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ARTIGO ARTICLE
Narrativas no estudo das práticas em saúde mental:
contribuições das perspectivas de Paul Ricoeur,
Walter Benjamim e da antropologia médica

Narratives in the study of mental health care practices:


contributions of the perspectives of Paul Ricoeur,
Walter Benjamin and of medical anthropology

Rosana Teresa Onocko-Campos 1


Analice de Lima Palombini 2
Erotildes Leal 3
Octavio Domont de Serpa Junior 3
Ivana Oliveira Preto Baccari 1
Ana Luiza Ferrer 1
Alberto Giovanello Diaz 1
Maria Angélica Zamora Xavier 2

Abstract Narratives are ever more frequent in Resumo Narrativas são cada vez mais frequen-
qualitative studies seeking to interpret experiences tes em estudos qualitativos para compreender ex-
and the different viewpoints of individuals in a periências e diferentes visões de sujeitos num dado
given context. Starting from this concept, the tra- contexto. Partindo desta concepção, faz-se o res-
dition that addresses narrative is reexamined, gate de tradições que abordam a narratividade –
including the philosophy of Paul Ricoeur, the his- a filosofia de Paul Ricoeur, a perspectiva histórica
torical perspective of Walter Benjamin and the em Walter Benjamin e o campo da antropologia
field of medical anthropology grounded in phe- médica constituída a partir da fenomenologia. Em
nomenology. In Ricoeur, with hermeneutics as a Ricoeur, tendo a hermenêutica como pensamento
variation derived from phenomenology, narra- derivado e variante da fenomenologia, a narrati-
tive is linked to temporality. In Benjamin, narra- va é ligada à temporalidade. Em Benjamin, a nar-
tive comprised of bits and pieces, always incon- rativa, sempre inconclusa, feita de restos e frag-
clusive, emerges in spite of the official stories. If mentos, emerge à revelia das histórias oficiais. Se
Ricoeur retrieves tradition from Gadamer as a Ricoeur retoma de Gadamer a tradição como com-
fundamental component for the construction of ponente fundamental para a construção de um
the world of a text that makes imitation of life mundo do texto com que se torna possível a imi-
possible, Benjamin, faced with the collapse of tra- tação da vida, Benjamin, diante da derrocada da
dition, suggests the invention of narrative forms tradição, aponta para a invenção de formas nar-
outside the traditional canons, making it possible rativas fora dos cânones tradicionais, possibili-
1
Departamento de Saúde
to hark to the past in order to change the present. tando retomar o passado para transformar o pre-
Coletiva, Faculdade de
Ciências Médicas, Assumptions of medical anthropology are also sente. Apresentam-se ainda pressupostos da an-
Universidade Estadual de presented, as they consider narrative a dimen- tropologia médica, que considera a narrativa como
Campinas. R. Tessália
sion of life and not its abstraction, namely an dimensão do vivido e não sua abstração, ou seja,
Vieira de Camargo 126,
Unicamp. 13.083-887 embodied and situated narrative. Lastly, three uma narrativa corporificada e situada. Por fim,
Campinas SP. distinct research projects in mental health that apresentam-se três pesquisas distintas em saúde
rosanaoc@mpc.com.br
2
use narrative linked to the theoretical concepts mental que se utilizam de narrativas, articuladas
Instituto de Psicologia,
Universidade Federal do cited with their differences and similarities are às correntes teóricas apresentadas, com suas dife-
Rio Grande do Sul. presented. renças e aproximações.
3
Programa de Psiquiatria,
Key words Mental health, Methods, Qualitative Palavras-chave Saúde mental, Métodos, Pesqui-
Instituto de Psiquiatria,
Universidade Federal do research, Narration, Public health sa qualitativa, Narração, Saúde coletiva
Rio de Janeiro.
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Onocko-Campos RT et al.

Introdução priada, a qual, quando aplicada, conseguiria res-


ponder às perguntas levantadas ou “extrair” a nar-
O uso de abordagens narrativas em pesquisas de rativa certa. Isso posto, remete-nos às questões de
cunho qualitativo no campo da saúde coletiva tem método em pesquisas qualitativas no campo da
se mostrado cada vez mais frequente em estudos saúde coletiva, algo que já vem sendo tematizado,
voltados para compreender experiências e dife- apontando para a necessidade do uso de aborda-
rentes pontos de vista de sujeitos em um dado gens que permitam situar os problemas metodo-
contexto. Alguns estudos1-6 defendem a narrativa lógicos no contexto da contemporaneidade13,14.
como uma ferramenta essencial na construção de A compreensão do método como um cami-
significados para a existência humana e demons- nho para a certeza absoluta, herdada dos tem-
tram a importância do seu uso como forma de pos de Descartes, ainda é uma visão hegemônica
descrever experiências vividas, especialmente em para a ciência. Esta perspectiva, entretanto, re-
relação ao adoecimento. Também apontam a duz a possibilidade de avanço do pensamento à
narrativa como possibilidade de ampliação da metodologia da ciência natural, na medida em
prática clínica, discutem diferentes abordagens e que a razão – separada da perspectiva histórica e
estruturas narrativas e enfatizam sua utilização cultural – é considerada a única ferramenta pos-
no âmbito de pesquisas qualitativas. sível para se alcançar a verdade, ou seja, o conhe-
Retomando Burke7 e suas contribuições para cimento só é possível na esfera da consciência e a
a narrativa histórica, trazemos também à tona a partir da neutralidade objetiva do pesquisador.
