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As noivas de Satã: bruxaria,

misoginia e demonização no
Brasil colonial
Carolina Rocha Silva

resumo palavras chave


Durante toda Idade Média e Moderna o feitiçaria; misoginia; escravidão; inquisição
tema da natural inclinação feminina para os
comportamentos desviantes fazia parte do
programa educacional de padres e religiosos
das mais variadas ordens. Os médicos
também reafirmaram em seus escritos a
inferioridade física e moral das mulheres, e os
juristas, igualmente, deram sua contribuição
para reforçar a inferioridade estrutural do
sexo feminino. A produção literária e a
iconografia da Renascença foram da mesma
forma hostis à condição feminina. Esse
artigo resgata a história de duas escravas
mestiças, Joana e Custódia de Abreu, que
assumiram participar de encontros noturnos
firmados por pactos diabólicos no Piauí
colonial. Mulheres mestiças, descendentes
de escravos africanos e indígenas, pobres e
imersas numa sociedade misógina, opressora
e extremamente híbrida, com interconexão de
cultos e culturas diversas, de origem africana,
indígena e europeia. O uso da “feitiçaria” era
constante no Brasil colonial, seja para resolver
problemas práticos do dia-a-dia, seja para
conquistar benesses materiais ou ainda como
forma de resistência ao sistema escravista e
a dominação portuguesa. O artigo analisa
historicamente a segunda metade do século
XVIII, mas os temas são totalmente atuais:
misoginia, demonização de práticas religiosas,
pluralidade religiosa, escravidão, dentre
outros.
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Introdução. e de todos os sentimentos ligados ao seu


inconsciente e à sua condição social.

A maior parte das fontes disponíveis sobre O surgimento da demonologia no mundo


a feitiçaria na Época Moderna – tratados cristão e o desenvolvimento do conceito de
demonológicos, processos de execução dos bruxaria.
condenados e os processos contra os réus nos
tribunais seculares, episcopais e inquisitoriais O contexto do século XV/XVI europeu,
– foram produzidas por homens, que com guerras civis e religiosas, a miséria nos
condenavam a bruxaria e estavam dispostos campos, a peste negra e o abalo na Igreja
a perseguir as feiticeiras, o que gera uma provocado pela Reforma protestante, gerou
atitude comum de descrédito com as fontes. um ambiente de medos e incertezas que levou
No entanto, as distorções também indicam aos os homens modernos a procurarem bodes
estudiosos a natureza das crenças construídas expiatórios para os seus problemas. O Diabo
em torno da feitiçaria. Através dos supostos cristão, principalmente a partir da Alta Idade
erros de interpretação de magistrados e juízes Média, foi considerado o agente universal
é possível encontrar a mentalidade de uma de todo mal sobre o mundo. E mais que
época, que enquadrava as crenças acerca da isso, ele foi visto como o principal aliado de
feitiçaria e dos poderes do demônio em um todos os opositores, efetivos ou imaginários,
sistema próprio de crenças religiosas. da Igreja cristã. A visão de mundo dualista
do Cristianismo procurou estigmatizar os
No Brasil, tanto para os colonizadores grupos dissidentes ao longo da história
como para os colonos, as práticas mágicas (Minois, 2003). E tornou herético e diabólico
assumiram uma função social. Para os todo sagrado não oficial. Assim fizeram
colonizadores elas eram a fonte de todo com os judeus, com os muçulmanos, com
mal, a prova da influência do Diabo sobre as mulheres, doravante transformadas em
aqueles povos, que impedia a conversão bruxas, e com todos os grupos de possíveis
dos indígenas e corrompia a fé dos colonos. inimigos (Delumeau, 1989).
Para os colonos, as atividades com o mundo
sobrenatural permitiam o alívio das tensões Foi nesse processo que se transformaram as
inerentes do sistema escravista, da miséria, visões acerca do Diabo, que se tornou capaz
das angustias e incertezas, dos desamores e de quase tudo, e das feiticeiras, vistas, a partir
desafetos, das pulsões sexuais, das doenças, de então, como heréticas ameaças sociais.
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Durante a Idade Média, a Igreja condenou profundos, por vezes inexplicáveis. Por
as práticas maléficas dos feiticeiros, mas eles consequência, ao longo dos séculos o
não foram alvo de perseguições sistemáticas e elemento paterno representou a história,
sangrentas. Na Época Moderna, no entanto, enquanto que o elemento materno foi
o mago, gradualmente, transformou-se em representante do poder biológico e da
bruxo, ou seja, tornou-se servo do Diabo natureza, instintiva e indomável. Assim,
(Levack 1988). Assim, mesmo as receitas a mentalidade masculina cercou a mulher
de cura, os conjuros de amor e os amuletos de uma ambiguidade basilar, ora ligada ao
protetores, que continham orações católicas e pecado nocivo e ora ligada à virgindade
preces aos anjos e santos de Deus, passaram maculada.
a ser vistos como pecado mortal (Delumeau,
1989). O medo da mulher não foi inventado pelo
Cristianismo, mas foi desde cedo integrado
Por conseguinte, a possível apostasia e alimentado em suas doutrinas. A mulher,
das bruxas se tornou muito mais grave e como um ser mais próximo da natureza e da
intimidadora para a Europa durante esse matéria, responsável pela procriação da vida,
período. Esse processo foi deflagrado com a mas também pela morte, juiz da sexualidade
publicação da obra “Malleus Maleficarum”, masculina, dona de uma impureza fatal e de
de Kramer e Sprenger, em 1486. Para os uma força misteriosa, impedia, segundo a
autores, a bruxa não era apenas uma pessoa mentalidade da época, os homens de realizar
que realizava magia prejudicial, mas era uma sua espiritualidade.
mulher que também fazia um pacto diabólico,
no qual se colocava como serva do mal. O “Malleus Maleficarum” reforçou as teorias
misóginas produzidas ao longo da história e
defendeu a tese de que as mulheres estavam
A demonização da mulher. diretamente ligadas ao “crime” da bruxaria.
A obra, baseada em um vastíssimo conjunto
Segundo o historiador Jean Delumeau de autores cristãos e pagãos, enuncia todos
(1989), ao longo da história da humanidade os possíveis vícios e defeitos das mulheres:
a visão masculina sobre as mulheres oscilou patrocinadoras do pecado no mundo; donas
entre a exaltação e o medo. A fisiologia de uma sexualidade desenfreada; fracas e
feminina e processos como a maternidade e débeis por natureza e, por conseguinte,
a menstruação foram envoltos de mistérios mais suscetíveis aos propósitos de Satã.
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Por isso, serviu como roteiro primordial de As crenças mágico-religiosas na América


