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OUTROSQUINHENTOS

Brasil: a deriva fascista


Os elementos que resultaram no golpe de 2016. A ascensão do bolsonarismo como face selvagem
do capital. A recolonização almejada pelos EUA — com auxílio de milícias e evangélicos. E por
que o feminismo pode ser trincheira para a resistência
OUTRASPALAVRAS
DIREITA ASSANHADA
por Graciela Rodriguez
Publicado 30/09/2020 às 16:21 - Atualizado 30/09/2020 às 16:53

Imagem: Cleon Peterson
Por Graciela Rodriguez1
O Brasil está vivendo um dos períodos mais dramáticos da sua historia, ainda que sempre
sua vida política desde a criação da República tem carregado em si a tragédia social
profunda das marcas constitutivas da escravidão, que tinge toda a sua história de dor e
infâmia. As características deste momento também não estão isentas dessa mesma infâmia
que emana da sua elite patriarcal e escravocrata e nem da dor da trágica cotidianidade que
vive a sua população. A chegada de Bolsonaro a presidência, devido a uma eleição viciada e
fraudulenta por conta da ausência forçada da candidatura de Lula, marcou a chegada ao
governo da ultradireita, a bordo de uma onda neoconservadora global. Pela primeira vez,
desde a redemocratização brasileira pós-ditadura militar dos anos 70, o país ensaia uma
nova aventura autoritária e perigosa como essa. Para tentar uma análise da conjuntura que
se vive agora no Brasil, é preciso historiar ao menos alguns aspectos fundamentais.
Neste artigo gostaríamos de pensar em quatro desses aspectos que consideramos
relevantes para entender o golpe, como são o contexto internacional de crescimento da
ultradireita conservadora e a disputa de EUA pela manutenção da sua hegemonia
debilitada; em segundo lugar o avanço do sistema financeiro no âmbito da globalização, e
mais especificamente no Brasil aonde vem provocando a paulatina desindustrialização do
país. Em terceiro lugar o crescimento do desemprego decorrente da queda industrial, e
progressivo aumento da informalidade que evidentemente a pandemia irá exacerbar ainda
mais, e finalmente a imbricação dessa economia financeirizada e precarizada com o avanço
das ilegalidades econômicas com sua contracara de militarização dos territórios e com os
resultados políticos e sociais que isto acarreta na sociedade. Ainda que cada um destes
quatro elementos precisaria uma analise aprofundada em si, nos propomos esta síntese no
intuito de tentar uma leitura integradora mínima da realidade muito diversa e complexa.
1 -Hegemonia norte-americana em xeque
Em primeiro lugar, o cenário global de crescimento da direita neoliberal, que irrompe
numa profunda crise do sistema capitalista que se arrasta desde inicio do século, se
aprofunda com o estouro da bolha imobiliária em 2008 e que continua até o momento,
agora ofuscada pela pandemia que dissimula a nova crise que já se anunciava. Assim, o
surgimento de uma ultradireita de características neofascistas coincide com a necessidade
do sistema em crise de alterar as condições da reprodução do capital. De fato, a guerra
comercial entre EUA e China, evidencia a brutal disputa pela hegemonia global entre a
debilitada economia americana, e o pujante crescimento chinês com previsão de uma
rápida recuperação após a pandemia. Esta disputa determinada pelo virulento ataque
americano a China que estamos vendo acontecer cotidianamente, toma contornos
dramáticos de enfrentamento produtivo, comercial, político e até bélico, mudando
radicalmente a cada dia o panorama global.

Será nesta disputa hegemônica que iremos encontrar em grande parte as causas do golpe que se
trama no Brasil desde 2013, e que se consolida finalmente neste atual governo que podemos
caracterizar provisoriamente como híbrido. Governo que também pode ser definido como uma
“democracia de baixa intensidade” como definem alguns autores ou até que precisa ainda de um
nome em torno a uma “ditadura de novo tipo”. Mas se sabe que foram os interesses norte-
americanos na região os que desenharam este novo tipo de golpe jurídico\ militar\midiático, que
também inclui um legislativo preservado ao custo de sua atitude conciliatória com o regime. Este e
os outros golpes que se processaram na América Latina durante esta última década foram todos
promovidos pela necessidade dos EUA de consolidar sua presença hegemônica na região,
desenhando atualmente um cenário de subserviência de grande parte dos governos latino-
americanos aos interesses imperialistas dos EUA.
