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Ética e Legislação

Jornalística
Material Teórico
Democracia e Jornalismo

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Wiliam Pianco dos Santos

Revisão Textual:
Prof. Me. Claudio Brites
Democracia e Jornalismo

• A Importância da Democracia;
• Princípios Éticos;
• A Ética Aplicada ao Jornalismo.

OBJETIVOS DE APRENDIZADO
• Compreender a democracia como valor absoluto para a atividade jornalística;
• Reconhecer as origens e a aplicabilidade dos princípios éticos que norteiam a prática
profissional do jornalismo.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam-
bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de
aprendizagem.
UNIDADE Democracia e Jornalismo

A Importância da Democracia
O pleno desenvolvimento da atividade jornalística só é possível dentro do Estado
Democrático de Direito. Desde a voz do jovem aprendiz até alcançar a fala do mais
experiente dos profissionais, essa é uma importante lição que deve ser sempre
lembrada e reforçada para que a imprensa possa seguir livre e cumpridora de sua
missão de informar.

Democracia: Do grego, demokratía, originária do século V a.C., na Grécia, democracia é um


Explor

regime político caracterizado pela participação igualitária e equânime de todos os cidadãos


e cidadãs de uma determinada sociedade nas decisões da vida pública. Mais importante
ainda, democracia pode ser tida como sinônimo de um modelo de sociedade, de um tipo
específico de mentalidade social em que se demarca a conquista da liberdade dos povos e
torna possível o reconhecimento dos direitos do homem.

Conforme a História tratou de demonstrar, a imprensa, como é conhecida nos


dias de hoje, tem suas origens em diferentes processos revolucionários que consoli-
daram a democracia moderna. Assim, como modo de manifestação da cidadania, o
jornalismo deve buscar o bem coletivo, a emancipação e a preservação dos direitos
de todos. Em poucas palavras, o bom jornalismo age como manifestação própria
da ética.

Por essa razão, afirma Eugênio Bucci, jornalista e professor universitário, autor
de Sobre ética e imprensa: “o jornalista nunca é isento, neutro e equânime, mas
sempre é um militante. O jornalista é democrata por definição – pelos próprios
pressupostos institucionais que alicerçam o ofício” (BUCCI, 2004, p. 49).

Mas como é possível compreender mais claramente a relação entre jorna-


lismo e democracia? Em primeiro lugar, é importante perceber que a democracia
segue o princípio de que todo poder emana do povo e que, em nome desse e dos
direitos das pessoas, é que o poder deve ser exercido.

Em segundo lugar, dentro do regime democrático, a delegação do poder e o


exercício do poder delegado dependem do reconhecimento, da produção e da cir-
culação de temas de interesse público entre os cidadãos. Ou seja, sem a veiculação
de informações e opiniões, a estrutura democrática deixa de funcionar.

Portanto, em terceiro lugar, é um dever ético e democrático do jornalismo atuar


com vistas à inclusão de todos os cidadãos no debate público, procurando expandir
o universo dos que têm acesso à informação e apontando para a transparência da
gestão da vida pública.

Contudo, apesar de ser matéria de interesse essencial das declarações de direitos


humanos e sociais desde o século XVIII no Ocidente, o direito à informação e à co-
municação ainda sofre por não ser devidamente reconhecido em nossa sociedade.

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É o que se pode notar quando, por exemplo, direitos como educação, saúde e
segurança são sempre lembrados em campanhas eleitorais (por vezes, de maneira
demagógica), enquanto o acesso à informação de qualidade não recebe a mesma
atenção por parte de candidatos aos mais diversos cargos públicos. A partir disso,
uma pergunta pode ser feita: é possível agir com a liberdade necessária para bem
informar a sociedade onde esse direito não se faz respeitar integralmente? De fato,
sem o pleno direito à informação e à comunicação de qualidade, a própria demo-
cracia fracassa como sistema.

