 2.2. A Empresa no âmbito do Direito Comercial .......................... 51
Introdução....................................................................................................................... 51
2.2.1. Noção geral ........................................................................................................... 52
2.2.2. Empresa como Sujeito ou Agente Jurídico ........................................................... 53
2.2.3. Empresa como actividade ..................................................................................... 54
2.2.4. Empresa como objecto ......................................................................................... 55
2.2.5. Empresa como conjunto de elementos ................................................................ 55
2.2.6. O Empresário ........................................................................................................ 56
2.2.7. Comerciantes em nome individual e sociedades ................................................. 57
2.2.8. Empresário comercial como sujeito do direito comercial .................................... 58
Sumário ........................................................................................................................... 59
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 60
Exercícios ........................................................................................................................ 61
UNIDADE Temática 2.3. Empresário Comercial ............................................................ 61
Introdução....................................................................................................................... 61
2.3.1. Conceito do empresário comercial ....................................................................... 62
2.3.2. Empresário comercial como pessoa singular: requisitos ..................................... 63
2.3.3. Situação particular dos incapazes ......................................................................... 64
2.3.4. Restrições ou proibições ao exercício da profissão de empresário comercial ..... 66
2.3.5. Impedimentos e proibições legais ao exercício do comércio............................... 66
2.3.6. Situação dos cônjuges........................................................................................... 69
2.3.7. Figuras afins do empresário comercial ................................................................. 70

vii
a) Mandatário Comercial ................................................................................................ 71
b) Gerente ....................................................................................................................... 71
c) O Comissário ............................................................................................................... 72
d) O Mediador ................................................................................................................. 73
Sumário ........................................................................................................................... 74
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 75
Exercícios ........................................................................................................................ 76
UNIDADE Temática 2.4. Obrigações do Empresário Comercial.................................... 76
Introdução....................................................................................................................... 76
2.4.1. A Firma do empresário comercial......................................................................... 77
a) Conceito ...................................................................................................................... 77
b) Tipos de firma ............................................................................................................. 79
c) Princípios relativos à firma do empresário comercial ................................................ 80
i. Princípio da verdade .............................................................................................. 80
ii. Princípio da novidade ............................................................................................ 81
iii. Princípio da exclusividade .......................................................................................... 82
d) Transmissão da firma ............................................................................................ 84
e) Alteração da firma ................................................................................................. 85
f) Caducidade e renúncia da firma............................................................................ 86
2.4.2. Escrituração mercantil .......................................................................................... 87
a) Função dos livros obrigatórios .............................................................................. 88
b) Importância da escrituração mercantil ................................................................. 89
c) Forma de escrituração........................................................................................... 90
d) Registo comercial .................................................................................................. 91
Sumário ........................................................................................................................... 91
Exercícios de Auto-Avaliação .......................................................................................... 92
Exercícios ........................................................................................................................ 93
UNIDADE Temática 2.5. Exercícios do Tema ................................................................. 94
Introdução....................................................................................................................... 94
Exercícios ........................................................................................................................ 94

PARTE II 96

viii
SOCIEDADES COMERCIAIS E TÍTULOS DE CRÉDITO 96

TEMA – I: SOCIEDADES COMERCIAIS NO GERAL 96

UNIDADE Temática 1.1. Contrato de Sociedade. .......................................................... 97


Introdução....................................................................................................................... 97
1.1.1. Conceito do contrato de sociedade ............................................................. 97
1.1.2. Natureza jurídica do contrato de sociedade ............................................... 98
a) A teoria Contratualista................................................................................................ 98
b) Teoria institucionalista ............................................................................................... 99
1.1.3. A forma do contrato de sociedade ............................................................ 100
1.1.4. Reconhecimento da sociedade com um só sócio ...................................... 102
1.1.5. Do contrato plurilateral ao contrato-organização ..................................... 103
Sumário ......................................................................................................................... 105
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 106
Exercícios ...................................................................................................................... 107

UNIDADE Temática 1.2. Sociedades Comerciais 108

Introdução..................................................................................................................... 108
1.2.1. Noções gerais e conceito de sociedade comercial ............................................. 109
Sociedade Comercial..................................................................................................... 109
1º. Elemento pessoal .................................................................................................... 110
2º. Elemento patrimonial ............................................................................................. 110
3º. Elemento finalístico ................................................................................................. 111
4º. Elemento teleológico .............................................................................................. 112
1.2.2. A Personalidade jurídica ..................................................................................... 114
1.2.3. Capacidade jurídica ............................................................................................. 115
Sumário ......................................................................................................................... 115
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 116
Exercícios ...................................................................................................................... 117
UNIDADE Temática 2.3. Exercícios do Tema ............................................................... 118
Introdução..................................................................................................................... 118

ix
Exercícios ...................................................................................................................... 118

TEMA – II: SOCIEDADES COMERCIAIS EM ESPECIAL 120

UNIDADE Temática 2.1. Principais Tipos Societários.................................................. 120


Introdução..................................................................................................................... 120
2.1.1. Sociedade em Nome Colectivo .................................................................. 121
a) Enquadramento legal e caracterização ............................................................... 121
b) Deliberações dos sócios e Administração ........................................................... 122
c) Breve historial...................................................................................................... 122
2.1.2. Sociedades em Comandita......................................................................... 123
a) Conceito e enquadramento legal ........................................................................ 123
b) Espécies de sociedades em comandita ............................................................... 124
c) Deliberações dos sócios ...................................................................................... 124
d) Breve historial sobre sociedade em comandita .................................................. 124
2.1.3. Sociedades de Capital e Indústria .............................................................. 126
a) Conceito e enquadramento legal ........................................................................ 126
b) Caracterização ..................................................................................................... 126
2.1.4. Sociedades por Quotas .............................................................................. 127
a) Noçãoe enquadramento legal ............................................................................. 127
b) Caracterização ..................................................................................................... 127
2.1.5. Sociedades Anónimas ................................................................................ 127
a) Enquadramento legal e conceito ........................................................................ 127
b) Espécie ou categorias de acções ......................................................................... 128
c) Breve historial das sociedades anónimas ........................................................... 128
2.1.6. Resenha de todas sociedades limitadas .................................................... 130
Sumário ......................................................................................................................... 131
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 132
Exercícios ...................................................................................................................... 133

UNIDADE Temática 2.2: Direito Comparado nas sociedades unipessoais e o caso de


Moçambique 133

x
Introdução..................................................................................................................... 133
2.2.1. As sociedades na União Europeia ....................................................................... 134
2.2.2. No direito francês ............................................................................................... 136
2.2.3. No Direito português .......................................................................................... 138
2.2.4. No Direito espanhol ............................................................................................ 141
2.2.5. Questões levantadas no Direito moçambicano.................................................. 143
Sumário ......................................................................................................................... 151
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 152
Exercícios ...................................................................................................................... 152
UNIDADE Temática 2.3. Exercícios do Tema ............................................................... 154
Introdução..................................................................................................................... 154
Exercícios ...................................................................................................................... 154

TEMA – III: TÍTULOS DE CRÉDITO 156

UNIDADE Temática 3.1: Princípios Gerais sobre os Títulos de Créditos. ................... 156
Introdução..................................................................................................................... 156
3.1.1. Noção e enquadramento legal sobre títulos de crédito ............................ 157
a) Características dos títulos de créditos ................................................................ 159
b) Autonomia da posição do portador do título ..................................................... 161
3.1.2. CLASSIFICAÇÃO .......................................................................................... 163
Sumário ......................................................................................................................... 164
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 164
Exercícios ...................................................................................................................... 165

UNIDADE Temática 3.2: Títulos de crédito em especial 166

Introdução..................................................................................................................... 166
3.2.1. Cheques .............................................................................................................. 167
a) Noção geral.......................................................................................................... 167
b) Requisitos do Cheque .......................................................................................... 167
c) Formas do Cheque............................................................................................... 168
d) Endosse................................................................................................................ 170

xi
e) Aval ...................................................................................................................... 172
f) Pagamento, prazos de apresentação .................................................................. 173
g) Cheques Cruzados ............................................................................................... 174
h) Cheques a Levar em Conta .................................................................................. 175
i) Acção Por Falta de Cobertura.............................................................................. 175
3.2.2. Livrança ............................................................................................................... 178
a) Conceito .................................................................................................................... 178
b) Requistitos da livrança.............................................................................................. 179
c) Efeitos da ausência dos requisitos ...................................................................... 179
Sumário ......................................................................................................................... 180
Exercícios de Auto-Avaliação ........................................................................................ 181
Exercícios ...................................................................................................................... 181
UNIDADE Temática 3.3: Exercícios do Tema ............................................................... 182
Introdução..................................................................................................................... 182
Exercícios ...................................................................................................................... 182

PARTE III 184

DISPOSIÇÕES FINAIS 184

EXERCÍCIOS DO MÓDULO 184

BIBLIOGRAFIA 190

Obras ............................................................................................................................. 190


Legislação ...................................................................................................................... 193

xii
Visão geral

Benvindo ao Módulo de Direito Comercial

Objectivos do Módulo

Ao terminar o estudo deste módulo de Direito Comercial, o


estudante deverá ser capaz de: Compreender as relações entre o
direito comercial e o direito civil (comum), e os restantes ramos de
direito; Desenvolver uma visão extensa na área de aplicação do
direito comercial; Desenvolver habilidades para a resolução
prática de casos da vida quotidiana através de hipóteses
académicas; Definir actos de comércio e comerciante; Distinguir
os diversos títulos de créditos; Distinguir a personalidade jurídica e
capacidade comercial; Distinguir e caracterizar os diferentes tipos
legais de sociedades comerciais; Descrever o processo de
constituição das sociedades comerciais Descrever o processo de
alteração das sociedades comerciais. E especificamente:

▪ Determinar o momento da constituição das sociedades e


respectiva aquisição de personalidade e capacidade jurídicas;
▪ Conhecer os direitos e deveres dos sócios;
▪ Compreender a importância do capital social,
Objectivos
▪ Descrever os procedimentos de aumento e de redução do
Específicos
capital social;
▪ Descrever e compreender as vicissitudes a que estão sujeitas
as sociedades comerciais;

1
Quem deveria estudar este módulo

Este Módulo foi concebido para estudantes do 4º ano do curso de


licenciatura em Direito. Poderá ocorrer, contudo, que haja leitores
que queiram se actualizar e consolidar seus conhecimentos nessa
disciplina, esses serão bem vindo, não sendo necessário para tal se
inscrever. Mas poderá adquirir o manual.

Como está estruturado este módulo

Este módulo de Direito Comercial, para estudantes do 4º ano do


curso Direito, à semelhança dos restantes do ISCED, está
estruturado como se segue:

Páginas introdutórias

▪ Um índice completo.

▪ Uma visão geral detalhada dos conteúdos do módulo,


resumindo os aspectos-chave que você precisa conhecer para
melhor estudar. Recomendamos vivamente que leia esta
secção com atenção antes de começar o seu estudo, como
componente de habilidades de estudos.

Conteúdo desta Disciplina / módulo

Este módulo está estruturado em Temas. Cada tema, por sua vez
comporta certo número de unidades temáticas visualizadas por
um sumário. Cada unidade temática se caracteriza por conter uma
introdução, objectivos, conteúdos. No final de cada unidade
temática ou do próprio tema, são incorporados antes exercícios de
auto-avaliação, só depois é que aparecem os de avaliação. Os
exercícios de avaliação têm as seguintes características: Puros
exercícios teóricos, problemas não resolvidos e actividades
práticas algumas incluído estudo de casos.

2
Outros recursos

A equipa dos académicos e pedagogos do ISCED pensando em si,


num cantinho, mesmo o recôndito deste nosso vasto Moçambique
e cheio de dúvidas e limitações no seu processo de aprendizagem,
apresenta uma lista de recursos didácticos adicionais ao seu
módulo para você explorar. Para tal o ISCED disponibiliza na
biblioteca do seu centro de recursos mais material de estudos
relacionado com o seu curso como: Livros e/ou módulos, CD, CD-
ROOM, DVD. Para além deste material físico ou electrónico
disponível na biblioteca, pode ter acesso a Plataforma digital
moodle para alargar mais ainda as possibilidades dos seus
estudos.

Auto-avaliação e Tarefas de avaliação

Tarefas de auto-avaliação para este módulo encontram-se no final


de cada unidade temática e de cada tema. As tarefas dos
exercícios de auto-avaliação apresentam duas características:
primeiro apresentam exercícios resolvidos com detalhes. Segundo,
exercícios que mostram apenas respostas.

Tarefas de avaliação devem ser semelhantes às de auto-avaliação


mas sem mostrar os passos e devem obedecer o grau crescente de
dificuldades do processo de aprendizagem, umas a seguir a outras.
Parte das tarefas de avaliação será objecto dos trabalhos de
campo a serem entregues aos tutores/docentes para efeitos de
correcção e subsequentemente nota. Também constará do exame
do fim do módulo. Pelo que, caro estudante, fazer todos os
exercícios de avaliação é uma grande vantagem.

3
Comentários e sugestões

Use este espaço para dar sugestões valiosas, sobre determinados


aspectos, quer de natureza científica, quer de natureza didáctico-
Pedagógica, etc. deveriam ser ou estar apresentadas. Pode ser que
graças as suas observações, o próximo módulo venha a ser
melhorado.

Ícones de actividade

Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas


margens das folhas. Estes ícones servem para identificar
diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar
uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa,
uma mudança de actividade, etc.

Habilidades de estudo

O principal objectivo deste capítulo é o de ensinar aprender a


aprender. Aprender aprende-se.

Durante a formação e desenvolvimento de competências, para


facilitar a aprendizagem e alcançar melhores resultados, implicará
empenho, dedicação e disciplina no estudo. Isto é, os bons
resultados apenas se conseguem com estratégias eficientes e
eficazes. Por isso é importante saber como, onde e quando
estudar. Apresentamos algumas sugestões com as quais esperamos
que caro estudante possa rentabilizar o tempo dedicado aos
estudos, procedendo como se segue:

1º Praticar a leitura. Aprender a Distância exige alto domínio de


leitura.

2º Fazer leitura diagonal aos conteúdos (leitura corrida).

4
3º Voltar a fazer leitura, desta vez para a compreensão e
assimilação crítica dos conteúdos (ESTUDAR).

4º Fazer seminário (debate em grupos), para comprovar se a sua


aprendizagem confere ou não com a dos colegas e com o padrão.

5º Fazer TC (Trabalho de Campo), algumas actividades práticas ou


as de estudo de caso se existir.

IMPORTANTE: Em observância ao triângulo modo-espaço-tempo,


respectivamente como, onde e quando... estudar, como foi
referido no início deste item, antes de organizar os seus momentos
de estudo reflicta sobre o ambiente de estudo que seria ideal para
si: Estudo melhor em casa/biblioteca/café/outro lugar? Estudo
melhor à noite/de manhã/de tarde/fins de semana/ao longo da
semana? Estudo melhor com música/num sítio sossegado/num
sítio barulhento!? Preciso de intervalo em cada 30 minutos, em
cada hora, etc.

É impossível estudar numa noite tudo o que devia ter sido


estudado durante um determinado período de tempo; Deve
estudar cada ponto da matéria em profundidade e passar só ao
seguinte quando achar que já domina bem o anterior.

Privilegia-se saber bem (com profundidade) o pouco que puder ler


e estudar, que saber tudo superficialmente! Mas a melhor opção é
juntar o útil ao agradável: Saber com profundidade todos
conteúdos de cada tema, no módulo.

Dica importante: não recomendamos estudar seguidamente por


tempo superior a uma hora. Estudar por tempo de uma hora
intercalado por 10 (dez) a 15 (quinze) minutos de descanso
(chama-se descanso à mudança de actividades). Ou seja que
durante o intervalo não se continuar a tratar dos mesmos assuntos
das actividades obrigatórias.

5
Uma longa exposição aos estudos ou ao trabalho intelectual
obrigatório pode conduzir ao efeito contrário: baixar o rendimento
da aprendizagem. Porque o estudante acumula um elevado volume
de trabalho, em termos de estudos, em pouco tempo, criando
interferência entre os conhecimentos, perde sequência lógica, por
fim ao perceber que estuda tanto mas não aprende, cai em
insegurança, depressão e desespero, por se achar injustamente
incapaz!

Não estude na última da hora; quando se trate de fazer alguma


avaliação. Aprenda a ser estudante de facto (aquele que estuda
sistematicamente), não estudar apenas para responder a questões
de alguma avaliação, mas sim estude para a vida, sobre tudo,
estude pensando na sua utilidade como futuro profissional, na área
em que está a se formar.

Organize na sua agenda um horário onde define a que horas e que


matérias deve estudar durante a semana; Face ao tempo livre que
resta, deve decidir como o utilizar produtivamente, decidindo
quanto tempo será dedicado ao estudo e a outras actividades.

É importante identificar as ideias principais de um texto, pois será


uma necessidade para o estudo das diversas matérias que
compõem o curso: A colocação de notas nas margens pode ajudar
a estruturar a matéria de modo que seja mais fácil identificar as
partes que está a estudar e pode escrever conclusões, exemplos,
vantagens, definições, datas, nomes, pode também utilizar a
margem para colocar comentários seus relacionados com o que
está a ler; a melhor altura para sublinhar é imediatamente a seguir
à compreensão do texto e não depois de uma primeira leitura;
Utilizar o dicionário sempre que surja um conceito cujo significado
não conhece ou não lhe é familiar;

6
Precisa de apoio?

Caro estudante, temos a certeza que por uma ou por outra razão, o
material de estudos impresso, lhe pode suscitar algumas dúvidas
como: falta de clareza, alguns erros de concordância, prováveis
erros ortográficos, fraca visibilidade, páginas trocadas ou
invertidas, etc.). Nestes casos, contacte os serviços de atendimento
e apoio ao estudante do seu Centro de Recursos (CR), via telefone,
SMS, E-mail, se tiver tempo, escreva mesmo uma carta
participando a preocupação.

Uma das atribuições dos Gestores dos CR e seus assistentes


(Pedagógico e Administrativo) é a de monitorar e garantir a sua
aprendizagem com qualidade e sucesso. Dai a relevância da
comunicação no Ensino a Distância (EAD), onde o recurso as TIC se
torna incontornável: entre estudantes, estudante – Tutor,
estudante – CR, etc.

As sessões presenciais são um momento em que você caro


estudante, tem a oportunidade de interagir fisicamente com staff
do seu CR, com tutores ou com parte da equipa central do ISCED
indigitada para acompanhar as sua sessões presenciais. Neste
período pode apresentar dúvidas, tratar assuntos de natureza
pedagógica e/ou administrativa.

O estudo em grupo, que está estimado para ocupar cerca de 30%


do tempo de estudos a distância, é muita importância, na medida
em que permite-lhe situar, em termos do grau de aprendizagem
com relação aos outros colegas. Desta maneira ficará a saber se
precisa de apoio ou precisa de apoiar aos colegas. Desenvolver
hábito de debater assuntos relacionados com os conteúdos
programáticos, constantes nos diferentes temas e unidade
temática, no módulo.

7
Tarefas (avaliação e auto-avaliação)

O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e


auto−avaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é
importante que sejam realizadas. As tarefas devem ser entregues
duas semanas antes das sessões presenciais seguintes.

Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não


cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do
estudante. Tenha sempre presente que a nota dos trabalhos de
campo conta e é decisiva para ser admitido ao exame final da
disciplina/módulo.

Os trabalhos devem ser entregues ao Centro de Recursos (CR) e os


mesmos devem ser dirigidos ao tutor/docente.

Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa,


contudo os mesmos devem ser devidamente referenciados,
respeitando os direitos do autor.

O plágio1 é uma violação do direito intelectual do autor/autores.


Uma transcrição à letra de mais de 8 (oito) palavras do texto de um
autor, sem o citar é considerado plágio. A honestidade, humildade
científica e o respeito pelos direitos autorais devem caracterizar a
realização dos trabalhos e seu autor (estudante do ISCED).

Avaliação

Muitos perguntam: Com é possível avaliar estudantes à distância,


estando eles fisicamente separados e muito distantes do
docente/tutor!? Nós dissemos: Sim é muito possível, talvez seja
uma avaliação mais fiável e consistente.

Você será avaliado durante os estudos à distância que contam com


um mínimo de 90% do total de tempo que precisa de estudar os

1
Plágio - copiar ou assinar parcial ou totalmente uma obra literária,
propriedade intelectual de outras pessoas, sem prévia autorização.

8
conteúdos do seu módulo. Quanto ao tempo de contacto
presencial conta com um máximo de 10% do total de tempo do
módulo. A avaliação do estudante consta detalhada do
regulamento de avaliação.

Os trabalhos de campo por si realizados, durante estudos e


aprendizagem no campo, pesam 25% e servem para a nota de
frequência para ir aos exames.

Os exames são realizados no final da cadeira/disciplina ou modulo


e decorrem durante as sessões presenciais. Os exames pesam no
mínimo 75%, o que adicionado aos 25% da média de frequência,
determinam a nota final com a qual o estudante conclui a cadeira.

A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de conclusão da


cadeira.

Nesta cadeira o estudante deverá realizar pelo menos 2 (dois)


trabalhos e 1 (um) (exame).

Algumas actividades práticas, relatórios e reflexões serão utilizados


como ferramentas de avaliação formativa.

Durante a realização das avaliações, os estudantes devem ter em


consideração a apresentação, a coerência textual, o grau de
cientificidade, a forma de conclusão dos assuntos, as
recomendações, a identificação das referências bibliográficas
utilizadas, o respeito pelos direitos do autor, entre outros. Os
objectivos e critérios de avaliação constam do Regulamento de
Avaliação.

9
PARTE I

INTRODUÇÃO AO DIREITO COMERCIAL

TEMA – I: NOÇÃO, ORIGEM, EVOLUÇÃO, FONTES E CARACTERÍSTICAS DO DIREITO COMERCIAL

UNIDADE Temática 1.1. Noções, Autonomia e Características


UNIDADE Temática 1.2. Origem e Evolução Histórica

UNIDADE Temática 1.3. Fontes do Direito Comercial e a relação com


outros Ramos de Direito

UNIDADE Temática 1.4. Exercícios do Tema

UNIDADE Temática 1.1. Noção, Autonomia e


Características do Direito Comercial

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante adquira


conhecimentos básicos sobre o conceito do Direito Comercial,
autonomia e suas característica como ramo de direito.

Para o efeito, especificamente pretende-se que ao completar esta


unidade, você seja capaz de:

11
▪ Saber definir o Direito Comercial;

▪ Conhecer as suas características que o diferem doutros


Objectivos
ramos;

▪ Compreender a autonomia desta disciplina no ramo de


Direito e saber definir o Contencioso Administrativo.

1.1.1. Noção básica e Conceito do Direito Comercial

De acordo com alguns autores, o Direito Comercial regula uma


certa espécie de normas jurídicas que derivam do exercício do
comércio e de outras actividades afins. Logo, trata-se de um Direito
Privado especial, pois afastando-se das regras gerais do Direito Civil,
vigora só para uma classe específica de relações jurídicas, que o
legislador destacou em partes para as submeter a um regime
diferenciado.

Para o autor moçambicano Manuel Guilherme Júnior, O


Direito Comercial é um ramo do Direito Privado composto por um
(sistema) conjunto de normas jurídicas com a função de disciplinar os
actos do comércio e os empresários comerciais. 2

O objecto do Direito comercial vem definido no artigo 1º do C. Com, e


segundo o mesmo dispositivo legal, o objecto de regulação do Direito
Comercial, estabelecendo duas situações:

• A parte inicial do mesmo artigo 1 define o objecto do direito


comercial a partir do sujeito, o empresário comercial neste

2
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 27.
12
caso. A compreensão desta parte, pressupõe antes a
compreensão da qualificação do sujeito em referência.
Remetemos por isso a parte relativa ao estudo da matéria
atinente ao empresário comercial.3

• Na segunda parte do artigo 1º do C.Com, o legislador ordinário


usou a terminologia mais importante no âmbito do estudo
deste ramo de Direito. Com muita razão e logica, o legislador
não se preocupou em descrever os tipos de actos do comércio,
pois sob ponto de vista logico esta actividade seria
inesgotável.

1.1.2. Autonomia do Direito Comercial

Quando discutimos a questão da autonomia do direito


comercial, colocamos a questão que prende-se em perceber se o
Direito Comercial é um ramo do Direito autónomo, ou se está
dependente de um outro ramo do Direito. Antes o Direito Comercial
estava dentro do Direito Civil, que é um ramo do Direito Privado
Comum, mas com o desenvolvimento da ciência jurídica, e das
relações jurídicas comerciais, o Direito Comercial autonomizou-se,
torando-se um ramo do Direito Autónomo.

São várias posições existentes para discutir a questão da


autonomia do Direito Comercial.

Neste sentido, temos uma concepção objectivista, encabeçada


por autor VIVANTE, e que influenciou alguns autores como
GUILHERME MOREIRA CUNHA GONCALVES E BARBOSA DE
MAGALHÃES, sustentou que não se justificaria a tradicional
autonomização do Direito Comercial e que preferível seria considerar
o Direito Civil como disciplina jurídica uniforme de todas as relações

3
Vide o artigo 1º do Código Comercial, aprovado pelo Decreto-Lei n°2/2009 de 29 de
Abril.
13
de direito privado, ou seja, daquelas que se baseiam na igualdade de
posições de sujeitos das relações jurídicas (critério da posição dos
sujeitos).4

Esta orientação negadora da autonomia do Direito Comercial


baseou-se essencialmente no argumento de que este teria já
desempenhado e esgotado o seu papel de catalisador da evolução do
Direito privado, pois os princípios e regras que ele foi gerando ao
longo dos tempos, acabaram por cada vez mais rapidamente ser
absorvidos pelo Direito Civil.

Entendia-se que os interesses e valores que historicamente


explicariam a autonomia do Direito Comercial a tutela de credito, da
confiança, da boa-fé, da rapidez dos negócios, teriam generalizado o
seu alcance a todos os domínios da actividade humana, em especial
de todos os ramos da economia, não havendo já motivos para os
considerar exclusivamente enformadores do regime-jurídico privado
do comercio e de algumas outras actividades a este assimiladas.

Apesar de alguns ordenamentos jurídicos integrarem a


matéria do Direito Comercial no Código Civil (CC), Este não perde a
sua autonomia. O facto de este ser tratado dentro do código civil não
perde a sua autonomia. Isto sucede com vários ramos do Direito
Privado, que apesar de serem tratados no código Civil não perderam a
sua autonomia, o que acontece com o Direito das Sucessões cujo
tratamento jurídico-legal tem a sua sede no livro V do Código Civil,
mas isto não poe em causa a sua autonomia científica, pedagógica ou
formal.5

Na ordem jurídica Moçambicana, o tratamento da matéria


atinente ao Direito Comercial ocorre em legislação específica, que é o

4
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 121.
5
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 27.
14
Código Comercial, o principal instrumento normativo (Diploma)
regulador da actividade comercial e dos empresários Comerciais em
Moçambique, o referido diploma foi actualizado pelo Decreto – Lei
n°2/2009 de 24 de Abril.

1.1.2.1. A Especialidade do Direito Comercial

O Direito Comercial é considerado Direito especial, assim de


distinguiria do Direito Civil: Direito Comum. A relação de
especialidade ocorre, quando perante um (conjunto de normas) ou
complexo normativo que se dirigia a uma generalidade de situações
jurídicas, um segundo sistema de normas, mas restrito, mas mais
intenso, contemple uma situação que, de outro modo respeitaria ao
primeiro (Direito Civil), dispensando-lhe um tratamento
particularmente adequado.6

A adequação pode resultar de normas diferenciadas que


estabeleçam situações diversas ou de regras complementadoras que
precisem, num ou noutro sentido, soluções deixadas em aberto pelo
Direito comum. A Especialidade é relativa, impõe quando perante
duas (2) áreas normativas, seja possível estabelecer uma relação
geral/especial. O Direito Comercial seria especial em relação ao civil,
mas surgira geral em relação ao Direito bancário, ainda mais especial.
A afirmação da natureza especial do Direito Comercial permite
justificar a aplicação subsidiária do Direito Civil que é o Direito
privado comum, perante o especial, que é o Direito Comercial. A
especialidade resulta então de níveis reguladores mais gerais, e
sobretudo da propiá materialidade das regras consideradas.

6
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 122.
15
1.1.2.2. Direito Comercial ou dos comerciantes

O Direito Comercial é na verdade o Direito do Comercio ou dos


comerciantes7, alguns usam a designação, direito Comercial, outros
Direitos dos comerciantes, mas não existe qualquer diferença, pois
trata-se de uma questão meramente terminológica. Trata-se do
comércio que em Direito engloba a actividade lucrativa da produção,
distribuição e venda de bens. O termo “Comércio” pode, com
paridade aplicar-se a qualquer dos seguimentos do circuito que une
os produtores e consumidores finais, e ainda, as actividades conexas e
acessórias. De acordo com a doutrina, a expressão Direito do
Comercio enquadra-se na concepção objectiva, e por sua vez a
expressão “Direito dos Comerciantes” que também é alargada as
empresas, corresponde a concepção subjectiva, esta solução foi
encontrada pela doutrina nos anos 30 do Seculo XX, pois qualquer
ramo jurídico, por mais especial que seja, pode ser sempre
configurado num sistema subjectivo, regulando não só o comércio,
mas também os comerciantes.

1.1.3. Características do Direito Comercial

O Direito Comercial tem um conjunto de características


peculiares que o fazem especial, são algumas dessas características:8

1. Cosmopolitismo – É um ramo tendencialmente universal, se


assumirmos a funcionalidade do exercício do comércio. No
entanto, tem-se actualmente a ideia de considera-lo um
regime de comércio interno uma vez que surge ao lado dele

7
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 126.
8
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 42.
16
um regime internacional aplicável ao comércio internacional.
O Direito Comercial sofre influências dos mercados e se realiza
entre povos, adopta institutos e convenções estrangeiras e
para uniformizar seus padrões de realização, e acompanhando
os progressos tecnológicos, que estimulam sua continuada
renovação;9

2. Cosmopolitismo – É um ramo tendencialmente universal, se


assumirmos a funcionalidade do exercício do comércio. No
entanto, tem-se actualmente a ideia de considera-lo um
regime de comércio interno uma vez que surge ao lado dele
um regime internacional aplicável ao comércio internacional.
O Direito Comercial sofre influências dos mercados e se realiza
entre povos, adopta institutos e convenções estrangeiras e
para uniformizar seus padrões de realização, e acompanhando
os progressos tecnológicos, que estimulam sua continuada
renovação;10

3. Dinamismo – É um direito de rápida evolução, Esta


característica e de facto intrínseca a natureza da actividade que
a lei comercial regula. O exercício do comércio de per si, não se
compadece com o estaticismo. O dinamismo afigura-se ainda
como uma das características do Direito Comercial para
acompanhar o movimento das relações económicas, já que
seus actos são praticados com rapidez e em massa. Os
mecanismos de exercício do comércio têm tendências de
modernizarem-se com muita frequência e rapidez. Prova disso,
e o surgimento de novas formas de contratação comercial, ou

9
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 42.
10
Idem.
17
seja, novos contratos comerciais que muitas vezes o legislador
não acompanha com a devida regulamentação.11

4. Flexibilidade – Esta característica esta associada a anterior. E


um Direito flexível, um direito que admite margens de
manobra dos seus actores.12

5. Informalismo – que equivale a dizer que o direito comercial e


tendencialmente um direito informal, no sentido de que não
obedece no processo da sua aplicação requisitos rigorosos tal
como acontece no Direito Civil;13

6. Presunção de Solidariedade – Em direito comercial, vigora a


presunção de solidariedade entre os sócios, tem em vista a
maior segurança no fluxo comercial;14

7. Onerosidade – O direito comercial envolve em regra actos não


gratuitos, a gratuidade não é norma em Direito comercial. Pois,
o objecto do Direito Comercial é a actividade que sempre
busca lucro. Por exemplo o mandato civil pode ser gratuito ou
oneroso nos termos do artigo 1158º do C. Civil. O mandato
comercial é sempre oneroso;15

11
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 43.
12
Idem
13
Idem
14
Idem
15
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 43.
18
8. Liberdade de Concorrência – É uma característica do Direito
Comercial, associada ao modelo económico em vigor, do qual
resulta a liberdade de exercício do comércio;16

9. Protecção do Credito e da Boa-fé- exactamente pelo facto de


ser um ramo tendencialmente informal e flexível, preocupa-se
com a protecção do crédito, e da boa-fé entre os operadores
comerciais, permitem as negociações e a contratação corra
com maior fluidez;

10. Facilidade da prova – a matéria da prova em direito comercial


não é tao forte tanto quanto o Direito Civil. O simples recibo de
compra de mercadoria constante da escritura mercantil do
empresário comercial prova a existência do contrato de
compra e venda mercantil;

11. Instrumentalidade – Pois, o Direito Comercial se presta a dar


forma jurídica à realização de negócios e relações comerciais,
que se concretiza sem excesso de formalismos;

Sumário

Nesta Unidade temática estudamos o Direito Comercial como


ramo de Direito que regula uma certa espécie de normas jurídicas que
derivam do exercício do comércio e de outras actividades afins. Logo,
trata-se de um Direito Privado especial, pois afastando-se das regras
gerais do Direito Civil, vigora só para uma classe específica de relações
jurídicas, que o legislador destacou em partes para as submeter a um
regime diferenciado.

