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a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Páscoa:
a vida venceu a morte
para sempre!

Roteiros Homiléticos para o Tríduo Pascal,


domingos de Páscoa e Pentecostes
Ano À

) Projeto Nacional de Evangelização


Queremos Ver Jesus
Caminho, Verdade e Vida

EB. PAULUS
1º edição — 2008

Capa: Ilustração de Dom Ruberval Monteiro, osb


(Mosteiro da Ressurreição — Ponta Grossa — PR)

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O Pia Sociedade Filhas de São Paulo — São Paulo, 2008
Apresentação

A Páscoa é o maior horizonte da nossa fé. Todo o período


quaresmal foi nos introduzindo, paulatinamente, no mistério
central da nossa fé — o triunfo da vida!
O acontecimento morte, embora tão certo, nos desconcerta,
causando angústia e sofrimento. Queremos viver! No fundo, é
porque queremos existir para sempre. Este desejo tão profundo
do ser humano encontra sua realização plena no mistério pascal
de Cristo.
Dois fortes símbolos da vida nova em Cristo nos acom-
panham no período pascal: a luz e a água. A luz que nos vem
do fogo novo, aceso na Vigília Pascal e com o qual acendemos
o Círio pascal, nos remete a Cristo, a Luz que dissipa as densas
trevas do mundo, as sombras da morte. O fogo aparece, ainda,
na manifestação do Espírito em Pentecostes. A água nos fala da
vida nova, da nova criatura que somos, uma vez mergulhados
no mistério de Cristo pelo batismo.
Frei José Ariovaldo da Silva, ofm, nos ajuda a bem preparar
e a celebrar com dignidade e beleza o mistério pascal de Cristo.
Seja na Celebração da Palavra (para as comunidades que não
podem contar com a celebração dominical da Eucaristia), seja na
celebração eucarística. Suas considerações bíblicas e litúrgicas
são preciosas. Elas nos incentivam a viver com intensidade este
rico período que vai do Tríduo Pascal a Pentecostes. Suas suges-
tões — se adaptadas com criatividade pelas equipes de celebração
— facilitam a participação das nossas assembléias dominicais.
Boa leitura e bom proveito!
Tt Dom Joviano de Lima Junior, sss
Arcebispo de Ribeirão Preto, SP
Presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia

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A liturgia no Tempo Pascal
Considerações e sugestões gerais

Após o solene Tríduo Pascal, pelo qual celebramos os


mistérios da paixão e morte (na Sexta-feira Santa), sepultura (no
Sábado Santo) e ressurreição de Jesus (na Vigília Pascal), entra-
mos no Tempo Pascal. São cinquenta dias de Páscoa, vividos e
celebrados como um grande “Domingo”, como se fosse um só
dia de festa alegremente prolongado. Por 1sso, “os domingos que
seguem o Domingo da Ressurreição do Senhor não são chamados
domingos depois da Páscoa, mas domingos da Páscoa. Isso quer
dizer que a Páscoa da Ressurreição é a festa cristã celebrada du-
rante cinquenta dias. São cinquenta dias de festa pascal, cinquenta
dias de aleluia.! Para todo este tempo vale o que cantamos no dia
da Páscoa: “Eis o dia que o Senhor fez para nós! Alegremo-nos
e nele exultemos!” (Sl 117,24).
E o tempo em que celebramos a vida que venceu a morte
para sempre. Para o Evangelho de João, o mais lido neste tempo,
“a ressurreição do Senhor é um dia que não termina. Jesus res-
suscita no primeiro dia da semana (domingo), aparece a Maria
Madalena, encarregando-a de anunciá-lo vivo, e, na tarde desse
mesmo dia, comunica o Espírito aos discípulos. Oito dias depois
— novamente domingo — proclama felizes os que crêem sem ter
visto. Com essa concentração de fatos (todo o capítulo 20), o
quarto Evangelho quer afirmar o seguinte: a partir da ressurrei-
ção do Senhor há, na história, uma força de vida invencível e
interminável, capaz de contagiar positivamente todos os dias. A
liturgia afirma que todo domingo é Páscoa. João vai mais longe

| BECKHAÚSER, À. Viver em Cristo: espiritualidade do ano litúrgico. Petrópolis, Vozes,


1992.p. 123.

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e garante que cada dia é Páscoa; cada dia a vida vai triunfando
sobre a morte, pois o Cordeiro venceu, de uma vez por todas, e
sua vitória não era para um tempo passado, mas marca positiva-
mente todos os dias, até a consumação dos séculos.
Temos, portanto, uma espiritualidade marcada pelo
otimismo, pela certeza da vitória final da vida. Mesmo que o
Senhor, que veio do Pai, volte para ele, não ficaremos órfãos
nem nos perderemos no caminho. Ele é o Caminho de volta
para o Pai, no qual ele nos precedeu para preparar-nos um lugar.
Enquanto estamos no mundo, temos a presença do Espírito,
cuja tarefa é ensinar-nos e recordar-nos de tudo o que Jesus
disse, a fim de nos conduzir à plena verdade. O Espírito tomará
daquilo que é de Jesus e no-lo ensinará para tempos e lugares
novos. À comunhão perfeita entre eles três é um estímulo e
um desafio para todos os cristãos — a busca da unidade: “que
todos sejam um”.
À espera do Espírito Santo, temos a companhia carinhosa e
materna de Maria. Ela fez uma experiência única e extraordinária
do Espírito em sua vida: pelo poder do Altíssimo, concebeu Jesus.
Ciente de que o Espírito é capaz, ela nos estimula a esperá-lo e
a recebê-lo como aquele que vai gerar em nós o testemunho de
Jesus ressuscitado na missão”.?

O Tempo Pascal compreende os domingos a partir do


Domingo da Ressurreição até o Domingo de Pentecostes. E o
tempo batismal por excelência. Pelo batismo participamos da
morte e ressurreição de Cristo, percorrendo na vida um caminho
de conversão e libertação. Quanto mais vivermos a vida nova que
brota da Páscoa de Cristo, mais capazes seremos de contemplar
a presença do Ressuscitado em nossa realidade pessoal, comu-
nitária e na história,

* BorTOLINI, J. Roteiros homiléticos. Anos À, B, C— Festas e solenidades. São Paulo,


Paulus, 2006. p. 56.

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No Tempo Pascal do Ano A (ano de Mateus), as segundas
leituras são colhidas da homilia pascal e batismal, que é a Pri-
meira Carta de Pedro. As primeiras leituras são uma sequência de
textos dos Atos dos Apóstolos. Em todos os anos, os evangelhos,
neste período, são escolhidos do Evangelho de João (menos o
texto dos discípulos de Emaús: Lc 24,13-35, no 3º Domingo, e o
Evangelho da Ascensão, que é Mt 28,16-20). João é o evangelista
que apresenta de maneira mais clara o Cristo pascal e glorioso,
até mesmo nos acontecimentos que se referem à sua atividade
antes da morte e ressurreição.
No 7º Domingo, celebramos a Ascensão do Senhor, que dá
início à Semana de Oração pela Unidade das Igrejas. O último dia
é o Domingo de Pentecostes — a festa do Espirito —, a plenitude
do dom da Páscoa de Jesus, comunicado à Igreja, tornando-a
profética e missionária.
Com a festa de Pentecostes, termina o Tempo Pascal e
retoma-se o Tempo Comum do ano, com a festa da Santíssima
Trindade, mistério-sintese da Páscoa, seguida da festa do San-
tíssimo Corpo e Sangue de Cristo, que, neste ano, acontecerá no
dia 22 de maio.
Alguns símbolos, atitudes e ações rituais marcam este
tempo, como um prolongamento da Páscoa.

1. O Círio pascal, como sinal do Cristo ressuscitado e luz do


mundo, deve estar presente, devidamente enfeitado e em lugar
de destaque, em todas as celebrações.
2. É importante que o Círio seja aceso e incensado, no início
da celebração, enquanto a assembléia entoa um refrão que
evoque o sentido do gesto, conforme sugerimos nos primeiros
domingos.
3. A alegria é a atitude pascal que deve permear o dia-a-dia da
vida cristã; neste Tempo Pascal, ela recebe especial cultivo,
sobretudo nos momentos celebrativos.

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. Às flores e a cor branca ou amarela nas vestes, toalhas e em
outros ornamentos expressam também a alegria e a paz que
caracterizam este tempo.
. A“aleluia”, palavra hebraica que significa “louvor a Deus”, é
uma das expressões fortes que aparecem em vários momentos
da celebração, sobretudo na aclamação ao Evangelho. É o
canto novo da vitória de Cristo e das comunidades sobre o
mal e a morte.
. À água batismal consagrada na Vigília Pascal seja colocada
em lugar especial, de preferência junto ao Círio. Onde não
houver pia batismal, preparar uma bacia bonita para recebê-
la. A água poderá ser perfumada ou conter pétalas de flores,
como lembrança do batismo que nos mergulhou na Páscoa do
Senhor e nos faz novas criaturas.
. Oito da aspersão com água pode ser feito, neste Tempo Pas-
cal, substituindo o ato penitencial, como memória do batismo,
e pode, às vezes, ser realizado no momento da profissão de fé,
como aconteceu na Vigília Pascal. O Missal Romano apresenta
em seu Apêndice um “Rito para bênção e aspersão da água”.
. Oferecemos aqui uma sugestão para o rito da água a ser feito
após a partilha da Palavra, conforme proposta de Marcelo
Guimarães e Penha Carpanedo, em Dia do Senhor: guia para
as celebrações das comunidades — Ciclo Pascal (São Paulo,
Apostolado Litúrgico/Paulinas, 2002. p. 227):
Renovação do batismo
(Terminada a partilha da Palavra, a pessoa que preside se
dirige à pia batismal e convida a comunidade a ficar em pe.)
D: Irmãos e irmãs, bendigamos ao Deus da vida, que nos faz
participar da alegria dos que foram batizados na Páscoa,
dando-nos esta água como recordação do batismo.
(Todos rezam em silêncio.)
D: Ó Deus, fonte de energia, nós vos bendizemos por esta
água que criastes para fecundar a terra e para manter viva a

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vossa criação. Ela nos lembra do êxodo da primeira aliança
e traz à nossa memória o dia em que Jesus, mergulhando
nas águas do Jordão, manifestou-se Filho querido e servidor
do Reino! Por esta água, o vosso Espírito venha sobre nós
e nos faça renascer para uma vida nova, agora e sempre.
Amém,
(A assembleia é aspergida, enquanto canta: “Eu vi, eu vi, foi
água a manar... ”, do Hinário Litúrgico 3, da CNBB, p. 83.)
Segue aqui, também, uma sugestão de um rito de água subs-
tituindo o ato penitencial, no início da celebração, para os
domingos pascais:
D: Ó Deus, bendito sejais pela água que fecunda a terra e
dá vida a toda vossa criação. Ela não apenas refaz nossas
forças, mas é sinal de que nos renovais interiormente em
vossa aliança. Por esta água, venha sobre nós o vosso
Espírito, para fazer de nós criaturas novas, agora e sempre.
Amém.
(A assembleia é aspergida, enquanto canta: “Eu vi, eu vi, foi
água a manar... ”, do Hinário Litúrgico 3, da CNBB, p. 83).
10.Rito alternativo para abrir a celebração nos domingos de
Páscoa:
(Quebrando o silêncio, toques de atabaques convocam para
a festa... Uma jovem entra dançando, trazendo na mão a
bandeira da paz — branca ou com as cores de todas as nossas
bandeiras... A assembléia entra no ritmo, cantando: “Deus
chama a gente pra um momento novo” ou “E bonita demais...
a bandeira da paz ”.)
11.Para os vários momentos da celebração, escolher cantos que
expressem mais fielmente o mistério da Páscoa, dentro de
nossa realidade. O Hinário Litúrgico 2, da CNBB, oferece
ótimas sugestões de músicas para este tempo, assim como
o Ofício Divino das Comunidades (ODC), o qual contém
inúmeros hinos, refrões e cantos, além dos salmos, com me-

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lodias populares, antigas e novas, muito ao gosto de nossas
comunidades.
12.Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado
o CD Liturgia XVI — Páscoa — Áno À, com os cantos do Hi-
nário Litúrgico da CNBB (2º fascículo) referentes ao Tempo
Pascal. Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de
Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este
CD é bem indicado para as comunidades prepararem os cantos
da celebração.
13.Há inclusive ótimas melodias para as partes fixas da Liturgia, a
serem cantadas pela presidência e pela assembléia, que foram
publicadas pela Paulus no CD: Cantar a Liturgia: presidência
e assembléia. Produzida pela CNBB Regional Sul II, trata-
se de uma gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de
Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
14.Incentivar as comunidades a prepararem a Semana de Oração
pela Unidade dos Cristãos, reunindo-se, se possível, com
pessoas de outras Igrejas cristãs presentes na localidade. O
Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic) oferece um
subsídio com celebrações ecumênicas para essa semana.
15.Motivar as comunidades a fazerem a Vigília de Pentecostes,
que, em muitos lugares, já é realizada e dura a noite inteira.
É importante que essa Vigília não fique apenas centrada no
Espirito Santo, perdendo sua ligação com a Páscoa. O ODC,
p. 588, oferece um roteiro que ajuda grupos e comunidades a
retomarem, na Vigília de Pentecostes, a Vigília Pascal, dando-
lhe um sentido de louvor ao Pai, pela ressurreição de Jesus
que nos oferece o Espirito Santo.

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Quinta-Feira da Semana Santa
Celebração da Ceia do Senhor (início do Tríduo Pascal)
20 de março de 2008

Leituras: Éxodo 12,1-8.11-14; Salmo 115(116B),12-13.15-16bc.17-18;


1 Coríntios 11,23-26; João 13,1-15

Amou-os ate o fim

1. Situando-nos brevemente

Chegamos ao fim da Quaresma, tempo de preparação para


a Páscoa. Neste ano, passamos este tempo de conversão e de
graça refletindo e rezando sobre o sentido e valor sagrado da vida
humana a ser garantida e preservada, desde sua concepção até
seu ocaso. Nesse sentido, necessariamente refletimos e rezamos
sobre o valor sagrado da vida do nosso planeta e de toda a cria-
ção, pois da qualidade desta vida também depende, em grande
parte, a qualidade de nossa vida. Cuidar da criação é cuidar da
nossa vida.
Nesta noite, inauguramos o Tríduo Pascal, no qual celebra-
mos o mistério da paixão e morte de Jesus (Sexta-Feira Santa),
o mistério de sua sepultura (Sábado Santo) e o mistério de sua
ressurreição (Domingo de Páscoa).
Nesta noite, vivemos com Jesus uma espécie de clima de
despedida (dramática despedida!), em que o Mestre deixa-nos
assinado um testamento: o testamento de seu amor sem medida,
o testamento da entrega de sua própria vida por nós para que
todos tenhamos vida.

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A própria Palavra que ouvimos nos traz o registro deste
testamento, com certeza o mais importante da história da humani-
dade. Retomemos o que a Palavra nos diz, para depois refletirmos
melhor sobre ela e dela tirarmos as consequências para o nosso
agir de discípulos e discípulas de Jesus.

2. Recordando a Palavra

Jesus era judeu. Participava assiduamente das atividades


religiosas de seu povo. A festa da Páscoa judaica, comemorando,
através do ritual de uma ceia festiva “memorável”, a saída da
escravidão no Egito para a terra da liberdade (primeira leitura:
Ex 12,1-8.11-14), era, com certeza, celebrada por ele todos os
anos, como fazia sua gente.
Agora pensemos o seguinte: a trama das autoridades religio-
sas para eliminar Jesus já está bem montada e o cerco, praticamente
fechado. Não há mais saída. Sua vida está por um fio; ele está na
iminência de ser entregue à tortura da cruz até a morte. Jesus o
percebe claramente, numa coincidência que se torna marcante:
celebra-se a festa da Páscoa. Nesse clima, como que de despedida,
ele reúne-se com seus apóstolos para o ritual da ceia pascal.
O apóstolo Paulo, mais tarde, escrevendo à comunidade
de Corinto (que vivia problemas e divisões entre ricos e pobres,
fortes e fracos, e, dessa maneira, celebrava a ceia), lembra e
destaca o que de fato havia recebido como herança da vinda do
Senhor: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o
pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo
que é dado por vocês. Façam isto em minha memória”. Do mes-
mo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: “Este
cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que vocês
beberem dele, façam isto em minha memória”. Todas as vezes,
de fato, que vocês comerem deste pão e beberem deste cálice,
estarão proclamando a morte do Senhor, até que ele venha”.

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Em outras palavras, Paulo alerta que o objetivo da ceia não é
simplesmente comer e beber, mas, comendo e bebendo da ceia,
vivenciar o exemplo de doação de Jesus até a morte.
O Evangelho de João destaca outro gesto realizado por
Jesus, naquela ceia derradeira, e que se tornou também marcante.
Diz o Evangelho: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de
passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam
no mundo, amou-os até o fim. Estavam tomando a ceia...”. E, num
dado momento, sabendo de tudo o que estava para acontecer com
ele, levantou-se da mesa, amarrou uma toalha na cintura, colocou
água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos. Pedro
reagiu negativamente. Mas Jesus o alertou: “Se eu não lavar você,
você não terá parte comigo”. Pedro então concordou, dispondo-se
inclusive a deixar lavar-lhe também as mãos e a cabeça. E Jesus
respondeu: “Não é preciso, Pedro. Você já está limpo, mas infe-
lizmente nem todos”. Então Jesus explica o gesto que acabara de
realizar: “Vocês me chamam de Mestre e Senhor, e dizem bem,
pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, lavei os pés de
vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros. Dei-lhes
o exemplo, para que façam a mesma coisa que eu fiz”.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

Quando João escreveu seu Evangelho, existiam problemas


de relação e convivência fraterna nas comunidades dos discípulos
e discípulas de Cristo; o mesmo acontecia, quando Paulo escreveu
à comunidade de Corinto. Cristãos se deixavam facilmente conta-
minar pelo ambiente social de então, construído sobre um sistema
de relações desiguais (senhor e escravo, patrão e súdito, ricos e
pobres, fortes e fracos). O que é possível acontecer também hoje
em nossas comunidades. Facilmente podemos entrar no jogo de
interesses e de poder de uma sociedade injusta (desajustada), em
que prevalecem a ambição, a concentração de bens, o espírito de

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não-partilha, a discriminação: uns querendo dominar, controlar e
até mesmo explorar os outros; uns querendo ser mais do que os
outros; uns querendo passar os outros para trás, tirar vantagens
às custas dos outros (sobretudo dos mais fracos).
Tendo esse contexto como pano de fundo, somos transpor-
tados para a última ceia do Senhor. No tempo de Jesus, quando
o patrão chegava em casa do trabalho, quem devia lavar-lhe os
pés eram os escravos não-judeus ou as mulheres judias (filhas e
esposa). Jesus, durante a ceia pascal, comporta-se totalmente ao
contrário. Ele se faz escravo e lava os pés dos seus discípulos.
Gesto espantoso para quem tem dificuldade de aceitar a igualdade!
Por isso Pedro reage, porque ainda tem cabeça de “patrão”. Por
isso Jesus lhe diz: “Você não entende o que estou fazendo; mais
tarde compreenderá... Se eu não lavar você, você não terá parte
comigo”. Em outras palavras: seja humilde! Deixe lavar seus pés.
Se você tiver a humildade de se deixar lavar por mim, então você
terá parte comigo, Isto é, estará no mesmo nível de humildade que
eu e, portanto, limpo da arrogância de ser “o tal”, “o Pedro”.
Jesus, o verbo eterno de Deus que tudo criou e cria (cf. Jo
1,1-2), se faz servo, escravo. E vai, assim, até a cruz, expressão
máxima de um amor-serviço sem limites. Nisto ele é Mestre
e Senhor. Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus aponta para a
dimensão do que significa de fato ser cristão: é ser servo dos
outros. O discípulo e a discípula do Mestre não se colocam acima
dos demais, mas a serviço deles. Como Jesus fez. Viver assim é
ter parte com Jesus e realizar com ele o projeto de Deus de uma
sociedade nova, justa € fraterna.
Eis o nosso Mestre, de cujo exemplo devemos aprender
para conviver bem com as pessoas e conosco mesmos. Eis o nosso
Senhor, com quem devemos nos identificar ao amor desinteres-
sado, colocado a serviço de todos, inclusive dos que poderão nos
trair e nos levar à morte. Eis o nosso Mestre e Senhor, que nos
deixa um testamento: “Façam a mesma coisa que eu fiz”.

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Celebrar a Eucaristia — Ceia memorial de seu Corpo entre-
gue e seu Sangue derramado em favor da vida de todos — significa
comungar, comprometer-se, aliar-se com este amor-serviço vivi-
do pelo Mestre e, pela ação do seu Espírito, ter então o prazer de
se tornar, em Cristo, um só corpo bem unido, sem ambigiiidades,
sem divisões, sem discriminações, mas reconciliados e em paz
uns com os outros.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Realizando a ação ritual da ceia pascal, que ele mesmo nos
mandou fazer em memória de sua morte e da qual participamos
todos os domingos e até mesmo nos dias de semana, vamos louvar
e bendizer ao Pai porque, em Cristo, nos revelou o segredo para
se construir uma sociedade sadia com vida para todos. Diante
do mistério do amor sem medida do Servo de todos, vamos
proclamar solenemente: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte;
proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.
Depois vamos comungar do destino de Jesus, o destino do
amor-serviço levado até as últimas consequências na cruz, para
que nele tenhamos força para sermos verdadeiros discípulos e
discípulas do nosso Mestre e Senhor, vivendo com intensidade
o exemplo que ele nos deixou. Afinal de contas, “sua carne,
imolada por nós, é o alimento que nos fortalece. Seu sangue,
por nós derramado, é a bebida que nos purifica” (Prefácio da
Santíssima Eucaristia 1). Por isso, no início de nossa celebração
de hoje, o sacerdote faz ao Pai este pedido: “Concedei-nos, por
mistério tão excelso, chegar à plenitude da caridade e da vida”.
Que a comunhão nesta ceia nos traga vida realmente, no reino que
Deus preparou para todos. Por esse motivo, após a comunhão o
sacerdote reza: “O Deus todo-poderoso, que hoje nos renovastes
pela ceia do vosso Filho, dai-nos ser eternamente saciados na ceia
do seu reino”. Ao que todos respondemos: “Amém!”.

