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E m 8 de fevereiro de 1982, à 1h50 da ma- Brasileira (FAB) naquele setor, conforme o

UMOVNIARTD
drugada, o Boeing 727 prefixo PP-SNG procedimento previsto nesses casos.
da Viação Aérea São Paulo (Vasp) decolava Conquanto remota, havia a possibilidade
do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza de a luz ser proveniente de um tráfego não

VASP169
(CE) com destino a São Paulo, para cumprir, controlado. Maciel de Britto, tentando uma nesta
uma vez mais, a rota do voo 169 da com- comunicação, começou a sinalizar com os região de-
panhia. Cento e quarenta e três passageiros faróis da aeronave; não sobreveio, contudo, colando que esteja
iam a bordo, entre eles a estudante de jorna- qualquer resposta, nem mesmo no rádio de com o radar de Brasília?”
lismo Lígia Auxiliadora Rodrigues, fotógrafa bordo, sintonizado na frequência 126,9. Em Tanto o piloto de um Boeing
profissional de apenas 23 anos. Ela se sentou seguida, ele reduziu a iluminação da cabine 727 da Transbrasil, quanto outro, de
na poltrona 5A, janela do lado esquerdo do para observar melhor. Tudo era acompanha- um Boeing 747 da Aerolíneas Argentinas,
Boeing, bem à frente do avião. A primeira do pela tripulação técnica do Boeing, perple- que ouviam as comunicações, atenderam à
hora de viagem transcorreu normalmente. xa quanto ao que poderia ser aquilo. chamada. Às 4h06, questionados pelo AC-
Por Rodrigo Moura Visoni De repente, por volta das 3h, ela vislumbrou Às 3h49, Britto resolveu comunicar o Centro C-BS se observavam alguma luminosidade
alguns clarões ao longe. Percebendo tratar-se de Controle de Área de Brasília (ACC-BS) nas proximidades, os pilotos da Transbrasil

FOTO – ACERVO DO AUTOR


de algo incomum, pegou a câmera Nikon quanto à ocorrência: Milton Missaglia e Mário Pravato, que fa-
FM 50 que carregava e fez quatro fotografias Estamos observando uma... aparentemente ziam a rota Manaus-Rio de Janeiro, com
do fenômeno luminoso. uma aeronave, mas a iluminação muda sis- escala em Brasília (Voo 177), responderam:
O avião seguia então pela aerovia UR1, a tematicamente de cor: alaranjada, vermelha, “Estamos avistando aqui realmente uma
uma altitude de quase dez mil metros e à branca. Aparentemente parece um tráfego com nuvem bastante grande e aparentemente fixa
velocidade de 975 km/h. Às 3h12, quando as luzes acesas, mas como está com uma varia- e seguinte como o Vasp está reportando.”
sobrevoava Bom Jesus da Lapa (BA), o ção de cores muito acentuada, nós estamos até Já o piloto da Aerolíneas Argentinas, que
próprio comandante da aeronave, o cam- desconfiados que seja alguma coisa diferente.” voava para Buenos Aires e que também
po-grandense Gerson Maciel de Britto O controlador de voo respondeu simplesmente: tinha 169 como número de voo, disse:
(falecido em 2016), de 45 anos, notou um “Ciente, não temos tráfego nenhum nessa “Negativo, estou com pouca visibilidade nesse
foco luminoso à esquerda, no centro da posição nesse momento.” momento por nebulosidade.”
janela; o fato o surpreendeu, uma vez que Britto insistiu: Dez minutos depois, quando Britto sobre-
não lhe havia sido reportada a presença de “É, então vamos [tentar] saber para identifi- voava Belo Horizonte (MG), o luzeiro pare-
outros aviões comerciais ou da Força Aérea car o que seja. Tem alguma outra aeronave ceu aproximar-se do avião e nesse momento
ele pôde observar um perfil discoide no
centro do fulgor. Foi então que, numa ati-

FOTO – ACERVO DE LÍGIA AUXILIADORA RODRIGUES, VIA AUTOR


tude corajosa e inédita, resolveu comunicar
A fotógrafa Lígia Auxiliadora aos passageiros a presença do óvni (sigla de
Rodrigues, numa foto de
objeto voador não identificado):
1982, aos 23 anos

A fotografia feita por passageiro anônimo e estampada


na página 51 da revista Veja de 17 de fevereiro de 1982
comprova que havia algo muito brilhante além de Vênus
na noite do avistamento