É por essa razão que o jornalismo que respeita os preceitos do ofício, ou seja,
o jornalismo que age eticamente é sempre aquele dedicado ao fazer democrático.
Agir democraticamente por meio da prestação de informação de qualidade significa
não subordinar valores éticos a uma cultura ou a uma política específicas, tampou-
co a critérios pessoais. O mais importante nesse campo da atividade profissional
que possibilita o encontro do jornalismo com a democracia (tendo sempre a ética
como parâmetro) é transitar da particularidade do indivíduo para a universalidade,
e vice-versa. Em outras palavras, ao jornalista, apenas cabe agir democratimente,
sob o risco, em caso contrário, de simplesmente não desempenhar a sua função.

Não é por acaso que o Código de ética dos jornalistas brasileiros em seu
Capítulo II, Da conduta profissional do jornalista, no artigo 6º, ítem X, diz:
“É dever do jornalista defender os princípios constitucionais e legais, base do estado
democrático de direito” (CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS BRASILEI-
ROS, 2007, p. 6).

Consulte a versão integral do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros,


Explor

disponível em: https://bit.ly/2HbkB1e

De fato, desde o passado longínquo até chegar aos dias atuais, o jornalismo
percorreu uma longa trajetória para se afirmar enquanto atividade profissional inti-
mamente relacionada com a democracia. Contudo, cabe observar que, ainda antes
de sua profissionalização, o jornalismo já apresentava valores democráticos em
sua essência original. É o que se pode avaliar a partir da democracia ateniense da
Idade Antiga, que fazia uso de uma espécie de jornalismo oral, exposto ao ar livre,
sobretudo no mercado de Atenas, para dar ao conhecimento de todos aquilo que
era de interesse público.

Mas o fator determinante para o avanço em direção ao jornalismo moderno é a


passagem de uma cultura oral para a cultura pautada pela escrita. Nesse sentido,
serve como exemplo dessa evolução a Acta Diurna, ou seja, o diário da vida do Se-
nado e da administração imperial que era propagado ao longo do Império Romano.

Nesse tocante, a grande revolução na propagação da cultura escrita foi a inven-


ção técnica da imprensa. Embora pese a enorme fama de Johannes Gutemberg,

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UNIDADE Democracia e Jornalismo

é importante salientar que foram os chineses os verdadeiros responsáveis por esse


desenvolvimento tecnológico (o primeiro livro impresso conhecido data de 868 e a
invenção do tipo móvel aconteceu, aproximadamente, em 1040, ambos em terri-
tório chinês).

Contudo, nada disso diminui a importância de Gutemberg para a história da


comunicação e do jornalismo. Uma de suas primeiras obras impressas foi a Bíblia,
em 1456. E a influência de seu contributo tecnológico para a história da sociedade
alcança aspectos como a consolidação de línguas nacionais, a difusão da Reforma
Protestante, a Contra-reforma e também a constituição dos primórdios da indústria
do livro e da imprensa periódica.

Avançando nesse resumo histórico, e tendo em consideração a consagração da


técnica da imprensa no seio da sociedade, alguns estudiosos defendem a existência
de quatro grandes períodos até a afirmação do jornalismo contemporâneo:
(1) o primeiro foi o da imprensa de opinião, surgida em meados do século XVIII
e caracterizada pela presença de recursos literários em sua escrita; (2) a imprensa
comercial, bastante ligada à publicidade e aos interesses de consumo dos leitores
– esse período tem início na metade do século XIX; (3) depois ganha vida o pe-
ríodo relacionado ao surgimento dos meios audiovisuais e ao consumo de massa,
no decorrer do século XX; por fim, (4) a partir da década de 1970, tem início o
período caracterizado pela comunicação generalizada, quando estados, grandes ou
pequenas empresas e diferentes instituições passam a promover, por si mesmos,
a organização de conteúdos próprios, com a intenção de determinar a agenda do
debate público da sociedade.

Mediante esse histórico, já de muitos séculos, o jornalista do contemporâneo


depara-se com o desafio permanente de ter que agir em razão de valores democrá-
ticos e também de lutar pela resistência da liberdade em sua profissão. Conforme é
possível perceber, sobre esse profissional, recaem pressões de várias ordens, estan-
do sempre os princípios éticos sob o risco de não serem respeitados.

Mas por que é importante falar sobre democracia e ética no jornalismo?