16
Idem
19
Quando discutimos a questão da autonomia do direito
comercial, colocamos a questão que prende-se em perceber se o
Direito Comercial é um ramo do Direito autónomo, ou se está
dependente de um outro ramo do Direito. Neste sentido, percebemos
que para falarmos da autonomia do Direito Comercial temos uma
concepção objectivista, encabeçada por autor VIVANTE, e que
influenciou alguns autores como GUILHERME MOREIRA CUNHA
GONCALVES E BARBOSA DE MAGALHÃES.
Também estudamos que O Direito Comercial tem um conjunto
de características peculiares que se resumem em: Cosmopolitismo;
Dinamismo; Flexibilidade; Informalismo; Presunção de Solidariedade;
Onerosidade; Liberdade; Protecção do Credito e da Boa-fé; Facilidade
da prova; e a Instrumentalidade.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O Direito Comercial regula uma certa espécie de normas


jurídicas que não derivam do exercício do comércio e de outras
actividades afins.

▪ Certo

▪ Errado

Resposta: Errado.

2. Trata-se de um Direito Privado especial, pois afastando-se das


regras gerais do Direito Civil, vigora só para uma classe
específica de relações jurídicas, que o legislador destacou em
partes para as submeter a um regime diferenciado.

20
▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. De acordo com a doutrina, a expressão Direito do Comercio


enquadra-se na concepção objectiva, e por sua vez a expressão
“Direito dos Comerciantes” que também é alargada as
empresas, corresponde a concepção subjectiva.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo

Exercícios

1. O que entende por Direito Comercial?


2. Quais são as características do Direito Comercial?
3. Quais são as concepções doutrinárias que podemos enquadrar
o Direito Comercial?
4. É certo afirmarmos que o Direito Comercial é um Direito
privado especial?
5. Em que se resume a especialidade do Direito Comercial?

UNIDADE Temática 1.2. Origem e evolução histórica do


Direito Comercial (Direito Comparado)

21
Introdução

Nesta unidade temática que o estudante adquira


conhecimentos suficientes sobre a evolução do Direito Comercial
tendo em atenção aos mecanismos legais, ou seja, atendendo a
dinâmica da legislação moçambicana.

Efectivamente, ao completar esta unidade, você será capaz de:

1.2.1. Evolução Histórica do Direito Comercial

▪ Saber explicar o seu surgimento e evolução histórica do


Direito Comercial;
Objectivos
▪ Identificar as principais mudanças ocorridas ao nível da
legislação moçambicana

▪ Identificar os contornos do Direito Comercial ao longo


dos tempos;

Para o autor VIVANTE, a formação do Direito comercial4 foi


justificada pela convicção, triunfante no início do sec. XIX de que a vida
comercial exige um ramo autónomo de Direito a desintegrar-se do
Direito Civil. As condições de exercício, nomeadamente a celeridade
por este requerida, eram incompatíveis com a rigidez que caracteriza o
Direito Civil, por isso, o movimento de autonomização se apresentou
como obvio.17

No Egipto antigo, cerca de 3000 a. C., o comércio era


monopólio do Estado, ou seja, do Faraó e seus parentes. Não existia o
comércio difundido entre os do povo. Entre eles se praticava a troca,
como também ocorria entre os fenícios, troianos, cretenses, sírios,

17
C. VIVANTE, Elementi di Diritto Commerciale, Milano, Ulrico Hoepli, 1936, p. 1.
22
cartagineses, babilónicos. Os romanos, embora não possuíssem uma
legislação comercial específica, contribuíram com o Direito
Comercial:18

a) O costume da escrituração doméstica, difundido em todas as


casas, que deu origem aos livros comerciais;

b) As regras sobre contratos e obrigações que deram alicerce às


transacções mercantis; os institutos da falência e da acção
pauliana;

c) O comércio sendo realizado pelos escravos em nome de seus


senhores, o que deu origem à representação comercial. Este
período foi fértil no aparecimento de institutos importantes
para o nosso ramo de estudo, como: os títulos de crédito, os
bancos, a falência se restringindo apenas aos devedores
comerciantes, os contratos mercantis como transporte,
comissão, sociedades. As Cruzadas ajudam a alargar os centros
comerciais, já que seus participantes, além de lutarem,
também faziam o papel de mercadores.

Modernamente, a tendência é que as regras do Direito


Comercial tenham por base o exercício profissional e organizado de
uma actividade económica, excepto a intelectual e as de extracção, o
que ocorre sempre em uma empresa, por isso este período se
denomina período subjectivo da empresa (teoria da empresa).19

Empresa, segundo o Dicionário Aurélio, é a organização


económica destinada à produção ou venda de mercadoria ou serviços,
tendo como objectivo o lucro. Por isso, a teoria da empresa é utilizada
para delimitar as regras do Direito Comercial.

1.2.2. Direito Comparado

18
Idem
19
C. VIVANTE, Elementi di Diritto Commerciale, Milano, Ulrico Hoepli, 1936, p 2.
23
Olhando para o direito comparado, no Brasil, o comércio
existe, praticamente, desde seu descobrimento. Madeira, pedras
preciosas, ouro, escravos, açúcar.20

Com a vinda da família real para o Brasil, em 1808, houve a


abertura dos portos brasileiros às nações amigas, através da Carta
Régia, dando origem às primeiras normas nacionais que disciplinaram
o nosso comércio.21

Foram usadas até 1850 as legislações portuguesas (Ordenações


Filipinas, 1603). Dessa época, datam a criação da Real Junta de
Comércio e do Banco do Brasil.22

Com a promulgação do Código Comercial em 1850, em vigor


até hoje, com muitas alterações, o Brasil passou a ter seu diploma
legal especial para a matéria. Note-se que a importância da actividade
económica tem sido tão grande através dos tempos, que o Brasil teve
um Código Comercial muito antes de ter seu Código Civil (1916). Por
isso, muitas questões civis estavam nele reguladas, como o mandato, a
locação, a fiança, a hipoteca, o modo de extinção das obrigações
através do pagamento, da novação e da compensação.23

A redação do Código Comercial foi iniciada em 1809,


terminando em 1834, ocupando um período de nove anos, portanto. A
demora de dezasseis anos na promulgação do Código foi tão sentida,
que no mesmo ano de 1850 e em 1851, outros regulamentos surgiram
para aperfeiçoá-lo. Com a Proclamação da República, a modernidade
reclamava novas leis Assim, interessam directamente ao Direito
Comercial o comércio interno e exterior, as importações e
exportações, o comércio de coisas corpóreas e incorpóreas, de
serviços, de riscos, a circulação de produtos, por via aérea, rodoviária,

20
Idem, p 2.
21
Idem
22
Idem
23
Idem
24
ferroviária, de cabotagem, marítima, o comércio fixo e o ambulante,
as actividades de produção e transformação de bens, em geral.24

Ficam de fora as actividades do sector extractivo (mineração,


agricultura, pecuária), desde que não exploradas por pessoas jurídicas,
e as actividades intelectuais, exercidas por profissionais liberais.25

Por esse alargamento na matéria regulada pelo Direito


Comercial é que se utiliza hoje a terminologia Direito Empresarial,
conforme a teoria da empresa. O Direito Comercial pode ser
conceituado em nossos tempos como o conjunto de regras que
disciplinam a actividade dos empresários, das sociedades empresariais
e os actos de comércio, mesmo quando praticados por não-
empresários.26

Em jeito de conclusão, entende o autor Manuel Guilherme que


a história do Direito Comercial se subdivide em três épocas,
nomeadamente:27

➢ A antiguidade;

➢ A Idade Média

➢ Os temos modernos

Relativamente ao Direito Comercial em Moçambique:

O primeiro do Moçambique independente é o Código


Comercial de 2005, aprovado pelo Decreto-Lei nº 2/2005, de 27 de
Dezembro que substituiu o Código Português de 1888, pois, esta
reforma e a preocupação em ter um novo código prendeu-se com a
ideia de viabilizar e dinamizar a vida dos operados económico no pais,
com os fundamentos de que o anterior código se encontrava
ultrapassado e não acompanhava o desenvolvimento registado ao
nível comercial e, o desenvolvimento do sector privado, o dinamismo

24
C. VIVANTE, Elementi di Diritto Commerciale, Milano, Ulrico Hoepli, 1936, p 2.
25
Idem
26
Idem
27
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 34 e 35.
25
socio-económico e a necessidade de responder às exigências ditadas
pela integração regional.28

Sumário

Nesta Unidade temática, em resumo ficamos a conhecer que que:

• O Direito Comercial surgiu pela convicção triunfante no


início do sec. XIX de que a vida comercial exige um
ramo autónomo de Direito a desintegrar-se do Direito
Civil. As condições de exercício, nomeadamente a
celeridade por este requerida era incompatíveis com a
rigidez que caracteriza o Direito Civil, por isso, o
movimento de autonomização se apresentou como
obvio.

• Se percebeu que no Egipto antigo, cerca de 3000 a. C., o


comércio era monopólio do Estado, ou seja, do Faraó e
seus parentes. Não existia o comércio difundido entre
os do povo. Entre eles se praticava a troca, como
também ocorria entre os fenícios, troianos, cretenses,
sírios, cartagineses, babilónicos.

• Efectivamente a história do Direito Comercial se


subdivide em três, nomeadamente: A antiguidade; a
Idade Média; e os temos modernos.

• Já em Moçambique o primeiro Código Comercial é o de


2005, aprovado pelo Decreto-Lei nº 2/2005, de 27 de
Dezembro que substituiu o Código Português de 1888.

28
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 34 e 35.
26
• Fundamentalmente foram as seguintes razões que
ditaram a reforma:
- Viabilizar e dinamizar a vida dos operados económicos;
- O anterior código se encontrava ultrapassado e não
acompanhava o desenvolvimento registado ao nível comercial;
- O desenvolvimento do sector privado, o dinamismo
socioeconómico e a necessidade de responder às exigências
ditadas pela integração regional.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O Primeiro Código de Moçambique Independente é o Código


Comercial de 1888.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

2. Um dos fundamentos para a reforma em Moçambique tem a


ver com a dinamização da economia e o desenvolvimento do
sector privado.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. O Direito Comercial surgiu pela convicção triunfante no início


do sec. XX de que a vida comercial exige um ramo autónomo
de Direito a desintegrar-se do Direito Civil.

27
▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

Exercícios

1. Quais são os fundamentos da reforma da legislação comercial


moçambicana?

2. Quando é que surgiu o Direito Comercial?

3. Qual é o primeiro Código Comercial de Moçambique depois da


independência?

4. Faça um resumo sobre a evolução histórica do Direito


Comercial.

5. Identifique os períodos da evolução do Direito Comercial.

UNIDADE Temática 1.3. Fontes do Direito Comercial e


Relação com outros Ramos de Direito

Introdução

Para esta unidade temática, pretende-se que o estudante


conheça as formas de revelação do Direito Comercial, desde a lei até a
doutrina como fontes de direito e que também no Direito Comercial é
aplicável. De igual modo deve ser capaz de interpretar as normas que
regulam a actividade dos comerciantes enquanto estiverem no

28
exercício de uma empresa e por fim conhecer a sua relação com
outros ramos de Direito.

Para tal, concretamente ao completar esta unidade, você será


capaz de:

▪ Identificar as fontes do Direito Comercial;

▪ Conhecer todas as formas de revelação das normas que


regulam a actividade comercial;
Objectivos
▪ Separar as fontes internas das fontes externas e a
relação com outros Ramos de Direito.

▪ Saber interpretar as normas do Direito Comercial.

▪ Identificar as principais mudanças ocorridas ao nível da


legislação moçambicana

▪ Identificar os contornos do Direito Comercial ao longo


dos tempos;

1.3.1. Fontes do Direito Comercial

Interessa saber, primeiramente, que fontes segundo o autor


Manuel Guilherme são “modos de formação e revelação das normas
jurídicas”29.

Para Pupo Correia, fontes de Direito são os modos de criação e


revelação das normas jurídicas, portanto o Direito Comercial tal como
qualquer outro ramo do Direito há-de encontrar os seus modos de
criação, ou seja, as formas de criação das normas jurídicas

29
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 38.
29
comerciais30, ou os modos em que estas normas se revelam na ordem
jurídica moçambicana.

A doutrina aborda as seguintes fontes do Direito Comercial: A


lei, a doutrina, a jurisprudência e as fontes internacionais. Os usos e
costumes serão objecto de discussão mais adiante, o que vai nos
permitir tomar uma posição, se são ou não fontes do Direito
Comercial.31

Para melhor compreensão, as fontes de Direito Comercial


podem ser internas e externas.

a) Fontes internas

As fontes internas são compostas por um conjunto de normas


emanadas pelos órgãos estaduais competentes para o efeito, dentre
os referidos órgãos podemos destacar a Assembleia da Republica e o
Governo, através da aprovação das leis, Decretos e Decretos-Leis.

A Constituição

Primeiro a constituição. A Constituição é a lei suprema de um


sistema jurídico. A Constituição da Republica contém um conjunto de
normas que prevalecem sobre todas as demais em vigor no
ordenamento jurídico.

Deste modo, torna-se infalível que esta seja fonte de Direito


Comercial. No entanto, existem na constituição normas com alcance
directo sobre o exercício da actividade comercial, a que alguma

30
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 148.
31
Idem
30
doutrina chamaria de constituição comercial para distinguir a
constituição fiscal, constituição económica, etc.

Contudo, podemos concluir que na constituição da república


existem disposições de alcance directo na vida comercial. A esse
propósito podem-se citar os artigos 96º, 97º, 99º, 106 e
particularmente o artigo 107º todos da CRM.32

O Código Comercial

A segunda fonte é o código Comercial aprovado pelo Decreto –


Lei n° 2/2005, de 27 de Dezembro, constitui o principal instrumento de
regulação da actividade comercial em Moçambique e nos termos do
seu artigo 1º a lei comercial regula a actividade dos -empresários
comerciais, bem como os actos considerados comerciais.33

Depois dessas fontes, temos como terceira fonte interna as


diversas leis ordinárias que efectivamente não podemos elencar por
serem várias, mas que fica a ideia de que são fontes do Direito
Comercial no ordenamento jurídico.

A Lei

Como é natural no nosso sistema jurídico, a lei é a principal


fonte do Direito, e consequentemente do Direito Comercial. A Lei deve
ser entendida no seu mais sentido amplo, isto é, abrangendo a lei
constitucional, a lei ordinária e também as normas regulamentares.34

Evidentemente estamos a referirmo-nos a lei comercial, isto é,


aquelas normas legais que tiveram sido ditadas pela solução ou tutela
dos interesses específicos das actividades mercantis ou comerciais.

32
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 38.
33
Idem, p 39.
34
GONÇALVES NETO, Alfredo, Lições de Direito Comercial, Vol. 1, São Paulo: Juarez
de Oliveira, 2004
31
O seu núcleo fundamental é ainda hoje constituído pelo Código
Comercial actualizado pelo Decreto-lei n° 2/2009 de 24 de Abril. Toda
via, a este código acresce uma abundantíssima legislação extravagante
de grande importância.

Para Manuel Guilherme35, entre varias leis comerciais


extravagantes, em que podemos exemplificar a lei 9/79 de 10 de Julho
que define a constituição tipo e forma de organização cooperativa em
Moçambique, Lei 10/2006 de 23 de Dezembro, que visa adequar o
código Comercial ao imperativo da modernidade, segurança e eficácia
da justiça, lei 7/79 de 03 de Julho, que cria a base legal para
licenciamento e funcionamento do sector privado em Moçambique,
Lei 8/79 de 03 de Julho que estabelece o regime jurídico do
arrendamento de imoveis, do parque imobiliário do Estado para
habilitação, industria, comercio e serviços, com as alterações
introduzidas pela lei 17/91 de 03 de Agosto, Decreto- lei n° 2/2009 de
24 de Abril que introduz alterações em alguns artigos do Código
Comercial, Decreto 1/2006 de 03 de Maio, que vem adoptar um
instrumento moderno e consentâneo com o processo de simplificação
de procedimentos de revisão da respectiva orgânica, Decreto n°
4/2006 de 12 de Abril, que tem em vista aprovar o código de
propriedade industrial aprovado pelo Decreto n° 18/99 de 04 de Maio.

b) Fontes externas

Segundo os autores que tem sido referência neste ramo, não


são apenas de considerar as fontes de direito interno, pois o direito
comercial, é particularmente sensível as normas do Direito
Internacional atinente as relações económicas. 36

Relactivamente as fontes externas, compreende um conjunto


de instrumentos internacionais assinados e ratificados por

35
Ob. Cit. P 39.
36
GONÇALVES, Neto Alfredo, Lições de Direito Comercial, Vol. 1, São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2004.
32
Moçambique, nos referimos aos protocolos e tratados internacionais
em matéria comercial.37

São pois de ter em conta importantíssimas convenções


internacionais, que são recebidas no nosso ordenamento jurídico
desde que sejam satisfeitos os requisitos postos pelo artigo 18º da
constituição. São exemplos significativos no que toca ao Direito
Comercial convenções que aprovam as Leis uniformes sobre Letras, e
Livranças e sobre Cheques, Convenção sobre a propriedade Industrial
outras convenções pertinentes a esta matéria, poemos destacar ainda
a carta constitutiva da Organização Mundial do Comercio (OMC),
organização na qual Moçambique é Membro.38

Igualmente são de ter em conta normas emanadas das


instituições internacionais e a jurisprudência dos tribunais
internacionais, que forem vinculativas nos termos dos respectivos
estatutos. E ainda o costume internacional, a doutrina em matéria
internacional e os princípios gerais de Direito reconhecidos pelas
nações civilizadas.39

c) Os usos e costumes

O artigo 480º n° 1 do C. Comercial refere-se aos usos e


costumes como fontes do Direito Comercial, e o elemento histórico de
interpretação permite-nos convencer-nos de que inspirou-se da
(fonte) do artigo 1º do código Comercial de 1882, o qual considerava
os usos e costumes como fontes do Direito Comercial.

E certo que por vezes o próprio código comercial remete para


os usos comercias como sucede no artigo 480º n° 2 do C. Comercial. A

37
Idem
38
Idem
39
Idem
33
este propósito, convém distinguir como faz Diogo Leite Campos os
usos dos costumes. Uns e outros são praticas constantes e reiteradas
dos sujeitos de direito, mas ao passo que os usos emanam na pratica
negocial, na qual se difundem e mantem por acção repetitiva das
partes, já os costumes provindo da mesma origem, são a partir de
dado momento, socialmente revestidos de opinio Júris da convicção
generalizada de que o seu acatamento é juridicamente vinculativo e
entram na ordem jurídica, normalmente através de acção dos
tribunais, como regras gerais e abstractas.

O código Civil admite em certas disposições os usos como


fontes, mas quando a lei civil para o efeito remeta, tal como vem
previsto no artigo 560º n° 3 do código Civil (CC) aplicável por forca do
artigo 7 do código Comercial, a lei civil é aplicável subsidiariamente
nas relações comerciais desde que as normas a aplicar não sejam
contrárias ao Direito Comercial.

Nota-se que deve-se dar uma atenção muito especial a


expressão “Princípios do Direito Comercial” e não normas do Direito
Comercial, pois salvo opinião em contrário, o legislador quis dar
relevância aos princípios norteadores da vida empresarial e não
somente as normas do Direito Comercial. Posicionando-se, as normas
do Direito Comercial só serão aplicáveis, estarão em vigor se as
mesmas se conformarem com os princípios deste ramo.

1.3.2. Interpretação e integração de lacunas no Direito Comercial

Para o autor Pupo Correia, o Direito Civil é um direito privado


geral ou comum, que regula genericamente as relações entre as
pessoas situadas numa posição jurídica equivalente. O Direito
comercial regula uma certa espécie dentro desse género de relações:
as que derivam do exercício do comércio e de outras actividades afins.
Logo, trata-se de um Direito Privado especial, pois afastando-se das
regras gerais do Direito Civil, vigora só

34
para uma classe específica de relações jurídicas, que o legislador
destacou em partes para as submeter a um regime diferenciado.40

Em resumo, este autor entende que:

❖ A caracterização jurídica não reduz o direito comercial a um


aglomerado de normas excepcionais. Como sabemos, a norma
excepcional é aquela que para determinado caso, (ou tipo de
casos) estabelece uma disciplina não apenas diferente da que
resulta do princípio ou norma geral, mas que está em conflito
com a regra geral.

❖ Ora, se é certo que no Direito comercial nos surgem normas


que realmente constituem excepções as regras e princípios
gerais do direito civil, todavia o direito comercial, como
conjunto organizado de normas e princípios que é, não
apresenta um caracter excepcional em face do Direito Civil. O
que ocorre é que o Direito Comercial estabelece sob certos
aspectos e para certos e para certos institutos um regime
próprio para certas classes de pessoas e de relações jurídicas.

❖ Esse regime pode estar ou não em contradição com os


princípios e regras do Direito Civil, com o qual apresenta
pontos de contacto e outros de divergência, não se desviando,
todavia, de forma essencial dos caracteres e princípios do
Direito privado.

❖ Estamos pois perante um ramo de direito especial, o que não


tem pequena importância para a dilucidação do problema da
interpretação e integração de lacunas na lei (código) comercial.
O preceito fulcral para a analise desta questão é o artigo 7º do
código Comercial, em cujos termos: os casos que o presente
código não preveja são regulado segundo as normas desta lei
aplicáveis aos casos análogos, e, na sua falta, pelas normas do

40
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 158
35
Direito Civil que não forem contrárias aos princípios do Direito
Comercial.

❖ Diga-se desde já que a questão da interpretação das normas do


Direito comercial não coloca nenhum problema específico,
pelo que haverá, quanto a ela, quer em conta o artigo 9º do
código Civil (CC).

❖ Já a questão de integração de lacunas na lei comercial


necessita de algum esclarecimento, na verdade, por um lado,
as normas do Direito comercial formam um corpo autónomo,
como vimos, o que torna possível a sua aplicação análoga
dentro do próprio corpo comercial (mercantil), que não
sucederia se não fossem normas especiais (artigo 11º do CC).

❖ O próprio artigo 7º do C. Com prescreve a extensão análoga


das normas jurídico-comerciais a casos nelas não previstas.
Alias, nada exclui que delas faça o uso, para analogia, suprir
lacunas do próprio direito civil, se for o caso.

1.3.3. Relação entre Direito Comercial com ouros Ramos de Direito

▪ Com o Direito Civil

Seguindo a doutrina que tem sido referência no Direito


Comercial, esta disciplina se relaciona com o Direito Civil, justamente
porque, mantém íntimas relações no campo obrigacional.

▪ Com o Direito Tributário

Relaciona-se com o Direito Tributário porque a actividade

36
comercial é a base da incidência fiscal em nosso país.

▪ Com o Direito de Trabalho

O Direito do Trabalho volta-se para a relação de emprego, que


ocorre, em larga escala, na actividade comercial.

▪ Com o Direito Penal

Trata de diversas práticas que configuram crimes, como os da


concorrência desleal, contra as marcas e patentes, os contra a
economia popular, sem falar nos mais corriqueiros, perpetrados
através de títulos de crédito, como a falsificação, a fraude ou o
estelionato e nos ilícitos penais falimentares.

Necessária, também, a concorrência do Direito Processual


Penal, para a apuração das condutas típicas.

▪ Com o Direito Administrativo

Por sua vez, regula a actuação do Estado no mercado, muitas


vezes competindo com a iniciativa privada, e, respaldado no interesse
social, exerce a fiscalização das actividades do particular,
prescrevendo normas e órgãos próprios, especialmente destacados
para tal fim, como nos casos de intervenção e liquidação extrajudicial
de empresas.

▪ Com o Direito Económico

Regulando a política económico-financeira, atinge a vida


empresarial, a exemplo da regulação do poder económico, com se vê
na Constituição Federal.

▪ Com o Direito Processual Civil

Não se pode esquecer o importante vínculo com o Direito

37
Processual Civil, que dá vida judicial aos conflitos oriundos dos
empreendimentos rentáveis.

Sumário

Nesta unidade, apreendemos que:

As fontes de Direito são os modos de criação e revelação das


normas jurídicas, portanto o Direito Comercial tal como qualquer
outro ramo do Direito há-de encontrar os seus modos de criação, ou
seja, as formas de criação das normas jurídicas comerciais. A doutrina
aborda as seguintes fontes do Direito Comercial: A lei, a doutrina, a
jurisprudência e as fontes internacionais. Como tal as fontes de Direito
Comercial podem ser internas e externas.
De igual modo, aprendemos que a caracterização jurídica não
reduz o direito comercial a um aglomerado de normas excepcionais.
Como sabemos, a norma excepcional é aquela que para determinado
caso, (ou tipo de casos) estabelece uma disciplina não apenas
diferente da que resulta do princípio ou norma geral, mas que está em
conflito com a regra geral. Por isso, estamos pois perante um ramo de
direito especial, o que não tem pequena importância para a
dilucidação do problema da interpretação e integração de lacunas na
lei (código) comercial. O preceito fulcral para a analise desta questão é
o artigo 7º do código Comercial, em cujos termos: os casos que o
presente código não preveja são regulado segundo as normas desta lei
aplicáveis aos casos análogos, e, na sua falta, pelas normas do Direito
Civil que não forem contrárias aos princípios do Direito Comercial.
É mister entender desde já que a questão da interpretação das
normas do Direito comercial não coloca nenhum problema específico,
pelo que haverá, quanto a ela, quer em conta o artigo 9º do código
Civil (CC).
Quanto as lacunas, o próprio artigo 7º do C. Com prescreve a

38
extensão análoga das normas jurídico-comerciais a casos neles não
previstos. Alias, nada exclui que delas faça o uso, para analogia, suprir
lacunas do próprio direito civil, se for o caso.
Por fim aprendemos que o Direito Comercial se relaciona com
vários ramos de Direito, nomeadamente: O Direito Civil, Direito Penal,
Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Económico, Direito
do Trabalho, Direito Processual Civil e Penal.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O Direito Comercial não é passível de integração de lacunas.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

2. A Constituição da República não é a primeira e principal fonte


do Direito Comercial.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

3. O Direito Comercial se relaciona com vários ramos de Direito.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

4. São fontes do Direito comercial apenas as fontes internas.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

39
Exercícios

1. O que são fontes?

2. Indique duas fontes internas do Direito Comercial?

3. De que forma o Direito Comercial se relaciona com o


Direito Penal?

4. Se pode relacionar o Direito do Ambiente ao Direito


Comercial?

5. Como é que subdivide-se as fontes do Direito Comercial?

6. Qual é a base legal para interpretação das normas do


Direito Comercial?

UNIDADE Temática 1.4. Exercícios do Tema

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante saiba resolver os


exercícios do tema anterior, conforme o aprendizado nas matérias ai
referidas.

Exercícios

1. O que são fontes?

40
2. O Direito Comercial surgiu pela convicção triunfante no
início do sec. XIX de que a vida comercial exige um ramo
autónomo de Direito a desintegrar-se do Direito Civil.
Explique-se!

3. Indique duas fontes internas do Direito Comercial?

4. De que forma o Direito Comercial se relaciona com o


Direito Penal? O que entende por Direito Comercial?

5. Quais são as características do Direito Comercial?

6. Quais são as concepções doutrinárias que podemos


enquadrar o Direito Comercial?

7. É certo afirmarmos que o Direito Comercial é um Direito


privado especial?

8. Em que se resume a especialidade do Direito Comercial?

9. De que ano é datado o primeiro Código Comercial de


Moçambique Independente?

10. Quais são os fundamentos da reforma da legislação


comercial moçambicana?

11. Em que século surgiu o Direito Comercial?

12. Faça um resumo sobre a evolução histórica do Direito


Comercial.

13. Identifique os principais períodos da evolução do Direito


Comercial.

14. Como é que subdivide-se as fontes do Direito Comercial?

15. Qual é a base legal para interpretação das normas do


Direito Comercial?

41
TEMA – II: O EMPRESÁRIO COMERCIAL E OS ACTOS DE COMÉRCIO

UNIDADE Temática 2.1. Actos de Comércio e sua Classificação


UNIDADE Temática 2.2. A Empresa no âmbito do Direito Comercial

UNIDADE Temática 2.3. Empresário Comercial

UNIDADE Temática 2.4. Obrigações do Empresário Comercial

UNIDADE Temática 2.5. Exercícios do Tema

42
UNIDADE Temática 2.1. Actos de Comércio e sua
Classificação

Introdução

Nesta unidade temática, iremos abordar matérias relacionadas com


actos do comércio, a sua noção e sua base legal, sua classificação,
modelos dos actos de comércio, actos de comércio por conexão,
teoria acessória, casuais, abstrato, puro e misto.
Nesta vertente, especificamente vamos aboradar:

▪ Conhecer os actos de comércio;

▪ Identificar os modelos dos actos de comércio;


Objectivos
▪ Saber classificar os actos de comércio.

2.1.1. Noção geral de actos de comércio

Segundo a doutrina, a determinação dos actos do comércio


acha-se prevista nos artigos 4° e 5° do C.Com. Extrai-se destes artigos,
a ideia de que determinados actos jurídicos, os acontecimentos
jurídicos relevantes são classificados como comerciais. E no art.º
C.Com, a expressão acto de comércio, é usada no sentido amplo. Isto
é, abarcando vários acontecimentos que consubstanciam actividades
comerciais e por isso assinaladamente efeitos jurídicos comerciais.
Nomeadamente os factos jurídicos voluntários lícitos ou ilícitos ou
ainda simples negócio jurídico. No entanto nem todas as disposições
do C.Com refletem-se na ideia

43
essencial dos actos do comércio strictu sensu, embora que esse
assuma que o nosso direito comercial é um Direito dos actos do
comércio e da empresa.41

Ex: factos lícitos, art.º 180°, 293° n°2 C.Com

Ex: actos jurídicos ilícitos, art.º 24° C.Com

Ex: negócios jurídicos, art.º 477° C.Com

Nos termos da al. b) n°1 do art.º 4° c.com são actos do


comércio os actos praticados no exercício de uma empresa comercial
de onde resulta que não são apenas actos de comércio os contratos,
mas também todos os actos praticados no exercício da empresa
comercial das quais emanam obrigações comerciais. Isto é a
disposição tanto abarca os actos praticados de forma isolada ou
ocasional, quer por empresário comercial, quer por não-empresário
comercial tendentes a obtenção de lucro. No entanto excluem-se do
art. 4° C.Com, os factos jurídicos naturais ou involuntários porque,
aqueles que ocorrem da verificação da vontade humana.

Exemplo, falecimento de um sócio de uma determinada


Sociedade.

Este facto ocorre com repercussões na vida da sociedade, mas em si


não consubstancia qualquer facto que como tal se deva integrar como
sendo comércio.

2.1.2. Classificação dos actos de comércio

a) Actos de comércio subjectivo

São aqueles classificados como tal em função do sujeito que os


pratica, isto é, a qualificação do acto como sendo do comércio terá
como base ou, a pessoa que a luz do art.º 3° c.com, pratica uma

41
CARDOSO, J. Pires, Compêndio de Noções de Direito comercial, pg. 309
44
daquelas actividades prevista. Deste modo, os actos praticados pelo
empresário comercial no exercício da empresa comercial se
presumem de comércio, salvo se das circunstâncias que rodearam o
acto. Se por exemplo, usou o capital social, se praticou uma compra
com intenção de revenda, etc.42

b) Actos de comércio objectivo

É todo aquele acto independentemente do sujeito ou da qualidade do


sujeito, encontra-se previsto no código comercial ou código civil ou
ainda em qualquer legislação extravagante que qualifica o tal acto
como sendo de comércio. Confira o n° 1 do art.º 4° do C.Com.43

Há actos exclusivamente civis, aqueles que não têm qualquer


potencialidade de consubstanciar actos de comércio por isso, nunca
seriam na lei Comercial. Quando o legislador na parte final do n° 2° do
art.º 4° do C.Com exprime a ideia de que só não será comercial
quando praticado pelo empresário comercial quando praticado pelo
empresário comercial se das circunstâncias que rodearam a sua
prática resultar o contrário, quis afastar na nossa opinião essa
presunção que poderia recair também sobre os actos exclusivamente
civis. Ao acto exclusivamente civil não há como representar a sua
comercialidade mesmo quando praticado pelo empresário comercial.
É por exemplo, o casamento ou a perfilhação pelo empresário
comercial.

c) Acto unilateral

Quando uma das partes intervenientes é empresário


comercial e a outra não é. Nos termos do art.º 5° do C.Com, esse acto
é regulado pela lei comercial relativamente aos dois sujeitos salvo no

42
CARDOSO, J. Pires, Compêndio de Noções de Direito comercial, p 4.
43
Idem
45
que só deva aplicar ao empresário comercial de acordo com a sua
qualidade.44

d) Acto Bilateral

Quando os dois são empresários comerciais e realizam um


acto de comércio, ou seja, o acto é comercial para as duas partes.
Uma compra realizada por um empresário num armazém de outro
empresário comercial com a finalidade de revenda.

Assim, o acto de comércio não é em função da pessoa que os


praticou, mas sim em função da sua qualificação como tal pela lei.