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FOTOS – ACERVO DE LÍGIA AUXILIADORA RODRIGUES, VIA AUTOR

FOTO – SÍLVIO CORREA/AGÊNCIA O GLOBO, VIA AUTOR


Na cabine do Boeing pousado no Aeroporto de
Congonhas, o Comte. Gerson Maciel de Britto
mostra o desenho do óvni que fez durante o voo

história da passageira pelo rádio. Resultado: tada, ou seja, sobre a asa esquerda. O clarão
em pouco tempo, diversos jornalistas se era realmente muito forte e, pouco depois, o
dirigiram a Congonhas atrás do Coman- comandante acordou os passageiros pelo rádio
dante Britto, que respondeu pacientemente para comunicar o que estava acontecendo.”
às perguntas de todos e exibiu um esboço Ainda na tarde do dia 8 de fevereiro, o Mi-
do óvni feito por ele num caderno durante nistério da Aeronáutica negou que o Centro
o voo. Assim ele descreveu o que viu a um Integrado de Defesa Aérea e
Na segunda das fotos feitas por Lígia Auxiliadora Rodrigues,
O óvni observado naquela noite de 8 de repórter do jornal O Globo: Controle de Tráfego Aéreo
a intensa luminosidade do óvni mostra-se capaz de clarear as
nuvens ao redor e a asa esquerda do avião fevereiro de 1982, na terceira foto feita “Era uma estrela enorme. Um holofote (Cindacta) houvesse cap-
por Lígia, passageira do Vasp 169 fortíssimo que iluminava toda a superfície tado qualquer evidência

FOTO – RICARDO CHAVES, ABRIL COMUNICAÇÕES S/A, VIA AUTOR


esquerda do avião, principalmente a asa... concreta do objeto. O Te-
Uma bola de futebol incandescente, com luz nente-Coronel Noberto de
extremamente branca... Uma luz que acom- Castro Brum, então Chefe
“Atenção, senhores passageiros. Observem o A mulher, entusiasmada, respondeu-lhe Amanhecia e à vista da Baía de Guanabara, panhou o avião por muito tempo... Sei lá, não do Departamento de Rela-
foco de luz à esquerda. Não fiquem preocupa- positivamente. Britto pôde enxergar o objeto mais nitida- sei como definir aquilo.” ções Públicas da Aeronáu-
dos. Peço apenas o testemunho dos senhores Às 4h18, o controlador do ACC-BS voltou mente. Avisou do óvni ao controle aéreo, à Só depois das 15h, Britto pôde seguir para tica, disse que o piloto do
para o fenômeno que estamos presenciando.” a entrar em contato, informando a detecção torre e ao controle solo do Aeroporto In- casa, no Rio de Janeiro. Ao chegar, lá o es- Boeing havia entendido
Quem dormia acordou com o chamado do de algo na posição “9 horas” (à esquerda) e à ternacional, que afirmaram nada detectar, perava outro batalhão de repórteres. Após mal a informação do
comandante. Sem tumulto ou atropelo, mui- distância de 8 milhas (12,87 km) da aeronave: concedendo-lhe autorização para pousar na trocar de roupa, ele retratou, para a revista controlador quanto à
tas pessoas passaram para o lado esquerdo “Ciente, Vasp 169, informo que estou rece- pista. Só deixou de fitar a luminosidade três Veja, numa série de desenhos coloridos, as captação de um “ponto”
do avião, a fim de observar o disco lumines- bendo um ponto desde 50 milhas sul de Belo minutos antes do pouso, ocorrido às 4h37. Na diferentes fases do fenômeno. À noite, com- na tela do radar, próxi-
cente, e ficaram extasiadas com o espetáculo Horizonte, um ponto exatamente na posição etapa subsequente do voo, até a aterrissagem pareceu ao programa Globo Revista para mo ao avião. O militar
visual bem diante de si. Um dos poucos 9 horas, seguindo o impulso exato do Vasp no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, uma entrevista. explicou que “ponto”, na
que optou por não ver o disco foi Dom Frei 169. (...) O afastamento dele na posição 9 nenhuma outra anormalidade ocorreu. Durante aquela semana inteira, o caso foi fraseologia do controle
Aloísio Leo Arlindo Lorscheider, cardeal- horas é em torno de 8 milhas.” Ainda de manhã, Britto entregou um relató- bastante explorado em jornais, telejornais de radar, não significa
-arcebispo de Fortaleza, que permaneceu na Antes do pouso final em São Paulo, estava rio preliminar à chefia do Departamento de e programas de rádio, sendo os passageiros a identificação de um
poltrona. Explicaria ele posteriormente, ao prevista uma escala no Aeroporto Interna- Operações da Vasp. Fato curioso: a despeito igualmente procurados. A orientadora peda- “alvo”, podendo ser
jornal Folha de São Paulo: cional do Rio de Janeiro, também conhecido de tantas testemunhas, não fosse o entusias- gógica Eliane Belache, de 28 anos, que havia alguma interferência
“Eu estava dormindo e pensei: deixa esse como Galeão (hoje Aeroporto Internacional mo da passageira Silésia Paes Del Rosso, o desembarcado no Galeão, declarou a um ou eco falso ou, ainda,
disco voador para lá.” Tom Jobim). O fulgor continuava a seguir o caso haveria de passar incógnito! Tanto ela repórter do Jornal do Brasil:
O bispo-auxiliar de Fortaleza, que o acom- avião lateralmente, resplandecendo na ca- falou, pelo saguão do Aeroporto de Congo- “O voo foi muito bom. Por volta das 4h da
panhava, Dom José Terceiro de Sousa, bine e desaparecendo ao passar por nuvens nhas, que chamou a atenção do único jor- manhã, eu estava tentando dormir, pois não Gerson Maciel de Britto, fotografado por Ricardo
imitou-o na atitude, mas não resistiu e per- densas. Isso prosseguiu até a duas milhas nalista então presente à Sala de Imprensa do consigo dormir em viagens, e pensei que as Chaves no momento em que desenhava as diferentes
guntou a uma das passageiras, Silésia Paes (3,21 km) do marcador externo da Pista 14 aeroporto, o repórter Luiz Duarte Amorim luzes do avião tivessem se acendido. Quando fases do fenômeno aeroespacial observado. À direita,
os desenhos feitos, estampados na revista Veja, Edi-
Del Rosso: do Galeão, quando o disco luminescente saiu Filho, da Rádio Bandeirantes AM. Amorim abri os olhos, enxerguei uma luz imensa do
ção 702, de 17 de fevereiro de 1982
“Você viu mesmo?” da lateral e posicionou-se à frente do Boeing. Filho houve por bem ouvir e divulgar a lado de fora, exatamente onde eu estava sen-