Uma resposta possível a essa problemática passa pela garantia efetiva do direito so-
cial à informação e à comunicação de qualidade. Sem a atenção, em primeiro lugar,
do próprio profissional de imprensa, e depois do público em geral, a participação
coletiva de todos os integrantes de uma sociedade no andamento da vida pública
fica comprometida, fica negativamente afetada a construção e a manutenção de um
ambiente social baseadas em fatos jornalisticamente apurados. Em outras palavras,
é por meio do respeito à democracia e à ética que o jornalismo consegue alcançar a
sua credibilidade, a sua independência e o compromisso em ampliar o universo da-
queles que têm acesso à informação. Sobre esse tópico, acrescenta Eugênio Bucci:
“É desse modo que ele [o jornalismo] contribui para a democracia inclusiva e para
o desenvolvimento humano” (BUCCI, 2009, p. 131).

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Princípios Éticos
Imagine a seguinte situação: em uma fila para o pagamento junto à caixa regis-
tradora de um supermercado, uma senhora deixa cair de sua bolsa, sem perceber,
um maço de cédulas de reais. Um homem atrás dessa senhora, disfarçadamente,
abaixa-se, apanha o dinheiro do chão e guarda o montante em seu próprio bolso,
sem comunicar a distraída mulher. Agora, suponha o seguinte episódio: o respon-
sável pela comunicação social da campanha política de um dado candidato à pre-
sidência da República, a fim de desestabilizar a imagem pública de um concorrente
ao mesmo cargo, produz e divulga, nas redes sociais, notícias falsas com o intuito
de manchar a reputação de seu adversário.

Em qualquer um dos casos relatados acima – ou seja, desde uma situação apa-
rentemente corriqueira, supostamente típica do cotidiano, ou dentro do âmbito da
escolha do futuro presidente da República, por meio de eleições públicas em que
estão envolvidas dezenas de milhões de pessoas –, é bastante possível que os agen-
tes implicados sejam apontados por atuarem em “falta ética”, por terem “problemas
éticos”, ou ainda que os exemplos em questão tratam de “atitudes antiéticas”.

A compreensão de que as ações em sociedade são passíveis de julgamentos éticos


generalizados é perfeitamente aceitável. Mesmo que, em muitas das vezes, possa
faltar uma delimitação precisa do conceito de ética, as pessoas, no cotidiano de suas
vidas, percebem que as atitudes humanas estão sempre correlacionadas com uma
moralidade construída exatamente por homens e mulheres ao longo da história.

Contudo, quando esse debate é transferido para o contexto da prática profissio-


nal do jornalismo, é relevante proceder com uma distinção clara o suficiente entre
ética, moral e deontologia.

Ética: deriva da palavra grega ethos, enquanto moral resulta do latim, da palavra moralis.
Explor

Em ambas acepções originais, ética e moral tinham significados quase idênticos, ou seja, o
de “caráter”, “costume” ou “maneira de ser”. Ao longo dos tempos, os dois termos não se
separaram de fato, mas a eles foram atribuídos propósitos diferentes. Assim, contemporane-
amente, ética está mais associada ao que os homens fazem com a moral, isso é, como fazem
os valores funcionarem. Nesse sentido, a moral está para um conjunto de regras estabeleci-
das, enquanto a ética é a reflexão, o pensamento sobre tais regras e como elas se relacionam
com os homens e com o mundo.
Deontologia: deriva do grego deontos e significa “o que deve ser”.

Portanto, prosseguindo com a reflexão adotada acima, se moral é o conjunto


de regras e ética o pensamento sobre tais regras, deontologia é a conformação da
moral e da ética em normas concretas. Em outras palavras, a deontologia norma-
tiza, ou seja, transforma em normas tanto as regras morais quanto a reflexão ética
sobre tais regras.

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UNIDADE Democracia e Jornalismo

Importante! Importante!

Sendo as noções de “moral” e “ética” construções realizadas ao longo dos tempos, res-
peitando também variáveis culturais e suas transformações, é importante diferenciar
esses termos dos códigos profissionais dos jornalistas, que existem para a normatização
de regras e condutas, ou seja, em acordo com a deontologia.