importância da estrutura, e não apenas dos acon- Contrapondo-se ao pensamento da raciona-
tecimentos, como uma das funções mediadoras lidade científica, Gadamer15 elabora sua obra de-
da narrativa que interessam ao campo da Saúde monstrando a impossibilidade de um questio-
Coletiva3. namento racional e puro da tradição, uma vez
No campo da comunicação, Guimarães8 e que não é possível nos distanciarmos de nossas
Leal9 tratam a narrativa como espaço de media- referências culturais e históricas. Para este autor,
ção entre indivíduo e sociedade. Somente por a ideia cartesiana da suficiência do método – en-
meio de um “olhar narrativizante” é que se esta- tendido como o uso disciplinado da razão – para
beleceriam nexos entre as experiências no cotidi- proteger-nos de qualquer erro torna-se infun-
ano e a comunicação, tal como enfatiza Ricoeur10, dada, pois nos encontramos sempre imersos em
ao destacar que narrativas nada mais são do que tradições, e essa imersão não é um comporta-
“histórias (ainda) não narradas”3. mento “objetivador”, mas um reconhecer-se, já
Lyotard11, por sua vez, ao tratar a questão da que as tradições afetam-nos e, em grande parte,
legitimidade dada àqueles cujas histórias foram determinam nossas instituições e atitudes. As-
narradas, contribui para a percepção de que a sim, podemos dizer que a ideia de uma raciona-
variabilidade das vozes e, fundamentalmente, a lidade, longe de ser algo fora da tradição, é algo
explicitação de quem são aqueles que falam são que é transmitido pela tradição.
parte inseparável do enredo. Ele aponta que é a Por mais cuidadosa que seja a escolha do
condição de ouvinte que cria a de narrador. Po- método usado para investigar o mundo, o pes-
demos contar histórias, pois já estamos inseri- quisador sempre é parte daquilo que está inves-
dos na cultura por meio das histórias que nos tigando, pois o mundo é visto a partir de deter-
constituíram como humanos3. minada estrutura e dimensão humana. Este é um
Onocko Campos e Furtado3 também resga- aspecto que a ciência tende a esquecer. O conceito
tam Arendt, na leitura que dela faz Julia Kriste- de história efeitual, desenvolvido por Gadamer15,
va12, para apresentar uma concepção de narrati- é importante para nos situarmos como investi-
va atrelada à práxis. A ação empreendida pela gadores nos nossos desenhos de pesquisa:
narratividade seria característica essencialmente Quando procuramos compreender um fenôme-
humana, na qual importa, sobretudo, determi- no histórico a partir da distância histórica que
nar um quem histórico, valorizando o papel do determina nossa situação hermenêutica como um
testemunho na construção da história3. todo, encontramo-nos sempre sob os efeitos dessa
No âmbito das pesquisas qualitativas, os obje- história efeitual. Ela determina de antemão o que
tos de estudo se caracterizam como complexos, na se mostra a nós de questionável e como objeto de
medida em que remetem a problematizações so- investigação, e nós esquecemos logo a metade do
bre a atividade humana, considerando seus dife- que realmente é, mais ainda, esquecemos toda a
rentes contextos e momentos históricos. Não há, verdade deste fenômeno, a cada vez que tomamos o
desse ponto de vista, uma técnica narrativa apro- fenômeno imediato como toda a verdade.
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Para Gadamer15, a compreensão tem seu pró- o passado e o futuro não existiriam senão na con-
prio horizonte de significados ou, em outras pa- tinuidade daquele que observa o tempo passar10.
lavras, tem uma perspectiva sobre o mundo. Este Para efetivar este diálogo, Ricoeur10 retoma a
horizonte estará sempre conectado com o passa- ideia de muthus e de mimesis – respectivamente a
do, não de maneira a nos mantermos presos a tessitura da intriga e a imitação da vida – da Poé-
ele, mas situados constantemente num presente tica de Aristóteles, superando a noção de aporia
por meio do qual o passado nos fala. A tradição em prol da de dialética do tempo, cuja temporali-
em si caracteriza-se por ser feita do passado, pre- dade não mais é questionada, mas aprofunda-se
sente e futuro. em níveis por meio da estrutura narrativa10.
Como bem afirma Lawn16 sobre a teoria de Dentre as diversas maneiras de entender con-
Gadamer: ceitualmente a narratividade, Ricoeur17 destaca seu
Nossas tentativas de autoentendimento têm um caráter de reciprocidade: tudo o que se pode nar-
elemento futurista (estamos sempre projetando no rar desenvolve-se em relação ao tempo; e tudo o
futuro desconhecido), mas nossos entendimentos que transcorre no tempo é passível de ser narra-
no presente estão sempre relacionando e se fundin- do. Tal qualidade temporal das experiências hu-
do com o passado. A linguagem através da qual manas é a característica que aproxima a ficção da
articulamos o presente ressoa com os significados história. Conforme o autor, a trama deve estar
do passado e continua sendo operativa no presen- articulada para que seja possível reconfigurar com
te; isso dá sentido ao que Gadamer se refere como profundidade a experiência temporal humana10.
‘consciência histórica efetiva’. Personagens, sequência temporal, intriga ou
Filiando-nos a esta postura hermenêutica, enredo, espaço ou circunstância: os componen-
pretendemos situar e discutir a construção de tes fundamentais do gênero narrativo tornam-
narrativas em pesquisas na área da saúde men- se menos ou mais valorizados de acordo com
tal, valendo-nos de tradições que abordaram a cada um dos autores abordados. Na obra de Ri-
narratividade – a filosofia de Paul Ricoeur, a pers- coeur, o elemento fundador da estrutura narra-
pectiva trapeira da história em Walter Benjamin tiva, o que a define, é o tempo. Tempo e narrati-
e o campo da antropologia médica que se consti- va. O tempo só se verifica pelos elementos narra-
tui tendo por referência a fenomenologia. tivos que o recuperam, e a narrativa só pode exis-
tir porque o tempo passa.