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5. Sugestões para a celebração
* Qualquer atividade importante, para ter qualidade, exige
concentração. Muito mais no caso da ação litúrgica. Por isso,
a Instrução Geral sobre o Missal Romano traz a seguinte re-
comendação: “Convém que já antes da própria celebração se
conserve o silêncio na igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo
nos lugares mais próximos, para que todos se disponham devota
e devidamente para realizarem os sagrados mistérios” (n. 45).
Assim sendo, sugerimos que, antes de se iniciar a celebração, o
presidente da assembléia com os demais ministros e ministras,
na sacristia ou à entrada da igreja, mergulhem (por um instante)
em profundo momento de silêncio e concentração orante. Po-
dem fazê-lo dando-se as mãos, em círculo, inclusive dirigindo
uma oração ao Espírito Santo, pedindo luz para o bom exercício
do ministério a serviço do povo. Isso é muito bom. Ajuda a fazer
a diferença na qualidade orante e espiritual dos diversos minis-
térios. O mesmo vale para a assembléia, que pode criar o clima
de concentração mediante o canto de algum refrão meditativo.
* Seria bom que, na medida do possível, todos os ministros e
ministras da comunhão eucarística da comunidade pudessem
fazer parte da procissão de entrada, no início da celebração.
Dessa procissão podem participar também as pessoas cujos
pés serão lavados no rito do lava-pés.
* Uma sugestão para quem preside: proclame as orações e atue
na celebração conscientemente, isto é, com a certeza de estar
fazendo as vezes do próprio Jesus. Proclame as orações, de
fato, dirigindo-se ao Pai. Atue na celebração como quem está,
realmente, a serviço de um povo. Isso favorece, e muito, a parti-
cipação ativa e orante da assembléia. O povo merece e agradece.
* Após o canto festivo e solene do Glória (durante o qual se
sugere tocar sinos e carrilhões), inaugurando o Tríduo Pascal,
seria louvável suspender (nas comunidades onde houver)
o toque dos instrumentos de percussão (como bateria, por

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exemplo). Tocar os demais instrumentos musicais (teclado,
órgão, violões ou guitarras) de maneira bem moderada, sem
muito barulho, para permitir certo silêncio e compenetração
diante dos mistérios dolorosos que passamos a celebrar.
Nunca é demais lembrar a leitores e leitoras que proclamem
as leituras com segurança, com calma, sem pressa, pausada-
mente, com boa dicção, usando bem o microfone (se houver)
e, sobretudo, com espiritualidade, isto é, vivenciando de fato
aquilo que lê. Para tanto, é preciso se preparar antes, já durante
a semana, lendo, relendo, meditando, rezando a Palavra que vai
ser proclamada. A assembléia litúrgica merece e agradece.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD: Tríduo Pascal — T. Quinta-feira Santa e Sexta-feira Santa,
com os cantos do Hinário Litúrgico da CNBB (2º fascículo)
referentes à Quinta-feira Santa. Gravado pelo coral Palestrina
da Arquidiocese de Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia
Cardoso, este CD é bem indicado para as comunidades pre-
pararem os cantos da celebração.
Na medida do possível, privilegiar a distribuição da comunhão
sob duas espécies, para, no sinal sacramental, viver melhor
o mistério que se celebra nesta noite. Aplicar, na medida do
possível, o que está na Instrução Geral sobre o Missal Romano:
que o pão eucarístico “pareça realmente um alimento” e seja
preparado de tal forma que possa ser repartido entre todos, ou,
pelo menos, que partes da hóstia repartida no rito da fração do
pão sejam distribuídas a alguns dos fiéis (cf. nn. 320-321; cf.
CNBB. Guia litúrgico-pastoral. 2.ed. rev. e ampl. Brasília,
CNBB, 2007. pp. 29-30).
Previsões para missa vespertina da ceia do Senhor
Preparar:
a) Em lugar conveniente do presbitério
— pão ázimo grande para a celebração, se possível;
— vaso(s) ou âmbula(as) com partículas a consagrar
para a comunhão do dia seguinte;

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um xale;
carvão;
incenso;
talha de barro ou turíbulo;
tochas e velas.
b) No lugar onde se faz o lava-pés
assentos para as pessoas designadas;
jarro com água e bacia;
toalhas para enxugar os pés;
toalha (ou gremial de linho) para o celebrante cingir
a cintura;
material necessário para quem preside lavar as mãos
após o lava-pés.
c) Na capela onde se vai guardar o Santíssimo Sacramento
sacrário ou cofre para a reposição;
luzes (velas, lamparinas);
flores e outros ornamentos adequados.
Pessoal e serviços:
pessoas designadas para o rito do lava-pés;
ministros que auxiliam o sacerdote, ou o represen-
tante, no lava-pés;
tocadores de sino (durante o canto do Glória tocam-se
os sinos, que permanecerão depois silenciosos até a
Vigília Pascal);
pessoas para arrumar o lugar onde se vai guardar o
Santíssimo Sacramento;
pessoa (acólito) para carregar a cruz processional;
pessoas (acólitos) para levar os castiçais com as velas
acesas na procissão do Santíssimo, rumo ao lugar da
guarda do Santíssimo;
pessoa para levar a talha de barro ou o turíbulo;
pessoas para levarem as tochas (ladeando o Santis-
simo na procissão);
pessoas para desnudarem o altar, logo em seguida à
procissão com o Santíssimo;
grupos ou equipes para a adoração ao Santíssimo
Sacramento.

19
PNE - QV] - CVV nº 44
Sexta-Feira da Paixão do Senhor
21 de março de 2008

Leituras: Isaias 52,13-53,12; Salmo 30(31),2.6.12-13.15-16.17.25;


Hebreus 4,14-16-5,7-9; João 18,1-19,42

A maior lição de amor

1. Situando-nos brevemente

O dia de hoje é especialmente sagrado para toda a Igreja


e para o povo brasileiro; talvez, o dia mais sagrado do ano. O
dia da Paixão do Senhor. O dia em que o próprio Filho de Deus,
nascido de Maria como Servo de todos, teve a coragem de morrer
por nós. O dia em que Jesus nos mostra de que jeito ele é Rei e
Rei Universal. O dia em que Jesus apresenta-se como Sacerdote
único e único Mediador entre Deus e a humanidade.
Dia de silêncio, para todos poderem ouvir atentamente a
voz do maior exemplo de Amor que jamais o ser humano pre-
senciou. No meio deste silêncio, ouvimos a Palavra de Deus
que nos apresenta de maneira sintética tudo o que Jesus é para a
humanidade e para toda a criação: Servo, Rei, Sacerdote único.
O que nos diz a Palavra?

2. Recordando a Palavra

Ouvimos, do profeta Isaías, um emocionante poema: o


chamado “quarto poema do Servo de Javé”. Fala de “um servo
de Deus que enfrenta conscientemente a dor e a rejeição até a
morte e acaba sendo glorificado por causa disso”.! Quem seria o

| BORTOLINI, Op. cit., p. 86.

e0
PNE - QV) - CVV nº 44
servo cantado no poema? Provavelmente, quando foi escrito, se
referia ao povo esmagado pelo sofrimento causado por nossos
pecados, isto é, porque não ouvimos a voz de Deus e, com Isso,
deixamos de nos comprometer com a vida da população; assim,
o povo de fato acabou atormentado pela angústia e esmagado até
a morte. No entanto, “por esta vida de sofrimento, ele alcançará
luz e uma ciência perfeita” (Is 53,11), diz o poema, e inúmeras
pessoas serão justificadas e perdoadas dos pecados cometidos.
As primeiras comunidades cristãs, quando leram este poema,
perceberam que tudo o que estava ali escrito se realizou plenamen-
te na Paixão de Jesus. Como, aliás, escreve o apóstolo Paulo aos
Filipenses: “Ele [Jesus], subsistindo na condição de Deus, não pre-
tendeu reter para si ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo,
assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os
homens. E, apresentando-se como simples homem, humilhou-se
a si mesmo, feito obediente até a morte, até a morte da cruz. Pelo
que também Deus o exaltou e lhe deu um nome que está sobre
todo nome. Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho de
quantos há no céu, na terra, nos abismos. E toda língua proclame,
para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (FI 2,6-11).
Dessa maneira, como diz a carta aos Hebreus, que ouvimos
na segunda leitura, aprendendo a ser obediente, Jesus tornou-se
o verdadeiro ponto de ligação entre Deus e a humanidade, causa
de salvação para todos os que lhe obedecem, um sumo sacerdote
capaz de se compadecer de nossas fraquezas.
O Evangelho de João, que acabamos de proclamar, escrito
à luz da ressurreição de Jesus e depois de uma longa caminhada
já percorrida pelas comunidades, nos apresenta, a seu modo, o
sofrimento por que passou Jesus para chegar à glória e à salvação
de todos que nele crêem e apostam.
Em um jardim, Jesus é preso e algemado. Depois, diante das
supremas autoridades religiosas e do governador, sob aplausos e
incentivo do povo, é submetido a interrogatório e injustamente
condenado a morrer pregado numa cruz. Mesmo inocente, é en-

21
PNE - QV) - CVY nº 44
tregue à sanha dos violentos, e flagelado, coroado de espinhos,
desprezado, humilhado, esbofeteado, pregado numa cruz. Só por-
que se diz Filho de Deus. Porque se aceita como Rei e o confirma
diante do governador, torna-se motivo de sádico escárnio. Eis o
que Jesus tem de assumir e suportar, diante do poder opressor
dos sumos sacerdotes, da política covarde do governador e do
ódio inclemente da multidão. Pregado na cruz, com sua mãe e o
discípulo amado a seus pés, ele os entrega um ao outro como mãe
e filho. De repente, um grito: “Tenho sede”. Chegando a suprema
hora, pronuncia as últimas palavras: “Tudo está consumado” e,
“inclinando a cabeça, entregou o espirito”. Do lado de seu corpo já
sem vida, atravessado por uma lança, saem sangue e água. Enfim,
alguns discípulos de Jesus tratam de dar sepultamento digno ao
Mestre, num jardim, com direito a muito perfume.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

E significativo que o Evangelho de João sobre a Paixão


de Jesus comece num jardim e termine num jardim (cf. 18,1;
19,41). Alusão clara ao jardim do Eden! “Onde o ser humano não
soube se portar de forma humana autêntica, Jesus ensina o modo
de possuir a vida: dando-se gratuitamente em favor dos outros.
Diante de Jesus, as pessoas têm duas opções: ou o reconhecem
e se comprometem com ele, ou acabam aderindo ao sistema 1n-
Justo que o rejeitou e condenou, perdendo assim a chance de ter
a vida”.? A hora de Jesus chegou. A hora em que, na sua morte,
conclui sua obra em favor da humanidade: “Tudo está consuma-
do”. Obra que daí para a frente será levada adiante pelo Espírito:
“E, inclinando a cabeça, entregou o espírito”. Hora que provoca
um sério julgamento. “E o momento em que são postas às claras
as opções que as pessoas fazem a favor ou contra Jesus.”

2 Ibid,, p. 87.
3 Tbid.

22
PNE - QV) - CVV nº 44
E aí, na sua Paixão e morte, que se mostra em que sentido
Jesus é Rei. Aí está a amostra consumada de que “sua realeza não
se baseia no jogo de poder das realezas deste mundo, que fazem
uso da força e da violência. A realeza de Jesus consiste em dar
testemunho da verdade (fidelidade de Deus a seu projeto). Ele é
Rei porque cumpre até o fim a vontade do Pai, que é a de amar
de tal modo o mundo a ponto de enviar seu Filho único (3,16).
Na Paixão, Jesus é o verdadeiro Rei”.º Rei coroado de espinhos e
vestido com um manto vermelho. Rei cujo trono é a cruz. Rei de
vestes repartidas. Rei porque é rei na arte de amar sem medida, a
ponto de dar a vida para salvar o povo de todo tipo de opressão.
Rei que resgata definitivamente o que significa de fato ser rei.
Rei que, por isso tudo, foi dignificado pelos seus discípulos com
sepultura apropriada e perfumosa.
Rei imolado por nós e, por esse motivo, apelidado mais
tarde pelos cristãos de Cordeiro de Deus, verdadeiro Cordeiro
pascal que tira o pecado do mundo.
Pelos sacramentos de iniciação cristã, nós optamos por ser
discípulos e discípulas desse Rei. Mas temos que estar atentos,
vigiar e orar sem cessar para não cairmos em tentação. Que
tentação? Na tentação de querer aderir aos sistemas injustos que
oprimem, flagelam e matam nosso Rei Jesus; hoje, sobretudo,
simbolizado nos pobres marginalizados, nos nascituros indefesos,
nos idosos mal assistidos, nos indígenas explorados, nas vítimas
do tráfico de drogas, nos reféns da violência urbana e rural, em
tantos corpos jovens explorados pelo comércio e turismo sexual,
e na criação devastada pela ganância inescrupulosa dos sumos
sacerdotes da idolatria do dinheiro e pela covardia de governan-
tes com seus jogos sujos de poder, riqueza e prestígio. Estes são
alguns exemplos apenas. Jesus hoje continua sendo flagelado,
crucificado e morto de inúmeras formas.

* Ibid.

23
PNE - QV) - CVV nº 44
Diante de Jesus temos duas opções: ou o reconhecemos e
nos comprometemos com ele, ou acabamos aderindo ao sistema
injusto que o rejeita e o condena, perdendo a chance de termos a
vida. Como discípulos e discípulas dele, permaneçamos firmes
na primeira opção. Que Deus nos ajude a sermos de fato assim,
pois o mundo está precisando de pessoas cada vez mais compro-
metidas com a causa pela qual Jesus lutou até o fim!

4. Ligando a Palavra com a ação litúrgica


Agora é hora de entrar em oração e suplicar ao nosso Deus
misericordioso em favor de toda a humanidade: pela Igreja, pelo
nosso Papa, pelo nosso Bispo, pelos catecúmenos (isto é, os que
se preparam para entrar no seguimento de Jesus, pelo batismo),
pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não crêem e
não apostam no Cristo, pelos que não acreditam nem mesmo
em Deus, pelos nossos governantes e, enfim, por todos os que
sofrem provações.
Em seguida, nos será apresentada a imagem da cruz para
adoração. Não é a cruz em si que vamos adorar, mas, nela, vamos
adorar aquele que por ela nos salvou: “Eis o lenho da cruz, do
qual pendeu a salvação do mundo. Vinde, adoremos!”. Por ela
adoramos a Salvação do mundo, ou seja, a vitória do Amor sobre
todo tipo de violência, opressão e morte; a vitória do Amor que
realmente trouxe vida para todos: “Adoramos, Senhor, vosso
madeiro; vossa ressurreição nós celebramos. Veio alegria para o
mundo inteiro por esta cruz que hoje veneramos” (Antifona para
o momento da adoração). Que o beijo que daremos na cruz seja
o selo do nosso compromisso com a causa de Jesus Cristo, pela
qual ele deu a própria vida.
Participando da comunhão eucarística, vamos assumir e
assimilar sacramentalmente toda a entrega de Jesus por nós, para
que, como discípulos e discípulas do Mestre e Servo de todos, Rei

24
PNE - QV) - CVV nº 44
universal e Sacerdote único, possamos viver o que ele viveu. Por
isso, após a comunhão, reza-se a seguinte oração: “O Deus, que
nos renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo,
conservai em nós a obra de vossa misericórdia, para que, pela
participação deste mistério, vos consagremos toda a nossa vida”.
Ao que todos respondem afirmativamente: “Amém!”.
Que assim seja, meus irmãos e irmãs!

5. Sugestões para a celebração


* É sumamente recomendável que as pessoas que vão atuar na
proclamação do Evangelho da Paixão combinem-se e ensaiem
antes, para que de fato se pareça com a proclamação da Boa-
Nova da salvação. O mesmo vale para os demais leitores e
leitoras (em relação à primeira e segunda leituras) e para o
canto do salmo responsorial.
* Quem preside também deve proclamar as orações com suma
piedade, de forma orante, sem pressa, degustando e fazendo
degustar cada palavra, cada frase e todo o riquíssimo conteú-
do dos textos. Para o povo que ouve a prece, isso é muito
importante do ponto de vista celebrativo e evangelizador.
- Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Tríduo Pascal — I. Quinta-feira Santa e Sexta-feira Santa,
com os cantos do Hinário Litúrgico da CNBB (2º fascículo)
referentes à Sexta-feira Santa. Gravado pelo coral Palestrina
da Arquidiocese de Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia
Cardoso, este CD é bem indicado para as comunidades pre-
pararem os cantos da celebração.
* Previsões para a celebração da Paixão do Senhor:
Preparar
— paramentos de cor vermelha;
— a cruz (coberta com um véu; para prendê-lo, usa-se
alfinete ou fita crepe);

25
PNE - QV) - CVV nº 44
dois castiçais;
tapete, almofadas ou genuflexórios desguarnecidos
(para a prostração);
Missal;
lecionários;
toalhas;
corporais.
Pessoal e serviços
alguém encarregado de preparar a cruz para a ado-
ração da cruz;
pessoas responsáveis por arrumar o lugar para a
celebração da Paixão do Senhor;
leitores(as): uma leitura do Antigo Testamento (profe-
ta Isaías) e as leituras do Novo Testamento (Epístola
aos Hebreus e Evangelho da Paixão do Senhor);
personagens para atuar na proclamação do Evangelho
da Paixão segundo João;
salmista ou cantor(a);
voluntários (acólitos) para carregar os castiçais;
alguém para levar a cruz para a procissão;
alguém que apresente a cruz para a assembléia; se
houver diácono, ficará a cargo dele;
pessoas para arrumar o altar (serviço de mesa);
ministros que trarão o pão consagrado para a distri-
buição aos fiéis; se houver sacerdote, ficará a cargo
dele, juntamente com os ministros da comunhão
eucarística.
- Eaconselhável avisar que o dia seguinte — Sábado santo — não
é “sábado de aleluia”, mas “sábado da sepultura” à espera
da ressurreição. Fazer desse dia uma silenciosa expectativa,
com reuniões com quem vai ser batizado logo mais à noite
na Vigília Pascal, bem como com as equipes de liturgia para
os últimos preparativos para a Vigília.

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PNE - QV] - CW nº 44
Domingo da Pascoa na Ressurreição do Senhor
|. Vigília pascal (A mãe de todas as vigilias)
22/23 de março de 2008

Leituras: Gênesis 1,1-2,2 (ou 1,1.26-3la);


Salmo 103(104),1-20.5-6.10.12.13-14.24.35c
(ou 32/33/,4-5.6-7.12-13.20.22); Gênesis 22,1-18
(ou 22,1-2.94.10-13.15-18); Salmo 15(16),5.8.9-10.11;
Éxodo 4,15-15,1; Cântico: Éxodo 15,1-2.3-4.5-6.17-18;
Isaias 54,5-14; Salmo 29(30),2.4.5-6.11.129.13b; Isaias 55,1-1I;
Salmo (Is 12,2-3.4bcd.5-6); Baruc 3,9-15.32-4,4;
Salmo 18b(19),8.9.10.11; Ezequiel 36,16-17a.18-28;
Salmo 41(42),3.5bcd + 42,3.4; Romanos 6,3-1l;
Salmo 117(118),1-2.160b-17.22-23; Mateus 28,1-10

O grande mistério
que anunciamos nesta noite

1. Situando-nos brevemente

Depois de passado todo um dia de silêncio e oração, neste


sábado, em torno do sepulcro do Senhor, nossa comunidade (uni-
da a toda a Igreja) tem a suma alegria de reunir-se, nesta noite,
para uma solene Vigília, a celebração mais importante do ano, a
mãe de todas as vigílias. Estamos reunidos para “velar” com o
Senhor e celebrar com ele a passagem da morte e da sepultura
para a vida nova. Esta noite é mais importante que a própria
noite de Natal, pois a grandeza da celebração do Natal depende
do mistério desta noite.
Esta Vigília deve ter sido cuidadosamente planejada por
todos nós durante toda a Quaresma. Um itinerário de reflexão,

27
PNE - QV) - CVY nº 44
oração, vivência da caridade e busca de conversão nos prepa-
rou, durante quarenta dias, para esta noite. Neste ano, fizemos
nossa preparação, refletindo, à luz da Palavra de Deus, sobre
a importância da defesa daquilo que é a menina-dos-olhos de
Deus: a vida.
Iniciamos esta Vigília com a bênção do fogo. Com esse fogo
acendemos o Círio pascal, no qual vemos o Cristo ressuscitado. O
Círio aceso é trazido em procissão para dentro do templo, como
sinal da verdadeira Luz que vem iluminar nossa noite. Diante
desta luz, anunciamos a vitória do nosso Rei Jesus e, depois,
durante as leituras, ouvimos o próprio Deus nos falando.
Vamos relembrar o que ele nos disse, para depois refletir-
mos um pouco e, em seguida, assumirmos e reassumirmos nossos
compromissos para com Deus, que nos faz participar desta festa
tão importante e tão linda.

2. Recordando a Palavra

Imaginem uma pessoa que perdeu um ente muito querido.


Um pai, uma mãe. Um grande amigo brutalmente assassinado...
Talvez alguns de vocês já tenham passado por esta situação. O
corpo do falecido, então, é levado para o cemitério e sepultado. E
depois? Vem a saudade! Dolorosa saudade... Passam-se os dias.
E o que normalmente fazemos? Vamos até o cemitério visitar a
sepultura e amenizar a dor da saudade.
Algo parecido (podemos imaginar) aconteceu com Maria
Madalena e com a outra Maria. As duas tinham grande carinho
por Jesus e uma profunda gratidão, pois, com certeza, haviam
sido imensamente beneficiadas por ele. Três dias depois de o
corpo de Jesus ter sido sepultado, elas devem ter sentido uma
imensa saudade de seu maior amigo. Foram então ao cemitério
visitar a sepultura de Jesus. Era o primeiro dia da semana, o
nosso domingo.