Relativamente ao próprio ato de reflexão sobre a ética no jornalismo, é relevante


salientar que essa atitude necessariamente obriga o profissional de imprensa a se
afastar da prática imediata de seu ofício, por mais momentâneo ou prolongado
que seja. Assim, diante do dinamismo cotidiano desse profissional – em busca de
notícias, na expectativa de uma declaração determinante para a sua matéria ou
ainda na investigação de uma causa da maior relevância para a sociedade –, parar
e refletir sobre a verdadeira contribuição de seu papel para a vida democrática pode
parecer impossível, mas trata-se de um agir fundamental para a concepção de um
jornalismo cumpridor de parâmetros ancorados em princípios justos.

O profissional de imprensa que assume o necessário desafio de refletir sobre a


sua conduta ética no jornalismo se depara, no fundo, com um pensamento sobre si
mesmo dentro da sociedade. E é possível que aí resida um dos grandes desafios de
reflexão para uma maior parte desses profissionais.

O jornalista que age eticamente procura alternativas válidas e dignas para os


seus dilemas do cotidiano no diálogo com correntes filosóficas estabelecidas ao
longo da História – ou seja, por meio de vertentes clássicas ou modernas do pensa-
mento humano ao longo dos tempos, buscando estabelecer conexões viáveis com
o seu próprio ofício diário.

É importante ter em mente que a conduta ética assumida pelo profissional de


imprensa é resultado de sua racionalidade e liberdade. Por outro lado, esse agente
que desfruta de autonomia em seus atos está, automaticamente, atrelado aos va-
lores sociais que lhe são exteriores, que para ele representam o conjunto de leis e
normas que merecem e devem ser respeitadas. Em suma, o caráter ético da con-
duta profissional não está desassociado do bem comum, do esforço de construção
democrática em uma sociedade.

No âmbito do processo reflexivo sobre o fazer jornalístico ético em sociedade, o


agente desse pensamento se depara com alguns desafios de profundidade filosófi-
ca, mas que são também de consequências perceptíveis concretamente.

Alguns exemplos ajudam a compreender melhor a ideia debatida acima. Veja,


seria correto defender a hipótese de que cada um de nós tem a sua ética pró-
pria? Por um lado, a afirmação faz sentido, mas ela não é completa, pois a ética
não é uma dimensão que toca apenas o lado individual das pessoas. Desde que o
homem começou a viver em sociedade, existem valores morais e éticos que auxi-
liam na construção e na manutenção das vidas em coletividade. Portanto, o pro-
fissional de imprensa que se perceba diante de um dilema ético certamente levará

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em consideração valores de conduta que são da ordem do pessoal, mas também
de alcance plural.

Então, a ética é uma só para todos nós? De acordo com o que tem sido de-
batido até aqui, pode-se notar que a ética trata de um procedimento permanente-
mente em construção, no qual o individual e o coletivo estão constantemente em
diálogo. Contudo, no tocante ao caso específico do jornalista, a situação tem suas
peculiaridades. A deontologia, portanto a ética profissional do jornalista, implica
em atitudes, deveres e valores específicos dessa atividade produtiva. Apesar de
ser, sim, um cidadão como muitos, que atua em compromisso democrático com a
sociedade, o profissional de imprensa tem sempre atributos extras que fazem com
que suas obrigações éticas tenham consequências mais profundas do que aquelas
verificadas na maioria da população.
Sendo algo tão conectado com o cotidiano pessoal e profissional das pessoas,
a ética se aprende (ou deveria se aprender) nas escolas e nas universidades?
Ainda que muitas vezes o debate sobre ética não apareça nas ementas escola-
res ou universitárias de maneira explícita, é inevitável que questões éticas sejam
transversais à vivência nas escolas e nas universidades. Conforme já foi demons-
trado anteriormente, a formação moral de um indivíduo é muito mais complexa
do que geralmente se pode supor. Assim, o ato de refletir sobre essa própria
formação moral (ou seja, a atitude ética) resulta em cada pessoa a partir de seu
desenvolvimento íntimo, considerando o livre trânsito por diversos grupos sociais,
o contexto social e cultural no qual vive etc. Tudo isso influencia na formação do
caráter e na definição da personalidade individual. Contudo, no caso da formação
em jornalismo, uma disciplina dedicada à ética é da máxima importância. Mesmo
que essa matéria não possa determinar o caráter dos jovens profissionais (e nem
é para isso que ela existe), faz parte de suas atribuições contribuir para que a vi-
vência ética (individual) atue em respeito aos valores deontológicos da profissão
(normas coletivas).
No tocante ao comportamento eticamente válido, um dos dilemas mais frequen-
tes na atividade jornalística diz respeito à tomada de decisão entre seguir pela cor-
rente utilitarista ou pela corrente universalista.
A corrente utilitarista segue o princípio de que, ao pautar a sua conduta, o jor-
nalista deve julgar aquilo que efetivamente traz mais benefícios éticos para o maior
número de pessoas. Assim, de acordo com essa lógica de reflexão, está em causa
lidar com as consequências do ato jornalístico em termos daquilo que é útil para
a maioria. A pergunta feita pelo profissional de imprensa nessa ocasião deve ser:
agindo eticamente, qual é a melhor decisão a ser tomada para que mais pessoas
sejam contempladas pelo meu trabalho?
Já a corrente universalista, estimulada pelo pensamento do filósofo Imma-
nuel Kant (1724-1804), é orientada por uma regra de conduta que defende o
princípio do uso da verdade acima de tudo, onde uma determinada tomada de
decisão só pode ser eticamente aceitável se for universal. Assim, o que importa
é que o ato jornalístico se revista das características de um imperativo categórico