Para construir uma narrativa, é necessária
Objetivos uma trama de fatos que se disponham de forma
inteligível, o que se aproxima da verossimilhan-
Apresentar três pesquisas distintas em saúde ça. Ricoeur17 assinala que o que caracteriza um
mental que se utilizam de narrativas – pesquisa começo não é a ausência de acontecimentos an-
avaliativa; pesquisa sobre a experiência de adoe- teriores, mas a mera desnecessidade de descrevê-
cimento; pesquisa sobre a experiência de traba- los para que o que venha depois se torne com-
lho em saúde mental – e discutir os fundamen- preensível e sem conteúdos pendentes17.
tos teórico metodológicos das diferentes abor- Tratando das tipologias narrativas, Ricoeur17
dagens narrativas que nelas são utilizadas. considera a metáfora uma figura de linguagem,
para além de sua classificação literária como fi-
Abordagens narrativas: gura de palavra. Toda criação narrativa é um “cri-
tradições em diálogo ar com regras”, ou seja, a elaboração de um pro-
cesso singular sobre algo já sedimentado, o que
Paul Ricoeur: o tempo torna-se humano significa aceitar que nada é completamente origi-
pela abordagem narrativa nal. Para o autor, além da modificação do senti-
A narratividade, em Ricoeur, está atrelada à do atribuído a determinado termo, a novidade
noção de temporalidade. Ao longo de Tempo e da metáfora está em sua relação inovadora com
Narrativa, Ricoeur10 busca fundamentar a inse- respeito aos demais elementos da frase – trata-
parabilidade dos dois conceitos na narrativa his- se, portanto, de uma predicação inesperada. Por
tórica, na ficcional e na filosófica. Ele assenta tal meio da metáfora, torna-se factível uma nova
temática em contraposição à perplexidade com pertinência semântica17.
que Santo Agostinho constrói suas aporias dian- É tratando da metáfora que Ricoeur17 sus-
te da percepção da paradoxal existência do tem- pende a dicotomia entre compreender e explicar
po, o qual, no mesmo instante em que é, já foi e para pôr em seu lugar uma junção compreen-
não é ainda, uma vez que o presente nos escapa e der-explicar. Se compreender é encontrar um sen-
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Onocko-Campos RT et al.

tido no discurso, então a explicação será sempre lado, a hermenêutica estará fadada à influência
secundária à compreensão, mas também dela reflexiva de sua gênese fenomenológica17.
dependente17. O texto pode provocar a abertura Ainda que o ressurgimento da hermenêutica
intencional de seu mundo, o mundo do texto. no século XIX esteja relacionado ao entrelaçamen-
Afirma Ricoeur17 que o mundo do texto inter- to das técnicas de interpretação da exegese bíblica,
vém no mundo da ação para configurá-lo ou da filosofia clássica e da jurisprudência, portanto,
para transfigurá-lo. não diretamente relacionada às questões da feno-
Se a função poética da linguagem volta sua menologia, Ricoeur17 constrói o percurso com-
ênfase à mensagem em si, a função referencial preensível que nos permite considerar a herme-
enfatiza a questão descritiva, configurando para nêutica reflexiva e a da esfera fenomenológica.
a linguagem dois tipos de movimentos, respecti- Desde Heidegger, torna-se condição da filosofia o
vamente, centrípeto e centrífugo. Por meio de com- estabelecimento de um vínculo ontológico mais
posições intermediárias a esses movimentos, tor- primitivo a que se subordina a relação sujeito-
na-se possível a transfiguração do real. Trata-se, objeto. A redução deixa de ser um gesto primário
sobretudo, de uma função hermenêutica. para compor-se em significado epistemológico
Ricoeur17 organiza a definição de hermenêu- secundário, já que estamos previamente no mun-
tica em torno de três critérios: 1. Trata-se de uma do para poder julgá-lo e submetê-lo a determina-
filosofia reflexiva. 2. Está na esfera de influência do domínio. Assim, a hermenêutica pós-heide-
da fenomenologia. 3. Pretende-se uma variante ggeriana se faz herdeira da fenomenologia e é, a
hermenêutica da fenomenologia17. um só tempo, sua inversão e sua realização: a
Para Ricoeur17, a hermenêutica é reflexiva hermenêutica se emancipa do idealismo que Hus-
porque nasce do cogito cartesiano, sofre influên- serl tentou atribuir à fenomenologia17.
cia de Kant e da filosofia francesa pós-kantiana – Para Ricoeur17, o problema de submeter um
já que o pensamento pode acompanhar todas as texto à compreensão não se distingue do proble-
operações, e a consciência de si é indubitável e ma da compreensão de qualquer outro objeto,
almejada (tanto pela fenomenologia quanto para mas constitui-se em uma particularidade. Soma-
a hermenêutica). Reflexiva, porque por ela bus- se a essa particularidade aquilo que o autor de-
camos a compreensão de nós mesmos como su- nomina tríplice autonomia do texto: em relação à
jeitos de nossas operações cognitivas, volitivas, intenção do autor, à recepção do leitor e ao con-
estimativas, com clareza intelectual e responsa- texto histórico, social, econômico e cultural de
bilidade moral17. sua produção17. Com isso, a tarefa da herme-
Quando Husserl concebe a fenomenologia, nêutica será doravante perscrutar a obra e a ca-
atribui-lhe não somente características metodo- pacidade desta de dar lugar a um mundo. Esta-
lógicas, mas fundamentalmente dá contornos a belece-se assim uma dinâmica a um só tempo
uma maneira descritiva de articulações fundamen- interna e externa, que pressupõe a junção de com-
tais da experiência, que se firmam em um estado preensão e explicação.
