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APRENDIZAGEM ATRAVÉS DE PARTICIPAÇÃO EM COMUNIDADES DE PRÁTICA

Jussara Olivo Rosa Perin (UEM-ILG/UEL-PG)


(A SER PUBLICADO NO CADERNO DO EVENTO)

Resumo: A aprendizagem é concebida como um processo de participação social (Situated


Learning, Lave & Wenger, 1991). Considera-se a participação em associações profissionais como
em Comunidades de Prática (Wenger, Mc Dermott & Snyder, 2002) e como esta participação pode
levar à aprendizagem ou oferecer oportunidades de desenvolvimento profissional a seus
participantes. Ao se considerar a aprendizagem como um processo de concepção de uma atividade,
e que as atividades são inerentemente sociais, conclui-se que a aprendizagem em determinada
comunidade pode ocorrer se também forem consideradas questões de filiação, identidade e
participação nesta mesma comunidade. Nosso engajamento ativo com o mundo é o pré-requisito
para qualquer tipo de aprendizagem (Stahl, 2006). Grande parte da aprendizagem tem início nas
interações interpessoais, sendo somente internalizada posteriormente como aprendizagem
individual. Portanto, é o nosso engajamento com outras pessoas – em nossa família, na sala de aula,
no local de trabalho – que estabelece o contexto inicial, a motivação e a fonte para o conhecimento
novo.

Palavras-chave: participação; comunidades de prática; aprendizagem; desenvolvimento


profissional

1- INTRODUÇÃO
Comunidades de Prática estabelecem o surgimento de uma nova forma organizacional/institucional
que promete complementar as formas existentes e mudar radicalmente o compartilhamento de
conhecimento, da aprendizagem e da prática. Uma Comunidade de Prática (doravante CP) congrega
pessoas ligadas informalmente pela troca de conhecimento e prática, impulsionados por propósitos
e interesses comuns em determinada área.

2- COMUNIDADES DE PRÁTICA (CPs)


As Comunidades de Prática (doravante CPs) congregam grupos de pessoas que compartilham uma
preocupação, um conjunto de problemas, um interesse sobre alguma área do conhecimento. Seus
membros aprofundam seus conhecimentos e experiências nesta área ao interagir continuamente; não
precisam trabalhar juntos todos os dias, mas eles se encontram porque valorizam esta interação. Ao
passar algum tempo juntos, geralmente trocam informações, pontos de vista, conselhos. Ajudam-se
mutuamente para solucionar seus problemas, ponderam questões comuns, exploram idéias e
sondam as reações dos outros a respeito de idéias de alguém do grupo, ou do grupo (Wenger, Mc
Dermott & Snyder, 2002).
Os membros de algumas CPs encontram-se presencialmente com certa regularidade; outras
acham-se conectadas por trocas de mensagens eletrônicas somente. Podem seguir uma agenda de
atividades programada; outras não. Inevitavelmente, as pessoas envolvidas em comunidades de
prática compartilham suas experiências e conhecimento de forma criativa e fluída, fomentando
novas formas de abordar os problemas, justamente por contar com a interação presumida de todos
os participantes.
Apesar de não ter sido criado recentemente, o termo passou a ser empregado primeiramente
no meio organizacional, e segundo Wenger (1998), em decorrência do surgimento dos Tech Clubs
na indústria automobilística, mais especificamente na Chrysler Motors, nos EUA, que no final da
década de 80 e início dos anos 1990 procurava por formas de melhorar e atualizar a sua linha de
montagem de carros e tornar-se tão competitiva como as montadoras asiáticas. As reuniões
informais entre os trabalhadores de diversas linhas de montagem foram encorajadas e
posteriormente institucionalizadas. Desde então, a participação informal em comunidades de prática
tem ajudado gerentes e membros de equipes a trabalhar de forma mais efetiva.
No mundo dos negócios, Wenger & Snyder (2000) lembram que CPs têm-se mostrado
eficientes na melhoria da atuação organizacional em diferentes contextos, como bancos
internacionais, indústrias automobilísticas e até agências do governo. As comunidades de prática
têm-se mostrado eficientes em idealizar estratégias, criar novas linhas de negócios, resolver
problemas, promover a difusão de práticas eficientes, desenvolver habilidades profissionais e
auxiliar as companhias a selecionar e a preservar o talento de profissionais.
Cada vez mais as pessoas participam comunidades de prática ou de redes de conhecimento
que ultrapassam as barreiras organizacionais, tais como comunidades profissionais mais
abrangentes ou as comunidades eletrônicas que também agregam outros segmentos ligados à
determinada profissão.Os participantes têm acesso à informação e experiência que muitas vezes não
se encontram em seus locais de trabalho, podendo interagir informalmente e livres de qualquer
impedimento impostos por valores hierárquicos ou regras locais.