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UNIDADE Democracia e Jornalismo

universal, quer dizer, que a ação se apoie em princípios que tenham a mesma
validade para todos. Por exemplo, não roubar e não mentir são imperativos cate-
góricos kantianos universais.

É certo que não existem utilitaristas puros nem universalistas puros no ofício jor-
nalístico. As duas correntes se mesclam e exigem que o profissional tenha sempre
atenção sobre as consequências de seus atos. Ganha validade, portanto, a chamada
Regra de Ouro, que prevê “o princípio segundo o qual cada um deve agir em rela-
ção aos outros do mesmo modo que gostaria que os outros agissem em relação a si.
Aqui, o que fala mais alto é a preocupação com o próximo” (BUCCI, 2004, p. 23).

Escolher entre ser utilitarista, universalista ou seguir a Regra de Ouro não é uma
decisão simples. Para respeitar a melhor alternativa ética sobre a problemática com
a qual se depara, o jornalista deve estar sempre atento e permanentemente em
reflexão acerca de seu compromisso como cidadão. Isso acontece porque a ética é
um conceito flexível (como já foi debatido anteriormente).

A filosofia, que serve de base para toda a discussão sobre a ética, não permi-
te determinar esse conceito como algo fechado, permanente e imutável, ainda
que ele esteja sendo aplicado a uma certa profissão (como no jornalismo, por
exemplo). Dessa maneira, não é suficiente que as regras de um código de ética
sejam seguidas à risca se o envolvimento próprio do profissional de imprensa não
estiver delimitado pelo compromisso elementar de seu ofício: atuar em favor da
construção democrática.

A Ética Aplicada ao Jornalismo


Certo é que o jornalismo em si já implica na realização de uma ética. Isso porque
ele consiste em publicar aquilo que muitas vezes outros querem esconder, mas que,
contudo, o cidadão tem o direito de saber. Por isso, notícia não pode ser encara-
da apenas como “aquilo que é novo”, mas antes como uma informação que afeta
o presente e o futuro da vida em cidadania – esteja a cidadania manifestada via
consumidor, eleitora, estudante, aposentada etc. Assim, inevitavelmente, a notícia
incide sobre as relações humanas.

No cotidiano da prática jornalística, a conduta ética do profissional está plena-


mente mesclada com a qualidade técnica de produção de seu trabalho. Nesse sen-
tido, o desempenho do ofício jornalístico ético é também a execução de um ofício
tecnicamente elevado. Ou seja, repórteres, redatores e editores precisam dominar
equipamentos e linguagens, sim, mas isso deve suceder em respeito e atenção tam-
bém aos seus respectivos compromissos e valores morais.