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FOTO – ANTÔNIO CARLOS PICCINO/AGÊNCIA O GLOBO
uma série de outras coisas que não uma massa, um obje- tentou vender seus flagrantes à Rede Globo Uma possível explica-
to. “De forma que o piloto, desconhecendo essa fraseologia, de Televisão, todavia não houve acordo ção para o Caso Vasp
pois não é trocada pelo controlador de voo com as tripula- quanto a valores e condições de exibição e as Voo 169 foi fornecida
ções, entendeu como sendo uma confirmação da existência de imagens permaneceram inéditas por quase em 2014 pelo físico Luiz
um objeto não identificado seguindo o avião da Vasp naquela área quarenta anos. Augusto Leitão da Silva,
em que estava voando.” – explanou ao Jornal da Tarde. Na imagem divulgada pelo jornal paulista no Journal of Scientific
No dia seguinte, o Comandante Mário Pravato, da Transbrasil, confir- distinguiam-se duas manchas luminosas, Exploration:
mou integralmente, a um repórter d’O Globo, o relato de Britto: uma grande e outra pequena, o que levou o “De particular interesse
“Comecei a observar a luminosidade do objeto por volta das 3h40 e confirmo tudo jornalista científico Fernando G. Sampaio para o nosso estudo são
o que o Comandante Britto, da Vasp, informou. (...) Era uma coisa muito linda. Uma às seguintes considerações, divulgadas no dois tipos de miragens, co-
luz muito forte que até hoje eu nunca tinha visto. Era muito potente. Tinha forma Correio do Povo de Porto Alegre de 14 de nhecidas como Fata Morga-
arredondada bem maior do que um aparelho de TV a cores. O que me chamou mais fevereiro de 1982: na e Nova Zembla. Ambas
a atenção foi o tipo de luz e a claridade que emitia. (...) Olha, eu não posso afirmar “A foto obtida por passageiro que preferiu o são conhecidas há séculos. A
categoricamente que se tratava de um disco voador. Mas tenho certeza de que não era anonimato e divulgada pela Folha de S. Pau- Fata Morgana produz efei-
Vênus, como chegaram a noticiar. Vênus é um planeta que sempre é avistado a olho nu lo na capa da edição do dia 11 do corrente, tos curiosos, como a projeção
pelos pilotos. Emite uma luz mais fraca e seu tamanho, da cabine de um jato, pode ser mostra duas luminosidades. Uma é claramen- no ar de imagens de navios e
comparado ao de uma bola de futebol de salão. O objeto que acompanhava o Boeing da te um foco luminoso, no lado direito do clichê até cidades inteiras situadas
Vasp era do tamanho de uma TV a cores de 16 polegadas. Eu já vi Vênus várias vezes, com tamanho que sugere Vênus, quando perto ou ligeiramente além
mas nunca com essa claridade.” nascendo no horizonte e sendo ampliado do horizonte do observador.
O Comte. Mário Pravato, piloto da
Documento comprobatório da tentativa de
Em 11 de fevereiro de 1982, o jornal Folha de S. Paulo estampou uma fotografia do por pequenos cristais de gelo em suspensão (...) Essa miragem pode an- Transbrasil. Foto feita em São Paulo
negociação das imagens de Lígia Auxiliadora óvni feita por pessoa que preferiu manter-se no anonimato. Por décadas, esta foi a na atmosfera ou, até mesmo, leve campo de tecipar o surgimento de um (SP), durante entrevista sobre o
Rodrigues com a TV Globo e a declaração da única imagem conhecida da aparição, visto que, à época, Lígia Auxiliadora Rodrigues cirros em formação. corpo celestial pela condução episódio, em 9 de fevereiro de 1982
fotógrafa prestada em 12 de fevereiro de 1982 Já a luminosidade que se observa à esquer- dos raios de luz ao longo de
da, bem maior (...), não encontra explicação, um caminho curvo intercalado
tão facilmente. em duas camadas de ar com
Não é impossível que Vênus lograsse emitir diferentes temperaturas durante
uma falsa imagem (à semelhança das falsas uma inversão térmica. Pontos de radar podem ser atribuídos a in-
imagens do Sol, chamadas parélios, que Tais inversões térmicas são mais frequentes setos, aves ou perturbações de refratividade
também se observam com a Lua), tendo antes do amanhecer, porque raramente sobre- atmosférica. Esses alvos falsos podem persistir
sua luz refratada pelos cristais de gelo em vivem ao aquecimento atmosférico diurno. por até 35 minutos e frequentemente têm
suspensão na atmosfera. Mas, falta, nos De fato, as condições noturnas de miragem uma velocidade significativa em relação à
escassos relatórios disponíveis, uma indica- podem persistir por trechos longos. Por isso, velocidade média do vento. As experiências
ção de qual seria a posição de Vênus no céu parece possível que um efeito semelhante sugerem que existe, de fato, um tipo de sinal
em relação a estas duas manchas luminosas, acompanhou a subida de Vênus naquela ma- pontual no radar causado por perturbações
captadas pela foto do passageiro que não nhã e, ao mesmo tempo, distorceu a imagem atmosféricas no índice de refração, associa-
quis se identificar.” do astro. (...) do a inversões de temperatura em camadas
Uma versão em cores da fotografia, invertida Um ponto crítico aqui é que geralmente uma atmosféricas com apenas alguns metros de
horizontalmente, foi publicada na edição da miragem de Fata Morgana produz imagens espessura, nas quais ocorrem turbilhões com
Veja de 17 de fevereiro de 1982. situadas logo acima do horizonte. No entan- o tamanho de alguns centímetros. Portanto,
No dia 20 maio de 1982, o Major Aviador to, no Efeito Nova Zembla, objetos reais estão o sinal de radar do voo Vasp 169 pode real-
José Orlando Bellon, Chefe da Divisão de efetivamente vários graus abaixo do horizon- mente apontar para um efeito de miragem
Operações do Cindacta, encaminhou, pela te. Mesmo assim, a miragem pode ser vista atmosférica. A possibilidade alternativa de
FOTOS – ACERVO DE LÍGIA AUXILIADORA RODRIGUES, VIA AUTOR

