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Estudos de Lingüística Galega

ISSN: 1889-2566
elgilg@usc.es
Universidade de Santiago de Compostela
España

Pratas, Fernanda
Recensión "Gramática do Português, vols. I e II" de B uzaglo Paiva Raposo, Eduardo; Maria Fernanda
Bacelar do Nascimento; Maria Antónia Coelho da Mota; Luísa Segura y Amália Mendes
Estudos de Lingüística Galega, vol. 6, enero-diciembre, 2014, pp. 287-291
Universidade de Santiago de Compostela
Santiago de Compostela, España

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serem incluídos fenómenos de variação lin-


guística. Apesar de ter “principalmente como
objeto de estudo o português-padrão” (a tam-
  bém chamada “variedade culta do português”,
que consiste no dialeto “falado nas zonas urba-
nas do litoral-centro, aproximadamente entre
Lisboa e Coimbra”, pp. xxv-xxvi), outras varie-
dades da língua são também consideradas. A
restante exposição quanto a esta escolha, na
“Introdução”, pode dar a entender que entre
essas variedades não-padrão se encontram
o português falado no Brasil ou o português
falado em África (na página xxvi diz-se que o
facto de ter como objeto de estudo o portu-
guês-padrão “não significa, no entanto, que
se tenha descurado a variação linguística […]
Muito pelo contrário: em primeiro lugar, […] a
presente obra é pioneira por conter capítulos
onde se descrevem […] as principais caracte-
Buzaglo Paiva Raposo, Eduardo / Maria rísticas linguísticas não só do português falado
Fernanda Bacelar do Nascimento / Maria no Brasil como também do português falado
Antónia Coelho da Mota / Luísa Segura / em África”). Uma leitura atenta do grupo de
Amália Mendes (coord.) (2013): Gra- capítulos sob o título genérico “Variedades
mática do Português, vols. I e II. Lis- Geográficas da Língua Portuguesa” (que não
boa: Fundação Calouste Gulbenkian, se apresenta como um bloco, ao contrário dos
agrupamentos de capítulos da Parte 3) resolve,
2407 pp.
porém, as possíveis questões a este respeito.
Assim, o facto relevante quanto aos con-
Ao fim de doze anos de trabalho que envol-
teúdos da Gramática é que, a propósito da
veu quatro dezenas de especialistas em diver-
discussão de determinadas propriedades do
sos domínios dos estudos linguísticos, foram
português falado em Portugal, são faculta-
publicados em 2013 dois dos três volumes da
dos exemplos que ilustram algum tipo de va-
Gramática do Português (Lisboa: Fundação Ca-
riação: dialetal, individual ou de registo. As fra-
louste Gulbenkian). A obra, que “descreve, de
ses em análise que não são construídas pelos
modo tão exaustivo quanto possível, a língua autores têm origem em fontes diversas, entre
portuguesa na sua variedade europeia con- as quais corpora electrónicos. Estes permitem
temporânea” (“Introdução”, p. xxv), é organiza- o fácil acesso a diferentes géneros de textos
da por Eduardo Buzaglo Paiva Raposo, Maria escritos e a excertos orais ilustrativos de regis-
Fernanda Bacelar do Nascimento, Maria An- tos linguísticos variados e/ou do português
tónia Coelho da Mota, Luísa Segura e Amália falado em distintas regiões do país. O seu uso
Mendes, contando ainda com a colaboração para este fim decerto contribuirá para criar no
de Graça Vicente e Rita Veloso. É constituída público uma saudável relação com essas mes-
por cinco partes e, segundo a sua própria des- mas ferramentas digitais, estimulando as suas
crição, a Parte 1 trata da história e geografia próprias explorações futuras de fenómenos
do português, a Parte 2 ocupa-se do léxico, a de variação linguística.
Parte 3 foca a sintaxe e a semântica, a Parte 4 Uma combinação semelhante ocorre no
centra-se na morfologia e a Parte 5 trata da fo- que respeita à mudança linguística: “Apesar
nética e da fonologia. Pela sua extensão e pela de o objeto de estudo central desta Gramáti-
diversidade dos temas abordados, a Parte 3 ca ser o português contemporâneo, conside-
está estruturada em nove blocos, identifica- rou-se importante dar a conhecer um pouco
dos por letras maiúsculas: 3A, 3B, 3C, etc. da sua história, no que respeita às suas ori-
A “Introdução” destaca, entre outros aspe- gens, às suas diferentes fases de formação e à
tos inovadores da Gramática, o facto de nela sua evolução geral” (p. xxvi).