A avidez pelos recursos naturais necessários ao robustecimento de essa hegemonia
americana está empurrando o Brasil e o conjunto de países da América Latina na
perspectiva de aprofundar a já tradicional inserção da região na divisão internacional do
trabalho, numa nova e feroz etapa neoextrativista, de recolonização dos seus povos e
territórios. A extrema concentração do capital a nível global, e o crescente poder das
empresas transnacionais está promovendo esse controle e reorganizando a cara da região.
Este é o pano de fundo que aguça de forma dramática os câmbios políticos na principal
economia da América Latina. Resulta assim mais fácil entender o golpe e o processo que
leva o Brasil a esta situação: não se pode implementar esse projeto selvagem de
expropriação e desemprego, sem violência e terror.
2 – O golpe e a financeirização econômica no Brasil
Assim, a chegada ao poder do Bolsonaro surge de um conjunto de tramas e complots que
foram nutrindo o próprio processo de golpe que vive o Brasil desde 2016. Elas estão muito
ligadas aos fios entrelaçados entre os interesses norte-americanos na região e as novas
lógicas econômicas determinadas pelo sistema financeiro internacional.
De fato, não se pode interpretar o golpe e a chegada de Bolsonaro ao governo no Brasil sem
compreender duas questões importantes: a nova fase do capitalismo financeirizado no
Brasil com suas múltiplas articulações produtivas e especulativas, e o simultâneo
crescimento acelerado da lógica das ilegalidades, que por sua vez articulam nos territórios
o financeiro com a presença militar-policial remanescente da última ditadura. A total
financeirização da economia e da vida foi impulsionada a partir de um sistema bancário
cada dia mais especulativo, que por um lado tem hipertrofiado o capital improdutivo, mas
por outro lado, tem caminhado na perspectiva de uma imbricação cada dia maior entre a
economia formal e a chamada economia informal. Essa profunda distorção na lógica
produtiva, provocada pelo enorme e crescente endividamento de países, empresas e
também cidadãos, coloca o bem–estar social numa permanente situação de postergação,
diante da criminosa priorização do chamado ajuste estrutural das economias, promovido
pelas instituições internacionais, com o FMI na liderança.
Esse “ajuste”, imposto às economias periféricas, inclui no caso do Brasil como também no
de outros países, profundos cortes nos orçamentos públicos, incluindo educação, ciência e
tecnologia, numa época em que o desenvolvimento está indissoluvelmente ligado ao
avanço tecnológico. Por sua vez, a ampliação da economia digital e da chamada indústria
4.0 trará simultaneamente profundas mudanças no mercado de trabalho. Se até agora no
mundo o trabalho formal encolheu consideravelmente, e aumentou desproporcionalmente
o trabalho informal e precário, as novas tecnologias estão desenhando um caminho de
maciço desemprego e precarização do trabalho e da vida a nível global. Ao mesmo tempo, o
salto produtivo que a indústria digitalizada já começa a promover, está fortalecendo a
demanda de produtos primários e especialmente, promovendo uma corrida furiosa pelo
controle dos minérios nos territórios que os abrigam.
Desindustrialização, desemprego e informalidade
Para continuar analisando o atual quadro que se apresenta no Brasil, é preciso somar outro
elemento aos dois processos mencionados que o hiperliberalismo tem ajudando a
alavancar na sociedade. Em primeiro lugar, esse crescimento do capitalismo financeirizado
encontrou no Brasil desta última década, a paulatina consolidação do processo de
desindustrialização que se arrastava desde os anos 90, junto ao crescimento vertiginoso
das economias populares e precarizadas no esteio do desemprego em aumento,
especialmente desde 2014 no marco das mudanças políticas que provocaram o golpe em
2016. Estes processos foram interagindo lentamente, e inclusive os governos Lula e Dilma
tentaram detê-los com um forte programa de incentivo as grandes empresas locais, as
chamadas “campeãs nacionais”, com apoio do BNDES – Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social, buscando não somente adiar a queda industrial
como também promover o emprego formal. Entretanto o golpe viria cortar essas
perspectivas e pelo contrário veio a promover a privatização das grandes empresas como
Petrobras (de prospecção e refino de petróleo) e Embraer (de fabricação de aviões
comerciais), e destruir através da Lavajato2 algumas outras dentre as maiores empresas
como Odebrecht (construção civil) e JBS (Produção e exportação de carnes), provocando a
ruína de grande parte do setor da engenharia e da construção, e aumentando
consideravelmente o desemprego em poucos anos. Paradoxalmente esse processo de
desindustrialização foi sendo alavancado pela crescente financeirização do modelo
econômico brasileiro, e a bancarização popular promovida com a intermediação das
políticas de subsídios sociais. Tudo no marco e em sinergia com os interesses político-
econômicos dos EUA e sua manifesta disputa pela hegemonia regional.