28
PNE - QV) - CVV nº 44
Estando lá, elas tiveram uma tremenda surpresa: presencia-
ram um anjo com roupas muito brancas, que parecia um relâm-
pago, retirando a pedra que fechava a sepultura. A terra chegou a
tremer. Alguns guardas que estavam por ali desmaiaram de pavor.
E, então, o anjo disse às mulheres: “Não tenham medo!... Jesus,
que morreu crucificado, não está mais nesta sepultura. Podem ver
e conferir. Ele ressuscitou, como havia dito. Agora, vão depressa
e levem esta notícia aos discípulos: Ele ressuscitou dos mortos.
Ele já vai à frente, e vocês vão vê-lo e encontrá-lo lá na Galiléia”.
Elas saíram imediatamente, correndo, com medo e, ao mesmo
tempo, com muita alegria, para levar a notícia. No caminho, outra
surpresa: as duas “dão de cara” com o próprio Jesus, que lhes
diz: “Alegrem-se!”. Elas se aproximam, prostram-se diante dele,
abraçando-lhe os pés. E Jesus lhes diz: “Não tenham medo. Vão
avisar aos meus irmãos que se dirijam à Galiléia. Lá eles vão me
ver”. É o que ouvimos do Evangelho segundo Mateus.
O apóstolo Paulo, alguns anos depois, escrevendo aos
cristãos de Roma, nos apresenta uma profunda reflexão sobre a
ressurreição de Jesus, fazendo uma ligação com o batismo. Mer-
gulhar na água (batizar-se) era (e é!) um modo ritual de a pessoa
“entrar de cabeça” (mergulhar) em Jesus Cristo com tudo o que
ele significa de total doação, solidariedade, entrega da própria
vida e vitória sobre a morte. É, ao mesmo tempo, permitir que
este Cristo “entre de cabeça” (mergulhe) e tome conta da pessoa
que acreditou nele.
Batizados (mergulhados) em Cristo, foi na sua morte
que nos batizamos, segundo Paulo. Não dá para esquecer Isso.
Assim sendo, fomos então sepultados (enterrados) com Cristo,
para que, como ele ressuscitou dos mortos, “também levemos
uma vida nova”. Ao sermos mergulhados nas águas batismatis,
“de certo modo nos identificamos a Jesus Cristo” (na sua morte
e ressurreição). Ao mergulharmos o nosso “velho homem” em
Jesus Cristo (morto e ressuscitado), o que acontece, na verdade,

29
PNE - QV) - CVV nº 44
é a destruição do “corpo do pecado” em nós. Consequentemente,
com ele “também viveremos”, pois “sabemos que Cristo ressus-
citado dos mortos não morre mais; a morte não tem poder sobre
ele”. Resultado, conclui Paulo: “Vocês também se considerem
mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo”. Foi
o que ouvimos na segunda leitura.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

“Ele ressuscitou!” é o grande anúncio que ouvimos nesta


noite. Com o passar dos tempos, movidos pelo Espírito Santo,
sobretudo a partir da festa judaica de Pentecostes (cingiienta dias
depois), como veremos daqui a algumas semanas, os discípulos
de Jesus entenderam e aprofundaram-se no sentido deste revo-
Jucionário acontecimento na história da humanidade.
À partir do anúncio pascal desta noite, começamos a olhar
o céu e a terra, toda a criação, com outros olhos. Em especial o
ser humano, nós o olhamos e contemplamos, agora recriado à
imagem e semelhança de Deus, no meio de toda a criação tam-
bém renovada. Agora sim, podemos dizer: tudo que por Deus
foi criado “é bom”.
A partir do anúncio pascal desta noite, começamos a
entender o profundo sentido escondido na promessa que Deus
fez a Abraão, por causa da coragem que este teve de não poupar
seu filho único: “Por tua descendência serão abençoadas todas
as nações da terra, porque me obedeceste” (Gn 22,18). Atra-
vés de Jesus, o verdadeiro descendente de Abraão e Filho de
Deus não poupado até a morte, todas as nações da terra foram
abençoadas.
A partir do anúncio pascal desta noite, começamos a en-
tender o profundo sentido escondido na libertação do povo de
Israel, saindo da escravidão do Egito para a terra da liberdade,

30
PNE - QV) - CVV nº 44
ao atravessar o Mar Vermelho. Passagem da morte para a vida,
através das águas. Não faz lembrar o batismo?
A partir do anúncio pascal desta noite, começamos a enten-
der a visão do profeta Isaías, contemplando o Senhor qual esposo
apaixonado e compassivo que chamou junto a si a humanidade,
“mulher abandonada e de alma aflita, esposa repudiada na mo-
cidade” (cf. Is 54,6).
A partir do anúncio pascal desta noite, começamos a enten-
der o convite que o Senhor faz através do mesmo Isaías: “Vinde
a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno” (Is
55,3). O pacto aconteceu, pelo mistério que anunciamos nesta
noite.
À partir do anúncio pascal desta noite, começamos a enten-
der o conselho dado por Deus através do profeta Baruc: “Volta-te,
Jacó, e abraça a sabedoria de Deus; marcha para o esplendor, à
luz desta sabedoria” (Br 4,2). A sabedoria de Deus se revelou no
mistério que anunciamos nesta noite.
A partir do anúncio pascal desta noite, começamos a
entender a promessa feita por Deus através do profeta Eze-
quiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e dar-vos-ei um
coração novo” (Ez 36,25-26). A “água pura” foi derramada
com abundância sobre nós, pelo mistério que anunciamos
nesta noite.
A partir do anúncio pascal desta noite, entendemos que o
Cristo, totalmente “mergulhado” na realidade humana pela sua
morte e ressurreição, fez de nós, pelo nosso “mergulho” nele,
também participantes da sua defimtiva vitória sobre a morte,
pois ele, “imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente”
(Prefácio da Páscoa, IN).
A partir do anúncio pascal desta noite, entendemos o pro-
fundo sentido do nosso batismo, pelo qual participamos plena-

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PNE - QV) - CVV nº 44
mente da Páscoa de Cristo. Fomos consagrados para a vida do
Deus misericordioso que, nesta noite, amorosamente sussurra no
silêncio do nosso coração: “Você é meu, você é minha, e disso
não abro mão, nunca mais!”.

4. Ligando a Palavra com a ação batismal


e eucarística
Fazendo memória da força da Páscoa atualizada no batis-
mo, vamos invocar a bênção de Deus sobre as águas, pelas quais
nossos irmãos e irmãs serão batizados e com as quais nossas
cabeças serão aspergidas em recordação do nosso batismo.
Depois de abençoadas as águas, vamos professar a nossa fé
no Deus de nosso Senhor Jesus Cristo e em todas as maravilhas
que ele realizou por seu Espírito, sobretudo formando de nós
todos o seu povo santo, a sua Igreja.

Em seguida, nossos irmãos e irmãs que vão ser batizados


serão mergulhados “de cabeça” na Páscoa de Cristo e em nossa
Pascoa. E nós, que já fomos mergulhados no mistério pascal
da noite de hoje, receberemos a aspersão da água sobre nossas
cabeças, em memória do dia da nossa libertação.
Chegamos, então, ao ponto alto desta solene Vigília,
quando, em torno do altar, cumprindo o que Jesus nos pediu,
celebramos a Eucaristia e participamos da Ceia pascal do Se-
nhor: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a
vossa ressurreição...” e, “saciados pelos sacramentos pascais,
permaneçamos unidos no vosso amor”.
Que esta Eucaristia pascal nos fortaleça em nossa cami-
nhada e nos conserve sempre unidos no imenso amor com que
Cristo nos amou!
Que assim seja! Amém! Aleluia!

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PNE - QV) - CVV nº 44
5. Sugestões para a celebração
* Como esta é a celebração mais rica e mais importante de todas
as outras do ano litúrgico da Igreja, e pelos muitos elementos
que a compõem, ela exige boa preparação. Tudo deve ser es-
tudado, organizado e ensaiado com zelo, pois esta é a mãe de
todas as Vigílias. Nada deve ser improvisado. Com a riqueza
de gestos e símbolos desta noite, não é necessário “inventar”
outros; basta realizar e usar bem os que já existem.
* Para a celebração da luz:
Prever um local pouco afastado, onde possa ser feita uma
fogueira. Essa distância possibilita uma pequena procissão
até a igreja.
Pedir à comunidade que traga um pedaço de lenha para
formar a fogueira e velas suficientes para todos os que
participam da celebração.
Antes de acender a fogueira, eventualmente, a comunidade
pode ser convidada a falar das luzes, esperanças e sonhos
que gostaria que se acendessem na comunidade, nas
famílias e na caminhada do povo brasileiro daqui para a
frente.
Enquanto o fogo é aceso, pode-se cantar: “O luz do Senhor,
que vem sobre a terra! Inunda meu ser, permanece em
nós!” ou “Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus
nos conduz”.
Não esquecer a sonorização no local e um utensílio
para acender, com as brasas da fogueira, o turíbulo ou
incensório.
Durante a procissão, cantar refrões ou cantos conhecidos
por todos, visto que estarão no escuro, caminhando com
velas nas mãos.
* Para o momento da celebração da Palavra:
Prever um local próximo ao ambão onde possa ser colocado
o Círio.

33
PNE - QV) - CVV nº 44
— O Exsultet deve ser bem cantado. Normalmente é o diácono
que o canta. Se não houver diácono, então o presidente ou,
na impossibilidade deste, outra pessoa preparada poderá
cantar.!
— Na Vigília da Páscoa temos mais leituras. Elas ajudam a
comunidade a fazer memória dos grandes feitos de Deus
na história. Para que a comunidade possa de fato usufruir
da riqueza dessa história, é preciso que as leituras sejam
bem preparadas, de modo que encantem quem as ouve.
Preparar bem o grupo de canto, os leitores e os salmistas.
— À aleluia desta noite tem que ser vibrante, alegre. Um(a)
jovem pode entrar no meio da assembléia vestido(a) de
branco e dizer com admiração e em voz alta, como dando
uma notícia muito importante: “Irmãos, irmãs! Tenho uma
grande notícia para vocês: Jesus ressuscitou! Ele está vivo!
Jesus ressuscitou, Jesus ressuscitou! Por isso podemos
cantar, ALELUTA!
— Aproclamação do Evangelho é o ponto culminante de toda
a Liturgia da Palavra. Por isso, proclamar o Evangelho
como quem conta uma maravilhosa notícia.
— À homilia deve ser breve e direta. Que ela ajude os fiéis
a sentirem-se interpelados por essa Palavra de esperança
que foi proclamada.
* Paraa celebração do batismo:
— A equipe de liturgia preveja, com antecedência, que nesta
Vigília, festa batismal por excelência, seja realizado ao
menos um batismo, de preferência de um adulto.
— Durante a ladainha, sete pessoas segurando potes de água
entram em procissão e ficam ao redor da pia batismal ou de
outro recipiente grande enfeitado para o batismo. Durante a

| O Hinário Litúrgico 2, da CNBB, tem uma versão do Exsultet com as respostas


para a assembléia poder participar mais intensamente.

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PNE - QV) - CVY nº 44
oração, a cada tipo de água recordado na bênção, derrama-
se a água de um pote na pia. Seria bom que a oração de
bênção contivesse uma aclamação da assembléia. Isto pode
ser encontrado no ritual de bênção da água, no Ritual do
Batismo.
Valorizar o gesto de mergulhar o Círio três vezes na água,
conforme indicado no Missal Romano.
É recomendável abençoar a água para que os fiéis a levem
para suas casas.
Para a celebração da Eucaristia:
Algumas mulheres podem colocar uma toalha de festa sobre
o altar, enquanto se entoa o canto das oferendas. Só depois
são trazidos os dons: uma jarra com vinho abundante, as
partículas ou, onde for possível, o pão ázimo. Se houver só
celebração da Palavra, alimentos podem ser trazidos para
serem partilhados no final, como ágape. Que o Prefácio e
toda a Oração Eucarística sejam vibrantes. Durante o canto
do Santo, pode haver uma dança com flores ao redor do
altar.
Valorizar a mesa eucarística. Se a comunidade não for
muito numerosa, distribuir a comunhão a partir da mesa e
sob as duas espécies. Sendo apenas celebração da Palavra,
distribui-se somente o pão consagrado (hóstias).
Ornamentação:
Ornamentar com bom gosto e nobre simplicidade sobretudo
os locais que marcam as quatro partes da celebração da
Vigília: o local do Círio, o ambão, o batistério (pia batismal)
e o altar.
* Quanto às músicas para toda a celebração, a Paulus tem publi-
cado o CD Tríduo Pascal — II. Vigília Pascal, com os cantos
do Hinário Litúrgico da CNBB (2º fascículo) referentes à
Vigília Pascal. Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese
de Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso,

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PNE - QV] - CVY nº 44
este CD é bem indicado para as comunidades prepararem os
cantos da celebração.
Previsões para a celebração da Vigília Pascal:
Preparar:
a) para a bênção do fogo
uma fogueira (num lugar fora da igreja, onde o povo
se reúna);
o Círio pascal;
cinco grãos de incenso; um estilete;
utensílio adequado para acender a vela com o “fogo
novo”;
lanterna para iluminar os textos a serem lidos;
velas para os que participam da vigília;
incenso;
talha de barro ou turíbulo;
utensílio para acomodar na talha de barro ou no tu-
ríbulo as brasas do fogo novo;
tochas (acompanharão o Círio pascal).
b) para a proclamação da Páscoa (Exulte) e para a Liturgia
da Palavra
candelabro para o Círio pascal, posto junto à mesa
da Palavra;
uma estante (ou duas) para o(a) cantor(a) proclamar
o Exulte e para os leitores da Liturgia da Palavra;
lecionários;
foguetes e sino.
c) para a liturgia batismal
potes, jarros ou recipientes adequados, com água;
aspersório ou ramos apropriados para aspergir o povo
com água benta;
momento em que se administram os sacramentos da
iniciação cristã: óleo dos catecúmenos, santo crisma,
vela batismal, Ritual do Batismo.

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PNE - QV) - CVY nº 44
Pessoal e serviços:
montadores da fogueira;
acendedor(a) do fogo novo;
carregador(a) do Círio pascal;
carregadores das tochas (acompanharão o Círio pascal);
carregadores(as) das talhas de barro ou dos turíbulos;
apagadores e acendedores das luzes da igreja;
cantor(a) da proclamação da Páscoa (Exulte);
leitores para as nove leituras propostas: sete do Antigo
Testamento e duas do Novo Testamento (Epístola e
Evangelho). Por razões pastorais, pode-se diminuir o
número de leituras do Antigo Testamento, exceto a terceira
(Ex 14,15-15,1), que não pode ser omitida;
salmista(s) ou cantor(es) para os Salmos Responsoriais das
leituras;
arrumadeiras do altar (enfeites e adornos apropriados, no
momento em que se entoa o Glória);
tocador(es) dos sinos;
sineiros e fogueteiros: ao entoar o “Glória a Deus nas
alturas”, tocam-se os sinos e, se for o caso, soltam-se
foguetes;
carregadores(as) dos jarros ou potes, com água;
ministras ou ministros para aspergirem a assembléia com
água benta;
apresentadores(as) dos catecúmenos;
organizadores(as) da procissão até a pia batismal ou ao
batistério;
servidoras(es) da mesa do pão.

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PNE - QV] - CVV nº 44
Il. No dia da Páscoa (Domingo do túmulo vazio)
23 de março de 2008

Leituras: Atos 10,34a.37-43; Salmo 117(118),1-2.16ab-17.22-23;


Colossenses 3,1-4 (ou, à escolha, 1 Coríntios 5,6b-8);
João 20,1-9; (ou, à tarde: Lucas 24,13-35)

A vida venceu a morte

1. Situando-nos brevemente

Páscoa! Estamos na festa da Páscoa. A maior festa dos


cristãos. Maior ainda que o Natal. Pois a grandeza do Natal de-
pende da festa da Páscoa. Hoje celebramos a Vida que venceu a
morte: Cristo ressuscitou!

A festa de hoje é tão especial que, como qualquer festa


importante que realizamos (casamento, aniversário etc.), mereceu
também uma longa preparação, durante quarenta dias. Neste ano,
fizemos nossa preparação refletindo, à luz da Palavra de Deus,
sobre a importância da defesa daquilo que é a menina-dos-olhos
do Pai: a vida. Como estamos zelando pela vida em todos os
âmbitos de suas manifestações?
A festa de hoje é tão importante que mereceu, desde os
primeiros séculos da vida da Igreja, uma solene Vigília. Ontem
à noite, todas as comunidades reuniram-se para celebrar a sole-
ne Vigília Pascal. A mãe de todas as vigílias, como dizia santo
Agostinho. (Foi feita a bênção do fogo. Com este fogo foi aceso
o Círio pascal — esta vela grande que representa o Cristo ressus-
citado. O Círio aceso foi trazido em procissão. Anunciamos a
vitória do nosso Rei Jesus. Depois ouvimos a Palavra de Deus,
cantamos a “Aleluia” pascal e fizemos a renovação das promessas

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do batismo. Como ponto alto da Vigília, celebramos nossa Ceia
pascal com o Senhor ressuscitado.)
Hoje celebramos, com imenso prazer e alegria, a maior de
todas as festas. Deus está conosco. E ele nos fala na hora em que
são proclamadas as leituras. Vamos tentar recordar brevemente
o que ele nos diz.

2. Recordando a Palavra

Imaginem uma pessoa que perdeu um ente muito querido.


Um pai, uma mãe. Um grande amigo brutalmente assassinado...
Talvez alguns de vocês já tenham passado por esta situação. O
corpo do falecido, então, é levado para o cemitério e sepultado. E
depois? Vem a saudade! Dolorosa saudade... Passam-se os dias.
E o que normalmente fazemos? Vamos até o cemitério visitar a
sepultura e amenizar a dor da saudade.
Algo parecido (podemos imaginar) aconteceu com Maria
Madalena. Ela tinha grande carinho por Jesus, uma profunda
gratidão, pois havia sido imensamente beneficiada por ele. Três
dias depois que o corpo de Jesus foi sepultado, Maria Madalena
deve ter sentido uma imensa saudade do seu maior amigo. E foi
ao cemitério visitar a sepultura. Era o primeiro dia da semana (o
nosso domingo!).
Ao chegar lá, uma tremenda surpresa: ela viu que a pedra
que fechava a sepultura de Jesus estava retirada para o lado. Ima-
ginem o susto! Ela saiu então correndo... Na estrada, encontrou
Pedro e aquele outro discípulo, o melhor amigo de Jesus (cujo
nome nunca é falado). Avisou-lhes: “Tiraram o Senhor do túmulo,
e não sabemos onde o colocaram”.
Os dois correram até a sepultura de Jesus. Pedro chegou
depois e fez questão de entrar lá para constatar... Dito e feito: o

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corpo de Jesus não estava mais no túmulo. Roubado não fora,
pois os panos que o vestiam encontravam-se ali estendidos de um
jeito que dava a impressão de o corpo ter “evaporado”. O outro
discípulo, o melhor amigo de Jesus, acabou entrando também.
Diz o Evangelho que “ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não
tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia
ressuscitar dos mortos” (Jo 20,8-9).
À tarde do mesmo dia, outros dois discípulos estavam indo
para o povoado de Emaús. Não sabiam de nada. Apenas tinham
ouvido um boato sobre a ressurreição de Jesus. Na estrada, um
estranho começou a caminhar com eles. Começaram a conversar
sobre Jesus, sobre sua ressurreição etc. Só depois, já no povoa-
do, na hora do jantar, quando ele partiu o pão, foi que os dois
perceberam que era o próprio quem estava ali com eles. Então
Jesus desapareceu.
Em outra ocasião, tempos depois, o próprio apóstolo Pedro,
num grande discurso para o povo, testemunhando o que Jesus
fizera (“só fez o bem”) e o que acontecera com ele, anunciou:
“Eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou
no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se... a nós, que come-
mos € bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos”
(cf. At 10,39-41).
Ainda em outro momento, o apóstolo Paulo, escrevendo aos
cristãos da comunidade de Colossos, lembrou que a ressurreição
de Cristo é também a nossa ressurreição. Em outras palavras,
a vitória de Cristo é a nossa vitória. Assim sendo, o apóstolo
escreveu: de agora em diante, “esforcem-se para alcançar as
coisas do alto, onde está Cristo” (cf. C1 3,1-2). E à comunidade
de Corinto recomendou: “Agora joguem fora o fermento velho,
para que vocês sejam uma massa nova. Pois o nosso cordeiro
pascal, Cristo, já está imolado” (cf. 1Cor 5,7).

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3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

A Palavra de Deus que ouvimos hoje é a proclamação de


uma crença (uma fé!) sumamente importante e até decisiva para
a história da humanidade. Jesus saiu da sepultura em que jazia.
Encontramos sua sepultura vazia. Quer dizer: ele ressuscitou! Em
outras palavras, a vida venceu a morte. Aos que pensavam que
matar Jesus era um lucro, Deus mostrou que a força do amor é
bem maior que a violência do ódio e da morte. Há muito tempo,
Isso Já estava escrito, que “Jesus devia ressuscitar dos mortos”
(Jo 20,9)!
Jesus de Nazaré, ungido por Deus com o Espírito Santo
e com poder para fazer o bem e curar a todos, foi ressuscitado
pelo Pai no terceiro dia. À força do amor venceu! Nós somos
testemunhas disso, e podemos dizer com Pedro. Nós o vimos.
Comemos com ele, depois de tudo o que aconteceu. Agora apenas
resta testemunhar e proclamar para todo mundo: Jesus é o Juiz
maior, dos vivos e dos mortos. Feliz de quem crê nele, pois em
seu nome receberá o perdão.
Neste dia da vitória do grande juiz, Deus nos lembra
também que a Páscoa de Jesus tem muito a ver com cada um de
nós. Ele nos recorda que todos nós fomos batizados, isto é, mer-
gulhados na morte de Jesus e ressuscitados com ele para a vida.
Morremos e ressuscitamos com ele. Isto significa que a Páscoa
de Jesus é também nossa Páscoa. A vitória dele é também nossa
vitória. Morremos e a nossa vida está escondida, com Cristo,
em Deus.
Já que ressuscitamos com Cristo, nada nos resta senão
buscar, a todo custo, as coisas do alto, “onde está Cristo, senta-
do à direita de Deus” (Cl 3,1-2). Buscar as coisas do alto? Que
coisas do alto? Quais são as coisas do alto? Com certeza, é tudo
aquilo que Jesus mesmo viveu, fazendo o bem a todos, a ponto
de entregar a própria vida por todos: a justiça, o amor a Deus e

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ao próximo, a solidariedade, a misericórdia, o perdão, a paz, todo
o empenho em favor da vida para todos.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e
nele exultemos” é o refrão que cantamos hoje, exaltando a eterna
misericórdia do Senhor.
O Senhor Jesus, cujo túmulo hoje foi encontrado vazio
— vida que venceu a morte! —, está vivo aqui conosco. Ele está
presente, de modo invisível, na Palavra que ouvimos e medita-
mos, em cada um de nós, na nossa comunidade reunida, no pão
consagrado. Dele ouvimos a Palavra e com ele comemos de sua
ceia pascal.
A Deus queremos louvar, agradecer, realizar a nossa ação
de graças, porque, com Jesus ressuscitado, nos tornamos mais
que vencedores. E pensar que, pela participação na Fucaristia,
comungamos plenamente desta vitória... O próprio Senhor vai
partir o pão para nós. Que bom que vamos também participar
da santa ceia pascal, comungando no seu Corpo entregue e
no seu Sangue derramado para, então, sairmos em missão de
paz!
Antes, porém, queremos expressar, diante de Deus, nosso
desejo, que é também um pedido; a saber, que a festa da Páscoa
de Jesus (e nossa Páscoa) nos dê novo ânimo e nos ilumine, para
vivermos intensamente nossa fé batismal, sempre mais engaja-
dos no projeto de vida traçado definitivamente pela verdade da
Ressurreição.
Quando Cristo, nossa vida, aparecer em seu triunfo, have-
remos de aparecer também com ele, revestidos de glória.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

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5. Sugestões para a celebração
* Preparar o ambiente, destacando o Círio pascal e a pia batis-
mal, usando muitas flores e a cor branca ou amarela nas vestes
e toalhas.
* Procissão de entrada com as pessoas batizadas na Vigília
Pascal ou com crianças vestidas de branco, trazendo flores.
* Após o canto de entrada, fazer um pequeno lucernário, sole-
nizando o acendimento do Círio pascal: uma pessoa acende
o Círio e diz: “Bendito sejas, Deus da Vida, pela ressurreição
de Jesus Cristo e por essa luz radiante!”; a seguir, incensa o
Círio e-a comunidade reunida, enquanto se canta um hino
pascal, como: “Ó vem cantar comigo, irmãos, nesta festa da
ressurreição”, ou outro canto pascal.
* Na acolhida, pode-se retomar o costume das Igrejas orientais
de saudarem-se com as seguintes palavras: “O Senhor ressus-
citou, verdadeiramente ressuscitou!”.
* Substituir o ato penitencial pelo rito de aspersão com a água
(se possível, perfumada) que foi abençoada na Vigília Pascal.
Ajudar a comunidade a aprofundar sua consagração batis-
mal.
* Eventualmente, encenar o canto da sequência, expressando o
diálogo entre a comunidade e Maria Madalena.
* Dar destaque à proclamação do Evangelho, que pode ser can-
tado ou encenado. Onde for possível, usar aromas ou Incenso,
retomando o gesto afetuoso das mulheres.
* Cantar o Prefácio e, nas celebrações da Palavra, cantar a lou-
vação pascal com a melodia da louvação do Natal, usando o
seguinte texto:
É bom cantar um bendito / Um canto novo, um louvor!
Hoje, ele é nosso Senhor / Por sua ressurreição!
Da morte é vencedor / Da vida é campeão!
Hoje, ele é nosso Senhor / Por sua ressurreição!