parte nº 001/OOP/82, fita de áudio com a vários graus acima da linha do horizonte. (...) um fantasma de radar (ecos de destinos dis-
gravação das comunicações ao Subcoman- Os raios de luz devem viajar dentro de uma tantes que parecem próximos) parece menos
dante Operacional do Cindacta, Tenente camada de inversão por centenas de quilôme- atraente neste caso. (...)
Coronel Marcos Antônio de Oliveira. Em tros. A camada deve ter apenas o gradiente de Para alguém que use o método científico com
1987, o jornalista carioca Ney Bianchi, da temperatura correto, de modo que a luz se curve rigor, o episódio do Voo Vasp 169 não pode
revista Manchete, tentou obter acesso à continuamente com a curvatura da Terra (...) ser atribuído a nada além de uma observação
gravação, sem sucesso. Em 2009, a Força A suposta detecção de radar é uma das ques- de Vênus afetada por um possível efeito de
Aérea Brasileira divulgou a transcrição das tões mais controversas envolvendo o Caso miragem atmosférica, mal interpretado por
conversas – sem o áudio original, contudo, é Vasp Voo 169. (...) Em geral, os ovniologistas um piloto de avião com uma tendência óbvia
impossível saber-se o grau de fidedignidade consideram esta uma forte evidência da pre- de acreditar em causas alienígenas para ocor-
dessa transcrição. sença de um óvni real perto do avião. (...) rências inexplicadas.” Q

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