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Os organizadores apontam ainda que deles até à exaustão e numa linguagem ade-
a perspetiva aqui adotada “é estritamente quada a leitores muito diversos), terá apresen-
descritiva”, o que “significa que o leitor não tado aos organizadores alguns problemas de
encontrará
  regras normativas que valorizem difícil solução. As notas que se seguem assi-
uma determinada variante em detrimento de nalam algumas das soluções que, à primeira
outra” (p. xxvi). Assim, a Gramática esclarece vista, podem causar alguma perplexidade.
“muitas das dúvidas e hesitações sobre cons- Mais do que constituir uma crítica à obra em
truções frequentemente produzidas pelos fa- si, estas notas têm o intuito de preparar os po-
lantes, ainda que não sejam sancionadas pela tenciais leitores, para que possam contornar
norma-padrão” (p. xxvii). O facto de no capí- de forma produtiva eventuais dificuldades, e
tulo 23 ser abordada a locução “a gente” e aí apoiam-se nas seguintes noções: objetivo dos
se incluir a possibilidade de esta determinar organizadores > problema resultante > so-
“para alguns falantes, num registo coloquial lução encontrada > fragilidades desta solução.
menos cuidado”, concordância na 1ª pessoa Tomemos, para começar, a quantidade de
do plural (a gente, logo, vamos ao cinema) autores envolvidos. Esta extensão e diversida-
— por oposição à norma-padrão, na qual esta de é uma das muito interessantes característi-
locução “gramaticalmente é de 3ª pessoa do cas da Gramática, por duas razões:
singular” (a gente, logo, vai ao cinema) —, é 1. cada tópico é abordado por uma (ou
usado para demonstrar esta escolha. mais) pessoa(s) que o conhece(m) bem, já
Logo no parágrafo seguinte afirma-se que que esse terá sido, nos últimos anos, um alvo
a “variação dialetal não implica de forma algu- relevante das suas investigações indepen-
ma que não existam princípios e regras gra- dentes; isto, em princípio, garante para os
maticais que se aplicam à língua de maneira múltiplos temas uma abordagem mais com-
geral, e que determinam se uma expressão é pleta e iluminada;
correta ou não do ponto de vista da própria 2. o leitor comum fica finalmente em con-
gramática, o que se traduz na aceitabilidade tacto direto com o trabalho de grande parte
ou inaceitabilidade dessa expressão por par- dos linguistas que hoje se dedicam à análise
te dos falantes” (p. xxvii). A falta de acordo do português; fora do âmbito da Gramática,
entre os falantes (incluindo linguistas) quan- muitos dos trabalhos que eles publicam são
to ao estatuto mais ou menos gramatical de orientados para os seus pares, ou seja, pouco
algumas frases também é reconhecida, sendo acessíveis fora desse círculo de iniciados; aqui,
assumida como “um problema incontornável pelo registo específico requerido numa gra-
dos estudos linguísticos” (pp. xxvii-xxviii). Pe- mática, está resolvida a questão da sua acessi-
rante essas frases problemáticas, a Gramática bilidade; dito de outro modo, agora também o
procura assinalar as potenciais discordâncias e público em geral pode ficar a conhecer, pelos
tenta explicar a sua causa. seus próprios meios (sem ter de frequentar au-
Quanto às descrições que nos são apre- las ou formações específicas), o estado da arte.
sentadas, elas apoiam-se “em resultados da Esta opção terá, porém, trazido o proble-
linguística contemporânea, da filosofia da lin- ma de decidir como é que a participação de
guagem e da lógica moderna” (p. xxviii, segun- cada um desses especialistas é assinalada.
do parágrafo). No entanto, ressalvam os orga- Sabemos que os organizadores “leram, co-
nizadores, “não se pressupõe da parte do leitor mentaram e discutiram todos os capítulos
qualquer conhecimento prévio destas áreas”. com os seus autores, procurando uniformizar
Pretende-se, portanto, alcançar um público os termos técnicos usados, assegurando cla-
diversificado, incluindo leitores “sem formação reza na apresentação dos conceitos e visan-
linguística” (p. xxx, penúltimo parágrafo). do coerência estilística na forma de redação”
Uma obra desta magnitude, quer no senti- (p. xxxii, primeiro parágrafo). No entanto, ain-
do material (cada um dos volumes já publica- da que este procedimento tenha com certeza
dos tem mais de 1200 páginas), quer no que minimizado desequilíbrios e protegido uma
respeita aos objetivos (virtualmente todos os certa homogeneidade da obra, em certos ca-
aspetos da gramática do “português contem- sos seria interessante saber facilmente quem
porâneo” estão na sua mira, sendo que a in- é o autor do capítulo que estamos a consultar.
tenção parece ser abordar pelo menos alguns Acontece que esta informação está disponível