3 – Explosão e neoliberalização das economias populares
A partir do golpe de 2016, o trabalho de “carteira assinada” como se conhece no Brasil ao
trabalho formalizado, vem sofrendo uma queda contínua. Atualmente o desemprego chega
a um nível elevadíssimo, se comparado às últimas décadas. Em 2019 se atingiu a
impressionante taxa de 11,9% de desemprego, ou seja, quase 13 milhões de pessoas se
encontravam desempregadas, e ainda mais de 28 milhões estavam subocupadas (IBGE,
2020). Com a pandemia esses números aumentaram de forma alarmante, chegando neste
momento a um número de aproximadamente 20 milhões de desempregados, aos que se
somam mais de 40 milhões de trabalhadores e trabalhadoras informais.
Assim, para muitos autores, as crises sistêmicas das últimas décadas seriam resultado das
próprias contradições estruturais do capitalismo contemporâneo3. Por tanto, longe de ser
um movimento passageiro, tudo indica que estamos presenciando uma transformação
muito vasta e profunda do mundo laboral, que se percebe ligada a desindustrialização,
mostrando ao mesmo tempo a aparição de um trabalho que em tendência não passa
fundamentalmente mais pela relação assalariada. O trabalhador formal, majoritariamente
masculino, trabalhando em fábricas ou espaços semelhantes, completamente separado do
seu entorno familiar e da reprodução cotidiana da vida, vai sendo substituído por
trabalhadores “informais”, sem vínculos estabelecidos, em relações não mediadas por
salários, em condições precarizadas, e trabalhando em espaços comunitários ou locais e
tempos dispersos. Essas mudanças mostram uma tendência que parece veio para ficar,
com um trabalhador\a no qual pouco se visualiza o imaginário de trabalhador que povoou
o século passado. Já com a pandemia a irrupção dos trabalhadores por aplicativos (apps),
o home-office e o trabalho remoto vão se tornando o “novo normal”, inaugurando uma
corrida pela desregulação e precarização completa do trabalho4. Estas novas modalidades
de trabalho informal evidentemente estão agora com enormes desafios organizativos e
políticos.
Podemos então constatar a explosão recente das economias populares, acompanhando o
forte desemprego e a ampliação e pluralidade das categorias de trabalhadores, que vão
dando uma nova feição às economias periféricas. Devemos, entretanto ressaltar que no
Brasil não seria possível a aplicação estrita de uma categoria acadêmica que pode carregar
um ponto de vista eurocêntrico sobre o trabalho formal fordista, pois nestas terras o
trabalho informal, ou as diversas formas de sobrevivência das populações marginalizadas,
sempre coexistiram com o trabalho assalariado fabril, em especial no caso das mulheres
negras, que desde sempre conhecem o trabalho informal. Mas ainda assim, podemos
concluir que é notável a mudança no padrão do emprego e a proliferação da informalidade
nos territórios urbanos do Brasil nos últimos anos.
Simultaneamente é preciso anotar que nesta etapa foi sendo aprofundada a atuação do
sistema financeiro sobre a vida das pessoas. As novas feições que tomou o trabalho
abriram o caminho para formas inovadoras de ação do capital financeiro sobre o cotidiano
de trabalho e vida dos setores trabalhadores.
“O endividamento popular tem se tornado um grave problema social. A utilização de
créditos ou empréstimos para financiar a vida cotidiana é prática cada vez mais corriqueira
nos setores populares. Já não se trata mais de financiar o consumo de eletrodomésticos,
reforma da casa, ou até mesmo de uma máquina para a sua produção, mas, sim, de atender
às necessidades básicas, como a compra de comida ou o pagamento das contas de água, luz
e gás: eis o endividamento enquanto estratégia para o enfrentamento da crise econômica
de reprodução da vida. E, por serem as mulheres as principais responsáveis pela
administração do dia a dia das famílias, é justamente sobre elas que tem recaído esse
endividamento para a subsistência” 5
Disto nos falam autores como Gago e Mezzadra6, com o conceito de “extrativismo
ampliado” que imbrica as novas formas de acumulação capitalista que se nutrem, já não só
do trabalho assalariado e dos recursos naturais, mas que se expande ao endividamento das
populações como forma do extrativismo financeiro sobre as múltiplas formas do trabalho
informal, ao que acrescentaria também o âmbito do ilegal, chegando ao controle dos
territórios periféricos e incluindo o controle dos corpos, da sexualidade, dos desejos e da
própria vida.
4 – Corrupção, lavagem de dinheiro e os acordos entre tráfico e milícias7.