O jornalismo eticamente comprometido com a vida cidadã e com o seu papel


no âmbito das interações democráticas em uma sociedade deve se ocupar de duas
questões da mais elevada importância: (1) Por que as notícias são como são?
(2) Quais são os efeitos que essas notícias geram?

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Confrontar esses questionamentos exige que o próprio profissional de impren-
sa quebre com o chamado mito da neutralidade. Reforçado pelo senso comum,
trata-se de um mito que tenta encontrar na noção (impossível) de neutralidade o
sinônimo de “jornalismo perfeito”.

Nesse caso, o problema ético não é exatamente que o jornalista tenha suas con-
vicções e até mesmo preconceitos (como todo e qualquer cidadão); a complicação
ética ali reside no não reconhecimento e no não esclarecimento (para si e para os
demais) dessas determinações íntimas, escondendo-as, mascarando-as como neu-
tralidade. Em suma, a falta ética acontece quando o jornalista toma partido em um
fato, mas insiste no fingimento do “teatro da neutralidade”.

Uma vez que o jornalismo existe como comunicação social e pública, no limite,
estando o jornalista tão comprometido quanto qualquer outro cidadão nas conse-
quências da recepção de uma determinada notícia, isso faz com que o profissional
de imprensa tenha de vigiar a si próprio de um modo especial. Afinal, se a neu-
tralidade fosse de fato possível, essa questão sequer seria uma questão ética a ser
debatida, seria uma obrigação.

Trocando ideias... Importante!


Durante os grandes eventos esportivos, como é o caso da Copa do Mundo de Futebol e as
Olimpíadas, é muito comum que a imprensa esportiva faça a cobertura desses episódios
a partir de uma mescla entre o comportamento profissional e o de torcedor nacionalista.
Pensando eticamente sobre tal exemplo, o profissional de imprensa, nesse caso, deve
fingir neutralidade ou assumir que o seu olhar sobre tais eventos está afetado pelo desejo
de vitória dos representantes de seu país?

Diante de tantos desafios na prática cotidiana da profissão – o jornalista não tem


final de semana livre, deve estar permanentemente antenado nas notícias, gasta ho-
ras (por vezes dias) à espera de uma declaração, sofre com a falta de tempo ocioso
ao lado de familiares e amigos, recebe reclamações dos chefes etc. –, o profissional
de imprensa ainda deve encarar com naturalidade e respeito as pressões que sofre
do público-leitor, espectador de seu trabalho. É comum que cobranças aconteçam,
e é necessário que o jornalista não se perca no caminho de seu comprometimento
com os valores democráticos. Dentro desse ofício, por vezes, o reconhecimento é
muito mais pessoal do que social. Por isso, é tentadora a hipótese do fingimento da
neutralidade, mas é sempre um dever ético que a visão de mundo do jornalista não
seja por ele camuflada.

No jornalismo, não camuflar a visão própria do mundo, ou seja, não simular


o mito da neutralidade significa reconhecer as limitações no tocante à passagem da
descrição objetiva do mundo para a interpretação que o homem, inevitavelmente,
atribui ao mundo histórico observado. Em outras palavras, há uma limitação na
essência própria da linguagem humana que impede, assim, qualquer noção de
pureza associada à ideia de que o mundo histórico possa ser de fato e plenamente

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traduzível. Nesse sentido, toda abordagem jornalística está condicionada aos limites
de seu alcance, que é o alcance humano.

Obviamente, os limites da atividade jornalística jamais podem servir de justificati-


va para a ação propositalmente ineficiente e incompetente. Por essa razão, deve-se
insistir aqui, o ofício tecnicamente bem realizado pelo profissional de imprensa leva
à execução eticamente aprimorada pelo jornalista.

Ao elaborar tecnicamente uma informação, o jornalista atua na construção


simbólica do mundo. Conforme visto acima, essa construção é limitada, estando
inevitavelmente dentro das fronteiras da capacidade humana. Mas a elaboração
dessa informação, além de ter de ser tecnicamente irrepreensível, também deve
respeitar obrigatoriamente o direito social do cidadão. Portanto, ao elaborar uma
informação, o jornalista tem o dever ético de expressar a diversidade conceitual
com a qual ele se depara cotidianamente. Isso quer dizer que, na própria informa-
ção, é necessário que estejam presentes as diversas concepções, versões, culturas
e comportamentos que consolidam o mundo histórico observado.