de completa clareza intelectual: por meio do pro- Defendendo uma necessária dialética entre
cesso de redução, a pergunta fica excluída ao se compreender e explicar, Ricoeur17 opõe-se às ilu-
pôr entre parênteses17. Ricoeur17 lembra, entre- sões tanto da compreensão intersubjetiva imedi-
tanto, que, se para Descartes toda tentativa de ata quanto de que a análise estrutural dos signos
transcendência é duvidosa ao mesmo tempo em isoladamente possa encerrar-lhes em alguma
que a imanência do eu é indubitável, então a feno- objetividade. Assinala que o texto tem sempre a
menologia será necessariamente reflexiva. Ora, pretensão de fazer emergir um mundo, quer seja
nesse sentido, conhecer o noema – conteúdo rela- uma experiência ou uma forma de viver e nele
tivo ao ato de conhecimento – sem intermédio da estar – algo já existente e que pede passagem à
noese – ato de conhecimento – torna-se tarefa linguagem, aproximando-se das concepções de
impraticável. O movimento infinito de sínteses Heidegger e de Gadamer17.
ativas de que nos fala a fenomenologia dependerá
ainda de um quantum infinito de sínteses passi- Narrar a história a contrapelo
vas: a fenomenologia carece da hermenêutica, da com Walter Benjamin
mesma forma que a hermenêutica depende da Para Walter Benjamin, a narração tem como
fenomenologia, por ser dela descendente. Há algo alvo a transformação do presente. A relação en-
que sempre será pressuposto e que se constitui tre história e tempo ganha aqui outro estatuto:
em paraíso perdido da fenomenologia e em possi- nem a linearidade temporal do historicismo nem
bilidade resgatada da hermenêutica. Por outro a espiral do tempo no círculo hermenêutico; em
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Benjamin, o tempo se conta aos saltos. Aquilo em que dissolve as distâncias espaciais, torna-nos
que rompe a linha contínua com que se narra a incólumes às catástrofes do mundo. É a ocasião,
História oficial diz de um “tempo de agora” (Jet- diz Benjamin, para o florescimento do Romance
zseit), não cronológico, mas intensivo, remeten- como gênero literário, consagrado à solidão – do
do tanto à noção de origem (Ursprung) como autor, do herói, do leitor18 –, onde o que conta
surgimento do passado no presente quanto a um não é mais a experiência compartilhável (Er-
evento do instante, que advém a si sem partir de fahrung), mas o vivido (Erlebnis) nessa esfera de
lugar nenhum. A contrapelo, portanto, das his- intimidade. No entanto, Benjamin aponta para a
tórias oficiais, nas suas brechas, nas suas ruínas, possibilidade de invenção de outras formas nar-
nas histórias não contadas dos vencidos (barbá- rativas, distintas da informação e do romance, a
rie) que subjazem aos seus monumentos (cultu- partir da derrocada do mundo narrativo da tra-
ra) – é onde Benjamin situa, ética e politicamen- dição. Se esta possibilidade é positivamente afir-
te, o ofício do historiador. Interessado nos res- mada em Experiência e pobreza, na alusão a uma
tos, nos trapos do passado que foram esqueci- miríade de formas narrativas que acolhem com o
dos e que jazem inúteis, arrancando-os do con- ímpeto da irreverência esses novos tempos, no
texto em que foram encerrados para arranjá-los texto O narrador, de tom mais contido, Benjamin
em novos ordenamentos, consoantes ao presen- não oferece mais do que algumas pistas na dire-
te, o historiador benjaminiano age como um tra- ção de uma atividade narrativa capaz de reme-
peiro e colecionador. A narração da história, as- morar o passado fora dos cânones da tradição18.
sim, não trata de enumerar sequencialmente os Acompanhemos Gagnebin no encalço dessas
acontecimentos, mas, “fazendo emergir momen- pistas, a partir de um parágrafo de Benjamin que
tos privilegiados para fora do continuum crono- se repete em ambos os ensaios, no qual ele cha-
lógico”18, permite a apreensão desses momentos ma atenção para o silêncio com que haviam re-
estelares numa constelação inédita e salvadora. tornado do campo de batalha os combatentes
Ou seja, o passado, se pode ser retomado, é na da Primeira Guerra: o seu sofrimento não era
sua precariedade, como perda e esquecimento, comunicável, voltavam pobres, e não ricos, de
numa não identidade consigo mesmo – abertura experiências21,22. Nas palavras de Gagnebin18:
sobre o futuro, inacabamento constitutivo18. O que se opõe a essa tarefa de retomada salva-
Esta leitura, que se depreende ao longo da obra dora do passado não é somente o fim de uma tradi-
de Benjamin e se reafirma em seu último texto, ção e de uma experiência compartilhadas; mais
em 1940, Sobre o conceito de História18-20, distan- profundamente, é a realidade do sofrimento, de um
cia-se da que busca identificar em Benjamin o sofrimento tal que não pode depositar-se em expe-
conservador nostálgico da tradição. Com efeito, riências comunicáveis [...] Como descrever esta
a perda da tradição e a impossibilidade da narra- atividade narradora que salvaria o passado, mas
ção em seus cânones tradicionais, temas que lhe saberia resistir à tentação de preencher suas faltas
são recorrentes, comparecem quase simultanea- e de sufocar seus silêncios? [...] que saberia [deixar
mente, e sob perspectivas divergentes, em dois o passado] inacabado, assim como, igualmente,
ensaios do autor escritos no ano de 1936. Experi- saberia respeitar a imprevisibilidade do presente?