Para José Ibraímo Abudo, na sua obra sobre Lições de Direito


Comercial distingue os mecanismos usados na definição dos actos de
comércio. Para o efeito, e segundo o autor, há três mecanismos que o
legislador pode adoptar na determinação nos actos de comércio
objectivo.45

Para Manuel Guilherme, no acto de comércio bilateral há três


mecanismos que o legislador pode adoptar na determinação nos
actos de comércio objectivo:46

i. Modelo da definição - A partir do qual o legislador oferece de


forma sintética o que se deve entender por acto de comércio.
Este modelo apresenta na medida em que toda definição pode
colocar problema de entendimento e incerteza do direito;

ii. Modelo-sistema de enumeração expressa - Onde o legislador


opta por uma identificação expressa num rolo alargado nos
actos que a própria lei determina.

44
CARDOSO, J. Pires, Compêndio de Noções de Direito comercial, p 4.
45
ABUDO, José Ibraimo, Lições de Direito Comercial.
46
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 49.
46
O inconveniente deste modelo é que limita o campo dos actos
e a luz de um direito dinâmico, tal como é no direito comercial,
podem escapar várias situações a classificação de actos de
comércio.47

iii. Modelo de enumeração implícita - Este modelo apenas


delimita actos de comércio através da remissão para diversos
actos que o código considera comerciais, acima enumerados,
optando pela indicação exemplificativa, é esta a posição
optada pelo nosso legislador, al. a) n° 1° do art.º 4° c.com, ao
estabelecer que são actos de comércio, os actos regulados na
lei em atenção as necessidades de empresa comercial
designadamente os previstos neste código e os actos
análogos.48

e) Actos de comércio absoluto

Na mesma senda, entende o autor Manuel Guilherme49 que


são os actos que tem de ser por si, a natureza comercial, isto é, os
actos que devem a sua comercialidade à natureza intrínseca, ou, ainda
da sua natureza funda-se o próprio comércio, na vida empresarial.

f) Actos de comércio por conexão

Os actos de comércio por conexão são os actos cuja


comercialidade e a lei outorga tendo em consideração a sua especial
relação com certo acto de comércio, ou com o comércio, ou seja, são

47
Idem.
48
Idem, p 50.
49
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 49.
47
actos comerciais em razão da sua peculiar ligação a um acto de
comércio absoluto ou uma actividade classificada como comercial.

Portanto, tudo depende da sua relação de conexão ou


acessoriedade, quer com um acto de comércio fundamental, quer com
a exploração de uma empresa mercantil.50

Para a maioria dos comercialistas, os actos de comércio


acessórios comportam a totalidade dos actos de comércio subjectivos,
na tal teoria chamada, teoria da conexão subjectiva, mas também
abrangem uma diversidade de actos objectivos, como por exemplo,
mandato, empréstimo, que a lei chama de conexão objectiva.51

g) Actos de comércios casuais

Os actos relativamente aos quais a lei os contempla e os regula


de forma a preencher ou realizar uma determinada causa-função
jurídico económico;

Ex: compra e venda tem por causa a alimentação de um bem


mediante a aquisição de um preço.52

h) Actos de comércio abstratos

Os que se manifestam com vista a preencher uma diversidade


de causas-funções, podendo as relações jurídicas que deles emanam
ter uma vida autónoma das relações que lhe deram origem. Na
verdade o acto de comércio abstrato tem também uma causa. No
entanto, esta causa não é típica, podendo integrar-se numa das
diferentes relações jurídicas integradas ao acto.53

50
CORDEIRO, António Menezes. Manual de Direito Comercial. Coimbra, Almedina.
2005
51
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 51.
52
I JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 52.
53
Idem.
48
Ex: negócios jurídicos cambiários, que são negócios praticados
no âmbito dos títulos de crédito, que tanto podem ser de origem de
um contrato de compra e venda, de empréstimo.54

i) Actos de comércio puro

Os actos comerciais relativamente a todos os sujeitos, são


também designados de actos bilateralmente comerciais (os dois
intervenientes são empresários comerciais).

j) Actos de Comércio misto

Também designados unilateralmente comerciais são-no


relativamente a uma das partes e nos termos do art.º 5° C.Com, são
regulados a luz do código comercial, em relação a todos contratantes
com excepção daqueles que são aplicáveis aos comerciantes pela
natureza de ser empresário comercial.

k) Actos de comércio formalmente comerciais

Os que são regulados na lei comercial como um esquema


formal que permanece aberto para dar cobertura a qualquer conteúdo
e abstraem no seu regime de objecto ou fim para que são usados.

l) Actos Substancialmente comerciais

Os que tem a comercialidade em razão da própria natureza,


isto é, por representar em si mesmos actos próprios da actvidade
materialmente mercantil.

54
Idem.
49
Sumário

Nesta unidade temática abordamos matérias relacionadas com actos


de comércio. De acordo com a al. b) n°1 do art.º 4° do código
comercial, são actos do comércio os actos praticados no exercício de
uma empresa comercial de onde resulta que não são apenas actos de
comércio os contratos, mas também todos os actos praticados no
exercício da empresa comercial das quais emanam obrigações
comerciais. Isto é a disposição tanto abarca os actos praticados de
forma isolada ou ocasional, quer por empresário comercial, quer por
não-empresário comercial tendentes a obtenção de lucro.
De igual modo abordamos a classificação dos actos de comércio onde
o destaque foi para os actos de comércio subjectivos e objectivo.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. A definição de acto de comércio encontra-se plasmada no artigo 4


do Ccom.

▪ Certo

▪ Errado

Resposta: Certo.

2. Os actos comerciais puros dizem respeito relativamente a todos os


sujeitos, são também designados de actos bilateralmente comerciais.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

50
3. São actos de comércio os actos praticados no exerc’icio de uma
empresa comercial de onde resulta que não são apenas actos de
comércio os contratos, mas também todos os actos praticados no
exercício da empresa comercial das quais emanam obrigações
comerciais.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. O que são actos de comércio?


2. Podemos considerar acto do comércio o acto de doação de
uma caderno escolar feito por Sr. Pedro a José?
3. O que são actos de comércio causais?
4. Diferencie os actos de comércio absolutos dos actos de
comércio substancialmente comerciais.
5. Qual é a base legal que podemos retirar o conceito de acto
de comércio?

UNIDADE Temática 2.2. A Empresa no âmbito do Direito


Comercial

Introdução

Nesta temática iremos tratar matérias sobre a empresa, é o


conjunto de actos ligados a actividade economia exercida pelo
empresário comercial de forma profissional e organizada, com vista a
realização de fins de produção ou troca de bens e serviços.

51
A empresa se apresenta também como um conjunto de
actividades regido pela pessoa do empresário, fazendo apelo a
factores e elementos de natureza heterogénea, actuando sobre um
património de coisas e direitos, dando origem a relações jurídicas,
económicas e sociais, polarizados numa organização apta a
desenvolver uma actividade económica
Ao completar esta unidade, o estudante deve ser capaz de:

▪ Conhecer a empresa no âmbito de direito Comercial;

Objectivos ▪ Conhecer a empresa como sujeito jurídico;

▪ Conhecer a empresa como uma actividade, como


objecto, como conjunto de elementos;

▪ Saber separar os vários conceitos em concreto matérias


relacionadas com comerciante em nome individual;

2.2.1. Noção geral

Tendo atenção a obra de Manuel Guilherme, o Direito


Comercial tem vindo a reconstruir-se ou redefinir-se em torno do
conceito de empresa. Através deste regresso ao subjectivismo, tem
sido possível a doutrina sustentar a autonomia e a homogeneidade do
núcleo fundamental das matérias do nosso ramo do direito, centrado
já não tanto na pessoa do comerciante, mas sim na organização por
ele empreendida para o desenvolvimento do seu tráfico mercantil.

Trata-se porem de uma evolução que esta longe de poder


considerar-se concluída, e desde logo porque o próprio conceito de
empresa não se acha perfeitamente adquirido para o direito.

Desde logo, como vimos, o código comercial de 1888 no seu


artigo 230º acolheu o conceito de empresa, como antes fizera já o

52
código Francês de 1807. Só que nessa época, o conceito de empresa
era bem diferente do moderno, a linguagem corrente. Consideravam-
se empresas as actividades produtivas, como a industria e os serviços,
baseadas numa especulação sobre o trabalho (por contra oposição ao
comercio que era considerado uma activiadde de especulação sobre o
risco): empresário era aquele que prestava determinados bens e
serviços usando como principal factor produtivo o trabalho de outem.

Era pois uma noção restritiva, que não abrangia as


organizações produtivas dedicadas ao comercio strictu sensu, embora
o seu emprego nos códigos comerciais objectivistas tivesse o intuito
de submeter os respectivos titulares do estatuto jurídico de
comerciantes, a par dos comercias tradicionais intermediários nas
trocas.

Dai que o artigo 3º do C. Com não mencione nas empresas que


enumera, as dos comerciantes que se dediquem actividade tradicional,
e por excelência comercial de intermediação nas trocas.

Com o advento da revolução industrial, a actividade do


empresário industrial e prestador de serviços vai sendo assimilada a
do comerciante grossista e retalhista. Dai que, no entendimento e
linguagem comum, e por conseguinte, para a linguagem jurídica, todos
estes comerciantes – lato sensu, passe, pouco a pouco, a ser
equiparados como empresários e suas organizações produtivas
uniformemente designadas como empresas.

2.2.2. Empresa como Sujeito ou Agente Jurídico

Numerosos textos referem-se a empresa sob perfil da pessoa


que exerce uma actividade económica de produção e distribuição de
bens e serviços, reduzindo-a portanto a própria pessoa daquele que
produz e organiza e conduz a actividade, suportando-a pelo próprio
risco. Alias, a única nota distintiva da

53
empresa nesta acepção, em relação ao empresário, poderá dectetar-
se na ideia de que o suporte real do risco não é o empresário, mas sim
o património que ele integra na unidade empresarial.55

Note-se que o sentido comporta uma acepção restrita, em que


a empresa se reconduz a pessoa ou pessoa que organizam e dirigem a
actividade, e uma acepção mais ampla, para qual a empresa abrange
um conjunto de pessoas, um elemento humano, comportando não só
empresários, mas também seus colaboradores, designadamente
trabalhadores, que prestam a sua colaboração em ordem ao
desenvolvimento da actividade comercial. Alguns autores como JOSÉ
TAVARES entendiam num sentido subjectivo a palavra “empresa”
utilizada no corpo do artigo 3º do C.Com56.

2.2.3. Empresa como actividade

O termo empresa é por vezes contudo usado para significar a


actividade economia exercida pelo empresário comercial de forma
profissional e organizada, com vista a realização de fins de produção
ou troca de bens e serviços.

E o sentido que ressalta do artigo 2082 do Código Civil Italiano


de 1942: “E empresário comercial o que exerce profissionalmente a
actividade económica organizada com o intuito de produzir bens e
serviços”.

Aliás também neste sentido, pode dizer como FERNANDO


OLAVO que é, empresas comerciais as actividades referidas no artigo
3º do Código Comercial. Mas salvo opinião em contrário, o artigo 3º
do C.Com não se circunscreve estritamente as actividades abrangidas
materialmente pelo Direito Comercial. A criatividade e o

55
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 65.
56
Idem.
54
expansionismo caracterizadores das economias capitalistas, principais
catalisadores da evolução económica das sociedades modernas, em
levado a ampliar a esfera primitiva do Direito Comercial, abarcando
uma serie de actividades (industriais, serviços, etc.) mais relacionadas
com o comércio ou, em todo caso, subsumidas ao critério geral de
especulação.57

Dai que a par do artigo 3º, existam outros preceitos no código


comercial e em legislação avulsa, que incluindo outras actividades no
objecto do direito comercial, constituem outras tantas normas
delimitadoras da “matéria mercantil”.

2.2.4. Empresa como objecto

Trata-se neste sentido, da organização do conjunto de factores


de produção e outros elementos congregados pelo empresário
comercial, com vista ao exercício da sua actividade. Equivalente a
principal acepção da palavra estabelecimento, porventura a mais
expressiva realidade jurídica deste. É neste sentido que dissemos
empresa e estabelecimentos são sinónimos.

2.2.5. Empresa como conjunto de elementos

Este é o sentido dinâmico do termo “empresa”, que vê nela a


expressão de um circulo de actividades regido pela pessoa do
empresário, fazendo apelo a factores e elementos de natureza
heterogénea, actuando sobre um património de coisas e direitos,

57
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 67.

55
dando origem a relações jurídicas, económicas e sociais, polarizados
numa organização apta a desenvolver uma actividade económica58.
E o sentido mais amplo e compreensivo da expressão
“empresa” que a reconduz a uma instituição de caracter basicamente
económico, mas também social, um organismo vivo, polarizador da
criação de riqueza, mas também de emprego e ate de cultura.
Note-se que no âmbito do direito mercantil, esta concepção
aparece mais restrita nos traços mais singelamente circunscritas as
relações jurídicas que concentra. Só uma colagem dos elementos
conceituais trazidos também dos outros ramos do Direito, que lhe dão
guardia, e que fazem surgir a plena significação institucional da
empresa.
A acepção institucional da empresa, numa visão jurídico-
mercantil parece ser a que forma o artigo 557 do C.Com e seguintes.
Tem sido entendido que o artigo 3º do C.Com consagra a noção
subjectiva de empresa a par de uma concepção de actividade, ou seja,
de um conjunto de actos entre si coordenados, para realização de
certo escopo, correspondente a um certo ramo da vida económica.
Neste sentido, são comerciais as empresas ou actividades enumeradas
nas alíneas do artigo 3º, com as ressalvas consignadas no seu nº 2, e
ainda indicadas em outras disposições de leis comerciais
extravagantes, bem como as que resultem de interpretação extensiva
ou aplicação análoga das várias alíneas do corpo do artigo 3º como
oportunamente referimos.

2.2.6. O Empresário

Para Manuel Guilherme, apesar do artigo 1º do C.Com conferir


ao nosso sistema um acento tónico objectivista, levando a que caiam

58
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 67.

56
sob a alçada do direito comercial os actos e relações que tenham por
sujeitos comerciantes ou não comerciantes, a verdade é que não deixa
de ser muito relevante o estatuto jurídico que o próprio código
comercial, contemplado por legislação extravagante estabelece para
os comerciantes.
É relevante que uma importante categoria de actos do
comércio deve esta qualidade e o inerente regime, a circunstância de
serem praticados por comerciantes no exercício do comércio: são
actos subjectivos referidos no número 2 do artigo 5º do C.Com.
Ademais, os comerciantes estão sujeitos a varias obrigações
especiais que se acham definidas no artigo 16º do C.Com, e diversas
outras consagradas em regime especial por actos e obrigações dos
comerciantes, tornando indispensável a determinação da qualidade de
comerciante dos seus sujeitos: Valor especial da escrituração
mercantil como meio de prova, prescrição presuntiva dos créditos dos
comerciantes, etc.
A qualidade de comerciante reveste-se, por conseguinte de
elevada relevância jurídica. Daqui resulta a necessidade de caracterizar
com nitidez o que é um comerciante e quais são as pessoas as quais se
aplica esta qualificação legal.

2.2.7. Comerciantes em nome individual e sociedades

O legislador não cuidou de nos dar uma definição


propriamente de comerciante, mas sim de indicar quais são as
categorias legais de comerciantes, a saber indicadas no artigo 2º do
Código Comercial:

▪ As pessoas singulares ou colectivas que em seu nome, por si ou


por intermédio de terceiros exerçam uma empresa comercial.
▪ As sociedades comerciais.

57
Temos assim segundo o entendimento tradicional deste artigo,
de um lado, os comerciantes que são pessoas singulares, geralmente
designados por comerciantes em nome individual, e os comerciantes
que são as pessoas colectivas – as sociedades comerciais.
Porem, no domínio do Direito comercial deve prevalecer em
geral a noção de comerciante que resulta do artigo 2º do C.Com:
Comerciante é quem enquadrando-se numa das categorias do artigo
3º do mesmo código, seja titular de uma empresa que exerça uma das
actividades comerciais tais como qualifica o mesmo artigo (3) e demais
disposições avulsas, que caracterizam e englobam no Direito
Comercial certas actividades económicas.59
Convém desde já realçar que a qualidade de comerciante ou
empresário comercial prevista no artigo 2º do Código Comercial é
sempre originária, não podendo transmitir-se nem inter vivos, nem
mortis causa.

2.2.8. Empresário comercial como sujeito do direito comercial

A terminologia empresário comercial usada no artigo 2º do C.


Com e demais reflecte a evolução do direito comercial para a evolução
moderna do direito comercial. Da evolução dos actos do comércio na
conceitualização do direito comercial, passou-se a noção da empresa.
Na verdade, o que era designado comerciante no código comercial de
1888, é aquilo que corresponde hoje ao empresário comercial. A razão
da adopção desta terminologia resulta não da necessidade de adequar
a terminologia com a realidade, mas também da necessidade de
conformar aquilo que hoje este sujeito comercial faz em relação a sua
própria actividade. O artigo 13º do C.Com de 1888 dizia “são
comerciantes”, mas hoje estabelece o artigo 2º no seu corpo que “são
empresários comerciais”.60

59
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 68.
60
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 68
58
As pessoas singulares ou colectivas, que em seu nome, por si
ou por intermédio de terceiros exerçam uma em presa comercial. Esta
alínea ao introduzir as palavras “singulares ou colectivas” veio resolver
o problema que era colocado pela maioria da doutrina, na vigência do
código anterior que era o de saber se a referencia apenas as pessoas
pretendia incluir tanto as pessoas físicas como as jurídicas. Evidente
que o legislador quis abarcar tanto as pessoas singulares como
colectivas. Na verdade, quer umas, quer outras, podem ser a luz das
normas vigentes empresários comercias.

No entanto precisara que exerçam uma actividade comercial


nos termos em que ela está contemplada no artigo 3º do mesmo
código, ou seja, é empresário comercial aquele que, satisfazendo uma
das categorias previstas no artigo 2º, exerça uma das actividades
qualificadas como comerciais a luz do artigo 3º. Sobre a qualificação
das actividades económicas ou comerciais, releva o artigo 3º a
inclusão das actividades agrícola, piscatórias que outrora não eram
contempladas nesta classificação.
Importa referir que, o exercício da empresa comercial nos
termos deste artigo pode ser por meio de terceiros, naturalmente tal
exercício por meio de terceiros exigira autorização do seu dono em
que se reunira antecipadamente os requisitos para o exercício da
empresa comercial61.

Sumário

Nesta unidade temática tratamos da empresa, concretamente na


empresa como sujeito jurídico e conjunto de elementos. Daqui nos
referimos que numerosos textos referem-se a empresa sob perfil da
pessoa que exerce uma actividade económica de produção e
distribuição de bens e serviços, reduzindo-a portanto a própria pessoa

61
Idem
59
daquele que produz e organiza e conduz a actividade, suportando-a
pelo próprio risco.

Aprendemos que a empresa como actividade o termo empresa


é por vezes usado para significar a actividade economia exercida pelo
empresário comercial de forma profissional e organizada, com vista a
realização de fins de produção ou troca de bens e serviços.

Como instituição a empresa é o sentido dinâmico que vê nela a


expressão de um circulo de actividades regido pela pessoa do
empresário, fazendo apelo a factores e elementos de natureza
heterogénea, actuando sobre um património de coisas e direitos,
dando origem a relações jurídicas, económicas e sociais, polarizados
numa organização apta a desenvolver uma actividade económica.

Para terminar, a acepção institucional da empresa, numa visão


jurídico-mercantil parece ser a que forma o artigo 557 do C.Com e
seguintes. Tem sido entendido que o artigo 3º do C.Com consagra a
noção subjectiva de empresa a par de uma concepção de actividade.

E como sujeito do direito comercial a terminologia empresário


comercial usada no artigo 2º do C. Com e demais reflecte a evolução
do direito comercial para a evolução moderna do direito comercial.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. A acepção institucional da empresa, numa visão jurídico-


mercantil parece ser a que forma o artigo 557 do C.Com e
seguintes.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

60
2. É empresário comercial aquele que, satisfazendo uma das
categorias previstas no artigo 2º, exerça uma das actividades
qualificadas como comerciais a luz do artigo 3º.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. O Conceito da empresa comercial está definido no artigo 10 do


Código Comercial.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

Exercícios

1. O que entendes por empresa comercial?


2. Identifique a base legal que nos pode induzir ao conceito
de empresa?
3. Caracteriza a empresa comercial como sujeito jurídico.
4. Legalmente, quem não são comerciantes?
5. Subjectivamente o que é empresa comercial?

UNIDADE Temática 2.3. Empresário Comercial

Introdução

Nesta unidade temática a que nos propomos a tratar do


empresário comercial, pretende-se

61
que o estudante tenha capacidade suficiente para delimitar os
conceitos e perceber efectivamente o que seja empresário comercial
no âmbito do Direito Comercial.

Como tal, partimos do pressuposto de que o código comercial,


não fornece noção de empresário comercial limitando-se porém, no
art.º 2° C.Com38, a indicar as categorias legais de empresário
comercial, no sentido de que são empresários comerciais, por um lado
as pessoas singulares, também designadas por comerciantes em nome
individual, e por outro lado, as sociedades comerciais

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

▪ Definir o empresário comercial;

▪ Conhecer os requisitos que se agregam ao empresário


comercial;

▪ Apresentar a situação as restrições ou proibições ao exercício


da profissão de empresário comercial.

2.3.1. Conceito do empresário comercial

Para estabelecermos o conceito de empresário comercial


recorremo-nos ao autor Manuel Guilherme segundo o qual, “podemos
assim, definir empresário comercial, como sendo aquele que
enquadrando-se numa das categorias do art.º 2° C.Com, seja titular de
uma empresa que exerça uma das actividades comerciais tais como as
qualificam o art.º 3° e as demais avulsas que caracterizam em
englobam no direito comercial certas actividades económicas”62.

A categoria do empresário comercial, não é transmissível entre


vivos e nem mortis causa, na medida em que ele exige em si a reunião
de certos requisitos. Requisitos estes associados à pessoa do
empresário comercial, conforme mais adiante veremos.

62
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 55.
62
2.3.2. Empresário comercial como pessoa singular: requisitos

Como pessoa jurídica o empresário comercial deve ter certos


requisitos que a própria lei prevê. Nesse sentido, em relação à
disponibilidade jurídica, não há qualquer especificidade em relação ao
direito civil. A personalidade jurídica adquire-se com o nascimento
completo e com vida nos termos do n° 1 do art.º 66° do CC.

No que diz respeito a capacidade comercial, que é medida dos


direitos e obrigações de que uma pessoa é susceptível de ser sujeito,
distingue-se entre a capacidade de exercício e capacidade de gozo. No
que se refere aos menores, é menor toda pessoa de um ou outro sexo
enquanto não perfizer vinte e um anos de idade e, em princípio
estariam feridos de incapacidade de exercício profissionalmente
empresarial por forca do princípio da equivalência consagrado no art.º
9° C.Com. Contudo, o art.º 10°, vem estabelecer algumas excepções e
nestes termos, o menor de vinte e um anos e maior de dezoito anos
pode exercer a actividade empresarial, desde que devidamente
autorizado.

Segundo a doutrina, esta autorização pode ser dada pelos pais,


desde que detenham a guarda do menor. Sucede que, se os pais não
exercem a guarda do menor por força de decisão judicial ou outro
qualquer impedimento, não tem poderes de autorizar o menor para a
prática da actvidade empresarial63. Pelo tutor nos termos
estabelecidos na lei civil e pelo juiz na falta dos pais ou do tutor, ou
quando entender e oportuno aos interesses do menor. Assim, equivale
dizer que, o juiz pode por decisão a favor dos interesses do menor
autorizar a este a prática da actividade empresarial mesmo que sem
anuência dos seus pais ou tutores.

Numa perspectiva legal, a lei comercial impõe que tal


autorização para o exercício da actividade empresarial seja outorgada

63
HUBRECHT, Geoges, Droit Commercial, Ed. Sirey 1988
63
por escrito, podendo tal instrumento limitar os poderes do menor ou
impor condições para seu exercício, indicar o ramo da actividade a ser
explorado pelo menor, fixar prazo de validade da autorização e,
mesmo quando concedida por tempo determinado, pode ser
revogada, a qualquer altura, pelo outorgante, salvaguardados os
direitos adquiridos de terceiros. Impõe igualmente o legislador que
esta autorização seja registada para que seja válida perante terceiros.

2.3.3. Situação particular dos incapazes

Segundo Manuel Guilherme que tem sido referência nessas


matérias, o art.º 9°, ao exigir a capacidade para prática de actos de
comércio pretende referir-se a capacidade jurídica de exercício, tanto
mais que alude implicitamente o carácter profissional do comércio o
que pressupõe uma prática habitual de actos geradores, mediadores
ou extintivos de direitos e obrigações, donde resulta que, não pode
conhecer-se o exercício da profissão de empresário comercial por um
incapaz, aliás o próprio conceito de profissão e no caso a circunstancia
se traduzir numa contínua e habitual prática de actos e negócios
jurídicos, sendo portanto absorvente e responsabilizante afigurando-
se incompatível com a situação jurídica de incapacidade por interdição
por exemplo.64

Ainda, a inclusão dos interditos no art.º 9° C.Com deve


entender-se cungrano salis, quanto ao exercício profissional do
comércio considera-se que tal prática será a prática habitual de actos
de comércio, não directa e pessoalmente pelos incapazes, mas pelos
seus representantes, em nome e por conta daqueles, com necessária
autorização judicial a luz do art. 296° da lei n°10/2004 de 25 de
Agosto.65

64
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 56.
65
Idem.
64
Na mesma senda, a profissão de comerciante pressupõe a
concretização dos actos se comércio, mas não qualquer prática, deve
ser a prática profissional, isto é, o exercício de uma empresa
comercial;

Entretanto, não basta a prática de actos de comércio isolados


ou ocasionais para se adquirir a qualidade de comerciante é necessária
a pratica regular, habitual, sistemática, dos actos de comércio.66

Não basta por outro lado, a prática mesmo habitual, de


quaisquer actos de comércio, no sentido de que nem todos os actos
tem a mesma potencialidade de atribuir aquem os pratique a
qualidade de empresário;67

É indispensável para que se fale de profissionalidade que o


indivíduo pratique os actos de comércio como seu modus vivendi faça
o comércio o seu dia-a-dia e a forma de viver.

O exercício profissional deve ser de modo pessoal,


independente e autónomo, isto é, em nome próprio sem subordinação
de outrem.68

É necessário que se organizem factores de produção com vista


a criar utilidades económicas, resultantes de uma daquelas utilidades
económicas que a lei considera como comerciais.69

Concluindo, é empresário comercial, quem possui e exerce


uma empresa comercial, quem é titular de uma organização daquelas
que a lei qualifica como empresa comercial para através delas exercer
actividade empresarial de forma profissional.70

O autor71 ainda refere-se que a plena capacidade comercial


civil ha-de depender de uma pessoa singular ou colectiva, ter a

66
Idem.
67
Idem.
68
ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito comercial. Lisboa, AAFDL, 1993. p 274.
69
ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito comercial. Lisboa, AAFDL, 1993. p 274
70
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 58.
71
Idem
65
capacidade civil e não estar abrangida por alguma norma, que
estabeleça uma restrição ao exercício do comércio.

2.3.4. Restrições ou proibições ao exercício da profissão de


empresário comercial

Entende Manuel Guilherme que embora o exercício da


actividade empresarial seja livre bastando o preenchimento dos
requisitos gerais anunciados anteriormente, existem situações que há
limitação do exercício profissional do comércio. Tais situações podem
se consubstanciar em proibições legais e impedimentos. Inibições e
incompatibilidades.

Relativamente aos incapazes, o art.º 9°, ao exigir a capacidade


para prática de actos de comércio pretende referir-se a capacidade
jurídica de exercício, tanto mais que alude implicitamente o carácter
profissional do comércio o que pressupõe uma prática habitual de
actos geradores, mediadores ou extintivos de direito.

2.3.5. Impedimentos e proibições legais ao exercício do comércio

Quando se fala dos impedimentos e proibições legais temos


sempre ter em conta que os impedimentos consubstanciam as
situações em que determinado sujeito ainda que civilmente capaz está
vedado por lei para a prática de actos de comércio de forma
profissional. Nesta situação, estão por exemplo os administradores
das sociedades por quotas. Nos termos do art.324° do C.Com, os
administradores não podem, sem consentimento expresso dos sócios

66
exercer, por conta da própria ou alheia, actividade abrangida no
objecto social da sociedade, desde que esteja a ser exercida por ela ou
o seu exercício tenha sido objecto de deliberação dos sócios.72

També se pode dizer que, há proteção da concorrência e na


nossa opinião, da concorrência desleal que resultaria do exercício do
comércio no mesmo ramo de actividade ou objecto comercial pelo
administrador. O administrador nos termos deste artigo só poderá
exercer a actividade nos termos anteriormente ditos se consentirem
os sócios da sociedade onde ele é administrador. Esta limitação faz
todo sentido na medida que recai em geral sobre os administradores o
dever de diligência.

De tudo, a questão que se pode colocar é a de saber se tal


consentimento terá de vir de todos os sócios ou se basta a vontade da
maioria.

Entende o autor que “tal consentimento terá de ser expresso e


resultará de deliberação dos sócios seguindo as regras da maioria
estabelecidas para cada tipo de societário ou resulte do estatuto da
sociedade”73.

Para terminar, importa anotar que este impedimento que recai


sobre os administradores é parcial e não geral na medida em que só se
aplica ao ramo da actividade ou objecto igual ao coincidente com o da
sociedade. Equivale dizer que, o administrador não está impedido de
exercer actividades comerciais.

Ainda nos impedimentos, o outro impedimento resulta do art.º


14° do C.Com nos termos do qual, estão impedidos do exercício da
actividade empresarial:74

72
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 59.
73
Idem.
74
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 60
67
▪ As pessoas colectivas que não tenham por objectos interesses
materiais.

▪ Os impedidos por lei especial.

Pare este efeito, relativamente ao primeiro aspecto, encontra a


sua essência na natureza do próprio direito comercial e das suas
normas que se associam ao exercício de uma actividade lucrativa. O
que a lei impede, como escrevemos noutro lugar, não é a prática de
actos de comércio mas sim, do exercício profissional da actividade
comercial e aquisição da qualidade de empresário comercial.75

Veja-se por exemplo, a fundação para o desenvolvimento da


comunidade (FDC), desenvolve uma série de acções beneméritas e até
tira dinheiro para várias actividades mas que não faz com vista a
lucrar, ou seja, uma empresa de facturação de lucros embora em
certas circunstâncias possa vender um bem de sua pertença. O ira
acontecer é que esse acto será regulado pela lei comercial, mas no
entanto, a FDC não será por isso considerada empresário comercial.

De igual modo, Manuel Guilherme refere-se que a par dos


impedimentos há aquilo que ousamos chamar proibições legais com o
intuito apenas de diferenciar aqueles actos que são limitados a certa
categoria de sujeitos e por isso, exclusivos a eles. A título de exemplo,
o comércio bancário esta reservado asa instituições de crédito por
força de Lei n° 15/99 de 1 de Novembro co as alterações introduzidas
pela Lei n° 9/2004 de 21 de Julho. Estabelece o n° 1 do art. 7°da
referida lei “só as instituições de crédito podem exercer a actividade de
recepção, do público, de depósitos ou outros fundos reembolsáveis,
para a utilização por conta própria”.76

Deste modo, para o efeito, só pode ser praticado por


sociedades anónimas com certos condicionalismos em termos de
capitais a investir e com necessidade de intervenção do Banco de

75
Idem
76
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 60.
68
Moçambique quer para autorização quer para fiscalização ou
supervisão. Resulta disto que, aquele que não estiver compreendido
nas categorias legais para a prática destes actos, não pode fazê-lo e
uma vez praticados ira consubstanciar o crime ilegal de profissão
titulada previsto e punido pelo parágrafo 2° do art.º 236° do CP.77

2.3.6. Situação dos cônjuges

Cavalgando a doutrina, alguns autores como o Manuel


Guilherme refere que o exercício da actividade do empresário
comercial é livre em regra.

Tal liberdade, não se encontra como acontecia no passado,


limitada a mulher que carecia da autorização do marido. O art.º 35° da
CRM48 estabelece que “todos os cidadãos são iguais perante a lei, e
gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres,
independentemente do sexo…”. O art.º 36° da CRM vem a estabelecer
o princípio da igualdade entre o homem e a mulher.78

O C.Com veio concretizar esse princípio estabelecendo o outro


n°1 do art. 11° do C.Com, o princípio da independência de qualquer
dos cônjuges poder praticar a actividade empresarial
independentemente da autorização do outro cônjuge.79

No entanto, há limites relativamente aos actos que


compreendem o exercício da empresa comercial que possa afectar o
património comum do casal isto quer dizer que, o cônjuge que sentir
prejudicado pelos actos praticados por cônjuge no exercício da
empresa comercial pode usar os mecanismos legais para se opor
contra os mesmos. Quando o cônjuge empresário comercial pretender
prestar garantias tais como aval ou outras, deverá obter anuência do

77
Idem.
78
Idem, 62.
79
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 60.
69
outro cônjuge sob pena de nulidade do socio praticado. Exceptuam-se
os bens pessoais.80

A existência de bens pessoais, só é possível se o casamento


tiver sido em regime de separação de bens ou de comunhão de bens
adquiridos.

Parece-nos não fazer sentido a aplicação desta disposição


quando se trate da comunhão geral de bens a menos que se tratem de
incomunicáveis independentemente do regime do casamento
adoptado pelos cônjuges.