No contexto daquilo que aqui vem sendo debatido, são valiosas as palavras de
Francisco José Karam quando ele afirma que a “linguagem, que reflete e projeta
significados, culturas, comportamentos, media igualmente o movimento histórico dos
homens se fazendo a si mesmos”. E mais, complementa o professor de jornalismo:
A informação torna-se fonte de poder e a concepção sobre a vida tor-
na-se também, em escala social, forma e conteúdo de poder refletida
no controle sobre a palavra e o acesso a ela em sua dimensão pública.
(KARAM, 1997, p. 16)

Sendo assim, tendo acesso privilegiado à informação, ao jornalista não se co-


locam questões, por exemplo, entre o que é lícito ou ilícito. A matéria-prima de
sua conduta ética não passa e não deve passar por essa dúvida. O jornalista deve
agir sempre licitamente. Contudo, diante de suas responsabilidades (veja acima: “a
concepção sobre a vida torna-se conteúdo de poder”), ao profissional de imprensa
coloca-se a necessidade de ter de escolher entre duas alternativas igualmente lícitas,
ou melhor, entre o certo e o certo.

Escolher entre o certo e o certo... Aparentemente simples, esse é dos dile-


mas mais complexos para o ofício jornalístico. Isso porque tal problemática exige
que toda atenção, sensibilidade e comprometimento democrático do profissional
estejam ativos e atuantes permanentemente. Escolher entre dois “certos” elimina a
opção do “errado”, e assim dobra-se a relevância da decisão a ser tomada.

Diante do que aqui vem sendo debatido, é importante fazer notar que a reflexão
sobre o jornalismo ético não deve ter em conta apenas a prática e seus limites, mas
inclusive a condição de rompimento com tais limites para formular uma outra práti-
ca. Quando observada a importância contemporânea do jornalismo e a necessida-
de de se debater a respeito dela, tem-se de reconhecer que sobre a moral que envol-
ve o profissional de imprensa há uma ética que pode ser tratada especificamente.

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Tratar a ética no jornalismo de maneira específica significa dizer que existe uma
ética específica para o jornalista? Essa é uma dúvida que paira tanto sobre es-
tudantes como sobre profissionais experientes da imprensa. Para Cláudio Abramo,
por exemplo, um dos nomes mais respeitados do jornalismo brasileiro, a ética do
jornalista é exatamente a mesma do cidadão comum. Outros renomados profis-
sionais e estudiosos do tema discordam dessa alegação, sustentando que a ética
jornalística é sim específica (ver KARAM, 1997).

Uma maneira válida de lidar com essa problemática seria reformular a pró-
pria questão de base. Assim, tendo uma ética específica, ou assumindo a ética
cidadã ampla, as decisões tomadas pelo jornalista em sua profissão causam
o mesmo impacto na sociedade do que aquelas tomadas pelo “cidadão co-
mum”? Mediante tudo o que já foi debatido até aqui, é possível concluir que o
lugar do profissional de imprensa no âmbito de uma coletividade é o de grande
poder e responsabilidades. Suas decisões podem sim alterar os rumos de uma
sociedade. Seu comprometimento ético, desse modo, deve estar permanente-
mente ativo e voltado à vida democrática (de modo mais intenso do que o do
“cidadão comum”).

Agindo eticamente, o jornalismo valida a sua credibilidade junto ao público. Com


isso, o jornalismo colabora para fortalecer o processo permanente de construção
e realização da cidadania, da vida democrática. Nesse processo, a credibilidade
do ofício é fundamental porque ela convoca a participação ativa (não passiva) da
sociedade na atribuição de sentidos sobre as eventualidades do mundo histórico. O
compromisso ético do jornalista é excepcional porque é dos que mais preza pelo
coletivo, mantendo-se acima da particularidade dos vários interesses, sejam empre-
sariais ou pessoais, de profissionais ou fontes de informação. Conforme faz notar o
professor Felipe Pena, citando para isso o jornalista Alfredo Vizeu:
Os jornalistas constroem antecipadamente a audiência a partir da cultura
profissional, da organização do trabalho, dos processos produtivos, dos
códigos particulares, da língua e das regras no campo da linguagem, o que
influencia diretamente a construção das notícias. (PENA, 2007, p. 74)