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Cordeiro sacrificado / E nossa Páscoa, irmãos!
Hoje, ele é nosso Senhor / Por sua ressurreição!
Dos tristes, consolador / Dos pobres, libertação!
Hoje, ele é nosso Senhor / Por sua ressurreição!
As mãos se dão céus e terra / E uma só louvação!
Santo, santo, santo...
De acordo com as orientações em vigor, a comunhão pode ser
sob duas espécies para toda a comunidade.
Bênção final solene, própria para o Tempo Pascal, conforme
o Missal Romano.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano À com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo), referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e pela assembléia, que foram pu-
blicadas pela Paulus no CD: Cantar a liturgia: presidência e
assembléia. Produzida pela CNBB Regional Sul II, trata-se de
uma gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
2º Domingo da Pascoa
(Domingo de são Tome)
30 de março de 2008

Leituras: Átos 2,42-47; Salmo 117(118),2-4.13-15.22-24;


1 Pedro 1,3-9;João 20,19-31

A fe dos apóstolos que vem ate nos

1. Situando-nos brevemente

A festa da Páscoa é tão importante para nós que a prolon-


gamos por cinquenta dias. Um dia só é muito pouco! Tem que
ser cinquenta dias de festejos pascais! Assim teremos, inclusive,
mais fé para vivermos unidos e mais coragem para testemunhar
nossa fé.
Hoje, oito dias depois, no 2º Domingo do Tempo Pascal,
sentimos alegria e satisfação por estarmos mais uma vez juntos,
para celebrar nossa festa maior: a Páscoa. Como faziam os após-
tolos e os primeiros discípulos de Jesus, também nos reunimos
como discípulos e discípulas do Ressuscitado. Nesta reunião,
também ouvimos nosso Mestre, Senhor vitorioso, e sentimos
sua presença viva e atuante em nosso meio.
Em nossa reunião de hoje, vamos primeiro recordar bre-
vemente o que o Senhor está nos dizendo.

2. Recordando a Palavra

Era o primeiro dia da semana. Nesse dia, cedinho, a se-


pultura de Jesus fora encontrada vazia, como vimos no domingo
passado. Ele havia ressuscitado.

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À tarde desse mesmo dia, os discípulos de Jesus faziam
uma reunião, provavelmente para pensar juntos sobre tudo o
que tinha acontecido e estava acontecendo. Tratava-se de uma
reunião meio clandestina, a portas fechadas, pois sentiam medo
de ser presos também e de talvez passarem pelo “vexame” que
o Mestre havia passado.
De repente, quem eles viram?! Sem a porta se abrir, o
próprio Jesus apareceu ali no meio deles e saudou a todos, di-
zendo: “A paz esteja com vocês”. Então, provou ser ele mesmo
mostrando-lhes as mãos e o lado com a marca das chagas. Os
discípulos ficaram cheios de alegria, pois viam o próprio Jesus,
que os saudou uma segunda vez: “A paz esteja com vocês”, e
ainda acrescentou: “Como o Pai me enviou, também eu envio
vocês”. Depois Jesus soprou sobre todos e falou: “Recebam o
Espirito Santo. A quem vocês perdoarem os pecados eles serão
perdoados; a quem os retiverem, ficarão retidos”.
Tomé não estava nessa reunião. Quando lhe contaram que
viram o Senhor, ele simplesmente não acreditou. “Só vendo
mesmo, é que eu acredito. Só acredito se puser o meu dedo nas
marcas dos pregos, nas suas mãos, e se eu apalpar com minha
mão o seu lado aberto pela lança”, respondeu ele.
Oito dias depois, primeiro dia da semana, realizavam outra
reunião, também a portas fechadas. Tomé, dessa vez, estava lá.
Do mesmo modo que antes, Jesus entrou de surpresa, fazendo
a mesma saudação: “A paz esteja com vocês”. E disse: “Tomé!
Ponha o dedo aqui nas minhas mãos. Veja... Veja aqui o meu lado,
pode apalpar. Deixe de ser incrédulo, acredite!”. E Tomé?... Não
lhe restou senão exclamar comovido: “Meu Senhor e meu Deus!”.
E Jesus arrematou: “Você acreditou, porque me viu. Feliz será
quem acreditar sem ter visto!”.
O Evangelho diz que Jesus realizou ainda muitos outros
sinais que não foram registrados. Bastam estes para que acredi-

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PNE - QV) - CVV nº 44
temos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo,
tenhamos a vida em seu nome.
A partir desta fé e na força desta fé, os primeiros cristãos,
como ouvimos na primeira leitura, “eram perseverantes em
ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na
fração do pão e nas orações... Viviam unidos e colocavam tudo
em comum”. Chegaram a “vender suas propriedades e seus bens
e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de
cada um... Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo”.
Dia a dia, por obra de Deus, crescia o número das pessoas que
acreditavam no Senhor ressuscitado e aderiam à comunidade
para viver o que ele ensinou.
Com certeza, na alegria desta fé, cantavam o que também
nós cantamos hoje, com o Salmo 117: “Dai graças ao Senhor,
porque ele é bom, e eterna sua misericórdia!”.
Sim, bendito seja Deus, porque, “pela ressurreição de Je-
sus, nos fez nascer de novo para uma esperança viva, para uma
herança incorruptível, que não se mancha nem murcha, e que
nos é reservada nos céus”, como Pedro depois escreveu em sua
primeira carta. É graças a esta fé que podemos sentir desde já o
gosto alegre da vitória com Jesus sobre todas as aflições.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

O primeiro dia da semana após a ressurreição de Jesus


tornou-se para os cristãos o mais Importante de todos. Até lhe
deram um nome. Passaram a chamá-lo “domingo”, que significa
“dia do Senhor”. Por quê? Porque foi neste dia que descobrimos
que Jesus não está mais morto, mas ressuscitou e apareceu aos
seus apóstolos e discípulos. Especialmente neste dia, os cristãos
começaram a sentir a presença viva do Ressuscitado nas reuniões
que faziam para lembrar a Páscoa.

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Nós não vemos Jesus. Mas isso não significa ausência
dele. Ele vive e se faz presente em nosso meio, agora de outra
maneira, até mais intensa, isto é, de modo invisível. Ele passou
a constituir “o essencial” de nossas vidas. Como diz o poeta:
“O essencial é invisível aos olhos”. Felizes de nós, garante o
Senhor, que acreditamos nesta intensa presença invisível de
Jesus. Não é necessário ver nem tocar, pois ele já nos “tocou”
em profundidade, ao fazer de nós sua morada, pelo batismo. E
disso ele não abre mão.
Na realidade em que vivemos, às vezes nos parecemos
com os apóstolos e primeiros discípulos de Jesus. Passamos
também por situações de medo. Trancamo-nos em nossas casas.
Colocamos chaves e cadeados em todas as portas e portões, até
mesmo na porta de nosso coração. Na rua e nas estradas da vida,
nos armamos de extremo cuidado, quase doentio, com medo de
assalto, sequestro, agressões, desemprego, acidente, doença,
incompreensões etc.
Hoje, aqui entre nós, vejam o que acontece: o Senhor
ressuscitado vem também até nós e nos saúda dizendo: “A paz
esteja com vocês”. Em outros termos, com certeza ele quer di-
zer: “Gente, chega de tristeza! Coragem! Não estou morto, não!
Estou vivo! A morte não tem mais vez. À vocês foi dada a vida
em plenitude!”.
E mais, além de nos saudar desejando a paz, o Senhor sopra
sobre nós, transmitindo-nos o Espírito Santo. Quer dizer, o poder
da Vida, que esmagou as forças da maldade e da morte, fez de
nós sua morada. Significa que, pela presença invisível do Senhor
Jesus, por seu Espírito, nós somos agora o “espaço” da salvação
de Deus, do qual podem brotar equilíbrio e vida plena para to-
dos. Tornamo-nos missionários da reconciliação pelo exercício
do perdão. Isso, com certeza, é saúde e vida. “Como o Pai me
enviou, também eu envio vocês”, disse Jesus. Daí a importância
de vivermos em comunidade, a exemplo das primitivas comuni-

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dades cristãs, perseverantes na escuta da Palavra, na comunhão
fraterna (caridade, solidariedade, ajuda mútua, partilha de bens,
serviço à vida), na fração do pão (Eucaristia como memória de
Jesus) e nas orações diárias como alimento da fé.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Meus irmãos, o Senhor nos fala e explica sobre o profundo
sentido de sua presença viva em nosso meio: perseguidos e amea-
çados por tantos males, maldades, crueldades, como acontecia no
tempo das primeiras comunidades cristãs, cada domingo sentimos
uma força maior que está conosco, a força da infinita misericór-
dia de Deus que plantou em nós a vitória da Vida sobre todos
os poderes de morte. Isso nos dá coragem. Esta crença, esta fé,
é que dá ânimo aos verdadeiros cristãos, discípulos e discípulas
do Senhor ressuscitado!
Este é um momento importante para proclamarmos, de
novo, de coração, que cremos que Jesus está vivo, agora de ma-
neira invisível pelo seu Espírito. Cremos que, pela Páscoa, tudo
se renovou: a maldade e a morte não têm mais a última palavra.
Cremos que esta vitória da Páscoa de Jesus é também nossa
vitória, e a vitória está dentro de nós. É a fé que professamos ao
recitarmos o “Creio”.
Ao mesmo tempo, visto que ainda temos nossas limitações
humanas, há tantos bloqueios que impedem a ação do Espirito de
Jesus em nós! Aproveitemos este momento também para pedir a
Deus que nos ajude a derrubar as barreiras da falta de perdão e
de reconciliação, a fim de que nossa comunidade seja realmente,
em nome de Jesus ressuscitado, um espaço de comunhão fraterna
e, consequentemente, de vida plena para todos.
Acima de tudo, não podemos deixar de louvar e agradecer a
Deus, porque ele foi (e está sendo) tão bom para todos nós. Nesta

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nossa celebração, vamos aproveitar para louvar e agradecer ao
Senhor Deus por tudo o que ele fez por nós!... E maravilhoso a
nossos olhos!
Com certeza, o ponto alto de nossa reunião é o momento
em que participamos da mesa do Senhor, comungando o seu
Corpo ressuscitado, para então sairmos renovados ao encontro
de nossa missão de cristãos, que é missão de reconciliação, de
paz e de vida para todos.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


Preparar o espaço celebrativo, destacando o Círio pascal, a pia
batismal, a mesa da Palavra e o altar, usando a cor branca.
Trazer, na procissão de entrada, a bandeira da paz.
Acender solenemente o Círio pascal, que pode ser trazido
na procissão de entrada ou já estar enfeitado em lugar bem
visível, junto à pia batismal.
Quem acender o Círio, dizer: “Bendito sejas, Deus da vida,
pela ressurreição de Jesus Cristo e por esta luz radiante!”. In-
censar o Círio, enquanto todos cantam um refrão apropriado,
como: “É hoje o dia da alegria, e a tristeza não pode pensar
em chegar”, ou “Cristo ressuscitou, verdadeiramente ele
ressuscitou!”, ou “Salve, luz eterna / Luz és tu, Jesus! Teu
clarão é a fé / Fé que nos conduz!”, ou qualquer outro mais
conhecido da comunidade.
Incensar também todos os presentes na celebração ou fazer
outro rito de acolhida bem afetuosa, como sinal da presença
do Ressuscitado, hoje.
Quem presidir, dar à saudação inicial uma tônica mais pascal
e festiva, se possível, cantando.

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O ato penitencial pode ser substituído pelo rito da aspersão
com água batismal, abençoada na Vigília Pascal, fazendo
memória do batismo.
A assembléia pode escolher realizar este rito no momento
da profissão de fé, como já foi indicado nas considerações e
sugestões gerais.
No final da proclamação do Evangelho, a assembléia pode
aclamar três vezes, repetindo a profissão de fé de Tomé: “Meu
Senhor e meu Deus”.
O abraço da paz pode ser feito após a proclamação do Evange-
lho, se for encenado, ou, como de costume, após o pai-nosso,
enquanto a bandeira da paz circula no meio da assembléia.
Nas celebrações da Palavra, pode-se cantar a “Louvação
Pascal”, indicada no Hinário Litúrgico 2 da CNBB, p. 101.
No final da celebração, retomar, para toda a comunidade, o
gesto de envio e as palavras de Jesus no Evangelho.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publi-
cado o CD Liturgia XVI — Páscoa — Áno Á, com os cantos
do Hinário Litúrgico da CNBB (2º fascículo), referentes ao
Tempo Pascal. Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese
de Curitiba, sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso,
este CD é bem indicado para as comunidades prepararem os
cantos da celebração.
Há melodias para as partes fixas da Liturgia, a serem cantadas
pela presidência e assembléia, que foram publicadas pela
Paulus no CD Cantar a Liturgia: presidência e assembleia.
Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de uma gra-
vação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob a
regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
Fazer uma prece especial pela Assembléia dos Bispos do Brasil
em Itaici, que se iniciará no dia 1º de abril, terça-feira.

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PNE - QV] - CVV nº 44
3º Domingo da Pascoa
(Domingo dos discipulos de Emaús)
6 de abril de 2008
Leituras: Átos 2,14.22-33; Salmo 15(16),1-24.5.7-8.9-10.1l;
I Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35

Reconheceram-no ao partir o pao

1. Situando-nos brevemente

A Páscoa continua. São cinquenta dias para aproveitar de


maneira especial a presença do Ressuscitado em nosso meio. O
Círio aceso, as flores, os cantos e as aleluias estão aí a nos dizer
que vivemos um tempo novo. Os verdadeiros cristãos, aprovei-
tando bem este tempo, sentem-se espiritualmente renovados e
rejuvenescidos, felizes por lembrarem que receberam uma nova
cidadania (fomos adotados como filhos e filhas de Deus!) e, ao
mesmo tempo, felizes por ouvirem a Palavra viva do Senhor e
participarem da Eucaristia (Ceia pascal da vida eterna dos ci-
dadãos do infinito); tudo por causa da ressurreição do Filho de
Deus e nosso irmão, Jesus Cristo.
A Páscoa continua. O grande protagonista é Jesus ressus-
citado. É ele quem aparece a dois discípulos seus que retornam
para a vila de Emaús, desolados porque o Mestre está morto. E
ele que Pedro (ladeado pelos demais apóstolos) proclama estar
vivo, num discurso para uma grande multidão.
E ele que hoje (como, aliás, acontece em todos os domin-
gos) nos fala, quando são feitas as leituras. Mas não só nos fala.
Ele também quer explicar tudo o que nos disse. Por isso, fiquemos

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atentos, porque ele, por seu Espírito, ainda nos comunica preci-
samente no instante em que meditamos sobre sua Palavra.
Vamos primeiro recordar brevemente o que ele nos diz, para
depois mergulharmos mais fundo no sentido de sua mensagem.

2. Recordando a Palavra

Em Jerusalém, Jesus havia sido cruelmente morto e depois


sepultado. Para os seus discípulos, que tinham apostado nele
como o Messias salvador, o que acontecera na cidade santa fora
uma verdadeira “tragédia”, com o gosto amargo de uma tremenda
derrota.
Três dias depois, no primeiro dia da semana, dois disci-
pulos, desolados, desiludidos, perplexos, tristes e desanimados,
como quem perdeu o sentido da vida, deixaram Jerusalém e
retornavam para casa, na vila de Emaús.
No caminho, um anônimo viajante juntou-se a eles, inda-
gando-lhes o motivo de tanta tristeza. Os dois contaram tudo o
que acontecera com Jesus, o profeta poderoso em obras e pala-
vras diante de Deus e diante de todo o povo: fora condenado à
morte e crucificado. “E nós esperávamos que ele fosse libertar
Israel”, lamentaram. “Aliás, corre um boato que o túmulo foi
encontrado vazio e que ele está vivo. Mas ele mesmo, ninguém
viu”, afirmaram.
O estranho companheiro de caminhada chamou-lhes a
atenção: “Vocês estão tendo dificuldade de entender as coisas
e crer no que os profetas disseram”. Com base nas Escrituras,
explicava-lhes que o Cristo deveria sofrer tudo aquilo para entrar
na sua glória: estava no plano de Deus.
Enfim, chegaram a Emaús e fizeram questão de hospedar
o estranho peregrino em sua casa, pois já estava anoitecendo. Na
hora do jantar, uma surpresa: quando o hóspede tomou o pão,

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abençoou-o, partiu-o e o distribuiu, viram e reconheceram (só
então!) que era o próprio Jesus que estava com eles!... E Jesus
desapareceu diante deles.
“Bem que a gente sentia alguma coisa ardendo em nós, na
vinda para cá, quando ele falava e nos explicava as Escrituras”,
comentaram os dois entre si. Na mesma hora, levantaram-se e
voltaram a Jerusalém, onde ficaram sabendo pelos apóstolos que,
de fato, “o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. Eles então
contaram aos apóstolos “o que tinha acontecido no caminho, e
como haviam reconhecido Jesus ao partir o pão”.
Cinqjiienta dias depois, como ouvimos na primeira leitura,
Pedro (ladeado pelos demais apóstolos), num grande e corajoso
discurso ao povo, falou de Jesus, do bem que ele fez, do que
acontecera com ele e, sobretudo, que ele agora está vivo. Se-
gundo as Escrituras, não era possível que a morte o dominasse.
“Deus o ressuscitou... e disto nós todos somos testemunhas”,
bradou ele.
Intensa foi a alegria e o encorajamento que os apóstolos
e discípulos de Jesus vivenciaram, quando entenderam que a
morte dele não significou uma derrota. Muito pelo contrário!...
Mais tarde, como ouvimos na segunda leitura, o apóstolo Pedro
escreveu: “Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,
cordeiro sem mancha... Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu
a glória, e, assim, a vossa fé e esperança estão em Deus”.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

Voltemos ao início da história dos discípulos de Emaús.


Eles estavam tão impressionados, tão mexidos e desorientados
com a morte do Mestre, que não conseguiram mais enxergar
outra coisa senão derrota. O impacto da morte de Jesus deixou-
os “como que cegos”, e de tal maneira que não foram capazes
de reconhecer nem mesmo a presença de Jesus caminhando com

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eles. Não conseguiram ver nem entender o verdadeiro sentido da
morte do Mestre. Não compreenderam que, como proclamamos
na missa, “imolado, ele já não morre; e, morto, vive eternamente”,
caminhando com a humanidade (cf. Prefácio da Páscoa IN).
A história dos discípulos de Emaús, na verdade, reflete a
situação da comunidade cristã, desorientada e abalada pelo impacto
de brutais perseguições e mortes: cristãos vítimas de ciladas, os
espertos levando vantagem, os malvados dominando sobre os puros
de coração... Como quando foi escrito o Evangelho proclamado
hoje. Discípulos do Mestre, perplexos e desiludidos, como os
discípulos de Emaús, acabaram abandonando o espaço da vitória
(a comunidade, Jerusalém) e voltando para casa. Sentiam-se sem
força para o testemunho, pois, cegos pelos problemas que os aço1-
tavam, não conseguiam ver nem entender que, precisamente no
meio das experiências de dor, Jesus caminha com a comunidade.
E daí? Como e onde experimentar a presença do Cristo vivo
e vencedor, e, assim, não nos deixarmos abater pela opressão do
inimigo?
Deus vem nos dizer hoje que é pela escuta da Palavra que
Jesus vai tocando e acordando a comunidade desorientada: “Não
ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos
explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). A Palavra nos ilumina para
o sentido da morte e ressurreição de Jesus.
Sobretudo por seu gesto de partilha, Jesus deixa-se reco-
nhecer como o Vivente, o Ressuscitado que aceita hospedar-se
em nossa casa e caminhar conosco: ao partir o pão, “os olhos dos
discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (Lc 24,31).
“Daí em diante é supérflua a presença física de Jesus. Ele
desaparece porque a comunidade possui os dois sacramentos da
presença dele: sua Palavra e seu gesto de partilha. Basta viver
isso para sentir o Cristo vivo e presente em nosso meio.”*

2 BORTOLINI, Op. cit., p. 101.

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À partir desta descoberta, os dois discípulos voltaram ime-
diatamente a Jerusalém, isto é, ao espaço da vitória (e não mais
da derrota!), o espaço da comunidade que experimenta a presença
viva de Jesus em meio às experiências de morte e se unem aos
irmãos para testemunhar que Jesus, “morrendo, destruiu a morte,
e, ressurgindo, deu-nos a vida” (Prefácio da Páscoa 1).