Havendo separação de pessoas e bens nos termos dos artigos


176°50 e seguintes da Lei da Família ou ainda havendo apenas a
separação de bens, o cônjuge empresário comercial que tiver
contraído obrigações no âmbito do exercício da sua empresa
comercial, irá responder pelo seu património dotal cabendo-lhe
inclusive a possibilidade de empenhá-los, vendê-los, hipotecá-los ou
aliená-los sem dependência da autorização do outro cônjuge.81

Tais liames previstos por lei, não terão igual valor se os


cônjuges por exemplo constituírem conjuntamente e como sócios,
uma sociedade por quotas de responsabilidade limitada nos termos do
ar. 284° do C.Com. É que, a ideia de proteção do património do sócio
não empresário comercial cai por terra na medida em que haverá
entre elas um novo ente que é a sociedade por quotas a qual se
aplicará o regime consagrado para o efeito. Por isso, não fará qualquer
sentido a discussão deste assunto.82

2.3.7. Figuras afins do empresário comercial

O empresário comercial pode se confundir com várias figuras


como a seguir será demonstrado, aqui trataremos de apenas duas

80
Idem.
81
Idem.
82
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 60.
70
figuras que achamos ser mais próximas da figura do empresário
comercial e que não raras vezes, podem suscitar confusão. Veremos
por isso, a figura de mandatário comercial, do gerente, e comissário e
do mediador.

Empresa, excepto no caso de declaração de falência, se provar


que o património social não foi exclusivamente afectado ao
cumprimento das respectivas obrigações.

Veja-se a seguir, segundo o autor Manuel Guilherme:83

a) Mandatário Comercial

O mandato comercial traduz-se na prática de um ou vários


actos de comércio realizados pelo mandatário e que produzem uma
série de efeitos jurídicos na esfera jurídica do mandante. É sempre
oneroso. O mandatário não é empresário comercial embora pratique
actos a título profissional, pois apenas os faz em representação do
mandante. O mandato comercial difere do mandato civil que nos
termos do art.º 1158° do código civil presume-se gratuito excepto se o
seu exercício corresponder actos de profissão, caso em que há lugar a
presunção da sua onerosidade. O mandato comercial é sempre
oneroso.

b) Gerente

É aquele que em nome e por conta de um empresário trata do


comércio no lugar onde este empresário comercial tenha ou peça para
actuar, ou seja, aquele que sobre outra qualquer designação de
acordo com os usos comerciais, se coloca na situação de tratar do
comércio de outrem no lugar onde o empresário exerce a empresa ou
em qualquer outro lugar.

83
Idem.
71
O gerente tem poder representação mas este é um poder
geral, compreende todos os actos pertencentes e necessários ao
exercício do comércio que para tal tenha sido atribuído. A intervenção
do gerente é uma intervenção acessória relativamente a do
empresário comercial. Não é empresário comercial. Nos termos n° do
art.º 166° C.Com52, é-lhe aplicável relativamente a responsabilidade,
mutatis mutandi, o regime aplicável aos titulares dos órgãos sociais da
sociedade por exemplo, aos administradores. Os seus actos
recuperam-se na esfera jurídica do empresário comercial.

Entendemos que tal facto se deve à maior ligação que este,


assume para com a sociedade e/ou com os actos relativos ao exercício
do comércio no seu dia-a-dia.

c) O Comissário

Trata-se de uma espécie de mandato sem representação. Em


termos gerais, dá-se por comissão quando a pessoa executa um
mandato comercial sem menção alguma do mandante (empresário
comercial). Na verdade, há aqui uma vinculação do comissário que
acontece em virtude de ter havido um acordo entre o comissário e o
comitente que neste caso é o empresário comercial. O comissário tem
alguma autonomia mas, não pode ter iniciativa individual. A sua
iniciativa deve resultar e resulta da sua vinculação com o comitente. É
preciso anotar que quando o comissário vai actuar relacionando com
terceiros não restarão dúvidas de que ele pratica actos de comércio
mas, tal só em consequência da vinculação que ele tem com o
empresário comercial. Assim, a prática actos de comércio em
representação de outrem numa situação de mandato sem
representação.

Há quanto a nós, e em conformidade com a posição defendida


pelo professor Luís Teles de Menezes Leitão, e fortemente consagrada
pela nossa lei civil, a consagração da

72
teoria da dupla transferência. Assim, quando o art.º 1180° do CC, ao
refere que se o mandatário agir em nome próprio adquire os direitos e
assume as obrigações resultantes dos negócios de celebra, os efeitos
dos negócios não se repercutem assim directamente na esfera do
mandante, mas antes na esfera do mandatário, de onde terão de ser
posteriormente transferidos para o mandante.

Adoptando a teoria da dupla transferência, no n° 1 do art.º


1181° do CC53, vem estabelecer uma obrigação para o mandatário de
transferir para o mandante os direitos adquiridos em execução do
mandato.

Assim, o comissário tem dever de transferir para o empresário


comercial os direitos adquiridos na prática dos actos de comércio em
nome do empresário comercial.

d) O Mediador

Se atentarmos ao que escrevemos anteriormente as figuras de


mandatário, gerente e comissário podemos facilmente concluir que
estas figuras se encontram associadas à pessoa do empresário
comercial.

O mediador é autónomo deste e em princípio não se pode


assumir que pratica actos jurídicos na terminologia rigorosa da Mota
Pinto.

Para o professor Mota Pinto, os actos jurídicos simples são


factos voluntários cujos efeitos se produzem, mesmo que não tenham
sidos previstos ou queridos pelos seus autores, embora muitas vezes
haja concordância entre a vontade destes e os respectivos efeitos. Não
é, todavia, necessária uma vontade de produção dos efeitos
correspondentes ao tipo de simples actos jurídicos em causa para essa
eficácia se desencadear.

73
É de facto o que sucede com o mediador. Na verdade, ele no
interesse de aproximar as partes para que o negócio se concretize. No
entanto, a sua concretização embora ele actue com essa intenção,
muitas das vezes, não depende dele a sua efectivação. O mediador no
contrato de compra e venda por exemplo, aproxima o comprador do
vendedor sem que ele outorgue de compra e venda ao contrário do
mandatário comercial que poderá outorgar o contrato em
representação do mandante. Limita-se a criaras condições para que o
contrato seja celebrado se as partes aproximadas assim o entender e o
seu papel termina com a aproximação das partes.

O art.º 230° do C.Com de 1888 fazia referência a actividade de


mediação mesmo assim entendia-se que era uma mediação em
sentido técnico muito próximo da noção de agência.

Nessa medida, porque o mediador limita-se a aproximar as


partes sem a prática de qualquer acto jurídico naquele sentido do
professor Mota Pinto, com o qual concordamos, ele não pode ser
classificado como empresário comercial. Situação diferente é aquela
que estudaremos mais adiante no nosso volume II em relação a
agência56 que embora hajam dúvidas quanto a sua classificação para
uma parte da doutrina, como empresário comercial, poucas duvidas
coloca esta figura que o mediador.

Sumário

Nesta Unidade temática, em resumo ficamos a saber que:

A origem e a definição jurídica de empresário


comercial. Reza o Código Civil, “Considera-se empresário quem
exerce profissionalmente actividade económica organizada
para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.”
Também ficamos a saber que a empresa, o empresário
e o estabelecimento não se confundem.

74
Concretamente podemos definir empresário comercial,
como sendo aquele que enquadrando-se numa das categorias
do art.º 2° C.Com, seja titular de uma empresa que exerça uma
das actividades comerciais tais como as qualificam o art.º 3° e
as demais avulsas que caracterizam em englobam no direito
comercial certas actividades económicas.
Embora o exercício da actividade empresarial seja livre
bastando o preenchimento dos requisitos gerais anunciados
anteriormente, existem situações que há limitação do exercício
profissional do comércio
Quando se fala dos impedimentos e proibições legais
temos sempre ter em conta que os impedimentos
consubstanciam as situações em que determinado sujeito
ainda que civilmente capaz está vedado por lei para a prática
de actos de comércio de forma profissional.
Concluindo, o empresário comercial pode se confundir
com várias figuras como a de mandatário comercial, do
gerente, e comissário e do mediador.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O empresário comercial não pode se confundir com qualquer


outra figura.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

2. O empresário comercial e o estabelecimento comercial são a


mesma coisa.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

75
3. O exercício da actividade comercial tem suas limitações à
semelhança do exercício de qualquer profissão.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. Descreva a situação particular dos cônjuges no exercício da


actividade comercial?

2. Quais são as incompatibilidades do exercício da actividade


comercial?

3. O que é empresário comercial?

4. Enuncie dois requisitos para o empresário comercial.

5. O que é mandatário comercial?

6. Diferencie o gerente do mediador?

UNIDADE Temática 2.4. Obrigações do Empresário


Comercial

Introdução

Nesta unidade temática a que tem como tema “obrigações do


empresário comercial, pretende-se que o estudante adquira
conhecimentos suficientes sobre obrigações que dentre elas temos a
firma como nome que o empresário comercial adopta para ostentar
nas suas relações com os outros.
Nos termos da doutrina e da lei, o empresário comercial, no

76
exercício da empresa tem obrigações que, com mais detalhes iremos
abordar, concretamente:
I. Adoptar uma firma;
II. Escriturar em ordem uniforme as operações ligadas ao
exercício da sua empresa;

III. Fazer inscrever na entidade competente os actos sujeitos ao


registo comercial;

IV. Prestar contas.

Necessariamente espera que que de forma específica o estudante


saiba:

2.4.1. A Firma do empresário comercial

▪ Conhecer todas as obrigações do empresário comercial;

▪ Saber os princípios relativos a firma;

Objectivos ▪ Conhecer a função dos livros de escrituração mercantil;

▪ Conhecer os tipos de firma enquanto obrigação do


empresário comercial.

a) Conceito

Para Pupo Correia, a firma é o sinal distintivo do


estabelecimento comercial e assim pode ser constituída livremente e
transmitida com o próprio estabelecimento comercial, havendo ou
não acordo expresso.84 Esse é o sentido subjectivo.

Para Manuel Guilherme, “é que consubstanciando nessa


vertente, o sinal de distinção do estabelecimento, a tutela do mesmo
por qualquer pessoa não careceria de qualquer alteração ou imposição

84
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, 188.
77
de obrigações na medida em que se associa directamente ao
estabelecimento como tal.

No seu sentido objectivo, a firma é o sinal que pretende


distinguir o empresário comercial em si do demais, isto é, o seu nome
comercial ao lado do seu nome civil (tratando-se de empresário
comercial pessoa singular), isto é, sinal que ele vai usar no exercício da
empresa comercial, donde resulta que, tratando-se de empresário
pessoa singular a firma deve ser constituída com base no seu nome
civil, e por isso, em princípio intransmissível. A sua transmissibilidade
neste sentido implicaria o seu nome civil que como tal constituí a
própria firma.85

Nestas questões de fundo, o autor questiona, qual dos sentidos


prevalece no nosso ordenamento jurídico?86

Se atentarmos ao que dispõe o art.º 36° do C.Com comercial


quanto a transmissibilidade da firma, que mais adiante tratamos com
maior profundeza, concluiremos que a firma no nosso Direito é
transmissível que entre vivos, quer mortis causa. No entanto,
assegura-se que tal só ocorra com autorização do cedente e tal
transmissão só é possível mediante a transmissão do próprio
estabelecimento ou empresa comercial a que se achar ligada e é
sujeita a registo.87

O legislador, parece adoptar uma posição eclética. Na verdade,


a firma é um sinal distintivo do estabelecimento mas neste, pertence
ao sujeito proprietário do estabelecimento que como tal pode
constituir a firma a partir do seu nome civil e cede-la mediante
condições impostas por lei.88

85
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 69.
86
Diga-se no ordenamento jurídico moçambicano.
87
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 69.
88
Idem.
78
Entretanto a firma desempenha o papel que o nome civil na
vida jurídica civil, todo empresário comercial deve adoptar uma firma,
que seja pessoa singular ou sociedade comercial, o que pode permitir
a separação da sua actividade civil da comercial e dada a
multiplicidade de nomes idênticos ou semelhante habilitar a quem
efectue várias composições com o nome civil que em comércio
permite distinguir o empresário dos outros com nomes próximos.
(artigo 18° C.Com). Conclui-se do artigo 18° C.Com, que nosso
ordenamento jurídico consagra o sentido subjectivo da firma, isto é, a
firma é o sinal distintivo do empresário comercial e de uso obrigatório.

Continuando, nos termos do artigo 21° C.Com a firma deve ser


redigida em língua oficial, ou mediante a juncão da tradução oficial
quando se trata de adopção de firmas em outras línguas, sendo
permitido a utilização de palavras que não pertencem a língua oficial
nos termos do artigo 22°CCom89.

b) Tipos de firma

A firma consoante os casos pode ser formada com o nome de


uma ou mais pessoas, fala-se de firma-nome, ou pode ser constituída
com a expressão relativa ao tipo de actividade que ele exerce ou se
propõe exercer, aditada ou não de elementos de fantasia que é
designada de firma denominação ou simplesmente denominação, e
em terceiro lugar afirma mista que resulta da conjunção dos
elementos anteriores na composição de uma mesma firma.

Mas, em qualquer dos casos a firma é um sinal nominativo e


não emblemático, e como a firma desempenha o mesmo papel
desempenhado pelo nome civil do empresário comercial, quer seja
pessoa colectiva ou singular deve adoptar uma firma.

Nos termos do art.º 21° C.Com, a firma deve ser redigida


obrigatoriamente em língua oficial ou mediante a conjunção da

89
Idem.
79
tradução oficial quando se trate da adopção de firma em outras
línguas, sendo admissível em casos excepcionais dispostos no mesmo
artigo, ou não uso da língua oficial.

c) Princípios relativos à firma do empresário comercial

Os princípios relativos a firma, constituem os limites dentro


dos quais o empresário comercial deve girar no processo de
constituição da firma. Encontram-se consagrados no Código
Comercial. São nomeadamente, princípio da verdade, da novidade e
da exclusividade. Este último, como demonstrará mais adiante, não
consagrado rigorosamente pelo legislador como um princípio.

i. Princípio da verdade

Através deste princípio a firma deve espelhar a realidade a que


se reporta, não introduzindo em erro relativamente à caracterização
jurídica do ente, mas sem prejuízo de utilização do vocabulário
corrente e de conhecimento geral.

Continuando, é na sequência disso que, devem ser verdadeiros


e não introduzir em erro sobre a sua identificação, natureza, dimensão
ou actividade do seu titular, e por isso não se podem utilizar na
composição da firma elementos característicos que sugiram
actividades diferentes das que o seu titular propõe realizar, nem
expressões que possam introduzir em erro sobre a caracterização
jurídica do empresário, quer por pessoa singular quer possam sugerir
existência de pessoa colectiva. Donde resulta que, a firma da pessoa
singular deve basear-se apenas no seu nome, quer seja abreviado ou
até de uma alcunha pela qual é conhecido ou de expressão que
manifeste a sua especialidade.90

90
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 204.
80
De igual modo é proibido há pessoas colectivas de fim
lucrativo, o uso de expressões que sugiram a existência de um ente
público, ou de associações sem fins lucrativas,

Podendo porem, permitir-se para estes últimos o aditamento


de elementos que indiquem o objecto e tipo de sociedade ou a
identificação dos sócios nos termos de alínea b) do art.26° do C.Com.
Em poucas palavras, a firma deve espelhar a realidade a que se
reporta não introduzindo em erro quanto a caracterização jurídica do
empresário, e sem prejuízo das disposições especiais do artigo
26°CCom.

Deste modo, consegue-se facilmente a partir deste princípio


aferir se estamos perante um empresário comercial pessoa singular ou
colectiva, o seu ramo de actividade, tratando-se de sociedade
comercial, o tipo de sociedade de que se trata.

ii. Princípio da novidade

A firma deve manifestar a distinção entre ela e as demais já


reconhecidas ou registadas, o que não pode necessariamente que um
empresário comercial possua simultaneamente um estabelecimento
ligado a uma sociedade por quotas unipessoal e outro ou outros
ligados a outro tipo societário caso em que usará firma diferente.

Nos termos do art.º 20° C.Com, a firma deve ser distinta, e


insusceptível de confusão ou erro em qualquer outra já registada,
exigindo-se no ajuizamento dessa confusão, considerar o tipo de
empresário, o seu domicílio ou sede e bem assim a proximidade ou
afinidade, das actividades exercidas ou a exercer e ainda a existência
de nomes de estabelecimentos, insígnias ou marcas de forma
semelhante que possam induzir em erro sobre a titularidade dos
mesmos sinais distintivos.

No entanto, a exclusividade do seu uso não é extensivo aos


vocábulos de uso corrente e os topónimos, também indicação de

81
proveniência geográficas, e o ajuizamento do princípio da novidade
deve ser feito na globalidade, pretendendo-se apenas evitar o erro
sobre a sua identificação pelo público.

O legislador comercial, em atenção a este princípio estabeleceu


no art.º 23° C.Com, a obrigatoriedade das firmas registadas fora do
país para a sua admissibilidade entre nós, carecerem de registo em
Moçambique, para evitar a indução em confusão.

iii. Princípio da exclusividade

Como nos referimos anteriormente, o C.Com não fala


relativamente a este, como propriamente um princípio. Entendemos
nós que mais do que a protecção do uso ilegal da firma, este é
verdadeiramente um princípio.

Este princípio impõe que a firma deve ser exclusiva do ente a


que diz respeito, direito este que só se constitui após registo pelo
respectivo titular, na entidade competente sem prejuízo da declaração
de nulidade, anulação ou caducidade, nos termos do art.º 24° C.Com.

Pelo uso ilegal da firma, assiste ao seu titular legítimo o direito


de proibir o seu uso ou até exigir danos provenientes do seu uso ilegal
sem prejuízo do procedimento criminal nos termos do art.º 25° C.Com.

Na verdade, a disposição do art.º 25° C.Com, reconhece ao


empresário comercial, titular da firma devidamente registada não só o
direito do uso exclusivo da firma, como também e fundamentalmente,
as seguintes possibilidades legais:

a) Exigir aquele que usa ilegalmente a firma que não continue a


usá-la, evitando confusão, prejuízos futuros, mesmo que interessado
não tenha ainda sofrido efectivamente o prejuízo, ou ainda, o
usurpador da firma não tenha feito de má-fé, ou até ignorando os
prejuízos que ia causar.

82
O titular da firma pode ainda exigir a alimentação da totalidade
das situações potencialmente prejudiciais.

Ex: eliminação da firma da matrícula entre outras;

b) A segunda possibilidade que assiste ao titular da firma é a de


intentar uma acção por perda e danos nos termos do art.º 483° CC,
para obter reparação, quer resulte na negligência ou de culpa;

c) Em terceiro lugar, pode intentar uma acção criminal nos


termos do 25° C.Com, se a ela houver qualquer crime que tenha
resultado do uso ilegal da firma.

Na vigência do C.Com anterior e tal como no actual código, não


se encontra claramente a limitação territorial correspondente ao
âmbito de protecção da firma. O legislador limita-se a estabelecer no
n° 2 do art.º 20° que “no juízo sobre a distinção e a insusceptibilidade
de confusão ou erro devem ser considerados o tipo de empresário, o
seu domicílio ou sede, bem assim, a afinidade ou proximidade das
actividades exercidas ou a exercer”. Ao nível da jurisprudência
portuguesa e na nossa, tendo em conta o anterior art.º 27° do C.Com,
há registos de que o entendimento a dar ao termo circunscrição do
art.º 27° do código de Veiga Beirão de 1888 era o de que o mesmo
corresponde a Província.

Foi assim que, por acórdão nos autos de apelação n° 39/06, de


16 de Abril de 2008, da secção Cível do Tribunal supremo em que era
recorrente ao cidadão José João Dalmone com domicílio na cidade de
Maxixe, Província de Inhambane e recorrida a casa dos Carimbos, Lda.
com sede em Maputo, entendeu esta secção o seguinte: “…o termo
circunscrição usado no C.Com tem de ser interpretado como área
territorial da respectiva conservatória”…mais adiante e em termos de
conclusão continua o acórdão “…de acordo com quadro jurídico-legal
acima descrito, a restrição no uso de designações por parte de
comerciantes ou sociedades comerciais só se coloca em relação a
pessoas singulares ou colectivas

83
situadas na área territorial de conservatória onde se queira proceder a
respectiva matrícula”.91

Portanto, parece ser esta ideia que o legislador quis consagrar


ao estabelecer no n° 2 do art.º 20° do C.Com, como requisito da
aferição da confusão e/ou erro, a verificação do domicilio ou sede do
empresário comercial para além dos demais requisitos referidos no
mesmo número.

d) Transmissão da firma

A firma como sinal distintivo do estabelecimento é susceptível


de transmissão. Nos termos do art.º 36° C.Com, o adquirente de uma
empresa comercial pode continuar a geri-la sob a mesma firma,
quando para tal seja autorizado, aditando-lhe ou não a declaração de
haver nela sucedido.

Esta autorização compete ao alienante, tratando-se de


transmissão por morte, sem que o cujus tenha disposto por escrito, a
autorização é dada pelos herdeiros respeitando a maioria
independentemente de esta transmissão tiver sido a favor de terceiro
ou de algum ou alguns dos herdeiros.

Conservando a firma, o aquirente passa a usá-la como meio


através do qual funda a presença do público demonstrando a
continuidade da empresa, retirando vantagens do antigo proprietário.
O código também protege o interesse dos clientes no sentido de que
não se pode admitir uma mudança radical de condições que fizeram
manter, exigir a confiança do antigo proprietário e igualmente,
procura-se proteger os fornecedores. Tal sucede porque, como dispõe

91
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 76.
84
o n° 6 do art.º 36° do C.Com, a transmissão da firma só é possível
conjuntamente com a empresa comercial a que se acha ligada.92

Deste modo, se por um lado, não é possível transmitir apenas a


firma sem o respectivo estabelecimento, por outro, o adquirente
assume as obrigações que recaíam sobre o alienante.

O alienante, deixa de ser responsável pelas obrigações


contraídas na exploração da empresa, a partir do registo e publicação
do acto de transmissão, não exigindo-se autorização no caso de
exploração temporária da empresa comercial, de outrem pelo
adquirente do direito.

Conclui-se que, a transmissão da firma não se presume, resulta


do acordo entre as partes tanto na transmissão entra vivos, como na
mortis causa, e nesta última exigindo concordância expressa na
maioria dos herdeiros.93

e) Alteração da firma

A firma pode ser alterada observando determinadas


circunstâncias.

No entanto, a saída ou falecimento do sócio ou associado o


cujo nome ou firma figure na firma do empresário comercial nome
colectivo, não determina necessariamente sua alteração, a menos que
tenha sido disposto o contrário no acto da constituição da sociedade,
deixando aquele de ser responsável pelas obrigações sociais a partir
do registo e publicação do acto nos termos do n° 2 do artigo 37° em
conjugação com o n° 4 do art.º 36° ambos do C.Com.94

92
CORREIA, Miguel J.A. Pupo, Direito Comercial - Direito da Empresa, 10ª Edição
revista e actualizada, Ediforum, Lisboa, 2007, p 2014
93
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 74.
94
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 77.
85
f) Caducidade e renúncia da firma

Em princípio a firma é constituída para durar de forma


determinada. No entanto, a lei estabelece nos artigos 38° a 41° C.Com.
O registo da anulação, caducidade e renúncia da firma Caduca a firma
nos termos do art.º 39° do C.Com, nas seguintes circunstâncias:95

a) Com o termo prazo contratual. Se a firma tiver sido


constituída com finalidade de durar enquanto durar o contrato que
constituí o objecto e seu fundamento, com o termo prazo normal, a
firma caduca;

b) Por dissolução da pessoa colectiva. Nesta caso, é aplicável


apenas as pessoas colectivas, quando certa pessoa colectiva a quem a
firma se encontra associada, dissolve-se nos termos gerais do Direito,
a firma deixa de fazer efeito por maioria de razão. É que a firma nestes
casos está associada a pessoa colectiva e uma vez em dissolução, o
que acarreta a entrada em liquidação dessa pessoa colectiva o que
impõe a limitação em termos de actos a praticar por parte dessa
pessoa colectiva.

c) Pelo não exercício da empresa por período superior a quatro


anos.

Por força desta alínea c) do art.º 39°, impõe-se ao empresário


comercial o dever de provar a continuidade do exercício do comércio
em cada trimestre do ano na entidade competente para o registo, sob
pena de ver a firma caducada e sem possibilidade de invocar a mesma.

Compete a entidade que faz o registo, o poder de declarar a


caducidade da firma, reservando-se um mecanismo processual com
vista a acautelar situações de má-fé na solicitação de caducidade de
certa firma pertencente a terceiro. Nestes termos, o titular da firma e
uma vez notificado do pedido de caducidade, tem trinta dias para se
pronunciar ao que é acompanhado de um prazo de quinze dias

95
Idem.
86
contados do termo do prazo anterior para decisão do pedido de
caducidade.96

Ao titular da firma, a lei reserva o direito de impugnar a


decisão por de recursos aos tribunais.

O titular da firma pode renunciá-la através de declaração


expressa por meio de escrita, assinada e reconhecida presencialmente
à entidade competente para o registo. A renúncia carece do registo e
publicação nos termos dos artigos 41° n° 3° do C.Com.97

2.4.2. Escrituração mercantil

Para esta matéria dedicamos especial atenção a doutrina de


Pedro Vasconcelos e de Manuel Guilherme. Para este ultimo autor,
nos termos da alínea b) do art.º 16°69, outra obrigação especial que
recai sobre os empresários comerciais, é escriturar as operações
ligadas ao exercício da empresa comercial.

E a questão que se coloca é saber em que consiste a


escrituração mercantil? Consiste em registar todas as actividades
feitas pelo empresário comercial em livros próprios que a lei impõe e
pretende-se com ela, dar a conhecer a situação empresarial e
financeira do património do empresário comercial.

Chama-se escrituração mercantil, o processo de lançamentos


dos actos relativos a empresa nos livros que para aqueles fins os
comerciantes são obrigados a adoptar, ou seja, o lançamento em livros
adequados das diversas operações relacionadas com a exploração
mercantil do empresário comercial ou afectam o seu património para

96
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 77.
97
Idem.
87
permitir o domínio de todos os interessados quando tal seja
necessário.98

A escrituração mercantil é obrigatória e deve-se efectuar em


livros adequados tais como, o diário, o livro de inventário e balanço, e
outos livros que a lei fixa-os designando de livros obrigatórios.

Deste modo, ao empresário é imposto o dever de fazer o


registo dos livros obrigatórios dando-lhe a possibilidade de usar outros
livros que permitem o conhecimento do seu código.

Modernamente fala-se de métodos mais sofisticados de


registo, compreendendo os computadores, armazenamento da
informação em disco-duro, em softwares apropriados.99

a) Função dos livros obrigatórios

Segundo o Pedro Vasconcelos e tendo em conta o disposto no artigo


45 do Ccom, são seguintes as funções dos livros obrigatórios de
escrituração mercantil:

▪ O livro-diário: Nos termos do art.º 45° C.Com, o livro-diário


serve para lançar individual e diariamente, todos os actos
relacionados com a actividade empresarial, isto é, o diário
sugere a ideia de lançamento das actividades quotidianas em
termos de actos singulares pelo empresário comercial.

▪ Inventário e balanço: Serve para lançar detalhadamente a


situação inicial da empresa e outros tantos balanços que o
empresário comercial é obrigado por lei.100

98
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 78.
99
Idem.
88
▪ Livros de actas: Este livro está associado à ideia de existência
de pessoa colectiva e no caso em concreto, sociedade
comercial. Serve para lavar as actas das reuniões e sócios ou
associados, de administradores e do órgão de fiscalização,
devendo cada uma delas expressar sem prejuízo do disposto
em disposições especiais, o seguinte: a data da realização da
reunião, os nomes dos participantes ou referência à lista de
presenças autenticadas pela mesa, os votos emitidos, as
deliberações tomadas e tudo que possa servir para as
reconhecer e fundamentar a assinatura pela mesa e na
existência desta, pelos participantes.

O livro de acta assegura que toda informação relativa as


reuniões dos órgãos sociais a compreensão dos procedimentos e
decisões tomadas na sociedade. É por isso que, relativamente ao
direito à informação que assiste os sócios pode consultar por exemplo,
os livros de acta da assembleia geral nos termos da alínea a) do n° 1)
do art. 122° ou consultar os livros de presença nos casos em que
existam porque não havia a mesa constituída.101

b) Importância da escrituração mercantil

Segundo o autor Manuel Guilherme, o empresário passa a


conhecer sua situação patrimonial, direitos e deveres;

✓ Serve de meio de prova dos factos registados nos litígios entre


empresários;

✓ Serve como meio de verificação da regularidade da conduta do


empresário comercial;

100
VASCONCELOS, Pedro Pais de, Direito Comercial: parte geral, Almedina Editora,
Coimbra, 1995, 422.
101
Idem
89
✓ Quando se está perante uma suspeita de razões da falência
pode-se recorrer à escrituração para saber se a falência é real
ou fraudulenta;

✓ Serve de base para a liquidação de impostos e fiscalização do


cumprimento de normas tributárias entre outras funções.

c) Forma de escrituração

A escrituração deve ser efectuada nos termos do artigo 48° do


C.Com, pelo empresário ou por qualquer outra pessoa devidamente
autorizada, devendo se presumir que aquele que efectuou a
escrituração tinha autorização para o efeito. É uma presunção iures
tantum e por isso, pode ser ilidida mediante prova em contrário. O
artigo 49° C.Com estabelece a obrigação do uso de língua e moeda
oficial, a necessidade de individualização e clareza da escrituração e
deve ser cronológica.102 A escrituração é secreta, porque pretende
assegurar o desconhecimento em termos públicos o património
comercial para se evitar a cobiça alheia. Os artigos 54° a 56° C.Com
indicam em que as circunstâncias em que se tornam necessárias a
consulta de livros inclusive dos auxiliares que são possíveis de exibição
e exame.

Há o dever da parte do empresário de prestar informações a


favor dos sócios, dos credores e das autoridades administrativas. Nos
termos da alínea b) do artigo 104° e 122° CCom, qualquer dos sócios
tem o direito de consultar os livros em circunstâncias especiais. O
tribunal determinará o interesse, no sentido de permitir que os livros
sejam consultados quando tal se justifique.103

102
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 80.
103
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 80.
90
d) Registo comercial

Os empresários comerciais quer seja pessoa singular ou


colectivas, ou as sociedades civis sob forma comercial, são obrigados a
inscrever no registo os actos a ele sujeito. Em conformidade com art.º
58° e 59° C.Com, e o regulamento do registo de entidades legais
aprovados pelo Decreto-Lei n° 1/2006 de 3 de Maio, existe um elenco
de actos susceptíveis, ou melhor, que carecem de registo pelo
empresário comercial104.

O registo comercial tem por fim publicar os actos que


compreendem a descrição e identificação do empresário e todos os
actos relevantes que como tal a lei só qualifica e por isso sujeito a
registo. A vantagem do registo está na publicidade, pois através do
registo publicam-se as actividades do empresário comercial para o
conhecimento, não só daquele que contrata com empresário
comercial, como também do público em geral nos termos do art.º 58°
C.Com.105

No entanto, o registo comercial não trata somente da


actividade jurídico-mercantil dos empresário, é extensivo ao registo
dos navios, relativamente aos quais embora tratando-se de bens
móveis pode existir paralelismo entre o registo de bens objecto de
propriedades visando dar publicidade como condição de eficácia
relativamente a terceiros, não apenas a sua transmissão como
também em relação a certos ónus que recaiam sobre esses bens.

Sumário

Nesta unidade, apreendemos que:


Nos termos da doutrina e da lei, o empresário
comercial, no exercício da empresa tem obrigações que, com
mais detalhes iremos abordar, concretamente:

104
MUALEIA, Fernanda e VALE, Sofia, Guião Prático de Direito comercial, pg. 181
105
Idem.
91
Adoptar uma firma; Escriturar em ordem uniforme as
operações ligadas ao exercício da sua empresa; Fazer inscrever
na entidade competente os actos sujeitos ao registo comercial;
e prestar contas.
Também falamos da firma como sinal distintivo do
estabelecimento comercial e assim pode ser constituída
livremente e transmitida com o próprio estabelecimento
comercial, havendo ou não acordo expresso.
Falamos dos tipos de firma onde dissemos que esta
consoante os casos pode ser formada com o nome de uma ou
mais pessoas, fala-se de firma-nome, ou pode ser constituída
com a expressão relativa ao tipo de actividade que ele exerce
ou se propõe exercer, aditada ou não de elementos de fantasia
que é designada de firma denominação ou simplesmente
denominação, e em terceiro lugar afirma mista que resulta da
conjunção dos elementos anteriores na composição de uma
mesma firma.
A firma comporta certos princípios que entre elas o
princípio da verdade; princípio da novidade, princípio da
exclusividade.
Na escrituração mercantil dissemos é o processo de
lançamentos dos actos relativos a empresa nos livros que para
aqueles fins os comerciantes são obrigados a adoptar, ou seja,
o lançamento em livros adequados das diversas operações
relacionadas com a exploração mercantil do empresário
comercial ou afectam o seu património para permitir o
domínio de todos os interessados quando tal seja necessário.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. Um dos princípios relativo a firma é o da não exclusividade


porque estaria a contrariar as regras de concorrência.