ência e Pobreza, o primeiro deles, situa a experiên- Narrar a impossibilidade de narrar, eis uma
cia (Erfahrung) no contexto de uma tradição com- das pistas, de que a obra de Kafka se mostra
partilhada, transmitida por um pai agonizante a pródiga aos olhos de Benjamin: Kafka, grande
seus filhos, visando uma prática comum, válida narrador, capaz de compartilhar com outros,
para toda a coletividade21. Já O narrador identifi- não conselhos, mas sua própria desorientação,
ca o ato de narrar à capacidade de intercambiar não estando dados nem o retorno a um mundo
experiências, capacidade manifesta nas figuras ancestral nem a invenção apressada e salvadora
arquetípicas do narrador – o camponês sedentá- de um novo mundo. As qualidades que o narra-
rio, o marinheiro viajante e o artífice das cidades dor tradicional tirava da rica tradição na qual se
medievais que se estabelece após migrar de ofici- enraizava, Kafka, por sua parte, as conquistou a
na em oficina como aprendiz22. Essa temporali- duras penas no terreno solapado de uma tradição
dade e essa espacialidade próprias às sociedades morta e de uma identidade em migalhas18. A que-
artesanais, que tornam possível o fio continuum da da tradição se revela, assim, o lugar de possi-
de suas narrações, são substituídas pelo “tempo bilidade – ainda que não garantida – de uma
deslocado e entrecortado do trabalho no capita- retomada inventiva e imperiosa da narração.
lismo moderno”18, tempo submetido à imediatez Nela, o esquecimento se faz também condição
da informação midiática que, no mesmo instante da memória, marca da sua finitude.
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Onocko-Campos RT et al.

Benjamin é, ele também, um narrador dessa Narrativas sobre experiência


espécie, um trapeiro colecionador de ruínas, de de adoecimento na perspectiva
que sua obra – em sua descontinuidade e inaca- da antropologia médica
bamento – dá-nos testemunho. A esse respeito, e de base fenomenológica
considerando a estreita relação entre o pensa-
mento que Benjamin professa e o método com A narrativa é, sem dúvida, um dos pilares do
que conduz a montagem de seus escritos e o an- campo de estudos da antropologia e saúde. O
dar de sua vida (na quase indistinção entre obra modo de concebê-la, entretanto, não é único.
e vida), reportamo-nos ainda a Gagnebin18 para Hydén, em Illness and Narrative25, artigo de revi-
um último apontamento acerca do uso muito são sobre dez anos de estudos sobre narrativa de
particular da narrativa em primeira pessoa no adoecimento (illness narrative), indicou o quan-
texto Infância berlinense23. Este texto, em que to eram plurais as formas de abordar e conceber
Benjamin se serve do fio das lembranças de in- as narrativas nos estudos sobre a experiência de
fância tecido na urdidura do esquecimento, pode adoecimento (illness experience). Essa diversida-
ser lido como uma homenagem a Proust em sua de pôde ser percebida também no número espe-
busca infinita por um tempo perdido, na justa cial da Social Science & Medicine – Narrative
medida em que esse infinito rompe a noção cor- Representations of Illness and Healing26 – publi-
riqueira de autobiografia – pois o autos não é cado na mesma década.
mais o mesmo, o bios explode em várias vidas que De forma breve e esquemática, podem-se in-
se entrecruzam e a grafia segue o entrelaçamento dicar pelo menos dois grandes modos de conce-
de diversos tempos que não são ordenados por uma ber as narrativas neste campo. Um deles enfatiza
linearidade exclusiva18. Contudo, Infância Berli- os aspectos simbólicos e culturais que as deter-
nense nos dá também a medida da distância que minam. Nesta perspectiva interessam os siste-
Benjamin, de forma deliberada, toma do texto mas ordenados de ideias, símbolos e representa-
proustiano pelas condições individualistas de sua ções que lhes atribuem sentido e significam o
produção, condições que lançam seu autor no adoecimento (illness) e os processos de trata-
risco de uma espécie de devaneio complacente e mento e cura. As experiências e as práticas cotidi-
infinito do qual o sujeito não mais quer emergir18. anas dos sujeitos doentes e de seus terapeutas
No trabalho das Passagens, Benjamin24 impunha- não são aí consideradas. O outro modo de tratar
se já a exigência política e ética de confrontar o as narrativas considera-as como uma dimensão
sonho com a vigília e, deste confronto, no mo- do vivido e não exclusivamente como uma re-
mento do despertar, extrair os elementos que lhe presentação ou abstração acerca deste. Ou seja,
permitissem agir – um agir coletivo levando à nesta segunda tradição, a narrativa é também
transformação do presente. Assim, além da in- um território existencial e experiencial, onde os
tensidade das lembranças individuais, Infância sujeitos adoecidos conjugam individualmente as
berlinense reconstrói a densidade de uma me- normas, os valores e as expectativas sociais, cul-
mória pessoal e coletiva, aberta à dimensão in- turais e coletivas e desenvolvem formas específi-
consciente do sujeito, mas também à sua dimen- cas de pensar, explicar e agir nas situações vividas
são social, que recusa a particularidade individu- cotidianamente que dizem respeito ao seu adoe-
al e é atravessada “pelas ondas de desejos, de re- cimento. Para fins deste artigo, apresentaremos
voltas, de desesperos coletivos”18. O “eu” que fala os pressupostos que sustentam, no campo da
da criança, na lembrança do adulto, diz de uma antropologia médica, a segunda concepção de
subjetividade que não se reduz às particularida- narrativa e um pouco de sua historicidade.