Por fim, para completar este resumo dos elementos que modelaram o golpe que vive Brasil
desde 2016 é preciso visitar ainda sucintamente o que chamamos de capitalismo da
ilegalidade8, ou as tramas cada vez mais reforçadas e interligadas entre a economia formal
e as diversas formas da ilicitude nas transações econômicas.
Para isso precisamos incluir duas das estratégias de mais longo prazo promovidas pela CIA
e a DEA americanas, que serão também parte deste jogo combinado para potenciar os
câmbios que estão reestruturando a presença do império em AL. São elas a política de
combate às drogas, velha conhecida da região; e o avanço das igrejas fundamentalistas,
proposta um pouco menos evidente porém tão antiga e eficaz, que armam um complexo
em pinça que vai complementar o que atualmente se conhece como guerra híbrida9. Assim
presenciamos nas últimas duas décadas o crescimento meteórico de algumas igrejas
neopentecostais fundamentalistas (ou da “teologia da prosperidade” que poderiam ser
também chamadas “igrejas de mercado”) e da permanente ampliação da bem conhecida
política norte-americana de combate ao tráfico de drogas, em aliança com as forças
armadas e as policias nacionais que tem-se mostrado na realidade como guerra encoberta
contra os povos e os territórios da América Latina.
O avanço do tráfico de armas e drogas e sua imbricação com setores políticos e das forças
de segurança se funde de maneira obscura e perigosa com o aumento vertiginoso do poder
social, econômico e político de tais igrejas. Não por acaso também estas igrejas
fundamentalistas tem assumido o combate ao que chamam a “ideologia de gênero”
buscando disciplinar as mulheres para aceitação de lógicas autoritárias de poder, e desse
modo, buscar atingir o movimento feminista em processo crescente de mobilização nas
últimas décadas. A repolitização do campo religioso tem de fato oferecido um forte alicerce
para a ofensiva antigênero, com o objetivo de controle da autonomia em franca ascensão
das mulheres. Por sua vez, o avanço das milícias, sua força e poder político abocanhando as
áreas do tráfico e controlando os fluxos econômicos dessa atividade resultam evidentes e
irrefutáveis na prática, levando ao controle dos territórios periféricos
especialmente.10 Ainda que de uma complexidade que excede este artigo, essa combinação
muito opaca e escondida de interesses entre tráfico e igrejas fundamentalistas, mascara de
fato a vagarosa expansão do neoliberalismo e suas ramificações ilícitas no controle dos
territórios e na fragmentação dos tecidos sociais. Dessa forma, o controle de importantes
setores da população das cidades, que movem seu voto ao sabor das predicas dos pastores,
vai ficando evidenciado, como virou explícito na arrancada final da candidatura Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, é importante nesta apertada síntese, enfatizar a farsa da política de
combate ao tráfico de armas e drogas que está a possibilitar o álibi adequado para a
aparente incongruência de recrutamento de jovens que irão “trabalhar” nesse bem
sucedido comércio, e ao mesmo tempo engrossar o genocídio desses mesmos jovens pobres
e negros habitantes das periferias urbanas precarizadas pelo desemprego.
Tudo isso agravado pela ausência no Brasil de um verdadeiro processo de memória,
verdade e justiça depois da redemocratização, que manteve em pé a estrutura repressiva da
ditadura militar tanto nos altos mandos quanto nos médios das forças armadas e das
polícias, permitindo o caldo de cultivo da oficialidade e suboficialidade, da qual se nutrem
as milícias e agora o bolsonarismo e sua truculência. Assim é como a intolerância, o ódio, o
medo, e em definitiva o aniquilamento do outro, tornaram-se o pão nosso de cada dia…
Tais processos que se tornam crescentes e visíveis nos últimos dez anos, são também o
produto de situações que proliferam desde a década de noventa, e que recentemente
aparecem em denuncias11 sobre o caso Banestado, que justamente mostram a raiz dos
processos recentes de corrupção, e que somadas as delações da operação Lava Jato
desnudam – ainda que com informações fraudulentamente manipuladas – enormes
quantias em fugas de capitais, sonegação fiscal, depósitos em paraísos fiscais e lavagem de
dinheiro que retornaria como investimento estrangeiro12. Ainda que não seja possível o
aprofundamento destas denuncias neste artigo, tais processos e escândalos expõem o
tamanho da corrupção e da justaposição entre a chamada economia formal, e os caminhos
secretos e sombrios que permitem o surgimento das milícias por dentro do Estado,
consolidando cada vez mais claramente um narco-estado ou pior ainda esta “democracia
de novo tipo” totalmente minada por processos espúrios, num processo grave de erosão da
política, dos tecidos sociais e da própria Democracia13.