▪ Certo?

92
▪ Errado?
Resposta: Errado.
2. A firma pode ser formada com o nome de uma ou mais
pessoas, fala-se de firma-nome, ou pode ser constituída com a
expressão relativa ao tipo de actividade que ele exerce.

▪ Certo?
▪ Errado?
Resposta: Certo.
3. Ao titular da firma, a lei reserva o direito de não impugnar a
decisão por de recursos aos tribunais.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado

4. O titular da firma pode renunciá-la através de declaração


expressa por meio de escrita, assinada e reconhecida
presencialmente à entidade competente para o registo.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. Qual é a formalidade que se deve obedecer na renúncia da


firma?

2. Será que a renúncia da firma carece do registo e publicação


nos termos da lei?

3. Qual é a destrinça entre o princípio da novidade e da


exclusividade?

4. Indique três obrigações dos empresários comerciais.

93
5. Qual é a base legal que justifica a existência de livros
obrigatórios?

UNIDADE Temática 2.5. Exercícios do Tema

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante saiba resolver os


exercícios do tema anterior, conforme o aprendizado nas matérias ai
referidas.

Exercícios

94
1. Indique duas obrigações dos empresários comerciais no
exercício da empresa comercial.

2. Qual é a formalidade exigida por lei para a renúncia da


firma?

3. Descreva a situação particular dos cônjuges no exercício da


actividade comercial?

4. Quais são as incompatibilidades e os impedimentos para o


exercício da actividade comercial?

5. O que é empresário comercial?

6. Diferencie o gerente do mediador?

7. Enuncie dois requisitos para o empresário comercial.

8. O que é mandatário comercial?

9. Diferencie o gerente do mediador?

10. Qual é a destrinça entre o princípio da novidade e da


exclusividade?

11. Qual é a base legal que justifica a existência de livros


obrigatórios do empresário comercial?

12. Descreva a situação particular dos cônjuges no exercício da


actividade comercial?

13. Quais são as incompatibilidades do exercício da actividade


comercial?

14. Na sua óptica o que é empresário comercial?

15. Enuncie dois requisitos para o empresário comercial.

16. O que é mandatário comercial?

95
PARTE II

SOCIEDADES COMERCIAIS E TÍTULOS DE CRÉDITO

TEMA – I: SOCIEDADES COMERCIAIS NO GERAL

UNIDADE Temática 1.1. Contrato de Sociedade


UNIDADE Temática 1.2. Sociedades Comerciais

96
UNIDADE Temática 1.3. Exercícios do Tema

UNIDADE Temática 1.1. Contrato de Sociedade.

Introdução

Nesta unidade temática preparamos o tema relativo a contrato


de sociedade definito nos termos do artigo 980 do CC como aquele em
que duas ou mais pessoas se obrigam a contribuir com bens ou
serviços para o exercício em comum de certa actividade. Pretendemos
conceituar nos termos gerais, tratar da natureza jurídica e principais
elementos do contrato de sociedade.
Concretamente, vamos de forma específica abordar:

Para o efeito, ao completar esta unidade, você será capaz de:

▪ Conhecer o conceito integral do contrato de sociedade e


das sociedades comerciais;
Objectivos
▪ Perceber a natureza jurídica do contrato de sociedade
tendo em conta as teorias que a suportam;

▪ Saber os elementos que constituem o contrato de


sociedade;

1.1.1. Conceito do contrato de sociedade

Nos termo do artigo 980 do CC, Contrato de sociedade é


aquele em que duas ou mais pessoas se‫״‬obrigam‫ ״‬a contribuir com
bens ou serviços para o exercício em comum de certa actividade
económica, que não seja de mera fruição, a fim de repartirem os
lucros resultantes dessa actividade.

97
Consiste na reunião de esforços entre duas ou mais pessoas
denominadas de sócios, que combinam a aplicação de seus recursos
‫״‬financeiros e know how‫ ״‬com finalidade de desempenhar certa
actividade económica, visando a divisão dos frutos e lucros por ela
gerados.

O nosso ordenamento jurídico não nos fornece um conceito


completo de sociedade comercial. Este preceito apenas refere quais
são os requisitos para que uma sociedade se considere comercial
‫״‬objecto comercial e tipo comercial‫״‬, mas não diz o que é uma
sociedade.

1.1.2. Natureza jurídica do contrato de sociedade

Embora nos pareça obvia a natureza do acto constitutivo da


sociedade comercial, imensas são as discussões que se levantam em
torno dele, há sociedades que resultam da fusão ou cisão das
sociedades. Há também, as sociedades unipessoais que resultam da
insuficiência superveniente do elemento pessoal da sociedade.106

Há que dedicarmos aqui especificamente a olhar para o


contrato de sociedade em concreto para determinarmos a natureza
jurídica do mesmo. Existem duas teorias que se esbatem sobre a
referida natureza jurídica nomeadamente: Teoria Contratualista e
Teoria Institucionalista.

a) A teoria Contratualista

Para a teoria Contratualista assenta na ideia de que a


sociedade comercial é constituída por meio de um contrato que é o
contrato de sociedade. Considera-se a mais coerente, no entanto,
importa distinguir claramente de que tipo de contrato está a se falar.

106
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 110.
98
Trata-se de um contrato plurilateral ou multilateral: o contrato
de sociedade exige a presença de pelo menos duas pessoas tal como é
definido no art.º 980º do CC. É na verdade, um contrato plurilateral
dirigido a uma finalidade comum por isso, nasce a segunda
possibilidade da sua classificação.

É um contrato de fim comum ou de organização: Luís Brito


Correia defende que esta parece ser a melhor classificação do contrato
de sociedade e foi elaborada pela doutrina alemã e italiana e também
escolhida pela doutrina portuguesa107. No essencial, os contratos de
fim comum se contrapõem aos contratos comutativos quais sejam, de
compra e venda ou troca. Na compra e venda, os interesses das partes
são satisfeitos de forma diferente. O comprador é satisfeito pela
aquisição da propriedade da coisa e o vendedor por perceber o preço
da coisa vendida.108

Nos contratos de fim comum, há um interesse comum a todos


os contraentes. Por um lado, na sociedade, todos tem interesse no
benefício resultante da actividade económica comum, embora, para
além deste fim imediato, possa haver contraposição de interesses,
quanto ao fim último do negócio Por outro lado, no contrato de
sociedade, cada sócio tem a contrapartida da sua prestação na
participação dos resultados obtidos pela actividade em comum.

b) Teoria institucionalista

Na mesma senda, o autor Manuel Guilherme refere que “é no


fundo, uma crítica à teoria contratualista liberal”. Diz-se que a vontade
contratual não determina livremente a condição jurídica da pessoa
colectiva que criou, pelo contrário, a pessoa colectiva em si. Como
tudo ocorre na sociedade por vontade dos sócios que são na verdade

107
Idem.
108
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 110
99
os últimos que decidem por ela ‫״‬embora hajam administradores‫״‬, a
sociedade há-de ser sempre uma instituição e não um contrato. Isto é,
o contrato de sociedade.109

Não se pretende de nenhuma forma negar que a sociedade


deriva de um contrato. Pretende ˗ se sim, demonstrar que este
contrato associa-se a uma instituição que à priori fundamenta a
existência do próprio contrato.110

1.1.3. A forma do contrato de sociedade

Esta sua natureza jurídica implica uma execução prolongada no


tempo, uma sequência de comportamentos das partes através dos
quais se dá concretização ao vínculo contratual.

A produção de efeitos jurídicos ‫״‬constituição, modificação ou


extinção de relações jurídicas‫ ״‬resulta principalmente no tocante à
actuação humana juridicamente relevante, de actos de vontade-
máxime, declarações de vontades-dirigidas precisamente à produção
dos referidos efeitos111. Tal liberdade de celebração de contratos
‫״‬liberdade contratual‫״‬, tanto representa a manifestação da vontade
de contratar como a possibilidade de introduzir alterações através de
conjugação de vários elementos para constituição do contrato. Todo
este fenómeno, é manifestado por via de vontade.112

A extensão deste princípio alcança como se pode retirar do


art.219º do CC, a liberdade de forma como regra geral. Nos termos
deste artigo, a validade da declaração negocial não depende de

109
Idem.
110
Idem.
111
PINTO, Carlos Alberto da Mota, Teoria Geral do Direito Civil, 3ª Edição
actualizada, Coimbra Editora, Coimbra, 1999º. p 89.
112
Idem
100
observância de forma especial, salvo quando a Lei a exigir. Retira-se, o
princípio de liberdade de forma que, à luz do nº 1 do art.º 981º do CC,
com aprofundamento do nº1 do art.º 90º do C.Com, pode-nos
conduzir a certas consequências legais que a seguir retiramos:113

Primeiro, que o contrato de sociedade como regra geral, não


está sujeito a uma forma especial;

Segundo, que a não observância de forma quando esta seja


exigida pela natureza dos bens que os sócios colocam na sociedade,
não prejudica ‫״‬nulidade‫ ״‬de todo contrato com vista ao exercício do
comércio, a menos que ele não possa se converter nos termos do
art.293º do CC, passando a ser o simples uso e fruição de bens cuja
transferência determina a forma especial, ou, se o contrato não
reduzir-se nos termos do art.292º do CC, à participações que não
ponham em causa a forma especial inobservada.114

Podemos concluir que não há, em geral a exigência de forma


especial para a celebração do contrato de sociedade, tal só ocorre
quando condicionada pelas participações dos sócios, ou seja, se
houver participações em bens imóveis, exigir-se-á a escritura pública e
fora desta circunstância, basta um documento escrito, assinado e
reconhecido presencialmente por todos os sócios conforme dispõe o
nº 1 do art.º 90º do C.Com.

Segundo Manuel Guilherme, resulta do art.º 980º do Código


Civil que no contrato de sociedade, os sócios só ficam obrigados a
entrar na sociedade com bens e serviços. Esta prestação dos sócios a
que se chama momento de obrigação de entrada ou cumprimento de
obrigação de entrada, está prevista no art.107º do C.Com, onde se
refere que todo o sócio é obrigado a entrar para a sociedade com bens
susceptíveis de penhora ou nos tipos societários em que tal seja

113
Idem.
114
PINTO, Carlos Alberto da Mota, Teoria Geral do Direito Civil, 3ª Edição
actualizada, Coimbra Editora, Coimbra, 1999º. p 89.
101
permitido com prestação de serviços e por isso, designa-se sócio de
indústria. Com fundamentos neste artigo, podemos dizer que há três
tipos de bens com que os sócios podem contribuir, a saber: dinheiro;
outros bens susceptíveis de penhora para além de dinheiro e
serviços.115

1.1.4. Reconhecimento da sociedade com um só sócio

Dos desenvolvimentos das teorias não societárias presentes


em várias obras que versam sobre esta matéria, deixam de existir
quaisquer dúvidas teóricas ao reconhecimento da sociedade
unipessoal. O preconceito relativo à unipessoalidade societária é de
carácter meramente pragmático, embora haja dificuldade de
introdução do tipo organizativo societário em ambientes fortemente
contratualísticos. Isso, porque o conceito de sociedade esteve
historicamente ligado à pluralidade de sujeitos. Entendia-se, na altura
que a forma associativa apenas se justificava como uma maneira de
unificar a pluralidade de sócios a ela subjacente, sendo a
personalidade jurídica destinada exclusivamente a essa finalidade.116

Todavia, ao longo do tempo, o conceito de sociedade evoluiu,


passando da teoria institucionalista germânica e da escola
contratualista italiana à análise do contrato associativo e a teoria do
contrato-organização, que vê no contrato social a função de criar uma
organização, independentemente do número de pessoas envolvidas. A
teoria do contrato-organização deu espaço à discussão sobre a
unipessoalidade.117

115
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 110.
116
FILHO, José Inácio Ferraz de Almeida Prado, ʺNota sobre as sociedades fictícias,
au de favor ˮ In : Revista de Direito Mercantil Industrial, Económico e financeiro, v1
34, 2004. p 85.
117
FERDO, Paolo E. F. - Luzzi. Icontratti associativi. Milano: Giuffré: 2001
102
1.1.5. Do contrato plurilateral ao contrato-organização

Muito se negou na doutrina o carácter contratual da


constituição da sociedade. Enquanto alguns o negavam, vista, a
dificuldade de aplicação, ao conceito de sociedade, de muitos dos
princípios da teoria geral dos contratos, afirmando tratar-se da
constituição da sociedade de um acto complexo118, outros defendiam
a sua essência.

Ainda, Tullio Ascarelli, em sua clássica obra ‫״‬problemas das


sociedades anónimas e direito comparado‫״‬, dá novos ares à teoria
contratualista, ao diferenciar os contratos de sociedade dos contratos
em geral. Afirma aquele autor que:

“Na realidade, pode dizer-se tradicional a sensação da


diferença entre o contrato de sociedade e os contratos que
poderíamos dizer, genericamente, de permuta, e, realmente, a
doutrina sempre examinou alguns problemas “por exemplo, o da
exeptio inadiplet contractus” em relação aos quais algumas regras
gerais dos contratos pareciam de difícil aplicação ao contrato de
sociedade”.

O contrato de sociedade, levando em conta as suas


características formais, pode ser encaixado como subespécie da
categoria dos contratos, a que denomina contrato plurilateral119. Essa
subespécie da categoria dos contratos é por permitir a participação de
duas ou mais partes e pelo facto de que todas as partes possuírem
direitos e obrigações recíprocos decorrentes do contrato120. O
contrato teria um cunho instrumental quanto à disciplina das
sucessivas relações jurídicas das partes.

118
ASCARELLI, Tullio, Problemas das sociedades anónimas e direito comparado,
Campinas: Bookseller, 2001. P 373.
119
O contrato da sociedade constituiria a subespécie mais importante dos contratos
plurilaterais, mas não a única.
120
ASCARELLI, Tullio, Problemas das sociedades anónimas e direito comparado,
Campinas: Bookseller, 2001. P 371
103
Assim, pode-se afirmar que, no momento da constituição da
sociedade, as partes têm interesses distintos e, muitas vezes,
contrapostos. Uma vez constituída, a sociedade visa a uma finalidade
comum a todos os sócios.

Ascarelli discorre sobre uma série de distinções que podem ser


feitas entre os contratos plurilaterais e os contratos a que denomina
de permuta, e termina por concluir que o contrato plurilateral, em sua
função económica, constitui um contrato de organização.

Os instrumentos contratuais tradicionais não são aptos a


regular o fenómeno associativo. Isso porque o conceito do contrato é
decorrente de um momento jurídico tipicamente individualista,
enquanto o fenómeno associativo é um conceito colectivo, devendo a
sua análise ser feita de forma objectiva, retirada de elementos
subjectivos.

O fenómeno associativo manifesta-se juridicamente por meio


do contrato associativo, ou contrato-organização. Enquanto nos
contratos tradicionais, o ponto fundamental é a atribuição às partes
de direitos subjectivos, a função dos contratos associativos é de criar
uma organização sobre o património, ligando-o ao fim previamente
estabelecido.

Os contratos tradicionais teriam como efeito jurídico a criação,


modificação e extinção de relações jurídicas. Já, o contrato associativo
giraria em torno da criação, modificação e extinção de organizações,
cujo conceito jurídico é o da coordenação da influência recíproca entre
actos, pressupondo a noção de actividade.121

A visão, pois, centra-se na coordenação de actos, não nos


participantes. A criação da organização não depende da coincidência
de interesses de diversos sócios, porque é possível que uma única

121
CATAPANI, Márcio Ferro. “Os contratos Sociativos”. In: FRANÇA, Erasmo Valhadão
Azevedo e Novaes (org.). Direito societário contemporâneo I. São Paulo: Quartier
Latin, 2009.p 94.
104
pessoa tenha interesse em criar uma organização. Assim, a teoria de
contrato-organização abre espaço para o reconhecimento da
sociedade unipessoal como contrato associativo, e até mesmo da
sociedade sem sócio, inclusive nos sistemas contratualistas.

As sociedades corresponderiam, desse modo a estruturas


organizativas que servem de instrumento à obtenção de determinados
fins. Por conseguinte, desloca-se a ideia de pluralidade de partes para
uma ideia de estrutura corporativa. O contrato de sociedade é um
contrato de organização, assim entendida como um centro de
imputação, estruturação do comando, desenho de responsabilidades e
deveres de administradores122.

A organização criada pelo contrato associativo é sujeito de


direitos e obrigações, um centro de imputação de direitos e deveres,
devendo, pois, observadas as formalidades legais, ser-lhe atribuída
personalidade jurídica. E, uma vez criada a pessoa jurídica, quando se
misturarem interesse social e interesse individual, pode e deve ser
aplicada a teoria da desconsideração da personalidade.

O contrato de sociedade tem como objectivo e finalidade a


organização dos factores de produção para o exercício da empresa. A
ideia de organização desloca-se, pois, de uma posição estrutural no
contrato de sociedade e passa a exercer um papel funcional.123

Sumário

Nesta Unidade temática estudamos sobre o contrato da


sociedade, e ficamos a saber que:
O Contrato de sociedade é aquele em que duas ou mais
pessoas se‫״‬obrigam‫ ״‬a contribuir com bens ou serviços para o

122
RACHEL, Sztahn. “Associações e sociedades”. In: revista de direito mercantil
industrial, económico e financeiro, vol. 1989, p 37.
123
Idem.
105
exercício em comum de certa actividade económica, que não seja de
mera fruição, a fim de repartirem os lucros resultantes dessa
actividade.
Este contrato, para avaliar a sua natureza jurídica temos que
ter em conta as duas grandes teorias que alguns autores avançam, a
começar pela teoria contratualista que assenta na ideia de que a
sociedade comercial é constituída por meio de um contrato que é o
contrato de sociedade; e a teoria institucionalista que constitui uma
critica a primeira, considerando que a vontade contratual não
determina livremente a condição jurídica da pessoa colectiva que
criou, pelo contrário, a pessoa colectiva em si.
De igual modo estudamos sobre a forma do contrato de
sociedade onde apreendemos que o contrato de sociedade está
sujeito à disciplina geral dos contratos, com as particularidades
decorrentes da sua natureza de contrato de fim comum e institucional

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O contrato de sociedade não está sujeita a uma forma especial.

• Certo?

• Errado?

Resposta: Certo.

2. Sobre a natureza jurídica da sociedade, a teoria contratualista


é uma crítica a teoria institucionalista.

• Certo?

• Errado?

Resposta: Errado.

3. O Contrato de sociedade é aquele em que duas ou mais


pessoas se‫״‬obrigam‫ ״‬a contribuir com dinheiro para o exercício

106
em comum de certa actividade não económica.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

Exercícios

1. O Que é contrato de sociedade?


2. Qual é o número mínimo legalmente previsto para a
celebração do contrato de sociedade?
3. Qual é a natureza jurídica do contrato de sociedade?
4. Qual é a forma exigida para a constituição da sociedade?
5. Indique a base legal para a constituição do contrato de
sociedade.

6. Pode ser reconhecida uma sociedade com um único sócio?


Justifique com base na lei.

107
UNIDADE Temática 1.2. Sociedades Comerciais

Introdução

Nesta unidade temática iremos abordar matérias relacionadas com as


sociedades comerciais, a partir da própria noção, personalidade
jurídica das sociedades comerciais, capacidade. Importa dizer que para
o efeito partimos do pressuposto de que já é do conhecimento
anterior estudado o contrato de sociedade no geral que dalgum modo
desembocamos nas sociedades comerciais.

Efectivamente pretende-se que o estudante:

108
▪ Conheça o conceito da sociedade comercial e saiba
diferenciar das demais sociedades;
Objectivos
▪ Saiba o que é personalidade e capacidade jurídica de uma
sociedade comercial;

▪ Conheça e saiba diferenciar as sociedades comerciais


existentes.

1.2.1. Noções gerais e conceito de sociedade comercial

Sociedade Comercial

Partindo do conceito fornecido pelo autor que tem sido


referência nessa matéria, é aquela que tem por objecto a prática de
actos de comércio, constituem-se como tal e adoptam um dos tipos
societários previstos no artigo 82º do C.Com afastando por
conseguinte aquelas sociedades cujo objecto não é a prática de actos
comerciais124. Consiste na reunião de esforços entre duas ou mais
pessoas denominadas de sócios, que combinam a aplicação de seus
recursos ‫״‬financeiros e know how‫ ״‬com finalidade de desempenhar
certa actividade económica, visando a divisão dos frutos e lucros por
ela gerados.125

O nosso ordenamento jurídico não nos fornece um conceito


completo de sociedade comercial. Este preceito apenas refere quais
são os requisitos para que uma sociedade se considere comercial

124
Nos termos do nº 2 do art.82º do C.Com -as sociedades que tenham por objecto o
exercício de uma empresa comercial só pode constituir-se segundo um dos tipos
societários previstos neste artigo, estamos aqui perante o princípio da tipicidade no
que se refere a possibilidade de escolha dos tipos societários. Equivale a dizer que,
não há sequer espaço para conjugação de características diferentes destes tipos
societários para a constituição de um outro tipo que não seja os previstos no nº 1 do
artigo 82º do Ccom.
125
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 112.
109
‫״‬objecto comercial e tipo comercial‫״‬, mas não diz o que é uma
sociedade.
Tem-se que recorrer à lei civil, como direito subsidiário ‫״‬art.º
7º C.Com‫״‬. A sociedade comercial é uma sociedade, obedecendo às
características definidoras do art.º 980º do CC acrescidas dos
requisitos específicos do nº 2 do art.º 82º do C.Com.
Em face do art.º 980º CC, deparam-se quatro elementos do
conceito geral de sociedades comerciais:

1º. Elemento pessoal

Alude a pluralidade de sócios. Nele compreendem-se, quer o


empresário e outros investidores de capitais, quer os trabalhadores.
Qualquer destas entidades tem, de uma forma ou de outra,
interesse no desenvolvimento e êxito da empresa, seja para
rentabilização dos capitais investidos, seja para promoção pessoal,
estabilidade e retribuição do trabalho.
Em princípio, e porque a lei o define como um contrato, o acto
gerador da sociedade deve ser celebrado por pelo menos duas partes,
dois sujeitos de direito. É o que expressamente refere a 1ª parte do nº
1 do art.º 91º do C.Com. Todavia esta norma, in fine, abre uma brecha
em tal princípio, ao admitir que a lei “permita que a sociedade seja
constituída por uma só pessoa”.
A regra da pluralidade vale tanto para a sociedade-contrato
como para a sociedade-instituição. E, do mesmo modo, deverá pôr-se
a questão da admissibilidade de excepções àquela regra, ou seja, de
sociedade com um só sócio ‫״‬sociedades unipessoais‫״‬, tanto no que
toca ao momento da constituição da sociedade, como no que toca à
subsistência com um só sócio de uma sociedade já existente;

2º. Elemento patrimonial

110
O segundo elemento que tem a ver com o património, exige a
obrigatoriedade dos sócios em contribuírem com bens e serviços. O
art.º 980º CC consagra um segundo elemento do conceito de
sociedade, consiste na chamada obrigação de entrada, através da qual
os sócios efectuam contribuições que irão formar o património inicial
da sociedade.
Esta norma limita-se a exigir, para que surja a sociedade, que
os sócios se obriguem a contribuir com bens ou serviços, mas não
exige a efectivação dessas contribuições logo no momento inicial,
podendo ser deixada para mais tarde, ao menos em parte.
As contribuições dos sócios podem revestir, a natureza de bens
ou serviços. Tas contribuições ou entradas dos sócios desempenham
três funções da máxima importância para a sociedade: Formar no seu
conjunto, o fundo comum ou património com o qual a sociedade vai
iniciar a sua actividade; Definir a proporção da participação de cada
sócio na sociedade, e Fixar o capital social.

3º. Elemento finalístico

O elemento finalístico obriga o exercício em comum de uma certa


actividade económica que não seja de mera fruição. No que diz
respeito às sociedades em geral, a referência do art. 980º CC, ao
exercício de uma actividade económica visa abranger todas as
actividades destinadas à produção de bens ou utilidades de qualquer
natureza, materiais ou imateriais, enquadráveis em qualquer dos
sectores da economia.
No que respeita às sociedades comerciais, é evidente que as
actividades económicas a que se dediquem terão de ser aquelas que
se enquadrem no âmbito do comércio em sentido jurídico-formal.
Por outro lado, o art.º 980º CC exige que a actividade

111
económica seja certa, o que significa, obviamente, que ela deverá ser
definida, determinada de forma concreta e específica, de modo a não
se adquirirem indicações tão vagas do escopo social que acabem por
se traduzir numa incerteza da actividade ou actividades a que a
sociedade se destine.

4º. Elemento teleológico

Este regula a repartição dos lucros resultantes dessa


actividade. O fim último da reunião dos sócios, com os respectivos
contributos para o exercício da actividade comum, terá de consistir na
obtenção de um enriquecimento patrimonial, de um lucro, e não de
outras vantagens ideais ou mesmo materiais.
A fórmula do art.º 980º CC parece incutir uma noção muito
estrita de lucro: tratar-se-ia de um aumento de património gerado na
própria sociedade, para ser depois repartido entre os sócios, seja
periodicamente, seja no final da existência da sociedade.
O elemento teleológico não consiste apenas no intuito de que
a sociedade reduza lucros: é necessário que ela vise também a
repartição destes pelos sócios (vide: art.º 980º CC). Aqui encontramos
o direito abstracto aos lucros, que é inerente ao conceito de sociedade
e Direito concreto aos dividendos, isto é, à distribuição periódica de
lucros, o qual resulta da deliberação que os sócios tomem de os
distribuir.126
No campo comercial, há ainda a ter em conta outros dois
elementos específicos do conceito de sociedade comercial.

▪ Objecto comercial

126
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 112.
112
Este exige a prática de actos de comércio. Assim, o primeiro
elemento conceitual específico das sociedades comerciais consiste no
objecto comercial. No que toca às sociedades comerciais, portanto, o
elemento finalístico, também designado, por fim imediato ou
objectivo da sociedade, tem uma conotação própria: ele deve ter
carácter comercial.
O objecto da sociedade consiste nos actos ou actividades que,
segundo a vontade dos sócios, ela deverá praticar e prosseguir. Por
conseguinte, é o carácter comercial desses actos e actividades que
atribui às sociedades o carácter de comerciantes. Deverá tratar-se,
pois, de actos de comércio objectivos e de actividades qualificadas de
comerciais por outras normas qualificadoras.

▪ Tipo comercial

Adopção de um dos tipos societários configurados e


disciplinados na lei comercial.
Para que uma sociedade seja comercial é ainda necessário que
revista forma comercial, comporta dois sentidos, Primeiro, ela significa
que a sociedade deverá revestir um dos tipos caracterizados e
regulados na lei comercial e num outro sentido, ela exprime a
obrigatoriedade de a sociedade respeitar, na sua constituição, os
requisitos formais estabelecidos na lei comercial.
A primeira das acepções reporta-se ao princípio da tipicidade
ou numerus clausus, que o legislador adoptou quanto às sociedades
comerciais.
Ainda por motivos de ordem pública, o legislador admite um
número muito restrito de tipos sociais. Estes distinguem-se, através de
três características: a responsabilidade dos sócios pela obrigação de
entrada. Trata-se de característica fundamental, pois identifica a
responsabilidade dos sócios para com a sociedade no que toca à
formação do património inicial desta; a responsabilidade dos sócios
pelas dívidas da sociedade é outro

113
aspecto de suma importância, pois por ele se fica a saber se os sócios
são ou não responsáveis, perante os credores da sociedade pelas
dívidas desta, e as modalidades de composição e titulação das
participações na sociedade: trata-se de um aspecto que, embora
secundário, reveste muitas vezes importância assinalável, pois permite
caracterizar a natureza e a forma de cada parte do sócio na sociedade.
No entanto, há sociedades que não visam o lucro, mas
adoptam um dos tipos previstos no código comercial e, por isso,
sujeitas a este mesmo regime. Se uma sociedade adoptar um dos tipos
previstos e permitidos para as sociedades comerciais, aplica-se o
código comercial independentemente de ser civil ou comercial127.
Se visa a prática de actos comerciais, a sociedade é comercial,
mas se pratica actos civis a sociedade é civil, em qualquer dos casos, se
adoptar a forma de sociedade em nome colectivo, por quotas, em
comandita ou de capital e indústria é automaticamente objecto do
Código Comercial. Resulta do artigo 82º do C.Com que elas obedecem
ao princípio da tipicidade, princípio este que em geral se aplica a todas
as pessoas colectivas.
Na verdade, da leitura feita do nº 1 do artigo 82º do C.Com,
fica claro que não poderá ser constituído outro tipo societário para
além dos previstos nesse. Contudo, para que não sobrem dúvidas
relativamente a questão, o legislador acrescenta no nº 2 do mesmo
artigo que ‫״‬as sociedades que tenham por objecto a prática ou
exercício de uma empresa comercial só podem constituir-se segundo
um dos tipos societários previstos neste artigo‫״‬.

1.2.2. A Personalidade jurídica

As sociedades de todos os tipos gozam de personalidade


jurídica a partir do registo definitivo. E gozam dessa personalidade

127
ASCENÇÃO, José de Oliveira, Sociedades Comerciais, Vol. IV, Parte Geral, Lisboa,
2000, pag.45.
114
jurídica tanto em relação a terceiros, como em relação aos próprios
sócios.
Assim, é a sociedade que adquire a qualidade de comerciante
em consequência do exercício da actividade social e não os sócios. Por
isso, é a sociedade que está sujeita às obrigações impostas aos
comerciantes e não os seus sócios. Além disso, a sociedade pode ter
direitos contra os seus sócios.
Com a constituição da sociedade, os bens com que os sócios
entram para esta revertem para o seu património e os credores
pessoais dos sócios apenas poderão penhorar as respectivas
participações sociais a partir do momento em que as sociedades
adquirem personalidade jurídica.

1.2.3. Capacidade jurídica

A capacidade jurídica das sociedades comerciais como pessoas


colectivas está delimitada pelo seu objecto. Mas, aqui há que
distinguir o objecto mediato, que é a realização de lucros necessários,
para todas as sociedades do objecto imediato, a actividade comercial
concreta que a sociedade se propõe exercer e que deve constar dos
estatutos.
Esta distinção é importante, porque o princípio da
especialidade, que limita a capacidade jurídica das pessoas colectivas
aos actos necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins, só
tem aplicação nas sociedades comerciais, ao objecto mediato,
servindo o objecto imediato apenas para limitar os poderes de
representação dos administradores e, mesmo assim, só verificadas
certas condições.

Sumário

Nesta Unidade temática aprendemos que:


Tendo em conta o conceito fornecido por alguns autores
sociedade comercial é aquela que tem

115
por objecto a prática de actos de comércio, constituem-se como tal e
adoptam um dos tipos societários previstos no artigo 82º do C.Com
afastando por conseguinte aquelas sociedades cujo objecto não é a
prática de actos comerciais128. Consiste na reunião de esforços entre
duas ou mais pessoas denominadas de sócios, que combinam a
aplicação de seus recursos ‫״‬financeiros e know how‫ ״‬com finalidade
de desempenhar certa actividade económica, visando a divisão dos
frutos e lucros por ela gerados.

Em face do art.º 980º CC, deparam-se quatro elementos do


conceito geral de sociedades comerciais como: o elemento pessoal,
teleológico, finalístico, e patrimonial.

Sobre a personalidade jurídica das sociedades comerciais,


todos os tipos gozam de personalidade jurídica a partir do registo
definitivo.

Para terminar, a capacidade jurídica das sociedades comerciais


como pessoas colectivas está delimitada pelo seu objecto.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. O conceito de sociedade comercial é aquela que não tem por


objecto a prática de actos de comércio, constituem-se como tal
e adoptam um dos tipos societários previstos no artigo 82º do
C.Com.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

128
Nos termos do nº 2 do art.82º do C.Com -as sociedades que tenham por objecto o
exercício de uma empresa comercial só pode constituir-se segundo um dos tipos
societários previstos neste artigo, estamos aqui perante o princípio da tipicidade no
que se refere a possibilidade de escolha dos tipos societários. Equivale a dizer que,
não há sequer espaço para conjugação de características diferentes destes tipos
societários para a constituição de um outro tipo que não seja os previstos no nº 1 do
artigo 82º do Ccom.
116
2. Em face do art.º 980º CC, deparam-se quatro elementos do
conceito geral de sociedades comerciais como: o elemento
pessoal, teleológico, finalístico, e patrimonial.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. Sobre a personalidade jurídica das sociedades comerciais,


todos os tipos gozam de personalidade jurídica a partir da
celebração do contrato de sociedade.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

4. As contribuições dos sócios podem revestir, a natureza de bens


ou serviços.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. Diferencie o elemento teleológico do elemento finalístico nas


sociedades comerciais?
2. O que são sociedades comerciais?
3. Quando é se adquire a personalidade jurídica das sociedades
comerciais?
4. Indique a base legal que concretiza a personalidade jurídica das
sociedades comerciais.
5. Será que a obtenção do lucro nas sociedades comerciais é o fim
último?

117
6. Como é feita a contribuição dos sócios nas sociedades
comerciais?

UNIDADE Temática 2.5. Exercícios do Tema

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante saiba resolver os


exercícios do tema anterior, conforme o aprendizado nas matérias ai
referidas.

Exercícios

1. Diferencie o elemento teleológico do elemento finalístico


nas sociedades comerciais?