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Vemos, no Evangelho de hoje, a estrutura da missa, pela
qual nós celebramos a presença do Ressuscitado caminhando
conosco.
Primeiro, o Senhor nos acolhe em sua casa: são os ritos
iniciais. E o anônimo viajante que se junta aos discípulos de
Emaús e se interessa pelo seu estado de desânimo.
Depois, o Senhor nos fala pela proclamação das leituras
bíblicas, na Liturgia da Palavra. E o anônimo viajante que, com
base nas Escrituras, explica aos discípulos de Emaús que a vida,
morte e ressurreição de Jesus estavam dentro do plano de Deus,
há muito tempo.
Em seguida, na Liturgia Eucarística, ao fazermos memória
da Páscoa de Jesus, ele partilha conosco o seu Corpo entregue e
o seu Sangue derramado. É o anônimo viajante que parte o pão
para os discípulos de Emaús, levando-os a perceberem, neste
gesto, a presença viva do Mestre ressuscitado.
Por fim, partimos em missão, testemunhando para o mundo
que nossa morte foi redimida pela morte de Jesus e na ressur-
reição de Jesus ressurgiu nossa vida (cf. Prefácio da Páscoa II).
Eles se levantaram e voltaram a Jerusalém, contando que tinham
reconhecido Jesus ao partir o pão (cf. Lc 24,33.35).
Que o Senhor ressuscitado, pelo seu Espírito, nos reanime e
nos fortaleça nesta celebração e em todas as celebrações, a fim de

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que, alimentados pela Palavra e pela Eucaristia, sintamos sempre
o Senhor caminhando conosco e, assim, não nos falte coragem
para evangelizar também em meio às contrariedades do mundo
em que vivemos.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


* Destacar, no espaço celebrativo, o Círio pascal, a pia batismal,
as mesas da Palavra e da Eucaristia. Usar a cor branca ou
amarela para as vestes e os outros ornamentos.
* Acender solenemente o Círio pascal, que pode ser trazido
na procissão de entrada ou já estar enfeitado, em lugar bem
visível, junto à pia batismal.
* Quem acender o Círio, dizer: “Bendito sejas, Deus da vida,
pela ressurreição de Jesus Cristo e por esta luz radiante”. In-
censar o Círio, enquanto todos cantam um refrão apropriado
ou conforme sugestão do 2º Domingo.
* E bom que, neste tempo, a saudação inicial mantenha uma
tônica pascal festiva e, se possível, seja acompanhada de um
gesto de acolhida e de paz.
* À aspersão com água batismal, acompanhada de um canto
apropriado, substitui o ato penitencial e ajuda a comunidade
a retomar o batismo, como mergulho na Páscoa do Senhor.
* Solenizar a Liturgia da Palavra: entrada festiva do livro
da Palavra (o Lecionário ou, na ausência deste, a Bíblia) e
proclamação bem vibrante das leituras, principalmente do
Evangelho.
* Valorizar, na Liturgia Eucarística, o símbolo do pão: “Eles o
reconheceram quando partiu o pão” (Lc 24,31). Na medida
do possível, aplicar o que está na Instrução Geral sobre o
Missal Romano: que o pão eucarístico “pareça realmente um

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alimento” e seja preparado de tal forma que possa ser repartido
entre todos ou, pelo menos, que partes da hóstia repartida no
rito da fração do pão sejam distribuídas a alguns dos fiéis. Se
for viável, privilegiar a distribuição da comunhão sob duas
espécies, para, no sinal sacramental, viver melhor o mistério
que se celebra (cf. nn. 320-321; cf. CNBB. Guia liturgico-pas-
toral. 2. ed. rev. e ampl. Brasília, CNBB, 2007. pp. 29-30).
Cantar as aclamações e o Amém final da Oração Eucarística,
além do Prefácio e do “Santo”. Para valorizar e solenizar o
Amém final da assembléia à Oração Eucarística (o Amém final
é a “assinatura” da assembléia a tudo o que foi proclamado na
Oração Eucarística), pede-se para a assembléia não rezar junto
a doxologia final (“Por Cristo, com Cristo e em Cristo...”),
própria de quem preside.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano À, com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo) referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e assembléia, que foram publicadas
pela Paulus no CD Cantar a liturgia: presidência e assem-
bléia. Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de numa
gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob
a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
Nas comunidades onde não for celebrada a Eucaristia, fazer
um momento de louvação, com a bênção e a partilha do pão
entre todas as pessoas presentes.

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4º Domingo da Pascoa
(Domingo do Bom Pastor)
13 de abril de 2008
Leituras: Atos 2,14a.36-41; Salmo 22(23),1-3a.3b-4.5.6;
1 Pedro 2,20b-25;João 10,1-10

Jesus: a unica verdadeira liderança

1. Situando-nos brevemente

“O Senhor é o pastor que me conduz; para as águas repousan-


tes me encaminha” é o refrão do Salmo 22(23), que cantamos hoje.
A Páscoa continua e, neste quarto domingo pascal, nossa
comunidade reunida sente-se especialmente enriquecida e ani-
mada com a presença viva de Jesus como o Bom Pastor. Por isso,
o domingo de hoje é chamado “Domingo do Bom Pastor”, no
qual o Senhor ressuscitado vem manifestar a ternura e o cuidado
que tem conosco.

Que bom estarmos juntos, como rebanho reunido em torno


do nosso melhor e mais verdadeiro Pastor e Guia, ouvindo sua
palavra e acolhendo sua vida entregue por todos nós.
E ele que nos fala quando são feitas as leituras. Vamos
primeiro tentar lembrar o que o Senhor nos disse para, depois,
aprofundarmos o sentido de sua Palavra para nós.

2. Recordando a Palavra

Cingiienta dias depois dos comoventes acontecimentos em


Jerusalém (morte e ressurreição de Jesus), o apóstolo Pedro (com

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os demais apóstolos), embalado pelo fogo do Espírito Santo, num
discurso inflamado de fé, gritou para a multidão comprimida na
praça: “Todo o povo de Israel fique sabendo com certeza o se-
guinte: esse Jesus que vocês crucificaram, Deus fez dele Senhor e
Cristo”. O povo, aflito com o que acabara de ouvir, perguntou: “E
agora, que devemos fazer?”. E Pedro: “Convertam-se, e cada um
de vocês seja batizado em nome dele para o perdão dos pecados.
E vão receber o dom do Espírito Santo. Isso foi prometido por
Deus a vocês e a todo mundo”. Pedro ainda alertou: “Salvem-se
dessa gente corrompida!”. Resultado: cerca de três mil pessoas
receberam o batismo e juntaram-se aos apóstolos. E o que ouvi-
mos na primeira leitura.
O próprio Pedro, mais tarde, dirigindo-se por carta a cristãos
escravos de iníquos “senhores” que os faziam sofrer horrores, na
Ásia Menor, encoraja-os à paciência, lembrando-lhes que o Cristo
(o verdadeiro Senhor!) também sofreu e sofreu por nós, deixando-
nos um exemplo, a fim de que sigamos seus passos. Tal exemplo o
apóstolo resume, a partir do quarto cântico do Servo sofredor, em
Isaías 53: “Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi
encontrada em sua boca. Quando injuriado, não retribuia às injúrias;
atormentado, não ameaçava; antes, colocava a sua causa nas mãos
daquele que julga com justiça. Sob a cruz, carregou nossos pecados
em seu próprio corpo, a fim de que... vivamos para a justiça. Por suas
feridas fomos curados”. Ele descreve o que significa ter encontrado
o Cristo Jesus: “Se vocês suportam com paciência aquilo que sofrem
por ter feito o bem, isto os torna agradáveis diante de Deus. De fato,
para isto vocês foram chamados”. Numa palavra, tal encontro com
Jesus, o Bom Pastor, representa verdadeira mudança na vida das
pessoas: “Vocês antes andavam como ovelhas desgarradas, mas,
agora sim, voltaram ao verdadeiro Pastor e Guia da vida de vocês”.
É o que ouvimos na segunda leitura.
O Evangelho apresenta-nos Jesus como o verdadeiro Pastor
e Guia, a Porta que garante segurança e liberdade para as ove-

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lhas. Ele vive muito próximo delas: chama-as pelo nome e elas
o seguem, porque conhecem sua voz. Ele é a única e verdadeira
liderança, diriamos nós hoje. A única e melhor alternativa contra
os falsos pastores, estranhos, frios, ladrões, assaltantes, matadores
e destruidores: “Eu vim para que [as ovelhas] tenham vida e a
tenham em abundância”, diz Jesus.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

A partir da experiência pascal, o Jesus ressuscitado passou


a ser visto, sentido e vivido pelas comunidades cristãs como o
melhor e maior Senhor e Líder da humanidade: o Bom Pastor, na
linguagem de então. “Todo o povo de Israel fique sabendo com
certeza o seguinte: esse Jesus que vocês crucificaram, Deus fez
dele Senhor e Cristo”, bradou o apóstolo Pedro.
“Jesus tinha sido condenado à morte por interesses poli-
tico-religiosos, por causa do jogo de poder das lideranças que
perceberam ser ele uma ameaça a seus privilégios. Ora, a morte
de Jesus não ficou sem resposta. Deus o ressuscitou e o tornou
Senhor e Cristo. Em outras palavras, a sua ressurreição destro-
nou todas as falsas lideranças [os falsos pastores], os jogos de
interesse e poder. Nem sequer o poder absolutista romano recebe
reconhecimento. Só Jesus é o Senhor. Ele é o único Absoluto, e
o é por causa do que fez, ou seja, porque deu a vida. Seu poder
vem do fato de comunicar vida ao povo”.|
Se é assim, o que devemos fazer então? Converter-se,
responde Pedro, isto é, morrer para a forma de vida baseada em
sistemas que mentem, enganam, falsificam, roubam, oprimem e
matam as pessoas. Ser batizado, isto é, passar “a pertencer ao
senhorio de Jesus, associando-se a ele num compromisso sério,
no testemunho, levando em frente o projeto de Deus. Para essas

1 Tbid., p. 104.
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pessoas o Pai dá de presente o Espírito Santo que é força, luz,
capacidade de superar os entraves, para colaborar positivamente
na construção do Reino. Esse Reino foi inaugurado por Jesus e
prometido à humanidade”.
“Salvem-se dessa gente corrompida”, gritou mais uma vez
Pedro. Em outras palavras, a pessoa que assumiu Jesus como o
Senhor de sua vida “deixe-se salvar” (por Deus, naturalmente)
dos esquemas dos “senhores” corrompidos pelo poder abusivo,
gerando opressão e morte (como fizeram com Jesus!); não se
conforme com tal sistema, pois esse não é o projeto de Deus;
crie uma sociedade nova aceitando Jesus como Senhor e Líder
maior; faça-o sem fugir deste mundo, sabendo que tem o Espírito
Santo como força e luz na ação.
Só Jesus é o Senhor! Por isso, sobretudo se o cristão passa
por sofrimentos e dificuldades sob o poder dos “senhores” injus-
tos e inescrupulosos, só a certeza de ter um Líder maior, que se
põe ao lado até na morte, dá paciência para suportar o sofrimento,
bem como coragem para desmascarar as falsas lideranças com
seus jogos de interesse e poder causadores de morte. A exemplo
do verdadeiro Pastor e Guia, o verdadeiro cristão terá força para
construir uma nova sociedade e discernimento para nunca agir
com as mesmas armas que os injustos e inescrupulosos usam (as
armas da mentira, da violência e da morte).
Jesus é o único líder que dá vida em plenitude. Lider que o
povo conhece, porque se põe ao lado deste povo, familiariza-se
com ele, entra pela porta, dá a vida por ele. As lideranças políticas
e religiosas do tempo de Jesus (e de outros tempos) tinham (e têm)
outra prática, a prática dos maus pastores: manipulam o povo,
explorando-o e fazendo-lhe violência, em vez de conduzi-lo à
vida em plenitude. Jesus não age assim. Ele respeita a identidade

2 Ibid.

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da pessoa, diferentemente do ladrão que pula o muro (invade o
recinto sagrado da pessoa) e faz violência.
Jesus é a única liderança verdadeira. Ele é a Porta, afirma
o Evangelho. O modelo de liderança: Bom Pastor. Isso significa,
na prática: “Não se tem acesso ao povo sem passar por Jesus e
sem estar em harmonia com o modo pelo qual ele exerce sua li-
derança sobre o povo: dando vida e liberdade. Quem não assume
esse princípio é explorador do povo. Em segundo lugar, a porta
se refere ao próprio povo. Ele não encontrará vida e liberdade,
não terá acesso a Deus, a não ser por meio de Jesus”.º
Que também em nossa Igreja e nas comunidades eclesiais,
nossas lideranças (papa, bispos, padres, religiosos e religiosas,
agentes de pastoral em geral, coordenadores[as] de grupos e
equipes, enfim todos[as|] que possuem responsabilidades e de-
têm alguma autoridade) tenhamos o jeito de Jesus de ser Pastor
e Guia, Senhor e Cristo (Lider). Como pedimos no início da
missa, “que o rebanho possa atingir, apesar de sua fraqueza, a
fortaleza do Pastor”.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Na Liturgia Eucarística, temos diante de nós, de maneira
bem concreta, o exemplo de Jesus Bom Pastor que dá a vida
pelos seus. Ele mesmo, pela voz do sacerdote, nos diz: “Isto é
meu corpo entregue. Isto é o meu sangue derramado. Comam e
bebam em minha memória”. E nós, a uma só voz, então canta-
mos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte; proclamamos a vossa
ressurreição...”. Depois, comendo deste Corpo entregue e beben-
do deste Sangue derramado, vivemos mais uma experiência de
comunhão com nosso Guia e com os irmãos, fortalecendo nossa

3 Ibid,, p. 107.
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cumplicidade pacífica na construção de uma sociedade melhor,
mais justa e fraterna.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


Preparar o local com o Círio pascal e a pia batismal em
destaque, assim como as mesas da Palavra e da Eucaristia,
usando a cor branca ou amarela, conforme a preferência da
comunidade. Um ícone (estampa) com o rosto do Senhor pode
ajudar a comunidade a contemplar melhor a presença dele em
seu meio.
Acender solenemente o Círio pascal, cantando um refrão
apropriado. Em seguida, incensá-lo e incensar as pessoas,
como sinal da presença do Ressuscitado, hoje. O ícone pode
ser incensado como o Círio, no início da celebração.
Na Liturgia da Palavra, fazer uma acolhida especial ao livro
da Palavra (o Lecionário ou, na ausência deste, a Bíblia), com
um refrão adequado. Dar destaque à proclamação do Evan-
gelho: apresentar o livro para a assembléia, abri-lo à vista de
todos, beijá-lo no final e apresentá-lo novamente. Cantar o
Evangelho.
A primeira leitura pode ser dialogada (narrador e Pedro). Se-
ria bom que a parte de Pedro fosse decorada, fazendo-se um
verdadeiro discurso para a assembléia.
Após a homilia, quem preside dirige-se à pita batismal e con-
vida a comunidade a ficar de pé e a renovar a fé batismal, em
que cada pessoa é chamada e reconhecida pelo nome, pelo
Bom Pastor. Quem preside faz uma oração de bênção sobre a
água (cf. Missal Romano) e, em seguida, asperge a assembléia,
que canta um canto apropriado.

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* Na Oração Eucarística, cantar o prefácio, as aclamações, o
Santo e o Amém final. Para valorizar e solenizar o Amém
final da assembléia à Oração Eucarística (o Amém final é a
“assinatura” da assembléia a tudo o que foi proclamado na
Oração Eucarística), pede-se que a assembléia não reze junto
a doxologia final (“Por Cristo, com Cristo e em Cristo...”),
própria de quem preside.
* Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano À, com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo) referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
* Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e assembléia, que foram publicadas
pela Paulus no CD Cantar a Liturgia: presidência e assem-
bleéia. Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de numa
gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob
a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
* Nas comunidades onde não for celebrada a Eucaristia, fazer
um momento de louvação após as preces, conforme sugere o
Hinário Litúrgico 2, da CNBB, p. 101, com a seguinte intro-
dução:
D: Irmãos e irmãs, demos graças ao Pai, por Jesus Cristo,
nosso Bom Pastor, que nos conhece e nos dá vida plena
pela sua ressurreição. (E canta:) E bom cantar um bendito,
um canto novo, um louvor!
T: É bom cantar um bendito / Um canto novo, um louvor!
Ão nosso Pai verdadeiro / Que o filho seu nos mandou.
Da morte é triunfante / Da vida Ele é Senhor. (bis)
Cordeiro sacrificado / Senhor da Paz, nosso irmão /

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Dos tristes, consolador / Dos pobres, libertação. (bis)
Pastor se faz das ovelhas / Por seu amor doação /
As mãos se dão céu e terra / E uma só louvação! (bis)
Santo, Santo, Santo...
* Nestas comunidades, onde for possível, partilhar o pão ou
outros alimentos, como lembrança do gesto de entrega da vida
feita por Jesus.
* Fazero abraço da paz como expressão de comunhão fraterna,
desejando a cada pessoa força e alegria para testemunhar o
amor, mesmo na perseguição e no sofrimento.
* Bênção final própria para o Tempo Pascal, conforme o Missal
Romano.
5º Domingo da Pascoa
(Domingo das muitas moradas)
20 de abril de 2008
Leituras: Atos 6,1-7; Salmo 32(33),1-2.4-5. 18-19;
1 Pedro 2,4-9; João 14,1-12

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida

1. Situando-nos brevemente

Que bom estarmos aqui reunidos, como comunidade de fé,


celebrando a Páscoa do Senhor e nossa Páscoa. Quinto domingo
da Páscoa! Nesse clima pascal que estamos vivendo, o Senhor
Jesus ressuscitado mais uma vez vem a nós e nos fala, revelando-
nos coisas confortadoras.
Não estamos sós. Ele está no meio de nós com sua presença
invisível, indicando-nos o caminho que nos leva a participar do
espaço amoroso de Deus. Na caminhada de nossas comunida-
des, ele nos ensina como descobrir os melhores caminhos para
resolver eventuais tensões que possam surgir.
Vamos primeiro recordar brevemente o que o Senhor nos
diz hoje, para depois refletirmos sobre sua Palavra.

2. Recordando a Palavra

Depois da ressurreição de Jesus ou, em outras palavras, a


partir da experiência pascal vivenciada pelas primeiras comuni-
dades cristãs, os discípulos foram aos poucos se lembrando do
que ele fez e disse antes de morrer. Aquilo que julgaram ser o

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mais importante, deixaram, por escrito, nos Evangelhos. Uma
das falas de Jesus, que se deu durante a última ceia, foi essa que
ouvimos no Evangelho de hoje. Em tom enigmático de despedida,
o Mestre diz aos apóstolos: “Não se perturbe o coração de vocês...
Tenham fé, acreditem no que estou dizendo. Na casa de meu Pai
há muitas moradas... Eu mesmo vou para lá preparar esse espaço
para vocês. Depois, quando eu voltar, os levarei comigo, a fim de
participarem desse espaço. Quanto ao caminho para onde vou,
vocês já o conhecem”.
Tomé, então, interveio: “Senhor, nós não sabemos aonde
vais. Como podemos conhecer o caminho?”. Ao que Jesus res-
pondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Para chegar ao
Pai, só por mim”. Também Filipe entra na conversa: “Senhor,
mostra-nos o Pai, isso nos basta!”. E Jesus: “Filipe! Há tanto
tempo que estou com vocês, e você ainda me vem com esta
pergunta! É muito simples: quem me viu, viu o Pai... Pois eu
estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditem! Quem acreditar
val fazer o que eu faço, e até coisas maiores. Quanto a mim, eu
vou para o Pai”.
Todos os que passaram a acreditar em Jesus, depois que
ele morreu, ressuscitou e enviou o Espírito Santo, foram se or-
ganizando em comunidade para celebrar e viver o Caminho, a
Verdade e a Vida. Era muita gente se reunindo para viver o ideal
cristão de ter tudo em comum. Mas logo surgiu um problema: os
apóstolos não davam conta de tudo e, com isso, muitas senhoras
viúvas, de origem grega, passaram a não receber a atenção que
mereciam. Atentos ao Espírito, eles acolheram as queixas do povo
e resolveram partilhar as responsabilidades. Convocaram uma
assembléia e pediram para escolher “sete homens de boa fama,
repletos do Espírito de sabedoria”, a fim de se encarregarem
do serviço aos pobres. Assim os apóstolos poderiam se dedicar
“inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”. Foram então
escolhidos sete homens. Os apóstolos “oraram e impuseram as

68
PNE - QV) - CVV nº 44
mãos sobre eles” e os constituíram servidores (diáconos) da mesa
dos pobres. E o que ouvimos na primeira leitura.
A partir da Páscoa de Cristo e da experiência de vida cristã
em comunidade, foi se firmando também a consciência de sermos,
no Senhor, “pedras vivas formando um edifício espiritual, um
sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis
a Deus, por Jesus Cristo [...]: “Vocês são a raça escolhida, o
sacerdócio real, a nação santa, o povo que ele conquistou, para
proclamar as maravilhas daquele que os chamou das trevas para a
sua luz maravilhosa” (cf. IPd 2,4-9). E o que ouvimos do apóstolo

Ásia Menor, constituídas por migrantes trabalhadores-escravos;


gente sem lar, sem pátria, sem liberdade, mas com um desejo
imenso de viver num ambiente de paz e fraternidade. Porém,
isto parecia muito dificil numa sociedade onde eram rejeitados,
perseguidos e oprimidos pelos patrões.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

O Evangelho nos apresenta Jesus como o Caminho, a Ver-


dade e a Vida. Jesus revelou isso num momento muito delicado,
durante a última ceia, horas antes de morrer. Ao alertar para tudo o
que ele teria de passar (a traição de Judas, a negação de Pedro, sua
partida sem que alguém pudesse segui-lo, por ora), os discípulos
sentiram-se perturbados e desanimados. Este quadro é o espelho
de qualquer comunidade cristã, quando, entre tantos sinais de
morte (traições, negações, deserções, mentiras, perseguições,
violência, sangue etc.), experimenta um clima de perplexidade,
desânimo, falta de clareza no caminho a ser seguido.
Nesse contexto, vem então Jesus com uma palavra de
encorajamento: “Não percam a calma. Vocês têm fé em Deus,
tenham fé em mim também. Deus tem um espaço reservado para
cada um” (cf. Jo 14,1-2). É o espaço da intimidade de Deus que

69
PNE - QV) - CVV nº 44
é simplesmente Amor, como expressa o apóstolo João em uma
de suas cartas (cf. 1Jo 4,7-21).
Qual é o caminho que leva à vivência deste espaço? É o
próprio Jesus que passa pela morte e ressurreição, expressão
máxima de toda uma vida entregue ao serviço dos pobres. Por
meio da morte-ressurreição, ele chega ao Pai e, através dele,
o Pai mora na comunidade. Jesus é o Caminho. Quer dizer: é
seguindo este Jesus que a comunidade vive e saboreia o projeto
do Pai. “No tempo de Jesus as lideranças religiosas afirmavam,
baseadas no Antigo Testamento, que o caminho de acesso a Deus
era o cumprimento da Lei. A Lei era o Caminho. Jesus afirma o
contrário: ele, o Humano, é o Caminho para chegarmos a Deus.
E todo aquele que se torna humano pode ter certeza de estar no
Caminho que é Jesus.”! Você quer saber qual a aparência de
Deus? É simples: olhe para o meu rosto, diz Jesus!
Jesus apresenta-se também como a Verdade, a saber: “a
revelação autêntica do projeto de Deus, a manifestação visível e
encarnada do amor do Pai. Viver Jesus-Verdade é estar em sin-
tonia profunda com os anseios divinos. E fazer a Verdade, isto
é, dar segiiência à fidelidade que Jesus manifestou em relação
ao projeto de Deus, ao Reino de Deus [...]. Para as lideranças
religiosas do tempo, a Verdade estava na Lei e no seu cumpri-
mento. Jesus garante que a Verdade-fidelidade é ele próprio, pois
ser fiel a Deus é a mesma coisa que ser fiel à liberdade e à vida
dos que são oprimidos”.
Jesus é a Vida. A função da comunidade é apontar para a
vida em plenitude que está em Jesus. Mas não só isso. Também
vivê-la profundamente mediante o mandamento do amor, sintese
do projeto de Deus. “As lideranças religiosas do tempo de Jesus
afirmavam que a Lei era a Vida. Bastava cumprir a Lei para pos-

4 Ibid, p. IL.
s Ibid.

70
PNE - QV) - CVV nº 44
suir a Vida, Jesus garante que ele próprio é a Vida em plenitude
para todos. E os que se engajam para que a vida chegue a todos
podem ter certeza de que estão no caminho da Vida.”!
Eis o rosto do Pai que aparece no rosto de Jesus: profun-
damente humano, solidário com os oprimidos e pisados pelos
“senhores” comandantes dos sistemas de exploração do sangue
dos pobres. Tão humano que garantiu uma honraria para os que
apostam no projeto de nova sociedade vivido e ensinado por Je-
sus: “Vocês são a raça escolhida, o sacerdócio real, a nação santa,
o povo que ele conquistou, para proclamar as maravilhas daquele
que os chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9).
Tão humano que os seguidores de Jesus, Caminho, Verdade e
Vida, ao formar comunidades, assumiram como programa de vida
estar unidos a Jesus na construção da nova humanidade, nascida
de sua morte e ressurreição. E disso que Deus gosta! Tão humano
que, na força do Espírito, souberam partilhar as responsabilidades
nos serviços comunitários.
No mundo complexo em que vivemos, nosso coração não
deve se perturbar diante das dificuldades e tensões. Sabemos qual
é o Caminho, onde está a Verdade e onde se situa a Vida, e não
podemos nos deixar engolir pelo desânimo. Jesus garantiu um
espaço para quem aposta nele e realiza as obras que ele fez.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Na Liturgia Eucarística, vamos dar graças a Deus, por
Cristo, com Cristo e em Cristo, na unidade do Espírito Santo,
pela Vida plena que a Páscoa de Jesus nos garantiu. Vamos can-
tar: “ Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa
ressurreição...”. Jesus mesmo, num ato de permanente doação de
si à humanidade, nos entrega seu Corpo e derrama para nós seu

| Ibid., pp. HI-l112.