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mas nem sempre é de fácil acesso. Os nomes me, mesmo que os seus restantes conteúdos
dos autores estão visíveis apenas no índice não sejam particularmente interessantes para
geral de cada volume e no início de cada par- o leitor em questão.
te  (ou de cada bloco, no caso da Parte 3), mas Seguindo ainda a aparente organização
não no início de cada capítulo ou nas páginas da Gramática por níveis de análise linguística,
que cada um destes ocupa. Assim, quando a Parte 3, que se estende pelos três volumes, é
calha consultarmos um capítulo que está ro- primeiro apontada como aquela em que se dis-
deado de outros numa dada parte ou bloco, cutem fenómenos sintáticos e semânticos (p.
se queremos saber quem o escreveu temos de xxviii, penúltimo parágrafo, e também p. xxix,
recuar até ao início da secção ou ao índice ge- terceiro parágrafo), mas depois, quando se des-
ral do volume. É verdade que um esquema de crevem os conteúdos dos volumes II e III, diver-
cores bem visível no corte da frente ajuda nes- sos blocos desta mesma Parte 3 são referidos
te processo de localizar o início de cada bloco. como tratando “unicamente de sintaxe” (p.xxx,
No entanto, favorecer as mais básicas regras terceiro parágrafo). A ideia poderia ser que os
de transparência quanto à relação entre os blocos que constituem o volume II e uma par-
produtores de conhecimento e o seu público cela do III são apenas consagrados à sintaxe, fi-
passaria apenas por usar o sistema comum de cando os temas da área da semântica limitados
disponibilizar o nome do(s) autor(es) de cada ao Bloco 3B — “dedicado a questões semânti-
capítulo no cabeçalho das suas páginas pares. cas, nomeadamente o tempo, o aspeto, a mo-
Outra característica apresentada como dalidade e o modo” (p. xxix, terceiro parágrafo).
um dos aspetos inovadores da Gramática é Uma vez que este bloco faz parte do Volume I,
o facto de ela considerar “todos os níveis de não haveria assim qualquer contradição. O pro-
análise linguística” (p. xxv, primeiro parágrafo). blema é que, para além de também o Bloco H
Também aqui o problema verificado não de- (volume III) ser declaradamente centrado em
corre da intenção em si, mas da forma como “aspetos linguísticos que se situam na frontei-
ela está concretizada: a opção de dedicar ex- ra entre a sintaxe, a semântica e a pragmática”
plicitamente diferentes partes da Gramática (p. xxix, terceiro parágrafo), será fácil intuir que
a cada um destes níveis de análise terá dado muitos dos tópicos tratados em todos estes
origem a áreas de sobreposição, já que muitas blocos pertencem a zonas de interface.
vezes não é possível analisar determinados Ainda assim, uma vez que é na “Intro-
fenómenos ao nível, por exemplo, da semân- dução” que está expressa esta apresentação/
tica — por ser na parte da semântica que nos classificação dos temas centrais da Parte 3, ela
situamos — sem tocar as questões lexicais ou poderia não ser digna de nota: o que verda-
morfológicas envolvidas. deiramente importa são os conteúdos reais
Este aspeto, por sua vez, procura ser resol- dos diversos blocos, não a forma como são
vido com referências cruzadas (i.e., determi- descritos num texto que nem todos os leitores
nados fragmentos remetem para outros den- se preocuparão em examinar. Até porque cada
tro da Gramática). Estas são, evidentemente, bloco tem sempre, no seu início, a expressão
muito bem-vindas. Mas o que seria realmente “Sintaxe e semântica”, seguida do restante
útil, até para orientação do leitor que deseja título. Por exemplo, o Bloco 3D: “Sintaxe e
procurar uma propriedade/construção gra- semântica — Frase composta e frase comple-
matical específica cuja localização não é óbvia xa”. No entanto, estas divergências tornam-se
(por exemplo, construções clivadas), era ter mais relevantes pelo facto de estarem acom-
sempre à mão um índice remissivo de elevada panhadas de outras decisões que podem
qualidade, com o pormenor e a sofisticação trazer alguma confusão, em especial para o
exigidos pela dimensão da obra. Os organiza- referido leitor sem formação linguística. Pode
dores optaram por fornecer esta ferramenta por exemplo ser desconcertante ter uma par-
fundamental apenas com o terceiro e último te sobre “Léxico” e depois, na parte dedicada
volume, pelo que, até à sua publicação, cada à “Sintaxe e semântica”, ter um extenso bloco
leitor terá de procurar orientar-se através dos com o título “Sintaxe e semântica — Classes
índices e das introduções nas diversas partes lexicais e sintagmáticas”. Também difícil de
e blocos. Além do mais, esta decisão acarreta explicar é o número de capítulos (oito) e de
a obrigatoriedade de adquirir mais esse volu- páginas (mais de quatrocentas) dedicados ao