3- AS COMUNIDADES DE PRÁTICA NA ÁREA EDUCACIONAL


As CPs agregam e compartilham conhecimento e experiência – ‘produtos’ muitas vezes
incomensuráveis e intangíveis. Na área das Ciências Humanas, comumente não consideramos o
conhecimento como um recurso que possa ser sistematicamente explorado, como o que acontece
nos meios organizacionais. Em tais ambientes, o conhecimento também passa a ter vida curta diante
da constante evolução da ciência e da tecnologia, além dos desafios da globalização. Cria-se um
paradoxo: ao mesmo tempo em que a crescente complexidade do conhecimento requer contínua
especialização e colaboração, o conhecimento torna-se cada dia mais breve e dominado por muitos.
Faz-se necessária a existência de comunidades de prática especializadas em áreas específicas, pois
acredita-se que sem elas fica mais difícil “acompanhar o caminhar tão rápido da mudança” (Wenger
& Snyder, 2000).
Uma CP na área educacional – uma Comunidade de Prática Pedagógica - pode não só
propagar o conhecimento e experiência pedagógica de seus participantes como também disseminar
a noção de que a prática pode ser compartilhada e enriquecida com a participação e interação de
seus componentes.
Na área educacional, as CPs podem (e deveriam) surgir como iniciativas ascendentes de
criação de espaços de interlocução para o desenvolvimento profissional de professores. Como
lembra Riding (2001), o desenvolvimento profissional de professores não pode ser mais concebido
como uma ‘visita’ esporádica de professores vindos de fora da esfera de atuação profissional do
grupo, mas como algo de que os professores participem ativamente, adquirindo habilidades e
conhecimento que possam ser utilizados em suas práticas. Contrariamente a muitas formas de
formação continuada que partem de vontades institucionalizadas e orientadas por políticas
educacionais, a criação e a manutenção de uma CP por professores em sua área de atuação
pedagógica serve de reforço ao que Zeichner (2001) repudia: a forma como que professores e
formadores de professores têm sido atropelados pelos ‘arquitetos’ do processo educacional, sendo
vistos como meros implementadores das políticas desenvolvidas por pessoas alheias às salas de
aula.