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Sangue. “Comam, bebam! Isto é o meu corpo entregue, o meu
sangue derramado. Façam isso em minha memória.” Comendo
e bebendo desta ceia pascal, experimentamos que, no Espírito,
somos um só corpo bem unido, dando continuidade à missão de
Jesus na construção de uma sociedade do jeito que Deus quer,
de justiça, paz e vida para todos. Que esta Eucaristia nos anime
e nos ajude a ser comunidade unida, com Jesus, Caminho, Ver-
dade e Vida.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


Preparar o espaço celebrativo, colocando junto ao Círio pascal
um quadro ou ícone com a face do Senhor, o qual pode ajudar
a comunidade a contemplar melhor a presença de Jesus em
seu meio. A cor litúrgica continua sendo branca ou amarela,
conforme a preferência da comunidade.
Iniciar a celebração incensando o Círio, o ícone e a comuni-
dade reunida, símbolos da presença do Senhor ressuscitado.
Enquanto isso, a assembléia entoa um refrão contemplativo
apropriado.
A saudação inicial pode ser inspirada na segunda leitura ou
esta, como sugestão: “Irmãos e irmãs, desejo-vos que a mi-
sericórdia de Deus, nosso Pai, vos mantenha firmes, como
pedras vivas, na vivência do amor de Jesus, Caminho, Verdade
e Vida, e cheios de fortaleza e da alegria de seu Espírito!”.
O Evangelho pode ser cantado, repetindo-se com a assembléia,
a seguir, as frases principais, depois da proclamação.
Dar destaque a todo o rito eucarístico, sobretudo à Oração
Eucarística como louvor e ação de graças que a comunidade,
animada pelo Espírito Santo, sob a presidência do sacerdote,
eleva ao Pai por Cristo, com Cristo e em Cristo. A Oração

72
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Eucarística para as Diversas Circunstâncias III, que tem como
tema “Jesus, caminho para o Pai”, sem dúvida é a oração
mais adequada para este domingo. Não se trata de explicar
a Oração Eucarística durante a celebração, mas permitir que
toda a assembléia a realize como ação ritual com o corpo, a
mente e o coração. Como se trata de uma oração proclamada
por quem preside, é importante que seu tom de voz, os gestos
corporais e a atitude Interior expressem o sentido de ação de
graças e oferenda dirigidas ao Pai, que permeia toda a Oração
Eucarística. Cantar o prefácio, o “Santo”, as aclamações e o
Amém final.
Para valorizar e solenizar o Amém final da assembléia à Ora-
ção Eucarística (o Amém final é a “assinatura” da assembléia
a tudo o que foi proclamado na oração), a Igreja pede (por
amor à beleza da Liturgia!) que a assembléia não reze junto
a doxologia final (“Por Cristo, com Cristo e em Cristo...”),
própria de quem preside.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano Á, com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo) referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e assembléia, que foram publicadas
pela Paulus no CD Cantar a liturgia: presidência e assem-
bléia. Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de numa
gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob
a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.

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PNE - QV) - CVV nº 44
6º Domingo da Pascoa
(Domingo da promessa do Espirito)
27 de abril de 2008
Leituras: Átos 8,5-8.14-17; Salmo 65(66),1-34.4-5.6-7a.16.20;
1 Pedro 3,15-18; João 14,15-21

O Espirito de Jesus animando e


sustentando a caminhada da comunidade

1. Situando-nos brevemente

Que bênção, que graça de Deus podermos estar novamente


reunidos em assembléia, comunidade do Senhor. É ele mesmo
que nos reúne para estarmos em sua presença. E ele que nos
reúne para ouvirmos sua voz, sua divina Palavra, quando são
feitas as leituras e explicadas as Escrituras. É ele que nos reúne
para acolher nossa profissão de fé e nossa oração suplicante. É
ele que nos reúne para acolher nosso louvor e nos alimentar com
o pão do céu. É ele que nos reúne para nos dizer que nunca se
afastará de nós.
É tempo de Páscoa. Sexto domingo de Páscoa. Vale a pena,
primeiro, recordar o que o Senhor nos diz. Não dá para esquecer!
Depois vamos refletir um pouco mais a fundo sobre o sentido da
sua fala dirigida a nós, neste dia.

2. Recordando a Palavra

Depois da ressurreição de Jesus ou, em outras palavras, a


partir da experiência pascal vivenciada pelas primeiras comuni-
74
PNE - QV) - CVV nº 44
dades cristãs, os discípulos aos poucos foram se lembrando de
tudo o que ele teria dito antes de morrer. Aquilo que acharam
mais importante foi deixado, por escrito, nos Evangelhos. Uma
destas falas de Jesus nós ouvimos hoje.
Em plena última ceia, Jesus “abre o jogo”: diz tudo o que
está para acontecer com ele. Os discípulos ficam abalados ao
saber que o Mestre vai desaparecer, e tristes por ouvirem que um
deles o trairia e outro o negaria. É nesse clima que Jesus dirige-se
aos discípulos: “Se vocês me amam, com certeza vão guardar os
meus mandamentos, e eu vou rogar ao Pai, e ele vai lhes dar um
outro Defensor: o Espírito da Verdade. Ele vai permanecer com
vocês. Vocês não vão ficar sozinhos nem desprotegidos, não! Ele
vai ajudá-los a descobrir o sentido verdadeiro do que está para
acontecer comigo e com vocês”.
Esta presença viva do Espirito de Jesus foi mais tarde sen-
tida e vivida pelas primeiras comunidades cristãs, em situações
bem concretas. Isso aparece, por exemplo, quando o diácono
Filipe, refugiado numa cidade da Samaria, estava anunciando o
Cristo. Muita gente ficava admirada com o que ele dizia. Muitos
se encontravam naquele anúncio e se viam curados dos males que
os afligiam. Verdadeiros milagres aconteciam. A alegria tomou
conta da cidade. Tanto, que a notícia chegou até os ouvidos dos
apóstolos que estavam em Jerusalém. Estes, sabendo “que a Sa-
maria acolhera a Palavra de Deus”, enviaram para lá Pedro e João,
que, então, oraram pelos moradores da Samaria impondo-lhes
as mãos, “e eles receberam o Espírito Santo”. É o que ouvimos
hoje na primeira leitura.
O mesmo Pedro, mais tarde, escrevendo para os cristãos da
Ásia menor (a maioria deles sofredores: migrantes, trabalhadores,
escravos), anima-os a não desistirem da luta que sustentavam: por
justiça, direitos e dignidade reconhecidos. “Trabalhem por essa
causa, tendo o procedimento do Cristo pelo qual vocês optaram,
a saber, com mansidão, respeito e boa consciência. Mesmo que

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PNE - QV) - CVV nº 44
vocês sejam difamados por isso, não desistam, sabendo que o
próprio Cristo sofreu a morte, mas recebeu nova vida pelo Es-
pírito.”

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

O clima vivido pelos apóstolos na última ceia (tristeza,


perplexidade, insegurança diante da morte iminente do Mestre)
é um espelho do clima vivenciado pelas comunidades cristãs
primitivas também perseguidas, ameaçadas de morte. Este pode
ser igualmente o clima das comunidades cristãs de hoje. Ante as
forças tirânicas do poder (político, econômico, religioso etc.),
quando o jogo de interesses ignora a dignidade humana, as
comunidades entram, muitas vezes, em clima de instabilidade,
insegurança, tristeza e perplexidade.
Jesus, na iminência de sofrer a paixão, mostra que existe
uma forma de superar o medo, a separação e a morte: pelo amor.
“Se vocês me amam, vão observar os meus mandamentos.” O
que Jesus quer dizer com isso? Um pouco antes, ele havia dito:
“Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros.
Assim como eu os amei, vocês devem se amar uns aos outros”
(Jo 13,34). Isto significa: vivendo no amor, a comunidade está
amando Jesus e observando os seus mandamentos. “Portanto, o
critério para saber se os cristãos são de fato seguidores de Jesus
é a capacidade de amor mútuo na comunidade e fora dela. O
amor não pode ser vivido em circuito fechado, egoisticamente,
mas projetado para fora, da mesma forma como agiu Jesus, que
veio trazer a vida em plenitude para todos.”! Dessa maneira,
amando como Jesus amou, seus seguidores e seguidoras (os
cristãos e cristãs) prolongam a ação dele em favor de todos e,
consequentemente, são amados e amadas pelo Pai e por Jesus,

| Ibid., pp. 113-114,

76
PNE - QV) - CVV nº 44
transformando-se numa espécie de espelho da dimensão divina
do amor.
Seguir Jesus significa muitas vezes sofrer as consequências
que ele sofreu: perseguição, desprezo, escárnio, ódio, injustiça,
violência, cruz e morte. Foi o que sofreram as comunidades
cristãs primitivas. E o que sofrem as comunidades de hoje, re-
sultando nelas a tentação do desânimo e, pior ainda, a tentação
de abandonar o espírito do verdadeiro Senhor para entrar no jogo
aparentemente “mais lucrativo” dos “senhores” que oprimem e
matam.

Diante deste mundo hostil, que persegue e mata, Jesus nos


apresenta um “outro Defensor”, um Advogado que estará sem-
pre a nosso lado para nos apoiar na luta de Jesus que agora se
prolonga na vida dos cristãos. E o Espírito da Verdade, isto é, o
Espírito de Jesus (Jesus é a Verdade, como ouvimos no domingo
passado), o Espírito Santo, “que o mundo (isto é, a sociedade
injusta) não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece”
(Jo 14,17). É o Espírito da Verdade hoje presente no trabalho
dos cristãos em defesa da liberdade e da vida, como fez Jesus.
Espírito da Verdade porque, este sim, leva à vida e não à morte,
leva à vitória e não à frustração definitiva do mundo hostil. Este
Espírito está na comunidade para sempre, é a sua alma. Como
é importante para a comunidade nunca esquecer isso! É na ce-
lebração litúrgica que melhor aquecemos nossa memória para
esta Verdade: o Espírito de Jesus habita em nós. Não estamos
no abandono nem órfãos. A sociedade injusta que matou Jesus
(e continua matando, quando crucifica e mata pessoas) pensa ter
conquistado a vitória definitiva. Ledo engano! Jesus é Vida e está
vivo pelo seu Espírito na própria comunidade. Sua Presença viva
na comunidade é o desmascaramento permanente da arrogância
de toda sociedade injusta.
E este mesmo Espírito que dá ao diácono Estêvão a força de
suportar a fúria das autoridades judaicas que mandam apedrejá-

77
PNE - QV) - CVY nº 44
lo até a morte, só porque anunciava Jesus (agora ressuscitado)
como o verdadeiro Senhor.
É este mesmo Espírito que conduz o diácono Filipe, que,
escapando desta fúria, vai para a Samaria anunciar que Jesus
está vivo e é a vida de todos. É este mesmo Espírito que, pela
oração e imposição das mãos dos apóstolos, toma conta do povo
que adere ao anúncio de Filipe, tornando-os outros missionários
da Vida.
E este mesmo Espírito que leva Pedro a animar as comu-
nidades sofredoras da Ásia Menor: “Desfrutem Jesus Cristo no
coração de vocês como o verdadeiro Senhor e, então, vão mostrar
por sua conduta quem tem a melhor parte: não são os “senhores”
que exploram e oprimem o povo, mas o povo que vive o amor
e a Justiça a partir do Espírito do Senhor Jesus Cristo e de seu
santo modo de operar”.
E este mesmo Espírito que hoje continua orientando as
comunidades para a vivência do amor e da justiça, suscitando
inúmeros serviços comunitários e, por elas, também denun-
ciando, profeticamente, como inimiga do Senhor — e, portanto,
já derrotada — a sociedade injusta que crucifica e mata o povo,
sobretudo o povo pobre.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


No início da missa, pedimos que, celebrando o Cristo
ressuscitado, “nossa vida corresponda sempre aos mistérios que
recordamos”.
Depois de fazermos nossa profissão de fé na vitória da
Páscoa que nos inundou com o Espirito do Senhor, depois de
elevarmos a Deus nossos pedidos para que vivamos intensamente
neste Espírito, entramos em clima de grande ação de graças (pela
Liturgia Eucarística). Neste clima, o próprio Espírito Santo vai

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PNE - QV] - CVV nº 44
fazer do pão e do vinho o Corpo entregue e o Sangue derramado
do Senhor Jesus por nós. Neste clima, o próprio Espírito vai fazer
de nós (que vamos comungar desta Ceia pascal) o Corpo de Cristo
bem unido que sai em missão de Vida para todos.
Por isso, após a comunhão, o sacerdote pede que, renovados
para a vida eterna pela ressurreição de Cristo, este sacramento
pascal nos ajude a dar muitos frutos e este “alimento salutar”
infunda em nosso coração sua força. De fato, precisamos da
força do Espírito libertador contido neste alimento para levarmos
adiante a missão de Jesus. E o que pedimos desde já, por Cristo
nosso Senhor,
Assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


* Preparar o espaço celebrativo, mantendo a cor branca ou
amarela para as vestes e ornamentos, e destacando o Círio, a
água batismal, as mesas da Palavra e da Eucaristia.
* Após um breve ensaio de canto, convidar a assembléia para
a oração pessoal, em silêncio. Depois entoar um refrão, re-
petidamente, invocando o Espírito. Exemplo: “Vem, Espírito
Santo!” (Diminuindo o tom de voz.)
* Acender solenemente o Círio pascal e incensá-lo, assim como
a água batismal, o livro da Palavra, o altar e as pessoas pre-
sentes.
* O canto do salmo pode ser acompanhado de uma coreografia
ou expressão corporal.
* Dar maior destaque à proclamação do Evangelho, que pode
ser cantada.
* Diante da promessa do Espírito, é importante que a comu-
nidade intensifique sua oração e seu pedido. Valorizar, neste
domingo, o momento das preces, acompanhando-as com um

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PNE - QV] - CVV nº 44
gesto, de maneira que a assembléia possa participar, apresen-
tando seus pedidos. A resposta às preces pode ser cantada.
Valorizar o abraço da paz como expressão de comunhão e
amor fraterno entre as pessoas presentes.
Como na próxima quinta-feira, dia 19 de março, é o dia de
são José Operário e, por isso, também o Dia do Trabalhador,
no final da missa invocar uma bênção especial para os desem-
pregados presentes.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano À, com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo) referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e assembléia, que foram publicadas
pela Paulus no CD Cantar a liturgia: presidência e assem-
bléia. Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de numa
gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob
a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.

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PNE - QV) - CVV nº 44
42º Dia Mundial das Comunicações Sociais
4 de maio de 2008

O tema de reflexão escolhido pelo papa Bento XVI para


o Dia Mundial das Comunicações deste ano é: “Os Meios: na
encruzilhada entre protagonismo e serviço. Buscar a verdade
para compartilhá-la”.
O Dia Mundial das Comunicações foi criado pelo Concílio
Vaticano II, no decreto Inter Mirifica, n. 18, de 4 de dezembro
de 1963, e tem como objetivo a reflexão, a ação e as ofertas
dos fiéis “ao sustento e incremento das instituições e iniciativas
promovidas pela Igreja neste setor”.
A proposta do Dia Mundial considera o papel dos meios
de comunicação, tendo em vista o crescente risco de se tornarem
referência de si mesmos, e não mais instrumentos a serviço da
verdade, a qual deve ser buscada e compartilhada.
Num momento de reflexão como este, é interessante lem-
brar o que a Constituição Brasileira diz e determina para todas
as empresas de radiodifusão:
Art. 221. À produção e a programação das emissoras de
Rádio e Televisão atenderão aos seguintes princípios:
I. preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais
e informativas;
H. promoção da cultura nacional e regional e estímulo à
produção independente que objetive sua divulgação;
HlI.regionalização da produção cultural, artística e jornalis-
tica, conforme percentuais estabelecidos por lei;
IV.respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da
família.

81
PNE - QV) - CVV nº 44
Ao lermos estes artigos, não resta dúvida da finalidade e
do compromisso que todos os meios de comunicação têm como
finalidade social, educativa e de serviço à comunidade.
A mensagem do Dia Mundial das Comunicações traz o
sentido de protagonismo atribuído aos meios de comunicação
e sua missão. A mudança tecnológica, econômica, cultural por
que passam os meios de comunicação mostra que esta é uma
característica da sociedade pós-moderna, quando a tecnologia e
o mercado estão no centro, e não mais Deus nem e os ideais da
sociedade moderna, conforme estudo de diferentes autores.
A provocação do Dia Mundial das Comunicações é atua-
líssima e faz retomar todo o magistério da Igreja em sua história
comunicacional. É pertinente a preocupação da Igreja, como ins-
tituição religiosa de referência e parte da sociedade civil. Ela vê
os meios de comunicação como dons de Deus e continuidade da
obra da Criação; portanto, dons concedidos ao ser humano como
sinais do progresso para neles trabalhar de forma construtiva, em
colaboração, a serviço da busca da verdade.

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PNE - QV) - CVV nº 44
Domingo da Ascensão do Senhor
(Domingo da subida do Senhor aos céus)
4 de maio de 2008
Leituras: Átos 1,1-11; Salmo 46(47),2-3.6-7.8-9;
Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20

Vamos partir para a missão!

1. Situando-nos brevemente

A Páscoa continua. Quarenta dias já se passaram. Hoje,


corrido todo este tempo, com Maria (pois estamos em pleno mês
de maio!), celebramos o mistério da Ascensão do Senhor Jesus.
Qual será o sentido deste mistério?
Nós somos, de fato, privilegiados. Sentimo-nos como os
primeiros discípulos de Jesus e, talvez, até melhores. O mesmo
Jesus ressuscitado que falou para eles também fala para nós hoje
por seu Espírito, durante a liturgia, quando são feitas as leituras
bíblicas e explicadas as Escrituras.
E ele que depois acolhe nossa profissão de fé, nossas preces
e louvores. E ele que depois nos alimenta com o pão do céu e
nos despede para a missão.
Vamos, em primeiro lugar, relembrar o que o Senhor nos
fala, para em seguida mergulharmos no sentido de sua Palavra.

2. Recordando a Palavra

Depois que Jesus ressuscitou, os seus discípulos foram se


lembrando de tudo o que fez e falou e também de tudo o que

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PNE - QV] - CVV nº 44
aconteceu com ele, a começar por sua paixão, morte e ressurrei-
ção. Inclusive registraram por escrito, cada um a seu modo, as
coisas que julgaram mais importantes para nossa fé. Registraram
as experiências de fé no Ressuscitado, vividas pelas primeiras
comunidades e seus principais protagonistas. Daí surgiram os
quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e os demais escritos
do Novo Testamento.
Hoje, por exemplo, através do Evangelho de Mateus,
vemos Jesus ressuscitado aparecendo aos discípulos sobre uma
montanha, na Galiléia. Quando viram o Mestre, prostraram-se
diante dele. Mesmo assim, alguns ainda duvidavam, observa o
evangelista. Jesus então se aproximou e falou: “Foi-me dada
toda a autoridade no céu e sobre a terra. Portanto, vão e façam
discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai
e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o
que eu lhes ordenei! E mais: eu estarei com vocês todos os dias,
até o fim do mundo”.
Lucas inicia o livro dos Atos dos Apóstolos dizendo que,
“depois da sua paixão”, Jesus “se mostrou vivo” aos apóstolos
“com diversas provas”. E que, “durante quarenta dias, apareceu-
lhes falando do Reino de Deus”. Escreve que, “durante uma
refeição”, Jesus ordenou que não se afastassem de Jerusalém,
enquanto não fosse cumprido o que o Pai prometera, isto é, que
seriam “batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias”.
Curiosa foi uma pergunta que eles dirigiram a Jesus. Ainda ima-
ginando o tal Reino de Deus em esquemas meramente políticos,
indagaram: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Isra-
el?”. E Jesus disse: “Calma! Deus vai dar um jeito. O poder do
Espírito Santo, que vai descer sobre vocês, mostrará direitinho
como vão ser as coisas daqui para a frente... E vocês vão sair daqui
pelo mundo afora, “até os confins da terra”, testemunhando a meu
respeito”. Diz a Palavra que, em seguida, “Jesus foi levado ao
céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu... E os apóstolos con-

84
PNE - QV] - CVV nº 44
tinuavam olhando para o céu”. Aí, de repente, apareceram duas
pessoas vestidas de branco, que lhes disseram: “Por que estão aí
parados, olhando para o céu”? Esse Jesus que foi levado para o
céu virá do mesmo modo que vocês viram partir para o céu”.
Paulo, escrevendo aos cristãos da comunidade de Éfeso, ao
pedir a Deus que nos faça entender em profundidade a “herança”
que nos está reservada, afirma: “Ele [Deus] manifestou sua força
em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à
sua direita nos céus, bem acima de toda a autoridade, poder, po-
tência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não
somente neste mundo, mas amda no mundo futuro. Sim, ele pôs
tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça
da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui da
plenitude universal”. E o que ouvimos na segunda leitura. Como
diz a Carta aos Hebreus: Cristo, entrando no céu, tornou-se o
verdadeiro Sumo Sacerdote no novo Santuário.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

O que celebramos hoje é muito mais que uma simples apa-


rição na qual Jesus é elevado ao céu. Celebramos toda a realidade
de sua glorificação. A expressão (ou frase) “sentou-se à direita do
Pai nos céus” é usada exatamente para dizer isso: que ele agora,
numa outra dimensão (na dimensão de sua glória, de seu senho-
rio transcendente, tão transcendente que se tornou invisível aos
nossos olhos físicos), está soberanamente bem acima de todos
os poderes, de todos os tempos e de todos os lugares. Tudo está
“sob os seus pés”, diz a Palavra do Senhor.
Isso não significa, entretanto, que Jesus simplesmente se
distanciou e separou-se de nós. “Jesus não se afastou, não foi para
outro lugar, mas ficou conosco de uma forma diferente. Antes da
Páscoa ele estava limitado: podia estar somente num lugar e não
em outro, podia falar com algumas pessoas, mas ficava distante

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PNE - QV) - CVY nº 44
das demais. Agora para ele, todas estas limitações relacionadas
com a vida deste mundo cessaram; ele está na glória do Pai, por
isso está perto de cada um de nós, sempre, em qualquer lugar, em
qualquer situação.”! A dimensão de sua glória agora é tão ampla
e profunda que, ao mesmo tempo, vitorioso e glorioso junto do
Pai, ele constitui-se também em “membro” vivo (o mais próximo,
o mais íntimo e indispensável) da comunidade cristã. Como diz
a Palavra que ouvimos hoje, Deus “fez dele, que está acima de
tudo, a Cabeça da Igreja”.
Nós, “membros” desta Igreja, cuja Cabeça é Cristo, re-
cebemos deste Cristo glorioso uma missão. E qual é a missão?
Vejam: o Evangelho de Mateus diz que foi num monte, na Gali-
léia, que Jesus manifestou-se aos discípulos. Monte representa
o programa libertador de Jesus e de sua comunidade. Galiléia
também tem um sentido: é o lugar onde Jesus iniciou sua missão
no meio de um povo pisado e marginalizado, para o qual levou
a Boa-Nova da libertação e da vinda do Reino de justiça e de
paz. Agora é para lá que os discípulos se dirigem. A partir daí,
no meio do povo explorado e sofrido, a comunidade terá que
lutar para fazer acontecer a justiça do Reino. Essa é a missão
de Cristo hoje, através de seus membros que somos nós, co-
munidade cristã. Não podemos ficar parados, só “olhando para
o céu” (cf. At 1,11). Acreditando que o Senhor está conosco
“todos os dias, até o fim do mundo”, a missão da comunidade é
lançar-se ao testemunho, trabalhando para que todos se tornem
discípulos do Mestre da justiça, mergulhando fundo (eis o sen-
tido do batismo!) no projeto libertador da Santíssima Trindade
(Pai e Filho e Espírito Santo) e se comprometendo com tudo o
que Jesus mandou fazer, para que a justiça do Reino realmente
alcance a todos.

| ARMELLINI, Fernando. Celebrando a Palavra. Ano À — São Mateus. São Paulo,


Ave-Maria, [s.d.), p. 170.