2. O que são sociedades comerciais?

3. Quando é se adquire a personalidade jurídica das


sociedades comerciais?

118
4. Quais são as incompatibilidades do exercício da actividade
comercial?

5. Indique a base legal que concretiza a personalidade jurídica


das sociedades comerciais.

6. Será que a obtenção do lucro nas sociedades comerciais é o


fim último?

7. Como é feita a contribuição dos sócios nas sociedades


comerciais?

8. O Que é contrato de sociedade?

9. Qual é o número mínimo legalmente previsto para a


celebração do contrato de sociedade?

10. Qual é a natureza jurídica do contrato de sociedade?

11. Qual é a forma exigida para a constituição da sociedade?

12. Indique a base legal para a constituição do contrato de


sociedade.

13. Pode ser reconhecida uma sociedade com um único sócio?


Justifique com base na lei.

119
TEMA – II: SOCIEDADES COMERCIAIS EM ESPECIAL

UNIDADE Temática 2.1. Principais Tipos Societários

UNIDADE Temática 2.2. Direito Comparado e o caso de Moçambique

UNIDADE Temática 2.3. Exercícios do Tema

UNIDADE Temática 2.1. Principais Tipos Societários.

Introdução

Nesta unidade temática que por coincidência é o culminar da


celebração de qualquer tipo de contrato de sociedade, pretendemos
explicar, de forma concreta e com base na lei os diversos tipos
societários ai previsto para que a cada estudante tenha a consciência

120
de distinguir a cada tipo societário existente no ordenamento jurídico
moçambicano.

Como tal, para o efeito, ao completar esta unidade, você será capaz
de:

▪ Conhecer e saber diferenciar as sociedades comerciais


existentes no Código Comercial moçambicano;
Objectivos
▪ Entender a cada lógica de determinado tipo de
sociedade;

▪ Conhecer as responsabilidades dos sócios;

2.1.1. Sociedade em Nome Colectivo

a) Enquadramento legal e caracterização

As sociedades em nome colectivo estão previstas no artigo 253


e seguintes do Ccom. Como caracterização, o disposto no nº 1 do
artigo 253 do Ccom, estabelece que na sociedade em nome colectivo o
sócio responde subsidiariamente em relação à sociedade e
solidariamente com os outros sócios pelas obrigações sociais, ainda
que estas tenham sido contraídas anteriormente à data do seu
ingresso.

Nas sociedades em nome colectivo, os sócios respondem de


uma forma ilimitada e subsidiária perante a empresa e solidariamente,
entre si, perante os credores. O número mínimo de sócios é dois e
podem ser admitidos sócios de indústria.

Para o autor Manuel Guilherme, essas são sociedades que

121
possuem dois tipos de sócios. A sua firma deve conter, nos termos do
nº1 do artigo 29 do Ccom, o aditamento “Sociedade em Nome
Colectivo, ou abreviadamente, SNC”.

b) Deliberações dos sócios e Administração

Confere a lei que “Salvo disposição legal ou estatutária em contrário,


consideram-se as deliberações que mereceram voto favorável da
maioria dos sócios”129.
Na mesma senda, o autor em referência entende que a cada sócio
pertence um voto e as deliberações em geral obedecem em regra à
maioria se o contrario não resultar de disposição legal ou estatutária
da sociedade. Matérias específicas como as alterações dos estatutos,
fusão, cisão, transformação, dissolução e a designação de
administradores estranhos à sociedades devem ser tomadas por
unanimidade.

c) Breve historial

As sociedades em nome colectivo surgiram na Idade Média, de


forma natural e ampla,130 do âmago da família medieval. Compunham-
se, no princípio, apenas membros de uma mesma unidade familiar131.
Quando perecia o chefe do núcleo familiar, o património hereditário
permanecia indiviso e sua administração ficava a cargo dos
descendentes, que prosseguiam, assim, na exploração do negócio
paterno132.
Com o passar do tempo, primeiro, e numa evolução lenta e
contínua, surgiu a responsabilidade colectiva do núcleo familiar por

129
Cfr. artigo 266 do Ccom.
130
LEVIN, Goldschmidt. Storia universale del Diritto Commerciale. Torino: Unione
Tipografico-Editrice Torinese, 1913, p. 214.
131
ANTONIO, Brunetti. Tratado del Derecho de Las Sociedades. Vol. I. Tradução do
italiano por Felipe de Solá Cañizares. Buenos Aires: Unión Tipográfica Editorial
Hispano Americana, 1960. v. 1, p. 523.
132
Idem
122
delitos, de modo que este era obrigado, como um todo, a reparação
originada, como por exemplo, do assassínio cometido por um dos seus
membros contra um membro de uma família da mesma vila. A mesma
responsabilidade alcançou, posteriormente, a injúria civil e, por fim, já
estava fortemente enraizado o princípio da responsabilidade colectiva,
acrescida daquela relacionada às actividades económicas exercidas
pelo grupo familiar133.
A indústria medieval das cidades italianas durante a idade
média é um bom exemplo do tipo de organização económica da qual
se originou o germe da sociedade em nome colectivo134. Nesse caso,
os negócios eram feitos em nome da colectividade e, naturalmente, os
seus membros eram pessoalmente responsáveis pelas dívidas do
grupo, caso esses não as honrassem. Dessa evolução surgiu um tipo
societário com origem no vínculo familiar e com fundamento na mais
alta confiança entre os seus membros.

2.1.2. Sociedades em Comandita

a) Conceito e enquadramento legal

As sociedades em comanditas estão previstas no Ccom do


artigo 270 a 277 em que como caracterização, na sociedade em
comandita são elementos distintos a sociedade em nome colectivo,
que compreende os sócios comanditários, e a comandita de fundos.135

As sociedades em comandita são de responsabilidade mista


pois reúnem sócios cuja responsabilidade é limitada (comanditários)
que contribuem com o capital, e sócios de responsabilidade ilimitada e
solidária entre si (comanditados) que contribuem com bens ou
serviços e assumem a gestão e a direcção efectiva da sociedade. Na
sociedade em comandita simples o número mínimo de sócios é dois. A

133
RACHEL, Sztahn. Contrato de sociedade e formas societárias. São Paulo: Saraiva,
1989. P.37.
134
Idem
135
Cfr. artigo 271 do Ccom.
123
sociedade em comandita por acções deve constituir-se com o número
mínimo de cinco sócios comanditários e um comanditado.

b) Espécies de sociedades em comandita

Tendo em conta o disposto no artigo 70 do Ccom, a sociedade


em comandita pode ser constituída em comandita simples, ou
comandita por acções quando as participações dos sócios
comanditários são representadas por acções.

Quando ao regime jurídico de cada uma dessas espécies, o


autor Manuel Guilherme refere que, conjugando com a lei, “ às
sociedades em comandita aplicam-se as disposições relativas à
sociedades em nome colectivo, na medida em que forem compatíveis
com as normas aplicáveis às sociedades em comandita”.

Ainda, entende que o legislador remete à aplicação de regimes


diversos consoante a espécie de sociedade em comandita em questão.
Não pode, contudo, o regime a ser aplicado não deve contrariar o que
de forma especial o legislador estabeleceu.136

c) Deliberações dos sócios

Relativamente as deliberações sociais, a lei prevê, no artigo


274 que os sócios comanditários e comanditados votem em separado;
cada sócio comanditado tem um voto e cada sócio comanditário tem
um voto por cada duzentos e cinquenta meticais de capital de que seja
titular.

d) Breve historial sobre sociedade em comandita

136
JÚNIOR, Manuel Guilherme, Manual de Direito Comercial Moçambicano, Escolar
Editora, Maputo, 2012, p 233 a 234.
124
Começando em sociedade em comandita137 simples, a
sociedade em comandita simples teve um desenvolvimento
completamente diverso. É praticamente unânime que o contrato de
comenda, bastante utilizado na Idade Média, tenha sido a semente
que fez brotar esse tipo societário.

Tal contrato, praticado especialmente nas cidades italianas,


consistia na entrega de dinheiro ou mercadorias por um dos
contratantes ‫״‬commendador, posteriormente denominado
comanditário‫״‬, a outra parte na avença ‫״‬tractator ou
commendatarius, posteriormente denominado comanditado‫״‬,
geralmente, proprietário de um navio ‫״‬armador‫״‬, a quem incumbia
negociar os bens a ele confiados, seja vendendo aquilo que lhe foi
entregue pelo comendador, ou adquirindo e negociando bens por
dinheiro que lhe foi confiado. O negociante, tractator, suportava toda
sorte de riscos pelo insucesso do empreendimento, sejam advindos de
prejuízos pela má negociação ou pelos temidos riscos de mar,
naufrágio e piratas. Pelos débitos da aventura, respondia o negociante
com seus bens pessoais de forma ilimitada.

Mas, alguns factores contribuíram para que o contrato de


comenda se desenvolvesse para a forma de sociedade. Com efeito,
gradualmente, um contrato essencialmente marítimo, que se
extinguia com o regresso da aventura comercial e pela partilha dos
resultados da mesma, a comenda, passou a ser empreendido no
comércio terrestre, não mais sendo explorada vez por vez, mas de
forma reiterada. Passou a abranger várias operações e a reunir mais e
mais pessoas, que ambicionavam obter lucros, mas, ao mesmo tempo,
eram inaptas para o exercício do comércio ou tinham aversão à sua
prática, pois, na época, essa não era uma actividade digna de nobreza.

137
FERREIRA, Waldemar, Tratado de Sociedades Mercantis, Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 1952. p. 92.
125
Outro factor interessante, o qual igualmente levou à
transformação do contrato de comenda em sociedade em comandita,
eram as limitações à usuras impostas pela igreja. Dizia-se que a
comenda era um contrato de mútuo disfarçado, pois o capital
investido na aventura não passava de um empréstimo ao negociante,
que deveria ser restituído ao capitalista com juros altíssimos138 no
regresso da viagem. Como a Idade Média era uma época em que a
Igreja gozava de grande poder e influência na vida das pessoas, tas
não estavam inclinadas a sofrer as sanções da doutrina canónica.
Assim, a transformação do contrato de comenda em sociedade foi
uma solução natural para tal problemática.139

2.1.3. Sociedades de Capital e Indústria

a) Conceito e enquadramento legal

Este tipo societário está previsto nos artigos 278 e seguintes do


Ccom. Para este tipo societário, segundo o autor Manuel Guilherme, e
aquele em que um ou mais sócios concorrem unicamente com seu
trabalho, actividade ou indústria, cabendo unicamente ao sócio ou
sócios capitalistas a responsabilidade pelas obrigações sociais e o
direito de figurar na firma, que é vedado ao sócio de indústria.

b) Caracterização

Nos termos do artigo artigo 278 do Ccom, a sociedade de


capital e indústria caracteriza-se por possuir sócios que contribuem

138
FARIA, Anacleto de Oliveira, Enciclopédia Saraiva do Direito (coord. de Rubens
Limonge França), São Paulo: Saraiva, 1977. p. 153 e segs.
139
GALGANO, Francesco, Lex Mercatoria, Bologna: Il Mulino, 2001, p 44.
126
para formação do capital com dinheiro, créditos ou outros bens
materiais e que limitam a sua responsabilidade ao valor da
contribuição com que subscreveram para o capital social.

Na mesma senda, por possuir sócios que não contribuem para


o mesmo capital, mas apenas ingressam na sociedade com o seu
trabalho, e que estão isentos de qualquer responsabilidade pelas
dívidas sociais.

2.1.4. Sociedades por Quotas

a) Noçãoe enquadramento legal

Na perspectiva do Manuel Guilherme, “dispondo-se a suprir as


deficiências e incompactibilidades das sociedades anónimas e, em
comandita, a sociedade por quotas de responsabilidade limitada
desenvolveu-se, destarte, como uma forma de se preencher a lacuna
no que se refere à disciplina jurídica de uma forma intermédia de
exercício de empresa.

Este tipo societário está previsto no artigo 283 e seguintes do Ccom.

b) Caracterização

Como principais características, o seu capital está dividido em


quotas e os sócios são solidariamente responsáveis por todas as
entradas convencionadas no pacto social.

De forma directa, o sócio responde apenas pela realização


integral da sua quota que subscreveu, mas de forma subsidiária,
responde pela integralização de todo o capital social na medida em
que os demais sócios não o façam.

2.1.5. Sociedades Anónimas

a) Enquadramento legal e conceito

127
Estão previstas nos artigos 331 e seguintes do Ccom. São
sociedades de responsabilidade limitada no rigoroso sentido do
conceito, porquanto os sócios limitam a sua responsabilidade ao valor
das acções por si subscritas. Assim, os credores sociais só se podem
fazer pagar pelos bens sociais.

b) Espécie ou categorias de acções

Segundo o autor Manuel Guilherme as acções são classificadas


doutrinalmente em diversas categorias ou espécies.

Podem ser:

Acções ao portador e acções nominativas. A distinção assenta


na identificação ou não do seu titular que confere os direitos de
accionista ou em livros próprios.

Em relação às espécies, tanto as acções nominativas como as


ao portador podem ser ordinárias ou preferenciais.

c) Breve historial das sociedades anónimas

Com a transição da Idade Média à Idade Moderna, surgiu um


novo tipo de negócio, o qual necessitava de uma espécie societária
diferente daquelas que então existiam. Fez-se necessário um veículo
de exploração adaptado à grandiosidade dos negócios que se
aproximavam. Com efeito, a responsabilidade ilimitada dos sócios nas
sociedades em nome colectivo e a mista nas sociedades em
comandita, já não trazia o grau de segurança que esse novo tipo de
empreendimento cobrava e, consequentemente, o volume de capital
ficaria aquém do necessário.

Assim, o antigo dogma pelo qual o mau administrador deve ser


punido e lhe cabe responder com seus bens pessoais pelo fracasso da
empresa, foi substituído por uma teoria mais condicente com a nova

128
realidade, no Século XVII, segundo a qual a responsabilidade limitada,
além de ser conditio sine qua non aos empreendimentos não
administrados pela totalidade dos sócios, era indispensável para
estimular certas actividades de risco, das quais os investidores
naturalmente se sentiam desanimados a participar.

Mas não era essa apenas a única motivação para o surgimento


de um novo tipo societário. Nisto, era necessária uma sociedade que
transcendesse à pessoa dos sócios, que ficasse imune aos eventos que
por ventura os atingissem, como a morte ou a incapacidade. Era
importante que novos sócios nela pudessem ingressar sem a outrora
in afastável anuência dos demais e esses, quando lhes aprouvessem,
deveriam ter a possibilidade de se retirar pela simples transferência de
suas acções a outrem, sendo, consequentemente, os títulos
representativos de seu capital, passíveis de livre circulação.

Além disso, deveria estar presente a possibilidade de uma


gestão exercida por pessoas estranhas ao capital social, ou seja, por
profissionais altamente qualificados na administração de empresas. E,
por fim, já que a gestão da empresa não caberia a todos os sócios, ou
então, a nenhum deles, ou aos demais, seria muito importante, senão
essencial, a possibilidade de inspecção e controle da administração.

Dessa forma, surgiram, no século XVII, as primeiras sociedades


anónimas propriamente ditas140, as sociedades coloniais de navegação
e comércio, dentre as quais as célebres Companhias Holandesas das
Índias Orientais e Ocidentais, fundadas, respectivamente, em 1602 e
1621. Essas grandes empresas nasceram estreitamente ligadas ao
Estado de vasto império ultramarino, mas que não dispunha de
recursos financeiros suficientes para mantê-lo e desenvolvê-lo, entre
eles Holanda, Inglaterra, França, Espanha e Portugal.141

140
FILHO, Alfredo Lamy Filho; José Luiz Bulhões Pedreira, A Lei das S/A. Rio de
Janeiro: Renovar, 1987, p 28.
141
GARRIGUES, Joaquim, Problemas actuais das sociedades anónimas, Porto Alegre:
Sérgio António Fabris Editor, 1982, p, 21.
129
Para que as novas terras pudessem ser exploradas de maneira
vantajosa, fez-se necessária a comunhão de esforços, sobretudo de
capitais, entre Estado e particulares, estes ávidos por riquezas e
dispostos a arriscar parcela de seu património para a consecução de
tal fim e, aquele, embora muitas vezes rico, e sem condições de
executar sozinho tão audaz empreendimento. Reside justamente aí a
motivação que levou à criação deste tipo societário.

Com esse escopo, o Estado outorgava às companhias


personalidade jurídica, reconhecia a autonomia entre o património da
sociedade e de seus sócios, a responsabilidade limitada ao capital
nelas aportada, bem como permitia a livre transmissão dos títulos
representativos de seu capital. São esses os genes que apontam para
as companhias coloniais de navegação e comércio como antepassado
mais similar da moderna sociedade anónima.

O sucesso das companhias coloniais foi possível porque a


sociedade anónima se mostrou ser um mecanismo extremamente
eficiente para o fomento dos grandes empreendimentos, ou seja, para
os quais se necessitava vultosa quantidade de capital. Neste contexto,
a total limitação da responsabilidade dos sócios ao capital investido na
companhia lhes garantia saber, de antemão, os prejuízos máximos que
poderiam ‫״‬amargar‫ ״‬em caso de insucesso da empresa.142

Assim, muitas pessoas não vacilaram antes de investir


consideráveis parcelas do seu património nesses novos negócios, o
que proporcionou a arrecadação de enormes somas de capital para as
grandiosas aventuras de além-mar.

2.1.6. Resenha de todas sociedades limitadas

142
GARRIGUES, Joaquim, Problemas actuais das sociedades anónimas, Porto Alegre:
Sérgio António Fabris Editor, 1982, p, 21.
130
Foi só em 1892, na Alemanha, que se legislou pela primeira vez
a criação de uma sociedade empresarial sob medida para os pequenos
e médios negócios143. Deveria ser a democratização do outrora
privilégio da limitação da responsabilidade dos sócios. Esse novo tipo
societário foi projectado para actuar como uma nova alavanca rumo
ao desenvolvimento económico, uma grande fonte de criação de
riquezas.

Sumário

Nesta unidade temática estudamos especialmente sobre as


sociedades comerciais onde elencamos os vários tipos societários.
Ficamos a saber que nas sociedades em nome colectivo, os
sócios respondem de uma forma ilimitada e subsidiária perante a
empresa e solidariamente, entre si, perante os credores. O número
mínimo de sócios é dois e podem ser admitidos sócios de indústria.
Para as sociedades em comanditas estão previstas no Ccom do
artigo 270 a 277.estas caracterizam-se pelos seus elementos serem
distintos a sociedade em nome colectivo, que compreende os sócios
comanditários, e a comandita de fundos. Estas são de
responsabilidade mista pois reúnem sócios cuja responsabilidade é
limitada (comanditários) que contribuem com o capital, e sócios de
responsabilidade ilimitada e solidária entre si (comanditados) que
contribuem com bens ou serviços e assumem a gestão e a direcção
efectiva da sociedade.
Já, para as sociedades de capital e indústria nos termos do
artigo artigo 278 do Ccom, caracteriza-se por possuir sócios que
contribuem para formação do capital com dinheiro, créditos ou outros
bens materiais e que limitam a sua responsabilidade ao valor da
contribuição com que subscreveram para o capital social.

143
NETO, Alfredo Gonçalves, Lições de Direito Societário, São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2004. v. 1, p. 188.
131
Nas sociedades por quotas o seu capital está dividido em
quotas e os sócios são solidariamente responsáveis por todas as
entradas convencionadas no pacto social. De forma directa, o sócio
responde apenas pela realização integral da sua quota que
subscreveu, mas de forma subsidiária, responde pela integralização de
todo o capital social na medida em que os demais sócios não o façam.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. Nas deliberações sociais, a lei prevê, no artigo 274 que os


sócios comanditários e comanditados votem em separado.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

2. Nos termos do artigo artigo 278 do Ccom, a sociedade de


capital e indústria caracteriza-se por possuir sócios que
contribuem para formação do capital com dinheiro e outros
sem nada.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

3. As sociedades anónimas são sociedades de responsabilidade


limitada no rigoroso sentido do conceito, porquanto os sócios
limitam a sua responsabilidade ao valor das acções por si
subscritas.

▪ Certo?

▪ Errado?

132
Resposta: Certo.

Exercícios

1. O que são sociedades por quotas?


2. Qual é a característica das sociedades de capital e indústria?
3. Indique, com base na lei, as espécies de sociedades em
comanditas.
4. Qual é a responsabilidade dos sócios nas sociedades em nome
colectivo?
5. Como é feita a transmissão entre vivos de partes sociais, nas
sociedades em nome colectivo?
6. Como é feita o capital social nas sociedades por quotas?
7. Como são realizadas as quotas nas sociedades por quotas?
8. Diga com base na lei qual é o número mínimo de sócios
admitidos nas sociedades anónimas?

UNIDADE Temática 2.2: Direito Comparado nas sociedades unipessoais e o caso de


Moçambique

Introdução

Nesta unidade temática iremos abordar matérias relacionadas


o Direito Comparado das sociedades unipessoais tendo em conta a
partir das várias obras discorridas entendeu-se que foi só em 1892, na
Alemanha, que se legislou pela primeira vez sobre a criação de uma
sociedade empresarial sob medida para os pequenos e
médiosnegócios. Esse novo tipo societário foi projectado para actuar
como uma nova alavanca rumo ao desenvolvimento económico, uma
grande fonte de criação de riquezas. Deste modo, pretendemos
apresentar de forma comparativa o tratamento que é ‫״‬dado‫ ״‬à

133
unipessoalidade, tomando em conta que este tipo societário foi
introduzido em vários ordenamentos jurídicos do universo.

Efectivamente pretende-se que o estudante, especificamente:

▪ Conheça as verticalidades das sociedades unipessoais na


União europeia, França, Portugal e Espanha.
Objectivos
▪ Perceber a dinâmica das sociedades unipessoais noutros
ordenamentos jurídico;

▪ Perceba o enquadramento das sociedades unipessoais na


ordem.

2.2.1. As sociedades na União Europeia

As sociedades limitadas com um único sócio foram reguladas


no direito comunitário europeu ainda na vigência da Comunidade
Económica Europeia ‫״‬CEE‫״‬, em 1989, pela Décima segunda directiva
do conselho 89/667‫״‬/CEE‫״‬.144
Logo no preâmbulo da directiva é possível vislumbrar a
necessidade de adopção da sociedade com único sócio, especialmente
no que diz respeito às pequenas e médias empresas; mas também se
verifica a preocupação do legislador em evitar as precursões negativas
que tal estrutura pode acarretar. Assim, a Directiva procurou regular
as relações internas e externas da sociedade unipessoal, primando
pela publicidade e garantia dos credores.145

144
NETO, Alfredo Gonçalves, Lições de Direito Societário, São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2004, v. 1, p 188.
145
Idem.
134
A Directiva é bastante sucinta, trazendo apenas aspectos
fundamentais relativamente às sociedades unipessoais, a saber:146

✓ Possibilidade de constituição de sociedade com um só sócio


‫״‬unipessoalidade orgânica‫ ״‬ou reunião de todas as partes
sociais em uma única pessoa ‫״‬unipessoalidade superveniente‫״‬.
✓ Possibilidade de adopção, pelos Estados-membros, de
disposições especiais ou sanções no que diz respeito a uma
única pessoa natural ser sócia de mais de uma sociedade
unipessoal; ou b) Uma sociedade unipessoal ou pessoa
colectiva ser sócia única de uma sociedade;
Necessidade de divulgação em caso de unipessoalidade
superveniente
✓ Obrigatoriedade de adopção de forma escrita para as decisões
tomadas pelo sócio único e para contratos celebrados entre o
sócio e a sociedade;
✓ Possibilidade de o Estado-membro deixar de adoptar as
sociedades unipessoais caso sua legislação preveja a existência
de empresas de responsabilidade limitada com património
afectado à actividade e desde que, no que se refere a essas
empresas, se prevejam garantias equivalentes às impostas às
sociedades unipessoais.

A Directiva 89/667/CEE foi integralmente substituída pela


Directiva 2009/102/02 do parlamento e Conselho Europeus de 16 de
Outubro de dois mil e nove. A nova Directiva apenas consolida as
alterações sofridas pela Directiva 89/667/CEE ao longo dos anos, em
especial no que diz respeito aos países membros e tipos societários de
cada um em que é possível a unipessoalidade.
As sociedades unipessoais na união Europeia foram adoptadas,
dentre outros, pelos seguintes Estados-membros: Irlanda, Grécia,

146
Idem.
135
França, Espanha, Itália, Luxemburgo, Portugal e Reino Unido. Destes,
passamos a analisar com maior profundidade os ordenamentos
jurídicos, francês, português e espanhol.

2.2.2. No direito francês

A partir de 1970, teve na França um movimento no sentido de


permitir a limitação de responsabilidade do comerciante individual.
Diversos projectos de Lei se sucederam neste sentido, alguns visando à
adopção da sociedade unipessoal ‫״‬ora como tipo societário sui
generis, ora dentro do regime das sociedades limitadas‫״‬, outros a
técnica de afectação de património de afectação.147
A legislação francesa foi fortemente influenciada pela
concepção contratualista clássica. Assim, de maneira geral, o
património de afectação tinha a preferência dos autores, por uma
razão essencialmente dogmática: a sociedade, como grupo de pessoas
por essência, não poderia ser unipessoal.

Quando da discussão do repport elaborado pelo professor


Claude champaud ‫״‬1978‫ ״‬para estudo da introdução da limitação de
responsabilidade do empresário individual, o legislador local
sustentava a superioridade da fórmula não societária, com o
argumento de que era necessário evitar as ficções.148
O projecto propunha a criação de trois masses actives et
passeves du patrimoine de I,enteprise : uma destinada a empresa
‫״‬património de afectação‫״‬, que não poderia servir como garantia aos
credores pessoais do sócio; a segunda não afectado a empresa, mas
que poderia ser utilizada para as necessidades da empresa por
iniciativa de credores insatisfeitos ou do próprio empresário

147
FILHO, Calisto Salomão, A sociedade unipessoal, São Paulo: malheiros, 1995, P 33.
148
FILHO, Calisto Salomão, A sociedade unipessoal, São Paulo: malheiros, 1995, P 33.

136
‫״‬património disponível‫ ;״‬e a terceira exclusiva do empresário, para sua
sobrevivência.
Da mesma forma, o projecto previa a organização de um
sistema de mutualização de riscos, pelo qual seria obrigatório a adesão
a uma caixa de garantia comum aos empresários, para a qual todos
deveria contribuir.
Observam-se claramente os objectivos económicos do
projecto, ao instituir um património flexível para evitar eventuais
abalos creditícios e eliminar privilégio aos credores com maior poder
de barganha, que poderia exigir garantias pessoais. Todavia as quotas
da tal caísse de garantie seriam transferíveis, ano sendo, pois, uma
garantia efectiva, vez que poderiam ser exigidas pelos credores mais
fortes.
A título de exemplo, temos o projecto de Champaud que
entendia ser desnecessária a atribuição de personalidade jurídica à
empresa individual, uma vez que entendia que a personalização teria
por objectivo permitir a expressão de interesses comuns ligados à
existência de um património colectivo. Isso acabaria por dificultar a
transferência da empresa, já que, em regra, salvo previsão expressa no
estatuto, a empresa seria liquidada com a morte de seu titular.149
Da mesma forma, a cessão inter vivos dar-se-ia apenas co-
relação à totalidade da empresa, e ainda assim considerada uma
cessão de débito, atribuindo-se direito de oposição aos credores. Isso
tudo reduz a liquidez da empresa, além de criar um sistema
exageradamente complicado de separação patrimonial.
No caso da sociedade unipessoal, o sócio único, denominado
associe unique, exerce os poderes atribuídos à assembleia de sócios.
Assim, cabe à ele as deliberações ordinárias ‫״‬nomeação e destituição
de administradores, aprovação de acordos com a sociedade,
aprovação das contas e destinação dos resultados, entre outras‫״‬, as
decisões extraordinárias de alteração de status ‫״‬como aumento ou

149
DAIGRE, Jean-Jacques. ‫״‬la société unipersonnele‫״‬, in: Revue internationale de
droitcampare, v.42.nº2. société de Legislation Comparée: Paris, 1990. P.674
137
redução de capital, incorporação, fusão ou cisão da sociedade, etc.‫״‬. E
as resoluções que necessitem de unanimidade na SARL ‫״‬como
alteração da nacionalidade.150‫״‬
O sócio unipessoal não pode delegar seus poderes e todas as
decisões tomadas no exercício dos poderes típicos da assembleia,
devem ser registadas por escrito, sob pena de anulação a
requerimento de qualquer interessado.
A sociedade unipessoal não pode ser sócia única de uma
sociedade limitada, sob pena de dissolução da sociedade a pedido de
qualquer interessado. Todavia, a partir da promulgação do code de
commerce, em 2000, não há mais limitação para que a pessoa física
participe em mais de uma sociedade limitada.
A Enterprase unipersonnelle à Responsabilité limitée pode, a
qualquer tempo, tornar-se uma SARL pluripessoal ou mesmo se
transformar em outro tipo societário, desde que observados requisitos
legais.

2.2.3. No Direito português

Em 1986 o legislador português previu a necessidade de limitar


a responsabilidade do empresário em nome individual pelas dívidas
contraídas no exercício da sua empresa. Todavia, foi rechaçada, de
início, a possibilidade de adopção da limitação pela via societária
‫״‬sociedade unipessoal‫״‬. Para o legislador ressaltar, tratar-se da forma
prevalecente nos países europeus e de aceitação generalizada na
doutrina e na prática.151
Preferiu-se, em Portugal, inicialmente, a criação de um novo
instituto jurídico, o Estabelecimento Individual de Responsabilidade
Limitada “EIRL”, apesar da inovação que representa e das acrescidas
dificuldades de regulamentação que determina.152

150
Idem.
151
FILHO, Calisto Salomão, A sociedade unipessoal, São Paulo: malheiros, 1995, P 33.
152
Idem
138
Ao analisar a disciplina legal do EIRL deveria assentar-se na
construção da pessoa jurídica ou na ideia de património de afectação
especial; o legislador português voltou-se ao pragmatismo, não
reconhecendo ao ponto a importância fundamental, uma vez que
ambas as vias apontadas conduziam a resultados satisfatórios.
Considerando-se que a atribuição de personalidade jurídica ao
EIRL pareceu ao legislador ‫״‬um processo mais complicado e,
simultaneamente, mais artificial‫״‬, e sendo o objectivo principal do
instituto criar ‫״‬um expediente técnico legal que permita ao
comerciante em nome individual destacar do seu património geral
uma parte dos seus bens, para destinar à actividade mercantil‫״‬, viu-se
por bem conceber o EIRL com património separado, evitando a ficção.
Uma das grandes preocupações que nortearam o legislador
aquando da regulamentação jurídica do EIRL foi a garantia dos
interesses de terceiros que pretendam estabelecer relações com a
empresa. Neste sentido, o Decreto-lei n˚248/86 prevê a existência de
normas que assegurem a efectiva realização do capital do
estabelecimento e a fixação de um capital inicial mínimo, além de
previsões quanto a adequada publicidade dos actos concernentes ao
estabelecimento.153
Da mesma maneira, deve-se garantir a autonomia patrimonial
dos bens destinados à empresa, respondendo tais bens
exclusivamente pelas dívidas contraídas na exploração do EIRL e sem
que os bens pessoais do empresário sejam afectados por dívidas
decorrentes do exercício da actividade empresarial.
Em 1996, o legislador português reconheceu que a criação dos
estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada não atingiu
os resultados esperados, que eram, facilitar o aparecimento e,
sobretudo, o desenvolvimento de pequenas empresas. Convencido da
superioridade das sociedades unipessoais por quotas, do código das
Sociedades Comerciais ‫״‬decreto-lei n˚ 262/86‫״‬.