inquisidores, juízes e magistrados em seus Portuguesa.
tratados e processos contra as feiticeiras.
As instâncias de poder portuguesas não
O tema da suposta inclinação natural empreenderam uma loucura persecutória
feminina para os comportamentos desviantes contra as bruxas, como feito noutras partes
fazia parte do programa educacional de do continente europeu, mas, nem por isso,
padres e religiosos das mais variadas ordens. deixaram de se preocupar com as práticas
Os médicos também reafirmaram em seus supersticiosas do povo comum, eivadas de
escritos a inferioridade física e moral das magismo, e com a possibilidade do pacto com
mulheres, assim como os juristas deram sua o Diabo (Paiva, 1997).
contribuição para reforçar a inferioridade
estrutural do sexo feminino, utilizando Muitos cronistas e eclesiásticos descreviam
como sustentação teórica as leis do direito as práticas mágico-religiosas americanas
romano. A produção literária e a iconografia utilizando como parâmetro as concepções
da Renascença foram igualmente hostis à e as terminologias demonológicas que lhes
condição feminina. eram familiares: “Sacerdotes maias, incas ou
astecas, xamãs, caraíbas e pajés tupis, enfim,
Assim, a longa tradição misógina ocidental todos os responsáveis pelo espaço sagrado
transformou, em meados do século XV, a foram quase sempre chamados de bruxos
mulher em um poderoso agente de satã, e feiticeiros (...)” (Souza, 1993a). Assim,
na forma de bruxa. A perseguição às os rituais heterodoxos dos índios e dos
feiticeiras de Satã foi uma das bandeiras e negros africanos foram reduzidos, muitas
causas do Estado absolutista. A repressão vezes, ao seu potencial para o mal, sendo
inquisitorial tratou de cuidar delas, baseando- criminalizados e classificados como heréticos.
se na construção da feitiçaria e da bruxaria
como formas de heresia e no sabá como o Para os africanos escravizados, muitas vezes,
ritual de consagração do pacto demoníaco. usar ritos e ícones de sua religião matriz
Dilaceradas moralmente, as bruxas na África era uma forma de se proteger
sucumbiram, na fogueira ou na forca, a uma nas relações escravas, como prevenção
perseguição arbitrária. ao ataque de seus senhores: “Impostos a
degradação física, moral e psicológica pelo
sistema escravista, sua difícil condição
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de sobrevivência era de, algum modo, Livramento, o missionário jesuíta Manuel da