4- AS COMUNIDADES DE PRÁTICA E AS TEORIAS SOCIAIS DE APRENDIZAGEM


A teoria sócio-cultural da aprendizagem parte da questão do engajamento na prática social como o
processo fundamental através do qual aprendemos e nos tornamos quem somos. A unidade de
análise não é o indivíduo, nem as instituições sociais, mas as comunidades de prática informais que
as pessoas formam à medida que participam de iniciativas compartilhadas (Wenger, 1998). A
aprendizagem é considerada como um processo de participação social e explora sistematicamente a
intercessão de questões sobre comunidade, prática social, significado e identidade. A aprendizagem,
na sua natureza social, é colocada em prática na atividade. Pode parecer óbvio que a mente humana
se desenvolve em situações sociais, estendendo sua esfera de atividade e competências
comunicativas.
A teoria social da aprendizagem aplicada à realidade das Comunidades de Prática integra os
componentes necessários para caracterizar a participação social como um processo de
aprendizagem e de conhecimento. Estes componentes incluem o significado individual e coletivo de
nossa habilidade em considerar significativas (ou não) nossas experiências de vida e de mundo; a
prática representada pelos recursos e perspectivas compartilhadas que sustentam o engajamento
mútuo na ação, a comunidade que sustenta as iniciativas e reconhece a competência da participação,
e a identidade que transforma os participantes e cria histórias de evolução pessoal no contexto das
comunidades. (Wenger, 1998).
A combinação da teoria sociocultural de aprendizagem e a idéia de CPs criou um novo
modelo de conhecimento, diferente da idéia de conhecimento como informação, mas conhecimento
como propriedade sistêmica de pessoas em comunidades. Conhecimento representado pelo fluxo e
refluxo entre o tácito e o explícito, pois é construído pelas pessoas e compartilhado, para ser
reconstruído por outra pessoa.
As Comunidades de Prática representam a manifestação concreta da Teoria Sócio-histórica
de Vygostky aplicada a contextos contemporâneos. Uma CP torna-se o contexto de aprendizagem
onde uma pessoa torna-se parte de um sistema, compartilhando com outras pessoas e com o
contexto de aprendizagem a mesma herança histórico-cultural, desenvolvendo-se e propagando-se
através da relação entre membros novos e antigos.

5- COMUNIDADES DE PRÁTICA E A APRENDIZAGEM


As comunidades de prática se desenvolvem porque, em muitas situações de trabalho, a demanda da
prática excede o conhecimento reconhecido e disponibilizado às pessoas. O conhecimento adquirido
em treinamentos formais (cursos, eventos) é geralmente abstrato, teórico e descontextualizado. Já a
ação é situada, contextualiza e muitas vezes requer improvisação. Desta forma, torna-se necessário
adotar uma orientação coletiva no que se refere à prática: a consciência coletiva, a aprendizagem a
partir das experiências dos outros e o acesso ao conhecimento distribuído (Wenger, Mc Dermott &
Snyder, 2002).
Em uma CP, a aprendizagem se inicia com o processo de participação e engajamento na
prática social, pois é através deste engajamento que aprendemos e nos tornamos quem somos. A
aprendizagem ocorre nas relações entre as pessoas, nas condições que facilitam (ou não) a união de
pessoas no estabelecimento de um ponto de contato que permite que determinadas partes da
informação sejam consideradas relevantes ou não. Sem tais pontos de contato ou um sistema de
relevância, a aprendizagem não acontece e a memória é também irrelevante. A aprendizagem,
portanto, não pertence às pessoas de forma individualizada, como tradicionalmente se considera,
mas às varias relações de que as pessoas fazem parte. A aprendizagem ocorre, portanto, na
participação social. Esta participação molda não somente o que fazemos, mas também o que somos
e como interpretamos o que fazemos.
No campo da pesquisa, a unidade de análise não é o indivíduo ou as instituições sociais, mas
as Comunidades de Prática que as pessoas formam à medida que compartilham experiências e
saberes durante suas vidas (Wenger, 1998).
As pessoas em uma CP podem vir a criar ferramentas, padrões, manuais e outros
documentos, ou simplesmente desenvolver certo conhecimento tácito de que todos possam
compartilhar. Apesar de acumularem conhecimentos, eles se tornam ligados informalmente pelo
valor que dão ao aprender em conjunto. Este valor não é meramente instrumental para o trabalho de
todos; ele também leva à satisfação pessoal em saber que os colegas compreenderão as perspectivas
uns dos outros e em pertencer a um grupo de pessoas interessantes. Com o passar do tempo, o grupo
pode desenvolver uma perspectiva única sobre seu campo de atuação, assim como um coletivo de
conhecimento, de práticas e abordagens comuns. A pessoas também desenvolvem relações pessoais
e formas estáveis de interação. Podem até desenvolver um sentido comum de identidade.
As CPs não podem se separar do conhecimento que criam, utilizam ou transformam. E neste
processo torna-se necessário a conversação, a experimentação, o compartilhamento de experiências
entre pessoas envolvidas com a mesma prática. E especialmente quando estas pessoas deixam os
processos envolvidos em suas rotinas de trabalho e partem para desafios mais complexos, elas
contam com suas Comunidades de Prática como a sua fonte primária de conhecimento.
Ao se considerar a aprendizagem como um processo de concepção de uma atividade, e que
as atividades são inerentemente sociais, conclui-se que a aprendizagem pode ser maximizada ao se
considerar questões de associativismo (tornar-se membro de uma comunidade), participação (em
uma CP) e identidade.

6- ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS COMUNIDADES DE PRÁTICA


Wenger, McDermott & Snyder (2002) consideram três elementos estruturais nas comunidades de
prática, ou seja, os elementos que garantem a existência de determinada comunidade de prática: o
domínio, a comunidade e a prática.
O Domínio é aquilo que ajuda a criar uma base comum e um sentido de desenvolvimento de
uma identidade, legitimando a existência da comunidade através da afirmação dos seus propósitos e
o valor que seus membros dão à sua comunidade. Trata-se do elemento principal de inspiração dos
membros para contribuírem e para participarem de modo a fazerem sentido dos significados das
suas ações e das suas iniciativas. Os membros de uma CP se identificam com determinado domínio
de conhecimento e compromisso compartilhado que emerge do entendimento (também
compartilhado) sobre sua situação. No entanto, o domínio não é um conjunto fixo de problemas,
trata-se de algo que acompanha a evolução do mundo social e da própria comunidade.
A Comunidade é o fio condutor da aprendizagem. Assumindo que a aprendizagem é uma
questão essencialmente de pertencimento e de participação, a comunidade torna-se um elemento
central como grupo de pessoas que interagem, aprendem conjuntamente, constroem relações entre
si, desenvolvem um sentido de engajamento e de pertencimento. Estas pessoas interagem
regularmente e se engajam em atividades conjuntas, estabelecendo relacionamento e
confiança.(Wenger, 1998). Mas a idéia de comunidade não implica que exista homogeneidade. Se
as interações a longo prazo tendem a criar uma ‘história comum e uma identidade comunitária’1, ao
mesmo tempo ela encoraja a diferenciação entre os membros que assumem papéis distintos e criam
as suas diversas especialidades e estilos.
A Prática desenvolve um repertório compartilhado de recursos tais como instrumentos,
documentos, rotinas, linguagem, símbolos, artefatos, esquemas de trabalho, idéias, informação,
estilos, histórias e documentos que formam o conhecimento acumulado pela CP e são partilhados
por seus membros. Este repertório compartilhado serve de base para aprendizagem futura. Enquanto
que o domínio denota o tópico em que a comunidade se foca, a prática é o conhecimento específico
que a comunidade desenvolve, partilha e mantém. A prática tende a evoluir como um ‘produto
coletivo’2integrado no trabalho dos participantes, organizando o conhecimento em formas que o
tornam útil para eles próprios na medida em que reflete a sua perspectiva.
Para se construir e manter uma CP, seus membros devem interagir regularmente sobre
questões que são importantes ao seu domínio; e tais interações devem ter certa continuidade. Ao
interagir contínua e regularmente, seus membros desenvolvem um entendimento compartilhado de
seu domínio e uma abordagem com relação à sua prática. Durante este processo, os membros
constroem relacionamentos valiosos, que se baseiam em respeito e confiança. Com o passar do
tempo, constroem uma relação de história em comum e de identidade. Mas a longo prazo, a
interação pode levar à diferenciação entre os membros de uma CP, que podem assumir papéis

1
Tradução nossa (Wenger, Mc Dermott & Snyder, 2002, p.35).
2
Tradução nossa (Wenger, Mc Dermott & Snyder, 2002, p.28).
diferenciados, oficial ou extra-oficialmente, criar suas próprias especialidades e estilos, ganhar
reputação, adquirir certo status e criar sua própria esfera de influência, ou seja, cada membro pode
desenvolver uma identidade individual única em relação à comunidade.