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PNE - QV) - CVV nº 44
4. Ligando a Palavra com a ação eucarística
Assumir esta missão não é fácil, pois nossas limitações es-
tão aí. “Ainda assim alguns duvidaram”, diz o Evangelho. Somos
eventualmente assaltados pelo medo do risco e do compromisso
com a prática da justiça. Daí a necessidade de permanente con-
versão ao projeto de Deus.
Por isso estamos aqui hoje para reafirmar mais uma vez
nossa fé batismal no mistério profundo, animador e empenhado
da Ascensão do Senhor Jesus. Ao recitarmos o “Creio”, firma-
mos nossa convicção de que a glorificação do Senhor é e será
também nossa glória.
Ao mesmo tempo, hoje e durante toda esta semana, que é a
semana de oração pela unidade dos cristãos, suplicamos ao Deus
de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória,
que nos dê um espírito de sabedoria e de luz, para percebermos
e vivermos, de fato, toda a riqueza da presença viva do Cristo
glorioso em nossa história.
Não podemos deixar de também aplaudir a Deus, louvá-lo e
agradecê-lo pelas maravilhas que operou em nosso favor, através
do Cristo glorioso e do Espírito que vive em nós. Como reza o
salmista, no salmo 46(47): “Povos todos do universo, batei palpas,
gritai a Deus aclamações de alegria! Porque sublime é o Senhor,
o Deus Altíssimo, o soberano que domina toda a terra”.
Hoje, mais uma vez, celebrando a Eucaristia ao redor da
mesa, também testemunhamos e proclamamos a vitória da Páscoa
do Senhor e nossa Páscoa. Por isso cantamos: “Anunciamos,
Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição! Vinde,
Senhor Jesus!”.
Na hora da comunhão, estaremos mais uma vez comun-
gando com o Cristo que, sentado à direita do Pai, é também a
Cabeça viva da Igreja. Que esta Eucaristia nos faça sentir que, ao

87
PNE - QV) - CVV nº 44
comungar com a Cabeça viva da Igreja, estamos também comun-
gando com todos os membros desta Igreja. Que esta Eucaristia,
renovando nossa comunhão em Cristo, fortaleça a nossa união e
nos dê coragem para a missão.
Assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


Preparar o Círio pascal junto à pia batismal, enfeitando-o
com flores e fitas brancas ou amarelas, conforme o gosto da
comunidade.
Hoje iniciamos a Semana de Oração pela Unidade dos Cris-
tãos: a mesa da Palavra pode ser enfeitada com uma colcha
de retalhos ou fitas coloridas. Em cada retalho ou fita, colocar
a letra inicial das Igrejas cristãs presentes na localidade.
Acender solenemente o Círio pascal e incensá-lo, enquanto a
assembléia entoa um refrão apropriado, conforme os domingos
anteriores. A comunidade pode ser também incensada.
Valorizar todas as respostas da assembléia e, ao dizer: “Ele
está no meio de nós!”, todos se dão as mãos, elevando-as.
A primeira leitura pode ser contada ou dialogada, com muita
expressão.
Cantar o salmo, se possível, acompanhado de expressão cor-
poral.
Fazer com especial unção a proclamação do Evangelho.
À profissão de fé pode ser feita com a versão ecumênica can-
tada do “Credo Apostólico”, aprovada pelo Conic (Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs).
O prefácio pode ser cantado. Nas celebrações dominicais
da Palavra, fazer a ação de graças com a seguinte louvação,
indicada no Hinário Litúrgico 2, da CNBB, p. 103:

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PNE - QV) - CVV nº 44
T: Eu vou cantar um bendito!/ Um canto novo, um louvor!
Ão Deus Pai, que nesta hora / Às chaves da glória ao Filho
entregou.
Jesus subiu para o Céu, / Ao lado de Deus, na glória
sentou.
Os anjos se admirando / Aplaudem, exclamando: “O
Homem chegou!”
Mostrando ao Pai suas chagas: / O preço da graça por
nós pagou.
E os céus se juntam com a gente /E o povo contente canta
com amor!
Santo, Santo, Santo...
O pai-nosso é a oração de todos os cristãos. Rezá-la ou can-
tá-la, de mãos dadas, em comunhão com todas as Igrejas
cristãs.
Incentivar as comunidades a fazer a Semana de Oração pela
Unidade dos Cristãos. É importante estender nosso horizonte
ecumênico, fazendo comunhão também com outras religiões
e com todo o universo que clama pela paz mundial. Já existe,
em algumas comunidades, a prática de orar em comunhão
com uma religião cada dia da novena.
Muitas comunidades celebram a festa de Pentecostes, come-
cando com uma bonita vigília, que retoma a vigília da Páscoa
e dá a Pentecostes a densidade e a plenitude da festa pascal.
Mais adiante, neste livrinho, sugerimos um roteiro de cele-
bração para a Vigília de Pentecostes, conforme apresenta o
ODC, p. 588.
Dar destaque especial ao envio em missão, no final, com a
bênção solene, conforme o Missal Romano.
Quanto às músicas para a celebração, a Paulus tem publicado o
CD Liturgia XVI — Páscoa — Ano A, com os cantos do Hinário
Litúrgico da CNBB (2ºfascículo) referentes ao Tempo Pascal.
Gravado pelo coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba,

89
PNE - QV] - CVV nº 44
sob a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso, este CD é bem
indicado para as comunidades prepararem os cantos da cele-
bração.
Há ótimas melodias para as partes fixas da liturgia, a serem
cantadas pela presidência e assembléia, que foram publicadas
pela Paulus no CD Cantar a liturgia: presidência e assem-
bleéia. Produzido pela CNBB Regional Sul II, trata-se de numa
gravação do coral Palestrina da Arquidiocese de Curitiba, sob
a regência da Ir. Custódia Maria Cardoso.
Domingo de Pentecostes
|. Na vigília
(Dia da espera pela renovação de toda a terra)
IO de maio de 2008
Leituras: Gênesis 11,1-9 (ou: Exodo 19,3-84.16-20b;
ou: Ezequiel 37,1-14; ou: Joel 3,1-5);
Salmo 103(104),1-29.24.35€0.27-28.29bc-30;
Romanos 8,22-27; João 7,37-39

Vinde, Espirito divino!

1. Situando-nos brevemente

Estamos na vigília de Pentecostes, uma das celebrações


privilegiadas da nossa tradição. Pentecostes tem a ver com a
palavra grega penta, que quer dizer “cinco” ou “cinco vezes”.
Quando dizemos que o Brasil é “penta”, todos entendemos: cinco
vezes campeão de futebol. “Pentecostes” significa “cingiienta
dias” ou “quinquagésimo dia”.
Na religião judaica, no tempo de Jesus, havia uma festa
muito importante entre os judeus. Cinquenta dias depois da
Páscoa (no quinquagésimo dia depois da Páscoa, portanto), eles
celebravam a grande festa da nação — a festa da aliança com Deus
e a promulgação da lei mosaica no Sinai. Chamavam-na “Festa
do Qiuinquagésimo Dia” ou, simplesmente, Pentecostes.
Precisamente nesse dia, os discípulos de Jesus, depois de
sua morte, ressurreição e ascensão, estavam reunidos numa sala,
provavelmente celebrando a festa judaica. Eles eram judeus! Mas,
ao mesmo tempo, em oração, com a Bíblia na mão, refletiam e

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comentavam sobre tudo o que tinham visto e ouvido a respeito
de Jesus naqueles recentes cinquenta dias. De repente, veio a
espetacular “explosão do Espírito Santo” e eles começaram a
anunciar a Salvação de Jesus Cristo para todos os povos, línguas
e nações... e todos entendiam perfeitamente o que diziam.
Esse dia passou a ser para eles, como também para nós
cristãos, um dia especial de festa. Estamos na sua Vigília. Neste
clima de Vigília, o Deus vivo nos fala, quando são feitas as leitu-
ras. Vamos primeiro lembrar o que o Senhor nos diz, para então
mergulharmos no sentido do mistério que estamos celebrando.

2. Recordando a Palavra

Hoje, através do Evangelho de João, Jesus nos fala do


Espírito que ele dará aos que nele tiverem fé, depois que for
glorificado por sua cruz e ressurreição. “Se alguém tem sede,
venha a mim, e beba. Aquele que crê em mim... rios de água viva
jorrarão do seu interior”. Diz o evangelista que “Jesus falava do
Espírito, que deviam receber os que tivessem fé nele; pois ainda
não tinha sido dado o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido
glorificado”.
Paulo, na Carta aos Romanos, bem depois de Jesus ter sido
glorificado e o Espírito Santo, dado aos que nele acreditaram,
faz uma interessante reflexão sobre a presença deste Espírito
que “intercede em nosso favor com gemidos inefáveis”. Toda
a criação e, com ela, todos os cristãos “estamos interiormente
gemendo, aguardando a adoção filial e a libertação para nosso
corpo”. O Espírito já nos foi dado, “já temos os primeiros frutos
do Espírito”, mas ainda continuamos “gemendo como que em
dores de parto”. São as dificuldades da vida, as perseguições etc.
Qual é, então, a função da presença do Espírito? Interceder por
nós, vir “em socorro da nossa fraqueza”, dando-nos coragem e
perseverança na dura caminhada em direção à futura participa-

92
PNE - QV) - CVV nº 44
ção plena, certa e definitiva da vitória do Senhor ressuscitado na
Jerusalém celeste.
A partir do dom do Espírito na Páscoa, “descoberto” pelos
discípulos cinquenta dias depois (na festa judaica de Pentecos-
tes), os cristãos perceberam que ele veio reparar a confusão das
línguas gerada pela construção da Babel (cf. Gn 11,1-9). Em
outras palavras, ele veio restabelecer a unidade na diversidade
de povos e nações.
A partir do dom do Espírito na Páscoa, “descoberto” pelos
discípulos cinquenta dias depois (na festa judaica da promulgação
da lei mosaica, da “Constituição” ou “Carta Magna” do povo
judaico [cf. Ex 19,3-8a.16-20b]), teve início a promulgação da
Salvação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, ao mundo inteiro.
Nesse dia, começou a ser constituído o novo povo de Deus. Não
só Israel, mas todos os povos passaram a ser alcançados, cada
um em sua própria língua. Nasceu a Igreja. Todos, na força do
Espírito, puderam, daí em diante, se tornar membros do único
corpo de Cristo.
A partir do dom do Espírito na Páscoa, “descoberto” pelos
discípulos cinquenta dias depois (na festa judaica de Pentecostes),
os cristãos passaram a ver nos milhares de ossos ressequidos
voltando à vida, contemplados pelo profeta Ezequiel, a figura da
renovação operada pelo Espírito na Páscoa de Jesus e na nossa
Páscoa (cf. Ez 37,1-14). Estávamos mortos e voltamos à vida.
A partir do dom do Espírito na Páscoa, “descoberto” pelos
discípulos cinquenta dias depois (na festa judaica de Pentecostes),
os cristãos compreenderam o que o Senhor havia expressamente
prometido pelo profeta Joel: “Derramarei o meu espírito sobre
todo ser humano [...] também sobre meus servos e servas, naque-
les dias, derramarei o meu espírito [...]. Então, todo aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo [...] haverá salvação [...]
entre os sobreviventes que o Senhor chamar” (cf. J1 3,1-5).

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PNE - QV] - CVV nº 44
3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

Pelo que podemos perceber através do Evangelho de


João, o Espírito Santo foi transmitido aos discípulos de Jesus
no próprio dia da Páscoa (cf. Jo 20,19-23). Conforme Lucas
(cf. At 2,1-11), somente cingiienta dias depois, precisamente
na festa judaica de Pentecostes, os discípulos experimentaram,
para valer, que Jesus não havia se distanciado nem se afastado
deles. Experimentaram que Jesus, agora em outra dimensão,
isto é, invisível e glorioso no céu, sentado à direita do Pai, está
totalmente presente (como que escondido), pelo seu Espírito, no
âmago da comunidade dos que crêem nele. Assim, vivenciaram
uma verdadeira “explosão” do Espírito, que colocou a cabeça de
todos “a mil” e os lançou para o mundo afora, a anunciar a todos
os povos e línguas a Salvação do Cristo morto e ressuscitado.
Nossa vida pessoal, comunitária ou eclesial, muitas vezes
é tão difícil, tão cheia de problemas! Não só sofremos. Todo o
planeta Terra chora lágrimas de dor. Problemas de violências,
guerras, fome, doenças, milhares de inocentes sacrificados
pela ganância de poderosos sem ética. Toda a criação e, com
ela, milhares de pessoas, “está gemendo como que em dores
de parto”.
Em meio à confusão da Babel que provoca todo esse
pranto sobre o regaço de nossa querida mãe Terra, existe al-
guém “que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis”.
O Espírito do Senhor Jesus, vitorioso sobre todos os sinais de
morte, se fez nosso gemido de dor (somos a morada dele!) e,
assim, nos sentimos por ele consolados e fortalecidos em nosso
peregrinar: “Pai dos pobres... consolo que acalma... no labor
descanso, na aflição remanso, no calor aragem... luz bendita,
chama que crepita”; são estes alguns títulos dados a esta Pre-
sença amorosa do divino, no âmago de cada um de nós e de
nossas comunidades.

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PNE - QV) - CVV nº 44
4. Ligando a Palavra com a ação eucarística
Revivendo hoje esta presença amorosa do Espírito con-
solador derramado em nós na Páscoa de Jesus, resta-nos agora
firmar nossa fé no testemunho entusiasmado dos apóstolos. Ao
recitarmos o “Creio”, fortalecemos e aprofundamos nossa fé em
toda a obra de Jesus.
Ao mesmo tempo, renovamos o pedido que fazemos ao
recitar o salmo 103(104): “Envia o vosso Espírito, Senhor, e da
terra toda a face renovar”. O Espírito já foi derramado sobre nós.
O que pedimos é a graça de termos, dentro de nós, a disposição e
a abertura para deixar o Espírito realmente “explodir”, com seus
dons, em nós, em nossas comunidades, para o bem da humanidade
e de toda a criação.
Ao mesmo tempo, a Deus agradecemos e louvamos, a
Deus dirigimos nossa ação de graças, por ter-se manifestado tão
misericordioso para conosco, a ponto de fazer de nós, por seu
Espírito, sua morada.
E pelo Espírito que entramos em profunda comunhão com
Deus, com nossos irmãos e com toda a criação, na Eucaristia
que celebramos em memória da Páscoa de Jesus e de nossa
Páscoa. Experimentamos esta comunhão ao participarmos, na
santa missa, em torno da mesa sagrada, da verdadeira Ceia
pascal.
Que a comunhão na Eucaristia nos ajude a viver sempre
inflamados por aquele Espírito que foi derramado sobre os
apóstolos e, assim, possamos sair daqui renovados para a mis-
são cristã de ajudar a construir uma sociedade em que reinem a
reconciliação e a paz.
Que assim seja! Amém! Aleluia!

95
PNE - QV) - CVV nº 44
5. Indicações de um roteiro para a celebração
O Missal Romano, além da Missa da Vigília, apresenta, em
seu Apêndice, uma alternativa de “Missa na Vigília de Pen-
tecostes” com indicação das leituras a serem proclamadas.
Oferecemos a seguir outra sugestão de um roteiro para a ce-
lebração:
1º Momento
1. Chegada
— À Vigília da Páscoa, ligada historicamente à iniciação
cristã, tem por natureza uma dimensão de intimidade.
Começa fora e conduz para dentro do templo. A Vigília
de Pentecostes, relacionada ao nascimento da Igreja e
à sua missão, faz o movimento inverso, de dentro para
fora. É convite aos que testemunharam a ressurreição
para que saiam e dêem testemunho desta vida que vence
a morte. A fim de expressar esse sentido, a celebração
pode começar dentro da igreja ou salão e terminar ao
ar livre.
— Enquanto as pessoas vão chegando, o grupo de cantores
e cantoras entoa músicas de chegada, por exemplo, “Ele
vem chegando...” (ODC, p. 443).
— O Círio aceso pode marcar o início da celebração,
acompanhado de um refrão meditativo, invocando o
Espírito: “Vem, a nós santo Espirito!”.
2. Abertura
— Entra a bandeira do Divino: uma porta-bandeira, com
veste adequada, percorre o meio da Igreja, passando
pelo altar e depois pela assembléia, dando às pessoas a
possibilidade de beijar a bandeira.
— Cantos: de folia do Divino, ou a bandeira do Divino,
ou “Deus chama a gente para um momento novo...”, ou
Abertura do ODC, p. 588.

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PNE - QV) - CVV nº 44
3. Acolhida e recordação da vida
— Por ser o dia em que celebramos o nascimento da
Igreja e sua vocação à unidade, é importante dedicar
um momento para acolher as pessoas da comunidade
e os visitantes, apresentar alguém que esteja vindo
pela primeira vez, lembrar os ausentes.
— Como recordação da vida, a comunidade pode lem-
brar o sentido da festa e os fatos que são sinais de
um novo Pentecostes acontecendo hoje, ou mesmo
situações que são sinais contrários ao Espírito de
Jesus.
4. Hino: “A nós desceil... 29
ou “Nós estamos aqui
reunidos...”.
5. Oração
Ó Deus, ternura de paz e Mãe do universo, nós vos
bendizemos pela alegria deste Tempo Pascal. Neste dia
em que Jesus ressuscitado nos dá o Espírito de amor;
recebei o louvor que sobe a vós, de todas as nações na
diversidade de suas línguas e expressões. Por Cristo,
nosso Senhor. Amém.
2º Momento
6. Salmo 67(68)
“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).
Celebrando a manifestação do Senhor, nas lutas das anti-
gas tribos de Israel e nas procissões ao templo, adoremos
a ele, presente e atuante em nossa caminhada, e peçamos
que realize no meio de nós um novo Pentecostes.
Refrão: “O Espírito do Senhor, / O universo todo encheu, /
Tudo abarca em seu saber. / Tudo enlaça em seu amor:
Aleluia!” (8 vezes). (Estrofes do salmo 68/67], parte
A, ODC, p. 85. Ão final do salmo, repetir um verso ou
uma palavra que tenha calado mais fundo.)
Oração sálmica: “Ó Deus, garantia de nossas vitórias,
bendito sejais porque sempre caminhais à frente de vos-

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PNE - QV) - CVV nº 44
so povo e porque sois o Deus de nossa libertação. Fazei
que vivam em paz todas as pessoas que vos procuram
e gozem da consolação de vosso Espírito todos os que
lutam e sofrem. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”.
7. Leitura do livro do Éxodo 19,3-8a.16-20b
8. Salmo responsorial 18(19)
Agradeçamos ao Senhor que nos revelou seus manda-
mentos e preceitos, especialmente na pessoa de Jesus,
Caminho, Verdade e Vida!
Refrão: “4 Palavra de Deus é a verdade, sua lei é
liberdade!” (estrofe do salmo 19[18], parte B, ODC,
p. 36.)
9. Leitura do livro do profeta Ezequiel 37,1-14
10. Salmo responsorial 103(104)
Como uma meditação sobre a história da criação,
cantemos ao Criador este hino de louvor e peçamos
força para restabelecer no mundo a justiça e a ordem
do universo.
Refrão: “Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da
terra!” (estrofe do salmo 104[103], ODC, p. 137.)
11. Leitura da Carta aos Romanos 8,22-27
12. Sequência de Pentecostes
(A assembleia acende a sua vela no Círio pascal, en-
quanto canta a Segiiência. Mantém-se a vela acesa
durante a proclamação do Evangelho.)
Refrão: “A nós descei, divina luz! (bis) / Em nossas
almas acendei / O amor, o amor de Jesus!” (bis). (Es-
trofes do ODC., p. 345.)
13. Evangelho de Jesus Cristo segundo João 7,37-39
14. Bênção da água
D: Ó Deus, bendito sejais, pela água que recorda
para nós o mistério de todos os êxodos de
ontem e de hoje. Pelo batismo nos fizestes
mergulhar nas águas do vosso amor, e assim

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PNE - QV) - CVV nº 44
passamos da morte para a vida, da tristeza para
a alegria, da escravidão para a liberdade. Pelo
sinal desta água, derramai sobre nós o vosso
Espírito Santo, para sermos fiéis ao mistério
da reconciliação a nós confiado, em nome de
Jesus, nosso Senhor.
T: Amém.
15. Compromisso com a unidade.
D: Vocês crêem em Deus, Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo, adorado com nomes diferentes
pelos diversos povos e religiões?
Cremos.
Crêem em Jesus Cristo nosso Salvador, que
assumiu nossa condição humana, tornando-se
irmão e companheiro de todas as raças e cultu-
ras? Ele que morreu para reunir todos os filhos
e filhas de Deus, dispersos pelo mundo, ele que
ressuscitou € vive conosco?
Cremos.
Créem no Espirito Santo, Mãe de ternura, sopro
de Vida, Energia de Unidade e Paz, presente e
atuante em todo o universo?
Cremos.
Crêem na fraternidade universal de todos os se-
res vivos e na comunhão com todos os que, pela
força de seu batismo e pelo impulso do Espírito
Santo, anunciam e vivem em fraternidade?
Cremos.
Confiados na graça de Deus, vocês prometem,
pessoal e comunitariamente, acolher todas as
pessoas como irmãs e irmãos e fazer de nossa
comunidade um espaço de comunhão e um
sinal da unidade que Deus quer para a humani-
dade?