compensada com práticas mágicas” (Caldas, Silva escreveu as confissões da mestiça Joana
2006). A resistência ao sistema escravista no Pereira de Abreu, com 19 anos na época, e da
mundo colonial se deu de diversas formas, índia Gueguê Custódia de Abreu, batizada,
desde manifestações explícitas, como fugas, com 18 anos, ambas, escravas do capitão-mor
revoltas e formações de quilombos, até José de Abreu Bacelar.
as mais sutis e cotidianas, como suicídios,
roubos, assassinatos e feitiços. As práticas Joana Pereira de Abreu era solteira, com
mágicas eram, portanto, necessárias e 11 anos de idade e escrava de Antônio da
essenciais nesse mundo escravista, como uma Silva dos Santos, por alcunha chamado O
alternativa de combate, “muitas vezes a única Pitomba, residente na vila da Mocha, capitania
possível” (Souza, 1993b: 272), ao sistema do Piauí, quando conheceu uma mestiça
colonial. Entretanto, a compreensão dessas forra, da mesma vila, chamada Cecília. A
práticas não perpassou apenas a dimensão da “Mestra Cecília”, como Joana a caracteriza
resistência. no documento, foi responsável, juntamente
com sua ajudante, Josefa Linda – mestiça e
escrava da mesma fazenda - por lhe ensinar
O Sabá do Sertão: entre práticas mágicas, o dito “comércio com o demônio” 1. Oito
calundus e descrições sabáticas. anos depois, precisamente em 19 de abril de
1758, Joana confessou suas culpas ao padre
A fiscalização inquisitorial do comportamento Manuel da Silva, que tratou de encaminhar
religioso das populações no ultramar poderia o acontecido ao Santo Ofício. Na ocasião,
ser realizada por instâncias diversas, tais devido à morte do seu antigo senhor, a
como: pela própria Inquisição, através das mestiça era moradora das Cajazeiras.
Visitações do Santo Ofício e da vigilância
dos comissários e familiares; pelo poder Alguns anos depois do acontecido em
eclesiástico; e pela Companhia de Jesus, Mocha, os destinos de Joana de Abreu e
já que os jesuítas eram, muitas vezes, os Josefa Linda (não há a confissão dela, apenas
representantes religiosos mais próximos das referências constantes nas confissões de Joana
populações sertanejas. e Custódia) cruzariam com o da pequena

Em 1758, na fazenda Cajazeiras da Gurguéia, 1 O termo é usado no próprio documento.