7- A PARTICIPAÇÃO EM COMUNIDADES DE PRÁTICA


A perspectiva situada de Lave e Wenger (1991) entende a aprendizagem como uma experiência que
faz parte integrante da participação em comunidades de prática. A participação é algo emergente e
intencional; não pode ser prescrita nem legislada, e ocorre à medida que os membros da CP se
sintam pertencentes a ela, participando de suas práticas e colaborando com questões de seu
domínio.
Lave e Wenger (ibid) lançaram a idéia de participação periférica legítima para tratar do
processo pelo qual os novatos se tornam parte de uma comunidade de prática. Como aprendizes,
eles primeiro participam perifericamente, movendo-se para a participação plena à medida que
adquirem mais experiência sobre o conhecimento de que trata a CP. A atenção recai, portanto, no
momento em que os aprendizes participam e no controle do conhecimento e das habilidades que
fazem com que estes novatos procurem participar de forma efetiva nas práticas sócio-culturais da
CP.
O significado da aprendizagem se forma através do processo para tornar-se um participante
ativo em uma prática sociocultural. A explicação para todo este processo passa por reflexões sobre a
natureza da aprendizagem e resgata a idéia de aprendizagem pela prática. A aprendizagem é parte
integrante e inseparável da prática social: esta é a idéia de participação periférica legítima
O termo ‘periférico’ sugere que pode haver várias formas de participação em uma CP:
Formas mais ou menos engajadas, mais ou menos inclusivas. A participação periférica refere-se ao
estar presente no mundo social. As mudanças de lugares e perspectivas em uma CP fazem parte da
trajetória da aprendizagem, do desenvolvimento de identidades e das formas de tornar-se membro.
O termo ‘periférico’ refere-se também às estruturas sociais que por sua vez envolvem relações de
poder. Ou seja, determinado membro pode obter participação mais intensa (adquirir poder) ou ser
destituído dele, à medida que alguém – também legitimamente -, é mantido fora de uma
participação mais intensa e completa.
Para tornar-se um membro de uma CP, mesmo que ‘periférico’, há que se aprender nas
dimensões de competência na prática, ou seja, a participação competente dos membros de uma CP
se caracteriza pela mutualidade do engajamento (Wenger, 1998:137), pela eficiência existente na
prática e pela negociabilidade do repertório (ibid). A mutualidade do engajamento refere-se à
habilidade de se engajar com outros membros e responder ‘à altura’ e diretamente às suas ações,
estabelecendo relações para que esta ‘mutualidade’ torne-se a base para a identidade de
participação. A eficiência na prática refere-se à habilidade de compreender a prática da CP de forma
eficiente para tornar-se responsável por ela, contribuir na sua busca e constante negociação. A
negociabilidade do repertório corresponde à habilidade para engajar-se e fazer uso do conjunto de
práticas através da história da própria prática e reconhecê-la nos elementos de seu repertório (seus
elementos constitutivos). Para tanto, requer-se tanto a capacidade como a legitimidade de tornar tal
história inédita e significativa. Ou seja, os membros da CP aprendem através de sua própria
habilidade em fazer uso do repertório da prática, engajando-se nela através da participação (pessoal
ou através das experiências de outros membros) na história de uma prática ao reconhecê-la nos
elementos de seu repertório.
A aprendizagem não é somente uma questão de competência, mas também de experimentação
e apropriação do significado, ou seja, a representação. A aprendizagem acontece com a combinação
da representação e da participação, o que leva à experimentação do significado.
Faraj & Wasko (2001, acessado em 2006) identificam algumas razões para explicar a
participação em redes de prática: filiação social e filiação profissional. As pessoas decidem
participar de uma rede de prática para criar relacionamentos sociais de amizade com outros que
compartilham dos mesmos interesses. A participação na troca de conhecimento pode basear-se em
orientação pró-social, ou seja, a filiação pode estabelecer uma relação positiva com a aquisição de
conhecimento e com a contribuição com o conhecimento. Indivíduos podem também se engajar
tanto na aquisição como na contribuição com conhecimento devido a uma motivação intrínseca
baseada em filiação profissional: atualização, aprendizagem, abertura a novas idéias e inovações e
participação em uma comunidade profissional.
Para Stahl (2006), o engajamento não é um fenômeno simplesmente intelectual, afetivo ou
social: pode envolver tanto atividades cognitivas como a negociação de significados. É um
sentimento que as pessoas têm de que estão participando de algo importante e interessante, é um
compromisso social, desenvolvido com, para e por causa de outras pessoas ou grupos. O ímpeto, a
vontade de se fazer algo, as opções disponibilizadas e os métodos para se obter determinado
objetivo são determinados pela cultura da CP.