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sintagma nominal, sobretudo em comparação (p. xxx, penúltimo parágrafo) os organizadores


com outros sintagmas, como por exemplo o recomendam ao público sem formação lin-
verbal, que é resolvido em três capítulos e em guística que a leitura do capítulo 11 anteceda
duzentas
  páginas. Poderia dizer-se que esta a leitura dos restantes capítulos das Partes 2 e
diferença decorre das necessidades inerentes 3. Isto porque ele “apresenta, de forma clara e
a cada um destes constituintes, mas este hi- sucinta, as bases de natureza teórica que lhe
potético argumento é facilmente refutado se permitirão abordar de modo mais profícuo o
virmos que, quanto ao sintagma nominal, foi conteúdo dos restantes capítulos dessas par-
mesmo usado um capítulo introdutório, o 20, tes”. Esta recomendação é de novo referida na
e uma nota onde se explica que este capítu- introdução à Parte 3 mas, uma vez que, para
lo “funciona como uma síntese dos capítulos um leitor que vá folheando a obra seguindo a
mais especializados que o seguem”, que o ca- ordem das diversas partes, a Parte 2 nesta altu-
pítulo 21 “tem um papel central neste grupo” ra já está para trás, pode aí parecer um pouco
e que alguns dos outros capítulos “retomam tardia. Assim, fica aqui expressa essa recomen-
alguns dos tópicos discutidos no capítulo 21” dação de forma mais saliente.
(p. 699). Além de ser um pouco estranho que Para além da questão da sua localização,
algumas partes tenham uma introdução a no entanto, se o objetivo deste capítulo é
apresentar os capítulos que as compõem (também) contribuir para o esclarecimento
(caso da Parte 3 ou do referido grupo de capí- do leitor sem formação linguística, não se
tulos sobre o sintagma nominal, no bloco 3C) percebe porque é que contém definições cuja
e outras não (caso da Parte 2), também não adequação a essa faixa de público é questio-
fica claro o que motiva esta opção de retomar nável. Por exemplo: “As frases declarativas são
tópicos, agravando o risco de sobreposições aquelas que são usadas pelos falantes para
que podem desorientar o leitor e estender representar uma situação do mundo e co-
ainda mais uma obra já imensa. Mais uma municá-la assertivamente ao ouvinte” (p. 303,
vez, porém, este aspeto pode facilmente ser último parágrafo). Esta definição é seguida de
contornado se o leitor for direito ao subtópico sete exemplos no modo indicativo, cinco de-
que mais lhe interessa, usando as referências les com verbos eventivos no presente ou no
cruzadas para seguir novas pistas. passado simples e dois com verbos estativos
Outro dos objetivos inovadores da Gramá- no presente. Ora utilizar uma definição deste
tica consiste em, como foi referido acima, não tipo, ilustrada por este género de exemplos e
pressupor da parte do leitor qualquer conhe- sem entrar no território da filosofia da lingua-
cimento prévio nas áreas da linguística con- gem e no intrincado debate sobre estados de
temporânea, da filosofia da linguagem ou da coisas, não deixa claro que objetos linguísti-
lógica moderna. O problema resultante desta cos tais como “Amanhã, provavelmente, não
intenção — em algum momento a terminolo- irei jantar a tua casa” são também frases de-
gia e os conceitos essenciais têm de ser intro- clarativas. Um leitor “sem formação linguística”
duzidos em linguagem que este leitor enten- talvez não fique a saber, de forma imediata e
da — é apontado na “Introdução”: “De facto, inequívoca, sobretudo tendo em conta que
sempre que uma determinada descrição gra- este é um capítulo de caráter introdutório,
matical assenta sobre conceitos linguísticos, fi- que uma frase declarativa não tem de referir
losóficos ou lógicos, procura-se explicá-los em o passado ou o presente e que pode mesmo
termos tão simples quanto possível, de modo incluir verbos modais ou entidades imagi-
a que o leitor possa ter uma visão clara da sua nárias (mesmo que ele não conheça estas
relevância relativamente aos fenómenos gra- designações, pode ter dúvidas em relação aos
maticais em discussão” (p. xxviii). Noutro ponto factos linguísticos em si).
refere-se de novo a “clareza” da explicitação de Mais à frente no mesmo capítulo 11
convenções e termos técnicos utilizados. Uma (p. 306, terceiro parágrafo), volta a referir-se a
das provas de que se procurou pôr isto em prá- “situação do mundo”, mas aqui já para a de-
tica reside na existência do capítulo 11. Este finição de frase em geral (e não apenas das
capítulo, sobre a “Estrutura da Frase”, é o pri- declarativas): “[…] uma frase é uma sequência
meiro da Parte 3, que, como já se disse, contém de palavras numa determinada ordem, que
nove blocos distintos. Na “Introdução” geral satisfaz as regras e os princípios gramaticais