localizada na Freguesia de Nossa Senhora do ANTT, IL, Caderno do Promotor n.121. Torre do
Tombo. Livro 313, f.125.
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“gentia”, Custódia, na Freguesia de Nossa sacramento, que ali havia de bater com as
Senhora do Livramento. As mestiças foram partes prepósteras assim nua umas três vezes
compradas pelo Capitão José Bacelar e logo na porta da Igreja indo sempre para trás, e
trazidas como escravas para as Cajazeiras. havia no mesmo ponto de chamar por este
Assim que chegou, Josefa mostrou-se muito nome e vocábulo: Tundá, o qual vocábulo
amiga de Custódia e lhe contou alguns nem eu lhe sei bem decifrar a significação
segredos, como as torpezas que cometia com inteira e cabal, mas julgo ser nome do
um homem – que assumia a forma humana, Demônio. E que dali havia de endireitar nua
mas não era humano – na vila da Mocha. para (...) o Enforcado, (...). E que ali me havia
Assim, prometeu ensinar tudo o que havia de aparecer um moleque e que eu pondo-me
aprendido com o sujeito à índia, pois ele na postura de quatro pés, ele me havia de
poderia trazer muitas vantagens a ambas. O conhecer pela prepóstera2.
ritual que Josefa propagou nas Cajazeiras foi
muito semelhante ao que a “Mestra Cecília”
ensinara, anos antes, à própria Josefa e à Joana chama a “Mestra Cecília” de mãe
Joana Pereira de Abreu, na vila da Mocha. no fragmento selecionado do texto. Essa
é a única hora que aparece a palavra mãe
para designar Cecília no documento, todas
Joana Pereira de Abreu descreveu como foi as outras vezes ela aparece como a grande
seu primeiro contato com o demônio, às Mestra. A ideia do mestre que ensina seus
vésperas do dia de São João. Assim começou discípulos estava presente nos tratados de
a mestiça: demonologia europeus. “Mãe” talvez seja a
forma como a escrava realmente chamava
(...) me contou a dita Mãe Cecília, que o Cecília, enquanto que “mestra” pode ter
Demônio tinha torpezas com as mulheres. sido a palavra encontrada pelo jesuíta, já que
E que se eu queria falar e ter com ele, ela Cecília cumpria o papel de doutrinadora.
me ensinaria. Aceitei eu, como rapariga Da mesma forma, ela chamava Josefa
de nenhuns miolos e por outra parte de Linda de “irmã mais velha”. Os escravos,
costumes de pouca ou nenhuma boa retirados de suas terras natais, distantes
educação (...). Então me disse ela que eu dos seus parentes e amigos, reconstruíam
havia de ir nua à porta da Igreja da mesma suas identidades e redes de sociabilidade na
vila de Moucha, em que vivíamos, e na qual a
Igreja da vila se conserva sempre o santíssimo 2 ANTT, IL, Caderno do Promotor n.121. Li-
vro 313, n.125.
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colônia, encontrando, muitas vezes, com fantástico feminino, uma espécie de “duende”
outros escravos, ou com as demais pessoas que espalha terror entre as crianças, fazendo
que conviviam, a sua projeção de família. travessuras e pregando peças (Lopes, 2004).
Joana tinha 11 anos em 1750. Quando o
sabá aconteceu, era possível, portanto, que Manuel da Silva caracteriza Joana e Custódia
chamasse de mãe uma mulher mais velha, como frágeis e tolas durante o texto. De
com quem convivia diariamente e que se forma geral, a mentalidade cristã misógina
propôs a lhe passar ensinamentos. Josefa da época Moderna acreditava que essa
Linda, nesse contexto, era a “irmã mais fragilidade feminina deixava as mulheres mais
velha”, com 14 anos, que esteve ao seu lado propensas às ações do demônio. Padres,
mesmo quando ambas foram vendidas para monges e demais religiosos depreciavam o
as Cajazeiras. sexo feminino, principalmente, por causa das
tentações da carne que ameaçavam seus votos
A palavra moleque, para designar o Diabo, de castidade.
indica uma interferência da cultura africana:
“Negrinho; por extensão, menino de pouca É possível observar no documento da
idade. Do quimbundo muleke, garoto, filho” confissão que, conforme o tempo passou,
(Lopes, 2004: 444). O vocábulo tundá também Joana aprofundou suas relações com o
encontra significação no quimbundo, língua demônio, tornando-o cada vez mais íntimo da
banto falada em Angola, como imperativo sua vida e desprezando tudo que vinha do seu
do verbo sair, sai! (Mott, 2006: 6). Para o maior opositor, Jesus Cristo. Entregava não
historiador Luiz Mott, a palavra parece só seu corpo ao Senhor das trevas, mas também
referir-se ao termo acotundá, presente em a sua alma:
cerimônias de matriz africana no arraial de
Paracatu, na região de Minas, em meados
do século XVIII. Os integrantes do rito Não mais cria que havia Deus, nem inferno,
participavam de uma dança, considerada nem cousa alguma da fé. Entregava-
diabólica pelas autoridades, em que adoravam lhe a alma e o corpo. Chamava-o meu
um boneco e pareciam entrar em transes, Senhorzinho, minha vida, meu coração.
Cria e dizia-lhe que só ele me daria o céu.
caindo no chão e dançando freneticamente
Que só ele me criou, me remiu, e que não
ao som de atabaques e tambores. O termo outro criara o céu, nem a terra, nem a
também possui significação entre os negros mim. Que Jesus Cristo era um corno, um
do Equador, representando um ente filho da puta e outros nomes e tremendas
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blasfêmias. Isto foi sempre pelos anos do E logo diante de mim, apontando para o
meu infame comércio e ensinos de Mestra Cristo, disse que aquele era o Moleque e
Cecília3. que este mesmo era para ela. E que aquela,
apontando para a virgem Senhora, era a
Chamando o diabo de “meu Senhorzinho, Negrinha (palavra que nestas partes nomeia
minha vida, meu coração”, Joana reflete, senhores e senhoras tudo o que é escrava
segundo Luiz Mott, a onipresença do fêmea) e que esta mesma era para mim, isto é,
escravismo no imaginário colonial e utiliza a minha escrava. Bati logo no chão com elas
expressões carinhosas, frequentemente, ambas, com fúria de senhora, com desprezo e
dirigidas ao sexo oposto, como era desdém, dizendo que aquela era o Moleque e
feito nas cartas de tocar (Mott, 2006). que aquela era a Negrinha.
Concomitantemente, chamar o diabo de senhor
também indica uma relação de vassalagem Chamar Jesus Cristo de moleque e Nossa
comum nos pactos estabelecidos com satã. Senhora de negrinha escrava pode revelar
o grande sentido do ritual praticado nas
O depoimento de Custódia se assemelha Cajazeiras. Transferir para o Cristo e para
muito com o de Joana. A índia foi levada a Virgem, símbolos máximos da catequese,
ainda pequena para o sítio das Cajazeiras denominações que serviam para caracterizar
pelo capitão José de Abreu Bacelar, como sua os escravos, como as expressões moleque e
escrava. Em 1758, após a lei da liberdade dos negrinha, aponta a liberação de uma tensão
índios, ela ainda era escrava na dita fazenda, o causada pela escravidão na vida dessas
que demonstra que a lei não era cumprida de mulheres.
fato. Segundo ela, Josefa Linda, que chegou às
Cajazeiras dois anos antes da sua “irmã” mais Da mesma forma que os escravos repudiavam
nova, Joana, mostrou-se muito sua amiga e os senhores brancos que os colocavam no
“camarada”. Logo, Josefa contou toda sua tronco para apanhar, também identificavam,
vida à índia, inclusive as torpezas realizadas muitas vezes, o cristianismo, a religião
com um “Homem” e pôr-se a ensiná-la, oficial desses homens, como uma doutrina
pedindo segredo: hostil. Assim, a relação dos escravos com o
catolicismo era ambígua e podia tanto passar
pela esfera da incorporação, visto como uma
forma eficaz de devoção e proteção, como
3 ANTT, IL, Caderno do Promotor n.121. Li- podia gerar repulsão.
vro 313, n.125.
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Em contrapartida, no meio de todo esse Considerações finais.