CONCLUSÕES
Comunidades de Prática formam-se de grupos de pessoas que possuem um propósito
comum, e que se unem para compartilhar conhecimento adquirido, gerar novo conhecimento e
aplicar conhecimento coletivo, seja para enriquecer suas próprias capacidades como praticantes,
seja para melhorar a sua prática. Podem surgir e se desenvolver em diversas formas e dimensões,
assim como pode variar a intensidade de suas atividades, à medida que necessitem aprender novas
práticas ou solucionar determinados problemas. As CPs têm como propósito original desenvolver
conhecimento, são informais e autogerenciáveis, mesmo estando altamente institucionalizadas.
Baseiam-se na colegialidade, ou seja, suas relações não sofrem nenhum controle. É a participação e
não a filiação institucional que determina a adesão de seus membros. Uma CP não pode ser
pressionada por índices de produção, provisão de recursos ou controle das relações entre seus
membros, pois isto tudo pode desviá-la de seu propósito maior, que é direcionar o conhecimento e
promover a aprendizagem. A essência de uma CP é o investimento pessoal que seus membros
fazem no seu domínio. Seus membros estão conectados pelo conhecimento interdependente e não
por tarefas interdependentes.
Considerando que comunidades surgem da necessidade humana de compartilhar
conhecimento e prática e que dependem exclusivamente da vontade também humana em participar
para compartilhar e aprender, e que sob a visão da teoria social da aprendizagem o ser humano se
forma no equilíbrio entre o conhecimento intrínseco/interno (o conhecimento adquirido através de
experiências pessoais) e o conhecimento externo (conhecimento criado pela pesquisa e
conceitualização) que pode ser compartilhado em momentos de sociabilização, de contato com
colegas de profissão, concluímos que as comunidades de prática podem tornar-se o ambiente ideal
para o compartilhamento de experiências e conhecimento, de inovação para a prática.
A área educacional, especialmente a área de formação de professores mostra-se como o
contexto ideal para o seu desenvolvimento, pois nela se encontram oportunidades de troca de
experiências e a possibilidade de aprendizagem nas interações com colegas de profissão nos mais
variados graus de participação.

REFERÊNCIAS

Faraj, S.; Wasko, M. The web of kowledge: an investigation of knowledge exchange in networks of
practice. Academy of Management Journal. Arbeitspapier Florida State University, Tallahassee,
Florida, USA, 2001. Free/OpenSource Research Community. Disponível em:
http://opensource.mit.edu/papers/Farajwasko.pdf.
Acessado em Maio/2006

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Cambridge University Press, 1991.
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Disponível em : http://www.infed.org/biblio/learning-social.htm em 10/4/2006

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www.cis.drexel.edu/faculty/gerry/publications/journals/Engagement.pdf
Acessado em 10 de abril de 2006.

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