des do menino Benjamin. Sua voz nos atinge pro- A tradição da antropologia médica que con-
fundamente – mas teríamos a maior dificuldade cebe a narrativa como “parte da vida, antes de se
em descrever a identidade específica deste meni- exilar na escrita”, como a descreveu Ricoeur27, pode
no18. Gagnebin reporta-se aqui à distinção esta- ser considerada fenomenologicamente sensível.
belecida por Paul Ricoeur entre uma identidade- Dentre os seus representantes internacionais, ci-
mesmidade, referida ao eu zeloso de si da autobi- tamos Arthur Kleinman28, Byron Good28, La-
ografia clássica, e as figuras da sua ipseidade, que wrence Kirmayer29, Ellen Corin30 e Thomas Csor-
dão lugar a um sujeito que, ao enunciar “eu”, dei- das31. No Brasil, o destaque fica para Miriam
xa-se “atravessar pelos diversos tempos da sua Cristina M. Rabelo e Paulo Cesar B. Alves32. Para
história – e da história [prescindindo] das defi- esta abordagem, conhecer como as pessoas vi-
nições sempre ilusórias de si mesmo”18. vem o seu mundo é central. O interesse que dirige
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esta tradição é saber como os indivíduos com- abre a possibilidade de considerar que as narra-
preendem e atuam nas situações de adoecimento tivas não sejam todas e sempre “explicações” so-
que experimentam ao longo da vida. Visto que bre a vida.
este conhecimento não pode ser integralmente Em artigo intitulado Embodied Narratives,
deduzido das representações abstratas ou das Menary34 identifica dois tipos de narrativas – as
concepções sociais que o adoecimento carrega em autobiográficas e as intersubjetivas –, amplian-
cada cultura, expressas através das narrativas, do a compreensão acerca desta outra concepção
impõe-se que a experiência vivida, em especial a de narrativa. As narrativas que nomeia “autobi-
de adoecimento, ganhe centralidade. Este privilé- ográficas” – aquelas em que contamos a nossa
gio dado à experiência se constitui em um dos vida para outros, para nós mesmos, ou anteci-
elementos que demandará a revisão da concep- pamos o futuro e a direção de desdobramentos
ção de narrativa como abstração, simples relato de nossa vida – são, segundo ele, as de mais forte
de experiência ou mesmo invenção da cultura. caráter reflexivo. A função intersubjetiva destas
A experiência vivida é o que desvela o modo narrativas é dizer nossa história de vida a outros,
de estar no mundo dos indivíduos. Como o vivi- mas a sua principal função é ampliar a nossa
do é sempre encarnado corporalmente e em con- compreensão de nós mesmos, com e no mundo.
texto, quando esta tradição atribui visibilidade à Embora Menary34 não indique isso de modo ex-
experiência vivida, corpo e intersubjetividade são plícito, um alto potencial explicativo parece estar
iluminados. Constitui-se assim o tripé que supor- associado ao caráter reflexivo de tais narrativas.
tará a ideia de narrativa corporificada e situada. O segundo tipo de narrativa – intersubjetiva
Como sugerem Good et al.33, o corpo é o que – é aquela com menos potência para “explicar” a
nos situa no espaço e “meio” através do qual coti- vida. Diz muito mais sobre o campo das ações
dianamente manipulamos e significamos os que sobre o campo da reflexão, como descrito
objetos que constituem o mundo onde estamos acima. Neste segundo tipo de narrativa, o narra-
imersos. Habitar o próprio corpo é conviver com do é sobretudo a experiência corporificada de um
seu duplo aspecto de corpo vivido e corpo objeti- sujeito no mundo e menos uma tematização so-
vo, que oferece a condição primeira da intersub- bre esta vivida. Este segundo tipo de narrativa
jetividade como intercorporeidade31. Pensar o ser- indica a dimensão corporificada de toda e qual-
em-situação implica “considerar a unidade cor- quer narrativa – dimensão pouco visível quando
po-mente e também o enraizamento do indiví- apenas as narrativas que explicam as nossas ex-
duo no contexto social, enquanto ser que é desde periências são levadas em conta.
sempre ser-com-outros”32. O debate sobre a dimensão corporificada das
Locus onde as várias dimensões da vida si- narrativas – protagonizado por filósofos, estudi-
multaneamente emergem e se inscrevem, o cor- osos da cognição e antropólogos – não teve, en-
po é base de todo e qualquer conhecimento e tretanto, consequências imediatas e diretas para a
ação que possamos realizar no mundo, encar- concepção de narrativa nesta tradição da antro-
nando, de forma particular e única, o conheci- pologia médica. Foram Kirmayer29, Alan Young35
mento e a experiência acumulados acerca desta e Grouleau et al.36 os que desencadearam essa re-
ação e das possibilidades de novas intervenções visão. Eles identificaram que a literatura sobre
na realidade. Deste modo, o corpo protagoniza narrativa de experiência de adoecimento estava
uma relação não reflexiva com o mundo, per- dominada pela concepção reflexiva, que tem o
ceptível pela forma como se adequa a cada situa- propósito de explicar a experiência vivida de ado-
ção vivida. A narrativa se apresenta, assim, como ecimento. Estes autores perceberam que a ideia de
a possibilidade de expressão dessa experiência Kleinman37 – de que as narrativas de experiência
corpo-mundo. de adoecimento obedecem a esquemas lógicos e
Produto do corpo em situação – corpo que coerentes e se organizam em torno de atribuições
atualiza uma relação com o mundo que não é causais – havia se tornado hegemônica. A despei-
mediada, a priori, pela apreensão intelectual, mas to da centralidade da noção de experiência de ado-
a precede –, a narrativa adquire, no campo da ecimento e da sua relação intrínseca com a corpo-
antropologia de inspiração fenomenológica, uma reidade, o foco exclusivo em modos explicativos
dimensão corporificada. Esta dimensão lhe atri- de narrar ignorou o caráter multifacetado da ex-
bui uma qualidade antes não percebida34. O re- periência de adoecimento. A explicação do vivido
conhecimento de uma diferenciação possível en- a partir da perspectiva causal não foi tomada
tre o conhecimento através do qual se vive a vida como uma forma, dentre outras, de vivenciar/
e o conhecimento através do qual a explicamos narrar os processos de adoecimentos.