sistema complexo de interações, existia
a figura do Diabo, elemento criado pelo As escravas Joana e a Custódia refletiam
próprio cristianismo, antagônico à existência as tensões da sociedade escravista à qual
de Deus. Um Diabo onipresente, que era pertenciam, canalizando para os símbolos do
amplamente divulgado pelos discursos cristianismo toda fúria que sentiam pela sua
políticos e eclesiásticos. Desse modo, condição, chamando a Virgem de negrinha
os conjuros de Josefa e de Joana e, sua escrava e Cristo de moleque, e exercendo a
consequente aproximação com o Diabo, capacidade de puni-los, tal qual deviam ser
podem ter significado, também, uma forma punidas pelos seus senhores. A inserção dos
de resistência frente à cultura dos senhores componentes sabáticos pode ser creditada
brancos, católicos, que elas desejavam negar. à mentalidade erudita e cristã do padre
Manuel da Silva, doutor em teologia e ciente
José Pereira de Abreu Bacelar, dono das dos discursos intelectuais da sua época. O
Cajazeiras e das escravas mestiças, foi descrito Tundá identificado com o demônio pode
pela documentação como um homem rico estar ligado às cerimônias de matriz africana,
e violento, que matava e apresava índios, conhecidas como Acotundá, praticadas na
principalmente os Gueguê que viviam região das Minas no século XVIII. Alguns
atacando suas propriedades (Medeiros, vocábulos como moleque e senhorzinho,
2009, p.354). Não se sabe como tratava suas também indicam pistas sobre as crenças
escravas, especificamente, mas presume- cotidianas populares. O documento possui
se que não fosse da melhor forma, como, duas dimensões de veracidade, uma ligada
aliás, faziam grande parte dos senhores à mentalidade do jesuíta, e outra ligada
de engenho. As práticas mágico-religiosas ao conjunto amorfo de crenças e rituais
foram, frequentemente, o reflexo das relações praticados por Joana e Custódia de Abreu no
sociais travadas na colônia, principalmente no Piauí colonial.
convívio entre senhores e escravos.
Pode-se concluir que a cerimônia ocorrida no
Piauí fez parte do amplo conjunto de crenças
e práticas mágico-religiosas da América
colonial. Não é possível saber com absoluta
clareza o que de fato ocorreu. No entanto,
o documento deixa brechas que permitem
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identificar as crenças dessas mulheres. Em Carolina Rocha Silva é mestre em