As elites estão ensaiando para o Brasil um processo macabro: por um lado, de
enfrentamento sem legislação trabalhista ao desemprego que a economia digitalizada
promoverá, e pelo outro, de brutal imposição e aprofundamento do modelo extrativista no
país e na região. Ambos precisam para sua imposição do controle da população e da
crescente militarização dos territórios e da legitimação da violência numa suposta “guerra”
com o inimigo interior, agora não mais os supostos “comunistas” da última ditadura
militar, e sim os jovens negros das periferias urbanas e os povos indígenas nas florestas. O
fascismo não é uma “moda” que escolhem as elites, trata-se antes de uma lógica
fundamentalista do capital, que tem de ser aplicada para a implementação de um violento
processo de espoliação, que só pode avançar com o terror como exercício de contra-
cidadania.
O feminismo que analisa este processo desde sua perspectiva, precisa assumir também a
disputa do sentido desta crise. Ela é gigantesca e pode ser olhada e lida desde muitas
perspectivas, porem entre elas e de forma muito contundente, é preciso defini-la como
uma crise da reprodução social e uma crise do próprio sistema violento e ecocida de
acumulação capitalista. Por isso, o movimento feminista, que vem propondo o cuidado, as
formas de sociedades não belicistas e nem hierarquizadas, as relações sensíveis dos corpos,
e colocando a vida no centro, talvez esteja nos mostrando uma critica contundente ao
modelo capitalista e um caminho possível…

1 Graciela Rodríguez, socióloga, coordenadora do Instituto EQUIT– Gênero, Economia e


Cidadania Global, membro da REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos e da
Rede de Gênero e Comercio.
2 Operação Lava Jato – conjunto de investigações da Policia Federal para apurar esquemas
de corrupção, lavagem de dinheiro e outros ilícitos que foi comandada no Poder Judicial
pelo ex- Juiz Sergio Moro (posteriormente Ministro de Justiça do governo Bolsonaro), e
que foi amplamente apontada como operação desenhada com informações do depto de
estado norte-americano que num processo de lawfare impediu a candidatura de Lula para
permitir a eleição de Bolsonaro.
3 Cocco, Giuseppe “Uma crise sistêmica do capitalismo flexível, globalizado e
financeirizado” Unisinos. Maio 2009.
“Essas contradições não são, como superficialmente poderia parecer, o fato do
descolamento da esfera financeira com relação à esfera real (produtiva) da economia, algo
que se desdobraria na contradição entre um capitalismo bom (que seria o industrial) e um
capitalismo ruim (que seria o financeiro). A contradição estrutural que está na base da
crise é aquela, classicamente marxista, entre desenvolvimento das forças produtivas e
relações (capitalistas) de produção”.
4 É interessante resgatar a realização de uma primeira greve de entregadores a domicílio
por aplicativo, que aconteceu no dia 1 de Julho, evidenciou a resistência desta categoria
ainda nova de trabalhadores com organização muito incipiente que conseguiu porem uma
paralisação significativa nos principais aplicativos e mobilizou grandes manifestações
físicas nas capitais do país.
5 Rodriguez, G. “O sistema financeiro e o endividamento das mulheres”. Instituto Equit.
Rio de Janeiro. 2020.
6 Gago, V e Mezzadra, S. “Para uma crítica de las operaciones extractivas del capital”.
Revista Nueva Sociedad. Nº 255, enero-febrero de 2015, ISSN: 0251-3552.
7 Designasse como milícia ao modus operandi de organizações criminosas formadas por
cidadãos comuns porem armados, que por ser em sus maioria policiais, agentes
penitenciários, militares, etc. fora dos quadros de serviço ou inclusive em atividade,
exercem papel de pseudo-policiais nas comunidades onde atuam, se beneficiando da
condição de ex-funcionários públicos para cometer crimes.
8 Zucman, G. “A riqueza oculta das nações: Inquérito sobre os paraísos fiscais”. Temas e
Debates. 2014.
9 Guerra híbrida: estratégia militar que mistura táticas de guerra convencional, com táticas
irregulares, políticas, Lawfare, ciberguerra com outros métodos não convencionais como
desinformação, fake news, intervenção eleitoral externa, etc.
10 Jose Claudio Souza. “Dos barões ao extermínio: uma história de violência na Baixada
Fluminense” Editora APPH. Rio de Janeiro. 2003.

11 Duplo Expresso.  #BANESTADOleaks: a verdade (finalmente!) revelada! –


D.E.5/jul/2020.
12 Pepe Escobar. “Brazil´s Money laundering scandal from hell”. Ásia Times. July
23,2020.
13 Wendy, Brown. “Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática
no Ocidente”. Ed Politeia. 2019