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PNE - QV) - CVV nº 44
T: Prometemos.
D: Vocês se comprometem a orar permanentemente
pela unidade dos cristãos e pelo diálogo e co-
munhão entre todas as religiões e culturas, em
vista da construção da paz na terra e da defesa
de toda a criação?
T: Prometemos.
D: Vocês se comprometem a jamais favorecer a
divisão dos cristãos e atuar contra quaisquer
formas de exclusão no mundo e nas Igrejas?
T: Prometemos.
D: Vocês prometem trabalhar pela unidade no
serviço da justiça, no campo e na cidade, na
solidariedade a todas as pessoas desempregadas,
oprimidas e excluídas deste mundo?
T: Prometemos.
D: Deus, fonte de amor, confirme em nós o que ele
mesmo inspirou e nos dê a graça de realizar este
compromisso em nome de Jesus Cristo, nosso
Senhor.
T: Amém.
(Neste momento, a assembleia é aspergida com a água
que foi abençoada. O gesto é acompanhado de um canto
apropriado. Exemplo: “Eu vi, eu vi, vi foi água a ma-
nar... ”.)
3º Momento
16. Procissão
(A assembléia sai em procissão, com suas velas acesas,
para local onde foi preparada uma fogueira, cantan-
do de novo a Segiiência e outros hinos de Pentecostes.
Chegando ao local, alguém acende a fogueira com o
fogo do Círio, dizendo: “A luz de Cristo ressuscitado
resplandeça no meio de nossas Igrejas, para que seja-
mos sinal de unidade e de paz ”.)

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PNE - QV) - CVV nº 44
17. Bênção do fogo
D: Bendito sejais, Senhor, pelo fogo. Com seu calor ele
aquece nossa vida e com sua luz alegra nossa noite.
Este fogo é o sinal do Espirito Santo, que vosso
Filho ressuscitado nos dá. Que ele ilumine nossos
caminhos e coloque em nós o vigor da sua força,
agora e sempre.
T: Amém.
18. Louvor do universo
(Com o fogo da fogueira, sejam acesas quatro tochas
na direção dos quatro pontos cardeais. Duas pessoas,
retomando a bandeira do Divino e percorrendo o circulo
ao redor da fogueira, entoam o Bendito, seguindo a di-
reção das tochas. Cada estrofe será cantada na direção
de uma tocha diferente a cada ponto cardeal: “É bom
cantar um bendito, /um canto novo, um louvor, /e bom
cantar um louvor!)
T: E bom cantar um bendito, / um canto novo, um lou-
vor; / é bom cantar um louvor!
Ao Pai que hoje por sobre seus filhos / O Espirito
seu derramou!
Uma esperança começa / De seu Filho cumpriu-se a
promessa!
Pois o Espírito Santo, o Divino / À Igreja primeira
animou!
Mudando o medo em forte paixão / Com a força da
sua unção.
Pois o Espírito, povos diversos / numa única fé con-
gregou!
Da confissão que se deu em Babel / o inverso hoje
aconteceu!
Ao celebrar-se de gosto esta festa / Que o mundo
inteiro alegrou!

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PNE - QV) - CVV nº 44
E se juntam a terra e os céus / Canta e exulta o povo
de Deus!
Santo, Santo, Santo...
(Todos dançam ao redor da fogueira.)
4º Momento
19. Ação de graças sobre os alimentos
(Se houver Eucaristia, segue a Oração Eucarística em
uma mesa diante do fogo de Pentecostes. E interessante
que outros alimentos venham com o pão e o vinho, con-
forme o costume local — pipoca, milho verde, pinhão... —,
para serem repartidos no final. Se não houver Eucaris-
tia, esses alimentos podem ser abençoados e repartidos,
em um dgape fraterno.)
20. Oração final
D: Ô Deus, fizeste-nos experimentar, hoje, o calor de
vosso amor maternal, derramando sobre nós o vosso
Espírito Santo. Que na força deste amor caminhemos
na comunhão visível com todas as Igrejas cristãs,
assumindo a causa do diálogo e da comunhão entre
todas as religiões e culturas, a serviço da paz no
mundo e da preservação da terra. Por Cristo, nosso
Senhor.
T: Amém.
5º Momento
21. Bênção
D: O Deus que derramou em nossos corações o seu amor
nos encha de alegria e consolação.
T: Amém.
D: Que o seu Espírito nos dê força e perseverança no
serviço do Reino, agora e sempre.
T: Amém!

102
PNE - QV) - CVV nº 44
|. Domingo de Pentecostes
(Domingo do dom do Espirito)
| | de maio de 2008
Leituras: Atos 2,1-11; Salmo 103(104), lab. 24ac.29bc-30.31.34;
1 Corintios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23

A Igreja, o Espirito e a unidade

1. Situando-nos brevemente

Depois de uma longa caminhada de cingienta dias de


celebração pascal, o Senhor nos reúne hoje para celebrarmos a
plenitude da Páscoa — o dom do Espirito Santo para todos nós.
Que bom estarmos reunidos novamente, especialmente
neste dia, dia do Senhor e dia das Mães; reunidos em comunidade
para ouvir a Palavra de Deus, renovar e fortalecer nossa fé, fazer
nossos pedidos ao Senhor, agradecer-lhe pelo enorme bem que fez
por nós na Páscoa, alimentar-nos com sua presença e, imbuídos
do Espirito de Jesus, partirmos em missão como testemunhas da
sua ressurreição.
Acabamos de ouvir sua Palavra e, agora, vamos refletir
sobre ela, primeiro tentando recordar o que o Senhor nos disse,
para depois mergulharmos mais fundo no mistério da festa de
hoje, Pentecostes.

2. Recordando a Palavra

A notícia já é conhecida. Nós já a ouvimos, quando es-


távamos reunidos há algumas semanas. Hoje ela se repete. No

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primeiro dia da semana, cedinho, três dias depois que Jesus
morreu, a sepultura dele fora encontrada vazia. Ele havia ressus-
citado. Nesse mesmo dia, à tarde, os discípulos de Jesus faziam
uma reunião, provavelmente para pensar juntos sobre tudo o
que tinha acontecido e estava acontecendo. Tratava-se de uma
reunião meio clandestina, a portas fechadas, pois sentiam medo
de ser presos também e de talvez passarem pelo “vexame” que
o Mestre havia passado.
De repente, quem eles viram?! Sem a porta se abrir, o
próprio Jesus apareceu ali no meio deles e saudou a todos, di-
zendo: “A paz esteja com vocês”. Então, provou ser ele mesmo
mostrando-lhes as mãos e o lado com as marcas das chagas. Os
discípulos ficaram cheios de alegria, pois viam o próprio Jesus,
que os saudou uma segunda vez: “A paz esteja com vocês”, e
ainda acrescentou: “Como o Pai me enviou, também eu envio
vocês”. Depois Jesus soprou sobre todos e falou: “Recebam o
Espírito Santo. A quem vocês perdoarem os pecados eles serão
perdoados; a quem os retiverem, ficarão retidos”.
No domingo passado, nós celebramos o mistério da As-
censão de Jesus aos céus. Depois de quarenta dias aparecendo,
conversando, comendo com os seus discípulos, de repente ele
desaparece. Desaparece de vez. Mas antes Jesus lhes pede para
não irem embora da cidade (Jerusalém), pois Deus tinha ainda
uma surpresa para eles: seriam “batizados com o Espírito Santo,
dentro de poucos dias”. Batizados com o Espírito Santo?
Dias depois, exatamente no dia da festa judaica de Pente-
costes, como vimos na primeira leitura, os discípulos estavam
reunidos numa sala. Podemos até imaginar do que tratavam nessa
reunião: além de celebrarem a festa, fazendo orações etc., com a
Bíblia na mão, refletiam, com certeza, sobre o que significavam
aquele sumiço de Jesus e o tal Espírito Santo que lhes fora pro-
metido e que eles aguardavam.

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De repente, depois de muita oração, conversa e reflexão,
surpreendentemente, como costumamos dizer, “a ficha caiu”.
Suas mentes abriram-se, começaram a entender, finalmente,
com impressionante nitidez e profundidade, o que queria dizer a
morte e ressurreição de Jesus, bem como seu aparente sumiço e
o Espírito Santo prometido. Compreenderam que, na verdade, o
Senhor glorioso não se havia afastado nem se distanciado deles.
Muito pelo contrário. Jesus se fazia intensamente presente, porém
agora de outro jeito, de forma invisível, pelo seu Espírito. Viram
que a dimensão da glória de Jesus era tão ampla e profunda que,
ao mesmo tempo vitorioso e glorioso junto do Pai, ele constituía-
se também em membro vivo (o mais próximo, o mais íntimo e
indispensável) da própria comunidade cristã. Como afirma o
apóstolo Paulo: Deus “fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça
da Igreja” (Ef 1,22).
Como vimos na primeira leitura, o autor dos Atos dos Após-
tolos, para descrever e realçar aquele momento de esplêndida
“iluminação” dos discípulos — verdadeira “explosão” do Espírito
Santo que, na verdade, já estava neles —, chega a usar uma lin-
guagem fantástica e impressionante. Fala de um barulho vindo
do céu, “como se fosse uma forte ventania”; de “línguas como
de fogo, que se repartiam e pousavam sobre cada um deles”. Diz
que começaram “a falar em outras línguas”. Refere-se ao povo
curioso e meio confuso, gente de todo tipo e lugar, que se juntava
para ver e ouvir aqueles homens embriagados de entusiasmo (cf.
At 2,15), anunciando de tal maneira “as maravilhas de Deus”,
que todo mundo os entendia na sua própria língua. Realmente, a
descoberta que fizeram foi estrondosa, fantástica, espetacular!
Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, menciona a Igreja
como corpo de Cristo animado pelo mesmo Espírito. Primeiro,
diz que “ninguém pode afirmar que Jesus é o Senhor, a não ser
no Espírito Santo”. Em seguida, assevera que, neste corpo, do
qual todos somos membros, e Cristo é a Cabeça, há diversidade

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de dons, ministérios, atividades, mas “num mesmo Espírito”.
Por quê? Porque, de fato, todos “fomos batizados (mergulhados)
num único Espirito, para formarmos um único corpo, e todos nós
bebemos de um único Espírito”. É o que ouvimos na segunda
leitura.

3. Refletindo sobre a Palavra e atualizando-a

O Evangelho de João nos faz pensar que o Espírito San-


to foi comunicado por Jesus aos discípulos no próprio dia da
Páscoa. O Espírito, então, sempre esteve com eles. Mas foi no
dia de Pentecostes que, a partir daquela esplêndida e explosiva
“iluminação”, esta realidade passou também a se manifestar ao
mundo. Por isso, nos Atos dos Apóstolos, ele aparece em forma
de línguas, operando o milagre das línguas (todos entendiam em
sua própria língua) e reparando a “confusão babilônica”.
Coincidentemente, no dia em que a religião judaica cele-
brava a festa da promulgação da lei mosaica (a “Constituição”
ou “Carta Magna” da nação judaica), cinquenta dias depois da
Páscoa (daí a palavra “Pentecostes”: festa do qiinquagésimo
dia), é que, a partir daquela esplêndida “iluminação”, também
começou para valer a promulgação da Salvação de Jesus Cristo,
morto e ressuscitado, ao mundo inteiro. Nesse dia, começou a
ser constituído o novo povo de Deus. Não só Israel, mas todos
os povos passaram a ser alcançados, cada um em sua própria
língua. Nasce a Igreja. Todos, na força do Espírito, puderam, daí
em diante, se tornar membros do único corpo de Cristo para que,
assim, o mundo seja salvo.
O Espírito Santo foi dado pelo Ressuscitado aos discípulos
para que, no mesmo Espírito, fazendo o exercício do perdão,
todos tenham a chance de viver em paz uns com os outros, recon-
ciliados, hoje e nos tempos futuros. “A quem vocês perdoarem
os pecados, serão perdoados...”.

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O Espírito do Senhor, exaltado no dia de hoje, “é o laço
do amor divino que nos une, que transforma o mundo em nova
criação, sem mancha nem pecado, na qual todos entendem a
voz de Deus. É essa a mensagem da Liturgia de hoje. O mundo
é renovado conforme a obra de Cristo, que nós, no seu Espírito,
levamos adiante. Nesse sentido, é a festa da Igreja que nasceu do
lado aberto do Salvador e manifestou sua missão no dia de Pen-
tecostes. A Igreja que nasce, não de organizações e instituições,
mas da força graciosa (“carisma”) que Deus infunde no coração e
nos lábios. A festa de hoje nos ajuda a entender o que é renovação
carismática: não uma avalanche de fenômenos estranhos, mas
o espírito do perdão e da unidade que ganha força decisiva na
Igreja. O Espírito Santo é a “alma” da Igreja, o calor de nossa fé
e de nossa comunhão eclesial [...]. A Igreja, por sua unidade no
Espírito, no vínculo da paz (Ef 4,3), torna-se sacramento (sinal
operante) do perdão, da unidade, da paz no mundo, na medida em
que ela o coloca em contato com o senhorio do Cristo pascal”,
na evangelização e na vivência do amor.

4. Ligando a Palavra com a ação eucarística


Cinquenta dias depois da Páscoa, neste dia do verdadeiro
Pentecostes, em que celebramos a “constituição” do novo povo de
Deus (a Igreja) para levar adiante a obra de Cristo, firmamos nossa
fé em todas as maravilhas que Deus revelou. É o que fazemos,
quando recitamos, juntos, o símbolo apostólico: o “Creio”.
Suplicamos ao Senhor Deus que faça de todos nós “pessoas
iluminadas”, que enxerguem com profunda clareza o sentido da
presença do Cristo em nossas vidas e em nossas comunidades,
para que, como os apóstolos, tenhamos ousadia e coragem para
testemunhá-lo a todas as pessoas nos dias de hoje.

| Konings, Johan. Liturgia dominical, mistério de Cristo e formação dos fiéis (anos
A-B-C).2.ed. Petrópolis, Vozes, 2003. p. 122.

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Deus fez tudo por nós, deu tudo por nós. Mais, impossível.
Assim é Deus! Uma Mãe: tão bom que ele é! Por isso, queremos
também louvá-lo e agradecê-lo por sua impressionante história de
amor por nós, como contemplamos em todo este Tempo Pascal.
Sim, a Deus seja o nosso louvor, a nossa ação de graças, a nossa
Eucaristia, neste dia do Senhor e dia das Mães.
Além de nos alimentar com sua Palavra, o Pai também
nos dá em alimento o seu próprio Filho na sagrada comunhão.
Comungando o Corpo do Senhor, comungamos nele, ao mesmo
tempo, todos os membros deste corpo, que se fez Igreja por obra
do Espírito Santo.
Deus fez tudo por nós, deu tudo por nós. Mais, impossível.
Agora, é nossa vez. Para tanto, alimentados pela Palavra e pelo
Pão do céu, possamos ter força e coragem para levar adiante a
obra de Jesus, para que todos tenham vida e vida eterna.
Assim seja! Amém! Aleluia!

5. Sugestões para a celebração


* Preparar o local da celebração, destacando o Círio pascal, a
pia batismal, as mesas da Palavra e da Eucaristia, com a cor
litúrgica da festa, o vermelho. Preparar um candelabro para
colocar as sete velas, que serão trazidas na procissão de en-
trada.
* Uma mãe pode acender e incensar o Círio pascal, enquanto a
assembléia entoa um refrão apropriado, conforme os domingos
anteriores. A comunidade pode também ser incensada.
* Valorizar a participação das mães nos vários momentos.
* Procissão de entrada com as pessoas que exercem algum
ministério na comunidade, trazendo, além da cruz e do Le-
cionário (ou, na ausência deste, a Bíblia), sete velas grandes
acesas, lembrando as Igrejas que recebem em Pentecostes
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a missão de testemunhar a ressurreição. Onde for costume,
trazer também a bandeira do Divino.
* Caso não se traga o Lecionário na procissão de entrada, após
oração da Coleta fazer sua entrada solene para a Liturgia da
Palavra.
* À primeira leitura pode ser contada com muita expressão, se
possível de cor.
* Durante o canto do Salmo, um grupo de jovens ou crianças,
com vestes coloridas e uma tocha ou vela grande na mão, faz
uma dança, envolvendo a assembléia com a luz e o calor do
Espírito Santo.
* Durante o canto da Sequência: “A nós descei...”, a assembléia
acende suas velas no Círio e nas sete velas ou tochas, man-
tendo-as acesas até o final do Evangelho.
* Aproclamação do Evangelho pode ser cantada. No final, quem
preside repete para as lideranças da comunidade presentes a
frase: “A paz esteja com vocês. Como o Pai me enviou, assim
também eu envio vocês. Recebam o Espírito Santo!”. Esta
mesma frase é dita para toda a assembléia e, depois, cada
pessoa a repete para quem estiver perto, soprando ou beijan-
do-lhe a testa e dando-lhe um abraço fraterno.
* No momento da profissão de fé, todas as pessoas que exercem
algum serviço na comunidade podem se aproximar do Círio pas-
cal, junto à pia batismal, e renovar sua consagração ao serviço
da comunidade. Um(a) representante de cada serviço expressa
em voz alta e todos participam do refrão, cantando: “Vem,
Espírito Santo, vem, vem iluminar!” ou “confirmar”! No final,
aspergir toda a assembléia com a água batismal perfumada.
* O mesmo grupo que dançou, na hora do Salmo, pode fazer
uma coreografia em volta do altar, durante o canto do “Santo”,
e permanecer ladeando a mesa eucarística até o momento da
comunhão.

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* Nofinal da Oração Eucarística, quem preside canta a doxologia
final (“Por Cristo, com Cristo e em Cristo...”), valorizando
inclusive o “Amém” da assembléia. Sendo este “Amém” a
“assinatura” da assembléia a tudo o que foi proclamado na
Oração Eucarística, é sumamente recomendável que ele seja
solenemente cantado. Para valorizar este “Amém”, reserva-
se a proclamação da doxologia final só para quem preside, a
quem, de fato, compete esta parte. Se a assembléia rezar junto
a doxologia, o “Amém” (que é sumamente importante em
termos celebrativos) perde sua força como fecho e conclusão
definitiva de toda a Oração Eucarística.
* No final da celebração, fazer uma carinhosa homenagem às
mães presentes, neste dia de Pentecostes, em que Deus nos
mostra também seu rosto e seu carinho de Mãe no Espírito
que nos foi dado.
Sumário

Apresentação................ce
essere cereeerraenceererananananaerenanananacerenanananaseeaaa ara 5
A liturgia no Tempo Pascal....................
e eeererererererereeneaaaaananera 6
Quinta-Feira da Semana Santa — Celebração da Ceia do Senhor (início do
Tríduo Pascal) — 20 de março de 2008
(Ex 12,1-8.11-14; S1 115[116B],12-13.15-16bc.17-18; 1Cor 11,23-26;
Jo BIAS) err rerrereereereerererrerteraerar
terre rante aerar tesao rara era e rea ra rara ea reraeratis 12
Sexta-Feira da Paixão do Senhor — 21 de março de 2008
(Is 52,13-53,12; SI 30(31),2.6.12-13.15-16.17.25; Hb 4,14-16-5,7-9;
Jo 18,1-19,42) ..........nnn nn ererrrerrrererrraraaaarererenenana
rear nraaeaanrasaaana 20
Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor — I. Vigília pascal (A mãe
de todas as vigílias) — 22/23 de março de 2008
(Gn 1,1-2,2 [ou 1,1.26-3 1a]; SI 103[104],1-2a.5-6.10.12.13-14.24.35c
[ou 32[33],4-5.6-7.12-13.20-22]; Gn 22,1-18 [ou 22,1-2.9a.10-13.15-18];
S1 15[16],5.8.9-10.11; Ex 4,15-15,1; Ct: Ex 15,1-2.3-4.5-6.17-18;
Is 54,5-14; S1 29[30],2.4.5-6.11.12a.13b; Is 55,1-11; SI [Is 12,2-3.4bcd.5-6];
Br 3,9-15.32-4,4; Sl 18b[19],8.9.10.11; Ez 36,16-17a.18-28;
S1 41[42],3.5bcd + 42,3.4; Rm 6,3-11;
S1117[118],1-2.16ab-17.22-23; Mt 28,1-10)...............0.0n.....e eee 27
H. No dia da Páscoa (Domingo do túmulo vazio) — 23 de março de 2008
(At 10,34a.37-43; S1 117[118],1-2.16ab-17.22-23; C13,1-4 [ou,
à escolha, 1Cor 5,6b-8]; Jo 20,1-9; [ou, à tarde: Lc 24,13-35))............. 38

2º Domingo da Páscoa (Domingo de são Tomé) —


30 de março de 2008
(At 2,42-47; S1 117[118],2-4.13-15.22-24; IPd 1,3-9; Jo 20,19-31) .....45
3º Domingo da Páscoa (Domingo dos discípulos de Emaús) —
6 de abril de 2008
(At 2,14.22-33; Sl 15[16],1-2a.5.7-8.9-10.11; 1Pd 1,17-21;
Le 24,13-35) .........e ereto ererace rena raaaneeaasanananenenenanenanaartaaaada 52
4º Domingo da Páscoa (Domingo do Bom Pastor) —
13 de abril de 2008
(At 2,14a.36-41; S1 22[23],1-3a.3b-4.5.6; 1Pd 2,20b-25; Jo 10,1-10)...59
5º Domingo da Páscoa (Domingo das muitas moradas) —
20 de abril de 2008
(At 6,1-7; S1 32[33],1-2.4-5.18-19; 1Pd 2,4-9; Jo 14,112) ................... 67

6º Domingo da Páscoa (Domingo da promessa do Espírito) —


27 de abril de 2008
(At 8,5-8.14-17;, Sl 65[66],1-3a.4-5.6-7a.16.20; IPd 3,15-18;
Jo 14,15-2D.... er rerer erre rererererereer orar acanananenanenaanaararananas 74

42º Dia Mundial das Comunicações Sociais — 4 de maio de 2008............. 81

Domingo da Ascensão do Senhor (Domingo da subida do Senhor aos céus)


— 4 de maio de 2008
(At 1,1-11; Sm 46[47],2-3.6-7.8-9; Ef 1,17-23; Mt 28,16-20)............... 83

Domingo de Pentecostes — I. Na vigília (Dia da espera pela renovação


de toda a terra) — 10 de maio de 2008
(Gn 11,1-9 [ou: Ex 19,3-8a.16-20b; ou: Ez 37,1-14; ou: J13,1-5];
S1 103[104],1-2a.24.35c.27-28.29bc-30; Rm 8,22-27; Jo 7,37-39) ....... 91
IH. Domingo de Pentecostes (Domingo do dom do Espírito) —
11 de maio de 2008
(At 2,1-11; SI 103[104],1ab.24ac.29bc-30.31.34; 1Cor 12,3b-7.12-13;
Jo 20,19-23) ..........e erre er earerer era aranananaaaarereacananaarares 103

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