muitos aspectos ele assemelha-se com o história pela UFF e doutoranda em
arquétipo do sabá de bruxas difundido pela Sociologia no IESP/UERJ. Faz parte
cultura erudita na Idade Moderna. Contém: da Coordenadoria Experiências
as reverências típicas usadas para adorar o religiosas africanas e afro-brasileiras,
demônio e estabelecer um pacto com ele;
racismo e intolerância religiosa,
a metamorfose do diabo em animais; o
vinculada ao Laboratório de História
possível “voo” noturno, imaginário ou real;
a doutrinação da bruxa mestra; a abjuração das Experiências Religiosas (LHER-
dos sacramentos cristãos e a renúncia de UFRJ) e do Coletivo Feminista
toda fé católica; as cópulas sexuais com o Virginia Leone Bicudo. Esse artigo
diabo, reproduzindo, inclusive, os atos carnais está relacionado à sua dissertação
nefandos; e o aspecto coletivo da seita. de mestrado, que originou o livro “O
Existiram outros componentes europeus, Sabá do Sertão: feiticeiras, demônios e
todavia, que não foram mencionados, como, jesuítas no Piauí colonial (1750-1758) ”,
por exemplo, o banquete coletivo, a utilização publicado pela Paco Editorial em 2015.
de danças e músicas; o infanticídio, o uso de contato: carolinarocha18@gmail.com
unguentos mágicos, a realização da missa às
avessas e a marca da bruxa.

O documento não foi fruto de uma invenção,


da mesma forma que o sabá europeu
também não foi uma mera criação de mentes
temerosas da presença do Diabo. Acredita-se
apenas que ele possui uma leitura e um filtro
particular, realizado pelo jesuíta, mas que não
esconde as tensões sociais que o originaram.
O Homem, o demônio e o Tundá adorado
pelas mestiças foram representantes das
suas crenças, em contraposição à ortodoxia
católica.
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AS EDITORAS: ASSISTENTE EDITORIAL: sobre a capa:

Marcia Rangel Candido Mariane Silva Reghim Para essa primeira publicação, o
Doutoranda em Ciência Política no Doutoranda em Sociologia pelo Instituto conceito da capa para Clássicas foi o de
Instituto de Estudos Sociais e Políticos da de Estudos Sociais e Políticos (IESP-Uerj). desabrochar uma semente, assim como o
Universidade Estadual do Rio de Janeiro É pesquisadora do Núcleo de Estudos de livro é.
(IESP-Uerj), pesquisadora associada Teoria Social e América Latina (NETSAL). Uma semente que vai germinar e florir
do Grupo de Estudos Multidisciplinares contato: marianesreghim@gmail.com para xs leitorxs e também para as futuras
da Ação Afirmativa (GEMAA) e do edições da coleção com mais mulheres
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Pública (LEMEP). ARTISTAS GRÁFICAS: Assim como nos ensina Cora Coralina: “eu
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Veronica Toste Daflon que pesquisa identidade visual de cidades. plantando flores”.
Doutora em Sociologia pelo Instituto de É graduada em Comunicação Social As mulheres que estão aqui rompem
Estudos Sociais e Políticos (IESP-Uerj) com habilitação em Cinema na mesma as sementes. Que as ideias cresçam e
e mestre em Sociologia pelo IUPERJ. É instituição. floresçam nesse mundo cada vez mais
bolsista de pós-doutorado do Programa contato: anabolshaw@gmail.com temeroso.
de Pós-Graduação em Sociologia e www.anabolshaw.com
Antropologia (PPGSA, IFCS-UFRJ). Atua
como pesquisadora associada do Núcleo Sophia Pinheiro
de Estudos de Sexualidade e Gênero Mestre em Antropologia Social pelo
(NESEG, IFCS-UFRJ) e do Global Race Programa de Pós-Graduação em
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graduada em Artes Visuais e bacharel em
Design Gráfico pela mesma universidade.
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nas poéticas e políticas visuais, gênero,
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processos de criação, na antropologia e/ por Emy Lobo, o canal veicula inúmeras
da arte, culturas e representações das entrevistas com mulheres, além de
imagens. apresentar uma série de curtas com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3686998218403865 pesquisadoras sobre autoras clássicas.
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