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da língua a que pertence, e que descreve uma


situação do mundo sobre o qual se fala ou re-
mete para ela”. Pode alegar-se que a definição
de  frase a apresentar aqui precisa de ser des-
comprometida (não remetendo assim para
análises estruturais que envolvem sintagmas
verbais e noções de finitude), mas também
não parece que a opção escolhida seja útil
para o leitor que se pretende alcançar neste
capítulo. Depois, nas secções seguintes, 11.1.1
(Frase: primeira definição) e 11.1.2 (Frase e
oração), já se descrevem essas propriedades
da frase, o que torna mais estranho o breve
recurso anterior àquela formulação.
Concluindo, pelas diversas opções quanto
aos conteúdos (a inclusão de fenómenos de
variação, uma enorme quantidade de exem-
plos provenientes de diversas fontes, o rigor
científico das apresentações e análises, etc.),
os dois volumes em apreço são, desde o ins-
tante em que foram publicados, de consulta
obrigatória para quem queira participar de
uma discussão ampla e empiricamente fun-
damentada das propriedades gramaticais do
português contemporâneo, sendo particular-
mente bem acolhidos por leitores que prefe-
rem uma abordagem descritiva das línguas
naturais. Destaque-se ainda o grafismo impe-
cável, que vem reforçar o prazer do seu manu-
seamento e o conforto moral de testemunhar-
mos, uma vez mais, que substância e beleza
podem, sim, estar combinadas numa entida-
de. Como ficou dito acima, as fragilidades aqui
apontadas decorrem, compreensivelmente,
da magnitude da obra, e podem muito bem
ser contornadas de forma produtiva. Numa
certa medida, esse é mesmo mais um aspeto
a favor da Gramática, que deve ser abordada
com o tempo e a atenção justamente conce-
didos às coisas complexas e refinadas.

Fernanda Pratas

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