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Onocko-Campos RT et al.

Considerado o fluxo do processo de adoeci- grupos anteriores, para que pudessem contestá-
mento, o modo explicativo de narrar requer, em las, corrigi-las e validá-las, a maioria das vezes
geral, a elaboração do vivido através da reflexão conseguindo aprofundar o discutido no primei-
sobre a experiência de adoecimento. Esse exercí- ro grupo3. Após a transcrição da segunda roda-
cio demanda tempo e não costuma se produzir da, foram construídas novas narrativas que, jun-
imediatamente quando o sujeito se vê surpreen- to àquelas dos primeiros grupos, constituíram-
dido pelo adoecimento. Nos momentos iniciais se material-base para a construção de parâme-
do processo de adoecimento, as narrativas por tros e dispositivos avaliativos. Com esta escolha,
complexos em cadeia, por contiguidade tempo- pretendíamos não somente contar uma história
ral e espacial, são uma forma possível de narrar única e cronologicamente arranjada, mas, sobre-
a experiência. Partindo do corpo em ação na si- tudo, compreender os processos de trabalho e as
tuação, elas abrem ao sujeito adoecido a possibi- trocas que acontecem no cotidiano [dos serviços]38.
lidade de atribuição de sentido à experiência vivi- Em pesquisa orientada pela concepção de ex-
da. Contar a experiência a partir de exemplos, da periência em Benjamin41, voltada para trabalha-
suposição de semelhança e diferença do vivido dores de serviços residenciais terapêuticos, inves-
próprio face àquele por outros, foi também – tigaram-se os efeitos, sobre as práticas de cuida-
junto com a narrativa por complexo em cadeia – do e sobre a percepção de si como cuidadores,
outra forma de narrar, percebida quando a cor- que o compartilhamento de narrativas referidas
poreidade se fez central para a narrativa. Esta, às experiências no cotidiano desses serviços podia
mostrou-se, então, quando liberta do jugo do produzir. Foram narrativas curtas e fragmentári-
modelo explicativo, reveladora da dimensão pré- as as que escreveram esses trabalhadores, através
reflexiva da existência e do conhecimento tácito das quais se retomaram rasgos do passado que,
através do qual se vive. Este conhecimento – táci- iluminando o presente, redesenhavam um futu-
to – é condição de possibilidade para a elabora- ro. A cada encontro proposto pela pesquisa, era
ção do conhecimento e da narrativa através do trabalhado o texto previamente escrito por um
qual explicamos a vida, indicando que a experi- dos participantes, através de leitura coletiva, co-
ência vivida não se resume nem se encerra na mentários, sugestões. Esse trabalho visava não
explicação que podemos ter sobre ela. apenas a melhor legibilidade das ideias propostas
pelo autor do texto, mas o compartilhamento da
Pesquisas em saúde mental experiência por ele protagonizada e sua elabora-
com abordagens narrativas ção coletiva. A intervenção proposta pela pesqui-
Três foram as tradições que resgatamos para sa tomava a forma de uma experiência de passa-
pensar o uso da narratividade. Três escolhas, to- gem do eu ao plural. Para além da intensidade
davia, não aleatórias, pois são aquelas que se fi- das lembranças individuais, as narrativas que fo-
zeram passíveis de aplicabilidade para a pesquisa ram assim elaboradas iam construindo a densi-
no campo de interface entre a Saúde Mental e a dade de uma memória ao mesmo tempo pessoal
Saúde Coletiva. A seguir, apresentam-se exem- e coletiva, levando a transformações do agora.
plos de seu uso em estudos de grande porte e Em pesquisa sobre a experiência de adoeci-
discutem-se suas possíveis complementaridade mento inscrita no campo da antropologia e saú-
e imbricações. de de orientação fenomenológica, objetivou-se
Em pesquisas avaliativas e participativas em conhecer a perspectiva de psiquiatras e de usuá-
serviços públicos de saúde38-40, baseadas na her- rios de serviços de saúde mental sobre a experi-
menêutica gadameriana e na teoria narrativa de ência do adoecimento em pessoas diagnostica-
Paul Ricoeur, utilizou-se a transcrição das grava- das com transtornos do espectro esquizofrêni-
ções de grupos focais com gestores, trabalhado- co42. Foram feitos vários grupos focais: com usu-
res, usuários e familiares para a construção de ários, com psiquiatras e com ambos juntos. Os
narrativas. Após uma primeira rodada de grupo grupos foram audiogravados, transcritos e, pos-
focal com cada grupo de interesse, foram identi- teriormente, categorizados e codificados de modo
ficados e extraídos, do material transcrito, nú- a contemplar os três grandes momentos no pro-
cleos argumentais que respondiam às questões cesso de adoecimento: antecedentes, crise/início
colocadas pelas pesquisas. Estes constituíram o do adoecimento e restabelecimento/não restabe-
fio condutor para a construção das narrativas, a lecimento. Nesta perspectiva, a narrativa, ao for-
partir do dito pelos participantes e respeitando- necer diferentes contornos aos distintos modos
o. Em uma segunda rodada, essas narrativas fo- de viver a experiência43, é mais do que um meio
ram apresentadas aos mesmos participantes dos de comunicá-la, ou meramente a forma pela qual
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a experiência é representada, simbolizada e re- das na Saúde Coletiva e, com exemplos de sua
contada; trata-se de uma dimensão inerente a ela aplicação concreta, estabelecer as articulações
própria42. A ênfase, então, é colocada na descri- entre essas abordagens e sua utilidade nesta área.