No mais, é importante reforçar que a participação ativa e crítica da audiência na


vida em sociedade, ou seja, a participação cidadã estimulada pelo jornalismo ético
e de qualidade faz com que esse mesmo público exija que a imprensa aja com res-
ponsabilidade social e com consciência, que o jornalismo não abuse de seu poder
para destruir reputações ou para deformar as instituições democráticas. Em suma,
uma audiência bem e eticamente informada exige que os princípios que se encon-
tram na origem do jornalismo não sejam corrompidos.

Assim, a proximidade entre jornalismo e audiência nunca pode ser uma relação
nociva para qualquer das partes quando permeada por princípios éticos. Na verda-
de, o contributo de tal relação atua no sentido de combater injustiças muitas vezes
promovidas por grandes grupos de comunicação, grandes conglomerados que em
muito sobrepairam os limites de atuação individual do jornalista.

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UNIDADE Democracia e Jornalismo

Em Síntese Importante!

Imagine um dado contexto em que o dono de uma emissora de televisão declara seu
apoio explícito a um candidato a cargo público durante a campanha eleitoral para o
pleito. Sentindo-se pressionados dentro dessa mesma emissora, é plausível que os jor-
nalistas fiquem impedidos de exercer eticamente seu ofício, por exemplo, sem revelar
aspectos negativos do candidato da preferência do patrão. Uma mudança nessa ordem
de acontecimentos certamente seria legítima desde que a audiência tivesse uma partici-
pação ativa e crítica sobre aquela cobertura jornalística, pressionando, no caso, para que
as matérias não sejam apenas elogiosas ao referido candidato.
Afinal, é um princípio do jornalismo (portanto, um valor democrático exigido para o ofí-
cio) que a informação seja mediada por uma ética que reflita uma lógica moral que con-
fronte o conservadorismo vigente, que amplie ao máximo o campo de visão e de abor-
dagem das eventualidades sociais, respeitando o que é diverso e plural, e que se construa
sempre essa informação, com base em valores como a liberdade e a humanidade.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Livros
O que é ética
VALLS, Á. L. M. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 2013.
O que é democracia?
TOURAINE, A. O que é democracia? Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.

Vídeos
Observatório da Imprensa
Série de entrevistas comandadas pelo jornalista Alberto Dines para a TV Brasil.
https://bit.ly/2VUkHlV

Filmes
O Quarto Poder (Mad City)
Ano: 1997. Dir.: Costa-Gavras. País: EUA. Duração: 115 minutos.

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UNIDADE Democracia e Jornalismo

Referências
BUCCI, E. A imprensa e o dever da liberdade: independência editorial e suas
fronteiras com a indústria do entretenimento, as fontes, os governos, os corporati-
vismos, o poder econômico e as ONGs. São Paulo: Contexto, 2009. [e-book]

BUCCI, E. Sobre ética e imprensa. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CHRISTOFOLETTI, R. Ética no jornalismo. São Paulo: Contexto, 2008. [e-book]

CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS BRASILEIROS. 2007. Disponível


em: <http: //www.jornalistas.org.br/download/codigo_de_etica_dos_jornalistas_
brasileiros.pdf>. Acesso em: 29 jan. 2013.

KARAM, F. J. C. Jornalismo, ética e liberdade. 2. ed. São Paulo: Summus, 1997.

KUCINSKI, B. A síndrome da antena parabólica. São Paulo: Perseu Abramo,


Fund. perseu Abramo, 2006.

LOPEZ, D. C.; FREIRE, M. Considerações sobre a ética no jornalismo on-line.


Intexto, Porto Alegre, v. 2, n. 19, p. 1-5, jul./dez. 2008. Disponível em: <https://
repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/1727/1/4772.pdf>. Acesso em: 29 jan. 2013.

PENA, F. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005. [e-book]

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