153
FILHO, Calisto Salomão, A sociedade unipessoal, São Paulo: malheiros, 1995, P 33.
139
No final de 1996, foi publicado o Decreto-Lei n.º 257/96, de 31
de Dezembro, que introduziu no ordenamento jurídico português uma
nova forma societária, a sociedade por quotas unipessoais ‫״‬SQU, e 154‫״‬
de responsabilidade limitada ao património afecto à actividade
empresarial.
No entanto, durante dezenas de anos, a sociedade composta
por um único sócio foi, no direito português, algo de inconcebível,
sendo ainda vista como um instituto deveras estranho, contraditório
nos seus próprios termos, na medida em que a sociedade se deveria
referir necessariamente a uma pluralidade de pessoas que nela se
associam.
Mesmo no actual estado legislativo e doutrinal, em matéria
comercial, parece entender-se que a concentração das partes sociais
nas mãos de único associado constitui uma excepção ao princípio da
contratualidade.
A legislação deixa claro o equívoco em não ter sido adoptada
limitação de responsabilidade pela forma societária na justificativa do
Decreto-lei n˚ 257/96. A título de exemplo temos:
‫״‬A consideração das sociedades de responsabilidade limitada
como a forma por excelência escolhida pelas pequenas e medeias
empresa. Na verdade, esta sociedade pode facilitar o aparecimento e,
sobretudo, o são desenvolvimento de pequenas empresas, que como
é reconhecido, constituem, principalmente em épocas de crise, um
factor não só de estabilidade e de criação de empresa mas também de
revitalização da iniciativa privada e da actividade económica em geral.
Permitem, efectivamente que os empreendedores se dediquem, sem
recurso a sociedade fictícia indesejáveis a actividade comercial,
beneficiando do regime da responsabilidade limitada”155.
É certo que a instituição das sociedades unipessoais por quotas
levantou inicialmente delicados problemas doutrinais. Não faltou

154
COSTA, Ricardo, A Sociedade por Quotas Unipessoal no Direito Português, Livraria.
Almedina, Coimbra, 2002, p 327.
155
COSTA, Ricardo, A Sociedade por Quotas Unipessoal no Direito Português, Livraria.
Almedina, Coimbra, 2002, p 327.
140
quem considerasse um ‫״‬absurdo‫ ״‬a existência legal de sociedades
unipessoais. Essa dificuldade recebeu uma resposta teórica, em que a
sociedade unipessoal constituiria a excepção a regra das sociedades
pluripessoais. Mas importa sobretudo facultar as pessoas uma forma
de limitação da sua responsabilidade que não passe pela constituição
de sociedades fictícias, com ‫״‬sócios de favor‫״‬, dando azo a situações
pouco claras no tecido empresarial.156
Foi esta realidade que justificou a directiva nº 89 / 667 / CE,
bem como as alterações legislativas ocorridas, designadamente em
Espanha com a lei 2/1995, de 23 de Março, em França com a lei nº 85
/ 697 de 11 de Julho de 1987.
Para a cabal prossecução dos objectivos enunciados, foram
consagrados alguns princípios de segurança, tanto do sócio como de
terceiros. Foram também tidas em conta as injunções da referida
directiva e a necessidade de prosseguir na via da harmonização das
legislações das dos Estados membros da União Europeia195‫״‬.
De acordo com o código das sociedades no direito luso a
sociedade unipessoal pode ser formada por sócio pessoa física ou
pessoa jurídica, sendo a unipessoalidade originária ou superveniente
‫״‬concentração na totalidade de um único sócio das quotas de uma
sociedade por quotas‫״‬. A transformação de sociedade colectiva em
sociedade singular dá-se por mera declaração do sócio remanescente,
que pode constar do próprio instrumento de cessão de quotas. 157

2.2.4. No Direito espanhol

A norma espanhola admite a existência de sociedades


unipessoais originárias e supervenientes. A sociedade unipessoal é
considerada originária quando ‫״‬constituída por um único sócio‫״‬,
sendo esta tanto pessoa física como jurídica. Já a unipessoalidade
superveniente decorre da sociedade que foi ‫״‬constituída de maneira

156
Idem.
157
COSTA, Ricardo, A Sociedade por Quotas Unipessoal no Direito Português, Livraria.
Almedina, Coimbra, 2002, p 327.
141
plurilateral e acaba concentrando todas as suas participações nos
maus de um único proprietário‫״‬.
Para resguardar direitos de terceiros, no caso de conversão de
sociedade pluripessoal é necessário observar a regra do artigo 129º da
Lei nº 2/1995, que determina a necessidade de registo da situação de
unipessoalidade no registo Mercantil, mediante escritura pública158.
Apesar da sua natureza distinta, a constituição da sociedade
unipessoal deve observar a regra geral, ou seja, constar da escritura
pública inscrita no registo mercantil. Portanto, devem ser observados
os mesmos critérios para a constituição das sociedades pluripessoais,
no que diz respeito à capacidade das partes e objecto da empresa.
A sociedade unipessoal se submete a um regime de
publicidade dos actos mais amplos do que aquele que rege as demais
sociedades. Qualquer alteração relativa ao corpo social deve ser
efectuada por meio de escritura pública, arquivada no Registo
Mercantil e a identidade do sócio único sempre deve ser revelada.
Pretendeu, pois, o legislador dar ampla publicidade destes
documentos àqueles que venham a contratar com a sociedade.
Contudo, a obrigatoriedade de revelar as condições do contrato pode
beneficiar eventuais concorrentes da sociedade, que terão acesso ao
seu conteúdo.159
Comparando estes três ordenamentos jurídicos, entendemos
que o legislador moçambicano não teve pensamento diferente do
legislador português, única diferença reside na distinção se quando
falamos das sociedades por quotas unipessoais estamos ou não
perante um tipo societário. Enquanto o legislador português considera
uma espécie das sociedades por quotas, o legislador moçambicano, no
nosso entender, consagra as SQUs, como um tipo societário.160

158
CHULIA, Francisco Vicent, Intruducción al derecho mercantil, Valência: Tirant lo
blanc, 1999, p 420.
159
CHULIA, Francisco Vicent, Intruducción al derecho mercantil, Valência: Tirant lo
blanc, 1999, p 420.
160
Idem
142
2.2.5. Questões levantadas no Direito moçambicano

No ordenamento jurídico moçambicano, a unipessoalidade é


representada pela consagração no Código Comercial, a existência de
sociedades por quotas unipessoais, onde de acordo com o nº1 do
artigo 328º do código comercial está dito, quaisquer pessoa singular
pode constituir uma sociedade por quotas de cujo ‫״‬capital, que
constitui uma quota única, seja inicialmente um único titular, que se
rege pelas disposições deste capítulo e, com as necessárias
adaptações, pelas disposições aplicáveis às sociedades por quotas‫״‬.

O problema principal do nosso trabalho é percebermos qual é


a verdadeira natureza jurídica do contrato de sociedade por quotas
unipessoais atendendo e considerando o artigo 980º do CC. Em função
deste problema, procuramos analisar o regime jurídico-legal das
sociedades por quotas unipessoais, discutindo em primeira instância,
se era procedente a consideração das sociedades por quotas
unipessoais como sociedades já que estas possuem um único sócio,
contradizendo assim com o preconizado no artigo acima citado e ainda
a 1ª parte do nº 1 do artigo 91º do C.Com.
Desta feita, procedemos a análise de duais teorias: a
contratualista e a institucionalista:
▪ A primeira assenta na ideia de que a sociedade comercial é
constituída por meio de um contrato que é o contrato de
sociedade. Está claro de que trata-se de um contrato
plurilateral ou multilateral, quer dizer, exige a presença de pelo
menos duas pessoas tal como é definido no art.º 980º do CC.
Também, é na verdade, um contrato plurilateral dirigido a uma
finalidade comum.

▪ A segunda defende que a vontade contratual não determina


livremente a condição jurídica da pessoa colectiva que criou,
pelo contrário, a pessoa colectiva em si. Como tudo ocorre na

143
sociedade por vontade dos sócios que são na verdade os
últimos que decidem por ela, embora existam administradores,
a sociedade há-de ser sempre uma instituição e não um
contrato. Isto é, o contrato em si nada reflecte senão aquela
pessoa colectiva que define e caracteriza todo o esquema que
esteve por detrás do próprio contrato de sociedade.

Os defensores desta teoria são unânimes ao afirmarem que


não se pretende de nenhuma forma negar que a sociedade deriva de
um contrato. Pretende-se sim, demonstrar que este contrato associa-
se a uma instituição que de princípio fundamenta a existência do
próprio contrato.
Da análise das duas teorias, resultou na nossa aderência à
teoria contratualista, considerando, desta feita, como procedente a
consagração das sociedades por quotas unipessoais como tal, porque,
esta é a realidade seguida por vários ordenamentos jurídicos,
discorridos no presente trabalho que optaram na aplicabilidade desta
teoria, considerando desta feita, a sociedade não só como fruto da
celebração do contrato mas também da existência da instituição.

Também, entendemos que embora não apareça claramente na


lei manifestada essa posição, somos de opinião que a classificação do
contrato de sociedade como um contrato de fim comum apresenta ser
a que melhor acomoda este debate. A sua classificação como tal, tem
grande relevância na determinação e na natureza do regime aplicável
as sociedades comerciais na medida em que:

1º A Inobservância da forma não implica imediatamente a nulidade ou


anulação do contrato de sociedade, a menos que este não possa
converter-se nos termos do art.293º do CC, ou não poder reduzir-se as
prestações válidas de acordo com o regime consagrado no art. 292º
por força do nº do art. 981º do CC. Dá-se aqui claramente, a

144
priorização da manutenção da instituição criada em prejuízo de meras
formalidades do próprio contrato com vista a assegurar a continuidade
do fim comum consagrado pelos sócios no momento da constituição
da sociedade.

2º O incumprimento do contrato por um ou alguns sócios não dá lugar


a rescisão do contrato por parte dos demais sócios diferentemente do
que acontece nos demais contratos com fundamento na “exceptio non
adimpleti contratus”.
Por estas razões, entendemos que a prevalência do fim comum
acompanha sempre a vida e os interesses da sociedade resultando daí
a nossa posição de que ele é um contrato de fim comum ou de
organização.
Portanto, somos de concordar com autores que defendem que
a sociedade unipessoal, por basear-se na figura da pessoa jurídica de
base associativa, acaba por se defrontar com o princípio de
contratualismo que exige a pluralidade de pessoas para a constituição
da sociedade. Mas com base na discussão acima apresentada e
tomando em conta a noção do art.º 980º do CC que anteriormente
apresentamos e nas finalidades que a justificam, pode-se concluir que
a nosso entender, ela corresponde a uma estrutura de colaboração, de
contribuições e de esforços para uma finalidade comum.

A posição que aderimos fica mais sólida quando subsidiámos a


ideia que refere à personalização das sociedades, que recebeu
contribuições de carácter institucional dos agrupamentos medievais e
das companhias de comércio dos séculos XVII e XVIII. No entender
destes, ‫״‬sociedade deixa de ser essencialmente contratual e passa a
ser também vista como instituição, quando a limitação da
responsabilidade surge e se atrela à autonomia patrimonial‫״‬.
Não esqueçamos que o problema a que propomo-nos a analisar é de
percebermos a verdadeira natureza jurídica do contrato de sociedade

145
por quotas unipessoais atendendo e considerando o artigo 980º do
CC.
Tomando em consideração o ilustrado no art.980º do CC,
entendemos que o contrato de sociedades por quotas unipessoais,
reveste-se de natureza distinta, da natureza concebida para
constituição de sociedades comerciais em geral, pelo facto da retirada
de um dos elementos concebidos para o contrato da sociedade,
constantes do artigo citado no parágrafo antecedente.
Trata-se do elemento pessoal que deixa a ideia de pluralidade
de pessoas quando dispõe que o «contrato de sociedade é aquele em
que duas ou mais pessoas se obrigam…». Esta descrição da lei
encontra fundamentação no artigo 91º do C.Com.
Na verdade, ao estabelecer no nº 1, o número de sócios em
dois, por um lado o legislador reconheceu que o contrato de sociedade
pressupõe um mínimo de declarações negociais para sua efectividade.
Por outro lado, a própria palavra sociedade em termos gerais
pressupõe a existência de mais do que uma pessoa.
Contudo, deparamo-nos com situações que resultam da
própria lei em que o elemento pessoal pode ser reduzido. Esta
redutibilidade do elemento pessoal ocorre por exemplo na sociedade
por quotas unipessoal prevista no art.º 328º e seguintes do C.Com.
Entendemos que sempre estará presente o elemento pessoal mesmo
neste caso em que ele se reduz apenas a uma pessoa.
A questão que pode-se colocar é a seguinte: Estamos ainda
neste caso perante uma sociedade? Que tipo de sociedade é esta? Por
outras palavras, esta sociedade existe independentemente de todas as
demais e particularmente, independente da sociedade por quotas?
Se atentarmos a estrutura do Ccom moçambicano,
especialmente no seu livro II, titulo II, constataremos que a sua divisão
em capítulos compreende seis capítulos dos quais, o capitulo V é
exclusivamente reservado a esta sociedade. Do ponto de vista
estrutural, dúvidas não nos restam que foi intenção do legislador

146
considerar um tipo societário igual e independente de qualquer outro
previsto na lei.
Conhecida a natureza do contrato das sociedades por quotas
unipessoais, passemos a análise do regime jurídico-legal pelo qual se
regem. Por conseguinte, realizamos o estudo sobre o versado nos
artigos 328º e ss do Ccom, no sentido de percebermos até que ponto
está acautelado o regime deste tipo societário.
De facto, vários ordenamentos jurídicos discorridos
reconhecem a existência de sociedades com único sócio. Por exemplo
no ordenamento jurídico português, deixa claro que a sociedade por
quotas unipessoal é simples espécie das sociedades por quotas, tendo
enquadrado no capítulo X do título III do código das sociedades
comerciais. Desta forma torna-se compreensível a aplicação do regime
jurídico das sociedades por quotas às sociedades por quotas
unipessoais.
No caso concreto do ordenamento jurídico moçambicano,
onde o legislador, do nosso ponto de vista, proclama as sociedades
por quotas unipessoais como um tipo societário, estas, regem-se
maioritariamente pelo regime concebido para as sociedades por
quotas. Na nossa concepção, torna-se inconcebível que este dependa
do regime de outro tipo societário porque, isso, retiraria a igualdade e
independência que o legislador atribui a este tipo societário ao
enquadrar no Capítulo V do Título II do Livro II do Ccom. Da mesma
maneira, significaria que este tipo societário desapareceria com a
extinção do tipo societário de que depende.
Prosseguindo com nosso ponto de vista, em relação ao
pensamento do legislador moçambicano, segundo qual as sociedades
por quotas unipessoais compreendem um tipo societário, entendemos
que urge a necessidade de inserirão deste tipo societário no nº 1 do
artigo 82º do C.com como um dos tipos societários.
Há que se dizer que, de facto, esta constitui no nosso entender,
uma preocupação de extrema importância porque uma vez inseridas

147
no referido artigo, poderia dissipar as dúvidas que pairam a volta da
tipicidade das sociedades por quotas unipessoais e evitaria a
contrariedade patente entre o nº 1 do artigo citado no parágrafo
antecedente e Capítulo V do Título II do Livro II do Ccom
moçambicano.
Entendemos assim porque, por um lado, embora na estrutura
do código comercial na parte relativa as sociedades comerciais seja
feito em capítulos integrando este ʺtipoʺ societário no capítulo V,
sugerindo a sua autonomia, o artigo 82º do C.Com que consagra os
tipos societários e o princípio da tipicidade destas, não faz referência a
esta sociedade. Limita-se a indicar a sociedade por quotas na lista o
que sugere desde logo que a sociedade por quotas unipessoal não
goza deste estatuto. Por outro lado, a remessa que a parte final do nº
1 do artigo 328º faz ao regime das sociedades por quotas, pode ser
também, pressuposto da contrariedade que temos vindo a evocar.
Na verdade, a unipessoalidade societária corresponde em
termos de consagração legal no nosso código uma novidade, que veio
colmatar a dificuldade que existia e que era imposta pelo regime do
artigo 980º do CC que exigia a presença de mais do que uma pessoa
para efeitos de constituição de uma sociedade.
Tal imposição legal criava situações de sociedades fictícias em
que a presença de outra pessoa na sociedade tinha em vista apenas a
exigência legal mas, que na verdade, e muitas vezes esses sócios do
ponto de vista factual não sabiam e nem tinham interesse de nada do
que se passava na sociedade em que eram partes.

A aplicabilidade do regime jurídico das sociedades por quotas


às sociedades por quotas unipessoal, remete-nos ao pensamento de
que estas não constituem um tipo societário mas sim uma espécie de
sociedades por quotas como são as sociedades constituídas entre
cônjuges.
É nosso entender que a comparação de vários ordenamentos

148
que consagraram este tipo societário dever-se-ia, com base nas
disposições já existentes no código comercial, criar-se um regime
autónomo para reger as sociedades por quotas unipessoais,
complementando deste modo as existentes nos artigos 328º, 329º e
330º do C.Com, já que se sabe que as sociedades por quotas
unipessoais possuem uma designação e firma próprias.
Na nossa concepção, entendemos que desta forma tornaria
este tipo societário mais compreensível e facilitaria aos interessados
em desenvolver as pequenas e médias empresas, fórmulas eficazes
para sua prossecução. Estamos a falar, por exemplo, da
subcapitalização que seria bastante benéfica à instituição, à
similaridade de diversos outros países, de valores mínimos de capital
para constituição de sociedades.
Com a introdução do regime autónomo para reger as
sociedades por quotas unipessoal, entendemos que várias situações
como a que nos referimos no parágrafo anterior e tantas outras, serão
de fácil interpretação como acontece com as já previstas, que
passamos a discorrer:
“O regime das deliberações que vigora nas sociedades por quotas
pluripessoais, há-de corresponder ao das decisões nas sociedades por
quotas unipessoais. Para o efeito, as decisões sobre matérias que por
lei são da competência deliberativa dos sócios nas sociedades por
quotas serão aqui tomadas sobre a forma de decisão pelo sócio único
e lançadas num livro destinado a esse fim, com assinatura do mesmo”.
O sócio único ou interposta pessoa pode directamente celebrar
contrato com sociedade mediante prévio relatório elaborado por um
auditor de contas que não tenha qualquer relação com a sociedade.
No relatório, deve constar claramente a tutela dos interesses
da sociedade e respeitar as condições e preços normais do mercado,
sob pena de não haver, lugar à sua celebração. Procedendo deste
modo, assegura-se que o sócio não coloque em risco o interesse social
com prejuízos para terceiros e igualmente, permite a separação do

149
interesse pessoal e interesse social, etc.‫״‬
Ora, no contexto das sociedades unipessoais, um dos
elementos acima indicados na noção de sociedade é retirado,
nomeadamente o elemento pessoal, uma vez que a mesma tem um
único sócio. Assim, quando o elemento pessoal é retirado da noção de
sociedade, estamos perante uma sociedade unipessoal, em que
apenas uma única pessoa singular é titular de uma única quota.
A partir dos vários autores cujas ideias foram sendo abordadas
ao longo do nosso estudo, entendemos que este tipo de sociedades
tem vantagens quando comparada aos demais tipos societários, bem
como ao empresário em nome individual, nomeadamente:
✓ Inaplicabilidade do regime da responsabilidade solidária no
pagamento da quota do sócio remisso, tal como acontece nas
sociedades por quotas, porque apenas existe um titular da
quota;
✓ Incentivo e promoção de iniciativas empresariais individuais;
✓ Não é necessário envolver terceiros para atingir o número
mínimo de sócios conforme por vezes acontece na constituição
de sociedades;
✓ O controlo sobre a actividade da empresa é igual ao da
empresa individual, uma vez que também existe apenas um
proprietário;
✓ Agilidade no exercício da gestão económica da sociedade, visto
não se encontrar dependente de órgãos colegiais para a
formação da vontade social; e
✓ A responsabilidade do sócio resume-se ao capital social, ou
seja, o seu património pessoal não responde pelas dívidas
contraídas no exercício da actividade da empresa, excepto no
caso de declaração de falência, se provar que o património
social não foi exclusivamente afectado ao cumprimento das
respectivas obrigações.

150
Sumário

Nesta Unidade temática aprendemos que:


As sociedades limitadas com um único sócio foram reguladas
no direito comunitário europeu ainda na vigência da Comunidade
Económica Europeia ‫״‬CEE‫״‬, em 1989, pela Décima segunda directiva
do conselho 89/667‫״‬/CEE‫״‬.

As sociedades unipessoais na união Europeia foram adoptadas,


dentre outros, pelos seguintes Estados-membros: Irlanda, Grécia,
França, Espanha, Itália, Luxemburgo, Portugal e Reino Unido. Destes,
passamos a analisar com maior profundidade os ordenamentos
jurídicos, francês, português e espanhol.

A partir de 1970, teve na França um movimento no sentido de


permitir a limitação de responsabilidade do comerciante individual.
Diversos projectos de Lei se sucederam neste sentido, alguns visando à
adopção da sociedade unipessoal ‫״‬ora como tipo societário sui
generis, ora dentro do regime das sociedades limitadas‫״‬, outros a
técnica de afectação de património de afectação

Em 1986 o legislador português previu a necessidade de limitar


a responsabilidade do empresário em nome individual pelas dívidas
contraídas no exercício da sua empresa. Todavia, foi rechaçada, de
início, a possibilidade de adopção da limitação pela via societária
‫״‬sociedade unipessoal‫״‬.

No ordenamento jurídico moçambicano, a unipessoalidade é


representada pela consagração no Código Comercial, a existência de
sociedades por quotas unipessoais, onde de acordo com o nº1 do
artigo 328º do código comercial está dito, quaisquer pessoa singular
pode constituir uma sociedade por quotas de cujo ‫״‬capital, que
constitui uma quota única, seja inicialmente um único titular, que se
rege pelas disposições deste capítulo

151
e, com as necessárias adaptações, pelas disposições aplicáveis às
sociedades por quotas‫״‬.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. No Direito Francês, em 1986 o legislador português previu a


necessidade de limitar a responsabilidade do empresário em
nome individual pelas dívidas contraídas no exercício da sua
empresa.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

2. A norma espanhola não admite a existência de sociedades


unipessoais originárias e supervenientes?

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

3. No Direito moçambicano, as sociedades por quotas unipessoais


estão previstas no nº1 do artigo 328º do Código Comercial.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. Vários ordenamentos jurídicos discorridos reconhecem a


existência de sociedades com único sócio.

152
▪ Certo?
▪ Errado?

2. A aplicabilidade do regime jurídico das sociedades por quotas


às sociedades por quotas unipessoal, remete-nos ao
pensamento de que estas não constituem um tipo societário
mas sim uma espécie de sociedades por quotas como são as
sociedades constituídas entre cônjuges. Justifique-se!

3. Qual é o regime jurídico adoptado pelo legislador


moçambicano nas sociedades por quotas unipessoais? Justifica
com base na lei.

4. No Direito português, em 1986 o legislador português previu a


necessidade de limitar a responsabilidade do empresário em
nome individual pelas dívidas contraídas no exercício da sua
empresa.

5. No Direito moçambicano é admitida a constituição de


sociedades unipessoais?

153
UNIDADE Temática 2.3. Exercícios do Tema

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante saiba resolver os


exercícios do tema anterior, conforme o aprendizado nas matérias ai
referidas.

Exercícios

1. Como é feita a transmissão entre vivos de partes sociais, nas


sociedades em nome colectivo?

2. No Direito moçambicano é admitida a constituição de


sociedades unipessoais?

3. Vários ordenamentos jurídicos discorridos reconhecem a


existência de sociedades com único sócio.

▪ Certo?

154
▪ Errado?

4. Qual é o regime jurídico adoptado pelo legislador


moçambicano nas sociedades por quotas unipessoais? Justifica
com base na lei.

5. O que são sociedades por quotas?


6. Qual é a característica das sociedades de capital e indústria?
7. Indique, com base na lei, as espécies de sociedades em
comanditas.

8. A aplicabilidade do regime jurídico das sociedades por quotas


às sociedades por quotas unipessoal, remete-nos ao
pensamento de que estas não constituem um tipo societário
mas sim uma espécie de sociedades por quotas como são as
sociedades constituídas entre cônjuges. Justifique-se!

9. Qual é a responsabilidade dos sócios nas sociedades em nome


colectivo?
10. Como é feita o capital social nas sociedades por quotas?
11. Como são realizadas as quotas nas sociedades por quotas?
12. Diga com base na lei qual é o número mínimo de sócios
admitidos nas sociedades anónimas?

13. No Direito português, em 1986 o legislador português previu a


necessidade de limitar a responsabilidade do empresário em
nome individual pelas dívidas contraídas no exercício da sua
empresa.

155
TEMA – III: TÍTULOS DE CRÉDITO

UNIDADE Temática 3.1. Princípios Gerais sobre os Títulos de Crédito

UNIDADE Temática 3.2. Títulos de Créditos em Especial

UNIDADE Temática 3.3. Exercícios do Tema

UNIDADE Temática 3.1: Princípios Gerais sobre os Títulos de Créditos.

Introdução

Para esta unidade temática relativa aos títulos de créditos, vamos


dedicar o assunto com maior propriedade, onde iremos dar a noção
do título de créditos, as suas características, sobretudo da literalidade,
autonomia, abstracção, autonomia da posição do portador do título de
crédito, o cheque, requisitos do cheque, sua classificação, o endosso,
aval, suas modalidades, as marcas, o uso da marca, e da livrança.

156
De forma específica, vamos:

▪ Saber o conceito do título de crédito e os seus


elementos;
Objectivos
▪ Identificar as características gerais dos títulos de crédito;

▪ Saber diferenciar o cheque da livrança e outros títulos;

▪ Saber o que é endosso e quando faz se o endosso;

▪ Conhecer a classificação dos títulos de créditos.

3.1.1. Noção e enquadramento legal sobre títulos de crédito

Antes de entrarmos em detalhes, o tema em discussão


encontra-se consagrado nos artigos 634 e seguintes do Ccom.
Nos termos da disposição acima, a lei consagra que “podem
emitir-se títulos de crédito não especialmente regulado por lei, desde
que deles conste claramente a vontade de emitir títulos dessa
natureza e a lei os não proíba.

Como conceito, título de crédito é um documento necessário


para exercitar o direito literal autónomo. Como noção diremos que
título de crédito é um documento que incorpora um direito literal e
autónomo, que legitima o seu titular a exercer e serve de suporte à
sua circulação e mobilização. Tem como função titular e incorporar
direitos de modo a permitir e facilitar a sua circulação e
mobilização.161
O comércio, quando realizado entre praças diferentes,
afastadas por vezes por si longas distâncias exige, para poder

161
VASCONCELOS, Pedro Pais de, Direito Comercial: Títulos de crédito, p 3.
157
desenvolver, modos de titulação, legitimação e circulação de direitos
diferentes dos clássicos do Direito Civil.
Os comerciantes ficam, por força do comércio, investidos em
créditos sobre outros comerciantes de outras praças. Podem ao
mesmo tempo ser devedores ainda outros comerciantes
eventualmente da mesma praça daqueles sobre quem têm crédito, ou
ainda outras praças. As dificuldades de circulação do dinheiro e as
exigências de celeridade e segurança no tráfego comercial trouxeram,
através da história a criação, espontânea como praxe comercial, de
documentos especiais “ cartulas” em que os comerciantes faziam
constar os seus créditos.162
Esses documentos serviam para definir, para circular, para
cobrar e para mobilizar os créditos que neles estavam documentados.
Serviam para definir porque se entediam o direito documentado valia
exactamente como constava do documento: não era permitido
discutir ou invocar eventuais divergências entre o direito e o
documento.
Serviam para circular os créditos documentados através da
circulação dos próprios documentos: entendiam-se que com a
transmissão do documento se transmitia o próprio crédito
independentemente do consentimento e até do conhecimento do
devedor. Serviam para cobrar e para exercer os direitos neles
documentados: davam legitimidade ao seu portador para os cobrar,
desobrigando quem pagasse ao portador, não podendo ao portador
do documento que o apresentasse a pagamento ser posto o que não
fosse ele o credor originário, nem ao devedor que tivesse pago ao
portador ser oposto que o tivesse pago ao terceiro.163
Serviam para mobilizar os créditos: permitiam ao credor a
prazo antecipar o valor económico do seu crédito vendendo o
documento a um terceiro que o iria cobrar no vencimento, ou

162
Idem.
163
VASCONCELOS, Pedro Pais de, Direito Comercial: Títulos de crédito, p 3.

158
pagando com ele dívida que tivesse, o que facilitava a concessão de
crédito indispensável à actividade comercial. Os títulos de créditos
nasceram antes da existência do papel-moeda, em época em que era
grande perigo transportar somas importantes de dinheiro e então na
origem das próprias notas do banco que nasceram, elas próprias como
título de crédito.
O regime jurídico do direito civil não permitia, nem segurança,
nem celeridade, nem circulação de direitos de que o comércio carecia.
A solução prática encontrada pelos comerciantes consistiu na
“coisificação” dos direitos através da sua “incorporação” em
documentos – títulos – que seguissem depois o regime da circulação
das coisas móveis. Os títulos de crédito e o seu regime foram criados
pela prática dos comerciantes fora dos quadros do direito civil. São
características gerais dos títulos de crédito: a literalidade, autonomia,
incorporação, legitimação e circulação.

a) Características dos títulos de créditos

▪ LITERALIDADDE
O título de crédito é um documento literal, que significa que o
conteúdo literal ou gramatical do título corresponde ao direito
“cartular” que por ele representado, de modo que o conteúdo,
natureza e os limites deste têm o âmbito e valor que resultar do
próprio título. Isto é, só os dizeres e as menções constantes do
documento podem servir para definir e delimitar o conteúdo do
direito nele incorporado.164
Com palavras simples diremos que os títulos de crédito são
literais. Para dizer que os títulos de créditos são documentos escritos e
que das palavras e algarismo escritos no documento (literais) consta
ou resulta o direito nele documentado. O conteúdo e a extensão do
direito contido no título são aqueles que dele constarem escritos165.

164
MUALEIA, Fernanda e VALE, Sofia, Guião Prático de Direito comercial, pg. 181
165
Idem.
159
Cada título a lei estabelece respectivos pressupostos que
constituem o suporte desta característica.
A literalidade não é igualmente intensa em todos títulos de
créditos. É quase absoluta nos títulos abstractos: letras livrança,
cheque e estrato de facturas, em que só podem ser invocadas pelo
obrigado excepções extra cartulares originadas em convenção
exteriores que o liguem com o próprio portador-credor e não com
qualquer outro dos intervenientes cambiários.
Nas acções das sociedades anónimas, que são títulos de crédito
causais que incorporam o direito social do accionista, a literalidade
existe por referência; o título não contêm impressa a totalidade dos
direitos e deveres do accionista, para ao quais dificilmente haveria
espaço limitando-se a remeter para o contrato de sociedade, no qual
faz contar os necessários elementos de identificação.

▪ AUTONOMIA
Como característica dos títulos de crédito significa a
independência da posição de cada portador do título de crédito, isto é,
que o direito do portador de um título de crédito é autónomo em
relação aos direitos precedentes. O que daqui resulta é
inoponibilidade das excepções pessoais no plano das relações
cartulares, que não podem ser opostas a um portador as excepções
que não lhe digam respeito, mais sim um anterior portador.
Os títulos de créditos não surgem do ex nihilo no mundo do
direito, nem no tráfego comercial. Tem sua origem num negócio ou
pelo menos numa situação jurídica para cuja documentação,
circulação, mobilização ou cobrança são emitidos.
O direito incorporado pelo título é diferente daquele que o
originou, é um outro direito. O direito incorporado no título designa-se
por direito cartular; o direito que lhe deu origem denomina-se por
direito subjacente.
Quando alguém que é credor de outrem recebe o pagamento

160
por cheque, o direito em que fica investido como portador desse
cheque é diferente do direito de crédito que tem sobre o devedor que
lhe pagou com o cheque. O montante é o mesmo. O devedor mudou:
passou a ser o banqueiro sacado.
Sendo diferente dos direitos subjacentes, o direito cartular lhes
é autónomo. Quer dizer que não são misturáveis e mantêm se
distintos os seus regimes jurídicos.

▪ ABSTRAÇÃO OU AUTONOMIA DO TÍTULO

Os títulos valem independentemente da relação fundamental


que é subjacente à sua criação e transmissão, afirmando-se no tráfego
negocial exclusivamente com base na respectiva aparência
(literalidade). O direito inerente ao título de crédito representa uma
relação jurídica nova e distinta da que esteve na base da emissão do
título de crédito.

b) Autonomia da posição do portador do título

O detentor de uma letra é considerado portador legitimo se


justifica o seu direito por uma série ininterrupta de endosso, mesmo
no último for em branco e se a pessoa foi por qualquer maneira
desapossada de uma letra, o portador dela, desde que justifique o seu
direito por uma série ininterrupta de endossos, não é obrigado a
restituir salvo se adquiriu de má-fé ou se, adquiriu-a cometeu uma
falta grave.
O regime de autonomia do portado diverge e não se
confundido com o da autonomia do direito cartular. Quando se fala de
autonomia cartular está-se a relacionar e autonomizar o direito
emergente do título e nele incorporado do direito subjacente, que
funcionalmente o originou a emissão, o endosso ou outro acto
cartular. Quando se trata da autonomia a propósito da posição do

161
portador, o que se está a relacionar e autonomizar é a titularidade do
título pelo seu portador em relação à de outros portadores anteriores
que do título tenha sido desapossado.166
Os títulos de créditos são coisa móveis, e como tais objecto
idóneo de direitos reais. Assim, os títulos podem ser objecto de
propriedade, compropriedade, de usufruto, de penhor, de retenção,
usucapião e são susceptíveis de posse.
A titularidade do título traduz-se na titularidade de direito real
sobre ele, considerando como coisa móvel. O título circula de acordo
com a sua lei de circulação e conforme à ordem, nominativo ou a
portador, circula (transmite-se) por endosso, por lançamento do
pertence ou por simples tradição.
O portador do título, quando esteja legitimado de acordo com
a respectiva circulação, tem a sua titularidade, quer dizer ao seu
direito real sobre o título, indiscutível. Se na cadeia de circulação
algum anterior titular tiver sido ilicitamente desapossado do título,
não poderá reivindicar do actual portador.
De acordo com o regime geral do direito civil, aquele que tenha sido
ilicitamente desapossado de uma coisa imóvel de que seja proprietário
não perde por isso o seu direito e pode reivindicar de qualquer
possuidor ou detentor, salvo se ocorrer usucapião a favor do terceiro
possuidor.167
Neste regime do direito civil, o desapossado poderá sempre
reivindicar do portador do título. Não assim no regime dos títulos de
crédito. Autonomia da posição do portador traduz um regime
contrário: não obstante o desapossamento ilícito, o desapossado não
pode reivindicar o título do portador legitimado. O direito do
desapossado cede perante o do portador. Isto significa que a
titularidade de cada portador do título, na cadeia de circulação, é

166
MUALEIA, Fernanda e VALE, Sofia, Guião Prático de Direito comercial, pg. 197.
167
MUALEIA, Fernanda e VALE, Sofia, Guião Prático de Direito comercial, p 197
162
autonomia em relação à do anterior portador e não é afectada pelos
vícios de que sofra o direito daquele de quem recebeu título168.
A aquisição do título pelo portador, desde que feita de acordo
com a sua lei de circulação é uma aquisição originária. Não se trata de
transmissão feita pelo anterior ao actual portador em que, de acordo
com o regime geral, o transmitente transmite ao transmissário o seu
direito. O portador tem sobre o título de um direito que se constitui
originariamente na sua esfera jurídica e que não lhe é transmitido pelo
portador anterior.
As categorias dos títulos de crédito são vastas e bastante discutível a
própria terminologia e instituto que dela fazem parte.