ção, sendo necessário que esta explicite o que está Destacamos a relevância atual da intersecção
implícito na experiência vivida, corporal e pré- desses campos de saber como um promissor de
reflexiva, um modo de narrar no qual o adoeci- investigação, compromissado tanto com as ex-
mento seja explicitado de modo mais corporifi- periências encarnadas e em primeira pessoa (in-
cado, menos reflexivo; ou seja, um modo em que transferíveis, portanto) – como ocorre quando
os significados atribuídos à experiência apresen- queremos saber como foi viver determinada for-
tam-se mais próximos àquela pré-objetiva da ma de adoecer, os percursos dos pacientes e suas
corporeidade44. percepções –, quanto com a importância e a ne-
As narrativas, na pesquisa citada sobre a ex- cessidade de sua ‘traducibilidade’ para o campo
periência do adoecimento na esquizofrenia, fo- das políticas e das práticas, no sentido de contri-
cam-se na descrição do vivenciado e, portanto, buir para formar serviços mais porosos e plásti-
são apresentadas como unidade narrativa, tal cos às necessidades dos usuários e que incorpo-
como foram expressas pelos participantes da rem construtivamente as experiências e os apren-
pesquisa, sendo posteriormente categorizadas e dizados de seus trabalhadores. Isso nos obriga a
codificadas pelos pesquisadores. O objetivo é fa- considerar a necessária miscigenação-inovação-
vorecer que narrativas encarnadas revelem a di- criação que o campo dos estudos das práticas de
mensão pré-reflexiva e experiencial do viver com saúde nos apresenta, incluindo aqui os aspectos
esquizofrenia. Já na pesquisa informada pela te- éticos e clínicos envolvidos nos desenhos.
oria narrativa de Ricoeur, o conhecimento da Chamamos atenção para o fato de as abor-
experiência é subsídio para a análise e a avaliação dagens etnográficas clássicas assumirem muitas
dos processos de trabalho, em que a construção vezes o pressuposto de que uma boa aculturação
das narrativas por parte dos pesquisadores – com resolveria a maioria dos problemas técnicos, so-
destaque de núcleos argumentais explicitando bretudo em relação à qualidade do material cons-
experiências, consensos e dissensos – produz efei- truído narrativamente, dando pouca ênfase, por
tos de narratividade14 que enriquecem a espiral exemplo, à intersubjetividade. Esta se destacou
hermenêutica. Por fim, na pesquisa de inspira- sobremaneira nos estudos que referimos, pro-
ção benjaminiana, mais do que o conhecimento vavelmente por se tratar – direta ou indireta-
da experiência através das narrativas, é o com- mente – de pesquisas envolvendo diagnostica-
partilhamento dessas narrativas – inacabadas, dos dentro do espectro psicótico, que sabidamen-
entrecortadas, fora de ordem – o que pode con- te nos oferecem histórias fragmentadas, em uma
ferir caráter de experiência ao vivido, levando à ordenação singular e não submetidas à lógica
reinvenção do presente. retórica habitual.
Também propusemo-nos analisar as singu-
laridades/diferenças no modo de fazer pesquisa
Considerações Finais de práticas em saúde mental: na pesquisa avalia-
tiva, ousamos a construção narrativa como for-
No âmbito da saúde Coletiva, o estudo das prá- ma de produzir um material denso e que permi-
ticas tem se mostrado um campo fértil e insti- tisse maior aprofundamento das questões em es-
gante. Quando a pesquisa busca se aproximar tudo; na pesquisa sobre a experiência de adoeci-
dos novos serviços (como no caso da saúde men- mento, respeitamos as construções originais dos
tal, que experimentou grande expansão em tem- usuários, pois não desejávamos racionalizar nem
pos recentes) ou estudar práticas inovadoras dar um ordenamento alheio à experiência encar-
(como as advindas da Reforma Psiquiátrica), o nada; na pesquisa com trabalhadores, valemo-
recurso às abordagens narrativas tem sido cada nos de narrativas inconclusas e fragmentadas para
vez mais frequente. Contudo, ainda poucos tra- produzir compartilhamento e reflexão, gerando
balhos discutem as relações entre abordagem teó- efeitos de transformação nas equipes.
rica, suas variações metodológicas e as implica- Sem pretensões de exaurir completamente ne-
ções dessas escolhas nas investigações. nhuma das abordagens apresentadas, mas, antes,
Buscamos, no presente artigo, explicitar al- propondo-se iniciar uma possível articulação en-
guns dos principais pressupostos de três corren- tre elas, o presente estudo almeja contribuir com o
tes de abordagem narrativa que têm sido utiliza- debate metodológico na saúde coletiva.
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Onocko-Campos RT et al.

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Artigo apresentado em 01/04/2013
Aprovado em 17/05/2013
Versão final apresentada em 05/06/2013