3.1.2. CLASSIFICAÇÃO

A classificação mais importante dos títulos de crédito é feita


quanto a sua circulação, da seguinte maneira169:

▪ Títulos ao portador, títulos ao portador são aqueles declarados


como tais pela lei ou em que, pelo texto ou pela forma do
título, se depreende sem dúvida que a prestação é devida ao
portador deles.

▪ Títulos à ordem, são aqueles em que a pessoa do credor é


indicada no título e contém a cláusula à ordem ou que como
tais são declarados por lei.

▪ Títulos normativos, são aqueles em que a pessoa do credor é


indicada no título e no registo do emitente e que não são
emitidos à ordem nem declarados como tais pela lei.

168
Idem, p 198.
169
VALE, Sofia e MUALEIA Fernanda, Guia Prático de Direito Comercial, Escolar
Editora, Angola, 2003,pag.183
163
Sumário

Nesta unidade temática estudamos os títulos de credito onde


estabelecemos como conceito que é um documento necessário para
exercitar o direito literal autónomo. Como noção diremos que título
de crédito é um documento que incorpora um direito literal e
autónomo, que legitima o seu titular a exercer e serve de suporte à
sua circulação e mobilização. Tem como função titular e incorporar
direitos de modo a permitir e facilitar a sua circulação e mobilização.
Os títulos de crédito e o seu regime foram criados pela prática
dos comerciantes fora dos quadros do direito civil. E são
características gerais dos títulos de crédito: a literalidade, autonomia,
incorporação, legitimação e circulação.
Por fim, a classificação mais importante dos títulos de crédito é
feita quanto a sua circulação, da seguinte maneira: Títulos ao
portador, títulos ao portador são aqueles declarados como tais pela
lei; títulos à ordem, são aqueles em que a pessoa do credor é indicada
no título e contém a cláusula à ordem ou que como tais são
declarados por lei; e os títulos normativos que são aqueles em que a
pessoa do credor é indicada no título e no registo do emitente e que
não são emitidos à ordem nem declarados como tais pela lei.

Exercícios de Auto-Avaliação

1. Título de crédito é um documento não necessário para exercitar


o direito literal autónomo.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

2. Uma das características dos títulos de créditos é a sua

164
literalidade.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. Não existe nenhuma classificação legal sobre os títulos de


créditos, sendo apenas a classificação doutrinal.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

Exercícios

1. Qual é a classificação legal dos títulos de créditos?


2. Demonstre a base legal que fala sobre a transmissão dos
títulos ao portador.
3. Justifique com base na lei como é feita a estipulação dos
juros nos títulos de créditos.
4. Identifique duas características dos títulos de créditos?
5. Os títulos de créditos são coisa móveis, e como tais objecto
idóneo de direitos reais. Argumente!

165
UNIDADE Temática 3.2: Títulos de crédito em especial

Introdução

Nesta unidade temática pretendemos tratar de forma específica os


principais títulos de créditos como o Cheque e a Livrança, como
documento de carácter muito importante ao empresário comercial.
Neste sentido, vamos abordar matérias relacionados com os requisitos
da sua validade entre outros que forem pertinentes.

De forma mais específica queremos que o estudante esteja preparado


e saiba sobre:

▪ Falar dos cheques e seus requisitos de validade;

▪ Conhecer as funcionalidades da livrança;


Objectivos
▪ Conhecer as formas de endosso e o aval do cheque;

166
3.2.1. Cheques

a) Noção geral

Legalmente o cheque está previsto no artigo 782 e seguintes


do Código Comercial, contendo o que é essencial para a sua validade e
mais elementos necessários.
Cheque é um título através do qual uma pessoa ordena que
uma instituição de crédito, onde depositou fundos ou dispõe de
crédito, pague a si ou a terceiro ou a ordem a si ou ordem a terceiro
determinada quantia.
Cheque é o título de crédito que enuncia um pagamento, tal
como a letra, mas é uma ordem de pagamento dirigida a uma
instituição bancária onde o emitente do título possui uma previsão. O
cheque funciona como um meio de mobilização de fundos, quer em
benefício do emitente, quer em benefício de um terceiro170.
Cheque é o título à ordem, sujeito a certas formalidades, pelo
qual uma pessoa, que tem qualquer importância disponível num
banqueiro, dispõe dela total ou parcialmente.
O cheque é, pois, na sua essência e tal como a letra, uma
ordem de pagamento (dada pelo depositante ao banqueiro). Todavia,
se a letra pode consistir numa ordem de pagamento à vista ou a prazo,
e mais ordinariamente a prazo, a verdade é que o cheque tem sempre
a natureza de ordem de pagamento à vista.

b) Requisitos do Cheque

Os requisitos formais dos cheques estão estabelecidos no


artigo 782 do Ccom.

No essencial, o cheque deve conter:

170
VALE, Sofia e MUALEIA Fernanda, Guia Prático de Direito Comercial, Escolar
Editora, Angola, 2003, p183 .
167
A palavra cheque escrita no próprio texto do título e expresso em
língua portuguesa;

▪ O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada;

▪ O nome de quem deve pagar (sacado);

▪ A indicação do lugar em que o pagamento se deve efectuar;

▪ A indicação da data e do lugar onde o cheque é passado;

▪ Assinatura de quem passa o cheque (sacador).

Nos termos do artigo 783 do Ccom, o título a que faltar


qualquer dos requisitos enumerados não produz efeitos como cheque,
mas através das excepções seguintes podem ser consideradas
cheques:

▪ Não se indicando o lugar do pagamento, considera-se como tal


o lugar designado ao lado do nome do sacado e, na falta deste
ou de qualquer outro, o cheque é pagável no lugar em que o
sacado tem o seu estabelecimento principal.

▪ Não se indicando o lugar da emissão (lugar onde o cheque é


passado), considera-se como tal o lugar designado ao lado do
nome do sacador.

c) Formas do Cheque

O cheque pode revestir duas formas principais:

▪ Cheque nominativo; e

▪ Cheque ao portador.

▪ Cheque nominativo

168
É o que contém o nome da pessoa a que, ou à ordem de quem,
deve ser pago, não podendo sê-lo qualquer outra que no título não
esteja mencionada. Este cheque pode ser passado à ordem do próprio
sacador ou de terceira pessoa beneficiário.

▪ Cheque ao Portador

É aquele que não contém o nome da pessoa a quem deve ser


pago, podendo sê-lo a qualquer que se apresente a cobrá-lo.

É bom esclarecer que são considerados ao portador os cheques


sem indicação do beneficiário ou passados a favor duma determinada
pessoa, mas contendo a menção ou ao portador. E, nestes termos,
para que um cheque se considere nominativo, é sempre indispensável
que se risquem as palavras, é sempre indispensável que se risquem as
palavras, ou ao portador se, porventura, o impresso-cheque contiver
essas palavras.

Convém acrescentar ainda que o cheque não pode ser passado


sobre o próprio sacador, salvo no caso em que se trate dum cheque
sacado por estabelecimento sobre o outro estabelecimento, ambos
pertencentes ao mesmo sacador, nomeadamente pela Sede de um
banco sobre a sua Filial ou Agência, e vice-versa.

Qualquer cláusula de juros inserta no cheque considera-se


como não escrita, e, na hipótese de divergência entre a importância
do cheque, escrita em algarismos e por extenso, prevalece a quantia
de que se encontra mencionada por extenso.

O sacador do cheque é sempre responsável pelo seu


pagamento e, por isso, se considera como não escrita qualquer
cláusula pela qual o sacador se pretenda eximir a esta garantia.

Quais das duas espécies de cheque, nominativo ou ao


portador, encerra maiores vantagens práticas?

169
A resposta varia consoante as circunstâncias especiais em que
o cheque é passado. Assim, suponhamos que Trindade reside em
Lichinga, pretende pagar uma dívida que contraiu para com Marcus,
residente Nampula, e que o faz por maio de cheque enviado para esta
última cidade. Como o documento se emitente ou de terceira pessoa
beneficiário. Pode extraviar, convém ser nominativo a fim de se enviar
que qualquer pessoa o possa receber.

Estabelecendo uma outra hipótese em que Trindade efectuar,


na cidade de Lichinga a compra duma mobília na loja do comerciante
Hussene, e querer pagá-la por meio de cheque sobre um banco da
cidade de Lichinga. Hussene tem necessidade de receber prontamente
a importância do cheque e tenciona apresentá-lo de seguida no
referido banco. Neste caso é mais vantajoso o cheque ao portador,
pois as probabilidades de extravio são diminutas e as facilidades de
cobrança para estes cheques são muito maiores do que para os
cheques nominativos.

Para estes últimos serem cobrados, o beneficiário terá de


passar recibo no próprio cheque e, quando não seja depositante do
banco sacado, a sua assinatura deverá ser reconhecida por notário ou
abonada por um comerciante que no banco tenha conta.

Além de tudo isto, o cheque ao portador tem ainda a vantagem


de se poder utilizar quase como uma nota de banco, pois, com ele se
pode efectuar qualquer pagamento sem necessidade do seu endosso
(dentro dum prazo restrito, evidentemente).

d) Endosse

O cheque, quando nominativo, tem a natureza de título a


ordem e, portanto, é transmissível por meio do endosso só perde este
carácter por declaração expressa em contrário, inscrevendo-se no
cheque à cláusula não à ordem ou

170
outra equivalente; e nestas condições, só é transmissível pela forma e
com os efeitos duma cessão ordinária.

O endosso deve ser puro e simples, considerando-se como não


escrita qualquer condição a que ele esteja subordinado. Pode ser feito
mesmo a favor do sacador ou de qualquer outro co-obrigado e estas
pessoas podem endossar novamente o cheque.

A lei permite o endosso ao portador, que vale como endosso


em branco, mas proíbe taxativamente certas formas de endosso:

▪ O endosso parcial; e

▪ O endosso feito pelo sacado.

Exemplos:

Cardoso é beneficiário e portador dum cheque de


100.000,00mts sobre determinado banco, pretende com ele pagar a
Carlos uma dívida no montante de 5000,00mts e endossa-o só por
metade do seu valor.

A lei considera nulo este endosso parcial e compreende-se


assim seja por uma razão de ordem prática, além de outros motivos de
ordem doutrinária. Quem seria, no endosso parcial, o legítimo
portador do cheque ou, o que é o mesmo, quem teria o direito de o
receber no banco respectivo? O endossante ou o endossado?

Esta dificuldade é maior quanto é certo que, nos títulos de


crédito, a posse do documento é condição indispensável para se
exercer o direito nele contido.

Mas suponhamos que Cardoso beneficiário e portador do


mesmo cheque de 100.000,00mts, o foi cobrar no banco em questão.
Poderá esta entidade o banco sacado endossá-lo depois de o ter pago?

A lei estabelece a nulidade deste endosso feito pelo sacado, e a


razão de semelhante procedimento

171
torna-se evidente se considerarmos que a função específica do cheque
é levantar uma quantia que qualquer depositante tenha num
estabelecimento bancário. Logo que este facto o levantamento se
verifica, o cheque perdeu a sua razão de ser. Em todo o acto há um
princípio e um fim: o cheque nasce com a emissão, uma ordem de
pagamento e morre logo que esta ordem é cumprida.

Tal como nas letras, o endosso deve ser escrito no cheque ou


numa folha a este ligada (anexo), deve ser assinado pelo endossante e
pode revestir duas modalidades:

▪ Endosso completo;

▪ Endosso em branco (ou incompleto)

O endossante pode não designar o beneficiário ou consistir


simplesmente na assinatura do endossante (endosso em branco).
Neste caso último caso, o endosso, para ser válido, deve ser escrito no
verso do cheque ou na folha anexa, nos termos do nº2 do art.797º do
C.Com.

e) Aval

Segundo a doutrina, outro instituto importante do regime


jurídico dos cheques é o aval, acto cambiário pelo qual um terceiro (o
avalista) se responsabiliza pelo pagamento da obrigação constante do
título. O avalista, ao garantir o cumprimento da obrigação do
avalizado, responde de forma equiparada a este.

O aval também pode ser feito em branco, hipótese em que não


identifica o avalizado, ou em preto, caso em que o avalizado é
expressamente indicado.

Em termos legais, o aval vem especificado no artigo 806 do


Ccom.

172
Modalidades do Aval

O aval reveste também duas modalidades:

▪ Aval completo – constituído pela assinatura do avalista,


precedida das palavras «Dou o meu aval a favor de A...» ou a
expressão equivalente. Pode ser escrita em qualquer parte do
cheque ou do anexo (se o houver), nos termos do nº 1 do art.
807º do C.Com;

▪ Aval incompleto – constituído pela simples assinatura do


dador do aval escrita na face principal do cheque. Com
excepção da assinatura do sacador qualquer outra que se
encontre nesta face do cheque considera-se como de avalista,
com base no nº3 do art.º 807º do C.Com.

O dador do aval deve ter sempre o cuidado de indicar a pessoa


por quem se responsabiliza, mas, na falta dessa indicação, o aval
considera-se prestado ao sacador.

O avalista é responsável da mesma forma que o seu avalado; e


desde que pague o cheque, pode exigir o respectivo pagamento, tanto
da pessoa por quem se obrigou, como dos outros signatários para com
eles obrigados.

f) Pagamento, prazos de apresentação

O cheque é sempre pagável à vista, e por isso, a lei fixa o prazo


dentro do qual ele deve ser apresentado o pagamento171.

De acordo com o art.º 809º do C.Com. o cheque é pagável à


vista. Considera-se como não escrita qualquer menção em comércio. O
cheque apresentado a pagamento antes do dia indicado como data da
emissão é pagável no dia da apresentação.

171
CARDOSO, J. Pires, compendio de Noções de direito comercial, Atlântida Editora
S.A.R.L. Coimbra.
173
O prazo de apresentação a pagamento varia conforme os
casos, nos termos do artigo 810 do Ccom.

✓ Oito (8) dias, para os cheques pagáveis no mesmo país em que


foram passados;

✓ Vinte (20) dias, para os cheques pagáveis em país diferente


daquele em que foram passados, desde que ambos os países
de encontrem situados na mesma parte do mundo.

✓ Setenta (70) dias para os cheques pagáveis em país diferente


daquele em que foram passados, desde que ambos os países se
encontrem situados em diferentes partes do mundo.

Os prazos acima mencionados começam a contar a partir do


dia indicado no cheque como data da emissão.

O sacado pode exigir, ao pagador o cheque, que este lhe seja


entregue munido de recibo passado pelo. Em regra, o recibo é passado
no verso do cheque e constituído simplesmente pela assinatura do
portador, precedida das palavras recebi ou recebemos.

Tal como nas letras, o portador do cheque também não pode


recusar o seu pagamento parcial; e, nesta hipótese, o sacado tem o
direito de exigir que esse pagamento seja mencionado no título e que
lhe seja entregue o respectivo recibo.

g) Cheques Cruzados

Denomina-se cruzado, o cheque atravessado, na face principal,


por duas linhas paralelas, e que nem pode ser pago senão a um
banqueiro ou a um cliente do sacado. 172

172
Cfr. o artigo 818 do Ccom.
174
O cruzamento do cheque pode ser efectuado pelo sacador ou
pelo portador e reveste duas modalidades:

▪ Cruzamento geral;

▪ Cruzamento especial.

No cruzamento geral, atravessa-se simplesmente o cheque, ao


alto, por dois traços paralelos, podendo escrever-se ou não, entre eles,
a palavra banqueiro outra equivalente. Este só pode ser pago, pelo
sacado, a qualquer banqueiro ou a um cliente do sacado.

No cruzamento especial, precede-se do mesmo modo, mas


entre os dois traços escreve-se (em regra, também ao alto) o nome do
banqueiro que o deve receber. Este cheque só pode ser pago, pelo
sacado, ao banqueiro cujo nome está escrito entre os dois traços, ou
na hipótese de este nome ser o sacado, a um dos seus clientes.

O cheque com o cruzamento geral pode, em qualquer altura,


passar a cruzamento especial; basta, para isso, escrever entre os dois
traços o nome do banqueiro. Já o mesmo não sucede com o
cruzamento especial, que nunca pode ser convertido em geral.

A inutilização do cruzamento, o do nome do banqueiro


indicado, considera-se como não escrita.

h) Cheques a Levar em Conta

Dum modo geral, os cheques são pagos em numerário, em


dinheiro. A lei permite, no entanto, que o sacador ou o portador
proíbam o seu pagamento em numerário e, neste caso, o interessado
não tem o direito de receber a importância do cheque; esta só lhe
poderá ser lançada em conta, ou seja, creditada. Assim sucede sempre
que o sacador ou o portador inscrevam na frente do cheque ou outra
equivalente.

i) Acção Por Falta de Cobertura

175
O portador pode exercer os seus direitos de acção (isto é, pode
recorrer aos tribunais) contra os endossantes, sacador e outros co-
obrigados, se o cheque apresentado em tempo útil não for pago e se a
recusa de pagamento for verificada:

▪ Quer por um acto formal;

▪ Quer por uma declaração do sacado, datada e escrita sobre o


cheque, com a indicação do dia em que este foi apresentado;

▪ Quer por uma declaração datada duma camara de


compensação constatando que o cheque foi apresentado em
tempo útil e não foi pago.

O modo mais prático e frequente de fazer a verificação da falta


de pagamento, cheque sem cobertura ou cheque a descoberta, ou
seja, uma declaração do sacado, datada e escrita sobre o cheque.

O pretexto ou a declaração equivalente devem ser feitos


dentro do prazo de apresentação a pagamento (8, 20 ou 70 dias,
conforme os casos) mas, se o cheque foi apresentado no último dia do
prazo, aquelas formalidades podem ainda ser realizadas no primeiro
dia útil seguinte. Deve acrescer-se, também, que o não pagamento de
um cheque, por falta de previsão ou falta, de cobertura, apresentado
dentro dos prazos legais, é considerado crime e, como tal, o emitente
do cheque (sacador) está sujeito a responsabilidade criminal conexa
com a respectiva responsabilidade civil.

Nem sempre, porém o pretexto ou a declaração equivalente se


tornem imprescindíveis para garantir os direitos do portador do
cheque, por isso, à semelhança do cheque se passa nas letras.

O sacador, o endossante ou o avalista podem, pela cláusula


sem despesas, sem protestos ou outra equivalente dispensar o
portador de estabelecer um protesto ou outra declaração equivalente
para exercer os seus direitos de acção.

176
Nas condições a cima referidos, o portador dum cheque, que
nem haja sido pago, tem o direito de recorrer aos tribunais contra
qualquer das pessoas obrigadas, que são solidariamente responsáveis
para com ele. E pode proceder contra essas pessoas, individual ou
colectivamente, sem necessidade de observar a ordem segundo a qual
se obrigaram. O mesmo direito possui qualquer signatário que tenha
pago o cheque.

Toda a acção do portador contra os endossantes, contra o


sacador ou contra os demais co-obrigados, prescreve decorridos que
sejam seis meses, contados do termo do prazo da apresentação. E, se
qualquer dos co-obrigados pagou o cheque, o seu direito de acção
contra os outros prescreve no prazo de seis meses, contados do dia
em que tenha pago o cheque ou do dia em que ele próprio foi
accionado.

A acção do cheque prescreve em certo prazo significa que,


decorrido esse prazo, deixa de existir o direito de se recorrer aos
tribunais para reclamar do não pagamento dum cheque.

Para completar o estudo do regime jurídico do cheque, convém


ter presentes as seguintes disposições de ordem geral:

i. A palavra banqueiro compreende também as pessoas ou


instituições assimiladas por lei aos banqueiros;

ii. A apresentação e o proposto dum cheque só podem efectuar-


se em dia útil;

iii. Quando o último dia do prazo prescrito na lei, para a realização


dos actos relativos ao cheque, for feriado legal, esse prazo é
prorrogado até ao primeiro dia útil que se segui;

iv. Os prazos estipulados, em relação aos cheques, não


compreendem o dia que marca o seu início.

177
3.2.2. Livrança

a) Conceito

A livrança é um título à ordem, sujeito a certas formalidades,


pelo qual uma pessoa se compromete, para com outra, a pagar- lhe
determinada importância em certa data. É um documento onde o
consumidor ou empresa se compromete a pagar o montante a pagar
da dívida à entidade financeira. Normalmente, estes títulos de crédito
fazem parte integrante de um crédito, um banco só lhe concederá um
empréstimo depois de assinar a livrança. Assim, caso o devedor não
pague as prestações os bancos poderão usar esta garantia.
As empresas recorrem a este tipo de financiamento no sentido
de obterem recursos financeiros de curto prazo, cobrir despesas de
exploração e necessidades de tesouraria.
Este financiamento é suportado por um título de crédito no
qual, uma determinada quantia num prazo estipulado. As diversas
instituições bancárias disponibilizam este tipo de empréstimo. O prazo
de decisão varia entre 3 a 5 dias úteis, o prazo mínimo de
empréstimos é de 30 dias e em caso de pedido de reforma da livrança,
este tem que ser efectuado no prazo de 5 dias úteis antes do seu
vencimento.

As livranças são títulos executivos nos mesmos termos em que


as letras o são art.º46 e 51 do CPC, o primeiro na redacção do DL
nº38/2003, de 8de Março, diploma rectificado pela declaração nº
5c/2003 de 30 de Abril. A portaria nº 28/2000, de 27 de Janeiro,
aprovou os modelos de letras e livranças.
A livrança é pois, um título comprovativo de dívida que tem a
sua peculiaridade - visto ser “ à ordem” de se transmitir por endosso.

178
b) Requistitos da livrança

Em harmonia com artigo 778 do Código Comercial


moçambicano a livrança deve conter 7 elementos:
▪ A palavra “ livrança” escrita no texto do título;
▪ A promessa pura e simples de pagar uma quantia determinada;
▪ A época do pagamento;
▪ A indicação do lugar em que se deve efectuar o pagamento;
▪ O nome da pessoa a quem, ou à ordem de quem, deve ser
paga;
▪ A indicação data em que e do lugar onde a livrança é passada e
a assinatura de quem paga a livrança (subscritor).

Estes representam requisitos indispensáveis da livrança.

c) Efeitos da ausência dos requisitos

O escritor em que faltar algum dos pressupostos indicados e


elencados não produzirá resultados como livrança, salvo as excepções
seguintes173:
Quando se não se indique a época do pagamento, a livrança
considera-se pagável à vista; quando se não indicar o lugar do
pagamento, considera-se como tal o lugar onde o escrito foi passado,
e este considerar-se-á também lugar do domicílio do subscritor da
livrança; quando se não indique o lugar onde a livrança foi passada,
considera-se como tal o lugar designado ao lado do nome do
subscritor.
O subscritor da livrança é responsável da mesma forma que o
aceitante da letra. Em geral, são aplicáveis às livranças, na parte em
que não sejam contrárias, à natureza deste título as disposições legais
que regulam a matéria das letras.

173
CARDOSO, J. Pires, Compêndio de Noções de Direito comercial, pg. 309
179
Sumário

Nesta Unidade temática aprendemos que:


Sumário.

Na presente temática que acabamos de desenvolver,


abordamos matérias relacionadas com o título de crédito em especial
o cheque a livrança.

Para começa, recorde-se que título de crédito é um documento


necessário para exercitar o direito literal autónomo. Ela tem como
função titular e incorporar direitos de modo a permitir e facilitar a sua
circulação e mobilização.

Abordamos matérias relacionadas com o cheque que é Cheque


é um título através do qual uma pessoa ordena que uma instituição de
crédito, onde depositou fundos ou dispõe de crédito, pague a si ou a
terceiro ou a ordem a si ou ordem a terceiro determinada quantia135.
Cheque é o título de crédito que enuncia um pagamento, tal como a
letra, mas é uma ordem de pagamento dirigida a uma instituição
bancária onde o emitente do título possui uma previsão. O cheque
funciona como um meio de mobilização de fundos, quer em benefício
do emitente, quer em benefício de um terceiro. Cheque é o título à
ordem, sujeito a certas formalidades, pelo qual uma pessoa, que tem
qualquer importância disponível num banqueiro, dispõe total ou
parcialmente.

Sobre a livrança a livrança é um título à ordem, sujeito a certas


formalidades, pelo qual uma pessoa se compromete, para com outra,
a pagar- lhe determinada importância em certa data. É um documento
onde o consumidor ou empresa se compromete a pagar o montante a
pagar da dívida à entidade financeira. Normalmente, estes títulos de
crédito fazem parte integrante de um crédito, um banco só lhe
concederá um empréstimo depois de assinar a livrança.

180
Exercícios de Auto-Avaliação

1. O regime legal dos cheques consta do artigo 778 do Ccom.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Errado.

2. Livrança é pois, um título comprovativo de dívida que tem a


sua peculiaridade - visto ser “ à ordem” de se transmitir por
endosso?

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

3. O cheque com o cruzamento geral pode, em qualquer altura,


passar a cruzamento especial; basta, para isso, escrever entre
os dois traços o nome do banqueiro.

▪ Certo?

▪ Errado?

Resposta: Certo.

Exercícios

1. O que e livrança?

2. Qual e a diferença entre a livrança e o cheque?

3. Qual é o efeito legal da falta de requisitos na livrança?

4. Identifique com base na lei as formas de transmissão do


cheque?

181
5. Justifique com base na lei quais são os direitos e obrigações
do avalista?

6. A quem pode ser pago o cheque cruzado?

UNIDADE Temática 3.3: Exercícios do Tema

Introdução

Pretende-se nesta unidade temática que o estudante saiba resolver os


exercícios do tema anterior, conforme o aprendizado nas matérias ai
referidas.

Exercícios

1. Como é feita a transmissão entre vivos de partes sociais, nas


sociedades em nome colectivo?

2. No Direito moçambicano é admitida a constituição de


sociedades unipessoais?

3. Vários ordenamentos jurídicos discorridos reconhecem a


existência de sociedades com único sócio.

▪ Certo?

▪ Errado?

4. Qual é o regime jurídico adoptado pelo legislador


moçambicano nas sociedades por quotas unipessoais? Justifica
com base na lei.

5. O que são sociedades por quotas?

182
6. Qual é a característica das sociedades de capital e indústria?
7. Indique, com base na lei, as espécies de sociedades em
comanditas.

8. A aplicabilidade do regime jurídico das sociedades por quotas


às sociedades por quotas unipessoal, remete-nos ao
pensamento de que estas não constituem um tipo societário
mas sim uma espécie de sociedades por quotas como são as
sociedades constituídas entre cônjuges. Justifique-se!

9. Qual é a responsabilidade dos sócios nas sociedades em nome


colectivo?
10. Como é feita o capital social nas sociedades por quotas?
11. Como são realizadas as quotas nas sociedades por quotas?
12. Diga com base na lei qual é o número mínimo de sócios
admitidos nas sociedades anónimas?

13. No Direito português, em 1986 o legislador português previu a


necessidade de limitar a responsabilidade do empresário em
nome individual pelas dívidas contraídas no exercício da sua
empresa.

183
PARTE III

DISPOSIÇÕES FINAIS

EXERCÍCIOS DO MÓDULO

1. No Direito moçambicano é admitida a constituição de


sociedades unipessoais?

2. Vários ordenamentos jurídicos discorridos reconhecem a


existência de sociedades com único sócio.

▪ Certo?

▪ Errado?

3. Qual é o regime jurídico adoptado pelo legislador


moçambicano nas sociedades por quotas unipessoais? Justifica
com base na lei.

4. O que são sociedades por quotas?

5. Qual é a característica das sociedades de capital e indústria?

6. Indique, com base na lei, as espécies de sociedades em


comanditas.

184
7. A aplicabilidade do regime jurídico das sociedades por quotas
às sociedades por quotas unipessoal, remete-nos ao
pensamento de que estas não constituem um tipo societário
mas sim uma espécie de sociedades por quotas como são as
sociedades constituídas entre cônjuges. Justifique-se!

8. O Direito Comercial regula uma certa espécie de normas


jurídicas que não derivam do exercício do comércio e de outras
actividades afins.

• Certo
• Errado
9. Como é feita a transmissão entre vivos de partes sociais, nas
sociedades em nome colectivo?

10. Trata-se de um Direito Privado especial, pois afastando-se das


regras gerais do Direito Civil, vigora só para uma classe
específica de relações jurídicas, que o legislador destacou em
partes para as submeter a um regime diferenciado.

• Certo?
• Errado?
11. Quais são as características do Direito Comercial?

12. O que entende por Direito Comercial?

13. Em que se resume a especialidade do Direito Comercial?

14. O Primeiro Código de Moçambique Independente é o Código


Comercial de 1888.

• Certo?
• Errado?
15. Um dos fundamentos para a reforma em Moçambique tem a
ver com a dinamização da economia e o desenvolvimento do
sector privado.

185
• Certo?
• Errado?
16. Qual é o primeiro Código Comercial de Moçambique depois da
independência?

17. Faça um resumo sobre a evolução histórica do Direito


Comercial.

18. O Direito Comercial surgiu pela convicção triunfante no início


do sec. XX de que a vida comercial exige um ramo autónomo
de Direito a desintegrar-se do Direito Civil.

• Certo?
• Errado?
19. Quais são os fundamentos da reforma da legislação comercial
moçambicana?

20. Quando é que surgiu o Direito Comercial?

21. Identifique os períodos da evolução do Direito Comercial.

22. O Direito Comercial não é passível de integração de lacunas.

• Certo?
• Errado?
23. No Direito português, em 1986 o legislador português previu a
necessidade de limitar a responsabilidade do empresário em
nome individual pelas dívidas contraídas no exercício da sua
empresa.

24. A Constituição da República não é a primeira e principal fonte


do Direito Comercial.

• Certo?
• Errado?
25. Como são realizadas as quotas nas sociedades por quotas?

186
26. O Direito Comercial se relaciona com vários ramos de Direito.

• Certo?
• Errado?
27. De que forma o Direito Comercial se relaciona com o Direito
Penal?

28. São fontes do Direito comercial apenas as fontes internas.

• Certo?
• Errado?
29. O que são fontes?

30. Indique duas fontes internas do Direito Comercial?

31. Se pode relacionar o Direito do Ambiente ao Direito Comercial?

32. A definição de acto de comércio encontra-se plasmada no


artigo 4 do Ccom.

• Certo
• Errado
33. Quais são as concepções doutrinárias que podemos enquadrar
o Direito Comercial?

34. É certo afirmarmos que o Direito Comercial é um Direito


privado especial?

35. 2. São actos de comércio os actos praticados no exercício de


uma empresa comercial de onde resulta que não são apenas
actos de comércio os contratos, mas também todos os actos
praticados no exercício da empresa comercial das quais
emanam obrigações comerciais.

• Certo?
• Errado?

187
36. O que são actos de comércio?

37. Podemos considerar acto do comércio o acto de doação de


uma caderno escolar feito por Sr. Pedro a José?

38. O que são actos de comércio causais?

39. Diferencie os actos de comércio absolutos dos actos de


comércio substancialmente comerciais.

40. Qual é a base legal que podemos retirar o conceito de acto de


comércio?

41. 1O empresário comercial não pode se confundir com qualquer


outra figura.

• Certo?
• Errado?
42. Como é que subdivide-se as fontes do Direito Comercial?

43. Qual é a base legal para interpretação das normas do Direito


Comercial?

44. 2. O empresário comercial e o estabelecimento comercial são a


mesma coisa.

• Certo?
• Errado?
45. O que é mandatário comercial?

46. Diferencie o gerente do mediador?

47. 3. O exercício da actividade comercial tem suas limitações à


semelhança do exercício de qualquer profissão.

• Certo?
• Errado?
48. Descreva a situação particular dos cônjuges no exercício da

188
actividade comercial?

49. Quais são as incompatibilidades do exercício da actividade


comercial?

50. O que é empresário comercial?

51. Enuncie dois requisitos para o empresário comercial.

52. De acordo com a doutrina, a expressão Direito do Comercio


enquadra-se na concepção objectiva, e por sua vez a expressão
“Direito dos Comerciantes” que também é alargada as
empresas, corresponde a concepção subjectiva.

• Certo?
• Errado?
53. Qual é a responsabilidade dos sócios nas sociedades em nome
colectivo?

54. Como é feita o capital social nas sociedades por quotas?

55. Diga com base na lei qual é o número mínimo de sócios


admitidos nas sociedades anónimas?

189
BIBLIOGRAFIA

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33. VALE, Sofia e MUALEIA Fernanda, Guia Prático de Direito
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Legislação

1. Constituição da República de Moçambique de 2004.

2. Código Civil Moçambicano

3. Código Comercial de Moçambique

193